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ADRIANA DO PIAUÍ BARBOSA
AFONSO SOUZA JUNIOR
ANA CAROLINA SANTANA
CAMILA MARROCOS FONSECA
DÉBORA SONALY BORGES SANTOS
GLÓRIA PRISCILA ANDRADE DA SILVA
JULIANA LIMA FREITAS
KETLYN DE SANTANA NASCIMENTO
LARISSA ELLEN MONTEIRO MACIEL
MÁRCIO VINÍCIUS PASSOS MOREIRA
PRISCILA CAVALCANTI CÔRTES
THISSIANE MATOS BATISTA

 
   

Trabalho apresentado à disciplina


Direito Internacional Privado,
turma A0 da Universidade Federal
de Sergipe com fim de avaliação
referente à Unidade II pelo
professor Doutorando Carlos
Rebêlo Júnior.

 

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1.1. INTRODUÇÃO: O ALICERCE DA DITADURA FRANQUISTA ...... 04
1.2. FRANCO: O CAUDILHO DA ESPANHA ........................................... 04
1.3. AS LEIS FUNDAMENTAIS: FRANQUISMO INSERIDO NO
CONTEXTO LEGAL .................................................................................. 05
1.4. UMA MONARQUIA SEM REI: A DOUTRINA FRANQUISTA ....... 05
1.5. O CONTROLE POLÍTICO DA ECONOMIA ...................................... 06
1.6. FORÇAS DE OPOSIÇÃO: CRISE E DECADÊNCIA DO GOVERNO
FRANQUISTA ............................................................................................ 07

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3.1. 1ª FASE DO JULGAMENTO (Sentença de 24 de julho de 1964) . ....... 11
3.2. 2ª FASE DO JULGAMENTO (Sentença de 05 de fevereiro de 1970) ... 14
3.3. A DECISÃO DA CORTE ..................................................................... 15
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4.1. JUIZ KOTARO TANAKA ................................................................... 16
4.2. JUIZ PHILIP C. JESSUP ...................................................................... 18
4.3. JUIZ ANDRÉ GROSS ......................................................................... 18
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- BIBLIOGRAFIA ....................................................................................... 23
- WEBGRAFIA............................................................................................ 23
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O presente trabalho tem por objetivo abordar sucintamente o que significou o
Caso O   
, situando-o em seu contexto histórico, com um breve relato sobre o
ocorrido, explanando as questões jurídicas levantadas pelas partes envolvidas (Bélgica e
Espanha) em seus pronunciamentos, trazendo a Decisão proferida pelo Tribunal Internacional
e pontuando aqueles que, na percepção da equipe discente, foram os votos de maior destaque
no julgamento em questão.
O método utilizado foi a da pesquisa bibliográfica; precipuamente em sítios
eletrônicos, mas também em acervo físico.
Registre-se que, não obstante os aspectos analisados durante a pesquisa não serem
restritos ao ramo do estudo do Direito Internacional Privado (a exemplo da introdução
histórica trazida com o fito de contextualizar o fato em estudo), as conclusões e abordagens
concentraram esforços no sentido de relacionar o assunto com os conceitos aprendidos na
referida disciplina, sem ter a pretensão de esgotar a análise do julgado.
Por fim, espera-se destacar as principais consequências trazidas, no plano
internacional e nacional, pelo Caso em foco, complementando o trabalho com a produção de
um questionário sobre o tema em questão.
 
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1.1. INTRODUÇÃO: O ALICERCE DA DITADURA FRANQUISTA

Apesar do modelo de regime autoritário, antidemocrático, que visa o controle


absoluto da sociedade, a ditadura Franquista não deve ser considerada como absolutamente
Fascista. O Franquismo, urge notar, não pretendeu a renovação total dos indivíduos, dos
valores, enfim, da sociedade como um todo.
Pode-se qualificar o regime franquista de ³ditadura militar´ embasado na
ideologia conservadora e católica espanhola, em meio a alguns elementos do fascismo
italiano.
O surgimento desse regime foi gestado entre os militares que se uniram contra os
males que, na opinião deles, a República estava causando.
Com isso, durante a Guerra Civil (1936/1939) confabulou-se, junto a Franco, o
novo regime. Francisco Franco, galego de formação militar, organizou todo um país como a
um grande quartel até a sua própria morte.
Impôs transformações dentro da sociedade, que alteraram visivelmente o cenário
corriqueiro dos espanhóis, inserindo, dentre outras coisas: mandado único e indiscutível;
ordem e obediência às autoridades; unidade de pátria; imposição dos valores religiosos e
católicos; nacionalismo espanhol; duro controle dos opositores; retomada da bandeira
monárquica, composta de elementos dos reis católicos no escudo; sufocamento dos sindicatos
de classe, criando uma organização híbrida que abrangia trabalhadores e patrões.

1.2. FRANCO: O CAUDILHO DA ESPANHA

Francisco Franco, membro da Junta de Defesa espanhola durante a Guerra Civil,


iniciou seu crescimento político ainda no período bélico, fazendo-se popular e somando
poderes com apoio de seus próprios companheiros. Com o triunfo na Guerra, sua autoridade
foi ratificada, e ele se tornou uma figura ainda mais forte.
Acumulando todos os poderes do Estado numa só pessoa, tornou-se ditador, sendo
chamado de Caudilho.
Num primeiro momento, tais poderes lhes foram outorgados sob restrições legais,
com a elaboração da Lei Orgânica do Estado. Esta Lei separou as funções de Chefe de Estado
e Chefe de Governo.
O poder de Franco sempre foi exercido com o apoio fundamental do exército,
pilar do regime ditatorial; afinal, eles defendiam o território, a integridade da pátria, a ordem
pública, e defendiam também o próprio Regime contra os famigerados inimigos internos (os
comunistas e os separatistas).

Muito embora a importância basilar do exército, o mesmo sempre foi obsoleto e


com escassa preparação.

