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Texto adaptado por José Aristides da Silva Gamito

Baseado na comparação sinótica e em escritos extra-bíblicos

A ÚLTIMA SEMANA
DE JESUS

Conceição de Ipanema
2010
PRIMEIRO DIA: ENTRADA EM JERUSALÉM

(Jesus e seus discípulos aproximavam-se de Jerusalém e chegaram aos arredores de Betfagé e


de Betânia, perto do monte das Oliveiras. Desse lugar Jesus enviou dois dos seus discípulos,
dizendo-lhes:)
JESUS: Ide à aldeia que está defronte de vós e, logo ao entrardes nela, achareis preso um
jumentinho, em que não montou ainda homem algum; desprendei-o e trazei-mo. E se alguém
vos perguntar: Que fazeis?, dizei: O Senhor precisa dele, mas daqui a pouco o devolverá.

(Os discípulos saem. Na aldeia, encontram um jumento e o começam a desamarrá-lo, um dos


dois homens que estão na rua interferem).
EMPREGADO: Ei, que estais fazendo? Por que soltais o jumentinho?
DISCÍPULO 1: O Rabi precisa dele, mas daqui a pouco o devolverá.
DISCÍPULO 2: É isso mesmo, não se preocupe.
EMPREGADO: Está bem. Então, podem ir.

(Conduzem a Jesus o jumentinho, cobrem-no com seus mantos, e Jesus monta nele. A
multidão estende seus mantos no caminho; outros cortam ramos das árvores e espalham-nos,
pelo chão)
MULTIDÃO 1: Hoshannah! Bendito o que vem em nome de Adonai! (pausa) O Bendito o
Rei que vai começar, o reino de Davi, nosso pai! Hoshannah no mais alto dos céus!
MULTIDÃO 2: Hoshannah! Hoshannah!
FARISEU: Rabi, repreende teus discípulos.
JESUS: Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão.
MULTIDÃO 1: Hoshannah! Hoshannah!

(Jesus entra em Jerusalém e dirige-se ao templo. Aí lança-os olhos para tudo o que o cerca.
Depois, retorna para Betânia).
JESUS: Vamos partir para Betânia. Amanhã voltaremos ao templo.

SEGUNDO DIA: O CONFRONTO ENTRE A FÉ E O DINHEIRO

(Os discípulos e Jesus saem de Betânia. Enquanto, caminham, avistam uma figueira).
JESUS: Tenho fome.
DISCÍPULO 1: Olhe lá, rabi, há uma figueira ali.
JESUS (Dirigindo-se à árvore): Vamos ver se tem fruto.
DISCÍPULO 2: Não há nenhum fruto.
JESUS (Apontando o dedo): Jamais alguém coma um fruto seu.
(Em Jerusalém. Jesus entra no templo. E começa a expulsar os comerciantes; derruba as
mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. Tumulto e gritaria.)
COMERCIANTE 1: Que isso! Que loucura é essa!
GRUPO: Guardas! Guardas!
COMERCIANTE 2: Ai, seu louco!
JESUS: Tirai isto daqui. Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de
oração para todas as nações? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões. Não façais da casa de
meu pai uma casa de comércio.
COMERCIANTE 3: Que sinal nos mostras para agires assim?
JESUS: Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei.
COMERCIANTE 4: Quarenta e seis anos foram precisos foram precisos para se construir
este templo , e tu o levantarás em três dias?

(Em seguida, Jesus cura cegos e paralíticos. Eles ficam maravilhados e ele passa no meio da
multidão.)
CRIANÇAS: Hoshannah ao Filho de Davi!
SACERDOTE: Está ouvindo o que estão dizendo?
JESUS: Sim. Nunca leram que: “Da boca dos pequeninos e das crianças de peito preparaste
um louvor para ti?

(Os sacerdotes e escribas observam a atitude de Jesus, assustados. Jesus sai do templo, os
discípulos o acompanham).
SUMO SACERDOTE: Este homem não pode continuar solto e agindo assim.
ESCRIBA: Precisamos elaborar um plano para prendê-lo.
SACERDOTE: O povo o admira. Precisamos prendê-lo longe da multidão. Não durante a
festa, para não haver tumulto entre o povo!

