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As traduções de Freud e a saída de


Benjamin
Instinto ou pulsão? A palavra trieb, usada pelo pai da
psicanálise, gera polêmica. Mas em tempos em que lógica
biologizante desacredita psicanálise, reprodução não basta; é
preciso ética e política — e Walter Benjamin pode apontar
caminhos
OUTRASPALAVRAS
POÉTICAS
por Ernani Chaves
Publicado 10/01/2020 às 17:52
https://outraspalavras.net/poeticas/as-traducoes-de-freud-e-a-saida-de-benjamin/

Por Ernani Chaves, na Revista Cult, parceira editorial de Outras Palavras

Em seu conhecido livro sobre a questão da tradução de Freud – As palavras de


Freud: o vocabulário freudiano e suas versões (1999) –, Paulo César de Souza
considera a tradução francesa de Trieb por pulsion como uma resposta a uma
“‘biologização’ injustificável” que a tradução inglesa do mesmo termo
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por instinct provocou. Tal resposta, continua o autor, passou a ser adotada
também “nas outras línguas latinas em que se traduziu (ou retraduziu) a obra de
Freud”, para concluir que “é significativo o fato de ‘pulsão’ ter vindo a
predominar na psicanálise francesa, sob a égide de Jacques Lacan”. As
traduções, seja a inglesa de James Strachey, sob o comando de Ernest Jones,
seja a francesa, coordenada por Jean Laplanche, estariam, assim, dependentes
das perspectivas teóricas e do ambiente cultural de onde surgiram. Sabemos que
o próprio Freud, em uma célebre carta, legitimou a tradução inglesa. O
interessante é que, em geral, se lê essa carta inteiramente descontextualizada: se
aceita, sem mais, a “sinceridade” de Freud, ignorando as circunstâncias,
fartamente documentadas na história da psicanálise, que quase sempre o
levavam a “agradar” os britânicos. Deixa-se inteiramente de lado o modo
pessoal com que Freud conduziu a “política” no interior da associação
psicanalítica por ele criada. Uma aliança que, não podemos deixar de
reconhecer, o salvou num momento extremamente delicado, pois desde a
anexação da Áustria pela Alemanha em 1938, as leis antijudaicas vigentes na
Alemanha passaram a valer automaticamente na Áustria.

Eu gostaria de colocar em questão esta ideia geral e bastante difundida para


mostrar que, antes de Lacan, em pelo menos um texto publicado na França, a
tradução de Trieb por pulsion – ou melhor, do adjetivo
substantivado Triebhaft por pulsionnel – já existia. Trata-se da versão francesa
do famoso texto de Walter Benjamin “A obra de arte na era de sua
reprodutibilidade técnica” (1935). Isso me dará a oportunidade para colocar a
questão das relações entre tradução, ética e política.

Esse texto de Benjamin possui quatro versões, escritas entre 1935 e 1939: três
delas em alemão e mais uma, a versão francesa, traduzida por Pierre
Klossowski. Com um detalhe importantíssimo: essa versão francesa foi a única
publicada enquanto Benjamin ainda vivia, no número de 1936 da Revista de
Pesquisa Social, órgão de divulgação das pesquisas realizadas pelo famoso
Instituto de Pesquisa Social, cujo diretor, à época já no exílio americano, era
Max Horkheimer. Na ocasião – detalhe importante – Benjamin vivia em Paris
como exilado sem pátria, pois já havia perdido a cidadania alemã por ser judeu e
de “esquerda”.

Deixemos de lado as diversas vicissitudes pelas quais passaram os textos de


Walter Benjamin escritos no exílio, em especial as frequentes polêmicas com
Adorno. Deixemos de lado, especialmente, as polêmicas em torno do texto ao
qual nos referimos, e que foi objeto de farta documentação e infindáveis
comentários (refiro-me, por exemplo, aos comentários e à documentação que se
encontram nos volumes 1-3 dos Gesammelte Schriften, de Walter Benjamin. Ou
ainda, à correspondência entre Benjamin e Adorno, publicada em português
pela Editora Unesp. Enfim, à edição crítica específica desse texto, organizada
por Detlev Schötker e publicada pela Suhrkamp em 2009).

