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Platão: Mímesis, Arte e Política

Platão critica a arte, especialmente a mímesis, argumentando que ela imita o mundo sensível e se afasta da verdade das ideias, o que pode corromper a moral e a justiça. Sua análise, presente em diálogos como A República, enfatiza a necessidade de restringir a mímesis para proteger a formação ética e política da sociedade. A rejeição da poesia trágica e da comédia reflete sua preocupação com os efeitos das representações artísticas na formação do caráter dos indivíduos.

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Platão: Mímesis, Arte e Política

Platão critica a arte, especialmente a mímesis, argumentando que ela imita o mundo sensível e se afasta da verdade das ideias, o que pode corromper a moral e a justiça. Sua análise, presente em diálogos como A República, enfatiza a necessidade de restringir a mímesis para proteger a formação ética e política da sociedade. A rejeição da poesia trágica e da comédia reflete sua preocupação com os efeitos das representações artísticas na formação do caráter dos indivíduos.

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PLATÃO E A MIMESIS: A RELAÇÃO ENTRE ARTE, ÉTICA E POLÍTICA NO

PENSAMENTO FILOSÓFICO PLATÔNICO

France D’arc Cícera Costa de França1

Resumo

A crítica de Platão à arte, especialmente à mímesis, ocupa um papel central em sua filosofia e
reflete sua preocupação com os efeitos das representações artísticas na moral, no
conhecimento e na política. Platão argumenta que a arte imita o mundo sensível, afastando-se
da verdade das ideias, e rejeita a poesia trágica e a comédia como ameaças à razão e à justiça.
Integrada ao projeto da kallipolis, sua crítica enfatiza a necessidade de restringir a mímesis,
devido ao poder da arte de moldar valores.

Palavras-chave: Platão, Arte, Mímesis, Ética e Política

Introdução

Ao discutir sobre à arte, especialmente sua noção de mímesis, Platão destaca na


filosofia clássica a compreensão da relação entre estética, ética e política. Este conceito,
amplamente discutido nos diálogos A República, Timeu e O Sofista, reflete a preocupação do
filósofo com os efeitos das representações artísticas na formação moral, cognitiva e política
dos indivíduos. Platão argumenta que a arte mimética, ao imitar o mundo sensível — uma
cópia imperfeita do mundo das Ideias —, distancia-se da verdade ontológica e
epistemológica. Tal perspectiva ressoa em sua rejeição à poesia trágica e à comédia,
consideradas ameaças à busca pela razão e pela justiça.

A análise de Platão insere-se em um projeto mais amplo de construção de uma


sociedade ideada, a kallipolis, onde a justiça e a verdade devem guiar as práticas culturais e
educativas. Em sua crítica, Platão enfatiza o poder da arte de moldar valores e condutas,
especialmente entre os jovens, e propõe restrições à mímesis em suas formas narrativas e
visuais.

Dessa forma, este trabalho tem como objetivo analisar a noção de mímesis em Platão
sob três perspectivas principais: em suas noções ontológica, ética e política. Pretende-se,
inicialmente, abordar a compreensão platônica da arte como uma imitação do mundo sensível

1
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do
Pará, e-mail: darcfr11@[Link].

1
e suas consequências para o conhecimento. Em seguida, discute-se o papel ético da mímesis
na formação do caráter e a crítica às representações artísticas como elementos potencialmente
corruptores. Por fim, examina-se a relação entre a estética imitativa e o projeto político de
Platão, destacando a relevância de sua crítica no contexto da kallipolis. Assim, espera-se
contribuir para uma breve reflexão sobre as tensões entre arte, verdade e sociedade na obra
platônica e sua ressonância nas discussões filosóficas posteriores.

1. O conceito de mímesis em Platão

O conceito de mímesis é fundamental para compreender a posição de Platão sobre a


arte. Para ele, a arte é essencialmente uma imitação, mas o que ela imita? Segundo Platão, as
artes miméticas imitam o mundo sensível, que, por sua vez, já é uma imitação imperfeita do
mundo das ideias. Portanto, a arte seria uma cópia de uma cópia, distanciada da verdade
ontológica e epistemológica.

