Mídia e Controle Social - 1 Parte-1
Mídia e Controle Social - 1 Parte-1
ISBN: 978-85-7106-489*8
Os meios de comunicação de
massa e as agências do sistema
penal têm em comum a caracte-
rística de fazerem parte do con¬
trole social geral. Suas relações,
porém, se estreitam quando se
percebem os apelos que o crime
proporciona ao caráter sensacio¬
nalista de determinados jornais e
o interesse do sistema penal na
legitimação discursiva de seus
atos pelos meios de comunicação
- aqui, no caso, o jornal.
Este livro tem por objetivo
apresentar a forma como o jor¬
nal auxilia na construção social da
criminalidade, em conjunto com
'as demais instâncias de controle
Editora Revan
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Revisão
Antonio Castellar
Roberto Teixeira
Capa
Sense Design & Comunicação
Impressão e acabamento
(Em papel off-set 75 g. após paginação eletrónica,
em tipos Times new Roman 11/13)
Divisão Gráfica da Editora Revan
CIP-BRAS1L. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
B937m
7
j
Apresentação
9
outro e a criminalização da luta pela terra na 1
luta primordial do povo brasileiro, os história do Brasil. A terra como
grandes embates da constituição
território nacional onde esse povo é protagonista de um
chacinas que se inscreveram em nosso chão. tem sido a matriz de tantas Prefácio
autoras a resgatar a memória do Master, Marília Budó é uma das poucas
zola nos anos sessenta no Rio Grande movimento liderado por Leonel Bri- i
co Julião no Nordeste, para as do Sul, abrindo caminho, como Francis¬
lutas contemporâneas do MST.
Este livro articula a criminologia critica
como protagonista e condutora dos processos com a compreensão da mídia Criminologia, História e estórias midi áticas:
dar concretamente a truculência de criminalização para desven¬
contra os movimentos sociais de democrati¬ Para muito além de mocinhos e bandidos
zação da nossa terra. Na esteira
dar um passo a mais na compreensão
libertária de Vera Andrade, ele nos convida a
Numa manhã de meados do ano de 2005 um exemplar da monografia in¬
estratégica de uma visão minimalista e
abolicionista da questão criminal em nosso país, aqui titulada “Informar e punir: o papel da mídia no processo penal” (orientada péla
e agora. Prof. Deisy de Freitas Lima Ventura) me aguardava sobre a mesa da minha sala
no Centro de Ciências Jurídicas da UFSC. Ele fora enviado por uma candidata
Vera Malaguti Batista à seleção de mestrado 2006, por intermédio de um colega, para que eu avaliasse
Arpoador, março de 2013 a aderência da pesquisa, a qual ela pretendia dar continuidade, se aprovada fos¬
se, às minhas linhas e temas de orientação. A candidata era Marília De Nardin
Budó, e vinha da Universidade Federal de Santa Maria. Ainda que esta não fosse
uma cena incomum para mim, rememoro a singularidade da emoção que me
provocou. Na trajetória daquela jovem revivi, por um instante, minha própria
trajetória; mas a identificação - para além do projeto de duas jovens migrantes
do Rio Grande do Sul, em “séculos” diferentes, cm busca da renomada Acade¬
mia crítica do PPGD-UFSC - foi plena de sentido teórico e político.
Marília De Nardin Budó, simultaneamente formanda em Ciências Ju¬
rídicas e Sociais (com a monografia supracitada) e em Comunicação SociaL
-Jomalismo (com a monografia “Conflitos da notícia: liberdade de informação
e presunção de inocência em Zero Hora e Correio cio Povo", orientada pelo
Prof. Rogério Ferrer Koff), estava já situada na zona de confluência do Pro¬
cesso Penal e do Jornalismo, como evidenciavam suas duas monografias e
vinha em busca, sobretudo, da Criminologia. E uma vez exitoso seu projeto,
foi pelas mãos da Criminologia que selamos um vínculo acadêmico sólido,
na partilha de aprendizados e afetos que perpassou nossa relação nos mais
diversos espaços a que aquelé exemplar sobre a mesa nos conduziu. As ricas
vivências na sala de sala, no projeto de extensão Universidade sem Muros, no
“retiro criminológico”, nos congressos e eventos e no processo de orientação,
culminam com este grande encontro prefaciai em que a honra de apresentar
Marília e sua obra se agiganta, porque o faço a quatro mãos com a extraordi¬
nária criminóloga crítica e historiadora Vera Malaguti Batista e a força de sua
escritura emancipatória.
10
11
Ao longo daquele processo e dos compromissos acadêmicos sempre tuiçào declarada cidadã (que proíbe a existência de penas cruéis c difamantes e
coerentes que testemunhei a mestranda Marília assumindo, como, ao final, o de morte cm tempos de paz), emoldurando a violência institucional concebida
recorte do tema desta pesquisa, ficou claro que a “terra” não nos unia apenas como expressão de violência estrutural.
pelo comum local de origem (RS) e destino (SC), nem pelo fascínio geogrᬠTal é o marco teórico que imprime sentido ao subtítulo desta obra. Como
fico e cultural, mas como um direito humano dignificante que interpelava a não bastasse, esta moldura analítica é ainda enriquecida contcxtualmente, com
luta político-jurídica também para a Criminologia e a Academia, em nome o aporte da História (social económica e política) do Brasil, para a compreen¬
dos sujeitos que, ademais de terem sido dela violentamente destituídos, estão são do objeto nuclear sobre o qual Marília sc debruça: os assim construídos
sendo violentamente culpabilizados por lutarem pela sua restituição. Neste conflitos agrários como criminalidade pelo sistema penal brasileiro que têm
sentido, havia me engajado no problema da terra e da criminalização do MST na mídia o seu braço ideológico fundamental de legitimação; razão pela qual
desde o ano de 1998 quando, a convite de Marcelo Dias Varclla, participei da é precisamente a parte que toca à mídia, enquanto controle social informal, na
importante coletânea por ele organizada (“Rçvoluções no campo jurídico”. construção simbólica desta criminalidade, um dos pontos altos desta obra, me¬
Joinville: Oficina, 1998) com um trabalho denominado “A construção social diante primorosa análise do discurso (metodologia empregada) do jornal Zero
dos conflitos agrários como criminalidade”. Hora com a qual a autora ilustra, contundentemente, as hipóteses hauridas e a
Se a formação de Marília é assim marcada, desde o princípio, pelas re¬ argumentação desenvolvida no continuum histórico-criminológico.
lações entre controle penal e mídia e pela interdisciplinaridade, ambas reapa¬ Nas suas palavras,
recem ressignificadas nesta obra que, nascida desta feita como sua dissertação A análise do discurso realizada no trabalho com o objetivo dc ilustrar a abor¬
de mestrado, representa a culminação de uma trajetória em que a maturidade dagem teórica acerca do papel do jornalismo na construção social dos conflitos
teórica e metodológica, caminha pari passu com uma assumida posição ideoló¬ agrários em interação com o sistema penal, permitiu concluir que a lógica na
gica. Méritos, em grande medida, decorrentes da moldura analítica assumida, a qual o jornal insere a conflitualidade no campo é a de que os sem terra pro¬
saber, a Criminologia desenvolvida com base no paradigma da reação social e vocam os conflitos. São vulneradores de uma ordem pacífica, gerando quedas
sua cpistcinologia da sociedade e da conduta desviante (concebidas como uma de produtividade nas fazendas. Em função disso, os proprietários de terra, em
construção social), principalmente seu desenvolvimento como criminologia especial no Rio Grande do Sul, se reúnem para, cm conjunto com a Polícia
crítica, no marco da qual aquela visão da criminalidade (conducente à demons¬ Militar vigiar e controlar todos os passos do grupo. O jornal, no momento cm
que difunde a ideia de que há necessidade dc vigiá-los, também legitima o
tração da seletividade estigmatizante do sistema penal) c recolocada cm sua
controle social, de forma que a apreensão de seus instrumentos de trabalho, as
dimensão macrossociológica, ou seja, em sua relação funcional com a estrutura batidas policiais, os despejos violentos passam a ser naturalizados. Da mesma
da desigualdade social (conducente à demonstração de que a construção seletiva forma, os atos dos proprietários são expostos como reações em legítima defe¬
e estigmatizante da criminalidade operada pelo sistema penal, cm interação com sa. Pelo fato de as ações dos movimentos trazerem a desordem, o discurso da
a mídia, notadamente dos movimentos sociais c do MST expressa e reproduz a vigilância está ligado diretamente aos sentimentos de medo e tensão. Diante
desigualdade social). No continuum da moldura analítica, a pesquisadora lança do medo, reúncm-sc novamente os pressupostos para se chegar à conclusão de
mão, ainda, do contributo da criminologia crítica latino-americana e brasileira, que o papel do jornalismo é o dc auxiliar, no contexto das interações sociais,
que vem Conferindo ao criticismo criminológico europeu c norte-americano um na delimitação de um inimigo no campo, que é, antes de tudo, um inimigo po¬
desenvolvimento periférico, em que a história e o contexto social latino-ame¬ lítico, tendo em vista que não possui o estereótipo do criminoso comum (estão
ricano e brasileiro autorizam a concluir que aqui, na periferia, a seletividade lutando junto mulheres, crianças e idosos), e principalmentc, busca implantar
uma revolução socialista. Ou seja, a sua perseguição é explicada tanto pelo
estigmatizante assume os contornos, na já clássica formulação de Zaffaroni, de
medo que provocam em relação à perda da propriedade da terra (que tem o
um “genocídio em marcha”, “genocídio em ato”1. A pena de morte informal poder dos grandes estanciciros incrustado em cada palmo), quanto pela sua
vige no Brasil, no campo c na cidade, subterraneamente, à deriva da Consti- ideologia política, o que gera ainda mais temor. Identificando-se um conflito,
uma desordem, toma-se necessário aplicar o único código conhecido: o da
1 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: A perda dc legitimi¬ individualização do autor do fato e o da aplicação da rcspectiva pena.
dade do sistema penal. Rio dc Janeiro: Rcvan, 1991.
12 13
A funcionalidade do discurso midiático resta ideologicamente clara: [...] essa perspectiva permite visualizara responsabilidade não apenas dos fa¬
construirá identificação entre sem-terra-criminosos-desordeiros-violentos; ou zendeiros, que promovem assassinatos, lesões e outros danos aos sem terra, ou
seja, construir os conflitos agrários como violência individual e/ou grupai, dospoliciais que impingem da forma mais crua a violência institucional. Tam¬
invisibilizando e desresponsabilizando a conflitualidade de raiz, a violência bém os membros do Judiciário, que não estão na lula face a face, e da forma
estrutural, bem como a violência institucional. Dessa forma, “quanto mais no¬ mais asséptica tomam decisões que repercutem das formas mais cruéis sobre
ticias são apresentadas sobre a questão agrária, menos sobre a questão agrária comunidades inteiras. Além disso, as próprias organizações jornalísticas, que
pode ser compreendido, c mais invisível se toma a conflitualidade no campo". em conjunto com os discursos que paradoxalmente auxiliam na desinfonnação
acerca da conflitualidade no campo, legitimam o recrudescimento dás violên¬
Tal conjunto de escolhas levou a autora deste Mídia e controle social:
cias individual e institucional.
da construção da criminalidade dos movimentos sociais à reprodução da vio¬
lência estrutural a um movimento analítico de alta complexidade. Ela teve que Enfim, contar a história do presente da criminalização do MST com o
lidar, do início ao fim do seu trabalho, com análises cruzadas entre os campos aporte construcionista-marxista-perifcrico, ilustrada com a análise do discur¬
da Criminologia, da História e do Jornalismo (sem desprezar ainda contribui¬ so midiático é contar, de outro locus, de um locus marginal, as estórias dm
ções ora da Antropologia ora da Sociologia ou da Teoria Política), em que o seu quadrinhos do jornal Zero Hora, e do senso comum social e jurídico, visibili-
objeto de análise também foi cumulativamente sendo ampliado, desvendado zando uma história sonegada de sofrimento na terra, visibilizando o invisível
e enriquecido, demonstrando, em todos os momentos, extrema competência e expondo a disputa pelo poder discursos: os discursos dominantes destilam
intelectual e didática sem nunca deixar seu texto cair na monotonia ou no mo¬ a violência dos dominados: os discursos críticos são radicais, porque vão às
nólogo do hermetismo incognoscivel. Ao contrário, as marcas aqui são de um raízes, desentranham-nas das estruturas e instituições.
texto vital, em que a competência discursiva caminha pari passu com a voz hu¬ O ponto de vista e de chegada assumidos pela autora, coerentemente
manista da autora, que se posiciona, porque, em definitivo, o grande objeto da com seu marco teórico, é, portanto, o de que a conflitualidade no campo c
narrativa da hoje professora Marília De Nardin Budó são os sujeitos; sujeitos estrutural, ou seja, enraizada na estrutura fundiária concentrada e desigual que
em situação de repressão de necessidades e direitos humanos, são vidas huma¬ atravessa a história da formação social brasileira desde a colonização até - e
nas despedaçadas e/ou ceifadas pela histórica violência da estrutura fundiária agravadamente - os nossos dias, sendo que as demais violências (interindi-
brasileira, sujeitos que se (rc)unem na luta contra esta situação. < vidual, grupai, institucional) dela derivam e a ela reenviam; e de que a cons¬
Eis aí o sentido político “vital” de movimentos como o MST: trução social dos conflitos agrários pelo sistema penal e a mídia jornalística,
“Diante da violência da concentração das riquezas, que destina à miséria gran¬
criminalizando-culpabilizando os movimentos sociais (notadamente o MST)
de parte da população, a organização dos trabalhadores em movimentos sociais não faz mais do que expressar c reproduzir, em sua própria semântica, uma
é a kita pela vida”. tal violência estrutural, convalidando a ordem vigente e o status quo social.
A fala de Maria Lúcia Karam, em outro lugar, di-lo com perfeita ade¬
ou quação ao marco analítico desta obra, que:
“A importância do surgimento do MST consiste, portanto, na resposta orga¬ A exata compreensão do quadro de violência que, marcando a história da for¬
nizada à morte, buscando, através da união, conquistar os direitos a uma vida mação social brasileira, encóntra no processo de concentração da propriedade
(
digna no campo”. fundiária e privação da terra uma e suas mais significativas manifestações,
O grande objeto da narrativa da professora Budó são ainda os sujeitos passa pelo abandono da estreita e funcional noção dominante de violência,
que cotidiana e monocordicamente identificada à ideia de criminalidade, perde
i do controle social e penal (policias, promotores de justiça, juízes, jornalistas
sua real abrangência, para, dentre outras consequências, permitir e alimentar
a
, etc.) que intermedeiam o processo de comunicação entre os que exploram e solução penal2.
fácil, falsa e perversa
excluem e os que lutam contra a exclusão, imprimindo-lhe um sentido espe¬
cífico, a saber, regra geral, de reproduzir a violência estrutural, de modo que a 2 KARAM, Maria Lúcia. Sistema penal e luta pela terra. In: VARELLA, Marcelo
autora pode chamá-los à responsabilidade: Dias (org.). Revoluções no Campo Jurídico. Joinville: OFICINA, 1998. p. 243-
260.
14 15
A densa trajetória seguida por Marília permite então concluir que:
Sabendo-se que as violências no campo iniciam-se pela violência estrutural, Nota da autora
cabe verificar que, enquanto não houver uma verdadeira preocupação com a
desconcentração da estrutura fundiária brasileira, pouco se avançará no sentido
de reduzir as demais formas de violência. Assim é que o sistema penai conti¬
nua sendo mobilizado para agir em situações de conflito; que proprietários ru¬
rais seguem ameaçando e matando; que o Poder Judiciário mantém sua política
de conservação das estruturas.
Este livro traz o resultado de dois anos de pesquisa no mestrado do Pro¬
grama de Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Cata¬
Em razão dos seus méritos, estamos perante uma obra inovadora, que rina, sob a orientação da professora Doutora Vera Regina Pereira de Andrade.
ao mesmo tempo em que valoriza o conhecimento criminológico historica¬ A dissertação de mestrado foi defendida em março de 2008, e, por isso,
mente acumulado, produz conhecimento novó, vindo somar-se ao conjunto a parte empírica do trabalho - análise de edições do jornal Zero Hora a respei¬
de esforços reunidos no Brasil e, sobretudo, no Curso de Pós-Graduação em -
to da questão agrária data dos anos de 2006 e 2007.
Direito da UFSC, para a compreensão do controle social e penal brasileiros. De lá para cá, muitas situações interessantes ocorreram no estado do
Nessa direção, temos apontado para a necessidade não apenas do desenvolvi¬ Rio Grande do Sul a respeito da criminalização dos movimentos sociais. Mas
mento da criminologia crítica no Brasil, mas para o desenvolvimento de uma nada, infelizmente, destoa do que foi a cobertura do jornal sobre a questão
criminologia crítica brasileira, capaz de produzir conhecimento para a com¬ agrária naquele momento. Os temas da concentração de terras no país, da sem¬
preensão, simultânea, de nossa dependência/diferença e, simultaneamente, pre adiada reforma agrária, e mesmo da violência no campo continuam sendo
edificar-se como resistência abolicionista-minimalista ao incansável processo retratados sob as mesmas chaves interpretativas: aquelas que despolitizam os
de criminalização em curso, que só faz multiplicar danos e vítimas, como movimentos sociais, individualizam os conflitos no campo e desconsideram
aqui, uma vez mais, se demonstra. a violência estrutural na raiz das conflitualidades vivenciadas no meio rural.
E falando em criminologia crítica brasileira, meu escrito estaria in¬ Os dados a respeito da concentração da terra no Brasil, bem como sobre v j,
1 . os conflitos no campo foram todos
completo se não finalizasse com uma homenagem a Vera Malaguti Batista, atualizados para a publicação. Q que não \
com quem divido aqui a responsabilidade de um “dizer” público que desvele ^significa, da mesma maneira, que mudanças significativas tenhanFocorrido.
a contento significados dos quais esta belíssima obra é portadora, conseguindo ' No âmbito da concentração de terras, não houve qualquer tipo de melhora. A
respeito dos conflitos no campo e dos assassinatos deles decorrentes tampou¬
alargar, ainda mais, o diálogo com seus privilegiados leitores. Verinha, como
co houve mudança significativa. No que tange às políticas de reforma agrá¬
Nilo Batista amorosamente a ela se refere, não está presente apenas neste lu¬
ria, a situação se apresenta mais grave, pois após uma expansão nas políticas
gar, mas ao longo de toda esta obra, como bem compreendeu a professora
Marília, como a referência pioneira e mais grandiosa de que é apenas de mãos , de assentamento especialmente nos anos de 2005 e 2006, a partir de 2007
iniciou-se uma queda, atingindo-se em 2011 o menor número de famílias as¬
dadas com a História que a criminologia crítica brasileira avançará rumo à
sentadas dos últimos vinte anos.
compreensão de nossa identidade, para além das perpétuas e fantasiosas estó- i Sabendo-se que as violências no campo iniciam-se pela violência es-
rias midiáticas de mocinhos e bandidos (bem x mal), sem se tomar, por isso, i trutural, cabe verificar que, enquanto não houver úma verdadeira preocupação
ensimesmada. 1 còm a desconcentração da estrutura fundiária brasileira, pouco se avançará no
I sentido de reduzir as demais formas de violência. Assim é que o sistema penal
Vera Regina Pereira de Andrade 1 continua sendo mobilizado para agir em situações de conflito; que proprietá-
-
Ilha de Santa Catarina inverno de 2013 , rios rurais seguem ameaçando e matando; que o Poder Judiciário mantém sua ;
' política de conservação das estruturas.
' O MST aparece aí como o movimento irresignado a lutar por mudanças <
que não interessam a boa parte do setor político, relacionado ao agronegócio
16 17
— ca aprovação do Código Florestal na Câmara dos Deputados simboliza bem
esse poder - c segue sendo criminalizado discursivamente pela mídia, em pro¬
funda interação com o poder económico e com o sistema pcnaC^
As violências pública e privada contra os setores excluídos da popu¬
lação vêm sendo diariamente reproduzidas pelos meios de comunicação, ao I
18 19
Sumário
PREFÁCIO . 11
INTRODUÇÃO 23
SOCIALMENTE CONSTRUÍDA 27
l.l Da construção social da criminalidade à reprodução
social das desigualdades 27
1.1.1 A sociologia interpretativa e a teoria do etiquetamerito 30
1.1.2 A interação entre controle social formal e informal na
construção social da criminalidade 39
1.1.3 A reprodução das desigualdades pelo sistema penal:
resultados da criminologia critica .................................... 51
1.1.4 O sistema penal diante da globalização 62
1.2 O crime no jornal: entre credibilidade e sensacionalismo 76
1.2.1 A pesquisa em comunicação e a problemática
dos efeitos da mídia 77
1.2.2 A notícia como construção social 87
1.2.3 O sistema penal nas notícias: controle social
e legitimação 102
1.2.4 O discurso da emergência
e a re legitimação do sistema penal 109
21
2. 1 .1 A concentração de terra e a promessa de
agrária no Brasil: o surgimento dos grupos reforma
organizados de luta pela terra
119 Introdução
2. 1.2 A reforma agrária no período pós-ditadura:
/v a permanência
da concentração da terra e das violências no campo
133
2.1.3 A luta contra a violência e a violência da reação
à luta 1 54
2.1.4 Da violência estrutural à violência
institucional. Ou:
para os amigos, a lei; para os inimigos, Sistema penaP e mídia14 são assuntos que frequentemente sc cruzam,
o arbítrio 167 tendo em vista o interesse desta pelos apelos que o crime carrega, além do
2.2 Os conflitos agrários nas páginas do jornal: o próprio papel que suas abordagens desempenham na construção da imagem
medo
da luta, o medo do outro do que vem a ser o crime, quem são os criminosos, e, por consequência, qual
182
2.2.1 O discurso do jornal sobre os conflitos agrários: deve ser a esfera de atuação do próprio sistema penal. Porém, essa relação
método de análise vai muito além do que se costuma enfatizar, podcndo-sc afirmar que ambos
183
2.2.2 Desordem, tensão e insegurança: para qual são instâncias do controle social geral, caractcrizando-sc a mídia como me¬
direção se voltam os binóculos? canismo de controle social informai, e o sistema penai como mecanismo de
2.2.3 Do medo à repressão: o sistema penal no
197 ' controle social formal. Partindo-se da percepção da criminalidade como reali¬
discurso dade construída socialmente, é importante verificar que tanto a mídia como o
do jornal sobre os conflitos agrários
219 sistema penal atuam nessa construção.
2.2.4 Conflitos agrários no jornal: da invisibilidade De uma legitimação cotidiana do sistema penal operada diariamente
à satanização nas pequenas noticias selecionadas dentre tantos crimes cometidos, a mídia
233
atua ainda como instrumento de rclcgitimação do sistema: as emergências
CONCLUSÃO construídas a cada novo escândalo criminal levam a alterações na legislação
247
REFERÊNCIAS penal, bem como a decisões judiciais pouco fundamentadas, especialinentc
253 sobre prisão preventiva.
REFERÊNCIAS DO CORPUS DE PESQUISA
269 •
1
No contexto atual de globalização e mundialização da informação, a
mídia exerce um papel central nos diferentes aspectos da vida humana. Es-
pecificamente, o jornalismo, nos diferentes meios de comunicação de mas-
1
Sistema penal, neste trabalho, refere-se aos órgãos de controle penal que realizam a
criminaiizaçâo, seja a partir da edição de textos legais (criminaiizaçâo primária), seja
a partir da atuação policia! e do sistema de justiça criminai (criminaiizaçâo secun¬
dária), seja durante o cumprimento da pena, em especial na prisão (criminaiizaçâo
terciária). O processo de criminaiizaçâo é estudado na primeira parte do trabalho.
4
A palavra “Mídia” provém do termo latino “media”, que significa mediação. Refe¬
re-se nesse trabalho ao conjunto dos meios de comunicação de massa, que realizam
a mediação de diferentes tipos de mensagens para o público. Inclui-se, portanto,
televisão, rádio, internet, cinema, jornais e outros materiais impressos em grande
escala. A expressão independe do gênero de que se trata, ou seja, se é ficção, entre¬
tenimento, jornalismo, etc. Já o termo jornalismo, distingue-se por sc tratar de uma
parte específica do conteúdo da mídia, que se propõe a comunicar ao público fatos
verídicos e atuais.
22
i 23
sa, declara-se a parcela de narração factual dos acontecimentos, competindo A partir da década de cinquenta do século passado, novas formas de
ao jornal levar cm conta a verdade e a objetividade. Porém, ao se analisar reivindicação de terras tomaram conta do cenário rural brasileiro. Trata-se da
a notícia como sendo ela própria uma construção social, percebe-se que, ao organização dos trabalhadores rurais destituídos de terra para plantar e habi¬
selecionar os fatos importantes e os ângulos interessantes de toda a gama de tar, em função de várias motivos, corno a expulsão, o desemprego e a expro¬
acontecimentos diários, utiliza-se algum tipo de critério que, simultaneamente priação, reivindicando a reforma agrária. A década de oitenta, com a abertura
ao processo de sua exposição, oculta outros tantos. Assim, estudar o jornalis¬ política e com a constituinte, trouxe uma efervescência participativa nesse
mo significa estudar uma forma de construção seletiva da realidade. sentido. Foi a década da formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Por outro lado, o estudo a respeito da construção social da criminalidade Sem Terra (MST).
reveste-se de uma atualidade permanente, mas tem um sentido especial devido Nos anos noventa, consolidaram-se as lutas pela reforma agrária, diante
à propagação crescente de sentimentos de medo e insegurança na sociedade. de um contexto político desfavorável, mas de muita organização. Foi também
Principalmente nos últimos vinte anos, a maior parte dos países ocidentais, a uma década de grandes atrocidades cometidas através da repressão e da vio¬
pretexto de conter a violência3, vem buscando resolver o problema através da lência no campo.56 A violência estrutural como pano de fundo para a repressão
edição constante de nonnas penais e da adoção de políticas criminais cada vez policial, os assassinatos, os despejos, continuam caracterizando as relações
mais repressivas. Entretanto, o resultado dessas políticas tem sido cada vez sociais no campo na atualidade.
mais a perseguição aos socialmente excluídos do sistema, que abarrotam as A partir desses dados, a pesquisa versa sobre a forma como sistema pe¬
prisões, reproduzindo-se as violências estrutural e institucional. nal e mídia interagem no discurso do jornal, de forma a compreender o papel
Na atualidade brasileira, apesar de as cidades e, portanto, a violência do controle social formal e informal na despolitização e criminalização das
urbana, serem mais constantemente objeto de análise de estudiosos, bem ações empreendidas pelos movimentos sociais que lutam pela reforma agrária.
como o palcó dos acontecimentos publicados na mídia, as violências no cam¬ O marco teórico do trabalho é a criminologia crítica, em especial na
po também vêm se agravando a cada dia. Nesse contexto se insere a luta pela compreensão de Alessandro Baratta, em sua origem europeia, e a criminolo¬
terra. Revoltas populares cuja reação resultou em derramamento de sangue gia critica latino-americana, em especial na obra de Lola Aniyar de Castro,
ocorreram durante toda a história do pais, tendo como vítimas os indígenas, Vera Malaguti Batista, Vera Regina Pereira de Andrade, Eugênio RaúlZaffa-
quilombolas, posseiros, colonos, trabalhadores rurais sem terra. A atualidade roni e Nilo Batista.
desses conflitos permanece, sendo que outros interesses puderam se mostrar A escolha desse marco teórico é, na realidade, a opção por um para¬
mais fortes em relação às antigas promessas de reforma agrária. O panorama digma crítico, que busque visualizar de maneira macrossociológica como a
nesse sentido é preocupante, pois apesar de haver algumas desapropriações de criminalidade é socialmente construída a partir de diferentes mecanismos e,
terras, e alguns assentamentos, nenhuma das medidas tímidas tomadas con¬ sobretudo, através do discurso. O discurso midiático é analisado no intuito
temporaneamente consegue diminuir as enormes proporções a que chega a de verificar de que maneira ocorre a representação dos conflitos agrários no
desigualdade social e o aumento da miséria no campo. estado do Rio Grande do Sul, ressaltando a interação discursiva dos diversos
atores implicados: mídia, agências do sistema penal, movimentos sociais e
proprietários rurais.
A criminalidade não é um dado, mas sim um produto das interações
5
O termo aqui diz respeito à violência individual, sinónimo de agressão física. No
deconer do texto, outras formas de violência são destacadas e sua distinção concei¬ entre controle social formal e informal: é para onde se voltam os binóculos
tuai vem explicada nos tópicos 2.1.3 e 2.1.4. Parte-se nesse trabalho de uma visão
materialista acerca da violência, não a reduzindo à violência individual, mas consi¬ 6
A expressão “violência no campo” é utilizada pela maior parte dos autores com o
derando uma violência estrutural, subjacente às demais, decorrente da repressão das significado de agressão física, espancamentos, assassinatos, torturas etc. Por ser
necessidades humanas fundamentais. BARATTA, Alessandro. Derechos humanos: um termo já consolidado na literatura manter-se-á este significado, mesmo que
entre violência estructural y violência penal. Por la pacificación de los conflictos vio¬ provenha da violência individual, de grupo ou institucional. Porém, a diferença ter¬
lentos. In: ELBERT, Carlos Alberto. Criminologia y sistema penal: Compilación in minológica aparecerá através do uso do plural, violências no campo, significando a
memorian. p. 334-356. Montevideo/Buenos Aires: B de F, 2004. p. 338. violência na sua forma geral, que abarca as demais.
24 25
que se buscará a criminalidade. O foco nas ações do
movimento dos sem ter¬
ra provoca a compreensão de que seus atos estão
revestidos de ilegalidades,
permitindo que se construa discursivamente a possibilidade
de intervenções
repressivas das agências do sistema penal,
resultando em prisões, espanca¬
mentos, torturas e mortes.
A obra está dividida em duas partes. A primeira
delas tem por objetivo
estudar a percepção sobre a criminalidade como uma
realidade socialmente 1
construída, a partir da interação entre controle social
formal e controle social
informal. Por isso, essa seção está subdividida de tal forma que A CRIMINALIDADE COMO
abarque o
papel do controle penal (1.1), rclacionando-sc,
ao mesmo tempo, com o papel REALIDADE SOCIALMENTE
do jornalismo (1.2), na construção social da
criminalidade.
A segunda parte segue a mesma metodologia, buscando, CONSTRUÍDA
te, analisar as violências no campo, em especial primeiramen¬
em sua interação com o sis¬
tema penal (2.1), para, posteriormente,
agora não apenas na construção social da realidade, ao papel do jornalismo,
relacioná-las O surgimento e desenvolvimento do jorna) sempre estiveram relacio¬
mas especificamente na nados aos acontecimentos negativos, em especial aos crimes que provocavam
construção social dos conflitos agrários (2.2). Ao rupturas no seio da sociedade. Assim foi desde os panfletos existentes ainda
final [Link] capítulo
realiza-se ainda uma análise de edições do jornal Zero Hora no antigo regime na Europa.1 No período atual, quando o jornalismo se con¬
questão agrária, com o objetivo de exemplificar
a respeito da
a interação discursiva entre os verte ao espetáculo oferecido pela televisão, as suas relações com o sistema
diferentes atores e a representação midiática da luta pela terra. penal tomam-se um importante objeto de estudo.
O objetivo desta seção é analisar, no marco da criminologia crítica, ambos
os campos através de sua interação no controle social geral. A primeira subseção
busca analisar o papel das agencias de controle social formal na construção so¬
cial da criminalidade (1.1). A partir daí, parte-se para o estudo das teorias acerca
dos meios de comunicação de massa, de maneira a verificar, através da constru¬
ção social das notícias, a maneira como opera o controle social informal a partir
do jornalismo, e suas relações com o controle social formal (1.2). A finalidade
desse percurso é identificar como a interação entre as duas formas de controle
-
social auxilia na construção social - seletiva da criminalidade.
1
BARATA, Francesc. Los mass tnedia y el pensamiento criminológico. In:
BERGALLI, Roberto (coord.). Sistema penal y problemas sociales. Va¬
lência: Tirant lo Blanch, 2003.
26
ter crimes, passa a ser o objeto de intervenção do Estado na busca pelo seu
teóricos implicava a utilização do método racional-dedutivo, em voga na época,
a sua unidade ideológica tratou principalmente do problema dos limites do poder
tratamento e reinserção no pólo “normal” da sociedade.6 A Escola Positiva
exerceu um papel essencial nas associações entre “o pobre, o feio, o anormal
de punir do Estado em contraponto à liberdade dos indivíduos? Isso porque a
e o perigoso”, da mesma forma como entre “o rico, o belo, o inofensivo”, a
tradição pré-moderna trazia um sistema inquisitório de processo, quando as mais
partir de estudos experimentais sobre a população penitenciária.7
simples garantias de defesa do acusado eram inexistentes, o que tomava a acusa¬
Apesar de em grande parte os postulados da Escola Positiva terem sido
ção complctamente obscura ao indivíduo, atentando contra a certeza do Direito e
a segurança jurídica. Nesse sentido, costuma-se identificar como marco da elabo¬ abandonados8 com o surgimento da Escola tecniçista, a qual buscava a ex¬
clusão de todo e qualquer elemento jusnaturalista, biológico, sociológico, ou
ração clássica do Direito Penal a obra do italiano Cesare Beccaria, de 1764, “Dos
psicológico do Direito Penal, é possível afirmar que Escola Clássica e Escola
delitos e das penas”.Com base contratualista, essa obra apresenta uma série de
Positiva acabaram se complementando nas legislações do século XX.9 Tam¬
argumentos e princípios que deslegitimam o arbítrio estatal em matéria penal.23
bém se complementaram no desenvolvimento da ideologia da defesa social,
E importante destacar, na esteira de Aniyar de Castro, que essa esco¬
que permeia o senso comum e todos os sistemas penais criados nesses moldes.
la já “é ela mesma uma criminologia administrativa e legal, uma forma de
Muito embora o Direito Penal tenha sido hermeticamente fechado no
controle social fundante da nova ordem estabelecida pela via da dominação
estudo dogmático das normas penais, a sociologia seguiu os estudos relati¬
legal”.4Exerceu ela também uma função política, buscando assegurar a “pre- vos ao crime e à sociedade especialmente nos Estados Unidos. Essas teorias
visibilidade necessária para o livre mercado, interesse central da classe em as¬ sociológicas são apresentadas na obra clássica de Alessandro Baratta. Após
censão, que antes estava em posição subordinada e que deveria garantir agora identificar os princípios que compõem a ideologia da defesa social, ou seja, a
seu direito ao poder em face dos resíduos ideológicos do sistema feudal”.5 ideologia penal dominante, o autor faz uso das teorias sociológicas com o ob¬
Em função de mudanças nos contextos social, económico e político, jetivo de contrapô-los um a um. Sendo essa ideologia o que legitima o sistema
o século XIX já trouxe teorias sobre o crime bastante diversas. É o auge da penal, a sua crítica põe a nu a sua deslegitimação, com a consequência de se
Escola Positiva, cujo paradigma de ciência já não é mais o da filosofia jusra- buscar alternativas político-criminais ao sistema penal.10
cionalista, e sim o do evolucionismo, sendo o método característico do perí¬
6
odo o empírico-experimental, a partir de um raciocínio indutivo. Ao invés de CID MOLINÉ, José; LARRAURI PIJOAN, Elena. Teorias criminológicas. Ex-
justificar a liberdade do indivíduo a partir de uma ordem natural universal, e plicación y prevención de la delincuencia. Barcelona: Bosch, 2001 . p. 57-62.
7
ANIYAR DE CASTRO, [Link]. cit. p. 74.
então limitai' o poder de punir do Estado, a Escola Positiva desloca o foco de 8
No contexto de uma visível evolução tecnológica, o paradigma etiológico vem ga¬
atenção para o homem criminoso, buscando nele as causas do crime. Assim, nhando adeptos no mudo inteiro, que buscam, através do uso das mais avançadas
de limite ao poder de punir do Estado, o indivíduo criminoso, visto como um tecnologias ligadas ao estudo do cérebro e da genética, encontrar as causas do cri¬
“anormal”, biológica, antropológica e sociologicamente determinado a come¬ me na pessoa do criminoso. Algumas continuam relacionando a delinquência com a
constituição física; outras com a inteligência, com a personalidade e outros fatores
2 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurídica. Do biológicos. CID MOLINÉ, José; LARRAURI PIJOAN, Elena. op. cit. p. 68-77.
controle da violência à violência do controle penal. 2 ed. Porto Alegre: ’ BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. 3 ed. Rio
de Janeiro: Revan/ICC, 2002.
Livraria do Advogado, 2003. p.47. A unificação de vários teóricos em uma 10
A ideologia da defesa social é especificada por Baratta, como sendo a ideologia
mesma escola não significa a sua homogeneidade. Segundo Andrade, a Es¬ que une tanto Escola Clássica como Escola Positiva, sendo constituída por alguns
cola Clássica “não constitui um bloco monolítico de concepções, caracteri- princípios, negados por algumas teorias: princípio da legitimidade, negado pelas
zando-se por uma grande variedade de tendências divergentes e em alguns teorias psicanalíticas; o princípio do bem e do mal, negado pela teoria das subcuitu-
aspectos opostos”, ibid. p. 45. O que possibilita a sua reunião é a unidade ras criminais; o princípio do interesse social e do delito natural, negado pela teoria
ideológica e metodológica, como frisado acima. estrutural-funcionalista; o princípio da igualdade, negado pelo labelling approach;
3 BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. São Paulo: Martins Fontes, 1997. o princípio da culpabilidade, negado pela sociologia do conflito e o princípio da
finalidade ou da prevenção negado pela recepção alemã do labelling approach.
4
ANIYAR DE CASTRO, Lola. Criminologia da libertação. Rio de Janeiro: Re-
van/ICC, 2005. p. 69. BARATTA, Alessandro. Criminologia critica e crítica do direito penal. 3 ed. Rio
5 de Janeiro: Revan/ICC, 2002. p. 42.
ibid. p. 70.
28 29
Para o desenvolvimento deste trabalho, destaca-se, dentre essas teorias, sociológicas anteriores porque, ao invés dc procurar saber como os indivíduos
o labeHing approach ou teoria do etiquetamento, uma vez que ela produz a agem cm situações dadas, ela “vai tentar compreender como é que os indivíduos ,
ruptura epistemológica da criminologia, ao retirar o foco das causas do crime vêem, descrevem c propõem em conjunto uma definição da situação!!.15
no crime e no criminoso para visualizar o fenômeno da criminalização. A realidade é, portanto, uma construção social, operada através de pro¬
Este subcapítulo pretende explorar essa teoria para compreender a ideia cessos de definição e dc tipificação.16 Através desses esquemas tipificadores os
de construção social da criminalidade (1.1 . 1) e o papel dos órgãos de controle outros são apreendidos. São estabelecidos através desses esquemas “os modos
social formal e informal nessa construção (1.1.2). Além disso, busca expor como ‘lidamos’ com eles nos encontros facc a face”.17 A relação com o outro
os resultados da criminologia critica, ao transferir os resultados da teoria do se dá sempre através de uma tipificação, estando já estabelecida. “Assim, na
etiquetamento a um enfoque macrossociológico (1.1.3), chegando ao proces¬ maior parte do tempo, meus encontros com os outros na vida cotidiana são
so de globalização e às mudanças vividas pelos Estados ocidentais diante do típicos em duplo sentido, apreendo o outro como um tipo, e interatuo com ele
neoliberalismo (1.1.4). numa situação que é por si mesma típica”.”
Construção social da realidade é a denominação utilizada por Berger
1.1.1 A sociologia interpretativa e a teoria do etiquetamento e Luckmann para a sua obra de sociologia do conhecimento que tem essa
matriz teórica. É essencial nesse marco a compreensão dialética da vida so¬
As raízes da teoria do etiquetamento remontam à década de 1960, den¬ cial, onde o homem em coletividade produz o mundo social, transforma a
tro de um contexto de influência de duas principais correntes da sociologia realidade em uma realidade objetiva e, dialeticamente, essa mesma realidade
norte-americana, que surgem no contraponto à sociologia funcionalista, o íq; social o produz.19 Acima de tudo, compreende-se que a “ordem social existe
teracionismo simbólico, inspirado principalmente na obra de George Mead, unicamente como produto da atividade humana. Não é possível atribuir-lh.e
e a etnometodologia, inspirada cm Alfred Schutz.1' Tanto uma quanto outra qualquer outro status ontológico sem ofuscar irrcmissivehnentc suas manifes¬
corrente percebem a realidade social não como um dado objetivo a ser sim¬ tações empíricas”.70
plesmente conhecido. Para o intcracionismo simbólico, a realidade social é A partir dessas matrizes teóricas, a teoria do etiquetamento chega à
“constituída por uma infinidade de interações concretas entre indivíduos, aos perccpção do desvio como uma construção social, a partir de interações ocor¬
quais um processo de tipificação confere significado que se afasta das situa¬ ridas na sociedade, fazendo com que em algumas situações se definam pesso¬
ções concretas e continua a estender-se através da linguagcm”.l7Coulon obser¬ as como desviantes. Assim, o labellingapproach rompe com a criminologia
va que a interação é “uma ordem negociada, temporária, frágil, que deve ser tradicional ao perceber que o crime e o criminoso não são dados ontológicos,
permanentemente reconstruída a fim de interpretar o mundo”.13 pré-constituídos à experiência, mas uma construção resultante dc interações
O papel da linguagem nos processos de tipificação e, portanto, de objeti- sociais.
vação da realidade social é importante também no enfoque da etnometodologia, A teoria do etiquetamento também é conhecida por criminologia da re¬
onde se percebe que “a linguagem comum diz a realidade social, dcscrevc-a ação social, por identificar na reação da sociedade ao desvio um fundamen¬
e ao mesmo tempo a constitui”.14 Dessa forma, compreendendo a realidade tal elemento para que o comportamento seja assim rotulado. Seus principais
como construída socialmente, a etnometodologia se diferencia das abordagens objetos dc estudo foram a formação da identidade desviante, que acarreta o
11
ibid. p. 87. Segundo Coulon, “a etnometodologia é a pesquisa empírica dos mé¬ 15
ibid. p. 20.
todos que os indivíduos utilizam para dar sentido e ao mesmo tempo realizar as 16 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica c crítica do direito penal... op. cit.
suas ações de todos os dias: comunicar-se, tomar decisões, raciocinar". COULON, p. 87.
Alain. Etnometodologia. Pèlrópolis: Vozes, 1995. p. 30. 17 BERGER, Pcler; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Pe-
11
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica c crítica do direito penal... op. cit. trópolis: Vozes, 2002. p. 49.
p. 87. 18
13 ibid.p. 50.
COULON, Alain. op. cit. p. 16.
18
19
ibid. p. 87.
ibid. p. 8. 20
ibid. p. 76.
30
chamado desvio secundário e o estudo das agências do controle social, que meteu não será rotulada e terá preservada a sua identidade.O desvio é, assim,
detêm o poder de definição na sociedade.21 construído socialmente, já que “(...) os grupos sociais criam o desvio ao fazer
A importância da reação social na definição de um fato como criminoso as regras cuja infração constitui o desvio, e por aplicar ditas regras á certas
é demonstrada por Lemert através do quociente de tolerância. Esse dado seria pessoas em particular e qualificá-las como outsiders”.16
obtido através de uma fração matemática, calculada através de uma quantidade O processo de criminalização se inicia com a seleção das condutas
de condutas desaprovadas em uma localidade no numerador e no denominador desviadas, através da definição das normas pelo legislador, o que se denomi¬
o grau de tolerância para o comportamento em questão. Dessa maneira, seria nou criminalização primária. A definição do desvio através das leis interage
possível manipular o desvio e a reação social.22 Assim, se em duas cidades dife¬ com um processo de definição no senso comum do que é o comportamento
rentes, mas de tam anho comparável, uma tem um alto índice de ocorrência de “normal”, sendo que “a normalidade é representada por um comportamento
determinado comportamento desviante, e outra tem um baixo índice, caso na predeterminado pelas próprias estruturas, segundo certos modelos de compor¬
primeira a tolerância seja maior e na segunda menor, ou seja, na segunda haja tamento, e correspondente ao papel e à posição de quem atua”.27 Ao atribuir a
maior reação social, o resultado será o mesmo.23 Para que um comportamento etiqueta de desviante a algumas pessoas, em função do descumprimento a tais
seja desviante ou criminoso, não basta que esteja assim definido socialmente ou normas, realiza-se a criminalização secundária. “O desviante é uma pessoa a
juridicamente, mas que haja uma reação social frente à sua prática. quem se pode aplicar com êxito aquela etiqueta; o comportamento desviante é
Essa é também a conclusão de Becker. Considerado o fundador da teo¬ o comportamento assim etiquetado pelas pessoas”.28
ria do etiquetamento, o autor é a maior referência no estudo da reação social Por consequência do etiquetamento podem se dar modificações na
e dos efeitos da estigmatização do etiquetamento na formação do statussocial identidade do indivíduo. A criação da identidade desviante é um dos focos de
de desviante.24 Para Becker, “o desvio não é uma qualidade que se encontre na pesquisa do labelling approach, principalmente no sentido de que o estigma
própria conduta, mas na interação entre a pessoa que comete um ato e aqueles criado em função dessa definição faz com que o indivíduo tenha uma tendên¬
que reagem ao mesmo”.25 Isso significa que todas as vezes em que ocorre um cia a permanecer no papel social a si atribuído pela reação social.29 É o que
fato definido legalmente como crime e não há reação social a pessoa que o co¬ Lemert chamou de desvio secundário, teorizado pela primeira vez em 1951
na obra Social Pathology, de sua autoria, conceito desenvolvido após na obra
21
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit. Humandeviance, social probiemsand social control.30
p. 89. É relevante observar que as correntes da sociologia norte-americana que co¬
meçaram a estudar a criminalidade sob esse enfoque deixaram de utilizar o termo 26
ibid. p. [Link]ção livre do original em inglês: “[...] social groups create deviance
crime, criminoso, criminalidade, passando a adotar as expressões desvio e desvian¬ by making the rules whose infraction constitutes deviance, and by applying those
te. Segundo Pavarini, isso se deveu ao fato de que a ideia de “criminoso” e de “de¬ rules to particular people and labelling them as outsiders. From this point of view,
linquente” têm uma paternidade jurídico-penal, e já vinha carregada de sentidos, deviance is not a quality of the act the person commits, but rather a consequence of
dentre eles o fato de a violação ser a uma norma penal. O termo desvio foi adotado the application by others of rules and sanctions to an “oífender”. The deviant is one
para ter os atributos de uma peio menos aparente neutralidade. De fato, passa-se to whom that label has successfully been applied; deviant behavior is behavior that
a compreender que o desvio é o gênero, enquanto a criminalidade é a espécie: “a people so label”.
criminalidade não é senão a forma de desvio que foi criminalizada”. PAVARINI, 27
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit.
Massimo. Control y dominación: Teorias criminológicas burguesas y proyecto p. 95.
hegemónico. Buenos Aires: Siglo XXI, 2002. p. 64. 28
BECKER, Howard. op. cit. p. 9. Tradução livre do original em inglês: “[...] social
22 LEMERT, Edwin M. Social pathology: A systematic approach to the theory of groups create deviance by making the rules whose infraction constitutes deviance,
sociopathic behavior. New York: McGraw-Hill BookCompany, 1951. p. 57. and by applying those rules to particular people and labelling them as outsiders.
23
ibid. p. 58. From this point of view, deviance is not a quality of the act the person commits,
24
BECKER, Howard. Outsiders: Studies in the sociology of deviance. New York: but rather a consequence of the application by others of rules and sanctions to an
The Free Press, 1996. “offender”. The deviant is one to whom that label has successfully been applied;
25
ibid. p. [Link]ção livre do original em inglês: “Deviance is not a quality that lies deviant behavior is behavior that people so label”.
in behavior itself, but in the interaction between the person who commits an act and 29
LEMERT, Edwin M. op. cit.
those who respond to it”. 30
ibid. p. 318-319.
32 33
De qualquer modo, ser descoberto e marcado como desviante tem importantes
O principio da seletividade
consequências para a participação social posterior de alguém e para a sua auto-
-imagem. A consequência mais importante é uma mudança drástica na identi¬ E também consequência das teorias da reação social a percepção de
dade pública do indivíduo. O haver cometido um ato proibido e o haver sido que, dentro de um quadro geral de delitos ocorridos diariamente, apenas a
publicamente descoberto colocam-no em um novo status.3'
.
alguns a sociedade e o sistema penal reagem, demonstrando a existência de
A partir da interação social, determinadas pessoas são identificadas com uma seletividade. Essa seletividade é encontrada tanto na definição do ato des¬
determinados papéis, sendo que a etiqueta decorrente dos atos praticados não viante (criminalização primária) quanto na atribuição do rótulo de desviante
indica apenas esses atos específicos, mas tudo o que se pode esperar de al¬ a alguém (criminalização secundária). Sendo a criminalidade uma realidade
guém portador daquela etiqueta. Uma pessoa que atua segundo determinado social construída tanto pelas instâncias oficiais quanto pelas informais de con¬
papel será conhecida a partir dele, vinculando as interações com outros indiví¬ trole, percebe-se que o status de criminoso é distribuído desigualmente na
duos.3132 Assim, no caso do desvio, a etiqueta “evoca um conjunto de imagens sociedade, invertendo o postulado liberal da igualdade perante a lei.
características. Sugere a alguém que se comporte como aquelas pessoas que Em relação à seletividade dos bens a serem protegidos pelo direito pe¬
pertencem ao grupo relacionado à etiqueta”.33 nal na criminalização primária, observa-se que a produção legislativa é em¬
Sendo assim, quando as pessoas tratam outras como desviantes, pro¬ preendida por grupos sociais detentores de poder político e económico. Em
duzem o efeito de uma profecia que se autorrealiza, na medida em que põem uma perspectiva sociológica conflitualista, os interesses protegidos são os da¬
em movimento uma série de mecanismos que conspiram para conformar queles grupos que têm o poder de influir sobre os processos de criminalização.
a pessoa à imagem que as pessoas têm dela”.34 Isolando o desviante dos seus E o que os teóricos desta corrente chamam de poder de definição, a partir do
grupos sociais originais, tratando-o como alguém de quem se espera uma con¬ qual determinados comportamentos, que podem ser práticas usuais de algu¬
duta contrária às regras, ainda que diversa daquela que efetivamente cometeu, mas comunidades, são definidos como criminosos pelo grupo que possui esse
se induz a adoção de uma identidade desviante e a atuação em conformidade poder, num contexto de conflito social entre os diferentes grupos.35
com essa etiqueta. Para Becker, a possibilidade de imposição das normas com sucesso se
deve a uma questão de poder económico e político. Assim, as pessoas estão
sempre forçando os outros a cumprirem as suas regras, aplicando-as mais ou
31
BECKER, Howard. op. cit. p. 31-32. Tradução livre do original em inglês: “In menos contra a sua vontade, e sem o seu consentimento.36 Um exemplo disso é
any case, being caught and branded as deviant has important consequences for que os jovens criam as normas para as pessoas idosas, assim como os adultos
one’s further social participation and self-image. The most important consequence legislam para crianças e adolescentes. “Aqueles grupos cuja posição social lhes
is a drastic change in the individual’s public identity. Commiting the improper act
and being publicy caught at it place him in a new status”. Quanto à estigmatiza- dá armas e poder têm melhores possibilidades de reforçar as suas regras”.37
ção decorrente do etiquetamento, é interessante analisar a obra de Goffman, nessa E um sistema cujas posições de poder estão concentradas nas mãos de
mesma linha. Ele utiliza o termo estigma em referência a atributos indesejáveis poderosos grupos económicos, é comum a criação de facilidades de crimina¬
incongruentes com o estereótipo criado para um determinado tipo de indivíduo, lização nos crimes contra o património individual, típicos dos grupos mais
funcionando também no caso de desviantes sociais, membros de minorias e pes¬ vulneráveis da população, na mesma medida em que óbices são elaborados no
soas de classe baixa, que passam pela situação de insegurança diante da recepção
que os espera na interação face-a-face. GOFFMAN, Erving. Estigma. Notas sobre sentido de criminalização dos detentores do poder. O melhor exemplo talvez
a manipulação da identidade deteriorada. 4 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, seja a imunização do crime de còlarinho branco.
1988. p. 157.
32
BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. op. cit. p. 106. 35 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit.
33
B1SSOLI FILHO, Francisco. Estigmas da criminalização: dos antecedentes à 36 BECKER, Howard. op. cit. p. 17. Tradução livre do original em inglês: “[...]pe-
reincidência criminal. Florianópolis: ObraJuridica, 1998. p. 184. opie are in fact always forcing their rules on others, applying lhem more or less
34
BECKER, Howard. op. cit. p. 34. Tradução livre do original em inglês: “It sets in against the will and without the consent of those others”.
motion several mechanisms which conspire to shape the person inthe image people 37
ibid. p. [Link]ção livre do original em inglês: “Those groups whose social posi-
have of him”.
tion gives them weapons and power are best able to enforce their rules”.
34 35
Quem pela primeira vez teorizou sobre os crimes das elites foi Edwin conclui-se que “entre a seleção abstrata, potencial e provisória operada pela lei
Sutherland, em 1940, quando fez frente à consequência das teorias funcio- penal e a seleção efetiva e definitiva operada pelas instâncias de criminalização
nalistas de que a criminalidade viria das classes mais baixas em função da secundária, medeia um complexo e dinâmico processo de refração”.42
ausência de condições legítimas para chegarem aos fins culturalmente deseja¬ Os estereótipos, tanto de autores como de vítimas, estão ligados ao sen¬
dos, bem como de condições psicopatológicas ou sociopatológicas.38 Porém, so comum, criados através da interação social. São eles “sistemas de repre¬
nó contexto de sua teoria não estudou a questão da seletividade, mas as causas sentações que orientam a vida quotidiana”,43 e se constituem em mecanismos
pelas quais as pessoas de classes altas praticavam crimes. Assim, como hoje, de seleção na medida em que permitem a definição da desconformidade corno
naquela época a criminalidade de colarinho branco dificilmente era persegui¬ desvio, sendo ligada a um certo número de sinais exteriores.44
da e rotulada dessa forma, apesar de definida em, lei, o que o fez questionar se Tendo em vista que os estereótipos constituem um mecanismo de sele¬
tais atos efetivamente podiam ser considerados criminosos.39 ção formal, explica-se porque a clientela da prisão é uniforme. “O estereótipo
A seletividade deve ser percebida também a partir da existência de mui¬ alimenta-se das características gerais dos setores majoritários mais despossuídos
tos fatos definidos como crimes que ocorrem diariamente, mas de que sequer e, embora a seleção seja preparada desde cedo na vida do sujeito, é ela mais ou
se tem notícia, ao que autores posteriores denominaram de cifra negra da cri¬ menos arbitrária”.45 Isso demonstra que os estereótipos se constituem não somente
minalidade. A consequência dessa percepção é de que, como nota Zaffaroni, em um mecanismo de seleção, mas de reprodução, tendo em vista que possui “um
se o sistema penal processasse e punisse todos os fatos tipificados como cri¬ efeito de feed-back sobre a realidade, racionalizando e potenciando as ‘razões’
mes, toda a população já teria sido criminalizada várias vezes. que geram os estereótipos e as diferenças e oportunidades que eles exprimem”,46
Diante da absurda suposição - não desejada por ninguém - de criminalizar
Através dessa percepção, demonstra-se que as pessoas que atuam nos
reiteradamente toda a população, torna-se óbvio que o sistema penal está es- órgãos de controle penal, também inseridas em sociedade, agem de acordo com
truturabnente montado para que a legalidade processual não opere e, sim, para os estereótipos, esperando determinadas condutas de determinadas pessoas e
que exerça seu poder com altíssimo grau de arbitrariedade seletiva dirigida, não de outras. “Na reação não-institucional encontramos em ação, além disso,
naturalmente, aos setores vulneráveis.40 definições e ‘teorias de todos os dias’ da criminalidade, que apoiam os processos
de distribuição da criminalidade postos em ação pelas instâncias oficiais”.47
Em consequência disso, passa-se a perceber que as estatísticas crimi¬ Isso significa que há pessoas que praticam atos tipificados criminal¬
nais não dizem respeito à criminalidade, mas à criminalização, tendo em vista mente e não são vistas pela sociedade como criminosas. Por outro lado, há
que elas são elaboradas com base apenas nos casos registrados. “O que as es¬ pessoas que não cometeram quaisquer crimes e, em função de carregarem o
tatísticas refletem são as contingências organizativas que condicionam a apli¬ estereótipo de criminosos, são tidos por “delinquentes” nas interações sociais.
cação de determinadas leis a determinada conduta por meio da interpretação, Um exemplo muito claro disso é a imagem que se carrega sobre os de¬
decisões e atuações do pessoal encarregado de aplicar a lei”.41 litos sexuais. O estereótipo do criminoso é sempre o de uma pessoa estranha
E essas contingências organizativas dizem respeito a certa orientação con¬ à vítima, sendo que a ideologia tradicional do crime traz a ideia de que são
tra alguns tipos de crimes e algumas pessoas. Essa questão traz à tona a existência
de um senso comum a distinguir quem são as pessoas consideradas criminosas, o 42
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op. cit. p. 260.
43
que se traduz em estereótipos. Tendo em vista que o direito penal é abstrato e não DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa. Criminologia: O ho¬
é aplicado automaticamente sempre que fatos tipificados ocorrem no meio social, mem delinquente e a sociedade criminógena. Coimbra: Coimbra, 1997. p. 389.
44
“A cor da pele, a origem étnica, o corte de cabeio ou de barba, o estilo do vestuário,
os locais frequentados e as horas de frequência; bem como a toda uma série de
38
BARATTA, Alessandra. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit. atitudes simbólicas ‘próprias’ de um delinquente, de um louco, de um drogado ou
39
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. op. cit. p. 261. de um ébrio, de um homossexual, de uma prostituta”, ibid.
45
40
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: A perda de legitimi¬ ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas, p. 134.
46
dade do sistema penal. Rio de Janeiro: Revan, 1991.p. 125. DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa, op. cit. p. 389.
47
KITSUSE; CICOUREL apud C1D MOL1NÉ, José; LA RRAC RI P1JOAN, Elena. BARATTA, Alessandra. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit.
op. cit.p. 210. p. 180.
36 37
pobres, homens de grupos minoritários, sem educação e/ou psicóticos.
Em Tais déficits, porem, não significam o abandono da teoria do etiqueta¬
função disso, “os esposos, os noivos, os pais, os companheiros de trabalho,
que são mais prováveis de vitimizar as mulheres, não se encaixam na imagem mento, ao contrário, trata-sc de dcscnvolvê-la a partir dos pressupostos ne¬
fazê-lo,
do protótipo de criminoso, porque não são estranhos”.48 cessários: A criminologia critica, surgida na década de setenta, busca
Como se pode perceber, a visão trazida pela teoria do etiquetamento ao através da construção de uma teoria materialista do desvio.
fenômeno da criminalidade inverte o seu conceito e auxilia na compreensão
da atuação da sociedade na própria constituição do crime. Porém, apesar de ter 1.1.2 A interação entre controle social formal e informal na
sido essencial na ruptura com o paradigma etiológico da criminologia tradicio¬ construção social da criminalidade
nal, há várias críticas dirigidas ao labelling approach, ressalvando, porém, a
irreversibil idade dos seus resultados. Uma delas se relaciona à não explicação Quando os diversos teóricos do labelling approach deslocam a atenção
da ação humana do desvio desconsiderando o contexto social, para reação
a
sobre o que leva à delinquência primária, que seria independente do rótulo.
social aos atos como fundantes desse conceito, o estudo das instâncias de con¬
Outra crítica diz respeito ao fato de que, ao tratar sobre o desvio secundário,
ingressou em uma abordagem bastante determinista, prevendo desde já que a trole passam a ser o objeto da criminologia.51 Aniyar de Castro entende o con¬
pessoa etiquetada está determinada a cometer crimes novamente. A terceira trole como
critica é a de que há pessoas que delinquem sem terem sido objeto de reação [...] o conjunto de sistemas normativos (religião, ética, costumes, usos,
tera¬
social e em outros casos há pessoas etiquetadas que não voltam a delinquir, pêutica e direito - (...]) cujos portadores, através de processos seletivos (este-
e caso voltem, não há como saber se foi em função da etiqueta realmcnte.49 reotipia e criminalização) e estratégias de socialização (primária e secundária
a fidelida¬
Além dessas críticas, há um outro grupo de questionamentos que se refere ou substantiva), estabelecem uma rede de contenções que garantem
ao fato de o labelling approach ter se mantido em um enfoque microssocíológi- de [...] das massas aos valores do sistema de dominação; o que, por motivos
co, ou seja, como se os mecanismos políticos sobre o poder de definição inerentes aos potenciais tipos de conduta dissonante, se faz sobre destinatários
fossem sociais diferencialmente controlados segundo a classe a que pertencem.52
independentes da estrutura económica das relações de produção e distribuição.
Daí resulta uma teoria capaz de descrever mecanismos de criminalização e O controle social nâo sc dá, portanto, exclusivamentc pelas agências
de
estigmatização, de referir estes mecanismos ao poder de definição e à esfe¬ de controle penal, podendo-se dividir esse sistema em controle social formal
ra política em que ele se insere, sem poder explicitar, independentemente
do e controle social informal. Com efeito, controle formal e controle informal
exercício deste poder, a realidade social e o significado do desvio, de compor¬ são subsistemas de um sistema maior de controle social global. “O sistema
tamentos sociahnente negativos e da criminalização.50 penal não realiza o processo de criminalização e estigmatização à margem ou
48
MADRIZ, Esther. Miedo común y precauciones normales: mujeres, seguridad y inclusive contra os processos gerais de etiquetamento que têm lugar no seio
control social. Delito y sociedad. Revista de Ciências Socialcs. Buenos Aires, afio do controle social informal”.53
7, n. 11/12, p. 87-104, 1998. p. 94. Tradução livre do original cm espanhol: “Los
esposos, los novios, los padres, los compafíeros de trabajo, que son los más pro-
bables para victimizar a las mujeres, no encajan en la imagen del ‘prototipo de
51 DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa, op. cit. p. 365.
criminal’, porque elios no son extranos”. Sobre o assunto cf. ANDRADE, Vera
52
ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 54-55.
Regina Pereira de. Sistema penal e violência sexual contra a mulher: proteção ou
53 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema penal máximo x cidadania míni¬
do Ad¬
duplicação da vitimação feminina. In: ma. Códigos da violência na era da globalização. Porto Alegre: Livraria
. Sistema penal máximo versus ci¬ vogado, 2003. p. 43. Como observa Munoz Conde, não haveria sentido se pensar
dadania mínima, p. 81-108. Porto Alegre: Livraria do Advogado, das demais instâncias de controle
4’ 2003. em um sistema de controle penal desconectado
CID MOLINÉ, José; LARRAURI PIJOAN, Elena. op. cit. p. 218. todo, só
ainda podem ser encontrádas cm TAYLOR, lan; WALTON, Paul;
Outras criticas social. “A norma penal, o sistema jurídico-penal, o direito penal como um
YOUNG, Jock. tem sentido sc considerado como continuação de um conjunto de instituições pú¬
La nueva criminologia: contribución a una teoria social de profissional, etc.), cuja tarefa consiste
la conducta desviada. blicas e privadas (família, escola, formação
Buenos Aires: Amorrortu, 1990. p. 156-161.
50
BARATTA, Alessandra. Criminologia crítica e crítica do direito penal... iguahnente em socializar e educar para convivência entre os indivíduos através
CONDE,
p. 116. op. cit. da aprendizagem de determinadas pautas de comportamento”. MUNOZ
Francisco. Direito penal e controle social. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 23.
38 39
I
O controle social informal é levado a cabo por diversas organizações instituições não necessitam estar ligadas a sanções legais para que possam
sociais, como a família, a escola, a religião e os meios de comunicação social. controlar a conduta dos indivíduos. “Dizer que um segmento da atividade
É importante ter em conta que o controle social não se dá a despeito da classe humana foi institucionalizado já é dizer que este segmento da atividade hu¬
social dos indivíduos, e por isso a perspectiva materialista deve estar conecta¬ mana foi submetido ao controle social”,59 sendo que novas formas de con¬
da a tal análise. Em uma perspectiva marxista, o controle social informal tem trole, relacionadas a sanções, apenas são necessárias quando os processos de
por função a adaptação dos indivíduos em um mundo capitalista, em que a dis¬ institucionalização falham.
ciplina para a produção é essencial à manutenção do sistema.*54 Da mesma for¬ Cada instituição possui uma lógica de funcionamento, assegurada
ma, é necessário se ter um enfoque de gênero, a partir da análise da estrutura através da linguagem, e “[...] um corpo de conhecimento transmitido como
patriarcal, diante da qual se pode perceber vários mecanismos que cooperam receita, isto é, conhecimento que fornece as regras de conduta institucional¬
no maior controle social das mulheres, partindo desde os espaços destinados mente adequadas”.60 A partir das regras do comportamento adequado tam¬
a elas (espaço doméstico) e aos homens (espaço público).55 Nesse sentido, bém é possível verificar as atitudes que serão definidas como desviantes,
valores culturais expressam-se como se fossem determinações biológicas, “e encaradas como “depravação moral, doença mental ou simplesmente igno¬
as pessoas do sexo feminino como membros de um gênero subordinado, na rância crassa”.6’
medida em que determinadas qualidades, bem como o acesso a certos papéis Na medida em que uma ordem institucional é objetivada, ou seja, passa
e esferas [...] são percebidos naturalmente ligados a um sexo biológico e não por um processo em que os produtos exteriorizados da atividade humana ad¬
ao outro”.56 O objetivo é, portanto, o de interiorização das normas sociais, que quirem o caráter de objetividade, ela corre o risco de ser reificada. Dessa ma¬
ocorre através da socialização. neira, quando o homem desaparece da autoria do mundo, os seus significados
Por isso, é possível afirmar que o controle social possui uma unidade são entendidos como produto da “natureza das coisas”. “Através da reificação,
funcional, “dada por um princípio binário e maniqueísta de seleção: a função o mundo das instituições parece fundir-se com o mundo da natureza. Torna-se
do controle social, informal e formal, é selecionar entre os bons e os maus, necessidade e destino, sendo vivido como tal, feliz ou infelizmente, conforme
os incluídos e os excluídos; quem fica dentro, quem fica fora do universo em o caso”.62
questão, e sobre quais recai o peso da estigmatização”.57 Apesar de essa realidade objetivada, e por vezes reificada, ser transmi¬
Essas normas sociais também foram construídas através da interação tida no curso da socialização primária, a ordem social não está livre das tenta¬
humana. Porém, na medida em que se afastam do momento de sua construção tivas de redefinição. Em função de que põem em xeque uma realidade social
tendem a ser institucionalizadas, transformadas em hábitos inquestionáveis. tida como dada e certa, os dissidentes precisam, primeiramente, ser tratados
Em um momento essas rotinas tornam-se instituições, ou seja, repetições para se manterem dentro do mesmo universo simbólico que questionaram. E
sobre as quais não se reflete, apenas se age. Assim, as instituições implicam a forma de controle social que consiste no aconselhamento por parte da famí¬
em controle da conduta humana, “estabelecendo padrões previamente defi¬ lia, da igreja, ou mesmo da terapia psiquiátrica, propiciada por uma teoria do
nidos de conduta, que a canalizam em uma direção por oposição às muitas desvio. Outro mecanismo de manutenção do universo simbólico citado por
outras direções que seriam teoricamente possíveis”.58 Isso demonstra que as Berger e Luckmann é a aniquilação conceituai, realizada através da atribuição
de um status ontológico inferior a todas as definições existentes fora do uni¬
34
MIRALLES, Teresa. EI Estado y el indivíduo: la disciplina social, p. 37-41. In: verso simbólico.63
BERGALLI, R. et. al. (orgs.).El pensamiento criminológico II: Estado y control.
Bogotá: Temis, 1983. p. 38.
55 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal: O sistema de justiça
59
crimina no tratamento da violência sexual contra a mulher. Seqíiência, ano XXV, ibid. p. 80.
60
n.50,jul. de 2005, p. 71-102. Florianópolis: Boiteux. ibid. p. 93.
56
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal... op. cit. p. 85. 61
ibid. p. 93.
57
ibid. p. 77. 62 ibid. p. 125.
65
58
BERGER; Peter; [Link], Thomas. op. cit. p. 80. ibid.p. 155
40 41
Porém, nem sempre o controle social informal atinge êxito para alguns ção entre as escolas das massas e as escolas das elites. Sendo a escolaridade
indivíduos, há diferentes respostas ao condicionamento, podendo gerar dissi¬ a principal forma de ascensão social, percebe-se que a organização do ensino
dências ao sistema e a não adaptação ao papel social atribuído. Assim, quando acaba reproduzindo as desigualdades. “A marginalidade, as carências intelec¬
as instâncias informais falham, as instâncias formais entram em ação de modo tuais e a estigmatização são, portanto, círculos concêntricos que se protegem
coercitivo e legitimadas a partir da lei. reciprocamente, mas com uma forte potencialidade centrífuga que desloca o
Uma vez que o indivíduo ultrapassa o limite marcado entre as instâncias infor¬ indivíduo da escola para a prisão”.67
mais e fonnais, os castigos deixam de ser de tipo social mais ou menos difuso Como se percebe, todas as instâncias de controle social, formais ou in¬
para entrar no âmbito jurisdicional. E a partir da presença da instância policial formais são convergentes, uma completando a outra na tarefa de manutenção
o indivíduo se encontra revestido de um novo status social: o de desviado, do status quo.
inadaptado, anti-social, delinquente ou perigoso.M
A homogeneidade do sistema escolar e do sistema penal corresponde ao fato
Nesse sentido, um aspecto a não se deixarde lado c que controle social de que realizam, essencialmente, a mesma função dc reprodução das rela¬
formal e controle social informal caminham juntos, interagem no sentido de ções sociais c dc manutenção da estrutura vertical da sociedade, criando, em
legitimar a realidade social, que na situação atual é de desigualdade. Como particular, eficazes contra-estímulos à integração dos setores mais baixos e í
portância, já que age em um período de formação, na infância e na adoles¬ informal por várias caractcrísticas, das quais se ressalta o fato de que opera
cência de maneira quantitativa e qualitativamente constante. É a escola “o apenas com sanções negativas. Todas elas atuam com um alto grau dc discri-
verdadeiro lugar onde se iniciam os processos de exclusão e de distribuição cionaricdade, ao contrário do que pretende a dogmática penal ao justificar o
da chamada conduta desviante”.66 Portanto, assim como é o local privilegiado direito penal e com ele o princípio da legalidade.
para que seja exercido o controle social informal, ou seja, para que se pro¬
cesse a adaptação do indivíduo, é onde se detectam desde cedo as falhas do O controle social forma! .
mesmo controle informal, e onde sc inicia a estigmatização c o etiquetamento.
Também é a forma como se dá o ensino que provavelmente determina o papel Dentre as agências de controle formal, a função policial é particular¬
social que o indivíduo ocupará na idade adulta, havendo uma clara diferencia¬ mente importante. Efetivamente, o policial na maior parte das vezes exerce o
papel dc decisor ao determinar quem é suspeito, quais são as condutas a se¬
w rem perseguidas c também qual é a distribuição das imunidades. O peso dos
MIRALLES, Teresa, op. cit. p. 41. Tradução livre do original em espanhol: “Una
vez que cl indivíduo traspasa el limite marcado entre las instancias infonnales y estereótipos e dos preconceitos fica claro nesse processo, já que a vigilância j
formalesjos castigos dejan de ser de tipo social más o menos difuso para entrar en policial se volta,em regra, contra os setores excluídos. Um exemplo é o das
el ámbitò jurisdiccional. Y a partir de la presencia dc la instancia policial el indiví¬ batidas policiais que ocorrem frequentemente em função da cor da pele, da
duo se encuentra revestido dc un nuevo status social: el dc desviado, inadaptado,
antisocial, delincuente o peligroso”.
65
BARATTA, Alcssandro. Criminologia y ciências penales: Enfoque crítico del sis¬
tema penal y la criminologia cn Europa. In: ELBERT, Carlos Alberto; BELLO-
QUI, Laura (orgs.). Criminologia y sistema penal: Compilación in memorian. p. 67
ibid. p. 160. Dentro das agências informais, é dc essencial importância o estudo
89-109. Buenos Aires: Juiio César Faira, 2004. p. 107. Tradução livre do original dos meios de comunicação de massa, o que se buscará realizar, em especial sobre
em espanhol: “la función natural del sistema penal es conservar y reproducir la o jornalismo, no tópico 1.2.
rcalidad social existente”. 68
BARATTA, Alessandro. Criminologia critica e crítica do direito penal... op. cit.