1.3. AS LEIS FUNDAMENTAIS: FRANQUISMO INSERIDO NO


CONTEXTO LEGAL

As chamadas Leis Fundamentais, eram de um certo caráter constitucional, a fim


de dar legalidade ao regime. Como normas básicas, impunham condições de organização do
Estado.
Elas foram elaboradas durante quase trinta anos e, pelo seu caráter, foram
divididas em dogmáticas ou orgânicas.
Tais Leis foram inspiradas no fascismo de B. Mussolini, e regulamentavam, de
forma geral, diversos aspectos da vida política espanhola.

1.4 UMA MONARQUIA SEM REI: A DOUTRINA FRANQUISTA

Na Lei de Sucessão implementada durante o governo de Franco (1947), definiu-se


a Espanha como reino.
Por conta disso, o Conde João de Borbón reclamou a Franco o trono, já que, por
ser filho de Alfonso XIII seria o próximo na linha de sucessão. Contudo, a relação entre eles
não era amistosa, uma vez que Franco negou-se a ceder o poder até a data de sua morte,
quando deveria ser instaurada uma monarquia inspirada no seu regime.

O Conde João de Borbón, por sua vez, ansiava pela restauração da monarquia
borbônica. A solução encontrada por Franco não poderia ser mais perspicaz: afastou
arbitrariamente João de Borbón da linha de sucessão real, proclamando o filho do Conde,
João Carlos, como Príncipe herdeiro, atitude que enfraqueceu a família real internamente.
A Doutrina do Regime Franquista baseava-se no programa da Falange1, e na
união de forças daqueles que lhes apoiavam. As bases dessa doutrina foram lançadas ainda
durante a Guerra Civil, quando Franco determinou a união dos falangistas e dos requetés.

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1 Falange Espanhola é o partido político de índole Facista legalmente reconhecido durante a ditadura
Franquista. Fundada em 1933, a Falange aliou-se às forças nacionalistas de Franco durante a Guerra Civil
Espanhola (1936-9), que depôs o governo republicano de cunho socialista. Franco assumiu o controle do
partido em 1937. O governo democrático instituído após a morte de Franco declarou-a ilegal em 1977, mas
O Regime Franquista reconheceu apenas um partido: o Movimento Nacional,
tendo proibido todas as demais organizações, submetendo-as à perseguição policial.
Para o Franquismo, a Espanha deveria ser a referência a que todos os indivíduos e
interesses deveriam estar submetidos. Com a pátria centralizada, todas as terras espanholas
deveriam formar uma entidade única e indivisível. Tal posicionamento refletia na base
governamental, que concentradamente administrava todas as localidades.
Ademais, outra forte característica da Doutrina Franquista era o grande apelo ao
Catolicismo, com a total ligação da vida política, cultural e social à Igreja Católica. Dessa
forma, a Igreja acabou sendo legitimadora do regime, unindo os interesses de ambos os lados.
A união Franquista-Católica chegou a tal ponto de a Igreja considerar a Guerra Civil como
³Cruzada contra o ateísmo marxista´, justificando, com isso, a autoridade de Franco.
Francisco Franco assinou em 1953 uma Concordata junto à Igreja, o que trouxe
fortes implicações sociais para esse período. Reconheceu-se o Papa e seu poder junto ao
governo espanhol; concedeu-se à Igreja capacidade legal de adquirir, possuir e administrar
quaisquer tipo de bens; garantiu-se o ensino da religião católica dentro das escolas; dentre
outros.
Daí percebe-se a relevância da instituição católica para a formação doutrinária do
Regime Franquista.

1.5. O CONTROLE POLÍTICO DA ECONOMIA

A fim de atingir a auto-suficiência financeira, a economia Espanhola foi dominada


pela forte intervenção estatal Em todas as transações comerciais, inclusive, havia intervenção
do governo, baseando o comércio exterior num sistema de licenças e acordos bilaterais.
Apesar de tantas mudanças, o quadro dominante nesse período era caracterizado
pela escassez, inflação e estancamento da produção.
Houve proibição da circulação interna de moedas estrangeiras, bem como a
remessas de divisas para o exterior.
A luz sinalizando uma possível recuperação econômica começou a brilhar no
início dos anos 502. Em contra partida, enquanto a economia começava a dar sinais de
melhoria, a política mantinha-se estática, dificultando cada vez mais as relações
internacionais.
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ainda está em atividade.
V
2 A Organização das Nações Unidas reconheceu como legítimo o governo de Franco em 1955.
Com a elaboração do Plano de Estabilização de 1959, a economia mostrou-se
mais flexível, apresentando uma sensível melhora, especialmente a partir dos incentivos dados
à indústria.
Essas alterações se refletiram na sociedade, cada vez mais globalizada, tornando-a
mais consumista e adequada ao padrão europeu.

1.6. FORÇAS DE OPOSIÇÃO: CRISE E DECADÊNCIA DO GOVERNO


FRANQUISTA

A intelectualidade provinda das Universidades começou a denunciar a falta de
legitimidade do regime de Franco, exigindo o retorno à democracia. Contra esses estudantes a
reposta do governo foi rápida e dura, porém as consequências implícitas não puderam ser
evitadas.
Graves conflitos entre trabalhadores se avolumaram e tomaram dimensão
especialmente após a forte repressão tomada pelo governo.
No lado religioso nada estava em paz, igualmente. Na década de 70 a Igreja pediu
a separação entre ela e o Estado.
Politicamente, Franco teve que enfrentar, ainda, a criação do ETA ( 
  
3
  ), uma forma radicalizada do nacionalismo basco que praticavam atividades
terroristas.
Externamente enfrentou inúmeros problemas, a começar pelo Marrocos, sendo
que as terras em disputa acabaram sendo devolvidas ao país africano.
A crise petrolífera afetou sobremaneira a economia espanhola, principalmente
porque o governo franquista não buscou nenhuma alternativa para amenizar a crise energética.
Tal fato aumentou a dependência estrangeira da Espanha, com o consequente endividamento
do Estado.
Os abalos estavam tão profundo que Franco teve que amargar uma força de
oposição surgida dentro do próprio exército. Militares argumentavam a urgência do retorno à
democracia.
A decadência final atingiu o poder de Franco quando, após sofrer, por anos, de
Parkinson, lhe acometeu uma tromboflebite em 1974, afastando-o temporariamente da chefia
do Estado. Meses depois sofreu um infarto, que complicou derradeiramente sua saúde, vindo
a falecer no ano seguinte.

