Acordando discursos adormecidos: o que o ato poético
diz do ato analítico
Cláudia Thereza Guimarães de Lemos
No início da primeira aula do Seminário XV, O ato psicanalítico,
Lacan cria um intervalo entre o poético e o analítico, ao dizer:
[...]a psicanálise, isso faz alguma coisa. Isso faz, isso não basta,
é essencial, está no ponto central, é a visão poética propriamente
dita, a poesia também, isso faz alguma coisa. Observei em outro
lugar, assim de passagem, por ter ultimamente me interessado um
pouco pelo campo da poesia, quão pouco temos nos ocupado com
o que isso faz e a quem e, sobretudo, - por que não? – aos poetas.
Talvez indagar sobre isso seja uma forma de introduzir em que
consiste o ato na poesia. Mas hoje isso não é nosso assunto, já que
se trata da psicanálise, que faz algo mas certamente não no nível,
no plano, no sentido da poesia. (Lacan [1967-1968] 2001, p.11)
Ao mesmo tempo em que aproxima, através de uma relação
homológica, o fazer poético do fazer analítico, Lacan os separa e abre
o espaço em que de um se pode aceder ao outro. É nesse intervalo que
me coloco para dizer algo sobre o analítico ao dizer do poético.
O que surpreende no movimento que abre esse intervalo e, ao
mesmo tempo, serve de apresentação do tema do seminário é o fato
de Lacan deslizar da psicanálise para a poesia, certamente movido pela
expressão “visão poética” que usa para qualificar tanto a poesia quanto
o fazer que está em questão no ato analítico.
Para apreender o que seria a visão poética daquilo que o ato
analítico faz, apelo para o grego onde a primeira acepção de poiesis é
criação, opondo-se tanto a theoria, contemplação, quanto a praxis,
ação, execução (Bailly[1894] 1950, p.1581). A etimologia presta aqui
o seu serviço porque permite acompanhar Lacan que transita da
indagação sobre o que o ato analítico cria, enfim, sobre sua “poética”,
para o que cria a poesia, entendida agora na acepção de composição
poética. Isto é, de criação através da linguagem, de um saber-fazer-aí
com a língua que coloca psicanálise e poesia no que ambos estão
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radicalmente fora do discurso ordinário, discurso corrente para Lacan.
É nesse sentido que se pode falar em ato analítico e em ato poético,
entendendo-se ato na sua dimensão de mudança _ dando lugar ao
imprevisível _ e na sua dimensão temporal, o que só permite
reconhecer um antes a partir do depois.
Mas Lacan diz também nessa primeira aula do seminário que a
poesia não era sua preocupação naquele dia, como, aliás, não o seria
também nos demais, a não ser de passagem. Duas dessas passagens
me servirão de entrada no que penso poder dizer sobre o que o ato
poético pode dizer do ato analítico.
A primeira passagem se encontra na quinta lição, de 10 de
janeiro de 1968, no momento em que Lacan vincula ao ato analítico
uma certa ultrapassagem que evoca a dimensão do ato revolucionário,
o qual diferiria da eficácia da guerra por implicar um novo desejo. Cita_
ou recita _ então um poema de Rimbaud, cujo título é Por uma razão:
Um golpe de teu dedo sobre o tambor descarrega todos os sons
e começa uma nova harmonia
Um passo teu é o levantamento de novos homens e a hora em
marcha
Tua cabeça se desvia: o novo amor! Tua cabeça se volta: o
novo amor? ([Link].p. 78)
“É a fórmula do ato”, comenta Lacan. Já na aula de 6 de março
de 1968, não é a um poeta que Lacan dá a palavra: o que ele escreve
no quadro são exemplos de proposições das quais a lógica, a partir de
Aristóteles, extrai leis que regulam a complexa relação entre negação
e quantificadores.
Em francês: Je ne connais pas tout de la poésie.
Eu não conheço tudo sobre poesia.
J’ignore tout de la poésie.