66
ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 160. p. 175
42 43
forma de vestir, etc.*” “Em resumo, cada
polícia e a polícia em geral assina¬ na mesma faixa etária masculina
lam (e têm espaço de jogo necessário para
isso) quem e o quê vai contra a O pessoal policizado, além de ser selecionado
com um estereótipo, é introduzido em
ordem”.70 dos criminalizados, de acordo também incontrolado da agência da qual pas¬
Zaffaroni denomina “agências uma pfática corrupta, em razão do poder e com uma
executivas” do sistema penal seus discurso externo moralizante
segmentos institucionalizados não sa a fazer parte e é treinado em um
judiciais, e aponta, dentre elas, o prática inferna corrupta!2
gonismo das agências policiais, prota-
em razão de seu alto poder configurador71, do sistema penal, de o inquérito
poder este ignorado pelo discurso jurídico-penal.
O autor ressalta que as Após a seleção pela agência policial processos que se¬
polícias na América Latina são indiciamento, a decisão sobre os
normalmente militarizadas e que os poli¬ ter sido concluído com o ou de oferecimento de denúncia
fica
ciais passam por um processo de objetos de pedido de arquivamento
deterioração rão seletividade
de policização. da identidade, o qual chama Nesse processo, novamente a
a cargo do Ministério Público. respeito dos estereóti¬
mesmos mecanismos a
opera, estando presentes os indiciado, judicial do,
entra em ação a agência
pos. Decidindo processar o
sistema penal.
também é caracterizada por um
69 impor¬
Recentemente a imprensa noticiou uma orientação A atuação da agência judicial é abs¬
cidade de Campinas, explicitando essa da Polícia Militar paulista,
preferência estereotípica. A orientação da tendo em vista que a norma penal
o seguinte: “Esses CGP 11 tante grau de discricionariedade, através dessa
deverão conhecer e providenciar para quea dizia 1 lacunas, as quais são preenchidas
trata, aberta e repleta de
se servem de um second code, um a dis¬
Taquaral realize o patrulhamento viatura do códi¬
preventivo e ostensivo (saturação),
júízo no atendimento de
ocorrências, no período de 21 de dezembro de
[...] sem pre- atividade. Para tanto, os julgadores
das normas abstratas, e determinam
de janeiro de 2013, focando em go social que regula a aplicação
abordagens a transeuntes e em veículos 2012 a 21 na realidade social.73 Para além
em atitude tribuição desigual das definições criminais se dá não somente em função
suspeita, especialmente
de 18 a 25 anos, os quaisindivíduos da cor parda e negra com idade aparentemente
sempre estão em grupo de 3 a 5
indivíduos prática disso, Andrade refere que a discricionariedade verdade pro¬
de roubo a residência daquela
pardos em Campinas. localidade”.PM deu ordem para abordarnanegros l
do preenchimento de lacunas
jurídicas, mas sim na fixação da seletiva
Estadã[Link], 23 jan. 2013. Disponível em: e code judicial tem uma eficácia
[Link].
br/noticias/impresso,pm-deu-ordem-para-abordar-negros-e— < [Link] I cessual dos fatos. Assim, “o second dos próprios fatos a processar
ea
-em-campinas-,988052,[Link]> pardos- ! conformadora, reelaboradora e recriadora
citado por Galeano, ocorrido emAcesso em: 07 fev. 201 3. Outro caso ilustrativo
I
de São Paulo e mais dois
1997, quando o Secretário de Justiça éo
do governo ' sancionar como crimes”.74 pode interferir nos motivos da sen¬
novo e caro e foram paradosfuncionários negros trafegavam em um Fora isso, a subjetividade do juiz
por uma hora de mãos para
por um policial, que os fez sair veículo oficial
do carro, e os manteve I
tença sem, porém, isso ser percebido
no seu resultado. Também é importante
) (rein¬
cima
GALEANO, Eduardo. De pernasbuscando interferem muito, tanto legalmente
saber a origem criminosa
pro ar: A escola do mundo ao do veículo. referir que as qualidades do réu informalmente, através da incidência dos
Alegre: L&PM, 1999. p. 59. avesso. Porto cidência, periculosidade), quanto
70
BUSTOS RAMÍREZ, Juan. La instancia policial. biografia do indivíduo, e não o fato
E) pensamiento In: BERGALLI, R. et. aKprgs.). estereótipos. Julga-se a aparência e a
criminotógico H: Estado y control. :
1983. p. 7 1 . Tradução livre do original p. 63-73. Bogotá: Temis, ocorrido. Assim,
la policia en general senalan (y tienen el em espanhol: “En resumen, cada policia y j que supõem as decisões judiciais, é
[...] fazendo uso do poder para definir
y qué va contra el orden”. espacio de juego necesario para ello) qutén jurídico-penal e, em particular, ao que exercem
possível atribuir ao controle
71
O poder configurador é o
verdadeiro e
sendo secundário o poder repressor. É real poder do sistema penal, para Zaffaroni,
penais e da intervenção dos órgãos exercido sem a função garantidora dos tipos
judiciais, sendo operado através de
trole socia! militarizado e
verticalizado, um “con¬
maioria da população, que se' estende de uso cotidiano, exercido sobre a grande
ser substancialmente configurador além do alcance meramente repressivo, por 72 ibid. p. 138. Grifos no original. e crítica do direito penal... op.
cit.
da vida social”. Esse poder é exercido ' 71 BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica
setores mais carentes da população e se sobre os I cit. p.
uma vigilância disciplinar. ZAFFARONI,trata do disciplinamento, da introjeção de p. 179.
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A
ilusão de segurança jurídica... Op.
Eugênio Raúl. op. cit. p. 23 74
' 272. Grifo no original.
44 45
os juízes, tuna vasta competência na estigmatização ‘teorias de todos os
daqueles que resultam
selecionados mediante a aç3o destes processos de aplicação do também pela ação “exercida por uma série das chamadas
da verdade judicial”.7’
direito.’5 dias’, que o juiz tende a aplicar na reconstrução
respeito da agên¬
Um áspccto interessante elaborado por Zaffaroni
São os juízes que atribuem efetivamente a qualidade a
de criminoso ao da identidade pelo qual
indivíduo, com consequências jurídicas e sociais. cia judicial diz respeito ao processo dc deterioração
os juízes latino americanos passam, tal qual o do
policial e o do preso, que
O sistema penal produz uma construção da treinamento “rcaliza-
realidade ao enfocar um incidente,
reslritamente definido no tempo e no espaço, e congela ali, pode se iniciar ainda na universidade. Seu processo de
de falso poder: solenida¬
relação a uma pessoa, a um indivíduo, a quem a observando-o em -se mediante uma paciente intemalização de sinais
instrumentalidade (a causali¬ com insígnias,
dade) e a responsabilidade podem ser atribuídas.’6 des, tratamentos monárquicos, placas especiais ou automóveis
saudações militarizadas do pessoal de tropa de outras agências,
etc”.80 Após
A distância entre os juízes e a realidade já deve responder às
social pode ser demonstrada o processo de treinamento burocratizantc, o indivíduo
de
exigências do papel que lhe for atribuído, segundo as características
por estudos que concluem que a justiça é uma justiça
de classe. A sua atuação
costuma fazer valerem preconceitos e em tudo, su¬
estereótipos, tendo sido pesquisada a [...] assepsia ideológica, certa neutralidade valorativa, sobriedade
diferença de atitude dos juízes em face de indivíduos de de ‘executivo
podendo-se afirmar que “existe uma tendência por
classes diferentes, ficiência e segurança de resposta e, em geral, um certo modelo de qué, na
imagem
um comportamento conforme à lei dos
parte dos juízes de esperar sénior’ com discurso moralizante e paternalista ou uma
indivíduos pertencentes aos estratos
médios e superiores; o inverso ocorre com os devida idade, responderá a este modelo.81
indivíduos provenientes dos mais uma
estratos ihferiores”.17 Sendo assim, as características da agência judicial apontam
se refere à alienação em
Seja pelo fato de que a proveniência dos juízes costuma
ser da mesma vez para a reprodução do sistema, em especial no que
da sua atividade
classe social, seja em função de condicionamentos que
os pressionam a atua¬ relação às realidades diversas e ainda quanto à importância
rem favorecendo a classe da qual provêm, esses
estudos acabam demonstran¬ na construção da própria realidade social.
tem também
do, não sem críticas, a atuação classista.” Em função
disso, ao desconhecer o Além da policia e do Judiciário, a instância penitenciária
mundo do acusado, suas decisões acabam sendo um importante papel no controle social formal. O
encarceramento é, na atuali¬
desfavoráveis aos indivíduos ocidentais. Justificada
provenientes dos estratos sociais inferiores, em função
dos estereótipos, mas dade, a principal forma de punição utilizada nos países
é que as correcionalistas
por diferentes teorias sobre suas funções, o certo
75
BERGALLI, Roberto. La instancia judicial. In: BERGALL1, R. et. propagadas, além da prevenção ge¬
o/.(orgs;). EI (prevenção especial positiva) são as mais
pensamiento criminológico II: Estado y que nenhuma dessas
control. p. 73-94. Bogotá: Temis, 1983.
p. 79. Tradução livre do original cm espanhol: ral (positiva e negativa). Mas vários estudos demonstram
“[...] hacicndo uso del poder para
definir que suponen las decisiones judiciales, es posible funções é efetivamente cumprida pela prisão.
atribuir al control jurídico- a existência de
-penal y, cn particular, al que ejercen los jueccs,
una vasta Algumas críticas à prisão, que de fato demonstraram
matización de quienes rcsultan scleccionados mediante la competência en la estig- funções reais, são as
acción de estos procesos um abismo entre as suas funções declaradas e as suas
de aplicación del dcrecho”. Grifo no original. prisão com o sistema ca¬
que vincularam o surgimento e desenvolvimento da
76
HULSMAN, Louk. El enfoque abolicionista: Políticas criminales necessidades do
RODENAS, Alejandra; FONT, Enrique A.; SAGARDUY, alternativas. In: pitalista.82 A partir desse marco, passou-se a verificar que as
Ramiro (orgs). Crimi¬
nologia crítica y control social. El poder punitivo del Estado,
BARATTA, Alessandra. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit.
Juris, 2000. p. 76. Tradução livre do original em espanhol: p. 73-102. Rosário:
79
duce una construcción de la realidad al enfocar un “El sistema penal pro- p. 177.
incidente,
nido cn tiempo y espacio, y congelar al1í, observándolo restringidamente defi¬ 80 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. op. cit. p. 133.
a un indivíduo, a quien la inslrumentalidad (la en relación a una persona, 81 ibid. p. 141.
à prisão são: RUSCHE, Gcorg;
causalidad) y la responsabilidad le 82 As principais referências na crítica historiográfica
pueden ser atribuídas".
KIRCHHE1MER, Otto. Punição e estrutura sociai. 2 ed. Rio de Janeiro: RevanÁ
” [Link],
178.
Alessandra. Criminologia crítica e crítica do direito penal...
op. cit. História da violência nas prisões.
ICC, 2004. FOUCAULT, Michei. Vigiar e punir:PAVARINI, Massimo. Cárcere e
Darío;
78
BERGALLI, Roberto, op. cit. p. 82-85. 3 ed. Pctrópolis: Vozes, 1984. MELOSS1,
de Janeiro: Revan/ICC, 2006.
fábrica: as origens do sistema penitenciário. Rio
46 47
Na verdade, a passagem de uma criminalidade de sangue para uma criminali¬
mercado de trabalho condicionam a forma como se dá o cumprimento das dade de fraude faz parte de todo um mecanismo complexo, onde figuram o de¬
penas. Ou seja, senvolvimento da produção, o aumento das riquezas, uma valorização jurídica
[...] a transformação em sistemas penais não pode ser explicada somente pelas e moral maior das relações de propriedade, métodos de vigilância mais rigoro¬
mudanças das demandas das lutas contra o crime, embora esta luta faça parte sos, um policiamento mais estreito da população, técnicas mais bem ajustadas
do jogo. Todo sistema de produção tende a descobrir formas punitivas que de descoberta, de captura, de informação: o deslocamento das práticas ilegais é
correspondem às suas relações de produção.83 correlato de uma extensão e de um afinamento das práticas punitivas.86
Essa afirmação c feita com base na observação de que a prisão até o As características da pena de prisão a partir do século XIX já são com¬
século XVII não era vista como um fim em si mesma, e sim de forma cautelar, pletamente diferentes. A disciplina passa a ser o elemento principal para o con¬
ficando encarcerados os condenados a outras penas, como a de morte antes da trole, se baseando “no trabalho duro, tosco, às vezes totalmente improdutivo,
execução. Também eram destinadas às infrações civis.84 no silêncio obediente e na moral religiosa”.87 Através da disciplina, tomou-se
Em um contexto de escassez de mão-de-obra com o desenvolvimen¬ possível criar uma utilidade para a pena. “A disciplina fabrica assim corpos
to do mercantilismo, os suplícios físicos utilizados como pena exemplar em submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças do
períodos anteriores passaram a ser substituidos por penas mais “humanas” corpo (em termos económicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças
como os trabalhos forçados nas galés e, posteriormente nas casas de correção. (em termos políticos de obediência)”.88 A obediência produzida teria como
A primeira forma de prisão como pena estava ligada às casas de correção objetivo a cura, a reeducação, a partir do tratamento médico-psicológico, da
manufatureiras, no século XVII. “De todas as motivações da nova ênfase no aprendizagem de trabalho, da medicalização e da disciplina.89
encarceramento como método de punição, a mais importante era o lucro, tanto O controle social nesse âmbito possui várias nuances, sendo que a dis¬
no sentido restrito de fazer produtiva a própria instituição quanto no senti¬ ciplina também se relaciona com as sanções negativas à desobediência. A for¬
do amplo de tornar todo o sistema penal parte do programa mercantilista do ma de cumprimento da pena pode ser modificada no curso da sua execução,
Estado”.85 Porém, é o Iluminismo que traz efetivamente a elaboração teórica conforme o comportamento do preso e da discricionariedade de profissionais
para promover a prisão. inseridos no sistema penal, como profissionais da saúde, psicólogos, pedago¬
O poder arbitrário do juiz no sistema inquisitorial foi um dos motivos gos, etc.
pelos quais os reformadores buscaram os limites do poder de punir do Estado Além das críticas revisionistas à prisão, as quais expõem o cumpri¬
perante o indivíduo, através da formalização do direito material e do direito mento de funções reais diversas das declaradas pelo discurso jurídico penal,
processual. A industrialização, porém, levou à decadência as casas de corre¬ o labelling approach foi uma das teorias que possibilitaram a demonstração
ção, notando-se a agora excedente mão-de-obra. dessa des legitimação. Um dos motivos pelos quais a concepção ressocializa-
Partindo dessa análise, Foucault observa a passagem dos suplícios para dora da pena se equivoca é o fato de ao ser encarcerado, o indivíduo ter a sua
a pena “humanizada”, a passagem da aflição do corpo para a aflição da mente, identidade modificada por vários fatores, sendo um deles a prisionização. O
dentro de uma mecânica de poder, respondendo também à mudança nas pró¬ fenômeno da prisionização corresponde a uma aculturação, uma deterioração
prias práticas ilegais.
83
RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otlo. op. cit. p. 20. Para exemplificar, os autores
referem que: “É evidente que a escravidão como forma de punição é impossível sem 86
FOUCAULT, Michel. op. cit. p. 72.
uma economia escravista, que a prisão com trabalho forçado é impossível sem a ma¬ 87 MIRALLES, Teresa. La cárcel... op. cit. p. 100. Tradução livre do original em es¬
nufatura ou a indústria, que fianças para todas as classes da sociedade são impossíveis panhol: “EI régimen disciplinario de la prisión como castigo se basa justamente en
sem urna economia monetária. De outro lado, o desaparecimento de um dado sistema el trabajo duro, tosco y a veces totalmente improductivo, en el silencio obediente y
de produção faz com que a pena correspondente fique inaplicável”, ibid. p. 20-21. en la moral religiosa”.
84 MIRALLES, Teresa. La cárcel. In: BERGALL1, Roberto et. a/.(orgs.). EI pensa- 88 FOUCAULT, Michel. op. cit. 127.
miento criminológico II: Estado y control. p. 95-120. Bogotá: Temis, 1983. p. 96. 89 MIRALLES, Teresa. La cárcel... op. cit.
85
RUSCHE, Georg; KIRCHHEIMER, Otto. op. cit. p. 103.
48 49
da identidade do internado na prisão, reconhecida corno instituiçãototal.^Uma duzem selctivamente a criminalidade. Da mesma maneira, o controle social
cultura interna diversa daquela da sociedade livre permeia as relações entre informal cria a ideia da normalidade c do desvio, etiqueta determinadas pes¬
os que habitam a prisão, de tal maneira que, para lá sobreviver, os internos soas como desviantes, às quais o sistema penal vai se encarregar dc perseguir.
necessitam alterar os seus valores c o seu comportamento. Sua principal ca- É, sem dúvida, um processo dialético.
ractcrística é a regressão, pois o preso é privado todas as atividades típicas da
vida adulta.” Também a perda da privacidade, da autoestima, do seu espaço,
além de outras caractcrísticas que se sobrepõem na América Latina, como a 1.1.3 A reprodução das desigualdades pelo sistema penal:
“superpopulação, a alimentação paupérrima, a falta de higiene e de assistência resultados da criminologia crítica
sanitária, etc’’.*92 Nesse sentido, a prisão é uma máquina de deterioração, ao Buscando fazer frente às teorias criminológicas anteriores e seu limita¬
provocar o desenrolar do processo de prisionizaçào. do enfoque microssociológico c liberal, na década de 1970 foram desenvolvi¬
Em função da cultura prisional, o ex-presidiário costuma ser visto como dos estudos com o intuito de introduzir o enfoque macroestrutural à discussão
alguém em quem nunca se deve confiar.’3 Dessa maneira, “a mais reação so¬ criminológica. Trata-se do que se chamou de Nova Criminologia ou Crimino¬
cial negativa corresponde um aumento da concepção desviada do ‘si mesmo’, logia Radical. Enquanto aquela se desenvolveu na Inglaterra, especialmcnte a
que termina por traduzir-sc cm uma aceitação pelo sujeito de seu statussocial partir da obra The new critninology, deTaylor, Walton e Young, a criminologia
de desviado”,” contribuindo, assim, para o desvio secundário c para a consti¬ radical teve sua origem nos Estados Unidos, no curso do desenvolvimento das
tuição de uma carreira criminosa. Da mesma forma, alguém que já foi etique¬ teorias sociológicas da década de sessenta.
tado uma vez, além de ter possibilidades de se comportar novamente de forma Essa nova criminologia, em especial a obra citada, parte principalmcntc
desviante, também tem grandes chances de ser novamente criminalizado. O do contraponto às teorias criminológicas anteriores, faltando um programa
labelling demonstra “como o processo de reação à delinquência acaba por sistematizado de estudos nessa linha. Larrauri infere, entretanto, de suas crí¬
funcionar como uma pmfecia-que-a-si-mesma-cuitipre".’>i ticas quatro pontos principais a serem considerados em estudos da nova cri¬
Apesar disso, a instituição da prisão vem sendo expandida na maio¬ minologia: “aplicar um método materialista histórico ao estudo do desvio”;
ria dos países ocidentais, c, principalmcntc, a busca pelo isolamento total “analisar a função que cumpre o Estado, as leis c instituições legais na manu¬
do indivíduo através das prisões de segurança máxima se reproduz. Isso tenção dc um sistema de produção capitalista”; “estudar o desvio no contexto
mostra d'e forma mais aberta a desistência cm relação ao projeto rcssocia- mais amplo de luta de classes sociais com interesses enfrentados”; "vincular
lizador (apesar dc ser mantido no discurso) e demonstra a utilização dc a teoria à prática”.96
um projeto que busca apenas a neutralização dc sua clientela (prevenção Cirino dos Santos esclarece que a Criminologia radical, por sua vez,
especial negativa). estuda
Assim, na medida cm que reagem contra apenas alguns crimes c algu¬
mas pessoas, o controle social informal e o sistema penal constroem c repro¬ (...) o papel do Direito como matriz dc controle social dos processos de tra¬
balho e das práticas criminosas, empregando as categorias fundamentais da
9,1
.GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões c conventos. 7 ed. São Paulo : Pcrs- teoria marxista, que o definem como instituição supercslrutural de reprodução
pcctiva, 2007. das relações de produção, promovendo ou embaraçando o desenvolvimento
91
ZAFFARON1. Eugênio Raúl. op. cil. p. 125-126. das forças produtivas.”
92
ZAFFARONÍ, Eugênio Raúl. op. cit. p. 125-126.
Resta claro que a influencia das reflexões marxistas esteve presente no
” LEMERT, Edwin M. op. cil. p. 324.
desenvolvimento desse pensamento. Porém, é necessário observar que nem
” BERGALLI, Roberto. Pcrspectiva sociológica: estructura social. In: BERGALLI, Ro¬
berto et. al. (orgs.). EI pensamiento criminológico í: Un análisis crítico, p. 133-158.
Bogotá: Temis, 1983. p 150. Tradução livre do origina) em espanhol: “A más reacción 96
LARRAURI, Elena. La herencia dc tn criminologia critica. 2 ed. Madrid: Siglo
social negativa corresponde un aumento de la concepciõn desviada del ‘sí mismo’, que Veintiuno, 1992. p. 112-113.
tcnnina por traducirsc cn una aceptación por e) sujeto de su status social dc desviado” 97
SANTOS, Juarcz Cirino. A criminologia radical. Rio de Janeiro: Forense, 1981.
95
DIAS, Jorge dc Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa, op. cit. p. 352. p. 28.
50 51
Marx e Engels, nem os grandes pensadores marxistas se dedicaram especifi-
camente à questão do crime.98 Para o desenvolvimento dessa teoria foi neces¬ lização, um trabalho que leva em conta instrumentos conceituais e hipóteses
sário destacar, dentro do pensamento marxista, algumas indicações teóricas e elaboradas no âmbito do marxismo”.101
metodológicas. Na opinião de Pavarini, O questionamento em relação à sobrerrepresentação da população mais
pobre nas prisões, nos diferentes países, leva, nesse marco, a algumas pistas.
[.. .] é possível afirmar que com o termo nova criminologia se pode compre¬
ender uma pluralidade de iniciativas político-culturais e um conjunto de obras [...] se partimos de um ponto de vista mais geral, e observamos a seleção da
cientificas que a partir dos anos setenta nos Estados Unidos, e posteriormente população criminosa dentro da perspectiva macrossociológica da interação e
na Inglaterra e em outros países da Europa ocidental, desenvolveram um pouco das relações de poder entre os grupos sociais, reencontramos, por detrás do
depois as indicações metodológicas dos teóricos da reação social e do conflito fenômeno, os mesmos mecanismos de interação, de antagonismo e de poder
até o ponto de superar criticamente estes enfoques. E na revisão crítica dos que dão conta, em uma dada estrutura social, da desigual distribuição de bens
resultados aos quais se havia chegado, alguns se orientaram para uma interpre¬ e oportunidades entre os indivíduos.102
tação marxista - certamente não ortodoxa - dos processos de criminalização
Sendo assim, em um sistema de classes, enquanto alguns são contem¬
nos países de capitalismo avançado: estes últimos são reconhecidos - ou mais
comuinente reconhecem-se - como criminólogos críticos,^
plados com bens positivos como património, renda e privilégio, a criminali¬
dade é um bem negativo atribuído a algumas pessoas, através de mecanismos
A passagem da criminologia liberal100 à criminologia crítica ocorre análogos.103
com a busca pela “construção de uma teoria materialista, ou seja, econômico-
A criminologia critica recupera, portanto, a análise das condições objetivas,
-política, do desvio, dos comportamentos socialmente negativos e da crimina- estruturais e funcionais que originam, na sociedade capitalista, os fenômenos
de desvio, interpretando-os separadamente conforme se tratem de condutas das
104
classes subalternas ou condutas das classes dominantes.
Os resultados a que chega a criminologia critica são justamente a de¬
98
PAVARINI, Massimo. ControJ y dominación...p. 149.
99
ibid.p. 155-156. Grifos no original. Tradução livre do original em espanhol: “se monstração de que o princípio da seletividade, já formulado pelai teoria do
puede afirmar que con e! término ntieva criminologia se pueden comprender una
pluralidad de iniciativas político-culturales y un conjunto de obras científicas que etiquetamento, está orientado conforme a desigualdade social, sendo que as
a partir de los anos sesenta en los EU, y posteriormente en Inglaterra y en los otros classes inferiores são as efetivamente perseguidas. Assim, “[...] o sistema pu¬
países de Europa Occidental, han desarrollado un poco después las indicaciones nitivo se apresenta corno um subsistema funcional da produção material e
metodológicas de los teóricos de la reacción social y del conflicto hasta el punto ideológica (legitimação) do sistema social global, isto é, das relações de poder
de superar críticamente estos enfoques. Y en la revisión crítica de los resultados a ,
los que se había Uegado, algunos se han orientado hacia una interpretación mar¬
e de propriedade existentes”.105
-
xista ciertamente no ortodoxa - de los procesos de criminalización en los países
de capitalismo avanzado: estos últimos son reconocidos - o más comúnmente les
gusta reconocerse - como criminólogos críticos
101 ibid.p. 159.
100
Criminologia liberal é o termo empregado por Baratta para qualificar várias teorias
102 ibid. p. 106.
IM ibid. p. 108.
sociais criminológicas contemporâneas que vieram substituir a dimensão biopsico-
lógica do fenômeno criminal. São essas teorias a estrutural funcionalista; a teoria
,M
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurídica... op. cit. p.
das subculturas criminais; a teoria psicanalítica da sociedade punitiva; a teoria do 217.
105 BARATTA, Alessandro. Princípios del derecho penal mínimo. In: ELBERT, Carlos
labeling e teorias conflituais da criminalidade. Porém, observa que o termo é “uma
etiqueta sob a qual se reúnem diversas teorias não integráveis em sistema, cada Alberto; BELLOQUI, Laura (orgs.). Criminologia y sistema penal: Compilación
uma das quais, tomada em si mesma, representa uma alternativa somente parcial à in memorian. p. 299-333. Buenos Aires: Júlio César Faira, 2004. p. 301. Tradução
ideologia da defesa social”. BARATTA, Alessandro. Criminologia critica e crítica j livre do original em espanhol: “[...] el sistema punitivo se presenta como un sub-
do direito penal... op. cit. p. 151. Á criminologia crítica, por seu turno, colhe os 1 sistema funcional de la producción material e ideológica (legitimación) del sistema
resultados da questão criminal e os situa “no quadro de uma estrutura social deter¬ ' social global, es decir, de las relaciones de poder y de propiedad existentes, más
minada”, buscando desmistificar efetivamente a ideologia da defesa social, ibid. que como instrumento de tutela de intereses y derechos particulares de los indiví¬
duos”.
52
53
Baratta resume em quatro proposições os resultados da crítica do direito Não há então natureza criminosa, mas jogos de força que, segundo a classe a
penal possibilitada pela criminologia crítica: que pertencem os indivíduos, os conduzirão ao poder ou à prisão: pobres, os
| a) o direito penal não defende todos e somente os bens essenciais, nos magistrados de hoje sem dúvida povoariam os campos de trabalhos forçados;
e os forçados, se fossem bem nascidos, tomariam assento nos tribunais e ai
í quais estão igualmente interessados todos os cidadãos, e quando
distribuiriam justiça."2
pune as ofensas aos bens essenciais o faz com intensidade desigual
e de modo fragmentário; Ao conseguirem impor ao sistema a impunidade às próprias ações cri¬
b) a lei penal não é igual para todos, o status de criminoso é distribuído minais, os grupos poderosos da sociedade determinam a perseguição puniti¬
de modo desigual entre os indivíduos; va às infrações praticadas peia parcela máis frágil da população. Assim, os
c) o grau efetivo de tutela e a distribuição social das ações do status de crimes mais graves, aqueles que causam danos em grande proporção, como
criminoso é independente da danosidade social das ações e da gra¬ os delitos económicos e ambientais dificilmente são criminalizados."3 Isso
vidade das infrações à lei, no sentido de que estas não constituem a demonstra, em primeiro lugar, que a seletividade do sistema inicia nà cri¬
variável principal da reação criminalizante e da sua intensidade”.’06 minalização primária, quando são definidos no Legislativo os bens jurídicos
que deverão ser protegidos. Daí serem os crimes contra o património os mais
Diante disso, o sistema penal deixa de ser percebido como um mero
sistema abstrato e estático de normas, adquirindo o caráter de um sistema
comuns nos ordenamentos jurídicos de países capitalistas, c também de serem
pobres os principais clientes do sistema penal.
dinâmico de funções.’07 A criminalização secundária, ou seja, aquela que decorre da atuação
Os resultados do labelling e da criminologia crítica de crítica ao sistema
penal somaram-se à crítica historiográfica e demonstraram a sua total deslegiti-
das agências executiva e judiciária do sistema penal (polícia, justiça), é ainda
mais seletiva. Mesmo quando previstos na lei crimes típicos das classes domi¬
mação, tendo em vista o descumpri mento de suas funções declaradas, e mais, o
nantes, ou mesmo quando praticam delitos comuns, dificilmente pessoas que
cumprimento de funções latentes, ocultas, que mostram ser suas reais funções.”18
delas fazem parte são criminalizadas. Assim, o sistema penal age conforme
Em relação à prisão, sua função latente, segundo Foucault, ao fabricar a
um estereótipo do crime c do criminoso, que faz parte das classes mais frágeis
delinquência para propiciar a vigilância da sociedade, possibilita a imunidade
da população, reproduzindo-se as desigualdades sociais existentes. Em razão
das ilegalidades dos grupos dominantes. Nisso reside o sucesso real da prisão,
a despeito de seu fracasso, ao produzir uma “ilegalidade fechada, separada e disso, “deve admitir-se que seu exercício de poder dirige-se à contenção de
grupos bem determinados e não à ‘repressão do delito’”."4 Além de a clientela
útil”. l(W A prisão contribui, assim, no sentido de que “desenha, isola e sublinha
do sistema penal ser constituída de pobres e excluídos em geral, as pessoas
uma forma de ilegalidade que permite deixar na sombra as que se quer ou se
deve tolerar”."0 Assim, o conceito de delinquência sc transforma: “ela é antes que reivindicam mudanças do status quo são frequentemente identificadas
um efeito da penalidade (e da penalidade de detenção) que permite diferen¬ como desviantes.
ciar, arrumar c controlar as ilegalidades”.1" A imunidade dos crimes mais graves é cada vez mais elevada à medida cm
A imunidade dos delitos praticados pelos poderosos é, portanto, o exato que cresce a violência estrutural e a prepotência das minorias privilegiadas
correlato da criminalização das ilegalidades praticadas pelas parcelas mais que pretendem satisfazer as suas necessidades em detrimento das necessida¬
pobres da população. des dos demais e reprimir com violência física as exigências de progresso e
justiça, assim como as pessoas, os grupos sociais e movimentos que são seus
106
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit. intérpretes."5
p. 162.
107
ibid. p. 161. ibid. p. 254.
"’ BARATTA,
IM
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurídica... op. cit.
113 Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal... op. cit.
FOUCAULT, Michel. op. cit. p. 244.
1,4
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. op. cit. p. 40.
1,5
BARATTA, Alessandro. Direitos Humanos: entre a violência estrutural c a vio¬
; ’«
1,1
ibid.
lência penai. Fascículos de Ciências Penais. Porto Alegre, vol. 6, n. 2, p. 44-61,
ibid. p. 243-244.
abril-junho, 1993. p. 152.
54 55
Em consequência disso, pode-se perceber que o poder relativo dos pessoas às quais se qualifica como delinquentes e não, como se pretende, um
sujeitos potenciais do processo formal de controle e os estereótipos são os mero processo de seleção de condutas qualificadas como tais. O sistema penal
principais mecanismos de seleção do sistema penal.116 Conforme Dias e An¬ se dirige quase sempre contra certas pessoas, mais que contra certas ações
legalmente definidas como crime.122
drade, através desses mecanismos é possível compreender “as regularidades
da presença desproporcionada de membros dos estratos mais desfavorecidos Isso leva à conclusão de que “as chances e os riscos do etiquetamento
nas estatísticas oficiais da delinquência, ou [...] entre os clientes das instân¬ criminal não dependem tanto da conduta executada, como da posição do in¬
cias formais de controle”."7 O poder relativo dos sujeitos refere-se à própria divíduo na pirâmide social (status social)". m A ideia de que o sistema penal
participação em grupos que manipulam o conteúdo da lei penal. Além disso, deveria significar segurança jurídica, tanto no sentido de que o indivíduo deve
quando processados, determinados sujeitos têm. possibilidades de impor re¬ ser protegido do poder de punir do Estado, como em relação ao atributo do
sistências, valendo-se da “distribuição diferencial da imunidade”. “A capa¬ Estado moderno de monopólio da coerção física, de forma a evitar a luta de
cidade de influência depende sobremaneira do estatuto económico social do todos contra todos, fica completamente distorcida diante dessa realidade. Isso
interessado”.118 porque, ao realizar tal seleção entre as pessoas criminalizáveis, mostra-se um
A constatação da seletividade segundo a desigualdade de classe traz di¬ excesso de arbítrio, afora o fato de que as garantias penais há tanto tempo já
versas consequências. A principal delas é o descrédito em um dos principais previstas, são diariamente violadas pelas agências do sistema penal.
princípios propostos pelos iluministas, qual seja, o de igualdade perante a lei.
Conforme conclui Andrade, ao invés de assegurar a igualdade e a generalização Promessas vitais descumpridas, excessivas desigualdades, injustiças e mortes
não prometidas. Mais do que uma trajetória de ineficácia, o que acaba por se
no exercício da função punitiva, a dogmática penal trouxe para o sistema penal desenhar é uma trajetória de eficácia invertida, na qual se inscreve não apenas
a reprodução da seletividade e da desigualdade percebida na sociedade."9 o fracasso do projeto penal declarado mas, por dentro dele, o êxito do não-
A potencialidade deste desenvolvimento contraditório está, todavia, inscrito -projetado; do projeto penal latente da modernidade. 124
nas bases fundacionais do próprio sistema, expressando a tensão entre um pro¬ Assim, além de ser ilegítimo o exercício de poder dos sistemas pe¬
jeto jurídico-penal tendencialmenle igualitário e um sistema social fundado na
nais, é ele ilegal, o que se demonstra pela distância entre o programado e o
desigualdade real de acesso à riqueza e ao poder [...].120
efetivado. I25A sua capacidade para reagir contra todos os fatos definidos legal¬
Nesse sentido é a tese de Andrade, onde conclui que a promessa de mente como crimes cometidos na sociedade é ínfima. Fora isso, deve-se notar
igualdade perante a lei e de segurança jurídica vem invertida na prática, sendo
122
que a regra é a seletividade decisória, assim como as demais garantias penais 123
ibid. p. 267.
são frequentemente violadas. O déficit de proteção aos direitos humanos e o ibid. p. 277. Dentre as demonstrações de deslegitimação do sistema penal, cumpre
destacar os resultados da criminologia feminista, desenvolvida na década de 1 980,
excesso de arbítrio punitivo são as características principais do que se trans¬ a partir da introdução no enfoque macrossociológico do campo criminológico “as
formou o sistema penal na atualidade.121 categorias de patriarcalismo (ao lado de capitalismo) e relações de gênero (ao lado
Se a conduta criminal é majoritária e ubíqua, e a clientela do sistema penal é
de luta de classe) e as formas de dominação masculinas (sexistas) sobre a mulher
(ao lado da dominação capitalista)”. ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Siste¬
composta regularmente e em todos os lugares do mundo por pessoas perten¬ ma penal máximo x cidadania mínima. p. 93. Sobre o assunto, cf. ANDRADE,
centes aos baixos estratos sociais, isto indica que há um processo de seleção de Vera Regina Pereira de. A soberania patriarcal, op. cit.; ANDRADE, Vera Regi¬
na Pereira de. Sistema penal máximo x cidadania mínima... op. cit. p. 81-124;
116 DIAS, Jorge de Figueiredo; ANDRADE, Manuel da Costa, op. cit. p. 387. LARRAUR1, Elena (Comp.). Control formal y el derecho penal de las mujeres.
1,7
ibid. Madrid: SigloVeintiuno, 1994. Resultado disso é que o sistema penal não reproduz
1,8
ibid. p. 388. apenas as desigualdades económicas, fruto do sistema capitalista, mas também as
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurídica... op. cit. p. relações de gênero dominadas pelo patriarcalismo e ainda a discriminação racial.
124 ANDRADE, Vera Regina Pereira de.
311. A ilusão de segurança jurídica... op. cit. p. 293.
125
12,1
ibid. ZAFFARONI, Eugênio Raúl. op. [Link], Vera Regina Pereira de. A ilusão
121 ibid. de segurança jurídica... op. cit. p. 293.
57
o desrespeito às normas processuais penais, já que as correntes têm as¬
são cada vez mais comuns.
as prisões sem condenação É necessário observar, primeiramente, que ambas aparecem algumas
teórica
Diante disso, pode-se concluir que existe, na América pectos teóricos e práticos, e dentro da perspcctiva cm um minimalismo e um
é possível falar
ma penal subterrâneo. Três observações básicas, Latina, um siste¬ , variantes.190 Em função disso, não
tecidas por Aniyar de Castro, abolicionismo, mas em vários deles.131
confirmam essa afirmação: a de que a desigualdade social e especial segundo se trate da
a falta de efetivi¬ Os minimalismos têm uma distinção cm
dade das leis sociais levam à impossibilidade dc
que o direito penal seja volta¬ concepção dc que há uma crise estrutural de
legitimidade do sistema penal, ou
do para iguais; de que os procedimentos são | para uma relegitimação do
estigmatizantes apenas para uma f apenas conjuntural.132 Enquanto estes se direcionam
parcela dos acusados; e a relação desses reformadores), aqueles têm como foco
pontos com a atuação da polícia.126 t sistema penal (e por isso são chamados de
Esse sistema penal subterrâneo “opera tanto minimalismos como meio.133
mal como nos dc
nos mecanismos dc controle for¬ í a abolição do mesmo, e por isso são considerados a busca pela contração
controle informal”.127
Esses fatos traduzem uma deslegitimação do sistema penal I Em comum entre as diferentes vertentes está das pessoas envol¬
a dignidade
vosa do que aquela decorrente das teorias criminológicas. ainda mais gra¬ máxima do sistema penal, de forma a garantir consequências do
das agências do O excesso de arbítrio vidas com o mesmo. Porém, os pressupostos teóricos e as
sistema penal c a quantidade excessiva de mortes que lados distintos.
“tal sistema” se mostram sobressalentes cm relação envolvem desenvolvimento das teorias caminham para convergem no sentido de que perce¬
à violência que busca, em tese, Os trabalhos de Zaffaroni e Baratta
conter. Ou seja, o sistema penal se encontra deslegitimado penal, proporcionando uma
O desenvolvimento das mencionadas teorias
pelos próprios fatos.12)1 bem a crise estrutural de legitimidade do sistema
foco, porém, a sua abolição.
em dois pontos principais. O primeiro, criminológicas desemboca busca pela sua contração, tendo como
decorrente das pesquisas do labelling do modelo dc sociedade que
approach, demonstra que a criminalidade é uma De antemão, não se deve excluir a possibilidade intervenção penal mínima,
implícita ou explicitamente - corresponda a uma
construção social. O segun¬
do, decorrente da abordagem materialista da
criminologia critica, conclui que -
e encontrar, finalmente, a fonna de resolver
os conflitos suprimindo, inclusive,
essa construção social põe em jogo “um papel importante ângulo, o direito penal mínimo aprcsentar-sc-
no este direito penal mínimo. Deste
de reprodução das relações sociais de desigualdade”.12’ mecanismo geral
controle penal constrói a criminalidade e,
Então, o sistema de f -ia como um momento do caminho abolicionista.13*
através dessa construção, reproduz
a desigualdade de classe. Em curto prazo, essa perspcctiva tem em vista a redução da violência
erigindo os direitos
proporcionada pela operacionalidade do sistemapcnal,
penalcP“Os direitos humanos nos
Políticas criminais alternativas humanos ao posto de objeto e limite da lei
orientar as táticas que o
proporcionam a estratégia em direção a qual devemos
Algumas respostas na forma de políticas
criminais alternativas ganha¬ saber transformador nos faça disponíveis”.136
ram corpo com o advento das críticas
desestruturadoras ao sistema penal. Os
minimalismos e abolicionismos são exemplos de alternativas e abolicionismos: a crise do
que buscam 130 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Minimalismos
conter o sistema penal e/ou superá-lo. expansão. Sequência, Florianópolis, ano
sistema penal entre a deslegitimação e a
XXVI, v. 52, p. 163-182,2006,-
126
ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 128-
131
ibid.
127 132 ibid.
ibid.
121
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. op. cit. p. 125.
133ibid.
127
BARATTA, Alessandro. Problemas sociales y 15LZAFFARONI, Eugênio Raúl. op. cit. p. 125. mínimo... op. cit.
percepción de la criminalidad. In:
ELBERT, Carlos Alberto; Í3ELLOQU1, Laura (orgs.). ARATTA, Alessandro. Princípios del derecho penal penales em América
136 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Derechos humanos y sistemas
nal: Compilación in memorian.p. Criminologia y sistema pe¬ punitivo del Estado, p.
El poder
274-297. Buenos Aires: Júlio César Faira, 2004.
p. 291-292. Tradução livre do original Latina. In: Criminologia critica y control social.
livre do original em espanhol: “Los
em espanhol: “la construcción social de la
triminalidad juega un papel importante en el 61-72. Rosário: Júris, 1993. p. 71. Tradução
estratégia hacia la cual debemos orientar
de las mecanismo general de reproducción
relaciones sociales de dcsigualdad”. derechos humanos nos proporcionan la haga disponibles”.
nos
las lácticas que ei saber transformador
58 59
que o sistema penal atua sobre um número muito reduzido de casos, sendo que a
O respeito aos direitos humanos é um dos requisitos, portanto, para a ado¬
imensa maioria não é fisgada pelo sistema penal, e nem por isso os episódios de
ção de um modelo de mínima intervenção penal, e, ao mesmo tempo, “para a arti¬
vingança massiva e de caos profetizados chegam a se realizar.143
culação programática no quadro de uma política alternativa do controle social”.137
Os abolicionismos, por sua vez, nasceram comunicando teoria e práxis,
Para criar esse programa, Baratta elencou e desenvolveu na forma de princípios
e, em sua vertente teórica possuem as variantes: marxista, representada por
alguns requisitos mínimos de respeito dos direitos humanos na lei penal.138
A necessidade de respeito aos direitos humanos como base para a ela¬
Thomas Mathiesen, fenomenológica, de LoukHulsman, estruturalista de Mi-
chel Foucault e fenomenológica historicista de Nils Christie.144
boração e aplicação da lei penal é um dos pontos de convergência entre o
O objeto da abolição é um dos pontos controvertidos dentre as vertentes
minimalismo como meio e o minimalismo como fim. A diferença é tanto em
relação ao marco teórico, que no caso de Ferrajoli é racionalista e crê que o abolicionistas. Porém, é possível afirmar que estão de acordo que a
direito penal foi criado no sentido de limitar o poder de punir do Estado, ga¬ [...] abolição não significa pura e simplesmente abolir as instituições formais
rantindo ao indivíduo um processo justo, quanto às consequências disso139. Se de controle, mas abolir a cultura punitiva, superar a organização ‘cultural’ e
a finalidade do direito e do processo penal é a de garantia, o fato de isso não ideológica do sistema penal, a começar pela própria linguagem e pelo con¬
ocorrer na prática decorre de falhas, que podem ser superadas. Por isso, ape¬ teúdo das categorias estereotipadoras e estigmatizantes (crime, autor, vitima,
sar de reconhecer a des legitimação do sistema penal e o excesso de violência criminoso, criminalidade, gravidade, periculosidade, política criminal, etc.),
que tecem cotidianamente, o fio desta organização (pois tem plena consciência
vinculado à sua operacionalidade, admite a possibilidade de sua relegitimação
de que de nada adianta criar novas instituições ou travestir novas categorias
a partir do cumprimento de suas finalidades. cognitivas com conteúdos punitivos).145
Além disso,
Assim, é claro que não se pretende renunciar à solução de conflitos, mas
[...] enquanto o abolicionismo põe em relevo os custos do sistema penal, o
propor “uma reconstrução de vínculos solidários de simpatia horizontais ou
Direito Penal mínimo de Ferrajoli centra-se nos custos potenciais de uma anar¬
quia punitiva, sustentando que o Direito penal mínimo estaria legitimado pela
comunitários, que permitam a solução desses conflitos sem a necessidade de
necessidade de proteger, a um só tempo, as garantias dos “desviantes” e “não apelar para o modelo punitivo formalizado”.146
desviantes”.14" Por isso, ao contrário do que os críticos costumam fazer parecer, não se
prega com o abolicionismo a ideia de se abolir o sistema penal “da noite para
A resposta a esse tipo de argumento, elaborada por Hulsman, é a de que
quando se examinam estudos percebe-se que menos de 1 % de todos os eventos 143
que poderiam ser criminalizados são, de fato, efetivamente criminalizados.141 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: Aperda de legitimi¬
dade do sistema penal... op. cit. p. 106.
Mesmo que esse número seja diferente, de acordo com o contexto, não chegaria 144
ibid. p. 98-103. Esse trabalho não objetiva analisar detalhadamente cada uma des¬
a tanto, ao ponto de negar que “as alternativas ao sistema penal são a regra, e sas vertentes. Para tanto, cf. FOLTER, Rolf S. de. Sobre la fundamentación meto¬
não a exceção”.142 É o mesmo raciocínio exposto por Zaffaroni, ou seja, sabe-se dológica del enfoque abolicionista del sistema de justicia penal. Una comparación
de ideas de Hulsman, Mathiesen y Foucault. In: Abolicionismo penal, p. 57-86.
137
BARATTA, Alessandro. Princípios del derecho penal mínimo... op. cit. p. 304. Buenos Aires: Ediar, 1989.
145
Tradução livre do original em espanhol: “para su articulación programática en el ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Minimalismos e abolicionismos: a crise
cuadro de uma política alternativa del conlrol social”. do sistema penal entre a deslegitimação e a expansão... op. cit. p. 172. A opera-
138
ibid. cionalização do abolicionismo é exeplificada pela autora, citando Hulsman: “Os
139
FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: Teoria do garantismo penal. São Paulo: Re¬ abolicionistas validam muitas táticas, intra e extrasistêmicas, desde processos de
vista dos Tribunais, 2002. descriminalização legal, judicial, ministerial, despenalização, transferência de con¬
flitos para outros campos do Direito, como civil e administrativo, modelos con¬
140
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Minimalismos e abolicionismos... op. cit. p.
176.
' ciliatórios (mediação penal de conflitos, conciliação cara a cara), terapêuticos,
141 indenizatórios, pedagógicos ibid.
HULSMAN, Louk. op. cit. 146
142 ibid. p. [Link]ção livre do original em espanhol: “lasalternativas al sistema penal ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: Aperda de legitimi¬
son la reglamásque la excepción”. dade do sistema penal... op. cit. p. 104.
60 61
o dia”, sendo que “podemos exercer práticas abolicionistas cotidianamente, âs “impulso desestruturador”,’5'’ a partir da década de 1980 a tendência sc modifi¬
vezes até sem o saber sempre que levamos a serio a ultrapassagem do modelo cou novamente. Os contextos sociais propiciaram um novo endurecimento nas
punitivo c esta via, de certa maneira, co-responsabiliza a todos nós”.* 147 leis penais c nas políticas de segurança pública das grandes cidades, provocando
Isso demonstra que as ações abolicionistas necessitam de situações o paradoxo de sc apostar em um órgão de reprodução da violência para contê-la.
concretas, e por isso são sempre locais.148 A realidade da globalização acentuou esse paradoxo, fazendo que, com a
Diante das ideias arraigadas de delito e pena, o desenvolvimento do ascensão de grupos neoconscrvadorcs de direita, tanto estes como os progressis¬
abolicionismo pressupõe uma mudança de tratamento diante de fatos indivi¬ tas passassem a exigir a ação do direito penal, com finalidades diferentes. A ado¬
duais concebidos hoje como delitos, para conflitos, problemas como quais¬ ção de determinadas políticas económicas sustentadas pela ideologia neoliberal
quer outros, que devem ser tratados sem proceder à exclusão social, buscando nesse contexto condicionam a realidade dc um novo aprisionamento em massa,
bem como a adoção de teorias biologicistas sobre o crime para justificá-lo.
rcinscrir a vítima na busca pela sua solução.14’
Objeto das mais diversificadas análises, desde entusiastas até as mais
O enfoque abolicionista de Hulsman traz, ainda, um conceito diferente
destrutivas, hoje é raro verificar algum autor que não se posicione em relação
de sistema penal. Para ele, além das agencias formais de controle, como a
à globalização. No que tange aos autores mais críticos e realistas, a globali¬
polícia, o Ministério publico, a Justiça, o Legislativo, a Prisão, ctc., o sistema zação tem uma máscara que busca ser utilizada como quebra dc fronteiras e
penal é formado também pelas instâncias informais de controle. Isso significa diminuição dc distâncias entre os mais diversos povos, quando, na realidade,
que a ideologia punitiva está presente nos grupos sociais, c é funcionalizada as fronteiras cada vez mais se fecham e a solidariedade ínsita à ideia de inter¬
segundo a mesma lógica do sistema dc justiça criminal. câmbio está cada vez mais longe no plano da geopolítica.151 Ncoliberalismo é
Mesmo diante dessas alternativas político-criminais teorizadas e prati¬ a palavra para o equivalente ideológico desse processo, apresentando 0 capi¬
cadas para fazer frente ao sistema penal dcslegitimado, o contexto atual traz talismo e o livre mercado como únicas alternativas para todas as economias
um paradoxo: o surgimento c a hegemonia das políticas criminais eficientis- do mundo. Entre as suas características, tem-sc a dominação dos organismos
tas, que apostam no incremento da repressão penal diante dc uma realidade dc financeiros no plano internacional, que realizam empréstimos aos países cm
crescente difusão do medo do crime c do sentimento dc insegurança. troca da adoção de políticas de redução do Estado.
Enquanto o Estado providência sc relacionava com a sociedade através
1.1.4 O sistema penal diante da globalização do paradigma da segurança, ou seja, pretendia ser um garante do bem estar das
pessoas, e ao mesmo tempo redutor de incertezas,’57 a sua decadência com a
Apesar de a década dc 1 970 haver indicado que o futuro seria de retração ascensão de um neoconservadorismo significou o oposto.
do sistema penal, cm função das teorias provocadoras do que Cohen chamou de ,í0
COHEN, Stanley. Visiones dei controí social: Delitos, castigos y clasificacíones.
Barcelona: PPU, 1 988. 0 autor concebe o “impulso desestruturador” como sendo o
conjunto de ataques ao sistema dc controle penal, sendo que a partir de 1960 havia
quase “um consenso ideológico cm favor dc inverter a direção que o sistema havia
147
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Minimalismos e abolicionismos: a crise adotado cm finais do século XVIH”. p. 56. Estão neste grupo quatro grupos de
do sistema penal entre a deslegiti mação e a expansão... op. cit. p. 174. Hulsman ideologias ou movimentos desestruturadores: opostos ao Estado; opostos ao perito;
observa que existem formas mais positivas c mais negativas de exercer controle opostos à instituição e opostos â mente, ibid. p. 56-57.
social: Positivas: “Provendo formas c meios; resolvendo, reparando, compensan¬ 151
Por outro lado, autores como Octavio lanni percebem a possibilidade de desenvolvi¬
do, recompensando, ajudando, apelando ao dever c à solidariedade". Negativos: mento de uma sociedade global, não sem observar a complexidade dc tal projeto. “A
Levantando barreiras; castigando, reprimindo, separando”. HULSMAN, Louk EJ sociedade global c o cenário histórico em que as condições de integração e antagonis¬
enfoque abolicionista: Políticas criminales alternativas... op. cit. p. 83. Segundo a mo, alienação e emancipação, desenvolvcm-sc em escala ampla, acelerada, influen¬
proposta abolicionista, as formas positivas são sempre preferíveis. ciando indivíduos, grupos, classes, etnias,minorias, sociedades e continentes". 1ANN1,
141
ZAFFARONi, Eugênio Raul. Em busca das penas perdidas: A perda de legitimi¬ Octavio. A sociedade global. 5 cd. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1 997. p. 178.
157
dade do sistema penal... op. cit. p. 104. PEGORARO, Juan S. Las relaciones socicdad-Estado y cl paradigma de la insc-
STE1NERT, Heinz. Mas alládel delito e dc la pena. In: Abolicionismo Penal, p. guridad. Delito y socicdad: Revista de Ciências Sociales, Buenos Aires, ano 6, n.
35-56. Buenos Aires: Ediar, 1989. p. 49. 9/10, p. 51-63, 1997. p. 53.
62 63
O Consenso de Washington153 foi o marco onde se buscou trazer soluções plantação do modelo neoliberal e a entrada do país no processo de globalização
ao impasse latino-americano, tendo como eixo central o combate ao poder dos foi a precarização das relações de trabalho levando milhares de trabalhadores ao
sindicatos e a redução do papel do Estado na economia. Nesse processo, as políti¬ desemprego .e ao subemprego.156 “Assim, múltiplos elementos articulados pela
cas neoliberais foram postas à mesa, afetando, sobretudo, o mundo do trabalho e ofensiva do capital vinculam-se ao desemprego estrutural e crónico, à extensão
as políticas sociais de um modo geral. Passou-se a impor a flexibilização das rela¬ e aprofundamento do exército industrial de reserva em nosso país”.15’ A doutrina
ções trabalhistas, com a desregulamentação dos direitos e a precarização das con¬ neoliberal tem por pressuposto a liberdade do mercado, que, segundo seus ideó¬
dições de trabalho. O sistema previdenciário também foi e é um dos alvos, além logos, é a única forma capaz de promover o crescimento e a riqueza do mundo.
das empresas estatais, muitas das quais já foram privatizadas na década de 1990. Coincide com a decadência do Estado providência, nos países centrais,
Na área jurídica as políticas neoliberais implicam no autodenominado Estado a implantação das políticas neoliberais, já que o Welfare State representava
Mínimo, que na Europa tem significado uma tentativa de dilapidação do Estado exatamente a perspectiva contrária.
Social, e na América Latina coloca de forma radical a questão do dilema demo¬
[...] Todo o processo de integração económica mundial que chamamos ,“glo-.
crático, na medida em que a modernização neoliberal não enfrenta os óbices balização” bem pode ser entendido como um vazio de Direito público produto
que são as conquistas jurídicas da cidadania logrados nas lutas históricas dos da ausência de limites, regras e controles frente à força, tanto dos Estados com
trabalhadores. 154 maior potencial militar como dos grandes poderes económicos privados.158
O modelo neoliberal trouxe uma nova divisão internacional do trabalho, Diante de uma total insegurança a respeito dos efeitos que a circula¬
provocando a flexibilização dos processos produtivos, com as inovações tecnoló¬
ção do capital pode ter de um dia para o outro no mundo inteiro, incerteza
gicas que serviram para aumentar a produtividade, poupar mão-de-obra, aumentar
talvez seja a palavra que mais reflete a atualidade. “O mercado prospera na
os lucros sem aumentar os salários.155 A consequência imediata no Brasil da im¬
incerteza (chamada altemativamente de competitividade, desregulamentação,
153
Reunidos na capital americana em novembro de 1989 no Intemationallnstitute flexibilidade etc.) e a reproduz em quantidade crescente como seu principal
for Economy, funcionários do governo dos EUA, dos organismos internacionais alimento”.159
e economistas latino-americanos discutiam um conjunto de reformas essenciais
para que a América Latina superasse a crise económica e retomasse o caminho do
crescimento. O diagnóstico era tenebroso: dívida externa elevada, estagnação eco¬ 156 BUDÓ, José S. Dorneles; BUDÓ, Marília Denardin. Direitos sociais e nèolibera-
nómica, inflação crescente, recessão e desemprego. As conclusões desse encontro lismo: Uma reflexão sobre os direitos dos trabalhadores em tempos de flexibiliza¬
passaram a ser denominadas informalmente como o Consenso de Washington, ex¬ ção. Revista do Congresso Internacional de Direito do Trabalho e Processo
pressão atribuída ao economista inglês John Wifliamson. OLIVEIRA, Odete Maria do Trabalho, p. 51-62. Santa Maria, 2005. p. 57. É interessante a observação de
de. Teorias globais: fragmentações do mundo, v. 111. Ijuí: Unijuí, 2005. p. 207-211, Bourdieu ao notar que o sucesso da insegurança, sofrimento e estresse que carac-
154
ARRUDA JÚNIOR, Edmundo Lima de. Neoliberalismo, Reforma do Estado e terizam a adoção de politicas neoliberais e o privilégio do indivíduo em face da
Modernidade, in: Direito e século XXI: Conflito e ordem na onda neoliberal pós-
coletividade nas próprias empresas conta com a cumplicidade de trabalhadores ‘‘a
-modema. p. 71-90. Rio de Janeiro: Luam, 1997. p. 80. braços com condições precárias de vida produzidas pela insegurança bem como
15S
DEMO, Pedro. Globalização da exclusão social: Contradições teóricas e metodoló¬ pela existência - em todos os níveis da hierarquia, e até nos mais elevados, sobretu¬
gicas do discurso neoliberal acerca do enfientamenlo da pobreza. Revista Rastros, do entre os executivos - de um exército de reserva de mão de obra docilizada pela
ano III, n. 3, dez. 2001. Disponível em: <[Link] precarização e pela ameaça permanente do desemprego”.p. BOURDIEU, Piene.
rastros/rastros03/[Link]> Acesso em: 31 out. 2006. O que deve ser reite¬ Contrafogos: táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro: Jorge
rado, portanto, é que o processo de transformação do mundo do trabalho em face da Zahar, 1998. p. 140. Grifos no original.
globalização diz respeito não somente à mundialização do capital, mas também ao 157 SOUZA, Renildo. A Flexibilização das relações de trabalho no Brasil. ImGOMES,
impacto das novas tecnologias. “A destruição de postos de trabalho, muito superior Álvaro (org.). O trabalho no século XXI. p. 49-77.São Paulo: Anita Garibaldi,
à criação de novos empregos, não é só uma espécie de fatalidade atribuída à ‘tecno¬ 2001.
logia’ em si mesma. Ela resulta, pelo menos em igual medida, da mobilidade de ação 158 FERRAJOLI, Luigi. Pasado e futuro dei Estado de Derecho. In: CARBONELL,
quase total que o capital industrial recuperou, para investir e desinvestir à vontade, Miguel (Ed.). Neoconstitucionalismo(s). p. 13-30. Madrid: Trotta, 2003. p. 22.
‘em casa’ ou no estrangeiro, bem como da liberalização do comércio internacional”. 159 BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p.
CHESNAIS, François. A mundialização do capital.São Paulo: Xamã, 1 996. p. 301 . 38.
64 65
Como acentua Bauman, “reformular as irremediáveis preocupações
Em função disso, o número de excluídos do sistema é crescente. Como com a segurança individual, plasmando-as em ânsia dc combate ao crime
nota Bauman, priva-sc uma parcela cada vez maior da população de todo o
efetivo ou potencial c, assim, dc defesa da segurança pública é um eficiente
trabalho reconhecido como útil, “de modo que essas camadas populacionais estratagema político que pode dar belos frutos eleitorais”.163 Ocorre, então,
se tomam económica c socialmentc supérfluas".'“De outro lado, os ricos acu¬ a tradução do significado da palavra segurança para o poder de polícia do
mulam cada vez mais riqueza, de forma que o abismo entre ricos c pobres, ate Estado. Nesse contexto, segurança não quer mais dizer garantia da satisfa¬
mesmo em países desenvolvidos, só cresce. ção dos direitos sociais. Compensar a insegurança social com a mobiliza¬
Na América Latina, o fenômeno é ainda mais profundo, pois os países
ção contra o diferente, o desviante, é adotar “o velho mecanismo do bode
já possuíam uma desigualdade estrutural jamais diminuída por um Estado pro¬ expiatório, que consente de descarregar sobre o pequeno delinquente as
vidência forte. Grande parte do pouco que havia, como as atividades estatais inseguranças, as frustrações e as tensões sociais mal resolvidas”.164 Isso
que garantiam os serviços essenciais, foram 'privatizadas na década de 1990. demonstra que “a ideologia do Estado mínimo não se dirige contra o Esta¬
Por essa razão, o número dc excluídos do sistema e a sensação de insegurança do, mas contra o consenso democrático trabalhista social do pós-guerra”.165
repercutem de forma diversa na estrutura social. Quanto ao controle social, foi adotada a forma de bifurcação, onde de todos
O fenômeno tende a criar nos países latino-americanos uma massa de excluídos os lados cresce o papel repressivo do Estado. “O lado duro sc endurece
que não responde à dialética explorador/explorado, senão a uma não relação en¬ (neo-classicismo, castigo severo, aumento de vigilância, tecnologia), en¬
tre excluído/incltiído. O explorado contava, era tido em conta c estava dentro do quanto que o lado suave (ainda que sob controle estatal direto ou indireto)
sistema; o excluído não conta, está sobrando, é um descartável que não serve, só retém algo de sua bagagem humanista e ideológica [...] e também segue
161
atrapalha. A lógica deste esquema, se não interrompido, é o genocídio. cxpandindo-sc”. 166
O papel do legislador nesse processo, que seria o de buscar a melhora de A transformação semântica da palavra segurança nada tem de inofen¬
vida da população através de políticas sociais sc mostra essencial. Porem, a lógi¬ siva. Ela representa, de fato, uma transição do Estado social máximo para o
ca é outra, e o resultado do processo legislativo c cada vez menos um fim, e cada Estado social mínimo, c do Estado penal mínimo ao Estado penal máximo.
vez mais um meio para garantir votos. Em função disso, a preocupação do legis¬ Nos anos sessenta, quando as políticas sociais do pós-guerra adquiriam o seu
lador c a de propor normas que garantam as próximas eleições, transformando- ápice, jamais sc poderia imaginar que duas décadas após se apresentaria a ten¬
-sc a política cm um espetáculo. Para agradar possíveis eleitores, necessária sc dência ao fenômeno oposto. “Sc os lemas da social democracia do pós-guerra
faz a promulgação de leis que satisfaçam as suas ansiedades, c nada melhor para haviam sido controle económico e emancipação social, a nova política dos
atingir essa finalidade do que a edição dc leis dc repressão penal.
. As leis penais são um dos meios preferidos do Estado-espctáculo c de seus
operadores 's/wwnen',cm razão de serem baratas, de fácil propaganda e pela
facilidade c frequência com que enganam a opinião pública sobre sua eficácia. BAUMAN, Zygmunt. op. cit. p. 59. Grifos no original.
Trata-sc de um recurso que obtém alto crédito político com baixo custo. Daí
.
164
FERRAJOLI, Luigi. Criminalità e globalizzazione. Revista Brasileira de Ciên¬
a reprodução dc leis penais, a decodificação, a irracionalidade legislativa e, cias Criminais, São Paulo, ano 11, n. 42, p. 79-89, janeiro-março 2003. p. 86.
sobretudo, a condenação dc todos os que duvidem da sua eficácia. Tradução livre do original em italiano: “E’ il Vecchio meccanismo del capro espia-
torio, che consente di scaricare sul piccolo delinquente le insicurezze, le frustazioni
e le tensíoni sociali irrisolte”.
165
COHEN, Stanley, op. cit. p. 200. Tradução livre do original cm espanhol: “contra
’
el consenso democrático laborísta social de la post guerra”.
'“ibid. p. 177. 166 ibid. p.
207. Tradução livre do original em espanhol: “(...j El lado duro se endurece
161ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Globalização c sistema penai na América Latina: Da (nco-clasicismo, castigo severo, aumento de vigilância, tecnologia), cn tanto que el
segurança nacional à urbana. Discursos Sediciosos: Crime, direito, sociedade, Rio lado blando (aún bajo control estatal dirccto o indirecto) retiene algo dc su bagaje
deJaneiro, ano 2. n. 4, p. 25-36, julho-dezembro 1997. p. 32. humanista c ideológico (...) y lambién sigue expandiéndosc".
161
ibid.
66 67
fins dos anos oitenta impulsionou um marco bastante
diferente de liberdade que vêm ocorrendo
económica e controle social" Porém, é necessário esclarecer que os fenômenos
Essas tendências, reveladas em mudanças na legislação em transferidos para
favor do na Europa, e nos Estados Unidos não podem ser diretamente fenômenos “são
aumento da repressão penal, buscam atingir o cerne do Zaffaroni, nossos
Estado de Direito, os países latino americanos. Como sustenta
ou seja, a proteção dos direitos fundamentais. A Europa
já vem sentindo o qualitativa e quantitativamente diferentes dos que procuram explicar os mar¬
peso das legislações de emergência, as quais acabam
legitimando um poder cos teóricos ordenadores dos países centrais”.170 à situação da
arbitrário do Estado, especialmente contra a imigração e os Relacionando-se essas questões anteriormente apontadas
crimes de rua. A
são ainda mais nefas¬
América Latina, é possível notar que as consequênciastragédias que se repro¬
emergência permite que se admita um recorte nos
direitos e garantias funda¬
mentais.*168 tas, e suas elaborações teóricas decorrem dos
fatos, das
Assim, os excluídos passam a ser vistos como ameaças,
e, no intuito duzem cotidianamente.171 A explicação de Zaffaroni
acerca do genocídio em
de proteger os interesses de uma parcela da uma visão histórica e dialé¬
população, retira-se ao máximo
os direitos da outra. “As pessoas vulneráveis e sem marcha que vem ocorrendo nessa região, parte de o autor relaciona 'as
argumento,
nenhum poder social que tica de tal realidade. De forma a sustentar esse e a industrial,
sofrem lesões de seus direitos económicos e sociais a mercantil
ou da sociedade, se convertem de tal modo em por parte do Estado duas revoluções tecnológicas ocorridas na Europa, colonialismo eo
marginal: o
potenciais agressores dos direi¬
tos fortes (integridade, direito de propriedade) dos sujeitos com as práticas aplicadas à época à localidade foram dois momentos
socialmente mais neocolonialismo. “O colonialismo e o neocolonialismo
protegidos”. 169 Isso significa que a política
se desloca da proteção aos mais diferentes mas igualmente cruéis - de genocídio
- e etnocídio”.172 Com ideo¬
fracos para a proteção aos mais fortes contra aqueles
mesmos mais fracos, logias justificadoras hoje conhecidas, no primeiro, a
inferioridade dos viven¬
tendo-se neles uma ameaça. segundo, a inferioridade
tes do novo mundo em função do paganismo, no
e,
biologicamente infe¬
,S7
GARLAND, David. La cultura del control: Crimen y por não possuir o mesmo grau de civilização ou por ser papel essencial no
rior (marco científico positivista), o sistema penal teve
um
contemporânea. Barcelona: Gedisa, 2005. p. [Link] orden social en la sociedad
através da constatação de que
do original em espanhol: “Si las consignas de la no original. Tradução livre exterminio. A relação com a atualidade é dada
an sido control económico y liberación social, Iasocialdemocracia de posguerra habí- traz consequên¬
a revolução tecnocientífica ocorrida no mundo desenvolvido
impulso un marco bastante diferente de libertad nueva política de los anos ochenta cias imprevisíveis. Isso porque, no período atual, a
violência do sistema pe¬
land parte da ideia de que, ainda que as estruturas económica y control social”. Gar- e, particularmente,
a mudança mais importante se deu na cultura do de controle tenham se modificado, nal “recai sobre os setores mais vulneráveis da população novas’, etc. Não
‘favelas’, ‘cidades
controle do delito, a qual se for ott
em torno de três elementos centrais: 1 . um welfarismo sobre os habitantes das ‘vilas-misérias’,
penal modificado; 2. uma de continuar a enumeração para percebermos que
criminologia do controle; 3. uma forma económica de raciocínio, acreditamos na necessidade m
168
BERGALLI, Roberto. La construcción del delito y de los problemas ibid. p. 287.
estamos diante de um genocídio em andamento".
controle social típico
A globalização é o marco histórico desse modo de
BERGALL1, Roberto (coord.). Sistema penal y problemas sociales. In:
sociales. p. 25-82. meios das etapas
Valência: Tirant lo Blanch, 2003. do tecnocolonialismo, porém, com a utilização dos mesmos
169
BARATTA, Alessandro. La política criminal y el desaparecimento forçadoj”,
ón: Nuevas reflexiones sobre el modelo integrado derecho penal de la constitucí- anteriores “[a tortura sistemática, o homicídio e o (ou as militares na
de
Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, ano 8, las ciências penales. Revista e “seus instrumentos executivos, são as agências policiais
ço 2000. p. 32. Tradução livre do original em espanhol:n. 29, p. 27-52, janeiro-mar¬ função exclusivamente policial)”.174
‘respetables’ (y no para tutelar aquellas que no pueden“Para proteger las personas controle so¬
disfrutar de sus derechos Enquanto as classes perigosas do século XIX eram o foco do
civiles, económicos y sociales), la política criminal clientela tradicional, hoje ele se volta mui-
logia de la nueva prevención, en ‘prevención se transforma, en la termino¬ cial penal, apesar de não abandonar sua
social’ (de la criminalídad). Las per¬
sonas vuínerables y sin ningún poder social que un márgen. Bo¬
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Criminologia: Aproximación desde
económicos y sociales'(derechos ‘débiles’, como sufren lesiones de sus derechos ”»
senala Ia teoria de los derechos
fundamentales), por parte del Estado o de la sociedad, se gotá: Temis, 1993. p. 02.
potenciales agresores de los derechos fuertes convierten de tal modo en 171
ibid.
118.
los sujetos socialmente más protegidos”.
(integridad, derecho depropiedad) de 172
idem. Em busca das penas perdidas... op. cit. p.
175
ibid. Grifos no original.
174 idem. Globalização e sistema penal... op. cit. p. 32.
68
69
í.
to para “os ‘excluídos’, para essa legião de pessoas humanas que se convive
defrontaram [...] a reivindicação de sua [do sistema penalj redução e abandono
com as grades intransponíveis que a racionalidade do mercado construiu ao e se aquela primeira se faz acompanhar de um for¬
redor com a de sua expansão;
abandono
do alegre condomínio no qual residem as novas acumulações de riqueza”.175 talecimento das garantias inexistentes, esta preconiza o próprio
a debilidade dos
Toda essa repressão interna criada, que se desenvolve a partir de proces¬ de seu reconhecimento formal. Enquanto está demonstrada
sos de criminalização primária (criação de leis repressivas) e
secundária (opera¬ potenciais garantídores do Direito Penal, continua se apostando neles.'”
cionalidade seletiva e estigmatizante do sistema penal), traz a ilusão de que do siste¬
investe na melhoria da segurança. Porém, a insegurança é que resta agravada,
se Do lado oposto aos teóricos que demonstram a deslegitimação
criminal
quando se percebe o aumento de poderes ao Estado (apesar da ma penal e apontam alternativas a ele, estão movimentos de política dc rua e nas
redução de suas que buscam a sua relegitimação. Identificando na criminalidade
-
funções Estado Mínimo) com a respectiva vulneração aos direitos
tais. Dessa forma, o próprio Estado de direito se vê desestabilizado,
fundamen¬ desordens decorrentes de insatisfações com o estado atual, os movimentos de
do
refém da relegitimação buscam a criminalização dc tudo, buscando a transformação
política do espetáculo e da cultura do medo alimentada
pela mídia. Estado em verdadeiro Estado penal.
É de se notar, porém, que o avanço desse fervor punitivo significa
cada sendo recuperado cm
vez mais a adoção de um direito penal do inimigo. Zaffaroni, O conceito de inimigo interno sobreviveria à ditadura,
ao analisar essa redemocratização, deslocado
teoria, criada por Jakobs, busca demonstrar que o avanço documentos militares, já em pleno processo dc
do Estado de polícia da criminalidade política para a criminalidade comum, para a compreensão da
sobre o Estado de direito permite a criação de categorias diferentes
de pessoas violência urbana.180
dentro do mesmo Estado. Enquanto umas são consideradas iguais, e para
elas es¬
todo o arcabouço de direitos e garantias fundamentais funciona,
para outros (c Segundo essas ideias, os grandes inimigos do Estado e da sociedade
no criminoso
na nossa região marginal, a maioria) esses direitos são
inexistentes.175 É assim tariam identificados nos crimes praticados pelos miseráveis. “É protago¬
que cerca de % dos presos na América Latina são provisórios, de rua, no pequeno delinquente, que passa a se encontrar
o principal
ou seja, sequer
possuem uma condenação, além de terem quotidianamente
os mais importantes nista da mais nova transfiguração do crimen lesa maiestatis.**'
direitos, como a própria integridade física e a vida, vulnerados.
