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Sebenta de DIP com Indice - José Carlos Neves
Direito Internacional Público I (Universidade de Coimbra)
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Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Administração Público Privada
DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO
INTRODUÇÃO
1 – Noções de Direito Internacional
O Direito Internacional é um ramo da ciência jurídica e simultaneamente uma ordem
normativa e um factor de organização social, aplicado a uma “Sociedade
Internacional” constituída por “Sujeitos do Direito Internacional”, ou seja, por Estados
Soberanos, por organizações internacionais, por povos não autónomos e por
indivíduos.
2 – Direito Internacional, Direito Interestadual e Direito das
Gentes
A expressão mais correcta para aludir ao direito da sociedade internacional é “Direito
Internacional”, em sentido etimológico, direito regulador das relações entre Estados,
por consequência, direito interestadual.
No entanto, a sociedade internacional não é mais constituída só por Estados. Apesar
de estar centrada na figura estadual, vai sendo cada vez mais uma sociedade de
entes organizatórios dotados de autonomia e poder de decisão, povos com direito à
auto-determinação e até indivíduos. Dada esta abrangência e todos os sujeitos do
direito internacional, poderíamos chamar-lhe Direito das Gentes que consideraremos
perfeitamente equivalentes.
3 – Direito Internacional Geral e Direito Internacional Particular
O Direito Internacional visa assegurar uma eficaz regulação jurídico-normativa numa
sociedade portadora das mais diversas mundividências. Como tal, compreende-se
que o Direito Internacional seja constituído tanto de regras gerais como de regras
especiais ou particulares.
Direito Internacional Geral: É o direito que se aplica à “comunidade internacional
universal", composto por normas de costume geral e por convenções de alcance
universal, ou seja, com elevado n.º de ratificações. Art.53º CViena
Exemplo: Normas de costume geral (algumas delas normas imperativas ou ius
cogens), tratados universais (com elevado nº de ratificações) (Carta das Nações Unidas,
Declaração Universal dos Direitos do Homem, etc.), entre outras.
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Direito Internacional Particular: integra-se no âmbito das sociedades
internacionais particulares, compostas por pelo menos dois Estados que, na defesa
de interesses comuns estabelecem entendimentos que ganham formas e que, por
vezes, se materializam em organizações internacionais, regidas por normas próprias
de costume regional e local, bem como pelos constantes na maioria dos Tratados
Internacionais.
4 – Funções do Direito Internacional
O Direito Internacional, sendo uma ordem normativa, constitui um factor de
organização social. Convém então pormenorizar esta função de organização social
desde as suas origens.
Após o movimento de Reforma dos Estados que ultrapassou os obstáculos que
colocavam, durante a idade média, o feudalismo, a influência retardadora da Igreja,
que culminou na guerra religiosa dos 30 anos e nos tratados de paz de Westfália em
1648, instaurou-se uma nova ordem política na Europa, onde emergiam as entidades
soberanas e independentes num mesmo plano – ao menos formal - de igualdade.
Deste modo, nasceram os Estados Modernos e a necessidade de regulamentação das
relações entre Estados, dando origem ao moderno Direito Internacional.
As raízes do moderno Direito Internacional revelam assim, desde o início da sua
existência, as duas principais funções que ele é chamado a desempenhar:
Coexistência e Cooperação.
Coexistência
Permitir a coexistência entre Estados heterogéneos e juridicamente iguais, num clima
de paz.
Cooperação
Satisfazer necessidades e interesses comuns que começaram a surgir entre os
membros da comunidade internacional
5 – Sociedade e Comunidade Internacional
São profundos os desequilíbrios e os factores de divisão entre os Estados no mundo
actual. As diferenças étnicas, culturais e civilizacionais; os conflitos ideológicos e
políticos, o enorme fosso que separa os países ricos dos países pobres, tudo milita
em favor de uma conclusão que se afigura inexorável: são inúmeros os desequilíbrios
e os elementos de tensão na sociedade internacional, de tal sorte que parece não
haver aí lugar para a coesão, a afectividade e a solidariedade que os laços
comunitários necessariamente pressupõem.
Em qualquer agrupamento encontram-se entre os seus membros interesses comuns
e interesses divergentes, ou seja, factores de agregação ou aproximação e factores
de conflito ou afastamento. Sendo que a:
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Sociedade: é o resultado da vontade dos sujeitos de se juntarem e colaborarem
entre si para seguir um objectivo comum, mas que se mantêm separados apesar de
tudo o que fazem para se unir.
Comunidade: é um produto espontâneo da vida social que se estrutura
naturalmente e que mantém os sujeitos unidos, apesar de tudo o que os separa.
Assim, de acordo com as teorias acerca dos termos «sociedade» e «comunidade»,
pode-se dizer que na comunidade os factores de agregação prevalecem sobre os
factores de conflito ou afastamento, enquanto na sociedade sucede exactamente o
contrário.
CAPÍTULO I – EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO DIREITO
INTERNACIONAL
Introdução
O estudo da evolução histórica dos vários ramos do direito é imprescindível para que
melhor se possam compreender actualmente. O Direito Internacional não foge à
regra e, fruto das características da sociedade internacional, ele é um direito
essencialmente evolutivo, pelo que faça sentido uma breve análise, deixando de
parte a época pré-estadual, apesar de lá se encontrarem os primeiros rudimentos do
Direito Internacional.
1 – Modelo Clássico ou de Westfália
Compreendido no período entre 1648, data do Tratado de Paz de Westfália que pôs
fim à guerra religiosa dos 30 anos e abriu caminho ao surgimento do Estado
Moderno, e 1945, data do fim da 2ª Grande Guerra Mundial.
Este modelo valoriza as características principais que o Direito Internacional assumiu
à época do tratado de paz, que eram a coexistência e a cooperação (atrás
analisadas), mas que não dispunha de órgãos controladores do comportamento dos
sujeitos.
Sujeitos do Direito, estes resumiam-se na época aos Estados Soberanos e,
eventualmente, aos insurrectos que fossem reconhecidos internacionalmente.
O Direito Internacional Clássico é encarado como um direito “laisser faire, laisser
passer”, impunha ténues ou nenhumas barreiras ao princípio da autonomia da
vontade dos Estados, não existindo órgãos superiores a esses Estados que
estivessem habilitados a limitar tal liberdade, pelo que tinha eficácia limitada e só
como propósito assegurar a repartição do poder entre os membros da sociedade
internacional, sem curar de conformar a realidade a que se dirigiam, nomeadamente
mediante a correcção das disparidades e desequilíbrios de facto que existem.
Fontes do Direito
As fontes do Direito Internacional Clássico resumem-se ao costume e aos tratados
bilaterais.
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Costume: formação espontânea de normas, numa sociedade descentralizada e
desprovida de órgãos legislativos próprios. Resulta da união de dois elementos:
material ou objectivo – adopção reiterada e uniforme de certos comportamentos, e
subjectivo ou psicológico – consciência de obrigatoriedade jurídica que se forma
entre os sujeitos.
Tratados Bilaterais: são acordos de vontade entre dois ou mais sujeitos de Direito
Internacional, que contendo já o princípio da reciprocidade, serviram de base aos
Tratados Internacionais.
Algumas funções típicas
A sociedade internacional desta época era pouco institucionalizada
(essencialmente relacional), pelo que, constituía um traço distintivo do modelo
clássico, o exercício descentralizado das funções legislativa, executiva e judicial,
tanto quanto delas, na ordem internacional, se possa falar, em termos que evoquem
os sistemas jurídicos internos. Cabia a cada Estado, em função do seu poder e
influência, levar a cabo as ditas tarefas.
Sistema normativo, no que respeita à produção normativa, o voluntarismo é
outra imagem de marca do Direito Internacional clássico, que significa que as
obrigações internacionais derivam da vontade dos Estados.
A cominação de sanções é efectuada em regime de auto-tutela, pois na falta de
órgãos jurisdicionais internacionais dotados de competência obrigatória por força da
lei, toda a vez que um Estado reputa ilícita a conduta de outro Estado ou Estados e
se julga ofendido nos seus direitos, cabe-lhe, a ele próprio, definir os prejuízos e
decretar as sanções.
A efectivação destas sanções leva a actuações individuais e descentralizada dos
Estados, com os inerentes riscos de abusos e arbitrariedade
Normas do Direito Internacional Clássico
O Direito Internacional Clássico tinha poucas ou limitadas normas, das quais
destacamos as relativas a:
- Corolários (consequência directa) da soberania estadual (territorial);
- Liberdades em mar alto;
- Privilégios e imunidades dos diplomáticos e consulares;
- Tratamento de estrangeiros;
- Conclusões e validades dos tratados;
- Conflitos ou litígio internacionais
- Adopção de represálias
Recurso à força
A precariedade dos limites jurídicos, no que concerne ao recurso à força nas relações
internacionais, é outra característica do Direito Internacional Clássico.
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Os Estados tinham plena liberdade de fazer a guerra, de acordo com os fins que ela
visasse alcançar. Recorrer à força, enquanto instrumento de política exterior, era
uma prerrogativa normal, ínsita no conceito de soberania.
Responsabilidade Internacional
A responsabilidade internacional por factos ilícitos era considerada um assunto
privado entre os Estados directamente envolvidos. A prática de um acto ilícito fazia
surgir uma relação jurídica nova, de carácter bilateral, entre o Estado vítima e o
Estado autor do procedimento ilícito, levando o primeiro ao direito de exigir a
reparação dos danos e ao dever do segundo de assegurar essa reparação, que terá
um carácter meramente reparatório dos danos sobrevindos à prática de um facto
internacionalmente ilícito.
Nesse assunto privado, todos os outros sujeitos de Direito Internacional não se
deveriam imiscuir.
Por outro lado, a responsabilidade internacional clássica é uma responsabilidade
colectiva, pois as infracções às normas de Direito Internacional apenas
responsabilizam os Estados e nunca os indivíduos.
Conclusão
O Direito Internacional Clássico analisava-se num conjunto de regras que serviam
para assegurar a coexistência e a cooperação entre Estados, ou seja, de mera
coordenação de entidades soberanas, colocadas num plano paritário, e a
responsabilidade do Estado era de carácter meramente reparatório.