TERCEIRO DIA:
(De manhã os discípulos passam próximo à figueira seca e se dirigem ao Templo.)
ANDRÉ: Rabi, olhe a figueira que o senhor amaldiçou, secou.
JESUS: Tenham fé em Deus. Em verdade, lhes digo: se alguém disser a esta montanha:
‘Arranca-te e joga-te no mar’, sem duvidar no coração, mas acreditando que vai acontecer,
então acontecerá. Por isso, lhes digo: tudo o que pedirem na oração, creiam que já o
receberam, e lhes será concedido. E, quando estiverem de pé para a oração, se têm alguma
coisa contra alguém, perdoem, para que o Pai de vocês que está nos céus também perdoe os
seus pecados.
(Eles entram no Templo. Lá há uma multidão.)
SUMO SACERDOTE: Com que autoridade faz essas coisas? Quem lhe deu autoridade para
fazer isso?
JESUS: Vou fazer-lhes uma só pergunta. Respondam-me, que eu lhes direi com que
autoridade faço isso. O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondam-me!
ANCIÃO: Não sabemos.
JESUS: Pois eu também não lhes digo com que autoridade faço essas coisas!
FARISEU: Rabi, sabemos que é verdadeiro e não se deixa influenciar por ninguém. Você não
olha a aparência das pessoas, mas ensina segundo a verdade o caminho de Alaha. Diga-nos: é
permitido ou não pagar imposto a Kaiser? Devemos dá-lo ou não?
JESUS: Por que me armam uma armadilha? Tragam-me a moeda do imposto para eu ver.
(Alguém mostra uma moeda). De quem é esta figura e a inscrição?
HERODIANO: De Kaiser?
JESUS: Devolvam, pois, a Kaiser o que é de Kaiser e a Alaha, o que é de Alaha.
ESCRIBA: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
JESUS: O primeiro é este: ‘Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor,
teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda
a tua força! ’ E o segundo mandamento é: ‘Amarás teu próximo como a ti mesmo’! Não existe
outro mandamento maior do que estes.
ESCRIBA: Muito bem, Rabi! Na verdade, é como disse: ‘Ele é único, e não existe outro além
dele. Amar a Deus de todo o coração, com toda a mente e com toda a força, e amar o próximo
como a si mesmo, isto supera todos os holocaustos e sacrifícios’.
JESUS: Você não está longe do Reino de Alaha. (Prossegue). Cuidado com os escribas! Eles
fazem questão de andar com amplas túnicas e de serem cumprimentados nas praças gostam
dos primeiros assentos na sinagoga e dos lugares de honra nos banquetes. Mas devoram as
casas das viúvas, enquanto ostentam longas orações. Por isso, serão julgados com mais rigor.
PEDRO: Bem, rabi, já está na hora. A caminhada é longa.
JESUS: Eyn, vamos pra casa.

QUARTO DIA: JESUS EM BETÂNIA

(Em Betânia, em casa de Simão. Jesus chega para jantar. E no meio da conversa, uma mulher
entra trazendo um frasco de perfume para ungir a cabeça de Jesus.)
SIMÃO: Shlam lech, rabi!
JESUS: Lech shlam, Shimon!
SIMÃO: Adoni, é uma grande satisfação recebê-lo para este jantar.
CONVIDADO 1 (falando do gesto da mulher): Para que este desperdício de perfume?
CONVIDADO 2: Este perfume poderia ter sido vendido por trezentos denários para dar aos
pobres.
CONVIDADO 3: Isso mesmo!
JESUS: Deixem-na em paz! Por que a incomodam? Ela praticou uma boa ação para comigo
Os pobres sempre têm com vocês e podem fazer-lhes o bem quando quiserem. Mas a mim não
terão sempre. Ela fez o que estava a seu alcance. Com antecedência, ela embalsamou o meu
corpo para a sepultura. Em verdade lhes digo: onde for anunciado o Evangelho, no mundo
inteiro, será mencionado também, em sua memória, o que ela fez.
(Depois do gesto, Jesus toca a mulher e se despede dela.)

(Judas entrega Jesus ao sacerdotes e autoridades do Templo)


JUDAS: Shlam lech, eu sou Yehudah, discípulo de Yeshua. Quanto vocês me pagam para eu
o entregar-lhes?
SACERDOTE: Trinta moedas.
JUDAS: Feito.
SACERDOTE: Antes da festa de Pesach à noite, sem tumulto, os guardas vão com você até
ele.
(Judas parte.)