Porém, no mo¬
mento em que se admite a existência do inimigo, já não se pode
mais falar
Estado de direito, c, c claro, a limitação dos poderes do Estado tem seus em Política cr iminal e movimentos neoconservadores
dias de acal¬
contados.'77 A demonização do outro é a característica dessa sociedade
exclu- Cabe ressaltar que o aumento da repressão penal como forma
dente, permitindo “que os problemas da sociedade sejam votos não se resume a isso. Faz
colocados nos ombros mar a opinião pública e de se garantir mais política criminal
dos ‘outros’, em geral percebidos como situados na ‘margem’ da parte de um movimento maior, ou de vários movimentos de
sociedade”.'78
A tendência de hipertrofia do sistema de controle penal
e redução das que alimentam esses desejos de punição.
um
garantias é um exemplo do que pode acarretar o
discurso do medo. Na O Movimento de Lei e Ordem é frequentemente apontado como
do paradigma etiológico da criminologia, esses discursos procuram esteira deles. Como afirma Franco, tal movimento, originado nos
Estados Unidos,
legitimar da década dc 1990, e até
a ideologia da defesa social, em especial o princípio do bem e teve influência direta na elaboração de leis penais
do mal. Como do art. 5°, inc. XL1I1
nota Andrade, mesmo funcionou como fundamento" político-criminal
175
BATISTA, Nilo. A violência do estado e os aparelhos policiais.
ciosos: Crime, direito, sociedade, Rio de Janeiro, ano Discursos Sedi¬
2, n. 4, p. 145-154,julho-
-dezembro 1997. p. 147.
176
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. O inimigo no direito penal. Rio de op. cit. p.
; Janeiro: Revan, 175 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão dc segurança jurídica...
2006.
,77ibid. 296.
180 BATISTA, Nilo. op. cit. p. 1 5 1.
178
| YOUNG, Jock. A sociedade excludente: exclusão social, política na história do
ça na modernidade recente. Rio de criminalidade e diferen¬ 181
DAL RI JR, Amo. O Estado e seus inimigos: A repressão
Janeiro: Revan/ICC, 2002. p. 165. direito penal. Rio de Janeiro: Revan, 2006. p. 356.
70 71
I
da Constituição Federal182 O mesmo autor explica que o Movimento de Lei
em Manhattan que se vulgarizou a teoria “da vidraça quebrada”, a qual
183.
72
tistas se situam em um contexto em que as pessoas são vistas como
excedentes
populacionais, sendo que o seu confinamento não implica em desperdício
1 presos se tornam seres sobrantes. E a resposta a isso vem nos constantes mas-
direitos dos presos.
mão-de-obra.
de i sacres, descaso em relação à higiene, à segurança e demais
Isso significa que, apesar de terem ingressado na tendência de crimina-
disso um
Pobres, desempregados, mendigos, nómades e migrantes representam
certa¬ lização, esses países não possuem a estrutura necessária para fazer
da situ¬
mente as novas classes perigosas, “os condenados da metrópole”,
contra quem negócio, e a resposta ao aumento no encarceramento é o agravamento
se mobilizam os dispositivos de controle, mas agora são empregadas ação nos presídios, culminando com a morte em massa. Assim, aproveitando-
estraté¬
-se dos dramas do dia-a-dia, a política alia-se ao poder da mídia, propagando,
gias diferentes nesse confronto. [...] Trata-se, pois de
neutralizar a “periculo-
sidade” das classes perigosas através de técnicas de prevenção do risco, que da repres-
se articulam principalmente sob as formas de vigilância, através do espetáculo e do drama alheio, a necessidade de aumento
são penal. Simbolicamente, a edição de leis penais e a adoção de políticas
de
contenção carcerária.191
segregação urbana e
| tolerância zero permitem uma compensação do déficit da tutela real dos bens
um senti-
Assim sendo, a prisão passa a ter o único intuito de neutralização, de jurídicos, criando-se, junto ao público, “uma ilusão de segurança e
depósito do lixo, como nota Bauman, diante do desinteresse e impossibilidade mento de confiança no ordenamento e nas instituições que tem uma base real
de reciclá-lo.”2 Um novo momento de internamento, diverso daquele | cada vez mais fragilizada”.”7
dó sécu¬ contri¬
lo XIX parece estar ocorrendo, na tentativa de “definir
um espaço de conten¬ Esse uso simbólico, cujo exemplo é a legislação de emergência,
ção, de traçar um perímetro material ou imaterial em tomo das bui justamente no fomento a sentimentos de medo. O problema é que “os te¬
populações que liberdades”. 198 Com
são ‘excedentes’ [...] em relação ao sistema de produção vigente”.193 mores reais ou construídos nunca foram bons aliados das
Isso ocorre também na mesma medida em que cresce a indústria do
con¬ as mudanças operadas na realidade_SQ.cial da globalização, as novas contradi¬
principal¬
trole do crime, sendo que a prisão passa a representar a solução de
alguns pro¬ ções do capitalismo já não permitem que o,controle social ocorra
novas formas j
blemas dos países altamente industrializados, já que cria novas funções para
a mente por meio da disciplina, e então passam a exigir .também
terror, 'd
indústria, ao mesmo tempo em que ocupa a parcela desempregada da
popula¬ de-controle social. Na opinião de Bergalli, esse é o papel da difusão do
para punir, “mas não só punir
ção.194 Ou seja, os presos tomam-se “matéria-prima para o controle
do crime Acima de tudo, o sistema penal está orientado
deve chegar ao
ou, se quiserem, consumidores cativos dos serviços da
indústria do controle”.”5 exemplarmente cada violação da nova ordem, mas também
Ao mesmo tempo, o encarceramento contribui para a redução ponto de criar alarma social para converter-se em fonte de consenso
em torno
dos índices de político”.199
desemprego, na medida em que para esse índice os encarcerados não são com¬ às instituições, prevenindo assim qualquer eventual dissentimento
putados como desempregados, mesmo que o fossem antes da
prisão.”6
Nos países latino americanos, apesar de a indústria do controle do crime
ter avançado muito nos últimos anos, as economias não suportam penal. Li¬
tal investi¬ 197 BARATTA, Alessandro. Funções instrumentais e simbólicas do direito
mento. Daí verificar-se que, longe de significarem consumidores na Brasileira de Ciências Crimi¬
prisão, os neamentos de uma teoria do bem jurídico. Revista
nais, São Paulo, ano 2, n. 5, p. 05-24, janeiro-março 1994. p. 22.
y sociedad.
191
GIORGI, Alessandro di. A miséria governada através do sistema 198 BARATA, Francesc. EI drama [Link] en los mass media. Delito
penal. Rio de 1/12, p. 59-68, 1998. p. 60.
Janeiro: Revan/ICC, 2006. p. 28. Revista de Ciências Sociales, Buenos Aires, ano 7, n. 1 o construídos nunca
192 Tradução livre do original em espanhol: “los temores reales
BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Rio de Janeiro; Jorge Zahar,
106. 2005. p. fueronbuenos aliados de laslibertades”.
193 199 BERGALLI, Roberto. Relaciones entre control social y globalización: Fordismo
y
GIORGI, Alessandro di. op. cit. p. 28. Alegre, n. 13, 2005.
194
disciplina. Post-fordismo y control punitivo. Sociologias, Porto
CHRISTIE, Nils. A indústria do controle do crime: A caminho dos
estilo ocidental. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p. 121. GULAGs em Disponível em: <http.7/[Link]/[Link]?script=sci_arttext&pid=S1517-
sp. Tradução
195
ibid. p. 122. -45222005000100008&lng=pt&nrm=iso> Acesso em: 10 abr. [Link] violación
196 livre do original em espanhol: “pero no solo punir ejemplarmente
WESTERN, Bnice; BECKETT, Katherine; HARDING, punto de crear alarma social
mercado de trabalho nos Estados Unidos. Discursos [Link] penal e del nuevo orden, sino que incluso ha de llegar hasta elinstituciones, previniendo así
sediciosos: crime, direito e para convertirse en fuente de consenso en torno a las
sociedade. Rio de Janeiro, ano 7, n. 11, 1“ semestre de 2002, p. 43-54. cualquier eventual disentimiento político”.
74 75
os protagonistas da era da informação, e, em função disso, possuem um papel
Através do medo do crime se legitima a utilização de medidas pelo central como órgão de controle social infonnal. Para analisá-los, é necessário
poder público impensáveis em qualquer Estado Democrático de Direito.200 estudar as teorias da comunicação desenvolvidas a partir do século XIX, de
As execuções sumárias são um problema gravíssimo no Brasil,201 e que são forma a verificar a ruptura decorrente da influência do interacionismo simbó¬
propagadas pela mídia como sendo atos no estrito cumprimento do dever le¬ lico e da etnometodologiama campo. A partir da mesma teoria de base com a
gal, estando os mesmos desculpados, em especial no caso de a pessoa morta qual foi analisada a questão da criminalidade, busca-se verificar a interação
carregar consigo antecedentes criminais ou uma suspeição qualquer.
entjg_M.CM e sistema penal, em especial sobre, o jornalismC^-^
Como nota ZaffaronL o processo de criminalização na América La_tina A problemática original da pesquisa em comunicação, sobre os efeitos
se orienta pelo condicionamento, a estigmatização e a mgrte.202 O condicio¬ da mídia em relação aos receptores deverá ser abordada em um primeiro mo¬
namento se refere aos processos de deterioração da identidade que ocorre na mento (1.2.1), para chegar ao contexto de mudança de paradigma da pesquisa
interiorização de normas sociais específicas, como a prisionização, a polici- em comunicação, com a introdução do estudo da notícia como construção
zação e a burocratização. A estigmatização diz respeito a um dos efeitos da social (1.2.2), Diante disso, o jornalismo como mecanismo de controle social
criminalização ao sujeito etiquetado, e_a morte é o resultado final da operacio¬ informal deve ser analisado sob o prisma da construção seletiva e estigmati-
nalidade do sistema penal, concluindo-se que ele causa mais mortes e violên¬ zante da criminalidade e da legitimação do sistema penal (1.2.3). Na última
cia do que os atos praticados por indivíduos. parte é analisada a utilização do crime pelo jornalismo e a indução de senti¬
Diante disso, cabe verificar o papel do jornalismo diante da criminaliza¬ mentos de medo e insegurança no contexto de aumento da repressão penal, e
ção no contexto da globalização e de todas essas mudanças pelas quais passam movimentos de relegitimação do sistema penal (1.2.4).
o Estado e a sociedade.
78 79
acaba por ter em vista uma realidade ontológica, bastando apenas aceitá-la e por eles desempenhadas no meio social, além de outras variáveis que intervêm
descrevê-la tal como é. - na mensagem antes que se possa afirmar a influência sobre o receptor. Porém,
A teoria do espelho traz a ideologia dominante da prática jornalística,
e permaneceu-se na busca pelo estudo dos efeitos das mensagens na vida das
é o seu principal mito. “E a teoria mais antiga e responde que as
notícias são pessoas, a curto prazo, através de pesquisas empíricas e quantitativas.
como são porque a realidade assim as determina”.1"© referente do jornalis¬ Na mesma época, mas do outro lado do oceano, vinham se desenvolven¬
Fundada
mo deve ser sempre a realidade, o que o distingue da ficção. Por outro lado, do as pesquisas da teoria crítica, sob um enfoque bastante diverso.
somente os fatos interessam, e não a interpretação sobre eles, Qualquer em 1923, a chamada Escola de Frankfurt. na Alemanha, de onde se originou
tipo Entre¬
de opinião toma-se um tabu nas notícias, acentuando-se a a teoria crítica, teve de ser fechada em função da perseguição nazista.
separação entre de
fato e interpretação, através da introdução de colunas assinadas, tanto, os estudos continuaram nos Estados Unidos, sendo que, em meados
entre outros foram os
artifícios. 1940 foi criado o termo indústria cultural. Horkheimer.e Adorno
Atualmente, na maior parte dos guias de ética profissional das redações, i principais expoentes dessa escola, no que tange ao estudo dos MCM.
tratar a notícia com objetividade significa relatar os fatos do Partindo da tendência de critica dialética da economia política,1 ciues-
modo mais im¬ e a clas¬
tionaram as ciências sociais que se reduzem a técnicas de pesquisa,
parcial e equilibrado possível, não se contrapondo à
subjetividade, o que seria
impossível. sificação de dados, já que não penetram na objetivação dos fatos nem na
Porém, nas teorias mais recentes desenvolvidas sobre o jornalismo, estrutura ou nas implicações do seu fundamento histórico, setorializando-a.111
a um
objetividade passa a ser vista através de óticas diferentes. Segundo a teoria crítica, a pesquisa deve considerar a sociedade como
todo, analisando-se a função global dos meios de comunicação de massa no
comunicação de massa o
A mudança de paradigma na pesquisa em
comunicação: do gatekeeper ao sistema social. Isso porque detectam nos meios de
newsmaking cumprimento de um importante papel na reprodução da dominação através _da
indústria cultural. Dentro dos mecanismos da indústria cultural, o indivíduo éi|j
o
A medida que a comunicação de massa passou a ter grande
importância fievado a consumir de maneira manipulada, havendo uma continuidade entre
na sociedade, a pesquisa também começou a ser uma constante Na época actual, a in- J
tendo sido criadas, principalmente a partir do século XIX,
na academia, I trabalho e o lazer que apenas reproduz o trabalho. “[...] e autoritária, I v
diversas teorias da dústria cultural é uma estrutura social cada vez mais hierárquica
comunicação, ligadas principalmente às investigações sociológicas. As transformam a mensagem de uma obediência irreflexiva em valor dominante i ;
prin¬
cipais teses são já do século XX, o que demonstra o
caráter ainda novo dessa
atividade. Demonstra também o quanto, gradativamente, a mídia vai ocupan¬ Í e avassalador”.213
A indústria cultural possui, assim, uma estratégia de domínio com
algu-
do um maior espaço na sociedade.
mas táticas. Uma delas c a estereotipização. útil na organização e antecipação
Aonipotência dos_MCM, sob a fórmula “estímulo —» resposta”, Quanto mais
ou seja, das experiênciS"3ãjrealidade social que o sujeito leva a efeito.214
a total influência da mensagem no indivíduo receptor era o jnçpmpreensívelé a realidade, mais ocorre o^apegoa clichés e estejeótipos que
pressuposto de
que partiram as primeiras teorias, no contexto social
facilitam a ordenação do mundo, mas que enfraquecem a experiência da
vida.
do entre guerras. Com o
passar do tempo e o desenvolvimento de novas teorias, a Percebendo os efeitos de dominação nos indivíduos decorrentes dos meios
de
communication re-
search, nascida na década de 1940 nos Estados Unidos seguiu uma
tendência comunicação de massa, a teoria crítica, apesar de suas importantes contribuições
de relativização dos efeitos dos MCM. Dá-se início ao que se quanto às análises socioeconômicas, aproximou-se das teorias mais rudimenta¬
convencionou do
chamar de pesquisa administrativa, trazendo os pressupostos da sociologia res que detectavam a onipotência dos meios, desconsiderando a autonomia
funcionalista reinantes no período. Assim, passa-se a perceber a influência do público e todos os fatores que podem implicar no consumo das mensagens.
meio social na apreensão das mensagens transmitidas pelos meios,
as funções
211
212 WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 1994. p. 72-80.
TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XXI. São 2,3
ibid. p. 75.
Unisinos, 2001. p. 65. Leopoldo:
214 ibid. p. 79.
80 81
De volta aos Estados Unidos, a década de 1950 trouxe pesquisas com informa. Sendo assim, “não se trata tanto de ser persuadido pelo que dizem
enfoque diverso, afastando-se da ideia de efeitos a curto prazo sobre os recep-
os meios quanto de crer que aquele assunto tem a importância que se lhes
tores, dando início ao estudo da soçiologigjlos emissores. atribui”.219 •
Com a nova perspectiva, que se contrapõe à sociologia funcional is ta, Ainda é de observar o fato de que várias das experiências com as quais j
modifica-se a ideia de tipos de efeitos ocasionados pelos MCM a curto prazo .
as pessoas têm contato se dão através dos MCM e não diretamente através|
para a percepção de que os MCM podem causar “um efeito cognitivo sobre das interações sociais, sendo, portanto,220 que parte da realidade de vida dos
os sistemas de conheçimentp que o indivíduo assume e estrutura de uma for- Assim, os impactos
_ma estável”215 Nesse sentido, tãiíeTeitos são cumulativos, sedimentados no
] |indivíduos só é possível em função da atuação dos MCM.
sobre os destinatários da informação se dão em dois níveis como mostra Wolf,
tempo, e não de curta duração, evidenciando-se, além disso, a importância a ‘ordem do dia’ dos temas, assuntos e problemas presentes na agenda dos
de outros fatores que influenciam nas atitudes do público. Essa vertente da mass media-, (Q a hierarquia de importância e de prioridade segundo a qual
pesquisa em comunicação trabalha, portanto, com efeitos a longo prazo, tendo
esses elementos estão dispostos na ‘ordem do dia’”.221 As fases seguidas para
por base teórica a sociologia do conhecimento, e se centra “na importância 1 a construção da agenda seriam ajocalização, quando os MCM dão relevo a'
I e no papel dos processos, simbólicos e comunicativos como pressupostos da| determinado acontecimento; ojramingf? quando é dado enquadramento ao
I sociabilidade”.216 acontecimento, a partir do problema que simboliza; uma. terceira fase onde
Uma questão importante a ser ressaltada é o fato de que a intencio¬ o acontecimento é relacionado a um sistema simbólico para que tome parte
nalidade que caracteriza os efeitos dos meios de comunicação de massa na de um panorama reconhecido; _e a fase de personificação do tema por porta-
pesquisa administrativa dá lugar a efeitos latentes, que intervêm no conhe¬ -vozes.223
cimento que os destinatários têm da realidade. Sendo assim, o papel dos Essa teoria foi construída por McCombs e Shaw ainda na década de
»_MCM passa_a ser.o de influenciar no processo
de significação do mundo, i 1970, mas vem sendo atualizada pelos mesmos autores até hoje.224 Shaw refe¬
ou seja, na construção social da realidade^ iuntamente com os processosxie! re que o público é consciente ou ignora, presta atenção ou descuida, enfatiza
H interação social. ou passa por cima de alguns elementos específicos dos cenários públicos por
Actualmente, no centro da problemática dos efeitos, coloca-se, portanto, a re¬ influência dos meios de comunicação.225
lação entre a acçâo constante dos juass media e o conjunto de conhecimentos
acerca da realidade social, que dá forma a uma determinada cultura c que sobre
ela age, dinamicamente.217
Uma primeira visão dentro desse enfoque é a hipótese do agenda -jeA 219 GOMIS, Lorenzo. Teoria del periodismo: Cómo se forma el presente. Barcelona/
ting. Parte do pressuposto de que os MCM não conseguem produzir efeitos Buenos Aires/México: Paidós, 1997. p. 157. Tradução livre do original ein
espa¬
por lo que dicen los médios cuanto de
diretos no sentido de determinar como as pessoas irão pensar e agir, mas sim nhol: “no se trata tanto de ser persuadido
creerque aquel asunto tiene la importância que se le atribuye”
ps assuntos sobre os quais elas o farão. “As pessoas têm tendência para incluir 220 SURETTE, Ray. op. cit.
ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass media incluem 221 WOLF, Mauro, op. cit. p. 142
ou excluem do seu próprio conteúdo”.218 Esse processo diz respeito também à 222 SCHEUFELE, D. A. Framing as a theory of media efTects, Journal of Communi¬
forma como os temas serão conhecidos, dentro de quadros ou frames, ou seja, cation, v. 49, n. l.p. 101-120, 1999.
223 McCOMBS, M.; REYNOLDS, À. News influence on our pictures of the world.
categorias, esquemas de conhecimentos, quadros interpretativos aplicados a
partir dos processos de produção da informação para dar sentido ao que se -
In: BRYANT, J.; ZILMANN, D. (org.). Media Effects Advances in Theory
and
[Link] Jcrscy: Lawrence Erlbauin, 2002. p. 1-1 8.
224 McCOMBS, M; SHAW, D. A evolução da pesquisa sobre o agendamento: vinte e
215
ibid. p. 124.
2,6 cinco anos no mercado de idéias. In: TRAQUINA, Nelson. O poder do jornalismo:
ibid. p. 125.
2,7 análise e textos da teoria do agendamento. Coimbra: Minerva, 2000. p. 125-145.
ibid.p. 127. 225 SHAW, Eugene F.. Agenda setting and mass communication [Link]
2,8
SHAW, E. apud WOLF, [Link]. cit. p. 128. Journal for Mass Communication Studies, vol. XXV, n. 2, 1979, p. 96.
82 83
Assim, apesar de aspessoas possuírem opiniões sobre uma grande -se, na verdade, da transmissão da notícia de um gatekeeper a outro na cadeia
variedade de assuntos, segundo essa teoria somente sobre algumas delas se de comunicação, procedendo, cada um, uma nova seleção.231
importam verdadeiramente. Conforme McCombs, o papel que os meios
de
Tendo emvista que, diariamente, ocorre um núniero imenso de fa¬
comunicação de massa possuem enquanto fixadores da agenda consiste em
tos no inundo inteiro, surge o interesse em sabcjLpor_aii£__ap_enas alguns
influenciar sobre a relevância de um tema, ainda que tal influência não seja poucos setornamuiolíciaem um jornal e outras
não. Nos estudos sobre
. premeditada.226 o gatekeeper, várias questões são levantadas, como por exemplo, de que
A partir da hipótese do agenda-setting., as relações entre mídias-crime forma a subjetividade do indivíduo que tem esse papel influencia na to¬
se estabelecem da segninte-Sorma: a influência dos meios de comunicação se mada de decisões, quem e que regras o selecionador tem em vista quando
dá no sentido de agendar o tema do crime prioritariamente, deixando de lado faz o seu trabalho, como é realizada essa filtragem. Rebelo observa que
outras discussões importantes a respeito mesmo da segurança, como a segu¬ a função do gatekeeper é mais do que um mero selecionador dos aconte¬
rança social. Nesse sentido, essa perspectiva reafirma os efeitos limitados das cimentos, “fLoLgestor do processo de adaptação das notícias às reacções
mensagens transmitidas pelos meios de comunicação de massa.227 susçitadas_jiela_respectiva difusão. É o agente regulador dos media”.232
Outra vertente de pesquisas é a dos estudos sobre os emissores da Podendo incluir a participação de acionistas ou financiadores da empresa
informação e sobre os processos produtivos no jornalismo. Segundo Wolf, de comunicação, a função de gatekeeper acaba exprimindo uma caracte-
as duas principais abordagens realizadas segundo a perspectiva dos estu¬ rística de retroação.
dos dos emissores foram uma ligada à sociologia das profissões, que es¬
O produto fabricado pela empresa jornalística, enquanto sistema, vai con¬
tuda fatores exteriores que influenciam os processos produtivos, e a outra
tribuir para a modelação do sistema que lhe é exterior, isto é, o sistema en¬
“constituída pelos estudos que analisam a lógica dos processos pelos quais volvente. Do sistema-envolvente, ou sistema-ambiente, partem, no entanto,
a comunicação de massa é produzida e o tipo de organização do trabalho sinais que, uma vez absorvidos pela instância de regulação, são, por esta,
dentro da qual se efectua a ‘construção’ das mensagens”.228 Estudar esses acrescentados aos sinais que a mesma instância de regulação recolhe no in¬
processos é importante pelo fato de que a série de decisões tomadas deter¬ terior da própria empresa jornalística. O conjunto de sinais provenientes do
minam o produto acabado. interior e do exterior actuando sobre os pressupostos doutrinários do jornal
O primeiro ramo de pesquisas nesse sentido foi a dos gatekeepers ou originam a decisão da instância de regulação que se repercute nos subsiste¬
teoria da ação pessoal229. Gatekeepers é o termo difundido por David Maning mas do jornal: concepção, fabrico, difusão, gestão e manutenção.233
White, em .1950, utilizado para designar os selecionadores dos fatos a serem Porém, várias pesquisas realizadas entre selecionadores mostraram
cobertos e divulgados pelo jornal, partindo dos termos “gate”, que significa que “as referências implícitas ao grupo de colegas e ao sistema das fontes
“porta”, e “keeper”, que significa “guardião”, “zelador”. Podem desempenhar predominam sobre as referências implícitas ao próprio público”.234 Assim, o
esse papel desde o redator que decide que aspectos de um acontecimento serão jornalista pouco sabe sobre o público, mas tem as normas da organização jor¬
incluídos em seu texto até o diretor que escolhe uma notícia de capa.230 Trata- nalística bem claras, sendo que há estudos sobre o controle social nas redações
84 85
e os motivos e as,formas através das quais é incutida a conformidade à orien¬ Hackett, ao analisar casos da imprensa britânica. Esse autor conclui que mes¬
tação do jomaO3^
mo quando os jornalistas seguem critérios de objetividade podem acabar as¬
Na década de 1960, o período bastante conturbado politicamente na sumindo inconscientemente uma posição política. É o que ocorre através da
maioria dos países ocidentais estimulou o desenvolvimento de pesquisas ideologia. Para o autor, é necessário que a parcialidade deixe de ser o objeto
sobre ideologia, as implicações políticas do jornalismo, As teorias da ação
das reflexões, para dar lugar ao estudo da ideologia. E propõe três concepções
política se caracterizam pela visão instrumentalista dos jomais, percebendo
de ideologia para os estudos dos nieJíd'. “os ‘enquadramentos’ ou conjunto de 1
a utilização dos mesmos em prol de interesses políticos. Traquina identifica
pressuposições sociais fomentadas na notícia, a ‘naturalização’ das relações I
uma versão de direjta, que percebe os jomais como instrumentos que põem sociais e a interpelação do público”.238 Tem em vista, portanto, o fato de que os
em causa o capitalismo, e uma versão de esquerda, onde os jornais são vistos enquadramentos realizados, que acabam levando ao privilégio de uns pontos
como instrumentos que ajudam a manter o sistema capitalista.236 A versão de de vista em detrimento de outros (traz o exemplo da sobreposição do enfoque
esquerda, desenvolvida até os dias atuais por Herman e Chomsky. argumenta .
do empresário em detrimento dos trabalhadores numa situação de greve}pode
que as notícias são determinadas ao nível macroeconômico, identificando cin- I
ser o resultado da “absorção inconsciente de pressuposições acerca do mundo
co fatores que explicam a submissão do jornalismo aos interesses do sistema
f social no qual a notícia tem de ser embutida de modo a ser inteligível para o
capitalista:
seu público pretendido”, e em função da gravidade disso para o problema da
1) a estrutura de propriedade dos media; 2) a sua natureza capitalista, isto é, objetividade, deve ser uma questão estudada.239
a procura pelo lucro e a importância da publicidade; 3) a dependência dos
jornalistas das fontes governamentais e das fontes do mundo empresarial; 4)
as ações punitivas dos poderosos; e 5) a ideologia anti-comunista dominante 1.2.2 A notícia como construção social
entre a comunidade jornalística norte-americana.23’
Nos anos 1970, uma segunda vertente de pesquisas dos emissores reti¬
Essa corrente é bastante criticada por ignorar qualquer tipo de autono¬ rou o foco do selecionador como construtor do conteúdo dos jomais, passando
mia do jornalista, apesar de trazer em suas conclusões questões importantes, a estudar a organização e.a_produção rotioeira [Link]-iomalísticosje-
trabalhadas também por outras teorias, a da dependência das fontes oficiais e lacionando com a imagem da realidade social fornecida_pelos mass media.™
a manutenção do status quo. Dessa forma, deixa-se de lado a ideia das distorções ocorridas como forma
A problemática da parcialidade, vista pela teoria da ação política como de manipulação aberta com objetivos escusos, para verificar a ocorrência de
sendo a adequação dos jornalistas a determinada posição, é questionada por distorções involuntárias que ocorrem no quotidiano da produção dos jomais
em função de valores partilhados pelos profissionais sobre como deve se de¬
1955 foi publicado o importante estudo de [Link] sobre o controle social, senvolver a tarefa de informar.241 Aqui, a sociologia do conhecimento aparece
jiasjedações. buscando investigar de que forma uma política de informação é man- I não somente ao perceber a importância do jornalismo como instância cogni¬
tida em uma redação. As conclusões se dão no sentido de que o jornalista quando
ingressa na redação não é escolhido por suas ideologias e não está diretamente adap- I tiva, mas também em função do processo dc socialização que se dá dentro da
tado à rotina. Porém, aos poucos percebe que para ascender na profissão e ser valori¬ redação, com normas organizativas próprias, bem como controles sociais pró¬
zado precisa reunir um conjunto de qualidades, sendo uma delas a conformidade com prios que acabam condicionando o produto, a notícia. O estudo da produção
as normas de trabalho, que não são formais e ensinadas, mas interiorizadas
através quotidiana da informação passa a se denominar newsmaking.
da socialização. Essas normas não são expostas abertamente por razões
éticas, que
impediriam mandar os subordinados a seguir determinadapolítica informativa. BRE-
ED, Warren. Controlo social na redacção: Uma análise funcional. In: TRAQUINA,
r
238 HACKETT, Robert A. Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objectividade
Nelson (org.). Jornalismo: Questões, teorias é “estórias". Lisboa. Veja, 1993. Como
nota Traquina, o trabalho de Breed está inserido na teoria organizacional nos estudos dos media noticiosos. In: Nelson Traquina (org.). Jornalismo: ques¬
mo. TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo... op. cit. p. 152.
do jornalis¬ tões, teorias e “estórias”. p. 101-130. Lisboa: Veja, 1993. p. 128
239
236
ibid. p. 161-168. ibid. p. 121.
240 WOLF, Mauro, op. cit. p. 162.
ibid. p. 165- 166. 241
ibid. p. 163.
86 87
Ao distinguir as duas perspectivas sociológicas que podem dar origem I t fundado”.246Inclui-se no conceito de cultura os significados, valores c práticas
‘
, a teorias sobre o jornalismo, Tuchman demonstra que peja sociologia tradi¬ através das quais se exprimem, pondo em destaque a contínua dialética entre
cional as notícias seriam um espelho da realidadCj no sentido de que seriam sistema cultural, conflito e controle social.
determinadas pela estrutura soei a l^Porcm. pela segunda perspectiva, a de que A teoria estruturalista também sublinha o papel ideológico dos media, mas
não somente a estrutura social determina os indivíduos, mas eles a constroem, critica a posição de que os media transmitem a ideologia da ‘classe dirigente’
a notícia é determinada por uma série de escolhas e seleções feitas com base de uma forma conspiratória devido à estrutura de propriedade capitalista, por¬
em normas organizacionais, enfoq”ue ao qual a autora se filia. Nesse sentido, ' que reconhece a ‘autonomia relativa’ dos jornalistas cm relação a um controle
।
1 “a notícia não espelha ã”realidade, ajuda a construi-la como fenômeno social sistémico direto.347
compartilhado, posto que no processo de descrever um acontecimento a notí¬ Já a teoria_iiiteracionista, que também é identificada por suas raízes et-
cia define c dá forma a esse acontecimento”.242 .1
nometodológicas, caracteriza-se pelo estudo sobre como os processos produti¬
Metodologicamente, esse ramo de pesquisa tem como principal pro- I
vos influenciam na definição das notícias. A partir da análise dos pressupostos
cedimento a etnografia, de forma a observar as informações sobre as rotinas de que se parte para definir a noticiabilidade e os processos que intervêm na
produtivas dos MCM. “Essa abordagem articula-se, principalmente, dentro de | j
construção da notícia, percebe que o jornalismo é parte dos processos cogni- ’
dois limites: a cultura profissional rins jornalistas e a organização do trabalho
tivos da realidade c auxilia na sua construção, juntamente com as interações
. e_dos progessospiodutivosT.243 sociais e o papel das instituições.
Segundo Traquina, duas teorias, a estrutural ista e a interacionista, par- ;
tilham o .[Link] noticias como_ construção social. “Para ambas as tc-1 Na perspectiva do paradigma construtivista, embora sendo índice do "real”, as I
de interação social notícias registram as formas literárias e as narrativas utilizadas para enquadrar
] orias, as noticias são o resultado de processos complexos
1
I entre agentes sociais: os jornalistas e as fontes de informação; os jomalis- o acontecimento. A pirâmide invertida, a ênfase dada à resposta às pergun¬
j tas e a sociedade; os membros da comunidade profissional dentro e fora da tas aparentemente simples: quem? o que? onde? quando?, a necessidade dc
selecionar, excluir, acentuar diferentes aspectos do acontecimento - processo
|organização”.244 orientado pelo enquadramento escolhido - são alguns exemplos de como a
A teoria_çstruturalista c uma teoria macrossociológica que evidencia notícia, dando vida ao acontecimento, constrói o acontecimento e constrói a
o papel da mídia na reprodução da ideologia dominante, reconhecendo, po¬ realidade.24"
rém, uma certa autonomia dos jornalistas em relação ao poder económico.245 i
Ressalta, portanto, a importância das práticas organizativas, dos critérios de O pressuposto de que essas teorias partem c o mesmo apresentado an- [
noticiabilidade e das fontes institucionais, como condicionantes da prática jor¬ teriormente acerca das teorias dc base da teoria do ctiquetamento, ou seja, dc '
nalística; j que a realidade não possui status ontológico anterior à interação social, mas c
Essa teoria confere ênfase ao papel da cultura no momento da cons¬ construída através dos processos sociais. E ao mesmo tempo em que o homem
trução da notícia, estando ligada aos estudos culturais desenvolvidos na ; r constrói a realidade social, essa mesma realidade, ao ser objetivada, constrói a i•
Inglaterya. Diferentemente das vertentes anteriores, surge com o objetivo ç maneira como o homem percebe o mundo, dc maneira dialéticai
de “definir o estudo da cultura própria da sociedade contemporânea como Jí Ao mesmo tempo cm que a notícia é um produto da realidade social, ao
um campo de análise conceitualmente relevante, pertinente e teoricamente |
ji registrá-la, a notícia também a produz, através da seleção operada e dos enqua-
4
| dramentos realizados. As noções de definição e dc tipificação da etnometodo-
242 TUCHMAN, Gaye. op. cit. p. 197-198. Tradução livre do original cm espanhol: “la jI I logia, o conceito dc enquadramento de Goffman e a percepção da construção
noticia no espejaiarealidad. Ayuda a constituiria como fenómeno social comparti- 1E | social da realidade de Bcrgcr c Luckmann são essenciais para esta teoria.
do, puesto que en cl proceso dc describir un suceso la noticia define y da forma a a
SK 2«
esc suceso”. WOLF, Mauro, op. cit. p. 94.
24S WQLF, Mauro, op. cit. p. 167 . jS 247 TRAQUINA, Nelson. Introdução. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo:
244
TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo... op. cit. p. 173 ÍB H» questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993. p. 139.
24í
wibid.p.l75 idem. Teorias do jornalismo... op. cit. p. 1 74.
jMÍ 89
Em primeiro lugar, para lidar com a quantidade excessiva de fatos captados r cimentos relevantes c^ugerir o que é um tema’*.252 Assim, além de dar reper-
pela rede de informações na construção do jomal, existe um conjunto de conhe¬ í
i[ cussão pública a acontecimentos privados, os relatos informativos ajudam a
cimentos na atividade jornalística identificados na prática, através do hábito, que
[ conferir fórma a uma definição pública do que o mesmo é e do que significa.
classificam os acontecimentos como notícias. Em função disso são tipificações.
; A definição do marco a partir do qual um fato será relatado pode ser, porém,
O uso da tipificação conota uma intenção de colocar as classificações dos in¬ * anterior ao seu próprio acontecimento. “O fato se insere muitas vezes em um
formantes em seu contexto cotidiano, pois as tipificações estão embutidas nos i marco já previsto e preparado para ele e como consequência se interpreta com
cenários nos quais são utilizadas e nas ocasiões que impulsionam sua utiliza¬ as explicações mais à mão, que às vezes são as do preconceito. Tende-se a ver
ção, e tomam sua significação desses cenários e essas ocasiões.24’ então em um fato o que se esperava ou se temia ver”.253
É interessante perceber a consequência das tipificações, ou seja, “os Éo mesmo raciocínio sobre os estereótipos, que já foi tratado no ponto
informadores usam tipificações para transformar os acontecimentos idiossin¬ 1.1, ou seja, trata-se do fato de que “imaginamos a maior parte das coisas
cráticos do mundo cotidiano em matérias-primas que possam ser submetidas antes de experimcntá-las e, a menos que a educação nos dê consciência disso,
a um processamento de rotina e a sua disseminação".*250 Essas tipificações, na esses, conceitos antecipados governam profundamente todo o resto de nos¬
análise da autora baseada em Berger e Luckmann, fazem parte dc um acervo sa perccpção”.254 A utilização de estereótipos parece ser [Link] de
social do conhecimento dos jornalistas, é uma objetivação, ou seja, passa a [Link]ção da notícia, tendo em vista a necessidade de que o leitor
estar fora da esfera de alcance do sujeito a resposta de por que as coisas são consiga compreender a história. Para atrair a atenção do leitor, é necessário
feitas dessa maneira. E isso pode ter consequências problemáticas para uma permitir que ele participe da notícia, de forma que encontre um ponto de apoio
atividade como a jornalística. i familiar, o que é possível através dos estereótipos. “Estes lhe dizem que, se
! I uma associação de encanadores é qualificada de ‘conluio’, presta-se a gerar-
Pois a objetivação do conhecimento pode dar por resultado erros, de modo . ' -lhe a hostilidade; denominada de grupo de importantes homens dc negócios’,
similar a como aplicar estereótipos de uma “aparência criminosa” pode dar por
destina-se a provocar-lhe a reação favorável”.255
resultado classificar alguém incorretamente como criminoso ou não digno dc
confiança. E em alguns casos, os erros profissionais influem na avaliação da
As práticas profissionais dos jornalistas se dão, portanto, dentro de uma
noticiabiiidade de um relato.251 organização em que normas organizacionais condicionam a produção, existin¬
do, em função também da hierarquia em que estas organizações se .formam,
Já a noção de enquadramento é essencial não na definição do que será alguns conflitos. Porém, Tuchman expõe a opinião dc que as práticas profis¬
notícia, mas à forma como os acontecimentos serão abordados e transmitidos. sionais, ao contrário de serem a demonstração da existência dc um conflito dos
EnquadramentO-é-Uma “idéià organizadora central parajlar sentido a aconte- jornalistas com a organização, servem aos interesses da própria organização.
14»
TUCHMAN, Gaye. op. cit. p. 63. Tradução livre do originalem espanhol: “EI uso
de la ‘tipificación’ connota un intento de colocar las clasificaciones de los
mantes en su contexto cotidiano, pues las tipificaciones están empotradas en
infor¬ 252
GOFFMAN apud TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: A tribo jornalís¬
los tica - uma comunidade interpretativa transnacional. v. II. Florianópolis: Insular,
èscenarios en los que son utilizadas y en las ocasiones que impulsan su utilización,
y toman su significación de esos escenarios y esas ocasiones”. 2005. p. 16.
253 GOMIS, Lorenzo. op. cit. p. 69. Tradução livre do original em espanhol: “EI hecho
2soibid. p. 71. Tradução livre do original em espanhol: “los informadores usan ti¬
pificaciones para transformar los sucesos idiosincrásicos del mundo cotidiano en se inserta a menudo en un marco ya previsto y preparado para éi y como conse-
matérias primas que puedan ser sometidas a un procesamiento de rutina y a su cuencia se inteipreta con las claves más a mano, que a veces son ias del prejuicio.
diseminación”. Se tiende a ver entonces en un hecho lo que se esperaba o se temia ver”.
254 ibid.p. 70. Tradução livre do original em espanhol: “imaginamos la mayor parte de
251
ibid. p. 72. Tradução livre do original em espanhol: “Pues la objetivación del conoci-
miento puede dar por resultado errores, de modo similar a como aplicar estereótipos las cosas antes experimentarias y, a menos que la educación nos dé concicncia de.
acerca de una ‘apariencia criminal’puede dar por resultado clasificar incorrectamente ello, esos conceptos anticipados gobiernan profundamente todo el resto de nuestra
a alguien como criminal o no digno de confianza. Y en aigunos casos, los percepción”.
errores 255 LIPPMANN, Walter. A natureza da notícia. In: STEINBERG, Charles (Org).
profesionales influyen en la evaluación de la noticiabilidad de un relato”.
Meios de Comunicação dc Massa. São Paulo: Cultrix, 1970. p. 197.
90 91
Ambas, por sua vez, servem para legitimar o statusquo, complementando-se gares específicos. A capital do país, bem como cidades importantes
ca e politicamente, dependendo da abrangência do jornal, económi¬
muluamente na tarefa de reforçar as regras sociais contemporâneas, mesmo costumam possuir
quando ocasionalmente compitam pelo controle dos processos de trabalho e escritórios de jornais de outras localidades.
pelo direito a identificar-se com as liberdades de imprensa e de expressão.256 Outro critério parte do pressuposto de que os leitores se importam
atividades específicas, o que leva a posicionar repórteres em instituições com
Essencial para a percepção da forma como se dá a seleção das notícias cen¬
!
e, portanto, de como as informações são construídas e difundidas através do
tralizadas que geram notícias. Assim, há jornalistas responsáveis por
cobrir a
polícia, o executivo do município, do estado, o legislàtivo,
I I jornal é o estudo da rede de informações, dos valores-not_íciaj^dp.p_apel das etc.
O terceiro método para constituir a rede é o da especialização tópica,
j
i fontes, em especial, das fontes institucionais. onde se estabelecem departamentos independentes dentro da organização
jor-
nalistica, com seus próprios pressupostos, de tal maneira que por vezes pode
A rede de informações e os valores-notícia haver conflito de interesses entre os chefes de diferentes editorias.
Em função
disso, é necessária a presença de um chefe superior que
Tendo cm vista a impossibilidade de cancelamento de um jornal comer¬ centralize a tarefa de
edição, o qual irá escolher propriamente dentre os casos cobertos pelas
cial pela ausência de fatos a serem noticiados, a alternativa encontrada pelas dife¬
organizações jornalísticas para manterem sempre a sua produção em fiincio-
rentes editorias quais são efetivamente noticias importantes para
integrar as
páginas mais nobres do jornal.
namento foi a constituição de uma rede de informações.257 Essa rede se consti¬
tui através da dispersão dos jornalistas a diferentes locais estratégicos de onde E interessante observar, porém, que a dispersão estr atégica dos jornalis¬
tas espacialmente para que cubram um maior número de
I partirão acontecimentos noticiáveis, tudo facilitado pelo progresso tecnológico. acontecimentos tam¬
Porém, o primeiro questionamento sobre essa rede, identificado por
bém se refere ao tempo. Ou seja, o trabalho matutino dos jornalistas
se dará
após a abertura das instituições que possivelmente serão fontes para
Tuchman, foi de que o próprio posicionamento dos jornalistas nos Locais es¬ notícias,
assim como terminará quando as mesmas estiverem fechadas.
tratégicos parte da pressuposição de que esses locais possivelmente gerarão Dessa maneira,
notícias, a despeito de outros que acabam tendo muito menor probabilidade
o número de jornalistas disponíveis para relatar acontecimentos fora
desses
de serem noticiados. Os locais onde esses profissionais estarão posicionados horários é muito pequeno, o que também pode afetar a questão da avaliação
dos eventos como acontecimentos informativos potenciais.25’
também determinarão quais serão os fatos a serem noticiados, sendo que esses
lugares são muito comumente institucionais. “A rede informativa impõe uma Em função da dispersão da rede informativa, tendo em conta ainda o
papel das agências de notícias, nacionais e internacionais, além
ordem ao mundo social porque faz possível que os acontecimentos informati¬ dos serviços
de assessoria de imprensa de todas as instituições que procuram
vos ocorram em algumas zonas, mas não em outras”.258 os jornalistas,
Essa rede, segundo Tuchman, segue três critérios ou métodos, baseados costuma-se dizemaug-hoie dificilmente é o jornalista que sai à caca de infor¬
mações, as próprias pautas batem à sua porfa. O seu papel se constitui
no que imaginam ser os interesses do leitor, para o posicionamento de jorna¬ princi-
listas. O primeiro seria a territorialidade geográfica, partindo do pressuposto
| palmente em selecionar os fatos a serem noticiados e cobri-los.26y
de que os leitores estão interessados em acontecimentos que ocorrem em lu¬
Para tanto, parte de alguns critérios para definir a noticiabilidade
dos
acontecimentos. Porém, esses critérios não são escritos, nem
através de um curso aos profissionais. Faz parte do processo de
transmitidos
256
TUCHMAN, Gaye. op. cit. p. 17. Tradução livre do original em espanhol: “Ambas, socialização
do jornalista, de um senso comum organizacional, de um
a su vez, sirven para legitimar el status quo, complementándose mutuamente en Ia
jetivado.
conhecimento ob¬
tarea de reforzar los arreglos sociales contemporâneos, aun cuando ocasionalmente
compitan por el control de los procesos del trabajo y por cl derecho a identificarse
con las libertades de prensa y de expresión”.
257
ibid.
258 ibid. p. 36. Tradução livre do original em espanhol: “La red informativa impone un 259
orden al mundo social porque hace posible que los acontecimientos informativos ibid. p. 55.
260
ocurran en algunas zonas pero no en otras”. GOMIS, Lorenzo. op. cit.p. 76.
92 93
Nas pesquisas sobre a noticiabilidade, desenvolvidas por estudiosos do mais elitizados, maior será a noticiabilidade do acontecimento. 4. Relevância
newsmaking, buscou-se determinar quais as condiç.ões-os^contecimentos de- e significatividade do acontecimento quanto à evolução futura de uma deter¬
yem satisfazer para se tomarem notícias?61 A essas condições, obtidas a partir minada situação.263
dê 'valores culturais partilhados pelos jornalistas e usados automaticamente, Por outro lado, o interesse da história está ligado à sua capacidade de
atribuiu-se o título de valores-notícia. Os valores-notícia buscam responder entretepimenta. “São interessantes as notícias que procuram dar uma inter¬
aos critérios de relevância, interesse e pertinência de acontecimentos para que pretação de um acontecimento baseada no aspecto do ‘interesse humano’, do
se transformem em notícias. Como observa Wolf, a utilização dos valores- ponto de vista insólito, das pequenas curiosidades que atraem a atenção”.266 O
-notícia, além de se dar através da combinação de vários deles em um aconte¬ interesse é critério essencial para os MCM privados, tendo em vista que com
cimento para a sua definição como notícia, também são identificados ao longo isso se busca garantir a atenção do público.
de todo o processo de produção das notícias, é não apenas no momento da Jáos valores-notícia que se referem à notícia como produto, a disponibi¬
seleção dó acontecimento.261262 Os valores-notícia servem como uma forma de lidade de materiais para a produção e as características do produto informativo
rotinizar um trabalho que por si é sempre inteiramente novo, já que os aconte¬ são os aspectos principais. Em relação às características do produto informati¬
cimentos noticiáveis mudam diariamente. Em função disso, esses critérios de vo, a atualidade e a brevidade são elementos importantes, já que fatos antigos
seleção devem ser fáceis de utilizar rapidamente, tendo em vista a agilidade do não são notícias e o espaço é limitado. Identifica-se nesse aspecto também
trabalho nas redações, e, é claro, devem fazer parte de um consenso. uma ideologia da notícia, A ideologia da notícia é o “pressuposto segundo O;
Os critérios de noticiabilidade não são estanques, sendo que determina¬ qual são noticiáveis, em primeiro lugar, os acontecimentos que constituem e
dos acontecimentos podem em um momento não serem considerados notícia e representam uma infraeção, um desvio, uma ruptura do uso normal das coisas.
em outro virem a ser, já que o contexto pode ter mudado. E o exemplo de mo¬ Constitui notícia aquilo que altera a rotina, as aparências normais”.267
vimentos que vêm da sociedade e que com o tempo se solidificam, criam fatos Dessa maneira, as notícias negativas atingem o topo dos requisitos da
para se tornarem notícias e passam a ser significativos nas páginas dos jornais.263 noticiabilidade, provocando interesse dp. público. "As notícias negativas se¬
Wolf, com base nos estudos dos principais autores do newsmaking pro¬ rão mais facilmente consensuais e inequívocas no sentido de que haverá acor¬
cura classificar os valores-notícia de acordo com o seu conteúdo, a disponibi¬ do acerca da interpretação do acontecimento como negativo”.268
lidade de material e critérios relativos ao produto informativo, ao público e à Deve-se salientar que os valores-notícia são instrumentalizados simul¬
concorrência.264 taneamente, sendo que é muito pouco provável que um fato noticiável con¬
.Quanto ao conteúdo das notícias, a importância e o interesse são os tenha apenas um dos critérios. Esses valores adquirem significado dentro das
principais fatores a ter em conta. A importância é determinada por quatro vari¬ rotinas produtivas, que, segundo Wolf, se dão em três fases, a coleta, a seleção.
áveis: 1 . Grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento e a apresentação das notícias.
noticiável, tanto no que diz respeito às pessoas de elite quanto aos países de Tendo em vista a cultura profissional, a organização do trabalho jor¬
elite; 2. Impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional, tendo em vista, nalístico, entre outros condicionamentos que influenciam na definição da no¬
então a significância do acontecimento, bem como à proximidade; 3. Quanti¬ ticiabilidade, nota-se a importância da definição do próprio jornalista sobre
dade de pessoas que o acontecimento envolve, considerando-se em conjunto o que é notícia, e de que forma o acontecimento deve ser publicizado, mas
a notoriedade das pessoas e a proximidade, ou seja, quanto mais próximos e
265
Em um manual de jornalismo, Pery Cotta deixa bem clara a resposta à pergunta
261
GALTUNG, Johan; RUGE, Mari Holmboe.A estrutura do noticiário estrangeiro: A “quem provoca, gera ou cria a notícia?”: “Geram notícias ou podem virar notícias
apresentação das crises do Congo, Cuba e Chipre em quatro jornais estrangeiros. fatos referentes a: personalidades, celebridades, pessoas famosas; mulheres boni¬
262
In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. p. 61-
73. Lisboa: Veja, 1993. p. 71.
WOLF, Mauro, op. cit. p. 173.
Í
266
tas; crianças; animais; natureza”. COTTA, Pery. Jornalismo: Teoria e prática. Rio
de Janeiro: Rubio, 2005. p. 77.
WOLF, Mauro, op. cit. p. 182.
2M ibid. p. 267
176. ibid. p. 183.
264 268
ibid. p. 177. GALTUNG, Johan; RUGE, Mari [Link]. cit. p. 69.
94 95
ide uma forma controlada, já que as tipificações inerentes à sua socialização lismo, ou seja, o que o faz saberj^mo conseguir utnjdato que satisfaça as
;
: também condicionam a sua atuação. Além disso, não se pode deixar de lado
a importância do perfil editorial do jornal e do público ao qual ele se volta,, necessidades e as-pautas da organização?70
já que boa parte das decisões vai depender da imagem que o jornal e o joma-l
Esse profissionalismo tem a ver também com o zelo pela imagemda
organização. Sendo assim, a credibilidade do jornal sempre deve ser tida em
lista possuem do destinatário da notícia. Verificando que a seletividade vai se
I voltar para alguns acontecimentos e enquadramentos deixando
conta na construção dos relatos de acontecimentos. Enquanto normalmente os
isso não é
ocultos tantos
outros, toma-se imprescindível analisar como os silêncios dos jornais também : fatos são verificáveis através de outros fatos, há situações em que
possível, e os acontecimentos relatados não podem ser verificados.
1 1 podem ser significativos. Nesse caso, fato e fonte se mesclam na narrativa. Fontes credíveis são
jornal
aspectos importantes para que a notícia seja tida como verdadeira e o
As fontes: o enquadramento pelos definidores primários reafirme a sua seriedade. Assim, quando os fatos não podem ser comprovados,
institucionais e a
manutenção do status quo mas precisam ser tidos como verdades, os jornalistas utilizam algumas estra¬
declaração
Pelo fato de os acontecimentos não poderem ser noticiados em toda a tégias. Tuchman traz o exemplo de quando o jornalista possui uma
apresentando apenas
sua complexidade e grandeza, opera-se, necessariamente, um de uma fonte e, para não se comprometer politicamente
enquadramento. um lado, busca outra fonte que apresente o lado oposto. Dessa maneira, o
ou seja, é extraído_um fragmento da totalidade, é como uma moldura, que e de se
opera, ao mesmo tempo um corte e uma focalização: “um corte porque jornalista evita narrar um fato potencialmente falso como verdadeiro
um campo e aquilo que o envolve; uma focalização porque,
separa comprometer politicamente ao apoiar apenas um lado do caso, permitindo ao
interditando a leitor que decida qual o lado está correto?71
1
tes graduadas que puedan ser citadas como pretensiones de verdad que se ofrecen
MOUILLAUD, Maurice. A Crítica do acontecimento ou o fato em pasa a convertirse en un recurso técnico disenado para distanciar al reportero de
questão. In:
MOUILLAUD, Maurice; ORTO, Sérgio Dayrell (org). O jornal: da forma ao sen¬ los fenómenos identificados como hechos. Las citas de opiniones de otras personas
tido. p. 49-84. Brasília: UNB, 2002. p. 61. son presentadas para crear una trama de hechos que mutuamente se validan a sí
mismos”.
96 97
de grupos, autoridades, os peritos de suas atividades.*273 A utilização de aspas Na percepção estruturalista a que Hall et. al. se vinculam, a uttlizaçao
|é uma forma de o jornalista se distanciar do texto, fazendo com que outros de fontes oficiais é considerada como o exercício de um papel de definição
"afirmem o que ele deseja, assegurando a separação entre fato e opinião. primária. Os jornalistas estão sempre pressionados pelo tempo e necessitan¬
Na percepção de Tuchman, o uso de aspas é um atributo formal do ritual do de algo que confira objetividade ao seu texto, e dando origem à prática
estratégico utilizado pelos jornalistas, de forma a transmitir uma sensação de “de assegurar que as afirmações dos media sejam, não importa onde, fun¬
objetividade, defendendo-se dos ataques violentos da crítica. Nesse sentido, a damentadas em afirmações objectivas e autorizadas de fontes ‘dignas de
constante explicitação do que as fontes oficiais têm a dizer, com a utilização crédito’”.277
de aspas, demonstra que “os jornalistas vêem as citações de outras pessoas Para o autor, essa busca incessante por fontes dignas de crédito acaba
como uma forma de prova suplementar. Ao inserir a opinião de alguém, eles por figurar em exagerado acesso por parte dos que detêm posições institucio¬
acham que deixam de participar e deixam os factos falarem”.274 nalizadas privilegiadas, criando “a hierarquia da credibilidade?. Esta preferên¬
A regularidade na utilização de determinadas fontes deve-se ao fato de cia da mídia os transforma em “definidores primários” de tópicos.
elas preencherem alguns requisitos importantes para a constância da ativida¬
de jornalística. Em primeiro lugar, as fontes que têm informações continuas A definição primária estabelece o limite de todas as discussões subsequentes
através do szuenquadramento do problema. Este enquadramento inicial forne¬
suprem a necessidade de dispor de notícias. Da mesma maneira, a produtivi¬
ce então critérios segundo os quais todas as contribuições subsequentes serão
dade das fontes, a sua proximidade física, a credibilidade de que dispõem, a rotuladas de relevantes para o debate, ou irrelevantes.278
garantia das informações que repassam e a sua respeitabilidade são os fatores
que determinam a permanência de determinadas fontes nas páginas dos jor¬ problema que surge daí é o fato de, por privilegiar o aparecimento
Q
nais.275 Em função disso, também há fontes, principalmente as não-oficiais das fontes oficiais na notícia, toda a definição da forma como deve ser abor- ;
que são sub-representadas nas páginas dos jornais, o que demonstra mais uma dado o fato será segundo a ordem dominante, sem a permissão de rupturas ou
seletividade. contra-definições. Por vezes não há o que questionar quanto à imparcialidade I
'e fidelidade do texto, porém, deve-se reconhecer a tendência à reprodução |
[...] a rede de fontes que os órgãos de infonnação estabelecem como instru¬
simbólica da estrutura de poder exi stente na ordem [Link] , j
mento essencial para o seu funcionamento, reflecte, por um lado, a estructura
social e de poder existente e, por outro, organiza-se a partir das exigências Nesse sentido se coloca o papel do jornalismo najnanutenção àoastatus quo.
dos procedimentos produtivos. As fontes que se situam à margem destas duas “Osjfiltros do poder nas notícias do delito penetram de forma direta através
determinações, muito dificilmente podem influir, de forma eficaz, na cobertura das fontes que facilitam as informações que depois serão transformadas em
informativa.™ notícias”.279 Assim, é a partir das rotinas de produção das notícias que o jor-
277 HALL, Stuart et. al.. The social production of news: mugfging in the media. In:
COHEN, Stanley; YOUNG, Jock. The manufacture or news: Deviance, social
m Além da credibilidade, as fontes
institucionais ainda facilitam o trabalho do jor¬ problems & mass media, p. 335-367. London: SAGE, 1981. p. [Link]ção do
nalista, tendo em vista que se sabe onde encontrá-las. Pena observa, porém, que, original em inglês: “More importantly, here, these professional rules give rise to
na atualidade com a internet, grande parte das informações que seriam ofertadas the practice of ensuring that mediastatements are, wherever possible, grounded in
por fontes institucionais o são por páginas da internet, blogs, portais, etc., que pro¬ ‘objective’ and ‘authoritative’ statements from ‘accredited’ sources”.
piciam uma facilidade ainda maior na sua obtenção. O problema nesse caso, é o 278 ibid. p. 342,Tradução do original em inglês: “[...] the primary definition sets the
déficit de credibilidade. PENA, Felipe. 2 ed. Teoria do jornalismo: São Paulo: limit for all subsequent discussion by framing what the problem is. This is initial
274
Contexto, 2006. p. 62. framework then provides the criteria by which all subsequent contributions are
TUCHMAN, Gaye. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das no¬ labelled as ‘relevant’ to the debate, or ‘irrelevant’.”
ções de objectividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: ques¬ 279 BARATA, Francesc. EI drama del delito en los mass media. .. p. 66. Tradução livre
275
tões, teorias e “estórias”. p. 74-90. Lisboa: Veja, 1993. p. 81. do original em espanhol: “Las filtraciones del poder en las noticias del delito pe-
WOLF, Mauro, op. cit. p. 199. netran de forma directa a través de las fuentes que facilitan las informaciones que
276
ibid. p. [Link] no original. después serán transformadas en noticias”.
98 99
nalismo reproduz as definições dos poderosos, sem estarem, de uma forma nas áreas discricionárias dc atuação do iomalista.282285Além disso, a objetividade
simplista, necessariamente a seu serviço. garante duas proteções às organizações, a de ao relatarem os fatos de
I Além da utilização de fontes dignas de crédito, outra forma de reprodu- 1 objetiva, os jornalistas não expressarem interpretações ou opiniões, ficando
forma
zir essas definições é a cobertura excessiva de acontecimentos pré-agendados. I isso a cargo das fontes, além da própria narração sobre o acontecimento, dada
o que torna a atividade mais fácil e barata, porém, leva os jornalistas à depen¬ pelas fontes. Sendo assim, o jornalista não é responsável pelas declarações _ct
dência da instituição promotorí^*' sim as fonteS-citadas. Outra proteção é quanto à sua manutenção no monopó¬
Além disso, Hall et. al. buscam demonstrar que o processo de produção lio do mercado, dificultando a concorrência no sentido dc que não haverá um
das notícias pressupõe a sociedade como um consenso e, assim, auxilia na embate entre pontos de vista político-ideológicos diversos, não dando margem
construção desse consenso. Ao recorrer a suposições sobre o funcionamento ao sucesso do ponto de vista contrário.282
e as crenças da sociedade, ignora-se que, a despeito de dividirem a mesma Acerca das fontes, entretanto, é necessário destacar que o jornal confere
cultura, as pessoas não vivem de forma consensual. “Os pontos de vista ‘con¬ o efeito que convém às fontes citadas. Ou seja, não será o discurso de todas
sensuais’ da sociedade representam-na como se não existissem importantes as fontes assumido como verdade, sendo que algumas delas irão inclusive
rupturas culturais ou económicas, nem importantes conflitos dc interesses incorporar o discurso do próprio jornal, c outras tenderão a ficar relegadas
entre classes e grupos”.2*’ Os enquadramentos tendem, portanto, a reforçar como citações, as quais o jornalista é obrigado a reproduzir por uma questão
pontos de vista que se pensa serem consensuais. Dentro de uma sociedade de defesa de sua “imparcialidade”.
consensual, o papel da mídia é, entretanto, apresentar os fatos que rompem
É necessário destacar, contra qualquer rcducionismo que possa ser com¬
com esse consenso, os acontecimentos problemáticos, não sem antes defini¬ preendido acerca da adoção dessa teoria dc base, que essas características não
rem de que forma os mesmos devem ser interpretados. significam que o jornal automaticamente irá definir a forma como a sociedade
Dessa maneira, é possível afirmar que a dispersão da rede informati¬ compreenderá os fenômenos. Ele apenas trabalhará sob alguns pontos de vista
va, as tipificações que orientam sua prática, a questão do profissionalismo, que vão adentrar na realidade social, mas lá serão objeto de recomposições
I
por
mediante todos esses fenômenos objetivados. a_notícia resultante .termina cm função das interações sociais. Como nota Mouillad, pelo fato dc o jornal ’
desempenhar o papel de legitimar as relações de classe e poder existentes.. não estar face a facc ao caos do mundo, e estar situado no fim de uma cadeia
A objetividade continua sendo a ideologia do jornalismo, pertencente de transformações que lhe “entregam um real já domesticado”,28'’ ele apenas é
ao profissionalismo jornalístico, e tem como uma de suas funções o controle um operador entre tantos outros, '
[...] porque o sentido que leva aos leitores, estes, por sua vez, também remanc-
jam-no a partir de seu próprio campo mental c recolocam-no em circulação no
ambiente cultural. Se, na origem, o acontecimento não existe como um dado de
HALL, Stuart et. al. op. cit. p. 342. Segundo Traquina, a percepção sobre o papel ‘fato’, também não tem solução final. A informação não é o transporte de um
das fontes institucionais na notícia é o que traz a principal diferença entre as tep- fato, é um ciclo ininterruptoj_cJtansformacões.265
rias estruturaíista c interacionista das notícias. Ambas as teorias concordam que é
.concedido espaço excessivo às fontes oficiais e isso tende a legitimar o status quo. Compreenderassim a informação permite que se retire a exclusividade j
Porém, najepria estruturaíista. ressalta-se que as fontes oficiais detêm um papel
dominante em relação aos próprios jornalistas, reproduzindo a ideologia dominan¬
( do jornalismo na construção social da realidade. É necessário sc ter em conta 1
te, sendo criticada pelo seu determinismo. A teoria interacionista. por outro lado,
concorda com o papei predominantemente conservador do jornalismo, no entanto,
percebe uma relativa autonomia dos jornalistas, atribuindo a ele a realização, por 282
SOLOSKJ, John. O jornalismo c o profissionalismo: alguns constrangimentos no
vezes, de práticas de contra-poder. TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: trabalho jornalístico, in: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: Questões, teo¬
Por que as noticias são como são,., op. cit. p. 180-201. rias e “estórias”. p. 91-100. Lisboa: Veja, 1993. p. 96.
2” HALL, Stuart et. al. op. cit. p. 338. Tradução do original em inglês: "'Consensual’ 283 ibid.
views of society represent society as if lhere are no major cultural or economic 284
MOUILLAUD, Mauricc. op. cit.
breaks, no major conflicts of interests between cises and groups”. 285
ibid. p. 5 1.
1 wo 101
a complexidade das interações sociais que levam, diariamente, a essas defini¬
| Assim, a principal caracteristica_das.notícias sobre crimes é a quase to-
ções que constituem a realidade social.
< taldependência do papçl dos definidores primários.288 As agências de controle
l social formai constituem o [Link]ólio das_ fontes de notícias de crimes,
1.2.3 O sistema penal nas notícias: controle social e legitimação i normalmcnte juntando-se em um só coro solidário à vítima e contrário ao
f etiquetado como “bandido”. “Isso significa que, onde parece haver um largo
Os acontecimentos negativos costumam ter um grau de noticiabilidade in¬ consenso e as contradefinições quase não existam, as definições dominantes
comparável. Isso depende da existência ou não de outros valores-notícia, como ; dirigem o campo de significação de uma fornia rclativamente incontestada”.287
envolver países ou pessoas de elite, mas, de qualquer forma, o jornal sempre tem : Dentre essas agências, destaca-se a polícia, já que sua atuação se dá
espaço para as agressões e mortes. Os crimes, dentre os acontecimentos negati¬
। nas ruas, em contato direto com os acontecimentos. É a primeira agência por
vos, possuem características ainda mais interessantes. Propiciam a bugea por um
culpado, contra quem a sociedade possa^exoltar, ao mesmo tempo em que geram
! onde passa o caso, o suspeito, a vítima, as testemunhas. É a fonte oficial do
mo: escândalo. “Estes serão os primeirpg,sinais,do_discurso_do poder y . _
| uma trama por vezes digna da ficção, com direito a novos capítulos a cada dia. nos meios dexpmunicacãQ_e.[Link]ça :a marcará.para sempre.a notícia sobre . t
Violência e crime costumam estar, portanto, no topo de todos os valores notícia. iiQ”290
A construção que envolve as notícias sobre crimes, assim como todas as O recurso às fontes oficiais acaba legitimando a sua atuação, tendo em
outras, passa pela dispersão estratégica dos jornalistas, pelos valores-notícia e
que são elas interessadas na reafirmação de seu papel.
pela utilização das fontes que tragam credibilidade. Apesar de romperem com
a normalidade dos acontecimentos diários, as notícias sobre crimes são tam¬ Conseqiientemente, uma das áreas onde os media têm mais probabilidades de
bém aquelas em que a rotinização do trabalho que lhes dá origem é extrema. ser bem sucedidos na mobilização da opinião pública dentro da estrutura do¬
A própria rede informativa se [Link] de tal maneira que nor¬ minante de idéia sé cm questões relacionadas com o crime e a sua ameaça à
sociedade. Isto toma a via do crime unidimensional c transparente no que diz
malmente há um repórter responsável por verificar os informes da polícia, as -
respeito aos mass media e à opinião pública onde os assuntos são simples,
operações realizadas pela mesma, assim como os flagrantes, as prisões e ob¬ das
incontroversos e claros. Por este motivo, o crime e o desvio oferecem duas251
jetos apreendidos. Isso significa que a própria pauta das nptí[Link] principais fontes de imagens de poluição e estigma na retórica do público.
partejdesde já de agências de controle social formal. Por si só_isso “[Link]
.entrada um processo de selecãqa respeitojia realidade [...]”.286
Após a determinação da pauta, os jornalistas saem a campo para cobrir 288
ibid. p. [Link]ção do original em inglês: “Jn the area of crime new, the media
os acontecimentos. Como foi visto, nesta fase de recolha do material, as fontes appear to be more heavily dependent on the institutions of crime control for their
principais são novamente as oficiais, em alguns momentos intercalando-se news stories than in practicaily any other area”.
com a voz da vítima e de seus familiares. Dificilmente vai existir uma outra 289 ibid.
p. 355,Tradução do original em inglês: “What this amounts to, where lhere se-
fonte que fale de forma contrária, como por exemplo, o próprio sujeito rotula¬ ems to be a very wide consensus, and counter-definitions are almost absent, is that
dominant definitions command tbe field of signification relatively unchallenged”.
do como criminoso. “Em geral, o_crjniinoso_pela sua conduta, é tido como ter 2,0
BARATA, Francesc. EI drama del delito en los mass media... p. 67. Tradução livre
sido privado, juntamente com outros direitos de cidadania, do seu [Link] do original em espanhol: “Estas seráh las primeras huellas del discurso del poder en
resposta’ até ter pagado a sua divida para com a sociedade”.287 los médios de comunicacíón y su presencia marcará para siempre la noticia sobre
el delito”.
286
BUSTOS RAMÍREZ, Juan. Los médios de comunicacíón de masas. In: BER-
291
HALL, Stuart et. al. op. cit. p. 356. Tradução do original em inglês: “Consequently,
GALL1, R. et. al. (orgs.).El pensamiento criminológico II: Estado y control. p. one of areas where the media are most likcly to be sucessful in mobilising public
50-62. Bogotá: Temis, 1983. p. 58. Tradução livre do original em espanhol: “pro¬ opinion within the dominant framework of ideas is on issues about crime and its
voca de entrada un proceso de selección respecto de la realidad [...]”. threat to society. This makes the avenuc of crime a peculiarly one-dimensional and
282 H
ALL, Stuart et. al. op. cit. p. 355. Tradução do original em inglês: “By and large, transparent one so far as the mass media and public opinion are concemed: one
the criminal, by his actions, is assumed to have forfeited, along with other citi- where issues are simple, uncontroversial and clear cut. For this reason, too, crime
zenship rights, his ‘right of reply’ until he has repaid his debt to society”. and deviancc provide two of the main sources for images of pollution and stigma
in the public rhetoric”.
102 103
Como visto, [Link] principal dajiti^çãojiosjwg^ As consequências dessa estigmatização seletiva também têm lugar na
sistema penal,,em_esp,[Link] a polícia, é a seletividade. A partir de estereótipos atuação dos jornalistas, tendo em vista que a propagação da imagem da pessoa
e das “teorias de todos os dias”, a polícia costuma procurar a criminalidade etiquetada como criminosa, em nível local, regional, nacional ou internacional,
onde espera encontrá-la, deixando imunes os fatos contrários à lei que estão tem o dom de criar um rótulo muito mais aferrado à pessoa do que a simples
de fora dessas definições. interação social. Através desse raciocínio, as teorias sobre o desvio secundário e
Então, ao reproduzirem o^discurso das agências,[Link] [Link] a construção de carreiras criminosas são elevadas ao seu grau máximo.
a criminalidade, as notícias [Link] mesmo_problema: também se volta¬ Nos casos de notícias sobre crimes, o termo story ou ‘estória’, utiliza¬
rão contra uma parcela da sociedade, bem como contra uma parcela de atos dos pelos jornalistas ingleses e portugueses para mostrar que a notícia não é
cometidos, os crimes de rua.2’2 “Essas representações de protótipos de crimi¬ o próprio fato, mas uma construção sobre ele, fica bastante evidente.295 Nor¬
nosos e de protótipos de vítimas são componentes essenciais das idéias falsas malmente busca-se a vítima e o bandido, o lado do bem e o lado do mal, para
sobre o crime, na moldação de nossas apreensões e na alimentação de nossas que todos possam se posicionar. É um discurso de conto de fadas, como aduz
ansiedades”.* 293 Bustos Ramírez, mas com aparência de objetividade, autoridade e o máximo
Ao mesmo tempo, é necessário que se tenha em conta que a utilização de credibilidade, “e isso aumentado pelo profissionalismo tanto do jornalista
de estereótipos acerca do desviante faz parte do próprio processo de produção como da fonte, a polícia”?96
das notícias. “O esjereótipo ligado aos desviantes pela mídia é um caminho de _As_notíçias sobre crimes, então,. normalmente legitimam a atuação das
simplificação da realidade. Isso não é uma distorção calculada do mundo agências oficiais de controle social. Mais importante que isso,
realj o fazem através
nem uma cuidadosa reflexão dos eventos reais, mas antes é uma tradução da da reiteração de algumas definições difundidas no senso comum a respeito do
realidade dentro dos estereótipos”.294 crime e da criminalidade. Essas definições partem da ideologia penal domi¬
1 Da mesma forma, a violência,, ponto tão caro a se somar na configura¬ nante, representada através de alguns princípios, definidos por Baratta, todos
ção dos valores que conferem a noticiabilidade ao fato, é reduzida a violência eles contrapostos por teorias criminológicas desenvolvidas ao longo do século
individual, sendo sinónimo de criminalidade e de insegurança dos cidadãos. A XX?97 De uma maneira geral, o discurso da mídia sobre o crime faz referência
violência estrutural, c a violência institucional que é provocada pelo próprio í a pressupostos clássicos da criminologia positivista, como a ideia de “ten¬
sistema penal não são vistas como violências, e têm baixíssima pontuação nol dência a cometer crimes”, a separação entre bandidos e cidadãos que pagam
impostos, a questão da periculosidade, entre outros.
i quadro dos valores-notícia.