Segundo Caimi (2002/2003) no Timeu (28c-32c), ao tratar da relação entre o mundo


sensível e o mundo das formas, Platão apresenta a mímesis como o princípio responsável pela
criação do mundo sensível. Segundo ele, as coisas nesse mundo surgem por meio da imitação
realizada pelo Demiurgo (Deus), que, ao contemplar a perfeição das ideias eternas, molda o
mundo sensível à imagem e semelhança dessas formas. Nesse contexto abrangente,
característico da fase madura do pensamento platônico, a mímesis é compreendida de maneira
positiva, como uma representação fiel do modelo, incorporando também um aspecto visual do
conceito.

De acordo com Maronna (2010) No Livro III de A República, Platão se concentra em


discutir a mimese como um tipo específico de discurso, caracterizado pela imitação de fala ou
ações diretamente em primeira pessoa, como ocorre no teatro ou na poesia épica. Aqui, Platão
examina as implicações éticas e educativas desse tipo de imitação para os cidadãos,
especialmente para os jovens. Ele vê o discurso em primeira pessoa como uma forma
potencialmente perigosa, pois poderia encorajar a internalização de comportamentos e
características que não seriam ideais para uma cidade justa.

Conforme Soares (2017) Platão destaca, por meio da importância ética da mímese, que
ao imitarmos outra pessoa, seja na fala ou na aparência, passamos a incorporar um ethos que
influencia nossas ações tanto individuais quanto políticas. A mímese, então, torna-se algo

2
"contagioso" ou, mais precisamente, um processo de identificação. Na argumentação de
Platão, o ato de imitar implica a adaptação ao modelo imitado: ao imitar uma pessoa virtuosa,
moldamo-nos imediatamente a essa virtude; ao imitar alguém de caráter vil, assumimos
características semelhantes. Por isso, para Platão, a mimese de personagens com má índole,
comum na poesia tradicional, gera uma forte tendência ao vício nas almas das crianças e
jovens.

Com relação ao Livro X, de A República, a noção de mimese é ampliada. Platão passa


a tratar da mimese como uma categoria mais abrangente que inclui toda representação
artística e poética, não apenas as formas narrativas, mas também a arte visual, por exemplo. A
crítica aqui se torna mais filosófica: a imitação é entendida como uma reprodução de segunda
ordem, uma cópia do mundo sensível, que, por sua vez, já é uma cópia do mundo das Ideias
ou Formas. Dessa forma, qualquer forma de mimese é vista como um afastamento ainda
maior da verdade. O artista ou poeta imita o que já é uma cópia, e, portanto, segundo Platão,
seu trabalho está duas vezes removido do verdadeiro conhecimento.

Em uma outra perspectiva, Soares (2017) explora o conceito de mimese em Platão,


analisa seus aspectos ontológicos, cognitivos e éticos. No sentido ontológico, ele ressalta
como Platão enfatiza a separação entre a imagem e o arquétipo, ou seja, entre a representação
e aquilo que é representado. Assim, na visão platônica da mímese artística, a obra de arte é
uma imitação da realidade, estando, segundo o livro X da República, em uma posição de
"tripla distância" da verdade e ideia.

Assim, de acordo com Soares, podemos ver que no aspecto ontológico, destaca-se a
separação fundamental entre a imagem (representação) e o arquétipo (o representado). Essa
distinção reflete a visão platônica da arte como uma imitação da realidade, situando a obra
artística em uma "tripla distância" da verdade, conforme exposto no livro X da República.
Essa perspectiva ressalta a inferioridade ontológica da arte em relação às ideias puras,
evidenciando a preocupação de Platão com os limites da representação artística frente à
realidade ideada. Essa interpretação reforça a concepção de Platão sobre a hierarquia do
conhecimento e a preocupação ética em como a arte pode distorcer ou obscurecer a verdade.
Além disso, sublinha o papel da mimese como chave para entender a crítica platônica à arte,
posicionando-a como algo secundário em relação às formas ideais e ao conhecimento
verdadeiro.