Eu ignoro tudo sobre poesia.
Em inglês: I don’t know everything about poetry.
Eu não conheço tudo sobre poesia.
I don’t know anything about poetry.
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Eu não conheço nada sobre poesia. (p.196)
Ao lado da primeira frase de cada par, escreve a letra P, de
particular, ao lado da segunda, a letra U, de universal. Comenta que,
apesar de haver duas ocorrências idênticas de tudo, as proposições em
questão, em francês, diferentemente do inglês, têm um valor
essencialmente diferente. Disso conclui, entre muitas outras coisas,
que o significado, por assim dizer, comum a não conhecer e ignorar
impõe que uma tal diferença lógica entre particular e universal seja
remetida a uma distinção significante, nesse caso a vigente entre
“ignorar” e “conhecer”.
Não é, contudo, isso que me interessa aqui. No que me detenho
é no fato de tais proposições serem exemplares de uma linguagem-
objeto, como a elas Lacan se refere, objeto de um cálculo e, portanto,
amputadas de seu ato de enunciação. É estranho que Lacan se sirva
desses enunciados sem enunciação para tornar legívei algo sobre a
poesia, proposições cujo sujeito gramatical é – por acaso? – Je, eu, I.
Isto é, para não dizer dizendo : “Eu não conheço tudo sobre poesia”, “
Eu ignoro tudo sobre poesia”.
Esses modos esquivos de fazer o poeta dizer sobre o ato analítico
e de a poesia aparecer assim onde não seria chamada (Lacan poderia
ter exemplificado com a história, “Eu não conheço tudo sobre a
história) não deixam, porém, de condizer com o teor do que, nesse
Seminário, Lacan elabora sobre o ato analítico.
Mais precisamente sobre o que ele diz do arrebatado
desconhecimento que o psicanalista parece opor ao ato analítico.
Desconhecimento esse que incide até mesmo sobre o ato falho, na
medida em que o que dele se tem afirmado é sempre a falha e não o
ato, o que ele faz. Lacan atribui esse desconhecimento não a uma
incompatibilidade subjetiva, mas à insuportabilidade de suas
consequências e particularmente ao que, cito Lacan, “uma vez aceita
a perspectiva do ato, resultaria quanto à estimativa que o analista
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pode fazer daquilo que ele mesmo, recolhe, nas consequências da
análise, na ordem, por assim dizer, do saber.” (op. cit.,p. 51-2)
É mesmo da ordem do saber que se trata: do lugar do sujeito
suposto saber, instaurado pela própria demanda de análise, o analista
só pode fazer do ato uma simulação pela qual esquece do que, na sua
experiência de analisante, destituído de sua posição, se deu como
queda e exclusão desse sujeito.
Ou melhor, o analista finge saber que não sabe que não sabe.
Também “O poeta é um fingidor”, diz Fernando Pessoa, frase de
ressonância teórica no livro de Roberto Harari O que acontece no ato
analítico? ( Harari [2000] 2003) Que operação, então, é essa que o
analista efetua sem saber o que faz embora saiba porque o faz, como
afirma o mesmo Harari? Ou então, o que há de difícil ou mesmo de
impossível a saber com respeito ao fato de se tratar de uma operação
do significante?
Na terceira lição do seminário, Lacan afirma que a interpretação
funciona na medida em que liga de uma outra maneira uma cadeia de
articulação significante: o que torna difícil essa tarefa é o fato de o
sujeito, já determinado e causado por um certo efeito do significante
estar no interior da cadeia. Há dados colocados já na origem do jogo.
Como as fichas se distribuem nas casas do tabuleiro, nas casas em que
há de apostar,
Do mesmo modo os efeitos da interpretação são recebidos no nível
do quê? Da estimulação que ela fornece à inventividade do sujeito.
Quero dizer, dessa poesia de que falei há pouco.
