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ELETROMAGNETISMO I

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ELETROMAGNETISMO I 153 17 A formulação completa das equações de Maxwell só será possível quando estudarmos

A formulação completa das equações de Maxwell só será possível quando estudarmos os campos

eletromagnéticos variáveis no tempo. Por enquanto, vamos fazer uma abordagem inicial destas equações, apenas para campos invariantes no tempo. Este capítulo tem por objetivo resgatar os conceitos apresentados até o momento e formulá-los de uma forma mais concisa, de modo que permita uma melhor compreensão dos fenômenos já estudados. Em seguida formularemos as equações de Poisson e de Laplace, deduzidas a partir da dedução das equações de Maxwell.

13.1 – AS QUATRO EQUAÇÕES DE MAXWELL PARA CAMPOS ELÉTRICOS E MAGNÉTICOS ESTACIONÁRIOS

Como pudemos observar em todo o desenvolvimento deste curso, as leis básicas do eletromagnetismo foram formuladas por cientistas do século XIX, a partir da observação de fenômenos elétricos e magnéticos, complementadas por pesquisas experimentais. Com o auxílio das técnicas empregadas em cálculo diferencial e integral, essas equações receberam uma apresentação formal, mais elegante e sofisticada. Esse trabalho é devido a James Clerk Maxwell, cientista inglês que deu origem a um famoso grupo de equações conhecido por Equações de Maxwell.

As equações de Maxwell podem ser escritas tanto na forma integral, como na forma diferencial. Na verdade, o grupo de equações de Maxwell, na sua forma integral, nada mais é do que a expressão de conceitos conhecidos de campos elétricos e magnéticos criados por situações estáticas, isto é, invariantes no tempo.

Na forma integral já vimos que:

r

.D

s

l

r

H

r

dS

l

r

E

= ρ

v

dv (C)

r

dL

=

0

r

dL

=

r

B

s

S

r

r J dS (A)

r

dS

=

0

(13.1)

(13.2)

(13.3)

(13.4)

A equação (13.1) é a lei de Gauss, mostrando que o fluxo total que atravessa uma superfície fechada

corresponde à carga elétrica por ela envolvida. Em seguida, a equação (13.2) mostra que a integral de linha do campo elétrico estático sobre um caminho fechado é nula, numa clara expressão da lei de Kirchhoff para as malhas em circuitos elétricos. A equação seguinte (13.3) é a lei circuital de Ampère em que a integral de linha do campo magnético estático sobre um caminho fechado corresponde à corrente elétrica enlaçada por ele. Finalmente, a equação (13.4) mostra que o fluxo total do campo magnético sobre uma superfície fechada é nulo e demonstra, em um paralelo com a lei de Gauss na equação

(13.1), a inexistência de cargas magnéticas.

A pura aplicação dos teoremas de Stokes e da Divergência permite que as equações de Maxwell sejam

expressas na sua forma diferencial e pontual. Assim, pela ordem:

r

∇⋅D C m

(

/

r

∇×E=0

3

)

(13.5)

(13.6)

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r r

H

J

∇ × =

(

A

/

r

∇⋅B=0

m

2

)

(13.7)

(13.8)

Utilizando as identidades e relações vetoriais já vistas (gradiente, divergente, rotacional, teorema da divergência, teorema de Stokes), qualquer dos conjuntos de equações pode ser obtido, a partir do outro.

A interpretação física dada para as equações (13.1) e (13.5) é que podem existir cargas elétricas

isoladas e que o fluxo elétrico total que atravessa uma superfície fechada é igual à carga total por ela

envolvida.

A segunda dupla, ou seja, as equações (13.2) e (13.6), nos diz que o campo elétrico estacionário é

conservativo.

As equações (13.3) e (13.7) da terceira dupla informam que a corrente total que atravessa uma superfície aberta é igual à integração do vetor intensidade de campo magnético ao longo do contorno (caminho fechado) que envolve essa superfície. Quando essa superfície aberta tende a zero, a circulação do vetor intensidade de campo magnético nos fornece a densidade e a direção da corrente elétrica naquele ponto.