3
No diálogo A República, particularmente no Livro X, Platão exemplifica sua crítica à
arte por meio de uma analogia com a fabricação de objetos. Ele descreve um processo triplo
de produção: primeiro, há a ideia da cama, que pertence ao mundo das formas, feita pelo
Demiurgo; segundo, há a cama feita pelo carpinteiro, uma representação imperfeita da ideia;
e, terceiro, há a cama pintada pelo artista, uma mera cópia da cópia. Assim Platão ratifica: "o
pintor, como já dissemos, não é criador de realidades, mas de fantasias" (República, 597e).

Neste sentido, para Platão, a arte não se define pelos conceitos de harmonia e beleza,
mas pelo princípio da mímesis, isto é, a imitação da realidade. Por isso, um pintor não cria
algo original, mas apenas reproduz ilusões, já que sua obra imita o real de maneira imperfeita
e funciona como uma cópia distante do ideal. Assim, vê-se em Platão que a arte não gera
beleza, pois a verdadeira beleza está intrinsecamente ligada à verdade, que pertence a um
nível superior de realidade.

Partindo para uma outra visão de mimeses, vê-se por meio de um diálogo entre o
Hóspede de Eleia e Teeteto, Platão criticar a pretensão dos sofistas de dominar todas as coisas
e transmitir esse suposto conhecimento de forma rápida e superficial. A ironia está em
destacar que tal postura se assemelha mais a uma brincadeira ou imitação habilidosa, em vez
de ser uma busca genuína pela verdade. A imitação, central na prática sofística, é apontada
como uma forma de arte enganosa, que fascina pela aparência, mas carece de substância real.

Discorre Platão (O Sofista 234b, c – 235a):

Hóspede de Eleia - Tens algo mais artificioso ou mesmo uma forma mais
agradável de brincadeira do que a imitação? [...] Então, desse que promete
ser capaz de fazer tudo com uma só arte, de alguma maneira sabemos isto:
que, produzindo coisas imitadas e homónimas das que são realmente, pela
arte da pintura[...]. Outra arte das palavras com que esse possa ser, por sorte,
capaz de encantar pelos ouvidos os jovens afastados da verdade e ainda
longe dos factos; com palavras que apresentam imagens faladas de tudo, de
modo a parecer que o que se diz fazer é verdade e que esse que fala é
absolutamente o mais sábio de todos? [...]Acerca do sofista diz-me isto: é
claro que se acha entre ilusionistas alguém que é imitador das coisas reais.

Além disso, a rejeição platônica à mímesis ressoa na tradição filosófica posterior,


como em Nietzsche (1998), que questiona os ideais platônicos ao propor uma valorização da
aparência e da estética em detrimento de uma busca rígida pela verdade. Nietzsche contrapõe

4
a Apolíneo e o Dionisíaco como forças criativas, defendendo que a arte, longe de ser
enganosa, é uma das formas mais autênticas de acesso à existência humana. No entanto, a
crítica de Platão à mímesis deve ser entendida como parte de um projeto mais amplo de
construção de uma sociedade justa, que busca alinhar o ético, o estético e o político.

2. A crítica à poesia e à tragédia

No centro da análise platônica à arte está a poesia, especialmente a poesia trágica. Para
Platão, os poetas, como imitadores, não possuem verdadeiro conhecimento do que escrevem.
Na República, ele vai ao ponto de banir a poesia de sua cidade ideada, argumentando que ela
não possui lugar em um Estado que busca o bem e a verdade.