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3 Basco para Pátria Basca e Liberdade.

 

A O   

     foi uma empresa de serviços de
eletricidade criada pelo engenheiro elétrico Frederick Stark Pearson, em 12 de setembro de
1911. Esta sociedade empresarial foi constituída e teve sua sede estatutária e social fixada em
Toronto, no Canadá.
O principal objeto desta Companhia canadense era a produção e distribuição de
energia elétrica na região da Catalunha, na Espanha. Para alcançar esta finalidade, foram
criadas várias empresas subsidiárias, sediadas tanto no Canadá quanto na Espanha. Contudo, é
oportuno salientar, que, de acordo com o relatado pelo governo da Bélgica, após a Primeira
Guerra Mundial, a maior parcela do capital da O    
 já havia sido transferido
para acionistas cuja nacionalidade era belga.
Cumpre registrar que, no ano de 1936, grande parte da demanda da Catalunha
pelo fornecimento de energia elétrica foi suprida pelas empresas subsidiárias da O  
 
 Ocorre que, em decorrência de uma série de medidas restritivas às atividades das
empresas estrangeiras, empreendidas pelo governo espanhol 4, a Companhia enfrentou
diversas dificuldades financeiras que a conduziram à falência, decretada em 12 de fevereiro
de 1948.
Com efeito, aquela empresa canadense costumava emitir títulos, os quais, durante
o período em que ocorreu a Guerra Civil Espanhola, tiveram a sua transação suspensa, e,
quando aquela acabou, o governo da Espanha não autorizou que fosse transferida a moeda
corrente estrangeira necessária para reativar tais títulos. Por esta razão, a Justiça Espanhola
declarou que a O   
 estava falida, em razão de não mais dispor de condições
para pagar por seus títulos.
Após a falência e a apreensão dos recursos financeiros oriundos tanto daquela
Companhia quanto de algumas de suas empresas subsidiárias, diversas ações,
infrutiferamente, foram propostas junto à Corte da Espanha, com o intuito de fazer com que o
governo espanhol indenizasse os acionistas, em razão de ter aquele prejudicado o
desenvolvimento e a continuidade da O   
, em decorrência da implementação
de medidas extremamente danosas para as empresas estrangeiras.

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4 Em 1936, as atividades da Barcelona Traction já haviam sido prejudicadas com a Guerra Civil Espanhola.
Com o fim deste conflito, Francisco Franco ascendeu ao poder de forma ditatorial, e desenvolveu uma
política nacionalista desfavorável às empresas estrangeiras instaladas na Espanha, fazendo com que aquela
Companhia fosse à falência.
Por fim, diante do insucesso nas demandas propostas na justiça espanhola, a
Bélgica decidiu ingressar na Corte Internacional de Justiça, em defesa de seus nacionais que
eram acionistas da O    
, para que fosse reconhecida a responsabilidade da
Espanha concernente aos prejuízos sofridos pelos acionistas belgas, devido à falência da
Companhia.
Entretanto, como adiante se observará de forma mais exaustiva, a Corte
Internacional decidiu, majoritariamente, de forma desfavorável à Bélgica, por considerar
aquele país parte ilegítima para a causa, em razão de a sociedade em questão ser canadense,
em nada influindo no campo da legitimidade o fato de os acionistas serem belgas.
Portanto, de acordo com o entendimento firmado por aquele Tribunal
Internacional, somente o governo do Canadá, em razão de ser o país onde a empresa se
constituiu e instalou sua sede social, teria legitimidade para dar início a uma demanda
relacionada à Companhia O   

V
 "

Consoante dito alhures, após a eclosão da Guerra Civil Espanhola, foram


impostas, pelo Estado espanhol, restrições comerciais que impossibilitaram a saudável
continuidade da Companhia O   

   

 , na Espanha. A fim
de ilustrar que tipo de restrição foi imposta é possível citar a suspensão da transação dos
títulos empresariais da companhia canadense em libras esterlinas, o que findou por afastar
possíveis investidores e, conseqüentemente, fez com que as ações da companhia de energia
elétrica fossem demasiadamente desvalorizadas.
Em 1948, foi solicitada, por três acionistas espanhóis, à Corte de Reus
(Província de Terragona) a declaração de falência da companhia em decorrência do não
pagamento dos títulos em libras esterlinas. Ante tal solicitação, foi julgado procedente o
pedido de decretação de falência, em 12 de fevereiro de 1948. Na referida decisão foi
determinada a apreensão dos recursos da O   
 e das empresas subsidiárias.
Posteriormente, o caso foi levado a julgamento em diversos tribunais, por
pessoas físicas e jurídicas, as quais se afirmavam lesadas pelas medidas impostas pelo Estado
Espanhol e que levaram à falência a Companhia O   
.5
Após discussões acerca do respeito formal à notificação e publicação da
sentença declaratória da falência, em 23 de setembro de 1958, foi depositado, pelo Estado
Belga, o primeiro requerimento junto à Corte Internacional de Justiça relacionado à demanda
em tela, na qual o Estado belga pugnava por uma indenização do estado espanhol, em razão
das severas restrições que desembocaram na falência da companhia canadense. Todavia, em
23 de março de 1961, sem maiores justificativas, com espeque no art. 69, § 2º, do
Regulamento, a demandante informou que não almejava dar continuidade ao procedimento. A
demandada foi notificada de tal decisão e não opôs objeção, razão pela qual, o caso foi
removido da lista da Corte Internacional de Justiça na data de 10 de abril de 1961.
Malgrado, em 1961, o Estado Belga tivesse desistido da ação, em 19 de junho
de 1962, a questão foi novamente suscitada.
Com o fito de contestar as alegações iniciais do Estado Belga, então
demandante, a Espanha, à época, demandada, apresentou quatro exceções preliminares, tendo

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5
³De acordo com o governo espanhol, 2.736 decisões foram tomadas no caso, 490 julgamentos proferidos por
tribunais inferiores e mais de 37 por tribunais superiores antes do caso chegar à Corte Internacional de
Justiça.´ In http://www.cedin.com.br/site/pdf/jurisprudencia/pdf_cij/casos_conteciosos_1962.pdf. Acesso em
21 Nov. 2010.
sido as duas primeiras rejeitadas por 12 votos a 4 e 10 votos a 6; e as duas últimas providas e
levadas a mérito por 9 votos a 7 e 10 votos a 6, respectivamente.
O momento acima esboçado, qual seja, do conhecimento das preliminares ficou
conhecido como a Primeira Fase do Caso O    
. A segunda fase engloba o
julgamento do mérito e prolação da sentença, no ano de 1970.

