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Expressões Artísticas e Emoções Infantis

Enviado por

RosimeryAlves
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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EXPRESSÖES INFANTIS Muito menos as "lemos" para compreend-las:

pressões.
no silêncio aparente
muito so-
verbais, culturas até gritam
-

elas dizem -

e
linguagens não
e narrativas diversas bre cada criança.
a ficar
Os corpos infantis estão atualmente propensos
imóveis nas carteiras das salas de aula, à frente
de telas, vi-

deogames e computadores, qualquer tipo de meio de


em

de hoje movimentam-
transporte, que não a pé. As crianças
carecem de espaços para
-se muito menos do que deveriam,

caminham na contramão de um
Crianças se expressam todo dia, toda hora. os corpos se expressarem,
Seus corpos cantam e gingam. desenvolvimento corporal e emocional equilibrado. Em ou
Seus olhares piscam, sorriem ou gritam. ou não
trassituações -tantas! a s medicamos e ignoramos
Suas mãozinhas gesticulam. dos sintomas de uma ou
prestamos atenção ao significado
Suas palavras revelam ou abafam.
outra doença. Longe de dizer que
não seja importante me-
Seus cantos desabafame aliviam. dicá-las em muitas ocasiões, mas as doenças
dos corpos
Emoções escondidas, sintomas e mensa-
revelam também, tantas e tantas vezes,
ou não compreendidas...
anímicas. Chegar per-
gens de feridas e doenças psíquicas
e
Seus brincares as libertam
eas ajudam a experimentara vida. to de decifrá-las é o grande
desafio desta nossa existência.

E taBvez a compreende-la? Nesse podem nos sinalizar possibili-


sentido, especialistas
Ou a assimilar o mundo à sua volta... dades, mas cabe a nós, enquanto educadores e cuidadores,
crian-
Crianças expressam-se, todo dia, toda hora. estarmos atentos às emoções, expressões e falas das
se expressem como for-
ças, e oferecer caminhos para que

mas de canalizarem suas dores, feridas, prazeres e alegrias.


saúde para elas.
Corpo, gesto e movimento Isso é propiciar possibilidades de cura e

a toda hora: em brinca-


As falas dos corpos aparecem
corpo de cada criança fala: os gestos expressam crianças fa-
deiras, reações, produções. O tempo todo,
as

emoções profundas, doenças sinalizam seu estado animi- falam sozinhas ou com
zem gestos, movimentos, rabiscam,
co. A maior flexibilidade habilidade dos cor
ou menor e
outros, reagem expressivamente
a situações, imagens, pala-
pos infantis são narrativas primordiais que nos contam rever
vras... Nem precisamos provocar: elas estão sempre
quem cada criança é, o que está vivendo, suas alegrias e modalidades
berando vozes e narrativas. Vejamos algumas
sofrimentos, sua superação ou seus esforços por transpor
de expressão.
barreiras. Raramente detemos para
nos
perceber essas ex
Expressões infantis 69
68 A vez e a voz das crignca5
Linguagens artisticas acima de tudo, muita pes-
A expressividade pressupõe,
e uma grande familiaridade com
A arte é um dos mais importantes canais de expres- quisa e experimentação,
implicados diferentes
processos que estão
em
materiais e
são dos seres humanos, nosajudando a canalizar nosso crian-
fazeres artísticos. E importante reconhecer o que as
inconsciente e nossas emoções, nosso entendimento de
ças já sabem, como se expressam, o que gostam de produzir,
mundo, transpõe a compreensäo ou intenção conscientes.
olhar, escutar; reconhecer a intenção, o propósito, prazer
o
A arte vai muito além da estética e dos materiais, supor
cada de cada traço ou movimen-
tes e ferramentas utilizadas. Seja por meio do desenho, que está por trás de gesto,
to e propor desafios que façam sentido para elas.
da pintura, da modelagem ou qualquer outra forma de s interesses, a curiosidade e a sensibilidade de cada
expressão plástica, ela é linguagem expressiva simbólica criança são tanto produto de sua natureza individual quanto
e privilegiada de que a humanidade usufrui, tanto os artis-
construídos e mediados por elementos simbólicos, culturais
tas como os observadores. e contextuais. Além do fazer das crianças e das propostas
Apartir das contribuições, reflexQese experiências de dos educadores, é importante que elas tenham contato com
educadores especialistas no campo das artes, consideram- uma diversidade de imagens - estáticas ou em movimento;
-se as múltiplas linguagens um aspecto essencial de co- exposições, ci-
internas ou externas -

que visitem museus,

municação expressão,
e de ser e estar no mundo, sobre as
nemas e outros equipamentos e eventos oferecidos em suas

quais é fundamental colocar foco. Elas fazem parte do co cidades e territórios.


