Expressões Artísticas e Emoções Infantis
Expressões Artísticas e Emoções Infantis
pressões.
no silêncio aparente
muito so-
verbais, culturas até gritam
-
elas dizem -
e
linguagens não
e narrativas diversas bre cada criança.
a ficar
Os corpos infantis estão atualmente propensos
imóveis nas carteiras das salas de aula, à frente
de telas, vi-
de hoje movimentam-
transporte, que não a pé. As crianças
carecem de espaços para
-se muito menos do que deveriam,
caminham na contramão de um
Crianças se expressam todo dia, toda hora. os corpos se expressarem,
Seus corpos cantam e gingam. desenvolvimento corporal e emocional equilibrado. Em ou
Seus olhares piscam, sorriem ou gritam. ou não
trassituações -tantas! a s medicamos e ignoramos
Suas mãozinhas gesticulam. dos sintomas de uma ou
prestamos atenção ao significado
Suas palavras revelam ou abafam.
outra doença. Longe de dizer que
não seja importante me-
Seus cantos desabafame aliviam. dicá-las em muitas ocasiões, mas as doenças
dos corpos
Emoções escondidas, sintomas e mensa-
revelam também, tantas e tantas vezes,
ou não compreendidas...
anímicas. Chegar per-
gens de feridas e doenças psíquicas
e
Seus brincares as libertam
eas ajudam a experimentara vida. to de decifrá-las é o grande
desafio desta nossa existência.
emoções profundas, doenças sinalizam seu estado animi- falam sozinhas ou com
zem gestos, movimentos, rabiscam,
co. A maior flexibilidade habilidade dos cor
ou menor e
outros, reagem expressivamente
a situações, imagens, pala-
pos infantis são narrativas primordiais que nos contam rever
vras... Nem precisamos provocar: elas estão sempre
quem cada criança é, o que está vivendo, suas alegrias e modalidades
berando vozes e narrativas. Vejamos algumas
sofrimentos, sua superação ou seus esforços por transpor
de expressão.
barreiras. Raramente detemos para
nos
perceber essas ex
Expressões infantis 69
68 A vez e a voz das crignca5
Linguagens artisticas acima de tudo, muita pes-
A expressividade pressupõe,
e uma grande familiaridade com
A arte é um dos mais importantes canais de expres- quisa e experimentação,
implicados diferentes
processos que estão
em
materiais e
são dos seres humanos, nosajudando a canalizar nosso crian-
fazeres artísticos. E importante reconhecer o que as
inconsciente e nossas emoções, nosso entendimento de
ças já sabem, como se expressam, o que gostam de produzir,
mundo, transpõe a compreensäo ou intenção conscientes.
olhar, escutar; reconhecer a intenção, o propósito, prazer
o
A arte vai muito além da estética e dos materiais, supor
cada de cada traço ou movimen-
tes e ferramentas utilizadas. Seja por meio do desenho, que está por trás de gesto,
to e propor desafios que façam sentido para elas.
da pintura, da modelagem ou qualquer outra forma de s interesses, a curiosidade e a sensibilidade de cada
expressão plástica, ela é linguagem expressiva simbólica criança são tanto produto de sua natureza individual quanto
e privilegiada de que a humanidade usufrui, tanto os artis-
construídos e mediados por elementos simbólicos, culturais
tas como os observadores. e contextuais. Além do fazer das crianças e das propostas
Apartir das contribuições, reflexQese experiências de dos educadores, é importante que elas tenham contato com
educadores especialistas no campo das artes, consideram- uma diversidade de imagens - estáticas ou em movimento;
-se as múltiplas linguagens um aspecto essencial de co- exposições, ci-
internas ou externas -
municação expressão,
e de ser e estar no mundo, sobre as
nemas e outros equipamentos e eventos oferecidos em suas
sencialmente, experimentar uma diversidade de possibili- impulso criativo de cada uma: a quantidade e a qualidade,
dades, relações, espaçose vivencias. ojeito de disponibilizá-los de modo que se sintam incentiva-
As linguagens artísticas apoiam as crianças na amplia- das a experimentá-los e a ajuda necessária oferecida para a
ção de seu conhecimento sobre o mundo, de sua sensibi-
execução de ideias são pontos importantes em um planeja-
lidade e capacidade de lidar
sons, ritmos, melodias,
com mento que considere o modo próprio de agir, pensar e sen-
formas, cores, imagens, gestos, falas e com obras elabo- tir de cada uma.