QUINTO DIA: A ÚLTIMA CEIA

(Jesus toma a decisão de comer a ceia pascal com seus discípulos.)


PEDRO: Rabi, onde quer que façamos os preparativos para comer páscoa?
JESUS: Vão à cidade. Um homem carregando uma bilha de água virá ao encontro de vocês.
Sigam-no e digam ao dono da casa em que ele entrar: O Rabi manda perguntar: Onde está a
sala em que posso comer a ceia pascal com os meus discípulos?

(Os discípulos saem e avistam na entrada da construção um homem com uma bilha. Entram
na casa, acompanhando-o.)
PEDRO: Shlam lech, adoni! O Rabi manda perguntar: Onde está a sala em que posso comer
a ceia pascal com os meus discípulos?
HOMEM DA BILHA: Lech shlam. Vão até o andar de cima. Lá está a sala onde vocês vão
preparar a ceia.

(Os discípulos preparam o ambiente para a ceia. Tempo depois, Jesus chega para a ceia.)
JESUS: Em verdade lhes digo, um de vocês vai me entregar, aquele que come comigo.
TIAGO: Acaso, serei eu?
TOMÉ: Ou eu, rabi?
JESUS: É um dos doze, aquele que se serve comigo do prato (pausa). O Filho do Homem se
vai, conforme está escrito a seu respeito. Ai, porém, daquele por quem o Filho do Homem é
entregue. Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido! (Elevando o pão): Baruch Atá
Yah Elohenu Mélech Há-olam ha-motsi lechem min ha-árets. Tomai, isto é o meu corpo.
(Elevando o cálice): Baruch Atá Yah Elohenu Mélech Ha-olam Borê Peri Ha-gafen. Este é
o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos. Em verdade, não beberei mais do
fruto da videira até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Alaha.
CORO (Recitam o salmo 136): Hodhu layhvh kiy-thobh kiy le`olâm chasdo / hodhu layhvh
kiy-thobh kiy le`olâm chasdo / Hodhu lê'lohêyhâ'elohiym kiy le`olâm chasdo / hodhu
la'adhonêy hâ'adhoniym kiy.le`olâm chasdo / le`osêh niphlâ'oth gedholoth lebhaddo kiy
le`olâm chasdo / le`osêh hashâmayim bithbhunâh kiy le`olâm chasdo / leroqa` hâ'ârets`al-
hammâyim kiy le`olâm chasdo / hodhu le'êl hashâmâyim kiy le`olâm chasdo.

SEXTO DIA: O JULGAMENTO DE JESUS

CENA I
(Depois do canto dos Salmos, dirigiram-se eles para o monte das Oliveiras.)
JESUS: Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda; porque está escrito:
Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas. Mas, depois da minha
Ressurreição, eu vos precederei na Galileia.
PEDRO: Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás.
JESUS: Em verdade te digo: nesta noite mesma, antes que o galo cante, três vezes me
negarás.
PEDRO: Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei! E todos os outros
discípulos diziam-lhe o mesmo.
(Retirou-se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani.)
JESUS: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou ali orar.
(E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a
angustiar-se.)
JESUS: Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo.
(Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou.)
JESUS: Abba, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero,
mas sim o que tu queres.
(Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo.)
JESUS: Então não pudestes vigiar uma hora comigo. Vigiai e orai para que não entreis em
tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.
(Afastou-se pela segunda vez e orou.)
JESUS: Abba, se não é possível que este cálice passe sem que eu o beba, faça-se a tua
vontade!
(Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados.
Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Voltou então.)
JESUS: Dormi agora e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas
mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui.

CENA II
(Jesus ainda falava, quando veio Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão de gente
armada de espadas e cacetes, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do
povo.)
JUDAS (Aproxima-se imediatamente de Jesus e beija-o): Shlam lach, Rabi!
JESUS: É, então, para isso que vens aqui?
(Em seguida, adiantam-se eles e lançam mão em Jesus para prendê-lo. Mas um dos
companheiros de Jesus desembainhou a espada e feriu Malchus, um servo do sumo sacerdote,
decepando-lhe a orelha.)
JESUS: Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada
morrerão. Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de
doze legiões de anjos? Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais é
preciso que seja assim? (Depois, voltando-se para o grupo): Saístes armados de espadas e
porretes para prender-me, como se eu fosse um malfeitor. Entretanto, todos os dias estava eu
sentado entre vós ensinando no templo e não me prendestes. Mas tudo isto aconteceu porque
era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas.