tidiano das crianças, e é por meio delas que conseguem ter diversidade de materiais oferecidos às
A seleçãoe a
"vez e voz", desenvolver a criatividade e potenciais e
crianças em diferentes situações vai nortear a vontade
e o

sencialmente, experimentar uma diversidade de possibili- impulso criativo de cada uma: a quantidade e a qualidade,
dades, relações, espaçose vivencias. ojeito de disponibilizá-los de modo que se sintam incentiva-
As linguagens artísticas apoiam as crianças na amplia- das a experimentá-los e a ajuda necessária oferecida para a
ção de seu conhecimento sobre o mundo, de sua sensibi-
execução de ideias são pontos importantes em um planeja-
lidade e capacidade de lidar
sons, ritmos, melodias,
com mento que considere o modo próprio de agir, pensar e sen-

formas, cores, imagens, gestos, falas e com obras elabo- tir de cada uma.
radas por artistas e por elas mesmas, que emocionam e Antes de iniciar qualquer atividade artística, é desejável
constituem o humano. Atividades e propostas como o crianças uma gama de materiais
educador apresente às
jogo que o

simbólico podem ser incrementadas com narrativas de his- diversos e possibilidades de sua utilização, para somente en-
tórias, filmes, desenhos, pinturas, representações teatrais, tão deixá-las livres em seus próprios processos criativos. Isso
expressões musicais, entre outras. não significa que os educadores não possam ou não devam

70 A vez Expressões infantis 71


e a voz das crianças
individuais e auxiliá.-las em suas
acompanhar as produçoes favorece a improvisação, na qual se misturam
nem querendo imnar balho com arte
elas, outras possibilidades. Pintar,
demandas (não fazendo por um atmosferas e diversas
único caminho criativo!). E fundamental assegurar tempo emoções, diferentesse
forma são atividades
dar
desenhar, modelar
ou
para as crianças se apropriarem de suas possibilidades ha- às crianças como oportunida-
todas podem ser apresentadas
ferramentas, assim como manter uma atmosfera Quando as crianças conseguem
bilidades des criativas e exploratórias.
e
em que se arriscar, experimentar, mostrar o que cada uma tez seus desenhos se transformam
contar o que desenharam,
en-
todos e por elas desejados Quando as linguagens
sejam valores reconhecidos por em narrativas, em mensagens.

Todos esses cuidados tëm como expectativa trabalhar per. também começam a pensar. Nem
tram em cena, as crianças
é necessário
cursos e processos de produçao e de transtormação, a busca elas verbalizam, e nem sempre
sempre, porém,
o fato de o
de signifßicações, confiança e valorização das várias experiên- O importante é compreender que
que o façam.
e oferecer diver-
cias do outro, bem comno postura do educador como media- adulto criar possibilidades, tempos, espaços
as expressões plásticas já é, por
si só,
dor de processos criativos que são, essencialmente, singulares, sas ferramentas para
e de expressão. As produções
próprios de cada criança. Não se defende um único padräo de oportunidade de comunicação
simbolismos e, claro, qualquer
beleza, clássico, mas sim diferentes abordagens construídas artisticas estão permeadas de
leituras.
pela humanidade ao longo de sua história, abrindo assim pos- um pode se aprofundar nessas
sibilidades expressivas e sensíveis às crianças.
Para elas, a arte é uma expressão cotidiana: garatujas,
desenhos, pinturas, modelagens em terra, argila, massinha, Música
farinha etc., com todos os tipos de tintas, comuni-
A música constitui importante linguagem
na
aquarelas, guaches,
tintas naturais, diferentes suportes, ferramentas, dobraduras e na expressão humana.
Desde antes de nascerem,
cação
e muito mais. A arte envolve os corpos, a motricidade, as mundo de sons. Pesqui-
crianças já estão imersas em
um
as
dentro do útero, bebês es-
sensações-ver, ouvir, cheirar, tocar, pensar, falar. Quando fa- sas comprovam que, ainda
os

lamos das artes como do corpo materno e mesmo aos


linguagens expressivas sugerimos que, cutam e reagem aos sons

mais do que controlar ou criar Quando já nas primeiras semanas


situações artificiais para que sons externos. nascem,
elas ocorram, é
importante deixar que as situações aconte- de vida, eles são capazes de distinguir claramente a voz
çam naturalmente. Descobrir materiais, sejam da natureza A voz materna é reco-
humana de outras fontes sonoras.

ou não, brincar com eles, pelo bebê será um instrumento importante na


experimentar, desenhá-los, fazer nhecida e

garatujas, pintá-los, cada uma do seu jeito. construção do vínculoe interaçãona pais-crianças. Faro
Toda criança tem uma pequenas brin-
parte desse universo sonoro as canções
e as
expressão própria, embora exis-
tam traços primitivos semelhantes em seus
desenhos. O tra-
Expressões infantis 73
72 A vezea
voz das crianças
ASSim, os Sons e a mú.
a mae entoa.
cadeiras musicais que
experiència de vivenciar sons e silêncios ajuda
as
A
uma fonte importante de conexão cultural
sica constituem
bebë estará conhecendo e se apro-
crianças, por sua vez, a aprender a escutar, a percepção
e, desde muito cedo, o
de sons do ambiente e a reagira eles e a músicas por
meio

priando de sons caracteristicos desse meio em que vive.


