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Roland

DESNÉ,

Reims.

encarregado

de curso

da

Universidade

de

François DUCHESNEAU, professor da Universidade de Ottawa.

Michel

Paris I. Gérard GRANEL, professor da Universidade de Toulouse.

Benedykt GRYNPAS, director da secção do Extremo Oriente dos Museus Reais da Bélgica.

Louis GUILLERMIT, encarregado de Aix-Marselha.

Patrick

Supérieure. Jean IBANÈS, director do departamento de ciências humanas da École Normale Supérieure. Pierre KAUFMANN, professor da Universidade de Paris X.

Yves LACOSTE, professor-conferencista da Universidade de Paris VIII. Danièle MANESSE, encarregado de curso da Universidade de Paris V. Jean PÉPIN, director de estudos do C. N. R. S. Alexis PHILONENKO, professor da Universidade de Caen.

Evelyne PISIER-KOUCHNER, professor assistente da Univer- sidade de Paris I.

Rafael

de

Paris V. Nicos POULANTZAS, professor-conferencista da Universidade de Paris VIII.

Jean-Michel REY, encarregado

de curso da Universidade de

Paris VIII. Claire SALOMON-BAYET, investigador agregado do C. N. R. S.

Marianne SCHAUB, investigador agregado do C. N. R. S. René SCHÉRER, professor-conferencista da Universidade de Paris VIII.

Louis-Vincent THOMAS, professor da Universidade de Paris V.

da Universidade de

Hélène VÊDRINE, professor-conferencista Paris I.

René VERDENAL, professor

École Normale

Universidade

de

FICHANT,

investigador-chefe

da

Universidade

de curso da

da

HOCHART, professor

agregado

PIVIDAL,

professor

assistente

da

Universidade

do Liceu Lakanal.

HISTÓRIA DA FILOSOFIA

IDEIAS, DOUTRINAS

O SÉCULO XX

J. Bouveresse/G. Deleuze

C. Descamps / M.Fichant / G. Granel P. Kaufmann/E. Pisier-Kouchner

PUBLICAÇÕES DOM LISBOA

197 7

Traduzido do francês por José Afonso Furtado

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BKBJOILCA

QUIXOTE

FICHA:

@ Librairie Hachette, 1912.

Título original: Lê XX" siècle.

Editor original: LAbrairie Hachette, Paris.

Tradutor: José Afonso Furtado.

Capa e orientação gráfica: Fernando Felgueiras.

Todos os direitos para

cações Dom Quixote, Rua Luciano Cordeiro, 119 — Lisboa

Portugal reservados por Publi-

Composto e impresso nas oficinas gráficas de Editorial Império, Lda., em Fevereiro de 1977.

Edição: 8 K 5Í7.

ÍNDIC E

Introdução geral

11

Prefácio .

15

I — Freud: a teoria freudiana da cultura, por Pierre Kaufmann

19

 

1.

O

problema epistemológico da censura

20

2.

Sedimentação psíquica e mutuação social

23

3.

A

noção de camada e a transferência

27

í.

Do discurso psicótico à sublimação cultural: paternidade

 

e

mediação

32

 

5.

O acto fundador: solidão neurótica e devir humano

37

6.

Ilusão transferencial e progresso cultural

42

7.

Genealogia da cultura

 

45

8.

Agressão, culpabilidade, história

52

9.

Economia pulsional e processos socioeconómicos

55

10. Principais componentes de uma teoria da cultura

59

II-

- A teoria e a observaçãona filosofia das ciências do positivismo lógico, por Jacques Bouveresse

65

1. Diabolos in philosophia

 

65

2. O princípio de verificação

72

3. Testabilidade e significação

77

4. O problema da «base observacional»

81

5. Redução contra definição

 

90

6. Conceitos disposicionais e conceitos teóricos

95

7. A teoria como sistema formal parcialmente interpretado

102

8. Conclusão:

as

virtudes

do Diabo

106

1. Da filosofia das ciências à epistemologia

2. racionalismo aplicado: Gaston Bachelard

3. epistemologia matemática: Jean Cavaillés

4. Epistemologia e história das ciências. O racionalismo apli- cado das ciências biológicas

ao pensamento de Martin Hei-

O

A

IV — Observações sobre

o acesso

degger: «Sein und Zeit»

111

114

130

136

147

Introdução: o acesso e a inaparência

147

1.

A

tese e a sua explicação

 

149

2.

Feuerbach

 

151

3.

Husserl

e o horizonte

da

subs(is)tâ(ê)ncia

153

4.

A

dificuldade e a fractura

157

5.

A

(não)-descrição do «fenómeno do mundo»

159

6.

O

circular e o anfractuoso

 

162

7.

Fragmentos sobre o frag-rnento

167

Conclusão

 

:

177

V — Os existencialismos, por Christian Descamps

181

1. Jean-Paul Sartre

 

182

Filosofia da consciência

183

O

olhar

e

o corpo

186

Ausência do inconsciente

 

187

Encontro

 

da

história

189

Dialéctica

dos grupos

190

Conclusão

194

2. Maurice Merleau-Ponty

 

195

O

itinerário do sentido: forma e estrutura

196

A

abertura perceptiva

 

198

O

pensamento do corpo

201

A

arte, ancoragem no cerne do mundo

205

VI — Os marxismos, por Evelyne Pusier-Kouchner

215

Do marxismo desfigurado ao marxismo transfigurado

216

A desfiguração revisionista

 

217

A transfiguração

pela práxis

219

Rosa Luxemburgo e o movimento spartakista

223

Gramsci

 

225

Do revisionismo estalinista ã desestalinização revisionista

226

A revolução permanente

e cultural

233

A Zona das Tempestades

233

A re-leitura ocidental

239

Os dois campos

241

VII — Como reconhecer o estruturalismo?, por Gilles Deleuse

245

1. Primeiro critério: o simbólico

246

2. Segundo

critério: local ou de posição

249

3. Terceiro critério: o diferencial e o singular

252

4. Quarto critério: o diferenciante, a diferenciação

255

5. Quinto critério: Serial

 

260

6. Sexto critério: A casa vazia

263

7. tntimos critérios: do sujeito à prática

269

Para não concluir

275

Cronologia

dos principais

textos

do século XX com importância

filosófica

281

INTRODUÇÃO GERAL

O título desta obra colectiva é História da Filosofia, Ideias,

Doutrinas. Deve ser compreendido no sentido rigoroso dos

termos. É certo que se trata de uma história: a ordem que recebeu é cronológica, na medida em que a cronologia é inte- lectualmente mais eficaz do que a classificação alfabética, por

filiações,

exemplo, e em que permite muitas vezes descobrir onde as houver.

É constituída por oito volumes: o primeiro, é dedicado à

filosofia pagã (de Tales de Mileto a Plotino); o segundo trata do período chamado medieval (dos padres da Igreja a São Tomás

e a Guilherme de Occam); o terceiro analisa a filosofia do mun- do novo (de Thomas Miinzer e de Giordano Bruno a Leibniz);

o

quarto estuda o iluminismo (de Berkeley a Rousseau); o quinto

é

intitulado a filosofia

e a história (de Kant a Marx-Engels);

o

sexto refere-se à filosofia face ao desenvolvimento das ciências

e

da indústria (de Nietzsche ao positivismo' lógico); o sétimo,

estabelece as relações entre as ideias filosóficas e as ciências siciais (psicologia, sociologia, história, linguística, geografia, etnologia); este, o último reporta-se aos grandes movimentos de ideias do nosso século.

No entanto, esta apresentação, que aceita, como natural,

a ideia de sucessão, não aceita de igual modo dois preconceitos

que lhe estão implicitamente ligados. Por um lado, de modo algum esta história da filosofia fixa como ideal uma restau- ração integral do passado do pensamento filosófico, em que todos os autores estivessem assinalados, tal como a sua influên- cia e as suas relações. Foi operada uma selecção que tem em conta, ao mesmo tempo, a exigência de inteligibilidade e de originalidade dos colaboradores (que em comum determinaram os seus temas e o seu centro de interesse). Esta liberdade, posta em relação com a tradição, pareceu ser o meio mais

SÉCULO

XX

eficaz de expressar

que tem sido o discurso filosófico; e de constantemente subli- nhar a mistura incerta de pureza e impureza que o caracteriza. Por outro lado, renunciou-se a dar fosse que lição fosse, e a deixar entender, entre outras coisas, que por detrás da superabundância das doutrinas se desenha, de certo modo, uma evolução significativa, um progresso, uma repetição ou uma regressão. É sempre possível construir, com ou sem a ajuda da erudição, uma mitologia genealógica que, pondo cada dou- trina no seu lugar, reconstrói a ordem triunfante do pensa- mento. Das supostas origens, caminha-se tranquila ou drama- ticamente, positiva ou dialecticamente, até esta nossa época, que vem dar-nos o ensino retrospectivo e definitivo. Que um texto teórico se entregue, com o pretexto de fazer história, a esta tarefa, muito bem: é uma maneira como qualquer outra de demonstrar uma tese. A perspectiva desta nossa obra é diferente: o seu objectivo é informar, aclarar as ideias funda- mentais que as principais doutrinas produziram, pois estas

ideias constituem agora a herança filosófica — herança essa que devemos inventariar, se melhor a quisermos compreender

o devir deste modo específico da cultura

ou combater. Ora, informar é notar diferenças. Os historiadores e os filósofos que participaram neste trabalho esforçaram-se —man- tendo cada um a sua óptica própria e só tendo provavelmente em comum com os outros co-autores a exigência de uma crítica escrupulosamente racionalista — por fazer aparecer distinções; aplicaram-se em avaliar o conceito ou o sistema de conceito que deu a determinado pensador o seu lugar no interior da tradição chamada filosofia. Ã evolução, positiva ou dialéctica, substitui-se assim uma apresentação diferenciada. Esta deixa ao leitor outra liberdade: já não se trata de se abandonar ao sabor do devir, mas de apreciar doutrinas e ideias; o que importa não é seguir uma linha, por muito ramificada que seja, mas encontrar pontos de referência num espaço articulado. Em suma, de modo nenhum esta história da filosofia é uma filosofia da história da filosofia. Não é difícil de compreender que, dentro desta óptica, os elementos biográficos tenham sido — salvo alguma excepção— muito reduzidos. Poder-se-ia sem dúvida compor um lindo texto, dedicado — um pouco à maneira de Plutarco — à vida dos filósofos ilustres. Com ele teríamos surpresas. No entanto, não é este género de novidades que se procura na presente obra. Se houver originalidade, ela será resultante do facto de que uns quarenta teóricos tentaram estabelecer o quadro dos elementos do pensamento filosófico, de que o fizeram no mesmo

12

INTRODUÇÃO

GERAL,

espírito, mas sem preconceito; que compreenderam o seu em- preendimento não como uma demonstração, mas como uma apresentação; não como um edifício, mas como uma constru- ção. Segundo os autores, as bibliografias não têm a mesma importância. Também aí se deixou liberdade a cada um dos colaboradores para assinalar a sua comunicação com as notas que considerasse convenientes. Referências históricas vêm, de vez em quando, lembrar que a filosofia não é um assunto «separado» e que pode ter uma relação directa, indirecta ou contraditória com as práticas sociais e outras actividades culturais. É outra história da filosofia que se anuncia aqui. Nem progressista nem neutra, mas crítica; que o quer dizer tudo, nem dizer todo; que se impõe afirmar a ordem aberta das doutrinas e das ideias diferentes. O sério, neste género de obra, caminha a meia distância da erudição e da vulgariza- ção. Pois não há «Platão» nem «Descartes» que se possa res- taurar na sua verdade; há pensadores que uma análise severa

e argumentada torna, hoje, legíveis. No fim de cada um dos volumes desta obra, o leitor encon- trará, por um lado, uma lista alfabética dos autores que nele

são analisados, com a sua biografia e as suas principais obras,

e, por outro lado, um quadro sinóptico estabelecendo a relação

entre a história da filosofia e a história cultural, social e política.

13

.

PREFÁCIO

O volume VI A Filosofia do Mundo Científico e Indus- trial— salientou o facto de que a filosofia., como género cultural, já não pede ter pretensões a possuir um objecto

privilegiado que fosse seu apanágio e justificação da sua von- tade dominadora: nem o Ser, nem Deus, nem a Substância, nem

a Razão, nem o Sujeito, nem o Universo, nem o Valor

qualquer outra entidade inventada conjunturalmente para legi- timar uma reputação. Foi Nietzsche quem abriu o caminho para esta importante

refutação, no momento em que Husserl administra os últimos

reflexos da grande metafísica e que Bergson, na peugada de Victor Cousin, faz entrar definitivamente a instituição filosófica nos quadros da pedagogia «pueril e honrada» (W. James pro- cede do mesmo modo, mas com a diferença do humor). O vo-

que a ideia positivista de neutralidade., fundada na observação, na experimentação, não é operante em nenhuma das disciplinas estabelecidas como «ciências humanas»,^ e não é capaz de asse-

gurar a passagem do testemunho desta filosofia que não cessa de morrer, de renascer, de se agitar e de súbito, talvez, de reen- contrar o seu projecto inicial: discurso do Estado e do contra-

-Estado no Estado

acabar é porque, precisamente, nada se completa, porque tudo está preparado para o encerramento quando o para além ou a repetição se afirmam é, na realidade, um livro de aventuras. S certo que todas as sociedades estiveram sempre em crise (sob este aspecto a história é semelhante a um velóãromo, só com-

Este último volume se é necessário

lume VII — A Filosofia das Ciências Sociais — mostrou

nem

porta curvas). No entanto, o século xx assinala-se pelo facto

de mundializar os conflitos,

sucessos e os disparates da realidade industrial. Desde 1900 que °w coisas não correm bem. Os grandes princípios que serviram,

de estender a todo o planeta os

O

SÉCULO

XX

para a expansão dos Estados modernos (capitalistas, burgue- ses, parlamentaristas), são duramente postos em questão no próprio momento em que alcançam o seu maior sucesso. O pre- sidente Schreber encontra-se gravemente doente; a matemática modelo da racionalidade há vinte e cinco séculos vê com- prometida a sua autoridade; as ciências físicas, apesar das demonstrações kantianas e das certezas positivistasi, sofrem transformações fundamentais; no domínio político, até o pró- prio marxismo doutrina de oposição ao sistema capitalista deve mudar de estatuto (não estarão» os primeiros escritos de Lenine em contradição com os últimos textos de Engels?). Apesar das aparências, a ordem da burguesia está profun- damente fendida. Perante este desenvolvimento caótico, aven- tureiros de um novo género lançam-se ao assalto. E isto, até agora. São filósofos, que contornam a lentidão da instituição universitária. Vêm da medicina como Freud; das matemá- ticas e da política como Russel e Wittgenstein; da prática dos físicos e dos biólogos; da teologia como Heiãegger; da referência às veredas do vivido como Merleau-Ponty ou J.-P. Sartre; dos combates políticos Trotsky e Mão Tsé-tung, entre outros; da exploração das estruturas da linguagem ou das sociedades chamadas selvagens Saussure e Lévi-Strauss. Todos estes pensadores de que aqui tratamos são, sem qual- quer dúvida, aventureiros. O desaparecimento do objecto da filo- sofia traduz-se a partir de então pela fragmentação do próprio estilo filosófico. A ideia positivista de que a filosofia iria mor- rer de consumpçãc» é decididamente falsa. A «filosofia dos pro- fessores» mantém-se com seriedade e enfado apoiada na psico- logia e na sociologia que, exercendo uma função de regulação social, se desenvolvem. Ao mesmo tempo surgem, vindas de outros lados, outras invenções. Impõem-se objectos despeda- çados, quebrados, discordantes ou evanescentes (do ponto de vista da tradição especulativa): o inconsciente, a linguagem, a ciência (já não apenas como conhecimento mas como prática e como instituição política), a guerra, o (ao que dizem) partido, a (ao que dizem) loucura, o (ao que dizem) crime, o (ao que dizem) primitivo1, a arte como actividade, como máscara e como efeito. Isto significa que o texto que se segue não é, de modo algum, um panorama do pensamento contemporâneo: semelhan- tes nomenclaturas existem e boas. Reúne com uma liberdade ainda maior do que nos volumes precedentes capítulos des- conexos, ensaios que têm por objectivo, na sua disparidade e na sua reunião, tornar evidente como pensadores serão filósofos ou já não o serão? (a questão não tem grande interesse)

PREFACIO

tomam partido nas nossas novas tragédias. O leitor não deve, portanto, esperar nem uma enciclopédia nem um palmares':

filósofos trabalhadores da filosofia de hoje dizem de que modo entendem escritos dos quais o mais antigo tem menos de oitenta anos e o mais recente exactamente.um lustro.

Prançois Châtelet

FREUD:

A TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

por Pierre Kaufmann

Como o nosso objectivo é o de investigarmos de que modo se afirmou a especialidade de uma teoria freudiana, da cultura, abandonaremos provisoriamente qualquer preocupação com as suas origens, e inclusivamente qualquer questão prévia refe- rente aos termos Kultur e Ziwlisation e aos seus equivalentes noutras línguas, de modo a seguirmos a sua construção no ter- reno próprio do pensamento psicanalítico. Só então poderemos inquirir da legitimidade do lugar conferido, numa história do pensamento filosófico, a um tipo de investigação que repre- senta, sob muitos aspectos, a sua negação. Mas como preser- var, nesta perspectiva, a autonomia do domínio que visamos? Os temas da aculturação e da cultura não são peças embutidas no movimento de conjunto da teorização freudiana, mas seguem e elucidam também as suas vicissitudes. Isolá-las da prática em que a psicanálise se funda, da clínica em que se ordena, da teo- ria que a suporta, equivaleria a ocultar os únicos traços que lhe garantem a originalidade. Tentaremos igualmente mostrar como a conversão das relações arcaicas de domínio em insti- tuições espirituais, que constitui o núcleo da concepção freu- diana, inscreve no plano da efectividade histórica, com o acto fundador do assassínio colectivo do chefe da horda, a renovação que a elucidação da transferência e a análise da psicose causam conjuntamente à psicanálise. Assim, abriremos o caminho para um aprofundamento da teoria das pulsões, destinado a auten- ticar no registo do desenvolvimento humano a elaboração gené-

O

SÉCULO

XX

tica da pulsão individual. E, desse modo, o problema do fim da análise, na dupla acepção do seu termo e da sua finalidade, en- contrará a sua solução.

acessíveis à regressão

Porque

as

formações neuróticas

transferencial remetem, numa visão retroactiva, para um pólo abissal. Mas, se esta regressão é interminável, se a realidade psíquica é incapaz de se prender a uma realidade efectiva, é que a aptidão para a neurose confere ao homem a medida da precaridade da sua inserção social. É à cultura, pelo contrário, que compete assegurar a travessia deste intervalo: é nela, e apenas nela, que se opera a confrontação do homem com o real

—• não facto mas instauração — de modo que a imagem de Aqueronte inscrita em epígrafe no limiar do reino solitário dos sonhos possa então encontrar a sua réplica na conclusão goe- thiana de Totem e Tabu, «no princípio era o Acto». Paradoxal

•,:.-

movimento de pensamento cujo começo teremos de recordar nas < primeiras abordagens da transferência, antes de surpreender, se tal é possível, a viragem decisiva, em que o acesso aos inte-

resses culturais consagra a sua resolução.

• 1. O Problema epistemológico da censura < \

«Toda a nossa concepção das neuroses se ressente ainda (/.• da influência do estudo da histeria, que a tinha precedido», es- '>; creve Freud em 1916. Recuemos pois vinte anos, logo após os ,; Estudos sobre a Histeria. Neste contexto (Manuscrito K, l de Janeiro de 1896), é «ao procurar a origem do desprazer origi- ' nado por uma excitação sexual precoce sem a qual não seria , possível explicar nenhum recalcamento» que «penetramos no - cerne do problema psicológico». Assim, a dimensão sob a qual é então encarada a civilização é a da «moralidade», cujo papel na génese da inibição se tenta apreciar, e o dado esencial em que Freud insiste nesta altura é que a moralidade é por si mesma desprovida de qualquer capacidade dinâmica. Haveria de facto a tentação de considerar em primeiro lugar que «são o pudor e a moralidade que constituem as forças v recalcadoras», devendo a vizinhança que a natureza conferiu aos órgãos sexuais «suscitar inevitavelmente, no momento das

i experiências sexuais, um sentimento de repugnância». Pois não

;T se observa que «onde falta o pudor (como nos indivíduos do sexo masculino), onde a moralidade está ausente (como nas classes inferiores), onde a repugnância se encontra esbatida pelas condições de existência (como no campo), o recalcamento se não produz e, por isso, nenhuma excitação sexual infantil implica recalcamento ou, consequentemente, neurose»? No en-

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

tanto, prossegue Freud, «esta explicação não resiste a um exame mais fundo», incidindo a sua crítica em dois pontos: por '„ um lado, a moralidade da relação causal: «Não consigo acreditar que uma produção de desprazer durante as experiências sexuais :

possa derivar da intromissão fortuita (sublinhado por nós) de

alguns factores de desprazer

nância se produz quando a libido atinge um nível suficiente- •:

mente elevado

lado, a própria natureza da causa invocada: «Julgo que o pudor .

depende inteiramente do incidente sexual.»