Nesse aspecto, mostra-se o círculo vicioso que se forma: as notícias Isso ocorre não só em função do enquadramento da notícia, mas tam¬
acabam realimentando os estereótipos e o senso comum sobre o crime e os bém por causa de uma questão anterior: a seleção dosJatos que serão objeto
d_e_notícias. Os fatos criminosos mais propensos a serem
criminosos, e posteriormente, ao construir novos relatos, se realimentarão, noticiados são aque¬
reproduzindo os estigmas. É a dialética que move a construção social da rea-i1 les em que a vítima é de classe média, branca e mulher, ou seja^^esigigótt.
lidade, na qual os meios de comunicação ocupam um papel importantíssimo. pqjerfeito_de_víiirna, ao mesmo tempo em que o agressor deve ser jovem,
negro e pobre, ou seja, o estereótipo perfeito do criminosa. Essas imagens
“'BUSTOS RAMÍREZ, Juan. op. cit. refletem claramente a hierarquia de classe, raça e gênero, e, através delas,
293 MADRIZ, Esther. op. cit. p. 94. Tradução livre do original em espanhol: “Estas
104 105
r- '
uma complexa rede de idéias, conceitos e códigos se depositam dos órgãos de controle
em nosso Se alguma coisa ficou demonstrada, foi que a interação
| inconsciente”.2’8 é quase perfeita. São quase inexistentes as contradições
entre o que transmite
família, ou a Igreja, ou a
Como percebe Andrade, apesar de a criminologia positivista ter essa unidade essencialíssima da educação que é a
abandonada no meio acadêmico, ganhou as ruas, o que se explica pelo sido televisão, ou a literatura infantil, etc., e as instituições de tratamento?03
primento de outras funções diferentes das prometidas. cum¬
comunicação, ao perceber
A mídia, por sua vez, A mudança de paradigma nas pesquisas em
que através dos MCM se
[...] passa a colonizar, com imensas vantagens, a função
a notícia como construção social, opõe-se à visão de
mente desempenhada pela Criminologia positivista
— legitimadora histórica- 1
e o conjunto das ciências p
criminais - operando com o mesmo senso comum, criminologicamente
lado, na dimensão do ‘espetáculo’ de amplíssimo mode- 1
manipula a massa. Passa-se a considerá-los “como veículos
de controle, dentro das características próprias de
de uma ideologia
um sistema de mercado e de
sociais, gerando o medo
alcance?" consumo”.304 Controle este que se reflete nas relaçõespopulação.
A forma de expor uma separação maniqueísta entre o bem e o e a insegurança apenas em relação a uma parcela da
mal, entre social [Link]-
as pessoas naturalmente criminosas e aquelas de bem,
que anteriormente era Quanto mais se difunde o medo, maior é o controle
| maneira, não é difícil per¬
justificada pela criminologia positivista, é
sustentada na atualidade pela mídia. les em direção aos quais se orienta o temor. Dessa
comunicação de massa em relação à
“As produções dramáticas tradicionais e parte da mídia ceber o papel legitimador dos meios de
outro’^^/ —
a ideia simples - e simplista de que há os
Dessa maneira pode-se reafirmar o consenso, “para
tendem a perpetuar
bons de um lado e os maus de
determinar quem
adoção de políticas criminais autoritárias.
é um reforço de ou¬
Se a isso acrescentarmos que a comunicação geralmenteeducação), não apenas
está dentro e quem está fora, em definitivo, para religião,
reafirmar o statusquo”.301 tros meios de controle social informal (família,
A utilização excessiva das fontes institucionais porque, visando ao lucro, os meios de comunicação transmitem justamente o
nas notícias sobre crimes concluir quej
i tem um significado ainda mais problemático
do que em outras editorias. Isso por- que corresponde aos valores e expectatívas existentes, devemossocial?05
/ que,reafirmar o statusquo traz a consequência de legitimar notícia, como a totalidade dos meios, é uma forma de controle
a violência dp controle
V penal, caracterizada, nos países latino americanos, pelo genocí[Link]?02 que o crime
Além disso, diante da constatação de que a forma Com efeito, se a teoria do labbeling approach demonstrou social,
órgãos de controle
como a notícia é não tem status ontológico, anterior à definição pelos
construída propicia uma legitimação do status quo, em especial de forma decisiva nesse
fontes institucionais, pode-se concluir que a mesma éum
no recurso às e é, portanto, uma construção social, a mídia opera
de controle so¬
mo de-controle-social. Como explicitado, o controle
importante-mecanis¬ processo. Os MCM, poitantQ,_auxiliam-as-demais_instânçiassobre [Link]
social informal, em coro cial na construção social da delinquência “ao fundamentar
com o controle social formal propiciam a fidelidade ‘tragédias’”, e na construção social do
das pessoas aos valores tipo de delinquência a informação de
do sistema. Ou seja, os processos de estigmatização delinquente através da.
viantes ao sistema começam através dos órgãos de
e etiquetamento dos des- delinquenteJíao conformar o estereótipo diferencial de
carac.teres_utilizados, as .fotos e_o
controle social informal,
como a família, a escola, a religião, etc. E, diante disso, edição da notícia, seu lugar najpágina, os
vocabulário particular para referir-se a ele”?06
198
MADRIZ, Ester, op. cit. p. 97. Tradução livre do original
em espanhol: “[...] una
complejared de ideas, conceptos y códigos se depositanennuestro
199
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema penal inconsciente".
/-ana... op. cit. p. 61.
máximo x cidadania míni-
^yHULSMAN, Louk; CELIS, Jacqueline Bemat de. Penas perdidas. O sistema pe¬
nal em questão. 2 ed. Niterói: Luam, 1997. p.
301 56.
BUSTOS RAMÍREZ, Juari: op. cit. p. 59. Tradução livre do 303 ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 155. livre do original em espanhol:
“Esta forma de entregar la noticia criminal sirve, pues, original em espanhol: 304 BUSTOS RAMÍREZ, Juan. op. cit. p. 58. Traduçãode las características propias de
para la reafirmación del
consenso, para determinar quiénes están dentro y quiénes están “como vehiculo de una ideologia de control, dentro
para reafirmar el statu quo". fuera, en definitiva un sistema de mercado y de consumo”.
301 305 ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 218.
ZAFFARON1, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas... op.
cit. 306 ibid. p. 234.
106 107
1.2.4 O discurso da emergência
Como mecanismo que traduz a continuidade entre controle social for¬
mal e controle social informal, a linguagem instrumentalizada pelos MCM
e a relegitimação do sistema penal
produz uma legitimação quotidiang do sistema penal. Com isso, a atuação de A despeito de todas as descobertas teóricas sobre as suas funções reais
seus órgãos encontra respaldo na “amquilaçãg conceitual”32Ldos_desviantes e o descompasso disso com suas promessas, convive-se na atualidade com a
produzida diariamente pelos meios de comunicação, em especial pelas notí¬ busca por uma relegitimação do sistema penal. E, além da legitimação quoti¬
cias. “E não é apenas coincidente que a linguagem utilizada para justificar a diana do sistema penal operada pelos discursos dos MCM, nota-se que a atua¬
acção contra qualquer potencial grupo de perturbadores desenvolva, como um lidade é fértil em exemplos onde eles, mais do que operarem essa legitimação,
dos seus indicadores críticos de fronteiras, o imaginário da criminalidade e da auxiliam na relegitimação.
ilegalidade [..,]”.308 Essa tendência encontra respaldo em outras característícas marcantes
Dessa maneira, é contra o grupo dos que estão fora que as notícias vão das notícias, o sensacionalismo e a espetacularização. Essas característícas
se voltar, e não apenas contra o provável agressor. permeiam todas as editorias dos jornais, porém, é no crime que atingem sua
Os crimes “tradicionais” se inscrevem no interior do estereótipo da crimina¬ máxima significação.
lidade do “senso comum”, e dominam as campanhas alarmistas sobre eles. A E importante ter em conta que a notícia é uma mercadoria, quando se
opinião pública e os meios de comunicação de massas, representam geralmen¬ considera que são produtos de empresas como quaisquer outras. Dessa ma¬
te estes delitos adotando um esquema de repartição dos papéis da vítima e do neira, é necçssário criar uma aparência de [Link] usom o jornalismo, o que
agressor que corresponde normalmente, em grande medida, à relação entre ío leva “a sensacionalizar a vida política, económica e social de determinada
grupos sociais privilegiados e “respeitáveis” de uma parte, e grupos marginais I formação histórica”.310 De qualquer forma, pode-se afirmar que o conceito
e “perigosos” da outra (estrangeiros, jovens, tóxico-dependentes, pobres, sem
de notícia é orientado pelo singular, ou seja, pelo diferente, fora do comum.
família, desempregados ou sem qualificação profissional).309
O problema é que o excesso de singularização, como ocorre nos chamados
A partir dessas constatações, percebe-se que o papel da jnídja não é jornais sensacionalistas leva que o seu conteúdo seja conservador. “[...] Os
somente o de auxiliar na legitimação do sistema penal e na manutenção do jornais sensacionalistas geralmente produzem um discurso de reforço dos va¬
status quo. Contextualmente, as campanhas midiáticas em tomo do medo da lores, como meio para excitar não apenas as sensações como também os pre¬
violência coincidem comjtnQyimentps de política.çriminal_que reivindicam o conceitos morais do público”.3"
aumento da repressão penal, abordados no tópico 1.1.4. O sensacionalismo garante os lucros necessários à manutenção das em¬
presas de comunicação. “O combate ao crime, como o próprio crime e parti- !
cularmente o crime contra os corpos e a propriedade privada, dá um excelente
e excitante espetáculo, eminentemente assistível”.312 Diante disso, o sensacio¬
307
BERGER, Peter; [Link], [Link]. cit. nalismo é uma forma de transformar o acontecimento de tal forma que ele se
308
HALL, Stuarl et. al. op. cit. p. 356. Tradução do original em inglês: “It is not mere- tome mais atrativo ao consumidor.
ly coincidental that the language used to justify action against any potential group
- of trouble-makers deploys, as one of its criticai boundary markers, the imagery of
criminality and illegality [...]”.
[...] os comunicadores tentam ganhar expectação e diversão pintando a crimi¬
nalidade como algo inaudito, enigmático, sinistro, extraordinário e misterioso.
3(19
BARATTA, Alessandra. La política criminal y el derecho penal de la constitución... O acontecimento criminal é grotesco; suscita um agradável estremecimento de
op. cit. p. 31. Tradução livre do original em espanhol: “Los crímenes ‘tradicionales
se inscriben al interior del estereotipo de la criminalidad del ‘sentido común’, y do- 310
MARCONDES FILHO, Ciro. O capital da notícia: Jornalismo como produção de
minan las campanas alarmistas sobre ellos. La opinión pública y los médios de co- segunda natureza. 2 ed. São Paulo: Ática, 1989.p.30.
municación de masas, representan generalmente estos delitos adoptando un esquema 311
GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: Para uma teoria marxista da
de repartición de los roles de la víctima y del agresor que corresponde normalmente,
en gran medida, a la relación entre grupos sociales privilegiados y ‘respetables’ de notícia. Porto Alegre: Ortiz, 1997. p. 198.
312
una parte, y grupos marginales y ‘peligrosos’ de la otra (extranjeros, jóvenes, tóxico- BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro:
-dependientes, pobres, sin família, desempleados o sin calificación profesional)”. Jorge Zahar, 1999. p. 126.
108 109
CÍ CÍJCí/JJW p""”
horror, faz possíveis a complacência e a altivez moralizantes do não criminal, mas sim uma outra função de caráter geral: a obtenção do consenso buscado
que pode destacar-se do autor do fato punível.313 pelos políticos na chamada “opinião pública” jj7
Ao mesmo tempo em que o crime é informação, também é_entretenir. Os conflitos que legitimam a adoção de posturas repressoras são justa¬
mento, o que pode ser exemplificado através de programas pseudojomalís- mente propagados pelo sensacionalismo da mídia. Os sentimentos de medo e
ticos como Linha Direta e Brasil Urgente. Nesse contexto, deve-se ressaltar insegurança também são dessa forma reproduzidos. Apesar de o sentimento
que a espetacularização é uma das características que, em contraponto à busca de insegurança possivelmente vir a se originar em situações estruturais, como
pela credibilidade, acaba por tomar conta das notícias sobre crimes. é o caso do desemprego, da instabilidade que caracferizam o período atual, o
A espetacularização da realidade pela midia foi exposta e criticada, por medo não se dirige diretamente contra ele, sendo canalizado contra o crime.
Debord, em 1967, em um texto polêmico sobre a sociedade francesa de sua A luta contra_essarinsegurança.é canalizada na adoção de medidas_contra uma
I época. Expõe que a vida das sociedades onde as condições de produção mo¬
,
_criminalidadfeçenstniída socialmente como a pior ameaça à_spçicdade.__
dernas se sobrepõem é uma acumulação de espetáculos, no sentido de que / Cohen explica que a natureza da informação recebida sobre os compor¬
tudo passou a ser vivido a partir de representações, não mais diretamente. 3 14
J | tamentos obtidos como desviantes são uma crucial dimensão para entender a
Explica ele que “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real. Essa reação a ela. Sendo essas informações transmitidas pelos meios de comuni¬
15
‘ alienação reciproca é a essência e a base da sociedade existente”? A despeito cação de massa e, portanto, em segunda mão, sabe-se que a informação já foi
da radicalidade de suas afirmações, a ideia de que a imagem se sobrepõe à processada, e, para isso, poderia ter tido definições alternativas, dependendo
realidade tem respaldos em outras teorias. da forma de coleta e apresentação. Além disso, as escolhas realizadas para o
Um exemplo claro disso é a forma como se dá a política na atuali¬ processamento da informação são condicionadas por constrangimentos co¬
dade. Conslata-se que a dimensão do espetáculo em volta da questão da merciais e políticos. Essas escolhas refletem também o fato de que a midia
segurança pública busca ocultar o fato de que o sistema penal não cumpre por muito tempo operou-se como agente^ dejndignaçã[Link], _e a_partir da
e nem tem o objetivo de cumprir com a sua função declarada. O sistema í transmissão das notícias pode gerar inquietações, ansiedade, indignação ou
penal exerce, na verdade, uma função simbólica diante da opinião pública pânico.318 Essa sensação de pânico pode levar ao sentimento de que os valores
e “o déficit da tutela real dos bens jurídicos é compensado pela criação, precisam ser protegidos, gerando assim as pré-condições para a criação de
junto ao público, de uma ilusão de segurança e de um sentimento de con- novas regras ou definição de problemas sociais?19
' fiança no ordenamento e nas instituições que tem uma base real cada vez | A partir dessas informações processadas também se modifica a forma
—
de controle social, sendo que “a galeria de tipos folclóricos heróis e santos,
i
mais fragilizada”.3'6
Assim, confirmando a lógica do espetáculo, pode-se afirmar que a crise
da função instrumental da justiça penal demonstra que não é eia que serve para
resolver conflitos,
—
tanto bons como bobos, vilões e demónios é publicizada não exatamente na
tradição oral e no contato face a face, mas para audiências muito extensas e
com recursos dramáticos muito grandes”?20 Assim, dizer que as informações
são expostas em segunda mão para a sociedade significa que isso ocorre de
[...] são determinados problemas e conflitos que ao atingirem um certo grau de
forma que “a ação ou atores interessados sejam descritos de forma altamente
interesse e de alarme social no público se convertem num pretexto para uma estereotipada”?2 1
ação política destinada a obter não tanto funções instrumentais específicas,
CERVINI, Raúl. Incidência de las “mass media” en la expansión del control penal
313
110 111
Esse estereótipo se refere à construção social da delinquência e do de¬ ma penal latino americano sejustifiça,atraYÊS_de seu aparato de propaganda, > j
linquente, concluindo-se que os dois grandes princípios tipicamente seguidos especialmente quando se percebe o grande espaço destinado à violência na ;;
nas informações sobre delitos são o princípio da dicotomia entre bons e maus mídia.327 “Eles são as fábricas de realidade, que induzem os medos que legiti-
e o princípio do suspense.322 mam e desencadeiam as campanhas de lei e ordem quando o poder das agên¬
Vemos, assim, passo a passo, como a construção social da noticia, mediatizada cias encontra-se ameaçado”.328 Desse ponto de vista, os rneios de comunicação
pelo poder económico e político, vai gerando atitudes e valores, isto é, elemen¬ acabam assumindo importantes funções, como a fabricação seletiva dos este-
tos de juízo, para que se crie um sentimento de insegurança que é absoluta- reótipos-do^criminoso. chegando a afirmar que “nossos sistemas reproduzem <
mente seletivo. Esse processo indica o que é que se deve temer, deixando na , sua clientela por um processo de seleção e condicionamento criminalizante /
sombra situações e condutas abertamente danosas que, entretanto, não causam que se orienta por estereótipos proporcionados pelos meios de comunicação; ! j
temor.323 de massa’(?^ Considera que os meios de comunicação de massa “são hoje ele-': :
Diante disso, apenas a parcela mais frágil da população é responsabi¬ mentos indispensáveis para o exercício de poder de todo o sistema penal’M -
lizada pelo problema da criminalidade, sendo o sentimento de insegurança No contexto brasileiro, a indução de medos também sempre ocorreu
voltado contra ela. Crja-se uma rejeição a essa parcela da população, o que com o objetivo de adoção legitimada de estratégias de neutralização e_disçi-
originadiscursos reacionáriosJ‘canalízando-se contra ela-a-agressividade-COr_v? plipamento do. povo. A partir dessa observação insere-se a tese de Malaguti
letiva, e não contra os detentores do poder”.324 Batista, “de que a hegemonia conservadora na nossa formação social trabalhai
TI Para atender à aclamada demanda por segurança pública, o aumento ja difusão do medo como mecanismo indutor e justificante de políticas autori- 1
da repressão penal toma o lugar dos investimentos sociais, implementando-se jtárias de controle social”.331 A autora analisa situações em que na atualidade
não somente medidas jurídicas autoritárias com a edição de leis, mas da mo¬ essa difusão do medo, com a contribuição decisiva dos meios de comunicação
dificação da atuação até mesmo da polícia nas abordagens que faz nos bairros de massa, auxiliou na adoção de práticas que geraram muitas mortes e confli¬
pobres, e na própria execução penal. A delinquência é entendida, portanto, tos, como a ocupação militar das favelas cariocas na década de 1990. Diante
como “um problema de ordem-pública” e não como problema social?25 disso, mostra que “q medo é a porta de entradajrara políticas genocidas..de
A produção. do medo irreal frente à criminalidade e as atividades de controle social*’.332
.índolmpolítica-criminal. que provocam uma punitividade injustificadasãp,.os Em função da noticiabilidade dos crimes graves e da difusão de este¬
dois planos de_efeitosjelacionados por [Link] o excesso de..cobertura de reótipos do criminoso e da vitima, que não correspondem à realidade, tendo
Jatos violentos pela mídia.326 Pelo fato de que o alarde de crimes violentos é em vista que o crime está distribuído em todas as parcelas da população, o
muito grande, causa-se a impressão perante o público de que eles acontecem jornalismo também contribui com a difusão de medos contra as mesmas pes¬
de forma tão corriqueira quanto os pequenos crimes de rua. soas. Delimita-se dessa maneira o inimigo da sociedade, hoje representado
Para Zaffaroni, a atuação dos meios de comunicação de massa diante perfeitamente no Brasil pelo pobre favelado.
dos sistemas penais latino americanos justifica o trabalho de suas agências Assim, “a implantação de_um-sistema penal que_tem tradição genocida,
pelo simples fato de que eles são os seus aparelhos de propaganda. Assim, seletiva e hierarquizadora”. encontra reforç[Link]-aliança entre a estrutura social
o poder “configurador. disciplinar, normalizador ou vertiçalizante” do siste-
322
327 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Globalização e sistema penal na América Latina...
ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. op. cit. p. 63.
323
ibid. p. 216. 328
idem. Em busca das penas perdidas... op. cit. p. 129.
324
ibid. p. 217. ®)ibid. 133.
325
ibid. p. 234. . ibid. p. 127.
326
HUGEL, Carlos. La patologia de la comunicación o el discurso sobre criminalidad 331
MALAGUTI BATISTA, Vera. O medo na cidade do Rio de Janeiro: Dois tempos
en los médios masivos. In; FONT, Enrique A.; GANÓN, Gabriel E. H.; SAGAR- de uma história. 2 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2003. p. 23.
DVY, Ramiro (orgs). Criminologia crítica y control social. Orden ojusticia. p. 332
idem. Medo, genocídio e o lugar da ciência. Discursos sediciosos: crime, direito,
39-49. Rosário: Juris, 2000. p. 40. sociedade, Rio de Janeiro, n° 7 e 8, 1° e 2o semestres de 1999, p. 135-141. p. 135.
112 113
pvMivcis a vomptacencia e a altivez moralizantes do não criminal,
mas sim uma outra função de caráter gera): a obtenção. do consenso buscado
que pode destacar-se do autor do fato punível.313 t
pelos políticos na chamada “opinigqpúbjiça”? ’
1
Ao mesmo tempo em que o crime é informação. também éentretcni- Os cònflitos que legitimam a adoção de posturas repressoras são justa¬
mentq, o que pode ser exemplificado através de programas pseudojomalís-
mente propagados pelo sensacionalismo da mídia. Os sentimentos de medo e
ticos como Linha Direta e Brasil Urgente. Nesse contexto, deve-se ressaltar
,[ insegurança também são dessa forma reproduzidos. Apesar de o sentimento
que a espetacularização é uma das características que, em contraponto à como
busca í de insegurança possivelmente vir a se originar em situações estruturais,
pela credibilidade, acaba por tomar conta das notícias sobre crimes. atual, o
| é o caso do desemprego, da instabilidade que caracterizam o período
A cspetacularização da realidade pela mídia foi exposta e critiç[Link] ele, sendo canalizado contra o crime.
medo não se dirige diretamente contra
f' Debord, em 1967, em um texto polêmico sobre a sociedade francesa de sua A luta çontraxssa-insegurança é canalizada na adoção_dcmedidas contra uma
época. Expõe que a vida das sociedades onde as condições de produção mo¬
dernas se sobrepõem é uma acumulação de espetáculos, no sentido de que
-CriminalidadezGonstruída socialmente como a pior ameaça à sociedade.
I Cohen explica que a natureza da informação recebida sobre os compor¬
tudo passou a ser vivido a partir de representações, não mais diretamente?’4
tamentos obtidos como desviantes são uma crucial dimensão para entender a
Explica ele que “a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é
real. Essa J reação a ela. Sendo essas informações transmitidas pelos meios de comuni¬
' .alienação recíproca é a essência e a base da sociedade existente”? 1 5 despei
A to cação de massa e, portanto, em segunda mão, sabe-se que a informação
já foi
da radicalidadc de suas afirmações, a ideia de que a imagem se sobrepõe dependendo
à processada, e, para isso, poderia ter tido definições alternativas,
realidade tem respaldos em outras teorias. para o
da forma de coleta c apresentação. Além disso, as escolhas realizadas
Um exemplo claro disso é a forma como se dá a política na atuali¬
processamento da informação são condicionadas por constrangimentos co¬
dade. Constata-se que a dimensão do espetáculo em volta da questão da ajnídia
segurança públjca busca ocultar o fato de que o sistema penal merciais e políticos. Essas escolhas refletem também o fato de que
não cumpre por muito tempo. operou-se como agente de indignação moral, e a partir da
e nem tem o objetivo de cumprir com a sua função declarada. O sistema indignação ou
, penal exerce, na verdade, uma função simbólica diante da opinião pública
í transmissão das notícias pode gerar inquietações, ansiedade,
pânico?18 Essa sensação de pânico pode levar ao sentimento de que os valores
e ‘‘o déficit da tutela real dos bens jurídicos é compensado pela criação, de
precisam ser protegidos, gerando assim as pré-condições para a criação
junto ao público, de uma ilusão de segurança e de um
sentimento de con- i novas regras ou definição de problemas sociais?19
fiança no ordenamento e nas instituições que tem uma base real cada vez |
A partir dessas informações processadas também se modifica a forma
de controle social, sendo que “a galeria de tipos folclóricos - heróis e
mais fragilizada”?16 santos,
v
Assim, confirmando a lógica do espetáculo, pode-se afirmar que a crise
da função instrumental da justiça penal demonstra que não é ela que mas
-
tanto bons como bobos, vilões e demónios é publtcizada não exatamente
para audiências muito extensas
na
e
serve para tradição oral e no contato face a face,
resolver conflitos, dizer que as informações
com recursos dramáticos muito grandes”?20 Assim,
são expostas em segunda mão para a sociedade significa que isso ocorre
[...] são determinados problemas e conflitos que ao atingirem um certo grau de de
altamente
interesse e de alarme social no público se convertem num pretexto para uma | forma que “a ação ou atores interessados sejam descritos de forma
ação política destinada a obter não tanto funções ! estereotipada”?21
instrumentais específicas,
’
i
313
CERVINl, Raúl. Incidência de las “mass media” en la expansión del control penal
en Latinoamérica. Revista brasileira de
। ,. p. 37-54, janeiro-março 1994. p. 46. ciências criminais, São Paulo, ano 2, n.5, 317 jbidp 23.
and New York:
— 314
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro:
315 ibid.
p.15.
Contraponto, 1997.
3I’ COHEN, Stanley. Folk dcvtls and moral panies. 3 ed. London
Routledge, 2002.
316
BARATTA, Alessandro. Funções instrumentais e simbólicas do direito penai...
3” ibid.
cit. p. 22. op. 320
ibid. p. 8.
321
ibid.
110 111
Esse estereótipo se refere à construção social da delinquência e do
de¬ I ma penal latino americano se justifica através de seu aparato de
propaganda,
linquente, concluindo-se que os dois grandes princípios tipicamente
seguidos / especialmente quando se percebe o grande espaço destinado à violência na i
da dicotomia entre bons e maus * mídia.327 “Eles são as fábricas de realidade, que induzem os medos que legiti-
nas informações sobre delitos são o princípio
e o princípio do suspense.322
mam e desencadeiam as campanhas de lei e ordem quando o poder das agên¬
cias encontra-se ameaçado”.328 Desse ponto de vista, os meios de comunicação
Vemos, assim, passo a passo, como a construção social da notícia, mediatizada acabam assumindo importantes funções, como a fabricação-seletiva dos este.-
é, elemen¬
pelo poder económico e político, vai gerando atitudes e valores, isto reótiposjdQ^nminoso. chegando a afirmar que “nossos sistemas reproduzem I
tos de juízo, para que se crie um sentimento de insegurança que
é absoluta¬
, sua clientela por um processo
mente seletivo. Esse processo indica o que é que se deve temer,
entretanto,
deixando
não causam
na i de seleção e condicionamento criminalizante/
I que se orienta por estereótipos proporcionados pelos meios de
sombra situações e condutas abertamente danosas que, comunicação! /
temor.323 / de massat^Considera que os meios de comunicação de massa “são hoje clcr í
mentos indispensáveis para o exercício de poder de todo o sistema penal’
Diante disso, apenas a parcela mais frágil da população é responsabi¬ No contexto brasileiro, a indução de medos também sempre ocorreu
lizada pelo problema da criminalidade, sendo o sentimento de insegurança com o objetivo de adoção legitimada de estratégias de neutralização e discí-
noDulação, o^Hiie
voltado contra ela. Cria-se uma rejeição a essa parcela da p ligamento do povo, A partir dessa observação
insere-se a tese de Malaguti
origina discursos reacionários,.“canalizando-se contra
ela-a-agressiyidade_co^_
Batista, “de que a hegemonia conservadora na nossa formação
social
4- letiva, ê não contra os detentores do poder”.321* segurança pública, o aumento la difusão do medo como mecanismo indutor c justificante de políticastrabalhai
autori- 1
1 Para atender à aclamada demanda por /tárias de controle social”.331 A autora analisa situações em que na atualidade
da repressão penal toma o lugar dos investimentos sociais, implementando-se essa difusão do medo, com a contribuição decisiva dos meios de comunicação
não somente medidas jurídicas autoritárias com a edição de leis, mas
da mo¬
de massa, auxiliou na adoção de práticas que geraram muitas mortes e
bairros confli¬
dificação da atuação até mesmo da polícia nas abordagens que faz nos tos, como a ocupação militar das favelas cariocas na década de
entendida, portanto, 1990. Diante
pobres, e na própria execução penal. A delinquência é disso, mostra que “o medo é a porta de entrada_nara políticas genpcidas
e como problema social?23 de
como “um problema de ordem-públiça” não controle social”.332
A produção do medo irreal frente à criminalidade e as atividades de
Em função da noticiabilidade dos crimes graves e da difusão de este¬
í[Link], que provocam uma punitividade injustificada_sãçLOS reótipos do criminoso e da vítima, que não correspondem à realidade,
de tendo
dois planos de efeitos relacionados por Htigel para o excesso de cobertura em vista que o crime está distribuído em todas as parcelas da população, o
violentos é
fatos violentos pela mídja.326 Pelo fato de que o alarde de crimes jornalismo também contribui com a difusão de medos contra as
mesmas pes¬
muito grande, causa-se a impressão perante o público de que eles acontecem soas. Delimita-se dessa maneira o inimigo da sociedade, hoje representado
de forma tão corriqueira quanto os pequenos crimes de rua. perfeitamente no Brasil pelo pobre favelado.
Para Zaffaroni, a atuação dos meios de comunicação de massa
diante
Assim, “a implantação de.um_sistema penal que tem tradição genocida,
de suas agências
dos sistemas penais latino americanos justifica o trabalho seletiva e hierarquizadora”, encontra reforcoma aliança entre a estrutura social
Assim,
pelo simples fato de que eles são os seus aparelhos de propaganda.
siste-
o_poder “configurador,. disciplinar, normalizador ou verticalizantg” do 327
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Globalização e sistema penal na América Latina.,,
op. cit. p. 63.
322 ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. 328
idem. Em busca das penas perdidas... op. cit. p. 129.
323 ibid. p. 216. @»ibid. 133.
324
ibid. p. 217,
325 ibid. p. 234. v ibid. p. 127.
331
326 HÚGEL, Carlos. La patologia de la comunicación o el discurso sobre crímínalidad MALAGUTI BATISTA, Vera. O medo na cidade do Rio de Janeiro: Dois tempos
SAGAR-
en los médios masivos. In: FONT, Enrique A.; GANÓN, Gabriel E. H.;justicia. de uma história. 2 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2003. p. 23.
DUY, Ramiro (orgs). Criminologia crítica y control social. Orden o
p. 332
idem. Medo, genocídio e o lugar da ciência. Discursos sediciosos; crime,
direito,
39-49. Rosário: Juris, 2000. p. 40. sociedade, Rio de Janeiro, n° 7 e 8, l°e 2" semestres de 1999, p. 135-141. p. 135.
112 11 a
| brasileira, onde ainda permanece a herança escravocrata, aliada aos fenôme-l foragidas. Passa a mídia a ser, portanto, mecanismo não apenas de controle
I nos inerentes ao capitalismo tardio. O medo permite esse reforço, e o papel da ।
114 115
arbitrárias por parte das agências executivas, dentro da ideia de que^hajidi-
,dojdgye. sofrer”, e de que os direitos fundamentais significam “tolerância .à
bandidggem”,342 os meios de comunicação de massa possuem ainda a tarefa
de executar a pena de execração pública do “criminoso”, que pode inclusive
sequer ter sido acusado formalmente.
Desta forma retomou-se nos nossos dias a antiga função infamante de inter¬ 2
era
venção penal que caracterizou o direito penal pré-moderno, onde a pena
penal corria em segredo. Apenas que a berlinda e o colar , A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS
pública e o processo
de ferro hoje foram substituídos pela exibição pública do acusado nas
condenação
primei-
mas
\ CONFLITOS AGRÁRIOS NO
ras páginas dos jornais ou na televisão, e isto não após a sua
após a sua incriminação, ainda quando o imputado é presumido inocente?43
BRASIL CONTEMPORÂNEO
As violações à pessoa realizadas pelos próprios meios de comunicação
dos A partir dos pressupostos teóricos analisados no capítulo anterior, em es¬
de massa podem ser vistas no abuso em relação à utilização da imagem
acusados, bem como a divulgação de sua identidade e o mais grave: afirma¬ a pecial a convicção de que a realidade é sociajmente construída, é necessário dis¬
institua. cutir a forma como ocorre a construção social dos conflitos agrários, em especial
ção de sua culpa antes que haja sentença transitada em julgado. A pena
, , ida pelos [Link].çomuniçaçãpjé-a execração pública [Link]. I [Link] das agências de controle social, formal e informal. O objetivo é o de
inocência, sua estigmatização, de[ u verificar [Link] maneira esses conflitos são delimitados, diante da percepção de
' í a violação de sua imagem, honra, estado de
’
o estudo
I
A partir dessa base teórica, o próximo capítulo buscará enfocar violência estrutural, como
J
116 .n .
mios, porem, como uma resposta à confiitualidade presente
no campo. A resposta da
a isso, ao chamado “dilaceramento da cidadania” por Tavares dos constituindo-se em ações que desconhecem os direitos humanos, inclusive
ser analisada no marco da cidadania cotetiva, em contraponto à
Santos,3 deverá
parte de membros do poder público, ele se faz ainda mais presente
no campo.
cidadania liberal.4 A despeito dos muitos avanços em matéria de direitos fundamentais
Serâ estudado em particular o Movimento dos Trabalhadores ao Estado
Rurais que as constituições e leis ao longo dos tempos foram propiciando chegou.
Sem Terra (MST), por se constituir no movimento de maior organização
no
de Direito brasileiro, no campo essa história há muito pouco
tempo
país e com o maior número de adeptos. Em função disso, a
sua principal forma toda a vida que se desenvolve em seu
de reivindicação, as_ocupações de_terras, serão abordadas. O_ppder dos coronéis, um poder sobre
Ainda no primeiro subcapítulo, busca-se resgatar a abordagem do pri¬ território, em alguns locais ainda se mantém.
Por isso, para se tratar sobre a confiitualidade e as violências no
campo,
meiro capítulo a respeito da construçã[Link] da realidade, para_identificar a no
_éJmportante verificar, de que maneira as políticas que mexeram
estatuto
_forma como_se constrói sqcialmente os conflitos agrários, pelas agências de mão-de-obra e
controle social formal e informal. Assim, se intentará verificar de que forma da propriedade da terra, da produção agrícola, bem como da
anos; até
essas agências de controle delimitam, dentre toda a confiitualidade existente as relações sociais, formaram-se e desenvolveram-se ao longo dos
historicamente no campo, aqueles conflitos que são relevantes para o sistema meados do século XX.
de controle penal. Ou seja, diante de toda aconfljtualjdade_ediferentes Diante de tantos enfoques que poderiam ser relevantes nessa parte his¬
da
festa_ções,de violência no campo, quais são os conflitos. perç[Link]
mani- tórica, optou-se por trabalhar especialmcnte com a questão da propriedade
siste¬ latifúndios, e na escravidão
ma penal. Parte-se da percepção de que emuma sociedade punitiva, terra, com ênfase na formação e manutenção dos
baseada negra, principalmentc a forma como se deu a sua proibição e o surgimento das
em pressupostos absolutamente maniqueístas, a despeito da complexidade
dos relevância e correlação para
conflitos, normalmente se busca delimitar quem é o inimigo contra quem novas relações sociais no campo a partir daí. Sua na
sistema penal e a opinião púbica devem se voltar..
o a questão agrária e o controle social no campo nos dias atuais fica evidente
afirmação de Martins: “E inócuo discutir a questão agrária sem situá-la
como
Já o segundo subcapítulo (2.2) estará voltado à construção social_dos con-
flitos agrários pelos meios de comunicação [Link], emespecial, pelo jornalis- incontomável questão residual da solução que, no passado, a sociedade brasi¬
V mo. O objetivo é o de verificar de que maneira isso ocorre, buscando leira deu à questão do escravismo”.4
1 com a abordagem teórica realizada no primeiro capítulo. Parte-se de
relacionar A O subcapítulo é dividido em quatro partes. Na primeira, busca-se estudar
do jornal Zero/forqjio Rio Grande do Sul, dos meses
um estudo as origens da questão agrária no Brasil (2.1.1). Na segunda, discute-se
a questão
' denovembrode 2006 a terceira
abril de 2007, para chegar às análises sobre o assunto e, posteriormente, agrária no período pós-ditadura, com foco político e jurídico (2.1.2). A
trazer principal¬
uma visão mais ampla sobre ajelaçã[Link] conflitos agrários^ sistema penaLe parte analisa a questão das violências no campo (2.1.3), abordando-se
mente o surgimento dos movimentos sociais e a reação à violência estrutural.
.mídia na reprodução da violência estrutural no campo.
Concluindo-se, na quarta parte, com uma abordagem sobre a relação entre
vio¬
(2.1.4).
lência no campo e a atuação do sistema penal na sua reprodução
2.1 Concentração da terra e relações sociais no campo: os
moinhos de gastar gente no século XXI no
2.1.1 A concentração de terra e a promessa de reforma agrária
Se for possível afirmar que existe no Brasil um Brasil: o surgimento dos grupos organizados de iuta pela terra
jistema^penal
.subterrâneo^ que nega a existência de um Estado Democrático de Direito, A divisão da terra encontrada pelos colonizadores portugueses
ém enor¬
mes sesmarias foi o início do sério problema dos latifúndios concentrados nas
que a
mãos de alguns poucos proprietários abastados no Brasil. Constata-se
3
idem. A cidadania dilacetada: Revista Crítica de Ciências Sociais,
37, p. 131-148, junho de 1993. p. 134. Coimbra, n. Isko porque
4
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Cidadania: Do direito aos direitos própria forma de colonização do país condicionou essa situação.
São Paulo: Acadêmica, 1993. p. 129. humanos.
Paulo:
/ ANIYAR DE CASTRO, Lola. op. cit. p. 128. cf. 1.1.3 supra. 6 MARTINS, José de Souza. Reforma Agrária: o impossível diálogo. São
EDUSP, 2000.p. 12.
118 119
“a obra política e comercial da colonização tinha como ponto de apoio a distri¬ Africano. Os africanos começaram a ser importados na segunda
buição de terras”? Para realizar essa distribuição, foi adaptado o instituto das metade do
século XVI, mantendo-se até 1850.’4
sesmarias, o qual era utilizado em Portugal à época da colonização brasileira, Apesar de na sua maior parte os escravos negros trabalharem nos la¬
mas desvirtuando-o.78 tifúndios de produção de monoculturas, como a cana de açúcar, sua força de
O sistema de sesmarias era um empreendimento de alto custo e, por¬ trabalho também era utilizada nas cidades. “A escravidão penetrava em todas
tanto, exigia que os donatários tivessem elevado poder económico. Tal sis¬ as classes, em todos os lugares, em todos os desvãos da sociedade:
tema era ^sociedade
colonial era escravista_de alto abaixo”.15 Os escravos não eram tratados como
[...] marcado pela monocultura extrativista e predatória, com a valorização do seres humanos, inclusive no que se refere à legislação. Eram coisas, sendo que
detentor de grandes extensões de terra ainda qtie improdutivas, da formação de sua vida e integridade física ficavam completamente a cargo de seus senhores.
uma cultura latifundiária, onde se cultua o senhor, o proprietário, que nunca O uso da violência física por parte dos senhores era regra_ nessa
rela¬
poderia trabalhar manualmente e se discrimina o trabalho, paga-se pouco por ção, sendo que diariamente castigos privados, físicos e cruéis,
ele, às vezes nada.9
comumente
seguidos de morte, eram infligidos aos escravos. Além disso, nem
é necessário
Diferentemente do objetivo pelo qual era utilizada em Portugal, “[...] mencionar a violência cotidiana, representada pelos grilhões presos aos seus
a sesmaria, meio jurídico para apegar a terra à capacidade de cultivo, serviu membros para que não fugissem à noite, às péssimas condições de vida, saúde
e alimentação. Essa ação punitiva cruel por parte dos senhores de
para consagrar as extensões latifundiárias”.10 Interessante de se notar que escravos
contra os negros foi significativa. “A predominância de um poder punitivo
logo nos primeiros anos de colonização, a produção para a exportação já
doméstico, exercido desregulamentadamente por senhores
ganhou o primeiro plano no Brasil." “Entra-se, com o desvirtuamento do contra seus escra-,
sentido do sistema sesmarial, no reino do açúcar, com a monocultura e o • vos, é facilmente demonstrável, e constituirá remarcável
vinheta.
I penais, brasileiras, que sobreviverá à própria abolição da escravatura”.1^ nas_práticasj
escravo africano”.12
A escravidão foi um dos traços que caracterizaram a formação social,
Com [Link] família real para o Brasil, em 1808, e, posteriormente,
política e económica do meio rural no Brasil, iniciada primeiramente com a
com a Declaração de Independência, em 1822, o_sistema de sesmarias deu
lugar aojegime de posses, ou seja, “a ocupação da terra por aquele que a ex¬
tentativa de utilização do trabalho indígena.13 Porém, tendo sido proibida em
plora, ergue benfeitorias, geralmente utilizando-se tão só da força de
1750, foi substituída por braços de negros que eram traficados do continente trabalho
familiar”(^A partir de então, possibilitou-se o surgimento de pequenas pro¬
priedades. Em relação ao trabalho escravo, entretanto, a Constituição de 1824
7
FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Formação do patronato político brasilei¬ sequer o mencionou, mantendo-se as relações sociais que
caracterizaram o
ro. II ed. São Paulo: Globo, 1997. p. 123. Brasil colónia. Com a diferença de que, nesse período, o controle
8
ibid. p. 124. “‘Sesmarias’ na linguagem das Ordenações - ‘são propriamente as
^sobre a po-
datas de terras, casais ou pardieiros, que foram ou são de alguns senhores e que, já 14
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro:
em outro tempo, foram lavradas e aproveitadas e agora não o são”. [...] “A distri- Civilização Brasileira, 2001. p. 19. Ao falar sobre a gestação étnica do povo brasileiro,
buiçãd de terras com o fim de agricultar os campos, cobrindo-os de cereais, cede Ribeiro traz em um de seus tópicos os processos violentos que levaram a sua
lugar à concessão de florestas para povoar. O cultivo viria por outro meio: pelo tituição, através do subtítulo “Moinhos de gastar gente”. RIBEIRO, Darcy. cons¬
índio escravo e pelas plantações financiadas para o açúcar”, ibid. p. 125. O povo
brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, São Paulo: Companhia das Letras,
9
VARELLA, Marcelo Dias. Introdução ao direito à reforma agrária: o direito j’. CARVALHO, José Murilo de. ibid. p. 20. 1995.
face aos novos conflitos sociais. Leme: de Direito, 1998. p. 65. ZAFFARONI; E. Raúl ; BATISTA, Nilo ; et. al. Direito penal brasileiro, v. 1. 2 ed.
10 FAORO,
Raymundo. op. cit. p. 126. Rio de Janeiro: Revan, 2003. p. 414. Como nota Ribeiro, “Aí está a racionalidade
11 ibid.
p. 125. . do escravismo, tão oposta à condição humana que uma vez instituído só se mantém
12
ibid.p. 127. através de uma vigilância perpétua e da violência atroz da punição preventiva”.
13
Para uma abordagem aprofundada sobre o papel dos indígenas, portugueses e ne¬ RIBEIRO, Darcy. op. cit. p. 119.
।
gros na formação social brasileira, bem como as suas relações sociais, cf. FREIRE, ARAÚJO, Luiz Ernaní Bonesso de. O acesso à terra no Estado Democrático de
Gilberto. Casa grande e senzala. 51 ed. São Paulo: Global, 2006. Direito. Frederico Westphalen: da URI, 1998. p. 72.
V)C\
121
pulação negra, e de sua movimentação, fez-se sentir em função
[Link] que
as pequenas revoltas dos escravos causavam após a rebelião no Haiti.
r A escravidão no Brasil se manteve ainda por muitos anos, tendo sido
um dos últimos países a abolirem-na na América. Os fazendeiros eram os
A sociedade imperial escravocrata brasileira, rígida e hierarquizada
como a co¬ principais interessados, já que sua produção para exportação era totalmente
das
lonial, precisava também de um medo desproporcional à realidade para manter dependente da mão-de-obra escrava. Sendo assim, foram os proprietários
violentas políticas de controle sobre aqueles setores que estavam potencial¬ grandes lavouras que mais reagiram às tentativas de extinguir a escravidão.22
mente a ponto de rebelar-se e implantar a “desordem e o caos”,
tamanha a Entretanto, a pressão inglesa fez com que o ano de 1 850 ficasse mar¬
escala de opressão em que se encontravam.* 18 a
cado pela aprovação e efetivação da lei que proibiu o tráfico negreiro, com
Dessa maneira, possibilitou-se maior opressão aos negros, já não mais punição daqueles que o praticassem.?
vistos apenas como coisas ou como animais, e sim Quanto à questão da propriedade_da_terra, também foi nesse ano que
ase combater. Algumas revoltas, como a dos males,como_potenciajs.inimigos|
na Bahia, intensificaram o regime de posses foi regularizado pela Lei de Terras (Lei 601
).24 Porém,
essa visão, sendo que o próprio discurso da época, início do positivismo crimi- ; consta que a Lei de Terras, no que tinha de mais positivo, ou seja, a busca pela
nológico, já criava as provas científicas necessárias para justificá-la^’ regularização da propriedade das terras, não foi efetivada. Carvalho observa
que isso se deveu a vários motivos, desde a falta de recursos humanos para
Mas não há como negar, tenha ou não tenha havido maior movimentação
que, na percepção da elite, ela estava presente e despertava receios tanto
escrava, as tarefas de demarcação e medição das propriedades, até o desinteresse dos
no que se
referia à segurança externa como à interna. Percebia-se a fraqueza básica proprietários.23
Na verdade, diferentemente do problema do tráfico negreiro e da escra¬
de um
país que não podia contar com boa parte de sua população para lutar e
que tinha da
enorme retaguarda a proteger contra um inimigo vidão, que se impuseram em função das pressões internacionais, a questão
interno^1 terra nunca se colocou de maneira tão urgente.
Além disso, apesar de a Constituição dc 1824 ser caracterizada pelo
com o proble¬
cunho liberal, baseado nos ideais da Revolução Francesa, o código criminal O problema da terra chegou a área decisória por sua vinculação
de mão-de-obra para a grande propriedade. (...]
do Império, de 1930, previa a pena de açoites aos escravos “limitados a 50 por ma mais sério do suprimento
andava o problema da escravidão e da imigração
dia”,21 além de outras previsões e costumes completamente antiliberais. A percepção da elite de como
estrangeira é que determinava o interesse no estatuto da propriedade rural.26
'JL, MALAGUTIBATISTA, Vera. O medo na cidade do Rio dc Janeiro... op.
cit. p. 30.
i | Por isso, a Lei de Terras também se preocupava com a questão da mão-
” /Zaffaroni
y
observa que o século XIX foi o período de consolidação do saber criminoló-
gicõracislã-colônialistápa América Latina, notando que, para cada região, o para tra-
\ 1 |-de-obra, trazendo a prcvisãojia [Link] colonos de outros paísesdojesouro
discurso
racistasè adaptou de acordo com os interesses do poder hegemónico correspondente. livre, à custa
l l Ibalharetnmas lavouras brasileiras como mão-de-obra
No Brasil, o interesse foi em atestar a inferioridade moral pelo estí-
te no nordeste. Já no Cone suLJ‘quando chegou a
do mulato, principalmen-
imigração e surgiu um incipiente
1 |JnadonaLy [Link] metade do século XIX no Brasil foi marcada
proletariado europeu latino, foí necessário exõíicar como a ‘degeneração’
também Rio de
abarcava alguns imigrantes e, em geral, às maiorias populares queje aproximavam CARVALHO, José Murilo de. Teatro de Sombras: A política imperial.
do poder". ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Criminologia. p.
“Nenhuma perspicácia extraordinária é necessária para..aperceber-se146-147. Tradução livre.
de que as oli¬ 23
Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 293.
Em 183 1 foi aprovada uma lei que proibia o tráfico. Porém,
foi a chamada “lei para
garquias latinoamericanas instrumentalizaram estas ideologias em vista que não foi posta em prática. CARVALHO, José Murilo
racistas para justificar inglês ver”, tendo
suas hegemonias primeiro e para estigmatizar qualquer protagonismo nu Brasil: o longo caminho...
— op. cit.
a o fs.ivrM4£UlJ1011IU popular
«WI
depois.
jjupuicll UCfJUJb. de. VlUdliauia no
UC. Cidadania w
1
124
Anarquistas e militantes operários, vadios, ladrões, gatunos, vigaristas, jo¬ brasileiroíí? Apesar de significativos, suas possibilidades de resistência eram
gadores, ébrios, mendigos e cáftens compunham o grupo dos Jndesejáveis, ínfimas em relação ao poder central, que, em conjunto com as milícias dos
categoria consagrada pelos idos de 1919 para caracterizar [Link], por coronéis, abafava-os sempre que necessário, perpetrando massacres.
palavras ou atos, contestavam a ordem estabelecida. Estes eram vistos pelo A posse da terra permaneceu por décadas como instrumento de poder:
discurso oficial, com o respaldo do discurso científico da época, como hóspe¬
des perigosos, virugcontaminadores do tecido social, responsáveis principais
“os presidentes da República foram geralmente sustentados no poder central
pela desordem urbana. Dentre todos, [Link] mereceram uma atenção na medida em que reconheciam a independência e o poder local e regional dos
especial, considerados como, indivíduos de_extrema_pericujpsidade, por se de¬ chefes políticos, dos ‘coronéis’ da política”.’’1
finirem como corruptores de nações inteiras?^ Porém, após a ascensão de Getúlio Vargas, a_década de 1 930 foi mar-
cada pela queda dp pode_£_dos coronéis.43 A possibilidade emergente de luta
A Constituição de.l.891_cm seu cunho federalista, transferia as tenras política por parte dos trabalhadores, em especial os urbanos, também chegou
devolutas aos .[Link]..fazendo_com que elas se tomassem.“moeda ao campo, dando margem ao surgimento das ligas camponesas e sindicatos
de troca nojneroado políticg^da_doini nação oligárquica".*37 Nesse período, as rurais. Apesar da interrupção pela ascensão de um autoritarismo exacerbado
oligarquias rurais puderam exercer mais livremente os seus desmandos, prin¬ com a ditadura de Getúlio Vargas e as prisões e mortes em função de perse¬
cipalmente no que se refere ao coronelismc^^Com essa descentralização, o guições políticas no período chamado de Estado Novo (1937-1945), a efer-
coronel possuía uma esfera de poder considerável, tendo em vista que exercia
“uma ampla jurisdição sobre seus dependentes". Além disso, mesmo funções
policiais podiam ser por ele exercidas, através do auxílio de seus empregados. ibid. p. 8 1 A revolta de Canudos ocorreu no sertão da Bahia, no nordeste brasilei¬ ,
A sua ascendência sobre a população que vivia sobre seu território decorria ro, entre novembro de 1896 e outubro de 1897 em função das precárias condições )< '
de vida da população rural na região, e tinha corno líder António Conselheiro. A V
justamente de sua qualidade de proprietário rural. Porém, a “[...] massa huma¬ revolta terminou com o massacre dos revoltosos, em outubro de 1897 após a inter¬
na que tira a subsistência das suas terras vive no mais lamentável estado de venção da República, já que o governo da Bahia não havia conseguido contê-los
pobreza, ignorância e abandono".39 por si só. Já a Guerra do Contestado ocorreu entre 1912 e 1915, em Santa Catarina
O final do século XIX e o início do século XX foi um período contur- e teve origem em conflitos sociais decorrentes da expulsão de uma população local
_bado. A insatisfação com a realidade brasileira por parte dos baixos extratos de suas terras para a construção de uma estrada de ferro, além da situação precária
de vida da população local, somada à fé religiosa. Os conflitos envolveram o exér¬
cito, a polícia e ainda homens a serviço dos coronéis da região, tendo esmagado os
.testado, e a criação de grupos armados, como os cangaceiros, no nordeste revoltosos na última batalha, em 1915. ibid.
MARTINS, José de Souza. A militarização da questão agrária no Brasil. Pctró-
MENEZES, Lená Medeiros de. O medo do outro: violência, imigração e expulsão. polis: Vozes, 1985. p. 21.
Discursos sediciosos: crime, direito e sociedade, ano 5, n“ 9 c 10, Io e 2o semestre Para Martins, mesmo o governo de Vargas não passou de uma sucessão de pactos
de 2000, p. 293-297, Rio de Janeiro, p. 295. No mesmo sentido, Malaguti
Batista políticos com os coronéis. Ao não regulamentar as relações de trabalho rural fir¬
observa que “essa é uma outra história: estórias republicanas em que as elites, para mou um pacto tácito com os coronéis sertanejos. “Com isso, manteve nas zonas
salvar-se dos africanos, criam outros medos, os medos dos socialistas, anarquistas rurais e nas cidades interioranas do País uma enorme força eleitoral conservadora,
e sindicalistas..OjrabalhadojJivre iria_ac_arretar [Link] e novas ondas de que se tornou o fiel da balança da política brasileira”. MARTINS, José de Souza.
criminalizacão. Cousas futuras”, ibid. p. 2Ó2. O poder do atraso: Ensaios de sociologia da história lenta. São Paulo: Hucitec,
1994. p. 32. “Tributária de uma forte tradição escravista e profundamente marcada
37
MARTINS, José de Souza. O sujeito oculto... op. cit. p. 201.
O coçonelismQ é sobretudo um compromisso, uma troca de proveitos entre pelas posturas oligárquicas, a dinâmica política brasileira caracterizou-se por uma
opoderpúbíico, progressivamente fortalecido, e a decadente influência social dos conjugação de práticas de cooptação. Repressão e exclusão, as primeiras reserva¬
chefes locais, notadamente dos senhores de terras. Não é possível, pois, compre¬ das principalmente às relações que se estabeleceram no interior das_eli.t£S, mas que
e setores das
ender o fenômeno sem referência à nossa estrutura agrária, que fornece a base de incluíram também formas de incorporação subalterna de membros relações do Estado
sustentação das manifestações de poder privado ainda tão visíveis no interior do massas populares, e as últimas reservadas nrincipalmente às
Brasil". LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada c voto: o município e o regi¬ com amplas parcelas da população". CÉSAR, Benedito Tadeu. Reflexões acerca
me representativo no Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 40. da violência político-institucional no Brasil contemporâneo. Revista Crítica de
123.
Ciências Sociais, Coimbra, n. 57/58, p. 1 17-145, junho/novembro 2000. p.
39 ibid, p. 42-43.
126 127
vescência política que marcou seus primeiros anos de governo voltou a se relações de trabalho no campo encontravam-se desregulamentadas, e os traba¬
manifestar na década de 1940 com o ressurgimento da democracia.*
43 lhadores à margem das conquistas dos trabalhadores urbanos.
Assim como várias causas sociais, a luta pela terra passou a ter um Com a organização_dos_gamponeses e a pressão exercida, o governo
espaço importante, com_o_surginr£nto_da_s_Ligas_JCamponesas^. “As Ligasi João Goulart deu início a um processo de reforma agrária, tendo sido, esse
foram uma forma de organização política de camponeses proprietários,’ um dos-motivos do golpe que_o retirou do poder em 1964^>Como obs erva
parceiros e meeiros que resistiram à expropriação, à expulsão da terra e ao( Martins, a própria Marcha [Link]ília com Deus pela Liberdade^que pe¬
assalariamento”»^ Elas foram criadas em quase todos os estados do país, ten¬ dia a intervenção das forças armadas no processo político, em 19 de março
do o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB). “A atuação das Ligas era de 1964, demonstrava o quanto uma parcela da população estava alarmada
definida na luta pela reforma agrária radical, para acabar com o monopólio de “com o avanço das pressões populares em favor das reformas de base, que
classe sobre a terra”.^ incluíam uma reforma cujo combate as motivava de modo especial: a refor¬
Na dgcada_de 1950, importantes conflitos no campo_tixeram lugar no ma agrária. É que a Marcha aglutinava os grandes e tradicionais fazendeiros
país, tendo sido criadas organizações agrárias, como a União dos Lavradores paulistas..,’’.-49
e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) e o Movimento dos Agricul¬ Ainda assim, o governo Castelo-Branco-sancionQu o [Link] Terra,
tores Sem Terra (MASTER). Em 1962, foi criada a Central Geral dos Tra¬ o instrumento legal da Reforma Agrária no Brasil.50 Apesar disso, o Estatuto
balhadores, reunindo trabalhadores dos meios urbano e rural (CGT) e, em não foi posto em Drática.^'2‘Elaborado com uma visão progressista com a pro¬
.1961, foi criada a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura posta de mexer na estrutura fundiária do país, ele jamais foi implantado e se
(CONTAG)!4!' Neste [Link]ém foi promulgada a Lei n" 4.214, pelo Pre_s_i-
dente João Goulart, que previu o Estatuto doJTahalliadorRural. Até então as
1 ^ OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. A longa marcha do campesinato brasileiro:
movimentos sociais, conflitos e Reforma Agrária. Estudos avançados, São Pau¬
lo, v. 15, n. 43, 2001. Disponível em:<[Link]
arttext&pid=S0103-40142001000300015&hig=en&nnn =iso>. Acesso: em 16
43
É interessante observar que a ditadura de Vargas teve como uma de suas caracterís- !
jan. 2007. sp.
ticas a perseguição aos estrangeiros, “partindo do pressuposto de que os imigrantes & A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi o nome comum de uma série de
europeus atuantes nas empresas, nos sindicatos e nas estruturas políticas brasileiras manifestações públicas organizadas em resposta ao comício realizado no Rio de Ja¬
poderiam - servindo de elo de ligação entre a oposição brasileira e os revolucionᬠneiro em 13 de março de 1964, durante o qual o presidente João Goulart anunciou
rios socialistas c comunistas europeus - representar um potencial perigo ao Estado seu programa de reformas de base. Congregou segmentos da classe média, temero¬
autoritário”. Dessa forma, foram criados decretos-leis com o intuito de controlá- sos do “perigo comunista” e favoráveis à deposição do presidente da República. A
-los. DAL RI JR., Amo. op. cit. p. 273. “Neste primeiro período do Estado Novo, primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São
, José, padroeiro da família.
que antecedeu o envolvimento brasileiro no conflito mundial, o governo de Vargas
identificava no anarquista, preferencialmente italiano, a figura do inimigo externo, 15 cit.
MARTINS, José de Souza. A militarização da questão agrária no Brasil... op.
p. 28.
portador de uma mensagem subversiva que se infiltrava nos sindicatos e se escon-í
dia sob o manto protetor das comunidades de cunho cultural e de ‘mútuo socorro’.!
50 OLIVEIRA,
Ariovaldo Umbelino de. op. cit.
nacionais), os anarquistas i l 51
, Juntamente com os comunistas (na sua grande maioria
Para Martins, o Estatuto da Terra não tinha a função redistribuir a terra realmente.
í . italianos eram apresentados ao imaginário popular como baderneiros exaltados, i ! ; “O_Estatuto revela assim a sua verdadeira função: é um
instrumento de controle das
provocadores de greves e de tumultos, desafiadores da ordem e do progresso nacio- I
'
1 tensões sociais e dos conflitos gerados por esse processo de expropriação e concen-
nal. Por esta razão eram perseguidos e punidos com rigor não somente pela polícia > , tração da propriedade e do capital. E um instrumento de cerco e desativação dos
comum, mas também pela polícia política”, ibid. p. 276. . conflitos, de modo a garantir o desenvolvimento económico baseado nos incenti¬
43 FERNANDES, Bernardo Mançano. A formação do MST no Brasil. Petrópolis: vos à progressiva e ampla penetração do grande capital na agropecuária. E uma
f Vozes, 2000. p. 33. 1 válvula de escape que opera quando as tensões sociais chegam ao ponto em que
ibid. podem transformar-se em tensões políticas. O Estatuto está no centro da estratégia
Para conhecer a história completa dos movimentos sociais no campo a partir de do governo para o campo e se combina com outras medidas de cerco e desativação
1945, cf. MEDEIROS, LeonildeScrvolo de. História dos movimentos sociais no dos conflitos, das reivindicações e das lutas sociais”. MARTINS, José de Souza. A
campo. Rio de Janeiro: FASE, 1989.
। militarização da questão agrária no Brasil... op. cit. p. 35.
12% 129
conngurou como um instrumento estratégico para controlar as lutas sociais e política dos militares e o estimulo à mecanização do-campo.l£.vaiam_à expuh
desarticular os conflitos por terra”Ê? são dos camponeses das terras.
Durante a ditadura militar, as poucas desapropriações efetivadas tinham Adquirindo força, as organizações realizaram as primeiras ocupações
o intuito de diminuir os conflitos e principalmente de realizar projetos de colo¬ de terra ainda durante a ditadura, porém, não de forma organizada, mas sob in¬
nização, em especial na região amazônica. De 1965 a 1981, foram realizadas'} fluência principal da ala progressista da Igreja_Cató]ka,-qU-£l£SÍ£lÍAÀditadura.
oito desapropriações em média, por ano, apesar de terem ocorrido pelo menos] Nesse contexto surgiu a Comissão Pastoral daíTeiiaJCPT), em.1.975. O papel
setenta conflitos por terra anualmente?3 da Igreja nesse processo é fundamental, em especial as Comunidades Ecle-
Isso porque o modelo de desenvolvimento implantado não_tinha por siais de Base (CEBs), surgidas no início dos anos sessenta, na organização
baseadistribulçãó.[Link]; sim o ingresso dqcapital estrangeiro e monp- dos trabalhadores rurais. Elas “foram os lugares sociais onde-SC-Constituiram.
. polistajiO_campo,_de forma.a_legitima£a çoncentração_das terras, aumentar os espaços de reflexão acerca da realidade.e onde sc_ desenvolveram experi ên-
a_sua produtividade,. Ao contrário, portanto, do modelo clássico, em que a cias nara a organização-dos trabalhadores rurais contra a política agrária em
grande propriedade rural se toma um empecilho ao avanço do capitalismo, o questão”?7
Brasil “reforçou politicamente a irracionalidade da propriedade fundiária A gestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais §gm_Terra (MST)
no desenvolvimento capitalista, reforçando, consequentemente, o sistema evoluiu justamente no enfrentamento à política de [Link], agrário
oligárquico nela apoiado".^ Isso sobretudo em função de que esse empeci¬ imposta que gerava maior concentração de terras, bem como à expulsão dos
lho foi removido por incentivos ficais, que facilitavam a aquisição de terras camponeses e expropriação gerada pelq..dcsenvolvimento_dQ_capitalismo du¬
e a produção. rante o regime militar. De 1979 a 1984 foram realizadas as primeiras ocupa¬
Contra essa forma de desenvolvimento agrário, os camponeses bus¬ ções de terras organizadas no Rio Grande do Sul.^1984 é o ano, ofiçjal jia yíi.
caram concentrar suas lutas, apesar de que em função das perseguições, as¬ ]^l criação do MST, ocorrida no Io Encontro Nacional dos Sem Terra emCasca-
sassinatos e torturas aos membros das organizações, sua força tenha restado W vêl, no ParãnáÉz
diminuída. Porem, ainda que muito Icntamente, durante os mais de vinte anos * Buscando questionar a estrutura agrária brasileira e se contrapondo à
de ditadura os trabalhadores rurais fizeram eclodir lutas por todo o pais, sendo secular c acirrada violência que se configurava no campo, cmJ 985, em meio :
que entre 1960e 1970 triplicaram-se os conflitos
fundiários^ De 1970 a 1985,] I
houve uma intensificação da concentração de terras, sendo que “48,4 milhões j
ao clima da campanha “Diretas Já”, o MSTjealizou seu primeiro Congresso
d£jrabalhp mentos, mortes e torturas daqueles que se revoltaram contra essa situação, tudo
' o fraçasso ,da colonização da Amazônia e a saturaçã[Link] jn^
reveja uma situação de peimancntc_çonflitualidade, contra qual
nas cidades, e, como fatores políticos, a influência da Igreja Católica e do sin- a também os
sem tena na década de 1980 conseguiram se unir de forma efetiva.67
* i dicalismo urbano na conscientização dos camponeses para a sua organização,.
além do fato da abertura politica.63
2.1.2 A reforma agrária no período pós-ditadura: a permanência
Como nota Comparato, é necessário lembrar que existem atualmente vários ou- da concentração da terra e das violências no campo
' tros movimentos de luta pela reforma agrária, sendo o MST responsável por um
terço das ocupações desde 1996. Dentre tais movimentos, destacam-se o “MAST O fim da ditadura militar trouxe a necessidade de uma Assembleia Na¬
(Movimento dos Agricultores Sem Terra), ligado à Social Democracia Sindical, cional Constituinte, que realizou os seus trabalhos em 1987. Ela representou
o MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), ligado a segmentos de es-
querda~ e o MUST (Movimento Unido dos Sem Terra), ligado à Força Sindical”. uma promessa de democratização e avanços no sistema político brasileiro,
COMPARATO, Bruno Konder. A ação política do MST. São Paulo em Perspec- considerando-se os direitos humanos de maneira particular. Escrevendo em
tiva, Sào Paulo, v. 15, n. 4, 2001. Disponível em: <[Link]
php?script=sci_artlext&pid=SO102-88392001000400012 &lng=en&nrm=iso>. t4
65
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. op. cit. sp.
. Acesso em: 20 jan. 2007. sp. ibid.
op. (5 SILVA, José Graziano. Para entender o Plano Nacional de Reforma
í61 MARTINS, José de Souza. A militarização da questão agrária no Brasil... Agrária.
São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 82. Para uma análise detalhada da elaboração e do
cit. p. 101-102. Grifos no original.
GÔRGEN, Frei Sérgio; STÉDILE, João Pedro. A luta peia terra. São Paulo: Scrit- jogo de forças políticas que envolveram a derrocada do 1°PNRA, cf. SILVA, José
ta, 1993. p. 32-33. Gomes [Link] por terra; crises da reforma agrária na ‘Nova República’. São
« ibid. Paulo: Busca Vida, 1987.
67
MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra... op. cit.
132 1 73
1986, Martins retrata a esperança de que a Assembleia Constituinte pudesse função social, ao constituir o fundamento do regime de propriedade, coloca a
renovar o país, e trazer as reformas sociais necessárias. propriedade em submissão ao interesse de toda a coletividade, para o alcance
A Constituinte decidirá sobre o direito de propriedade, podendo alterá-lo subs¬ da justiça social (caput do Art. 1 70 da C. F.). A propriedade passa, então, a ser
tancialmente se os trabalhadores participarem dela e se unirem cm tomo de vista como um elemento de transformação social”.75
determinados objetivos, como esse. Da Constituinte poderá sair um Brasil re¬ Muito embora tenha sido_permitido esse_pequeno ayanço_a bancada ru-
novado, uma ordem política democrática avançada, que quebre de vez o pacto ralista conseguiu introduzir, no artigo 1 85 da Constituição Federal, o inciso 11,
tenebroso da terra com o capital e que tem sido responsável pela marginaltza- onde são limitadas as desapropriações para a reforma agrária a propriedades
çâo política dos trabalhadores do campo e da cidad^y improdutivas. Na verdade, taljnçiso levou a que a Çonstituiçãojicasse_m_ajs
Ao mesmo tempo, pondera suas perspectivas em função da_demons- conservadora.do_qiie_o_próprÍQ_jEstatuto da Terra (ET), de 1964, já que neste
.
tração de força _e capacidade, política das classes dominaDtes^_o_que_prp- fica claro que a produtividade é apenas um dos requisitos para que a proprie¬
vavelmente obstruir.ia_mudanças radicais. E. além disso, observa que osl dade cumpra com a função social.®'
trabalhadores tanto do campo como da cidade encontravam-se enfraqueci¬ Apesar de a previsão da função social da propriedade ser essencial, ela
dos naquele momento® já estava presente, sob outra redação, na Constituição de 1 94675, na Constitui¬
Com efeito, os trabalhadores sem terra, já organizados sob a sigla MST, ção de 196776 c na Emenda Constitucional n° 1 de 1969.77 A inovação refere-
viram nascer uma reação por parte dos setores de grandes proprietários de -se, porem, ao fato de haver a previsão do princípio dentro do rol de direitos
terra, articulando-se a criação da União Democrática Ruralista (UPR), ins¬ fundamentais, que são cláusulas pétreas e determinam o valor a ser seguido
tituição de importante peso político e económico, já que em tomo de 200 por todo o ordenamento jurídico.
constituintes eram ligados á grande propriedade [Link]. Assim, apesar da
grande participação popular que envolveu a questão agrária na constituinte,^
o resultado não se mostrou animador.
75
ARAÚJO, Luiz Emani Bonesso de. A função social da propriedade agrária. In:
LEAL, Rogério Gesta, (org.) Direitos Sociais & Políticas Públicas: desafios con-
Em relação à definição de função social da propriedade—manteve-se Cnizdo Sul: EDUNISC, 2003. p. 26.
praticamcnte a do Estatuto da Terra, o que gerou o comentário de que “é pre¬ gy temporâneos. p. 11-34. Santa a [Link], terra. desempenha,
XV Segundo o Estatuto da Tcrra-(art^2°..
ciso convir que é muito pouco manter um texto de 23 anos de velhice para jntegraknente a sua^funçâojsocial, quando, „simultane<wenie^pfavorece o bem-
uma CF que se propõe a orientar á vida jurídica da nação por mais de meio -estar dos proprietários e dos trabalhadores que nela labutam, assim como de suas
século à frente”^ A novidade, porém, foi a inclusão do princípio juntamente famílias/^) mantém níveis satisfatórios de produtividade^) assegura a conserva¬
ção dos recursos naturais;-|fl) observa as disposições legais que regulam as justas
com o direito de propriedade, dentre os direitos e garantias individuais72. “A relações de trabalho entre os que a possuem e a cultivam. BRASIL. Estatuto da
Terra. 13 ed. atual, ampl. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 2.
yjMARTINS, José de Souza. A reforma agrária e os (imites da democracia na
“Nova República”. São Paulo: Hucitec, 1986. p. 31.
75
-
Art 147 O uso da propriedade será condicionado ao bem-estar social. A lei po¬
derá, com observância do disposto no art. 141, § 16, promover a justa distribui¬
ibid. p. 32. ção da propriedade, com igual oportunidade para todos. BRASIL. Constituição
@ Duas emendas populares somado 1 .188.465 assinaturas, além de outras 3 propos¬ (1946). Disponível em: <[Link] ccivil_03/Constituicao/
tas. Da mesma forma, os setores ruralistas também participaram com uma
proposta
de 43.275 assinaturas. COELHO, João Gilberto Lucas. Prefácio. In: SILVA, José
Constitui%C3%[Link]> Acesso em: 16 set. 2007. sp.
76 Art. 157. A ordem económica tem por fim realizar a justiça social, com base nos
Gomes [Link] negro: a reforma agrária na constituinte. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1989. p. 10. -
seguintes princípios: [...] III função social da propriedade. BRASIL. Constitui¬
@ ibid. p. 147. ção (1967). Disponível em: <[Link]
72 Constitui%C3%[Link]> Acesso em: 16 set. 2007. sp.
Art. 5o Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garan¬ 77 Art. 160. A ordem económica e social tem por fim realizar o desenvolvi¬
tindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
mento nacional e a justiça social, com base nos seguintes princípios [...] 111
direito á vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e a à propriedade, nos lermos
seguintes: [...] XXII - é garantido o direito de propriedade; XXII 1 - a propriedade - função social da propriedade. BRASIL. Constituição (1967). Emenda constitu¬
atenderá a sua função social. BRASIL. Constituição (1988)... op. cit. p. 23. cional no 1. Disponível em: <[Link]
Constitui%C3%[Link]> Acesso em: 16 set. 2007. sp.
134 135
Outro, retrocesso foi o estabelecimento de um “procedimento sumário A ordem económica, fundada na valorização do trabalho humano e na
livre
iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
sem sumarização” na desapropriação. da justiça social, observados os seguintes princípios:
ditames
Quer dizer: cortava-se do procedimento adequado às desapropriações para Re¬ [...] II - propriedade privada;
do
forma Agrária o mecanismo da imissão (entrada) na posse da área no início 111 - função social da propriedade;
processo. Em suma, o ato judiciário que autorizava de plano o assentamento [...] VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado
definitivo, a partir da nova lei, só seria possível após a demorada discussão conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de
processual. Além disso, o rito sumário ficou submisso, por dispositivo consti¬ elaboração e prestação;
tucional expresso, ao tratamento especial de lei complementar.’8 VII - redução das desigualdades regionais e sociais;81
Além dos retrocessos e dos poucos avanços, a maior parte da regula¬ Segundo o artigo 1 84, compete à União desapropriar por interesse so¬
mentação sobre a propriedade rural permaneceu como estava. Não se conse¬ cial o imóvel rural que não esteja cumprindo a sua função social,
mediante
guiu avançartambém na limitação do tamanho máximo da propriedade rural, prévia e justa indenização. Tal dispositivo limita, portanto, a possibilidade
sendo que havia a proposta da Comissão Nacional pela Reforma Agrária de de desapropriações, sendo que não faz menção a uma quantidade
máxima de
constar o dispositivo: terras passíveis de serem de propriedade de apenas uma pessoa. Além dessa
rural, Limitação, o artigo seguinte (185), prevê que são insuscetíveis de desapropria¬
[..J ninguém poderá ser proprietário, direta ou indiretamente, de imóvel
de ção para fins de reforma agrária a pequena e média propriedade
de área contínua ou descontinua, superior a sessenta (60) módulos regionais rural, assim
exploração agrícola, ficando o excedente, mesmo que corresponda à sua obri¬ definida em lei, desde que o proprietário não possua outra (I), e a propriedade
gação social, sujeito à desapropriação por interesse social para fins de reforma produtiva (II).
agrária.” Quanto ao inciso II, tal restrição traz uma evidente inconsistência para a
sua interpretação. Isso porque o artigo 186, que traz os requisitos necessários
t( Com efeito, o que era para ser o grande avanço de toda a legislação para que uma propriedade cumpra com sua função social não se limita a
I brasileira, começando pela sua norma mais nobre, a Constituição,
foi objeto esta¬
belecer que seja produtiva a área, mas sim que:
|de jogos políticos que conseguiram impor os interesses dos setores ruralistas.