3.1. 1ª FASE DO JULGAMENTO (Sentença de 24 de julho de 1964)

Alegava o Estado Belga que cerca de 88% (oitenta e oito por cento) do capital
social da Companhia O    
 pertencia a acionistas belgas, sendo este motivo
mais que suficiente para que o país possuísse   
6 e requeresse do estado espanhol uma
justa indenização pelo prejuízo sofrido pelos acionistas belgas em virtude das restrições
comerciais impostas pelo governo da Espanha. O governo belga pontuou ainda que o
comportamento do Estado espanhol foi contrário ao direito das gentes.
Em contestação às alegações e requerimentos da Bélgica, a Espanha suscitou
quatro exceções preliminares.
A primeira exceção preliminar refere-se à competência da Corte Internacional
de Justiça para receber e julgar a demanda ajuizada pelo governo belga. Segundo a Espanha, o
fato de o Estado demandante ter desistido da ação impossibilitava a reapreciação do caso. O
governo espanhol respaldava tal afirmação com supedâneo em cinco argumentos.
O primeiro era o de que a desistência é ato meramente processual, que para
compreendê-la, devem-se pesquisar as circunstâncias que a ensejaram. Tal argumento foi
aceito pela Corte.
O segundo argumento sustentava que a desistência da demandante deveria ser
entendida como renúncia à propositura de qualquer ação em face da demandada, e que o novo
depósito da questão perante a Corte Internacional afrontaria ato anterior da demandante.
Todavia, tal alegação não prosperou, uma vez que a Corte pontuou que a notificação anterior
da demandante requerendo a desistência não trazia expressa qualquer motivação e que estava
adstrita àquela reclamação inicial. Asseverou a Corte ainda que cabia à demandada provar que
a desistência de 1961 propunha algo além da vontade de não dar prosseguimento àquela
demanda específica.
O terceiro argumento para justificar a primeira exceção preliminar dizia
respeito à existência de um acordo anterior entre as partes, no qual ficara resolvido que seriam
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6

 



 ± Capacidade de estar em juízo.
feitas negociações entre espanhóis e belgas, em troca da retirada definitiva da reivindicação.
Respaldada no que ficara acordado, a demandada aduziu que a demandante desrespeitou o
pactuado e ingressou com nova ação, ao que a demandante pontuou que não pretendia desistir
definitivamente da ação. Diante do exposto, a Corte Internacional de Justiça afirmou que,
provavelmente, houve a desistência por parte da demandante com o fito de facilitar as
negociações e que não havia prova contundente de acordo definitivo que impossibilitasse a
propositura de nova ação, razão pela qual, rejeitou o argumento.
O quarto argumento referia-se a um pedido de   7 pois, pontuou a
Espanha que a Bélgica a induziu a erro, com sua conduta de desistir da ação anteriormente,
abrir-se para negociações e, posteriormente, ajuizar nova ação com o mesmo pedido e causa
de pedir, independente da existência de qualquer entendimento. Afirmou ainda que se tivesse
conhecimento da nova propositura de ação em seu desfavor, não teria anuído com o pedido de
desistência. Com relação a tal argumentação, a Corte Internacional de Justiça a entendeu
como descabida, tendo em vista que não houve prejuízo para a demandada, uma vez que se
esta não concordasse com a desistência, o processo seguiria o seu regular trâmite, assim como
se houvesse a primeira desistência e fosse novamente proposta a ação, como ocorreu. Logo,
não houve qualquer prejuízo para a requerida.
Por fim, a primeira exceção preliminar trouxe o argumento de que os
procedimentos utilizados eram contrários ao Tratado Hispano-Belga de Conciliação e
Arbitragem, de 19 de julho de 1927, o qual conferia competência à Corte Internacional de
Justiça, pois, segundo o Estado espanhol, a Corte em comento já havia cumprido os estágios
preliminares no primeiro processo ajuizado, não podendo fazê-lo neste segundo. A Corte não
acolheu tal posicionamento e manifestou-se pela possibilidade de conhecer e julgar dada
causa se for apresentado caso para o qual inexista julgamento anterior.
Destarte, do breve esboço acima, é de se concluir que a primeira exceção
preliminar foi rechaçada pela Corte Internacional de Justiça em uma votação acachapante de
12 (doze) votos desfavoráveis contra 4 (quatro) favoráveis às alegações da demandada.