Assim, era um Direito axiologicamente (dos valores) neutro, que não visava alterar
os dados da realidade a que se dirigia mas antes se afirmava como um ratificador
acrítico do circunstancialismo existente em cada momento na sociedade
internacional, em que a normatividade era hierarquicamente horizontal, uma vez que
todas tinham o mesmo valor.
II – Modelo Moderno ou da Carta das Nações Unidas
Características Gerais
O fim da 2ª Grande Guerra Mundial teve como consequência o desenvolvimento de
um sistema jurídico internacional, de características diferentes, a vários títulos, do
modelo clássico, passando a assumir determinadas características do Direito Interno
e tornando-se num “modelo de subordinação”.
Sujeitos
Estados e Insurrectos
O Direito Internacional após a 2º grande guerra sofre uma mutação significativa em
resultado do aumento do número de estados, consequência das sucessivas
descolonizações, principalmente países das ex-colónias europeias que se auto
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determinaram, e universalizou-se deixando de regular somente Estados e
insurrectos, nas suas relações recíprocas, para passar a aplicar-se aos novos
membros da comunidade internacional,
Para além destes, passaram a ser sujeitos de Direito Internacional:
Organizações internacionais
Associações voluntárias de Estados, criadas através de tratado, apresentando-se
como centros autónomos de imputação de direitos e deveres, com grandes poderes
de decisão, dotadas de órgãos próprios, que actuam juridicamente em nome da
organização e têm carácter de permanência, e com personalidade jurídica
internacional. Relativamente à sua estrutura orgânica, esta é normalmente tripartida,
sendo constituída por: órgãos plenários – onde participam todos os membros da
organização (ex. Assembleia Geral da ONU); órgãos de composição restrita – que
permitem a participação apenas de alguns membros (ex. Conselho de Segurança da
ONU); órgãos vocacionados para o desempenho de tarefas de carácter técnico-
administrativo (ex. Secretariado da ONU)
Povos não autónomos (Povos com direito à autodeterminação)
São constituídos por povos submetidos a regimes coloniais, racistas ou sob ocupação
estrangeira que dispunham de uma estrutura representativa no plano internacional,
aos quais foi concedida uma legitimação jurídica e política, que se firmou no direito à
sua autodeterminação.
Indivíduo
Pessoas físicas ou singulares, pessoas colectivas, minorias (grupo de indivíduos)
Fontes do Direito
Costumes e Tratados bilaterais
Mantêm-se as fontes do modelo clássico.
Costumes selvagens
Fonte em que se verifica a inversão no processo formativo (regra da precedência do
elemento material ao moral) com vista a acelerar a produção de normas; surge,
numa primeira fase, um sentimento de obrigatoriedade jurídica categoricamente
afirmado e só depois se irão sedimentando de comportamentos consentâneos com
essa opinio iuris previamente firmada.
Tratados multilaterais
As convenções internacionais deixam de ser apenas bilaterais, tornando-se cada vez
mais frequentes o recurso aos tratados multilaterais (celebrados entre mais do que
duas partes).
Muitos deles são tratados abertos, permitindo que a um Estado não contratante
tornar-se parte dele, mediante simples acto unilateral (adesão,…), sem que as partes
originárias lhe possam impor condições especiais. Os tratados multilaterais gerais,
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são amplamente participados, têm vocação universal, constituindo uma espécie de
acordos colectivos ou tratados lei.
Resoluções das organizações internacionais
Actos jurídicos unilaterais que provêm das organizações internacionais.
Recurso à força nas relações internacionais
O modelo moderno do Direito Internacional prevê o princípio da proibição do recurso
à força nas relações internacionais, exposto no art.º 2º, n.º 4 da Carta das Nações
Unidas, pretendendo com isto, tornar os Estados comparticipantes num sistema de
segurança colectiva, em que o recurso à força só poderá ser decretado pelo Conselho
de Segurança da ONU.
As preocupações ambientais
As preocupações ambientais, isto é, de tutela e preservação dos sistemas naturais e
de equilíbrio dos ecossistemas, passaram a ser uma questão central do Direito
Internacional mais moderna, e que levou à formação do Direito Internacional do
Ambiente. Actualmente, este é um dos mais importantes ramos do direito
internacional.
Hierarquização das normas internacionais
Surge um conjunto de princípios jurídicos fundamentais e universais, que se
tornaram hierarquicamente superiores aos restantes princípios (valor da paz, da
protecção da dignidade fundamental da pessoa humana, direitos e liberdades
fundamentais de todos os homens).
A esta hierarquização de valores correspondeu uma correlativa hierarquização de
normas.
Mutações ocorridas no instituto da responsabilidade internacional
A violação de normas internacionais que tutelam interesses fundamentais da
comunidade internacional deixa de ser um mero assunto privado entre estado
infractor e vítima. A responsabilidade internacional universaliza-se convertendo-se
em assunto público, passando a dizer respeito a todos os Estados, cessando de se
esgotar numa finalidade somente reparatória, para comportar uma dimensão
sancionatória.
A responsabilidade por factos ilícitos foi individualizada, no sentido de que, em certos
casos, passa a ser responsabilizado o próprio indivíduo infractor, deixando o princípio
da responsabilização de constituir um elemento distintivo daquele instituto do Direito
Internacional.
Conclusão:
Resolução de ilícitos: de assunto privado passou a assunto público
Finalidade: Reparatória + sancionatória
Individualizações da responsabilidade: responsabilizado o próprio indivíduo infractor
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CAPÍTULO II – AS RELAÇÕES ENTRE O DIREITO
INTERNACIONAL E O INTERNO
Técnicas de incorporação/recepção
As formas de incorporação das normas internacionais na ordem interna dos Estados
são essencialmente três:
Cláusula da recepção ou incorporação automática: O Estado aceita
automaticamente, sem restrições, a vigência do Direito Internacional na ordem
interna, que vigoram internamente na qualidade de normas de Direito Internacional e
não enquanto normas internas, podendo-se, no entanto, exigir a sua publicação em
Diário da República.
Técnica da transformação: O Estado opõe-se à vigência do Direito Internacional na
ordem jurídica interna, pelo que a Constituição exige ao legislador ordinário que
reproduza a norma internacional através de um acto normativo da sua competência.
As normas internacionais perdem assim essa qualidade e passam a vigorar, na
ordem interna, como normas internas. (não existe em Portugal)
Técnica da recepção Semi-plena: é um sistema misto – conjuga a técnica da
recepção automática com a técnica da transformação –, que assenta numa distinção
entre as normas surgidas internacionalmente, em função do seu conteúdo. Assim, as
normas internacionais respeitantes a determinadas matérias vigoram
automaticamente no plano interno e as outras só mediante acto de transformação.
O problema do direito português (Art.º 8º da CRP)
O Art.º 8º da CRP regula o modo de recepção do Direito Internacional na ordem
jurídica Portuguesa, pelo que é importante analisá-lo.
Direito Internacional Geral – art.º 8, n.º 1
A CRP consagra neste artigo que a recepção das normas e princípio do direito
internacional geral (ver pág. 1) é feita de forma automática, fazendo parte do direito
português, ou seja, aplicando-se directamente no ordenamento português.
É uma excepção ao princípio da independência nacional, cuja inexistência resultaria
numa inaceitável autolimitação da soberania.
Um problema, defendido por vários autores, diz respeito ao facto de não estarem
contemplados, nestes artigos, os costumes regionais e locais, sendo, no entanto,
absurdo concluir que esse direito não vigora em Portugal, pelo que deverá ser feita
uma interpretação extensiva do art.º 8º, n.º 1, para os costumes bilaterais ou
regionais, em cuja formação Portugal participou, considerando esses costumes como
gerais face aos Estados por eles obrigados.
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Direito Internacional Particular – art.º 8, n.º 2
Para as normas de convenções internacionais, a CRP enveredou pelo sistema de
recepção automática mas condicionada, uma vez que tem como condição de
eficácia, que tenham sido “regularmente ratificadas ou aprovadas” e publicadas
oficialmente no Diário da República.
Acresce na parte final que, as convenções internacionais vigorarão na ordem interna
enquanto vincularem internacionalmente o Estado português; ou seja, desde que
entram em vigor até quando deixam de produzir efeitos jurídicos na ordem
internacional. A aprovação, ratificação e publicação podem ser necessárias mas não
suficientes para a vigência interna de uma convenção internacional.
Direito (derivado) das Organizações Internacionais – art.º 8, n.º 3
Este artigo foi adicionado à Constituição em 1982, com a finalidade de adequar a
nossa ordem jurídica à previsível adesão de Portugal às, então Comunidades
Europeias.
Para os actos normativos, emanados das organizações internacionais de que Portugal
faz parte, nenhuma formalidade é exigida para que possam adquirir relevância na
ordem jurídica portuguesa, pelo que estamos perante o sistema de incorporação
automática, gozando de um regime de aplicabilidade directa.
No entanto, impõe duas condições para eficácia a nível interno:
- Que as suas normas emanem dos órgãos competentes dessas organizações
- Que se encontre estabelecido nos respectivos tratados constitutivos o regime de
aplicabilidade directa
União Europeia – art.º 8, n.º 4
Aditado ao art.º 8 em 2004
Hierarquia das normas internacionais e internas
É importante analisar o valor das normas internacionais recebidas, face às diversas
fontes do direito português, e eventuais problemas relativos a eventuais
contradições de conteúdo entre normas oriundas dos dois ordenamentos.
A CRP não dá relevância a este problema, não os resolvendo expressamente em
nenhuma das suas disposições, principalmente no art.º 8, pelo que há a necessidade
de recorrer a subsídios da doutrina para solucionar os principais problemas atinentes
ao valor hierárquico das normas internacionais
Direito internacional Geral
O Direito internacional geral tem um valor supralegal, sobre as leis ordinárias e
também sobre a própria CRP, apesar de tal ser quase irrelevante, pois é pouco
admissível que um estado promulgue leis ou consagre normas na sua Constituição
que contrariem os princípios de Direito Internacional geral, que essencialmente
estabelece as regras básicas de convivência interestadual, princípios que tutelam
valores de especial relevo comuns a todos.
