A Redução da Maioridade Penal¹

Weberson Ferreira Adorno², Frederico de Castro Silva³ Resumo: Esse Artigo tem por finalidade discorrer sobre a maioridade penal, no tocante à sua redução ou não, que se tornou um tema bastante discutido atualmente, haja vista que vem se aumentando consideravelmente a violência decorrente de delitos praticados por menores de 18 anos, e também esse tema tem tomado um lugar de destaque na mídia, que acaba influenciando muitas pessoas, no sentido de se haver uma redução da maioridade penal. Acontecimentos como o latrocínio que vitimou o garoto João Hélio, de 6 anos, arrastado por um carro depois de um assalto no Rio de Janeiro, e Cinco estudantes da classe média brasiliense, com idades entre 16 e 19 anos, que atearam fogo, “por brincadeira”, no índio pataxó Galdino Jesus dos Santos enquanto ele dormia, dentre outros noticiados incessantemente pela mídia, leva a sociedade à discussão de uma possível redução ou não da maioridade penal.

Palavras-Chave: Maioridade Penal, Manutenção da Maioridade Penal, Redução da Maioridade Penal, Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa define “maioridade” como “a idade em que o indivíduo entra no pleno gozo de seus direitos civis”, e “maioridade penal” como “condição de maioridade para efeitos criminais”. Maioridade penal também é chamada de imputabilidade penal, que significa a partir de que idade uma pessoa já é considerada maior de idade. É a idade em que, diante da lei, um jovem passa a responder inteiramente por seus atos, como um cidadão adulto, ou seja, se trata da idade-limite para que alguém responda na Justiça de acordo com o Código Penal. Um menor é julgado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “A idade de 18 anos ficou determinada na Constituição de 88 e é um alinhamento com uma diretriz internacional dos diretos humanos denominada Doutrina da Proteção Integral", como salienta o promotor Ramidoff.

reforçado pelo artigo 228 da Constituição Federal de 1988 e pelo artigo 104 do Estatuto da Criança e do Adolescente . como antes afirmado. Os crimes praticados por menores de 18 anos são chamados de “atos infracionais” e seus praticantes de “adolescentes em conflito com a lei” ou de "menores infratores". Passado referido período.A Constituição estabelece que as pessoas menores de 18 serão responsabilizadas penalmente. por cada ato infracional grave. § 3º. mas de maneira diferenciada. As penalidades previstas são chamadas de “medidas socioeducativas” e se restringem apenas a adolescentes (pessoas com idade compreendida entre 12 anos de idade completos e 18 anos de idade incompletos).ECA (Lei nº 8. Além disso. quanto ao adolescente em conflito com a lei. que “em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos”. mesmo que ele não tenha sido preso em flagrante e não seja o autor direto do delito. e também deve haver atendimento à sua família. em seu artigo 121. vestuário. os centros de internação para adolescentes devem oferecer aos infratores reclusos cursos de profissionalização e eles também devem estudar. Esse é o prazo máximo em que o juiz da Infância e Juventude deve se posicionar sobre o caso. caso tenha cometido o ato aos 17 anos). ele é detido por até 45 dias. segundo o artigo 27 do Código Penal. a medida socioeducativa de internação poderá ser excepcionalmente aplicada ao jovem de até 21 anos. as unidades de internação devem oferecer. assim como qualquer outro adolescente de sua idade. alimentação e cuidados médicos e psicológicos. Em qualquer uma das medidas aplicadas. com base no Estatuto da Criança e do Adolescente. alojamento em condições adequadas de higiene e salubridade. Esta equipe é . ocorre aos 18 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece. podendo retornar ao regime fechado em caso de mau-comportamento Se for constatado o envolvimento de um adolescente em qualquer tipo de crime. A maioridade penal no Brasil. que envolve psicólogos e assistentes sociais. o adolescente deve passar pelo acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.069/90). entre outras coisas. ele passará ao sistema de liberdade assistida ou semiliberdade. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Todavia.