O problema levantado pela causalidade da inibição será, portanto, o de que modo caracterizar um factor que depende do «incidente» sem por isso se apresentar como «fortuito». E é ,•" neste sentido que é necessário- entender a hipótese segundo a qual «deve haver na sexualidade uma fonte independente de - desprazer». Se esta fonte existe ou, noutros termos, se o seu papel é assumido por um processo intrinsecamente inerente ao exercício efectivo da sexualidade, «pode estimular as sensações de repugnância e conferir à moralidade a sua força». Assim, a noção de «contra vontade», introduzida por Freud quatro anos antes a respeito da observação prínceps da cura cartártica — o caso da cura hipnótica de Anna O. —, encontra-se determinada na sua qualidade de problema. Ora, que este pró- ' blema tenha uma componente essencial de ordem epistemoló- gica é-nos confirmado pela crítica das hipóteses de Beard refe- rentes à etiologia da neurastenia, iniciada por Freud em 189o

e várias vezes retomada até 1908., B certo que o leitor contem- . porâneo de American nervousnes®, its causes anã consequences (1881, trad. alemã) e de Sexual neurasihenia, nervous exlmus- tion, its hygiene, causes, symptoms and tr&atment (1886, trad. alemã) terá alguma dificuldade em compreender o movimento de interesse suscitado por esta análise bastante sumária de uin novo mal do século, o da «modernidade» de estilo americano.

Nenhum sentimento de repug-

Nessa altura a moralidade cala-se.» Por outro

'

No entanto, não é indiferente salientar até que ponto o recurso

a um tipo de explicação «sociológica» em psicopatologia devia

nesta data parecer original; e, sobretudo, em que é que a con-

cepção freudiana lhe aprofunda do imediato a demasiada gene-

ralidade do projecto. Para retomar os termos do artigo publicado em francês, em 1896, sobre A hereditariedade e a etiologia cia neurose, ais- k tinguiremos, com efeito, entre três géneros de influências etio- lógicas «diferentes entre si pela sua dignidade e modo do rela- ções (sic) com o efeit o que produzem: 1.° — Condições que são

indispensáveis

para a produção da afecção em questão, mas

que são de natureza universal e se encontram de igual modo

O

SÉCULO

XX

na etiologia de muitas outras afecções. 2.° — Causas

rentes que compartilham do carácter das condições pelo facto de funcionarem na causação de outras afecções, assim como na da afecção em questão1, mas que não são indispensáveis para

indis-

pensáveis como as condições, mas de natureza restrita e que apenas aparecem na etiologia da afecção de que são especí-

ou

agentes

Defendo a proposição de

entra regular ou necessariamente na etio^

Desde que Beard declarou que a neuras-

tenia era o fruto da civilização moderna, só encontrou crentes

a etio-

concor-

que esta última se produza. 3.° — Causas específicas, tão

ficas». Ora, prossegue Freud,

«como causas

acessórias

das neuroses podemos enumerar

vulgares encontrados noutra parte

que nenhum deles logia das neuroses

concorrentes

todos os

(sic), mas a mim é-me imposível aceitar esta opinião

logia específica das neuroses

Beard». Por outras palavras, a influência geral da 'civilização de- verá ser colocada no número das «condições» da neurose, en- quanto a sexualidade parece dever constituir o registo das cau- sas «específicas». A neurose de angústia .do adolescente, pros- segue Freud, pode, deste ponto de vista, ocupar o lugar de pro- tótipo, na medida em que permite constatar os efeitos pato- génicos «de uma quantidade emanando da própria sexualidade». Mas a análise não é mais desenvolvida, e «enquanto não dispu- sermos de uma teoria exacta deste processo, o problema da ori- gem do desprazer agindo no recalcamento permanecerá inso-

escapou

ao

conhecimento de

lúvel». Apercebemos de facto quais as dificuldades que impedem que Freud estabeleça uma relação mais estreita entre a forma cultural da moralidade e a dinâmica psicológica do recalca- mento. A noção de causalidade de que dispõe está ainda longe de ser homogénea, encontrando-se dividida entre as influências «sociais» exógenas do tipo tradicional da causalidade natural e os factores «psicológicos» marcados por um índice genético, característico da fase de desenvolvimento individual em que operam. Por outras palavras, a ordem social da «civilização» não está estratificada, razão pela qual não suporta outras «in- fluências» patogénicas para além das causas «concorrentes» de «dignidade» menor do que as causas «específicas», neste caso genéticas. Com efeito, só com Totem e Tabu é plenamente reco- nhecida a afinidade entre a mutação individual e a mutação social, entre uma causalidade interna originada por uma rup- tura de nível no percurso do destino pulsional e uma causali- dade «social» proveniente do acto de ruptura em que se abole a relação primitiva de dominância.

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

\ o entanto, mesmo no período que estamos a considerar,

o problema é anunciado— e precisamente na medida em que

se elabora a noção de sedimentação genética. No dia l de Ja-

neiro de 1896, Freud ensaiava a análise da «escruipulosidade»

e do sentimento de culpa sobre a neurose obsessiva. Mas não

extraía qualquer ensinamento no que se refere à relação entre

a

vertente «objectiva» e a vertente «subjectiva» da moralidade.

O

tema é, pelo contrário, aflorado a 6 de Dezembro do mesmo

ano. E porque no intervalo se desenvolveu a teoria da estratifi- cação das zonas erógenas como fundamento da estratificação do psiquismo. «Como sabes», escreve ele a Fliess, «nos meus trabalhos parto da hipótese de que o nosso mecanismo psíquico se estabeleceu através de um processo de estratificação: os ma- teriais presentes sob a forma de traços mnemónicos recom- põem-se de tempos a tempos segundo 'as novas circunstâncias». Ora, esta teorização introduz o princípio de uma correspondên- cia entre dois registos de estratificação — individual e social:

«No fundo, encontra-se a ideia de zonas erógenas abandonadas. Durante a infância, de facto, a reacção sexual obtém-se, segundo parece, em numerosas partes do corpo; mas, mais tarde, estas já não podem produzir senão a angústia dói 28.° dia e nada mais. O progresso da civilização1 e o desenvolvimento duma mo- ral tanto social como individual dever-se-iam a esta diferen-

ciação, a esta limitação.»

2. Sedimentação psíquica e mutuação social

Trata-se da formulação de um problema, mais. do que do anúncio de uma solução. Que interesse pode ter para a socie- dade esta redestribuição das camadas do psiquismo? Contudo o passo decisivo encontra-se prestes a ser dado: a 23 de Novem- bro de 1896 morre Jakob, pai de Freud. E a 31 de Maio de 1897, após alguns meses no decurso dos quais a geral insistência sobre o papel dos impulsos lhe encobre o verdadeiro objecto, opera-se numa única carta a conjunção dos astros. Na vertente psicológica, é o anunciar da descoberta de que «as pulsões hostis para com os pais (desejo da sua morte) cons- tituem igualmente parte integrante das neuroses. Na paranóia, os mais graves delírios de perseguição (desconfiança patoló- gica em relação aos chefes, aos soberanos) emanam destas pulsões. Estas encontram-se recalcadas nos períodos em que os sentimentos de piedade para com os pais as dominam — du- rante as suas doenças, na sua morte. No luto os sentimentos de remorso manifestam-se; nessa altura, censuramo-nos pela sua

O

SÉCULO

XX

morte (é o que se descreve sob o nome de melancolia), ou en- tão punimo-nos de modo histérico, ficando doentes como eles Segundo parece, nos filhos, os desejos de morte são dirigidos contra o pai, e, nas filhas, contra a mas». Indicações cuja con- trapartida, no plano da cultura, a mesma carta suscita imediata- mente: «No fundamento do sagrado», escreve Fi*eud, «está o sacrifício, consentido pelos humanos no interesse de uma mais larga comunidade, de uma parte da sua liberdade sexual per- versa. O horror que o incesto inspira (acto ímpioi) assenta no facto de que, por consequência de uma vida sexual comum, mesmo na época da infância os membros de uma família en- contram-se permanentemente solidários e tornam-se incapazes de se ligarem a estranhos. O incesto é um acto anti-social a que a civilização, para existir, teve de progressivamente renunciar.» A noção de sedimentação não se enriqueceu somente ao integrar o impulso, mas alargou-se também às relações infantis com os pais, e é nesta medida que é chamada a fundar a arti- culação entre a ordem psicológica e a ordem cultural: todo o problema residirá em compreender sob o efeito de que forças «os impulsos hostis para com os pais» se superarão a si mes- mos, de modo a que o ser humano seja subtraído da esfera da sexualidade perversa. Simultaneamente aprofuda-se o problema epistemológico subjacente a todo este desenvolvimento. Efec- tivamente, com a noção da sedimentação das «zonas erógenas abandonadas» encontra-se consagrada a recusa da concepção de um traumatismo operando a parte antenc-ri. No dia 7 de Julho de 1897, Freud carateriza, como efeito, o fantasma como retroactivo e afirma que lhe estão associadas pulsões que são também objectos de recalcamento. Mais precisa- mente, na sequência do abandono das zonas sexuais arcaicas, desenvolve-se uma actividade fantasmática que recobre o que foi abandonado e que é acompanhada pela emergência de pul- sões associadas, por sua vez recalcadas. Mas, a 15 de Outubro, Êdipo e Hamlet entram em cena, e a teoria da cultura, até então contida nos limites do problema da moralidade, alarga-se ao domínio dos mitos. Não que Freud não se tivesse já interessado por isso, no prolongamento das sugestões que lhe suscitava, a respeito do folclore, a análise da fase anal. «As histórias do diabo, o vocabulário das pragas populares, os costumes e as canções de embalar adquirem para mim um significado», escreve ele em 24 de Janeiro do mesmo ano. E «estou pronto a acreditar», acrescentava, «que conviria considerar as perversões, de que a histeria é o negativo, como os tragos de um culto sexual primitivo que talvez tenha mesmo sido, no Oriente semítico, uma religião (Moloch, Astarte)».

fc

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

\ neste contexto que o conceito de sublimação irá ser introdu-

zido alguns meses mais tarde (a 2 de Maio de 1897). Mas, dora- vante, o que o irá guiar nessa via é a hipótese da coerência do sistema fantasmático. «Uma das nossas maiores esperanças», escreve a 25 do mesmo mês, «é conseguir determinar o número e as espécies de fantasmas do mesmo modo que determinamos

o das cenas». Vemos assim delinear-se uma terminologia estru-

tural: «Conheço pouco mais ou menos as regras que determi- nam a função destas estruturas (Struktur) e os motivos da sua solidariedade», escreve Freud a 7 de Julho—terminologia que irá ser precisada a 27 de Outubro pela noção de motivos- -quadro» (Rahmenmotive) que determinam o desenvolvimento em factores «gerais» distintos dos que «completam o painel e variam consoante os incidentes vividos pelo sujeito».

E é digno de nota que esta concepção estrutural, solidária

de uma reconstrução da génese libidinal apoiada retrospectiva-

traduza por uma repre-

mente pela sua conclusão no Édipo, se

sentação sistemática das condições de advento da moralidade. Há zonas sexuais arcaicas, afirma-nos uma carta de 14 de No- vembro de 1897, mas estas zonas não são originalmente deli- mitadas. A contribuição da libido é, inicialmente, difusa. A no- ção de fantasma retroactivo e de pulsões emergentes retroac- tivamente deve, portanto, ser compreendida através do tema

da não determinação primária da sexualidade. As zonas sexuais

não são inicialmente delimitadas e tudo se passa como se elas

o fossem retroactivamente a partir do fantasma e a própria

zona erótica, como fonte de prazer, estaria na dependência do fantasma cuja função seria a de dar corpo a esta ideia da frui- ção parcial delimitável no nível do órgão. Em resumo, deve-se

considerar cinco níveis de determinação:

1) zona sexual orgânica não delimitada;

2) recordação de excitação das zonas abandonadas, sendo

abandonadas; abandonadas haverá des-

essencial que elas estejam 3) na medida em que estejam

carga de desprazer em vez de prazer;

4) nesta medida, o indivíduo irá desviar-se da recordação, e desviar-se da recordação equivale à repugnância pe- rante o objecto actual: é isto que nos vai fornecer a chave do recalcamento. Na medida em que o indivíduo se tiver afastado da zona abandonada haverá, de facto libertação de angústia;

(Verwer-

5) Há transformação da angústia em rejeição fung).

O

SÉCULO

XX

Ê graças a uma progressiva elaboração que se irão arti- cular entre si estas partes de interpretação ainda heterogéneas, dependentes do domínio da moralidade e do domínio da arte. As- sinalemos no entanto, para melhor caracterizar a sua novidade, que alguns dos elementos que irão ser integrados já estavam esboçados no próprio período que estamos a considerar. Uma carta de Freud datada de 5 de Novembro de 1897,

contemporânea, portanto, da sua auto-análise, associa, de facto,

a referência à obra de M. J. Baldwin sobre O Indivíduo e a Raça, a evocação de um seminário de Beard, uma alusão à interpre- tação dada dias antes a Êdipo e Hamlet e a expressão do vivo interesse com que recebe as visitas do seu amigo Eminanuel Lowy, professor de arqueologia em Roma. Imaginemos pois, por um instante, ligar estes fios numa antecipação sistemática dos desenvolvimentos ulteriores. Em epígrafe inscrever-se-iam os . versos de Goethe evocados logo após a descoberta de Êdipo:

:.{: «Muitas sombras queridas ressurgem. Semelhantes a uma lenda

primeira

amiaade.» Quase trinta anos mais tarde, por alturas da come-

', antiga retornam, meio esbatidos,

o primeiro amor, a

/

; esta citação «poderia aparecer em todas as nossas análises». Por nos fazer descobrir também, através da graça da expressão

'";, poética, a afinidade do «mito individual» e do «mito histórico»,

;\a igualmente a melhor ilustração para o prolongamento que

j; Baldwin deu à famosa «lei» de Haeckel, «a ontogénese reproduz a filogénese»; enquanto a paixão arqueológica de Freud não irá

:

'

J cessar de defender a sua tradução sucessivamente metodológica

moração do poeta na sua casa de Frankfurt,

Freud dirá que

,

e metafórica, desde o «desenterrar» dos Estudos sobre a Histe- na à encenação pompeiana de Gradiva e até à meditação de Mal- -estar na Civilização sobre a sobrevivência sincrónica dos estra- tos que sucessivas Romãs depositaram (núcleo edípico do de-

,;'/.

'V(

> senvolvimento, sedimentação e ressurgência das organizações culturais, entrelaçamentos da vida e da morte na marca de um destino comum, na sua lei periódica, aos indivíduos e aos po- vos). Quem não pressentiria, no pólo de convergência destes

v diversos temas, o esboço do que irá ser, na sua maturidade,

,'^i a representação Talvez que, freudiana de facto, a da partir cultura? desta data, esta construção tenha obsecado Freud de modo semelhante a um desses mitos

1

; endopsíquicos cuja noção ele relaciona com a percepção confusa que o sujeito tem da sua própria estrutura. «Serás capaz de imaginar», escreve ele a Fliess a 12 de Dezembro de 1897, «o que são os mitos endopsíquicos? Pois bem, são as últimas pro- duções da minha actividade cerebral. A obscura percepção interna que o sujeito possui do seu próprio aparelho psíquico

.!•,'

'!,:

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FREUD:

A. TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

suscita ilusões (Denkillusionen) que são, naturalmente, pro-

jectadas para o exterior e, de modo característico, no futuro, num além. A imortalidade, a recompensa, todo o além (das ganze jenseits), tais são as concepções da nossa psique in-

É uma psicomitologia». Os editores das Cartas apro-

ximaram com razão estas linhas das teses formuladas em 1908

no artigo sobre o poeta e a actividade fantasmática: «No que

se refere aos materiais, provêm do tesouro popular constituído

por mitos, lendas e contos, O estudo das criações psicológicas

populares está longe do seu termo e tudo leva a crer que os

mitos, por

mados de fantasmas de desejo comum a nações inteiras e representam os sonhos seculares da jovem humanidade.» No entanto, devemos sublinhar bem onde se encontra a origina- lidade destes pontos de vista. Em primeiro lugar, não atinge

a analogia das duas «infâncias», a individual e a histórica: o tema é, afinal de contas, bam banal. Mas está perto da analogia

do modo de génese, encarado respectivamente por uma e outra.

A noção de mito endopsíquico faz aparecer na projecção da

estrutura subjectiva e, mais precisamente, da sua clivagem interna, a fonte das grandes categorias em que se moldam os

fantasmas constitutivos da trama dos mitos. O problema re- sidirá então em saber se não poderemos assinalar no registo

da história humana um equivalente desta clivagem subjectiva.

Semelhante convergência suporia que a teoria psicanalítica, ou seja, a teoria da transferência encontraria, de algum modo, a teoria da restituição «arqueológica». Do ponto de vista da his- tória dos métodos, o primeiro dado a este respeito é-nos forne- cido pelas trocas ocorridas, no decurso do século xix, entre as acepções cosmológica, geológica, arqueológica e linguística do conceito de «camada».

terna

exemplo, são, muito provavelmente, vestígios defor-

3. A noção dei camada e a transferência

Georg Curtius, nascido em Lubeck em 1820, contemporâ- neo de Max Muller, cujos princípios gerais aplicou à história primitiva dos idiomas indo-europeus, aluno de Bopp e pro-

grega na Universidade de Leipzig, publi-

cou em 1867 um ensaio sobre A Cronologia na Formação das Línguas Europeias, procurando instaurar uma estreita asso- ciação entre a linguística comparada e o método histórico. «Mesmo, nos limites em que a analogia da ciência da linguagem com as ciências naturais se justifica realmente», escreve ele, «ela parece aplicar-se sobretudo às ciências que se ocupam de

fessor de literatura

o SÉCULO

xx

objectos mutáveis e muito diferentes no decurso dos tempos, como a geologia e a paleontologia. Se Max Muller recusa o emprego da palavra história para a linguagem é, sem dúvida,

por ter sentido as exigências de uma acepção estreita, própria

da língua inglesa, da palavra history

linguística da antiga, que se limitava ou a uma simples esta- tística ou a uma tentativa de classificação sistemática dos fenó-

menos da linguagem, é precisamente a concepção genética da vida da linguagem». A esta perspectiva ligasse, como é natural, a exigência de uma cronologia: «Em qualquer consideração his- tórica trata-se com factos sucessivos, de anterioridade e de pcsterioridade, tanto no pormenor como no conjunto. A história nada é sem cronologia, sem determinação de períodos baseada em datas cronológicas.» Mas a noção de cronologia presta-se a equívocos. De facto, ela não pode ser interpretada no sentido de uma ordem linear. A perfeita concordância da investigação histórica de Jacob Grimm no domínio da língua alemã com as descobertas de Bopp no seu sistema de conjugações revela, por exemplo, que «o rico tesouro das formas se produziu por cama- das». De modo geral, «a linguagem oferece num qualquer mo- mento da sua duração um aspecto semelhante ao dos jazigos de rochas mais ou menos antigos, colocados por cima ou ao lado uns dos outros sobre ia superfície terrestre. Torna-se, necessá- rio, portanto, rejeitar o método que pretendia explicar a priori as formas que subsistem umas ao lado das outras através da base de uma única ideia. É preciso começar por distinguir as diferentes camadas de formas colocadas acima ou ao lado umas das outras. É o único meio de chegar ao estado primitivo e, a partir daí, reconhecer e compreender, como algo de inteligente e racional, as primeiras tentativas para criar as formas da lin guagem, o ulterior crescimento de novas formações e, final- mente, a reunião de todas as formações assim nascidas, uma 'após outra, num sistema completo. Na verdade, a observação desta estratificação das formas conduz-nos agora muito miais longe do que seria possível prever numa primeira panorâmica.» Assim se aprofunda, no sentido de uma «historicização» da análise dos sistemas, a noção elaborada por Max Muller — e por ele retomada no título de uma conferência de 1868 — de estra- tificação Ora, da é numa linguagem. noção equivalente que o método psicanalítico encontrará o seu estatuto, que este método de estratificação encontrará o princípio do seu desenvolvimento transferencial, que, finalmente, a estratificação da transferência encontrará a razão da sua analogia com a sedimentação dos processos de cultura.