radas por artistas e por elas mesmas, que emocionam e Antes de iniciar qualquer atividade artística, é desejável
constituem o humano. Atividades e propostas como o crianças uma gama de materiais
educador apresente às
jogo que o
simbólico podem ser incrementadas com narrativas de his- diversos e possibilidades de sua utilização, para somente en-
tórias, filmes, desenhos, pinturas, representações teatrais, tão deixá-las livres em seus próprios processos criativos. Isso
expressões musicais, entre outras. não significa que os educadores não possam ou não devam
Todos esses cuidados tëm como expectativa trabalhar per. também começam a pensar. Nem
tram em cena, as crianças
é necessário
cursos e processos de produçao e de transtormação, a busca elas verbalizam, e nem sempre
sempre, porém,
o fato de o
de signifßicações, confiança e valorização das várias experiên- O importante é compreender que
que o façam.
e oferecer diver-
cias do outro, bem comno postura do educador como media- adulto criar possibilidades, tempos, espaços
as expressões plásticas já é, por
si só,
dor de processos criativos que são, essencialmente, singulares, sas ferramentas para
e de expressão. As produções
próprios de cada criança. Não se defende um único padräo de oportunidade de comunicação
simbolismos e, claro, qualquer
beleza, clássico, mas sim diferentes abordagens construídas artisticas estão permeadas de
leituras.
pela humanidade ao longo de sua história, abrindo assim pos- um pode se aprofundar nessas
sibilidades expressivas e sensíveis às crianças.
Para elas, a arte é uma expressão cotidiana: garatujas,
desenhos, pinturas, modelagens em terra, argila, massinha, Música
farinha etc., com todos os tipos de tintas, comuni-
A música constitui importante linguagem
na
aquarelas, guaches,
tintas naturais, diferentes suportes, ferramentas, dobraduras e na expressão humana.
Desde antes de nascerem,
cação
e muito mais. A arte envolve os corpos, a motricidade, as mundo de sons. Pesqui-
crianças já estão imersas em
um
as
dentro do útero, bebês es-
sensações-ver, ouvir, cheirar, tocar, pensar, falar. Quando fa- sas comprovam que, ainda
os
garatujas, pintá-los, cada uma do seu jeito. construção do vínculoe interaçãona pais-crianças. Faro
Toda criança tem uma pequenas brin-
parte desse universo sonoro as canções
e as
expressão própria, embora exis-
tam traços primitivos semelhantes em seus
desenhos. O tra-
Expressões infantis 73
72 A vezea
voz das crianças
ASSim, os Sons e a mú.
a mae entoa.
cadeiras musicais que
experiència de vivenciar sons e silêncios ajuda
as
A
uma fonte importante de conexão cultural
sica constituem
bebë estará conhecendo e se apro-
crianças, por sua vez, a aprender a escutar, a percepção
e, desde muito cedo, o
de sons do ambiente e a reagira eles e a músicas por
meio
mais ainda, se acompanhado do contato fisico, do olhar e do de manifestar suas preferências e que, como adultos, preci
seu próprio gosto por cantar. samos aprender a descobrir, respeitar e dar valor às diver-
A música possibilita que cada criança perceba e reaja sas formas de apreciação. O silêncio que parte das próprias
a estímulos sonoros, que lhes provocam diferentes reações: crianças deve ser também respeitado e acolhido: pleno de
bem-estar, emoções diversas, curiosidade. Essas reações se significado, ele é uma experiência que contribui para o con-
tornam visíveis por meio do olhar, do choro ou de outras tato com suas emoções e sentimentos, um momento precio
expressões corporais. Além de escutar e distinguir sons, as so de conhecimento acerca de si mesm0.
ela passou a fazer parte especificamente da concentração muitas vezes tão profunda, que as
uma das origens da constru- constituem desafios deste século no uso do tempo li-
Nas brincadeiras, inicia-se
novo
no.
humanos: suas linguagens. vre; são sementes de possibilidades criativas; instrumen-
ção dos seres
No brincar há sempre uma história que é contada, fa- tos de inserção em sociedades marcadas por preconceitos
de liderar
lando das raízes e dos movimentos dos seres humanos; e pela competição exacerbada; são possibilidades
histórias retratadas em suas culturas pela de ser conduzido; de falar e de ouvir. Brincadeiras podem
crianças têm suas e
não só consumidoras.
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78 A vez e a voz das crianças
são universais, mas, no instan.
racional. Brincadeiras ejogos Repertórios brincantes
criança, naquele
parêntese, esse brinca
te da vida de uma
da década de
por um determinado grupo, em partir da década de 1970 no mundo, e
A
unico, porque é praticado do resgate
contexto, em tempo e espaço específicos. 1980 no Brasil, um crescente movimento em prol
um dado
fenòmeno à tona
da brincadeira das
cinco Marias ém
também do brincar tem trazido a importância desse
-
Esse é o caso
saquinhos, Cinco pedrinhas, jacks, nas práticas cotidianas das vidas infantis e por meio de es-
conhecida como jogo dos
tudos, pesquisas e publicações. Nestas, têm sido apontada
a
entre outros nomes,
brincada desde aa
os ossinhos, por exem- espelhos de valores e culturas dos diversos grupos infantis.