101 do Estatuto da Criança e do Adolescente: “Verificada qualquer das hipóteses previstas no Art. ao tempo da ação ou omissão. as seguintes medidas: I . dentre outras. sempre. b) menoridade. 98.inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio. não era capaz de entender o caráter ilícito do fato por ele praticado ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. psicológico ou psiquiátrico. as condições do infrator.matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de Ensino Fundamental.colocação em família substituta”. Segundo o disposto no Art. Semi-liberdade.abrigo em entidade.responsável pela apresentação de relatórios ao juiz. (Fonte: Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua) O Estatuto da Criança e do Adolescente.encaminhamento aos pais ou responsável. Prestação de serviços à comunidade. V . São causas da inimputabilidade: a) doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado. III . II . Liberdade Assistida. informando. mediante termo de responsabilidade. VI .orientação. em centros de internamento para adolescentes).requisição de tratamento médico. c) embriaguez . IV . VIII . E Internação (que implica perda real da liberdade. prevê seis tipos de medidas socioeducativas para os adolescentes infratores: • • • • • • Advertência. a autoridade competente poderá determinar. orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos. durante até três anos. apoio e acompanhamento temporários. o adolescente é considerado inimputável.inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família. Como dito anteriormente. até completar 18 anos. segundo o dicionário jurídico. em regime hospitalar ou ambulatorial. Inimputabilidade significa dizer que a pessoa será isenta de pena em razão de doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado que. Obrigação de reparar o dano causado. VII . à criança e ao adolescente. que.

Para José Frederico Marques. (CP Brasileiro) Portanto. sujeitos às normas da legislação especial.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 26. o homem é um ser inteligente e livre. é considerado como imputável aquele que possui a capacidade de entender o caráter ilícito do ato que praticou e de determinar-se de acordo com esse entendimento. Referido Estatuto dispõe em seu art. 104: . ao tempo da ação ou da omissão. Imputabilidade é. Art. sendo assim. 228 da Constituição Federal: “São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. de onde provém o termo imputabilidade.” Ao atingir 18 anos. No ano de 1990. O Código Penal Brasileiro não definiu de modo expresso o que vem a ser imputabilidade. “É quando a pessoa não atingiu a idade legal para a maioridade. revogando o antigo Código do Menor. de modo geral. que elencou os casos de inimputabilidade. Essa atribuição é chamada imputação. que está atualmente em vigor. inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. a pessoa se torna Imputável. e d) dependência de substância entorpecente. pode ser atribuída a ela responsabilidade frente a uma determinada lei. foi promulgada a Lei 8. a aptidão para ser culpável”. e por isso a ele se pode atribuir a responsabilidade pelos ilícitos que praticou. Para a doutrina. considerada incapaz ou isenta de responsabilidade para praticar atos regulados pela idade legal.completa. entre o certo e o errado. assim. através do artigo 26 do Código Penal Brasileiro. podendo escolher entre o bem e o mal. por doença mental ou desenvolvimento incompleto ou retardado. decorrente de caso fortuito ou força maior. ou seja. elemento(ou pressuposto) da culpabilidade. É isento de pena o agente que.” São inimputáveis penalmente os menores de 18 anos por expressa disposição do art. mas o seu conceito pode ser extraído indiretamente. era. inimputabilidade é a incapacidade para apreciar o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com essa apreciação. Julio Fabbrini Mirabete esclarece o que se entende por imputabilidade: “De acordo com a teoria da imputabilidade moral (livre-arbítrio).