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7
³Em Direito Internacional o princípio do   é um conceito em evolução. Apesar da grande variedade de
definições na doutrina e na prática, as seguintes características são geralmente aceitas como seus elementos
essenciais: 1) Uma situação criada pela atitude de uma parte, 2) Uma conduta seguida pela outra parte baseada
diretamente naquela atitude, e 3) Uma impossibilidade de quem adotou a primeira atitude de alegar contra a
mesma ou de manifestar-se em sentido contrário mesmo que não ocorra um detrimento ou prejuízo para a outra
parte. O efeito típico desta doutrina é que as partes estão proibidas, independentemente de sua verdade ou
precisão, adotar posturas diferentes, subsequentes, sobre a mesma matéria. , JÖRG PAUL M ÜLLER AND
THOMAS COTTIER,  , IN R. BERNHARDT (ED.),   O    , VOLUME
II (1992), page 116. IN HTTP://WWW.CIDH.ORG/ANNUALREP/2003PORT/ARG.12159.HTM. Acesso em 21 Nov.
2010.
A segunda exceção preliminar levantada pelo Governo Espanhol ateve-se ao
fato de a postulante ter se utilizado do efeito do artigo 17(4) do Tratado de 1927, entre a
Bélgica e a Espanha, combinado com o art. 37, do Estatuto da Corte Internacional de Justiça,
para determinar a competência da Corte Internacional de Justiça para processar e julgar a
ação. Pontuou a demandada que o artigo 17(4), do Tratado de 1927, havia sido revogado, com
a dissolução da Corte Permanente de Justiça, em abril de 1946. Como não havia previsão
expressa de julgamento pela Corte Internacional de Justiça e sim pela Corte Permanente de
Justiça Internacional, a qual havia sido extinta, aduziu a postulada a impossibilidade de
substituição de uma corte pela outra.
A Espanha alegou ainda que a dissolução da antiga Corte Permanente de
Justiça Internacional e a sua adesão ao Estatuto da Corte Internacional de Justiça somente em
1955, impossibilitavam a aplicação do Tratado de 1927.
A argumentação espanhola fez alusão ao Caso referente ao Incidente Aéreo, de
1955, ocorrido entre Israel e Bulgária, no qual existia declaração unilateral de aceitação da
jurisdição obrigatória da Corte Permanente, todavia não era aplicável ao caso em estudo, haja
vista que existia entre os países envolvidos um tratado.
Asseverou a Corte que, em 1945, ante a previsível dissolução da Corte
Permanente de Justiça Internacional, os redatores do art. 37, do Estatuto, somente impuseram
três condições à aplicabilidade deste, quais sejam: a existência de tratado em vigor, a
existência de cláusula de envio à Corte Permanente e a disputa entre os países signatários do
Estatuto. Aduziu que os Estados signatários do Tratado de 1927, deveriam passar a ler Corte
Internacional de Justiça onde antes se lia Corte Permanente de Justiça Internacional. Por esta
razão, a Corte rejeitou a segunda exceção.
As terceira e quartas exceções preliminares diziam respeito ao   
da
demandante, uma vez que se tratava de empresa canadense e não belga, afinal não se tratava
de nacional ou empresa belga e sim canadense, sendo que o Canadá, até então, não havia se
manifestado pelo pedido de indenização ao governo espanhol, alegou a demandada que não
caberia à Bélgica, país estranho à relação, pleitear indenização para os seus nacionais, ainda
que eles fossem os sócios detentores da maioria das ações da companhia canadense.
A necessidade de saber se existia ou não   
por parte do Estado Belga
levou à Corte a conhecer a terceira exceção e discutir a questão meritória pertinente.
Por fim, a quarta exceção preliminar suscitada pela demandada referiu-se ao
não esgotamento de todos os recursos internos antes de ser levada a questão à apreciação e
julgamento da Corte Internacional de Justiça, acompanhava tala exceção a acusação de
restrição ao acesso à Justiça. Assim como a terceira exceção preliminar, a quarta foi levada à
discussão de mérito, no que ficou conhecido como a Segunda Fase de Caso O  
 


3.2. 2ª FASE DO JULGAMENTO (Sentença de 05 de fevereiro de 1970)

A segunda fase de julgamento do caso O    


 se deu no ano de
1970 e consistiu no julgamento da terceira e quarta exceções preliminares e do  
 .
Inicialmente a Corte abordou a terceira preliminar, que continha três questões a
serem discutidas, e abordava o tema do   
.
A primeira das questões suscitadas tratava do direito da Bélgica de exercer a
proteção diplomática dos acionistas belgas numa companhia constituída no Canadá, vez que
as medidas reivindicadas não se referiam a qualquer nacional belga, mas à própria
Companhia.
A Corte entendeu que no momento em que um Estado admite em seu território
investimentos estrangeiros ou pessoas estrangeiras, deve estender-lhes a proteção da sua lei e
assumir as obrigações relativas ao tratamento que lhes é atribuído. Porém, essas obrigações
não são absolutas. Um Estado não pode apresentar uma reivindicação sobre o
descumprimento de uma dessas obrigações sem antes estabelecer o seu direito de fazê-lo.
Ademais, com a evolução do Direito Internacional, há o reconhecimento das
instituições do Direito Interno. E neste, o conceito da empresa foi fundado numa firme
distinção entre os direitos da firma e os direitos dos acionistas8.
Com isso, consolidou-se o entendimento de que a Companhia, dotada de
personalidade jurídica, pode atuar em relação a matérias de caráter corporativo; mas os seus
acionistas não. Portanto, um erro cometido contra a empresa, causa prejuízo a seus acionistas,
mas isso não implica que ambos tenham a titularidade para reclamar a devida compensação.
A segunda colocação sustentada foi no sentido de que um Estado poderia
reivindicar quando os investimentos de seus nacionais no exterior ± por eles serem parte dos
recursos econômicos da nação ± forem prejudicialmente afetados pela violação do direito do
próprio Estado quando seus nacionais se beneficiem de certo tratamento.

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8
Isso devido ao fato de que a empresa Barcelona Traction era uma empresa do tipo limitada: O  
 

    

 .
Com relação a essa proposição, a Corte asseverou que tal direito somente poderia
resultar de um tratado ou de um acordo especial entre a Bélgica e a Espanha. Porém, tal
instrumento não existia, muito menos vigorava.
A terceira questão aduzia que, por razões de equidade, um Estado deveria ser
capaz de agir, em determinados casos, para a proteção de seus acionistas nacionais em uma
Companhia vítimas de violação do Direito Internacional.
A Corte entendeu, a respeito disso, que a adoção da teoria da proteção
diplomática dos acionistas abriria a porta a reivindicações concorrentes por parte de diferentes
Estados, o que poderia criar um clima de insegurança nas relações econômicas internacionais.
Nas circunstâncias particulares do caso em testilha, nas quais somente o Estado
nacional da Companhia poderia agir, a Corte entendeu que não deveria ser conferido ao
governo belga o   
por questões de equidade, pois a Bélgica estava na defesa dos
interesses particulares de seus nacionais e não do Estado belga.

