Libras que língua é essa?
Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda. São Paulo: Parábola,
2009.
Audrei Gesser, autora do livro relata diversos aspectos da linguagem gestual, que muitos não
reconhecem como uma língua. Seu propósito é estimular reflexões sobre a interação entre
surdos e ouvintes. Organizado em três capítulos, cada um com subtítulos em forma de
perguntas, proporciona uma análise detalhada da língua de sinais. Começa questionando a
universalidade da linguagem gestual, destacando a percepção comum da Libras como um
"código" simplificado aprendido e usado por surdos globalmente, sugerindo que todos os
surdos utilizam a mesma língua em qualquer lugar do mundo.
O texto também aborda a percepção de que a linguagem gestual é artificial, desconsiderando
sua origem natural. A Libras, enquanto língua, possui uma gramática própria, semelhante às
línguas faladas, embora sua expressão seja feita por meio de gestos. Existem três
componentes principais na linguagem de sinais: a configuração da mão, o ponto de
articulação ou localização e o movimento. A mesma configuração da mão em diferentes
contextos pode representar palavras e conceitos diferentes. A linguagem gestual não se
resume a pantomima ou datilologia, o que dificultaria a expressão de certos termos. Essa
perspectiva da linguagem gestual como mímica reflete a maneira como os ouvintes percebem
os surdos, muitas vezes tratando-os de maneira exclusiva e pejorativa.
É fundamental compreender que os surdos possuem sua própria língua e se comunicam como
qualquer outro ser humano que ouve, expressando até mesmo conceitos abstratos. Apesar de a
linguagem gestual possuir sinais icônicos, não deve ser categorizada exclusivamente dessa
forma. A forma de comunicação dos surdos é predominantemente viso espacial, ao passo que
a dos ouvintes é oral-auditiva. Historicamente, os surdos foram privados do uso de sua língua
natural por um longo período, enfrentando uma relação difícil com a sociedade ouvinte. Nas
escolas, eram obrigados a usar a língua oral e a leitura labial, chegando ao extremo de serem
punidos com restrições físicas, como ter as mãos amarradas, para impedir a comunicação por
meio de sinais.
O livro leva o leitor a conhecer o que apenas pensamos ser conhecido e entender que ainda há
muitas lutas a serem traçadas pelos/para os surdos, os surdos foram obrigados a buscar
educação em instituições fechadas e asilos devido à perseguição e exclusão abertas que
enfrentavam. No Brasil, a situação não era diferente: a língua de sinais era vista como um
"código secreto" e usada clandestinamente, pois seu uso era proibido. Ao contrário das
línguas minoritárias que podem desaparecer, a língua de sinais persistiu e continuará a existir,
pois é a forma natural dos surdos se comunicarem. A perseguição não a eliminou; ao
contrário, incentivou sua integração crescente e o aprimoramento da linguagem. Desde
Aristóteles até Descartes, a humanização era frequentemente associada ao domínio da fala, o
que marginalizava os surdos por não possuírem a capacidade oral, sendo erroneamente
considerados como seres selvagens.
A linguagem gestual apresenta características próprias de uma língua e não se limita ao
alfabeto manual. Outra questão enfatizada na vida dos surdos é a obrigação de usar o
português durante os estudos, o que implica em não reconhecer sua língua materna durante o
aprendizado inicial da leitura e escrita. Este assunto ganha relevância pois não é abordado
como um obstáculo, mas sim como a falta de chance de frequentar uma escola que valorize as
variações linguísticas.
Gesser enfatiza nesses capítulos que a língua de sinais é uma língua autônoma, com todas as
características linguísticas de qualquer língua humana natural, portanto, tudo pode ser
expresso pela língua de sinais. Por razões culturais, não há uma unidade completa da Libras
no Brasil. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, a língua portuguesa é "uma unidade
constituída por muitas variedades".
No terceiro capítulo, Gesser argumenta que a surdez representa mais um desafio para os
ouvintes do que para os próprios surdos. A autora aborda várias questões relacionadas à
surdez, incluindo tipos e hereditariedade, além do uso de aparelhos auditivos. Um aspecto
destacado no capítulo é a percepção negativa da sociedade em relação à surdez, bem como
como os próprios surdos encaram sua condição auditiva. Novamente, enfatiza-se que não é a
surdez em si que prejudica o desenvolvimento dos surdos, mas sim a falta de acesso a uma
linguagem adequada. Assim, muitos estereótipos sobre os surdos e a surdez são perpetuados
por aqueles que insistem em educá-los predominantemente por meio da língua oral. Porém, a
autora conclui dizendo que o que aproxima ouvintes e surdos é a língua de sinais que sempre
foi banida e rejeitada.
No desfecho do livro, a autora destaca um ponto crucial sobre o momento atual em relação
aos direitos das pessoas surdas. Além das iniciativas discursivas e das políticas de inclusão,
com o objetivo de assegurar a educação dos surdos, a autora enfatiza que a realidade ainda
está distante. Ou seja, há uma lacuna entre o discurso e a ação prática. É fundamental não
apenas reconhecer e valorizar os surdos e suas "limitações", mas também legitimá-los
socialmente, superando as barreiras políticas e educacionais que continuam a ser um desafio
significativo e evidente.
Aluna: Ana Beatriz Rosa da Silva
Curso: Licenciatura em Física, noturno, turma 2021