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I CONGRESSO GOIANO DE PSICOLOGIA DA SAÚDE

I SIMPÓSIO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA DA UFG


I SIMPÓSIO DE PSICOLOGIA JURÍDICA DA UFG
20, 21 e 22 de Outubro, 2016

Mesa Redonda –
Maternidade e luto: atenção psicológica
no processo de luto perinatal

Angela Beatriz de Lima Borges


Psicóloga Hospitalar – Hospital e Maternidade Dona Íris
Maternidade
 Gravidez - a mulher sofre profundas mudanças
físicas e emocionais, sua atenção e preocupações
estão voltadas para chegada de um bebê. Além
disso, faz pensar um final feliz, embora mesmo em
países desenvolvidos a decepção ocupa 20 a 30%
dos casos. Situações que independem da qualidade
de acompanhamento pré-natal.
 Quando o bebê morre, a mulher se vê sucumbida
pela máxima contradição, a vida é tomada pela
morte.
Morte
 Tabu - tendência de mantê-lo ocultado, isolado e
impronunciável, pois provoca certo mal-estar
quando é abordado nos grupos sociais (Barasuol,
2012).
 A morte de um filho, antes ou logo após
nascimento rompe com a ordem natural da vida –
interrompe sonhos e expectativas que normalmente
são depositadas na criança que está por vir.
Luto
 Reação normal e esperada quando um vínculo é
rompido.
 A perda de qualquer ordem gera o sentimento de
luto.

 Função - proporcionar a reconstrução de recursos e


viabilizar um processo de adaptação às mudanças
ocorridas em consequência das perdas.
(Gesteira et al, 2006).
Fatores que influenciam no processo
do luto
 Fatores internos;
 Estrutura psíquica do enlutada(o);
 Histórico de perdas anteriores;
 Circunstâncias da perda;
 Crenças culturais e religiosas;
 Apoio recebido.
(Gesteira et al, 2006).
Luto perinatal
 CID - 10 - o período perinatal compreende a 22ª
semana de gestação e considera bebês acima de 500
gramas. São exemplos de causas de mortalidade
perinatal a asfixia intra-uterina e intraparto, o baixo
peso ao nascer, as afecções respiratórias do recém-
nascido, as infecções e prematuridade.
 Apesar dos avanços nos estudos para diminuição da
mortalidade perinatal, ainda estão abaixo das
expectativas dos profissionais de saúde pública e
dos pesquisadores no Brasil.
Luto perinatal
 Caracteriza-se pela elaboração do luto resultante do
óbito fetal ou de recém nascido (Iaconelli, 2007).

 Dificilmente validada socialmente, podendo trazer


repercurssões consideráveis aquelas(es) que não
puderam vivenciar o luto de forma mais saudável.

 É uma perda desautorizada pelo outro, os pais


ficam duplamente desamparados: pelo bebê e pelos
adultos.
Fases do Luto

 Negação e Isolamento
 Raiva
 Barganha
 Depressão
 Aceitação
(Kübler-Ross, 2012)
Negação e Isolamento
 Nega a existência do problema ou situação;
 Necessidade de isolamento;
 Pode não acreditar na informação que está
recebendo, tenta esquecê-la, ou não pensar nela
ou ainda busca provas ou argumentos da sua
inexistência na realidade.
Eu fiquei perguntando pro meu pai, “pai você viu ele lá?” “É
de verdade?” Eu não queria acreditar (participante V).
Isso não pode está acontecendo comigo (participante A).
Negação e Isolamento

 Uma nova gravidez – pode ocorrer logo após a


perda de um bebê. Por vezes guardam o nome
desejado para o próximo bebê.
 [...] eu não consigo escolher um outro nome de menina pra
minha próxima filha. Eu não consigo. até comentei com a
minha sogra "mas pq o mesmo nome?", falei assim "pq eu
gosto desse nome", gosto muito. E o nome Maria Sophia
nunca vai sair da minha vida, nunca! Vai ser um nome
assim, gravado pra sempre (participante M).
Raiva
 Aparecimento de emoções como revolta ou
ressentimento;
 Auto-culpabilização ou culpabilização da equipe
médica, familiares, Deus..., como causadores de seu
sofrimento;
 Sentimento de inconformismo e a pessoa vê a
situação como injustiça.
Isso não pode estar acontecendo comigo. Por que eu?
(Paciente E)
Isso não é justo (Paciente M).
Barganha
 Tentativa de negociação com que se julga ser o
responsável pela situação. Essa negociação pode
acontecer com o próprio indivíduo ou às vezes
voltada para espiritualidade;
 Promessas e pactos são formas muito comuns nessa
fase.
Eu ofereci minha vida pra Deus várias vezes pra ele ficar vivo,
ele não aceitou, porque eu não sei, não tenho essa resposta,
certo?! (Paciente D).
Depressão

 Tristeza,
 Culpa,
 Desesperança,
 Medo,
 Introspecção,
 Necessidade de isolamento.
Depressão

 [...] eu devia ter ficado quieta, eu não devia ter dirigido,[...]