São penalmente inimputáveis os menores de dezoito anos. NA DATA DO CRIME. sujeitos às medidas previstas nesta Lei. RECURSO NÃO CONHECIDO POR INTEMPESTIVO. seja reduzida. PROVA FUNDADA EM XEROCOPIA. ou um desenvolvimento mental incompleto. menor é a pessoa que a responsabilidade não é imputada face à delitos cometidos antes dos 18 anos de idade. Para os efeitos desta Lei. . o menor é. De um modo implícito. DO HABEAS CORPUS DE OFICIO. DEVIDAMENTE FORMALIZADA. 104. se tornam ferramentas importantes para a prática dos crimes. Como a lei entende de modo geral que o menor de 18 anos é inimputável. a lei estabelece que o menor de 18 anos não é capaz de entender as normas da vida social e de agir conforme este entendimento.RÉU MENOR.HABEAS CORPUS – INIMPUTABILIDADE . até mesmo dos hediondos. (ECA)” O que está disposto nesse referido artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente. surge então um clamor social. DEZOITO ANOS DE IDADE. deve ser considerada a idade do adolescente à data do fato. Argumentam que. Em resumo. para que essa menoridade que de forma geral é tratada na lei como incapacidade para se apreciar o ato ilícito. DEFERIMENTO. de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. trata-se de uma presunção absoluta de inimputabilidade. considerado como tendo desenvolvimento mental incompleto em decorrência de um critério de política criminal. abastecido principalmente pelo poder de influência da mídia. defendidos pela lei. ou seja. Parágrafo único. DE CERTIDÃO DE NASCIMENTO DO PACIENTE. e em face de os menores estarem cada vez mais presentes no cenário dos crimes. devido o menor ser considerado incapaz de entender o caráter ilícito ou delituoso do ato praticado. INIMPUTABILIDADE DO PACIENTE POR NÃO CONTAR. haja vista que não podem responder penalmente pelos crimes que cometem. Nesse sentido é a jurisprudência do Egrégio Supremo Tribunal Federal: EMENTA: .“Art. CONTUDO. pois quem defende essa tese julga os menores que cometem crimes plenamente responsáveis pelos crimes cometidos.

Nos últimos cinqüenta anos. somente para exemplificar. “No entanto. filhos orientarem os pais sobre informática. Suscitar abordagens fora do campo jurídico-penal não significa insensibilidade ao desejo de justiça das pessoas que tiveram entes queridos vitimados por crimes hediondos desta natureza. tablets. devido ao seu incompleto desenvolvimento mental e que geraria como conseqüência uma difícil ou talvez impossível ressocialização desses menores infratores. No campo do conhecimento científico. arrefeceram-se as correntes ideológicas. etc). internet. a eventual redução da maioridade penal já não se trata somente de uma medida para se reduzir a criminalidade do país. houve a conquista do espaço. Como exposto. tecno-científica. É comum. tv aberta e fechada. Atualmente. o acesso à informação é quase compulsivo. o menor entre 16 e 18 anos precisa ser encarado como pessoa capaz de entender as conseqüências de seus atos. ou seja. a expansão da informática. estes estão mais afetos a essas inovações. Trata-se também da aplicação do princípio da isonomia. a corrente favorável à permanência da menoridade penal em 18 (dezoito) anos.Para a corrente favorável à redução. social e econômica. o jovem nessa faixa etária possui plena capacidade de discernimento. vale dizer. Argumentam que. e com maior razão no que concerne aos adolescentes. Sabe e consegue determinar-se de acordo com esse entendimento. tem argumentação na superlotação dos presídios. Caiu o muro de Berlim. o domínio da engenharia genética. inclusive dos jovens (telefone celular. As transformações foram de ordem política. há inversão da ordem natural. Não . Novas tecnologias fazem parte do dia-a-dia das pessoas. que se torna impossível manter-se alheio a tudo o que vem acontecendo. a popularização da internet. surgiu o fenômeno da globalização. Aliás. de um tratamento igual dado às pessoas. assistiu-se a evolução jamais vista em outro período da humanidade. São tantos os canais de comunicação. por exemplo. fatores biológicos como o desenvolvimento mental incompleto. Em algumas situações. correio eletrônico. o jovem deste novo milênio não é aquele ingênuo de meados do Século XX. Nesse contexto. Não há espaço para a ingenuidade. além da possibilidade de esses menores estarem sendo influenciados por criminosos. rádio. deve se submeter às sanções de ordem penal.