senta um simbolismo em sua origem:
Nosso país tem uma riqueza infindável de norte a sul,
usados para predizer o futuro e são considerados
plo, eram com culturas lúdicas heterogêneas, diversas e comuns, devi-
transmitida oralmente,
os ancestrais dos dados. Brincadeira
do à influência das culturas europeias, africanas e indigenas
à
constitui um desafio à coordenação motora, atenção, uma
sul-americanas e
círculo sagrado de uma, duas e, mais recentemente, norte-americanas,
troca não verbal dentro de um
orientais. Assim como o tombamento de muitos monumen-
ou mais crianças, desafiadas pelo espaço, pelos materiais,
tos materializam a história, o brincar constitui-se em um
repertórios lúdicos, ou de
construírem seus próprios brin- juntam brincadeiras ou
mais diversos divertidos nomes, que escondem a pers-
é uma forma de contribuir com a saúde e integri. os e
quedos, malícia desses pequenos
dade mental, física e emocional: são processos, vivências e picácia, a esperteza, sapiênciae
a a
belos humanos.
permanentes. Nessas "brechas lúdicas" mora e seres
aprendizados
o germe do processo criativo dos seres humanos, oportu- Adentrando os labirintos do mapa, aprendemos novo
o Brasil nos contarem da charada, cabecinha, matar tanajura, pula chinelos, banda
suas
andanças brincantes. Não pedi-
10 Parte deste trecho foi
dógui, lenga lalenga, caixinha de surpresas, stop português,
originalmente publicado em 2009.
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82 Avez e a voz das crianças
Strecks, mininoides, vacineiral de S.Paulo mais difundido
Apesar de o jornal Folha
ser
tech deck, salmão, meiuda,
dos dragões, misturinha, mar. tivemos uma boa representação
estrela e Happy Town, o reino nas regioes Sul e Sudeste,
seu urso, corrida do pô, Star de Alagoas; muitíssimosda
cha do jornal, Twister, acorda, de materiais vindos do Acre,
perigosos, batom, acorda Distrito Federal, Espírito
Wars, arma, tigre branco, desafios Bahia e mais ainda do Ceará. Do
imensa quantidade
leão. Muitos desses nomes são desconhecidos para a maior Santo, Mato Grosso do Sul, Maranhão;
brincadeiras são de autoria de crianças. de Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Piaui; expressiva do
parte de nós. Essas
não de adultos, por elas foram criadas e ressignificadas. Rio de Janeiro; pouquíssimos de Santa Catarina, Tocantins,
muito interes-
As crianças têm liberdade para desenvolver seu próprio Maceió; e a grande maioria de São Paulo. E
sante observar que, em São Paulo, há repre-
enorme
repertório, brincadeiras, novidades para nós,
vocabulário e
uma
jetos e personagens dos seus cotidianos, animais, alimentos, Outra peculiaridade da diversidade recebida foi que
todas crianças que encaminharam materiais citam
ações e figuras agressivas, sexualidade, ironias etc. nem as
Por ocasião dessa pesquisa, recebemos materiais de crian- escolas como principal. Associações, fundações, um
fonte
ças entre dois e 14 anos, sendo que a maior concentração e número surpreendente de bibliotecas, organizações não
quantidade variou entre sete e 12 anos. Alguns adultos incen- governamentais (ONGs), centros assistenciais, muitas esco
escolas
tivaram crianças a encaminharem os materiais, outros foram las colégios de cunho religioso, colônias de férias,
e
muitos colégios;
recolhidos pela própria equipe da Folhinha, filmados, gravados municipais e grande parte das estaduais;
estado de São Paulo, Pontinhos de
e fotografados. A maior parte das crianças encaminhou suas escolas indígenas do
brincadeiras por e-mail, mas boa parte delas enviou por correio Cultura, casas de cultura e centros de artes, centros espor-
de música in-
as descrições acompanhadas de lindos desenhos. Foi imenso o tivos, unidades do Sesc, escolas de línguas e
prazer de pegar esses materiais escritos com a espontaneida- centivaram crianças a enviarem os materiais.
as
meio
de e o colorido de cada A maior parte das crianças soube da campanha por
criança que fez um parêntese em seu
cotidiano para partilhar conosco suas de suas escolas, instituições de contato, pela internet, jorna-
linguagens lúdicas.
