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Epistemologia: para se poder dizer


coisa com coisa

* Pedrinho A. Guareschi

RESUMO

O artigo discute alguns conceitos centrais de epistemologia, mostran­


do os principais pressupostos subjacentes às principais teorias: do realismo
empírico, do idealismo radical e do realismo transcendental. Segue mos­
trando as maneiras como cada teoria tenta provar suas afirmações. Ao final
faz alguns comentários críticos sobre as limitações de cada teoria, sugerindo
algumas pistas de solução dos possíveis problemas epistemológicos, como
sugeridos pela Teoria Crítica.

* Professor do Mestrado em Psicologia Social e da Personalidade PUC/RS

P S IC O Porto Alegre v.22 n. 2 p. 155-164 Jul/Dez 1991


ABSTRACT
Vamos deixar dito logo em que bibliografia fundamental se apoiam
The paper discusses some basic concepts on epistemology, showing nossas discussões. Talvez o autor que mais empregamos seja Bhaskar, em
the main premises underlying the central theories: empirical realism, radical seus dois livros principais (1978 e 1979); depois em Erik Wright, princi­
idealism and transcendental realism. It continues presenting the ways of palmente em suas discussões com Michael Burawoy (Wright, 1985; 1990
explanation of each of the theories. Finally, it brings some criticai comments a; 1990 b); Keat e Urry (1975); Geuss (1988); Gouldner (1980); Garfinkle
about the limits of each of the theories, giving some possible solution of (1981); Jessop (1982); Godelier (1972); e Cohen (1978, principalmente
the epistemological problems, as suggested by the Criticai Theory. o Apêndice I ).

INTRODUÇÃO ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS

Uma das maiores dificuldades que sentimos, até mesmo a nível de Comecemos por dar a noção de alguns conceitos básicos, definidos
pós-graduação, quando passamos a discutir teorias, modelos, referenciais de maneira extremamente simples, exatamente para se poder entender o
filosóficos, etc, é a falta de compreensão de alguns conceitos básicos, cen­ que falamos, ou escrevemos. Esses conceitos nos acompanharão por toda
trais, ligados à epistemologia, ou teoria do conhecimento. a discussão:
Uma das causas disso é, certamente, o fato de a filosofia ter sido Ontologia: Trata das teorias sobre a natureza do mundo, sobre o que
retirada de nossas escolas, e com isso passa-se a ter menos e menos pos­ existe (campo da filosofia).
sibilidade de pensar corretamente. Tudo é passado de roldão, as mentes Epistemologia: Trata das teorias de como se pode conhecer o mundo,
vão sendo preenchidas, à maneira de enormes containers com um bom­ a realidade (campo da filosofia do conhecimento).
bardeio de informações sem muito nexo, transformando nossos jovens em Realismo: uma teoria que diz que as coisas existem "lá fora", inde­
grandes bancos de dados, de onde retirarão, oportunamente em vestibu­ pendentemente das pessoas (campo da filosofia).
lares ou exames, o material necessário como resposta a determinados es­ Idealismo: uma teoria que diz que as coisas não existem "lá fora", mas
apenas na nossa mente (campo da filosofia)
tímulos.
Vamos prevenir que essas considerações são apenas iniciais, são pa­ Com essas quatro definições, podemos começar a trabalhar. É raro
nos de fundo, sobre as quais se podem, oportunamente, estabelecer dis­ encontrar, hoje em dia, gente que negue que existam coisas "lá fora". É
cussões frutíferas.1 Apesar de já sugerirem uma pista, pois é impossível ser conhecida a resolução prática que Marx e Engels deram ao assunto: nós
de outro modo, elas não fecham a discussão. O importante, e útil, pensa­ comemos pudim, logo ele existe. Nesse sentido, no campo filosófico, a
mos, é que elas colocam definições relativamente claras, parâmetros defi­ maioria adota o realismo filosófico.
nidos, dentro das quais se toma fácil comunicarmo-nos e passarmos a dizer O problema começa quando nós perguntamos: como conhecemos a
o que queremos, e a entender o que os outros possivelmente queiram dizer. realidade lá fora, e se aquela realidade "lá fora" é assim mesmo, como nós
a vemos (ou parece que a vemos), ou se ela é diferente. O fato de aceitarmos
que existam coisas "lá fora" não resolve nossos problemas, por isso. E difícil
negar que existam coisas "lá fora". Mas nós nos podemos enganar sobre o
jeito como essas coisas são: é o caso da mistificação. E o interessante é que
1 Esse trabalho tem alguma referência com o artigo de Milton Madeira essas mesmas mistificações "trabalham", também "funcionam", também "es­
(Psico, vol. 17, n .l, 1989, p. 7-14), onde o autor pretende iniciar uma tão lá fora..."
discussão sobre o objeto de estudo do Mestrado em Psicologia Social e da No campo das teorias do conhecimento, da epistemologia, podem-se
Personalidade do Instituto de Psicologia da PUC-RS. O rápido trabalho identificar ao menos três enfoques teóricos diferentes. Mas antes de pas­
inicia com uma discussão referente à epistemologia, mas já traz implícitos sarmos a essa discussão, temos de deixar claro um ponto importante: que
vários pressupostos que necessitariam ser discutidos. Sem ser nem um co­ estamos tratando aqui de conhecimento.
mentário, nem uma resposta ao trabalho citado, pretendemos apenas co­
locar algumas premissas para um diálogo profícuo nesse assunto.