3.3. A DECISÃO DA CORTE

A Corte Internacional de Justiça conheceu dos documentos e das evidências


submetidas pelas partes e apreciou completamente a importância dos problemas jurídicos
levantados pelas alegações da petição belga, dentre as quais se incluía o cerceamento de
defesa da Companhia por órgãos do Estado espanhol. No entanto, a posse de um direito de
proteção pelo governo belga era um pré-requisito para o exame de tais problemas. Uma vez
que a qualidade deste governo para agir perante a Corte não foi demonstrada, não caberia a
esta se pronunciar sobre qualquer outro aspecto do caso.
Dessa forma, a Corte rejeitou a reivindicação do governo belga por 15 votos a
1, dos quais 12 foram baseados nas alegações acima descritas.
 

A Corte Internacional de Justiça traz inúmeras regras de procedibilidade e


julgamento dos casos submetidos a este Tribunal, e, dentre essas regras, está o direito de os
Juízes apresentarem opiniões diversas das defendidas na decisão final da Corte. Assim, vale
ressaltar os argumentos trazidos por alguns Juízes que, de alguma forma, discordaram, no
todo ou em parte, da decisão final da Corte Internacional.
Dos 15 (quinze) Juízes que formaram a maioria que votou pela ilegitimidade ativa
da Bélgica, 3 (três) deles defenderam a mencionada ilegitimidade Belga por motivos diversos
dos trazidos pelo julgamento final, explanados nas $    

 !, ao passo que 9
(nove) outros Juízes trouxeram alguns pontos divergentes mas que, em geral, sustentaram os
argumentos contidos na decisão final da Corte Internacional de Justiça.
Os Juízes Tanaka, Jessup e Gross, embora defendam o mesmo fim atingido pela
decisão da Corte, qual seja, o não acolhimento do pleito da Bélgica, respaldam suas opiniões
em diferentes argumentos, senão vejamos.

4.1. JUIZ KOTARO TANAKA

O Juiz Tanaka defende que embora seja signatário da conclusão a que se chegou a
Corte Suprema (em rejeitar o pedido da Bélgica de indenização pela violação de uma
obrigação internacional pelo Estado Espanhol), discorda das preliminares9 acatadas. Sustenta
que a análise do mérito ensejaria na mesma resolução do conflito.
O Juiz Tanaca sustenta que, diante da complexidade do presente caso, as questões
trazidas preliminarmente limitam, de certa forma, a opinião e análise do caso pelos Juízes.
Aduz, ainda, que faz-se necessária uma visão liberal que traga considerações de humanidade,
em contraste com a visão técnica e mecânica trazida nas preliminares analisadas.
Acrescenta, o ilustre Julgador, que se sente levado a seguir o seu ³próprio
processo lógico´ guiado pela sua própria consciência porque é assim que acredita estar sendo
justo.
As duas primeiras preliminares foram rejeitadas pela Corte Internacional,
enquanto que as outras duas foram aceitas. Entretanto, o nobre julgador sustenta que a terceira
preliminar não deveria ser acatada, tendo em vista o espírito universal do direito internacional
que garante o direito diplomático de cada Estado proteger os seus nacionais no estrangeiro.
VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV VVVVVVVVVVVVVVVV
9
Tradução livre de "
 
Ademais, é dever do Estado exigir que os demais Estados ofereçam tratamento decente para
os estrangeiros localizados em seu território.
Na defesa do mencionado ³espírito da proteção diplomática´ é que o Juiz Tanaka
faz menção à declaração feita pelo próprio Tribunal de Justiça Internacional,
#"
:

"« in taking up the case of one of its nationals, by resorting to diplomatic


action or international judicial proceedings on his behalf, a State is in reality
asserting its own right, Ä  &'( Ä Ä & '  Ä  )&    'Ä Ä'
&) Ä&Ä &'Ä&Ä'
 This right is necessarily limited to
intervention on behalf of its own nationals because, . . . 'Ä '  Ä  *   
Ä''Ä *Ä
Ä ÄÄ Ä ' '+' 
'  &)
Ä ÄÄÄ &'( Ä ') Ä' )&Ä Ä' 'Ä')&ÄÄ  Ä'
 ') Ä' )&Ä Ä'Ä ÄÄ &'( ÄÄÄ) '  Ä&&) Ä
&Ä &'Ä&Ä'
 Ä*+'( , 

É feita uma longa análise da função dos sócios na empresa, da teoria da


personalidade jurídica da empresa e da possibilidade de proteção dos sócios individualmente
ou como componentes da empresa. Tanto a Bélgica quanto a Espanha defendem, ao seu
modo, a teoria da personalidade jurídica. Sendo que, enquanto a Espanha enfatiza a
importância da personalidade jurídica pautada na Teoria Realística, a Bélgica defende a
Teoria da Ficção no tocante às pessoas jurídicas.
Por fim, conclui que os sócios devem ser protegidos pelo seu Estado Nacional,
independentemente da personalidade jurídica da companhia. Afirma, ainda, que a
preponderância na porcentagem de participação não tem relevância legal para a necessária
proteção a que os sócios fazem jus, embora a porcentagem pertencente aos sócios belgas seja
grande, o que ratifica a evidente necessidade de proteção.
Não há regra no direito internacional que permita dois tipos de proteção (dirigida
à companhia e aos seus sócios), ao passo que também não há nenhuma lei que proíba a dupla
proteção. O Juiz Takuna defende, portanto, a existência de uma lacuna que deve ser sanada
com base no espírito da instituição da proteção diplomática.
Ultrapassadas as preliminares, as quais deveriam ser rejeitadas, segundo opinião
do Juiz Tanuka, insta analisar o mérito da causa.
No mérito, a Bélgica alega, principalmente, a má-fé do Judiciário Espanhol no
que tange ao procedimento de falência11 promovido, bem como a má-fé das autoridades
judiciais e administrativas espanholas. Entretanto, vale ressaltar que a Bélgica não traz provas

VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVV VVVVVVVVVVVVVVVV
10
Panevezys-Saldutiskis Railway case, P.C.I.J., Series AIB, No. 76, p. 16.
11
Tradução livre de "   
da ocorrência de corrupção ou de abuso por parte do poder judiciário e, como a má-fé não se
presume, não há que se falar em abuso praticado pelo Estado Espanhol.
Logo, hão de ser respeitadas as decisões judiciais e administrativas realizadas pelo
governo espanhol na forma estabelecida na sua legislação, sendo afastada qualquer
condenação moral do poder judiciário espanhol.
Portanto, o Juiz Kotaro Tanaka defende o não acolhimento da pretensão belga por
motivos diversos dos defendidos na decisão da Corte Internacional de Justiça.