do olhar, movimentos e expressões vocais. Elas logo pas-
família, comunidade, país. adultos e outras crianças os esta-
sam a compartilhar com

Ao entrar na fase escolar, as crianças já são portado-


dos emocionais e afetivos provocados pelo entorno sonoro.
musical do qual tazem parte sons fa-
ras de repertório
um Lindo caminho para escutar o outro e a vida!
aprender a

miliares, músicas e canções reproduzidas pelas pessoas que


Canções são belíssimas oportunidades de adentrar ou-
conhecem. Na escola, esse repertório tende a ser amplia- tras linguagens e de aprender outras culturas: cantar, sozi-
passam a fazer parte de seu universo. AA brincadeiras musicais;
do e novos sons nhas ou em grupo; participar de e

voz, as brincadeiras sonoras e as canções que educado-


os
relacionar músicas a expressões corporais e danças. Apren-
res apresentam abrem um canal de comunicação essencial der a identificar diferentes paisagens sonoras, silêncios,
escolar e comunitário. O canto sons da natureza ou da cultura. E importante lembrar que
para integrá-las ao ambiente
do adulto estabelece um vínculo profundamente emotivo- as crianças podem ter formas diferentes de participar ou

mais ainda, se acompanhado do contato fisico, do olhar e do de manifestar suas preferências e que, como adultos, preci
seu próprio gosto por cantar. samos aprender a descobrir, respeitar e dar valor às diver-

A música possibilita que cada criança perceba e reaja sas formas de apreciação. O silêncio que parte das próprias

a estímulos sonoros, que lhes provocam diferentes reações: crianças deve ser também respeitado e acolhido: pleno de

bem-estar, emoções diversas, curiosidade. Essas reações se significado, ele é uma experiência que contribui para o con-
tornam visíveis por meio do olhar, do choro ou de outras tato com suas emoções e sentimentos, um momento precio
expressões corporais. Além de escutar e distinguir sons, as so de conhecimento acerca de si mesm0.

crianças vão reproduzi-los e produzir os próprios. Elas ma-


nifestam suas preferências e os corpos são importantes "tra-
dutores" do quanto a música as afeta. Brincadeiras, ludicidade
E importante não somente
apresentar, diversificar e am- A importância do brincar na
pliar os repertórios de músicas para as crianças, como tam-
infância e suas raízes
bém escutar, acolher e conhecer os
que elas já possuem e
trazem de seus mundos familiares e O brincar, singular e único de cada criança, de cada
comunitários. Quanto
mais diversificado o brincadeira, de cada jogo e em cada grupo, diz de forma
repertório, mais elas terão condições de
identificar elementos e desenvolver
musicais. preferências
74 A vez e a voz das Expressões infantis 75
crianças
não verbal sobre os seres
humanos, movimentand
netrando diferentesculturas. O brincar
constitui uma pe-
ntando-se, expressiva
é O brincar: linguagem
guagem, necessidade vital das
crianças e oferecelin.
a
cultura
oportunidade de se da n a t u r e z a e da
expressarem a
espontaneamente
amente apartir
a das crianças,
um meio
de seus potenciais individuais. O brincar é a linguagem essencial
comunicam e se
expressam,
humanos se
Os humanos sempre brincaram, nas
seres pelo qual os seres
Compostas
giões, povos e culturas do mundo, atravessando
diversas re. que nos convida a olhar através dela, além dela.
narrativas
brincadeiras
temnoe
npos pontuais, as
históricos. Formas, espaços, tempos, objetos de porregras gramaticais parágrafos, frases e vocabulá-
brincar e lúdicas têm seus textos com
os próprios brincantes, porém, foram se todas existem:
Por mais de 7 mil anos, nas sociedades
transformando, rio próprios. Embora sejam únicas, para
rurais, até o final
como se brinca,
do século XVIII, o brincar constituía uma rituais religiosamente respeitados
atividade comum
onde, com quem;
a adultos e crianças: brincava-se nas ruas, de tem-
praças, feiras, de espaços,
rios, praias, campos etc. tempos próprios que independem
ou da autorização de adultos;
pos externos
Com o advento da sociedade
industrial, no final do sé- segredos raramente revelados;
culo XVIIIe início do século XIX, a atividade lúdica tornou- regras, gestos, olhares, trapaças;
-se segmentada -

ela passou a fazer parte especificamente da concentração muitas vezes tão profunda, que as

vida das crianças; tornou-se pedagógica, entrando na escola à sua volta;


crianças esquecem do mundo
com objetivos educacionais. Esses fenômenos, acompanhados consequências a partir das ações e reações dos brin-
do surgimento do
apelo ao consumo de brinquedos industra cantes
lizados, da institucionalização das crianças, do movimento de papéis assumidos individualmente pelos brincantes,
de cada brincadeira, que trans-
entrada da mulher no mercado de que mudam as tramas
trabalho, aliados à falta de
espaços e de segurança nas ruas das grandes cidades, trans" formam os participantes.

formaramo brincar em uma atividade mais solitária.