“Inconsciente ótico”

Em todas as versões de seu ensaio, Benjamin mantém e desenvolve uma ideia


que surgiu alguns anos antes, em 1931, em “Pequena história da fotografia”.
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Nesse texto, ele propôs o conceito de “inconsciente ótico” (Optische-


Unbewussten) a partir de uma comparação com o “inconsciente pulsional”
(Triebhaft-Unbewussten) da psicanálise. O enjeu da argumentação é o seguinte:
interessado em compreender as profundas mudanças introduzidas na percepção
humana pelos avanços da técnica, Benjamin procura mostrar a diferença, na
relação entre homem e natureza, entre a percepção sensível, em especial a visão,
e esta mesma percepção a partir das transformações por ela sofridas, devido a
determinados aparatos técnicos, em especial o fotográfico. A percepção sensível,
diz ele, percorre os espaços naturais, guiada pela consciência. A percepção por
meio da técnica, por sua vez, percorre os mesmos espaços inconscientemente,
ou seja, enquanto no primeiro caso o olhar é guiado por quem olha, pelo “sujeito
da consciência”, no segundo, o olhar não é mais o do sujeito, mas o da câmera, a
qual, por meio de suas funções de ampliação e redução, trabalha
independentemente do olho e para além ou aquém dele, isto é, como se fosse
“inconsciente”. Daí, por exemplo, a “inquietante estranheza” que pode tomar
conta de nós, quando estamos diante de nossas fotografias antigas, uma vez que
ao mesmo tempo nos reconhecemos e nos desconhecemos nelas. Ou ainda,
quando nos surpreendemos com o que vemos numa fotografia, que “trai”
inteiramente nossos objetivos conscientes e pré-determinados.

Benjamin retoma e amplia as relações que o próprio Freud fizera em passagem


célebre do sexto capítulo de A interpretação dos sonhos (1900), entre o
funcionamento do inconsciente e o de certos aparatos técnicos como o
telescópio, o microscópio e o aparelho fotográfico. O caráter “metapsicológico”
desse capítulo nos instrui o suficiente para entendermos que tal comparação
coloca em primeiro plano não o caráter mecânico desses aparelhos, mas sim seu
caráter dinâmico, isto é, a relação estabelecida entre eles e seu operador, seja
um cientista, um técnico ou um fotógrafo. Benjamin amplia a posição de Freud
em dois aspectos: primeiro, por uma redução paradoxal, mas necessária, uma
vez que se refere apenas à máquina fotográfica, isso porque um de seus
objetivos é problematizar a questão do “rosto” humano, mostrando a passagem
da ideia de “retrato” (Porträt) para a de “imagem” (Bild). Segundo, porque para
ele o funcionamento do “olho” da câmera obedece inteiramente ao aparelho,
independentemente do operador, para mostrar o caráter de autonomia que
adquirem nossas invenções técnicas. Isso nos permite compreender em toda sua
extensão e radicalidade as palavras com as quais ele encerra seu
argumento: Von diesem Optisch-Unbewussten erfährt er erst durch sie, wie
von dem Triebhaft-Unbewussten durch die Psychoanalyse (“É, antes, por meio
da fotografia que ficamos sabendo do inconsciente ótico, da mesma maneira
que, por meio da psicanálise, ficamos sabendo do inconsciente pulsional”).

