0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações11 páginas

Pressupostos Básicos Da Terapia Cognitivo-Comportamental Na Prática Clínica

A Terapia Cognitivo-Comportamental, desenvolvida por Aaron Beck, é uma abordagem psicológica que enfatiza a modulação de pensamentos disfuncionais para promover mudanças emocionais e comportamentais. Este artigo revisa os pressupostos teóricos, conceitos centrais e intervenções da terapia, destacando a importância da relação terapêutica e da empatia na prática clínica. A metodologia utilizada é uma revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em obras contemporâneas sobre o tema.

Enviado por

Juliana Gomes
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações11 páginas

Pressupostos Básicos Da Terapia Cognitivo-Comportamental Na Prática Clínica

A Terapia Cognitivo-Comportamental, desenvolvida por Aaron Beck, é uma abordagem psicológica que enfatiza a modulação de pensamentos disfuncionais para promover mudanças emocionais e comportamentais. Este artigo revisa os pressupostos teóricos, conceitos centrais e intervenções da terapia, destacando a importância da relação terapêutica e da empatia na prática clínica. A metodologia utilizada é uma revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em obras contemporâneas sobre o tema.

Enviado por

Juliana Gomes
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

RESUMO

A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma abordagem psicológica relativamente nova,


constituída por Aaron Beck e embasada no princípio de que o pensamento é o cerne dos
transtornos psicológicos, considerando que os pensamentos influenciam as emoções e os
comportamentos. Logo, é necessária a modulação dos pensamentos disfuncionais para a
conquista de mudanças emocionais e comportamentais duradouras, possibilitando a me-
lhora e alívio dos sintomas. Tendo isso em vista, o presente artigo consiste em uma revisão
bibliográfica que irá explanar acerca dos pressupostos teóricos, conceitos centrais e inter-
venções básicas da Terapia Cognitivo-Comportamental na prática clínica, que embora seja
estruturada, preza pela empatia e calor humano da relação terapêutica para a promoção da
qualidade de vida e bem-estar dos pacientes.

Palavras-chave: Psicologia Clínica, Psicoterapia, Reestruturação Cognitiva, Rela-


ção Terapêutica.
INTRODUÇÃO

A Psicologia Clínica visa, primordialmente, acolher o sofrimento humano, contemplando


todas as suas vivências subjetivas e singulares, para a promoção da saúde e da qualidade de
vida. Em vista disso, evidencia-se, no presente artigo, a Terapia Cognitivo-Comportamental,
uma abordagem psicológica relativamente nova, que possui significativo reconhecimento
graças a sua grande eficácia, que é cientificamente comprovada.
A Terapia Cognitivo-Comportamental compreende o paciente em sua totalidade, le-
vando em consideração a tríade: pensamento – emoção – comportamento. Desse modo, a
referida abordagem psicoterápica acredita que a mudança nos pensamentos disfuncionais
ou distorcidos, por intermédio de uma avaliação mais realista, produz duradouras mudanças
emocionais e comportamentais, proporcionando a melhora e alívio dos sintomas.
Logo, declara-se que o presente artigo se constituirá em uma revisão bibliográfica
narrativa acerca dos preceitos substanciais da Terapia Cognitivo-Comportamental. Por
conseguinte, serão apresentados e elucidados os pressupostos teóricos, conceitos centrais,
princípios e intervenções psicológicas que regem e integram a base da prática clínica da
Terapia Cognitivo-Comportamental.

METODOLOGIA

Este artigo foi elaborado em formato de revisão bibliográfica narrativa, sendo esta
fundamentada em obras de diversos autores contemporâneos, publicadas em livros, artigos
científicos e revistas, disponíveis eletronicamente e em bibliotecas.