Diante deste contexto, argumenta Soares (2017, p. 108):

Pero más allá de las claras diferencias que podamos encontrar entre tales
ángulos de la crítica platónica a la poesía tradicional, hay una palabra clave
que los atraviesa. Me refiero a la noción de mímesis, cuyo abordaje varía
según el libro en que nos ubiquemos. Sobre el telón de fondo de la
concepción de los poetas como educadores morales de las almas jóvene
quisiera enfocar aquí, en primer lugar, la crítica platónica a la poesía a la luz
de la significación ética de la mímesis que aparece en el libro III, a fin de
sostener que la supervisión filosófica de la tradición poética descansa, en
última instancia, sobre tal significación, clave en la formación del carácter y
la conducta.

Como nos mostra Caimi (2002/2003) a partir dessa compreensão parece surgir uma
das noções de mimese poética. No Livro II da República, essa mimese é definida como uma
“mentira por palavras” (382b, c, d). No entanto, Sócrates esclarece que essa mentira “imita as
experiências da alma e é uma imagem que aparece posteriormente. Não é uma falsidade pura,
sem misturas” (382c). Assim, é possível concluir que a mimese poética não é simplesmente
uma falsificação, mas uma representação secundária, composta por elementos verdadeiros e
falsos, sendo uma forma de representar o que não é. Segundo Platão, o "não-ser" se define
como alteridade, uma vez que o ser e o outro se interpenetram. O outro participa do ser, mas
não é o próprio ser: é diferente, e, por ser diferente, é um “não-ser” (O Sofista: 259a).

E com relação a tragédia, segundo Brisson (2005): para Platão, o problema central da
tragédia não é estético, mas ético: ela representa um perigo para a formação moral do cidadão.
5
O drama grego, em particular, representa uma forma de arte que, segundo Platão, pode
corromper a alma, estimulando emoções irracionais, como o medo e a piedade. Platão
considera que a tragédia encoraja a imitação de comportamentos não virtuosos, desviando a
mente da busca pela razão e pela justiça.

Abordando a relação entre tragédia e poesia, Platão (2011) crítica à poesia mimética,
especialmente focada na tragédia e na comédia, como discutido no Livro X da República. A
comparação central é entre o êthos do filósofo, representado por Sócrates, e o êthos do herói
trágico. Enquanto o herói trágico é marcado por um “caráter irascível e variável”, com
reações emocionais intensas e descontroladas, o filósofo exibe um “caráter sensato e calmo”,
com domínio das paixões. Assim, Sócrates não pode servir de modelo para os tragediógrafos,
pois ele entende que a morte não é um mal absoluto e reage racionalmente aos infortúnios,
diferentemente dos heróis trágicos, que se deixam dominar por emoções extremas em
situações semelhantes.

Neste sentido, argumenta Platão (2011, p. 111):

A referência explícita aos festivais e ao teatro mostra que o enfoque de


Platão na crítica aos efeitos psicológicos da poesia mimética no Livro X é
particularmente a tragédia e a comédia. Essa oposição entre o “caráter
irascível e variável” (τό άγανακτητικόν τε και ποικίλον ήθος) e ο “caráter
sensato e calmo” (τό φρόνιμόν τε και ήσυχίον ήθος, όομει) marca justamente
esse contraste entre o êthos do filósofo e o éthos do herói trágico: Sócrates,
consequentemente, não poderia ser modelo de “imitação” para os
tragediógrafos, pois, compreendendo as razões de a morte não ser o
verdadeiro mal para o homem e sabendo como reagir convenientemente
diante dos infortúnios, ele controla suas paixões e não tem reações
desmedidas como mostram ter as personagens da tragédia em situações
semelhantes.

Podemos observar que conforme Platão a escolha do estilo imitativo na tragédia e na


comédia, característico do poeta tradicional, foca em representar comportamentos
considerados indignos. Essas representações incluem personagens marginalizados, cenas de
sofrimento e situações que Platão criticava por seu conteúdo ético questionável. Tais
elementos, vistos como manifestações de vício, são recorrentes nesses gêneros dramáticos,
apontando para uma tensão entre a estética imitativa e os valores éticos defendidos por ele.