Essa ideia é retomada por Benjamin no ensaio sobre a obra de arte, em todas as
suas versões. A questão é a mesma, só que agora a comparação se dá entre o
olho humano e a câmera cinematográfica e não mais com a fotográfica.
Benjamin repete praticamente as mesmas palavras de “Pequena história da
fotografia”.
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Trieb freudiano

“A obra de arte…” foi o primeiro texto de Benjamin publicado no Brasil. Mas foi
apenas em 1985, na tradução de Sérgio Paulo Rouanet da primeira versão do
ensaio para o volume inicial das Obras escolhidas, publicadas pela Brasiliense,
que ficamos diante da tradução do Triebhaft como “pulsional”. O leitor
apressado é levado a atribuir a escolha do tradutor às mudanças ocorridas na
recepção brasileira da psicanálise, em dois aspectos bem precisos: a ampla
divulgação entre nós do Vocabulário da psicanálise (1970), de Laplanche e
Pontalis, que consagrava o termo “pulsão”, assim como a expansão das escolas
lacanianas no Brasil e sua presença cada vez maior nos meios acadêmicos. Neste
sentido, Paulo César de Souza tem razão ao relacionar tradução, perspectivas
teóricas e contextos culturais. Mas não será este o princípio e o problema de
toda e qualquer tradução? De minha parte, prefiro atribuir a posição de Rouanet
a um fato bem simples: profundo conhecedor da obra de Benjamin, ele optou
pela tradução pela qual o próprio Benjamin já havia optado.

A tradução de Klossowski para a versão francesa do ensaio sobre a obra de arte é


bem clara: C’est elle qui nous initie à l’inconscient optique comme la
psychanalyse à l’inconscient pulsionnel (“É a câmera que nos inicia ao
inconsciente ótico como a psicanálise ao inconsciente pulsional”). Com isso, já
podemos então ver que Pierre Klossowski, com a anuência de Benjamin,
traduzia Triebhaft por pulsionnel. A documentação à qual podemos ter acesso
hoje em dia confirma que, embora o trabalho de tradução tenha sido penoso
para ambos, Benjamin deu seu aval à tradução de Klossowski. Trata-se de uma
situação bem diferente da que envolvia Freud e seu tradutor inglês. Digo isso
porque é possível objetar à minha posição o fato de que Benjamin também
poderia ter aceitado a tradução de Klossowski porque sua condição de
expatriado não lhe dava muita margem de manobra. Ou ainda porque precisava
do auxílio financeiro como colaborador, que recebia do Instituto de Pesquisa
Social e que era fundamental para sua sobrevivência mínima naquela época.

Em que a posição de Benjamin era diferente? Por que, ao contrário de Freud,


estamos mais seguros, neste caso específico, de sua “sinceridade”? Vou justificar
minha posição apresentando dois motivos: 1) enquanto a recepção francesa da
psicanálise na época oscilava entre a recepção literária e no campo das artes em
geral (o surrealismo como o maior exemplo) e a psiquiátrica – estou aceitando
aqui a tese de Elisabeth Roudinesco em seu estudo sobre a história da
psicanálise na França –, Benjamin vinha de outra discussão, daquela que ele
partilhava com os membros do Instituto de Pesquisa Social, principalmente com
Adorno e Horkheimer, qual seja, de que a psicanálise era uma arma importante
e decisiva no combate ao positivismo que tentava dominar a própria filosofia,
por meio, por exemplo, do Círculo de Viena, ou ainda no combate às filosofias
da existência (Heidegger e Jaspers, por exemplo, na Alemanha). Essas críticas
se encontram bem colocadas na aula inaugural de Adorno na Universidade de
Frankfurt em 1931, intitulada “A atualidade da filosofia”, largamente inspirada,
como sabemos, em Walter Benjamin; 2) Benjamin tomou conhecimento da
teoria freudiana muito cedo, desde a época da universidade, de sua participação
no Movimento de Juventude, antes da Primeira Guerra; na época de seu
doutorado na Universidade de Berna, na Suíça, frequentou seminários sobre
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Freud e a partir de 1928 seu interesse pela psicanálise não só aumentou, como
também começou a se cristalizar em alguns ensaios importantes, seja nas suas
reflexões sobre Proust (Além do princípio do prazer, dizia ele, era um
comentário indispensável à Recherche… proustiana) ou ainda naquelas sobre os
brinquedos e jogos infantis. Em outras palavras, Benjamin tinha plenas
condições de avaliar o sentido que o Trieb freudiano poderia ter numa língua, a
francesa, que ele conhecia muito bem.