o centro das preocupações da mídia é a violência. acaba acendendo uma divergência entre o direito.obstante. que encarcerar menores de dezoitos anos irá solucionar o problema da criminalidade nesta faixa etária. se tornando uma poderosa formadora de opiniões. . e colocá-los em convívio com criminosos nos presídios? O menor de 18 anos tem ou não seu desenvolvimento mental completo? Essas questões dentre outras. reduzir ou não? Será que a redução da maioridade penal será a solução para diminuir os crimes praticados por menores? Seria a solução prender os menores. é preciso considerar as mediações e expressões históricas presentes no convívio em sociedade” (PONTES. um tema tão importante como a redução da maioridade penal não pode ser tratado no campo das emoções e das paixões humanas e não podemos crer. e a opinião pública. 2002). Ocorre. é preciso considerar todos os determinantes sociais que se desenvolvem no cotidiano das relações que os seres humanos estabelecem com a natureza e. desempenha um papel explícito no modo pelo qual se constitui a opinião pública. principalmente através de programas de TV. com a produção da vida material. contudo. que a Televisão acabou se tornando a forma de comunicação mais influente e de impacto. ou seja. também. numa polêmica discussão que vem se acendendo a cada dia. principalmente. Portanto. ainda mais quando atualmente. influenciada pela mídia. que afirma que os menores de 18 são inimputáveis. tem quase sua totalidade voltada a crimes e a violência. Com essa divisão Surgem as questões: Maioridade penal. devido à grande onda de violência no nosso país. estando situada diretamente como mediadora entre a sensibilidade e a inteligência das pessoas. Não podemos deixar de reconhecer que a mídia. tanto que programas informativos e de notícias.

com o aumento da pena máxima prevista para internação do adolescente infrator. 2. sem mudanças na legislação quanto à penalização dos jovens.Maioridade Penal no Mundo Principais propostas As ideias ou propostas sobre o assunto podem ser divididas em três posições básicas: 1. Desenvolvimento das propostas e argumentos . Redução da maioridade penal. 3. Manutenção da maioridade penal aos 18 anos. Manutenção da maioridade penal aos 18 anos.

é atualmente de 30 (trinta) anos. a pena máxima a que um adulto pode ser condenado no Brasil. não devem ser tomadas baseadas na "emoção" ou na "comoção" causadas. no todo ou em parte. Maioridade penal aos 18 anos A manutenção da maioridade penal aos 18 anos no Brasil é defendida pelos mais diversos argumentos. devido a formação de sua mente e seus valores morais. no futuro. Seus defensores acreditam. favorável ao aumento da pena máxima prevista para a internação de adolescentes infratores em instituições correicionais. que atualmente é de 3 (três) anos. infratores Alguns defensores da manutenção da maioridade penal aos 18 anos adotam uma posição intermediária. e até poderia contribuir para agravá-los. 8 ou 10 anos. • Que todo menor de 18 anos deve ser protegido e tutelado pelo Estado. que: • Há uma imaturidade e incapacidade absoluta ao adolescente menor de 18 anos. na opinião pública. Em geral. de um lado. não tenha sua vida adulta "manchada" por uma ficha criminal na adolescência.1. Em comparação. levando-o a cometer crimes por falta de condições financeiras. 2. como a violência urbana ou a superlotação dos presídios. Isso impediria que fossem abertas oportunidades de trabalho para o jovem. o qual deve zelar para que o adolescente. por um ou outro caso específico de crime bárbaro ou hediondo. estimulando o crime organizado a recrutar jovens de uma faixa etária cada vez mais baixa. em geral. • Que a redução da maioridade não resolveria os problemas ligados à criminalidade. As propostas de ampliação da pena máxima variam entre aumentála para 5. os que defendem esta ideia consideram que se. • Os adolescentes não devem ser misturados numa prisão com os presos adultos. • As decisões como esta. adolescentes devem ser tratados de forma diferenciada por serem "pessoas em Maioridade penal aos 18 anos com aumento da pena máxima para . devido a sua formação fisico-mental que é totalmente distinta.

vida sexual mais ativa. de outro lado não devem ficar impunes. e ficarão incógnitos no futuro. celular. 3. aprovado em 1940. pois a mídia é proibida de identificar o adolescente. a partir de certa idade. Alegam que: • O atual Código Penal brasileiro. geralmente proposta como 16 anos. considerada razoável pela maior parte dos atores sociais que defendem uma redução na maioridade. . seja pelo aumento em si da violência urbana. reflete a imaturidade juvenil daquela época. Redução da Maioridade Penal O debate em torno da redução da maioridade penal está centrado. Internet. e que hoje. etc). ou pelo menos não devem ser punidos de forma tão mais leve que um adulto em iguais condições. a sociedade mudou substancialmente. • A maioridade penal aos 18 anos gera uma cultura de entre os jovens. passados 60 anos. entrevistados pelos meios de comunicação. tem plena consciência de seus atos. estimulando adolescentes ao impunidade comportamento leviano e inconsequente. Alguns dos defensores da redução da maioridade penal para 16 anos adotam esta posição intermediária (de aumento da pena máxima do infrator) por motivos pragmáticos. no Estatuto da Criança e do Adolescente). • O adolescente de hoje. seja em termos de comportamento (delinquência juvenil. uso de drogas). já que não serão penalmente responsabilizados por seus atos. ou pelo menos já tem o discernimento suficiente para a prática do crime. não serão fichados. do que mudar o artigo 228 da Constituição Federal (mediante um processo demorado e difícil). ao menos no campo da opinião pública. para depois alterar o Código Penal e o ECA.formação". seja no acesso do jovem à informação pelos meios de comunicação modernos (como televisão. entendendo que é mais fácil ser aprovada uma única mudança na legislação ordinária (no caso. primordialmente sobre a idade de 16 anos.