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Direito Internacional Particular (Convencional)
As convenções internacionais têm também valor supralegal sobre o direito ordinário
interno. A CRP refere que vigoram na ordem interna enquanto vincularem
internacionalmente Portugal, pelo que nenhuma lei interna poderá contrariar a
convenção internacional.
No entanto, face à CRP, o valor hierárquico das convenções é infraconstitucional,
como prova o art.º 278º, n.º 1, que fala da possibilidade de sujeição de tratados
internacionais a uma fiscalização preventiva.
Direito (derivado) das Organizações Internacionais
A CRP afirma que as normas oriundas das organizações internacionais a que
pertence vigoram directamente na ordem interna, o que aponta para a primazia do
direito comunitário sobre o direito interno (valor supralega)l. Este substituirá
automaticamente as normas internas existentes que, porventura, estejam
desconformes com as suas disposições e prevalecerá sobre as que sejam criadas
posteriormente.
Ao aderir àquelas organizações internacionais, todo o Estado membro esta a delegar
poderes soberanos em favor da instituição, o que abrange também uma
transferência do exercício de poderes normativos em certos domínios.
CAPÍTULO III – FONTES DO DIREITO INTERNACIONAL
1-Fontes do Direito Internacional – Art.º 38º do ETIJ
- Convenções internacionais
- Costume internacional
- Princípios Gerais de Direito reconhecidos pelas nações civilizadas
- Decisões e ensinamentos dos mais qualificados publicistas das várias nações.
2-Convenções Internacionais
Noção: Manifestação de vontades concordantes, entre dois ou mais sujeitos de
Direito Internacional, destinada a vincular juridicamente a conduta desses sujeitos, e
regulada concorrentemente pelo direito interno e pelo direito internacional.
Manifestação de vontades concordantes : a celebração de um acordo
pressupõe um encontro de vontades, que não necessariamente em
simultâneo, proporciona o surgimento de normas jurídicas que irão
disciplinar a conduta dos sujeitos intervenientes nesse acordo.
Entre (dois ou mais) sujeitos de direito internacional : os acordos podem
ser concluídos entre Estados, podem ser entre Organizações
internacionais e Estados, ou apenas entre Organizações internacionais.
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Destinada a vincular juridicamente a conduta desses sujeitos : uma
convenção internacional é assimilável a um negócio jurídico, do qual
resultam certas normas obrigatórias para as partes contratantes.
Classificação das Convenções Internacionais
Na análise à classificação das Convenções Internacionais, existem dois métodos de
classificação de tratados: classificações formais, que atenderá a determinadas
variáveis exteriores das convenções, e classificações materiais, que terá em conta
os aspectos intrínsecos de conteúdo ou função jurídica.
Classificações formais
Critério da qualidade das partes
Segundo este critério, podemos descriminar 3 tipos de convenções internacionais:
- Celebradas entre Estados
- Celebradas entre Estados e organizações internacionais
- Celebradas entre organizações internacionais
Critério do n.º das partes
Esta divisão tem a ver com o número de partes que participaram na respectiva
celebração:
- Tratados Bilaterais: Duas partes
- Tratados Multilaterais: Mais de duas partes. Subdividem-se em abertos/gerais
(tendem para a universalidade, não estando limitado o número de partes) ou
fechados/restritos (número de partes limitado)
Critério do procedimento de conclusão
Dividem-se em dois:
- Tratados Solenes: carecem de ratificação
- Acordos em forma simplificada: não carecem de ratificação, têm um
procedimento de conclusão mais simples e célere
Critério da Forma
Distingue entre tratados escritos e tratados orais, conforme se materializem num
documento escrito ou resultem de um comportamento verbal.
Classificações materiais
Critério do Objecto e do fim - duas distinções entre:
- Tratado-lei (solenes) e tratado-contrato (acordos em forma simplificada)
- Tratados normativos (fixam condutas) e tratados constitutivos (estabelecem
estruturas)
Procedimento de conclusão das convenções internacionais
Negociação (1º Momento)
Fase em que é discutido, redigido e adoptado o texto da futura convenção.
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Em Portugal, a competência para negociar as convenções internacionais foi atribuída
ao Governo (Art.º 197º, n.º 1, al. b) da C.R.P.), com a participação dos governos
regionais sempre que a matéria seja do interesse específico para as Regiões
Autónomas (art.º 227, n.º 1, al. t) da C.R.P.
Elementos formais
Finda a negociação, os tratados são constituídos por vários elementos formais:
Preâmbulo: Não tem força obrigatória mas é um valioso elemento de
interpretação do tratado. Nele é indicado: as partes contratantes; o local da
conclusão; os motivos subjacentes à negociação.
Corpo ou dispositivo: Contém o conjunto de elementos juridicamente
obrigatórios e é composto pelo articulado e pelas cláusulas finais.
Anexos: Consistem em disposições técnicas, que possuem a força jurídica
obrigatória do dispositivo mas são autonomizados deste, a fim de se evitar um
aspecto demasiado pesado ou maçudo da convenção.
Autenticação (2º Momento)
O 2º momento da conclusão das convenções internacionais é o da sua autenticação
ou assinatura pelos plenipotenciários.
Efeitos da autenticação
Os efeitos diferem conforme estamos perante tratados solenes ou acordos em forma
simplificada. (Efeitos da autenticação: Art.º 10º, 12º, 18º da CV)
Tratados solenes: A mera assinatura/autenticação, não vincula o Estado ao
tratado às suas disposições. Tal só ocorrerá com a ratificação. No entanto, produz os
seguintes efeitos:
- Inalterabilidade do texto (depois de autenticada não se pode alterar mais o
texto)
- Criação de um dever de boa fé (dever de abstenção de actos que atentem
contra o objectivo ou fim da Convenção Internacional)
- Criação de um direito de defesa da integridade da convenção
Acordos em forma simplificada: Mediante a assinatura fica o Estado, desde
então, internacionalmente vinculado ao acordo, não necessitando de ratificação.
Para além deste, produz também os três efeitos que produz para os tratados
solenes (Inalterabilidade do texto, criação de um dever de boa fé, criação de um
direito de defesa da integridade da convenção)
Aprovação (3º Momento)
Todas as convenções têm que ser aprovadas pelo Governo. Após a revisão
constitucional (1997): governo passou a aprovar apenas acordos de forma
simplificada e a AR aprova acordos solenes e alguns acordos de forma simplificada.
Ratificação
A ratificação é o acto solene pelo qual o órgão competente, à face do direito
constitucional (P.R.), vincula o estado ao tratado, tornando-o assim definitivo e
comprometendo-se a executá-lo. A ratificação é um acto livre e discricionário,
existindo o direito de recusar a ratificação.
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Em Portugal, é através da ratificação, a cargo do Presidente da República, que se
vincula o Estado português aos actos solenes. A separação de poderes no nosso
ordenamento jurídico, reflecte-se também na conclusão das convenções
internacionais no que ao governo compete: «condução da política geral do país»
(182º da CRP) «negociar e ajustar» os tratados (197º, n.º 1, al. b) da CRP) e ao
Presidente da República cabe a representação do Estado nas relações externas (120º
da CRP) e correlativamente proceder à sua ratificação (Art.º 135º, al. b) da CRP).
Ratificações imperfeitas
Ratificações imperfeitas são as ratificações do Presidente da República a um tratado,
sem que tenham sido cumpridas, ou o tenham sido defeituosamente, determinadas
formalidades constitucionalmente previstas.
Exemplos:
1) Ratificações pelo P.R. sem prévia aprovação do tratado pela A.R: (permite a
nulidade)
2) Excesso de forma: aprovação por lei, em vez da simples resolução da A.R.
como prevê a lei, com consequente ratificação pelo P.R. (não permite nulidade)
3) Ratificação pelo P.R. com anterior desrespeito dos procedimentos de
designação de Plenipotenciários (não permite nulidade)
4) Ratificação pelo P.R. de uma convenção de matéria de interesse das regiões
autónomas, sem a participação destes. (permite a nulidade)
Consequências jurídicas de uma Ratificação Imperfeita
O Estado não pode invocar uma ratificação imperfeita (violação de um preceito do
seu direito interno respeitante à competência para a conclusão de tratados), como
meio de se eximir ao cumprimento dos seus compromissos internacionais, excepto
em situações excepcionais e desde que, tenha sido manifesta a violação da norma
de direito interno relativa à conclusão dos tratados e aquela norma seja considerada
de importância fundamental. Só assim, a ratificação imperfeita será um vício
relevante, dando origem à invalidade (nulidade relativa) da convenção. (Art.º 46º da
C.V. e 277º,nº2, CRP)
Entrada em vigor e publicação (4º e 5º Momento)
O procedimento de formação das convenções internacionais termina com a entrada
em vigor (art.º 24º e 25º da CV), o seu registo (Art.º 102º da CNU e art.º 80º da CV) e
publicação.
Formalidades a que estão sujeitas as convenções internacionais
Acordos em forma simplificada, aprovados pelo Governo
1º Negociados e aprovados pelo Governo (197º, 1 e 2 CRP)
2º Aprovados em Conselho de Ministros (200º, 1, d) CRP)
3º Assinatura pelo P.M. e Ministro competente (201, 3 CRP)
4º Assinatura do P.R. (134, b CRP)
5º Referenda do Governo (140, 1 CRP)
6º Publicações em D.R. (119º, 1)
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Acordos em forma simplificada, aprovados pela A.R.
1º Negociados e aprovados pelo Governo (197º, 1 e 2 CRP)
2º Aprovação em Conselho de Ministros da proposta de resolução (200º, 1, c) CRP)
3º Assinatura da Resolução pela A.R., assinada pelo Presidente da A.R. (161º, 1 e 166º, 5 CRP)
4º Assinatura do P.R. (134º, b CRP)
5º Publicações em D.R. (119º, 1)
Tratados Solenes
1º Negociados e aprovados pelo Governo (197º, 1 e 2 CRP)
2º Aprovação em Conselho de Ministros da proposta de resolução (200º, 1, c) CRP)
3º Assinatura da Resolução pela A.R., assinada pelo Presidente da A.R. (161º, 1 e 166º, 5 CRP)
4º Assinatura do P.R. pelo modo de ratificações (135º, b CRP)
5º Referenda do Governo (140, 1 CRP)
6º Publicações em D.R. (119º, 1)
Mecanismos tendentes a facilitar a participação dos Estados nos tratados
Adesão (Art.º 15º CV)
Permite-se a um Estado não signatário de uma convenção internacional, que se
encontra já em vigor, tornar-se parte nela. Exprime o consentimento de um Estado a
ficar vinculado por um tratado.