, Ao manter o inciso que impede a propriedade produtiva de ser desapropriada,
j Art. 186. A função social é cumprida quando a propriedade rural atende,
simul¬
“a ANC retrocedeu aos idos de 1946, renunciou às conquistas da EC n° 10 dej taneamente, segundo critérios e graus de exigência estabelecidos em lei,
aos
| novembro de 1964 e do ET e desdourou-se quando comparada
à Carta outor-j seguintes requisitos:
gada pelos três ministros militares em 17 de outubro de 1969”.
811 -
I aproveitamento racional e adequado;
II - utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação
Além da previsão do direito individual de propriedade estar limitado meio ambiente;
do
na Constituição Federal pelo direito coletivo ao cumprimento de sua função III observância das disposições que regulam as relações de trabalho;
social dentre os direitos fundamentais, a sua delimitação dentro da questão
agrária vem positivada no Título VII, “Da ordem económica e financeira”,
da Constituição Federal. O Capítulo 1 corresponde aos princípios gerais
da
atividade económica, aplicando-sc a todos os demais capítulos desse Título.
O artigo 1 70 prevê que
BALDEZ, Miguel Lanzellotti. A terra no campo: a questão agrária. In: MO-
78
vá 137
136
' IV - exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos trabalha¬
dores.82
das atividades pesqueira e florestal”.8'’ Essa lei teve uma tramitação
célere e
com poucas discussões já que é o Executivo que assume o caráter aplicador
alimentar, já
Dessa maneira, uma propriedade que atenda ao requisito do inciso I, das políticas.85 A Política Agrícola atinge a questão da segurança
quer dizer, que seja produtiva, mas que não atenda aos demais, que visa a garantir ao produtor rural os seus ganhos, tendo em vista os riscos
desenvolvendo Estado, que reflete
no imóvel atividades que depredam o meio ambiente, relações escravistas
de nos quais a sua produção está inserida. É uma política de
rural, bem
produção, etc., deve ser desapropriada. a adoção de um modelo em que realmente se tutela o produtor
do país, ou de um modelo filiado
0 Após 1988, a questão fundiária passou a ser tratada por algumas
leis como as condições dc segurança alimentar
' ordinárias. A Lei n° 8171 de 17 de janeiro de 1991 dispôs sobre. Política Agrí¬ às políticas neoliberais que intencionam deixar o Estado fora disso, devendo
cola, distinta da Política Agrária, que só foi regulamentada em
19931.?3 Aquela os produtores buscar financiamentos em Bancos.86
veio regula¬
“fixa os fundamentos, define os objetivos e as competências institucionais, A Lei Agrária (Lei n° 8629, dc 25 de fevereiro de 1993)
previstos
prevê os recursos e estabelece as ações e instrumentos da política
agrícola, mentar os dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária,
Federal. Apesar de as propostas de
relativamente às atividades agropecuárias, agroindustriais e de planejamento no Capítulo 111, Título VII, da Constituição
lei do MST e da CONTAG terem sido subscritas por um deputado e um sena¬
dor, respectivamente, já em 1989, somente quatro anos após c
que se aprovou
82
Em 1993 foi promulgada a Lei 8629,, que expôs, nos parágrafos de seu
e promulgou a Lei para regulamentar os dispositivos referentes Reforma
à
o significado de cada um dos requisitos para que seja atendida a função artigo 9o, _em relação ao_tema. Ainda
propriedade: § Io Considera-se jracional e adeguado o aproveitamento social da Agrária na Constituição. Isso reflete a má vontade \
que
os graus de utilização da terra e dcTeficíência na exploração especificados atinja assim, _só_ foi aprovada em função de que os sqtores conservadores estavam •
f
nos §§ 90-impeachment de Collqr,
Io a 7° do art. 6® desta lei. § 2® Considera-se adequada a
utilização dos recursos preocupados com, os .acontecimentos referentes
naturais disponíveis quando a exploração se faz respeitando a vocação além do escândalo da CPI do PC Farias, c por isso sua união
política foi fra¬
natural da
terra, de modo a manter o pqtencial produtivo da propriedade. § 3° Çonsidera-se
preservação do meio ambiente a manutenção das cionada, fortalecendo os setores progressistas.87
características próprias do meio do Presidente
natural e da qualidade dos recursos ambientais, na medida
adequada à manuten¬ Aprovada pelo Congresso Nacional sob o signo do impeachment
ção do equilíbrio ecológico da propriedade e da saúde e transpôs os (imites de simples
qualidade de vida das da República Collor de Mello, a Lei Agrária
comunidades vizinhas. § 4° A observância das djsposições que regulam asrelações do complexo jogo de t
de trabalhqjmplíca tanto o respeito às leis trabalhistas e negociação política c se beneficiou de microfundanientos
‘ de irabalho, aos contratos coletivos poder que resultaram no impedimento do chefe do Executivo.81' I
como às disposições que disciplinam os contratos de arrendamento
e parceria rurais. § 5" A_exploraçãojjuc favorece_o bem-estar .proprietários cumprir sua função
dos Tal lei enfatiza que a propriedade rural que não
[Link] é a que objetiva o atendimento das necessidades básicas dosc esmiuça o significado dos requisitos
que trabalham a terra, observa as normas de segurança do social é passível de desapropriação. Ela para a
trabalho e não provoca as competências
conflitos e tensões sociais no imóvel. BRASIL. Lei no 8.629, de 25 de para que seja cumprida a função social e determina
fevereiro a promulgação
de 1993. Dispõe sobre a regulamentação dos dispositivos
constitucionais relativos desapropriação e indenização. Mesmo tendo sido uma vitória
à reforma agrária, previstos no Capítulo III. Título Vil, da
Constituição Federal. a política agrícola.
Disponível em: <[Link]
/Lcis/[Link]>. Acesso 84 BRASIL. Lei no 8,171 de 17 de janeiro de [Link]õe sobre Acesso
. ein: 17 set. 2007. sp. Disponível em: <[Link]
>-8],_Pa£a .distinguir questão agrícola de questão ^agrária, pode-se salientar que em: 17 set. 2007. sp.
“[Link]- Estado democrático de
ARAÚJO, Luiz Emani Bonesso de. O acesso à terra no
[Link], a preocupaçãõ"esaber se a produção é suficiente para o 85
demanda da população, bem como se o preço é condizente com os abastecimento da
custos. Já_na direito... op. cit. p. 160.
segunda, a questão é [Link] complexa, pois se refere ao
buem os estabelecimentos agropecuários (pequenas, modo como se distri¬ 86 ibid. p. 171. da Reforma
OLIVEIRA, Edélcio Vigna. Uma janela histórica: regulamentação
des), como se dá a ocupação da mão-de-obra e, cm médias e grandes proprieda¬
consequência, qual o nível de
87
Agrária. In: MOLINA, Mônica Castagnafr. al. (Orgs.) O direito achado na rua
Universidade de
-
produtividade, a renda dos trabalhadores, enfim, referem-se
à estrutura da malha fundiária”. ARAÚJO, mais espccificamente Introdução crítica ao direito agrário, v. 3. p. 165-175. Brasília:
Luiz Emani Brasília, 2001 . p. 173.
terra no Estado democrático de direito... op. cit. p. [Link] de. O acesso à 88 ibid. p. 167.
138 139
O maior problema, entretanto, não, reside na própria legislação_em si.
de tal lei, há de se referir q.ue_sua redaçãoJinaLcóntpu com. o_y.ejo_de dez que é avançada. A questão é_a^ua_cfetivacão.
além dos princípios que moti¬
dispositivos pelo presidente Xtamar Francoi dentre os quais o que permitiria o vam sua aplicação. Nota-se que, diante da existência da lei e de sua não apli-
confisco de imóveis onde se verificasse o trabalho escravo. Além disso, o ar¬ * cação, da mesma forma como na promulgação do Estatuto da Terra, o objetivo
tigo 7°, que permaneceu na redação final, incentiva a indústria do projeto frio, k /7 da norma é o de criar uma eficácia simbólica, c.não instrumental, Ojesultado
como nota Abramovay, citado por Fernandos, pelo fato de que impossibilita da promulgação dessas lcis_deve ser observado na sucessão de governos a
a desapropriação da propriedade improdutiva que tenha um projeto técnico V partir de 1994, em um contexto. de distanciamento ein relação à constituinte.
sendo instalado.89
A Lei Complementar n”_76, de 06 de julho de 1993, regulamenta o A reforma agrária nos governos FHC e Lula
procedimento para as desapropriações de imóveis rurais para fins de reforma
agrária, conforme o disposto no parágrafo terceiro do artigo 184 da CF.90 Tal Após um período político conturbado, com o impeachment do primeiro
Lei buscou estabelecer um rito sumário para as desapropriações, facilitando presidente da república eleito democraticamente desde a ditadura
—
militar, e a
o acesso à terra aos assentados, porém, há muitas críticas em função de que atuação do presidente Itamar Franco até 1 994, em 1 995 assumiu a Presidência
na prática, “os proprietários expropriados, ao fazerem uso de expedientes re- > da República o sociólogo Fernando.Hçnrjquc-Cardoso. do Partido
Social De¬
cursais, seja mandado de segurança ou de liminares, conseguem retardar con¬ mocrata Brasileiro (PSDB).
sideravelmente a ocupação das áreas desapropriadas, inclusive, impedindo a Em seu plano de governo estava incluída a reforma agrária, sendo que
imissão de posse por parte do Estado”.91 o mesmo, quando senador, foi quem subscreveu a proposta da CONTAG para
Por último, o Código Civil de 2002 também prevê o princípio da função a Lei Agrária, em 1989, atuando em conformidade com os progressistas.
Po¬
social da propriedade como limite ao direito individual de propriedade, em rém, durante 0 seu govemo, os conflitos no campo foram intensos, a reforma
consonância com a Constituição Federal, nos seguintes termos: agrária não foi efetivada, e alguns acontecimentos históricos em relação
à luta
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da
coisa, pela terra ficaram marcados.
e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou Em um período de grande turbulência no campo, o govemo adotou uma
detenha. postura ostensiva em relação às ocupações de terras, com a utilização das po¬
lícias militares c, se necessário, do exercito. Ao mesmo tempo em que buscou
§ 1" O direito de propriedade deve ser exercido cm consonância com as suas
dispersar os movimentos através da repressão, também trouxe leis no intuito
finalidades económicas c sociais e de modo que sejam preservados, de confor¬
de conter as pressões sociais, como a criação do Ministério
midade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas naturais, Extraordinário da
o equilíbrio ecológico e o património histórico e artístico, bem como evitada a
Questão Fundiária e a promulgação de duas leis:
poluição do ar e das águas. a) Lei Complementar n° 88.(23. 12,1996), que alterou dispositivo
da Lei Com¬
(...] § 3” O proprietário pode ser privado da coisa, nos casos de desapropriação, plementam” 76 (6.7.1993), com a finalidade de tomar mais ágil o procedimen¬
social, bem corno no de re¬
por necessidade ou utilidade pública ou interesse to de imissão na posse dos imóveis expropriados; b)Lei n°9393
fl9.12.1996).
quisição, em caso de perigo público iminente.92 I que lhe permitirá, se tanto, estimular a produtividade da terra,
colhendo as
1 sobras improdutivas para a Reforma Agrária; ou, com mais propriedade,
para
K complementar o seu projeto agrário/5
Luja
-
exposto na Lei, cf.
! 9,1
Para uma análise esmiuçada do procedimento cB BALDEZ, Miguei Lanzellotti. op. cit. p. 104. O autor utiliza aqui os
mecanismos
democrático de direito... op.
repressão/cxciusão, de / *
Emani Boncsso de. O acesso à terra no Estado & de sociaiização/integração, trivializaçSo/ncutralização e
p. 133-143. KBoaventura dc Souza Santos, a respeito da dialética negativa do Estado Capitalista l
91
ibid. p. 138. Eno conjunto articulado e dc suas contradições com as classes populares. I
92
BRASIL. Código civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004.
141
1 40
m complementar n" 88/ 1996 veio superar o atraso representado pela 1 nando o não assentamento das famílias que participassem das ocupaçóes de
Lei Complementar n° 76/1993, alterando a redação de alguns de seus artigos.
í terra.95 Os parágrafos 8o e 9° foram mantidos como na MP 2027-38.
Com essas alterações, possibilita-sc a imediata imissão de posse, além de que Essa. medida provisória demonstra o perfil repressivo da_atuação de
se institui uma audiência de conciliação buscando uma maior celeridade nos Fernando Henrique Cardoso em relação às práticas das_ocupações visandqàs
j
processos de desapropriação de terras por interesse social. i! desapropriações. Deve-se salientar, porém, que 90% dos assentamentos reali¬
Ainda a Lei n° .9393 de 19 de dezembro de 1996 toca na questão da zados durante o seu governo resultaram de ocupações de terra.96 Na verdade,
5
reforma agrária na medida em que dispõe sobre o Imposto Territorial Rural í é fato que “no seu segundo mandato, quando criminalizou as ocupações c. os
(ITR) taxando com alíquotas altíssimas as grandes propriedades improduti- 4
> jnovimentos camponeses entraram em refluxo e, por consequência,
diminu-
vas, a ponto de em poucos anos seus proprietários terem de pagar mais do que
|
í iram as ocupações de terra, também diminuiu o número de assentamentos
o preço do próprio imóvel a título de tributo. implantados”.97
Uma atitude adotada pelo governo FHC, dentro de sua política de re-
’i
Em 2000, o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Confederação Nacional
pressão às práticas crescentes de ocupação de terras improdutivas e de prédios j dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) ingressaram com Ação Direta
públicos pelo MST, foi a_38~reediçjLQ.,coinakeraçõesjia Medida Provisória .
de Inconstitucionalidade (AD1/2213) contra essa MP- Em 2002, o STF in¬
.1.577, de 1 1 de junho de 1997. Essa reedição, que ficou com o número 2.027- 1
deferiu por unanimidade a liminar da ADIn, cm função de vício formal. O
| 38, de 4 de maio de 2000, traz alterações ao artigo 2° da Lei 8.629/1993. Esse advogado-gcral da União se manifestou, em 2009, pelo não conhecimento e
artigo passa a dispor, em clara referência às ocupações de terras praticadas
pelo MST, no parágrafo 6o, que “o imóvel rural objeto de esbulho possessório
as se¬
ou invasão motivada por conflito agrário ou fundiário de caráter coletivo não । ’5
“Art. 4o - A Lei n° 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, passa a vigorar com
; guintes alterações: Art. 2o [...] § 6° O imóvel rural de domínio público ou particular
será vistoriado nos dois anos seguintes à desocupação do imóvel”. No pará- 1 objeto de esbulho possessório ou invasão motivada por conflito agrário ou fundiá¬
grafo 7o, prevê que “na hipótese de reincidência da invasão, computar-sc-á em rio de caráter coletivo não será vistoriado, avaliado ou desapropriado nos dois anos
reincidência;
dobro o prazo a que se refere o parágrafo anterior”. Além disso, sanciona as
í seguintes à sua desocupação, ou no dobro desse prazo, em caso de
e deverá ser apurada a responsabilidade civil c administrativa de quem
concorra
entidades envolvidas com as ocupações, nos parágrafos 8o e 9°:99 descumprimento dessas
i com qualquer ato omissivo ou comissivo que propicie o
> Sua_51“ reedição, contando com o número 2109-52, de 24 de maio de Fede¬
vedações. § 7o Será excluído do Programa de Reforma Agrária do Governo
\ 2001, trouxe mais alterações, reiterando a impossibilidade de vistoria a terras \ ral quem, já estando beneficiado com lote em Projeto de Assentamento, on sendo
recentemente ocupadas, mas estendendo-a à avaliação e desapropriação (§ pretendente desse benefício na condição de inscrito em processo de cadastramento
6o). Mais ostensiva foi a redação dada ao parágrafo 7° do artigo 2o, determi- e seleção de candidatos ao acesso à terra, for efetivamente identificado
como par¬
que se caracterize por invasão ou
ticipante direto ou indireto em conflito fundiário admi¬
esbulho de imóvel rural de domínio público ou privado em fase de processo
nistrativo de vistoria ou avaliação para fins de reforma agrária, ou que esteja sendo
ao ente
objeto de processo judicial de desapropriação em vias de imissão de posse
expropriante; e bem assim quem for efetivamcnle identificado como participante
“Art. 4° - A Lei n° 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, passa a vigorar com as se¬ de invasão de prédio público, de atos de ameaça, sequestro ou
manutenção dc ser¬
guintes altêraçõêsFArt. 2" [...] § 8° À entidade, a organização, a privado, ou de quaisquer outros atos
pessoa jurídica, o vidores públicos c outros cidadãos em cárcere
movimento ou a sociedade de fato que, de qualquer forma, direta ou indiretamente, pessoal praticados em tais situações. BRASIL. Medida provi¬
dc violência real ou
auxiliar, colaborar, incentivar, incitar, induzir ou participar de invasão de imóveis
sória no 2.109-52, de 24 de maio de 2001. Disponível em: <[Link]
rurais ou de bens públicos, ou em conflito agrário ou fundiário de caráter coletivo,
não receberá, a qualquer título, recursos públicos. § 9° Se, na hipótese do [Link]/ccivil_ 03/MPV/Antigas_2001/[Link]> Acesso em: 24 set. 2007. sp.
parágrafo 96 FERNANDES, Bernardo Mançano. Vinte anos do MST e a pcrspectiva da reforma
anterior, a transferência ou repasse dos recursos públicos já tiverem
zados, assistirá ao Poder Público o direito de retenção, bem assim de
sido autori¬ agrária no govemo Lula. In: OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de; MARQUES,
de vida, luta e
do contrato, convénio ou instrumento similar”. BRASIL. Medida
o rescisão Marta Inez Medeiros (Orgs.). O campo no século XXI: Território
provisória no justiça social, p. 273-294. São Paulo: Casa Amarela e Paz e Terra,
de constnição da
2.027-38, de 4 de maio de 2000. Disponível em: <[Link]
ccivil_03/MPV/ Antigas/[Link]> Acesso em: 24 set. 2007. sp. 2004. p. 285.
” ibid.
142 143
conclusos ao rela¬ As políticas de assentamento do governo FHC
pela improcedência do pedido. Desde então, os autos estão também foram proble¬
máticas, já que a política de crédito para a reforma agrária
tor, o Min. Celso de Mello. foi destruída, além
em relação aos da política de assistência técnica, “prejudicando
A última reedição da medida provisória, sem alterações 2.183-56,
centenas de milhares de famí¬
lias assentadas, intensificando o empobrecimento”.102
parágrafos citados, se deu em 24 de agosto de 2001, com o número Nesse sentido, pode-se
e continua em tramitação.911 Ocorre que, em função do artigo 2o da
Emenda afirmar que não se tem realizado reforma agrária no Brasil, mas sim,
“uma
de 2001, as medidas provisórias edi¬ jpohtica de distribuição de terras com pouca preocupação quanto„ao_fiitur£Ldo
Constitucional n° 32, de 11 de setembro
tadas em data anterior à sua publicação continuam em vigor até que medida assentado na terra, ou seja, com as condições necessárias para o
do duzir de forma viável, bem como se reproduzir socialmente
mesmo pro-i
provisória ulterior as revogue explicitamente ou até deliberação definitiva permanecendo no|
Congresso Nacional."
| campo com qualidade de vida”.103
O STF tem o entendimento de que a referida MP não pode ser aplicada Panini critica esse método de reforma agrária que restringe o campo de
como uma forma além das previstas na Constituição para afastar a possibilida¬ ação dos movimentos de luta pela terra. O Estado, na sua
opinião,
de de desapropriação para fins de reforma agrária.100 Porém, há várias
decisões -se das; reivindicações dos camponeses e_propõe_o assentamento dos“aprqpria-
como a nas terras públicas e a reforma agrária nas terras
sem-terra <
em que as ocupações de terras podem representar força maior, assim como forma de re- I
V solyer os conflitos sociais no campo”.^ ociosas^
seca, para justificar os baixos índices de produtividade da fazenda vistoriada ’
/1 A maior crítica destinada ao governo FHC foi, além da grande
pelo Incra.101 repres- ;
,K
BRASIL. Medida provisória no 2.183-56, de 24 de agosto de 2001.
em: <[Link] Acesso
Disponível
em: 24
I sãoexercida_sobre_osjnovimentos sociais de luta pela terra,
deram os assentamentos que foram efetivados. Aduz-se que
berais foram adotadas, como o projeto piloto Cédula da Terra e o
Tenra, na pretensão de que o mercado realizasse sua
a forma como se I
políticas neoli- I
Banco da
set. 2007. sp. Reforma Agrária através
de setembro de •
dos mecanismos de oferta e procura de compra e venda de terras.105
BRASIL. Constituição (1988). Emenda constitucional n“ 32, de 1 1Penal.
” 2001. 5 ed. São “Também
Constituição Federal, Código Penal, Código de Processo o INCRA terminou esvaziado, com a redução drástica de seu quadro
Tribunais, 2005. p. 237. de fun-
Paulo: Revista dos Imóvel
“Constitucional. Mandado de Segurança. Reforma Agrária. Desapropriação. Provisória
invadido. Movimento dos Sem-Terra. Afastada a incidência da Medida 1(12
desapro¬ FERNANDES, Bernardo Mançano. Vinte anos do MST e a perspectiva da reforma
n.2.183, porquanto instituidora de uma outra modalidade impeditiva de agrária no governo Lula... op. cit. p. 284-285. “Embora FHC
Federal de 1988. Ademais, ;
priação, além das hipóteses previstas na Constituição ; que realizou a maior reforma agrária da história do Brasil, tenha propagandeado
dos Sem-
a invasão de parte mínima da gleba rural por integrantes do Movimento j pelo menos dois resultados lamentáveis: o represamento,
essa realidade produziu
induz, por si só, ao reconhecimento da perda de produtividade do imó- com o crescimento do
-Terra não Britto, julgamento ji número de famílias acampadas, que em 2003 chegou a 1 20 mil
vel em sua totalidade.” (MS 24.133, Rei. p/ o ac. Min. Carlos famílias, e a preca-
Desapropriação í‘ rização dos assentamentos implantados, resultantes que
em 20-8-03, DJdc 6-8-04). BRASIL. Supremo Tribunal Federal. jí
foram de projetos incom-
pletos, que, além de não terem infra-eslrutura básica, a maior parte
para a reforma agrária. Brasília: Secretaria de Documentação, Coordenadoria também não
de Divulgação de Jurisprudência, 2007. Disponível em: <[Link] [Link]>
[Link]/ |; recebeu crédito agrícola e de investimento”, ibid. p. 285.
j j 103
MIRALHA, Wagner. Questão agrária brasileira: origem,
arquivo/cms/publicacaoPublicacaoTematica/anexo/Desapropriacao 1 1 3
í tivas de reforma hoje. Revista NERA,ano 9, n. 8, p. 151-172, necessidade e perspec-
Acesso em 20 nov. 2007. p. 1 4. 1 j Presidente Pru-
dente, Jan./Jun. 2006. Disponível em: <[Link]
Sem Terra’.
1111
“Sucessivas invasões do imóvel por integrantes do ‘Movimento dos
Configuração de motivo de força maior ou de caso fortuito, capaz de impedir a J Revista/arq_8/Revista%20Ncra%20n.%208%[Link]> Acesso em: 25 fev.
do imóvel. Lei 8629/93, artigo 6“, § 7o. Segu- 1 / 2007. sp.
adequada avaliação da produtividade em p um panINI, Cannela.
rança concedida.” (MS 23.563, ReL p/ o ac. Min. Maurício
Corrêa, julgamento ; Reforma agrária dentro e fora da lei: 500 anos de história
Tribunal Federal. Desapropriação j f inacabada. São Paulo: Paulinas, 1990. p. 196.
17-5-00, DJ de 27-2-04). BRASIL. Supremo
para a reforma agrária... op. cit. p. 7 . No mesmo sentido, os julgados23.241,
Rei. Min. Nelson Jobim, julgamento em 19-9-02, DJ de 20-6-03;
12-9-03, MS
MS
22.328,
MS 23.737,
Rei.
ReL
Min.
í
j
4 í
t 1"5Sobre o Banco da Terra e as reações à reforma agrária de mercado implementada
pelo governo FHC cf. MEDEIROS, LeonildeSérvoIo.
Movimentos sociais, dis-
putas políticas e reforma agrária de mercado no Brasil. Rio de
Min. Carlos Velloso, julgamento em 12-9-02, DJ de
limar Galvão, julgamento em 27-6-96, DJ de 22-8-97. . T I UFRRJ/UNRISD, 2002. p. 70-112.
Janeiro: CPDA/
i
144 145
uiuuanos. /1 teniauva consistiu em jogar o processo de Reforma Agrária
para í priadas. Além de buscar garantir terra a 530 mil famílias, o governo federal previu
Estados e Municípios”.106
i a regularização fundiária de outras 500 mil famílias até o final de 2006, a fim de
Fernandes observa que a chamada “Reforma Agrária de_Mercado” cor¬ isso, seria elevado para 1.030.000
respondente a esse período, veio para combater as ocupações de terra. Para o f conceder a elas o título definitivo da terra. Com PNRA em quatro anos.110
/ o número total de famílias beneficiadas pelo II
autor, as políticas de crédito criadas pela política do agronegócio são “uma
O II PNRA deixa claro que as famílias acampadas e mobilizadas deve- .
tentativa de tirar a luta popular do campo da política e jogá-la no território do
rão ter prioridade nos assentamentos, o que parece ser um rumo diferente do :
mercado, que está sob o controle do agronegócio”.107
tomado pelo presidente anterior, que penalizou aqueles que realizaram as ocu- f
Amanipulação dos dados referentes ao número de assentamentos ocor- ji pações de propriedades.1 1 1 Além disso, o instrumento da desapropriação para
I
Í ridos, chegando-se a afirmar que houve a maior reforma agrária no Brasil y
também foioutro ponto de crítica. V
Após os oito anos de governo de FHC, em função de sua reeleição em
fins^ç reforma agrária jlos latifú[Link] constitui a centralidade
do PNRA e “deverá se combinar com outros instrumentos disponíveis, como j
I é caso da arrecadação de terras públicas e devolutas, da aquisição por meio do"
:
~^-s.l998,.em 2002, foi elejto_presidente o ex-metalúrgico do Partido dos Trabalha-
Decreto 433/1992, da regularização fundiária e do crédito fundiário”."2 ' •
dores (PT), LuiyInácio.Lula_da_Silva. Miguel Rosseto ocupou primeiramente o Em dezembro de 2005, o governo, através de seu Ministro do Desen¬
(
Ministério do Desenvolvimento Agrário, pasta criada em 2000, ainda no governo volvimento Agrário, anunciou o número de 127.506 novas famílias assenta¬
FHC, sendo que, atualmente, quem o ocupa é Guilherme Cassei. Seu II Plano
das, desempenho 10,9% acima da meta de assentamentos do ano de 2005.
.vj1 Nacionajjje Reforma Agrária previa o acesso à terra a 530 mil
famílias até o final
de 2006(^Seriam 400 tyíI famílias assentadas pelo programa da reforma agrária e
'
Com o balanço de 2005, os assentamentos realizados - nos três anos dê ges¬
y outras 130 mil a receberem terra por meio do Programa Nacional de Crédito Fun- tão do atual governo - somam 245.061 famílias, o que corresponde a 94,3%
da meta fixada para o período pelo II Plano Nacional de Reforma Agrária
' diário - que atinge áreas abaixo de 15 módulos fiscais e não podem ser desapro- (PNRA). Este volume, segundo o ministro, equivale à cerca de 30% do total de
11,6
CANUTO, Antônio; BALDUÍNO, Dom Tomás. Reforma agrária: ontem e hoje. famílias assentadas em 35 anos de história do Incra.113
Comissão Pastoral da Terra. Disponível em: <[Link]
Porém, esses dados foram bastante questionados, sendo que o MST en¬
m=news&action=read&id= 1 176&eid=3> Acesso em: 20 set. 2006. sp.
107
FERNANDES, Bernardo Mançano. Agronegócio e refonna agrária. N ú cleo de Estudos, viou, em janeiro de 2006, uma nota à imprensa e à sociedade, buscando de¬
Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária. Presidente Prudente: Unesp, 2006. Dispo¬ monstrar o descumprimento por parte do governo tanto das metas do II PNRA
nível em: <[Link] egó- quanto o seu descaso com os compromissos firmados com a organização na
. cio%20e%20Refonna%20AgráriA_Bemardo.pdf> Acesso em: 25 nov. 2006. sp.
VI? idem. Vinte anos do MST e a perspectiva da reforma agrária no governo Lula... op. I marcha de Brasília no ano anterior. 0
, cit. sp. "n ibid.
H“ONZE METAS do II PNRA - 2003/2006: META 1 - 400.000 novas famílias assenta- ibid. p. 17.
^das; META 2 - 500.000 famílias com posses regularizadas; META 3 - 150.000 famílias 112 ibid. p. 19.
beneficiadas pelo Crédito Fundiário; META 4 - Recuperar a capacidade produtiva e a 1,3
PARA Incra, meta de assentamentos em 2005 foi superada em 11 %. Centro de do¬
viabilidade económica dos atuais assentamentos; META 5 - Criar 2.075.000 novos pos¬ cumentação Eloy Ferreira da Silya. Disponível em: <[Link]
tos pennanentes de trabalho no setor reformado; META 6 - Implementar cadastramen- new/[Link]?conteudo =materias/index&secao=2&tema=27&materia-1943>
to georreferenciado do território nacional e regularização de 2,2 milhões de imóveis Acesso em: 25 set. 2006. sp.
-
rurais; META 7 Reconhecer, demarcar e titular áreas de comunidades quilombolas;
META 8 - Garantir o reassentamento dos ocupantes não índios de áreas indígenas;
’U4 “Lula se comprometeu, em um documento assinado pelo governo dia 1 8 de maio
a; publicar a portaria de novos índices produtividade; priorizar o assentamento das
META 9 - Promover a igualdade de gênero na Refonna Agrária; META 10 - Garantir
famílias acampadas; a preparar um novo crédito especial para os assentados, já que
assistência técnica e extensão rural, capacitação, crédito e políticas de comercialização o PRONAF não é adequado à realidade dos sem-terra e garantir uma nova linha de
a todas as famílias das áreas reformadas; META 11 - Universalizar o direito à educação,
; à cultura e à seguridade social nas áreas reformadas”. BRASIL. Ministério do agroindústria para as famílias assentadas". ROTTA, Vera. MST questiona números
Desen- divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Agência Carta Maior.
j volvimento Agrário. II Plano Nacional de Reforma Agrária (II PNRA). Disponível 1.
24 jan. 2006. Disponível em: <[Link]
(T em: <[Link] pdf> Acesso em 22 out.2006. H teriaMostrar. cfm?materia_id=9749> Acesso em: 25 set. 2006. sp.
146 147
Os dados apresentados pelo INCRA são analisados minuciosamente se registrou apenas 30% dos assentamentos previstos da meta de 30 mil famí-
\
por Oliveira, corroborando com os argumentos do MST. Em 2003, o gover¬ lias. Q número registrado em 20 11 chegou a atingir um número mais baixo d-Q—
no anunciou ter assentado 36.301 famílias. Entretanto, “foram efetivamente
assentadas em projetos implantados pelo novo governo 9.233 famílias”. O
descompasso dos dados leva à conclusão de que o cálculo do governo soma os VI O atual governo afirma qu.e_sua-[Link]é [Link] os assentamentos
“assentamentos de reforma agrária, de regularização fundiária e de reordena- já existentes, a partir do prQgrama Brasil sem Miséria. Entretanto, os movi¬
mento dos assentamentos já existentes, onde na maioria dos casos reconhecía- mentos sociais realizam profundas críticas a essa política, pois ela não altera
-se a situação já existente de substituição de antigos assentados”.115 a estrutura de concentração fundiária histórica do Brasil. Como nota Grzybo-
Nos três anos consecutivos (2003, 2004 e 2005), segundo Oliveira, o wski, está claro que o agronegócio é parte do poder estabelecido, e a opção pe-
Ministério do Desenvolvimento Agrário e o INCRA fizeram de fato menos de las crsdito e pelo não abalo da estrutura fundiária é prova disso120.
um terço da reforma agrária prevista no PNRA."6 /T" Isso tudo demonstra o acerto da afirmação de Martins, de que “quando
Isto quer dizer que o MDA/INCRA assentou referente à Meta 1 do II PNRA,
1
I o Movimento do Sem Terra exige reforma agrária, exige uma coisa. Quando
apenas e tão somente 89.927 famílias, ou 34,2% das metas estabelecidas para os governos dizem que estão fazendo reforma agrária, estão fazendo outra
os três primeiros anos de governo. Pode-se concluir, portanto, que a teoria do
uni terço das metas se manteve constante, e com e!e a tese da não reforma Portanto, seguindo a tradição concernente aos séculos que nos separam
agrária."'1 da origem da concentração das terras no Brasil, o próprio governo que seria
F de origem popular acabou contribuindo para a concentração de terras ao invés
O que ocorreu, portanto, foi que o MDA/INCRA divulgaram os dados de adotar uma postura de redistribuição das mesmas, mesmo que com uma
em 2005 agregando os números relacionados às diferentes metas,mas referin- / postura política contrária ao embate e aparentemente mais democrática. Q re-
-
do-se somente à Meta 1 Novas famílias assentadas."8 ' / sultado disso foi o incremento nos números referentes aos conflitos no campo,
Ainda assim, o MST reconhece o aumento significativo BP^númer.o_de, ‘1 gerando uma quantidade enorme de “vidas desperdiçadasig^E^
assentamentos durante o governo Lula. No ano de 2006, o Incra divulgou o O setor ruralista_se,gue ganhaudo_força, seja por meio da bancada cativa r
número de 136.358 fa^mílias assentadas, o número mais .elevado da histó- x nas casas legislativas, seja através da União Democrática Ruralista. A lógica k
decréscimo,|
ria dessa instituição. De 2007 em diante, porem houve enorme jdcLag£onegócio,se mantém em confronto com os camponeses. As
\ chegando a 39.479 famílias assentadas no último ano do governo, 2010. A r ocupações (0
Roussef, tam- f / de terra ferem profundamente essa lógica, “e por essa razão o agronegócio
\ y tendência de decréscimo^está sendo seguida no governo Dilma investe ferozmente na criminalização da luta pela terra, pressionando o Estado
22021 j
/bém do Partido dos Trabalhadores, tendo sido registrado o número de
Í
nos três primeiros trimestres| para impedir a espacialização desta prática de luta popular”. ,23Muito
|famílias assentadas em 2011"9. No ano de 2012, reve¬
' ladora do poder do agronegócio é a recente aprovação do Código Florestal
' brasileiro, uma vitória dos ruralistas.
1 15 OLIVEIRA,Aiiovaldo Umbehno de. A“não reforma agrária” do MDA/INCRA no gover-
‘
nolula. Land ResearchAction NetWork. Disponível em: <[Link]
lery/ANaoRefonnaAgraria [Link]=%22%22assenlamentos%20
em%202005%22%22> Acesso em: 25 set. 2006. sp. Jí
"'’Em 2003, 30,8%; em 2004, 29,7%, contabilizando, em 2005, 34,2% das metas fMGRZYBOWSK.1, Cândido . Brasil: corno criar as condições para a ‘Grande Transi-
estabelecidas para os três primeiros anos de governo, ibid. L/ ção’? Brasil de Fato, 14 nov. 2012. Disponível em: <[Link]
[Link] no original. ^'br/node/l 1 169> Acesso em: 19nov. 2012.
"* ibid. y MARTINS, José de Souza. A questão agrária brasileira e o papel do MST. In: STÉ-
119 BRASIL. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Famílias assen¬ DILE, José Pedro (Org.). A reforma agrária e a luta do MST. p. 11-76. Petrópo-
tadas. Disponível em: <[Link] j
•lis: Vozes, 1997. p. 51.
questao-agraria/numeros-da-reforma-agraria/file/1148-familias-assentadas> Aces- j /JE/BAUMAN. Zygmunt. Vidas desperdiçadas... op. cit.
so em: 19 nov. 2012. 123
FERNANDES, Bernardo Mançano. Agronegócio e reforma agrária... op. cit.
í
148 1 /in
A manutenção da concentração da terra: questão agrária e violência
estrutural A chamada modernização do campo, realizada durante a ditadura mili¬
tar significou o recrudescimento de uma conflitualidade já existente. Marcou
Como visto,_a_implantação de uma_poh'tica efetiva de distribuição _de uma outra forma de exclusão, a partir da expropriação e do desemprego. As¬
tetras esbarra em interesses bastante poderosos, a ponto de, mesmo após sécu¬ sim, cumpre ressaltar em primeiro lugar, que essa modernização se deu dc for¬
los haverem passado desde a primeira divisão do território em sesmarias pelos ma parcial no campo. O que [Link],a fusão do capitalista e do proprietário
colonizadores, a concentração da terra permanecer na mão de pouquíssimos de terra na mesma pessoa, sendo que banqueiros, empresários, etc. passaram
setores da população. a manter relações de trabalho modernas, capitalistas na cidade e, ao mesmo
Depois da modernização que levou à associação entre o grande capital e a| tempo, relações pré-capitalistas, quase feudais, no campo.127
grande propriedade rural, os bancos, as empresas multinacionais, os grandes gru¬
pos económicos, todos têm interesse na propriedade da terra. “Propor uma refor¬ Tabela 2 - Estatísticas do meio rural, 2010-201 1.
128
ma agrária significa desafiar seus interesses ou, então, indenizá-los a preços que
Estratos Imóveis Àrea total Área
incluem a especulação imobiliária, o que significa não fazer reforma agrária”^?
Àrea total (ha) média
Assim, ao contrário do que imaginavam os que lutaram nas décadas de N° de % dos Hectares % dc
(ha)
setenta e oitenta pela reforma agrária, a década dc 1 990 foi de permanência na imóveis imóveis área
imóveis
concentração da terra. O índice de Gini, que mede a concentração da proprie¬ 33,7% 8.215.337 1,4% 4,7
Até 10 1.744.540
dade da terra variando de zero a um, sendo o zero a igualdade absoluta e um a
De 10 a 25 1.316.237 25,4% 21.345.232 3,7% 16,2
concentração absoluta, o demonstra. A Tabela 1 traz a evolução da concentra¬
ção de terra no Brasil de acordo com o índice de Gini. 814.138 15,7% 28.563.707 5,0% 35,1
' De 25 a 50
De 50 a 100 578.783 11,2% 40.096.597 7,0% 69,3
Tabela 1 - Evolução do coeficiente de Gini (1967-2000) Incra.124 125
De 100 a 500 563.346 10,9% 116.156.530 20,3% 206,2
Ano 1967 1972 1978 1992 1998 2000 2010 695,1
De 500 a 1000 85.305 1,6% 59.299.370 10,4%
índice 0,836 0,837 0,854 0,831 0,843 0,802 0,820 0,8% 55.269.002 9,7% 1.380,1
De 1000 a 2000 40.046
Mais de 2000 39.250 0,8% 242.795.145 42,5% 6.185,9
Conforme os dados divulgados em 2011 pelo Instituto Nacional de Co¬
lonização e Reforma Agrária (INCRA), os imóveis com mais de 2 mil hecta- , Total 5.181.645 100,0 % 571.740.919 100,0% 110,3
jes. representavam 43,7% da área total de propriedades
no BrasiLCTabela 2).
Essa estrutura fundiária concentradora está diretamente relacionada à situa- A expansão do_agronegócio. possibilitada por esta fusão entre capita¬
i çãp de misé[Link] da população rural.126 Essa é uma das preocupações
lista e proprietário da terra,.açirrou o problema da concentração da terra no
daquilo que se costuma chamar questão agrária. Sua continuidade .é também o
Brasil, com a máscara de progresso e produtividade sob a qual se esconde o
. [Link] adoção de uma política agrícola latifundi sta e agroexportadora. que há de mais atrasado no campo.
124
MARTINS, José de Souza. Aauestão agrária brasileira e o papel do MST... op. cit.
p.35. 117 OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino dc. A longa marcha do campesinato brasileiro...
I2S
BRASIE. Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. O Brasil descon¬ op. cit. sp.
centrando terras: o índice de Gini. MDA, 2000. Disponível em: <[Link] 128
BRASIL. Departamento Intersindicai de Estatística e Estudos Socioeconômicos;
[Link]/arquivos/[Link]> Acesso em: 01 jul. 2007. Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural; Ministério do Desenvolvi¬
126
PRADO JÚNIOR; Caio. A questão agrária no Brasil. 4 ed. São Paulo: Brasilien- mento Agrário. Estatísticas do meio rural 2010-2011. 4 ed. São Paulo: DIEESE;
se, 1987, p. 18. NEAD; MDA, 201 1. Disponível em: <[Link]
anuario Rural 1 0- 1 1 ,pdf> Acesso em: 19nov, 2012.
150 151
O_processo de construção da imagemjJo^giwegócio-Q£uka^s.eu_caráter_c.Qn- é de que a primeira diz respeito a “aspectos ligados às mudanças na produ¬
centrador, predadqn_expropriatóriq e excludgnte para dar relevância somente ção em si mesma', o que se produz, onde se produz, o quanto se produz”, Já
aq caráter produtivista, destacando o aumento da producacL-dajuaneza [Link] a secunda “está ligada às transformações nas relações de produção', como se
noyas tecnologias. Todavia, a questão estrutural permanece. Do trabalho es- produz, de que forma se produz”. 132
1 cravo à colheitadeira controlada por satélite, o processo de exploração e domi¬ Assim, apesar de serem questões distintas, uma traz consequências im¬
nação está presente, a concentração da propriedade da terra se intensifica e a
portantes à outra, sendo que o resultado na atualidade é de crise agrária dfi£QH
I destruição do campesinato aumenta.129 rente da adoção de uma determinada política agrícola? A questão agrária traz
Então, a modernização do campo, o surgimento de empresas rurais e do I em si problemas relacionados à
i i agronegócio não fez com que as relações de podcr no campo se modificassem., 8 [...] concentração da estrutura fundiária; aos processos de expropriação, ex- I
Pelo contrário, a começar pelas relações de trabalho extremamente desumanas pulsão e exclusão dos trabalhadores rurais: camponeses e assalariados; à luta
I I a que são submetidos os trabalhadores rurais, e chegando à demonstração de pela terra, pela reforma agrária e pela resistência na terra; à violência extrema
I [ domínio por parte dos proprietários a partir de mortes exemplares, verifica-se contra os trabalhadores, à produção, abastecimento e segurança alimentar; aos
। i que o capital transnacional mais avançado se articula perfeitamente com o modelos de desenvolvimento da agropecuária e seus padrões tecnológicos, às
arcaísmo do sistema oligárquico local no campo brasileiro. políticas agrícolas e ao mercado, ao campo e à cidade, à qualidade de vida । e
Isso demonstra que. a forma como se dá o desenvolvimento da agricul- dignidade humana.133
tura^as políticas que determinam azquestão agrícola^, se refletem direjamente O problema da concentração da terra, as desigualdades, injustiça_s e
na'questão agrária! Como aponta Silva, esse é o caso do Brasil dos anos seten¬ a miséria da população rural fazem parte, portanto, dessa categoria. Se se
ta. Pelo fato de a industrialização da agricultura brasileira ter ocorrido muito . parte do conceito de violência estrutural como repressão das necessidades Kt
rapidamente, grande parte da população viu suas condições precárias de vida
agravadasiyjAlém de outras modificações ocorridas no campo na década de
1980, o autor aponta como de grande importância essa crescente presença
do capital monopolista no campo. “E dessa forma que [Link]ção da
agricultura se desenvolve: de um lado produzindo 80 milhões de toneladas
1 r •
humanas fupdamentais. percebe-se que o modelo de desenvolvimento que /\[
gera toda essa exclusão é violcnt^X
e gera conflitualidade. A partir da
luta contra essa violência,.eSÂa^fiOJoflittialidade passa _a_fl£ar„eyjdEja.te_na
forma de conflitos_p,[Link]^.qn.e^erttansfoEmam_cm_vi&Lência indivi-
_duteUeJie_grup.o.
de grãos, de outro produzindo 30 milhões de famintos e, ainda, de outro lado, Ess.a_ .violência, diária-pode-ser-identificada facjlmente„na„situação .
produzindo milhares de mortos” dos-trabalhadores rurais sem terra. _ [Link]„PcssQas_não_pQssiicm-garajiLias_úJg-.
Isso significa que, apesar de a produtividade no campo ter aumentado, 1? sequer de seu direito_àjáda„quauto_mais do..diidtoJLsaúde, à alimentação, 3
ou seja, de não haver uma crise agrícola, de falta de produção de alimentos, N à habitação, ao trabalho, etc. Para Baratta, a violência estrutural, apesar de
por exemplo, a questão agrária restou agravada. Na mesma medida em que dificilmente ser assim identificada, “é a forma geral da violência, em cuio
ocorrem os lucros do capital em função de uma determinada política agrícola
que não leva em consideração os camponeses, expropriando-os e explorando- 132
-os, aumenta-se a concentração da terra e a pobreza, o que se reflete em uma SILVA, José Graziano da. op. cit. p. 11, grifos no original.
133
FERNANDES, Bernardo Mançano. A questão agraria fio limiar do século XXI.
crise agrária. A diferença, portanto, entre quesjlào agrícola e questão agrária Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária. Disponível em:
<[Link] [Link]/dgeo/nera/Arq_publicacoes/a%20questao%20
129 FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvi- agraria. exe> Acesso em: 20 ago. 2007. sp.
y mento territorial... op. cit.p. 38. I 'yGALTUNG apud BARATTA, Alessandra, Derechos humanos: entre violência es-
I 130 SILVA, José Graziano da.O que é questão agrária. 16 ed. São Paulo: Brasiliense, tructural y violência penal... p. 338. As necessidades reais são entendidas, nes- 1
/199O, p. 43-44, \ t se conceito, como “[—] as potencialidades de existência e qualidade da vida das "■M'
FERNANDES, Bernardo Mançano. A judiciarização da luta pela reforma agrária. Jp pessoas, os grupos e os povos, que correspondem a um determinado grau de de- À|
In: TAVARES DOS SANTOS, José Vicente (org.). Violências no tempo da globa¬ j senvolvimento da capacidade de produção material e cultural em urna formação
( econômico-social”. ibid. p. 337.
lização. p. 388-402. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 398. Tradução livre. |
153
contexto, direta ou jndiretamentejodas as outras formas de violência encon- cia nacional. Através dos Encontros nacionais passou a definir as suas ativida¬
. tram sua fonte, direta qu indiretamente”.135 A partir dessa afirmação percebe- des, desafios, projetos, e organizar as suas açõesQi^
-se que a yiolcnciaTe_a_conflitualidade_sã<vantcrjar£S-àTuta^pcla terra por O MST é ligado a outras entidades, registradas como pessoas jurídi¬
parte dos movimentos sociais como o MST. E, portanto, os conflitos agrários cas, através das quais firma convénios com o governo, a Associação Nacional
nãó se resumem à atuação desses movimentos, como querem transparecer os de Cooperação Agrícola (ANCA) e a Confederação das Cooperativas de Re¬
setores proprietários. forma Agrária do Brasil (CONCRAB). Sua forma organizativa busca aplicar
Dessa fornia, a ideia de violê[Link] é identifica- alguns princípios. São eles a vinculaçào permanente com as massas, as lutas
da como se se resumisse aos conflitos locai s.quc_pro.vQcam-yiolên ci a_dfi_grupp de massa, a divisão de tarefas, a direção coletiva, a disciplina, a formação de
e individual. ‘*AxDncentracãQ_da_ propriedade fundiária diretamente conduz quadros, e o desenvolvimento da mística.'311 É de se ressaltar o empenho das
à negação da satisfação de necessidades e_ direitos fundamentais da. pessoa famílias sem terra na constituição do movimento.
humana, sua marca violenta indo_muito além dasjnoiles^anunciadas
nos mul¬ A formação dos camponeses é uma parte [Link] sem
tiplicados [Link] posse daterra”-^6 do ela politica..e_comportando educação, produção, administraçãO-C comuni¬
Sendo assim, perante essa violêneja surgem as lutas porxeforma^tgrária. cação. L39 Desde as primeiras ocupações surgiu a preocupação com a educação,
através de movimentos coletivos que se utilizam de métodos extremamente formando-se comissões para organizar escolas para as crianças e para a alfa¬
provocativos para trazer visjbilidade_à_conflitualidade. oculta por [Link]- betização de jovens e adultos, tendo-se formado nos assentamentos a partir
cepção deturpada de existência de relações consensuais e pacificas
pp^campo. de um currículo escolar criado pelo Movimento. De acordo com informações
do MST, cerca de 160 mil crianças estudam no Ensino Fundamental nas 1800
2,1.3 A luta contra a violência escolas públicas dos acampamentos e assentamentos. O setor de educação
c a violência da reação ã luta atua também na educação infantil (de 0 a 6 anos), contando hoje com aproxi-
154 155
/
aproxima-
umasaciedade maisJusta. O latifúndio é nosso maior inimigo, mas
madamente 500 educadores. Seu programa de alfabetização atinge a miséria, o analfabetismo, a fome, a violência no campo e também
na cidade, que ele
damente 30 mil jovens e adultos.140 gera”.145
do
Dentro da sua estrutura, o MST organiza, de acordo com os dados A partir de objetivos, princípios e programas,146 o MST orienta a sua
comercialização e
próprio Movimento, mais de 500 associações de produção, prática, que se divide em várias linhas de atuação.
famí¬ “Com plena convicção
serviços;'49 Cooperativas de Produção Agropecuária (CPA), com 2299 de que a Reforma Agrária não se daria sem as premissas da luta
lias associadas; 32 Cooperativas de Prestação de Serviços com 11174 sócios pela conquista e democratização da terra, o MST criou importante
concreta
diretos; duas Cooperativas Regionais de Comercialização e três Cooperativas mo de apossamento de áreas abandonadas: as ocupações de terras”.147
mecanis¬
de Crédito com 6521 associados. São 96 pequenas e médias agroindústrias Alémi
j das ocupações, onde milhares de famílias sobrevivem por vezes por longos
que processam frutas, hortaliças, leite e derivados, grãos, café, carnes e
doces,
'■ períodos até que as
negociações levem à conquista da terra ou à sua expulsão,
além de diversos artesanatos.141 u frequentemente por meios violentos, também realizam a ocupação
A forma de organização e articulaçãojdo MST é a sua característica li públicos, marchas regionais e nacionais e o bloqueio de estradas.
de prédios j
na-
central. Em um país onde sequer os partidos conseguem se organizar No momento em que ocorre a ocupação da terra que não cumpre
política um movimento social com
cionalménte é de fundamental importância \ sua função social, moTda-se unTespaço de luta e resistência,
frente ao conceito este /
que se articula com tal abrangência a partir de ações de impacto l abordado por Fernandes como sendo “a manifestação
nenhuma pública dos sujeitos e
poder público e à sociedade. Comparato aduz que, mesmo que
de seus objetivos”.148 Para o autor, é a construção desse espaço que garantc_a__\x2 j
articulação
das ações do MST seja inédita na história, “a novidade está na \ visibilidade para o problema da exclusão socialJuraLbcm como o daconcen- /
feita a partir de táticas e elementos já conhecidos, e na
habilidade_política
traçã£Lde,tenas e o não cumprimento de sua função social.
que o movimento tem demonstrado, ao fazer aliados em vários segmentos
. /] A escolha doJatifúndio_parajeaJ.izar..[Link]ção é feita
considerando-
; da sociedade civil”.142 -se,,basicamente, dois fatores^conforme G õrgen [Link]]
ocupar;^)^cfiidade
e: a
No ano de 2005, o MST registrou o número de 124.240 famílias acesso a todas as famílias que estão organizadas para
de
acampadas,143 estando localizadas em 22 unidades da federação, sendo que, nessa região uma área de tamanho grande, que produza pouco ou nada, que
escolhe-se
O número
de 1990 a 2001, o número de famílias acampadas foi de 368.325. não esteja cumprindo com sua função social”.149
era de 108.849 em agosto de 2001.144
de famílias em assentamentos do MST Tendo em vista que são famílias a acampar nos locais escolhidos, já
o
O MST se organiza tendo como uma de suas [Link] existe entre elas o sentimento de comunidade, sendo que as ocupações
.propriedade. Pelo fato de são
governo a efetivar o principio da função social da , r práticas coletivas. Segundo Baldez, nessas práticas, “cada
atendidas, o trabalhador se des¬
as necessidades das populações excluídas do campo não serem cobre no outro e se recria como sujeito coletivo, sabendo que
MSJlprocura realizar atos para chamar [Link]ção da opinião-pú[Link]
forma jndiy idu almcnte.
a trazer à tona o problema da terra e a urgência da reforma agrária. O MST _ como o quer e define o direito burguês, ele não é, perde a
essencialidade e a
que luta pela reforma agrária e por [ y capacidade de agir como sujeito social”.150 E através dessas ocupações que^
se declara como “um movimento social
145
SANTOS, Marina. Legitimidade das ocupações: Porque ocupamos.
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Disponível etn: Movimento
MST: 20 anos <[Link]
l4" MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM [Link]ível em: setores/dhuinanos/legitimi/ [Link]> Acesso em: 28 set. 2006. sp.
de lutas e conquistas. MST informa. Ano III, n“ 56, 02 fev. 2004. 146
Cf. FERNANDES. Bernardo Mançano. A formação do MST no
Acesso Brasíi... op. cit.
<[Link] informativos/mstinforma/mst_ [Link]> p. 184-185. STÉD1LE, José Pedro. A luta pela reforma agrária e o
MST... op. cit.
em: 28 set. 2006. sp. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. MST: 20 anos
141
[Link]. de lutas e conquistas... op. cit. sp.
142 COMPARATO, Bruno [Link]. op. cit. sp. 147
BALDEZ, Miguel Lanzellotti. op. cit. p. 101.
'« MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA.
Biblioteca. '4il
FERNANDES, Bernardo Mançano. MST... op. cit.p. 237-238.
Disponível em: <[Link] 144
)5n
GÕRGEN, Frei Sérgio; STÉDJLE, João Pedro, op. cit. p. 52-53.
Acesso em: 17 set. 2006. sp. BALDEZ, Miguel Lanzellotti. op. cit. p. 101.
144 ibid.
157
1 Cí
os sem terra situam de uma forma explícita o problema da estrutura agrária de pessoas. A ocunacão se caractenza amua pum
vigente, sendo esse o seu sentido político mais importante. pçssQa5JBiej:ealizatiLCSsa_.açãQ_e.pelaJeslinação socia(_da_án:a afetada.1!5
Ocupacões são, antes de tudo, fonnas de denúncia. Por isso se ocupa, para Como observa Medeiros, essa guerra semântica, que traduz a ambigui¬
propri edade
denunciar a penúria em que vive o pobre, no campo e na cidade, e pressionar dade da lei c se refere também ao binómio DroDricdadc_nro_dut iva/
pela reforma. E um exercício legítimo de democracia, tal qual o de qualquer improdutiva, é, na verdade, “um esforço para recobrir dc legitimidade práticas
outro grupo mobilizado. Éum exercício de cidadania, tal qual um eleitor que, violentas, sempre em nome do direito de propriedade”.156
passado o pleito, deve fiscalizar, denunciar o não cumprimento e reivindicar Após ocorrer a ocup_ação. parte-se para o acampamento permanente,
dos representantes que escolheu seus direitos legítimos.151
geralmente em uma área de terra concedida pelo governo, prefeitura, ou al¬
E a exposição pública de sua situação de excluídos que traz um signi¬ gum particular, e duram até que todos os membros sejam assentados.157
ficado diferencial. “Os sem-terra não se defendem, mas tomam a iniciativa, Dando sequência a esse momento de espacialização da luta, através das
ocupando áreas e, sobretudo, organizando acampamentos”.152 Somando-se to¬ ocupações e da resistência nos acampamentos, ocorre a negociaçã[Link]-O ko-
das as ocupações de terras por diversos movimentos sociais em 2005, foram vçmo. Conforme o MST, através da resistência das famílias, vai conquistando
437 ocupações, envolvendo 54427 famílias.153 territórios onde os assentamentos ocorrem, o movimento vai se territoriali-
para
É de se destacar que há uma importante distinção conceituai frequente¬ zando. Femandes explica que o conceito de territorialização é utilizado 1 5K
uma fração do território .
mente não realizada por razões políticas entre os termos ocup_ação e invasão. observar o assentamento como conquista de
De um lado, ruralistas e vários setores da mídia unem-se em tomo do uso A importância dos atos do MST, ao trazerem a público a questão agrária
e
da expressão invasão-para designar o ingresso das famílias organizadas pelo no Brasil, é de tal monta que se pode observar a ausência de desapropriações
MST cm uma propriedade rural. Deouirpjado, trabalhadores rurais e defen¬ de políticas relacionadas à reforma agrária onde o MST é fraco ou inexistente.
sores dos atos dos movimentos sociais em prol do avanço na reforma agrária “A lei só_é aplicada_quando existe iniciativa social, essa é [Link] do-direito.
utilizam a expressão ocupação, para designar o mesmo ato. Invadir, porém, I [...] A lei vem depois do fato social, nunca antes, O fato social na reforma.
aplicar a lei”.15’
2sigllifica,um ato de força para tomar alguma coisa de alguém”, enquanto que I agrária é a ocupação, as pessoas quererem terra, para de terras, a concretiza¬
depois
“ocupar diz respeito, simplesmente, a preencher um vazio - no caso, terras Dessa forma, ao buscar, através das ocupações
e das leis
que não cumprem sua função social”. 154 Após analisar os dois conceitos, desde ção de direitos fundamentais c a eficácia da Constituição Federal
ordinárias que tratam sobre a reforma agrária, como o Estatuto da Terra
e
a sua origem etimológica, Silva conclui que
um respaldo jurídico. Araújo
a Lei Agrária (Lei 8.625/1993), seus atos têm
1...1 a inxasãp.é [Link]ório’ definido em lei, enquanto a ocnpacão
constitui um ato-DoUlico, coino tantos outros, destinado a chamar a atenção constata que
da autoridade omissa para o problema candente que afeta um grande número
155 SILVA, José Gomes da. Ocupação e invasão. In: GÕRGEN, Frei Sérgio (Coord.).
Uma foice longe da terra: repressão aos sem-terra em Porto Alegre,
p. 107- 115.2
ed. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 110.’
156 MEDEIROS, Leonilde de Sérvolo. Dimensões políticas da violência no campo. In:
Introdução
151
SANTOS, Marina, op. cit. sp. MOLINA, Mônica CastagnaEt. aK (Orgs.) O direito achado na rua -
152 GRZYBOWSKI,
Cândido. Caminhos e descaminhos dos movimentos sociais no crítica ao direito agrário, v, 3. p. 165-175. Brasília: Universidade de Brasília.
campo. Petrópolis: Vozes; FASE, 1990. p. 24. 2001. p. 191.
IÍJ
COMISSÃO PASTORAL Da TERRA. Conflitos no campo Brasil 2005. 157 GÔRGEN, Frei Sérgio; STÉD1LE, João Pedro, op. cit. p. 61-62.
ponível em: <http.7/w [Link]. br/?system=news&action=read&id=í263&e Dis¬ ISR FERNANDES, Bernardo Mançano. MST... op. cit. p. 241.
id=6> Acesso em: 15 set. [Link]. 159 STÉDILE, João Pedro; FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava gente: A traje¬
Abramo,
tória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Fundação Perscu
154 SILVA,
José Gomes da.A reforma agrária brasileira na virada do
milénio.
Campinas: Associação Brasileira de Reforma Agrária, 1996. p. 116. Grifou-se. 2000. p. 115.
158 159
L
(...) se existe uma base legal na qual está assente o movimento reivindicatório Dessa maneira, perccbfirseumJnciemeniQ-nojnúmero dc conflitos no
pela terra, a legitimidade é dada pelos objetivos da Lei, isto é, a busca por uma cámpo1^ nos-últimos anos. O ano de 2005 foi de um grande
melhor distribuição da terra para que se leve ao campo uma situação de justiça aumento em re¬
social (art. 1°, Estatuto da Terra).’60
lação aos últimos 21 anos. De 2005 para cá o número diminuiu, apesar dc cm
2011 ter havido uma elevação significativa cm relação a 2010 dc 853 para
-
Nesse sentido, a atuação d.o MST se constitui .em ações políticas com 1035 (CPT, 2011). A comparação de 1996 a 2011 do número dc conflitos no
uma finalidade de,concretização [Link]. É a relação estabelecida, por campo está expressa na Figura I.
Araújo,.entre politiça c direito, ou juridicização da política. “Tem-se um mo¬
vimento social que utiliza ações políticas para fazer com que o Estado se obri¬ N° conflitos
gue a efetivar normas jurídicas cujo conteúdo aponta para a fruição de um
determinado direito subjetivo: o acesso à terra”.161
Diante disso, fica claro que a ocupação .da terra não é o início da confli-
tualidade no campo, como buscam defender alguns setores da população. “XI
começo da conflitualidadc foi gerado pela expropriação, pejo desemprego,. pelas
desigualdades resultantes do desenvolvimento contraditório do capitalismo”.'62
/'R/Cabe ressaltar que não é de hoje a organização da elite do meio rural na defesa de seus in¬
teresses. Mendonça traz um estudo de uma entidade, a Sociedade Nacional de Agricultura
(SNA), criada em 1987. 0 ruralismo desse [Link]ês postulados, “integrando
sua palavra de ordem da defesa da vocação eminentemente agrícola do Brasil: a) a reivin¬
dicação da extensão dos benefícios da ciência e da técnica ao campo, b) a necessidade da
diversificação agrícola do país e c) a demanda pela realualização das fonnas de imobili¬
MARANHÃO, Malu; SCHNEIDER, Vilmar. A ofensiva da direita no campo no zação da mão-de-obra junto à grande lavoura, constituindo o que se chamaria, à época, de
Brasil. Centro de derechos> humanos de Nuremberg. Disponível em: <http:// uma nova civilização agrícola" . MENDONÇA, Sônia Regina. Mundo rural, intelectuais
[Link]/beitraege/ lateinamerika/[Link]> Acesso cm: 15 c organização da cultura no Brasil: o caso da Sociedade Nacional dc Agricultura. Mundo
jul. 2007. sp. Agrário. Revista de estudiosnuales, n° 1, segundo semestre dc 2000. Disponível cm:
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no campo Brasil 2012... op. cit. <[Link] Acesso em: 13 out. 2006.
162 163
Tal organização surgiu sob a liderança do fazendeiro Ronaldo Caiado, com o tes para reproduzir, nojempo e no espaço, suas posições na_cstrutura
social,
claro objetivo dc evitar a reforma agrária (através do PNRA de Sarney), pre¬ com formas e as faces da violcnçia se transformando ao longo dp tempp”^7*
gando a utilização de força física c de armas contra os sem terra.17'1 Segundo I Mas a violência contra os trabalhadores rurais não sc refere apenas à cs- j
Maranhão e Schneidcr, a entidade se ramificou na década de oitenta para 11 1 trutura do latifúndio e aos assassinatos. Os relatórios que aparecem ;
estados. Um importante ato da UDR se deu em 11 de julho de 1987, quan¬ 1 a situação dos trabalhadores rurais, como os cortadores de cana, e a
hoje sobre 1 . 1
do 40 mil produtores rurais tomaram Brasília, durante a constituinte, para i K trabalho escravo que ainda é uma violência comum, além do trabalhojnfantil, ।
situação de ' I
de- >
pressionar na elaboração da nova Constituição na parte que dizia respeito à I \ monstram que essa violência faz parte de relações de dominação costumeiras.179
questão agrária.175 ' ' Qs proprietários çostumam ignorar a legislacão_trahalhista.
ao mesmo
Seu argumento é de que, ao não providenciar a proteção às suas terras, oi tempo em que o poder ligado à terra inibe a reivindicação por partc_dos
trabalha-
Estado abre a possibilidade de os próprios proprietários fazerem justiça pelas .dorc^. Além disso, em função da mecanização da lavoura, o trabalho manual sc
próprias mãos. O assassinato de vários líderes sem terra ou outros dissiden- reduziu sobremaneira, fazendo com que apenas em alguns períodos do
ano se¬
tes no campo, entre outros, como religiosos c ativistas políticos, que lutain I jam ofertados empregos aos chamados bóiasrfrias, çm_uma
relaçã[Link]ária de
I pela reforma agrária, ou por melhores condições de vida, são^atribuí4.Qs_a
í .trabalho. Pela necessidade de compensar a escassez dc trabalho e os
o Chico Men¬ pagamentos
I integrantes daJUDR, sendo o caso mais conhecido de todos dc por resultados, muitos [Link] nos últimos
anos de fadiglhí8-^
des, assassinado em 1988, [Link], tendo como mandantes dois integrantes Além disso, a redução de pessoas à condição dc escravos permanece
daquela organização.'76 Assim^odc-se identificar dojs traços principaisjios existindo no pais. Em 2005 houve um aumento das denúncias de ocorrência
l'
(
grupos dominantes [Link]: “a defesa da propriedade como direito absoluto 11 / de trabalho escravo. Foram encontradas 7.707 pessoas cm situação de
escravi¬
I i* e violência como prática de classe”.177 dão em 2005, sendo que, em 2004, foram 4.585 pessoas
que isso não significa que a quantidade dc pessoas nessalibertadasf^É
claro
Pcrçebe-se assim o poder que vçmjigado à piQpriedads, “Mais ajnda, a condição tenha au-
violência seria uma das formas de dominação exercida pelas classes dominan-
TAVARES DOS SANTOS, José Vicente. O saber do crime, a noção de
u ea
seletividade penal. Delito y sociedad: Revista de Ciências Sociales,violência
ruralistas, sen¬ Buenos
IM É importante ter ein conta que existem várias entidades que reúnem Aires, ano 9, n. 14, p. 94-106, 2000. p. 95.
antigas. “No âmbito sindical, essa representação se dá Um relato aprofundado de casos de violência no campo, redução
do algumas extremamente de pessoas à con¬
através dos sindicatos rurais nos municípios e regiões, das federações rurais
nos dição análoga à de escravo, além da questão da griiagem
Pecuária do Brasil (CNA)”. dc terras em várias regiões
estados e da Confederação Nacional da Agricultura c do país, cf: BRASIL. Congresso Nacional. CPMI “da Terra”...
op. cit. O relatório
“A representação dos cafeicultures, usineiros, pecuaristas, plantadores
de soja, ma¬ A—dambém está disponível na internet: [Link].
e demais proprietários também se dá através de associações civis e coope¬ ([yEm abril dc 2007 foi divulgada uma pesquisa que conclui
deireiros Sociedade que o tempo de vida útil
rativas de produtores, tais como a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a «[Link] dqçana é a mcsma.Que_a_dQS escravos,
cerca de 10 anos_apenas. ,“Ao
Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB)”, entre menos l_2_inprtes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde
Nacional da Agicuitura), final (voto meados de 2004,
outras. BRASIL. Congresso Nacional. CPM1 “da Terra”; Relatório supostamente por excesso_d&-trabalho. Preocupados com
as condições de trabalho
vencido). Relator; Deputado João Alfredo. Brasília, 2005. mimeo. p. 188. e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o
’15 MÀRANHÃO, Malu; SCHNEIDER, Vilmar. op. cit. sp. Após a candidatura
de desses trabalhadores, antes terceirizados”. CORTADORESsistema de contratação
dc cana têin vida útil
vários optaram
Ronaldo Caiado em 1989,houve uma certa ruptura do grupo, já queuma abrangência de escravo em SP. Folha de São Paulo, Dinheiro, 29 de abril
de 2007, p. Bl. Em
não possui relação a essa notícia, é interessante observar que a mesma foi
por votar em Fernando Collor de Mello. Hoje, a UDRno Pontal do Paranapanema,
divulgada na seção
“dinhg^g” do jornal. Além disso, no dia 05 dc maio, alguns dias após
nacional, estando presente abertamente no Paraná e
comum a manutenção de da pesquisa, o mesmo jornal, na mesma seção noticiou um protesto dca divulgação
mais
em São Paulo, sendo que em outras localidades
é
dc cana, organizado pelo MST c sindicatos, mostrando a o “clima tenso’’ cortadores
milícias armadas por parte dos [Link] Silva foram condenados em função
do policiamento reforçado e do impedimento da passagem dos manifestantes para
176 Darci Alves Pereira e seu pai Darly Alves «ingressar na feira Agrishow, em Ribeirão Prelo. CORTADORES
prisão, cm 1990. ibid. p. 206. República; a violência patronal rural Kprotesto por melhores condições. Folha de São Paulo, Dinheiro, de cana fazem
05 de maio de
,71
BRUNO,Regina Angela Landim. Nova juVdc^^ »007, p. B17.
Alegre, ano 5, n° 10,p. 284-310,
prática dc classe. Sociologias, Porto ^COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no Campo Brasil 2005... op. cit.
p. 285.
165
mentado, mas que, efetivamente, em função do maior número de denúncias, Porém, esse dilaceramento não provém apenas da violência de gmpo e
mais pessoas foram encontradas nessa situação. Isso demonstra que o trabalho individual, mas também [Link]ência do sistema penal, que costuma formar
escravo é constante na zona rural brasileira, apesar de haver dificuldades na um só coro com os interesses dos proprietários, desconsiderando os mais evi-
sua identificação. Uma análise mais detalhada dos dados demonstra ainda que
o número de conflitos e de violência em relação aos dados da população niral
11 dentes direitos dos sem terra, como a própria vida.
resulta em um número maior nos estados onde mais cresce e se expande o 2.1.4 Da violência estrutural à violência institucional. Ou: para os
agronegócio, nas regiões centro-oeste e norte. Os maiores índices se deram no antigos, a lei; para os inimigos, o arbítrio
Mato Grosso, Pará, Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Roraima, Rondô-
nia c Amapá.1*12 Se a operacionalização do sistema penal hoje recai quase exclusivamen-
. Dessa maneira, apesar de a violência çstruturaLcostumar_ser ignorada, te sobre os excluídos do capitalismo financeiro transnacional, além daqueles
mensões políticas da violência no campo... op. cit. p. 186. sores e representantes da ordem.
(”j \
TAVARES DOS SANTOS, José Vicente. A cidadania dilacerada... op. cit. p. 134.
W ibid. p. 133. BARREIRA, César, op. cit. p. 175.
166 167
Até os dias atuais essa situação persiste, sendo que de forma corriqueira 19 sem terra resultaram mortos c dezenas ficaram feridos.l^í^omo relata Cé¬
se percebe a atuação [Link]^[Link] sar Barreira, o caso de Eldorado dos Carajás c muito significativo quanto à
terra. Então, aquela violência de grupo, referida antes, comumente soma es¬ união entre poder público e privado na repressão aos sem_tgrra, uma vez que
forços à violência institucional praticada pelos agentes do controle penal for- o massacre lá ocorrido teve conotação política clara, com a perseguição dc
volte à I
'] mal nas reintegrações dc posse. Isso leva a que a atuação da polícia se violên- determinados líderes que deveriam sermortos.'”
] defesa dos interesses do proprietário da tona, geralmcntc com extrema .Q_massacre de Eldorado de Carajás, desnudando o,lado arcaico e
tradicional
. cia, via de regra com queima de barracos, torturas, lesões e mortes das pessoas das relações políticas económicas do campo, faz parte da mesma moeda do
Como ressalta Medeiros, “todas as notícias que nos chegam de
(acampadas.
situações dc violência evidenciam as interpenetrações .entre o_poder pojiçial
c as milícias privadas, entre juízes e p_oder loçal. entrc Estado e violência";!^
capitalismo moderno, mostrando não só a necessidade dc uma mudança na
estrutura agrária, mas também o poder do atraso, da onipotência e impunidade
dos grandes proprietáriosde terra que ainda continuam dando as regras do jogo
brasileiro.^''
A violência da reação às lutas dos sem terra passa a ser, por isso, o resul¬ no meio rural
tado de um cálculo, onde polícia e milícias armadas se somam na repressão. Outro fato que merece destaque é o massacre dc Corumbiara. ocorrido
Dc uma situação dc luta contra a violê[Link], os.sem_terra.passam_a. em 09 de agosto dcJ^2S...cinJlíindõnia, onde nove trabal [Link] raisJp-
sofrer outra forma de yio.lênçía: a violência institucional ^A violência insti- ram^ssassinados^fesses fatos, que não são isolados e únicos, expõem uma
tucionaLé .cxerç[Link] “quando o agente é um órgão do Estado, um governo, o m
1
violência no meio rural que chega a ponto dc serem consideradas execuções
ifi i exército ou a polícia. A violência institucional pode ter formas legais, ou seja,
sumárias e extrajudiciais. É o que conclui o relatório publicado por Lima Jr.
i de acordo com as leis vigentes num Estado ou, como acontece em muitos |
et. al.