4.2. JUIZ PHILIP C. JESSUP

O Direito Nacional e o Direito Internacional integram planos diferentes e


oferecem soluções para diferentes situações, de modo que aquilo que é abarcado pelo direito
municipal foge à esfera internacional. O ilustre julgador faz ampla explanação acerca das
esferas do Direito Internacional e do Direito Nacional.
No que tange ao caso O    
, afirma que a decisão da Corte
Internacional de Justiça foi no sentido de que o país legitimado para pleitear atuação
diplomática referente ao caso O     
 é o Canadá, tendo em vista a
nacionalidade canadense da empresa.
Por outro lado, o Douto Julgador entende que em certos casos e diante de certas
circunstâncias, o Estado tem o direito de defender diplomaticamente os sócios que são seus
nacionais, conforme preceitos do direito internacional.
Assim, sendo reconhecida a legitimidade da Bélgica para defender seus nacionais,
insta observar que esta não se desincumbiu de provar a nacionalidade, durante o período de
crise da empresa, das pessoas físicas e jurídicas cujos direitos são defendidos pela Bélgica.
Conclui, portanto, que o pleito Belga deve ser rejeitado.

4.3. JUIZ ANDRÉ GROSS

Inicialmente é feita a distinção entre "fato" e "lei", e, posteriormente, o Sr. Gross


conclui que é papel do Juiz aplicar a norma insculpida na lei aos fatos particulares.
Afirma que a terceira e quarta objeções não poderiam ter sido decididas antes de
se analisar profundamente o mérito da lide, sob pena de se incorrer em injustiças.
Defende que a decisão final da Corte Internacional estabeleceu uma certa
superioridade da norma estadual em face da norma internacional, o que é permitido somente
em alguns casos. De fato, em algumas situações, deve-se interpretar a norma estatal a fim de
que esta, da forma como se apresente, encontre conformidade com o tratado internacional.
Entretanto, esse não é o caso do O    
, uma vez que trata-se de
ofensa praticada contra os nacionais no estrangeiro, situação perpetrada tanto pelos sócios
quanto pela própria companhia, não se aplicando a teoria do Reenvio.
Ademais, a prática do Reenvio não pode ser efetivada, nesse caso, uma vez que a
lei estadual para a qual seria submetido o pleito não ampara o direito dos sócios, o que deixa a
Bélgica sem possibilidade de ação na defesa dos seus nacionais.
Assim, defende que a Corte Internacional de Justiça não deve aplicar a lei estadual
como uma corte estadual faria na relação entre os sócios da empresa e a empresa, mas sim
enxergar a problemática como um todo, com vistas à aplicação da Legislação Internacional.
O Ilustre Julgador defende, brilhantemente, que os sócios belgas não devem
responder diretamente pelos danos causados pela empresa, uma vez que os danos foram
causados pela pessoa jurídica. Por conseguinte, afirma que o patrimônio pessoal dos sócios só
pode ser atingido subsidiariamente, criticando os sistemas legislativos de alguns países que
assumem que os sócios investem em determinada empresa e passam a receber os ganhos e
responder pelas perdas a que esta vier a sofrer.
É nesse contexto que o Juiz Gross defende a moderna Teoria Financeira do Risco,
ao afirmar que os sócios não devem responder por todos os riscos pelos quais assume a
empresa, uma vez que é a pessoa jurídica que lucra e que, portanto, deve responder pelo risco
que as ações dos seus administradores causarem.
Após as brilhantes considerações, o douto Juiz declara que concorda com o
posicionamento do Juiz Sir Gerald Fitzmaurice e do Juiz Jessup no que tange à ausência de
provas acerca da proveniência dos investimentos em questão. Ou seja, a Bélgica não provou
que os mencionados investimentos pertenciam à economia belga, especialmente a partir de
1940 (período de crise da empresa), muito embora haja evidências de grande participação do
capital belga em momentos anteriores.

Ressalte-se, ainda, que o presidente Bustamante y Rivero e os Juízes Sir Gerald


Fitzmaurice, Morelli, Padilla Nervo, Ammoun, Petrén, Onyeama e Lachs configuram as 9
(noves) opiniões semelhantes à defendida pelo julgamento final mas com algumas
observações.
$  c  
     
   


O tratamento dado ao caso O    


 pela Corte Internacional gerou
consequências para as relações internacionais e para os estudos do Direito Internacional,
tendo formado precedentes para o julgamento de outros casos semelhantes submetidos a uma
decisão de Tribunal Internacional ou de Tribunal Nacional com elemento de conexão
internacional.
Este caso entre Bélgica e Espanha semeou um importante precedente no Direito
Internacional, já que determinou que a nacionalidade nominal de uma companhia primava
sobre sua nacionalidade efetiva (neste caso, a companhia era formalmente canadense, mas de
fato se tratava de uma companhia de capital belga).
Interessante perceber que as regras para a determinação da nacionalidade da
pessoa jurídica não se assemelham às regras relativas à nacionalidade da pessoa física, vez
que impossível utilizar os mesmos critérios, a exemplo do   