No século XXI, na sociedade
Cada situação de brincar revela temperamentos, possi-
pós-moderna globalizada bilidades e potenciais dos que dela participam. Há uma re-
que se caracteriza pela
grande e veloz produção de Ser
gra, uma ética moral que relacionamentos,
pode estreitar
viços, informática, estética, símbolos e valores-, o brincar
abrir canais de comunicação ou romper laços.
torna-se
multicultural, constituindo-se em variedade de m No ato de brincar, elementos naturais incorporam-se
guagens e espelho dos muitos contextos socioculturais,
dizem das vidas
u para criar uma linguagem única e ao mesmo tempo univer
particulares e universais, singulares e di
-

sal, desafio próprio de cada brincante. O gesto das mãos rá-


versas de cada
criança e de cada grupo infantil.
Expressões infantis 77
76 A vez e a voz das crianças
manipulando um brinquedo, os olha s desenvolvimento
pidas das crianças
o
As brincadeiras são chaves para
cuidado com o tesouro
de suas pedrinhas car o
das crianças. Brin-
atentos, o integral de potenciais aprendizagens
valores essenciais de
cOnstituem marcas que sän seres
com sucatas,
rinho construído cadeiras e jogos trazem à tona
uma linguagem propria corporal, a uma ati humanos; dão lugar a uma forma
de comunicação entre
incorporadas a
outro, a construçao de uma autoestima são instrumento para o
tude com relação ao iguais e entre as várias gerações;
a vida. Inconscientemente, esses gestos, pos desenvolvimento e pontes para diversas aprendizagens;
essencial para
na vida de cada um de nós lúdico-cultural em
turas e movimentos
se repetem possibilidades de resgate do patrimônio
de situações do nosso cotidia- Brincadeiras e jogos
em inúmeras atitudes diante diferentes contextos socioeconômicos.

uma das origens da constru- constituem desafios deste século no uso do tempo li-
Nas brincadeiras, inicia-se
novo
no.
humanos: suas linguagens. vre; são sementes de possibilidades criativas; instrumen-
ção dos seres
No brincar há sempre uma história que é contada, fa- tos de inserção em sociedades marcadas por preconceitos
de liderar
lando das raízes e dos movimentos dos seres humanos; e pela competição exacerbada; são possibilidades
histórias retratadas em suas culturas pela de ser conduzido; de falar e de ouvir. Brincadeiras podem
crianças têm suas e

do ato de brincar. favorecer a cura psíquica e física. E também traçar cami-


presença e importância
descoberta de potenciais, incenti-
A cultura infantil é um tecido de fios diversos: da cul nhos de conhecimento e

livre escolha e a tomada de decisões.


tura da familia da mäe, do pai, daquela criada pela pró- vando a autonomia, a

Embora fontes de prazer, elas propõem situações


inúmeras
pria criança a partir da sua natureza, da escola, da de
seus

de conflito. Brincadeiras e jogos introduzem competição


a
humano herda várias culturas que se mis-
grupos. Cada ser
convivência do trabalho solidário em equi-
adentra incor- ou o desafio da e
turaram com as outras; cada um reproduz, e
mais humanizada e
Ocorre, na infância, um pe, em uma postura mais cooperativa,
pora elementos de cada uma delas.
mais atenta à natureza.
processo de produção e de reprodução cultural: um siste
ma simbólico acionado por atores sociais a cada momen-
to, para dar sentido às suas experiências; aquilo que faz as
Brincadeiras tradicionais e populares
pessoas conseguirem viver em sociedade, compartilhando
sentidos formados a partir de um mesmo sistema simból- No universo do brincar existem rituais antiquíssimos
co. A cultura está sempre em transformação e mudança. O
que fazem da história da humanidade: as brincadeiras,
parte
contexto cultural é
sistema simbólico, imprescindível
esse ao mesmo tempo que são da natureza dos seres humanos,
para entender o lugar das crianças. Além da cultura herda- fenômenos
são reconstruídas em cada grupo infantil. São
da, as
crianças são tanto atores sociais quanto culturais, de transmissão oral e inter e intrage-
produtoras arquetipicos,
de cultura -

não só consumidoras.

Expressões infantis 79
78 A vez e a voz das crianças
são universais, mas, no instan.
racional. Brincadeiras ejogos Repertórios brincantes
criança, naquele
parêntese, esse brinca
te da vida de uma
da década de
por um determinado grupo, em partir da década de 1970 no mundo, e
A
unico, porque é praticado do resgate
contexto, em tempo e espaço específicos. 1980 no Brasil, um crescente movimento em prol
um dado
fenòmeno à tona
da brincadeira das
cinco Marias ém
também do brincar tem trazido a importância desse
-