CENA III
(Então os discípulos fogem. Jesus é conduzido a Caifás. Pedro segue de longe, depois que as
tropas entram, ele se senta junto aos criados. Prossegue-se o interrogatório).
TESTEMUNHA: Posso destruir o templo de Alaha e reedificá-lo em três dias.
SUMO SACERDOTE (Levantando-se): Nada tens a responder ao que essa gente depõe
contra ti? (Pausa) Por Deus vivo, conjuro-te que nos digas se és o Meshikha, o Filho de
Alaha?
JESUS: Sim. Além disso, eu vos declaro que vereis doravante o Filho do Homem sentar-se à
direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu.
SUMO SACERDOTE (rasgando a roupa): Que necessidade temos ainda de testemunhas?
Acabastes de ouvir a blasfêmia! Qual o vosso parecer?
GRUPO: Merece a morte!
(Cuspiram-lhe então na face, bateram-lhe com os punhos e deram-lhe tapas)
GRUPO: Adivinha, ó Meshikha: quem te bateu?
(Enquanto isso, Pedro está sentado no pátio. Aproxima-se dele uma das servas.)
SERVA: Também tu estavas com Yeshua, o Galileu.
PEDRO: Não sei o que dizes.
(Dirige-se ele para a porta, a fim de sair, quando outra criada o vê e diz)
SERVA (indicando): Este homem também estava com Yeshua de Nazaré.
(Pedro, pela segunda vez, negou com juramento)
PEDRO: Eu nem conheço tal homem.
(Pouco depois, os que ali estão aproximam-se de Pedro)
SERVO: Sim, tu és daqueles; teu modo de falar te dá a conhecer.
(Pedro começa a se desculpar e fazer juramentos. E, neste momento, canta o galo. Pedro se
lembra de Jesus, sai e chora).

CENA IV
(Chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reúnem-se em
conselho para entregar Jesus à morte. Amarram-no e o levam a Pilatos. Judas vendo-o então
condenado, tomado de remorsos, vai devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as
trinta moedas de prata).
JUDAS (jogando as moedas no chão): Pequei, entregando o sangue de um justo. (Sai e vai se
enforcar).
SACERDOTE 1: Que nos importa? Isto é lá contigo!
SACERDOTE 2: Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de
sangue.
(Jesus comparece diante de Pilatos)
PILATOS: És o rei dos judeus?
JESUS: Sim.
(Sacerdotes e anciãos fazem acusações).
PILATOS: Não ouves todos os testemunhos que levantam contra ti?
PILATOS: Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Yeshua, que se chama Meshikha?
CLÁUDIA (entra no tribunal): Nihil tibi et iusto illi. Multa enim passa sum hodie per visum
propter eum.
(Os sacerdotes incitam o povo a gritar por Barrabás)
PILATOS: Qual dos dois quereis que eu vos solte?
MULTIDÃO: Barabba!
PILATOS: Que farei então de Yeshua, que é chamado o Meshikha?
MULTIDÃO: Seja crucificado!
PILATOS: Mas que mal fez ele?
MULTIDÃO: Seja crucificado?
(Pilatos pede água e imediatamente lava as mãos e dá sinal para que os soldados soltem
Barrabás)
PILATOS: Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco!
MULTIDÃO: Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos!
PILATOS: Soltai Barabba e castigai Yeshua.
(Os soldados do governador conduzem Jesus para o pretório e rodeiam-no com todo o
pelotão. Arrancam-lhe as vestes e colocam-lhe um manto avermelhado. Depois, trançaram
uma coroa de espinhos, metem-lha na cabeça e põem-lhe na mão uma vara. Dobrando os
joelhos diante dele, dizem zombando:)
SOLDADOS: Salve, rei dos judeus!
(Cospem-lhe no rosto e, tomando da vara, dão-lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem
dele, tiram-lhe o manto e entregam-lhe as roupas)
CENA V
(Em seguida, levam-no para o crucificar. Outros dois criminosos são levados juntos. Saindo,
encontram Simão de Cirene, a quem obrigam a levar a cruz de Jesus.)
SOLDADOS (avançando sobre Simão): Ajuda a este condenado a levar sua cruz.
(Voltando-se para as mulheres que choram, Jesus diz)
JESUS: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre
vossos filhos. Porque virão dias em que se dirá: Felizes as estéreis, os ventres que não geraram
e os peitos que não amamentaram! Então dirão aos montes: Caí sobre nós!
E aos outeiros: Cobri-nos! Porque, se eles fazem isto ao lenho verde, que acontecerá ao seco?