(participante I).
 No começo eu me culpei porque eu perdi o bebê, né? Porque
nem o útero presta (participante A).
 Não tenho vontade de fazer nada, dá vontade nem de
levantar da cama. Às vezes toma raiva da cara de algumas
pessoas. A gente não percebe que passou tanto tempo e a
gente ficou parada no tempo (participante V).
Aceitação
 Enfrentamento da situação, a pessoa não nega a
realidade e não se desespera;
 Consciência das possibilidades e limitações.
As vezes quando eu to sozinha e me bate uma tristeza assim, eu
penso em muita coisa que poderia estar acontecendo hoje, que assim
que poderia acontecer de ruim com ele e que Deus poupou ele de estar
passando por isso, entendeu?! E como tempo, não sei se com você vai
ser assim, mas comigo era, que o amor cuida dessa dor que vai
transformando em saudade, e a saudade vai ser pra sempre. Mas a
dor eu posso afirmar pra vocês que dói, não passa não, mas, o amor
ele melhora todas as dores. É nisso que eu me agarro (paciente V).
Papel da(o) psicóloga(o) no luto perinatal

 O enfrentamento da dor psíquica de uma perda, deve ser


“dita, vivida, sentida, refletida e elaborada, mas nunca
negada” (Gesteira et al, 2006, p.465);

 Atitudes terapêuticas:
 utilizar de abordagens terapêuticas: incentivar a visita ao bebê,
encorajando, caso queiram, a tocá-lo, com intuito de recolher
lembranças possíveis desse momento;
 considerar o tempo do processo de luto que não pode ser
apressado, mas deve ser utilizado para melhorar a capacidade da(o)
enlutada(o) de elaborar a perda do bebê;
 ajudar com que as(os) enlutadas(os) e seus familiares se apropriem
da situação que estão vivendo, para posteriormente falar e alcançar
a aceitação.
Papel da(o) psicóloga(o) no luto perinatal
 Atitudes da equipe multiprofissional:
 Propor e encorajar os pais a ver, tocar, tomar o bebê morto em seus
braços, mesmo se ele é natimorto, macerado e/ou malformado;
 Evitar os sedativos e reserva-los unicamente para combater as
insônias insuportáveis;
 Se a morte é precedida por um período na UTIN, os pais devem
visitar seu bebê, participar dos cuidados e das decisões importantes;
 É preciso pedir-lhes para dar um nome ao bebê;
 Sugerir que organizem um funeral e dar um túmulo ao bebê;

 É útil incentivar que se recolham lembranças (pulseirinha de


identificação, impressões digitais, ...);
 A volta para a casa é extremamente dolorosa, devendo ajudar os
pais prevendo a tristeza que será desmanchar ou rearrumar os
objetos;
O trabalho em equipe é indispensável para o atendimento aos
pais e familiares e para isso deve-se organizar um lugar de palavra e
escuta à equipe multiprofissional de Saúde.
Por muito tempo achei que a ausência é falta
E lastimava ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta sem ausência.
A ausência é estar em mim.
E sinto-a branca, tão apegada, aconchegada, em meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drumond de Andrade


Referências bibliográficas
 Barasuol, E. B. (2012). Do luto a luta: contribuições do psicodrama na
psicoterapia com mães que perderam filhos. Recuperado de
www.idh.com.br/monografias/mono_Barasuol.EvandirBueno.pdf, p. 8-12.
 Freud, S. (1976). Luto e melancolia. In:______. Obras completas. Rio de
Janeiro: Imago, v. XIV, p.277-8.
 Gesteira, S.M.A.; Barbosa, V. L. & Endo, P. C. (2006). O luto no processo
de aborto provocado. Acta Paulista de Enfermagem, 19(4), 462-467.
 Green, A. (1988). A mãe morta. In:______. Narcisismo de vida, narcisismo
de morte. São Paulo: Escuta, p. 239-237.
 Iaconelli, V (2007). Luto insólito, desmentido e trauma: clínica psicanalítica
com mães de bebês. Ver. Latin. Americana de Psicopat. Fund. vol.10, n. 4.
 Lansky, S., França, E., & Leal, M. do C. (2002). Mortalidade perinatal e
evitabilidade: revisão da literatura. Revista de Saúde Pública, 36(6), 759-
772. https://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102002000700017.
 Silva, K. M. S.; Gramacho, P. M. (2005). Discurso de pais enlutados:
investigação das formas de diminuição da dor do luto. Recuperado de
http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0288.pdf.