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EM BUSCA DA MEMÓRIA

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REsenha e comentário acerca do livro de Eric Kandel "Em Busca da Memória" traduzido para o português no ano passado. Discussão de algumas posições filosóficas de Kandel.
REsenha e comentário acerca do livro de Eric Kandel "Em Busca da Memória" traduzido para o português no ano passado. Discussão de algumas posições filosóficas de Kandel.

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Published by: Joao de Fernandes Teixeira on May 26, 2010
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EM BUSCA DA MEMÓRIA – Eric Kandel. São Paulo, Companhia das Letras. 2009. Tradução de Rejane Rubino.

Resenhado por João de Fernandes Teixeira Publicado também em www.filosofiadamente.org

Existe hoje em dia uma pergunta insidiosa que não parece poder ser calada tão cedo: será nossa consciência apenas um produto do cérebro? De nossos genes? Essa é uma questão que tem longa história. Na filosofia da mente contemporânea ela aparece sob a forma de um debate acerca da validade do reducionismo. Reduzir, nesse caso, é rastrear uma determinada função cognitiva a algum tipo de mecanismo cerebral. O reducionismo tem sido a ideologia espontânea dos neurocientistas, sobretudo após o desenvolvimento das novas técnicas de neuroimagem e de eletrofisiologia do neurônio. São essas técnicas que permitem fazer os novos mapas do cérebro e localizar neles onde se manifesta a mente. É com uma proposta desse tipo que Eric Kandel (prêmio Nobel de fisiologia ou medicina em 2002) abre seu livro Em busca da memória, recentemente traduzido para o português. Numa prosa agradável, ele nos relata a evolução da neurociência nos últimos 150 anos, começando com as descobertas de Galvani, de Ramón y Cajal (o neurônio) até chegar às suas próprias pesquisas. Kandel conta, então, como conseguiu, após anos de investigação, correlacionar os movimentos da Aplysia (um tipo de lesma marinha) com suas bases neuronais e moleculares. O movimento de que ele nos fala é o de retrair as guelras, que é correlacionado com mecanismos cerebrais e moleculares desse pequeno animal. Encontrar um caminho cerebral para esse movimento da Aplysia consumiu boa parte da vida desse pesquisador. Ele nos fala da adoção do “método reducionista” nas suas pesquisas, algo que nada mais é do que o que se chama em ciência cognitiva de estratégia top down: começar pela identificação de um comportamento ou uma função cognitiva e ir, numa ordem descendente, em direção a seus correlatos neurais, bioquímicos, moleculares e genéticos. O pressuposto é o de que animais simples como a Aplysia podem servir de modelo para organismos mais complexos como os seres humanos.

O “método reducionista” nada mais é do que o que os filósofos da mente chamam, pura e simplesmente, de reducionismo. Mas Kandel não nos fala explicitamente de reducionismo. Mesmo assim, isso não passa despercebido para um leitor com alguma formação filosófica. Seria interessante perguntar por que Kandel não reconhece o peso de suas posições filosóficas, uma vez que em um dos capítulos do livro discute e mostra conhecimento sobre as posições de vários filósofos da mente. Talvez isso ocorra pelo fato de o autor declarar, nas suas páginas de tom autobiográfico, que queria, originalmente, ser um psicanalista. Há um grande contraste entre passagens nitidamente reducionistas, como, quando ele nos fala da existência de um gene da sociabilidade e outras nas quais ele se preocupa em saber como as psicoterapias podem alterar o psiquismo e o comportamento das pessoas. A saída é admitir que terapias pela fala podem modificar o cérebro, da mesma maneira que medicações psiquiátricas. Em busca da memória é um livro instigante e de leitura agradável. Estrategicamente Kandel mistura a narrativa autobiográfica com a exposição de temas centrais da neurociência. Essa tem sido uma estratégia muito adotada pelos autores de livros de ciência destinados a um público mais amplo; uma estratégia que, diga-se de passagem, é de inspiração cartesiana. A inquietação que surge após a leitura desse texto origina-se, sem dúvida, de nossa relutância em aceitar a possibilidade de que sejamos apenas um pacote de genes. Isso pode causar profundo mal-estar. Richard Dawkins, no seu livro O gene egoísta já anunciava que não somos nada além de portadores e reprodutores de genes. Dessa perspectiva, o sujeito, o “eu” que nos acompanha é apenas uma ilusão. Psicólogos, psicanalistas e humanistas em geral não gostam nem querem ouvir isso. Para eles, o mental nunca poderia ser apenas um subproduto do cérebro. Mas, e se for? Será que já não está na hora de reconhecermos essa possibilidade e a levarmos em conta nas nossas discussões sobre sujeito, moral e liberdade? Não será a liberdade verdadeira aquela que sabe o que a condiciona?

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