 Para as pessoas
jurídicas, atualmente os critérios mais utilizados são: a) nacionalidade determinada pela lei do
Estado da constituição da pessoa jurídica (art. 11, da Lei de Introdução ao Código Civil) e b)
aquela conferida pela lei do Estado em que processam as principais atividades da empresa.
Há casos, porém, em que tais critérios são considerados insuficientes, e o Direito
comparado mostra situações em que os Estados, para fins de controle de entidades
estrangeiras, passam a definir uma empresa nacional, com outros critérios concomitantes ou
não: a nacionalidade dos seus dirigentes ou a nacionalidade da maioria dos acionistas ou
associados.
Destaque-se, ainda, que o caso O    
 foi o primeiro em que um
Tribunal Internacional se pronunciou sobre a proteção diplomática que um Estado pode
conferir a pessoas jurídicas de sua nacionalidade, abrangendo a proteção para além das
pessoas físicas.
Outra contribuição para as relações internacionais foi a imposição do julgado aos
Estados em respeitar a comunidade internacional como um todo, por meio da proibição da
prática de genocídio e atos de agressão, tendo o Direito Internacional se direcionado, a partir
de então, para aceitação das decisões   dos Estados e um maior respeito aos direitos
universalmente consagrados.
Ademais, caso O    
 também é citado em julgamentos dos
Tribunais brasileiros, a exemplo do Recurso Ordinário n. 74 do Rio de Janeiro (Processo n.
2008/0076862-4, Relator Fernando Gonçalves, Órgão Julgador: Quarta Turma, Data de
Julgamento: 21/05/2009, Data da Publicação/ Fonte: DJe 08/06/2009/ RSTJ vol. 215 p. 569).

c"

Conclui-se que o momento histórico vivido à época (a ditadura franquista) muito


influenciou para que fosse deflagrado o conflito entre a Bélgica e a Espanha, pois foi em
decorrência das restrições comerciais impostas pelo governo espanhol que a companhia
O    
 
     entrou em situação de falência, levando o governo
belga a defender os interesses de seus nacionais (acionistas majoritários da companhia)
perante a Corte Internacional de Justiça.
Ademais, conclui-se que o caso fora determinante para definir que a nacionalidade
nominal de uma companhia prima sobre sua nacionalidade efetiva.
De outro enfoque, esse foi o primeiro caso em que um Tribunal Internacional se
pronunciou sobre a proteção diplomática que um Estado pode conferir a pessoas jurídicas de
sua nacionalidade, abrangendo a proteção para além das pessoas físicas.
Finalmente, observa-se que a decisão se deu no sentido de que o Estado belga não
possuía o   
, ou seja, a capacidade de estar em juízo, não tendo sido, sequer, analisado
o mérito da questão.
Diante de todo o exposto, resta claro que o Caso O    
 trouxe
implicações importantes no que diz respeito ao Direito Internacional Privado.
 
  

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 ''    )&' ''    )Ä&1 '   )&Ä ') Ä'  
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'  &)&Ä Ä& '   ) ' & $ DIREITO
INTERNACIONAL PÚBLICO ± ABRANGÊNCIA + PESSOAL. Disponível 
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AbrangnciaPessoal> Acesso em 02 nov 2010.

STJ. &   !23#!#4  Relator Fernando Gonçalves, Órgão Julgador: Quarta
Turma, Data de Julgamento: 21/05/2009, Data da Publicação/ Fonte: DJe 08/06/2009/ RSTJ
vol. 215 p. 569. Critério de pesquisa ³Haia´. Disponível online em
<http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/doc.jsp?livre=Haia&&b=ACOR&p=true&t=&l=
10&i=3> Acesso em 15 nov 2010.

THE HAGUE JUSTICE PORTAL. &  & Ä'


'( Ä   
&  ) 

' 'Ä  5 
 ))' Ä' 6#7 5('  + )'7 Disponível 
 em
<http://www.haguejusticeportal.net/eCache/DEF/6/259.html> Acesso em 19 nov 2010.

 
   %  c 

1) A partir de que Guerra o poder do general Francisco Franco passou a se destacar?
  $  
 %  
#
   &'()*+'()(,

2) Qual o único partido político reconhecido pelo governo Franquista?


  $-#
  
 

3) Qual o país que ingressou na Corte Internacional de Justiça contra a Espanha, em defesa de
seus nacionais, que eram os principais acionistas da Barcelona Traction?
  $O 
 

4) Em que país foi constituída a empresa Barcelona Traction, Light and Power Company,
destinada a produzir e fornecer energia elétrica na região da Catalunha, na Espanha?
  $  .

5) Pesadas restrições do governo espanhol, tal como a proibição de negociação de títulos
comerciais em libras esterlinas, propiciaram um esvaziamento do valor das ações da
Companhia O   
, com a conseqüente quebra da empresa canadense. Apesar de
a mencionada companhia de energia possuir ³sede principal´, nos termos dos estatutos da
O   
, em Toronto no Canadá, o depósito da demanda na Corte Internacional de
Justiça em desfavor do Estado espanhol foi feito pelo Estado Belga, por quê?
  $ "    
  



 /
   
001&
 
 ,  
 
       2  
 

" 

6) A Espanha, em contestação apresentada perante a Corte Internacional de Justiça, no caso


O   
 suscitou quatro exceções preliminares, sendo as duas primeiras rejeitadas
e as duas últimas aceitas e levadas a julgamento de mérito. Quais foram as exceções
preliminares acolhidas?
  $  
   3   456  

  

  
    
 
      7   8 
             
      
"
8  9 
58    
  

5 

7) Qual foi a decisão final da Corte Internacional de Justiça a respeito do caso O  
 
?
  $  
8    
 3  " 8    
  
  
   8     
 
 3  8 

8) Um importante precedente foi semeado no Direito Internacional a partir do Caso O  
 
, já que ele determinou que a nacionalidade nominal de uma companhia primava
sobre sua nacionalidade efetiva. Explique o porquê de essa afirmação ser verdadeira.
  $         
   7          7  
 #     
  
"  # #  :
  
 
 
7
# 

9) Quais são, atualmente, os critérios mais utilizados para definição da nacionalidade das
pessoas jurídicas?
  $  
 
  
  
   

58    
 
&  '' 
   58 ;

#
, 3  7
 
  3 
  



#
   

10) Em que a decisão do Tribunal Internacional no Caso O   
 foi inovadora?
  $ 
  

    3   
"     
    
  " 
 58
.
 3    7
    
    
 

"    58       7
 

11) O juiz Gross, em um dos votos dissidentes, defendeu uma Teoria que, hodiernamente, é
aplicada pelo Código de Defesa do Consumidor em relação às empresas fornecedoras. Que
Teoria é essa e o que ela afirma?
  $

 
  
 7
 3   ;
 8 #     
  
    3
       # 3        
  3      3 
   #  
3   56