DESENVOLVIMENTO

Terapia Cognitivo-Comportamental

A terapia cognitiva teve origem no início da década de 60, na Universidade da Pensilvânia


– Estados Unidos, sendo constituída por Aaron Beck, em consequência de uma investigação
malsucedida sobre os princípios psicanalíticos relacionados à depressão (BECK J., 1997;
BECK e ALFORD, 2000). Em vista disso, a terapia cognitiva foi desenvolvida como uma
“psicoterapia breve, estruturada, orientada ao presente, para depressão, direcionada a
resolver problemas atuais e a modificar os pensamentos e comportamentos disfuncionais”
(BECK apud BECK J., 1997, p. 17).
Posteriormente, segundo Beck J. (1997) e Rangé (2001), constatou-se a eficácia tera-
pêutica do modelo cognitivo para transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade,

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
66
transtorno de pânico, transtornos alimentares, abuso de substâncias e problemas conjugais.
Rangé (2001) complementa que em virtude do número crescente de publicações científicas
acerca do êxito da terapia cognitiva, em diversas situações, essa abordagem psicológica
adquiriu muita popularidade, passando a ser difundida no Brasil desde o ano de 1995.
Cabe, então, explicar, em conformidade com Beck e Alford (2000), sobre os pressu-
postos teóricos da terapia cognitiva que, evidentemente, reconhece e considera os aspectos
biopsicossociais, contudo, seu foco, para a compreensão das psicopatologias, é a cognição,
ou seja, a maneira com a qual o sujeito percebe e interpreta uma situação. Desse modo,
de acordo com Beck J. (1997), a teoria cognitiva pressupõe que o pensamento é o cerne
dos transtornos psicológicos, uma vez que os pensamentos influenciam as emoções e os
comportamentos, portanto, os pensamentos distorcidos contribuem para a manutenção e
perpetuação das emoções e comportamentos disfuncionais.
Assim sendo, em consonância com Rangé (2001), é indispensável o entendimento
dos três níveis de pensamento. Os pensamentos automáticos surgem espontaneamente
a partir de eventos externos ou internos, podendo ter a forma de sentença ou de imagem.
Estes não passam por nenhuma avalição crítica, e por isso, podem ser exagerados, disfun-
cionais e distorcidos.
De acordo com Knapp (2004), as distorções dos pensamentos automáticos são: ca-
tastrofização, raciocínio emocional, polarização, abstração seletiva, adivinhação, leitura
mental, rotulação, desqualificação do positivo, minimização e maximização, personalização,
supergeneralização, inferência arbitrária, vitimização e questionalização (“e se?”).
O segundo nível de pensamento, conforme Rangé (2001) afirma, se refere às crenças
intermediárias, que expressam atitudes, regras (referentes a “dever”) e suposições (do tipo
“se... então”). Vale ressaltar que as crenças intermediárias não estão associadas, de modo
direto, aos acontecimentos cotidianos, e por essa razão, são mais difíceis de serem aces-
sadas, quando comparadas aos pensamentos automáticos.
Contudo, segundo Beck, J. (1997), o nível mais profundo do modelo cognitivo é com-
posto pelas crenças centrais que são rígidas, globais e supergeneralizadas. Estas são de-
senvolvidas na infância e dizem respeito a verdades absolutas que o sujeito possui sobre
si próprio, os outros e o mundo. Por essa razão, os indivíduos buscam constantemente
confirmar suas crenças centrais irreais e disfuncionais, desconsiderando todas as evidên-
cias contrárias. A autora complementa explicando que as crenças centrais, que são também
denominadas esquemas, orientam a estrutura cognitiva, dando origem as crenças interme-
diárias, que por sua vez, intervirão sobre os pensamentos automáticos.
A identificação dos três níveis de pensamento permite a conceitualização cognitiva,
que também abarca dados relevantes da história do paciente, estratégias compensatórias,

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
67
emoções e comportamentos. Logo, a conceitualização cognitiva se constitui em uma es-
pécie de “mapa”, ou seja, ela é um processo indispensável na terapia cognitivo-comporta-
mental para a compreensão do psicólogo sobre seu paciente, bem como para determinar
a direção da terapia, a fim de um planejamento útil e eficaz, com o qual se atinja as metas
estabelecidas. Dessa maneira, a psicoterapia não se reduz à mera aplicação de técnicas
(BECK, J. 1997; NEUFELD e CAVENAGE, 2010).
Também cabe evidenciar, em conformidade com os autores citados acima, que a
conceitualização cognitiva não deve ser inflexível, visto que as hipóteses levantadas são
confirmadas ou alteradas, e sempre verificadas em conjunto ao paciente. Por consequência,
a conceitualização cognitiva, além de nortear o trabalho do psicólogo, favorece a motiva-
ção e o engajamento do paciente ao processo terapêutico. Em vista disso, declara-se que
“a conceituação cognitiva é a habilidade clínica mais importante que o terapeuta cognitivo
precisa dominar” (KNAPP, 2004, p.27).