[...]Se a posição do analista não se determina a não ser por um
ato, ela só pode registrar–se para ele , como efeito, pelo fruto do
ato; e, para empregar essa palavra, fruto, já evoquei da última
vez, seu eco de fruição. ([Link]., pp.59-60, ênfase minha)
Fruto do ato, poesia?
Dez anos se passaram até que Lacan pudesse voltar ao tema
psicanálise e poesia no Seminário XXIV, sequência de quatro aulas
proferidas em 1977 e cujo texto, estabelecido por Jacques-Alain Miller,
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foi publicado na revista Ornicar, em 1979, sob o título de Na direção
de um significante novo.
Para dar a esse seminário um lugar que o prenuncie, é
importante lembrar que esses dez anos são marcados, na obra de
Lacan, não só por um deslocamento do Simbólico em direção ao Real,
quanto por um distanciamento da Lingüística, anunciado
intempestivamente pela irrupção de lalíngua no Seminário XIX, em
1971, oficializado no mesmo ano no seminário XX, em 1972, pelo
neologismo linguisteria. Quanto mais se afasta da Linguística, mais
Lacan se aproxima da poesia ou da literatura como poesia, o que inclui
o ato poético e a poesia como um habitar a linguagem que diz da
psicanálise. A obra de autores como Marguerite Duras e James Joyce
se impuseram a ele nesse percurso.
Importante é notar, além disso, que a poesia volta a se fazer
presente na elaboração lacaniana, no final de sua vida, momento em
que ainda tem a coragem de dizer: “Eu ainda estou interrogando a
psicanálise sobre a maneira pela qual ela funciona. Como é que ela
constitui uma prática que às vezes é eficaz?” ([Link].,p.20)
Do Seminário XXIV está ausente a expressão ato psicanalítico e
nele estão de volta os termos intervenção e interpretação.
Ser eventualmente inspirado por algo da ordem da poesia
para intervir como psicanalista? É bem nesta direção que é preciso
que vocês se voltem, porque a lingüística é uma ciência muito mal
orientada. Ela só se eleva na medida em que Roman Jakobson
aborda sem peias as questões da poética. A metáfora, a metonímia
só contribuem para a interpretação quando são capazes de fazer
função de outra coisa, através da qual som e sentido se unem
estreitamente. É na medida em que uma interpretação justa
extingue um sintoma é que podemos dizer que a verdade é poética.
(Lacan 1979, p.16, tradução e ênfase minhas).
Mas, o que faz a poesia que possa vir a inspirar a intervenção do
analista? Que operação do significante faria de uma interpretação uma
interpretação justa? Respondo retornando às palavras de Lacan: “Se,
com efeito, a língua - é daí que Saussure parte - é fruto de uma
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maturação, de um amadurecimento que se cristaliza no uso, a poesia
resulta de uma violência feita a esse uso” ([Link]., p.8, tradução
minha). Violência feita àquilo que, segundo Lacan, dorme e faz
adormecer no discurso e que só desperta se não for compreendido.
Na menção de Lacan à violência que a poesia faz à linguagem
ecoa tudo o que da homonímia ele praticou na escrita de sua fala1,
tudo o que leu na violência da escrita de Joyce, de quem disse,
acompanhando Sollers, que, em Finnegans Wake, acabou com a língua
inglesa. Nela me deparo com algo que tanto agrega como organiza
muito do que Lacan enunciou sobre interpretação, intervenção, ato
analítico e poesia e que me parece ressoar sobre a disjunção entre
saber e verdade.
Para sustentar a ousadia dessa hipótese, volto-me ao que poetas
fizeram com a linguagem e sobre ela disseram. A beleza do verso – e
Lacan afirma nesse mesmo seminário que é preciso abolir a noção de
belo – esteve sempre associada a uma dominância da sonoridade,
através de rimas externas e internas, assonâncias e aliterações. Não
se pode negar, porém, o quanto tal dominância é corrosiva, obscurece
as fronteiras entre palavras, faz submergir em música o sentido delas.