O que distingue a nova

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

Retomemos a análise do caso de Elisabeth. «Foi essa», diz- -nos Freud, «a minha primeira análise completa de uma histeria. Permitiu-me proceder, pela primeira vez, graças a um esforço (Verfahren) que mais tarde instituí em método, à eliminação por camadas (Schichtweisen Ausraumung) dos materiais psí- quicos, o que gostávamos de comparar à técnica de desenterrar uma cidade sepultada. Eu fazia, em primeiro lugar, com que a doente me contasse tudo o que lhe era conhecido, anotando cui- dadosamente as passagens em que uma associaçãopermanecia enigmática, em que um membro (Glied) parecia faltar na rede (Kette) das ligações causais; em seguida, penetrava nas cama- das (Schichte) mais profundas da recordação». Salientemos, em primeiro lugar, o alcance da análise arqueológica, aqui esta- belecida sem equívocos; para além disso e sobretudo, a signi- ficação metodológica que lhe está ligada, fazendo aparecer, com o conceito de estratificação (Schichtung), o ponto de articula- ção entre a metodologia propriamente psicanalítica e a cultura. Será esta, dez anos mais tarde, a lição da Gradiva de Jensen. Mas aí, a mesma imagem será desenvolvida como ilustração da transferência. Assim, pressentimos que qualquer desenvol- vimento da experiência psicanalítica está votado a traduzir-se num aprofundamento das relações entre a experiência psicana- lítica e a teoria da cultura, que qualquer nova manifestação da transferência está destinada a traduzir-se num aprofundamento das relações entre transferência e cultura — e, de facto, cin- quenta anos de investigação empírica e de elaboração teórica ordenam-se sistematicamente sob esta perspectiva. Tomemos por referência os dois tópicos ou modelos estru- turais do aparelho psíquico, construídos por Freud à volta de 1900 e 1920. A estes dois grandes impulsos da criação- freudiana ligam- -se, conjuntamente, o desenvolvimento da teoria da transferên- cia e o desenvolvimento da teoria da cultura. Desde 1895 que a noção de transferência estava, de facto, presente nos Estudos sobre a Histeria, segundo as três dimen- sões que corresponderão, trinta anos mais tarde, (1925) às de Inibição, Sintoma, Angústia —- teoria psicanalítica da solidão humana, fundada nos dados da experiência transferencial. Mas, entre estes dois limites, operou-se a mutaçãodecisiva, que corresponde ao deslocamento de interesse da interpretação das neuroses para a construção da psicose. Com a noção de destino pulsional e a introdução ao narcisismo, suportados pelo comentário do caso de Schreber, a relação de alteridade ocupará Doravante na teoria psicanalítica uma posição central. Na direc- da transferência, este progresso foi definido pela elaboração

O

SÉCULO

XX

da teoria dos protótipos; no domínio da cultura pela reflexão sobre Schreber que Totem, e Tabu representa: aspectos comple- mentares desta problemática da alteridade que veremos desen- volver-se em torno da segunda tópica, com a oposição de Eros e de Tanatos. Ora, que esta última oposição seja, por sua vez, indisso- ciável quer da teoria da transferência quer da teoria da cultura, parece evidente, por um lado, em virtude da pertença da repe- tição transferencial à esfera das pulsões de morte, por outro, devido à generalização que a exigência ontogenética encontra no ciclo da filogénese. Uma última noção irá coroar e condensar o essencial deste desenvolvimento, a de Verdade histórica, Noção presente a par- tir do momento em que a análise de Schreber revelava, no seu delírio, uma construção teórica regressiva, cuja relação com a verdade só poderia ser expressiva através do reconhecimento de que ela «foi verdadeira» — segundo a dimensão da história do sujeito e segundo a dimensão da história da humanidade. Ela irá sustentar, aliás, quer o método de construção biográfico apresentado em 1932 como característico da psicanálise, quer a construção histórica pela qual Freud, em 1938, tentará resti- tuir, no seu Moisés, as origens do monoteísmo. De uma etapa a outra, temos pois de situar no campo de uma metodologia transferencial o alcance operatório desta noção de estratificação, oriunda da própria prática da psica- nálise, de que o comentário de Gradiva de Jensen deveria ates- tar a posição central na esfera da cultura. E não é por acaso que esta contribuição intervém logo após os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, que consagra a explicação genética do fantasma de desejo, e imediatamente antes das grandes recons- truções onto e filogenéticas de Schreber e Totem e Tabu: a estratificação é a explicação transferencial da dimensão de alteridade imanente à génese. Mas o privilégio assim reconhecido ao Comentário de Grã- diva adverte-nos também de que a teoria freudiana da cultura não teve de imediato o valor de um projecto sistemático. O recalcado, a transferência não são, de facto, nela evo- cados por conceitos, mas, por assim dizer, no estado nascente, como se a aliança íntima dos registos teórico e poético fosse chamada a testemunhar o «duplo sentido» em que a análise se funda. Qual a razão, pergunta Freud, para esta predilecção manifesta pelos discursos ambíguos na Gradiva? Numa pers- pectiva didáctica ou teórica, podemos dizer que «ela não é mais do que um corolário da dupla determinação dos sintomas, na medida em que os próprios discursos constituem sintomas e

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

todos estes resultam de compromissos entre o consciente e o inconsciente». Mas esta visão teórica funda-se numa situação romanesca cuja singularidade — na dupla acepção do termo — confere um lugar de eleição ao pensamento do duplo sentido. «Para Hanold, os seus discursos só têm um sentido e apenas a sua companheira Gradiva capta o outro sentido.» Assim, após

a sua primeira resposta: «Eu sabia que era esse 'o som da tua

voz', Zoe, ainda insuficientemente prevenida, pergunta como é que issoi é possível, visto que ele não a ouviu falar. Numa se- gunda conversa, a jovem é momentaneamente desconcertada pelo delírio de Hanold, quer dizer, da sua amizade remontando

à infância, mas Hanold não suspeita o alcance do seu próprio

discurso e interpreta-o em relação ao delírio que o possui.»

A alteridade abre assim uma nova dimensão ao duplo sentido

do discurso: a teoria confina à Poética, a Poética à Poesia. Por- que a poesia não é apenas jogo do som e do sentido, efeito de discurso, mas também fenómeno de escuta, verdade que só fala, como nos diz Freud, para ser entendida por meias-palavras. Do mesmo modo' não nos admiraremos que esta análise do duplo sentido, conduzida primeiramente na ordem da linguagem para lhe tornar manifesto' o equívoco da fala emitida ou com- preendida, se desenvolva numa interpretação do amor de trans- ferência de modo a fazer-nos sentir afinidades poéticas. «O romancista sabe que uma componente de luta contra o amor concorreu para a génese do delírio e deixa a jovem que tenta

a cura pressentir a componente do delírio que lhe é mais agra-

dável. Só esta compreensão- pode decidi-la a consagrar-se a uma cura. Só a certeza de ser amada a pode levar a confessar o seu

próprio amor. O tratamento consiste em restituir do exterior

a Hanold as recordações recalcadas que ele não pode libertar

do interior. Mas tudo teria sido inútil se a terapêutica não tivesse em conta os sentimentos de Hanold e se a tradução do delírio não tivesse, ao fim e ao cabo, sido: «Vê, tudo isto signi- fica que tu me amas.»

Mas, como se sabe, compete a Gradiva e ao seu comentário não limitar ao discurso, à interpretação e à transferência esta poética do duplo sentido. «Parece-me», exclama Gradiva, «que, há dois mil anos, partilhámos o nosso pão, não te recordas?» Ppmpeia aparece, portanto, aqui em vez da infância, o passado histórico em vez do passado individual, a arqueologia em vez da psicanálise. O duplo sentido não diz apenas respeito às condi- ções transferenciais do retorno do recalcado; é essencial para a elaboração do tema da cultura. É certo que não conseguimos captar de imediato o modo como se opera esta mutação. E esta indecisão conceptual manterá justamente a noção de cultura

31

O

SSOULO

XX

que nos propõe Gradiva no registo poético em que o duplo sen-

tido da expressão se desenvolveu. Mas confere igualmente valor à metáfora do desenterrar como antecipação do método de análise da cultura. Se, desde 1895, se encontrava estabelecido pelos Estudos sobre a Histeria " o modelo que, através da Pompeia de Gradiva, leva à Roma de Mal-estar na Civilização, é porque o conceito psicanalítico de estratos e o processo psicanalítico de análise estratificada são subjacentes a esta evocação incessantemente renovada da téc- nica arqueológica. Trata-se, portanto, de marcar o fundamento , de uma analogia epistemológica precisa entre a historicidade ; característica do indivíduo e a historicidade característica da ^ cultura (entre os seus respectivos modos de «sedimento»). E ;t vist o que , e m suma , apena s o process o transferencia l d á acess o ••

:

estratificação subjectiva, podemos, sem dúvida, prever que ele

ia experiência psicanalítica

nos esclarecera, auur c a, pa-oocig,^^ ^v* „„,,,.

à teoria da cultura e, mais precisamente, que nos ajudará a

compreender o tipo de organização em que assenta esta tran- sição.

nos esclarecerá sobre a

à

_ ji

£

4.

Do discurso psicótico à sublimação Paternidade e meditação

cultural:

De que modo este primeiro esboço de uma estratificação em que se prolongaria e generalizaria a estratificação transferen- cial se desenvolveu e sistematizou numa teoria, na teoria freu- diana da cultura? Vemos delinear-se esta versão teórica no ano seguinte ao comentário de Graãiva, com A Ética Sexual e a Nervosiãaãe Moderna, e o interesse deste texto não reside por certo apenas no testemunho da renovação que o ponto de vista genético dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade suscita na elabo- ração da transferência. O conceito de estádio dominava, em 1905, os Três Ensaios; a Ética Sexual de 1908 é dirigida pelo conceito de camada. É certo que assinalámos a intervenção desta noção na origem da interpretação das zonas erógenas. Mas, doravante, as suas condições de emprego são precisas: ela emerge em Freud em cada momento em que a genética é cha- mada a articular-se com uma teoria do discurso. Esta, contudo, só dependerá do registo da psicanálise em virtude da subordi- nação em que o discurso se encontra em relação à posição do seu destinatário: posição do psicanalista na transferência, posi- ção de um garante de verdade na teoria. Temos portanto de prosseguir na elucidação desta referência, de modo a com-

32

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

preendermos por que razão ela emerge na prática, na teoria

do sujeito e na teoria do desenvolvimento humano. A este respeito não se poderia desconhecer o impulso de Jung, e Freud não só nos advertiu disso no prefácio de Totem e Tabu, associando ao nome de Wundt o do discípulo de que

se separa para reconhecer a sua dívida para com eles, mas tam-

bém deixou a sua marca na correspondência com Abraham, da- tada de 1909, a propósito do artigo de Jung sobre a Significação

do Pai para o destino do indivíduo, «Já tinha ouvido falar muito da contribuição de Jung»,

escrevia Abraham,

ginal. Infelizmente decepcionou-meum pouco porque, para dizer

a verdade, não traz sobre a questão pontos de vista novos. Você também é da opinião de que o pai [sublinhado pelo autor] seja

de tal modo preponderante? Em muitas das minhas análises é

a mãe; em outras, não é possível decidir quem tem a maior im-

portância, se o pai se a mãe. Parece-me que isso depende muito das situações individuais.» A resposta é contudo suficiente- mente favorável para que se possa levantar a questão da in- fluência de Jung, não directamente sobre o desenvolvimento da psicanálise mas sobre o desenvolvimento da sua problemática. «Até agora», escreve Freud, «considerava que, para a pessoa,

a parte do mesmo sexo era a mais importante; mas também

posso admitir as minhas disposições em função de uma maior diversidade individual. Jung retirou, mas muito frutuosamente [sublinhado por nós] um elemento do conjunto.» De facto, o impulso era dado à investigação cujo resultado se pode resumir no tema da «morte do pai». A cultura, para Jung, perpetuava o investimento do pai vivo; para Freud, ela consagrará a ruptura violenta do princípio de espiritualização que ele representa com o indivíduo vivo, que terá sido o seu veículo. Mas a oposição é também de ordem metodológica. Jung limitá-so a transpor para o registo da crença religiosa algumas orientações da análise das neuroses. Freud é inovador na me- dida em,que confere à investigação cultural um centro de refe- rência clínico privilegiado, que é a análise do delírio. É ao pros- seguir esta em paralelo com a análise da transferência que ele consegue constituir a teoria da cultura como discurso estrati- ficado; e o papel do pai é então o de sustentar, das suas suces- sivas posições, o desenvolvimento desta estratificação. Retomemos cie facto as conclusões que Jung extrai da sua

breve análise de quatro casos de neurose. «A partir do momento em que se levanta o véu sobre o problema do destino do indi- víduo» — identificável ao problema do destino da sexualidade •— «o olhar dilata-se da história individual para a história dos

53

«e esperava, assim, algo de perfeitamente ori-

O

SÉCULO

XX

povos.» E, em primeiro lugar, a atenção incide na história das religiões. A religião do Antigo Testamento, escreve, em resumo, Jung, promoveu o pai de família num Jeová dos Judeus a quem o povo, com ansiedade, deve obedecer. Um grau intermédio em direcção à divindade é representado pelos patriarcas (Erzva- ter). A angústia neurótica da religião judia, tentativa incom- pleta de sublimação por parte de um povo ainda bárbaro, ori- ginou o cruel rigor da lei mosaica, o cerimonial compulsivo do neurótico, evocado por Freud em 1907 no seu artigo sobre o ritual. Apenas se libertam os profetas, a quem está reservado o privilégio da identificação com Jeová, quer dizer, a perfeita sublimação. Eles tornam-se então os pais do povo. O Cristo, a quem compete realizar a mensagem dos profetas, afasta o temor de Deus e ensina aos homens que a verdadeira relação com a divindade é a do amor. Quebra assim o cerimonial neurótico da Lei e dá o exemplo da relação pessoal de amor a Deus. As subli- mações incompletas da massa cristã conduzem ao cerimonial da Igreja de que apenas alguns santos e reformadores com uma maior capacidade de sublimação se podem libertar. Inversa- mente, prossegue Jung, vamos encontrar no curso da vida indi- vidual as etapas que vemos sucederem-se. na cena da história. Os sentimentos da primeira infância, recalcados no incons- ciente, são a raiz das primeiras sublimações religiosas. Deus aparece no lugar do pai e o conflito da sexualidade e do amor sublime exprime-se na figura do Diabo

estas sugestões com a progressão do per-

Confrontemos

curso freudiano. O interesse passa, de imediato, da expo- sição de um material clínico caracterizado apenas pelas «ati- tudes» da criança para com os membros da sua constelação familiar e pelos conflitos originados, para a constituição interna

do delírio, compreendido como uma sublimação abortada; e, por este facto, a contribuição da patologia para a teoria da cul- tura, reduzida por Jung a uma transposição não motivada do registo individual no curso da história, apoia-se no próprio movimento em que se engendra o discurso humano e de que o delírio assinala uma peripécia. Dado primeiro: a apresentação das teorias sexuais infantis. «Embora se extraviem grotescamente», escrevia Freud em 1808, «cada uma contém, no entanto, um fragmento de pura verdade; são, sob este aspecto, análogas às soluções qualifica- das como 'geniais' que os adultos se esforçam por dar aos problemas que o mundo coloca e que ultrapassam o entendi-

expli-

ca-se por terem a sua origem nas componentes da pulsão sexual que agem já no organismo da criança; não foram a arbitrarie-

mento humano. O que nelas há de correcto e pertinente

34

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

dade de uma decisão psíquica ou o caso das impressões que originaram tais hipóteses, mas as necessidades da constituição psico-sexual e, por essa razão, podemos falar de teorias sexuais infantis típicas e encontrar, do mesmo modo, as mesmas con- cepções erradas em todas as crianças a cuja vida sexual pode- mos ter acesso.» Estamos pois perante sistemas intelectuais parciais e o artigo de Freud é consagrado às dramáticas vicissitudes das tentativas de verificação destes sistemas. Anuncia-se, em par- ticular, a restituição genética da dúvida: quando a criança, por exemplo, «parece no caminho certo para postular a existência da vagina e reconhecer numa penetração do pénis do pai na mãe esse acto através do qual a criança surge no corpo da mãe, a investigação interrompe-se, desconcertada: ela acaba de tro- peçar na teoria segundo a qual a mãe possui um pénis como o homem e a existência da cavidade que recebe o pénis permanece desconhecida da criança. Admitir-se-á facilmente que o insu- cesso do seu esforço de pensamento facilita a sua rejeição (Werfen) e esquecimento. No entanto, esta ruminação inte- lectual e esta dúvida são os protótipos de todo o trabalho de pensamento ulterior respeitante à solução de problemas, e o primeiro falhanço tem um efeito paralisante para o resto dos tempos.» No mesmo período, o tema encontra uma ilustração na análise do Homem aos Ratos. «Uma necessidade psíquica comum

nos leva longe na investigação das pul-

sões é a da incerteza na vida ou a da dúvida. A formação da incerteza é um dos métodos de que a neurose se serve para retirar o doente da realidade (Reailitat) e isolá-lo do mundo exterior o que, no fundo, é uma tendência comum, a qualquer perturbação neurótica.» Mas também aí se remete, numa nota célebre, da génese da dúvida para a filiação paterna. «Segundo Lichtenberg, o astrónomo sabe praticamente com a mesma cer- teza se a lua é habitada e quem é o seu pai, mas sabe com uma certeza muito maior quem é a sua mãe.» E constituiu de facto «um grande progresso da civilização a humanidade ter-se deci- dido a adoptar, ao lado do testemunho dos sentidos, o da con- clusão lógica, e a passar do matriarcado ao patriarcado. Esta- tuetas pré-históricas em que uma forma humana está sentada sobre a cabeça de uma maior representam a descendência pa- terna, Atena, sem mãe, sai do cérebro de Júpiter. Ainda na nossa língua, o nome de testemunha (Zeuge) num tribunal, que atesta qualquer coisa, provém da parte masculina do acto de procriação; e já nos hieróglifos a testemunha era representada Pelos órgãos genitais masculinos.»

aos obsecados, e que

35

o SÉCULO

xx

Assim se instituiu uma sequência entre uma série de noções — sistemas intelectuais, verdade histórica, testemunho dos sentidos e conclusão lógica, Paternidade — que interessam em comum à posição na Realidade do objecto de uma representação abstracta. Esta sequência, inaugurada pela análise do delírio obsessivo do Homem dos Ratos., só encontrará, no entanto, a sua

forma definitiva graças à análise do delírio psicótico, neste caso

o delírio de Schreber, que irá pôr em evidência a articulação

dos seus diversos momentos na estrutura do sujeito. Progresso

decisivo, na medida em que faz com que o processo de regressão apareça como o negativo da aculturação ou melhor, com que

a elaboração do conceito de regressão apareça como a contra-

partida empírica, no terreno próprio à psicanálise, da elabo-

ração de uma teoria da cultura. Lembremos pois, primeiramente, alguns elementos de mé- todo. O principal obstáculo que se encontra na elucidação deste caso, resulta da confusão entre o mecanismo da formação dos sintomas, neste caso o delírio, e o do recalcamento. «Não temos qualquer razão para supor», escreve Freud, «que os mecanismos sejam idênticos e que a formação dos sintomas siga a mesma via que o recalcamento, sendo esta, por assim dizer, percorrida das duas vezes em sentidos opostos.» Mas importa, além disso, decompor este mecanismo do recalcamento. Distinguiremos assim a fixação, o recalcamento propriamente dito e o insucesso do recalcamento, provocando o retorno do recalcado. Concentre- mos a nossa atenção na fixação, destinada a funcionar como pólo da regressão e deixemo-nos conduzir pelo fantasma da des- truição do mundo. O que está aqui em causa não é a regressão da libido de um objecto para outro objecto, mas a retirada de toda a libido da esfera dos objectos. Poderemos então inter- pretar o delírio como uma tentativa de reconstrução. E esta concepção do delírio determina, de três pontos de vista, o tema da cultura. Por um lado, diz-nos Freud, «se examinarmos as engenhosas construções que o delírio cie Schreber edifica sobre o terreno religioso (a hierarquia de Deus — as almas experi- mentadas — os vestíbulos do céu — o Deus inferior e o Deus superior), poderemos avaliar retrospectivamente a riqueza das sublimações que nele foram aniquiladas pela catrástrofe do des- prendimento geral da libido.» Por outro lado, se é certo que «os

no estádio do narcisismo»,

paranóicos

podemos afirmar que «a soma de regressão que caracteriza a paranóia é calculada pelo caminho que a libido deve percorrer para retornar da homossexualidade sublimada ao narcisismo». Finalmente, num ponto particular, a relação de Schreber com o sol, é possível pressentir a analogia entre o processo patoló-

possuem uma fixação

FREUD: A TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

gico de reconstrução delirante e uma etapa do desenvolvimento cultural. Efectivamente, o sol fala uma linguagem humana, como um ser animado, e somos obrigados «a considerá-lo»,diz Freud, «um símbolo paterno sublimado». Além disso, Schreber assegura-nos que os seus raios empalidecem perante ele quando, virado para o sol, lhe fala em voz alta. E, «uma vez curado», vangloria-se de ser capaz de, sem grande dificuldade, «fixar o Sol e de apenas ficar moderadamente ofuscado, o que, claro está, não lhe era possível anteriormente». É este privilégio delirante de ser capaz de fixar o Sol sem ficar ofuscado que apresenta um interesse «mitológico» e que compreenderemos a partir do modelo do ordálio. Todo o problema reside, portanto, em compreender a arti- culação entre o processo psicológico da sublimação e o processo histórico da cultura. Mas sabemos já que esta problemática é suportada pela corrente de pensamento que teve origem, com

a concepção das teorias infantis, na análise da dúvida — em

relação à posição mediata da paternidade e da realidade em que ela se funda. A catástrofe interior de Schreber, em que o seu mundo foi arrastado, a desinserção dcs seus investimentos do

campo da exterioridade, consagram, de facto, a ruptura desta

mediação sob a exigência fascinante do investimento narcísico.