Quem é contra a redução da maioridade penal? Representantes da Igreja Católica e do Poder Judiciário combatem a redução da maioridade penal. como o presidente da Câmara dos Deputados.• Justificar a não redução da maioridade pela não resolução de problemas sociais é um raciocínio meramente utilitarista. diretora do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção e Tratamento da Delinqüência (Ilanud). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que o Estado “não pode agir emocionalmente”. a melhor solução seria ter uma “justiça penal mais ágil e rápida”.José Serra (PSDB-SP). Quem se manifestou a favor da redução da maioridade penal? Os quatro governadores da região Sudeste . Karina Sposato. e que a lei deve ser construída de forma justa. Cezar Britto. ministra Ellen Gracie. Tanto o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil. pressionado pela indignação provocada por crimes bárbaros. Aécio Neves (PSDB-MG) e Paulo Hartung (PMDB-ES) propõem ao Congresso Nacional alterar a legislação para reduzir a maioridade penal. Eles querem também aumentar o prazo de detenção do infrator para até dez anos. Para a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Arlindo Chinaglia. Sérgio Cabral Filho (PMDB-RJ). na medida correta e proporcional em cada caso. afirmam que reduzir a maioridade penal não seria uma solução para a violência. Além dos governadores. a fim de inocentar os realmente inocentes e responsabilizar os realmente culpados. diz que o país não deveria “neutralizar” parte da população e sim procurar “gerir um sistema onde as pessoas possam superar a delinqüência”. vários deputados e senadores querem colocar em votação propostas de redução da maioridade .

Quais os argumentos para reduzir a maioridade penal? Os que defendem a redução da maioridade penal acreditam que os adolescentes infratores não recebem a punição devida. Eles argumentam que se a legislação eleitoral considera que jovem de 16 anos com discernimento para votar. Alguns defendem mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente para estabelecer regras mais rígidas. ele deve ter também tem idade suficiente para responder diante da Justiça por seus crimes. A maioria fala em 16 anos. Quais mudanças são as propostas em relação à maioridade penal? Discute-se a redução da idade da responsabilidade criminal para o jovem. investir em educação de uma forma ampla e também mudar a forma de julgamento de menores muito violentos. Para eles. eles propõem melhorar o sistema socioeducativo dos infratores. O tempo máximo de permanência de menores infratores em instituições não seria três anos. mas até dez anos. como determina hoje a legislação. Propõe-se também punições mais severas aos infratores. mas há quem proponha até 12 anos como idade-limite. Como alternativa. O que dizem os que são contra a redução da maioridade penal? Os que combatem as mudanças na legislação para reduzir a maioridade penal acreditam que ela não traria resultados na diminuição da violência e só acentuaria a exclusão de parte da população. Outros dizem que já faria diferença a aplicação adequada da legislação vigente . o Estatuto da Criança e do Adolescente é muito tolerante com os infratores e não intimida os que pretendem transgredir a lei. Fala-se em reduzir a maioridade penal somente quando o caso envolver crime hediondo e também em imputabilidade penal quando o menor apresentar "idade psicológica" igual ou superior a 18 anos. que só poderiam deixar as instituições onde estão internados quando estivessem realmente “ressocializados”.

