SOCIEDADE INTERNACIONAL E COMUNIDADE INTERNACIONAL: UMA ABORDAGEM COMPLEXA À LUZ
DO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO
1. INTRODUÇÃO
A terminologia empregue nas ciências jurídicas e políticas para descrever o conjunto de relações e
interações entre os sujeitos internacionais tem sofrido mutações conforme os contextos históricos,
políticos e jurídicos. Dentre as expressões mais utilizadas estão "Sociedade Internacional" e
"Comunidade Internacional", que, embora frequentemente usadas como sinónimos, revelam distinções
conceptuais relevantes quando analisadas sob a óptica do Direito Internacional Público. A presente
análise visa dissecar, de forma exaustiva, tais categorias, de modo a revelar as suas nuances, diferenças
estruturais e implicações jurídicas no sistema internacional contemporâneo.
2. CONCEITO DE SOCIEDADE INTERNACIONAL
A Sociedade Internacional é uma categoria clássica do Direito Internacional Público, que remete à ideia
de uma pluralidade de Estados soberanos e independentes que interagem entre si com base no
princípio da igualdade jurídica, da não-intervenção e do respeito à soberania.
2.1 Características Essenciais da Sociedade Internacional
Pluralismo jurídico: Cada Estado possui o seu próprio ordenamento jurídico interno, coexistindo com o
ordenamento internacional.
Horizontalidade das relações jurídicas: Não há um poder central supranacional; os Estados relacionam-
se num plano de paridade formal.
Anarquia estruturada: Ausência de uma autoridade superior que regule coercivamente o
comportamento dos Estados.
Consentimento como base normativa: As normas internacionais nascem do acordo de vontades entre
Estados, seja por tratados, seja por práticas reiteradas (costumes).
2.2 Evolução Histórica
Historicamente, a sociedade internacional foi pensada com base num modelo eurocêntrico e estatalista,
sobretudo no período pós-Paz de Vestfália (1648), com os Estados como os únicos sujeitos do Direito
Internacional.
3. COMUNIDADE INTERNACIONAL: UM PARADIGMA EMERGENTE
A expressão Comunidade Internacional é relativamente mais recente e carrega um sentido valorativo,
teleológico e solidário, em contraste com a lógica soberanista da sociedade internacional. Este conceito
projeta a ideia de um corpo colectivo dotado de interesses comuns e valores universais, como os
direitos humanos, a paz, a segurança e o desenvolvimento sustentável.
3.1 Características Distintivas
Universalismo jurídico e ético: Defesa de princípios universais como a dignidade humana,
autodeterminação dos povos, e direitos fundamentais.
Verticalização parcial do Direito Internacional: Admissão de normas imperativas (jus cogens) que
vinculam todos os sujeitos, independentemente do consentimento.
Reconhecimento de novos sujeitos: Além dos Estados, incluem-se organizações internacionais, povos,
minorias, indivíduos e empresas transnacionais.
Solidariedade internacional: Existe um crescente reconhecimento da necessidade de ação colectiva em
problemas globais como o clima, pandemias e terrorismo.
3.2 Emergência Pós-Segunda Guerra Mundial
O conceito de Comunidade Internacional ganhou corpo no pós-Segunda Guerra Mundial, com a criação
da Organização das Nações Unidas (ONU) e a codificação progressiva dos direitos humanos universais,
bem como dos crimes internacionais (genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra).
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4. DISTINÇÕES FUNDAMENTAIS ENTRE SOCIEDADE INTERNACIONAL E COMUNIDADE INTERNACIONAL
Aspecto Sociedade InternacionalComunidade Internacional
Base relacional Soberania e consentimento Solidariedade e valores universais
Estrutura jurídica Horizontal Tendência à verticalização (jus cogens, ONU)
Sujeitos principais Estados Estados, organizações, indivíduos, povos
Fontes normativas Tratados e costumes Jus cogens, obrigações erga omnes
Lógica normativa Pluralismo Universalismo
Exemplo institucional Relações interestatais clássicas ONU, Tribunal Penal Internacional
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5. IMPLICAÇÕES JURÍDICAS NO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO
5.1 Normas de Jus Cogens
A Comunidade Internacional reconhece normas imperativas que não podem ser derogadas por acordo
entre Estados (ex.: proibição da tortura, escravatura, genocídio). Estas normas são uma ruptura com o
voluntarismo da sociedade internacional clássica.
5.2 Obrigações Erga Omnes
As obrigações erga omnes são devidas à comunidade internacional como um todo. Exemplos incluem a
proibição da agressão e a obrigação de respeitar os direitos humanos fundamentais.
5.3 Responsabilidade Internacional
A responsabilidade internacional dos Estados evoluiu para incorporar crimes internacionais que
ofendem a Comunidade Internacional, permitindo que qualquer Estado invoque a responsabilidade,
mesmo sem ser diretamente lesado.
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6. DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS À CONCRETIZAÇÃO DA COMUNIDADE INTERNACIONAL
Apesar da retórica e normatividade da Comunidade Internacional, persistem contradições estruturais e
assimetrias:
Dupla moral nas relações internacionais: Intervenções seletivas por grandes potências.
Fragmentação jurídica: Proliferação de regimes normativos sem coordenação efetiva.
Inefetividade sancionatória: Falta de mecanismos coercivos eficazes.
Colonialidade do poder: Persistência de dinâmicas neocoloniais sob o manto da ajuda internacional ou
da proteção humanitária.
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7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A oposição entre Sociedade Internacional e Comunidade Internacional não é meramente semântica,
mas reflete duas visões antagónicas do Direito Internacional: uma centrada na soberania e no
consentimento estatal (modelo clássico), e outra orientada para a universalização de valores e normas
superiores, com efeitos jurídicos expansivos e transformadores.
O século XXI coloca a Comunidade Internacional como horizonte desejável, mas ainda incerto e
fragilizado pelas realidades geopolíticas. A efetivação dos valores comunitários exige não apenas
reformas institucionais, mas sobretudo mudanças paradigmáticas na cultura jurídica internacional.
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8. BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA
CASSESE, Antonio. International Law. Oxford: Oxford University Press.
DUGARD, John. International Law: A South African Perspective. Juta.
SHAW, Malcolm N. International Law. Cambridge: Cambridge University Press.
BROWNLIE, Ian. Principles of Public International Law. Oxford University Press.
FERNANDES, Guilherme. Direito Internacional Público. Coimbra Editora.
RAMOS, André de Carvalho. Direitos Humanos na Ordem Internacional. São Paulo: Saraiva.
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