Em um movimento oposto, as inversões, rupturas e
truncamentos sintáticos que fazem de Mallarmé, por exemplo, um
poeta tão extraordinário quanto difícil, deixam intactas as palavras mas
efetuam cortes no sentido que resultaria de suas relações, instaurando
descontinuidades. Ambos os movimentos cabem no que diz, de forma
simples, o poeta e ensaista Otavio Paz ( [1956] 1982): “A criação é
antes de tudo uma violência feita à linguagem. Seu primeiro ato é
desenraizar as palavras. O poeta as subtrai às suas conexões e a seus
empregos habituais.”
Se a intervenção de Freud junto à histérica configurava a busca
de um saber que conteria uma verdade, por outro lado, ter ele votado
1
Ver, a propósito, de Lemos 2007.
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a fala do analisando à associação livre e a escuta do analista à atenção
flutuante são modos de instaurar descontinuidades.
Para Lacan que, em um movimento diverso do de Freud, lida com
a verdade como algo a ser subtraído ao saber, a interpretação do
analista também visa a instaurar descontinuidades, ao modo do lapso
e do ato falho. É assim, pelo menos, que leio o que está dito na aula
de 17 de dezembro de 1969 do Seminário XVII, o avesso da
Psicanálise:
A interpretação _ aqueles que a usam se dão conta – é com
frequência estabelecida por um enigma. Enigma colhido, tanto
quanto possível, no discurso do psicanalisante e que você, o
intérprete, de modo algum pode completar por si mesmo, nem
considerar, sem mentir, como confissão. Citação por outro lado, às
vezes tirada do mesmo texto, tal qual foi enunciado. Que é aquele
que pode ser considerado uma confissão, desde que o ajuntem a
todo o contexto. ([1969-1970] 1992, p.33).
Enigma e citação, modos de intervenção do analista no discurso
do analisante. Lacan define o primeiro como enunciação sem enunciado
ou como enunciação que suspende um segmento do discurso do
analisante para convocar um outro enunciado. Nesse sentido, trata-se
de um semi-dizer, dada a elisão que o ato do analista opera sobre o
enunciado do analisante.
Inversamente ao enigma, a citação é um semi-dizer em que o
analista cita o analisante, devolvendo-lhe um fragmento extraído de
seu discurso. Ao por, assim, à mostra a equivocidade do enunciado,
fica em suspenso sua enunciação.
Citação e enigma desenraízam as palavras das conexões
habituais em que o discurso corrente dorme e faz dormir. Lembro de
um dia em que me dei conta, ao dar uma aula sobre lalíngua, de que
a língua estava sempre prestes a se desfazer e que isso se manifestava
primeiro nos fragmentos de palavras e do discurso materno que
emergem na fala inicial das crianças. Ao refletir agora sobre enigma e
citação na interpretação do analista, dou-me conta de outra coisa: que
a interpretação pela mãe dessa fala fragmentada da criança vai no
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sentido oposto ao do analista. O que ela faz é devolver à criança os
fragmentos recolocados em seus lugares, restabelecendo as conexões
habituais que atualizam o discurso do Outro, dando-lhes forma e
consistência.
Referências bibliográficas
HARARI, R. (2000) O que acontece no ato analítico? Rio de Janeiro:
Companhia de Freud, 2003.
LACAN,J. (1969-1970) Seminário - livro 17. O avesso da psicanálise.
Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor,1992.
(1967-1968) Seminario - O ato psicanalítico. Escola de
Estudos Psicanalíticos, publicação interna, 2009.
(1977) Vers um signifiant nouveau. Ornicar 17/18 (pp. 7-
23), 1979.
LEMOS, C.T.G.(2007) Joyce com Lacan, Joyce mais Lacan, JoyceLacan.
In Joyce-Lacan: O Sinthoma. Recife: Companhia Editora de
Pernambuco (pp. 129-134).
PAZ, O.(1956) O arco e a lira. São Paulo: Nova Fronteira, 1982.