Explica Soares (2017, p. 113):


6
Tenemos así, por un lado, la elección del tipo de narración puramente
imitativo (propio de la tragedia y comedia) por parte del poeta tradicional,
estilo que concuerda con los caracteres y las conductas indignas a las que
apunta su mímesis (i.e. mujeres jóvenes o viejas insultando a sus esposos,
desafiando a los dioses o caídas en desgracia; escenas de enfermas,
enamoradas o presas del dolor de parto; de esclavos y de hombres viles y
cobardes; escenas de dementes, herreros y demás artesanos; de sonidos de
animales o naturales) (Rep. III 395d5-396b7; 397a1-b2). No es casual, por lo
demás, que todas estas imágenes del vicio (kakías eikósi), censurables para
Platón desde el punto de vista ético, constituyan un lugar común en las
tragedias y comedias.

3. As implicações morais e políticas da crítica platônica à arte

Observa Maronna (2010) que após uma análise nos livros anteriores sobre os aspectos
fundamentais da construção de uma cidade ideada, o filósofo, no Livro X, revela seu
argumento decisivo contra a poesia de caráter imitativo e, em última instância, a exclui de sua
cidade, a kallipolis. A obra A República de Platão busca, em sua essência, investigar a
verdadeira natureza da justiça. Para cumprir esse objetivo, Platão idealiza uma cidade em que
a justiça é plenamente manifestada e incorporada em todos os aspectos da vida social e
individual.

Argumenta o filósofo:

Qual é então essa separação? É a seguinte: nada tiremos, nem ao injusto em


injustiça, nem ao justo em justiça, mas suponhamos que cada um deles é
perfeito na sua maneira de viver. Em primeiro lugar, que o injusto faça como
os artistas qualificados - como um piloto de primeira ordem, ou um médico,
repara no que é impossível e no que é possível fazer com a sua arte, e mete
ombros a esta tarefa, mas abandona aquela. (PLATÃO, 2001, p. 58)

A crítica de Platão à mímesis, ressalta sua relação com o projeto político-filosófico de


uma cidade justa. Ele considera a imitação perigosa devido à sua capacidade de enganar e
criar ilusões, o que pode obscurecer a distinção entre o real e o ilusório. Essa confusão é vista
como uma ameaça à ordem social e ao ideal de verdade que sustenta sua visão de justiça.
Assim, sua objeção à mímesis não se limita ao campo estético, mas reflete uma preocupação

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ideológica em controlar as representações culturais e narrativas, alinhando-as a valores éticos
e políticos fundamentais para a estabilidade da sociedade.

Complementa Gagnebin (1993, p. 69):

Talvez possamos dizer que a mímesis possui essa força não apesar de não
participar do ser verdadeiro mas, mais secretamente, justamente porque ela
não participa dele, porque ela aponta para o engodo, para a mentira, para a
ilusão e a falta. Aprofundar essa hipótese nos levaria longe demais. No
entanto, o que é claro é que Platão procura, contra os sofistas, manter a
qualquer preço uma linha de distinção bem definida entre realidade e ilusão,
verdade e mentira. Sem essa linha, todo o seu projeto de construção de uma
cidade justa desmoronaria. Por isso, a sua crítica da mímesis pertence a um
projeto político muito maior, que poderíamos chamar, hoje, de luta
ideológica.

Para Gagnebin (1993), o caráter ideológico da crítica à mimesis platônica reside


exatamente na sua capacidade de enganar, algo que Platão busca regular para garantir que as
narrativas e imagens que permeiam a sociedade estejam em consonância com valores éticos.
Nesse sentido: “sabendo da força das imagens, Platão tenta domar, controlar a produção
dessas imagens, impondo-lhe normas éticas e políticas" (GAGNEBIN, 1993, p. 69).