E a sua tentativa de reconstrução aborta, desfralda em delírio

em vez de se realizar em sublimação, na medida em que não dispõe, num centro de mediação-, de qualquer ponto de apoio

para a sua expressão. Para determinar o ponto de junção entre

o processo de sublimação e a problemática da cultura temos

pois de investigar se existe um modo de correspondência assi- nalável entre as condições subjectivas da sublimação e as con- dições efectivamente reais do aparecimento da cultura ou, nou- tros termos; temos de decifrar a correspondência entre a aná- lise de Schreber e Totem e Tcibu, seu comentário cultural.

5. O acto fundador: Solidão neurótica e devir humano

Texto a que está ligada a rara fortuna de ter sido, sem dúvida, o mais maltratado de todos os escritos de Freud e de ter, no entanto, conservado para c seu autor, até ao termo da sua carreira, o seu crédito intacto. Dogmatismo? De todas as hipóteses formuladas por Freud, a realidade histórica da morte do pai e a sua marca, a transmissão da culpabilidade, é precisa- mente a que ele rodeou de maiores precauções críticas. Algum motivo propriamente analítico parece tê-lo a isso encorajado, e esta impressão é reforçada pelos critérios retidos pela inves-

37

l

FREUD: A TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

O

SSCULO

XX

tigação. «Os dois assuntos anunciados no título deste livro», escreve Freud no seu prefácio, «o totem e o tabu, não são tra- tados da mesma maneira. O problema do tabu recebe uma solu- ção que considero praticamente definitiva e certa. O mesmo não sucede em relação ao totemismo, a respeito do qual tenho de modestamente declarar que a solução que proponho é apenas a que os dados actuais (sublinhado por Freud) da psicanálise parecem justificar e autorizar.» Freud coloca-se aqui, portanto, apenas do ponto de vista psicanalítico. E é igualmente noi estilo propriamente analítico do «desenterrar» que a investigação se irá desenvolver. No registo clínico ela procede do conflito neu- rótico manifestado pela proibição ao incesto e pela ambiva- lência aos sentimento® — no núcleo narcísico de que depende

o

processo psicótico e para que o capitulo «Animismo, magia

e

omnipotência das ideias» remete. «Talvez este estádio inter-

médio entre o auto-erotismo e o amor objectai», pode ler-se,

por outro lado, na análise de Schreber, «seja inevitável no de- curso de qualquer desenvolvimento normal, mas parece que certas pessoas aí se detêm de maneira singularmente prolon-

gada

aos dois sexos os mesmos órgãos genitais, devem exercer a este respeito uma enorme influência.» Mas, a este nível, está envol-

vido num alto grau a relação do sujeito com a realidade. Vamos ver que esse será precisamente o tema fundamental da recons- trução etnográfica do acto fundador da comunidade primitiva. Observemos com maior atenção o desenvolvimento e a liga-

e as teorias sexuais infantis, que atribuem inicialmente

ção dos quatro capítulos de Totem e Tabu. No primeiro capítulo, «O medo do incesto», verificaremos em primeiro lugar que tenta repor a questão levantada a partir de 1897 das origens e da função da exogamia, no contexto do sistema totémico, numa posição intermédia entre a Sociedade «natural» e a Sociedade «alargada». Mas, com esta formulação, impõe-se um assinalável deslocamento de ponto de vista. «Como é que a família real», pergunta Freud, «foi substituída pelo grupo totémico? Eis um enigma cuja solução talvez só venhamos a encontrar quando tivermos compreendido perfeita- mente a natureza do totem.» Descritivamente, evocaremos pois

a noção do «sistema classificatório» de Morgan. Mas, na medida

em que este sistema se funda na função classificatória do totem,

a questão residirá em saber se a repressão do incesto não está

subordinada às vicissitudes da relação com o pai. E é por esta via que Totem e Tabu seguirá: as tentativas de explicação da repressão do incesto fracassaram porque dissociavam o inves- timento libidinal da agressividade para com o rival; a origina- lidade de Totem e Tabu estará em fazer surgir a repressão libi-

dinal de uma mutação da agressividade que lhe associa a sua estrutura edípica. A interpretação do tabu, a que o segundo capítulo se dedica, inaugura esse movimento pela clarificação da ambivalência subjacente ao tabu. E, a este respeito, a analogia patológica exerce um triplo papel. No que se refere à própria natureza dos processos, permite restituir a componente de agressividade que lhe é essencial; no que se refere ao seu objecto, permite reunir em traços comparáveis três tipos característicos: os inimigos, os chefes, os mortos; a agressividade emerge portanto sob a sua forma limite, o desejo de morte de uma personagem omni- potente. Finalmente, no que se refere ao modo de manifestação desta hostilidade, a experiência analítica — e, de modo mais amplo, psicológica — permite ainda compreender a sua impu- tação aos demónios ou aos espíritos através do mecanismo1 de

projecção. Porém, mesmo estas analogias levantam uma questão de princípio quanto às relações das neuroses e das formações sociais. «Do ponto de vista genético», escreve Freud, «a natu- reza social da neurose deriva da sua tendência original para fugir à realidade que não oferece satisfações, para se refugiar num mundo imaginário pleno de promessas aliciantes. Neste mundo real de que o neurótico foge, reina a sociedade humana, com todas as instituições criadas pelo trabalho colectivo; afas- tando-se desta realidade, o neurótico exclui-se da comunidade humana.» Nos termos da nossa investigação e na perspectiva dos seus primeiros resultados, a oposição assim formulada tra- duz-se da seguinte forma: em que é que a expressão neurótica do desejo de morte difere da sua expressão social — social quer dizer também real, pois a observação ensina-nos precisamente que os dois domínios se sobrepõem. Mas a restituição do mecanismo de projecção fornece uma primeira abordagem. Acabamos de iniciar uma explicação da crença nos demónios pela projecção das pulsões agressivas. Ora, o sistema assim constituído graças a um mecanismo «cujo protótipo é fornecido pelo que temos chamado a elaboração se- cundária dos conteúdos do sonho», pode tomar lugar numa série coerente de representações do mundo. A humanidade, «a acre- ditar nos autores», teria conhecido sucessivamente três desses sistemas intelectuais, três grandes concepções do mundo: con- cepção animista (mitológica), concepção religiosa e concepção científica. Procura-se então reconhecer sob que categoria psico- lógica se deixa construir uma série como esta, se impõe como Princípio de dedução «a omnipotência das ideias», que fixa o tema da terceira parte da obra.

39

O

SÉCULO

XX

E atingimos o problema da inserção no real. Porque, em primeiro lugar, «nada parece mais natural do que ligar ao nar- cisismo, como sua característica essencial, o grande valor que o primitivo e o neurótico atribuem às acções psíquicas». Vamos pois precisar o nosso primeiro esboço do desenvolvimento das representações do mundo. Se a fase animista corresponde ao narcisismo, «a fase religiosa corresponderá ao estádio de objec- tívação, caracterizado pela fixação da libido nos pais, enquanto a fase científica terá a sua correspondência neste estado de

maturidade

do prazer e pela subordinação da escolha do objecto exterior às conveniências e às exigências da realidade». Mas o paralelismo não pode ser aceite acriticamente. Enquanto o neurótico, como acabámos de sublinhar, foge do real, toda a dificuldade, na ordem histórica, está em compreender a que título pôde o ani- mismo, pelo contrário, representar uma momento decisivo< no acesso do ser humano à ordem da realidade. Tal será o objecto do último capítulo de Totem e Tabu e a função da «morte do pai» — expressão de resto muito infeliz: porque a intenção de Freud é precisamente restituir o aparecimento da função pa- terna a partir do fundamento do assassínio do chefe da horda, ou seja, a inversão das relações primitivas de dominância. A nossa questão inicial incidia, de facto, na origem da comunidade totémica. Restituímos as estruturas de sociabili- dade que lhe são subjacentes, até um momento caracterizado pela projectividade narcísdca; e se a experiência psicanalítica nos pôde apoiar neste esforço regressivo é porque o estado pré- -totémico, a-cultural, o reino da horda, tem, de facto, o seu modelo na psiconeurose narcísica, contanto que esta leve ao seu limite narcísico a a-socialidade característica da neurose:

do indivíduo, caracterizado pela renúncia à procura

assim como Schreber tem, para com a imago «paterna» onde exige reconhecer-se, uma relação dual ambivalente de domínio- -dependência, também o hominídeo pré-totémico tem a mesma relação para com o chefe da horda. Mas é aqui que intervém a mutação decisiva. Esta relação dual, a reunião dos membros da horda, seguida do assassínio e da devoração colectiva do seu chefe, converte-a numa con- figuração social. E o que torna possível esta mutação é a iden- tificação recíproca dos membros daquilo que se terá assim transformado num clã, o clã totémico. Por outras palavras, o acontecimento fundador da ordem cultural pode ser descrito sob dois aspectos solidários, consti- tuindo a própria essência da teoria freudiana o reconhecimento dessa solidariedade. Em primeiro lugar, a sociabilidade toté- mica, figura inaugural da sociabilidade humana, tem como fun-

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

damento a morte. Porque é da morte como tal que ela recebe a marca da identificação comum aos seus participantes. Do mesmo modo o acto de morte, que põe fim ao domínio do chefe da horda e que abre igualmente ao hominídeo as vias de um pensamento abstracto, inaugura essa relação mediata com o ausente em que se institui a função cultural do antepassado totémico, inaugura a capacidade de o ausente exercer no clã

um poder classificador. Mas assim se rompe o paralelismo entre

o neurótico e o primitivo, entre o animal totémico do pequeno

Hans e o totem primitivo. Aquele sanciona a desinserção so- cial, este consagra o aparecimento do vínculo social. E não basta sublinhar que o registo de que depende o assassínio do chefe da horda não é assimilável ao da neurose mas ao da per- versão. Porque esse «perverso polimorfo» que a criança é — ou, com mais propriedade, que o infams é — passa à acção por sua própria conta. Mas o hominídeo só promove o totem na medida

em que ele participa num assassínio colectivo. E nisto consiste

o estatuto de «realidade histórica», o estatuto de acontecimento, conferido por Freud a este acto. Neste ponto essencial esclarecem-se para nós a maior parte das dificuldades sentidas em torno de Totem e Tabu. «Um dia», diz-nos Freud, «os irmãos expulsos reuniram-se, mataram e devoraram o pai, o que pôs fim à existência da horda paterna. Uma vez reunidos, tornaram-se audaciosos e conseguiram rea- lizar o que cada um deles, individualmente, teria sido incapaz de fazer.» Se o assassínio do chefe da horda pode ser apresen- tado como um acontecimento «histórico» é, portanto, na medida ern que é empreendimento colectivo, originado pelo sentimento difuso de uma afinidade de condição entre os seus artífices; a vitima devorada ern comum é a sua vítima comum, e as dife- rentes fases da refeição totémica atestam que esta é a coroa- ção de um acontecimento integralmente colectivo. Assim, a situação e o processo com que nos confrontámos parecem, em

aos que Freud evocava, em 1913,

primeira instância, comparáveis

em Os dois princípios ao processo psíquico, a respeito da ins- crição da obra de arte no Real da comunicação. O hominídeo socializa no assassínio colectivo do chefe a sua pulsão de agres- são, do mesmo modo que o criador socializa na obra o fantasma com que o seu desejo se envolve. «Um dia, de facto», diz Freud,

«os irmãos coligaram-se, mataram e devoraram» o chefe da horda. O assassínio é pois histórico porquanto é um acto colec- tivo, porquanto os irmãos só devoram era comum aquilo que mataram em comum, e é a mesma coisa dizer que o assassínio se cumpre «realmente» e que instaura o Social como funda- mento do Real. Daí a discussão que Freud inicia no fim do livro

o SÉCULO xx

FREUD: Â. TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

sobre a oposição entre a «realidade psíquica» e a «realidade factual». Não seria possível assimilá-las e considerar a reac- ção moral do primitivo como reacção à simples realidade psí- quica do desejo e não à realidade do acto? Mas a realidade psíquica a que o neurótico reage distingue-se precisamente da realidade efectiva por esta depender da inserção social; ter por origem da moralidade uma reacção ao desejo individual equivaleria a torná-la ininteligível como instituição social. Não se poderia, pelo menos, supor que a sociedade criou con- dições favoráveis para o seu progresso contínuo? Mas, tra- ta-se precisamente de justificar esta descontinuidade, visto que temos de promover o chefe da horda como morto. Uma passa- gem ao acto assassino, socializado, é portanto, em virtude deste acto, real. A relação da essência pulsional com a morte emerge assim no cerne do problema da cultura e o movimento de pensamento desenvolvido por Totem e Tabu irá encontrar, em 1920, o seu coroamento no segundo tópico.

6. Ilusão transferencial e progresso cultural

Recordemos em primeiro lugar que o problema das pul- sões de morte se pôs a Freud muito antes da elaboração siste- mática de Para Além do Princípio de Prazer. «Podemos afir- mar», escrevia ele na análise do presidente Schreber, «que o processo próprio» do recalcamento consiste no facto de a libido se desprender de pessoas — ou de coisas — anteriormente ama- das. Este processo desenrola-se em silêncio, sem sabermos que decorre, sendo obrigados a inferi-lo dos processos que lhe suce- dem. O que atrai fortemente a nossa atenção é o processo de cura que suprime o recalcamento e remete a libido para as próprias pessoas que tinham abandonado.» Aqui não há erro possível: Preud antecipa as célebres formas de 1920, ou antes, irá retomar em 1920 as fórmulas de 1911 para designar o estilo de trabalho das pulsões de morte: «As pulsões de morte trabalham em silêncio; todo o tumulto da vida provém de Eros.» Assim, a ruptura de Schreber com o mundo e, inversa- mente, o seu retomo «às pessoas e às coisas outrora amadas» parecem, nesta altura, depender de processos que serão mais tarde relacionados com as pulsões de morte e com o Eros; ou melhor, e para nos exprimirmos com maior prudência, digamos que o recalcamento definido negativamente em relação ao objecto exterior, ou seja, como motivo de desinvestimento da alteridade, e não já apenas em relação às representações pul- sionais, prefigura alguns dos traços e funções imputados à pul-

são da morte, em oposição aos processos que presidem à «re- construção do mundo» e que dependeriam da esfera do Eros. E, sem dúvida, não está ainda explicitamente iniciado o debate entre esses dois grupos de pulsões, mas entre o eu e as pulsões sexuais. «Não quereria terminar este trabalho», escreve Freud em conclusão do caso Schreber, «que, mais uma vez, é apenas um fragmento de um conjunto mais vasto, sem recordar duas proposições principais que a teoria libidinal das neuroses e das psicoses tende cada vez mais a comprovar: as neuroses ema- nam essencialmente de um conflito1 entre o eu e a pulsão sexual, e as formas de que se revestem trazem a marca da evolução seguida pela libido e pelo eu.» No entanto, já se indicam os desenvolvimentos a que a pulsão dessexualizada estava desti- nada, «Penso», escreve por fim Freud, «que está próximo o momento de alargar um princípio que nós, psicanalistas, há muito enunciámos, e de acrescentar ao que ele implica de indi- vidual, de ontogenético, uma ampliação antropológica, filo- genética». A equação que constituía o núcleo de Gradiva encontra-se, pois, aqui sob nova forma. Em lugar da equação Pompeia = in- fância aparece, no contexto de Schreber, a questão Totem=Pai. Mas o comentário de Gradiva não se limitava à equivalência entre Pompeia e a infância. Esta equivalência era estabelecida no registo da transferência. Por outro lado, como acabamos de ver, é na perspectiva filogenética que c totem assume o lugar do pai primitivo'. Freud, aliás, assimila o ponto de vista «arqueo- lógico» ao ponto de vista «filogenético». E, finalmente, todos sabem que estas correspondências são motivadas pelo princípio que é considerado razão comum à lei ontof ilogenética de Haeckel e à transferência, isto é, pela compulsão repetitiva em que a pulsão de morte se traduz. Começamos assim a entrever o destino do tema arqueo- lógico que formava o núcleo do comentário de Gradiva. A estra- tificação das séries psíquicas definida pelos Estudos sobre a Histeria tem apenas um alcance metodológico. Gradiva con- fere-lhe a sua dimensão transferencial. Mas a dimensão trans- ferencial na medida em que é repetitiva depende da pulsão de morte; e foi precisamente, assinalemo-lo, sobre o fundamento de uma «estratificação» das camadas da realidade — solidária de uma teoria matemática e serial do equilíbrio — que Fechner introduziu em 1873, com o princípio de constância, o modelo

elaborado o segundo tópico de

Freud. Mas, ao caracterizar a constância como a «igualização

sob

das

nar uma noção. Dotou-nos de um método capaz de determinar

a

égide do qual vai

ser

tensões químicas», Freud por certo fez mais do que desig-

O

SÉCULO

XX

certo tipo de processos, neste caso o tipo de processo em que

a pulsão de morte representa o vector energético, ou seja, de

modo mais geral, a aproximação do homogéneo, a desindivi- dualização ou, num sentido subjectivo, a desapropriação. Apliquemos, de facto, este modo de proceder à nossa equa- ção Pompeia = infância. Pompeia, assimptota, nunca atingida,

dos actos repetitivos, representa a infância, mas desapro- priada: passado caído no anonimato e que não seríamos por-

tanto capazes, através de critério algum, de distinguir do pas- sado da espécie. Nesta perspectiva, o apoio dado à concepção freudiana pela lei de Haeckel seria restituído à sua verdadeira signifi- cação, ou seja, à sua significação propriamente psicanalítica

e esta significação fundada na sua dimensão constitutiva, isto é, na perspectiva da transferência. Mas podemos avançar um pouco mais, porquanto a transferência é obsessão do inani- mado. Mas sabemos que se ignora somo tal. Por outras pala-

vras, a verdade da transferência está dissimulada para o su- jeito, mas a aparência sob que se oculta deve apresentar-nos

o seu modo de presença sob forma invertida. Ora, Freud des-

creveu efectivamente esta viragem do anonimato do Outro na sua personificação ilusória como centro de gratificação: é esse

o objecto de Futuro de uma Ilusão, onde parece evidente que

ele situa as representações religiosas no registo da filogénese apenas por ter visto surgir a matriz ilusória do amor de trans- ferência— limitando-se então a questão somente em saber sobre que fundamento se opera esta mutação, do desenvolvi- mento da transferência ao desenvolvimento ancestral. E, bem entendido, a questão era implicitamente levantada pelo comentário de Gradiva — e, precisamente, podia ser-lhe dada resposta graças à elaboração da noção de transferência. Mas é igualmente assinalável que os elementos desta resposta não tenham sido simplesmente formulados nos escritos técnicos mas que se desprendam de um novo texto de interpretação mitológica e de crítica literária — o comentário sobre o motivo das Três Urnas. Faltava um intermediário entre as represen- tações provindas do amor de tranf erência e a sua tradução filo- genética. O motivo das três urnas designa-o nesse símbolo da morte — o silêncio. Ora, a prefiguração deste silêncio é-nos dada precisa- mente pelo silêncio do analista. E Frend não sublinharia segu-

ramente como o fez a função simbólica se esta não contribuísse para um esclarecimento decisivo da sua experiência. Mas a experiência psicanalítica, que é a da transferência

e sua resolução, designa-nos também a dimensão em que esta

U

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

simbólica se constitui e permite compreender as suas incidên- cias. Em primeiro lugar atesta-nos — porque se trata de um facto de experiência — que o sujeito que se acha confrontado com o silêncio, isto é, que não obtém resposta à sua própria interrogação, é posto em questão na sua identidade. A carac- terística problemática retrocede do conteúdo do discurso para

o ego. Mas compreendemos assim que as representações então

tendem a cair no anonimato, e compreen-

demos inversamente que o sujeito se esforça por se manter na sua identidade enfraquecida, ou seja, que se atribui um suporte para uma identidade que se esquiva na personificação ilusória, do Outro. Deixemos agora desenvolver-se este desígnio constitutivo do amor de transferência segundo um processo análogo ao que consagrava a equação infância = Pompeia. Observaremos as ilusões transferenciais converterem-se em ilusão cultural, assitiremos, nos termos de Futuro de uma Ilusão, ao nascimento das mitologias e das religiões.