1 casos, ilegais”^
Deixando dc lado a possibilidade de realização dc uma reforma agrᬠ[...] embora as práticas criminosas possam ser atribuídas mais a pistoleiros
contratados pelos fazendeiros, é certo que a polícia, com ou sem ordem judicial
ria de peso, o governo, ao mesmojempo em que por um lado adotajx>liticas
de despejo, tem usado força excessiva em várias ocasiões, atirando em multi-
como as [Link] compõem a chamada [Link]ária de mercado, por
outro lado reprimejeom violência as manifestações que [Link] (^“A chacina foi o resultado de um processo de negociação tenso realizado entre
agrária através das^cupaçõ[Link] de promover a chamada “judiciarização Govemo do estado do Pará, a polícia militar, os representantes do INCRA e os
da luta pela reforma agrária”.Í^A década de noventa foi especialmentc vio¬ integrantes do movimento sem terra, durante os anos de 1994 a1996”. VARELLA,
Marcelo Dias. op. cit. p. 144. Estavam acampadas ccrca dc mil e quinhentas pesso¬
lenta nessa repressão, sendo que o arbítrio das lesões e mortes esteve presente. as bloqueando a rodovia PA- 150, em manifestação para pressionar o Governo a de¬
Um fato paradigmático foi o ocorrido no dia 17 de abril dcj£96. co¬ sapropriar o complexo Macaxeira, no município dc Parauapebas. Os trabalhadores
nhecido como o massacre dc [Link] Carajás, no estado do Pará,, onde sem terra bloquearam a rodovia para reivindicar comida e transporte necessários
para seguir até Belém. Porém, buscando combater os ocupantes, chegaram
ao local
dois ônibus de policiais militares, portando armas dc fogo, escudos e
cassetetes.
MEDEIROS, Leonilde de Sérvolo. Dimensões políticas da violência no campo, p. Encurralados os manifestantes, “entre os dois contingentes e a topografia local”,
1.93. , os policiais militares retiraram suas tarjetas de identificação, c começaram a
atirar.
(‘^BARATTA, Alessandra. Derechos humanos: entre violência estructura! y violência O pânico tomou conta das pessoas, sendo que 19 pessoas foram mortas e
ficaram feridas, ibid. p. 448. dezenas
penal, p. 339.
^ibid. 3 BARREIRA, César, op. cit. p. 1 72-175.
t5' Este é.o termo usado por Femandes para se referir [Link] .processo que possui três i ^‘bid.p. 184.
jlimensòes'. "o uso indevido da ação posscssória, por exemplo a
grilagem defer-^ ^Na ocasião a Policia Militar invadiu um acampamento dos sem terra no
Município
' ras; em caso de ocupação, a realização do
despejo em defesa dos
trabalhadores;
dos^
interesses e
o n®
f de Corumbiara (RO). “Ao arrepio da lei - que só permite ações de reintegração
de posse â luz do dia o confronto resultou em 11 mortos e
da vida dos % numerosos feridos c
privilégios dos latifundiários c em detrimento compreender ag^ t desaparecidos. Nove trabalhadores rurais foram assassinados, alguns
-desenvolvimento do processo discriminatório necessário para à queima rou-
' zão do conflito". FERNANDES, Bernardo Mançano. A judiciarização luta^ãl
da í pa, outros pelas costas, barracos incendiados, corpos carbonizados”. SILVA,
Gomes da.A reforma agrária brasileira na virada do milénio... op. cit. p. 92.
José
reforma agrária... op. cit. p. 394.
168 169
dões de trabalhadores e suas famílias, espancando-os e queimando suas casas jjgm como do^[Link]-ge atos de ocupação de terras com
para forçá-los a abandonar a terra e torna^ejmniyjMt.e_cojn-Os_hoiniç£dios na fatos criminosos é já corriqueiro, sendo que os participantes de ocupações co-
medida em que não os investiga corretamente^^ mumente já sofreram mais de um processo criminal. Os líderes do MST também
A violênciaJnstitucional em relação aos conflitos do campo ocorreu já possuem grande experiência em delegacias de-polícia e prisões.
de forma particular durante a ditadura m i li tqr, dando lugar ao que Martins / Nesse ponto passa a ficar mais claro o significado da acão do sistema
chamou de militarização da questão agrária no Brasil. Alem da violência fí- ©penal no campo: [Link]..[Link] “crimes” e “criminosos". Sabendo-se que,
sica do_poJicial,JsJâgmiÇí>, da violência da justiça, que, segundo o autor, se j í no marco construcionista, não existe crime sem reação social, as agências do
Transformou em executora de uma política de expropriação territorial, privile¬ sistema penal produzem, com as prisões, a relação entre reivindicações de ter¬
giando os interesses da empresa privada sobre os dos trabalhadores, ajnilita- ra, e criminalidade. A partir dai, a redução de atos políticos a atos criminosos
rização foi uma terceira forma de violência, decorrente dessas outras duas©
ganha também a opinião pública, e, a partir das interações sociais, rei vindica-
ções_são construídas socialmente como crimes.
Õ pretexto da infiltração comunista bastou para.a ditadura militar dizimar um. Ao realizarem as prisões, ainda logram delimitar o inimigo, e, estrate¬
grande número de líderes dos trabalhadores rurais. Esses pretextos historica¬ '
gicamente, desmobilíza-se os agentes, podendo neutralizá-los com o encarce-
mente foram utilizados para a repressão armada aos movimentos dos pobres
.ramento. Dessa forma, identifica-se os atos praticados durante as ocupações
do campo, como no caso da acusação dc monarquismo aos camponeses que pelos integrantes do MST com invasões, saques, ou seja, fatos criminosos
lutavam nas revoltas de Canudos e do Contestado.*198 Diferentes pretextos com
comuns. Dentre as acusações, resultantes constam os crimes de dano, “pelas
uma prática comum: agressão, .tortura e morte.
cercas e demais estruturas destruídas quando das ocupações; furto, pelo de¬
Com efeito, ao contrário de a intervenção militar, nas relações rurais saparecimento de lascas de madeira, cercas de arame, bois e alguns outros
reduzir o poder dos grandes proprietários, na verdade ambas as forças se com¬ animais; usyxpaçãP, devido às ocupações de terra, e formação de quadrilha,
plementaram na repressão violenta aos movimentos sociais para a manuten¬ pela reunião para o fim de cometer os crimes anteriores”.201
ção da ordem. .A|gyuias decisões dos tribunais avançaram na interpretação dessas ca-
Claramente, a ação repressiva longe de favorecer o monopólio da violência por pitidações na décadad.e 1 990. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 1996,
parte das instituições militares, implicou, ao contrário, um amplo favorecimen- firmou jurisprudência sobre a necessidade de distinguir uma forma legítima
to da violência paramilitar e privada dos grandes proprietários de terra. Nunca de pressão democrática de qualquer tipo de figura delituosa. Nessa decisão,
na história [Link] o latifúndio foi tão poderoso no uso da violência privada o voto do Ministro Luiz Vicente Cemicchiaro trouxe elementos inéditos a
e nunca as forças armadas foram tão frágeis em relação a ele quanto durante o respeito. Para ele, “a conduta do agente do esbulho possessório é substancial-
regime militar. mente distinta da conduta da pessoa com interesse na reforma agrária”.202 No
caso julgado na oportunidade tratava-se de um Habeas Corpus em função da
Além da violência institucional representada pela repressão annada aos
prisão de integrantes do MST. Observou o Ministro que
trabalhadores rurais que demonstram a sua inconformidade com a atual situação
da distribuição de terras, e praticam as ocupações, outra prática violenta, desta P®yBergalli esclarece que ã Galtung diferencia .a violência estrutural da violência institu- (
vez supostamente amparada na lei, é a da prisão das lideranç[Link].s, 1>*-Çioiwl atravésJa existência oq,i)ão de um sujeito em especial,que provoque a violência. /
I Ou seja, a primeira é mais abstrata, e nào algo que se possa a atribuir a uma instituição ii
em especial, como na segunda. BERGALL1, Roberto. La violência del sistema penal.|
In: BERGALLI, Roberto et. a/.Control social punitivo: Sistema penal e instancias de|
(©LIMA JR., Jayme Benvenuto et. al. op. cit. p. 21. aplicación (policia, jurisdicción y cárcel. p. 7-23. Barcelona: M. J. Bosch, 1 996.
© MARTINS, José de Souza. A militarização da questão agrária no Brasil... op. 201
VARELLA, Marcelo Dias. op. cit. p. 327-328.
cit. 202
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Voto do Ministro Luiz Vicente Cernicchia-
IW JONES, Alberto da Silva. Questão agrária e direito de propriedade. In: VARELLA,
ro. Habcas-corpus no 4.399, da 6a Turma do Superior Tribunal de Justiça, Brasília,
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MARTINS, José de Souza. O poder do atraso... op. cit. p. 82-83. Acesso em: 13 jun. 2007.
170 171
no esbulho possessório, o agente dolosamente, investe quando está em risco
os fins sociais e as exigências do bem comum sobretudo
contra a proprieda¬
de alheia, a fim de usufruir um de seus atributos (uso).
Ou alterar os limites do
dominio para enriquecimento sem justa causa. No caso dos autos, ao contrário, o direito à vida.*2”1
diviso pressão social para concretização de um direito (pelo
se). No primeiro caso, contraste de legalidade -
menos interes¬ Em_pesquisa sobre as prisões geradas por conflitos ।
agrários no J3rasil,
compreende aspectos material Lima, e Strozake observam que elas “acontecem muito
mais na esfera policial I
e formal.205
do que judicial e, portanto, são prisões que parecem
servir mais ao controle. ।'
de crime propriamente dito”207 j
A análise [Link] a qual atuam os sem terra na ocupação,
muito social do que em razão de um cometimento ps sem-terra,,
diferente daquelas relativas aos crimes pelos quais costumam ser L [Link] a-arbitrariedade, comra qual a polícia atua sobre
o que descaracteriza a ocupação como infração denunciados, é exercicio_de_poder e de controle social. , j
penal, através do tipo de culpabi¬ Jq mas também deixa clara a função de
alguns locais_aJJtilização
lidade inserido na Teoria Geral do Delito, exposta por
Cemicchiaro em seu voto. W Por outro lado, os autores também verificaram em perse-
“Grosso modo seria a possibilidade do operador do Direito
analisar o [Link] do Direito Penal e do Processo Penal por juízes [Link]
corii o
jeprovabilidade da [Link] no
meio social e de [Link] guição política aos militantes dos movimentos^sociais-concordandó
..tutelado, privilegiando q aspecto material do delito em
detrimento do
Em outra decisão do STJ, de 1997, constou de sua ementa,formal?.2?4
relatório da Anistia Internacional, de 1997^^ valorações, con¬
que “mo¬ Sabe-se que as decisões judiciais são sempre eivadas de
sobre os second codes.
vimento popular visando a implantar a reforma agrária não
caracteriza crime siderando-se o que já foi abordado no primeiro capítulo ocupações de terras
de
contra o património. Configura^direito-coletivo,_expressão
da cidadania, vi¬ Sendo assim, as decisões em processos gerados a partir
um posicionamento
sando a implantar programa constante da Constituição da_República.
A pres¬ costumam ser polarizadas. De [Link], juízes ç|ue possuem que^fato típico
são popular é própria do Estado de Direito
Democrático’^5? mais conservador e legalista buscam desconsiderar o contextoem abordagem^ Por
Assim, a forma corno a interpretação dos casos se ocorre, demonstrando que o jurista deve_se-abster_desse [Link]
dá nos tribunais e [Link]ões±istóri-
depende também do grau de compreensão em
relação à hermenêutica cons¬ outro lado, a corrente crítica argumenta, atravé_s_.da dogmática
dejustiça sociaír-
titucional. Sabendo-se que a interpretação de todo o cps a nãoexistência de crime e a n£cessidade_de perseguição
brasileiro, além de todos os atos praticados por pessoasordenamento jurídico
públicas ou privadas, Para a corrente conservadora, apesar de as manifestações
públicas exi¬
deve estar em consonância com os princípios da ser atribuição da jus¬
República, bem como com gindo direitos sejam próprias da democracia, “acreditam aptidão
vocação’ ou ‘com
seus objetivos e direitos fundamentais que deles decorrem,
a legitimidade de tiça criminal separar os ‘trabalhadores nirais com
organizações”.210 Há, então, uma
qualquer ato deve ser analisada por essa ótica.
O que precisa ser compreendido é que a legitimacã[Link]ão_decarre_de
_
agrícola’ e os ‘criminosos Jnfiltrados’ nas
C.-.wy"?! Aí,|i r! -> '1 < - r C
V
..sua destinação, ou seja, o trabalho vem em primeiro lugar, 2“ SILVA, José Gomes da. Ocupação e invasão... op. cit. p. 110.
pois é
que conduz a ação de ocupação na busca de um sustento próprio a produção ( 2yLIMA, Renato Sérgio de; STROZAKE, Juvelino. Garantias
constitucionais e pri-
para a sobre¬ sões motivadas por conflitos agrários no Brasil.
Revista Brasileira de Ciências
vivência. Frente a estas situações de emergência, a aplicação p. 321-339. São Paulo; Revista dos
da lei tem que Criminais, ano 14, n. 60, maio-junho de 2006,
atender à racionalidade inquestionável da lógica jurídica,
ou seja, considerar Tribunais, 2006. p. 327.
condenação do líder sem terra José ,
07 ibid. p. 328. Esse relatório foi publicado após a
205 do MST, presos em função das atividades i
204
ibid. j Rainha Júnior, e considera os integrantes seus processos se dão [Link] i i
SIQUEIRA, Cecília Pessoa Guerra de; HIRAYAMA,
Viviane Vinaud. Ocupação: । do movimento, como presos políticos, porauS-Qs
modo de realizar a promessa constitucional de Refonna / 1 em função do gue pensam e àBrasil: sua participação no MST do que nas provas. AM- 1[ i
nica CastagnaFr. al. (Orgs.) O direito achado na rua Agrária. In: MOLINA, Mô- Cargos penales por motivos políticos contra
-introdução crítica ao direi- j / NISTÍA INTERNACIONAL. Disponível em: <[Link] ry/
to agrário, v. 3. p. 165-175, Brasília:
Universidade de Brasília, 2001. p. 293 activistas de la reforma agraria.
2”7BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Ementa. Habeas-corpus no . print/ESLAMR190171997> Acesso em:os conflitos 28 jul. 2007.
J Turma do Superior Tribunal 5.574, da 6a (segundo juízes e pro¬
de Justiça, Brasília, DF, 08 de abril de 1 997. Disponí¬ (J°zSINHORETTO, Jacqueline. da Associação Juízes agrários
A justiça e
para a democracia, ano 1 1, n.
vel em; <[Link]
SCON/jurisprudencia/[Link]?livre=5574&&b=A motores). Publicação oficial
COR&p=true&t=&l=10&i=4> Acesso em: 13jun. 2007. 40, dez 2006/fev. 2007. p. 3.
210 ibid.
172 173
ligeira compreensão dos motivos dos sem terra, porem, a sua atuação continua
de contenção, porque são processados não
condenados”(l!Jlsso significa que
sendo percebida como criminosa, sendo que entre estes atores devem ser iden¬ riarn_aAcgalidade dos
tificados os genuínos homens do campo e os criminosos. Tudo indica, nesse a lei penai e processual, e a Constituição, que garanti
enquanto que aos ini¬
^contexto, que, pejo-fato_de o estereótipo d o camponês não se coadunar com o atos do sistérna penaLsão reservados apenas aos amigos,
_do-handido, torna-se_necessário-despi-lo primeiro-de-scu-rótulo migos é dado o arbítrio. Ironicamente, contraria-se a fala atribuída a Getúlio
de camponês Vargas, que dizia: “Para os amigos, tudo. Para os inimigos, a lei”.
_para posteriormente etiqiie.táJo_como
criminoso infiltrado Zaffaroni ressalta que, das três categorias de clientes do sistema penal,
Apesar de as penas cominadas aos manifestantes serem em regra redu¬ são elimi-ã
zidas, em função dos tipos penais aos quais se logra adaptar aos seus atos, a osjndcscjáycis se encontram nas piores situações, já que, em regra índices dej
— por altos
MA A A
--- a reiteração
regra é que I*haja A
" ** x*
da — *
criminalização, sendo que após ser criminal i-
-
vulnerável^jEsse
tipo de
construção da delinquência pelas agencias do sistema penal traz como princi-
। pal função o controle social dos dissidentes._
I nados através de internação em cárceres caracterizados
morbidade, até mesmo em função das condições de higiene, agressões físicas,
e homicídios. Já os dissidentes “são mais tolerados, ainda que a repressão ao
protesto social dos excluídos do sistema produtivo tenha aumentado, median¬
te a aplicação extensiva de tipos penais e a interpretação restringida de causas
Esta política deliberada dos governos constitucionais busca tanto o disciplína- de justificação ou de exculpação”.214 Constituindo-se em poucos^QsJguais são
mento social como a intenção de deslegitimar as reclamações,
desqualificando
seus verdadeiros objetivos e obstaculizando qualquer alternativa distinta à
os únicos ajitilizar os benefícios do direito penal liberalí^V
I No caso, dos pobres, organizados do campo é interessante que, mais
ordem política e económica vigente^) I do que nunca, a sua criminalização configura a delimitação do inimigo. Isso
A finalidade dessa rcpressãO-penaLé-justamente a desarticulação das or¬ porque, ao se relacionar a pesquisa citada entre juízes e promotores conser¬
ganizações, retirando pessoas incómodas de circulação, c fazendo recair sobre vadores, que separam os camponeses dos criminosos infiltrados, fica clara a
seus líderes e membros a etiqueta de criminosos. Possibilita-se dessa maneira relação entre eles e a sua ideologia política. Aquele posicionamento é vincula¬
um maior controle social sobre uma só classe. do principalmente à ideia de que os infiltrados são os comunistas que querem
Ajrisão dos sem terra, principalmente sem condenação,
configurajt instaurar uma outra ordem social no país a partir de suas reivindicações. Nesse
utilização ao máximo de um sistema penal reservado aos inimigos, mas que na sentido, o inimigo interno adquire caractcrísticas cada vez mais próximas da-
América Latina atinge a maioria dos presos: “A característica mais destacada
do poder punitivo latino-americano atual em relação ao aprisionamento é que (MZAFFARONI, Eugênio Raúl. O inimigo no direito penal... op. cit. p. 70. ,
a grande maioria - aproximadamente % - dos presos está submetida a SLibid. p. 71.
medidas 1
2vCom essa classificação, Zaffaroni busca demonstrar que o poder punitivo “sempre ;
discriminou os seres humanos e lhes conferiu um tratamento punitivo que não cones-
pondia à condição de pessoas, dado que os considerava apenas como entes perigosos '
e, por
( 2"/LUNA, Franco Aricl; ALAN1Z, Liliana Alejandra. No siempre tenemos que poncr ou daninhos. Esses seres humanos são assinalados como /nwn'goA'-da-socicdadc
la outra mejilla. In: Poncncias del XV Congreso Lafmoamericano, conseguinte, a eles é negado o direito [Link]ções_sançionadas dentro dos li-
VH1 Ibero- _mites do direito pcnalJíberal [...]”. ibid. p. [Link] explicar a essência
dojnimigo. explica
americano y XI Nacional de Derccho Penal y Criminologia, p. 59-64.
Córdoba: que “ojniniigo deçldraàoJhostisji/dicatus) confieura.o núcleo do tronco dos dissiden- ।
^NECIP, 2003. p. 59. [Link] plantão, do qual participarão os inimigos políticos í
t^AQUINO, RubenDario; CORONEL, Sebastian Leonardo; YBANEZ, Ricardo Da¬ to [Link] abertos do
puros de todos os tempos. Trata-se de inimigos-declarados. não porque declarem ou i
[Link]ón de ia protesta vs. ejercicio del derccho de resistência a la
opresión: la transpolación de un conflicto social al campo de lo manifestem sua animosidade, mas sim porque a declara. coxnoAús: não se (
penal. In: Ponen- mesmos, mas antes são declarados pelo poder”, ibid. p. 23. A questão a se 1
cias del XV Congreso Latinoamcricano, VIII Iberoamericano declaram a si
y XI Nacional inimigo no direito do Estado
responder é justamente se é possível admitir o conceitode
•
174
175
_O resultado da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) “da
quele utilizado para fomentar a propagação da ideologia da segurança nacio¬ j£Ha”4!^GQiuikr^ novembro de 2005, d um claro exempla da tentativa
nal a partir da década de sessenta^/ de crimmalizaçãojiQjLparte dos,setores que detêm o poder de definição. Isso
Sendo assim, o controle social formal não se ocupa apenas de cons- 1 porque o relatório aprovado traz duas propostas de projetos de lei em que se
truir uma criminalidade comum, de forma seletiva, mas principalmente, de busca criminalizar as ocupações de terra eJnseri Jas no rol de crimes hedion-
construir um inimigo político, ao separar os lideres dos_demais camponeses. dos^-além de configurá-las como atos terroristasy'y
J No momento em que se rotula os atos dos sem terra como atos criminosos, II
1 i possibilita-se que algumas parcelas da sociedade os identifiquem dessa manei- 1
' ra, auxiliando no controle social.
^^Asso Nacional
Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito criadas no âmbito do Congres¬
são
e integradas por Deputados e Senadores, podendo ser Permanentes ou
Observe-se, porém, que esse inimigo político não é delimitado apenas Temporárias. Têm regras de criação e funcionamento definidas no Regimento Co-
através da atuação das agências do sistema penal formal, ou seja, da crimina- ^mum, à semelhança do que ocorre com as demais Comissões de cada uma das Casas.
A Comissão parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) “da Terra” foi criada “com o obje¬
Jização secundária. A_griminalização primária também é fundamental nesse tivo de realizar amplo diagnóstico sobre a estrutura fundiária brasileira, os processos de
sentido. Além de se notar a extrema preocupação com o património na lei reforma agrária e urbana, os movimentos sociais de trabalhadores (que têm promovido
penal, mais do que com a pessoa, os grupos que se encontram em maioria nas ocupações de terras, áreas e edifícios privados e públicos, por vezes com violência), as¬
( casas legislativas brasileiras sempre buscaram criminalizar as condutas dos I sim como os movimentos de proprietários de terras (que, segundo se divulga, têm-se
organizado para impedir as ocupações por vezes com violência)”. A CPMI teve como
setores mais frágeis e vulneráveis às agências do sistema penal. Assim, a esco-
i lha seletiva dos bens a serem protegidos pelo direito penal na criminalização
- presidente o Senador Álvaro Dias (PSDB-PR),. como Vice-Presidente o [Link]
/ LorgnzsmLfPFLçRS) e como relator o_DePUtado João..Al&£dp_ÍRSQL-CE). Após dois
primária por apenas um estrato social, de classe alta, branca e masculina, faz anosde desenvolvimento da CPMI, o relatório foi apresentado pelo Deputado João Al- j
com que os seus interesses sejam sobrelevados na criação das leis. fredo no dia 22 de novembro de 2005, lido em sessão. Porém, não pôde ser votado porque
[...] o sistema penal [...] irá refletir os interesses e proteger, de forma especial, os
bens jurídicos próprios da minoria detentora das riquezas e da mais substancial
parcela de poder, dirigindo seu maior rigor para uma prioritária punição de con¬
dutas praticadas por membros das classes subalternizadas, e, assim, funcionando,
Ívários parlamentares, pertencentes à bancada ruralista, pediram vista do relatório, conse¬
guindo banar a votação. No dia 29 de novembro houve a sessão onde o relatório foi postoj
em votação. Porém, o mesmo foi rejeitado, tendo 13 votos contrários e oito favoráveis. O
tom adotado no documento apresentado por João Alfredo, de forma favorável à reforma
agrária e contrária aos interesses dos ruralistas, provocou atritos e levou integrantes da
através da desigual e seletiva manifestação de poder, expressada na imposição da bancada ruralista a apresentarem outro texto, assinado [Link] Abelardo Lupiqn. rL.
pena, como importante instrumento de manutenção e reprodução excludente de j_(PFL-PR). Esse relatório foi o extremO-Oposto do originaLejeflete-asmosicõcs-antagQni-
Tf cas daMST e da União Democrática Ruralista (UDR),_elfbi_apiovado por 12 votos a um. '
injusta estrutura económica e social dominant^^j ' ' Enquanto no relatório do Deputado João Alfredo contava-se 751 páginas, sendo 27 delas
de encaminhamentos, uma proposta de emenda constitucionaljlrês projetos de leis ordi¬
/
216
A ideologia da segurança ^nacional ganhou importância no Brasil no período da nárias e um projeto de lei complementar, o de Abelardo Lupion tem 365 páginas, sendo
ditadura militar. “Foi ela inspirada na doutrina elaborada no National War College, 9 de encaminhamentos e dois projetos de leis criminais. O relatório de João Alfredo trou¬
nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Tratava-se de uma resposta xe detalhadamente o que foi constatado nas viagens, com respaldo teórico, relacionado
ao avanço dos movimentos de ideologia comunista, que estavam multiplicando a aos depoimentos colhidos. Dedicou, de forma proporcional, 66 páginas aos movimentos
sua influência em todo o mundo, inclusive em países estrategicamente importantes sociais no campo e 56 páginas às organizações e entidades ruralistas. Trouxe, em 296
para o projeto de expansão norte-americano, tal como o Brasil”. DAL RI JR., Amo. páginas, a análise dos casos que a CPMI da Terra localizou em nove estados. Fez também
op. cit. p. 280. Isso fica claro no manual básico da Escola Superior de Guerra, ci¬ um diagnóstico da questão urbana relacionada ao setor imobiliário. Quanto aos encami¬
tada por Dal Ri Jr: “Qqmnçeito tradicional .de-defesa,nacional coloca mais ênfase nhamentos aõ LegislãfikQ^pão trouxe nenhuma proposta em matéria cnmínãl. estando
sobre os aspectos militares da segurança e, correlatamente, sobre os problemas todas diretamente relacionados à viabilização da reforma agrária. Já o relatório do Sena¬
de agressão externa. A noção de segurança é mais abrangente.. Compreende, por dor Abelardo Lupion dedica 209 páginas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sèm
assim dizer, a defesa global das instituições, incorporando, por isso, os aspectos Terra, trazendo uma série de acusações a respeito de irregularidades de convénios, além
psicossociais, a preservação do desenvolvimento e da estabilidade política interna; de abordar exaustivamente referências ideológicas ao MST. Quanto aos casos de violên¬
além disso, o conceito de segurança, muito mais explicitamente que o de defesa, cia no campo, narrados pelos depoentes, bem como averiguados in loco pela CPMI, dez j
''ideológica”. Escola
JKARAM, Maria
- Superior
-
Lúcia,
•
de—
toma em linha— de conta a agressão interna, cojporificada
- Guerra apud’ DAL
op. cit. p. 247.
‘ »rs
RI JR.,
na infiltração e subversão
Amo.
*
op. cit. p. 283.
páginas são dedicadasJEm relaçãoàsentidades ruralistas. ao trabalho escravo e às mortes \
/) dos trabalhadores no_ campo, nada é mencionado. X
177
176
Um dos projetos ,criajo_tipp_penal “Esbulho possessório com fins polí¬
ticos”, que seria o parágrafo segundo do artigo 161 do Código Penal, com a os seus resultados, e o que era para ter sido um estudo sobre as violências no
seguinte redação: “Saquear, invadir, depredar ou incendiar propriedade alheia campo tomou-se ele próprio uma forma cruel de violência simbólica.
ou manter quem nela se encontre em cárcere privado, com o fim de manifestar Na questão agrária, o fato de a maior parte dos representantes do povo
inconformismo político ou de pressionar o govenjp a fazer ou deixar de fazer ai-; ser constituída de proprietários de terras faz justamente com que as demandas
guma coisa: Pena - reclusão, de três a dez anos”é%Àlcm disso, tal projeto busca por reforma agrária não progridam, bem como, que os atos dos sem terra pro¬
alterar o artigo 92 do_Código Penal, para acrescentar aos efeitos da condenação duzam efeitos que não o da sua própria criminalização.
1
o inciso IV, com a seguinte redação: “a extinção de pessoa jurídica legalmente ( Há cerca de 180 representantes dos chamados ruralistas na Câmara dos Depu-
instituída e utilizada para prática de crime por iniciativa ou consentimento de tados, o que corresponde a mais de um terço dos votos. Mas, deinograficamcn-
seus dirigentes”.*221 Por último, prevê a inclusão daquele tipo penal, o do esbulho te, as elites não são um terço da população. Pggjanto,.estão usurpando oJugar
.possessório com fins políticos, np rol dos crimesjjediondos. Ú? [Link]ém, alguém quejiã[Link] lá.[Link], estão ocupando
( certamente o lugar dos pobres e dos que trabalham.
225 , /
Na justificativa de tal projeto consta a explicação de que existe uma
lacuna na legislação penal, e que, por isso, os integrantes do MST seguem A violência do sistema penal inicia, portanto, pela atuação dos própriosJe.-
impunes por seus atos. Isso porque, em geral, só há a condenação por dano e gisladores. A^Constituição de 1 988, com os valores emancipatórios que trouxe,
formação de quadrilha, já que o elemento subjetivo de outros tipos não está ' não logrou ainda penetrar na mente dos representantes do povo. Da mesma forma
presente. A justificativa encerra ç[Link]
frase: “Com este projeto tor¬ como dQSjuízcs e também [Link]. A atuação do judiciário, com [Link]-
nado lei, buscamos dar resposta eficaz ao estágio que chegou esse tipo de ceções, contribui muito para a manutenção do sfattts quo. privilegiando os interes¬
movimento dito ‘social’, que impõe inaceitável desrespeito à liberdade social ses dos grandes proprietários em detrimento da situação paupérrima dos sem terra.
e à autoridade do Estado e fragiliza o processo jurídico-democrático, o qual,
há vinte anos, vem se consolidando em nosso país”.222 O papel do sistema penal na reprodução da violência estrutural
_O_outro Drojeto-Droposto_prevê.[Link]é[Link]ágrafQ-ao arL.20-
, da Lei 7170/1983.([Link]ça Nacional), de forma que o ato de quem Sendo reconhccidamcntc míope, por consagrar a ideia de violência
resumida à violência individual, o sistema penal necessita, para o bem de
1 invade a propriedade alheia com o fim de pressionar o governo seja conside¬
rado atoterrorista. A redação do parágrafo é: “incide nas mesmas penas quem '
saqueia, invade, depreda ou incendeia propriedade alheia, ou mantém quem|
controlar socialmente os pobres, individualizar suas condutas. E como se in¬
dividualizam atos cometidos com objetivos políticos claros de pressão social
nela se encontra em cárcere privado, com o fim de manifestar inconformismo| diante do descumprimento da Conslituição_Eedcra c das leis? A resposta c
político ou de pressionar o governo a fazer ou deixar de fazer alguma coisa”.223 fácil e vem sendo diariamente instrumentalizada: despolitizá-los.
Ao que parece, isso demonstra justamente a tese das teorias conflituais Sobre o assunto, merece destaque o trabalho de Vera Andrade, que che¬
da criminalidade, onde se percebe_quc os grupos Que estão no poder buscam ga justamente a essa conclusão, ao identificar na utilização do paradigma béli¬
criminalizarás atos [Link],através [Link] de definição.^Assim, defi- co uma forma de demarcação do inimigo interno. A partir daí “a problemática
ne.-seo que é crime e quem são os criminosos. Mesmo que esses projetos ja¬ agrária é, no mesmo movimento despolitizada c policizada (ou militarizada).
mais venham a ser votados e aprovados, o relatório já cumpriu com sua função No trajeto da exclusão social à criminalização penai, duplica-se a vjolência.
simbólica. Todos os noticiários do dia 30 de novembro de 2005 divulgaram assim [Link]-se a imunização”.226
Nota-se, portanto, que a criminalização dos sem terra só é possível em
(^BRASIL. Congresso Nacional. CPM1 “da Terra”: Relatório substitutivo. Relator: função da individualização dos conflitos. Dessa forma toma-se fácil legitimar
2,1
Deputado Abelardo Lupiòn. Brasília, 2005. mimeo. a atuação das agências de controle penal, rccaindo-sc na violência institucio-
ibid.
222
ibid. p. 368. 225 MARTINS, José de Souza. A questão agrária brasileira... op. cit. p. 28.
2^ibid. p. 369. 226 ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A construção social dos conflitos agrários
como criminalidade. In : VARELLA, Marcelo Dias (org.). Revoluções no campo
^^/B ARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal, op. cit.
jurídico, p. 327-354. Joinville: OFICINA, 1998. p. 346.
178
179
nal. Como, nota Baratta, “uma característica geral da construção dos .conflitos Porém, jnaislmportaiite_áanalisar qual função está [Link].rida_pelo
i í
dentro do pensamento-penal e criminalógiço tradicional, é justamente a sua
| ’• sistemajenal ao atuar sobre os excluídos descontentes. Ao conseguirem im-L
‘despolitização' em termos de uma suposta ciência do comportamento indivi¬ por ao sistema a impunidade às próprias ações criminais, os grupos poderosos!
dual e de uma técnica de respostas a ele”.227 da sociedade determinam a perseguição punitiva às infrações praticadas pela!
Pelo fato de se individualizarem as lutas, de elas serem tratadas pelo di¬ parcela mais frágil da população, reproduzindo-se as desigualdades sociais !
reito penal, e não pelo constitucional, há a identificação de pólos, o do bem e o existentes. “A imunidade e a criminalização são concretizadas, geralmente
do mal.22" E, diante disso, a delimitação de quem são os amigos e de quem são os I pelos sistemas punitivos segundo a lógica das desigúaldades nas relações de
inimigos, contra os quais o sistema penal e a opinião pública deverão se voltar. I propriedade e de poder”Qy
Sabe-se que o sistema penai atua segundo uma lógica absolutamente Além de a clientela do sistema penal ser constituída de pobres e ex¬
seletiva, sendo esta a sua operacionalidade e objetivo real e não um erro na cluídos em geral, as pessoas que reivindicam mudanças do_ç/fl/zzsLq»o_são
sua execução. Q sistema_.[Link] intervém, então^para manter a situado e não frequentementejd£[Link]. como criminosas.
para modificá-Ja. Sendo assim, constrói socialmente a ideia de que uma situ-
I A impunidade dos crimes mais graves é cada vez mais elevada à medida em
j íação complexa de conflitualidade se resume a um simples conflito, subversor / que cresce a violência estrutural e a prepotência das minorias privilegiadas
I ida ordem. Tal conflito se soluciona, segundo essa ótica, a partir da atuação do que pretendem satisfazer as suas necessidades em detrimento das necessida¬
1 |sistema penal, reprimindo e acuando os subversores. des dos demais e reprimir com violência física as exigências de progresso e I
[Link] individualizar os conflitos. oço_rre_o ocultamento-das demais for¬ | justiça, assim como as pessoas, os grupos sociais e movimentos que são seus I
mas de violência, em especial das violências estrutural e institucionaLA-pri- í intérpretes.2’2
são contribui para essa imagem da criminalidade como sendo constituída de
atos de pessoas, tidas como perigosas.229 O medo e a sensação de insegurança A lógica de funcionamento do sistema penal é, portanto, dé “ao mesmo
passam a se dirigir, diante disso, a algumas pessoas, e o discurso periculosista tempo em que criminaliza os socialmente excluídos, imuniza-se as estruturas,
acaba legitimando políticas de repressão, de lei e ordem, de_redução^de-di- o Estado e suas instituições, bem como os latifundiários e sua constelação
'
reitos humanos. “A este tipo particularmente perverso de busca por legitimar protetora’’.233 A impunidade em relação às
mortes de camponeses no campo
a injustiça nas relações sociais, à repressão violenta da demanda de justiça, é um excmplo-dessa imunidade. Entre 1985 e 2003, diante de 1349 vítimas
pertence o uso público da doutrina de ‘segurança nacional’ e da pcnaJegaLe de conflitos no campo em todo o país, apenas 64 executores e 15 mandantes
extralegal como guerra ao ‘inimigo interno’”230. foram condenados, segundo dados da CPT. Dos 1004 crimes ocorridos no
período, 75 foram a julgamento, ou seja, 7,5%.234
22'BARATTA, Alessandra. Deiechos humanos: entre violência estructura! y violência
penal. .. p. 352. Tradução livre do original em espanhol: “Una característica gene¬
ral de la construcción de los conflictos dentro de las categorias del pensamiento
pe¬
nal y criminológico tradicional es su ‘despolitización’ en términos de una supuesta r 2yibid. Tradução livre do original em espanhol: “La inmunidad y la criminalización
son concretadas, generalmente por los sistemas punitivos según la lógica de las
ciência del comportamiento individual y de una técnica de respuestas a él”. desigualdades en las relaciones de propiedad y poder”.
22S ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A construção social dos conflitos agrários 232
ibid. Tradução livre do original em espanhol: “[...] la impunidad de los crímenes
como criminalidade, p. 346. E necessário destacar que, muito embora este trabalho más graves es cada vez más elevada, en la medida en que crecen la violência es-
busque desocultar a lógica de criminalização dos conflitos sociais, isso não signi¬
tructural y la prepotência de minorias privilegiadas, que pretenden satisfacer sus
fica que se deva apenas inverter os pólos, demonstrado-se que os sem-terra são o propias necesidades en desmedro de las necesidades de los otros y reprimir con la
pólo do bem e os proprietários e o sistema penal correspondem ao pólo do mal.
Devido à complexidade das interações sociais, não cabe reduzi-las dessa maneira, violência física las demandas de progreso y de justicia, así como a las personas, a
los grupos sociales y a los movimientos, que son sus intérpretes”.
sendo necessário problematizar todos os grupos envolvidos. Entretanto, este não 233
é o objetivo do trabalho, que delimita o seu foco [Link]çãp.do_procÊSSp ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A construção social dos conflitos agrários
de criminalização dosconflitos agrários e de suajeproducão-simbólica^atray.és-da como criminalidade... op. cit. p. 344.
234
construção social na interação com os meios de comunicação de_massa. MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. Brasil julga
229
'
ibid. p. 346. só 7,5% dos crimes no campo. Disponível em: <[Link] /setores/
230
ibid. dhumanos/violacoes/ [Link]> Acesso em: 15 mar. 2006. sp.
180 181
" Assim, ao se constatar que o sistema penal não satisfaz qualquer uma
JjgraLpriyilÊgiado p_ara a exposição [Link].£ajpmal,E esse meio tem
; de suas funções instrumentais justificadas pelo discurso jurídico-penal, como
ainda algumas características que o situam de maneira diferenciada em relação
< defender os bens jurídicos, reprimir a criminalidade, etc., observa-se que isso
não significa o não cumprimento de outras funções, causando alguns efeitos.
aos demais. Algumas delas já foram vistas no primeiro capitulo, e dizem respeito,
principalmente, ao lugar objetivo da fala. O que se pretende no discurso do jornal ,
Estes efeitos e funçõesjncjdem_negativamente [Link]ência de indivíduos e 4 distanciar o máximo os fatos das opiniões, propiciando, assim, que, além de os l
.na socicdade, e contribuem a reproduzir as relações desiguais de propriedade j receptores verem o que o jornal está expondo, devem crer nessa informação.'236
e de poder. Desse ponto de vista, a pena se apresenta como violência institu- Na busca por [Link] idade, entretanto, uma leitura mais atenta do
• cional, quercumpre a função de um instrumento de reprodução da violência discurso e da seletividade que o permeia, é possível perceber a_utilizaç.ão de
estruturaQ^/ uma linguagem que,_alé[Link]. [Link], difunde e legitima .valores. Em
_Para reproduzir a violência-estrutural, é necessária a delimitação de inir função disso, nota-se que a escolha do conjunto de valores que deve ser forta¬
migos intejpos, [Link] a sensação de jnsegurapça,,permitin- lecido no discurso obedece a uma lógica, a qual deve ser compreendida.
do a adoção_de políticas contrárias, ao Estado de direito. Sendo assim, mais Diante disso, analisar apenas o controle socialjormal sobre os atores da
uma vez chega-se à percepção de que o sistema penal em geral é acima de luta pela jerra, bem como a violência dos fazendeiros na reação-àssua.s lutas
tudo uma forma de reproducão-das desigualdades. Acima de tudo, é necessário parece insuficiente. Por isso,. a seguir busca-se relacionada, questão^agrária,
que fique destacada a situação no Brasil, onde o sistema penal, na sua origem os conflitos no campo e a yiolê[Link] discurso do jornal, no intuito de com-:1 1
/ escravocrata, confundiu-sc penas públicas e privadas, instrumentalizando ol / preender de que maneira o processo de construção social das notícias difunde j
i controle sobre os coipos mais frágeis do período. Atualmentc, essa violência I uma determinada percepção sobre os conflitos agrários no Brasil.
não pôde ser apagada, e ja hçrança é a de uma realidade extremamente cruel, Para chegar a esse objetivo, o percurso deste subcapitulo inicia com um
onde a complacência com o extermínio,é.eyidentc. estudQ_qualitatiyo_de edições, do jornal Zero Hora [Link] da .questão
jA_yisàg_dps_m£ÍQs_de-Comunicação. de massa, em especial do jorna¬ agrária. Passa por uma explicação sobre j [Link] (2.2.1), che-
lismo, sobrç esses conflitos sociais no campo mogtra-se de uma importância gando-sc aos resultados obtidos (2.2.2 e 2.2.3). Posteriormente, os resultados da
inestimável, diante das observações realizadas no primeiro capítulo. Os meios análise são confrontadosjxtnLPutrps esmdos.sobre_os.[Link] nojornalismo,
de comunicação possuem um privilegio dentre os órgãos de controle, social । para chegar, finalmente, a uma compreensão geral acerca da interação entre sis- j
informal que operam a construçãosqcial da realidade, e a escolha [Link] eh I tema penal e jornalismo na construção social dos conflitos agrários (2.2.4).
enquadramentos que deverão ser divulgados afeta sobremaneira a construção?
social dos próprios conflitos agrários. 2.2.1 O discurso do jornal sobre os conflitos agrários:
método de análise
2.2 Os conflitos agrários nas páginas do jornal: o medo da
Definir um método de análise significa, acima de tudo, optar por um pa¬
luta, o medo do outro radigma. Diante dessa percepção, foi necessário buscar um método que trou¬
A violência que envolve a questão agrária no Brasil não tem apenas xesse uma visão compatível com a teoria de base do trabalho. Foi estudado,
como subtipos aqueles atos realizados por ruralistas e pelo sistema penal, de- então, o método de Análise do Discurso Crítica (ADC), tendo como principais
| correntes da luta pela terra contra a violência estrutural. Em um outro plano, referências as obras de Norman Fairclough e Teun van Dijk.
Tal método foi escolhido em função de que busca trabalhar as relações
J
I
sente-se não apenas a existência mas a centralidade da violência simbólica
diante dos discursos sobre a questão agrária. ~~ de poder, contrariamente àjdcfcsa da neutralidade. Nesse sentido, Magalhães
observa que “AADC atualmfinte-seje£ere à_abordaggmJinguística adatadaj>pr
( nWARATTA, Atessandro, Derechos humanos: entre violência
penal... p. 244.
estructural y violência (^MOUILLAUD, Maurice. Preliminares. In: MOU1LLAUD, Maurice; PORTO, Sér¬
gio Dayrell (org.) O jornal: da forma ao sentido. Brasília: UNB, 2002. p. 27.
182 183
estudiosos,que tornam o_texto como unidade básicajdo-discursQx da-comunicar para a dominação de algumas pessoas por outras, porque a_c_onscientização é
ção e que se voltam [Link]álisc_das relações jde-luiax-CQnfliio social”.237 Além o primeiro degrau para a emancipação^^
disso, a ADC não se limita a descrever a realidade social, “busca a çompreen- Na sua teoria sobre a análise crítica do discurso, o autor explica que,
j í jsão da realidade social e rnais que isso, a intervenção na realidade social pelo- assim como o fcnô[Link]ístico é social, o fenômeno social é linguístico,
I I modo como aponta na prática discursiva o lugar da desigualdade e exclusão, o á que a atividade da língua é uma parte nos processos e práticas sociais, e nad
I í íque possibilita entrever meios de superação dessa realidade”.23’ Essa vertente Íjapenas a expressão. Assim, na política, por exemplo, as mesmas palavras são
de
da Análise Discurso considera a [Link]ânci_a .[Link],de_cona.unicacão~de utilizadas através de diferentes pontos de vista, e inclusive de formas incom¬
massa jia_atualidade, sendo que Jbusca vincular o seu discurso à realídade„s.o- patíveis por dois lados, e para o autor, isso não é apenas o presságio de uma
çial, de forma a estudar “as [Link] manifestação _da linguagem na. mídia, seu disputa política, é ela própria política.243
[Link]^coristrução de sentidos manipulados a serviço do poderT/íVAssim, é_ Q discurso, para Fairclough é um excelente veículo de
ideologia, pro-fi
^2 importante ter em vista a abordagem da ideologia realizada por Thompson. Para porcionando o controle social e a manutenção do poder através do
consenso,]
M a análise que o autor propõe, interessam primeiramente “as [Link]
_as. como a partir das instituições sociais, como a escola, a mídia, a família, quej
formas simbólicas jse entrecruzam com relações de poder. Ela está interessada ! cumulativa e coletivamente asseguram a dominação da classe do capitalista. O
I nas maneiras como o sentido é mobilizado, no mundo social, e serve, por isso,^ poder ideológico, “que projeta algumas práticas como universais e de senso co- i
para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder”.240 í mum, é um complemento significativo ao poder económico e político, e tem um 1
: [Link], a AD.Ç,.está |particular significado aqui pelo fato de o mesmo ser exercitado no discurso”.244 ’
Sendo assim, tendo em vista a percepção de que a realidade é social-
[...] orientada explicitainente para a agenda sociopolítica, para a preocupação
mente construída, é importante verificar je que forma o discurso auxilia nessa
em inventariar e apresentar críticamente de que fonnas_os_.dtsç[Link],
podem ç[Link] a reprodução ou unudança [Link]çõ[Link], e vem construção e, consequentemente, na cjiaçãn e manutenção de relações, de po¬
se constituindo hoje como uma área de estudo da linguagem e do discurso dos der, e nas possibilidades de permanénda.a mudança social.
media.2*1 Os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais,
Ao relacionar linguagem e poder, Fairclough esclarece ter dois objetí- eles as constroem ou as ‘constituem’; diferentes discursos constituem entida¬
des-chave (sejam eles a ‘doença mental’ a ‘cidadania’, ou o ‘letramento’) de
vos,prjncipais. Em primeiro lugar, uma finalidade teórica, a de corrigir a su- diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos
bestimação do significado da linguagem na produção, manutenção e mudança sociais (por exemplo, como médicos ou pacientes), e são esses efeitos_snciais
de relações sociais de poder. [Link] lugar, “uma finalidade maís prática, do discurso que são focalizados na análise de discurso.245
de auxiliai' no incremento da conscientização de como a linguagem contribui
237 MAGALHÃES, Izabel. Introdução: A análise de discurso crítica. DELTA, vol.21, Í24LFAIRCLOUGH, Norman. Language and power. London and New York: Long-
[Link],São Paulo 2005. Disponível em: <[Link] - man, 1989. p. [Link]ção livre do original em inglês: “I have written it for two
- pe/[Link]> Acesso em: 04 fev. 2007. p. 7. main purposes. The first is more theoretical: to help correct a widespread unde-
23yMARTINS, André Ricardo Nunes. Grupos excluídos no discurso da mídia: uma restimation of the significance of language in the production, maintenance, and
análise de discurso crítica. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística change of social relations of power. The second is more practical: to help increase
Teórica e Aplicada, vol. 21, n. spe, São Paulo, 2005, p. 129-147. Disponível em: consciousness of how language contributes to the domination of some people by
<[Link] 255,pdf> Acesso em: 01 fev. 2007. p. others, because consciousness is the first step towards emancipation”.
243 ibid.
p. 23.
244
ibid. p. 136-137. ibid. p. [Link]ção livre do original em inglês: “Ideological power, the power to
240 THOMPSON, John B. Ideologia^ cultura moderna: Teoria social critica na era project one’s practices as universal and ‘common sense’, is a significant comple-
dos meios de comunicação de massa? 6'ed;‘PètrópõlTs7'Vozes, 1995. p. 76 ment to economic and political power, and of particular significance here because
241 PONTE, Cristina. Leituras das notícias: contributos para uma análise do discurso it is exercised in discourse”.
245
jornalístico. Lisboa: Horizonte, 20M~ p.' Í30~' idem. Discurso e mudança social. Brasília: UNB, 1999. p. 22.
1 QA
185
’ Assim, ao se constatar que o sistema penal não satisfaz qualquer uma
[Link] para a£xposiçã[Link].ÁQjp_mal,.E esse meio tem
de suas funções instrumentais justificadas pelo discurso jurídico-penal, como
ainda algumas características que o situam de maneira diferenciada em relação
defender os bens jurídicos, reprimir a criminalidade, etc., observa-se que isso
não significa o não cumprimento de outras funções, causando alguns efeitos.
aos demais. Algumas delas já foram vistas no primeiro capítulo, e dizem respeito,
principalmente, ao lugar objetivo da fala. O que se pretende_no discurso_ do jornal .
Estes efeitos e funções Jncidem negativamentena existência de indivíduos e ç distanciar o máximo os fatos das opiniões, propiciando, assim, que, além de os 1
.
j na sociedade, e contribuem a reproduzir as relações desiguais de propriedade | receptores verem o que o jornal está expondo, devem crer nessa informação?16
e dc poder. Desse ponto de vista, a pena se apresenta como violência institu- Na busca por [Link] idade, entretanto, uma leitura mais atenta do
[ cional, queiçumpre a função de um instrumento de reprodução da violência discurso e da seletividade que o permeia, é possível perceber a utilização de
estruturai?”/ uma linguagem quetJalémde_relatar_ fatos,., difunde e legitima_valores. Em
Para [Link] a violência-estrutural, é necessária a delimitação de inir função disso, nota-se que a escolha do conjunto de valores que deve ser forta¬
migos internos, [Link]£viva a sensação dejnsegurança. permitin- lecido nodiscurso obedece a uma lógica, a qual deve ser compreendida.
do a adoção de políticas contrárias ao Estado de direjto. Sendo assim, mais Diante disso, analisar apenas o controle socjaljormal sobre os atores da
uma vez chega-se à percepção de que o sistema penal em geral é acima de luta_pela= terra. bem como a violência jos fazendeiros na reação-à[Link] Jutas
tudo uma forma de reproducã[Link] desigualdades. Acima de tudo, é necessário parece insuficiente. Por isso, a seguir busca-se [Link]ã[Link]ária,
que fique destacada a situação no Brasil, onde o sistema penal, na sua origem. os conflitos no campo e a violê[Link] discurso do jornal, no intuito de com-'|
i escravocrata, confundiu-sc penas públicas e privadas, instrumentalizando o i / preender de que maneira o processo de construção social das notícias difunde. I
“ controle sobre os corpos mais frágeis do período. Atualmente, essa violência / uma determinada percepção sobre os conflitos agrários no Brasil.
não pôde ser apagada, e aJiçjança é a de uma realidade extremamente cruel, Para chegar a esse objetivo, o percurso deste subcapítulo inicia com um
onde a complacência com o extermínio.é.eyidente. estudo-gualitativo_de edições dg jornal Zero Hora acerca do tema da .questão
A visão dos meios-de-comunicacão de massa, em especial do jorna¬ agrária. Passa por, uma explicação, sobre j [Link] (2.2.1), che¬
lismo, sobrp esses conflitos sociais no campo mostra-se de urna importância gando-se aos pesultadps obtidos (2.2.2 c 2.2.3). Posterionncnte, os resultados da
inestimável, diante das observações realizadas no primeiro capitulo. Os meios análise são confrontados_computros estudos sobreos-sem-tcrrarnojornalismo,
de comunicarão possuem um privilégio dentre os órgãos de controle. social ।para chegar, finalmente, a uma compreensão
geral acerca da interação entre sis-
informal que operam a construção social da realidade, e _a escolha dos_fatos ei. I tema penal e jornalismo na construção social dos conflitos agrários (2.2.4).
I enquadramentos que deverão ser divulgados afeta sobremaneira a construção»
I social dos próprios conflitos agrários. 2,2.1 O discurso do jornal sobre os conflitos agrários:
método de análise
2.2 Os conflitos agrários nas páginas do jornal: o medo da
Definir um método de análise significa, acima de tudo, optar por um pa¬
luta, o medo do outro radigma. Diante dessa percepção, foi necessário buscar um método que trou¬
A violência que envolve a questão agrária no Brasil não tem apenas xesse uma visão compatível com a teoria de base do trabalho. Foi estudado,
como subtipos aqueles atos realizados por ruralistas e pelo sistema penal, de¬ então, o método de Análise do Discurso Crítica (ADÇ), tendo como principais
correntes da luta pela terra contra a violência estrutural. Em um outro plano, referências as obras dc Norman Fairclough e Tcun van Diik,
sente-se não apenas a existência mas a centralidade da .violência simbólica Tal método foi escolhido em função de que busca trabalhar as relações
diante dos discursos sobre a questão agrária. dçjoder, contrariamenteJCdcfesa da neutralidade. Nesse sentido, Magalhães
observa que “A ADC atual [Link] à abordagem .linguística adatadapor
“ÍBARATTA, Alessandro. Dcrechos humanos: entre violência cstructural y violência
penal... p. 244. (^MOUILLAUD,Maurice. Preliminares. In: M0U1LLAUD, Maurice; PORTO, Sér¬
gio Dayrell (org.) O jornal: da forma ao sentido. Brasília: UNB, 2002. p. 27.
182
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[Link] tomam qtexto como unidade bá[Link] para a dominação de algumas pessoas por outras, porque a conscientização é
ção e que [Link]áEsedas relaçõesjieJuta^-Canfliio social".2” Além o prjmeiro degrau para a emancipaçãpÉ|l2
disso, a ADC não se limita a descrever a realidade social, “busca a çompreen-i Na sua teoria sobre a análise crítica do discurso, o autor explica que,
I são da realidade social e mais que isso, a intervenção na realidade social pelo| assim^como o_fenôineno linguistico é social, o fenômeno_s.o_cial é linguístico,
.
I modo como aponta na prática discursiva o lugar da desigualdade e exclusão, o| ha que a atividade da língua é uma parté nos processos e práticas sociais, e nãoí
1 que possibilita entrever meios de superação dessa realidade".21H Essa vertente papenas a expressão. Assim, na política, por exemplo, as mesmas palavras são
da Análise de Discurso cqnsideja.a importância dos meios. dc_coinunica.ç.ãçude utilizadas através de diferentes pontos de vista, e inclusive de formas incom¬
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çial, de forma jt estudai; “as formas de manifestação,da linguagem na mídia, seu disputa política, é ela própria política.*243
O discurso para Fairclough é um excelente veículo de ideologia, pro-í
porcionando o controle social e a manutenção do poder através do consenso,
a análise que o autor propõe, interessam primeiramente “as maneir_as,como _as_ como a partir das instituições sociais, como a escola, a mídia, a família, que,
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) nas maneiras como o sentido é mobilizado, no mundo social, e serve, por isso/J poder ideológico, “que projeta algumas práticas como universais e de senso co- i
' para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder”.24n t mum, é um complemento significativo ao poder económico e político, e tem um
j
. Dessajnaneira,. [Link]á particular significado aqui pelo fato de o mesmo ser exercitado no discurso”.244
Sendo assim, tendo em vista a percepção de que a rçalidade_é social¬
[...] orientada explicilamente para a agenda sociopolítica, para a preocupação
mente construída, é importante verificar de que forma o discurso auxilia nessa
em inventariar e apresentar criticainente de_qye [Link]çursos..sociais,
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se constituindo hoje como uma área de estudo da linguagem e do discurso dos der, e nas nossibilidades_de_p(:nnancncia,e_mudanca social.
media.141 Os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais,
eles as constroem ou as ‘constituem’; diferentes discursos constituem entida¬
Ao relacionar linguagem e poder, Fairclough esclarece ter doisobjeti-
des-chave (sejam eles a ‘doença mental’ a ‘cidadania’, ou o ‘letramento’) de
yos, principais. Em primeiro lugar, uma finalidade teórica, a de corrigir a su-
diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos
bestimação do significado da linguagem na produção, manutenção e mudança sociais (por exemplo, como médicos ou pacientes), e são esses [Link]
de relações sociais de poder. Em sggundo lugar, “uma finalidade mais prática, do [Link] que são focalizados na análise de discurso.245
de auxiliar no incremento da conscientização de como a linguagem contribui
1 O/l
185
Dessa maneira, a perspcctiva trazida por Fairclough é de uma textos, de seu discurso, e não somente as condições de
produção, que c obje¬
análise
discurso_quejeúna_tan(o.a linguística quanto a teoria social. Aponta o autor, de to da maioria das análises microssociológicas norte-americanas, nem apenas o
esse conceito dc análise do discurso c tridimensional, ou seja, que europeias.
qualquer discurso contexto socioeconômico, característico das análises estruturalistas entre o
“é considerado como simultaneamente um texto, um
exemplo de prática discur¬ Assim, van Dick propõe um estudo da interfacesociocogniiiva
siva e um exemplo de prática social”?46 Enquanto a primeira
texto e os contextos socioeconômicos. “Concretamente,
as maneiras nas quais (
dimensão cuida da
análise linguística dos textos, a segunda, vista como interação, “especifica os aconte-j
os fabricantes da notícia e os leitores representam efetivamente processam
reza dos processos de produção e interpretação textual”. Já a dimensão de aprática
natu¬
cimentos informativos, escrevem ou lêem os textos
jornalísticos, (
processamento
Itudo
é dotada de transparência. Em sua, decofidicação.
surgir, reforçando e afastando valores.
No que_tange-ao discurso do iomak propriamente d
[Link]. podem
itp^ç .ngçessário
.
do texto”, não somente no sentido das fases em que o texto dc que os [Link]
é produzido, mas analisar-cUato de qne_p [Link] a necessidade
afirmação poderá ser|Z
no seu conteúdo, tendo em vista que dificilmente uma
sim, considerando-se que o texto jornalístico muito
frequentemente é produzido
a partir de outras formas discursivas, como quando cobre própria, que pode pro-l
1 verificável. Em função disso, possui uma linguagem
de relatos de outras pessoas ou mesmo quando o próprioacontecimentos a partir
acontecimento I porcionar esse efeito.
discursos.* 248 O autor trabalhaxomxinco estratégias de processamento, produz A [Link]ística possui algumas regras a serem
seguidas. Em
a seleção*
a reprodução, o resumo, as transformaçoesjocais e a refQrmulaçã[Link]ística.249 são a refe¬
utilizadas
princípio, as funcõcs-dajinguagem predominantementepassado recente; usa-
rencial e a.fátjca. O verbo se refere ao presente ou ao
A análise a partir dessas estratégias traz uma forma de
dcsocultar posi¬ quejrqvém da
-se ojnQda_inditati.v.o, além da utilização da terceira pessoa,,
ções ideológicas expressas, como, por exemplo, pela
escolha da palavra a scr
linguagem das
utilizada para denominar determinado fato, como por exemplo, o
uso da pa¬ impessoalidade do^discurso. Quando introduz o texto sobre a
lavra ‘“revolta’ no lugar de ‘distúrbios’ ou cm lugar de de “uma empresa produtora,
‘resistência’”.250 notícias, Lage observa que a noticia é o resultado
.a _fonna verbal passiva por vezes pode ser utilizada para não Além a um público
(disso.
diretamente um fato negativo a pessoas ou grupos poderosos. atribuir na qual as decisões afloram dc um vago mecanismo, dirige-sc
vasto, de cujo repertório tem apenas ideias estatísticas; .e
se inocenta [Link]
[Link], exagerar
diz, como se falasse naiuralmeiite dos fenômenos, sem
A abordagem da análise do discurso proposta por van
Dick se mostra
importante pelo fato de se adequar ao marco teórico do
trabalho, percebendo a ou distorcer”?*2 Dessa forma, além do que se observou acerca da utilização
questão da produção das notícias tanto segundo opiniões próprias, e ao mesmo
um enfoque microssociológico, das fontes oficiais como fornia de se eximir de vale de uma
quanto dc um enfoque macrossociológico. O jornalismo se
autor busca, entretanto, suprir uma tempo de dar um conteúdo credível à matéria, o
deficiência nos estudos sobre o jornalismo que é justamente o da linguagem que também satisfaça estas necessidades.
O distanciamento apa-
análise de seus
244
ibid. “concretamentc, las maneras
242
ibid.
251 ibid. p. 250. Tradução livre do original cm espanhol:representan efectivamente los
248 en que los fabricantes de la noticia y los lectores
DICK, Teun A. van. La noticia como discurso. periodísticos, procesan
ción. Barcelona; Paidós, 1990, p. 141. Comprensión, estructura y produc- acontecimientos informativos, cscriben o leen losdetextos
comunicación”.
24’
ibid. p. 168-173 diferentes textos fuente o participan en los hechos e interação. São
256 252 idem. Estruturas da notícia na imprensa. In: Cognição, discurso
ibid. p. 252. Tradução livre do original em espanhol:
de ‘revueha’ en lugar de ‘distúrbios’ o en “Lo mismo sucede con el uso Paulo: Contexto, 1992.
notícia. Petrópolis: Vozes, 1979. p. 45.
lugar de ‘resistência’”. / 2s’XAGE, Nilson. Ideologia e técnica da
186 187
partes do I Observa-se então que quanto maior a credibilidade de um veículo pe¬
i' rente é necessário para que o jornal e/ou o jornalista não configurem rante o seu público (o que decorre de uma história de transmissão de
1 conflito, o que os tornaria suspeitos. informa¬
ções verdadeiras), maior é a possibilidade de que este público acredite em
Lage observa que a notícia é sempre axiomática, no sentido de que ela uma
matéria que não seja verificável. Essa relação de prestígio criada entre emissor
“dispensa argumentações e, usualmente, as provas; quando as apresenta, é ainda
e_rcceptor fará com que este tenha a tendência
em forma de outros enunciados axiomáticos. Não raciocina; mostra, impõe-se a considerar como verdadeira
mesmo a proposição à primeira vista falsa. “Não havendo confirmação ime¬
-
como dado [Link] fúrta-se.à_ análise crítica”. Para o autor, uma variável im¬
portante para o sucesso de notícias inverificáyeis pelo público é a situação rela- diata, colocará os termos do enunciado sob tensão e pretenderá considerá-los
Isto porque, “emissor e comunidade receptora, na de maneira que façam sentido e enunciem uma verdade”.257
tiva^o emissor e do públjca
comunicação social, guardam uma relação de poder: de um modo geral, quem y Para propiciar uma yisão mais clara a respeito de como a linguagem
jornalística auxilia na construção social dos conflitos_agrárips, optou-se por
' ' dispõe da palavra respalda-se de alguma credibilidade”.254 Nessa hipótese, a não
qualquer prestígio, mesmo no trabalhar, ilustrativamente, com edições de jornal, a partir das observações
' \ ser que o veículo de comunicação não goze de pelo receptor da notícia, a ten¬ acima que diferenciam o discurso jornalístico dos demais e possibilitam a sua
caso de uma matéria inverificável pessoalmente
dência é de que acredite no exposto, ao observar a possibilidade de ocorrência j análise mais atenta.
do que ela relata. “Como o prestígio se vincula à tradição e ao hábito, temos Como essa análise não pretende demonstrar q que foi estudado no traba¬
informar e o uso de formas lho, mas apenas ilustrá-la, optou-se por escolher apenas
por certo que o exercício continuado da tarefa de um jornal, e, também,
um período de tempo-curto, A escolha do objeto de análise seguiu alguns cri¬
socialmente prestigiadas de veiculação (o aspecto físico, ou discurso gráfico,
térios:. um jornal regionalizado, já que normalmente possibilita matérias mais
consagrado nos jornais) acentua a autoridade do emissor”.255
Nesse sentido, o fato de o emissor não ter condições de afirmar um acon¬ detalhadas sobre os fatos ocorridos nas localidades; uma região onde o MST
fosse forte e promovesse atos públicos e ocupações de terra constantemente;
tecimento como certo, uma vez que depende de um processo cognitivo, çpmo
signi¬ uma região onde houvesse organização dos ruralistas para verificar a forma
no caso deuma investigação_p_olicial e do posterior processo criminal, não
fica que não o possa insinuar, ou melhor, expor a possibilidade de ter oçorridode como o jornal interage com os dois grupos; região próxima de Santa Catarina,
onde fosse possível compreender mais de perto o conflito, onde houvesse um
uma ou de outrajorma. Também para isto a linguagem pode ser utilizada, como
no caso da utilização de outros tempos verbais. O fato de o jornal não ser preciso conhecimento geográfico pessoal, e que fosse um jornal grande, representati-
vo. Em função disso, foi escolhido o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul.
em uma ou outra parte de uma reportagem, utilizando, por exemplo, expressões
que indicam probabilidades, não significa o descrédito perante o seu público,
uma vez que na maioria dos casos estas imprecisões vêm acompanhadas de O jornal Zero Hora
outros elementos que transfiram também para elas um sentido de credibilidade.
Zero Hora é um jornal de circulação regional, e foi criado em maio de
Essa transferência de credibilidade ocorre através de uma conclusão
1964, tendo, posteriormente, Maurício Sirotsky assumido seu controle
tática que pode ser tirada da relação de poder construída entre emissor e re¬ acio-
nário em 1970, quando então passou a ser um dos veículos da Rede Brasil
ceptor, a saber, Sul
de comunicações (RBS).258 Hoje, a RBS, que atua no Rio Grande do Sul e em
na construção de uma relação de poder desse tipo, uma conclusão tática é de Santa Catarina, possui sete jornais, além de Zero Hora (Diário Gaúcho, Diário
que as proposições menos verificáveis pela comunidade de receptores deverão de Santa Maria, Pioneiro, Diário Catarinense, Jornal de Santa Catarina, Hora
seguir-se àquelas mais provavelmente verificáveis, cuidando-se que a verdade de Santa Catarina e A Notícia). O Zero Hora, apesar de ser um jornal regional,
empírica destas contagie de credibilidade as outras. E mais fácil manipular está entre os dez veículos com maior circulação no país, de acordo com o Jns-
' informações remotas ou abstratas.256
257
ibid.
254 ibid. p. 41. 258
GRUPO RBS. Quem somos. Disponível em; <[Link]
255
ibid. p. 42. mos/[Link]? pagiria=gmpoRBS> Acesso em; 25 jul. 2007.
256 ibid.
A RR
189
ututo Verificador de Circulação (ÍVC). O ranking elaborado de
acordo com a público”.263 E no verbete precisão: “A RBS entende que a simples publicação
média de circulação de janeiro a dezembro de 2003 nos jornais do país filiados de versões conflitantes não é sinónimo de imparcialidade. Cabe ao veículo
ao IVC trouxe ojomal Zero Hora em 7o lugar.259 apurar a verdade, com isenção e na sua plenitude”.264
O jornal se caracteriza por possuir um número grande de editorias, bem Sendo assim, não caberia_ao jornalista, de forma alguma, colocasse em
como de cadernos especializados, dedicados desde ao meio rural até ao públi¬ algum lado de uin conflito, nem ao veículo, é claro. Até porque o jornal consa¬
co feminino. Em relação à classe social a que se destina o jornal, a empresa gra a necessidade de distinção entre fatos e opiniões, não-assumindo-posicões.
expõe claramente que se trata das classes A e B. O preço elevado do jornal conforme a maior parte dos meios de comunicação de massa capitalistas.
(RS 2,00 de segunda a sábado e R$ 3,50 no domingo) demonstra isso. Outro
jornal, o Diário Gaúcho, tem o objetivo de circular nas classes C, D e E da
Conflitos agrários no Rio Grande do Sul
população, tendo um projeto editorial completamente diferente e um preço
bem mais acessível (RS 0,60). Os conflitos no campo no Rio Grande do Sul possuem algumas caracte-
A linha editorial de Zero Hora é muito ampla, compreende um conjunto rísticas específicas. Uma delas é o fato dc que as terras pelas [Link] sem terra
de valores sistematizados num documento chamado Guia de ética, qualidade e Jutam_nãQ_são devolutasse nem públicas. Não há conflito entre fazendeiros c
responsabilidade social, tendo sido lançada a sua segunda edição em 2007,
ano do governo, e a grilagem não_é o principalproblema. Somasse à lutando MST no
cinquentenário do gnipo. O guia “destina-se a proporcionar aos colaboradores do Rjo Grande do Sul uma moralidade, que, acima de tudo, percebe como umi
Grupo RBS o conhecimento dos valores da empresa, assim como sua aplicação I grande absurdo haver uma quantidade muito grande de terras concentrada
nasl
prática em situações de trabalho”.260 Segundo o guia, são valores do gQjpO-RBS: criticarem a improdutividade das
liberdade e igualdade, desenvolvimento pessoal e profissional, satisfação do clien¬
Jmãos de apenas uma pessoa. Então, além dc
grandes estâncias no RS, o MST também critica a sua extensão propriamente,
te, compromisso social e comunitário, responsabilidade empresarial.261 . deixando claro que o problema é-a concentração da terra. Por isso, a moralida-|
As normas editoriais trazem, através de verbetes, alguns indicativos so¬ I de como um valor bem presente nas lutas do MST no estado.
bre a forma como os jornalistas devem agir na construção da notícia, de Na verdade, as primeiras ocupações de (erras que seriam a génese do
forma cidade de Ronda Alta,
a preservar a ética editorial do jornal. MST no Brasil aconteceram no RS, no ano de 1 979 na
Como empresa de comunicação, a RBS busca difundir conteúdos com responsa¬ como resultado de um processo de expropriação ocorrida pela criação de uma
bilidade e integridade, cm nome do interesse público e com o sentido de estimular reserva indígena,265 Após conquistarem duas glebas na região, Macali e Bri¬
o desenvolvimento social, cultural e económico das comunidades
onde atua. Tais
lhante, as famílias remanescentes da luta ocuparam a fazenda Annoni, em
conceitos se refletem na linha editorial da RBS, que valoriza, entre outros, a 198Q, sendo despejados quase que imediatamente pela Policia Federal, alem
busca
da verdade, a independência, o pluralismo, a separação clara entre conteúdo
edito¬ de 12 colonos terem sido presos.266
rial e comercial e a distinção entre opinião e informação.262 Após esse acontecimento, ainda no ano de 1980, uma família, sem ter
Diante do que foi visto acerca da ideologia do jornalismo, ou seja, a para onde ir, resolveu acampar próximo ao encontro das estradas que levam a
já
defesa da objetividade, nota-sc que o jornal Zero Hora a defende sob ou¬ Ronda Alta, Sarandi e Passo Fundo, local que, alguns meses depois abrigava
tro nome: a precisão. No verbete ‘Imparcialidade” do guia, consta a seguin¬ 600 famílias e passou a ser chamado de Encruzilhada Natalino. Nesse local, com
te explicação: “Ao elaborar uma noticia, o jornalista da RBS deve ter
comol 263
ibid. p. 27.
única motivação divulgar, com precisão e equilíbrio, um fato dc
interesse do| 264
ibid. p. 31. “A RBS acata, entre outros, os preceitos do Conselho Nacional
de
Auto-Regulainentação Publicitária (Cqnar), as normas do Conselho Executivo das
259 ibid. Associação
260 Normas-Padrão (Cenp) e o Código de Ética e Auto-Regulamentação da
GRUPO RBS. Guia de ética, qualidade c responsabilidade social. 2. ed. Nacional de Jornais”, ibid. p. 47.
Porto
Alegre: RBS Publicações, 2007. p. 5. 265 FERNANDES, Bernardo Mançano. A formação do MST no Brasil... op. cit. p.
261
ibid. p. 08e09. 51.
262
ibid. p. 15. 266
ibid. p. 54.