Princípios da Terapia Cognitivo-Comportamental

Em relação aos princípios da terapia cognitivo-comportamental, é relevante apresenta-


-los, uma vez que devem ser colocados em prática, de modo imprescindível, com todos os
pacientes. O primeiro princípio da terapia cognitiva reitera o que foi afirmado no parágrafo
anterior: a formulação da conceitualização cognitiva é constantemente aperfeiçoada, à me-
dida que novas informações são coletadas (BECK, J. 1997).
Outro princípio substancial da TCC, ainda de acordo com Beck J. (1997), se refere à
importância da relação terapêutica para a obtenção de resultados favoráveis no tratamento
psicológico. Desse modo, o psicólogo, antes de aplicar as técnicas cognitivo-comporta-
mentais, deve possuir habilidades para construir e manter um relacionamento que seja
terapêutico em si próprio.
Para isto, a empatia, a compreensão livre de julgamentos, a espontaneidade, a escuta
acolhedora, o respeito, a flexibilidade e o contato visual são atributos que o terapeuta deve,
indispensavelmente, possuir, visto que a qualidade da relação terapêutica se constitui em
um prognóstico sobre a eficácia do tratamento. Portanto, quando este ponto é ignorado
pelo psicólogo, a terapia, possivelmente, está fadada, com mais propensão, ao fracas-
so (RANGÉ, 2001).
A terapia cognitiva, em consonância com Beck J. (1997), estabelece – juntamente com
o paciente – metas terapêuticas realistas conforme os problemas elencados, sendo que o
foco são os problemas do aqui-agora. Logo, essa abordagem psicológica possui ênfase no
presente, é diretiva e breve, por consequência, suas sessões possuem um número limitado,
nas quais a frequência é reduzida gradualmente.

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
68
Além disso, as sessões psicoterápicas são estruturadas. No primeiro momento, é efe-
tuada a checagem do humor, podendo ser utilizada uma escala de 0 a 10, para mensurar
a intensidade dos estados afetivos. Logo em seguida, o psicólogo solicita uma atualização
sobre a semana do paciente, como forma de monitorar a evolução terapêutica. A ponte
com a sessão anterior é realizada na sequência a fim da associação dos atendimentos e da
continuidade do tratamento. Então, a tarefa de casa é retomada e a agenda é estabelecida
em conjunto com o paciente. Após a articulação dos pontos acordados na agenda, há a
definição de uma nova tarefa de casa. Por fim, o terapeuta resume o que foi abordado na
sessão e solicita um feedback sobre a mesma (KNAPP, 2004).
Dessa maneira, percebe-se que na psicoterapia cognitiva o paciente é ativo, devendo
sempre ser estimulado a colaborar com o processo terapêutico, por meio da realização das
tarefas de casa, de decisões sobre os assuntos a se tratar na sessão, entre outros meios
que podem ser adotados pelo psicólogo. Por conseguinte, a abordagem cognitiva também
é educativa, ou seja, ensina o paciente sobre a terapia, o modelo cognitivo, o transtorno
psicológico, e as técnicas que podem auxilia-lo, incentivando a autonomia do paciente e
enfatizando a prevenção de recaída (BECK J., 1997).
Por fim, ainda segundo Beck J. (1997), o décimo e último princípio da terapia cognitiva
relaciona-se às variadas técnicas utilizadas, incluindo algumas da terapia comportamental
e da terapia gestalt. A escolha destas deve ser realizada levando em consideração a con-
ceitualização cognitiva e os propósitos de cada sessão.