conferidas ao sujeito

7. Genealogia da cultura

A experiência subjectiva da transferência reconhece por modelo a generalidade de uma experiência ancestral da huma-

nidade na medida em que a identidade do sujeito da transfe- rência é suspensa pelo silêncio do 'analista: é, pois, esta a for- mulação cujas diferentes dimensões se trata agora de fazer aparecer, para permitir uma representação sistemática da teoria freudiana da cultura. Nesta investigação, é-nos proposto um fio condutor pela genealogia dos problemas que evoca o artigo Interesse ãa Psicanálise, publicado em 1913, isto é, no período médio do freudismo em que a teoria da psicose, pro- movendo a noção de destino pulsional, permite simultanea- mente perspectivar os ensinamentos do sonho e da patologia

e, numa outra vertente, antecipar o desenvolvimento da noção

psicanalítica

Após ter recapitulado na sua primeira parte os conceitos e as aquisições fundamentais dependentes do «interesse psico- lógico», quer dizer, da teoria psicanalítica do sujeito, esse texto enumera os domínios em que se manifesta «o interesse da psi- canálise em comparação com as ciências não psicológicas». E a sua importância advém, em primeiro lugar, da ordem adoptada por Freud na sua exposição, onde é imediatamente visível que ele tem em mira a génese epistemológica das disci- plinas evocadas.

de historicidade.

O

SÉCULO

XX

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

Antes de mais, o interesse pela linguistica. A nossa insis- tência nos modelos da psicanálise não exigiria que aí nos deti-

véssemos se Freud não sublinhasse um aspecto essencial, e \o descurado, da da alteridade. afinidade A entre verdade processo histórica do traduz sonho o facto de que, em cada uma das viragens desta história, o sujeito se constitui

e processo da linguagem. É que, como «os meios de represen-

tacão que o sonho apresenta consistem em imagens visuais e não em palavras, a comparação do sonho com um sistema de escrita parece ainda mais adaptada do que a comparação com uma linguagem». A interpretação dos sonhos é portanto assi- :. milável ao desenvolvimento de uma escrita antiga como os í hieróglifos egípcios. Encontra-se, em particular, em ambos

os registos, a função dos determinantes em relação com a superdeterminação. Compreendemos agora todo o alcance da -" sugestão avançada em 1905 pela análise da histeria de Dora, respeitante ao investimento do escrito como meio de comuni- cação com o ausente: o mesmo se passa com o sonho na ausên- cia do «alocutor». Mas compreendemos igualmente como o interesse linguís-

tico conduz ao interesse filosófico. O inconsciente, que se ex- prime através da linguagem do sonho, «fala mais que um dialecto»; a histeria, por exemplo, fala a linguagem dos gestos

e a neurose obsessiva a linguagem dos pensamentos. Do mesmo

modo, pode-se restituir as fontes subjectivas da psicologia e a indicação reúne-se aqui à reconstrução das visões do mundo em Totem e Tabu: a elaboração secundária do sonho «fornece um excelente exemplo da maneira como um sistema se forma, com as suas naturezas e exigências. Nos paranóicos, o sistema domina o quadro mórbido, mas ele também não deve ser me- nosprezado nas outras formas de psiconeurose». Ora, um sis- tema como este não se distingue, de maneira nenhuma, de uma representação como o animismo. «O animismo é um sistema intelectual. Não explica apenas este ou aquele fenómeno mas permite conceber o mundo como um vasto conjunto a partir de um dado ponto; de um modo mais geral, é a primeira das três grandes concepções do mundo: animista (mitológica), reli- giosa e científica.» Ã psicanálise não autoriza portanto apenas a . crítica subjectiva dos sistemas filosóficos no sentido em que lhe restituiria a marca do destino pulsional de um criador sin- gular; funda, mais radicalmente, uma tópica dos sistemas no

o conceito

como

em que implica o desmoronamento conjunto da posição de ou- trem e da realidade, o destino pulsional revela-se como história

:

como um modelo específico' de abertura para outrem. Encontramo-nos no ponto em que o interesse da psicaná- lise pela filosofia desemboca no seu interesse1 biológico. A filo- sofia refere o discurso a uma posição cie verdade, isto é, a uma posição da alteridade, e a biologia assegura a determinação dessa relação, mantida precisamente pela insuficiência da filo-

sofia no registo de uma intersubjectividade

veículo da função

abstracta,

sexual.

Deste

ponto

de vista,

de Triebj nomeadamente, pode ser introduzido como conceito limite entre o registo psicológico e o registo biológico. Em par- ticular, diremos, a respeito do masculino e do feminino, que não se relacionam com as próprias pulsões mas com os seus alvos. Fica, no entanto, por explicar a posição singular do orga- nismo num e noutro pólos da relação biológica, e esta questão implica a emergência de uma nova dimensão epistemológica. Porque a psicanálise distingue-se dos outros tipos de análise por lhe competir, lembra Freud, não bó decompor o complexo em elementos simples, mas também remeter de uma formação psicológica para a que a precedeu e a partir da qual ela se desenvolveu. Assim se define o seu interesse pela história do desenvolvimento. Para retomar os modos de representação de que apareceu fundamentalmente adstrito, o psiquismo é estra- tificado — de modo original, em que o passado não está sepa- rado do presente mas permanece virtualmente inerente a ele.

Mas podemos também restituir em cada uma dessas camadas o traço de um despojamento. O interesse da psica- nálise pela história do desenvolvimento impõe, nessa qualidade, o seu interesse pela história da cultura. Atingimos agora uma das exposições mais condensadas, mas também mais sistemáticas., que Freud nos deixou, refe- rente à própria constituição deste domínio de investigações. Metodologicamente, o princípio que preside é o de uma «transferência» dos «pontos de vista, hipóteses e descobertas da psicanálise». Uma primeira aplicação foi feita a esses pro- dutos da imaginação dos povos que são o mito e o conto po- pular. Se lhe atribuímos um «sentido secreto», a psicanálise prepara-nos para captar as «alterações» (Ãnãsrungen) e as «recomposições» (Umwandlungen) que o recobrem, e a um nível duplo. Por um lado, o trabalho que ela efectuou sobre o sonho e sobre a neurose dá-nos ensinamentos quanto aos mo- tivos da redistribuição dos momentos componentes destes con-

estabelecimento dos momentos genéticos de constituição do discurso. Por outras palavras, compete-lhe dar o seu pleno sentido à noção de verdade histórica. A partir do momento em que, com efeito, a psicose vai ocupar uma posição central na teoria psicanalítiea, e na medida

O

SÉCULO

XX

juntos. Por outro lado, permite-nos restabelecer os motivos que impuseram a dissimulação do seu estado primitivo. Mas esse é apenas um primeiro domínio de «transferência». A psi- canálise, para além disso, é capaz de esclarecer «as origens das nossas grandes instituições culturais: religião, ética, direito, filosofia». E consegue-o na medida em que restitui, a partir dos seus traços (nachsputt), as situações psíquicas primitivas. que deram o estímulo para tais criações. Para aceder à inteli- gência, isto é, à emergência epistemológica da teoria freudiana da cultura, torna-se apenas necessário confrontar, na própria ordem em que no-lo propõem a genealogia das ciências e a emergência progressiva das suas dimensões características, o interesse da psicanálise pela linguística, pela filosofia, pala biologia, o seu interesse pela história da cultura. Ora, se o vocabulário de Freud, na época em que nos encontramos, irá ainda evoluir, o seu pensamento é perfeitamente claro no que se refere à originalidade deste domínio e à dimensão em que os processos foram ordenados: a esfera da cultura é a da cas- tração. De facto, Freud recorda em primeiro lugar a distinção entre necessidade e desejo, ou seja, como tinha indicado o sétimo capítulo de Interpretação dos Sonhos, a tensão origi- nada pelo apelo ao outro em procura da saciedade. Seguida- mente, apoia-se nesta distinção para opor essas exigências, a cuja satisfação o mundo exterior pode ser forçado ou concor- rer, aos desejos não satisfeitos para os quais deverá ser encon- trada uma «íigação». Mas não atingimos ainda aqui a definição da cultura: ela depende propriamente da esfera da crença, em que o primeiro momento restitui na vida dos povos a crença infantil na omnipotência e em que os momentos posteriores, que são precisamente as fases do desenvolvimento da cultura, traduzem as transformações da crença sob as espécies das con- cepções do mundo, animista, religiosa, científica. Tornamos, assim, mais precisa a dimensão em que estas transformações cê desenvolvem e compreendemos igualmente a sua conexão com as posições da «verdade histórica», noção que Freud avança nesse mesmo momento. A crença infantil primitiva na omni- potência é coincidência narcísica entre o sujeito e o Outro tutelar, e as representações sucessivas do mundo figuram as mutações do Outro em que a exigência da crença se perpetua enquanto se afirma a sua independência das reivindicações do sujeito; aos momentos progressivamente desenvolvidos da crença corresponderão as sucessivas posições da «verdade histórica».

pela

são portanto os substitutos da

Mitos,

que

religião,

era

direito,

caução

imediatamente

assegurada

ao

infans

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

crença infantil na sua omnipotência. Eles ligam o desejo, no sentido em que o retorno da presença tutelar, objecto dos seus desígnios, deixa transparecer o seu fundamento na própria natureza das potências que influenciam ou regulam o curso das coisas. A ocorrência da satisfação é substituída pela segurança das qualidades que lhe legitimam o acesso, a crença na pró- pria omnipotência, exercendo-se em benefício deste ser sin- gular e único que eu sou, é substituída pela crença numa ordem que se exerce em benefício de qualquer ser singular, consa- grando-o e reconhecendo-o nessa qualidade. O desejo indivi- dual não é excluído, é universalizado. Ora, a situação assim dominada é a istuação de abandono (Hilflosigkeit) que é o inverso da crença na omnipotência; sabemos, para além disso, que uma das contribuições de 1926 de Inibição, Sintoma, Angústia será a caracterização desta situação pela experiência ou repetição da angústia de que é possível, em definitivo, afirmar que é sempre angústia da cas- tração, na acepção generalizada em que o termo pode ser tomado a todos os níveis da separação: o órgão genital em particular, segundo uma observação tirada de Ferenczi, dará lugar à angústia de castração, na medida em que traz a caução (Gewahrung) de uma possível reunião ao corpo materno. Esta forma de crença que é a ligação cultural, constitui, portanto,

o valor no lugar onde se deixa de exercer a garantia contra a

castração. E é na medida em que a dimensão da crença está originalmente presente na certeza do infans na sua omnipo- tência, que nesta mesma dimensão da crença se distribuem os valores que constituirão os sucessivos núcleos das formas de- senvolvidas da cultura. A categoria da privação a partir da qual a castração se determina, aparece pois aqui no seu nível próprio, na genera- lização das ciências não psicológicas. Em 1913, data em que redige O Interesse da Psicanálise, falta no entanto a Freud um princípio para legitimar o seu. uso, ou melhor, este princípio está apenas em esboço no comentário de caso Schreber; será

explicitado na noção das pulsões de morte e no segundo tópico, cuja elaboração é dirigida por esta noção: a pulsão de morte exerce uma função de dessexualização sobre o Eros. Por outras palavras, compete-lhe superar essa polarização de actividade

e de passividade que marca a constituição do registo biológico.

Em última análise, uma tal despolarização levaria ao nivela- mento geral das tensões entre o indivíduo e o mundo que o rodeia, ou seja ao retorno ao não vivo, anterior ao vivo. O apa-

recimento dos valores de cultura é uma fase deste ciclo — e as categorias, cujo alcance operacional consagra, dominarão as

O

SÉCULO

XX

fases

outros níveis através da introdução

análise.

posteriores,

A tarefa

promovido a

de novas dimensões de

das Ciências da Arte será, em primeiro lugar,

à medida

que

o

seu uso

for

a determinação das condições em que é atribuído um estatuto

de actualidade aos fantasmas relegados no imaginário, em virtude da recusa que o real opõe à exigência pulsional de frui-

ção. Devemos pois distinguir, como Freud o fez, nomeadamente em os Dois Princípios do Processo Psíquico, a efectividade ou realidade efectiva (Wirklichkeit) das obras e a realidade (Realítãt), definida pela independência em relação ao sujeito, independência cuja assumpção tem por fundamento o princípio de realidade (Realitãtsprinzip). Mas o artista, na medida em que produz -a sua obra, fornece a si mesmo uma via de retorno

à realidade (Realitàt): de facto, diz Freud, a insatisfação que

experimenta é comum aos outros homens; ela é pois, nessa qualidade, uma parte da Realidade. Na perspectiva epistemo- lógica em que estamos colocados, a dimensão em que se desen- volvem os processos de criação fica assim determinada no seu nível e originalidade próprios. O aparecimento das «grandes instituições culturais» correspondia à ligação da pulsão insa- tisfeita. Pressupunha a «privação» que a categoria de castra- ção irá representar. Mas o mito, o direito, a religião não sus- tentavam por si mesmos a instauração de um novo campo de actividades ou o aparecimento correlativo de uma nova espé- cie de realidades efectivas. O artista, pelo contrário, eleva-se até converter a privação numa presença actual, a da obra, e esta presença é fundada na Realidade pelo simples facto de ser o motivo de uma comunicação universal. Outrem despoja o sujeito da sua pretensão sobre o mundo, mas outrem é a ga- rantia da expresão que esse despojamento encontra na obra na medida em que o partilha com o sujeito criador. Passemos agora desta comunidade expressiva, em que o sujeito se actualiza, para o estabelecimento das exigências que são o preço da realização efectiva de uma ordem cultural; che- garemos ao nível sociológico e à dimensão que o suporta — a de integração. Paradoxo aparente: Freud trata em primeiro lugar da a-socialidade para assinalar o interesse da psicanálise pela sociologia. Mas a a-socialidade, resta perspectiva, tem precisamente como sentido a explicitação do tipo de ordenação característico do processo social. E, assim, o nível epistemoló- gico em que este se deveria situar pode ser estabelecido. A his- tória da cultura é a das «grandes instituições culturais» que para o sujeito, decaído da sua omnipotência, mantém o esta- tuto de uma identidade substitutiva do seu narcisismo. Para

50

'

FREUD: A TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

este efeito, a produção artística permite a actualização dos seus fantasmas no sentido em que a obra é o suporte da comu- nicação da sua estrutura que os constituiu precisamente em fantasmas. Mas nenhuma destas dimensões atinge ainda a sua realização hic et nunc em efectivas relações de troca. «De- terminar», dirá Freud em 1932, «de que modo a constituição

pulsional em geral, as variações raciais e as suas recomposi- ções culturais se contêm e se atraem reciprocamente sob as condições estabelecidas pela organização social, pela actividade profissional e pelas possibilidades de ganho», e proceder a esta determinação «na particularidade de cada caso» «im einzel- nen), seria a tarefa de uma verdadeira sociologia, o que equi- vale, sem dúvida, a afirmar que «a sociologia é uma psicologia aplicada» na medida em que estuda «o comportamento do ho-

que especifica também a acepção

original em que é entendida a «aplicação» e a dimensão episte- mológica que consagra, na medida em que delimita, o lugar de actualização efectiva do indivíduo. Agora, mas só agora, se pode levantar a questão da subli- mação a que compete promover na ordem social as energias reprimidas em razão das próprias exigências da aculturação social. Se retornamos à abordagem do problema dói incesto, que Freud inicialmente tentou, é porque isso equivale a afirmar que a «liberdade sexual perversa» a que os homens renuncia- ram «em benefício de uma mais vasta comunidade» encon- trará nesta um campo de actualização pela conversão dos objectivos que lhe estavam primitivamente inerentes — e aqui emerge o interesse pela pedagogia. Mas isto não é mais do que um episódio no desenvolvi- mento do pensamento freudiano. A integração nas concepções sociológicas de Interesse da psicanálise da hipótese directriz de Totem e Tabu lançará, de facto, as bases de uma teoria da história — e esta teoria é Mal-estar na Civilização. Há, no entanto, uma fase intermédia: a elaboração (con- junta) do conceito de pulsão de morte e do segundo tópico. Porque esta elaboração tem, de facto, em mira a teoria da cultura, no próprio lugar — na acepção tópica — em que o superego assegura indefinidamente a perpetuação de uma culpa- bilidade não menos necessária ao trabalho da cultura, pela coacção que impõe às pulsões, do que o foi, no seu aparecimento, o acto de morte de que ela procede,

Mas Mal-estar na Civilização traz ainda mais: o traçado de um destino cultural das pulsões de morte (o que se pode dizer pela transposição do título do artigo de 1915, As pulsões e o seu destino).

mem na sociedade» — mas o

51

O

SÉCULO

XX

8. Agressão, culpabilidade, história

O Interesse da Psicanálise assinalou, de facto, a função da insatisfação da pulsão no desenvolvimento humano. Mas que pulsão? Sabíamos já, a partir da análise de Schreber, que as pulsões de morte trabalham em silêncio, o que a restituição do acto fundador da cultura nos vem confirmar: para matar, os membros da horda reuniram-se; a partir desse momento intervém, pois, lateralmente no exercício da destruição, uma componente de uma outra ordem. E toda a metodologia de Mal-estar assenta, efectivamente, no princípio de que a pulsão de morte, para se manifestar ou até mesmo para dar ensejo à análise, deve beneficiar do concurso de Eros. A agressividade representa precisamente, na sua forma mais elementar, este enredar das pulsões de morte e de Eros. Mas, se é certo que o desenvolvimento cultural tem como condição a insatisfação pulsional, qual destas componentes iremos pôr em causa? Nesta formulação dinâmica, compete ao Mal-estar na Civilização mostrar que as condições de ins- tauração da cultura prescrevem que se substitua a questão económica das vicissitudes históricas da agressividade. Para avaliar os progressos realizados neste terreno em quarenta anos de investigação, lembremos apenas que o pro- blema aqui levantado é o mesmo que, em 1897, a noção de fun- damentos afectivos (affelttive Grundlage) evocava, sendo estes então destinados a sustentar os «processos intelectuais» da cultura moral. Toda a dificuldade consistia, então, em determinar um termo médio entre a individualidade dos fundamentos afec- tivos e a socialidade dos «processos intelectuais» da moral. Ora, este termo médio foi restabelecido por Totem e Tabu: é o assassínio colectivo do chefe da horda. Qualquer processo que possa derivar deste -acto será, portanto, originalmente e de parte a parte, um processo colectivo e, em primeiro lugar, o reforço do sentimento de culpabilidade, sobre que Freud afirma em Mal-estar, que é legítimo esperar que atinja, em virtude das exigências da cultura, «um nível tão elevado que o indivíduo tenha dificuldade em suportar». Processo irreversível, através do qual se define de facto, na opinião de Freud, uma das características essenciais da história humana para cuja inteligência Inibição, Sintoma, An- gústia, estabelecerá, em 1927 uma última referência. Entre a angústia e a culpabilidade, sublinhava então Freud, apenas existe uma diferença tópica. A culpabilidade é a angústia pe- rante o superego, isto é, perante a instância em que se inte-

abandono,

rioriza a potência de que a criança, em estado de

52

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

depende: a mãe, numa primeira análise, mas em definitivo o pai, de cuja autoridade depende a eventualidade da sua reapa- rição. Mas a nova teoria das pulsões permite avançar um pouco mais. De facto, o mesmo texto desloca o núcleo gerador da angústia do registo objectai para o conflito original das pul- sões de vida e de morte. Será esse igualmente o princípio de construção da culpabilidade histórica em Mal-estar, de onde provém a última promessa do empreendimento teórico de Freud, a sugestão condensada, mas decisiva, de uma articulação possível da psicanálise com a sociologia e, nomeadamente, com

o domínio socioeconómico do pensamento marxista.