Por fim, a quarta dupla, formada pelas equações (13.4) e (13.8), de uma forma elegante mostra que não é possível a existência de pólos magnéticos isolados.

 

r

r

r

r

A

estas equações adicionamos as expressões relacionando

D com

E

e

B com

H

(chamadas de

relações constitutivas) presentes em qualquer meio onde:

r

D

r

B

r

E

(

/

r

H Wb

(

C

m

2

/

m

)

2

 

(13.9)

)

(13.10)

O

conjunto formado pelas equações de Maxwell, mais essas duas últimas relações, constituem o cerne

da

teoria eletromagnética.

Deve-se salientar que as equações aqui apresentadas referem-se a campos eletrostáticos e magnetostáticos (não variantes com o tempo). Veremos mais tarde as equações de Maxwell também são formuladas matematicamente para englobar campos elétricos e magnéticos variantes no tempo.

13.2 – POTENCIAL ESCALAR MAGNÉTICO E VETOR POTENCIAL MAGNÉTICO

Uma das maneiras encontradas para resolver problemas de campo eletrostático é pela utilização do potencial escalar eletrostático V. Dada uma configuração de cargas, a intensidade de campo elétrico pode ser obtida pelo gradiente dos potenciais eletrostáticos uma dada região. Devido à grande semelhança nas formulações da eletrostática, somos levados a perguntar se esta forma de solução não pode ser utilizada na magnetostática, ou seja, definir uma função potencial escalar magnético, a partir de uma distribuição de correntes, e a partir dela determinar a intensidade de campo magnético. Esta questão pode ter uma resposta afirmativa, sob certas circunstancias.

Vamos então designar uma função potencial escalar magnético V m, numa analogia com a eletrostática e definir que:

r

H

=−∇

V

m

(A / m)

(13.11)

O sinal negativo para o lado direito da equação 13.11 deve-se estritamente à analogia com a

eletrostática.

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Escrevendo a Lei de Ampère na forma pontual e substituindo o vetor intensidade de campo magnético pelo gradiente negativo da função escalar potencial magnético teremos;

r

∇ × = ∇ × − ∇

H

(

V

m

)

r

= J

(13.12)

As identidades vetoriais mostram que o rotacional do gradiente de qualquer função escalar é

identicamente nulo. Portanto, a função potencial escalar magnético só pode ser definida quando a

 

r

densidade de corrente no ponto em que

H

está sendo calculado for igual a zero. Ou seja:

r

∇× H=0

(13.13)

Como muitos problemas magnéticos envolvem geometrias em que os condutores ocupam uma fração muito pequena do domínio, o potencial escalar magnético pode ser útil. O potencial escalar magnético também é aplicável a problemas envolvendo ímãs permanentes.

Uma diferença fundamental entre a função potencial escalar eletrostático e a função potencial escalar magnético é que a primeira é um campo conservativo, ao passo que a segunda não o é. O potencial elétrico V é uma função unívoca, ou seja, uma vez que a referência zero seja fixada, existe um, e somente um valor de V associado a cada ponto do espaço. Este não é o caso de V m . Para que V m seja uma função unívoca, é necessário que não somente a densidade de corrente seja nula no ponto considerado, mas também que a corrente envolvida pela circuitação do vetor intensidade de campo magnético na região de interesse também seja nula.

Por exemplo, um condutor conduzindo uma corrente elétrica apresenta uma densidade de corrente

somente no seu interior, o que implica na inexistência de linhas de corrente fora dele. No entanto, fora

do condutor, a circuitação do campo magnético enlaça toda a corrente existente no condutor, mostrando

que neste caso, o potencial escalar magnético não pode ser determinado de forma única.

Frente às limitações da função potencial escalar magnético, no eletromagnetismo moderno, onde a determinação de campos eletromagnéticos é feita por recursos numéricos associados a métodos computacionais, outra função, esta denominada vetor potencial magnético, é mais utilizada, podendo

ser estendida a regiões com densidades de corrente diferentes de zero, e campos magnéticos variáveis

no tempo.