A relação terapêutica na Terapia Cognitivo-Comportamental

Como já foi mencionado anteriormente, um fator essencial para o andamento do proces-


so terapêutico diz respeito à relação terapêutica, no qual paciente e terapeuta demonstram
estar mais próximos e conectados, podendo assim estabelecer um vínculo de empatia e
respeito. Logo, tendo em vista a magnitude da relação terapêutica para o sucesso da psi-
coterapia, considerou-se de suma importância especificar, mais profundamente, sobre esse
princípio da Terapia Cognitivo-Comportamental (FELICIANO e PARRA, 2011).
Para com o terapeuta, é fundamental o desenvolvimento de algumas habilidades que
possam facilitar o estabelecimento do vínculo. Com isso, Beck J. (2013) descreve algumas
habilidades a serem exercitadas: demonstrar boas habilidades terapêuticas e compreensão
acurada; compartilhar sua conceituação e plano de tratamento; tomar decisões colaborati-
vamente; buscar feedback, variar seu estilo, ajudar o paciente a resolver seus problemas e
a aliviar sua angústia.
A forma de demonstrar continuamente seu compromisso e compreensão do paciente
por meio de afirmações empáticas, escolha das palavras, tom de voz, expressões faciais

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
69
e linguagem corporal faz com que o decorrer do processo seja positivo para o desenvolver
do vínculo terapêutico (BECK J., 2013).
As características gerais do terapeuta que facilitam o emprego da terapia cognitiva
incluem calor humano, empatia adequada e autenticidade. O comportamento do terapeuta
será afetado a partir desses comportamentos e atitudes durante o tratamento. Se por um
lado, as características forem empregadas excessivamente ou sem critérios, poderão então
favorecer uma ruptura no vínculo terapêutico. Por outro lado, o equilíbrio e a empregabilidade
adequadas das atitudes poderão ser usados de modo com que possa aumentar significati-
vamente sua eficácia (BECK et al, 1997).
As utilizações de tais características não são suficientemente necessárias para produzir
um ótimo efeito terapêutico. Entretanto, na medida em que o terapeuta se aperfeiçoar e de-
monstrar de maneira assertiva tais qualidades poderá contribuir com o início de técnicas es-
pecíficas para a modificação cognitiva de modo com que seja mais eficaz (BECK et al, 1997).
A psicoterapia se passa como um processo, no qual o terapeuta cognitivo deve cui-
dadosamente balancear a importância da autonomia, ter uma postura de confiabilidade e
receptividade, bem como ser discreto e objetivo. De modo geral, o terapeuta nas fases iniciais
do tratamento, tende a ser mais acolhedor e empático, de modo com que gradativamente
incite uma postura mais ativa do paciente, estando menos presente na terapia em que fases
anteriores (BECK et al, 1997).
De acordo com Greenberg (2007, apud Portela et al, 2008, p.10),

Os terapeutas, na fase inicial da terapia, transmitem compreensão e reconhe-


cimento pela dor do cliente, validam os seus esforços e focam-se no impacto
emocional dos eventos na vida do cliente. Devido a uma audição atenta, inte-
resse e expressão facial, corporal, incluindo os olhos e as mãos, do terapeuta
que transmitam a consideração pelo paciente, este começa a sentir-se visto,
valorizado e respeitado e, por isso, mais inclinado a confiar e a abrir-se. Ao
atender ao coração do cliente e a expressar confiança incondicional nas suas
forças e capacidades de crescimento, o terapeuta ajuda a revelar a unicidade
e força do cliente. É vendo a possibilidade de crescimento noutro ser humano,
que esta possibilidade é estimulada.

A Terapia Cognitiva-Comportamental apesar de ser uma abordagem estruturada, tem


como base a relação colaborativa entre terapeuta e paciente, na qual ambos têm papel
ativo no processo psicoterápico (FELICIANO e PARRA, 2011). Para Beck et al (1997) a
relação terapêutica não é usada simplesmente como uma maneira de alívio de sofrimento,
mas se dá anteriormente como um veículo para facilitar um esforço comum para alcançar
os objetivos da psicoterapia.
No que diz respeito aos objetivos da psicoterapia, esses se dão sobre as expectativas
dos resultados de curto e longo prazo entre terapeuta e paciente. Dentre as tarefas definidas,