Retomemos pois, à luz da hipótese teórica do dualismo pulsional e do assassínio originário, o problema da culpabili- dade. O sentimento pelo qual o assassínio do chefe da horda

é sancionado depende do «remorso». Mas é necessário que lhe

preexista uma disposição que geralmente recobre o conceito de culpabilidade. E a teoria das pulsões permite a sua dedução.

A culpabilidade exprime originariamente o próprio conflito

das pulsões de morte e de vida, isto é, na medida em que as relaciona com o seu alvo e com o seu objecto virtual, o conflito

de amor e de ódio. Extraímos então da nossa hipótese inicial

uma série de derivações auxiliares: o assassínio do chefe satis-

faz a componente agressiva do complexo pulsional; o amor assim liberto «reaparece no remorso ligado ao crime, engendra

o superego por identificação ao pai, delega nele o direito e o poder que este detinha de punir, de algum modo, o acto de

agressão realizado' sobre a sua pessoa e, por fim, estabelece

as restrições destinadas a impedir o seu retorno». No entanto, prossegue Freud, devemos recordar «uma con- cepção perfeitamente conveniente para a psicanálise e total- mente estranha ao pensamento humano tradicional». Na sua origem, a consciência moral (Gewissen) aparece como a causa

da renúncia à pulsão mas, posteriormente, a relação inverte-se.

Qualquer renúncia pulsional torna-se então uma fonte de ener- gia para a consciência; em seguida, qualquer nova renúncia intensifica, por sua vez, a sua severidade e intolerância. A an- tecipação histórica de um crescimento inexorável da culpabi- lidade colectiva «até esse grau em que poderia tornar-se insu-

portável para a humanidade», refere-se portanto a este pro- cesso em espiral. Não é este o local para investigar o modo como esta ante- cipação pode ser confirmada pela sintomatologia social das crises históricas nos tempos modernos. Para apreciar o even- tual interesse dessa investigação para a teoria psicanalítica, sublinhemos apenas a diversidade que pode afectar as mani-

53

O

SÉCULO

XX

festações desta «pressão intolerável da culpabilidade». Quer

se trate de transformações da ética, de mutações nas relações

de autoridade, da evolução das formas artísticas, nada disto

se refere, evidentemente, a uma expressão directa da culpabi-

lidade em qualquer dos conflitos ou figuras da história, mas a. deslocamentos sintomáticos de que uma investigação de espí- rito analítico deveria, precisamente, reconstruir as fases ou

restabelecer, na culpabilidade original, a fonte esquecida. Mas a preponderância reconhecida na teoria à energética das pulsões tem consequências metodológicas mais directas.

A consideração das estruturas, isto é, a organização social das

situações em que esta energia se insere, ser-lhe-á, de facto, subordinada. Ã estrutura edípica, em particular, será conferido um estatuto de relatividade na medida em que consagra sim-

plesmente a marca do conflito pulsdonal original na estrutura familiar. Como dissemos, «o sentimento de culpabilidade é a expressão da luta eterna entre Eros e a pulsão de morte. Este conflito inflamou-se a partir do momento em que foi im- posta aos homens a obrigação de viver em comum. Enquanto esta comunidade conhece apenas a forma familiar, ele mani- festa-se necessariamente no complexo de Édipo, institui a cons- ciência e dá origem ao primeiro sentimento de culpabilidade. Quando esta comunidade tende a alargar-se, o mesmo conflito persiste revestindo formas que dependem do passado, inten- sifica-se e leva a uma acentuação do primeiro sentimento».

estabelecido, na sua formação pro-

Deste modo se encontra

priamente psicanalítica, O; problema que Freud levanta desde 1897, referente às origens da repressão do incesto em relação com a transição da sociedade familiar para o sociedade alar- gada. Mas a própria noção de organização social requer uma ela- boração. Trata-se de saber, em primeiro lugar, qual a participa- ção na articulação do ponto de vista propriamente psicanalítico, ou seja, na teoria das pulsões, da análise das estruturas, não só sociais mas também socioeconómicas: preocupação que irá levar Freud a debruçar-se em 1932, nas Norvas Conferências sobre a, Psicanálise, sobre a situação da psicanálise em relação à

investigação marxista.

cert o qu e

a

su a

contribuiçã o

limitou-se , nest e domínio ,

a sugestões metodológicas. No entanto estas conservam, em

comparação com numerosas tentativas contemporâneas,

e, como estão estreitamente liga-

das com o desenvolvimento teórico que acabamos de evocar, parece-nos que não será inútil apresentar pelo menos um esboço delas.

originalidade surpreendente,

uma

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

9, Economia pulsional e processos socioeconómícos

\e início, a relação do princípio de economia de Mach com as analogias desenvolvidas nomeadamente pela Interpretação dos Sonhos e pelo Dito de Espírito entre os modelos da econo-

mia política e a economia do trabalho inconsciente, necessitaria

de

ser precisada. Um exemplo famoso é o comentário do sonho

de

Otto no sétimo capítulo da Interpretação dois Sonhos. O de-

sejo diurno que Freud reconhece de ser nomeado professor titular teria permitido que ele repousasse se, como diz, a preo- cupação (Sorge) pela saúde do seu amigo não tivesse perma-

necido viva. Mas, «por si só, esta preocupação não teria pro- duzido qualquer sonho. A força motriz que o sonho exigia devia receber a contribuição de um desejo; criar este desejo' como força motriz do sonho era o trabalho da preocupação» (Diese Sorge hãtte noch keinen Traum gemacht, die Triebkraft, die der Traum bedurfte, musste von einem Wunsche beigesteuert wer- ãen, es war Sache der Besorgnis, sich einen salchen Wunsch ais Triebkraft dês Traumes zu verschaffen). Será esta. a base

do modelo «económico»: o resto diurno, neste caso a preocupa-

ção, exerce o papel do empresário que tem a ideia (Idee) e o impulso (Drmg) para a converter em acto, mas que nada pode fazer sem o capital: também ele tem necessidade de um capitalista que possa fazer face às despesas (Aufwand) e este capitalista é sempre uma aspiração vinda do inconsciente. Po- dem então ser encaradas diferentes variações, consoante a contribuição respectiva de um ou vários capitalistas e empre- sários. Todas elas têm em comum o que constitui precisamente

o termo de comparação entre os dois tipos de «economias»:

a consideração da quantidade livremente disponível numa

medida determinável, E este elemento, que constitui pois o nervo

da comparação, encontra, prossegue Freud, uma ilustração par-

ticularmente interessante ktur).

na estrutura do sonho

(Traumstru-

Um segundo exemplo ser-nos-ia dado pela parte sintética

do dito de espírito, no capítulo intitulado «Os móbiles do espí-

rito, o espírito como processo social.» O interesse da passagem é o de tornar evidente a originalidade dos problemas da economia

freudiana; vai-nos permitir também precisar, por cotejo, o nível

a que esta originalidade se manifesta. Antes do mais, resumamos. Tema geral: comparação da economia psíquica com a «ges- tão de uma empresa comercial» (Gescháftsbetrieb).

1. Consideração, nesta perspectiva, do volume das tran-

sacções

(Umsaitz).

O

SÉCULO

XX

2. Num negócio modesto, a poupança depende do valor absoluto da despesa. Os custos da administração (Regie) serão reduzidos ao mínimo.

3. Aumentando o volume das transacções (Umsatz) e a receita, a parte relativa destas despesas diminui. Parece que, portanto, no que se lhes refere, a poupança deve diminuir.

4. Todavia, uma judiciosa

a

reduzi-las ao mínimo. O mesmo se passa no que se refere à poupança psíquica:

adminstração

tende

ainda

l

1.

Há um prazer localizado da poupança (exemplo do comutador eléctrico).

2.

No entanto, sendo realizada esta poupança, uma alegria durável apenas é possível na medida em que a energia não dispendida não encontrar colocação.

3.

Esta ligação opera-se em relação ao terceiro. Indicação evidentemente essencial. Comprova, de facto, o que constitui a originalidade da economia freudiana, ou seja, a distribuição da energia psíquica entre as três partes da estrutura edípica. Observou-se, aliás, a diferença dos pontos de vista sob que se situam os dois modelos do Sonho e do Dito de Espírito. Na linguagem da eco- nomia política, o primeiro incide nas condições de pro- dução, o segundo na gestão financeira na sua relação com o volume das operações comerciais. Por outras pa- lavras, um diz respeito à energética do «trabalho» psí- quico, outro à distribuição de energia numa rede de trocas.

O

desenvolvimento do pensamento freudiano e, nomeada-

mente, o aparecimento do segundo tópico, a concepção de Freud acerca da inserção da energia pulsional em diferentes níveis

de

no entanto, dar a estas primeiras ísugestões um novo realce.

O ensaio sobre O Dito de Espírito propõe-nos de facto, para

um caso particular, uma teoria da sublimação: neste caso, su- blimação da situação estabelecida na cena primitiva, com as componentes de indiscrição e de agressividade, cujos prolon- gamentos se encontram no Homem dos Ratos. Mais precisa- mente, o terceiro» do Dito de Espírito vem em lugar do ter- ceiro da estrutura edípica ao nível da qual foi transportada a experiência ou o fantasma da cena primitiva; mas ele ocupa este lugar já não na qualidade de rival, mas na qualidade de um «alocutor» lateral, destinatário de uma mensagem puramente

estrutura — estrutura familiar, sociedade alargada — vão,

FREUD: A TEORIA FREUDIANA DA CULTURA

significativa ou, por outras palavras, nesse lugar em que se

realiza, nos termos dos Dois Princípios do Processo Psíquico^

subjectiva que promove o fantasma

ao estatuto da obra de arte. Ê esse o sentido do «alívio» global que Freud evoca no termo da sua análise das condições econó- micas do dito de espírito e que representa o modo de ligação da energia libertada pelo levantamento das inibições. Ora, a partir do fundamento do Mal-estar, ou seja, a partir do tema da estruturação da energia, esta primeira sugestão do Dito de Espírito parece então generalizável. Sabemos já que Freud distingue inequivocamente em O Mal-estar o ponto de vista energético em que se define o conflito entre as pulsões de vida

e de morte do ponto de vista estrutural, em que se esboça a es-

tratificação das organizações por que a energia se distribui. Podemos, portanto, situar facilmente a representaçãoeconómica do Dito de Espírito. Situa-se nesse nível de estruturação em que se realiza a socialização da dinâmica edípica que é ela mesma a representação, na organização familiar, da energia pulsional. Mas, assim, é-nos sugerida uma hipótese heurística. Se é certo que o processo de sublimação exprime uma mutação da referência ao terceiro, poderemos então perguntar se o apa- recimento de mutações análogas, em outros níveis de estrutu- ração, não presidiria à constituição do domínio sociológico em condições acessíveis a uma análise sistemática. E o próprio Freud nos convida a esta investigação. Recorramos pois às sugestões de limitada extensão, mas nem por isso menos preciosas, que o último capítulo de Novas Conferências sobre a Psicanálise (1932), referente à avaliação freudiana do pensamento marxista, suscita. Aí lemos, em suma, que as estruturas socioeconómicas determinam as «condições» em que as forças onde a energia pulsional se actualiza se distri- buem, se opõem ou se equilibram. Daí a questão: em que posi- ção, a este nível, se deve situar o terceiro ? Em primeiro lugar, é evidente que só conseguiremos pro- gredir nesta via na condição de nos termos assegurado de um ponto de referência rigoroso do estatuto epistemológico da questão levantada—ou, em outros termos, do seu nível na

no Interesse

Este texto, no que se refere à sociologia, situava-se, de

Conferências.

facto, bastante aquém do Mal-estar e das Novas

estratificação epistemológica esboçada da Psicanálise.

a sociabilização da castração

em 1913

Embora evocasse o tema da culpabilidade e o das exigências da sociedade e da cultura, nada antecipava sobre a participação que

virá mais tarde a ter a agressividade. Além disso, o problema do trabalho não é encarado no nível sociológico mas a um nível

O

SÉCULO

XX

epistemológico antecedente segundo a estratificação das dis- ciplinas não psicológicas, no nível da história da cultura, onde se encontram definidas «as grandes instituições culturais da religião, da ética, do direito, e da filosofia»: estando estabele- cido o princípio da analogia das fontes dinâmicas nas realiza- ções individuais e sociais, Freud dispunha efectivamente duas partes na classificação dos mecanismos que, em virtude da sua função comum, asseguram a libertação das tensões provindas das necessidades. «Uma parte desta tarefa será resolvida pela satisfação que se obtém, forçosamente, do mundo exterior. Para este fim, requer-se o domínio do mundo real.» No entanto, uma outra parte das exigências humanas permanece assim in- satisfeita. A história da cultura permite reconhecer por que vias se opera a ligação destes desejos insatisfeitos, «segundo

as condições alteráveis e modificáveis, graças ao progresso téc- nico que são as de uma recusa ou de uma resposta favorável por parte da realidade». Em resumo, assistia-se ao abandono

de toda a potência dos pensamentos e da representação animista,

em proveito de uma Weltaschauung religiosa e, seguidamente

científica. Freud afirma que «mito, religião! e ética se inse- rem neste contexto como tentativas de assegurar compensações

à falta da satisfação de desejo». O conjunto deste desenvol-

vimento realiza-se assim «paralelamente ao progressivo domí-

nio do mundo» e para colmatar as lacunas. Qual é, portanto, a contribuição do segundo tópico? A questão não tem um interesse estritamente histórico. Procura restituir, se tal for possível, a dimensão em que a noção de

trabalho de 1912, inicialmente definida no nível da cultura, se converteu numa noção do domínio sociológico nos escritos do último período e, nomeadamente, sob a perspectiva da aproxi- mação tentada por Freud entre as contribuições da psicanálise

e do marxismo. Em 1912, apenas era evocada a ligação dos

desejos não satisfeitos nas condições atribuídas pelo progresso técnico à inserção natural do homem; em 1932, Q' mesmo pro- blema é formulado', mas a outro nível, o da sociologia, conce- bido como «psicologia aplicada», isto é, como a configuração das representações dinâmicas próprias das situações históricas particulares. A geração conceptual .desta mudança de perspec- tiva é, a ipartir daí, facilmente discernível: a estratificação epis- temológica de 1912 estipula uma anterioridade da ciência do desenvolvimento sobre a da cultura e desta sobre a sociologia. Consideremos, no entanto, a especificação das categorias ener- géticas e o estabelecimento dos níveis de estrutura. A ciência do desenvolvimento constitui-se no nível da estrutura familiar

e a sociologia no nível da estrutura da «sociedade alargada»,

FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

enquanto a ciência da cultura se interessará pela articulação de ambas. Formulemos então, nesta nova linguagem, o problema da mudança de posição do «terceiro», problema que equivale no fundo a prolongar as sugestões de Pulsões e suas Vicissi- tudes (1913), de modo a seguir esta linha de destino das pul- sões no nível estrutural da «sociedade alargada». Diremos que se trata, para nós, de precisar segundo que modo de estrutura- ção historicamente determinado—em cada situação singular, diz-nos Freud, e tendo em consideração a influência essencial das condições técnicas e socioeconómicas — se constitui o tipo de trabalho e de produção característico de uma determinada sociedade. «Quem tentasse transformar o marxismo numa ver- dadeira doutrina social», escreve Freud em 1932 nas suas Novas Conferências, «deveria ser capaz de mostrar detalhadmente o papel de cada um destes diversos factores».