Reservas (Art.º 2º,n.º 1 ,al. d) do CV)
Reserva designa uma declaração unilateral, qualquer que seja o seu conteúdo ou a
sua denominação, feita por um Estado quando este concorda globalmente com o
objecto e o conteúdo essencial de um tratado, no qual está prestes a tornar-se parte,
discordando, embora, de certa ou certas disposições desse tratado. Deste modo, o
Estado ou recusa simplesmente vincular-se à convenção, ou pelo contrário, aceita
fazer parte do tratado, declarando, todavia, ou que exclui essas cláusulas, que não
lhe convêm, ou que pretende modificá-las, atribuindo-lhes um significado diverso,
aceitável para si próprio, desde que essa reserva não contrarie o objecto e o fim da
convenção.
Aplicação das convenções internacionais a Estados terceiros
Regra geral, os tratados não impõem obrigações nem atribuem direitos a Estados
terceiros.
No entanto, poderá produzir efeitos de acordo com o previsto na Convenção de Viena
do art.º 34º ao art.º 38º.
Princípio da relatividade dos efeitos dos tratados (Art.º 34º da CV)
Conforme o disposto no Art.º 34 da CV, um tratado não cria nem obrigações nem
direitos para um Estado sem o consentimento deste último. Nisto consiste o princípio
da relatividade dos efeitos dos tratados ou eficácia relativa.
Acordo colateral (Art.º 35º da CV)
O Art.º 35º da CV admite a possibilidade de um tratado criar obrigações para um
Estado terceiro, se este o consentir, através de um acordo colateral.
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Num primeiro acordo, as partes A e B pretendem criar uma obrigação ao Estado C. O
consentimento terá que ser formalizado com um segundo acordo, designado
colateral, em que serão intervenientes as 3 partes, uma vez que o Estado C tem que
intervir expressando a sua opinião por escrito, ou seja, se aceita ou não a obrigação
imposta.
É o acordo colateral que constitui o fundamento jurídico da obrigação que passa a
vincular o Estado terceiro.
Estipulação em favor de outrem (Art.º 36º da CV)
Outra técnica contratual, prevista no art.º 36º e 37 da CV, que se traduz no facto de
Estados partes numa convenção internacional, criarem um direito cujo beneficiário é
um terceiro. Este tipo de tratados também não dispensa o consentimento dos
terceiros, sendo tal consentimento presumido. Se houver um direito ou vantagem
para esse Estado terceiro então presume-se o seu consentimento e por isso
dispensa-se a forma expressa ou escrita. No caso de o terceiro Estado querer
renunciar esse benefício (não há consentimento) então terá de existir uma forma
expressa ou escrita.
A diferença entre este e o acordo colateral é que neste último, está em causa a imposição de
uma obrigação para um Estado terceiro, ao passo que na estipulação em favor de outrem se
trata antes da atribuição de um direito. Assim, apesar de não se poder presumir o
consentimento de quem vai ficar sujeito a um encargo, pode-se presumir a concordância de
quem vai receber uma vantagem.
É ainda de acrescentar que na estipulação a favor de outrem estamos na presença, uma vez
mais, da concretização do princípio da relatividade dos efeitos dos tratados, uma vez que não
se pode prescindir do consentimento do Estado terceiro.
Cláusula da Nação mais favorecida
A cláusula da nação mais favorecida é um expediente técnico destinado à criação de
direitos em benefícios de um terceiro.
Se num tratado inicial entre A e B, sobre determinada matéria, constar esta cláusula,
se a parte A celebrar um novo tratado com C, sobre a mesma matéria, as disposições
mais favoráveis aplicar-se-ão automaticamente a B e, portanto, irá beneficiar o
Estado parte nesse tratado inicial que não participou no segundo.
Deste modo há Estados que vão beneficiar de tratados em que não participaram.
Este mecanismo é muito utilizado em tratados de carácter económico (taxas
aduaneiras).
Aplicação das convenções a Estados terceiros sem o seu consentimento (Art.º 38º da CV)
O Art.º 38º da CV prevê a extensão das regras de um tratado a terceiros por via
costumeira, ou seja, admite-se que uma regra contida numa convenção internacional
se possa tornar norma costumeira e tornar-se obrigatória para Estados não partes.
Criação e situações «objectivas» ou «estatutárias»: Existem Convenções
Internacionais que servem para instituir/aplicar estatutos políticos ou territoriais.
Tratados que em virtude do seu conteúdo se impõem a Estados terceiros
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independentemente do seu consentimento. Ex: Tratado de desmilitarização da
Antártida.
Disposições convencionais destinadas à criação de novos sujeitos de direito: a criação
de novos sujeitos de direito é oponível a terceiros. Podem eles ser Organizações
Internacionais, novos Estados. De facto, o surgimento destas entidades reconduz-se à
criação de uma situação objectiva, que a todos se imporá.
Tratados de Codificação do Direito internacional – tratados normativos: Existem
vantagens em codificar certas normas, uma vez que aquando codificadas passam a
produzir efeitos ultra partes. A estes tratados chamam-se – convenções de
codificação.
Condições de validade das Convenções Internacionais
Dado que estamos perante actos jurídicos bilaterais ou multilaterais, são três os
requisitos de validade das Convenções Internacionais:
Capacidade das partes
Apenas os sujeitos de Direito Internacional têm capacidade para celebrar tratados,
designadamente os Estados, as organizações internacionais e os movimentos de
libertação nacional (de forma restrita).
Os Estados por regra têm plena capacidade jurídica, contudo há duas situações
que podem anular essa capacidade:
o Acordos de protectorado: em que um Estado passa a representar outro Estado nas
relações internas. O Estado protegido perde parte da capacidade de exercício, logo
não tem capacidade jurídica para concluir tratados – Acordo que caiu em desuso.
o Conclusões de um tratado de um Estado membro de um Estado Federado:
incapacidade do Estado para concluir tratados.
Organizações Internacionais:
o Capacidade derivada: porque foram os Estados que lhes concederam essa
capacidade
o Capacidade limitada ou parcial: pelo princípio da especialidade as Organizações
internacionais só têm as competências que estão previstas no seu tratado
constitutivo e que são necessárias para a prossecução dos seus objectivos. Se as
entidades intervenientes não tiverem capacidade para o efeito, têm
consequências:
Se a convenção foi concluída por um Estado desprovido de capacidade de
exercício, a consequência é a nulidade;
Se a Convenção foi concluída por uma entidade que não é, sequer, sujeito
de Direito internacional, ou seja, não tem capacidade de exercício, a
consequência é mais grave – inexistência da convenção
Regularidade do consentimento
Para a Convenção Internacional ser válida é necessário que o consentimento seja
manifestado de forma regular. Essa vontade tem que se manifestar, tanto do ponto
de vista formal como do ponto de vista substancial.
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Irregularidades formais
Estas irregularidades dizem respeito a regras formais, referindo-se à competência e
ao procedimento para a conclusão das convenções internacionais, como as
ratificações imperfeitas já analisadas (ver Art.º 46º da C.V.) e não constituem motivo
de nulidade, excepto se a violação haja sido manifesta e diga respeito a uma norma
interna de importância fundamental, podendo neste caso ser arguida a nulidade
relativa à convenção.
Irregularidades Substanciais
Do ponto de vista substancial não pode, de igual modo haver vícios: concretamente,
vicíos da vontade ou do consentimento dos negócios jurídicos. Esses vícios podem
ser: o erro, o dolo, a corrupção e a coação. Na Ordem jurídica interna esses vícios
conduzem à anulabilidade dos negócios jurídicos.
Vícios que provocam a Nulidade Relativa da Convenção:
- Erro (Art. 48º C.V.): Apenas vicia o consentimento do Estado
- Dolo (Art. 49º CV): é também considerado um erro, simplesmente é um erro
induzido ou provocado por um comportamento da contraparte – de uma conduta
fraudulenta, isto é, do recurso, por parte de um Estado participante na negociação do
tratado, a determinadas artimanhas, sugestões ou artifícios com a intenção de
induzir ou, quando menos, de manter em erro a contraparte.
- Corrupção exercida sobre o representante de um Estado (Art.º 50º CV): A troco de
uma oferta de algum proveito de carácter pessoal, um representante coloca de parte
os interesses do seu Estado, aceitando que o outro Estado faça valer os seus próprios
interesses.
Vícios que provocam a Nulidade Absoluta da Convenção:
- Coacção (Art. 51º, 52º CV):
Coação sobre o representante do Estado (Art.51º CV): o representante do
Estado é encarado como indivíduo, e não enquanto órgão estadual. Visa-se,
portanto, dissociar o Estado, em si mesmo considerado, dos seus
representantes. Em causa poderão estar actos de violência física, ou ameaça da
prática de tais actos, contra a pessoa do representante ou contra a sua família;
revelações de carácter privado, susceptíveis de comprometer a carreira desse
delegado governamental.
Coação sobre o próprio Estado (Art.52º CV): Aqui as ameaças ou o emprego da
força dirigem-se contra o próprio Estado, colocando-se a questão de saber se
apenas a força armada deve considerar-se abrangida pelo conceito, ou se
deverão, ademais, nele incluir-se, medidas de coerção económica e política. A
Convenção de Viena não esclarece este facto, contudo parece poder incluir-se
neste conceito as medidas de coerção económica, num certo limiar,
nomeadamente quando estão em causa Estados economicamente dispares no
seu desenvolvimento.
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Licitude do objecto: (Art.º 53º e 64º CV)
Para que uma convenção internacional seja válida é ainda necessário que não atente
contra a ordem pública internacional, isto é, não contrarie o conjunto de princípios
fundamentais que estão na base do sistema jurídico internacional, portanto é
necessário que o objecto seja lícito. Pois a sua ilicitude origina a NULIDADE
ABSOLUTA.