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
70
podem ser realizados acordos ou consensos entre ambas as partes, buscando atividades
diversas para que possa contribuir na resolução de problemas dos pacientes (SINGULANE
e SARTES, 2017).
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, conforme Beck J. (1997), cada passo na pro-
gressão do tratamento é usado para desenvolver e aprofundar aspectos colaborativos da
relação. Têm como início a orientação e encorajamento do terapeuta, no qual posteriormente
o paciente aprende a reconhecer suas interpretações negativas automáticas de suas expe-
riências. Em seguida, paciente e terapeuta começam a analisar as informações discutidas
para que possam encontrar padrões específicos no pensamento automatizado.
Portanto, a abordagem Cognitivo-Comportamental apesar de focalizar na reestrutu-
ração cognitiva e na modulação de pensamentos automáticos, traz consigo fortemente a
relação terapêutica como um fator intrínseco na relação, sendo vista como um processo
uma negociação constante em psicoterapia (BECK J., 1997).
A Terapia Cognitivo-Comportamental demanda de alguns comportamentos do terapeu-
ta com objetivos de intenções, expectativas, motivação e esperança, demonstrando uma
postura empática, acolhedora e calorosa. Outras variáveis que estão presentes no vínculo
terapêutico, dizem respeito à qualidade e força da relação, aceitação emocional e a habili-
tação do paciente explorar visões sobre si (PORTELA et al, 2008).
Portanto, Beck J. (1997) afirma que na relação terapêutica constrói-se ponte entre am-
bas as partes para que o andamento da psicoterapia possa se efetivar. O estabelecimento
do vínculo auxilia no tratamento de maneira favorável, pois paciente e terapeuta que criam
confiança, empatia e buscam alcançar metas em conjuntos, demonstram estarem inclinados
a investigar crenças e a trabalhar a resolução de problemas de maneira mais assertiva.
Sendo assim, pode-se observar com que a relação é um vínculo que condiz com o
crescimento e bem-estar, auxiliando na mudança psicológica e que se dá por esforço mú-
tuo. Por isso, manter a qualidade da relação é fundamental para o andamento do processo
psicoterápico, sendo de suma importância demonstrar empatia, aceitação e congruência,
bem como se fazer presente e atento na psicoterapia (BECK J., 1997).

Intervenções cognitivo-comportamentais

As etapas do processo terapêutico da abordagem psicológica cognitivo-comportamental


são claramente definidas. O primeiro momento deve englobar o estabelecimento do rapport
para a construção de uma relação terapêutica favorável, a anamnese, o exame de estado
mental, a psicoeducação sobre a terapia e o modelo cognitivo, bem como a elaboração da
conceitualização cognitiva (BECK, J. 1997; RANGÉ, 2001; NEUFELD e CAVENAGE, 2010).

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
71
Em seguida, o foco de intervenção se constitui na mudança dos pensamentos automá-
ticos, emoções e comportamentos disfuncionais, com o propósito de que, posteriormente,
se atinja a mudança das crenças intermediárias e centrais. Quando os objetivos são alcan-
çados, e o processo terapêutico está se aproximando do término, é de suma importância
realizar a prevenção da recaída, a fim de que o paciente se torne seu próprio terapeuta
(BECK, J. 1997; RANGÉ, 2001).
Tendo isso em vista, cabe apresentar acerca da entrevista inicial que, como já foi
mencionado anteriormente, é realizada logo nas primeiras sessões para a obtenção de in-
formações sobre o paciente. Ela se constitui em uma entrevista semidirigida, ou seja, uma
conversação com estruturação básica, na qual o paciente pode se sentir à vontade para ex-
por suas demandas, enquanto que o psicólogo pode intervir visando a melhor compreensão
sobre os dados importantes para o processo terapêutico (FRAGA, 2016).
Beck (1981, p. 94) explica que é muito válido iniciar a entrevista perguntando “Como
você se sente ao ver um terapeuta?” ou “Como você se sentiu a respeito de vir aqui hoje?”.
Também é fundamental investigar acerca “(a) o diagnóstico do paciente, (b) sua história
passada, (c) situação atual de vida, (d) problemas psicológicos, (e) atitudes a respeito do
tratamento e (f) motivação para o tratamento”. Além da obtenção de tais informações, a
entrevista inicial deve promover, em algum grau, o alívio de sintomas.
O exame do estado mental também é crucial para a avaliação do psicólogo sobre seu
paciente em relação a presença de psicose e ideação suicida, bem como acerca da existência
de sintomas físicos/orgânicos. Esses dados são muito relevantes e devem ser considerados
no planejamento do tratamento psicoterápico (BECK, 1981).
Após o término da entrevista inicial, Oliveira (2011) declara que deve ser realizada a
psicoeducação do modelo cognitivo, a fim de que os pacientes sejam informados acerca da
tríade cognitiva, constituída por pensamentos, comportamentos e emoções, para que assim,
identifiquem e compreendam a interrelação desses três componentes. Beck afirma que essa
técnica é essencial, uma vez que possibilita a aprendizagem dos referidos conceitos e sua
diferenciação, tornando possível a continuidade da terapia psicológica. Além de que, viabiliza,
ao paciente, uma reflexão inicial acerca de sua visão sobre si próprio, sobre os outros e sobre
o mundo, aspectos essenciais para a conceitualização cognitiva (NOGUEIRA et al, 2017).
Se a psicoeducação do modelo cognitivo foi finalizada e completamente compreendida
pelo paciente, o psicólogo pode introduzir o Registro de Pensamento Disfuncional (RPD),
que de acordo com Beck J. (1997), é uma das principais técnicas para a identificação e
avaliação dos pensamentos automáticos. O paciente, no primeiro momento, deve registrar o
pensamento, a emoção e o comportamento que se manifestaram em determinada situação.
Quando o preenchimento das primeiras quatro colunas passa a ocorrer sem o auxílio do