CENA VI
(Ao despirem-no e o pregarem na cruz, repartem entre si a sua roupa.)
SOLDADO 1: Que túnica bonita! Não a rasguemos, mas deitemos sorte sobre ela, para ver de
quem será.
SOLDADOS: Vamos!
SOLDADO 2 (depois do sorteio): Eba, é minha!
(Crucificam os outros criminosos. Levantam a cruz de Jesus e dependuram a inscrição.
Próximas a cruz, ficam Maria, Maria de Mágdala e Maria de Cléofas e Maria de Zabedeu)
JESUS: Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem.
ALGUÉM DA MULTIDÃO 1: Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-
te a ti mesmo! Se és o Filho de Alaha, desce da cruz!
SACERDOTE: Ele salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça
agora da cruz e nós creremos nele! Confiou em Alaha, Alaha o livre agora, se o ama, porque
ele disse: Eu sou o Filho de Alaha!
ALGUÉM DA MULTIDÃO 2: Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.
ALGUÉM DA MULTIDÃO: Ouvi, ele está chamando Elias!
ALGUÉM DA MULTIDÃO 2: Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-lo.
JESUS (olhando para Maria): Mulher, eis aí teu filho. (Olhando para João): Eis aí tua mãe.
GESTAS: Se és o Meshikha, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!
DIMAS: Nem sequer temes a Alaha, tu que sofres no mesmo suplício? Recebemos o que
mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. Yeshua, lembra-te de mim, quando
tiveres entrado no teu Reino!
JESUS: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.
JESUS: Tenho sede.
SOLDADO: Dá-lhe de beber fel com vinagre.
(Estéfato molha a esponja com vinagre, dá-lhe, mas ele rejeita.)
JESUS (gritando): Eli, Eli, lammá azabetáni, rahoq miyshu’ti dibarey sha’agati?
JESUS: Abba, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, dizendo isso, expirou.
(Suspirando e abaixando a cabeça): Tudo está consumado.
(Forma-se uma tempestade)
LONGINO: Vere Dei Filius erat iste!

CENA VII
(José de Arimatéia e Nicodemos tomam a iniciativa de sepultar o corpo de Jesus.)
JOSÉ DE ARIMATÉIA (dirigindo-se a Maria): Míriam, eu e Nikodemos pedimos a
Pilatus permissão para sepultar o corpo.
(José toma o corpo, envolve-o num lençol branco e o deposita no sepulcro. Depois rola
uma grande pedra à entrada do sepulcro e vai-se embora)

PRIMEIRO DIA: “EIS QUE EU FAÇO NOVAS TODAS AS COISAS”

(Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, Joana e Salomé vão ao túmulo
levando aromas.)
MARIA MADALENA: Quem rolará a pedra da entrada do túmulo para nós?
SALOMÉ: Vejam só! A pedra foi removida. (Apressam os passos.)
UM JOVEM: Não fiquem espantadas! Estão procurando Yeshua Há Natsri, o Crucificado.
Ressuscitou, não está aqui. Vejam o lugar onde o puseram. Mas vão dizer aos seus discípulos
e a Kefa que ele vão precedê-los na Galileia. Lá o verão, como lhes tinha dito.

(As mulheres saem correndo e contam o ocorrido aos outros discípulos. Todos partem ao
encontro de Jesus.)
JESUS: Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Nova a toda criatura! Quem crer e for
batizado será salvo. Quem não crer será condenado. Eis os sinais que acompanharão aqueles
que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas; se pegarem em
serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos
sobre os doentes, estes ficarão curados! Shlam Lech!