Sabemos que as linhas de força do campo magnético são fechadas, numa clara mostra da inexistência de cargas magnéticas. Desta forma, o fluxo magnético total que atravessa uma superfície fechada resulta sempre nulo, ou seja, numero de linhas de campo que entram na superfície é igual ao numero de linhas que dela saem. A aplicação do teorema da divergência faz então com que a indução magnética resulte nula. Daí:

r

∇⋅B=0

(13.14)

O vetor potencial magnético (bem como a função potencial escalar magnético) não possui nenhum

significado físico (pois, ao contrário da eletrostática, não existem cargas magnéticas isoladas). A sua definição provém de uma lei do cálculo vetorial, que afirma que o divergente do rotacional de qualquer função vetorial é nulo.

Desta forma, deve existir uma função

A tal que sua circuitação produza a densidade de fluxo magnético

r

r

B

. Assim,

 

r

r

B

=∇ ×

A

(13.15)

Fica assegurado então que:

 

r

 

∇⋅(∇× A) = 0

(13.16)

 

r

A

função

A

é conhecida como o vetor potencial magnético e sua dimensão é Wb/m no Sistema

Internacional de Unidades.

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Embora seja possível encontrar expressões matemáticas para o vetor potencial magnético, análogas

àquelas para o potencial eletrostático, em termos de uma integral envolvendo corrente (ou densidade de corrente), elementos diferenciais de comprimento (ou de superfície, ou de volume) e as distâncias

dessas distribuições a pontos onde se deseja calcular o valor de

expressões são de uso bastante limitado em casos voltados à prática, com soluções analíticas bastante

complexas e até mesmo impossíveis. Ao invés disso, partindo da definição do vetor potencial magnético

e das leis já conhecidas do eletromagnetismo, vamos formular as equações de campo que servem

A , não o faremos aqui. Essas

r

como ponto de partida para o cálculo de campos elétricos e magnéticos por métodos numérico- computacionais.

13.3 – EQUAÇÕES DE POISSON E DE LAPLACE

13.3.1 – Para a Magnetostática

A lei de Ampère para campos eletromagnéticos estáticos na sua forma pontual informa que:

r

∇ × =

H

r

J

ou ainda pela relação constitutiva da equação (13.10):

∇ ×

⎜ ⎜

r

B

μ

⎟ ⎟ ⎠

r

= J

(13.17)

(13.18)

A definição do vetor potencial magnético em (13.15) faz com que a expressão acima fique:

1

r

∇× ( ∇× =

A)

μ

r

J

(13.19)

Consideremos que o nosso problema tenha um comportamento bidimensional, ou seja, o potencial magnético só possui a componente na direção z e só varia nas direções x e y, ou: A x = A y = 0 e

A

z

nas direções x e y, ou: A x = A y = 0 e ∂ A

∂ =

z

0

. Isso pode ser ilustrado pela figura 13.1.

y B B y B x A z x
y
B
B
y
B
x
A
z
x

Figura 13.1 Campo magnético com comportamento bidimensional.

Consideremos ainda que o vetor densidade de corrente relação ao eixo z deste sistema cartesiano de coordenadas.

r J , neste caso, só possui a componente em

Desenvolvendo os rotacionais da equação (13.19) com essas simplificações em mente chegaremos à

expressão:

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⎛ ν∂ A ⎞ ∂ ⎛ ν∂ A

⎟+

⎟ =− J

x

x

y

y

(13.20)

em que ν é a relutividade, definida como o inverso da permeabilidade magnética do meio. Se o meio não for linear, ν terá dependência sobre a indução magnética B e vice-versa. A equação (13.20) é uma equação diferencial não linear, mais conhecida como função Quase-Poisson (ou equação de Poisson não linear). Se a relação entre B e H for linear, ν pode ser isolado na equação (13.20), recaindo na equação de Poisson, dada abaixo.