e neste contexto inclui-se a escola. Quando se trata do envolvimento do adolescente em um ato infracional a escola possui dois papéis: O primeiro é de caráter preventivo. Sociedade.Família. A atitude básica da escola nesse caso deve ser de inclusão. e. impondo limites na relação. A sociedade tem um papel de grande relevância nesse aspecto. Para as crianças. está expresso no Estatuto da Criança e do Adolescente ECA. É notável que a criança sofre influência das pessoas que a cercam. Essa influência ocorre de forma natural. mas educar. Ele é fruto de um estado de injustiça social crônico que gera e agrava a miséria em que sobrevive a maior parte da população. . por meio de uma sólida formação para os valores. Educar com amor. O sistema de ensino precisa se preparar para lidar melhor com esse jovens e os problemas que trazem consigo. os adultos são vistos como referenciais que modelam seus comportamentos. Sabe-se que o Direito a Educação é um direito de todos. A família então. tratando a criança com respeito e dignidade. Quanto ao papel do Estado na formação do cidadão. prazerosas ou situações difíceis. com a promoção de uma cultura de paz e tolerância. como previsto na legislação especial. inconsciente. Escola e Estado ajudando a Reduzir a Criminalidade entre os Menores O papel da família não é somente o de ensinar. e na Constituição Federal Brasileira. e a forma como esses adultos agem diante de situações boas. com respeito. dignidade. pode e deve ser considerada como o alicerce para a garantia de um futuro brilhante e promissor. O segundo é receber o adolescente que já se tornou um infrator e retorna à vida e aos estudos. sabe-se que o menor marginalizado não surge por acaso. servem de parâmetro para as crianças conduzirem as suas vidas. para que as crianças cresçam com base em princípios fundamentais de valorização da vida. assunto este intimamente relacionado com o adolescente infrator. geralmente.

fraternidade e igualdade de oportunidade para todos. que a vida social requeira mais do que qualquer lei punitiva. por exemplo. eficientes. Não que todo menor desprovido economicamente. também pode contribuir para sua inclusão no mundo do crime. mas é forçoso asseverar que diante das condições precárias vivenciadas em casa. Portanto. exige solidariedade. E a explicação para tudo isso? A causa real deste fenômeno acredita-se que vem do próprio modelo econômico adotado pelo governo que apresenta um sistema educacional fragilizado. ou seja.Na medida em que a desigualdade econômica e a decadência moral foram crescendo nesses últimos anos. E mais. Assim. políticas de inclusão séria. evita-se que um grande número de adolescentes sejam encarcerados dentro de um sistema prisional que intensifica a cada dia os problemas que os levaram para lá. responsável pela elaboração e aplicação das leis. . A realidade encontrada pelo menor em casa. em face das condições de trabalho e por políticas de remuneração inexpressivas. chamar para si a responsabilidade pelo crescimento do número de menores infratores. necessariamente tenha que se envolver com a criminalidade. educação e trabalho. Cabe ao Estado. Sob os aspectos sociológicos. razão pela qual precisa ser tratado e amparado por políticas sociais fortes e não apenas punido do ponto de vista penal. percebe-se que o menor é vitima de uma sociedade de consumo desumana e muitas vezes cruel. com professores desmotivados. saúde. e principalmente o Estado que fundamentalmente possa criar programas sociais sérios que garantam moradia. cada segmento necessita fazer a sua parte. o menor possa se ver tentado a praticar os chamados atos infracionais na busca da satisfação de seu desejo através de um bem material. o número de menores empobrecidos também foi aumentando. e certamente perceberá a flagrante omissão e a total falta de políticas sociais que propiciem condições dignas às famílias de menor poder aquisitivo. capazes de envolver a grande massa dos desfavorecidos. a sociedade (inserindo a escola). a família com o papel basilar.