Esse é o caso

saquinhos, Cinco pedrinhas, jacks, nas práticas cotidianas das vidas infantis e por meio de es-
conhecida como jogo dos
tudos, pesquisas e publicações. Nestas, têm sido apontada
a
entre outros nomes,
brincada desde aa

jogo dos ossinhos,


importância de olhare conhecer os repertórios regionais,
re-
todas as regiões do
com diversos materiais em
Antiguidade velados em coletâneas de brincadeiras, jogos e brinquedos,
brincadeiras tradicionais, ela apre
mundo. Como todas as

os ossinhos, por exem- espelhos de valores e culturas dos diversos grupos infantis.
senta um simbolismo em sua origem:
Nosso país tem uma riqueza infindável de norte a sul,
usados para predizer o futuro e são considerados
plo, eram com culturas lúdicas heterogêneas, diversas e comuns, devi-
transmitida oralmente,
os ancestrais dos dados. Brincadeira
do à influência das culturas europeias, africanas e indigenas
à
constitui um desafio à coordenação motora, atenção, uma
sul-americanas e
círculo sagrado de uma, duas e, mais recentemente, norte-americanas,
troca não verbal dentro de um
orientais. Assim como o tombamento de muitos monumen-
ou mais crianças, desafiadas pelo espaço, pelos materiais,
tos materializam a história, o brincar constitui-se em um

por suas habilidades. As crianças adentram outro tempo, ou-


patrimônio lúdico da humanidade e, no nosso caso, da bra-
tro universo o delas ao mergulharem nessa brincadeira
silidade: o conjunto de brincadeiras locais revela a lingua
e em outras: sem sab-lo, estabelecem conexões céu-terra,
gem cultural de cada grupo e região.?
espírito-matéria. E revelam, a cada jogada, suas autorias, im-
Pipa, pião, peteca, amarelinha, bolinhas de gude, can-
primindo suas marcas, com gestos próprios.
tigas de roda, faz de conta, entre outras brincadeiras, são
A mais singela brincadeira tradicional constitui-se em
um espaço de trocas, convivência, vivências, oferecendo
hoje enriquecidas com linguagens e imagens que fazem
parte do cotidiano, da mídia e da cultura com a agilida-
possibilidades de apreender o mundo, os objetos e as pes-
de de um mundo "liquido" em permanente transformação:
soas que dele fazem parte. E brincando que as crianças se
mudam os nomes, varia o vocabulário, surgem inúmeras
desenvolvem de forma integral, constituindo seus corpos, essèn-
possibilidades de tempos, espaços e objetos, mas a
gestos, movimentos, linguagens (verbais e não verbais), ati-
tudes e
comportamentos, emoções, cognição, sociabilidade,
valores e criatividade. 9 Ver rede de brincadeiras regionais do Brasil em http://www.escolaofi
cinaludica.com.br/brincadeiras/index.htm (acesso em: 17/11/2019)
e também Mapa do Brincar em https://mapadobrincar.folha.com.br/
(acesso em: 18/10/2019).

80 A vez e a voz das


Expressões infantis 811
crianças
e a estrutura
de cada uma delas continuam
, ram para contar,
mas quando foram convidadas, entre uma
cia, a origem
a um diálogo e estímulo à outra brincadeira,
dedinhos provavelmente melados, pés
convidando permanentemente e
nos falando sobre-
ludicidade e à criatividade. e mãos pretinhos e narizes escorrendo,
minha atenção
de as crianças terem conta- mundos lúdicos. O que mais chamou a
Oferecer oportunidades seus

surpreendente criatividade dessa geração: as crianças


to com a natureza, espaços variados, diversos materiais e foi a

trechos delas e inventam novas, com

repertórios lúdicos, ou de
construírem seus próprios brin- juntam brincadeiras ou
mais diversos divertidos nomes, que escondem a pers-
é uma forma de contribuir com a saúde e integri. os e
quedos, malícia desses pequenos
dade mental, física e emocional: são processos, vivências e picácia, a esperteza, sapiênciae
a a

belos humanos.
permanentes. Nessas "brechas lúdicas" mora e seres
aprendizados
o germe do processo criativo dos seres humanos, oportu- Adentrando os labirintos do mapa, aprendemos novo

vocabulário e novas formas de coordenar verbos (ações),


nidades de se expressarem, possibilidades de gestar vidas
tradicionais
mais dignas e significativas. criar frases(regras), pontuar e narrar. Além das
e universais bolinhas de gude, peteca, passa anel, pega-pe-

ga, esconde-esconde, queimada, corda,


amarelinha, batata
entre tantas ou-
Patrimônios lúdicos: por dentro quente, pique, cinco Marias ou pedrinhas,
brincadei-
do Mapa do Brincaro tras, ascrianças nos surpreendem e nos ensinam
ras como: o Deus, o diabo e o anjinho, cada coelho em sua