Reunindo esses dois aspectos, poderíamos dizer que, em última instância, a


psicanálise colocava em jogo, de um modo bastante radical, a própria ideia de
filosofia e, com isso, os seus alicerces antropológicos. A concepção freudiana de
inconsciente se tornava, desse modo, um caminho fértil para o entendimento
das profundas transformações sofridas pela percepção humana num mundo
cada vez mais dominado pela técnica, contribuindo de maneira decisiva para os
processos de “desauratização”, cuja análise foi uma das tarefas fundamentais da
atividade de Benjamin como crítico da cultura nos anos 1930. Vou ainda mais
longe: para Benjamin, não se tratava apenas de uma escolha teórica, mas
conectada com um preciso contexto político, o da ascensão do nazismo.
Familiarizado com a teoria freudiana da sexualidade, tal como os Proust-
Papiere claramente mostram, Benjamin poderia muito bem aceitar sem
restrições uma das afirmações mais importantes de Michel Foucault em páginas
decisivas do primeiro volume da História da sexualidade (1976), segundo a qual
a psicanálise só pôde se constituir em efetiva resistência ao nazismo justamente
por opor-se às teorias da degenerescência. Ora, o imensurável valor dessa
resistência é incompatível com a tradução de Trieb por instinto.

Todos sabem que Benjamin formulou uma complexa teoria da tradução. O que o
seu assentimento à tradução dessa passagem de seu texto destaca
explicitamente nessa complexidade é, me parece, a relação entre tradução, ética
e política. Do ponto de vista ético, isso significa não apenas que não se pode
traduzir de qualquer jeito, mas que o famoso “traduzir é trair” supõe, antes de
tudo, renunciar a qualquer pretensão de reproduzir fielmente uma língua em
outra, renúncia a uma espécie de identificação primária, que revelaria, entre
outras coisas, uma relação da ordem do ideal, sagrada, com o texto a ser
traduzido. Mas essa posição ética se complementa necessariamente com outra,
que é política, ao supor que uma tradução não pode ser indiferente ou neutra
em relação aos contextos, dos quais ela não é apenas dependente, reprodutora,
mas também contra os quais ela pode resistir e se posicionar.

E qual é o “nosso” contexto, o que nos assola e bate diariamente à nossa porta,
invade nossas casas e se instaura no nosso cotidiano? É um contexto cada vez
mais neuronal, cognitivo, biologizante, normativo na medida em que, explícita
ou implicitamente, se refere a uma ordem que é da “natureza”, contexto de
esvaziamento de qualquer subjetividade. Um contexto em que uma teoria do
psiquismo passa a ser vista como uma espécie de estágio pré-científico a ser
definitivamente superado pelas conquistas da ciência, a única verdadeira, a que
comprova, trata e cura. Nessa perspectiva, Trieb por “pulsão” não é apenas uma
tradução válida e legítima em relação ao contexto teórico, mas continua
cumprindo muito bem sua função de resistência em um contexto político que
procura sempre desqualificar a psicanálise. Não apenas o texto freudiano, a
teoria, mas igualmente sua prática, sua intervenção institucional, sua inserção
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nas lutas no interior das discussões sobre as políticas públicas para a saúde ou,
ainda, nos fóruns importantes de discussão da violência urbana, sexual, sem
contar, evidentemente, as relativas à saúde mental e ao uso de drogas. O
objetivo último desse combate é, sem dúvida, eliminar o que insiste em resistir,
ou seja, a “pulsão”.

Texto originalmente publicado na edição 181, julho/2013