⎛ ∂ A ⎞ ∂ ⎛ ∂ A

⎟+

⎟ =− =−μ J

ν

J

x

x

y

y

(13.21)

Se o meio for desprovido de correntes, a equação (13.21) se reduzirá à equação de Laplace:

2

A

2

A

+

x

2

y

2

= 0

(13.22)

A solução da equação (13.20), que naturalmente engloba as equações (13.21) e (13.22), permite o

conhecimento do campo magnético em qualquer ponto de um circuito magnético. Entretanto esta equação não possui uma solução analítica conhecida. Por essa razão, a única maneira de fazê-lo é

através de métodos numéricos.

13.3.2 – Para a Eletrostática

A obtenção da Equação de Poisson para a eletrostática é extremamente simples. A partir da forma

pontual da lei de Gauss:

 

r

 

∇⋅D

(13.23)

 

r

Da definição de

D :

 

r

r

D

E

(13.24

r

Sabendo também que o campo elétrico E elétricos, tem-se que:

é determinado pelo gradiente negativo dos potenciais

r

E =−∇V

(13.25

Substituindo (13.25) e (13.24) em (13.23) vem:

−∇⋅(ε∇V)

(13.26)

ou:

2

V=−

ρ

ε

(13.27)

Essa é a equação de Poisson para a eletrostática, válida para uma região onde a permissividade elétrica ε do meio é constante. Expandindo-a em coordenadas cartesianas temos:

2

V

 

2

V

2

V

2

V

ρ

=

x

2

+

y

2

+

z

2

=−

ε

(13.28)

Se o meio não possuir cargas livres, ou seja, se ρ for igual a zero, a equação (13.28) recairá na equação de Laplace abaixo:

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2

V

=

2

V

2

V

2

V

x

2

y

2

z

2

+

+

= 0

(13.29)

Onde a operação

equação de Laplace é:

2 é chamada de Laplaciano de V. Em coordenadas cilíndricas a expressão para a

e

2

V

=

 

2

V

=

1

r V

⎟+

1

2

V

+

2

V

= 0

 

r

r

r

r

2

∂φ

2

z

2

1

r V

2

⎟+

1 ∂ ⎜ ⎛ sen θ

V

⎟+

1

2

V

r

2

r

r

2

r sen θ

∂θ

∂θ

2

r sen

2

θ ∂φ

2

em coordenadas esféricas temos:

 

(13.30)

= 0

(13.31)

Tendo em vista que a equação de Poisson considera as características condutivas e dielétricas do meio, a equação de Laplace é um caso particular para um meio desprovido de cargas elétricas livres.

13.4 – EXEMPLOS DE SOLUÇÃO ANALÍTICA DA EQUAÇÃO DE LAPLACE

As equações de campo obtidas na seção anterior são equações diferenciais onde as soluções analíticas só são possíveis para problemas muito simples. Os meios devem ser homogêneos e lineares, bem como a geometria de tratamento bastante simples.

Nesta seção apresentaremos uma maneira para se obter a solução analítica da equação de Laplace em duas dimensões. Em coordenadas retangulares, teremos para o caso bidimensional:

2

V

2

V

2

2

+

x y

=

0

(13.32)

Esta é uma equação diferencial a derivadas parciais de segunda ordem (possui derivadas de segunda ordem) e primeiro grau (não possui potências além da primeira). A equação (13.27) é a maneira mais geral de se expressar a variação do potencial eletrostático V em relação à posição (x,y,z), não sendo específica a nenhum problema em particular. Em outras palavras, para se resolver um problema em eletrostática utilizando esta equação de um modo particular para cada caso, deve- se conhecer as condições de contorno do problema.

Vamos resolver a equação (13.32), caso particular da equação (13.27), utilizando o método da

separação de variáveis, onde assumimos que V pode ser expresso como o produto de duas funções

F e G tal que:

V=F(x)G(y)

onde: F é função apenas de x e G função apenas de y.