O Mapa do Brincar foi um projeto desenvolvido por ini-


cartola, 10, queimada xadrez, bola esperta, três cortes,
Ben
ciativa da Folhinha deS.Paulo, a partir da iniciativa da jor biscoitinho queimado, estoura balão, caixotinha, o jogo da
nalista Gabriela Romeu. A ideia foi, junto com um grupo de
barata, procurando o Jabaculê, concurso de nariz, espague-
pesquisadores, conhecer as brincadeiras de crianças pelo Bra- cha-
te, Stanley, anhonha, vôlei do alfabeto, suruba, monga,
sil, a partir dos seus próprios depoimentos. A equipe, inte zinho, minissainha, queimada de sabão d'água, canibal, pizza
grada por Lindalva Souza, Vando Queiroz, Cristiane Mendes, envenenada, carimbo ameba, explosão, garrafa do
mico lí-
Luciana Portela, Renata Meirelles, Eduardo
quido, televisão sem fio, língua guardião, Marlinha
vem pro
Fanis, Viviane No-
guchi, Patricia Trudes Veiga, Marlene Perete por mim, fez um chocolate quente, vendedores de
céu, cartinhas misteriosas,
amplolevantamentoe análise de todos os documentos rece- frutas, bente altas, reloginho, rasteira de tênis, vôlei Bolt, fu-
bidos decorrer de quatro meses de trabalho. tebol de gatos, formiguinha gigante, múmia em ação, viúvo,
no

Tive privilégio e a honra de ouvir crianças de todo a corrida


mata batata, fusca azul, paulistinha, Torre de Babel,
o

o Brasil nos contarem da charada, cabecinha, matar tanajura, pula chinelos, banda
suas
andanças brincantes. Não pedi-
10 Parte deste trecho foi
dógui, lenga lalenga, caixinha de surpresas, stop português,
originalmente publicado em 2009.
Expressões infantis 833
82 Avez e a voz das crianças
Strecks, mininoides, vacineiral de S.Paulo mais difundido
Apesar de o jornal Folha
ser
tech deck, salmão, meiuda,
dos dragões, misturinha, mar. tivemos uma boa representação
estrela e Happy Town, o reino nas regioes Sul e Sudeste,
seu urso, corrida do pô, Star de Alagoas; muitíssimosda
cha do jornal, Twister, acorda, de materiais vindos do Acre,
perigosos, batom, acorda Distrito Federal, Espírito
Wars, arma, tigre branco, desafios Bahia e mais ainda do Ceará. Do
imensa quantidade
leão. Muitos desses nomes são desconhecidos para a maior Santo, Mato Grosso do Sul, Maranhão;
brincadeiras são de autoria de crianças. de Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piaui; expressiva do
parte de nós. Essas
não de adultos, por elas foram criadas e ressignificadas. Rio de Janeiro; pouquíssimos de Santa Catarina, Tocantins,
muito interes-
As crianças têm liberdade para desenvolver seu próprio Maceió; e a grande maioria de São Paulo. E
sante observar que, em São Paulo, há repre-
enorme
repertório, brincadeiras, novidades para nós,
vocabulário e
uma

vinda além da capital, de cidades do interior,


que mostram uma multiculturalidade, incorporando ele sentatividade
mentos de outras culturas, línguas, tecnologia, mistério, ob- sobretudo as pequenas e mais distantes.

jetos e personagens dos seus cotidianos, animais, alimentos, Outra peculiaridade da diversidade recebida foi que
todas crianças que encaminharam materiais citam
ações e figuras agressivas, sexualidade, ironias etc. nem as

Por ocasião dessa pesquisa, recebemos materiais de crian- escolas como principal. Associações, fundações, um
fonte
ças entre dois e 14 anos, sendo que a maior concentração e número surpreendente de bibliotecas, organizações não
quantidade variou entre sete e 12 anos. Alguns adultos incen- governamentais (ONGs), centros assistenciais, muitas esco
escolas
tivaram crianças a encaminharem os materiais, outros foram las colégios de cunho religioso, colônias de férias,
e

muitos colégios;
recolhidos pela própria equipe da Folhinha, filmados, gravados municipais e grande parte das estaduais;
estado de São Paulo, Pontinhos de
e fotografados. A maior parte das crianças encaminhou suas escolas indígenas do
brincadeiras por e-mail, mas boa parte delas enviou por correio Cultura, casas de cultura e centros de artes, centros espor-
de música in-
as descrições acompanhadas de lindos desenhos. Foi imenso o tivos, unidades do Sesc, escolas de línguas e

prazer de pegar esses materiais escritos com a espontaneida- centivaram crianças a enviarem os materiais.
as
meio
de e o colorido de cada A maior parte das crianças soube da campanha por
criança que fez um parêntese em seu
cotidiano para partilhar conosco suas de suas escolas, instituições de contato, pela internet, jorna-
linguagens lúdicas.
Lin-
boca boca. Mas foi também signifi
guagens que nós tentamos traduzir, decodificar, compreender listas, educadores e no a

e, dali em diante, brincar cativo o número de


crianças que se inteiraram pela leitura do
para levar a outras crianças. Cha-
mou muito a
atenção dificuldade que crianças de sete anos
a jornal dentro das suas instituições ou fora delas.
em diante têm As brincadeiras de pique-esconde grandes campes
para escrever e o grande número de erros nos
textos enviados. Com relação desse mapeamento -

nos mostram crianças em permanen-


aos
gêneros, o mapa mostra um
testando
equilibrio na participação de meninos e meninas. te movimento, aparecendo e desaparecendo, sua