Regime de nulidades dos tratados
A Convenção de Viena prevê dois tipos de nulidade para sancionar as invalidades das
convenções internacionais: relativa e absoluta
Nulidade relativa
Provocam a nulidade relativa das convenções, as irregularidades formais do
consentimento, o erro, o dolo e a corrupção. Estão em causa vícios menos graves e
estão em jogo os interesses particulares dos Estados participantes.
Nulidade absoluta
As nulidades absolutas resultam da coacção e da incompatibilidade do tratado com
uma norma Ius cogens (ilicitude do objecto). Servem para sancionar vícios mais
graves, casos em que estão em jogo interesses gerais da Comunidade internacional.
Distinção entre nulidades relativas e absolutas
As nulidades distinguem-se a três níveis: quanto ao direito de invocar o vício, quanto
à divisibilidade extintiva (ou não) das disposições do tratado e quanto à possibilidade
de sanação (Art.º 42º e ss CV)
- O direito de invocar o vício pertence às partes contratantes, mas nas relativas só a
vítima pode invocar o vício e nas absolutas qualquer das partes na convenção pode
invocar a causa da nulidade.
- Relativamente à divisibilidade extintiva das disposições do tratado, regra geral,
qualquer causa de nulidade de um tratado, quando invocada, determina a nulidade
de todo o tratado.
No entanto, nas nulidades relativas admite-se a divisibilidade em determinadas
situações específicas (Art.º 44º da CV), de tal forma que a convenção continua a
valer na parte não afectada, anulando-se somente as cláusulas com vício.
Para as nulidades absolutas vigora o princípio da indivisibilidade (Art.º 44º n.º 5 CV),
pelo que em nenhuma circunstância se admite a divisão das disposições de uma
convenção internacional.
- Possibilidade de sanação (Art.45º CV): consiste em aceitar o tratado apesar do vício.
As nulidades relativas podem ser sanadas de modo expresso (tomado
conhecimento do facto, esse Estado aceitou expressamente que o tratado era válido)
ou tácito (em razão da sua conduta, deva formular-se idêntica conclusão.)
Quanto às nulidades absolutas não se admite a possibilidade de sanação.
Consequências da nulidade das convenções internacionais
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Trâmites da anulação dos tratados: 65º, 66º, 67º, 69º do CV
O Tratado é nulo desde o momento da sua conclusão e não a partir do momento em
que é descoberta a causa de nulidade (efeitos retroactivos).
No entanto, os actos praticados de boa fé (art.º 69º, n.º 2, al. b) da CV) não são
afectados pela nulidade do tratado, nem o surgimento posterior de uma nova norma
imperativa de direito internacional, geral, que torne o tratado existente nulo (art.º
64º da CV) irá afectar quaisquer direitos, obrigações ou situações jurídicas das
partes, criadas pela execução da convenção antes dela se extinguir (art.º 71º, n.º 2,
al. b) da CV).
3 – O Costume Internacional
Costume
(Art.º 38º, b) do ETIJ) – Fonte formal de direito, surge como prova de uma prática
geral aceite como sendo de direito, e é um modo espontâneo de surgimento de
normas jurídicas. O processo costumeiro pressupõe a conjugação de dois elementos
distintos: o elemento material ou objectivo e o elemento moral, psicológico ou
subjectivo. É uma prática constante e uniforme.
Elemento material ou objectivo
Consiste na adopção reiterada e uniforme de certos actos (condutas), que se
denominam precedentes, pelos membros de determinada comunidade.
Elemento moral, psicológico ou subjectivo
Traduz-se no sentimento e consciência, experimentado por parte dos membros da
comunidade social que levam a cabo os comportamentos, de que aquela prática
(conduta) é juridicamente obrigatória.
Estes dois elementos são presença obrigatória para haver costume.
Está presente no direito interno português, conforme art.º 8º, n.º 1 CRP, art.º 348º
CC e no âmbito do Direito Internacional privado no 14º e ss do CC.
O Processo costumeiro
Actos susceptíveis de constituírem precedentes no elemento material
Os comportamentos susceptíveis de constituírem precedentes podem ser muito
variados e de diferente natureza. Têm contudo que ser emanados por sujeitos do
direito internacional, pelos Estados ou organizações internacionais, das próprias
organizações não governamentais, ou até, em certos casos, por determinadas
pessoas privadas.
Os precedentes podem não só resultar da prática de actos jurídicos, internos ou
internacionais, como da adopção de comportamentos positivos ou negativos, como
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também de meras tomadas de posição acerca da oportunidade ou licitude da
conduta dos outros sujeitos do direito internacional.
Repetições dos precedentes no tempo
Sem se verificar a repetição da prática ao longo do tempo, de uma forma constante e
uniforme, não se poderia falar em uso ou costume.
Prática constante porque se repete o comportamento num certo período de tempo.
Prática uniforme, tem a ver com a necessária concordância e similitude dos actos
sucessivos dos sujeitos do direito Internacional.
Repetições dos precedentes no espaço
Terão de ser vários os sujeitos a adoptar uniformemente, ao longo do tempo,
determinado comportamento. Pressupõe-se uma certa dispersão, não
obrigatoriamente universal, admitindo-se costumes com um alcance geográfico mais
limitado, como nos admitidos nos costumes regionais, locais ou bilaterais.
No Elemento Moral ou Psicológico
Distinção entre uso e costume:
Costume não se constitui só de mera repetição de precedentes ao longo de certo
período temporal; é necessário o elemento psicológico ou subjectivo, ou seja, que os
sujeitos tenham a consciência da necessária obrigatoriedade jurídica do
comportamento (certa conduta). Esta consciência é denominada de “Opinio Iuris sive
necessitatis”; sem este elemento o costume não passaria de um mero “uso” ou
“norma de cortesia internacional”.
Os costumes “selvagens”
Consistem no facto de, na sociedade moderna, se admitir a inversão da ordem
cronológica dos elementos do costume. Em vez de ser primeiro uma prática
constante e uniforme e depois considerada uma necessária obrigatoriedade jurídica
consciente, admite-se a inversão dos elementos integradores do procedimento
gestativo das normas consuetudinárias.
Os Princípios Gerais de Direito
Fonte de carácter directo e autónomo de Direito Internacional
O art.º 38º, n.º 1, al. C) do ETIJ estipula uma terceira fonte do direito internacional:
«os princípios gerais do direito, reconhecidos pelas nações civilizadas», que se
podem desde já subentender como sendo princípios de direito interno, em vigor na
maior parte dos sistemas jurídicos internos.
Contudo, há uma controvérsia doutrinal acerca deste tema e da sua forma de
inclusão no direito internacional. A verdade é que existe uma prática já antiga e
constante de recurso aos princípios gerais de direito enquanto fonte directa e
autónoma de direito internacional , o que deu lugar a um costume , segundo o qual
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eles dispõem de força obrigatória na ordem jurídica internacional e não, como
defendem outros autores (voluntaristas), que os princípios gerais de direito só seriam
aceites no Direito Internacional por constarem numa convenção, não sendo desta
forma fonte directa e autónoma de Direito Internacional.
O Direito Privado, normalmente mais desenvolvido do que o Direito Internacional,
tem constituído sempre uma espécie de armazém de reserva de princípios, onde este
se vai fornecer.
Esta interpretação mais restritiva da noção de princípios gerais de direito tem por si,
como se viu atrás, o facto de só ela permitir conferir especificidade a esta fonte de
direito internacional, afastando-a do costume e da convenção, o que não sucederia
caso considerássemos também abrangidos pela expressão, os princípios oriundos do
direito internacional.
Conclui-se que, de forma explícita no ETIJ se reconheceu o carácter directo dos
Princípios Gerais de Direito, isto é, se lhe reconheceu força jurídica autónoma de
qualquer autorização convencional.
Função e Natureza jurídica
Por outro lado, destinando-se os princípios gerais de direito a suprir as lacunas do
direito convencional e costumeiro, não faria sentido se eles tivessem a mesma
natureza dos princípios do direito internacional. Daí entender-se serem princípios de
direito interno, em vigor na maior parte dos sistemas jurídicos nacionais.
Uma fonte primária e supletiva
O art.º 38º, n.º 1 al. C) do ETIJ é uma aceitação das limitações conaturais à função
jurisdicional internacional.
Nos Tribunais internos, na falta de lei, o juiz deve decidir, mesmo assim, através da
criação de normas “Ad Hoc” ou por analogia.
Nos Tribunais internacionais, a cujo funcionamento subjaz um princípio de
consensualidade, já não é assim. O respeito pela soberania estadual determinaria
que, na falta de autorização ou habilitação expressas, por parte dos Estados, no caso
de “silêncio da lei”, para proferir uma sentença, o juiz internacional não pudesse
decidir, tendo que pronunciar um “Non liquet” (não líquido), que se traduziria numa
denegação da justiça por falta de direito aplicável ao caso, não exercendo assim a
sua função.
Com o recurso aos princípios gerais do direito, poder-se-á ultrapassar este
presumível impasse, permitindo ao juiz estatuir, mesmo não havendo uma solução
convencional ou costumeira para o litígio, sem ter de sair da órbita do direito
positivo. Desta forma, podemos dizer que aqueles princípios apresentam a natureza
de fonte supletiva de Direito Internacional. Apesar dos princípios gerais do direito
servirem para colmatar lacunas do direito convencional ou costumeiro, não há
qualquer hierarquia entre as fontes de direito internacional.
Modo de operar com os princípios gerais de Direito
As condições necessárias para que, na ordem jurídica internacional, se possa fazer a
aplicação dos princípios gerais do direito (internos) são os requisitos de
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“Generalidade” e a “susceptibilidade dos princípios, em concreto convocados, serem
transpostos para o ordenamento jurídico internacional”.
Requisito de Generalidade
Só podem aplicar-se internacionalmente os princípios que sejam comuns à maior
parte dos sistemas jurídicos nacionais ou internos, note-se que a unanimidade não é
exigida.