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
72
psicólogo e de modo satisfatório, o RPD pode ser solicitado como tarefa de casa. Na se-
quência, são adicionadas duas novas colunas: pensamento alternativo e comportamento
adaptativo. Esse exercício habilita o paciente a verificar seus pensamentos e altera-los,
mediante uma avaliação racional e realista, sendo que somente a partir disso, é possível
uma resposta mais adaptativa.
O questionamento socrático, por sua vez, também é uma ferramenta substancial da
terapia cognitivo-comportamental, podendo estar presente em todas as sessões, já que
objetiva a modificação dos pensamentos automáticos. Ele consiste em perguntas abertas
e orais que estimulam e ensinam o paciente a “pensar sobre o pensamento”, a fim de que
este reflita novas formas de perceber determinado fenômeno e novas alternativas para os
pensamentos disfuncionais. Por conseguinte, o questionamento socrático quando realizado
adequadamente, deverá promover mudança comportamental e emocional, necessitando ser,
urgentemente, revisto na ausência de tais resultados. Portanto, o questionamento socrático
é uma técnica colaborativa, que possui como finalidade a avaliação dos pensamentos, e para
isso, não são utilizados questionamentos de comando, que o tornem um método autoritário
(SANTOS e MEDEIROS, 2017, p. 206).
As intervenções e técnicas até aqui descritas possuem presença indispensável para
o sucesso do processo terapêutico. A partir disso, é possível dar continuidade com o uso
de técnicas mais pontuais, embasadas na conceitualização cognitiva de cada paciente, ou
seja, conforme a demanda psicológica de cada paciente. Por conseguinte, a terapia cog-
nitiva-comportamental irá alcançar seu objetivo substancial: a modificação duradoura das
emoções e comportamentos, mediante a mudança cognitiva (BECK, J. 1997).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Terapia Cognitivo-Comportamental é estruturada, baseada no presente e leva em


consideração os pensamentos, que têm vasta influência nas emoções e comportamentos.
Dessa forma, a modulação de tais pensamentos pode resultar em alterações comportamen-
tais e emocionais que influenciam na qualidade de vida e bem-estar dos sujeitos.
A partir dos estudos mencionados é possível verificar que os pressupostos da Terapia
Cognitivo-Comportamental bem como as técnicas devem estar presentes nas sessões, ob-
tendo-se assim um setting terapêutico, que apesar de estruturado, necessita de autenticidade
e empatia por parte do profissional para um melhor estabelecimento da relação terapêutica
e consequentemente resultados mais significativos para a melhora dos sintomas.
Constata-se também de que o andamento da psicoterapia se faz por uma via de
mão dupla, no qual terapeuta e paciente trabalham em conjunto para melhores resultados