10. Principais componentes de uma teoria da cultura

Teremos progredido suficientemente para estabelecer, no termo deste desenvolvimento, o balanço sistemático de uma «teoria» freudiana da «cultura»? Qualquer discussão a este res- peito exige, evidentemente, que seja afastada a imprecisão em que até agora foi deixada a tradução dos termos alemães «Kultur» e «Zivilisation» e o próprio conteúdo das noções que lhe correspondem. Mas a solução, para Freud, não oferece qual- quer dificuldade: «A cultura humana (diemenschliche Kultur)» escreve ele em 1927 em O Futuro de uma ilusão, — «por cultura humana eu entendo tudo aquilo através do qual a vida humana se elevou acima das suas condições animais e por onde ela se distingue da vida dos animais, e recuso separar a civilização da cultura (und ich verschmãhe es, Kultur und Zivilisntion zurennen —oferece, como se sabe, dois aspectos ao observador. Ela compreende, por um lado, todo o saber e o poder (ali das Wissen und Kõnnen) que os homens adquiriram a fim de domi- nar as forças da natureza e de conseguir os seus bens para a satisfação das necessidades humanas (um die Kráfte der Natur zu beherrschen und ihr Guter zur Befrieãigung der menschlí- chen Bedurfnisse abzugewinnen) ; por outro lado, todas as orga- nizações (Einrichtungen) que são necessárias para regular as relações dos homens entre si e, em particular, a repartição dos bens que são capazes de assegurar.» É certo que Freud não afirma que as noções de «Kultur» e de «Zivilisation» sejam equivalentes, mas apenas que recusa «separá-las» e sugere-nos a razão desta solidariedade. Ela

O

SÉCULO

XX

revela a própria constituição das organizações sociais como provenientes de uma superação das condições animais da vida:

a civilização perpetua na sua intimidade o movimento que a engendrou, está destinada a entregar sem descanso o resgate e, como Freud, citando Shakespeare, anunciava já a Fliess a res- peito do indivíduo (o mesmo se passa, com maior razão ainda, com a espécie humana), não deixa de ser «devedora de uma morte» à natureza, O que, em 1917, O Homem dos Lobos ex- prime admiravelmente, numa data em que se opera precisa- mente a grande viragem inaugurada pela análise de Schreber, da libido às pulsões de morte. «Se se considerar o comportamento da criança de quatro anos em face da cena primitiva reactivada», escrevia Freud, «só dificilmente se poderá afastar a ideia de que uma espécie de saber difícil de definir, como uma presciência, age, nestes casos, na criança. Não podemos em absoluto imaginar em que pode consistir tal «saber» e não dispomos para esse efeito senão de uma única mas excelente analogia: o saber instintivo (instinktive) — tão extenso — dos animais. Este património instintivo constituiria o núcleo do inconsciente uma espécie de actividade mental primitiva, destinada a ser posteriormente destronada e recoberta pela razão humana quando a razão tiver sido adquirida.» Estamos assim situados no nível que acaba de nos desig- nar, na definição da cultura, a referência à natureza. Mas o facto esssencial é que esta inerência primitiva, embora seja su- perada, não é por isso anulada. «Com frequência», prossegue Freud, «e talvez em todos nós, este património instintivo con- serva o poder de absorver processos psíquicos mais elevados. O recalcamento seria o retorno a este estado instintivo sendo assim que o homem pagaria (bezalilen, sublinhado por nós), com a sua aptidão para a neurose, a sua grande nova aquisição; testemunharia, além disso, em virtude da possibilidade das neu- roses, a existência de estádios anteriores instintivos.» Mais ainda, esta hipótese permite-nos a reconstrução do próprio detalhe dos processos psíquicos. De facto, «o importante papel dos traumatismos da primeira infância» seria fornecer ao in- consciente um material que o preservasse da usura por altura da subsequente evolução. E talvez que, por fim, a conclusão de Freud, pela sua última referência, nos justificasse da nossa entrada na matéria. «Eu bem sei que em diversos lados se falou de ideias semelhantes, sublinhando o factor hereditário, filoge- neticamente adquirido, da vida psíquica. Penso mesmo que houve demasiada tendência para lhe conceder um lugar e atri- buir importância na psicanálise. Apenas os considero admissí-

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FREUD:

A

TEORIA

FREUDIANA

DA

CULTURA

veis quando a psicanálise respeita a ordem das instâncias e, após ter atravessado os estratos (Schichtung, sublinhado por nós) sucessivos do que foi individualmente adquirido, encontra por fim os vestígios do que o homem herdou.» Esta tensão da «actividade psíquica primitiva» para a racionalidade, de onde provém a nossa aptidão para a neurose,

é, portanto, o que Freud tinha em vista quando evocava no prin-

cípio da definição da cultura, a «promoção da vida humana acima das suas condições animais»; e a hipótese directriz da teoria consiste em compreender a cultura como uma socialização deste próprio movimento' de génese, ou seja, como a socialização das carências, dos riscos e dos conflitos que são a sanção deste arrancamento à esfera da natureza. Sublinhámosjá, como carac- terística da última fase do pensamento freudiano, a distinção do registo energético das pulsões, que constitui o assunto espe- cífico da investigação psicanalítica, e das configurações histori- camente determinadas, família, sociedade alargada, em que estas pulsões depositam respectivamente o traço do conflito edípico e da culpabilidade.Primeiro exemplo da emergência ao nível da cultura das condições da sua própria génese. Mas reconhecemos na própria definição da pulsão como' «representante» da neces-

sidade, reconhecemos na insatisfação a que a pulsão está desti- nada em virtude da sua emergência da ordem fechada da natu- reza e na plasticidade em que encontra a sanção do seu inacaba- mento, a garantia e o próprio ganho do desenvolvimento cultural — nas «grandes organizações sociais da religião, do direito e da arte», os responsáveis pela conversão desta privação interna nas formas sublimadas da ordem social. Mas a construção das relações sociais é apenas, como disse- mos, um dos aspectos da cultura; o outro ajusta a relação do homem com a natureza no reconhecimento, na actividade técnica

e no trabalho. E estes dois aspectos estão estreitamente ligados, «em primeiro lugar», escreve Freud em O Futuro de uma Ilusão, «porque as relações mútuas dos homens são profundamente in- fluenciadas pela dimensão das satisfações pulsionais que as riquezas presentes permitem; em segundo lugar, porque o pró- prio indivíduo pode entrar em relação com outro homem na qua- lidade de proprietário, na medida em que emprega a sua capa- cidade de trabalho ou o toma como objecto sexual; em terceiro lugar, porque cada indivíduo é virtualmente um inimigo da civi- lização que, no entanto, trabalha no interesse da humanidade em geral». Acabamos de salientar que, para Freud, é tão essencial Para a sociologia e, nomeadamente, para a sociologia marxista, manter esta solidariedade com a teoria das pulsões como para

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XX

a teoria psicanalítica da cultura especificar as organizações em que o trabalho das pulsões se desenvolve e, nomeadamente, em que a ambivalência pulsional se manifesta. Trata-se, repitamo-lo, de simples sugestões, mas cuja originalidade metodológica pode- mos, neste ponto, precisar: ela assenta no princípio de uma correspondência entre a estratificação cultural e a estratificação epistemológica cuja primeira versão, proposta em 1913 a partir das espécies da genealogia das ciências não psicológicas, teria de ser reconstruída com base no fundamento do segundo» tópico e no prolongamento dos desenvolvimentos que acabamos de es- boçar. Em suma, está excluída uma «aplicação» directa da psi- canálise às ciências sociais pela mesma razão- que se exclui uma «psicanálise selvagem»; não é possível, antes de abordar o do- mínio socioeconómico, poupar a dificuldade de percorrer uma série de disciplinas intermédias, assim como não se pode poupar ao paciente, como Freud afirma, o longo e doloroso trabalho da cura e as vicissitudes da transferência. E talvez a analogia seja mais essencial do que parece, por- que é da teoria da transferência e da sua resolução que provém a teoria freudiana da cultura e é dela que esta recebe o seu estatuto psicanalítico'. A genealogia das ciências do homem, na medida em que é inspirada pela psicanálise, depende da mesma origem, articulando através das diferentes camadas de sociabi- lidade o campo de conceptualização aberto por Totem e Tabu. Decididamente, uma epistemologia comparada devia, portanto, restabelecer todo o itinerário do destino pulsional, ou seja, a própria história da alteridade, satisfazendo assim o desejo ju- venil de Freud declarado por duas vezes durante 1896: «Não tive, na minha juventude, outra aspiração (Sehnsucht) além da que me impelia para o conhecimento filosófico, e estou agora prestes a satisfazê-la ao caminhar da medicina para a psicolo- gia», — satisfazendo este desejo «originalmente alimentado no mais íntimo» de si mesmo, muito para além da exaltação das primeiras descobertas, no momento em que a elaboração da pul- são de morte conduz a psicanálise, da «estrada real» dos sonhos, ao limiar de uma teoria da história.

62

BIBLIOGRAFIA

Obras completas de Preud, com excepção dos chamados trabalhos pré-psicanalitlcos e da correspondência: Gesammelte Werke, I-XVII, índice geral, XVIII. S. Fischer Verlag, 1940-1968.

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Obras:

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Nouvelles Conférences

Abrégé de Psychanalyse, P. U. F., 1950. Moise et lê Slonothéisme, Gallimard, 1948.

sur Ia Psychanalyse, Gallimard, 1936.

Compilação de artigos:

Ma vie et Ia psychanalyse, Gallimard, 1928. Cinq Psychanalyses, P. U. F., 1954. La Vie Sexuelle, P. U. F., 1969. Essais de Psychanalyse Apliquée, Gallimard, 1933. Métapsychologie, Gallimard, 1952. Essais de Psychanalyse, Payot, 1936. La Technique Psychanalytique, P. U. F., 1953.

Correspondência:

Correspondance (1813-1939), Gallimard, 1969.

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XX

Corresponãance avec Wilhelm Fliess (1S81-1902), in La Naissance de Ia Psychanalyse; P. U. P., 1956. Corresponãance avec Karl Abraham (1907-1926), Gallimard, 1969. Corresponãance avec lê pasteur Pfister, Gallimard, 1966. Correspondance avec Lou Anãréas-Sálomé, Gallimard, 1970.

Estudos sobre Freud:

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JONES (E.)t La Vie et 1'Oeuvre ãe Sigmund freuã, 3 vol., P. U. F.

P. U. F.,

1959.

1958, KAUFMANN (P.), Psychanalyse ães oeuvres in Encyclopaedia Uni-

versalies, LAPLANCHE volume XIII, (J.) 1972. et PONTALIS (J.-B.), Vovabulaire ãe Ia Psycha- nalyse, sob a direcção de D. Lagache, P. U. F., 1967. [Edição portuguesa:

Vocabulário da Psicanálise, Moraes Editores, Lisboa, 1970. (N. do T.) ]. MANNONI (O.), Freuã, Êditions du Seuil, 1968. RICCEur (P.), De l'interprétation. Essai sur Freud, Èditions du Seuil, ROBERT 1965. (M.), La révolution psychanaly tique, 2 vol., Payot, 1966.

Trabalhos originais sobre a psicanálise freudiana:

LACAN (J.), Écrits, Editions du Seuil, 1966.

II

A TEORIA E A OBSERVAÇÃO NA FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS DO POSITIVISMO LÓGICO

1. Diabolus in philosophia

por Jacques Bouveresse

«O dogma fundamental do empirismo moderno», escreve Hempel, «é a ideia de que qualquer conhecimento não analítico se funda na experiência. Denominamos esta tese o princípio do empirismo. O empirismo lógico contemporâneo acrescentou-lhe a máxima segundo a qual uma proposição não constitui uma asserção cognitivamente dotada de sentido, só podendo, por con- sequência, dizer-se que ela é verdadeira ou falsa se for, primeiro analítica ou contraditória, ou então, segundo, susceptível, pelo menos em princípio, de ser submetida a um teste pela experiên- cia (1). Russel dá uma definição idêntica do empirismo: «O em- pirismo pode ser definido como a asserção: Qualquer conheci- mento sintético funãa-se na experiência.» Ele faz notar que esta asserção só adquire um sentido determinado quando se tiver definido «sintético», «conhecimento»,«funda-se na» e «experiên- cia» ; depois de o ter feito, chega à conclusão de que ela é verda- deira com algumas restrições, isto é, que o empirismo, como teo- ria do conhecimento, é inadequado, mas de que o é menos do que qualquer outra teoria do conhecimento anterior e que, de qualquer modo, as insuficiências que se viu forçado a reconhe-

(*) Cari G. Hempel, «Problems and Changes in the Empricist Criterion °f Meaning», Revue Internationale de Philosophie 11 (1950); reproduzido Linsky (ed.) Semantics and the Philosophy of Language, The Univer- of Illinois Press, Urbana, 1952, pp. 161-185 (ver p. 163).

O

SÉCULO

XX

cer foram descobertas, no que lhe diz respeito, por uma adesão estrita e uma doutrina que inspirou a filosofia empirista: a doutrina segundo1 a qual «qualquer conhecimento humano é incerto, inexacto e parcial C1). Esta acepção, empírica e feita com importantes reservas, de uma tese que não pode, certa- mente, ser derivada da experiência, deve surpreender os ama- dores de posições peremptórias. Mas pense-se o que se pensar, de modo geral, do empirismo, não se pode contestar uma das po- sições de Russel: as melhores e, de certo modo, as únicas críti- cas reais do empirismo devem-se a filósofos que se reclamavam, todavia, do empirismo, ou, pelo menos, de uma certa forma de

empirismo. A tese segundo a qual todo o conhecimento o analítico (ou seja, que não é de tipo lógico-matemático) se funda na expe- riência é, por certo, difícil (e, em certo sentido, completamente impossível) de estabelecer; mas é talvez, em certos aspectos, ainda mais difícil de rejeitar. Alguns filósofos e epistemólogos conseguiram aparentemente, no nosso país, desqualificar como «empirista» qualquer filosofia das ciências que deixe entender que uma teoria científica deve estar, ao fim e ao cabo, de uma maneira ou de outra, sob o controlo de algo como a «experiên- cia», a «realidade»,os «factos», etc. A uma «no-theories-theory» que duvidamos que alguém tenha alguma vez defendido seria- mente, opõe-se uma espécie de «no-facts-theory», o que tem qual- quer coisa de mordaz, pois evoca de muito perto uma teoria da verdade-coerência que foi precisamente defendida, numa certa época, por uma parte dos neo-positivistas lógicos (Neurath, Hempel, e, até certo ponto., pelo próprio Carnap). Segundo esta teoria, a verdade ou a falsidade de uma proposição nunca deriva de uma confrontação com a realidade extralinguística, mas, sim- plesmente, da sua compatibilidade ou incompatibilidade com outras proposições num sistema, sendo afinal o sistema «verda- deiro» aquele que for aceite pelos «cientistas da nossa época (2)». Ressalvando naturalmente todas as diferenças, não se com- preende muito bem como é que aqueles que, seja por que razões for, negam a referência necessária das teorias científicas à experiência (independentemente do que aqui queira dizer a pala- vra «referência») esperam fugir aos inconvenientes da concep-

(') Cf. Human Knowledge, Its Scope and lÂmits, Simon and Schuster, Inc., Nova Iorque, 1948, Parte VI, Cap. X.

into Meaning

and Truth, Allen & Unwin, Londres, 1940, Cap. X; e a de A. J. Ayer, Veri- fication and Experience, Proceeãings of the Aristotelian Society, 1936-1937, reproduzido eni Id. (ed.), Logical Positivism, Macmillan, 1959, pp. 228-243.

(")

Ver nomeadamente a crítica de Russel, An Inquiry

A

TEORIA

E

A

OBSERVAÇÃO

NA

FILOSOFIA

cão «sintáxica» da verdade, do convencionalismo e do histori-

cismo. É curioso que não se tenha observado mais vezes a simetria característica que existe entre o dogmatismo antimetafísico do Círculo de Viena e o dogmatismo anti-empirista que frequente- mente se lhe opõe. A diferença mais importante é, evidentemente, que os neo-positivistas lógicos se viram forçados a precisar pro- gressivamente o que entendiam eliminar quando falavam de eli- minar a metafísica, o que os levou, de facto, a renunciar quase totalmente ao seu programa primitivo, enquanto, do outro lado,

a intolerância é mais maciça e vaga do que nunca. Russel, de

quem podemos decididamente invejar o humor e a lucidez, escre- veu na História das Minlias Ideias Filosóficas: «A acusação de fazer metafísica tornou-se, em filosofia, uma acusação do género da que se faz a um funcionário perigoso para a segurança do

país. Eu não sei o que se pretende dizer pela palavra metafísica.

A única definição que encontrei capaz de convir a todos os casos

é a seguinte: Opinião filosófica que o autor não defende» O).

Poder-se-ia dizer praticamente a mesma coisa da palavra «empi- rismo» tal como é utilizada, de maneira geral, em França: ela significa essencialmente «uma coisa de aquele que fala não pode, de nenhum modo, ser suspeito e de que é necessário, custe o que custar, evitar a suspeita». Porque, se ser empirista consiste ape- nas em defender que qualquer conhecimento não analítico se «funda na» experiência, parece que, até aqui, é tão possível perguntar «Como se pode não se ser empirista?» como «Como se pode ser empirista?» Rejeitar o princípio do empirismo sem outra precisão equivale a não rejeitar coisa alguma, porque a negação do princípio é uma proposição tão vaga como o próprio princípio. E, no que se refere às diferentes especificações,parti- cularmente complexas e elaboradas, que foram acrescentadas ao princípio pelos empiristas contemporâneos,não se pode dizer que tenham sido verdadeiramente recusadas, no nosso país, pelos detractores da filosofia empirista, visto que são., de maneira geral, completamente ignoradas. A situação que se pode obser- var é, de facto, a seguinte: o empirismo é condenado de uma vez

por todas, mas não porque aquilo que os seus representantes afir- mam leve a conclusões inaceitáveis; tudo o que possam dizer

é considerado a priori como inaceitável porque se reclamam

do empirismo (2). Ora, o que é interessante nas filosofias empi-

0) Histaire de mês iãées phílosophiques, trad. francesa,

1961,

pp. 276-277,

Gallimard,

algumas

palavras mágicas em «isnio» («idealismo», «empirismo», «positivismo», etc.)

(2) E necessário constatar

que o hábito francês

de utilizar

O

SÉCULO

XX

ristas é o que se segue à declaração de princípios; e é precisa- mente isso que, geralmente, ninguém se dá ao trabalho de exa-

minar. Sob o nome de «empirismo» denuncia-se normalmente a ilusão que consiste em pensar que conhecer, no sentido usual e científico do termo, é essencialmente constatar, registar, conta- bilizar, etc., os fenómenos, ou seja, ignorar a importância e a especificidade do trabalho teórico, o facto de que oconhecimento deve ser produzido e não apenas recebido, de que os «factos» científicos não são dados mas construídos, e que a sua constru- ção pressupõe teorias, etc. Os que ignoram estas verdades pri- meiras estão, por certo, completamente errados; mas resta saber se, entre os empiristas conscientes e responsáveis, há muitas pes- soas nessas condições. Mach defendeu, de facto, a ideia do carác- ter essencialmente compendiador e, portanto, em princípio, facul- tativo, de qualquer teoria, chegando mesmo a sugerir que se todos os fenómenos singulares que dseejamos conhecer nos fos- sem imediatamente acessíveis nunca uma ciência se teria cons- tituído. A teoria segundo a qual as construções da ciência servem unicamente para ordenar um universo de dados sensoriais ató- micos pode legitimamente aparecer hoje como uma curiosidade, quase pela mesma razão que as concepções de Bacon. Mas o período «machiano» de Carnap, por exemplo, foi muito breve. Corresponde essencialmente a Der logische Aufbau der Welt (1928), em que se esforça, no seguimento das sugestões de Russel e utilizando as técnicas dos Principia Mathematica,, por efectuar a redução definicional de qualquer espécie de discurso sobre o mundo exterior a um discurso em termos de dados dos sentidos (sense-ãata), de teoria dos conjuntos e de lógica, ou seja, reduzir toda a ontologia das «coisas» à da teoria dos con- juntos dos dados sensoriais.

Certamente

que

não

contradiremos Goodman quando

observa que o Aufbau é considerado, de modo quase geral, como uma abominação filosófica: «The Awfbau stands preéminent as a horrible example í1)». Mas isso deve-se certamente em grande

,

Y:.-,Vítí

como refutação suficiente, conduziu na prática, num certo número de casos, a que o real trabalho efectuado em outros países permita considerá-lo como uma forma aristocrática de analfabetismo. Há um certo número de tra- balhos inferiores que são (se tal se pode dizer) reservados à mão-de-obra estrangeira e um certo número de trabalhadores com quem não devemos

compronieter-nos. C1) «The Significance of Der logische Aufbau der Welt», na colectânea organizada por PA. A. Schilpp, The Philosophy of Rudoif Carnap, Open Court, La Salle, Illinois, 1963, p. 545. Passarei a partir de agora a utilizar a abreviação PRC para esta obra.

A

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OBSERVAÇÃO

NA

FILOSOFIA

parte, como assinala, porque foi esquecido que, no espírito de Carnap, não se tratava de traçar a génese real ou hiptética dos nossos conceitos, mas de fornecer uma «reconstrução racional» do processo de aquisição do conhecimento,isto é, de tornar evi- dentes certas relações de dependência lógica entre as nossas ideias, não pressupondo a validade do sistema nada de seme- lhante à primazia gnoseológica dos elementos de partida ou à «plausibilidade» das fases distinguidas e da ordem seguida na constituição. É, de facto, um erro censurar o Aufbau a partir

terreno da teoria do conhecimento ou da epistemologia. Mas,

de qualquer modo, o fenomenalisnio foi abandonado por Carnap

a partir dos anos Trinta. Embora reconhecendo que se podia

sempre, em teoria, escolher livremente entre uma linguagem fenomenalista e uma linguagem fisicalista quando se trata de

usar uma língua da ciência, já não se interessou senão pela cons- trução e estudo dos sistemas fisicalistas em virtude de certas vantagens decisivas que apresentam (cf. PRC, p. 945). De facto, com exclusão de Goodman (The Structure of Appearance, 1951),

o Carnap do Aufbau o teve uma verdadeira posteridade. Censura-se frequentemente os empiristas por não se darem conta de que a ciência só parte do real para dele se afastar. Mas se os empiristas modernos puderem, em certos momentos, causar

a impressão de que procuravam antes de mais anular esse afas-

tamento, sucede que o seu empreendimento consistiu essencial-

mente em tentar determiná-lo, em tentar compreender em que

do

direcção e por que vias os conceitos e as proposições da ciência se afastam da experiência, a que distância dela se encontram. Colocada sob esta forma no absoluto, a questão não tem, eviden- temente, muito sentido; mas talvez não seja absurdo a priori colocá-la a respeito da linguagem de uma ciência particular tomada num estado determinado, com fez, por exemplo, Carnap para a física O). Que qualquer conhecimento, por mais humilde

e vulgar, comporte já uma parte considerável e irredutível de

elaboração teórica, é um facto que por certo nunca escapou real-

mente ao autor do Aufbau e que, de qualquer modo, não pode ser oposto com pertinência a uma tentativa de reconstrução lógica do mundo com uma base mínima. Trata-se, seja como for, de algo que autores como Popper ou Quine sublinharam com ênfase. (Refira-se de passagem que é delicioso constatar que em França se recorre com frequência, contra o empirismo em geral, a argu- mentos próximos dos que foram utilizados, aliás de maneira

Wissen und Wir-

ken, Einzelschrifften zu den Grundfragen dês Erkennens und Schaffens,

B(l. 39, Karlsruhe, 1926.