190 191
controle social formal e informal. Em relação aos primeiros, a análise possibi- I
•
,
o auxílio da CPT e da Igreja Luterana, os sem terra se organizaram, recebendo }
o apoio de sindicatos, estudantes, etc.267 Porém, a repressão a essa mobilização I / da questão agrária e dos conflitos agrários.
lita a percepção sobre quem são as vozes oficiais que se manifestam a respeito
se deu de imediato. Primeiramente, houve as tentativas de cooptação dos sem Quanto à escolha das edições do jornal a serem analisadas, o principal
teria, para integrarem projetos de colonização no Acre, Roraima, Mato Grosso
critério foi o da atualidade. Quanto à quantidade, não houve a preocupação l
e Bahia. Porém, apesar de inicialmente algumas familias quase terem aceitado
as propostas, perceberam que aqueles projetos não tinham infra-estrutura que |com uma exaustividade, e, por isso, julgou-se que a análise de seis meses de i
à_vio- J |edições era suficiente para os objetivos do trabalho. Foi escolhido um período
permitisse a sua sobrevivència._Com a recusa às propostas, deu-se início
|/ lência institucional,^’1' sendo que ocorreu intervenção federal no local, de onde
X corrido, ao invés de dias, semanas ou meses alternados para verificar a con¬
de várias instituições, tinuidade dos fatos relatados pelo jomal, já que normalmente, quando ocorre
ninguém poderia entrar nem sair. Em função da pressão
um conflito, agrário ele é noticiado por vários dias, senão meses. Assim, foi
dentre elas a OAB, os interventores se retiraram do acampamento.
selecionado o período de novembro de 2006 a abril de 2007.
O acampamento se desfez em assentamentos provisórios criados com
Dentre as várias^seções do jornal, foram [Link]ícias que dis-
a compra de terras pela Igreja. Mas, em 1985, quando o MST já havia sido sessenuespeito à questão agrária, ainda que fizessem parte de assuntos diferen¬
formado a partir da lógica criada naqueles acampamentos do início da década, tes. Além das matérias jornalísticas, alguns comentários de colunistas e
ocorreu um dos principais fatos históricos da luta pela terra no RS, a ocupação |[ leitores significativos para o conjunto da análise também foram
de
carte)
da Fazenda Annoni, de 9.500 hectares por mil e quinhentas famílias.269 abordadoá^T
Rara realizar um primeiro tratamento dq material obtido, partiu-se de
O acampamento permaneceu por sete anos, conjuntamente com marchas, umajjrganização a partir dos seguintes pontos principais; título, fato(s) a que
ocupações de outras áreas no estado, e outras ações visando à conquista da terra.
refere a notícia, gênero jornalístico, elementos gráficos, personagens, fon¬
O confronto com policiais e o ataque de jagunços nesse período trouxe um alto
saldo de mortes e ferimentos de sem terra. O assentamento da fazenda Annoni
(se
tes (diretas e indiretas). A partir daí foram relacionados todos os títulos, que
são bastante representativos para a análise_do discurso.
se transformou em um referencial na luta pela reforma agrária no país. Após essa primeira catalogação, buscou-se
De lá para cá as práticas dos sem terra ficaram cada vez mais organiza¬ elaborar categorias para
origntarem a análise, É necessário esclarecer que, muito embora todas as cate¬
das, sendo mantidas, justamente pelo fato de que há muitas temas ainda dis¬
gorias estejam estreitamente relacionadas, confundindo-se em alguns momen¬
poníveis para a produção. No ano de 2006, houve oito ocupações de terras no tos, cada uma possui alguns elementos peculiares. Além disso, muito pouco
estado, cinco acampamentos, e oito conflitos por terra. No total 6.076 famílias
será abordado acerca dos componentes gráficos e da apresentação da página
estiveram envolvidas nesses conflitos.270
Em função dessas especificidades da região, optou-se por analisar um UÍ
jor- í'
V jgrnal 9ue estivesse envolvido com essa historicidade, e esse é o caso do VÉ necessário nesse ponto definir a .classificação dos gêneros jornalísticos. Tradicio¬
nal Zero Hora. A análise tem por objetivo, então, verificar deque forma este nalmente se distingue no Brasil o jornalismo informativo do jornalismo opinativo.
que é um conflito O primeiro é composto por nota, notícia, reportagem, e entrevista. O segundo,
/ l jornal tece a imagem da questão agrária, em especial,edoo que possivelmente < editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crónica, caricatura e carta.
por
PENA,
agrário, quem são os atores .envolvidos nessa questão, Felipe, op. cit. p. 69. As matérias analisadas neste trabalho se referem,
l- l6 principal¬
trará os maiores indícios, quais são as vozes diretamente presentes no discur?. mente, a notícias e reportagens. Um paralelo que se pode fazer
entre os dois gê¬
, so. Essa determinada percepção sobre a questão agrária e os conflitos agrários j neros é: Ajrotíçja: apura fatos, tem como referência a imparcialidade, opera em
• trará uma imagem sobre os seus atores, dentre eles, os integrantes do MST. í um movimento de indução, atém-se à compreensão imediata dos fatos essenciais,
independe da intenção do veículo, trabalha muito com o singular, relata
Além disso, é essencial a relação dessas diferentes .vozes com os . agentes do secamente, tem pauta centrada no essencial que recompõe um acontecimento.
formal e
A
reportagem: lida com assuntos sobre fatos, trabalha com o enfoque, a
interpretação,
ópera com a dedução, converte fatos em assunto, aprofunda, é produto da intenção
ibid. p. 57.
de passar uma visão interpretativa, focaliza a repetição, a abrangência, procura
ibid. p. 59. en¬
volver, usa a criatividade, trabalha com pauta mais complexa, pois aponta causas,
ibid. p. 163. contextos consequências, novas fontes. DEUS apud PENA, Felipe, op. cit. p. 76.
27,1
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA. Conflitos no campo 2006... op. cit.
192 193
do jornal. Isso significa que parte-se de uma estrutura temática, tópicos glo¬ Dados gerais sobre os conflitos no campo em Zero Hora
bais sobre os quais versa o exemplar da notícia. As matérias jornalísticas referentes à questão agrária encontram-se lo¬
Essas categorias surgiram tanto do_estudo,t_eórico realizado anterior- calizadas dentro da scção “Gcral” do jornal Zero Hora, gcralmcntc entre as
mente, quanto da própria análise do material. Essas categorias são?fa) medo/ páginas 30 e 59, conforme o dia da semana.
vigilância; b) paz:çonflito;,cj violcncia/crime. Dcum total de 181 edições, dos meses de novembro c dezembro de 2006
A primeira categoria (medo/vigilância) surgiu principalmente da prc- e janeiro, fevereiro, março e abril de 2007, em 58 estiveram presentes notas, notí¬
-análisc dos jornais, porque da primeira leitura a ideia que ficou sobre os con¬ cias ou reportagens que fizeram menção à questão agrária. Utilizou-se como me¬
flitos agrários no jornal é justamente o sentimento de tensão entre os ruralistas canismo de busca os termos “questão agrária”, “MST” e “conflitos no campo”.
em função das ações do MST no estado. Nesse sentido, o medo dessas ações Em tod.o o período analisado, duas reportagens especiais sobre o tema
provocou vigilância, noticiada diariamente oelo jornal. E vigilância significa, dajjHgstão agrária foram publicadas, nos dias 25 de fevereiro e07 _dc jnarco.
antes de tudo, controle s&cíal A partir desses indícios, essa categoria foi con¬ de 2007. As demais matérias são noticias ou notas. As noticias, na sua maior
siderada essencial para uma melhor perccpção sobre a visão do jornal acerca parte, trouxeram ilustrações. As fotos, cm regra, são dos sem terra, em suas
dos conflitos agrários. diferentes posições dependendo do enfoque da notícia. Quando se trata de
A segunda categoria (paz-conflito) parte tanto da análise teórica como noticiar marchas, as fotos são dos sem terra marchando.*275 Quando é sobre o
da primeira categoria. Em primeiro lugar, no esboço teórico anterior foi es¬ acampamento, aparecem os sem terra montando o acampamento.2” Por outro
pecificada a ideia da existência c permanência da conflitualidade nas relações lado, cm algumas situações as fotos foram de fazendeiros vigiando os sem
humanas. Sendo assim, não há consenso, há conflito, c os confrontos pontuais! terra e também de policiais.275 Em alguns casos, ainda, há fotos de conflitos
. entre sujeitos históricos ocorre como um tensionamento dessa conflitualidade I físicos entre sem terra c policiais ou entre sem terra c ruralistas.276 E interes¬
1 permanente^ Assim, pareceu.que_a_visão do jornal acerca do çonsenso_ou sante observar que, alem das fotos, gráficos são expostos nas notícias, prin¬
conflito em .torno, da qucstã.o agrária também traria indícios sobre a [Link]- cipalmente com o mapa do Rio Grande do Sul indicando a localização dos
trução-social. conflitos noticiados. Em uma das notícias, além do mapa do Rio Grande do
A tcrceira_çategoria (violência/crimc) também decorre das primeiras, Sul, também um mapa do Brasil é exposto com a indicação dos conflitos.277
mas parte principalmcnte da abordagem teórica anterior acerca da violência. Há ainda, em parte das_notícias, um [Link] que_busca remontar a
Visualizar a forma como, as violências no campo se estampam nas páginas acontecimentos anteriores, para contextualizar a notícia atual.
dé Zero .[Link]ém permite identificar a sua pcrspcctiva a rçspeito,.desja A maior parte das noticias ocupa no máximo um terço da página, sendo
categpria. A sua relação com a ideia de crimc/criminalidadc c identificação que cm alguns casos são utilizadas até duas páginas.
de criminosos é importante, na medida em que normalmcnte quando se iden¬ A maior parte das notícias se referiu à Fazenda Southall, oue está para
tifica um foco de violência, no sentido dc agressão individual, busca-se eti¬ ser desapropriada desde o ano de 2003, seguido pelas marchas, que também
quetar juntamente os responsáveis pela mesma, e penalizá-los. Nesse ponto, se relaciona com essa Fazenda e com outra, de Eldorado do Sul, bem como a
ingressam também as agências de controle social formal e a_rnançjra_como Fazenda Coqueiros, local onde está sediado um dos maiores conflitos dc terra
js mesmas interagem na questão agrária. A sua simples
presença indica uma
no Rio Grande do Sul.
determinada concepção acerca dos conflitos agrários, c o lado para onde esse
controle social volta seus binóculos também indica a construção da responsa-l
271
bilidade pelo conflito. É o caso das fotografias dos dias 14 c 15 dc novembro, 12 e 1 8 de abril.
274
Exemplos são as fotos dos dias 16 e 25 de novembro, 05 dc dezembro, 07 de janei¬
ro, 01 e 16 dc fevereiro, e 07 de março.
273
Alguns exemplos são as matérias dos dias 15 c 22 de novembro, 20 de fevereiro e
dez de abril.
FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvi¬ 276 É
mento territorial... op. cit. TAVARES DOS SANTOS, José Vicente. Por uma socio¬
o caso das fotos dos dias 23 e 24 de novembro, 01 e 02 de dezembro, 1 3 e 19 dc abril.
277
logia da conflitualidade no teinpo da globalização... op. cit.
AS MANIFESTAÇÕES. Zero Hora, Geral, 12 abr. 2007, p. 39.
194 195
Os assuntos que motivaram notícias sobre a questão agrária em ZH, no
período de 01 de novembro de 2006 a 30 de abril de 2007 estão relacionados
no Quadro 1. 2.2.2 Desordem, tensão e insegurança: para qual direção se voltam
os binóculos?
Quadro 01 - Fatos que motivaram notícias em ZH (nov.06/abr.07) Medo/vigilância
. Assunto N“ de ocorrências Na maior parte das matérias^os atores envolvidos no .fato quçjicu qri-
gcm.à notícia sãoos integrantes do^MST_e„[Link].. Os^go vemos do estado
Fazenda Southall, em São Gabriel 15 e federal se mostram presentes, respectivamente, com as aparições da Brigada
Marchas rumo a São Gabriel e Eldorado do Sul 09 Militar c da Polícia Rodoviária Federal, além do Incra. Por vezes está presente
também o poder Judiciário.
Invasões da Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul 08 Uma parcela significativa das notícias se referiu aos riscos de açõ[Link]
Marcha em São Gabriel MST e, por isso, relatos sobre o que se estava fazendo para prevenir-se de um
05 “ataque^ do movimento. do que propriamente sobre o que estava em jogo nas
Conflito em Coqueiros do Sul 05 \ reivindicações. Em função disso, há a utilização de expressões que denotam
tensão, principalmente por parte de ruralistas, bem como a necessidade de
-
Eldorado do Sul eucaliptos 04 Vigilância dirigida aos sem terra. As noticias sc referem, principalmente, às
Invasão em São Borja
marchas de São Gabriel e Eldorado do Sul e da movimentação de sem-lcnas
03
em fazenda vizinha à Coqueiros, cm Coqueiros do Sul.
Acampamento na Rodovia BR1 16 em Pedro Osório 03 Do total de notícias veiculadas, cerca de 23 contivcramjixprcssões
como monitoramento, vigilância, tensão e insegurança. Em algumas notícias
Invasões da via campesina 03 a vigilância esteve mais voltada à preocupação dos fazendeiros, como se vê na
Acampamento em Pedro Osório Figura 3, c nos trechos abaixo.
03
“O Presidente da comissão fundiária da
Nova Santa Rita .02 federação da Agricultura do Rio Gran¬
Fórum da liberdade de do Sul (Farsul), Gedcão Pereira, diz
02 que a entidade começou a monitorar as
-
Protestos Massacre de Eldorado dos Carajás 02 porteiras de cada grande fazenda”.2”
“Sob a vigilância de produtores rurais
Invasões no Pontal de Paranapaneina (SP) 01
“Preocupado com a movimentação
Protesto contra prisão de Rainha Júnior em São Paulo 01 dos sem-terra, os ruralistas da região
se organizaram em um grupo de 60
As demais ocorrências não tiveram grande continuidade no jomal, se pessoas, que se reveza na vigi/ia''.Ifri
Figura 3 - Página 3 1 da edição de ZH Infelizinente, o clima é de insegu¬
resumindo a três, duas ou uma notícia apenas. do dia 1 5 de novembro de 2006 rança total''.2'"
Os resultados da análise serão apresentados nos tópicos 2.2.2 e 2.2.3,
divididos pelas categorias. No primeiro tópico, analisa-se o jomal segundo as PRODUTORES rurais reagem às marchas. Zero Hora, Geral, 14 nov. 2006, p. 38.
duas primeiras categorias, e, no segundo, discute-se a terceira, tendo em vista Grifou-se.
que se volta mais ao papel das agências do controle social formal nas notícias. 279
MST se aproxima de área em Eldorado. Zero Hora, Geral, 16 nov. 2006, p. 27.
Grifou-se.
180 ibid. Grifou-se.
281
196 ibid. Grifou-sc.
197
iwpxvua giv- umus gerais soore os conjmos no campo em /^eru nora
t>ais sobre os quais versa o exemplar da notícia.
Essas categorias surgiram tanto dq_estudo_teórico realizado_aaíerior- As matérias jornalísticas referentes à questão agrária encontram-se lo¬
mente, quanto da própria análise do material. Essas categorias sãotfaj
medo/ calizadas dentro da seção “Gerar do jornal Zero Hora, gcralmente entre as
__vigdância; (b) paz-çonflito;/cj'violcncia/crime. páginas 30 e 59, conforme o dia da semana.
A^prjmeira categoria (medo/vigilância') surgiu principalmente da pré- De um total de 181 edições, dos meses de novembro e dezembro de 2006
-análise dos jornais, porque da primeira leitura a ideia que ficou sobre os con¬ e janeiro, fevereiro, março e abril de 2007, cm 58 estiveram presentes notas, notí¬
flitos agrários no jorna! é justamente o sentimento de tensão entre os ruralistas cias ou reportagens que fizeram menção à questão agrária. Utilizou-se como me-
em função das ações do MST no estado. Nesse sentido, o medo dessas ações canismo de busca os termos “questão agrária”, “MST1’ e “conflitos no campo”.
provocou vigilância, noticiada diariamente pelo jornal. E vigilância significa, Em todo o perio.do_anajjsado,_duas reportagens especiais sobre ojema
antes de tudo, controle social. A partir desses indícios, essa categoria foi con¬ dajupstão agrária_fQiam_publicadas, nos dias 25 de fevereiro eSS. de março
siderada essencial para uma melhor percepção sobre a visão do jornal acerca de 2007 As demais matérias são noticias ou notas. As notícias, na sua maior
dos conflitos agrários. parte, trouxeram ilustrações. As fotos, em regra, são dos sem terra, em suas
A. segunda categoria (paz-conflito) parte tanto da análise teórica como diferentes posições dependendo do enfoque da notícia. Quando se trata de
da primeira categoria. Em primeiro lugar, no esboço teórico noticiar marchas, as fotos são dos sem terra marchando.271 Quando é sobre o
anterior foi es¬ acampamento. 214 Por outro
pecificada a ideia da existência e permanência da conflitualidade nas
relações acampamento, aparecem os sem terra montando o
humanas. Sendo assim, não há consenso, há conflito, e os confrontos pontuais 1 1 lado, em algumas situações as fotos foram de fazendeiros vigiando os sem
| entre sujeitos históricos ocorre como um tensionamento dessa conflitualidade 1 I terra e também de policiais.275 Em alguns casos, ainda, hà fotos de conflitos
permanente^ Assim, pareceu que_a_visão do iornaLacerca do consepsp^pu físicos entre sem terra e policiais ou entre sem terra e ruralistas.276 É interes¬
conflito em torno [Link]ão agrária também traria indícios sobre a sua-cons- sante observar que, além das fotos, gráficos são expostos nas notícias, prin-
.trução-social. cipalmente com o mapa do Rio Grande do Sul indicando a localização dos
,
j
A terceira categqria (violência/crime) também decorre das primeiras, conflitos noticiados. Em uma das notícias, além do mapa do Rio Grande do
mas parte principalmente da abordagem teórica anterior acerca da violência. Sul, também um mapa do Brasil é exposto com a indicação dos conflitos.277
Visualizar a forma como_as violências [Link] sg estampam nas páginas Há ainda, em parte das noticias, um quadro explicativo que Tbusca remontar a
dé Zero Hora_também permite identificar a sua perspectiva [Link] dessa acontecimentos anteriores, para contextualizar a_no.tí[Link].
categoria. A sua relação com a ideia de cri me/crimin alidade e identificação A maior parte das notícias ocupa no máximo um terço da página, sendo
1
criminosos é importante, na medida em que normalmente quando se iden¬ que cm alguns casos são utilizadas até duas páginas.
Ide
tifica um foco de violência, no sentido de agressão individual, busca-se eti-
quetar juntamente os responsáveis pela mesma, e penalizá-los.
ingressam também as agências de controle social formal e
Nesse ponto,
amaneira-camo
|
i
A [Link] das notícias se referiu à Fazenda Southall, que está para
ser desapropriada desde o ano de 2003, seguido pelas marchas, que também
se relaciona com essa Fazenda e com outra, de Eldorado do Sul, bem como a
js mesmas interagem na questão agrária. A sua simples presença indica uma Fazenda Coqueiros, local onde está sediado um dos maiores conflitos de terra
determinada concepção acerca dos conflitos agrários, e o lado para onde esse ’ no Rio Grande do Sul. *
194 195
Os assuntos que motivaram notícias sobre a questão agrária em ZH, no
período de 01 de novembro de 2006 a 30 de abril de 2007 estão relacionados 2.2.2 Desordem, tensão e insegurança: para qual direção se voltam
no Quadro 1. os binóculos?
Quadro 01 - Fatos que motivaram notícias em ZH (nov.06/abr.07) MedoMgUância
Assunto N° de ocorrências Na maior parte das matérias, os atores envolvidos no fato que deu ori¬
gem à notícia são os integrantes do MST o os ruralistas. Os governos do estado
Fazenda Southall, em São Gabriel 15 e federal se mostram presentes, respectivamente, com as aparições da Brigada
09 Militar e da Polícia Rodoviária Federal, além do Incra. Por vezes está presente
Marchas rumo a São Gabriel e Eldorado do Sul também o poderJudiciário.
08 fT 1 • ' * -
Uma parcela significativa das notícias
‘
I
Afigura do fazendeiro com os binóculos em punho vigiando possui uma profunda relação com um setor
as açõesl de Sul”?85 Cpmo_se sabe.o MST
dos militantes do MST representa bem o debate aqui travado. representantes foram já vitima-
São várias asl da Igreja Católica, sendo que muitos dc seus
edições que ao buscarem tematizar a ação do MST,
tematizam em verdade ai dos pela violência dos jagunços.
ação dos niralistas para o seu controle, optando por
evitar fotografias das mar¬ “ Acampamento sob vigilância
chas, bem.como_dos acampamentos. Mais
interessante ainda cquejidiscurso permanente”.™'
empregado para.,rctratar_asituacãode. conflito é o_mesmo [Link].ole_ "Binóculos assestados sob chapéus de
^tá sendo efetuado pela_Dolic.ia._Em várias situações, a
I rece como responsável pela vigilância, de tal maneira queBrigada Militar apa- abas largas, policiais do 3“ Regimçnlo
ambos os atores se de Polícia Montada dc Passo Fundo' pas¬
I I identificam como pólos contrários aos atos do MST. saram a manhã de ontem vigiando dois
A relação d_os ruralistas com a policia se estreita quando, na acampamentos de sem-terra erguidos
do dia 17 de janeiro de 2007. relata-s_c o edição junto à Fazenda Coqueiros, em Coquei¬
encantro do presidente do Sindi¬ do Sul".287
cato Rural de São Gabriel e vicc-presidente da Farsul
com o Secretário de I Frio, fé e protesto ros “BM usa avião para avaliar sem-
Segurança Pública, no intuito de solicitar a montagem de
um posto fixo da t -terra"P*
Brigada perto do acampamento do MST. O que ocorre, e
c noticiado no dia >
18 de janeiro, sob o título “Policiamento é reforçado em São_Gabrier.
Na Essa reportagem não faz,
notícia, lê-sc que “A Brigada Militar (BM) de São Gabriel
montou ontem contudo, qualquer menção direta ao
um posto fixo perto do acampamento do MST, mas em várias reportagens
Movimento dos Trabalhadores Figura 4 - Página 30 da edição de posteriores é comum o jomal expor
Rurais sem Terra (MST), a cerca de um quilómetro da Fazenda
SouthalH,
no interior do Município”.M4Em fevereiro, a Brigada
Militar novamente é ZH do dia 21 de fevereiro de 2007 a ideia de que os..membros .desse
chamada, agora para reforçar a vigilância da Fazenda
Coqueiros, no norte movimento possuem com clcjtlgum
do estado. A Figura 4 traz a página na qual a
reportagem sobre o tema foi tipo de ligação religiosa, e não raçional. Assim, ao utilizar
o termo “prega¬
veiculada. expressaram sua con¬
ções” para designar a maneira como os manifestantes de
Esta página provoca um interessante efeito pois a figura que está ao trariedade à agricultura comercial, aos grandes latifúndios e
às indústrias
lado da jotícia não scrcferc à ação do MST, que está sendo objeto celulose, o jomal parece buscaj-eunir em uma só palavra o que se
compreende
de vigilân¬
cia no nortC-do estado, mas a uma marcha ocorrida na fronteira oeste, religioso.
no inte¬ editorialmente ser esse pensamento crítico:_puro_fanatismo
rior de São Francisco de Assis intitulada Romaria da Terra,
Retomando à análise da categoria medo/vigilância, vários outros são
organizada, porém,
pela Pastoral da .Terra, Diocese de Uruguaiana e das ações
Conferência Nacional dos os trechos em que a polícia aparece para reforçar o monitoramento
| Bispos -
do Brasil Regional Sul. Essa marcha é religiosa,
mas também possui h do MST, também com o uso de fotografias, como é o caso
da Figura 5 c nos
trechos ao lado.
3,2
VISTORIA mobilize fazendeiros e sem-terra. Zero Hora, Gerai,
32. Grifou-se. 05 dez. 2006, p.
2,1
TENSÃO volta a rondar São Gabriel. Zero Hora, Geral, 285 FRIO, fé e protesto. Zero Hora, Geral, 21 fev. 2007, p. 30. Grifou-se.
fou-se. 15 jan. 2007, p. 25. Gri¬ 2R6 ACAMPAMENTO sob vigilância permanente. Zero Hora, Geral, 21 fev. 2007, p.
2,4
POLICIAMENTO c reforçado em São Gabriel. Zero Hora, Geral, 18 jan. 2007, p. 30. Grifou-se.
217 ibid.
36. Grifou-se. 2007, p. 32. Grifou-se.
288 BM usa avião para avaliar sem-terra. Zero Hora, Geral, 22 fev.
198 199
Poder-se-ia esperar que duas reportagens mencionando ações do MST Comparando-se as matérias publicadas no mês de novembro com aque¬
viesggm acompanhadas de uma_foto que as ilustrassem^ Porém, na edição de las publicadas no mês de fevereiro tem-se que naquele mês o número de situ¬
ações em que a BM é fonte reduz-se a três. Enquanto isso, os depoimentos-de
20 de fevereiro de 2007, não foi o que ocorreu.J^[Link],-apaiqcç^^
carro_da Brigada Militar e quatro policiais, CL foco, portanto é o sistema_de ruralistas somam dezoito, emjelaçãqa quatro de sem terra. Percebe-se que,
controle,, indicando a ameaça representada por aquele movimento, que pode nesse período, o jornal fez uma clara opção por divulgar o que se passava no
pólo proprietário das situações noticiadas.
ser identificada na palavra arrastão, tipicamente relacionada à criminalidade
de rua; e a!er_ta, para designar a situação em que o “pais” se coloca diante Quer dizer, os ruralistas depõem para o jornal a sua preocupação com
dessas ações. Como se verá a seguir, a_s_ metáforas coletivas aparecem em vᬠos atos do MST, em especial duas marchas que estavam ocorrendo naquele
período. Porém, a sensação de tensão envolta nesses proprietários provavel¬
rias reportagens que denotam medo, tensãò, insegurança e vigilância. Com a_
visão de que. o “pais”está em alerta, entende-se que toda a sociedade. brasilei¬ mente não era a mesma que se passava na marcha dos sem-terra, nem sequer
ra pode ser [Link] pelas_açõ[Link] MST-Tudo funciona como na população local. Entretanto, tendo era vista o número preponderante de
a seus depoimentos, o jornal optou justamente por trazer à tona a existência
' se grandes latifundiários e suas propriedades improdutivas representassem [Link]ção desse sentimento de medo, que acarreta a vigilância diária,
i realidade do povo brasileiro, fazendo, portanto, que com eles se identifiquem. não_anenas_poLparte dos proprietários, mas va£envolvcr, em seguida, tam-
1
Qs manifestantes são os outros, os diferentes, os invasores^
. bemia-policia.
... " “Há cerca de uma semana e observada a Em vários trechos se percebe, também, que o jornal incorporou a posi¬
movimentação de mais de mil integrantes do
i) InM* MwiM wMUm MB SP
Arrastão do ção-sujeito dos ruralistas, no momento em que em seu próprio texto assume o
MST que reforçam dois acampamentos vizi¬
MST põe em sentimento de medo e tensão, como, por exemplo, nos trechos “Tewã[Link] a.
nhos à Fazenda Coqueiros, no município de
alerta o país rondar São Gabriel”;289290 “Na região, o clima éjle tensão”.291
Coqueiros do Sul”.
“A Brigada Militar monitora a situação”. Por outro lado, é interessante notar que o jornal sempre se orienta
“Dez soldados a cavalo patrulham a localida¬ de acordo com os valores-notícia e que, dentre eles, o inusitado ocupa
de de Xadrez e mantêm barreiras itinerantes um espaço central. Então, se se observar que as marchas foram pacífi¬
para impedir que armas sejam levadas ao lo¬ cas, ou seja, não acarretaram nenhuma situação que concretizasse um
cal. Quem se dirige para os acampamentos bom critério de noticiabilidade. restou ao jornal relatar a espera por esse
também é identificado”.28?4 fato. Através desses critérios, observa-se que a sensação dc insegurança
Figura 5 - Página 24 da edição de Assim, se, por um lado, o “país” exalada p£lQs_fa.zejgxLeiros_jias linhas e cntrelinhas_de seu discurso e as
ZH do dia 20 de fevereiro de 2007 deve permanecer em alerta por causa dos ações empreendidas pelos mesmos no sentido de buscarem recompor a
arrastões do MST; o jornal, que é regio- sua segurança era mais noticiável do_que_os. [Link] quais os sem-
-terra marchavam.
nal, irá dizer, por outro lado, o que o “estado” deverá fazer em relação aos
A esse respeito, a notícia de 18 de abril de 2007 foi significativa. Esse
alertas do Rio Grande do Sul. E aí que surge a notícia do lado direito da página
dia se seguiu ao ani versário_de_onze anos do massacre de Eldorado dos
com a fotografia: devido aos alertas de São Paulo, reforça-se o monitoramento Carajás, o qual costuma ser marcado por muitos protestos em todo o país.
policial e as revistas nos acampamentos do MST, com o objetivo declarado
E^asjnamfesiaçges-foramiioticiadas. era ura quadro-^umártomamarte infe-
de evitar a entrada de armas. O motivo pelo qual não é relatada a busca de
riorjiajiágina. Porém, a notícia propriamente [Link]-se quase exclu-
armas nas propriedades de terras dos rurabstas.não é. apjesentado, restando j
apenas a grande evidência: os suspeitos são os sem terra, eles é que devem ser 5 ^ivqpientje_da_vjgilâ[Link],pela BMjLpartir-de^ivifi&SLejeforçQs
I
controlados.
29o PENSÃO volta a rondar São Gabriel, op. cit. Grifou-se.
291
INCRA vistoria estância em São Gabriel. Zero Hora, Geral, 17 jan. 2007, p. 26.
289
ibid. Grifou-se.
é
como Em abril, computa-se que se expõe dez vezes a voz direta de fontes
ligadas à Brigada Militar. Por outro lado, por seis vezes é registrada a voz
“As manifestações empreendidas
ontem pelo dos sem terra, e em apenas um momento é exposta a fala dc um ruralista.
Movimento dos Trabalhadores Rurais motivo pelo qual se vislumbra essa diferença na cobertura parece ser o ;
-Terra para
massacre de Eldorado dos Carajás
Sem-
relembrar o IIo aniversário do
foram a
(O
fato a que se refere. Enquanto cm novembro a maior parte das notícias foi
sobre marchas que estavam ocorrendo na região da Campanha gaúcha, onde
preocupação de toda a terça-feira do co¬ os ruralistas são bastante unidos, no mês dc abril de 2007 a maior parte
mandante do Grupamento Militar
Aéreo, das notícias foi sobre a possibilidade de “invasões” à Fazenda Guerra, em
tenente-coronel Paulo Stocker”.
“Do alto o oficial monitorotta mobiliza¬ Coqueiros do Sul, que fica no norte do estado. Assim, o fato a que se refere
ção dos sem-terra. a notícia modifica os seus atores, porém, o tema c o tom não mudam: a. vi¬
Além dc helicópteros, as gilância e a Içnsão.
principais entradas
terrestres de Porto Alegre Por outro lado, o fato de se tripartir as vozes presentes no jornal, não '
policial
tiveram reforço
".
significa que esses três sujeitos enunciativos façam efetivamente parte de três 1
- Realmente, a gente esperava um dia mais
difícil, mas tudo correu bem?’25 pólos diversos. Isso porque, na . maior parte das notícias, o -depoimento
policiais militares sc coaduna com o dos fazendeiros, estando em outro pólo,
dosf
Náo_há qualquer fala de entretanto, o discurso dos sem terra.
sem terra, nem de líderes ,
manifestantes. Não Isso fica bastante claro no mês de abril, quando a fala dos ruralistas
há
-
Figura 6 Página 32 da
edição de qualquer menção à questão da reforma
ZH do dia 18 de abril de 2007 agrária. A única relação
se ausenta, porem, o seu discurso permanece, seja através da voz da Brigada
Militar, seja em função da maneira como o próprio jornal cobre os fatos. Essa
tecida inclusive
com o massacre de Eldorado relação fica bem representada nos trechos a seguir, bem como ilustrada na fo¬
dc Carajás
a governadora Ana Júlia, do éuma nota sobre o tografia: trata-sc de uma colheita na qual a Brigada Militar atua para proteger
reconhecimento
fez, assumindo a responsabilidade que
verno do Estado no [Link]á,
Em do go¬ os trabalhadores dc ataques do MST (Figura 7).
nitoramento, contendo inclusive a compensação, o texto todo se refere ao mo- Nos meses dc dezembro e janeiro foi equilibrada a exposição das falas
Militar Aéreo em seu helicóptero. fotografia do comandante do Grupamento dos sem terra e dos ruralistas, sendo que por dez vezes estes foram fontes da
Portanto, a questão da vigilância e noticia, enquanto a voz daqueles aparece por nove vezes. Por outro lado, a voz
racterísticas comuns a quase todas as do monitoramento foi uma das ca- da Brigada Militar aparece apenas uma vez nesses dois meses.
entretanto, em relação aos meses de matérias. Uma diferença importante, Nesse ponto é necessário destacar que tanto os ruralistas quanto a Bri¬
novembro e de abril, foi gada Militar estão agindo de maneira a reafirmar o estado de coisas atual,
mês se referiram à vigilância por o fato de que
enquanto as notícias daquele
listas, enquanto a Brigada enquanto que os sem terra buscam romper com ele. Sendo assim, conforme o
Militar era coadjuvante na história, parte dos rura- que foi visto anteriormente, o enquadramento destinado a fatos que rompem
inverteram-se. A Brigada Militar ocupou neste, os pólos
tomaram-se coadjuvantes. O número de odepoimentos
posto de vigilância e os
ruralistas com a ordem busca reforçar pontos de vista que se pensa serem consensuais.
também aumentou nesse mês. diretos dos sem-terra Apesar de mostrarem fatos que rompem com esse consenso, o jornal os define
primeiro, a partir da exposição de fontes oficiais e que sc coadunam com o
contexto atual, para então deixar claro qual interpretação deve ser conferida
ao fato novo e subversivo.293
203
Invocando algumas questões trabalhadas nas seções anteriores, «éJm.-
|wl "Vigília em colheita desloca 80 PMs”. tiodantc, ainda^verificar o que representa a preponderância da categoriajyjgi-
Gemi > “Pelo terceiro ano consecutivo, a colheita de lância/medo nas matérias jornalísticas analisadas. Além do que está expresso
soja na Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do nessas notícias, toma-se essencial buscar significados ocultos, o que se revela
Vigília em colheita desloca 80 PMs Sul, no norte gaúcho, mobilizou a Brigada l_através das ausências do jexto. ' /
Militar (BM)”. Y Uma das ausências mais sentidas foi a própria questão da refonna agrária.
Segundo a BM, o temor era de que os sem- Durante todo o período analisado foi feita referência éfetivamente ao que
-terra pudessem atacar os trabalhadores du¬ teiam os sem terra apenas no dia 22 de novembro, ao reproduzir a voz direta de
piei-/
rante a colheita.*2’1 um líder sem-terra: Marchamos por terra, justiça e paz. Temos o direitQ-de ir
Assirm a hierarquia das fontes e vir e vamos chegar ao nosso destino - disse frei Wilson Zanatta, da
Comissão
sempre localiza as oficiais no topo._Con- Pastoral da téira’Ç^Em todos os outros momentos em que vozes dos sem terra
forme níostia Tuchman, além desse re¬ estão presentes, referem-se à situação específica do conflito, ou seja, expondo se
quisito, a produtividade das fontes, a sua vão ficar no local ou se vão se retirar, quais serão as próximas ações, etc.
proximidade física, a credibilidade de De fato, sobre a reforma agrária, em algumas edições são expostos nú¬
que dispõem, a garantia das informações meros de pessoas assentadas e de fazendas desapropriadas no governo Lula.2’8
que repassam e a sua respeitabilidade E interessante, então, verificar que mesmo diante dedantajensão, nãOLSe
busca
são os fatores que determinam a sua per¬ discutir a causa da mesma. Decisivamente, a causa da tensão é apresentada
jornais.2’5 Em pelo jornal como sendo a atuação dos sem terra.
Figura 7 - Página 34 da edição de manência nas páginas dos I as manifestações, não haveria tensão e, portanto, Ou seja, caso não houvesse
função disso, também há fontes, princi¬ tudo permaneceria em paz.
ZH do dia 10 de abril de 2007 Mas o motivo anterior, que levou às manifestações é ocultado, via de regra.
palmente as não-oficiais que são sub-re-
mais uma seletividade da informação. Assim, a. Na verdade^nunciativamente falando, o jornal parte do [Link]
presentadas,q que demonstra que asjnarchas do MST são causadoras_da tensão.
estrutura social e de poder existente fica refletida na defini.ção_dqs.[Link]^ Como pressuposto, é inques¬
tionável. Relatado nas frases destacadas acima, como posto, ou seja, como um
O fato de em algumas oportunidades os sem terra aparecerem como
fon¬
opinião. Isso saber novo, passível de questionamento, está apenas a forma como os ruralistas
tes, porém, também não significa que o jornal assuma a sua poique
reagiram aos atos do MST. Porém, o questionamento sobre a causa da tensão,
[...] o jornal f—l.é senhor do efeito que confere às vozes que reproduz. Isto
quer ou se efetivamente há uma tensão generalizada, não pôde_serj>bj.eío_de_quesT
dizer que, mesmo no interior do conjunto do discurso de citação, pode-se encon¬ tionamento, “No discurso dos media poderá haver
da tendência para transferir (ou
trar a partição entre o efeito da fonte e o efeito do agente, entre a legitimação para criar a ilusão de transferir) para o domínio do pressuposto, para
fala como um fato seu e distanciamento como uma citação.2*’ o domínio
do saber anterior, os conteúdos cuja circulação/imposição é julgada prioritária
e,
Q^caráter dúplice da estratégia da citação no jornal fica claro ao se observar por conseguinte, interessa subtrair ao filtro da recepção”?99
a forma.como_são repercutidos os discursos dos sem terra. Eles são tidos efetiva¬ Além disso, pelo fato de preponderar o discurso sobre o medo, a insegu¬
mente como meras citações, enquanto os discursos dos fazendeiros e da polícia rança, e a necessidade de vigilância em função de uma tensão, é necessário res¬
são assumidos propriamente pelojomal. Quer dizer, mesmo quando essas fontes saltar que papel o medo pode ter na adoção de determinadas posturas não apenas i
pelos próprios ruralistas e pela BM, mas também_neia.prÓDria
não estão citadas no texto, percebe-se a sua voz assumida pelo próprio jornal. comunidade. <
294 VIGÍLIA em colheita desloca 80 PMs. Zero Hora, Geral, 10 abr. 2007, p. 34. <
Grifou-se. j
j 500 metros de um conflito. Zero Hora, Geral, 22 nov. 2007, p. 32.
2,5
WOLF, Mauro, op. cit. p. 199. 2’“ Grifou-se.
2<,Í>MOU1LLALD, Maurice. O sistema das citações. In: MOUILLAUD,
Maurice; | Edições do dia 13 de dezembro, p. 40; dia 25 de fevereiro, p. 05.
PORTO, Sérgio Dayrell. O jornal: Da forma ao sentido, p. 117-144- Brasília: | 2”
REBELO, José. op. cit. p. 96.
UNB, 2002. p. 121.
j
205
Malaguti Batista, ao analisar a instrumentalização desses sentimentos, parte da elite branca, exposta em trechos dc jornais da década dc 1830. Sob
observa que no Brasil, “a difusão do medo do caos e da desordem sempre tem o título “Discursos que matam: medos impressos" Malaguti logra demonstrar
servido para detonar estratégias de exclusão e disciplinamento planejado das{ que os jornais expressavam e propagavam justamente o medo que acometia às
massas empobrecidas”.300 Apesar de o contexto social do qual parte a autora elites naquele período: “Medo da cólera, medo do cometa, medo dos escravos,
ser urbano, sabc-se que facilmente se aplica à situação do campo.,As imagens ; capoeiras ‘aos magotes’ pelas ruas, enfim, a década dc 30 do século XIX era I
de terror envolvendo a crueza do sangue derramado do dia-a-dia envolvem um |dc profunda inquietação das elites; nada parecia estar ‘cm ordem”’.303 •
conjunto de alegorias de poder. “Essas alegorias, esses discursos, essas ima- 1 i Diante da desordem, provocada por uma situação social extremamente
* violenta e injusta, a resposta buscada por essa mesma elite não era a solução
gens, compõem um arranjo estético, no qual a ocupação dos espaços públicos| ' I
pelas classes subalternas [...] produz fantasias de pânico do ‘caos social’”.30!7 do problema. “O medo da desordem dispara entre os conservadores a retórica
Com alegorias de poder distintas, mas tão enfáticas quanto as da cidade, I da restrição de direitos e da impunidade. Manter a escravidão bem comporta¬
da implica na adesão aovelho dogma inquisitorial que tem na pena a solução
a prcsença_da .classe, subaltçijia exigindo. terras no campo també[Link]
caos. Na medida cm que a terra esteve historicamente ligada ao poder, toma-se para conflitos sociais’^2
I / impossível imaginar o povo tomando a posse de milhares dc hectares, sendo que
O aumento do controle social sobre os escravos africanos no Brasil de¬
I jcm cada palmo desse chão encontra-se incrustada uma genealogia que remete corre da difusão desse medo, principalmcntc após a Rcvoltiudos Males na
Bahia, e em função da revolugão no Haiti, Porém.
j laos primeiros que dominaram tal espaço, reproduzindo-se a sua concentração
i I por tantas gerações. Ao imporem um risco àjcproducã[Link]ó[Link]-e [...] no debate sobre as consequências e medidas a serem tomadas diante da
bandeiras representam muito mais do que simples pobres do campo_marchando. perspcctiva de uma grande rebelião escrava, não aparece qualquer concessão
Os discursos dos proprietários, reproduzidos. insistentemente pelojori ou demanda por mudanças naquela sociedade violentamente hierarquizada. A
nal, demonstram bem isso. O medo proprietário do ingresso dos sem terral sociedade imperial nem sequer questionou sobre a instituição da escravidão.
. naquela determinada propriedade é muito simbólico. Por isso, a necessidade/ As denúncias dc uma articulação internacional envolvendo inalês, haitianos c
abolicionistas ingleses tratavam de delimitar claramentc para fora da sociedade
excessiva dc vigilância e a clareza do medo estampada no discurso. *| imperial as causas das sublevações. Delimitar o inimigo como alguém dc fora,
Um exemplo disso c a fala do presidente do Sindicato Rural de São como o outro, c tratar dc estabelecer estratégias dc controle duríssimas foram as
Gabriel, no dia 23 dc novembro de 2006, quando os ruralistas criaram uma medidas tomadas. Questionar a escravidão, jamais.303
contramarcha para impedir a marcha dos sem terra de entrar em São Gabriel:
“- Este local j simbólico. Estamos no limite com Rosário e daqui eles nãot . Da mesma maneira, no momento em que surgem lutas cm prol da re¬
।| passam. Sc vierem, vai haver enfrentamento”.302 forma agrária, o que menos sc discute é a própria reforma agrária. O jornal, ao
Ao veicular insistentemente esse medo, o jornal também o. constrói_e. J i reproduzir os medos proprietários, se limita a traduzir a luta social cm neces¬
z _reproduz._As escolhas realizadas no ambiente da redação, principal mente em| sidade dc vigilância e policiamento. E, dessa maneira, legitima o aumento do
função de serem voltadas aos valores-notícia c aos constrangimentos da organi-| I controle social c a atuação violenta da polícia.
Ízação jornalística, sempre acabam recaindo nas fontes mais seguras„E as fontes
mais seguras são as proprietárias, além das, fontes oficiais, não se podendo dei-
É necessário observar que esse enfoque factual c despreocupado com
questões de Jundo poderia ser defendido em função do gênero jornalístico ado¬
1 1 xar, porém, dc lado, a posição editorial desse jornal, que se caractcriza por um tado, ou seja, a notícia. Seria objeto de uma reportagem trabalhar questões mais
profundo conservadorismo no que tange ao tema da segurança e da propriedade. contextuais. Entretanto, as duas reportagens que são apresentadas sobre o tema
O discurso do medo costuma ser instrumentalizado em situações diver¬ da questão agrária no período analisado, também expõem uma visão totalmcntc
sas. E o caso da análise de Malaguti Batista sobre o medo dos escravos por simplista sobre o assunto, reduzindo-o à identificação do conflito na luta pela
terra, sequer mencionando efetivamente a necessidade de reforma agrária,
300
MALAGUTI BATISTA, Vera. Medo, genocídio e o lugar da ciência... op. cit. p. 135.
”!idem. O medo c o método. Discursos sediciosos: crime, direito e sociedade, Rio dc MALAGUTI BATISTA, Vera. O medo na cidade do Rio de Janeiro... op. cit. p. 178.
Janeiro, n°9 c 10. p. 188. 304
ibid. p. 186.
ao? 305 ibid. p. 28.
ESTRADA repartida em três. Zero Hora. Geral, 23 nov. 2007, p. 32.
206 207
Nesse ponto, toma-se indispensável identificar que existe .[Link]ção
de classe cqnflitual envolvida nesses_c_asQSjo.[Link]. E o que a RBS traz Nossa cidade é de oportunidades para quem quer produzir. Não há oportunida¬
em seu guia de ética sobre isso é a necessidade de que os relatos sejam pre¬ des para bêbad_os, ralé, vagabundos e mendigo^ de aluguel. Se tu, gabrielense
amigo, possuis um avião agrícola, pulveriza à noite cem litros de gasolina em
cisos. As palavras-chave disso são “apurar a verdade, com isenção e na sua
plenitude’/*30/?Ora, o enfoque adotado nesse sentido não é nada isento. E isso vòo rasante sobre o acampamento de lona dos ratos, que haverá sempre uma
vela acesa para terminar o serviço e liquidar com todos eles. Se tu, gabrielense
porque, além de na maior parte das vezes a cobertura ter como base as falas amigo, és proprietário de terras ao lado do acampamento, usa qualquer remé¬
dos proprietários, o seu discurso é reproduzido mesmo quando os mesmos se¬ dio de banhar gado na água que eles usam para beber e rato envenenado bebe
quer são fonte direta da notícia, o que acaba definindo o tom que será utilizado mais água ainda. Se tu, gabrielense amigo, possuis uma arma de caça calibre
para todas as demais notícias a respeito. 22, atira de dentro do carro contra o acampamento, o mais longe possível. A
A gravidade da adoção dessa posição-sujeito nos casos dos conflitos no bala atinge o alvo mesmo a 1.200 m de distância. Fim aos ratos! Viva o povo
.campo fica exposta em discursos mais crus que podem ser detectados fora do gabrielense!30’
jornal. O caso da Fazenda Southall, em São Gabriel é um exemplo de como
Por mais que o panfleto possa não representar os ideais de todos os
os ruralistas possuem um discurso ideológico forte. Dom Tomás Balduíno, ao
ruralistas de São Gabriel, o fato é que o jornal Zero Hora, ao reproduzir nas
realizar exposição oral na 8a reunião da CPMI da Terra fala sobre esse conflito
notícias apenas o ponto de vista dos proprietários de terra e da polícia, acaba
de São Gabriel. Explica a situação em que a fazenda foi desapropriada em
apoiando um discurso de classe que, se levado às últimas consequências con¬
2003 e, mediante recurso do proprietário, teve a suspensão da desapropriação duz ao extermínio. Se não é de uma maneira tão explícita que esse discurso
concedida pelo STF. Em função disso, uma grande marcha do MST se dirigiu
higienista tosco é veiculado pelo jornal, ele o é nas entrelinhas, como se pode
à cidade, buscando pressionar o STF a mudar seu entendimento.307 Da mesma
visualizar em alguns trechos. Um exemplo interessante que relaciona a desor¬
forma como ocorreu em 2006, em 2003 os ruralistas também tentaram barrar a
dem e a sujeira aos sem terra é o trecho:
estrada para que os sem terra não passassem. Através de um panfleto anónimo,
intitulado “Gabrielenses dizem não à invasão e aos seus apoiadores”, distri¬ Na sexta-feira, cinco caminhões cruzaram 16 vezes pela avenida principal de
buído pela cidade na época, o discurso mais discriminatório^preconceituoso e Coqueiros do Sul, carregados com integrantes do MST e tralhas para acam¬
assassino foi veiculado, conforme se_pode ler abaixo. pamento. Não há o que proíba os sem-terra de ir e vir, até porque se deslocam
para um terreno que arrendaram, estrategicamente situado em frente à Fazenda
Povo de São Gabriel, não permita que sua cidade tão bem conservada seja Coqueiros.305
agora maculada pelos pés deformados e su jos da escória humana. São Gabriel,
que nunca conviveu com a miséria, terá agora que abrigar o que há de pior no Em primeiro lugar, utiliza-se novamente a estratégia argumentai iva do
seio [Link]._Nós não merecemos que essa massa podre manipulada porl pressuposto. Isso porque no lugar do posto, quer dizer, a novidade, aparece o
I meia dúzia de covardes, que se escondem atrás de estrelinhas no peito, ve-( texto “não há o que proíba”. O que significa que o leitor iria pressupor que
I nham trazer o roubo, a violência, o estupro e a morte. Esses ratps precisam ser deveria haver urna forma de impedir os sem terra de ir e vir.
exterminados. Vai doer, mas, para grandes doenças, fortes são os remédios. E Mas o principal é a identificação dos pertences dos sem terra que pre¬
preciso correr sangue para mostrarmos nossa bravura. Se queres a paz, prepara tendiam montar acampamento em Coqueiros do Sul como “tralhas”. Segun¬
a guerra, só assim daremos exemplo ao mundo que, em São Gabriel, não há do o dicionário Aurélio, “tralha” é sinónimo de “cacaréus”, que significa
lugar para desocupados. Aqui é lugar de povo ordeiro, trabalhador e produtivo.
trastes e utensílios velhos. A ideia de sujeira [Link] desordem está implícita
nessa palavra, escolhida ideologicamente para fazer parte da notícia. E é fala
uH GRUPO RBS. op. cit. p. 31. “A RBS acata, entre outros, os preceitos do Conselho do próprio jornal.
Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Cqnar). as normas do Conselho
Executivo das Normas-Padrão (Cenp) e o Código de Etica e Auto- Regulamentação
da Associação Nacional de Jornais”, ibid. p. 47.
307
BRASIL. Congresso Nacional. CPMI “da Terra”: Relatório final (voto venci¬ 308 Ibid.
do)... op. cit. p. 80-81. 31)5
ACAMPAMENTO sob vigilância permanente. Zero Hora, Geral, 21 fev. 2007, p.
30. Grifou-se.
208
209
l
ja na reprodução de uma fala do presidente do Sindicato Rural de São' Paz-conflito
Gabriel, fica mais clara a percepção a respeito dos acampamentos: “- Decisão
judicial se cumpre e não se discute. O ideal seria que os sem-terra
voltassem
para seu local de origem e não fazer uma favela rural em São Gabriel, o que
A maior parte das notícias relacionadas à questão da terra
chapéu1'5 o termo “questão agrária”. Nesse aspecto é interessante
teve como
verificar o _
diminui a renda e aumenta as despesas do município”.310 que o jornal Zero Hora entende por questão agrária. Aparentemente, o
termo
V
A identificação dos atos dos sem terra como desordens é bastante clara, se refere às lutas no campo, tendo cm vista que uma caractcrística comum
e se relaciona com o rompimento da paz. No momento em que os proprietᬠdas notícias sob esse chapéu é a de dizerem respeito a atos dos sem terra ou à
rios propalam a ideia de que os acampamentos e futuros assentamentos são resposta aos mesmos por parte dos fazendeiros.
os gérmens de favelas rurais, estão também difundindo a concepção da de¬ Como visto no tópico 2.1.3, a questão agrária não se relaciona ape¬
sordem relacionada ao povo. Quer dizer, da sujeira. Não deixa de ser também nas às lutas dos camponeses por terra, mas sim à própria concentração da
um discurso higienista. “Percebendo a sujeira como portadora da desordem, - terra, aos processos de expropriação, expulsão e exclusão dos trabalhadores
podcnios entender como, em certas épocas da história, as pessoas estranhas, rurais, à violê[Link] os trabalhadorcs-à-dignidade humana no campo.3'6
.‘os outros’, eranrin vestidos da qualidade de impuros, ou representavam “A questão agrária nasceu da contradição estrutural do capitalismo que pro¬
blcmaticamente a sujeira a enodoar um arranio estético”.3"
em: duz simultaneamente a concentração da riqueza e a expansão da pobreza c da
j Esses ideais-higienistas são, também, djscursos genocidas, que têm a miséria. Essa desigualdade é resultado de um conjunto de fatores políticos e
i finalidade de exterminar a sujeira, para que se
dè lugar à limpeza.312 E repre-
económicos”.317 Porém, essa violência que origina a luta [Link] em nenhum
|sentam a ideia de quebra de uma vida consensual, limpa, ordeira e pacífica. momento.é_cxpressa.sab-Q-chaDCu—questão-agrária” nasjiotjcias analisadas.
Aúnica matéria destinada a fa|ar sobre o MST é,publicada no.dia_L2 de Nesse sentido, esclarece-se também a visão que o jornal (em sobre os
abril, buscando çaracterizar o chamado “Abril Vermelho”. Nela, a cobertura conflitos no campo, já que a questão agrária só é notícia quando diz respeito
destoa das demais, indo aos sem-terra, entrevistando dois deles e explicando a um conflito pontual. Porém, partindo-se dos conceitos analisados anterior-
quem são as pessoas que fazem parte do movimento. Esclarece que em grande mente, devesse reconhecer que todas-asjrclaçõcs^[Link] sã[Link] pela 3
h conflitualidadç_e jiãODçja paz. Segundo as teorias confiituais, “a mudança eol f'
parte são jovens que sequer haviam nascido quando o movimento foi criado.
entendidos como desvios de um sistema ‘normali
\ conflito devem deixar de sercontrário,
Estabelece alguma crítica à reforma agrária, ao identificar o fato de que as ser vistos como características normais cfl
pessoas que estão hoje lutando nasceram em assentamentos, e, na voz de um e equilibrado, e devem, ao
professor da Ufrgs, “uma boa reforma agrária não deveria ser celeiro de
novos
universais da sociedade’^^?
sem-terra”.3'3 315 “Disposto acima da notícia ou reportagem, sempre colado à linha fina, esse lugar
tem a função de situar o conteúdo da matéria para o leitor, apresentar a ele
referên¬
^Mesmo curta, a matéria pôde identifiçar o moyimento_sem criminalizá-
-lo^apesaLde utilizar o termo “invasões” de terras.. Porém, um texto de Carlos > cia sobre a notícia, indicando ali uma região de sentidos legitimados pelo jornal”.
t ROMÃO, Lucílía Maria Souza. Mais de perto, mil faces secretas sob a face neutra:
Wagner, postado ao lado traz uma visão mais opinativa, como que oferecendo considerações sobre a heterogeneidade no discurso jornalístico. Revista Papiro,
a interpretação da matéria ao leitor.3'4
ij
’l São Paulo, ano 7, n. 25, out-dez dc 2005. Disponível em: <[Link]
nuc lcos/njr/espiral/[Link]> Acesso em: 20 out. 2007.
316 FERNANDES, Bernardo Mançano. A questão agrária no limiar do século XXL.,
op. cit.
iludem. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial... op. cit.
31(1
JUIZ visita acampamento do MST. Zero Hora, Geral, 25 de nov. 2006, p. 37. "yBARATTA, Alessandro. EI modelo sociológico de! conflicto y las teorias del con-
311
MALAGUTI BATISTA, Vera. Medo, genocídio e o lugar da ciência... op. cit. p. flicto acerca dc la criminalidad. In: ELBERT, Carlos Alberto. Criminologia y sis¬
135. tema penal: Compilación in memorian. p. 247-274. Montevideo/Buenos Aires:
312
ibid. B de F, 2004. p. 250. Tradução livre do original cm espanhol: “EI cambio y el
313
A NOVA cara do MST. Zero Hora, Geral, 12 abr. 2007, p. 39. conflicto deben dejar de ser entendidos como desviaciones de un sistema ‘normal’
314
A AGENDA do “griteiro”. Zero Hora, Geral, 12 abr. 2007, p. y equilibrado, y deben, al contrario, ser vistos como características normalcs y
39. universales de la sociedad".
210 211
mente. Ou então, é claro, quando a Brigada Militar entra em confronto físico
A conflitualidadeé pré-existente às lutas camponesas pela teiTa.3l9Porém,,
o seu tensionamento sim “é gerado por um modelo de desenvolvimento, quej
com os sem terra. Antes disso não parece haver uma situação conflitual.
aumenta a conflitualidade por causa da expropriação, concentração da terra e .A^cupação não é o começo da conflitualidade, nem o fim. Ela é desdobra¬
das riquezas”.320 Assim, oculta sob a obviedade de que a causa da tfnsão no mento como forma de resistência dos trabalhadores sem-terra. O começo foi
çatnpg.é a 'Luta dos sem terra, está uma conflitual idade anteriora-propagadora gerado pela expropriação, pelo desemprego, pelas desigualdades resultantes
. dejima_vi olênciajesfruturaL extrema. do desenvolvimento contraditório do capitalismo.323
A ideia, porém, de que a paz prevalecia antes da luta dos sem terra fica ex¬
pressa em todas as notícias. Isso porque a própria ideia de “tensão”, “temor”, por Junto com o rompimento da paz estabelecido pela atuação do MST,
parte dos ruralistas representa uma quebra em uma ordem natural. Essa ordem vem a consequência dos problemas com a produtividade nas grandes proprie¬
natural, lida de uma maneira literal, fica estampada no depoimento do Presi¬ dades gaúchas. Enquanto o MST_é_identifi.cado_com„[Link]._as
grandes extensões_d£_tena-de_propriedade deLpoucasJàmílias não são
dente do Sindicato Rural de Rosário do Sul. “Aqui sempre foi o caminho deles. vistas
Mesmo assim é um transtorno. Bem na hora que vamos começar a plantar temos como representantes do Brasil arcaico no século XXI, nem as relações de tra¬
de parar tudo por causa disso.321 Da mesma forma, o depoimento do presidente balho [Link] se investem. Isso aparece principalmente no contraponto entre
do Sindicato Rural de Guaíba, Eldorado e Charqueadas, exposto no trecho. agricultura familiar e agronegócio.
Infelizmcnte, o clima é de insegurança total. Estamos em época de plantio (de “MST desencadeia onda de protestos".
arroz) e não queremos conflitos nem vamos provocá-los. Só queremos proteger “Produtores rurais reagem às marchas”.324
nosso património e zelar pela integridade dos nossos funcionários”.322 “Estado é alvo de onda de invasões”.325
Quer dizer, existe uma ordem natural das coisas, Na primavera, deve- “Ruralistas deflagrarão uma ofensiva contra
-se plantar o arroz, depois, deve-se colhê-lo, e nessa ordem natural e pacífica, as invasões promovidas em todo o país pelo
não cabem marchas e ocupações de terras. Assim, fica claro que os conflitos Movimento dos trabalhadores Rurais Sem
agrários sãp percebidos como gerados a partir da luta pela terra. Terra (MST)”.326
Nos trechos abaixo, bem como na figura 8 afirma-se que o MST “desenca¬ Temos de dar um basta nesse movimento
deia” uma onda de protestos, o que significa o rompimento de uma ordem esta¬ (MST), que é puramente ideológico e patroci¬
belecida. Ao mesmo tempo, logo abaixo, o título expõe que os produtores rurais nado pelo governo assistencialista. Não vamos
—
“reagem” às marchas. Os atos dos ruralistas são, portanto, reações a uma ação deixar eles passarem de jeito nenhum. Cada
ação deles terá uma reação nossa afirmou o
desencadeada pelo MST, de forma a proteger a sua propriedade a partir da vigi¬ vice-presidente do sindicato, Felipe Nobre.”327
lância e da promoção de contra marchas, além de promessas de enfrentamento.
Porém, esses atos dos ruralistas, expostos como reações, implicita¬
Figura 8 - Página 38 da edição de
Assim, a produtividade no jornal
mente guardam o significado de legítima [Link] suas propriedades. Cons- ZH do dia 12 de abril de 2007
estritamente relacionada às fazendas,
ta._p_orém, da história analisada anteriormente que as “ondas de protestos’’. sejam elas ligadas ao arroz, à soja ou ao
“desencadeadas” pelo MST são também reações. Porém, são_reacões a uma eucalipto. A notícia sobre a vigília de PMs à colheita de soja em Coqueiros,
ordem s_ocial injusta, desjgual e violenta, que acarreta violações de direitos, bem como as falas de empresários responsáveis pela comprovação da produ-
compreendido, na base, de todos, D_direito_à vida.
A própria palavra “conflito” está presente sempre no contexto em que 323
FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvi¬
sem terra e ruralistas confrontam-se ou preparam-se para se confrontar fisica- mento territorial... op. cit.
324
MST desencadeia onda de protestos. Zero Hora, Geral, 14 nov. 2006. p. 38. Grifou-se.
315 FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão agrária: conflitualidade e desenvolvi¬ 325
ESTADO é alvo de onda da invasões. Zero Hora, Geral, 1 2 abr. 2007, p. 38.
mento territorial... op. cit. 326
RURALISTAS preparam reação a invasões. Zero Hora, Geral, 04 dez. 2006, p. 35.
3211
ibid. Grifos no original. Grifou-se.
321
MARCHA do MST é monitorada por ruralistas. Zero Hora, Geral, 1 5 nov. 2006, p. 31. 327
A 500 metros de um conflito, op. cit. Grifou-se.
322
MST se aproxima de área em Eldorado, op. cit.
212 213
tividade das fazendas ao Incra, como aparece
busca justamente demonstrar isso. no dia 16 de janeiro de 2007
como “multinacional de protestos”. Ou seja, se estão em pólos opostos uma
A fala direta da Corrêa Engenharia do multinacional que tem como objeto promover protestos, e três transnacionais
de 4,4 mil hectares são produtivas. Um dos Brasil, “garante que as terras que pretendem investir mais de oito bilhões de reais no Rio Grande do Sul, re-
ro agrónomo Paulo Corrêa, diz que há umasócios da empresa, o engenhei¬ florestando e gerando empregos, fica clara a percepção de para qual lado pen¬
plantação de arroz de 1,6 mil
hectares, além da criação de mais de 3 mil de a balança. Além disso, deixar claro que a Via Campesina não é de origem
cabeças de bovinos, búfalos e
ovelhas”.328 Também no dia 05 de dezembro: “Os brasileira ou gaúcha pode ser útil na definição dos “invasores” como estran¬
áreas de Southall são produtivas e não podem ruralistas garantem que as
ser desapropriadas”.32’ geiros, que vêm desenvolver protestos buscando desestabilizar a economia
Além dessas falas representativas sobre a ideia de que local com interesses escusos. Simultaneamente, oculta-se - como sempre - as
dade é produtiva e propicia o desenvolvimento, a grande proprie¬
essa convicção reivindicações que_são o qb j eto dos protestos, A análise realizada a respeito
presente nas notícias que tratam sobre ações está muito
do MST contra o plantio de euca¬ disso conclui na notícia apenas que a Via Campesina está buscando aliados na
liptos. A figura 9 abaixo exemplifica essa cidade, entre ambientalistas, e este seria o motivo da manifestação.
percepção. 1
216 217
marcha ou ocupação dos sem terra se resume à militantes,
cobertura acerca da vigilância
em tomo dela, seja pelos fazendeiros, seja pela polícia. f No mesmo sentido pode ser analisado o seguinte enunciado: “Osromaria, se¬
em romaria, chegam com o propósito anunciado [,..]”.343 A
3
palavra
Tudo indica, então, que o discurso_do jornal logra, significa, denotativamente, uma "peregrinação religio¬
gundo o dicionário Aurélio
limitar o movimento como sendo um inimigo político. E antesapenas de tudo, de¬
e, conotativarri ente,
não isso. E sa; reunião de devotos que participam de uma festa religiosa”,
o significado
^também umJniiDÍgo de toda a sociedade, na medida [Link]ç.
ca casos de crimes comuns_cometidos por sem terra. também se desta¬ a “aglomeração de pessoas em jornada”.344 Apesar de aparentemente possibilidade
ambíguo traz a
I da palavra aqui ser o conotativo, a escolha do termo
peregrinação religiosa.
Ainda, algumas observações sobre três
termos específicos parecem ser í de diversas interpretações, em especial a referência a uma está cercado
interessantes. No dia 14 de novembro, a notícia sobre a marcha que
partiu de ; Ainda, na mesma reportagem, é exposto o enunciado: “Guerra
Arroio dos Ratos em direção à Cabanha Dragão, em movimento, num raio de até 20
Eldorado do Sul trouxe o : pelos sem-terra. O exército de simpatizantes do Exército, acordo com
de
seguinte enunciado: sob o sol a pino, homens, mulheres e
criancas, reaaitadas ! quilómetros da fazenda, c composto de 7,4 mil pessoas”. que
-
neste acampamento o maior do Estado e também em
Santa Rita começaram a marchar pela BR-290.340
- Canguaçu e Nova o dicionário significa, denotativamente, “as tropas de uma
nação ou as tropas
“grande porção de pessoas, multi-'
entram num combate” e, em sentido figurado, jornalística e o que
A utilização do termo “recrutadas?,
denotativamente pode ser consi¬ dão”. Novamente se realiza a observação sobre a linguagem expressões
derado simplesmente como angariar_pessoas. Porém, no se dá a crer com essas palavras. De forma recorrente são mencionadas
sentido exposto no identifique tanto com um senti¬
texto, com bastante ênfase à participação de mulheres
e crianças, conotati- para se referir aos sem terra de tal maneira que os Esses
vamente se tem a ideia, efetivamente, de um
servico militar obrigatório. Na do messiânico-religioso, quanto com um sentido^vcrticalizado-militarizado.
algo arcaico [Link].
definição do dicionário, recrutar significa “1 Alistar para
o serviço militar 2. sentidos buscamdesjegitimar o movimento como
Juntar, reunir, arregimentar pessoas. 3. Aliciar adeptos
para uma associação,
do jornal
companhia ou partido; convocar para uma seita”.
2.2.3 Do medo à repressão*, o sistema penal no discurso
Como nota Rebelo, “a linguagem é uma [Link]?.341
sentido, é possível que a mesma palavra possua Nesse sobre os conflitos agrários
sentidos totalmente diversos
(polissemia), o que leva ao questionamento sobre se ela foi usada adequadamen¬ Violência/crime
te c se rcalmente ela queria significar apenas um dos analisar a percep-
sentidos, ou mais de um. Na mesma esteira da ótica paz/conflito, é necessário
à questão agrária. Como
Formalmente, o enunciador resguarda-se por detrás da possibilidade
de redu¬ ção do jornal sobre a violência e o crime relacionados acerca da violência,
zir a sua responsabilidade à significação literal do visto, parte-se nesse trabalho de uma visão materialista
enunciado, relegando para e relacio¬
o enunciatário a reconstrução da respectiva significação complexificando-a
implícita. Tal jogo _nã_o a reduzindo à violência individual, mas sim,
às
permite-lhe, de acordo com as circunstâncias do estrutural, .subjacente
momento, negar ou ratificar a nando-a a diversas formas-de_vjolência, sobretudo, a
interpretação do enunciatário.542
.demais, decorrente da repressão [Link]^5/
lugar ocupado
Expor que mulheres e crianças foram recrutadas para Além~disso,_nessa [Link],se^dçye_analisar_gual é o
caminhar dezenas .[Link]ênciaJpstitucional. Re¬
de quilómetros sob o sol a pino (o que fica explícito
na fotografia da Figura 8, pelas agencias do sistema penal, tendo em
do sistema penal,
na qual até um carrinho de bebê aparece), leva à consideração
de que há obriga¬ lembrando a questão do papel do jornalismo na legitimação ocupam [Link]
ção, cm uma relação verticalizada, por parte
dos integrantes do movimento em cabe verificar se~[Link] agê[Link]]
realizar â caminhada. A possibilidade de que esses atos sejam dejLestaq^nasjjotíciasJlu.não.- terminologia utilizada
cessidade é desconsiderada no jornal. Pode-se dar a entender feitos por pura ne¬ Em primeiro lugar, cabe destacar a questão da
alheias com afina-
tanto como um sistema militarizado e aqui o movimento
verticalizado, como messiânico. para designar o ingresso de integrantes do MST em áreas
340
MST desencadeia onda de protestos, op. cit. O ENCLAVE do MST. op. cit. p. 04.
343
341
REBELO, José. op. cit. p. 100 Aurélio Buarque de Holanda, op. cit.
^FERREIRA,Aiessadro. y violência
342 ^BARATTA, Derechos humanos: entre violência estmeturaí
ibid.
penal... op. cit.
b 218 219
L
lidade de pressionar pela sua desapropriação. Na grande maioria das vezes “MST promete aumentar o número de invasões”?51 Esse texto demonstra
em que se referem a essa forma de atuação do MST, o jornal utilizou o termo quej>. jornal Zero Hora, ao se apropriar do discurso do MST, adapta-o a um.
“invasão”. De acordo com o que já foi visto, a escolha ideológica desse termo conjunto de valores completamente diferentes, ejnesmo no momento de
diz respeito à concepção de que tal atq..é criminoso e trata-se de um esbulho abrir um espaço para a voz do movimento (veja-se que o movimento é o su-
possessório. Os exemplos selecionados ao lado da Figura 11 abaixo retratam jgito da frase, bem como o dono da voz), a modifica. De tal maneira que aos
a palavra escolhida pelo jornal. /leitores resta ler a notícia de que o movimento, sabendo que seus atos são
Na opinião de Indursky, a designação inygsão, e seu correlato verbal,
invadir, é atravessada, “desde o interdiscurso, pelo discurso jurídico e sinaliza
J ilegais, porquanto são invasões, promete continuar agindo da mesma forma.
Esse tipo de leitura permite que as reações dos leitores sejam justamente
uma posição-sujeito legalista, que produz, neste processo de nomeação, o as identificadas na seção “Palavra do leitor”, do mesmo jornal, ou seja, de
efeito de sentido de viojação dapropriedade privada, com base no direito de revolta contra uma organização criminosa, que promete cometei crimes e .
propriedade, inscrito na Constituição” .w' Consequência disso é a percepção ningué[Link] nada para impedir.
de que se está diante de um ato ilegal, de uma violência contra os proprietá¬
rios, sendo que a imprensa “escreve a partir do mesmo lugar social em que se Aí percebe-se que o discurso indireto é outro recurso empregado para ignorar a
inscrevem os proprietários, com eles se identificando”?47 posição-sujeito dos sem-terra e deslizar à posição-sujeito dos fazendeiros com
a qual o articulista e o jornal se identificam, por um processo de .deslocamento
|3H1
“Invasão em São Borja. Dois ônibus foram .dooentidos, cujo resultado final implica em distorções bastante radicais dos
Geral >
usados por 150 membros do MST para in¬ sentidos mobilizados?52
m atoe
J-JI m u ptnpniwki, irta» )»4a >Hna
JUa* V/mdhti,
«IM.--
** vadir a Fazenda Palermo, a 40 quilómetros
Estado é alvo de onda de invasões do centro de São Borja, na manhã de ontem. Dessa maneira, o jornal aparentemente abre espaço para a manifestação
Capataz e vigias foram rendidos. A Brigada do MST, quando na verdade trata-se da apropriação de seu discurso de manei¬
Militar isolou o local”.34* ra a apagar a sua voz.
“A área de 1,3 mil hectares foi invadida se¬ Em quatro situações, do total, o jornal utilizou a expressão ocupação e
gunda-feira por 1 50 sem-terra. O grupo tem entrada, nas terras. E o caso dos exemplos: “Em São Borja, as duas bandeiras
48 horas para deixar o local”?4’ do MST hasteadas na madrugada de segunda-feira por 1 50 sem-terra na ocu¬
“Termina invasão em São Borja”. pação da fazenda Palermo [...]”?53 e “Os sem-terra entraramem três estâncias
“[...] Todos os sem-terra foram revistados
e identificados pelos policiais. Conforme a
localizadas em Pedro Osório, na Zona Sul, em Nova Santa Rita, na Região
Brigada Militar, não houve feridos durante a Metropolitana, e em Coqueiros do Sul [..,]”?54
operação”?50 Porém, essas expressões aparecem de forma isolada e, normalmente,
' no mesmo parágrafo utiliza-se a expressão invasão, como que corrigindo de
Sobre isso é interessante notar
que duas notícias em particular atri¬
' plano o equívoco. Caso a utilização do termo ocupação fosse recorrente em
buíram o termo “invasão” à voz de in¬
Figura 11 - Página 38 da edição tegrantes do MST. É o caso do título:
de ZH do dia 12 de abril de 2007
351 MST promete aumentar número de invasões. Zero Hora, Geral, 26 fev. 2007,
346 INDURSKY, Freda. O MST e o discurso da subsistência na imprensa brasileira. p. 30.
Verso e Reverso: revista da Comunicação, ano XVII, n. 37, jul./dez. 2004, p. 133- 352
INDURSKY, Freda. De ocupação a invasão: efeitos de sentido no discurso do/
146. p. 137. sobre o MST. In: INDURSKY, Freda; FERREIRA, Maria Cristina Leandro. Os
347
ibid. p. 137. múltiplos territórios da Análise do Discurso, p. 173-184. Porto Alegre: Sagra
348
INVASÃO em São Borja. Zero Hora, Geral, 14 nov. 2006, p. 38. Grifou-se. Luzzatlo, 1999. p. 184.