Susceptibilidade de serem transpostos para o ordenamento jurídico internacional
O sistema jurídico internacional apresenta várias diferenças estruturais do direito
interno, pelo que os juízes internacionais só podem utilizar os princípios gerais do
direito que se revelem compatíveis ou conciliáveis com as características
fundamentais do ordenamento internacional. Deve dar-se preferência aos princípios
gerais do direito que sejam mais conciliáveis, em detrimento dos mais generalizados.
Exemplos de princípios gerais do direito
Os princípios gerais do direito são acolhidos em praticamente todos os sistemas de
direito do mundo e que servem para suprir as lacunas da regulamentação
internacional.
São eles:
Princípio do enriquecimento sem causa
Princípio da boa fé
Princípio do abuso do direito
Princípio da responsabilidade baseada na culpa
Princípio da reparação integral do prejuízo
Princípio da lei especial prevalecer sobre a geral
Princípio do ónus da prova
Princípio da igualdade das partes
Princípio dos direitos adquiridos
Princípio do efeito útil
Princípio do caso julgado
Princípio da Segurança jurídica
Etc.
Actos Jurídicos Unilaterais
São actos imputáveis a um só sujeito de direito internacional, destinados a produzir
determinados efeitos jurídicos, que podem ser emanados dos Estados ou das
organizações internacionais.
Tipologias de actos jurídicos unilaterais do Estado
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Alguns exemplos de actos jurídicos unilaterais que podem ser emitidos pelo estado e
que são susceptíveis de exibir a característica da autonomia:
O Reconhecimento é um acto através do qual um Estado comprova a existência de
determinados factos, situações ou actos jurídicos, aceitando que lhe sejam oponíveis,
em virtude de os considerar conformes com o Direito Internacional.
O Protesto é um acto jurídico semelhante ao reconhecimento, mas em sentido
oposto, o Estado exprime discordância face a um acto jurídico por o considerar
desconforme com as normas de direito internacional, visando impedir que lhe seja
oponível.
A Notificação, serve para dar conhecimento a terceiros de um facto ou situação,
visando criar certas consequências jurídicas, que condicionam, em regra, a validade
de outros actos jurídicos.
A Promessa, difere dos anteriores por não se reportar a factos existentes, mas sim a
direitos novos que irão nascer em benefício de terceiros, comprometendo-se o
Estado a adoptar (ou abster-se de adoptar) determinado comportamento.
A Renuncia é o acto pelo qual o Estado, auto-limitando-se, extingue um direito de
que anteriormente era titular.
Sendo emanados por Organizações Internacionais, obedecem, primeiro, ao
disposto nas respectivas cartas constitutivas, tendo subjacente uma lógica colegial e
apresentando um procedimento escrito. São de vários tipos e conteúdos, podendo
ser resoluções, decisões, pareceres consultivos, recomendações, sentenças,
declarações, programas, cartas, etc..
FALTA A JURISPRUDÊNCIA, A DOUTRINA E A EQUIDADE! –
PÁG. 193-197
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CAPÍTULO IV – SUJEITOS DE DIREITO INTERNACIONAL
São os autores e os destinatários das normas jurídicas internacionais. São diferentes
entre si, tanto quanto à natureza como à amplitude dos seus direitos. Até meados do
séc. XX, eram somente os Estados, quanto muito os insurrectos reconhecidos. A
partir da segunda metade do séc. XX em diante, surgem novos sujeitos: as
organizações internacionais, os povos não autónomos e até o indivíduo (pessoa física
ou grupos minoritários).
Classificação
Quanto à importância:
Sujeitos primários: Estados
Sujeitos secundários: restantes sujeitos
Os Estados são os sujeitos de maior importância, por serem soberanos e constituírem
a espinha dorsal da comunidade internacional, moldando-a nos seus traços mais
essenciais.
Os restantes sujeitos possuem uma capacidade jurídica mais limitada e com menor
protagonismo, por isso serem designados por sujeitos secundários.
Quanto à origem:
Sujeitos originários: Estados, povos não autónomos e insurrectos
Sujeitos derivados/auxiliares: Organizações Internacionais e indivíduos
Os Estados, povos não autónomos e insurrectos resultam de um processo de facto,
não sujeito a qualquer decisão de sujeitos pré existentes.
Pelo contrário, as Organizações Internacionais e indivíduos só se convertem em
sujeitos de Direito Internacional por decisão de sujeitos primários.
Estado
Entidade soberana que reúne em si três elementos constitutivos: uma população, um
território e um governo e Para alem disso é uma entidade soberana e independente.
Elementos constitutivos
População
A população de um Estado integra o conjunto de indivíduos, ligados a esse estado,
de forma estável e permanente, através do vínculo jurídico da nacionalidade.
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Existem dois critérios para a obtenção da nacionalidade:
- Iuris solis: os que tenham nascido nesse estado
- Iuris sanguinis: os que tenham com estes ligações directas de sangue.
Nação ou Povo
Conjunto de indivíduos, ligados por um conjunto de afinidades (culturais, éticas,
religiosas, etc) que manifestam vontade de viver em comum. Não é correcto dizer
que a nação é um elemento constitutivo do Estado, porque há estados que englobam
várias nações (Ex.: China, Rússia) e, inversamente, nações que podem estar
dispersas por vários Estados (caso dos judeus que deram origem a comunidade
judaicas fora da Palestina).
Há nações ou povos, com direito à autodeterminação, e analisam-se em duas
vertentes distintas:
- Interna: para os povos já constituídos, que reflecte o princípio da autonomia
constitucional e política do Estado, ligado à ideia democrática.
- Externa: que se aplica tanto aos povos já constituídos como aos demais com esse
direito. Para os primeiros significa que devem ser auscultados em matéria do seu
território; para os segundos, concretiza-se segundo o princípio VI da Resolução 1541
(XV) da Assembleia-geral da ONU, de 15 de Dezembro de 1960, no direito de livre
escolha de um dos três estatutos internacionais: Independência, associação e
integração. (Manifestação moderna do princípio das nacionalidades)
Território
Princípio da integridade territorial (art. 2º, CNU)
Do território de um Estado faz parte o território terrestre, o fluvial, o marítimo, o
domínio lacustre e o espaço aéreo.
- Território terrestre: Solo ou subsolo situados dentro das fronteiras do Estado,
fronteiras essas que podem ser naturais (rio, lago, etc) ou artificiais (linha recta
artificial).
- Domínio fluvial: cursos de água nacionais e internacionais. Os nacionais nascem e
desaguam dentro do território nacional, enquanto que os rios internacionais
atravessam (sucessivos) ou separam (contíguos) vários Estados.
- Domínio marítimo: fazem parte determinados espaços marítimos, superfícies de
água salgada, incluindo o solo e subsolo respectivos, relativamente aos quais o
Estado exerce poderes de soberania e outras zonas relativamente às quais exerce
poderes de jurisdição.
Os poderes de soberania sobre um território são como um direito de propriedade,
enquanto que, quando exerce poderes/direitos de jurisdição, diz-se que são direitos
funcionais para gerir assuntos especiais e, estas zonas, não integram o território
estadual propriamente dito.
Em água salgada: (art.56º,c, da convenção de Monte Bay – direitos e deveres)
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- Águas interiores: situam-se aquém da linha normal de maré baixa, também
designado por território marítimo, por o Estado exercer aqui poder de soberania
quase total. (art.2º, 5º e 7º, 8º, da convenção de Monte Bay)
- Mar territorial: entre a linha normal de maré baixa e 12 milhas, o Estado
também exerce poderes de soberania. (ab rt. 2º da convenção de Monte Bay,
14º e ss da convenção de genebra, 1958)
- Zona contígua: entre o limite da zona de mar territorial e mais 12 milhas,
perfazendo um total de 24 milhas da linha normal de maré baixa, onde o Estado
exerce poderes de soberania (art. 2º,33º,nº2, 303º da convenção de Monte Bay)
- Zona económica exclusiva: perfaz 200 milhas desde a linha normal de maré
baixa. Aqui, o Estado exerce poderes de jurisdição e de exploração económica
que pode, se quiser, partilhar com outros Estados e reivindicar a sua extensão
até às 350 milhas. (art. 69º, 70º da convenção de Monte Bay)
- Zona de Alto Mar: Zona de água salgada, fora dos limites dos territórios
nacionais, que se regem por 4 liberdades: Navegação, pesca, sobrevoo e
colocação de construções (Oleodutos, cabos submarinos, ilhas artificiais e de
investigação científica) (art. 87º da convenção de Monte Bay)
Em solo e subsolo: (art. 8º da convenção de Monte Bay)
- Plataforma continental: superfície subaquática (solo e subsolo) até às 200
milhas (extensivos também até às 350 milhas) (art. 76º da convenção de Monte
Bay)
- Zona ou Área: solos e subsolos para além da jurisdição dos Estados, em zona
coincidente com o mar alto, (património comum da Humanidade) (art. 137 e ss
da convenção de Monte Bay)
- Domínio Lacustre: respeita aos lagos que são superfícies de água doce, totalmente
circundados por terra.
- Domínio Aéreo: espaço aéreo situado acima do seu território terrestre e marítimo,
até ao limite da estratosfera. Acima disso é de domínio internacional.
Governo
Conjunto de instituições e órgãos que representem a vontade do Estado.
No entanto, quando, em Direito Internacional, se fala em governo como elemento
constitutivo do Estado, estão em causa todos os poderes públicos do Estado:
Executivo, judicial e legislativo.
Soberania ou independência
Entidades soberanas são as que, em regra, não estão subordinadas a nenhum outro
poder superior, tendo liberdade de actuação, e exercem jurisdição sobre os
respectivos territórios e população.
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No entanto, a soberania de cada Estado é hoje limitada pelo igual atributo de todos
os outros Estados e, por conseguinte, pela necessidade de coexistência entre os
vários sujeitos de Direito Internacional. Desta forma, vem-se assimilando a soberania
à independência em Direito Internacional.
Competências do Estado
Competências Internas: Territoriais e pessoais
Competência Territorial: Poder dos Estados de exercerem discricionariamente actos
de autoridade, que considerarem necessários ao desenvolvimento de todo o tipo de
actividades no seu território.