(13.33)

Tomando esta expressão do potencial e aplicando-a na equação (13.32), temos:

Dividindo esta equação por FG,

G

d

2

X

+

F

d

2

Y

dx

2

dy

2

= 0

(13.34)

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1

d

2

F

1

d

2

G

+

F dx

2

G dy

2

= 0

(13.35)

Tendo em vista que a soma destes dois termos resulta numa constante e que o primeiro termo é independente de y e o segundo de x, cada qual será uma constante. Então, podemos escrever:

ou:

e, similarmente:

1

d

2

F

F dx

2

=

a

2

d

2

F

dx

2

= a

2

d

2

G

dy

2

=− a

F

2

G

(13.36)

(13.37)

(13.38)

O problema agora consiste em achar a solução para cada variável separadamente (daí o nome “separação de variáveis”).

A expressão dada em (13.37) mostra uma equação diferencial ordinária de 2ª ordem e homogênea

cuja solução geral é obtida pelas raízes do correspondente polinômio característico. Desta forma, a

solução geral para a equação (13.37) é:

ou, de maneira equivalente:

F

=

F

=

A e

1

ax

C cosh(ax

1

+

A

2

e

ax

)

+ C senh(ax)

2

(13.39)

(13.40)

onde C 1 e C 2 são constantes arbitrárias, obtidas a partir das condições de contorno do problema específico.

De maneira semelhante, a solução geral apresentada para a equação (13.38) é:

ou,

G

=

G

=

A

3

e

jay

C cos(ay

3

+

A

4

e

jay

)

+

C sen(ay)

4

(13.41)

(13.42)

Qualquer termo em (13.39) é uma solução e a soma deles também é uma solução. Para verificar isso, basta substituir o valor de F da equação (13.40) na equação (13.37).

Desta forma, a solução geral da equação (13.32) fica:

ou

V

=

[C

1

V

=

(A e

1

cosh(ax

)

+

ax

+

A

2

e

ax

)(A e

3

jay

+

A

4

C senh(ax)][C cos(ay

2

3

e

)

jay

)

+

C sen(ay)]

4

(13.43)

(13.44)

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Assim como as constantes A 1 , A 2 , A 3 e A 4 , ou C 1 , C 2 , C 3 e C 4 serão determinadas em função das condições de contorno do problema em estudo.

Exemplo 13.1

Considere um capacitor de placas paralelas, de área 100 cm 2 e distância entre as placas 0.01 m. Sabe-se que a placa inferior está no potencial zero e a placa superior no potencial 100 V. Utilizando a equação de Laplace, determine a distribuição de potencial entre as placas, desprezando o espraiamento das linhas de força do campo elétrico estabelecido.

Solução:

O problema pede na verdade o campo elétrico estabelecido entre as placas. Neste caso, podemos desconsiderar o efeito das bordas ou o espraiamento das linhas de campo visto que a distância entre as placas planas é muito menor do que a área delas. Assim o nosso problema recai no clássico capacitor de placas planas paralelas e infinitas, representado pela figura 13.2 abaixo.

z 1

V = 100 V z V = 0 y
V = 100 V
z
V = 0
y

Figura 13.2 - Capacitor de placas paralelas.

Não há variação do potencial nas direções y e x, mas apenas na direção z. Portanto a equação de Laplace se reduz a:

d

2 V

2 V
dz

dz

2

= 0

Pelo fato da segunda derivada de V em relação a z ser zero, a primeira derivada deve ser igual a uma constante. Desta forma:

ou:

integrando:

ou:

dV =

dz

C

1

dV

=

dV=

C dz

1

C dz

1

V=C z+C

1

2

Utilizando agora as condições de contorno, vamos determinar as constantes C 1 e C 2 .

Em z = 0, temos V = 0. Portanto:

0

=+ ⇒ =

2

2

0

C

C

0

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161

Em z = 0.01 m, temos V = 100 V. Portanto:

100

=

C 0.01

1

⇒ =

C

1

10000

Introduzindo os valores de C 1 e C 2 na equação da solução:

V

=

4

10 z (V)

O campo elétrico entre as placas será então determinado pelo gradiente dos potenciais onde

r

E = V . Assim,

r

E= −10 aˆ

4

z

Portanto, constante e de módulo igual a V/d, como era de se esperar.