Lin-
boca boca. Mas foi também signifi
guagens que nós tentamos traduzir, decodificar, compreender listas, educadores e no a
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Expressões infantis 85
Avez e a voz das crianças
própria esperteza e destreza, desafiando os No mar de
pegadorer eram supimpas.
perimentando sabedoria de perninhas, exploran ex
comuns
a suas mais
até as
brincadeiras
suas
vidas lúdicas
das for
mais variados espaços. Inventarndo
contaram
que
reinventando moda e
quase
10 mil vozes
relatos
detalhados e
superdescritivos,
c o m o as
língua, esse é o
essa a nossa
tas coletâneas virtuais
e
rados, encantados com tanta ludicidade viva transpassando titui patrimônio das infantis, documento vivo,
nossas culturas
O que as crianças têm conseguido, e não sabem, é mo- pa de qualquer limite ou fronteira e m que se pretenda classifi-
bilizar muitos adultos para um mergulho profundo e sem cá-las, enquadrá-las. Mas há um desafio maior à nossa frente,
não literal,
mascaras nos seus universos: conhecidos porque cada um que é sua decodificação, tradução, compreensão
deles já brincou simbólica, que diz da vida dos seus protagonistas.
algum momento; desconhecidos
em por-
que poucos brincam junto com elas hoje.
PARA REFLETIR
As crianças têm nos instigado a sair do nosso lugar, nosS
Está na hora de brincar,
"desacomodaram", como diz Jean Piaget (1896-1980), e com o que cada um tiver de melhor sua imaginação-
nos obrigaram a trocar nossas lentes por olhares "supim- com o que cada um puder - seus desafios
pas: esse foi o nome com que batizamos brincadeiras que que cada
com o um
quiser.
Julgamos especiais, diferentonas. Mas, verdadeiramente
86 A vez Expressões infantis 87
e a voz das crianças
desenhos
sociais,
gibis,
redes ali-
internet,
campos
que
mídia,
Teatro apoiados
pela televisão e
cinema,
de imaginação.
p r o g r a m a s ea
O teatro é um grande faz de conta, uma experiencia animados,
continuamente
o faz de conta ser
uma
experiên-
plateia pode
completamente integrada as outras vividas pelas criancae mentam
para
uma
oferecera
elas pos
Apresentar-se
porém,
Nesse brincar de teatro tem origem a criação infantil: as as
crianças, representações
i n t e r e s s a n t e
para meio de
cia por
a brincar de serem pessoas ou coisas di. como
sibilidades
de se
desafio
interior
performance
propriamente
desde que o
leva a imitar significativamente seus gestos, movimentos e
um processo
interessante,
desenhar ou
escrever
as
bém escolher
vontade para ainda si-
expressões. crianças à conhecidas,
ou
outras
figurinos, objetos de histórias,
encenar
representam
-
fazem teatro -
de significar
às linguagens que elas produzem,
por conhecè-las.
intelectuais se associam
da
no processo de construção
importantes experiências
sentido de si. outras narrativas
própria imagem e
contar histórias Literatura, contos,
histórias e
em que palavras
imagens são as principais
e Ouvir e ler histórias,
em suas postu-
assumidos pelas crianças
Os -
criarem suas proprias histórias, es. mos psicoterapeutas, é um meio de ficarmos próximos dos
Deixar as crianças
representá-las, brincá-las! Uma seus universos profundos. O sonho pode realmente ser evo
crevê-las, desenhá-las,
cada criança. E fundamental ter pro cado, muitas vezes reinventado, assim como acontece com
vida paralela na de
mistério que cada uma encerra em si o faz de conta ou com qualquer outra das narrativas expres-
fundo respeito pelo
de vida, alegria e entusiasmo ao
proposta sivas sobre as quais refletimos até aqui. O mais importante
quanto à sua
Sonhos
Os sonhos são expressões do inconsciente dos seres
está por trás e profundamente enraizado em todos nós. Fonte: Friedmann, A. A vez e a voz das
Embora nossa cultura não preste tanta atenção nas mensa- crianças. São Paulo: Panda Books, 2020.
gens que vêm do inconsciente, é fundamental considerar
revelam o
que, assim como os sonhos, as artes e o brincar,
lado oculto, não dito e profundo das crianças.
O psicoterapeuta junguiano Roberto Gambini desenvol-
veu, entre 2000 e 2007, uma importante pesquisa a par
tir de sonhos de crianças em três contextos diferentes: em
uma escola particular de classe média alta de São Paulo, em
uma favela do Rio de Janeiro e em uma comunidade indi-
gena no Amazonas. Nas três análises, possibilitou-se a aber
tura de espaços nos quais as crianças, com a mediação dos
adultos responsáveis, relatassem seus sonhos e
desenhas
os 110 relato dessas experiências encontra-se na palestra "Por uma edu-
sem. Os sonhos, os relatos e os desenhos aportaram conteu cação com alma", ministrada em evento realizado pela Aliança pela
dos inconscientes que passaram a fazer parte dos curriculos, Infância, em 2008. Disponível em: https://www.youtube.com/wat-
ch?v=ND9Kto-hev4. Acesso em: 18/10/2019.