Competência Pessoal: Está ligada ao conceito de nacionalidade e ao facto de que
compete ao Estado atribuir a sua nacionalidade a pessoas e coisas. A jurisdição do
Estado, no âmbito das competências pessoais, é exercida em relação aos nacionais e
aos estrangeiros em território nacional ou que cometam actos ilícitos contra a
segurança do Estado, aplicando a estes últimos o “Direito dos Estrangeiros”, que
define um standard mínimo de direito: não se pode negar o direito à justiça;
impedimento de tortura, etc.. Em Portugal, os provenientes de PALOP’s têm uma
descriminação positiva.
Competências Externas (internacionais)
No Direito Administrativo Clássico:
Ius Tratum – direito de celebrar tratados, convenções, etc.
Ius legationis – direito de exercer missões diplomáticas
Ius ad bellum – direito à guerra
Actualmente
Ius Tratum – direito de celebrar tratados, convenções, etc.
Ius legationis – direito de exercer missões diplomáticas
Direito à reclamação internacional
Responsabilidade Internacional do Estado por factos ilícitos
Em questões de responsabilidade internacional, temos que distinguir dois tipos de
normas:
- Normas primárias: impõem determinadas obrigações de conduta
- Norma secundárias: fixam as consequências jurídicas das violações às normas
primárias, ou seja, da responsabilidade por factos ilícitos, que obedece a certos
pressupostos.
Pressupostos e consequências
1) Existência de um facto internacionalmente ilícito (pressuposto essencial da
responsabilidade internacional subjectiva), por violação ou omissão de uma
obrigação internacional a que esteja vinculado.
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2) Demonstração do nexo de imputação do referido facto ilícito ao Estado, por ter
sido adoptado por pessoas ou órgãos que o representam, independentemente da
natureza ou funções do agente ou órgão.
- Na função administrativa é mais frequente surgirem violações e consequentes
responsabilizações internacionais do Estado perante cidadãos estrangeiros, em
especial, no âmbito dos “contratos de concessão”, onde ocorre, por vezes, a violação
das obrigações contratuais e do princípio dos direitos adquiridos.
- Na actuação dos órgãos legislativos (ou na falta dela), podem ocorrer “colisões”
com obrigações internacionais previamente assumidas.
- Na função judicial, a denegação da justiça e violações aos direitos “mínimos” dos
estrangeiros constituem o principal facto de violações.
3) Ocorrência de danos (materiais ou morais) a terceiros, por violação do Direito
Internacional. Se não, não haverá dever de reparação sobre o autor do acto ilícito,
nem direito subjectivo de exigir essa reparação pela vítima.
Conclusão: Um Estado só incorrerá em responsabilidade Internacional, estabelecido
que esteja o “nexo de causalidade” entre determinado comportamento (ilícito) e os
danos ocorridos.
Modalidades de reparação de danos
O dever de reparação dos danos, como consequência da violação de um
compromisso, constitui um princípio geral de direito, aplicável também no Direito
Internacional.
A reparação não exibe um figurino uniforme e varia em função do tipo de prejuízo
sofrido. Desta forma, existem 3 modalidades de reparação:
Reparação por Equivalente (em espécie)
Reposição da situação actual hipotética (Statu quo ante), ou seja, a situação que
existiria caso o acto ilícito não tivesse sido praticado, materializada pela restituição
integral em espécie (“Restitutio Integrum”). É a consequência normal do
incumprimento de obrigações internacionais.
Indemnização
Pagamento de uma quantia pecuniária, correspondente ao valor que teria a
restituição em espécie, de modo a permitir cobrir o “damnum emergens” mas
também o “lucrum cessans”. É a modalidade frequente na reparação de danos.
Satisfação
Reparação relativa a danos de carácter moral, que pode passar por um pedido de
desculpas oficial, pela cominação de sanções internas ao autor do acto, por uma
declaração de ilicitude por parte de um tribunal internacional (demonstração de
razão), etc.
Conclusão: Deve ser estabelecida a “Restitutio Integrum”ou reparação por
indemnização e satisfação.
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Causas de exclusão de ilicitude internacional
- Consentimento
- Legitima defesa (Art.º 51º da CNU)
- Contramedidas
- Força maior e caso fortuito
- Perigo extremo
- Estado de necessidade
Consentimento
Exclui-se a ilicitude de um comportamento ilícito internacionalmente, quando o
Estado vítima dê o seu consentimento para o acto, de forma válida à face das
normas de direito internacional, ou seja, isento de vícios (erro, dolo, coacção, etc).
Tem que ser claro e inequívoco, efectivo, imputável ao Estado (pelos órgãos
responsáveis), sem vícios e ser invocado enquanto causa de exclusão da ilicitude
internacional.
Legítima defesa (Art.º 51º da CNU)
Exclui-se de ilicitude o exercício ao direito de legítima defesa individual ou colectiva,
no caso de ocorrer um ataque armado contra um membro das Nações Unidas,
permitindo-se o uso defensivo da força, até que o conselho de segurança das Nações
Unidas intervenha e tome as medidas necessárias para a manutenção da paz e
segurança internacionais.
Contramedidas
Pressupõe um acto ilícito anterior do Estado agressor e permite o direito de resposta,
admitida pelo Direito Internacional, e não pode envolver o uso da força, salvo
legítima defesa.
Força maior e caso fortuito
Pressupõe a existência de uma situação em que o Estado se vê sem alternativa se
não desrespeitar obrigações internacionais, por acção de força irresistível ou de um
acontecimento exterior imprevisto que o colocam perante a impossibilidade material
de actuar de outra forma. Esta exclusão de ilicitude pressupõe um carácter não
voluntário ou não intencional da conduta do Estado.
Perigo extremo
No caso de um agente ou um órgão do Estado tomar uma decisão ilícita, por estar
em risco a sua vida ou das pessoas à sua guarda (caso de um avião aterrar em solo
estrangeiro sem autorização). Terá de existir uma certa proporção entre o interesse
protegido e o sacrificado e, ainda assim, quando este último se deva considerar de
valor inferior àquele.
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Estado de necessidade
Situação em que um Estado vê um seu interesse essencial ameaçado por um perigo
grave e eminente, não lhe restando outra alternativa, em ordem a salvaguardar tal
interesse, que não seja adoptar um comportamento ilícito. Aqui não estão em causa
vidas humanas mas sim, uma ameaça à própria existência do Estado, à sua
sobrevivência política e económica, ao funcionamento dos seus serviços essenciais, à
sua segurança interna, etc..
Condições:
- O interesse ameaçado deve ser essencial
- A medida deve ser o único meio utilizável de conjurar o perigo
- Não seja posto em causa interesse essencial do Estado vítima.
- Não ter contribuído para a necessidade
- Não violar a norma “Ius cogens”
- Não ter sido afastada essa possibilidade por tratado anterior.
Organizações Internacionais
São associações voluntárias de Estados, criadas por tratado, dotadas de uma
estrutura orgânica permanente e possuidoras de uma personalidade jurídica
internacional distinta da dos Estados Membros. Prossegue objectivos comuns aos
Estados membros e possui órgãos próprios para a satisfação das funções específicas
da organização.
Organizações Intergovernamentais (de cooperação)
As organizações intergovernamentais ou de cooperação visam promover a
cooperação entre os Estados membros e geram relações horizontais de mera
cooperação. As resoluções destas organizações dirigem-se aos Estados e jamais
directamente aos indivíduos, pressupondo uma aceitação das soberanias estaduais
(ausência de aplicabilidade directa), não possuindo poderes para impor decisões aos
seus membros, lançando assim, meras recomendações. Ex. ONU, NATO, OCDE, Etc.
Organizações supranacionais (de integração)
As organizações supranacionais ou de integração envolvem, para os Estados
membros, uma limitação da sua soberania, abdicando os Estados de determinados
poderes soberanos em favor da instituição supranacional, implicando uma
transferência desses poderes para a organização.
Entre as organizações supranacionais e os Estados membros prevalecem as relações
verticais de integração, estabelecendo-se vínculos de subordinação.
A estrutura interna destas organizações reflecte a repartição clássica dos poderes,
existindo o poder legislativo, executivo e judicial.
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As suas resoluções são de aplicabilidade directa e simultânea para os Estados
membros vinculados, sendo também directamente aplicáveis aos indivíduos ou
grupos de indivíduos.
A União Europeia, o Mercosul, o Benelux, entre outras, são exemplos de organizações
supranacionais.
Organização das Nações Unidas
A Organização das Nações Unidas surge da necessidade de paz duradoura e
segurança internacionais, no final da 2ª grande guerra mundial, quando estava
praticamente assegurada a vitória dos aliados.
Em 1944, foram lançadas as suas bases com a criação de organizações universais de
cooperação económica (FMI e BIRD), sendo que, após a vitória em 1945, as grandes
potências emergentes (Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética) negociaram a
repartição do poder e das esferas de influência na comunidade internacional do pós-
guerra e acordaram a estrutura da futura organização das Nações Unidas e a
prerrogativa do direito de veto (da qual seriam os principais beneficiários) no
Conselho de Segurança.
Na Conferência de S. Francisco foi submetido o projecto definitivo da Carta das
Nações Unidas, que viria a ser assinado a 26 de Junho de 1945. À criação da ONU
presidiu o objectivo essencial de assegurar a manutenção de paz e da segurança
internacional. (cfr. Preambulo e art. º1, da CNU)
Objectivos da ONU
- Manutenção da paz e da segurança internacionais (Art.º 1º, n.º 1 da CNU)
- Desenvolvimento de relações cordiais e amistosas entre Estados (Art.º 1º, n.º 2 da
CNU)
- Cooperação internacional em ordem à resolução de problemas económicos, sociais,
culturais e humanitários no respeito pelos direitos e liberdades fundamentais da
pessoa humana (Art.º 1º, n.º 3 da CNU).
- Funcionar como centro de encontro dos Estados da comunidade internacional,
proporcionando a harmonização das suas actividades, em ordem à consecução dos
objectivos previamente enunciados (Art.º 1º, n.º 4 da CNU).
Princípios da ONU
Tratam-se de autênticos princípios fundamentais de Direito Internacional,
contribuindo para que se apelide a Carta das Nações Unidas de Constituição da
Comunidade Internacional.
