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CURSO DO PROF. DAMÁSIO A DISTÂNCIA

DIREITO PROCESSUAL PENAL


Da Aplicação da Lei Processual Penal

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DIREITO PROCESSUAL PENAL

Da Aplicação da Lei Processual Penal

Professor Fernando Capez

1. EFICÁCIA DA LEI PROCESSUAL NO ESPAÇO

A lei processual penal aplica-se a todas as infrações penais cometidas em


território brasileiro, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de Direito
Internacional. No processo penal vigora o princípio da absoluta territorialidade
(artigo 1.º do Código de Processo Penal).

Ao contrário do que pode parecer, os incisos do artigo 1.º não cuidam de


exceções à territorialidade da lei processual penal brasileira, mas sim de exceções
à aplicação do Código de Processo Penal. O inciso I do artigo 1.º contempla
verdadeiras hipóteses excludentes da jurisdição criminal brasileira.

Considera-se praticado em território brasileiro o crime cuja ação ou


omissão, ou cujo resultado, no todo ou em parte, ocorreu em território nacional
(artigo 6.º do Código Penal).

Considera-se, para efeitos penais, como extensão do território nacional: as


embarcações e aeronaves públicas ou a serviço do governo brasileiro, onde quer
que se encontrem, e as embarcações e aeronaves particulares que se acharem em
espaço aéreo ou marítimo brasileiro ou em alto-mar ou espaço aéreo
correspondente.

2. EFICÁCIA DA LEI PROCESSUAL PENAL NO TEMPO

Toda norma jurídica limita-se no tempo e no espaço. Isso quer dizer que a
norma se aplica em um determinado território durante um determinado lapso de
tempo.

A eficácia temporal das normas processuais é disciplinada pela Lei de


Introdução ao Código Civil, nos artigos 1.º, 2.º e 6.º.

As normas de direito processual têm aplicação imediata, sem efeito


retroativo. Adotou-se, portanto, o princípio tempus regit actum.

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O artigo 2.º do Código de Processo Penal dispõe: “A lei processual penal
aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo dos atos realizados sob a vigência da lei
anterior.” A aplicação do dispositivo gera dois efeitos:

1) os atos processuais praticados na vigência da lei anterior são


considerados válidos;

2) as normas da lei nova aplicam-se imediatamente, respeitados o


ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.

No caso de normas mistas (de natureza processual e material), prevalece o


caráter material, devendo ser aplicada a regra do artigo 2.º do Código Penal, ou
seja, retroagirá para beneficiar o réu.

A lei tem vigência até que outra expressa ou tacitamente a revogue. A


revogação ainda pode ser total (ab-rogação) ou parcial (derrogação).

3. IMUNIDADES

3.1. Imunidades Diplomáticas


Os chefes de Estado e os representantes de governos estrangeiros estão
excluídos da jurisdição criminal dos países em que exercem suas funções. A
imunidade estende-se a todos os agentes diplomáticos, ao pessoal técnico e
administrativo das representações, aos seus familiares e aos funcionários de
organismos internacionais (ONU, OEA etc.).

Admite-se a renúncia à garantia da imunidade.

3.2. Imunidades Parlamentares


São de duas espécies:

• material (absoluta): alcança os Deputados Federais, Deputados


Estaduais e Senadores, garantindo-lhes a inviolabilidade por suas
palavras, opiniões e votos. Para alguns, trata-se de causa de exclusão
de ilicitude, para outros, causa funcional de isenção de pena. É
irrenunciável. Estende-se também aos Vereadores se o crime foi
praticado no exercício do mandato e na circunscrição do Município;

• processual, formal ou relativa: consiste na garantia de não ser preso,


salvo por flagrantes de crime inafiançável. Alcança os Deputados
Estaduais, mas não alcança os Vereadores.

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4. INTERPRETAÇÃO DA LEI PROCESSUAL PENAL

Artigo 3.º do Código de Processo Penal: “A lei processual penal admitirá


interpretação extensiva e aplicação analógica, bem como o suplemento dos
princípios gerais de direito.”

Interpretar uma norma significa buscar seu alcance e real significado.

4.1. Espécies

4.1.1. Quanto ao sujeito que elabora


• Autêntica ou legislativa: feita pelo próprio órgão encarregado da
elaboração da lei. Pode ser:

– contextual: feita pelo próprio texto interpretado;

– posterior: feita após a entrada em vigor da lei.

• Doutrinária ou científica: feita pelos estudiosos e doutores do Direito.


Observação: as exposições de motivos constituem forma de
interpretação doutrinária, uma vez que não são leis.

• Judicial: feita pelos órgãos jurisdicionais.

4.1.2. Quanto aos meios empregados


• Gramatical, literal ou sintática: leva-se em conta o sentido literal das
palavras.

• Lógica ou teleológica: busca-se a vontade da lei, atendendo-se aos seus


fins e à sua posição dentro do ordenamento jurídico.

4.1.3. Quanto ao resultado


• Declarativa: há perfeita correspondência entre a palavra da lei e sua
vontade.

• Restritiva: a interpretação vai restringir o seu significado, pois a lei


disse mais do que queria.

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• Extensiva: a interpretação vai ampliar o seu significado, pois a lei disse
menos do que queria.

4.2. Interpretação da Norma Processual Penal


A lei processual admite interpretação extensiva, pois não contém
dispositivo versando sobre direito de punir.