Exemplo 13.2

Calcule a distribuição da função potencial eletrostático na região interna entre dois planos radiais, isolados por um gap infinitesimal, conforme ilustrado na figura 13.3.

por um gap infinitesimal, conforme ilustrado na figura 13.3. Figura 13.3 – Dois planos radiais infinitos

Figura 13.3 – Dois planos radiais infinitos com ângulo α interior

Solução

Para essa configuração, as superfícies equipotenciais também são planos radiais, e a equação de Laplace em coordenadas cilíndricas se reduz a:

Excluindo r = 0, teremos:

O que dá como solução

2

V

=

1

2

V

r

2

∂φ

2

2

V

∂φ

2

= 0

= 0

V = Aφ+ B

As condições de contorno permitem obter A e B:

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162

Para

φ = 0, V = 0 B = 0.

φ

Para

= α, V = V 0 A = V 0 /α.

Portanto:

Exemplo 13.3

V = V

0

φ

α

(V)

Calcule a distribuição da função potencial eletrostático na região interna da calha retangular mostrada na figura 13.4.

Solução:

z V =V 0 d V = 0 V = 0 V = 0 c
z
V
=V 0
d
V = 0
V = 0
V
= 0
c

x

Figura 13.4 Calha retangular (topo isolado).

Este problema recai no caso onde os potenciais são como um produto de funções independentes, cuja solução geral já discutimos anteriormente. O potencial é uma função de x e de z sob a forma:

V =

[C

1

cosh(az

)

+

C senh(az)][C cos(ax

2

3

)

+ C sen(ax)]

4

As condições de contorno para este problema específico implicam em:

V = 0 em x = 0 e V = 0 em z = 0

Estas condições fazem nulos os termos com C 2 e C 4 , sendo requerido então que as constantes C 1 e C 3 sejam nulas para que V seja igual a zero.

Por outro lado, a condição V = 0 em x = c, leva-nos a concluir que a = nπ/c, onde n é um número inteiro.

Tendo C 1 e C 3 nulos a expressão geral contém apenas o produto C 2 C 4 que substituído por C faz com que a expressão para o potencial torne-se:

n π z ⎞ ⎛ n π x

sen

V = Csenh

c

c

Como n pode ser qualquer número inteiro, a expressão para V deve ser escrita como sendo uma série infinita em que:

V

=

n = 1

C

n

senh ⎛ ⎜ n π z

sen ⎛ ⎜ n π x

c

c

A condição V = V 0 em z = d, permite escrever:

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163

V 0

=

n = 1

C

n

senh ⎛ ⎜ n π d


sen ⎛ ⎜ n π x


c

c

O produto formado pelos dois primeiros termos resulta numa constante e a expressão acima pode ser

escrita

V 0

=

n = 1

b

n

sen ⎛ ⎜ n π x

c

Cada constante b n pode ser determinada como um coeficiente de uma série de Fourier em seno (função ímpar) para f(x) = V 0 constante onde 0 < x < c. Desta forma,

Daí :

b

A função potencial será então:

n

=

C

n

2

c

n

π

x

dx =

2V

0

c

n

π

x

c

0

f (x)sen

c

c

0

sen

c

dx

b =

n

4V

0

0

/ n

π

n par

n ímpar

=

4V

0

1

n π

senh(n π d / c)

p / n impar

V =

n impar

4V

0

senh(n z / c)

π

n

π x

 

sen

n

π

senh(n d / c)

π

c

13.5 – SOLUÇÃO DA EQUAÇÃO DE LAPLACE POR ITERAÇÕES NUMÉRICAS

Na seção anterior apresentamos uma solução exata para a equação de Laplace em um problema extremamente simples, para efeitos práticos. Apesar da simplicidade da configuração analisada, a solução analítica já se mostrou bastante complexa. Configurações mais complexas tornam a solução analítica extremamente difícil, e, na maioria dos casos, impossível. É por essa razão que a solução de problemas envolvendo as equações de Poisson e Laplace, na maioria dos casos práticos, só é possível com o uso de métodos numéricos. Métodos numéricos permitem uma solução aproximada para o problema, de acordo com uma tolerância pré-estabelecida. Para ilustrar a utilização dos métodos numéricos, nesta seção vamos apresentar um método bastante primitivo para a solução numérica da equação de Laplace. Este método serviu como ponto de partida para a formulação do método das diferenças finitas, que em sua formulação no domínio do tempo, FDTD, é largamente utilizado na solução de problemas envolvendo campos eletromagnéticos variáveis no tempo.