349
MARCHA do MST é monitorada por ruralistas. op. cit. Grifou-se. 353
TERMINA invasão em São Borja. op. cit. Grifou-se.
350
TERMINA invasão em São Borja. Zero Hora, Geral, 1 7 nov. 2006, p. 59. Grifou-se. 354
ESTADO é alvo de onda de invasões, op. cit. Grifou-se.
220 221
uma notícia, ocorreria o que explica Indursky, com base cm Pccheux, como Como visto, apesar de o jornal, na mesma esteira dc ruralistas c poli¬
um “acontecimento discursivo”, ou seja, como “uma ruptura com uma rede de ciais, conceber o ato dc invadir terras como um ato criminoso, não sc trata de
formulações c sua repetibilidade”.355 Porém, pelo fato de rapidamente o jornal um crime comum. Casojfosse, a noticia provavelmente estaria localizada na
corrigir o que de fato é um equivoco, trata-se apenas de um acontecimento geção. “polícia” C-não na seção “gcral”. Ou seja, o jornal reconhece que existe
enunciativo. uma questão política c social de fundo no caso das ocupações dc terras, que
distingue o seu caráter cm relação a atos criminosos comuns. Isso também
Esje aconlecitnentoenunciativo revela quãQ controlador ejdolento,é o discur-
decorre, talvez, do fato dc que esses atos são praticados em família. Estão
.^so-da imprcnsa.c.m relacã[Link]ídos, pois o discurso jornalístico não só presentes mulheres, crianças, idosos, c, acima dc tudo, não possuem um es¬
não mostra os sentidos do outro, como, ao dar-lhes a palavra, apenas simula ser
um espaço democrático que se abre para o discurso-outro. Ou seja: o mesmo tereótipo que os ligue ao de criminoso. Isso porque, sabc-sc que o sistema dc
gesto que abre espaço para a manifestação do outro apaga seus sentidos.356 controle penal se volta preferencialmcnte contra homens, jovens, pobres c,
prcfcrenciahncnte, negros.
Nota-ss,-[Link], que o discurso, da imprensa_ad_otajisjnesmos-tcmios Dessa forma, é interessante a forma como em alguinas reportagens se
utilizados por fazendeiros. e pelo sistema penal. [Link]>[Link]. consegue destacar outras características ligadas a esta criminalidade. Difcrcn-
com crimes -contra-a ordem ou contra o património. temente do criminoso comum, o integrante do MST é como um soldado de
Na noticia-do-dia_23_de novembro salta aos olhos [Link]ão_intc- um exército, que obedece a ordens de um superior para agir. Esses-supcriores_._
jessantg. Ruralistas queimaram pneus na [Link]-a^passa^cm çhamiLdosJídcrcs-doJMST, também não são identificados com o perfil do cri¬
dos sem terra. Esse tipo de ato, entretanto, normalmcntc quando [Link] minoso. Porém, possuem muito do que sc poderia chamar criminoso político.
pelos [Link] c chamado barricada ou vandalismo. Porém, o texto da
Isso porque, [Link]-cfctivamcntejtratar dc_dcmonizar discursivamen-
notícia explica que “cerca de 350 ruralistas acampados a 500 metros dos tc os sem terra, busca-se [Link] que suas motivações são ideológicas.
sem-terra recorreram a uma estratégia normalmcntc associada aos adver¬
Qucsc tem em mente, com essa atuação, romper com o Estado dc direito!
sários f...]".357 Assim, o mesmo fato, co.m ajncsma_dcscrição_podcuscr_e.x-
plicado de diferentes maneiras. Certamcnlc se o ato tivesse sido praticado
pelos sem terra, a expressão utilizada não seria meramente “estratégia”.
No contexto, porem, cm que os ruralistas praticam-na, é de uma mera es¬
I vivido na atualidade para, sob o socialismo, poder distribuir as terras que hojel
pertencem a poucos.
Dessa maneira, no momento em que as notícias trazem esse discurso, os
líderes c integrantes do MST são despidos de sua roupagem de camponeses,
tratégia que sc trata. com toda a sua significação, para [Link].d_e de inimigos _d_o
Em que pese o fato de que o discurso sobre na imprensa possibilite a ocorrên¬ .Estado e, é claro, de todos os que defendem a propriedade privada como um
cia das diferentes vozes envolvidas na questão agrária, o resultado final é que princípio absoluto. [Link] maneira, passíveis de vigilância c temor_
as narrativas jornalísticas imprimem uma direção aos sentidos, privilegiando a kjçc. portanto, de um maior controleisocial.
posição-sujeito dos fazendeiros e seu efeito de sentido.35’ J No_diaJZ5-dgJcYcrciroJhLDublicada uma das duas únicas reportagens
[Link]^[Link]çstãji^gráriajiQ-pcrktdcLanalisaxlO-ÍEigura 1 2).
Essa reportagem, porém, provavelmente por se tratar dc um gcncro jornalís¬
tico diferente, ou seja, mais aprofundado do que as notícias, destoou tam¬
bém no que sc refere à forma de análise. Dc fato, as reportagens devem ser
normalmente mais aprofundadas, operar segundo a dedução, ter uma visão
355
INDURSKY, Frcda. O MST c o discurso da subsistência na imprensa brasileira... interpretativa e trazer pautas complexas. Entretanto, apesar dc a pauta com¬
op. ci(. p. 142. plexa ter sido escolhida, a abordagem interpretativa se deu em um sentido
556 ibid.
357 irónico £ preconceituoso, buscando o interesse político-económico para as
ESTRADA repartida em três. op. cit. Grifou-sc.
3S“
INDURSKY, Frcda. De ocupação a invasão: efeitos de sentido no discurso do/ ações do MST em Coqueiros do Sul. Além disso, é o texto em que mais sc
sobre o MST... op. cit. p. 1 84.
222 223
percebe a tendência criminalizadora e redutora no que concerne à reforma í a existência de um interesse ideológico e não a relação disso com a sobrevi- j
agrária. 1'vencia das pessoas.
AsSim, após meses legitimando a necessidade de vigilância das
“Em cinco anos, o enclave de sem-terra no
Planalto Médio registrou 20 invasões de terra ações dos sem terra, a reportagem vem mostrar exatamentejjor£uais mo-
e cem delitos relacionados à disputa agrária. tivos o MST deve ser delimitado como urn inimigo. Com a frase exposta
A Polícia federal investiga a possível presen¬ acima, o jornal logra justamente fazê-lo. Na verdade, esse inimigo não é
ça de estrangeiros nas ocorrências”.35’ bem individualizado nas páginas do jornal. TratazSe.de_meroblO-[Link] um
“Uma das reçordistas_em.produçâo_agrícola grupo criminoso. Mas, ao mesmo tempo, é comum perceber a necessidade
noJEstado, a região, chamada Planalto Médio, de separar os camponeses inocentes dos culpados. A fala de um proprietá¬
vive uma disputa crescente e violenta pela rio de terra no dia 24 de novembro, em São Gabriel demonstra isso. “- Não
posse da terra ".360 quero confusão. Não vou chamar a policia porque muitos deles não têm
“Zero Hora fez uma pesquisa e constatou que
culpa de nada”.363
essa linha de frente, que compreende ainda os
municípios de Sarandi, Almirante Tamanda- Quer dizer, então, que apenas alguns têm culpa e, provavelmente, trata-
ré, vivenciou entre os anos 2001 e 2006, mais -se dos .líderes. A existência de objetivos escusos nas ocupações e marchas
descem ocorrências policias registradas em é ressaltada principalmente na mesma reportagem especial. Um dos objetos
fazendas".*' de análise do jomaLé.um documento da Brigada Militar que afirma a fina-J
“Félix Guerra, dono da Fazenda Coqueiros, t lidade dos atos criminosos que integrantes do MST teriam cometido na rej
foi transformado em desafeto preferencial do Igião: “Acuar Guerra, portanto, é questão de honra para os sem-terra, alerta
-
Figura 12 Página 4 da edição de
MST também por motivos ideológico-senti¬ um documento preparado pelo serviço reservado da brigada Militar e anexado
ZH do dia 25 de fevereiro de 2007 mentais. Ele é o
último grande proprietário na a processo judicial criminal sobre delitos ocorridos em fazendas, que tramita'
região que foi berço do movimento dos sem- em Carazinho”.364
-terra [...] Sem a presença de sua fazenda, ficaria consolidado o projeto de uma
Ora, se os atos criminosos que teriam praticado os sem-terra na região
MSTIândia de matizes socialistas, encravada entre as duas principais estradas
da região, a BR-386 e a RS-324”.3“. têm única e exclusivamente o objetivo de acuar o proprietário da fazenda,
nota-se que, mais uma vez, não se tratam de crimes comuns. Tudo indica
Em primeiro lugar, ao encontrar motivos sentimentais-ideológicos nas que se. tratam, isso sim, de motivações político-ideológicas que vitimizam
sucessivas “invasões” da Fazenda Coqueiros, destaca que há um projeto de vários outros proprietários da região, conforme dito pelo jornal. Relacionar'
formar uma MSTIândia, tendo em vista os assentamentos do MST ao redor, numericamente ocorrências policiais logra justamente ilustrar o significa¬
onde o próprio movimento foi fundado. Além disso, busca encontrar motivos do da existência de um acampamento do MST na região de Coqueiros do
económicos, concluindo que a região, por ser o celeiro do estado, é mais inte¬ Sul. “São 20 invasões de propriedades rurais, 18 registros de furto e abatei
ressante do que as terras da região da fronteira, por exemplo. ilegal de gado, 12 incêndios de lavouras, além de 70 atos de depredação de‘
Discutir a questã_o_agrária não é o objetivo da matéria, o que fica claro। propriedades rurais, o que inclui corte de árvores c destruição de veículos
desde o início. A palavra “violenta” é utilizada exclusivamente para quali-l1 usados na lavoura. Em quase todos os casos, testemunhas e vítimas ouvidas J
.ficar a disputa por terra na região, ocultando, portanto, a situação que levai nos inquéritos policiais apontam militantes do movimento dos sem-terra'
“propriamente os sem terra a ingressarem nessa disputa. Ou melhor, investi- 1 como autores" .365
ga-se essa motivação, mas através de um filtro que apenas permite visualizar I
319
A MSTIândia. Zero Hora, capa, 25 fev. 2007, p. 01. Grifou-sc.
360
O ENCLAVE do MST. op. cit. Grifou-se. 363
EDITAL de vistoria irrita ruralistas. Zero Hora, Gera), 24 nov. 2006, p. 48.
361 O
PROJETO é fazer uma MSTIândia. op. cit. Grifou-se 364
O ENCLAVE do MST. Zero Hora, Reportagem especial, 25 fev. 2007, p. 5.
362
ibid. 365
O ENCLAVE do MST. op. cit. Grifou-se.
224 225
[ Os crimes principais, que também são relatados em um quadro, no caso A situaçgo de violência física mais graveda Brigada Militar, foi a rela¬
•
de um proprietário de um sítio, são depredações e saques, além da morte de tada no di a 13 de abril:
' animais. Essa reportagem se distingue das demais justamente porque demons¬ Um integrante do movimento dos
tra que os atos ilícitos praticados pelos sem terra não se resumem às ocupa¬ Trabalhadores Rurais Sem Ter¬
ções de propriedades, estradas e praças. São também outros atos criminosos ra (MST) foi baleado e outros
comuns e violentos. Mas, além de significarem que a pobreza no campo gera dois detidos em confronto com
a criminalidade, demonstram outras motivações escusas, de assustar o maior a Brigada Militar (BM) na tarde
latifundiário da região. de ontem, em Coqueiros do Sul.
Ajelação dos atos do MST com o crime vem bastante caracterizado Durante a madrugada, outros três
na tomada de deçisÕes_por membros dos órgãos do sistema pepaL A atuação manifestantes haviam sido presos
das agências do sistema penal nas notícias analisadas foi representada pela por furto e posse irregular de mu¬
Brigada Militar e pelo Judiciário. Nessas matérias, a atuação da polícia se nição.367
De madrugada, quatro integrantes
deu preponderantemente no sentido de vigiar todos os passos dos sem terra, do MST foram presos quando dei¬
propiciando um controle ao que sentiram ser “invasões” anunciadas. Em Figura 13 - Página 48 da edição de ZH do xavam a Fazenda Coqueiros. Um
algumas situações, entretanto, houve confronto direto com integrantes do dia 13 de abril de 2007 deles era foragido da Justiça. Os
movimento. outros três tinham cinco cartuchos
Alguns exemplos disso estão nos trechos selecionados. É interessante de arma e três colchões retirados da base da BM montada no local. Depois de
notar também que a maior parte dessas ações da. Brigada .Militar é autorizada autuados, foram levados ao presídio.368
pelo Judiciário. Foi o caso das barreiras formadas era São Gabriel e em Eldo¬ -
Apreendemos 300 foices e facões, um manifestante foragido e outros três que
rado do Sul, noticiadas nos dias 23 de novembro e 02 de dezembro, buscando haviam cometido furto.*®
impedir o prosseguimento das duas marchas do MST que ocorreram no perí¬ Apesar de o título da matéria ser voltado ao fato de um sem terra ter
odo. levado um tiro, toda a notícia relata que os sem terra também estariam arma¬
No momento era que os sem terraJentam entrar na propriedade para dos, expondo a ideia de que eles próprios podem ter acertado o companheiro.
fazer sujsjnanjfestações, a violência estrutural contra a qual reagem converte- O jornal busca deixar claro que a atuação da Brigada foi de defesa contra a
-se era violênçiaJnstitucjonal. Uma observação interessante quanto a isso é a
entrada dos sem terra na Fazenda Coqueiros. Além disso, que “houve disparos
reclamação de torturas empreendidas contra os sem terra, divulgada no jornal
de sem-terra e de policiais militares”. Porém, depois de revistá-los, a policia
Zero hora do dia 16 de abril. “Um dos coordenadores do acampamento, Car¬ encontrou apenas as foices e facões que são os seus instrumentos de trabalho,
los da Silva Moraes, contou que acampados têm hematomas nas pernas, nas e apreendeu trezentas delas. .Questionamentos_quanto à legitimidade de uma
costas e no tórax, produzidos por golpes de cassetete e chutes que teriam sido operação que-apraende instrumentos jjeJtabalhQ_a-pretexto_de_buscar armas
desferidos por policiais”.366 de fogo.nã[Link]. A notícia ainda ressalta a prisão de três sem terra de
Assim, após noticiar quotidianamente atos em que os sem terra have¬ madrugada, por serem foragidos. Novamente, asfontes que aparecem são as
riam usado violência, por romperem com a paz, nessa edição o jornal noticia oficiais, destacandorse A Brigada Militar como voz direta na matéria.
um relato de violência institucional, gerado a partir da reclamação dos sem
terra.
367
SEM terra leva tiro em confronto com a Brigada. Zero Hora, Geral, 13 abr. 2007,
p. 48.
368
ibid. Grifou-se.
366
SEM terra reclamam de torturas. Zero Hora, Geral, 1 6 abr. 2007, p. 28. 369
ibid. Grifou-se.
226 227
Uma questão especia£no que se refere_ao rei ato_dos_ jornais sobre a Eldorado do Sul”;372 “O juiz Marcelo Malizia Cabral também notificou a Bri¬
atuação dos agentes do sistemamenaLna questão_agrária^é. Q fato de que ela gada Militar para que impeça a entrada de integrantes do MST na área”.373
aparece sempre como complementar à dos fazendeiros, e vice-versa. Ou seja,
h j é como se, ao buscarem manter a ordem, os policiais corroborassem com o . “Uma operação com 200 policiais militares
[ í | interesse dos ruralistas, que querem também a manutenção do status quo. Po¬ pôs fim ontem à invasão do Movimento dos
rém, em algumas situações a atuação dos policiais aparenta quase ser de segu¬ Trabalhadores Rurais Sem Terra em Coqueiros
rança particular de fazendeiros,, como se viu na Figura 7. E o caso das noticias do Sul [...]. Os policiajs do Batalhão de Opera¬
ções Especiais de Passo Fundo e de santa Ma¬
sobre a aplicação de defensivos agrícolas na fazenda Coqueiros, no dia 10 de ria, incluindo um grupamento de 40 policiais
abril de 2007, já que foram deslocados 80 PMs para realizar a segurança da montados, chegaram ao local preparados para
propriedade. efetuar a identificação e prisão dos invasores.
Realizada pelo terceiro ano consecutivo, a mobilização da BM para garantir o Antes que entrassem na propriedade, os inte¬
trabalho dos empregados da Fazenda Coqueiros, visada pelos sem-terra, custa MST sai de área invadida grantes do MST abandonaram a área invadida,
RS 20 mil ao governo do Estado. abrigando-se nas áreas que mantêm arrendadas
U maoptf aç>u com 2® poií-
dab ml tero pô* fita «rtcm
çta e prli>o d»* iaraores. An ta
que n
ao lado da Coqueiros. Os policiais desmancha¬
Comandante da BM na região, coronel Waldir Cerutti. “Não tem nada a ver limante d> MorinxiHo de Ihò*-
hadnrra Rurm Sem ferra «n O
ir«çr«rttei do MST
•ánrti
im inradàU, atvtprNfo- «c nu
com serviço pessoal. Nosso dever é garantir a ordem em todos os lugares”.370 quaraa d» SiA manda na madm •
fada de quaru-ítm. Ma «timi
que mentím «rendadas
lalodi CbqMvw.
ram os galpões que haviam sido construídos e
vet e MsT teria emrad» na Pa- O» pdirisk dnmtftdunn» m
senda GoqudnM,d« fendia Qrf- gdpôet que teriamiMjoaiiRntf*
retiraram a cerca que os manifestantes haviam
Assim, aparece o custo da operação em Coqueiros para o Estado, em ta,r» farteitateu
A «rinlcgrnçdo de
d»e retiraram »crm qnc cn tiu-
come¬ nifestamts tevúundcdúcatfo pnr deslocado por cerca de 200 metros para den¬
çou par vote dar HnXknint foi cerca de 200 mdru* para drotfu
função do risco da proximidade dos sem terra. Mais uma-Vez, porém, a discus- rimtiktnra oondoà pooaca da lo- da Coqurijm. A RMdrin dr* ter-
VMM «parado» p» 10 qu36<ne- rarnet foi
tro da Coqueiros. A madeira dos barracões foi
^acendida pda Bripda
sãode fundo ficou de lado, ou seia. o paradoxo de se_gastar [Link] dinheiro^ tna. O* potíciab do teidhto de Aliar
Opcra^An de RàMo Cnm <m rnkw de «atira, m po-
apreendida pela Brigada Militar”.™
com a sejurança privadq dejumalazenda e nada com as causas do conflito que
Ruxfo edr Santa Maria, indiando ItetiM cm pcAn dr tuendi abri*
. um gnipanaenta d« 40 pUkub nw wt.» tdt ada rente b dirua
mcrt«fo*,<teprajt>aokocilprv- De uma maneira geral, nota-se que.
MrataciktftlpatndteiWiNonB
f é ajnjusta distribuição [Link]. as desigualdades e opressões no campo. parota para efetuar afctaífc*. íoctL
diante da identificação do_conflito agrário
V A atuação arbitrária dos policiais nas reintegrações de posse tampouco Figura 14 - Página 50 da .particular, busca-se individualizar o fs)
são questionadas no jornal. Em duas situações pelo menos aparece a destrui- edição de ZH do dia 01 de _
culpado (s) e a (s) vítima.ísl atuação pró¬
' ção dos barracos montados pelos sem terra e a apreensão do material, sendo dezembro de 2006 pria de uma sociedade-punitiva e atomiza-
que o objeto das ações possessórias é apenas a retomada da posse, e não des¬ daJJ resultado acabasendo a, identificação
truir ou apreender, sem devolução, o que estava no local e que é de proprie¬ ,de um inimigo interno, o qual é necessário combater para fazer cessar a confli-
dade de outras pessoas. Entretanto, apenas houve o relato como se fossem o tualidade, No mesmo sentido do medo branco dos escravos negros do século
cumprimento de ordens judiciais. XIX e do consequente aumento do controle social para a sua contenção, hoje
A atuação .[Link]ário nos [Link]-campo_ também ocorre a violência física por parte dos fazendeiros, assim como a violência institucio¬
[Link] de privilegiar os ruralistas. o que fica demonstrado_em todas as
dgçisões judiciais expressas nas notícias analisadas, corroborando com a-ideia
de que os atos, mesmo que marchas, são ilegais^e deyeimser barrados. Alguns
nal do sistema penal, acabam se voltando contra o grupo dissidente.
O fato é quenão há sequer uma situação em que oJumal relate ma-
nifestações do MST sob o ponto. de_v.ista_dos seus próprios atoies. O olhar é ,
_
deles são: “Decisão da Justiça impediu prosseguimento da caminhada. Briga¬ sempre, na suatotalidade, dos ruralistas e dos agentes do sistema [Link] (
228
770
predações e mortes de animais, nada de concreto também [Link] essas '[ do MST caminhem sobre uma rodovia sem tomar providências? Atrapalham I
acusações, além de ocorrências policiais. Ou seja, acusar um grupo de haver |l o trânsito e prejudicam o ir-e-vir do cidadão que trabalha e paga impostos”.375 «
praticado crimes violentos, ainda mais da_ forma como relatados pelo jornal, O conceito de cidadania, invertido nessas [Link] claramente
sem haver sequer um processo formal, é uma .grande irresponsabilidade^ E o perfil ideológico do próprio jornal. Não é difícil perceber que as seções
essas acusações ficam ainda mais duvidosas quando se nota os artifícios dis¬ do jornal que trazem opiniões, apesar de não representarem, em tese, o seu
cursivos utilizados, cm especial na reportagem especial do dia 25 de fevereiro, pensamento, são cuidadosamente selecionadas conforme o efeito que se quer
para esconderem o fato de que a maioi^ parte do texto traz interpretações dp causar. No caso da “Palavra do leitor” isso fica muito claro, pois ao expor a
próprio jornalista, sem relação com a intencionalidade .ejprática do MST.. inconformidade do povo para corn os sem terra, o jornal está, implicitamente
Ora, qualquer aula de jornalismo impresso irá demonstrar oue o mais bási¬ criando uma deslegitimacão [Link] umjno.vjmento_qu£Jem_a_base_Jio
co na construção de uma reportagem sobre um fafo_ébuscar_asjontes-diretamente povo. “O ‘correio dos leitores’ pode significar mais do que a expressão de
relaçipjiadasjLesseJatp. Mas os sem terra, que são os sujeitos das manifestações, interactividade entre o jornal e o seu público. Pode significar mais do que uma
de fato são travestidos em objetos davigilância nas matérias [Link], A não ser simples disponibilização de espaço. Ele pode ser um ponto de partida para
.qyando se trata de relatar os crimes. Nesse caso, [Link] a ser sujeitos, mas operações de marketing, ou outras, que o jornal queira desenvolver”.376
não no sentido próprio da palavra. São traduzidos emjt/íenor qrivQS-do.tipQ_penal Nesse caso, invoca-se o sistema penal, toma-se ilegítima a manifesta¬
correspondente, despidos de sua humanidade, e demonizados,. ção, tendo em vista que atrapalha o trânsito, e ainda traz-se uma definição de
jcidadanja que_ex.[Link], a priori, os sem terra, dando a entender, no momento em
A questão agrária nas outras seções do jornal que o conceito de cidadania está ligado ao trabalho c pagamento de impostos,
que QS_mesmos não trabalham_e não pagam impostos. Por isso, também não.
Após analisar as notícias e reportagens relacionadas à questão agrária, merecem o direito de jr e yir. muito menos atrapalhando os cidadãos ordeiros. I
retirando delas as três categorias discutidas, parece ser interessante verificar Isso fica ainda mais perceptível pelo fato de que por duas vezes foram
rapidamente a forma como em outras seções do jornal foi feita referência à publicadas cartas de Felipe Nobre, produtor rural e vice-presidente do Sindi¬
questão agrária ou aos movimentos sociais de luta pela terra. Apesar de serem cato Rural de São Gabriel, na seção de palavra do leitor. Este é um leitor com
textos dejopinião, que, em regra, não refletem necessariamente a opinião do espaço cativo na seção, tendo em vista sua afinidade ideológica com o jornal.
jornal, sabe-se que também para [Link]ção deles há uma seletividade. Além da palavra do leitor, a questão agrária esteve presente em outras
Um exemplo é a seção de “palavra do leitor”, onde esta seletividade seções do jornal. O direito de propriedade foi o tema do Fórum da Liberdade,
tem bases claramente ideológicas, sendo que nos seis meses de análise todas evento promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE), e que teve uma
as menções à luta pela terra tiveram as mesmas caracteristicas._Eoxgm_dezes- cobertura exclusiva do jornal Zero Hora na seção de economia dos dias 1 7 e 1 8
[Link]. cartas, publicadas sobre o MST no período analisado. A sua escolha de abril. Sendo um evento voltado principalmente para empresários, é claro que
também passa por uma seleção, onde apenas alguns temas, com determinados a abordagem do tema foi bastante direcionada para aqueles interesses.
conteúdos, são escolhidos. Isso fica claro em relação à questão agrária, tendo As datas do evento coincidiram com o dia do aniversário de 11 anos do i
em vista que todas as opiniões relacionadas [Link] são_coinpletamente con¬ massacre de Eldorado dos Carajás e o dia posterior, e, consequentemente, com
trárias às suas, ações, normalmente questionando a ausência da policia para as manifestações do MST do chamado Abril Vermelho. Porém, a cobertura do
conter manifestantes, ou de outras agências de controle social formal. Além Fórum da Liberdade _ofuscou-a_abordagem sobre oMassacre_e. também sobre
disso, há várias referências irónicas, como o caso em que um leitor, no dia .as manifestações. A reportagem do dia 17 de abril traz um destaque à palestra
28 de novembro, propõe a criação do MSCF: Movimento dos Sem Câmera do Presidente do IEE, Paulo Uebel. A parte de seu discurso que foi relatada
Filmadora, tendo em vista que integrantes do MST, ao ocuparem um prédio, por Zero Hora, foi justamente a que se volta contra o MST.
tinham uma câmera filmadora.
Mas o depoimento que melhor representa, aparentemente, [Link] demais 375
PALAVRA do leitor. Zero Hora, 22 nov. 2006, p. 2.
opiniões é o seguinte: “Onde está a polícia, que permite que alguns integrantes j 3,6
REBELO, José. op. cit. p. 131.
230 231
Na edição em que o fórum elegeu como tema o direito à propriedade, Uebel O mais interessante [Link].são as pejgiintas, quer dizer, o dire-
chamou o MST de ‘miséria, sangue e terrorismo’, em referência à sigla. E cionamento que o jornalista busca dar ao conteúdo da fala_domunistro. o quaVl
colocou o movimento ao lado de organizações terroristas como o Sendero Lu-j
corta a linha que o jornalista queria seguir, desde a primeira pergunta, e acabaj
minoso, a AI Qaeda e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)J
por desrespeitar os direitos humanos e a propriedade e colocar em risco a ci¬ repetindo outras duas para reafirmar suas intenções.
vilização.177 No dia 21 de abril a crónica de uma veterinária é justamente nesse sen¬
tido. Explora a ideia de que os proprietários convivem com “a insegurança
Na mesma notícia, fala-se sobre o discurso de Yeda Crusius. governa¬ diária, com o medo e o desrespeito”. A frase seguinte volta à questão da cri-
dora do estado, ocorrido na mesma oportunidade. Porém, ao fazê-lo, destaca- minalização: “A resposta a essa questão encontra-se na impunidade diante dos
-se que “A governadora Yeda Crusius fez [Link] acadêmico-ressaltando. últimos atos cometidos por esse movimento, dito como social”?79
[Link] à propriedade-não pode ser absoluto”.. O texto corrobora justamente com os temas debatidos no Fórum da
E interessante que o discurso de Uebel não foi qualificado como aca¬ Liberdade, ou seja, o direito à propriedade (dos proprietários), mas tambçm
dêmico, político ou ideológico. Não houve qualquer rotulação, apenas suas retoma o tema da análise das noticias. Trata-se, a partir de um comentário
ideias foram transcritas. No caso da governadora do estado, pelo fato de as de uma leitora, de legitimar a cobertura dos atos do MST através da ótica do
ideias por si expostas terem sido em sentido oposto, foj_necessário. rotulá-lo medo e da insegurança. Com isso, possibilita-se o aumento do controle social,
como acadêmico, o que, principalmente no campo jornalístico, significa fora_ a reclamação da impunidade, a atuação efetiva das agências de controle social
_da realidade,.alienadQ_da.prática-
formal no sentido de reprimir os atos do movimento.
Uma outra questão emblemática diz respeito à exposição, no local do
evento, de um caminhão, que teria sido incendiado em outubro de 2006 por
integrantes do MST em Coqueiros do Sul. Então, a repetição da ideia que 2.2.4 Conflitos agrários no jornal: da invisibilidade à satanização
de
atos dos sem terra são terroristas esteve presente durante toda a cobertura.
E A relação entre imprensa e movimentos populares parece sempre ter
não só aí.
sido de tensão. Desde que os jorndsxQnstituiratmse em empresas,.[Link] seus
Antes disso, no dia 18 de março, foi realizada uma entrevista com Tarso proprietários,.via de regra fizeram parte da elite no país, a cobertura sobre re¬
Genro, ministro_da justiça, principalmente sobre a criação de uma (
lei antiter- voltas escravas e camponesas sempre foi caracterizada pela invisibilidade do
jyrismo, enviada ao Ministério pelo Palácio do Planalto. Dos oito questiona-
mentos, três foram relacionados aos atos do MST: sofrimento humano, legitimando atos_çruéis.
Um exemplo disso é o estudo realizado por Malaguti Batista, onde a
—
Agência RBS Ações do MST, como, por exemplo, a
invasão do horto da
Aracruz no Rio Grande do Sul no ano passado estrariam nessa nova
leilão.
autora analisa os discursos do medo na cidade do Rio de Janeiro a partir da
conjuntura logo após a Independência do Brasil. Os medos de levantes e rebe¬
Absolutamente, não tem nada a ver. Aquilo é um atentado, um delito contra a liões por parte dos negros escravos foram frequentemente pautas dos jornais
propriedade que tem de ser punido. À medida que aquilo for apurado
como cariocas, nos quais os discursos sobre a necessidade de controle social da es¬
delito, será um delito comum. cravidão se fizeram presentes, legitimando a violência?’0
Agência RBS - E uma invasão do Congresso como a patrocinada pelo
Movi¬ Além do perigo escravo’, outras revoltas populares levaram a rea¬
mento de Libertação dos Sem-terra?Não. Isso é baderna. Não tem
com terrorismo.
nada a ver ções drásticas por parte do poder central no país. No final do século XIX,
Agência RBS - Ações desse tipo não inspiraram o projeto de lei uma revolta popular em específico chamou a atenção da imprensa. Em
fosse provocada por ações desse tipo, seria infantilidade?7’
existente?^ uma análise sobre a atuação da imprensa no caso da Revolta de Canudos,
ocorrida entre 1896 e 1897 no Nordeste brasileiro, Àrbex Jr. menciona
377
PRESIDENTE do IEE critica os sem-terra. Zero Hora, Economia, 1 7 abr. 2007, p. 179 TANURE, Soraya. Direito de propriedade: até quando? Zero Hora, 21 abr. 2007,
14.
17* p. 15.
SEGURANÇA não tem coloração partidária, Zero Hora, Política, 18 mar. 2007, p. .«o MALAGUTI BATISTA, Vera. O medo na cidade do Rio de Janeiro... op. cit. p.
08. Grifos no original. 175.
232 233
que durante a revolta foram enviados para sua cobertura correspondentes A idcia_de_npyidade sem mudança é interessante no que tange às notí¬
dos grandes jornais da época, principalmente paulistas e cariocas.-”” Na cias sobre a questão agrária no Brasil. Normalmente se noticia ocupações de
ocasião, os jornalistas “silenciara rn^obre ajmensa-cnieldade_demonstrada. terras, marchas, ou seja, fatos novos (ou melhor, com endereços novos), sem
por oficiais e soldados”382,. [Link] sido ocultadas as degolas, e
as demais uma abordagem que auxilie na compreensão sobre gjrermangppia do proble¬
atrocidades cometidas ma da estrutura concentrador.a_e.excludente da terra no pais.
O .tipo de [Link] revoltas possuLainda, naatyalidade, ca?-. Diante do surgimento e fortalecimento dos movimentos sociais de luta
\J/9 racteristicas particulares. Como visto no primeiro capítulo, a análise que se faz
M do jornalismo nesse trabalho volta-se para uma concepção construcionista, per¬
pela terra, surge também uma relação com a imprensa, tendo em vista a ne¬
cessidade de adquirir visibilidade. Assim, a relação entre MST e midia_é com¬
cebendo que a notícia c uma construção social, na mesma medida cm que é um plexa e dialética, tendo em vista a interdependência entre ambos e, ao mesmo
mecanismo de construção social da realidade. Acima de tudo, ao utilizar pre- tempo, seu antagonismo..
Vf ponderantemgnte fontes oficiais, por sucumbir ao controle social nas organiza- Em estudo sobre a relação entre Zero Hora e o MST, Berger busca
JA ções, e, é claro, pelo fato de ser uma atividade empresarial como outra qualquer,
_
' a ^tiyidade jornalística representa o interesse na manutenção do iwtus quo
justamente compreender de que maneira o popular (movimento social) e o
massivo (imprensa) se encontram. Uma questão interessante nesse aspecto é
X Essa tendência se expressa também no fato de a [Link] jornalistas em justamente a necessidade de visibilidade que os movimentos sociais possuem
jelação^o seu públicg levar a que as notícias sejam expostas dentrode um univer¬ e, é claro, a importância dos meios de comunicação para tanto.
so de valores que não permite o dissensq. Mesmo quando os meios de comunica- Sabe-se que as relações sociais no_campo são, emregra. invisíveis. Pou-
ção rcconhecem posiçõesjdifcrentes [Link]-nas, ou,seja, quando permitem o fco se fala sobre os problemas relacionados à propriedade concentrada da terra
dissenso, tratam-nas como “heresias curiosas, excentricidades irrelevantes que as I e à miséria que isso gera ao povo. Sendo assim, estar presente na imprensa
pessoas sérias podem descartar como se.não tivessem exclusão, que não é
consequências’vf-CÀssim. é uma forma de romper justamente com essa barreira de
o tratamento dispensado a qualquer acontecimento que choque a população apenas uma exclusão económico-social, mas também uma exclusão simbóli¬
Í
por
ser diferente, afrontando valores dos setores hegemónicos, acontece de tal forma ca. Dessa forma,
que, para a manutenção da ordem, são buscados responsáveis, os quais se redu¬
O_M [Link] a mediação _da informacào_na.sua interlocuCão_com_p poder
zem a pessoas, indivíduos, jamais à ordem estrutural- ct-. político. E a mídia sabe que seu poder está na sua condição dc mediação. Nesta
Após estudar o quotidiano do trabalho de 75 jornalistas, nos Estados
interação (sinuosa, sutil, não dita) ambas se vinculam mediante um ‘jogo de
Unidos, num período de treze meses, Phillips também chegou à conclusão de
usos’. O MST precisa encenar suas reivindicações, tomá-las foiografáveis e
que os hábitos relacionados com o oficio, como a orientação temporal atual,
oferecer à imprensa os elementos que confirmarão sua natureza. A ela cabe
“a lógica do concreto”, e uma_ênfasejara_as^contecimentos contingentes do contar o presente e quanto mais ‘expedientes de real’ tiver, maior será sua
qyejara ag necessidades estruturaisJnflucnciam na construção das credibilidade.385
notícias di-
árias. A rotina-deJrabalhQdambémimDede^-ieflcxãa-sobre os-fatos. havendo
uma tendência a vê-los de forma_d£sconexa. “As ambiguidades, os desenvol¬ Sendo assim, a notícia realiza a mediação entre o que_Qcorre_no.campo
vimentos em fluxo e as contradições tendem a não ser notícias. [...] De modo e ojeitor da cidade, fazendo com que o fato venha a acontecer também para
geral, as notíçias.dão a sensação de novidade sem mudança”.384 este. A forma como esse acontecer sc delineia vai partir de decisões políticas
organizacionais internas da redação, fazendo com que, ao mesmo tempo, crie-
-se do MST e da questão agrária a imagem que a própria noticia vier a veicular.
ARBEX JR., José. O jornalismo
canalha^a promíscua relação entre a mídia e o
poder. São Paulo; Casa Amarela, 2003?p. 149.
ibid. p. 150.
@TUCHMAN, Gaye. La producción de la noticia... p. 170.
384
PHILLIPS, Bárbara. Novidade sem mudança. In: TRAQUINA, Nelson. Jornalis¬ 385 BERGER, Christa. Campos cm confronto: a terra e o texto. Porto Alegre: UFR-
mo: questões, teorias e “estórias”.p. 326-33 1. Lisboa: Veja. 1
993. p. 33 1 . GS, 1998. p. 11.
234 235
Observa-se nas edições de Zero Hora analisadas que o questionamento Tal abordagem jornalística sobre os movimentos sociais não é uma re¬
sobre a forma como ZH confere visibilidade ao MST não se resume a isso. alidade apenas brasileira. Analisando o caso dos piqueteiros390 na Argentina,
Significa também analisar a maneira como aquele jornal identifica a questão Pereyra demonstra que “nos meios massivos o acontecimento do protesto se k
agrária e a noção de conflito e violência QQ_çampo. A adoção de um paradigma constrói_a_pariir_de_seus feitos e não de suas ca»^”.39lExplica que os pi-
que parte do consenso para um conflito provocado pelos sem terra permite queteiros são incluídos nos noticiários somente como provocadores do ‘caos’
legitimar a tomada de atitudes por parte de latifundiários e policiais militares, no trânsito, e não como atores políticos. Com essa abordagem se consegue
posições-sujeito com as quais o jornal se identifica. despolitizar o conflito. “O ‘caos’, como figura, tem uma dupla construção:^
Além disso, o conteúdo das notícias, apesar de tratarem, no fundo, de demonizaçãq do manifestante e a espetacularizacão do prejuízo provocado
uma questão estrutural há muito questionada, ajtbordagem realizada dificil- pelo protesto”.392 E a mesma situação na maioria dos protestos sociais, como
mente se refere à reforma agrária qu à questão agrária, mas a fatos .específicos é o caso das greves, dos setores privado e público.
provocados pelos sem terra. Dessa forma, percebe-se que a visibilidade dos Em um sentido político mais explícito, alguns periódicos, como a revis¬
conflitos no campo é diretamente proporcional às atuações perturbadoras de ta Veja, utilizam enquadramentos claramente negativos aos movimentos so¬
uma “ordem”, provocadas pelo MST. ciais em geral. Em análise das edições dessa revista dos meses de maio, junho
As ações do MST têm justamente esse intuito. SxibgiiLOS_camppnes.es e julho de 2003, Mendonça concluiu que esse papel político tem o intuito de
que suas condições de vida jamais serão repercutidas caso eles deitem [Link] regular a legitimidade das organizações sociais a partir da visão de mundo e
um acontecimento notiçiável. do pensamento único institucionalizados em suas páginas. Esta construção,
O encontro do MST com a imprensa se dá, portanto, através .deuim cruzamento, 39(1
A realidade da adoção de políticas neoliberais afetou a Argentina de maneira parti-
de interggses: enquanto o primeiro precisa scxjHiblicizado,^ segundo^onse- , cularmente cruel, já que foi um dos países que seguiu com maior presteza a receita
guii-captar um evento notiçiável.' ou, em outras palavras, o MST quer reivindi¬
dos organismos financeiros internacionais. Os últimos anos da década de 1990 e o
car e a imprensa, produzir noticia. A m.ídjg,prec_isa sa provocada, é preciso que j início do novo século trouxeram ao país uma recessão histórica, que afetou as clas¬
haja uma perturbação para que dê atenção ao evento pautando as redações.386 ses média e baixa da população. Não se conformando com isso, algumas parcelas
Porém, mesmo quando o MST consegue criar um fato notiçiável, não | da população que se viram afetadas diretamente por essas políticas sucederam-Se
j em constantes protestos por melhora de salários, por emprego, qualidade de vida,
são as suas reivindicações, bem como os problemas estruturais do campo que entre outras petições LUNA, Franco Ariel; ALANIZ, Liliana Alejandra. op. cit. p.
aparecem, “mas as ações deámpacto que acabam, junto com o seu promotor 59. Porém, adotaram para estes protestos métodos que irritaram os setores privile¬
(no caso, o MST), sendo o gancho jornalístico das notícias”.387 Assim, apesar giados, recebendo por isso cruéis retaliações. A principal forma de protesto passou
a ser a interrupção de ruas, os chamados piquetes, a partir dos quais os manifes¬
de ter conquistado visibilidade, isso se deu de forma localizada no próprio mo¬
tantes passaram a ser identificados por piqueteiros. Ressalta-se que a adoção dessa
vimento, geralmente de forma negativa, ficando de jado a causa pela_qual os. forma de protesto se deu em função da incapacidade .das-formasTradicionais de
capjponeses lutam.388 Principalmente a partir de meados dos anos 1990, coin¬ organização civil, como-QS-sindicatos. igrejas, etc., em agir^diante dessa realidade
cidindo com a adoção das políticas neoliberais no pais, “o clima de caos social : ROLDAN, Fernando Pedro; HNAT1UK, Aníbal Rolando. La criminalización de la
passou a ser associado, na mídia, ao MST, de formajque..as_p.alí[Link]< protesta social y los nuevos actores. In: Derecho Penai Online (Revista eletrónica
de doctrina y jurisprudência en línea). Disponível em: <[Link].
s T 'rais excludentes e geradoras de_deseinp_regp passaram a_ficar encobertas”.389 p
com/[Link]?id=15,74, l,0,l,0> Acesso em: 11 mai. 2007. sp.
391
PEREYRA, Marcelo R. op. cit. sp.
392
386 MELO, Paula Reis. Notas sobre a condição do MST enquanto fonte jornalística. Tradução livre do original: “En los médios masivos ei acontecimiento de la protesta se
In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, XXVIII, construye a partir de sus efectos y no se sus causas. Es decir que los pobres-piqueteros
2005, Rio de Janeiro. Anais... São Paulo: Adaltech Informática, 2004. CD-ROM. sp. ’• son incluídos en las agendas periodísticas sólo como provocadores del ‘caos’ en el
383
ibid. sp. trânsito urbano - como si fúeran un problema más de los que aquejan a la ciudad - , y
388 GOHN,
Maria da Glória. Mídia, terceiro setor e MST: Impactos sobre o futuro Et no como actores políticos, con lo cual se logra despol itizar el conflicto. El ‘caos’, como
das cidades e do campo. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 158. K figura, tiene una doble construcción: la demonización del manifestante y Ia espetacula-
389
ibid. rización del perjuicio provocado pela protesta”. PEREYRA, Marcelo R. op. cit. sp.
236 237
guiada pela ótica neolibcral, trabalha um incessante jogo de enquadramento de da ordem através da critninalização individual dos líderes e participantes do
memória e de (rc) definição dos legítimos movimentos sociais, como o MST, MST. “No universo da ‘política como espetáculo’ cm que esta construção se
em mera manifestação de violência.”*3 insere, são indubitavelmente os holofotes da mídia [...] que, cm simbiose com
o sistema penal, vem desempenhando uma função ideológica fundamental”.3’6
Na televisão, a situação, não é diferente. Após analisarem notícias te¬
A forma como a mídia aborda a violência no campo c as atitudes praticadas
levisivas sobre o MST no Jornal Nacional (JN), da Rede Globo de Televisão
pelos integrantes do MST acaba por construir um senso comum sobre tudo o
e no Telejomal Brasil (TJ) do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), Aldé e
Lattman-Wcltman concluíram que “ambas as coberturas faziam uso de um en¬
que se refere ao grupo, tendo cm vista o poder da mídia na formação da opi¬
quadramento de conflito cm relação ao Movimento dos Sem-Terra, embora com nião pública.
diferenças fundamentais”.3’4 Enquanto o TJjeforçava elementos de violência, É necessário observar, porém, que a maneira como a mídia exerce a funz.
perigo, iminência de combate, çQpfronto,cJ)ostilidade entre os adversários /ele¬ ção política de aniquilaçãodqsjnoyimentos sociais de luta pela terra faz parte de
[Link] do conflito!. o JN além desses elementos assumia umja- .um contexto sócio-histórico no qual preponderam consensos de [Link].
pel moralista, trazendo apelos-à lei c à ordcnr_“lamentava. assim, a invasão de .debelasses c excludcnte^Assim, alem da construção social dos conflitos agrários
produtivas, a irracionalidade c irresponsabilidade dos sem-terra, o mau levados a cabo pela mídia, é necessário ter em conta que nisso está envolvida
(terras
uso da terra distribuída e advogava a viabilidade de outras formas, pacíficas,
para solução do problema da terra”.3’5 Essa abordagem diz respeito justamente
urna mentalidade secular dominante no imagináriocolctivo. seja da ausência
dc uma política fundiária indispensável em inúmeras experiências históricas
‘ao período cm que o presidente [Link] [Link] deu início às ações dc desenvolvimento económico, da idéia da terra como um bem imóvel c in¬
para a chamada reforma agrária de mercado, abordada no subcapítulo anterior. tocável, mesmo que improdutivo, ou da histórica concentração latifundiária
Diante dessas pesquisas, ç.possível enumerar algumas caractctísticas quc existente no País.3”
parecem.
ser^comuns na cobertura dos jornais sobre a questão agrária e os sem É necessário se considerar, portanto, que se trata de uma relação dialéti-
terra. As notícias cm geral são tratadas dc uma forma_maniqueísta. Dividem-se ca, onde o jornalismo auxilia na construção social dos conflitos agrários, mas, >4^
os dois lados da questão: o bem c o mal, sendo que dc cada lado há um esterco- , para isso, faz uso de ideologias presentes na sociedade, as quais são reforça- c ’
tipo-a-sen reforçado, c todos devem assuminosACUS-papéis. No caso dc atos do das, dialeticamcntc, pela atuação, novamente, do jornalismo. Isso fica patente . p' »
MST, é de praxe que sejam abordados de maneira que representem uma desor¬ em uma pesquisa encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária $ J
dem completamcnte ilegítima, reclamando punição aos culpados. Reduz-se os do Brasil (CNA), realizada em janeiro c fevereiro de 2006, pclo_LBQEE Mos- '
conflitos a situações localizadas, possibilitando, assim, a responsabilização dc tra a pesquisa que “76% da populaçârtconsidera antidemocráticas as invasões A
indivíduos. [Link] lado cedcvcr por parte do governo de efetivar [Link]-
tuicãa.cm_matéria.dc_rcforma agrária.e_dedircítos fundamentais. ra (MST^^yAfora a necessidade de relativização dos dados cm relação à
De [Link] .criminosas, a_d isiância entre uma^abordagem e ou¬ metodologia utilizada, é um dado representativo do modo comp a sociedade
tra c curta, sendo constantes as narrativas midiáticas incitando à manutenção percebe a [Link].
238 239
A despolitização dos atos coletivos faz parte de um contexto histórico 1 J Não é de se estranhar, portanto, que a perspectiva sobre a democracia
em que a sociedade não tolera a existência de uma esfera pública de organiza- fj ; também se restrinja aos moldes da democracia representativa, aliada ao con¬
ção para o debate de temas que lhe interessam, além de o Estado desde já se
| ceito de cidadania liberal. O MST, junto de outros movimentos sqciais, traz
eximir de responsabilidade, jresumindo as suas atitudes à repressão penal e po- j justamente uma ruptura. E normalmente as rupturas são percebidas negati¬
Jiçjal. Os jornais contribuem, sem dúvidas, para esse tipo de desfecho, iá que vamente no seio da sociedade, e também pela mídia. “É assim como os mass
os atos são noticiados também segundo o senso comum individualista, como i media atuam como caixas de ressonância que alertam, assinalam e estigma-
sendo o ato de pessoas privadas que ameaçam sobremaneira a propriedade tizam os elementos conflitivos da sociedade sem proporcionar os mínimos
privada, direito este o mais defendido.
1 ' elementos para o debate_e a reflexão”.403
Como salienta Eaqman, um problema que se mostra na atualidade é quei ' A redefinição dq^conceito cidadania, a partir da atuação desses movi¬
“a arte de reinventar os problemas pessoais sob a forma de questões de ordem! mentos, traz justamente um ideal diferente [Link], a ideia de que a
pública tende a se definir de modo que toma excessivamente difícil ‘agrupá-" cidadania é que deve moldá-la^S-
-los’ e condensá-los numa força política”Pw?Os atos políticos do MST são í A rotulação dos atos dos sem terra çpmo antidemocráticos possui. um
costumeiramente privatizados. construídos como uma relação apenas entre j ^efeito simbólico inestimável. Possibilita-se dessa maneira reduzir os conflitos I
0 proprietáriodindivíduo e o líder do-movimento, além dos
outros indivídu- 1 à prática da luta pela terra, ignorando-se a situação de conflitualidade que
os que efetivamente praticaram o ato. Porém, é justamente o oposto, a atua-
J sempre marcou e continua marcando as relações sociais no campo. Ignora, da
ção coletiva e a politização é que caracterizarnos novosjnovimentos-sociais.
. = mesma maneira, as origens das oligarquias rurais, a discussão sobre a legiti- 1
Como nota Santos, a “novidade dos NMs [novos movimentos sociais] não í midade da propriedade da terra, em função da grilagem, algo tão comum no
reside na recusa da política mas, ao contrário, no alargamento da política para ' Brasil. Além disso, quanto mais violentas são as consequências da luta pela
além do marco liberal da distinção entre Estado e sociedade civil”?!!0
' terra, mais noticiável se toma o fato. A violência é reduzida, dessa maneira,
Nesse sentido, a característica exposta por Santos, de que os movimen¬ a atos individualizados, mas não a quaisquer atos: ajaluação da_polícia ealos
tos sociais buscam a politização das mais diversas relações sociais, demonstra ruralistas costuma ser ahordada_£ni-umaJ>tica.de_legítima defesa,_sendo, por-
que a limitação da cidadania em seu conceito liberal não é suficiente. Hoje os tanto-iustificável.
movimentos sociais vêm atuando de forma que realizam vários deslocamentos
daquele conceito, recriando-o. A começar pela própria coletivização das rei¬
vindicações. O modelo liberal de sociedade caracteriza-se pelaprivatização
da vida social, “E, com base na suposição de que apenas a ação econôrnjca BARATA, Francesc. EI drama del delito en los mass media... p. 66. Tradução
403
[Link] -conduzi^ao-hem-estar económico. desaconselha_a-ação social livre do original em espanol: “Es así como los mass media actúan como cajas de
1 ,. resonancia que alertan, senalan y estigmatizan a los elementos conflictivos de la
n e ^política- Consequentemente. caracteriza-se pela individualização e despo-^ .sociedad sin aportar los más mínimos elementos para el debate y la reflexión”.
iQlitização da cidadania”.m Nesse sentido, a cidadania é um conceito indivi- /y -
-d'' dual, no sentido de defesa e não de reivindicação. A sociedade, constituída de ! 1 :
yAndrade relaciona .quatro-deslocamentos ao conceito de cidadania, liberal provoca¬
dos pela necessidade de construção de um novo conceito fL)apreensão da categoria
indivíduos atomizados seria o espaço privado, económico, “condensando o i ; cidadania corno processo histórico e dimensão política de conteúdo mutável, mobili¬
/político na esfera estatal publica”.*402 zado pela participação política?!) cidadania como dimensão que engloba o conjunto
dos direitos (e deveres) humanos, instituídos e instituintes; “centrada na participação
como sua alavanca mobilizadora, o que envolve uma conscientização popular a res^
peito de sua importância ou, em outras palavras, uma pedagogia da cidadania”-Í3.'
cidadania construída a partir de ações “coletivas e plurais de classes, grupos e movi¬
^jBAUMAN, Zygmunt. Em busca da política... op. cit. p. 15. mentos sociais (que reenviam à realização das diferenças c o respeito às minorias)”;
SANTOS, Boaventura [Link]. Pela mão deAIice^O-SOcial e_cj»olí[Link] pós- $?cidadanía moldando a democraciaa(possível e sem fim). ANDRADE, Vera Regina
-modenúdade, 10 ed. São Paulo: Cortez, 2005.. Pereira de. Do (pre)conceito liberal um novo conceito de cidadania: pela mudança
do senso comum sobre a cidadania. In: Sistema penal máximo versus cidadania
401
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Cidadania... op. cit. Grifos no original.
402
ibid. p. 111. mínima, p. 63-80. Porto Alegre: do Advogado, 2003. p. 75-78.
240 241
Os MCM, como mediadores privilegiados dos acontecimentos do mundo, têm
Ao mesmo tempo em que os consensos da organização jornalística condi¬
por função e objetivo fazer ver, que se transforma em determinadas circunstân¬
cias no objetivo de fazer crer. Portanto, eles não só expõem, tornam público os
cionam a cobertura dos fatos, deve-se recordar também que esses consensos têm
acontecimentos, dão visibilidade, mas ao fazê-lo deixam as marcas do lugar de outras variáveis: uma delas, a concorrência e a busca pelo lucro. Sendo assim,
enunciação, orientando a interpretação dos acontecimentos.405 como visto no primeiro capitulo, a violência e os fatos negativos em geral, assim
como situações inesperadas e peculiares, têm uma boa noticiabilidade.
Ao que tudo indica, a redução dos atosdo MST a fatos individualizados e Diante da análise realizada do jornal Zero Hora, transpareceu-se a conti¬
subversores de uma ordem social pacifica,.permite,a sua,[Link]çãQ_como_cri- nuidade das abordagens preconceituosas em relação aos sem terra e, ao mesmo
minosos. Além disso, pela sua filiação política, possibilita-se também a identifi¬ tempo, uma determinada visão a respeito dos conflitos no campo. O fato é que
cação de inimigos. Assim como os despossuídos da cidade, os do campo entram
para o senso comum com o mesmo rótulo de anieaçadores da ordem. Í...1 pouca caisajnudou. no-últiino-século. no que concerne à relacão..entre as
Como observa Pereyra, a questão da pobreza costuma ser exposta pelos elites íincluidas a mídia e parte dos jornalistas e intelectuais por ela emprega¬
da) e os movimentos sociais. Mudaram, obviamente, as condições técnicas de
meios de comunicação de maneira sensacionalista.
apuração, produção e divulgação das notícias, assim como o ambientepolítico
.1 os [Link] aparecem aqui como_suieitos anómalos que não souberamLpude-
ram/ quiseram^proveitar as oportunidades que o modelo põe à sua disposição;
e cultural, mas a mentalidade continuou escravista, racista e tacanha^"8 )
visão que se parece muito com a do neoliberalismo, que justifica a exclusão Opera-se entre MST e jornalismo uma relação dialética, onde outros
social pela natureza individual dos ‘perdedores’, e que dá conta do aumento sujeitos estão inseridos (ruralistas e policiais). Porém, e acima de tudo, sem a
da pobreza através da exibição de seus casos extremos. Os que são excluídos visibilidade conferida pelos meios de comunicação de massa, pouco restaria ,
, materialmente agora o são simbolicamente”.4"6 aflS^ejn-télLa, É necessário, entretanto, que se tenha em conta os efeitos ne- 5
244
245
das efetivamente como conflitos. Esses conflitos, em função de serem causa-
1’
dos pela luta, possuem o autor do fato e a vítima, possibilitando-se, assim, a
criíninalização. Dessa maneira, demonstra-se que a situação de conflitualida- Conclusão
de envolvendo o meio rural não é assim identificada, sendo que enunciar um
conflito significa enunciar um crime.
Da mesma forma, delimita-se também oJnimigo, caracterizado pela
ameaça a uma ordem consensual e pacifica; é contra esse, inimigo que os bi-
| nóculos tanto do controle social fotmal quanto de toda a soei edade_devem se
É impossível compreender uma situação vivida na atualidade sem o en¬
voltar. Vigiar os sem terra significa. porém,_aumentar a suayulnerahilidade, e tendimento acerca das interações que levaram ao seu desenvolvimento. Essa
permitir quedodas as_situa<;ões [Link] no entorno fiquem ocultas. Daí a
convicção, trazida para o tema estudado no trabalho, remete à epígrafe, onde
i
margem para .ajmunidade dos fazendeiros em relação ao sistema
penal, bem Darcy Ribeiro deixa claras as marcas que o povo brasileiro sempre levará
como a união entre os mesmos e a polícia, poder público eq^oder privado reu-
jiidos._com poder dc fogo, contra os mesmos_suieitos como herança dos suplícios diários infligidos a seres humanos durante a es¬
sociais.
O papel do jornalismo, então, passa a ser o de reproduzir_QS
cravidão. A agressão aos ex-escravos após a escravidão permaneceu, e seus
discursos. métodos foram perpetuados, cotidianamente, no corpo de outros sujeitos, do
> dominantes, tomaryisível apenas [Link] sobre os [Link], ou seja, o campo e da cidade.
fato novo, sen^qualquer mudança. Através do jornalismo reforçam-se, através
Os relatos de massacres, como o de Canudos, acompanham à trajetória
de pressupostos, preconceitos contra a luta dos sem terra. Afirmações sem
qualquer comprovação exeferência, que passam^por verdadesjncontestá[Link].
do povo brasileiro, marcando-a profúndamente. De Canudos a Eldorado dos
Carajás, sonhos e lutas reprimidos por meio de chumbo. Diante da violência da
[...] o texto jornalístico é lugar de reelaborações, pois faz o acontecido entre os concentração das riquezas, que destina à miséria grande parte da população, a
colonos acontecer para os leitores, deslocando a cena vivida no campo para o organização dos trabalhadores em movimentos sociais é a luta pela Vida.
universo da cidade e as esferas do poder, promovendo uma identidade do Movi¬ Desde o final do século XIX, porém, muitos outros aspectos se modi¬
mento através da legitimação de sua luta ou de sua demonízação.414 ficaram. Um exemplo é o desenvolvimento das tecnologias de informação
Pelo fato de identificar a questão agrária apenas nos conflitos por terra, que, no mesmo passo em que permite a organização de movimentos sociais
o jornal também constrói socialmente essa categoria, juntamente à conflitu- emancipatórios em rede, auxilia na difusão de ideias conservadoras, classistas
alidade e à violência. Ou seja, a própria categoria “questão agrária” passa a e racistas. Nesse ambiente, muito da cultura punitiva inquisitorial brasileira se
ser relacionada estritamente aos conflitos, que são, por sua vez, desordens reproduz. Daí que o trabalho tenha objetivado estudar as relações entre o sis-
q acarretadas pelos movimentos de luta pela terra. Estcs-devem-ser,_porquanto. ! tema penal e os meios de comunicação na construção social da criminalidade
despolitizados, identificados como-criminalidade, e. através da ; da luta pela terra.
repressão, são
• solucionados e a paz retoma ao campo. | O caminho percorrido partiu dos resultados das pesquisas sociológicas
Pode-se afirmar, nesse sentido, que o papel do jornalismo, ao legitimar I norte-americanas da década de 1960, que levaram a uma ruptura de paradigma
a adoção de medidas violentas contra os sem terra é também n riR_exercitar em criminologia. É a perspectiva da construção social da realidade, na qual se
\i zuma violência^imbólica. Exclui o suieitojdas lutas, ao [Link] em que. expõe o valor das interações sociais, principalmente através da linguagem, na
A através_das vozes de fazendeiros e policiais, o demoniza. concepção acerca do que é a criminalidade. Sob esse enfoque, as instâncias de
: controle social, formal e informal, atuam conjuntamente na construção social
[ da criminalidade.
Ao estudar a operacionalidade do sistema penal, essas pesquisas che¬
garam a resultados que o deslegitimaram, tendo em vista o descumprimento
292^*^’ MST: Atuaí'zando a memória de exclusão e luta... op. cit. p. das suas funções declaradas, e a descoberta de funções ocultas. A crimino¬
logia crítica surgiu justamente conferindo a esses pressupostos um enfoque
246 247
político-económico, concluindo que a função real desempenhada pelo sistema inimigos da sociedade; quem, simplesmente por ser quem é, deve ser temido,
penal é a de reprodução das desigualdades. e, portanto, vigiado e controlado.
Chegando ao solo latino-americano, essa percepção se aprofunda, pois O rompimento da ordem provocado pelo MST se insere nesse contex¬
nessa região a reprodução das estruturas de desigualdade condiciona um nú¬ to provocando os mais acirrados ânimos, reproduzidos pelos jornais. Nesse
mero gigantesco de mortes cotidianas. Aqui, o direito penal enquanto limita¬ ponto se inserem as discussões acerca do problema do histórico adiamento
ção ao poder de punir do Estado funciona de maneiras diferentes conforme da reforma agrária no Brasil. Essa situação traduz uma violência estrutural
o cliente de que se trata. A partir dessa operacionalidade, aos “amigos” há caracterizada pela fome, pela miséria, pela concentração de terras, relações de
um tratamento conforme a lei e os direitos, mas aos “inimigos” reserva-se o trabalho demasiadamente exploradoras e degradação do meio ambiente.
arbítrio. Em função disso, já na década de cinquenta, trabalhadores rurais se reu¬
Apesar da deslegitiihação teórica, e pelos próprios fatos, dos sistemas niram em ligas camponesas buscando reivindicar direitos. A evolução dessas
penais, em especial na América Latina, os dias’ atuais vêm trazendo também organizações chegou ao ponto de, na década de 1980 ser criado o MST, mo¬
um movimento em sentido contrário: o de sua relegitimação. Dessa maneira, vimento que hoje tem caráter nacional e possui uma organização complexa. O
e principalmente a partir de um discurso de emergência, busca-se suspender MST atua, principalmente, contra essa violência estrutural que aflige a maior
garantias fundamentais, aumentar penas e criar novos tipos penais, a partir da parte da população rural, buscando desconcentrar a terra, exigindo do governo
ideologia periculosista que ressuscita o positivismo criminológico. a sua distribuição.
A atuação dos jornais, no que diz respeito ao crime, realiza uma dupla Porém, essa reação à violência costuma gerar outras reações, ainda mais
função. Em primeiro lugar, ao mesmo tempo em que constroem e reproduzem violentas. Os grupos paramilitares contratados pelos fazendeiros já foram res¬
preferencialmente os discursos dos agentes do sistema penal, pelo fato de se ponsáveis por um número altíssimo de mortes de sem terra. A polícia, por sua
constituírem como fontes oficiais, credíveis, auxiliam na sua legitimação. Em vez, auxilia os interesses proprietários no momento em que realiza despejos
segundo lugar, partindo da característica do jornalismo que busca a definição violentos, por vezes resultando em massacres onde resultam muitos mortos. A
de notícia nos fatos singulares, sensacionalizam a vida social, de tal maneira destruição dos pertences dos sem terra nesses atos é comum, e naturalizado.
que o crime passa a ocupar espaço em narrativas que geram a propagação O Judiciário permite as reintegrações de posse, tomando atitudes que demons¬
de estereótipos de criminosos e vítimas, auxiliando a construção seletiva da tram claramente com que lado se identificam.
criminalidade. Além disso, realizam campanhas alarmistas que criticam a Os meios de comunicação de massa, em uma sociedade atomizada,
“complacência” dos direitos humanos para com “bandidos”, separando, as¬ na construção social da notícia, optam por divulgar conflitos específicos que
sim, segundo o clássico princípio binário, as pessoas de bem das pessoas más. ocorrem no campo, principalmente provocados por atos dos sem terra, ocul¬
Em função disso, se desincumbem da tarefa de relegitimar o sistema penal. tando, simultaneamente, a violência da estrutura agrária contra a qual os mes¬
É necessário evitar determinismos quando se fala sobre o papel dos mo^ sem terra lutam. Deixam de lado o fato de que a luta tem na sua base a
meios de comunicação de massa na sociedade, tendo em vista que as informa¬ sobrevivência.
ções por e|es construídas ingressam no mundo social em conjunto com outras A análise de discurso realizada no trabalho com o objetivo de ilustrar
tantas informações provenientes das interações sociais, permitindo que sua a abordagem teórica acerca do papel do jornalismo na construção social dos
interpretação se modifique. Porém, é possível afirmar que as decisões toma¬ conflitos agrários, em interação com o sistema penal, permitiu concluir que a
das na redação, em função da estrutura organizacional, da corrida pelo lucro, lógica na qual o jornal insere a conflitualidade no campo é a de que os sem
além de escusos interesses políticos e económicos, costumam deixar de fora terra provocam os conflitos. São vulneradores de uma ordem pacífica, gerando
problemas estruturais, focalizando-se em fatos individualizados, descontextu- quedas de produtividade nas fazendas. Em função disso, os proprietários de
alizados e despolitizados. Constrói-se, dessa maneira, a sociedade como um terra, em especial no Rio Grande do Sul, se reúnem para, em conjunto com
consenso, em relação à qual qualquer manifestação de desconformidade co¬ a Polícia Militar, vigiar e controlar todos os passos do grupo. O jornal, no
letiva é percebida como uma ameaça. Diante disso, é possível simplificar a momento em que difunde a ideia de que há necessidade de vigiá-los, também
situação, optando-se por identificar em algumas pessoas a característica de legitima o controle social, de forma que a apreensão de seus instrumentos de
74R 749
trabalho, as batidas policiais, os despejos conflitos particulares. >
violentos passam a ser naturaliza¬
dos. Da mesma forma, os atos dos proprietários a entender que a conflitualidade no campo reside nesses a conflitos parti¬
em legítima defesa.
são expostos como reações Ou seja, a construção social operada reduz a conflitualidade possuem o culpado
culares e, numa sociedade punitiva, conflitos particulares
Pelo fato de as ações dos movimentos trazerem a caso, oculta sob a ótica
desordem, o discurso e o inocente, quem provoca e quem se defende. Nesse
da vigilância está ligado diretamente aos
sentimentos de medo e tensão. Dian¬ da provocação (e desordem) dos sem terra com
suas marchas c ocupações, c
te do medo, reúnem-se novamente os (para restaurar a ordem),
pressupostos para se chegar à conclusão
de que o papel do jornalismo' é o dc auxiliar, da reação defensiva dos fazendeiros e dos policiais no campo.
no contexto das interações so¬
ciais, na delimitação de um inimigo no campo, que é, está justamente a violência estrutural, base da conflitualidade papel de legiti¬
dc um
go político, tendo em vista que não possui o antes de tudo, um inimi¬ Os jornais se inserem nesta discussão no exercício
por reproduzir os discursos dos agentes
(estão lutando junto mulheres, crianças e
estereótipo do criminoso comum mação do sistema penal, já que optam
de terra, ocultando simultanea¬
idosos), e principalmente, busca im¬ do sistema penal, bem como dos proprietários
plantar uma revolução socialista. Ou seja, a sua de as notícias se referirem
pelo medo que provocam em relação à perda da
perseguição c explicada tanto mente a voz dos próprios sem terra. Então, apesar pelo movimento, dc os
propriedade da terra (que tem no mais das vezes ao MST em si c aos atos praticados
o poder dos grandes estancieiros incrustado em
cada palmo), quanto pela sua integrantes serem os modelos para as fotografias
que aparecem nas noticias, a
ideologia política, o que gera ainda mais temor. lado, estão as vozes
sua voz não está prescnte;sobrerrepresentadas, por outro
Identificando-se um conflito, uma desordem, dos agentes do sistema penal e dos ruralistas.
o único código conhecido: o da individualização dotoma-se necessário aplicar é uma prática históri¬
autor do fato e o da apli¬ Expor movimentos contestadores como ameaças
cação da respectiva pena. Mas, veja-se: a vigilância medo, legitimam a re¬
que os sem terra estão submetidos não estão
e as frequentes revistas a ca por parte das elites no Brasil, pois, ao difundirem o fundiária no pais,
ligados
um ato ilegal, mas sim ao simples fato de serem quem diretamente à prática de pressão. A ameaça se dirige à própria realidade da estrutura que seu discurso
vez
que é reproduzida, junto da violência estrutural, cada
a
direito penal do autor e, ainda, da delimitação do inimigo. Aí reside a lógica do
são.
operacionalizado para um au¬
Da mesma forma, da é repetido. Historicamente, o medo vem sendo
construção social da criminalidade, tendo em vista que
o sistema penal procura mento no controle social sobre as parcelas mais
vulneráveis população,
da
a criminalidade onde espera encontrá-la. Antes violadores dos direitos
de se voltar contra fatos crimi¬
nosos praticados pelo grupo, o sistema penal se volta contra legitimando-se, a partir da emergência, atos cruéis e
de controlá-las socialmente, já que delas espera pessoas, no sentido fundamentais mais básicos. resta observar as suas
atos criminosos. Ao olhar sele¬ Ao responder, então, ao problema dessa pesquisa,
tivamente para os conflitos no campo, permite-se reproduzir é a importância dos mo¬
as desigualdades consequências. O principal aspecto a ser ressaltado
estruturais, criminalizando a base da pirâmide social,
para imunizar o topo. vimentos de luta pela terra nesse contexto. O embate
que ocorre entre os seus
Nesse processo, a estrutura fundiária concentrada, c significa justamente que uma
as violências dela interesses e os dos proprietários e do Estado
decorrentes, são reproduzidas. herança que os brasileiros carre¬
ruptura está acontecendo. E sabendo-se da
E não significa apenas dizer que sistema penal e jornais movimentos permitem
socialmente os conflitos sociais como criminalidade, mas buscam construir gam de autoritarismo, escravismo e classismo, esses limitada, porque tam¬
principalmente, dar visualizar possibilidades diferentes, ainda que dc forma tradições. Ou seja,
1
É necessário esclarecer, entretanto, que o jornalismo bém são constituídos de pessoas que vivem sob as mesmas
na sociedade capitalista e auxiliar na sua reprodução, em si, apesar de ter origem terra não necessariamente
e com isso, na legitimação um movimento que luta contra a concentração da patriarcal. Porém,
das desigualdades e opressões, não está em
seu ceme buscará romper com o problema do racismo ou da estrutura
social. Na verdade, transcende ao contexto de sua atrelado a essa formação auxilia no aprofundamento
origem e desempenha funções a luta pela vida através de um movimento coletivo
emancipatórias. E o caso, por exemplo, dos jornais muito sofrimento esteja
contrário de buscar reproduzir as desigualdades,
e revistas alternativos, que, ao da democracia brasileira, ainda que nesse caminho
para alimentar os desejos e têm a visão política necessária guardado para essas pessoas.
necessidades
Filho, o jornalismo “está apenas começandodea mudança social. Como nota Genro a responsabilidade
Por outro lado, essa perspectiva permite visualizar
e potencialidades histórico-sociais no processoinsinuar suas imensas possibilidades assassinatos, lesões c outros danos
RO FILHO, Adelmo. op. cit. p, 179. de autoconstrução humana”. GEN¬ não apenas dos fazendeiros, que promovem mais crua a violência
aos sem terra, ou dos policiais que impingem da forma
250 251
।i
institucional. Também os membros do Judiciário, que não estão na luta face
a face, e da forma mais asséptica tomam decisões que repercutem das fornias Referências
mais cruéis sobre comunidades inteiras. Além disso, as próprias organizações i
jornalísticas, que em conjunto com os discursos que paradoxalmente auxiliam
na desinformação acerca da conflitualidade no campo, legitimam o recrudes-
cimento das violências individual e institucional. E, quanto mais notícias são
apresentadas sobre a questão agrária, menos sobre a questão agrária pode ser ALDÉ, Alessandra; LATTMAN-WELTMAN, Fernando. O MST na TV: sublimação
compreendido, e mais invisível se toma a conflitualidade no campo. do político, moralismo e crónica cotidiana do nosso “estado de natureza”. Doxa
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AO LEITOR 05
dicíário) e informal (meios de co¬
Se, numa livraria, lhe
disserem que um título publicado municação, Igreja, escola etc.), in¬
pe]a Revan está esgotado,
ou que ã Revan não teragem na construção social da
faz consignação, ou lhe derem
qualquer justificativa criminalidade. Além disso,'a rele-
semelhante pqfa não ter à venda o titulo
’■
Vv«7f 1Ã> ^-*- c pít^por favor, comunique-se conosco. A procurado, gitimação do sistema penal, ope¬
i «1^- JU reimprime os títulos de seu
Revan sistematicamente
catálogo e os oferece às livrarias. rada por movimentos éficientis-
Telefone, que teremos prazer em
atendè~lo. Ou compre tas de política criminal, encontra
> direto em nosso sítio na internet (ver
abaixo). amparo no jornalismo em função
^//í^teDITORA REVAN
Avenida Paulo de Frontin, 163
do sensacionalismo e incitação ao
aumento da repressão, que pode¬
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