Exceções: tratando-se de dispositivos restritivos da liberdade pessoal


(prisão em flagrante, por exemplo), o texto deverá ser rigorosamente
interpretado. O mesmo quando se tratar de regras de natureza mista.

4.3. Formas de Procedimento Interpretativo


• Eqüidade: correspondência ética e jurídica da circunscrição – norma ao
caso concreto;

• Doutrina: estudos, investigações e reflexões teóricas dos cultores do


direito;

• Jurisprudência: repetição constante de decisões no mesmo sentido em


casos semelhantes.

5. ANALOGIA

Consiste em aplicar a uma hipótese não regulada por lei disposição


relativa a um caso semelhante.

5.1. Fundamento
Ubi eadem ratio, ibi eadem jus (onde há a mesma razão, aplica-se o
mesmo Direito).

5.2. Natureza Jurídica


Forma de auto-integração da lei, ou seja, forma de supressão de lacunas.

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5.3. Distinção
• Analogia: inexiste norma reguladora para o caso concreto, devendo ser
aplicada norma que trata de hipótese semelhante.

• Interpretação extensiva: existe norma reguladora do caso concreto,


mas esta não menciona expressamente sua eficácia.

• Interpretação analógica: a norma, após uma enumeração casuística,


traz uma formulação genérica. A norma regula o caso de modo
expresso, embora genericamente (exemplo: artigo 121, § 2.º, inciso III
e IV do Código Penal).

Observação: não confundir interpretação analógica com aplicação


analógica. Aquela é forma de interpretação e esta forma de auto-
integração.

5.4. Espécies de Analogia


• In bonam partem – em benefício do agente.

• In malam partem – em prejuízo do agente.

6. FONTES DO DIREITO PROCESSUAL PENAL

6.1. Conceito
É de onde provém o Direito.

6.2. Espécies
• Material ou de produção: aquela que cria o Direito; é o Estado.

• Formal ou de cognição: aquela que revela o Direito. Pode ser:

– imediata: lei;

– mediata: costumes e princípios gerais do direito (costume é o


conjunto de normas de comportamento a que as pessoas obedecem
de maneira uniforme e constante, pela convicção de sua

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obrigatoriedade jurídica. Princípios gerais do direito são
postulados gerais que se fundam em premissas éticas extraídas do
material legislativo).

7. DA PERSECUÇÃO PENAL

7.1. Conceito
É a atividade do Estado que consiste em investigar, processar, comprovar
e julgar o fato punível.

7.2. Etapas da Persecução Penal


A persecução penal no Brasil desenvolve-se em duas etapas:

1) Fase de investigação (preliminar);

2) Fase Judicial ou Processual (ação penal).

7.3. Investigação
Compete, em regra, à polícia judiciária desenvolver a fase de investigação.

Porém, outras autoridades também podem investigar desde que haja


previsão legal: 1) juiz da falência investiga crime falimentar; 2) agentes fiscais
investigam crimes fiscais.

Artigo 4.º, parágrafo único, do Código de Processo Penal: “A competência


definida neste artigo não excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei
seja cometida a mesma função.”

O Ministério Público pode investigar? O Superior Tribunal de Justiça já


admitiu.

O particular pode investigar? A investigação feita por particular não é


proibida. Poderá ser realizada, mas os resultados devem ser enviados à polícia ou
ao Ministério Público.

O juiz pode investigar? Sim, em duas hipóteses: 1) crime falimentar; 2)


Lei do Crime Organizado (artigo 3.º).

No Brasil, não há o chamado juizado de instrução, que consiste na

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possibilidade de o juiz presidir investigação. Somente nas hipóteses de crime
falimentar e crime organizado o juiz preside as investigações.

7.3.1. Polícia Judiciária


É exercida por autoridades policiais; visa apurar o fato e sua autoria. É
auxiliar da justiça; investiga crimes (artigo 13 do Código de Processo Penal).

O controle externo da polícia está previsto constitucionalmente e é


exercido pelo Ministério Público (artigo 129, inciso VII, da Constituição
Federal). Na prática, inexiste lei complementar para disciplinar a matéria.

No Brasil, a polícia judiciária é exercida:

- pela polícia civil;

- pela polícia federal;

- pela polícia militar nos crimes militares.

A polícia judiciária exerce suas funções conforme alguns critérios:

- territorial: quanto ao lugar da atividade pode ser terrestre, marítima ou


aérea;

- em razão da matéria;

- em razão da pessoa (exemplo: delegacia da mulher).

A inobservância de qualquer um desses critérios não implica nulidade; é


mera irregularidade que não contamina a ação penal.

Artigo 22 do Código Processo Penal: “No Distrito Federal e nas comarcas


em que houver mais de uma circunscrição policial, a autoridade com exercício
em uma delas poderá, nos inquéritos a que esteja procedendo, ordenar diligências
em circunscrição de outra, independentemente de precatórias ou requisições, e
bem assim providenciará, até que compareça a autoridade competente, sobre
qualquer fato que ocorra em sua presença noutra circunscrição.”

7.3.2. Polícia de Segurança (Administrativa ou Preventiva)


É a polícia ostensiva, fardada, exercida em regra pela polícia militar.
Normalmente, não investiga crime (exceto os militares), pois tem caráter
preventivo.