Para simplificar a variação na direção z não existe. Isso reduz o nosso problema a um problema de campo bidimensional:

2

V

2

V

+

x

2

y

2

= 0

(13.45)

O primeiro termo na equação 13.45 é a derivada parcial segunda de V em relação a x, isto é, a taxa

de variação em relação a x da taxa de variação de V em relação a x. Idem para o 2º termo, em

relação a y. Vamos reescrever a equação 13.45 da seguinte maneira:

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ELETROMAGNETISMO I

164

∂ ( ∂ V ) ∂ ⎛ ⎝ ∂ V ⎜ ⎟ ⎞ ∂ x
∂ (
∂ V
)
∂ V
⎟ ⎞
∂ x
∂ ⎠
y
=
∂ x
∂ y

(13.46)

Considere agora uma distribuição bidimensional de potenciais em torno de um ponto P, como é mostrado na figura 13.5. Seja o potencial no ponto P igual a V 0 , e os potenciais nos quatro pontos em torno dele iguais a V 1 , V 2 V 3 e V 4 , conforme é mostrado. Vamos agora substituir as derivadas na equação 13.46 por diferenças do tipo (V 0 - V 1 )/Δx (neste caso específico, esta é a inclinação da curva de V entre os pontos P e 1). A diferença das inclinações, dividida pela distância incremental Δx é aproximadamente igual a 2 V/x 2 . A equação de Laplace pode agora ser reescrita como:

[(

VV

20

)

//Δ

x

−−

VV

01

]

[(

)

Δ

x

]

Δ

x

≅−

[(

VV

30

)

/

Δ

y

]

[(

−−

VV

04

)

/ Δ

y

]

Δ

y

 

V

3

  V 3   3
 

3

 

Δy

 

V

1

Δx

   

V

0

Δx

V

2

     
 
     
   
       
       
 

1

   

P

2

 

Δy

 
 

V

4

  V 4   4
 

4

(13.47)

figura 13.5 - Construção para encontrar o potencial em P.

Fazendo Δx = Δy, teremos:

ou:

+++− 4 0

VVVV

1234

V

0

V 0

1

4

(V

1

+

V

2

+

V

3

+

V

4

)

(13.48)

(13.49)

Se conhecermos o potencial nos pontos 1, 2, 3 e 4, podemos calcular o potencial no ponto P de acordo com a equação 13.49. Em outras palavras, o significado físico da equação de Laplace é que o potencial em um ponto é simplesmente a média dos potenciais dos quatro pontos que o circundam, a uma mesma distância.

Exemplo 13.4

Considere a configuração Mostrada na figura 13.6. A placa superior está a um potencial de 40 V, e isolada. O perfil em forma de U está no potencial zero. Calcular a distribuição de potenciais para esta configuração, utilizando o método de solução repetitiva da equação de Laplace.

Solução:

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ELETROMAGNETISMO I

165

Fig 13.6 - Configuração do exemplo 13.4

Gap

0

40 V

165 Fig 13.6 - Configuração do exemplo 13.4 Gap 0 40 V 0 Gap 0 O

0

Gap

0

O

O

O

valor de V no centro do quadrado será

40

+++ 0 0

0

4

= 10(V)

potencial no gap será a média aritmética entre o potencial na placa superior e o potencial nulo:

20 V

0

40 +

0 = 20V

2

40 V

20 V 10 V 0
20 V
10 V
0

0

Fig 13.7 - 1º cálculo do potencial

valor do potencial no centro dos novos quadrados será:

40

+

20

+ 10 +

0 = 17.5 (V)

4

0

++ +

0

10

0

4

= 2

5

(V)

Calculando novamente

os potenciais nos quadrados internos teremos:

10 17.5

+

+

2.5

+

0 = 7.5V

,
4

40

+

17.5 17.5 10 =

+

+

4

21.25V

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ELETROMAGNETISMO I

166

20 V

0

2.5 + ++ 2.5 0 10 = 4 40 V 20 V 17.5 17.5 10
2.5
+ ++
2.5
0
10 =
4
40
V
20 V
17.5
17.5
10 V
0
2.5
2.5

0

Fig. 13.8 - 2º cálculo do potencial

3.75V

40 40 40 20 20 0 0 17.5 21.3 0 17.5 0 10 V 7.5
40
40
40 20
20
0
0
17.5
21.3
0
17.5
0
10 V
7.5
0
0
7.5
2.5
3.8
2.5
0
0
0
0 0
0
0

Fig. 13.9 - 3º cálculo do potencial

Os cálculos de potenciais podem prosseguir indefinidamente. quanto maior for o número de potenciais calculados por esse processo, maior será a precisão. Finalmente, a figura 13.10 apresenta um gráfico com o mapeamento dos potenciais eletrostáticos. Cada linha representa um valor de potencial (30, 20, 15, 10, 5 e 2.5 V)

0

0

0

0

0

20

40

40

40

20

0

 

17.5

21.3

17.5

 
   

0

 

7.5

10 V

7.5

 
   

0

 

2.5

3.8

2.5

 
   

0

 

0

0

0

0

Fig. 13.10 - Mapeamento dos potenciais eletrostáticos

Apresentamos neste capítulo dois exemplos, um com a solução analítica da equação de Laplace, outro com uma solução numérica. A solução analítica das equações de Laplace e Poisson se restringem a casos onde a geometria é bastante simples, e por isso ela não é muito utilizada. A solução numérica dessas equações é bastante comum, e métodos bastantes avançados já foram desenvolvidos. Apesar de termos realizados exemplos de eletrostática, o mesmo procedimento é realizado no caso de campos magnéticos, onde as complexidades de geometria e meios magnéticos não lineares são ainda maior.

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ELETROMAGNETISMO I

EXERCÍCIOS

167

1) - Quatro placas de 20 cm de largura formam um quadrado, conforme indicado na figura 3. se as placas são isoladas entre si, e estão submetidas aos potenciais indicados, encontre o valor do potencial nos pontos a e b, indicados na figura.

40 V

30 V gap = 1 mm a 5 cm 15 cm 10 cm b 5
30 V
gap = 1 mm
a 5
cm
15 cm
10 cm
b
5 cm

10 V

20 V

figura 1 - figura do problema 1

2) - Encontre o valor do potencial V nos pontos P 1 e P 2 da configuração abaixo.

3 cm

V = 0 V = 100 9 cm P 1 3 cm 9 cm P
V = 0
V = 100
9 cm
P
1
3 cm
9 cm
P 2

3) - Um potencial em coordenadas cilíndricas é função apenas de r e φ, não o sendo de z. obtenha as equações diferenciais separadas para R e Φ, onde V = R(r)Φ(φ), e resolva-as. A região é sem cargas.

4) – Encontre uma expressão para V0 na figura abaixo, em função de V1, V2, V3 e V4, sabendo queh1, h2, h3 e h4 são diferentes entre si.

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ELETROMAGNETISMO I

168

5) Dado o campo potencial

V(r,

V 3 3 h3 V V 1 0 V h1 2 h2 1 P 2
V
3
3
h3
V
V
1
0
V
h1
2
h2
1
P
2
h4
V
4
4
r
φ
)
=
cos φ
:
V 0
d

a) mostre que satisfaz a equação de Laplace.

b) Descreva as superfícies de potencial constante.

c) Descreva especificamente as superfícies onde V = V0 e V = 0.

d) Escreva a expressão para o potencial em coordenadas cartesianas.

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