84
Expressões infantis 85
Avez e a voz das crianças
própria esperteza e destreza, desafiando os No mar de
pegadorer eram supimpas.
perimentando sabedoria de perninhas, exploran ex
comuns
a suas mais
até as
brincadeiras

suas
vidas lúdicas
das for
mais variados espaços. Inventarndo
contaram
que
reinventando moda e
quase
10 mil vozes

relatos
detalhados e
superdescritivos,

As crianças nos contarame tentamos mais singelas a


junto.
decifrar suas letras
as,
mas

de estar com cada uma delas brincando


palavras e até frases pré-alfabeticas. Nossa equipe de aman deu vontade
essas crianças nos

passaram
a poesia que
tes do brincar mergulhou nos labirintos das
e
A emoção abertos, ouvi-
tabelas, tentando compreendida por quem
tem olhares

"enguadrar" as brincadeiras em nossas planilhas acadêmi. pode ser


como os da equipe da
Fo-
dos aguçados coração sensível,
e
co-tecnológicas. Mas as crianças falaram mais alto; as brin. idealizadora desse Mapa
do Brincar; o s da equipe
de
lhinha,
cadeiras pularam das telas de
computador, dos envelopes pesquisadores-tradutores-desbravadores
de tantas
ludicidades

recebidos nos encontros paulistanos regados a chazinhos, ca alimentá-lo; os dos


trabalharam em ritmo incansável para
que educadores brin-
fezinhos, bolinhos e pes de queijo na sala e no quintal da repórteres,
adultos, educadores, professores,
casa da Renata, fugindo das nossas "gaiolas" os dos n o s s o s
mes
classificatórias cantes deste Brasil afora;
e principalmente
para se libertar. AS crianças e suas brincadeiras nos tiraram o autores e atores desse mapa: as crianças.
tres brincantes,
alto de tan
sono para dizer em e bom som: nós brincamos assim, na- As brincadeiras do Mapa do Brincar -

c o m o as

turalmente, essa é a nossa fala, é objeto de inúmeras publicações -

língua, esse é o
essa a nossa
tas coletâneas virtuais
e

nosso território. Elas nos arrancaram risadas, e reinventa-


admiração, sur- estão sempre prontas para serem experimentadas
presas, gargalhadas; nos enlouqueceram com a avalanche de s e r e m contadas e
das por mais e mais crianças. Prontas para
se cons-
brincadeiras que não paravam de chegar. Ficamos umas e outras ao m e s m o tempo que
empantur brincadas entre

rados, encantados com tanta ludicidade viva transpassando titui patrimônio das infantis, documento vivo,
nossas culturas

permanente transformação, dinâmico, diverso, que


esca-
Os poros de e-mails e cartinhas coloridas. em

O que as crianças têm conseguido, e não sabem, é mo- pa de qualquer limite ou fronteira e m que se pretenda classifi-
bilizar muitos adultos para um mergulho profundo e sem cá-las, enquadrá-las. Mas há um desafio maior à nossa frente,
não literal,
mascaras nos seus universos: conhecidos porque cada um que é sua decodificação, tradução, compreensão
deles já brincou simbólica, que diz da vida dos seus protagonistas.
algum momento; desconhecidos
em por-
que poucos brincam junto com elas hoje.
PARA REFLETIR
As crianças têm nos instigado a sair do nosso lugar, nosS
Está na hora de brincar,
"desacomodaram", como diz Jean Piaget (1896-1980), e com o que cada um tiver de melhor sua imaginação-
nos obrigaram a trocar nossas lentes por olhares "supim- com o que cada um puder - seus desafios
pas: esse foi o nome com que batizamos brincadeiras que que cada
com o um
quiser.
Julgamos especiais, diferentonas. Mas, verdadeiramente
86 A vez Expressões infantis 87
e a voz das crianças
desenhos

sociais,
gibis,
redes ali-
internet,
campos
que
mídia,
Teatro apoiados
pela televisão e
cinema,
de imaginação.
p r o g r a m a s ea
O teatro é um grande faz de conta, uma experiencia animados,
continuamente
o faz de conta ser
uma
experiên-

plateia pode
completamente integrada as outras vividas pelas criancae mentam

para
uma
oferecera
elas pos
Apresentar-se
porém,
Nesse brincar de teatro tem origem a criação infantil: as as
crianças, representações

i n t e r e s s a n t e
para meio de
cia por
a brincar de serem pessoas ou coisas di. como

crianças começam do que


e x p r e s s a r e m

sibilidades
de se
desafio
interior

ferentes, destacando ou modificando a sua própria aparên- mais


como
um
roteiros é tam-
muito Construir
funciona
dita.
diferentes adulto deixe
as
cia. A experiência de interagir com parceiros ac

performance
propriamente

desde que o
leva a imitar significativamente seus gestos, movimentos e
um processo
interessante,

desenhar ou
escrever
as
bém escolher
vontade para ainda si-
expressões. crianças à conhecidas,
ou
outras
figurinos, objetos de histórias,
encenar