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O CONHECIMENTO O que nós podemos (e queremos) conhecer, é o "fato empírico", a
"experiência empírica".
Quando falamos de conhecimento, entra em jogo, automaticamente, Colocam-se aqui, agora, as três teorias centrais que estávamos para
o ser humano. E entrando o ser humano, entra a consciência, o intelecto, começar a discutir acima, antes de explicarmos o que seja o conhecimento.
as faculdades mentais. E essa consciência é "minha", pessoal, dum lado; e,
de outro lado, esta consciência é diferente da coisa "lá fora", apesar de ela
poder ser considerada também, de maneira reflexiva, como uma coisa "lá TRÊS TEORIAS EPISTEMOLÓGICAS CENTRAIS
fora". Isso quer dizer que há, então, no conhecimento, uma relação entre
a pessoa que conhece, e a coisa "lá fora". É disso que trata a epistemologia, Podemos identificar, para efeitos metodológicos, três matrizes epis-
a teoria do conhecimento: como nós conhecemos as coisas, e qual o "re­ temológicas fundamentais, das quais se poderiam derivar outras sub-teo-
sultado" daquilo que nós conhecemos. A esse "resultado", nós vamos, de rias, que se alimentam, em parte, de uma ou de outra. Cabe a cada situação
agora em diante, chamar de "experiências", a experiência do conhecimento, particular mostrar as especificidades de uma ou outra teoria particular.
ou também de "fatos observados", ou de "fatos empíricos". Essas matrizes seriam:
Os nomes dados aos conceitos definidos acima, não são criação nos­ a) O realismo empírico, também chamado, às vezes, de empirismo.
sa. Muitos teóricos, como Wright, Burawoy, Bhaskar e outros, os usam Afirma que há uma identidade entre os mecanismos da realidade, o que
nesse sentido. A experiência empírica, ou o fato empírico, é, pois, resultado está "lá fora", e os fatos empíricos, que eu observo. Mais: há uma identidade
de duas coisas: as condições de observação (percepção, conceitos, teorias, entre as três coisas: os mecanismos da realidade, como se mostram esses
modelos), e a "realidade lá fora" (os mecanismos da realidade, que se mos­ mecanismos (os acontecimentos), e a experiência, ou o fato empírico ob­
tram através dos acontecimentos). O gráfico seguinte nos ajudará a enten­ servado. A ciência consiste em isolar, em identificar regularidades empíri­
der melhor o que queremos dizer: cas, que são diretamente "dadas" no mundo. A tarefa da ciência é "limpar
a poeira", "tirar o ruído" dessas regularidades, o que se faz através da ex­
perimentação. O cientista é, essencialmente, alguém passivo.
b) O idealismo radical, transcendental (visão neo-kantiana da ciên­
cia): afirma que os "fatos observados" são totalmente produzidos por dis­
cursos, teorias, conceitos, modelos, em suma, pela nossa cabeça. Os fatos
são totalmente constituídos pelas teorias. Somos nós que construímos esses
fatos, e isso por três razões principais:
aa) Nossas teorias determinam que questões perguntar.
bb) Nossos esquemas conceituais determinam as categorias com as
quais nós fazemos nossas observações, e por isso, determinam o que nós
podemos "ver".
cc) Não existem, por isso, tais coisas como fatos "reais lá fora"AÍnde-
pendentes de teorias ou de conceitos. '