Deste modo, apresenta-se uma análise da crítica platônica à arte, inserindo-a no


contexto político e filosófico do projeto de construção da cidade justa, a kallipolis. Essa
crítica, como destaca Maronna (2010), ganha densidade no Livro X de A República, onde
Platão argumenta contra a poesia imitativa e propõe sua exclusão da cidade ideada. A relação
entre a justiça e a estética é relevante para Platão, pois ele considera que a arte imitativa, ao
apelar mais à emoção do que à razão, ameaça desviar a alma do caminho do bem e da
verdade.

Jacques Derrida também aborda essa questão, afirmando que a exclusão da mímesis
não é apenas uma rejeição do falso, mas um esforço para estruturar a verdade dentro de
limites controláveis: "Platão teme o poder desestabilizador da representação. Sua exclusão da
mímesis não é arbitrária; ela reflete sua tentativa de estabilizar o discurso filosófico,
privilegiando a ordem, a razão e a verdade sobre o caos, a emoção e a incerteza" (DERRIDA,
1972, p. 84).

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Desta forma, a análise de Platão acerca da arte, situando-a no contexto político e
filosófico do ideal de construção da cidade justa, a kallipolis. Conforme destacado por
Maronna (2010), essa crítica atinge seu ápice no Livro X de A República, onde Platão
condena a poesia imitativa e advoga pela sua exclusão da cidade idealizada. A relação entre
justiça e estética assume um papel central em sua argumentação, pois Platão acredita que a
arte imitativa, ao priorizar as emoções em detrimento da razão, compromete a capacidade da
alma de trilhar o caminho do bem e da verdade.

Conclusão

A análise da mímesis em Platão revela um conceito multifacetado, que atravessa


questões ontológicas, epistemológicas, éticas e políticas. Embora o filósofo reconheça a
presença da mímesis no próprio ato de criação do mundo sensível pelo Demiurgo, sua crítica
às artes miméticas reflete uma profunda preocupação com o distanciamento entre a
representação artística e a verdade ontológica. Para Platão, a arte, ao imitar o mundo sensível
— já uma cópia imperfeita do mundo das ideias —, intensifica o afastamento da realidade
verdadeira, tornando-se não apenas um obstáculo epistemológico, mas também uma ameaça
ética e política.

A relação entre arte e educação é central para compreender as razões da rejeição


platônica à poesia e à tragédia. Na kallipolis, cidade ideada descrita em A República, a
formação moral dos cidadãos é a base de uma sociedade justa, e Platão teme que as
representações artísticas, ao apelar para emoções e comportamentos indignos, comprometam
esse objetivo. A arte, ao invés de guiar a alma para o bem e a verdade, pode desviá-la,
encorajando a internalização de vícios e distorções.

No entanto, é importante notar que a crítica de Platão não se limita a uma rejeição
simplista da arte. Ela reflete uma tentativa de alinhar estética, ética e política em um projeto
de ordem e justiça. Ao propor restrições à arte imitativa, Platão busca proteger a sociedade da
desordem causada pelas ilusões e emoções descontroladas que, segundo ele, as representações
miméticas podem provocar.

Por outro lado, a crítica platônica à mímesis ecoa em debates filosóficos posteriores,
sendo reinterpretada e desafiada por pensadores como Nietzsche e Derrida, que valorizam a
estética e a representação como formas de acesso à existência humana e como instrumentos

9
para questionar a verdade estática. Assim, Platão inaugura uma reflexão que transcende seu
tempo, colocando a arte no centro de debates fundamentais sobre a natureza da verdade, do
conhecimento e da sociedade.

Portanto, a crítica à mímesis em Platão não é apenas uma rejeição à arte, mas uma
parte integral de sua visão filosófica de uma vida orientada pela razão e pela justiça. Ela
destaca a tensão entre emoção e racionalidade, aparência e verdade, liberdade artística e
controle político, tensionando os limites da arte e reafirmando seu papel crucial no
desenvolvimento ético e social da humanidade.

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Calouste Gulbenkian, 2011.

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