Espaços cênicos, personagens, próprias


criações
coletivas.
ou
luzes, sons e cenários compõem linguagem
a teatral. improvisadas
de espetácu-
cena, tuações de espectadoras

representam
-

fazem teatro -

elas se Observar crianças n o papel de animação


Quando as crianças fantoches,
sombras ou

falam cantam, como meio teatro de bonecos, interessa


movimentam, se expressam, los se
muito para quemn
também revela
motores, afetivos e de objetos
situações. Seus aspectos
-

de significar
às linguagens que elas produzem,
por conhecè-las.

intelectuais se associam
da
no processo de construção
importantes experiências
sentido de si. outras narrativas
própria imagem e
contar histórias Literatura, contos,
histórias e

Fazer teatro é um meio de narrar, de


livros são
formas de co- olhar imagens,
manusear

em que palavras
imagens são as principais
e Ouvir e ler histórias,
em suas postu-
assumidos pelas crianças
Os -

observare escutar crianças


oportunidades para
municação. Os personagens manifestação de suas emo-
como prin- na
representamn ou
incorporam, ras, gestos, reações, preferèncias,
papéis que elas bichos etc. de introduzir temas,
culturas
bruxas, super-heróis, ções. São também oportunidades
cipes, princesas, fadas, tanto escolher nos pauta para
conhecer
riquíssima de pesquisas, e valores diversos. Deixá-las
constituem uma essência
c o n h e c i m e n t o profun- e interesses de
forma mais assertiva.
adultos no suas preferências
das crianças quanto dos e
repertórios que existem na
A diversidade de conteúdos
identificam e
mais se
quais as p e r s o n a g e n s
delas, com da fantasia,
literatura infantil abre o universo da imaginação,
do

como os representam. ao narrativas criadas por


inspirações
das crianças dos contos populares, das histórias e
considerar as
Interessante
as possibl" adultos têm essa capacidade de
que já
colocar-se no lugar das
terem a oportunidade de criare de representar:
fortemente
infantis são
hdades expressivas e os repertórios
Expressões infantis 89

88 A vez e a voz das crianças


o universo e trazem toda sorta.
de
crianças. Os
livros abrem cotidianos e readequação de atividades a partir dos temas la-
crianças nas suas emoções, curi
tentes e recorrentes expressados pelas crianças."
temas podem apO1ar
que
dimensões desconhecidas.
Escutar os sonhos das crianças, mesmo que não seja-
sidades e levá-las explorar
a

criarem suas proprias histórias, es. mos psicoterapeutas, é um meio de ficarmos próximos dos
Deixar as crianças
representá-las, brincá-las! Uma seus universos profundos. O sonho pode realmente ser evo
crevê-las, desenhá-las,
cada criança. E fundamental ter pro cado, muitas vezes reinventado, assim como acontece com
vida paralela na de
mistério que cada uma encerra em si o faz de conta ou com qualquer outra das narrativas expres-
fundo respeito pelo
de vida, alegria e entusiasmo ao
proposta sivas sobre as quais refletimos até aqui. O mais importante
quanto à sua

contar e ouvir histórias. é compreender que existem universos profundos e incons-


cientes que são realmente essenciais para compreendermos
e conhecermos as crianças nesse desafio que é a escuta.

Sonhos
Os sonhos são expressões do inconsciente dos seres

humanos, importantíssimos para apontar


o não dito, o que

está por trás e profundamente enraizado em todos nós. Fonte: Friedmann, A. A vez e a voz das
Embora nossa cultura não preste tanta atenção nas mensa- crianças. São Paulo: Panda Books, 2020.
gens que vêm do inconsciente, é fundamental considerar
revelam o
que, assim como os sonhos, as artes e o brincar,
lado oculto, não dito e profundo das crianças.
O psicoterapeuta junguiano Roberto Gambini desenvol-
veu, entre 2000 e 2007, uma importante pesquisa a par
tir de sonhos de crianças em três contextos diferentes: em
uma escola particular de classe média alta de São Paulo, em
uma favela do Rio de Janeiro e em uma comunidade indi-
gena no Amazonas. Nas três análises, possibilitou-se a aber
tura de espaços nos quais as crianças, com a mediação dos
adultos responsáveis, relatassem seus sonhos e
desenhas
os 110 relato dessas experiências encontra-se na palestra "Por uma edu-
sem. Os sonhos, os relatos e os desenhos aportaram conteu cação com alma", ministrada em evento realizado pela Aliança pela
dos inconscientes que passaram a fazer parte dos curriculos, Infância, em 2008. Disponível em: https://www.youtube.com/wat-
ch?v=ND9Kto-hev4. Acesso em: 18/10/2019.

90 A vez Expressões infantis 91


e a voz das crianças

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