O que essa teoria defende, pois, é que os conceitos, teorias, determi­


nam o que nós podemos ver, isto é, o raio de nossas possíveis observações.
A ciência inventa modelos, cria categorias, e as transforma em teorias, to­
talmente dentro do pensamento. Esses modelos podem ser motivados por
2 É preciso prestar atenção aqui à definição que cada pessoa vai dar de regularidades observadas, mas sendo que essas mesmas regularidades
determinados conceitos. Para efeitos de nossa discussão, eles são entendi­ pressupõem as categorias dos modelos (pois a observação é sempre filtrada,
dos como definidos acima. Pode ser que alguns definam, por exemplo, estruturada conceitualmente), os modelos são sempre construtos puramen­
"fatos observados", ou "fatos empíricos", como se fosse a realidade "lá fora". te imaginários. No final de contas, os modelos são imposições de ordem
Não é esse o sentido em que os tomamos aqui. No quadro que colocamos cognitiva, colocadas pelas pessoasi humanas no mundo: imposições essas
abaixo, fica clara a diferença. essencialmente arbitrárias.

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cobrimento duma "lei" geradora de explicações dessas generalizações ba­
seadas em conjunções-correlaçõs constantes.
c) O realismo transcendental. Essa teoria afirma que, dentro dum raio
Poder-se-ia de imediato fazer uma observação questionadora dessa
de fatos possíveis, determinados por nossos conceitos e teorias, os meca­
teoria:
nismos reais do m undo "lá fora", mecanismos que existem inde­
O fato de eu descobrir uma correlação, uma conjunção constante de
pendentemente de nossas teorias, também determinam nossas observações
eventos, não quer dizer que eu descobri um mecanismo que gere tais even­
concretas. Assim, os "fatos empíricos", as "experiências empíricas", são in­
tos. A verdadeira explicação está na identificação dos mecanismos gera­
fluenciadas pelo mundo "lá fora", e por nossas teorias e conceitos também.
dores, não nas aparências, isto é, nas correlações constantes. Mesmo
Eles são o resultado dialético dessas duas realidades, ou melhor, essa passa
quando se faz um experimento, não se descobre qual o mecanismo gerador,
a ser a realidade do conhecimento, a única realidade possível de ser "co­
apenas se cria um "sistema fechado" artificial, onde as coisas acontecem
nhecida".
de modo parecido, não igual. Isso porque o mundo é um "sistema aberto",
A atividade científica deve ser vista como um processo de produção,
e não um sistema fechado. Há muitos e diferentes mecanismos causais
e o resultado final dessa produção, é o conhecimento. O conhecimento
operando simultaneamente, com relações mútuas apenas contingentes e
possui, pois, duas dimensões: é um produto social; e é conhecimento de
acidentais. Na natureza há apenas tendências, probabilidades, depend­
coisas que estão e existem "lá fora", objetivamente, independentemente de
endo das contingências da multiplicidade de mecanismos. O que os expe­
nós mesmos. Tenta reconciliar dois aspectos: a dimensão histórica do co­
rimentos fazem, quando são bons experimentos, é apenas criar um sistema
nhecimento, e a dimensão de existência independente de mecanismos reais
fechado artificial. Mas esse sistema não pode simplesmente, e univocamen-
no mundo.
te, ser identificado com o funcionamento do mundo "lá fora".