ou seja. estuprar. e o mais importante. deveriam examinar com atenção quais seriam as medidas mais justas para conter a criminalidade. Será que o menor hoje com dezesseis anos tem o senso de discernimento mínimo para saber com segurança o que é uma ilicitude. pois. pois se sabe da falência do sistema prisional brasileiro. a ele é dado o direito de votar. o que é mais grave. roubar. a cadeia de hoje. No entanto. longe de cumprir com sua função ressocializadora. hoje corrompido. é permitido exercer o direito soberano do voto.Considerações Finais Muitos argumentam que uma possível redução da maioridade seria plenamente justificável em face da capacidade de entendimento do menor de dezesseis anos. cruel. que tendem a defender a redução. saber que tais atos lhe sujeitarão a ir para a cadeia? Diante dos avanços verificados na sociedade e do progresso intelectual vivido pelo jovem com dezesseis anos. inclusive à medida máxima da internação. Defender uma possível redução da maioridade penal de dezoito para dezesseis anos é andar na contramão da história. e. que equivale à prisão para os adultos.ECA. As pessoas pouco informadas.). Tal argumento não merece ser levado em consideração. estar apto a assumir a responsabilidade por um crime praticado. também estão sujeitos às medidas do Estatuto da Criança e do Adolescente . existe uma diferença quilométrica entre a aptidão à maioridade plena. a idade penal não deve ser reduzida enquanto existir a atual estrutura. não há dúvida que a resposta é sim. pois como já ocorre com os criminosos. principalmente levando-se em conta que nessa idade. Inserir nessa estrutura menores de dezoito anos seria uma agressão à sociedade e um retrocesso às funções do Estado que em última . etc. reconhecendo o caráter errado de sua atuação (matar. dissociado do princípio basilar do estado de direito. e a estrutura de que dispõe o sistema penitenciário brasileiro para albergar criminosos. pois além do fato de o voto para eles não ser obrigatório. funciona como uma espécie de escola para formação de delinqüentes. Nesse sentido. e isto o fazem impulsionadas pelo calor dos acontecimentos e pela influência da mídia.

Alem do mais. E nada mais. ratificada pelo Brasil em 1990. mesmo que estas estejam incompletas ou desestruturadas. resultam em legislações com imperfeições que podem complicar em vez de dirimir conflitos. que o Estado Brasileiro se comprometeu a cumprir por ocasião da Convenção sobre os Direitos da Criança. igreja. A única certeza que se poderá ter dessa medida que prega a redução da maioridade penal é a de que ocorrerá um aumento considerável do número de sentenciados a cumprir penas no País. e que esta ação seja realizada de maneira integrada. como poderá absorver novos presos? Se o problema fosse meramente à idade. portanto. mental e espiritual das crianças e adolescentes. já que os delitos continuarão a ocorrer. tanto por afrontar os princípios e racionalidades constitucionais. O efeito intimidativo da medida de segurança é nenhum. Para que haja uma construção da paz e a prevenção da violência é necessário um desenvolvimento físico. enfim. envolvendo escola. 228. Com a participação das famílias. as propostas de redução da maioridade penal apresentam-se viciosas de inconstitucionalidade. princípios. enfim. Com participação do Estado e da sociedade civil. o sistema prisional para maiores de dezoito anos não estaria sobrecarregado como se encontra. excessivamente enfatizados e valorizados no novo Código Civil. social. agravados. como também por violar cláusula pétrea consagrada pela Constituição Federal. sejam eles classificados como hediondos. o sistema prisional já enfrenta graves problemas de superlotação. Trata-se. dentro do contexto familiar e na comunidade. os crimes existirão independentemente de aumento das penas ou da criação de novos tipos penais ou ainda em razão da redução do limite temporal. . qualificados.análise tem o dever constitucional de prover o bem estar e a dignidade da pessoa humana. de uma ação envolvendo todos os segmentos sociais. regra do art. Por esses motivos. O sistema vigente garante ao adolescente autor de ato infracional diversas medidas capazes de assegurar sua ressocialização e vale ressaltar que as medidas urgentes para aplacar o clamor popular. inteligente e responsável. como já mencionado.

fica visível que a cadeia não é a solução. não adianta reduzir o limite de idade para efeitos penais se não se buscar reduzir. respeito aos direitos e garantias individuais. os índices de analfabetismo e desigualdades que vigoram no país. mediante a sintonia de todos os segmentos da sociedade (família. incluindo a escola) e estado fortalecendo a idéia daqueles que acreditam e apostam no potencial da nova geração. sociedade.Com base nessa visão. acredita-se que a redução do índice de delinquência da massa juvenil somente será alcançada mediante a concretização de uma efetiva justiça social. Portanto. apenas jovens brasileiros. . sem rótulos ou estigmas. com melhor distribuição de renda. principalmente. pois.

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