- Princípio da Igualdade soberana dos Estados (não verificada no Conselho de
Segurança da ONU, onde alguns Estados têm mais poderes (veto) (Art.º 2º, n.º 1 da
CNU)
- Princípio da Boa Fé (Art.º 2º, n.º 2 da CNU)
- Princípio da solução pacífica dos conflitos (Art.º 2º, n.º 3 e 33º da CNU)
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- Princípio da proibição do recurso à força (Art.º 2º, n.º 4 da CNU)
Órgãos da ONU e suas competências
Órgãos principais:
Assembleia Geral (Capítulo IV da Carta das Nações Unidas)
É o órgão plenário da organização, composta por todos os membros das Nações
Unidas. (Art.º 9º da CNU)
Competências genéricas: Discutir quaisquer questões ou assuntos que estiverem
dentro das finalidades da Carta das Nações Unidas. (art.º 10º da CNU), ou se
relacionem com as atribuições e funções de qualquer dos órgãos nela previstos, com
primazia ao conselho de segurança no equilíbrio institucional da ONU. (art.º11º, nº2;
12º,nº1; da CNU)
Competências específicas:
- Exames de relatórios fornecidos pelos demais órgãos
- Competências relativas ao regime internacional de tutela
- Competências orçamentais e financeiras
- Eleição dos Membros não permanentes do Conselho de Segurança
- Eleição dos membros do Conselho económico e social
Note-se que as deliberações da AG, salvo as que tenham a ver com a manutenção da
paz e da segurança internacionais, são dotadas de força obrigatória. (cfr. art.º 15º a
18º, da CNU)
Conselho de Segurança (Capítulo V da Carta das Nações Unidas)
O Conselho de Segurança é um órgão composto por 15 membros; 5 permanentes
(China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos da América) e 10 não
permanentes (eleitos pela A.G. por um período de 2 anos). (art.º 23º, n.º 1 e 2 da
CNU).
A principal competência do Conselho de Segurança é no domínio da preservação da
paz e da segurança internacionais (Art.º 24º, n.º 1 da CNU), podendo dirigir
recomendações aos estados em litígio, com vista á sua resolução por meios
pacíficos, e nos casos de ameaça á paz instar as partes a aceitarem certas medidas
provisórias, a adoptarem recomendações ou decisões, podendo desencadear
sanções, que em último grau poderão ser militares, contra o estado infractor (art.º
33º e ss, da CNU).
Nos termos do (art.º 27º), o Conselho de Segurança delibera por maioria qualificada
de 9 votos, sendo que o procedimento deliberativo varia consoante o CS deva
apreciar uma questão processual ou uma questão material.
Em questões processuais, para que uma resolução seja adoptada são necessários
quaisquer 9 votos.
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Em questões materiais ou de fundo, continuam a ser exigidos 9 votos, mas 5 deles
têm que ser dos membros permanentes. O que equivale dizer que, nas questões
materiais, a estes membros está reservado um direito de veto.
Duplo veto
Quando há dúvidas quanto à natureza de uma questão a ser discutida (processual ou
material), cabe ao próprio Conselho de Segurança resolver a situação. Ora, o acto de
qualificar uma questão é, em si mesma, uma questão material, pelo que, logo aí,
qualquer dos membros permanentes poderá fazer uso do seu veto (art.º 27º, nº.3).
Estamos perante um sistema de duplo veto: um qualquer membro permanente opõe-
se a que determinada questão seja qualificada como processual (1º veto) e quando o
Conselho de Segurança inicia a discussão dessa questão material, tem a
possibilidade da impedir que a resolução seja adoptada (2º veto). Assim se percebe,
“não há veto sem duplo veto”.
Conselho Económico e Social (Capítulo X da Carta das Nações Unidas)
O Conselho Económico e Social é composto por 54 membros, eleitos, em sistema
rotativo, pela Assembleia Geral por um período de 3 anos (Art.º 61º da CNU).
As suas principais competências dizem respeito às questões relativas à cooperação
económica, social, cultural, sanitária e no âmbito dos direitos humanos, entre os
Estados, sobre as quais deverá fazer recomendações à AG, aos Estados membros e
às instituições especializadas interessadas, bem como preparar projectos de
convenções ou convocar conferências internacionais (Art.º 62º da CNU). Apenas não
se debruça sobre questões políticas e administrativas.
Conselho de Tutela (Capítulo XIII da Carta das Nações Unidas)
O Conselho de Tutela foi criado controlar o exercício da tutela internacional sobre
territórios não autónomos. (art.º 86º e ss. da CNU)
Tribunal Internacional de Justiça (Capítulo XIV da Carta das Nações Unidas)
O Tribunal Internacional de Justiça é o principal órgão judiciário das Nações Unidas,
formado por 15 juízes, eleitos pela Assembleia Geral e pelo Conselho de Segurança
de entre as pessoas que satisfação os requisitos enunciados no (n.º 2 do ETIJ),
poderá ainda incluir um ou dois juízes ad hoc, designáveis nos termos do (art.º 31º,
n.º2 e 3, do ETIJ).
Métodos Jurisdicionais do TIJ
Interposição da acção e fases do processo contencioso
(art.40º do ETIJ) – as acções são interpostas no TIJ,
Mediante petição escrita dirigida ao escrivão, para os Estados Partes do ETIJ, ou,
Mediante notificação de acordo especial, para os estados não parte.
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O processo compreende duas fases:
(art.43º do ETIJ)- processo escrito, onde constará a comunicação ao tribunal e as
demais partes. Na fase de instrução o tribunal pode realizar inquéritos, vistorias, ou
outros estudos que sejam necessários para o esclarecimento dos factos e para a
produção da prova.
(art.º 43º, nº5, do ETIJ) - processo oral, durante o qual o tribunal ouve as
testemunhas, peritos, advogados assistentes (cfr. art. 42º, nº 1 e 2).
(art. 46º do ETIJ) - as audiências são públicas (principio da publicidade das
audiências), a menos que o tribunal decida o contrario ou que as partes requeram
um julgamento a porta fechada.
(art. 54º do ETIJ) - concluída a apresentação da causa e encerrados os debates
segue-se o momento em que o tribunal se retira para deliberar.
(art. 55º do ETIJ) - as decisões são tomadas pela maioria dos juízes presentes, tendo
o presidente voto de desempate.
(art. 56º do ETIJ) - dever de fundamentação da sentença, conferindo-se aos juízes
vencidos o direito de exporem os motivos da sua discordância, através da opinião
individual e da opinião dissidente (art. 57º do ETIJ)
(art. 59º do ETIJ) - a eficácia da decisão do TIJ circunscreve-se as partes litigantes e
ao caso concreto sub Júdice.
(art. 59º do ETIJ)- a sentença é definitiva e inapelável.
(art. 60º do ETIJ)-“in fine”- excepcionalmente, admite-se um pedido de interpretação
do acórdão ao tribunal, sempre que os respectivos sentido e alcance suscitem
controvérsia.
(art. 61º do ETIJ)- possibilidade de revisão de uma sentença aquando da descoberta
de um facto novo, de natureza decisiva.
Incidentes Processuais
O curso normal do processo contencioso pode ser incidentalmente interrompido e
alterado em virtude de suscitação, ex officio, por iniciativa das partes, ou ate de
terceiros, de determinadas questões, que tenham a ver com a competência do
tribunal, com a preservação dos direitos das partes na acção ou com a salvaguarda
de interesses de estados não intervenientes no pleito. Trata-se dos incidentes
processuais que podem assumir a forma de excepções preliminares, de medidas
provisórias ou conservatórias ou de intervenção:
Excepções preliminares
As excepções preliminares são objecções do Estado quanto à jurisdição ou
competência do Tribunal Internacional de Justiça. Por força do Art.º 36º, n.º 6 do ETIJ,
esta controvérsia será resolvida por decisão do próprio Tribunal, sendo este juiz da
sua própria competência.
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Julgada procedente uma excepção preliminar, finda imediatamente a instância,
devendo o Tribunal apreciá-las in limine litis, ou seja, logo no início do processo,
antes de se debruçar sobre a questão de fundo.
As excepções preliminares apoiam-se em argumentos de diversa índole:
Incompetência Ratione personae:
Fundada na ausência de locus standi, isto é, do direito de estar em justiça, ou
derivada do incumprimento do princípio da consensualidade em que se baseia o
funcionamento do TIJ.
Incompetência Ratione materiae:
Inexistência de uma controvérsia actual e de carácter internacional
Incompetência Ratione temporis
Por expiração do prazo de validade de um compromisso unilateral ou convencional,
ou por possível apreciação de factos anteriores à aceitação da jurisdição obrigatória
do TIJ.
Inadmissibilidade do pedido por falta de interesse em agir
Quando o Estado demandado considera não existir, da parte do Estado demandante,
interesse processual, que dizer, necessidade de usar o processo e de fazer prosseguir
a acção.
Medidas provisórias ou conservatórias
Expediente integrado nos poderes de instrução do TIJ que apresenta evidentes
analogias com as providentes cautelares (do direito interno), visam impedir que,
durante a pendência de qualquer acção declarativa ou executiva, a situação de facto
se altere, em tais termos que a sentença, ainda que favoráveis as pretensões do
titular do direito, seja desprovida de eficácia, periculum in mora (o prejuízo associado
a demora) (art. 41º, nº 1 do ETIJ)
Intervenção
Nos artigos 62º e 63º do ETIJ, esta previsto o pedido de intervenção do estado numa causa,
quando esse estado entender que a decisão a proferir pelo tribunal é susceptível de
comprometer um interesse seu de ordem jurídica.
Secretariado (Capítulo XV da Carta das Nações Unidas)
O secretariado é um órgão de carácter administrativo, cuja competência é
predominantemente técnica. É composto pelo Secretário-Geral e pelo demais pessoal
exigido pela organização.
O Secretário-Geral é eleito pela Assembleia Geral, sob recomendação do Conselho de
Segurança, por um mandato de 5 anos renováveis, e é o principal funcionário da
ONU. Para além das tarefas meramente administrativas, exerce muitas vezes funções
políticas (Art.º 99º da CNU), vindo a assumir uma importância cada vez maior, sendo
perante os Estados e a comunidade internacional o rosto visível da ONU.
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Órgãos subsidiários: os que as circunstâncias justifiquem.
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