ABRANGÊNCIA EXPUCATIVA DAS VÁRIAS TEORIAS


B) EXPLICAÇÕES DO REALISMO (TRANSCENDENTAL)
Um passo necessário a ser dado agora, e estrategicamente fundamen­
As explicações do realismo, começam por fazer uma distinção entre
tal, é perguntar-nos como, e o quanto, cada teoria pode explicar da reali­
as regularidades observadas, e os mecanismos subjacentes, que produzem
dade. É aqui também que se pode fazer a avaliação crítica das diversas
essas regularidades. As teorias são sobre esses mecanismos, mesmo as teo­
teorias, ver sua potencialidade de compreensão dos fenômenos, sua abran­
rias sociais, ou sócio-psicológicas.
gência explicativa e, consequentemente, o quanto essas teorias ajudam a
A "realidade" é, então, composta por três níveis: os mecanismos (que
mistificar os acontecimentos, apresentando apenas meias-verdades, expli­
são os processos causais eficazes); os acontecimentos, aparências (conse­
cações parciais, etc.
qüências ou efeitos dos mecanismos) e as experiências (os aspectos subje­
tivamente percebidos dos eventos-aparências). No gráfico pode-se
visualizar melhor o que estamos comentando.
A) EXPLICAÇÕES DO EMPIRICISMO
A teoria explicativa do realismo não assume um isoformismo, uma
identidade total entre as aparências e os eventos-acontecimentos. Nossas
O empiricismo é, às vezes, chamado também de positivismo empiri-
percepções do mundo podem fazer com que falsamente vejamos, ou jun­
cista, pois o positivismo, na ciência, adota, em geral, posições epistemoló-
temos, eventos diferentes, numa mesma percepção; ou podemos, mesmo,
gicas empiricistas.
separar eventos iguais, em experiências diferentes. A experiência não é o
Para o empiricismo, ou positivismo, um fenômeno está satisfatoria­
acontecimento, nem muito menos o mecanismo.
mente explicado, quando ele pode ser catalogado, colocado dentro duma
Essa distinção é a mesma que se faz, muitas vezes, entre essência e
lei geral e abrangente; quando se pode dizer que ele é um fato, ou um
aparência. Com a diferença de que as aparências, aqui, não são meros
elemento, um exemplo duma determinada lei geral. Uma lei geral, nesse
epifenômenos, mas fazem parte da realidade também. E verdade que essas
contexto, é entendida como uma generalização empírica, como uma pro­
experiências, como veremos, podem, muitas vezes, se transformar em mis­
posição geral sobre "conjunções constantes dos fatos". O conhecimento
tificações; mas essas mistificações, e os mecanismos que impedem a pro­
das leis é entendido em termos empíricos; essas leis são, então, aplicadas
dução de explicações concretas, têm de ser concretamente mostradas.
a situações concretas para fornecer explicações. O ponto central é o des­

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O processo de explicação do realismo caminha, pois, pelos seguintes Se mudam elas, é sinal de que "elas" sofrem influência do mundo extemo
passos: também.
Sobre o positivismo, pode-se perguntar: se o que vemos (aconteci­
aa) Identificam-se regularidades, correlações, semelhanças entre fe­
mentos) representa, de fato, os mecanismos reais, como explicar, por
nômenos.
exemplo, o caso de Galileu? Até hoje nós vemos que o "sol se põe", o "sol
bb) Levanta-se a hipótese (suspeita) da presença dum mecanismo,
na imaginação: ele é inventado pela atividade criativa do cientista, tendo se levanta": é nossa constatação concreta, "fática". Até há algum tempo se
em consideração explicações e teorias já existentes. Esse mecanismo é uma dizia que o sol se movimentava; agora se diz que o que se movimenta é a
hipótese (uma proposição), sobre o que dever ser verdadeiro "lá fora", para terra. E houve até gente que quase foi para a fogueira por causa de situações
como essa. Disso tudo se pode concluir que o positivismo não é seguro,
que essas regularidades existam e aconteçam.
cc) Através da investigação empírica (experimentos, quase-experi- pois se as coisas, como as vemos, já mudaram, por que não podem mudar
mentos, e muitos outros procedimentos metodológicos, quantitativos ou de novo?
qualitativos), testa-se a realidade dessas entidades e desses processos hi­
potéticos, postulados.
PISTAS PARA POSSÍVEIS SOLUÇÕES