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
73
terapêuticos. Nesse mesmo sentido, o psicoterapeuta utiliza da descoberta guiada, incitando
o insight do paciente e auxiliando em busca de suas resoluções de problemas.
Sendo assim, a terapia cognitivo-comportamental é vista como uma psicoterapia co-
laborativa, no qual cada uma das partes tem suas funções e deveres para que em conjunto
haja a melhora terapêutica. Para isso, o profissional deverá se respaldar dos enquadres da
terapia, de técnicas e habilitações, de matérias teóricos, mas exercendo a todo momento a
empatia e calor humano, sendo sensível e validando os sentimentos do paciente de forma
autêntica e sincera, para que então possibilite um ambiente favorável as metas estabeleci-
das em psicoterapia.

REFERÊNCIAS

BECK, A. T. Terapia cognitiva da depressão. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.

______; RUSH A. J; SHAW B. F; EMERY G. Terapia cognitiva da depressão. Porto


Alegre: Artes Médicas; 1997.

______; ALFORD, B. A. O poder integrador da Terapia Cognitiva. Porto Alegre: Editora


Artes Médicas, 2000.

BECK, J. S. Terapia Cognitiva: teoria e prática. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997.

______. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. 2ª ed. Porto Alegre. Art-


med, 2013.

FELICIANO, M. F. C; PARRA, C. R. Aliança Terapêutica e Resultados: estudo de caso


clínico em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, 2011. Disponível em: <[Link]
[Link]/artigos/textos/[Link]> Acessado em: 26 abr. 2019.

FRAGA, J. B. L. F. As contribuições da entrevista inicial para o processo de psicodiag-


nóstico. Pretextos – Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, vol. 1, n. 1.
Jan/Jun., 2016. Disponível em: < [Link]
viewFile/13586/ 10478 > Acessado em: 25 nov. 2018.

KNAPP, P. Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Porto Alegre:


Artmed, 2004.

NEUFELD, C. B.; CAVENAGE, C. C. Conceitualização cognitiva de caso: uma proposta


de sistematização a partir da prática clínica e da formação de terapeutas cognitivo-com-
portamentais. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, vol. 6, n. 1. Rio de Janeiro:
Dez, 2010. Disponível em: < [Link]
S1808-56872010000200002 > Acessado em: 28 nov. 2018.

NOGUEIRA, C. A.; CRISOSTOMO, K. N.; SOUZA, R. dos S.; PRADO, J. de M. do. A


Importância da Psicoeducação na Terapia Cognitivo-Comportamental: uma revisão siste-
mática. Revista das Ciências da Saúde do Oeste Baiano, vol. 2, n.1, p. 108-120. 2017.
Disponível em: < [Link] > Acessado
em: 10 nov. 2018.

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
74
OLIVEIRA, M. I. S. de. Intervenção cognitivo-comportamental: Relato de Caso. Revista
Brasileira de Terapias Cognitivas, vol. 7, n. 1. Jan/Jul., 2011. Disponível em: < > Aces-
sado em: 10 nov. 2018.

PORTELA, C; ALMEIDA, D; SEABRA, J; NUNES, P. Relação Terapêutica nas Terapias


Cognitivo-Comportamentais. 2008. Disponível em: <[Link]
textos/[Link]> Acesso em 26 abr. 2019.

RANGÉ, B. Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria.


Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.

SANTOS, C. E. M. dos; MEDEIROS, F. de A. A relevância da técnica de questionamento


socrático na prática cognitivo-comportamental. Revista Archives of Health Investigation,
vol. 6, n. 5, p. 204-208. 2017. Disponível em: < [Link]
article/view/1940 > Acessado em: 10 nov. 2018.

SINGULANE, B. A. R; SARTES, L. M. A. Aliança Terapêutica nas Terapias Cognitivo-


-Comportamentais por Videoconferência: Uma Revisão da Literatura, 2017. Disponível
em: <[Link] Acesso em 26
abr. 2019.

Psicologia Contemporânea: práticas e abordagens clínicas em pesquisa - ISBN 978-65-5360-420-9 - Vol. X - Ano 2023 - Editora Científica Digital - [Link]
75

Você também pode gostar