É conhecida a metáfora da caverna. Imaginemos uma caverna, com­


EXPLICAÇÕES D O IDEALISMO
pletamente escura, onde não se vê absolutamente nada, sem o auxílio dum
Que quer explicar o idealismo? Devido a seu pressuposto, de que foco de luz. Você entra na caverna, ilumina as paredes, e vê, na parede
tudo o que se refere ao conhecimento é uma construção mental, ele trabalha algo que parece um morcego.
O idealista vai lhe dizer: você não pode distinguir entre uma situação
numa espécie de círculo vicioso, sobre si mesmo. Pode elaborar excelentes
em que o foco de luz pode estar apenas iluminando algo que está, de fato,
construções lógicas dedutivas, mas suas premissas são criações, e conse­
na parede, ou se há um dispositivo no foco de luz, funcionando o foco
quentemente, suas conclusões somente se aplicam aos princípios gerados
apenas como um projetor, que mostra, na parede, apenas a imagem do
na mente dos teóricos.
É verdade que muitas conclusões podem ser tiradas logicamente, uma dispositivo. E mais: mesmo que você não tenha um projetor de luz, suponha
que os morcegos sejam vermelhos, as paredes brancas, e seu projetor tenha
vez que se tenham asseguradas premissas que foram testadas. Mas se es­
um filtro de luz vermelho: você iria concluir que não há morcego nenhum
tivermos falando sobre fenômenos que sucedem no mundo das coisas "lá
fora", é fundamental que, cedo ou tarde, nós nos reportemos a ele. nas paredes...
Se fôssemos resumir, brevemente, como as três teorias encaram o O empiricista vai lhe dizer que, no primeiro caso, há um morcego na
parede, sem nenhuma dúvida. E no segundo caso, o da parede e luz ver­
processo explicativo, poderíamos dizer que:
-O empiricismo vê a própria regularidade como a descoberta. melhas, que não existe morcego nenhum ali.
- O idealismo vê o processo como terminado na criação do modelo.
- O realismo (transcendental) implica os diferentes passos, o proces­
HÁ UMA SAÍDA PARA ESSAS ALTERNATIVAS?
so inteiro.
Cremos que sim. Nós podemos, por exemplo, desenvolver uma com­
preensão maior e mais completa (uma teoria) do foco de luz, de tal modo
COMENTÁRIOS CRÍTICOS
que possamos saber se há lá um dispositivo, ou se há um filtro vermelho.
Poderíamos, para ajudar a reflexão crítica sobre a abrangência ex­ Pois todo o problema está no foco de luz, que aqui representa nosso co­
nhecimento, a epistemologia, as teorias de como se pode conhecer a rea­
plicativa das teorias, fazer alguns comentários questionadores:
Sobre o idealismo, poderíamos dizer: Nós percebemos que as "teo­ lidade. Isso vem chamar nossa atenção ao fato de que o que mais nos falta
rias" mudam. Vê-se, com isso, que as teorias pré-existentes não podem é prestar atenção ao que nós somos, como conhecemos, que limites nos
"construir" os fatos empíricos, pois se assim fora, elas nunca mudariam... são impostos, quem coloca tais limites, etc. Tudo isso está estreitamente
relacionado ao problema das mistificações, das possibilidades de enganar

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(propositadamente ou não), e de nos enganarmos (problemática das ideo­
logias).
Uma conclusão, por assim dizer, aceitável, poderia ser a seguinte: o
conhecimento é um processo contínuo, infinito. Nunca podemos dizer que
tenhamos chegado ao fim. Todo cientista e pesquisador, deve ser, neces­
sariamente, muito modesto, e estar ciente dessas limitações fundamentais.
Mas com isso não podemos cair num ceticismo, afirmando que não
é possível conhecer coisa alguma, que é a conclusão do idealismo radical.
Do mesmo modo, não podemos cair num dogmatismo ingênuo e funda-
mentalista, que diz que as coisas são exatamente como as vemos, que é a
conclusão do positivismo empiricista, infelizmente bastante comum entre
nós. Temos de reconhecer que existem, como existiram, idéias e teorias
errôneas, mistificadas, baseadas em interesses, escusos até, muitas vezes.
Talvez seja aqui que se veja a importância quase imprescindível, e a
necessidade sábia duma teoria crítica, isto é, duma teoria que começa por
ser crítica dela mesma, em primeiro lugar, para que se dê conta de suas
limitações, como muito bem demonstra Geuss (1988) que, ao apresentar
as características da Teoria Crítica, mostra como ela, além de iluminadora
e emancipatória, deve ser reflexiva, isto é, começar por ser crítica dela
mesma.

BIBLIOGRAFIA

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