C) Ver, por exemplo, PhysikàliscJie BegriffsHldung,

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elaborada e convincente, por um empirista tão decidido como Quine, e em nome do próprio empirismo, contra certas formas

de reducionismo.) É preciso notar que se, como parece hoje quase evidente, o

programa

zável e não foi realizado, talvez não haja motivo para uma satis- fação particular, visto que isso prova principalmente, num deter- minado sentido, que somos, de modo geral, incapazes de dizer o que distingue uma explicação «científica» de outro tipo de expli- cação. É de recear, efectivamente, que aqueles que temem acima

de tudo ver a ciência confessar certas ligações comprometedoras

do neo-positivismo lógico era perfeitamente irreali-

com a experiência se encontrem em dificuldade quando se trata de nos dizer o que faz com que, por exemplo, a teoria da rela- tividade seja uma explicação científica do mundofísico enquanto algumas construções mitológicas, religiosas ou filosóficas o não

são. Porque, se a favor da cientificidade apenas se pode invocar

o facto de tomar uma suficiente distância em relação à expe-

riência, a coerência interna e o consenso dos especialistas, não se compreende muito bem o que é que impede de considerar even- tualmente a teologia racional como uma ciência, na mesma qua- lidade que a física relativista. Carnap e os neo-positivistas lógi- cos consideraram, com razão ou sem ela, que a diferença entre uma explicação teológica ou metafísica característica e uma explicação científica do mundo devia consistir, afinal, no facto de que os conceitos, as proposições e as teorias da ciência man- têm certo tipo de relação com a experiência (por mais indirecto, longínquo e complexo que possa ser) que não existe no caso das produções mais típicas da metafísica e da teologia. De facto, isto significa apenas que o cientista deve sempre, em princípio, poder ser, se não confirmado, pelo menos desmentido pela expe- riência, enquanto algumas afirmações do teólogo ou do meta- físico não impõem, à primeira vista, qualquer restrição verda- deira ao comportamento dos objectos do mundo exterior e são compatíveis com qualquer estado imaginável do universo.

Quer se trate de eliminar a metafísica (Carnap) quer, pelo contrário, de traçar apenas uma linha de demarcação entre a ciência e a metafísica (Popper), o certo é que os resultados foram bastante decepcionantes.Mas o que permanece de positivo é o enorme trabalho de classificação e de análise que foi efec- tuado no domínio da lógica e da metodologia das ciências empí- ricas. Quando se consideram as fórmulas brilhantes e definitivas, mas particularmente vagas e alusivas, de que alguns se servem em França para proclamar que, afinal, tudo o que autores como Russel, Reichenbach, Carnap, Hempel, Popper, Quine, etc. (para só citar alguns grandes nomes), tentaram é praticamente nulo,

A

TEORIA

E

A

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NA

FILOSOFIA

torna-se difícil deixar de ver na prática dos depreciadores do empirismo em geral um novo aspecto da luta da filosofia ele- gante, no sentido kantiano da palavra, contra a filosofia labo- riosa. Ê urgente chamar a atenção para aquilo que os empiristas contemporâneos efectivamente disseram, isto é, deixar de pos- tular que devem necessariamente dizer certo número de coisas 0-rosseiramente falsas e dizer afinal todas a mesma coisa, visto 'que são empiristas. Talvez possamos, a este respeito, avançar as duas sugestões que se seguem:

Que se deixe de atribuir aos empiristas algumas teses

manifestamente inaceitáveis, que nenhum deles defende, ou seja, que se deixe de procurar vitórias sem perigo e triunfos sem gló-

ria sobre adversários fantasmas. Recomenda-se a utilização do «princípio de caridade»: quando se é levado a atribuir a autores como Carnap ou Quine algumas afirmações particularmente absurdas, é conveniente encarar pelo menos a possibilidade de que se tenha compreendido mal o que eles dizem. (O hábito adquirido em certos meios filosóficos de considerar que um autor

é praticamente o menos qualificado para saber quais são as

ideias que exactamente defende, não deixa, como é evidente, de

ter certas vantagens: é certamente mais fácil compreendero que alguns fazem dizer a Quine, por exemplo, do que aquilo que ele realmente diz.)

2. Que se recorde que o período do Círculo de Viena (1926-

-1935) apenas representou na vida de um filósofo como Carnap um episódio decerto importante, mas relativamente breve, e que

a maior parte das teses defendidas nessa época pelos neo-positi- vistas foram posteriormente abandonadas ou substancialmente

modificadas. É bastante aflitivo ver que se continua em França

a apresentar certos autores, essencialmente através de teorias a

que apenas aderiram de modo passageiro, e que o anátema lan- çado sobre o neo-positivismo lógico, como movimento filosófico, se estendeu de facto a tudo o que Carnap escreveu, na época do Círculo de Viena ou mais tarde, sobre coisas como a sintaxe lógica, a semântica, a lógica modal, e a teoria das probabilidades

etc. A obra de Carnap continua a ser essencialmente julgada entre nós por dois ou três artigos publicados entre 1930 e 1938 na revista Erkenntnis e a de Reichenbach por uma obra como O Advento da Filosofia Científica ('). Ora, se há efectivamente

1.

C1) Considerado, por exemplo, por D. Lecourt (Pour une critique de 1'épistemologie, Maspero, 1972, p. 8, nota 2) [Edição portuguesa: Para wm« Crítica da Epistemologia, Assírio & Alvim, Lisboa (N. do T.)] «a obra

rnais importante de Reichenbach», opinião que dispensa comentários.

°3 filósofos agirem para com os neo-positivistas

Se

lógicos, é possível supor

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O

SÉCULO

XX

nos trabalhos destes dois autores elementos que apenas pos- suem um interesse histórico, deve-se-lhes igualmente toda uma

série de contribuições já clássicas, que servem de ponto de par- tida e de referência quase obrigatória quando se abordam certas questões, O interesse de uma obra fundamental como

A Sintaxe

Lógica ãa Linguagem é quase por completo indepen-

dente das preocupações filosóficas particulares

seu autor;

francês habituado a outra escala de valores, somos inteiramente da opinião de alguém que, aliás, não poupou as suas críticas a Carnap: «A Sintaxe Lógica de Carnap faz parte do reduzido número de obras filosóficas que se podem caracterizar como de primeira importância. Reconhece-se que, entre os argumentos e as doutrinas aí desenvolvidas, algumas estão ultrapassadas, principalmente devido às descobertas de Tarski, como o próprio Carnap explicou francamente no famoso último parágrafo da sua Introdução à Semântica. Reconhece-se que a obra não é de leitura fácil (e é mesmo de leitura mais difícil em inglês que em alemão). Mas estou firmemente convencido de que, se al- guma vez for escrita uma história da filosofia racional da pri-

meira metade deste século, este livro tem nela direito a um lugar insubstituível (*).

que inspiram o

e, com o risco de surpreender um pouco o leitor

2. O princípio de verificação

O

princípio

deste princípio,

se tal

se pode dizer, está

contido no aforismo 4024 do Tractatus logico-philosophicus:

«Compreender uma proposição significa saber qual o caso (was der Fali ist) quando ela é verdadeira.» Wittgenstein deu, nos anos Trinta, certo número de formulações particularmente ex- plícitas do princípio de verificação e, por momentos, pode haver a impressão de que era na época um verificacionista radical:

«O sentido de uma proposição é o seu método de verifica-

ção (2)». «O sentido de uma questão é o método utilizado para

( 3), «Compreender o sentido de uma pro-

posição significa saber como se deve chegar a uma decisão

lhe dar resposta

que considerem La linguistique cartésienne como a sua obra mais im-

portante

(o que seria, aliás, claramente menos extravagante).

í1) K. R. Popper, The Demarcation Between Science and\

sics, in (2) pp. Ludwig 202-203. Wittgenstein una der Wiener Kreis, ed. by B. F. McGuin- ness, B. Blackwell, Oxford, 1967, p. 79.

(3)

Philosophische Bémerkungen, B. Blackwell,

Oxford,

1964,

§ 27.

A

TEORIA

E

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OBSERVAÇÃO

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FILOSOFIA

sobre a questão de saber se é verdadeira ou falsa í1)», etc. Na realidade, parece que Wittgenstein nunca considerou a questão «Como é que a proposição é susceptível de verificação?» senão como uma maneira particular de se interrogar sobre o sentido desta proposição, podendo a própria interrogação significar coisas bem diferentes e não ter inclusivamente sentido ( 2). «A questão que se refere à natureza e à possibilidade de veri- ficação de uma proposição, precisam as Investigações Filosó- ficas, é apenas uma forma particular da questão «Como é que

se entende isto?». A resposta é uma contribuição para a gra-

mática da proposição. (§ 33). O princípio de verificação, tal como foi utilizado na fase inicial do Círculo de Viena, constitui uma especificação muito restritiva do princípio do empirismo. Consiste em admitir que uma proposição tem uma significação cognitiva se for suscep- tível, pelo menos em princípio, de ser verificada completa- mente por uma evidência de tipo observacional. Se chamarmos característica observável a uma propriedade ou a uma relação de objectos físicos cuja presença ou ausência pode, em condi- ções apropriadas, ser revelada com uma certeza indiscutível pela observação directa, predicados ãe observação aos predi- cados que designam características observáveis e proposições de observação às proposições que atribuem ou negam — com razão ou sem ela — a um ou vários objectos especificamente designados, uma determinada característica observável, pode- remos dar a seguinte definição rigorosa:

Uma proposição tem uma significação empírica se, e ape- nas se não for analítica e for uma consequência lógica de uma

classe finita e logicamente consistente de proposições de obser- vação (3). Por «proposições com uma significação empírica» ou «pro- posições dotadas de sentido» é necessário entender neste caso as proposições cognitivamente dotadas de sentido que não são nem analíticas nem contraditórias. O princípio de verificação indica em que condições uma proposição pode ser considerada como empiricamente significante. Não abordaremos por agora

a questão de saber se existe ou não, realmente, coisas como

uma observação directa:, características observáveis e enuncia^

dos de observação. Importa salientar primeiramente — porque ponto ocasionou numerosos equívocos — que a verifica-

(')

(2) Cf., por exemplo, Wittgenstein's Lectures in 1930-1933, in G. E.

ibid., § 43.

•Moore, Philosophical

Papers, Allen & Unwin, Londres, 1959, p. 266.

(3)

Cf. Hempel, op. cit., p. 167.

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SBCULO

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bilidade completa que aqui se exige não é de modo algum a verificação completa ou a possibilidade empírica de uma obser- vação completa, mas a possibilidade lógica de um conjunto de dados verificadores concludentes formulados em proposições de observação. Isto significa que proposições que incidam sobre regiões inacessíveis do espaço e do tempo, por exemplo, podem perfeitamente ser completamente verificáveis. Seguidamente — e apesar disso — o requisito da verificabilidade completa é, claramente, demasiado draconiano í1). Tem, em particular, o inconveniente enorme de excluir todas as proposições de forma universal, isto é, todas as proposições susceptíveis de exprimir leis gerais, pois essas proposições não podem ser deduzidas, logicamente de nenhum conjunto finito de dados de observação. Ao que acresce, por exemplo, o facto de que uma proposição existencial «(gx) P (x)», que afirma que a propriedade P per- tence pelo menos a um objecto, é completamente verificável (visto ser uma consequência lógica de qualquer proposição que atribua a propriedade P a um objecto determinado), enquanto a sua negação, que é uma proposição universal, pois equivale a

«(yx) P (x)», o não é.

Nos neo-positivistas lógicos, o princípio do empirismo coin-

cide evidentemente com o princípio da não significância (mea- ninglessness) da metafísica. A demarcação entre a ciência e a metafísica é a mesma que a que existe entre o sentido e o não sentido (cognitivos). Esta identificação foi vivamente criticada por Popper que considerava que era possível fazer uma distinção satisfatória entre a ciência e a metafísica sem haver necessi- dade de considerar esta como destituída de sentido. Na origem da concepção empirista clássica encontra-se a ideia de que a ciência se funda numa bass observacional <e utiliza o método indutivo por oposição ao método especulativo das pseudociên- cias e da metafísica. Sensível ao carácter altamente abstracto e especulativo de algumas teorias científicas modernas, Popper rejeita simultaneamente o mito dos dados observacionais de base e a lógica indutiva. O critério de demarcação que propõe para separar a ciência da metafísica é o da refutabiliãaãe ou da

ser considerado como

falsif icabilidade: «

Um

sistema

deve

C1) Pode-se mostrar do mesmo modo que, de certos pontos de vista, o não é suficientemente: se S é uma proposição que satisfaz o critério e N uma proposição que o não satisfaz (desprovida portanto de significação empírica), a disjunção S v N satisfaz o critério e é, por consequência, dotada de significação empírica. Mas, como Hempel observa seguidamente, pode-se objectar que, se N é uma expressão desprovida de sentido e não é, por esse facto, uma proposição, S v N, que também não é uma proposição, não é realmente uma consequência lógica de S.

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OBSERVAÇÃO

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científico apenas quando formula asserções que podem entrar em contradição com observações; e um sistema é, de facto, testado por tentativas que se fazem para produzir tais contra- dições, ou seja, por tentativas feitas para o refutar. Por con- sequência, a testabilidade é o mesmo que a refutabilidade e pode, portanto, de modo semelhante, ser tomado como critério de demarcação.» (PRC, p. 186.) Para Popper não existe realmente lugar na ciência para empreendimentos de verificação indutiva: todos os testes que se aplicam são, de facto, tentativas de refutação. Uma teoria

é tanto mais tentável quanto menos provável for, quanto mais

exigências precisas impuser à realidade, isto é, quanto mais

facilmente for refutável, e é tanto mais confirmada, quanto mais tiver resistido a testes mais severos. Os enunciados da meta- física não são testáveis, mas não são forçosamente por tal pseu- do-enunciados. A fronteira entre a ciência e a metafísica não necessita evidentemente de ser traçada de modo absolutamente estrito, porque pode ser relativamente indiferente classificar determinados enunciados litigiosos na ciência ou na metafísica

a partir do momento em que a questão já não reside em saber

se são ou não realmente dotados de sentido. De facto, na con- cepção de Popper, a fronteira deve poder ser, e é efectivamente, transposta com frequência no sentido que vai da especulação pura, da mitologia ou da pseudociência à ciência. Poder-se-ia, evidentemente, ser tentado a substituir o cri- tério da verificabilidade completa pelo da falsificabilidade com- pleta, ou seja, utilizar a possibilidade de princípio de uma refu- tação por um número finito de dados observacionais como cri- tério da significmicia para as proposições que não sejam nem analíticas nem contraditórias (não é de modo algum, como vi- mos, a maneira como Popper o utiliza).

Uma proposição tem uma significação empírica se, e apenas se, a sua negação não for analítica e puder ser deduzida logica- mente de uma classe finita logicamente consistente de proposi- ções de observação p). Isto equivale a dizer que uma proposição é empiricamente dotada de sentido se a sua negação satisfizer o requisito da veri- ficabilidade completa; e, por consequência, devemos encontrar neste caso os inconvenientes simétricos daqueles com que tí- nhamos chocado no caso precedente. Em particular, uma hipó- tese puramente existencial como, por exemplo, «Existe pelo um licórnio», não pode ser falsificada por um número

O Cf. Hempel, op. cit., pp. 169-170.

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finito de proposições de observação e não tem, pois, em princí- pio, significação empírica. Além disso, se «P» é um predicado de observação, a proposição que enuncia que todos os objectos têm a propriedade P falsificável e, por conseguinte, empirica- mente significante, mas a sua negação não o é, pois equivale a uma proposição de existência pura. A bem dizer, uma das razões que Popper invoca a favor de uma linha de demarcação maleá- vel e não discriminatória entre a ciência e a metafísica é preci- samente o facto de que certos enunciados podem ser testáveis, e mesmo do modo mais severo, como, por exemplo, as leis uni- versais da ciência, enquanto as suas negações o não são e que, por consequência, em certos casos, a proposição negativa e a proposição positiva devem ser colocados de um lado e do outro da linha Popper de demarcação. insiste patricularmente no facto de que as leis na- turais são menos descritivas do que proibitivas: não afirmam que certos estados de coisas existem, mas prescrevem ou ex- cluem certos estados de coisas (a lei de conservação da energia, por exemplo, pode exprimir-se sob a forma «Não existe ne- nhuma máquina animada de um movimento perpétuo»); e é por isso que são falsificáveis. Ao contrário dos enunciados estrita- mente existenciais, que são somente verificáveis (os enunciados estritamente existenciais e os enunciados estritamente univer- sais podem ser caracterizados, por esse motivo, por aquilo a que Popper chaitna decidabiliãaãe unilateral), devem ser considera- dos como «metafísicos» e como desprovidos de interesse para a ciência, o que pode parecer, em certos casos, surpreendente. Mas Popper insiste no facto de que se trata, neste caso, de asserções de existência pura isoladas. Se uma hipótese existen- cial estrita, como, por exemplo, a hipótese, deduzida da classi- ficação periódica dos elementos químicos, de que há elementos com pesos atómicos determinados, for formulada de maneira a que se torne testável, implica muito mais do que uma afirmação de existência pura, isto é, todo um contexto teórico (x). Caso se persista em procurar um critério da significância, o facto de que, com toda a clareza, uma proposição e a sua nega- ção devam ser consideradas como simultaneamente dotadas ou desprovidas de sentido, obriga a que se rejeite igualmente como requisito a falsificabilidade completa. Para superar estas dificuldades, os neo-positivistas tentaram formular um critério que exige apenas, em vez da verificabilidade completa ou da

í1) Cf. K. R. Popper, The Logic of Scientific Discovery, Hutchi- nson, Londres, nova edição revista, 1968, i 15. (A partir de agora utili-

zaremos como abreviação as iniciais

LSD).

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OBSERVAÇÃO

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FILOSOFIA

falsificabilidade no sentido estrito, a conformabilidade parcial e eventualmente indirecta pela evidência observacional.

3. Testabilidade e significação

É evidente que, pelas razões indicadas (entre outras), o

critério de testabilidade empírico> não pode ser formulado nem em termos de equivalência nem de deductibilidade em relação a proposições de observação. Em Testability and Meaning,

A signi-

Carnap permanece fiel ao princípio de verificação: «

ficação de uma proposição é, num determinado sentido, idêntica

à

maneira como determinamos a sua verdade ou a sua falsidade;

e

uma proposição só tem significação se tal determinação for

possível», í1) Mas confere, a partir de então, um sentido mais fraco à palavra «verificação»: «Se por verificação se entende

o facto de estabelecer de modo definitivo e inapelável a verdade, então nenhuma proposição (sintética) é verificável, como veremos. Podemos apenas confirmar uma proposição cada vez mais. Por consequência, referir-nos-emos mais ao pro- blema da confirmação do que ao problema da verificação. Distinguimos a testagem de uma proposição da sua confirma- ção, entendendo pelo primeiro termo um processo — por exem- plo, a efectivação de certas experiências — que leva a uma confirmação até um certo grau quer da própria proposição quer da sua negação. Dizemos que uma proposição é testável quando conhecemos no seu caso um tal método de testagem; e chama- mos confirmável a uma proposição quando sabemos em que con- dições a proposição seria confirmada, Como veremos, uma pro- posição pode ser confirmável sem ser testável; por exemplo, se sabemos que a nossa observação desta ou daquela sucessão de acontecimentos iria confirmar a nossa proposição e que esta ou aquela sucessão diferente confirmaria a sua negação, sem saber como realizar as condições que nos permitiriam observar uma e a outra» (ibid.). Ao reconhecer que não só as proposi- ções particulares (cf. ibid.,, pp. 48-49), nunca são completa- niente verificáveis, Carnap encontra-se com Popper num ponto fundamental. Mas a diferença continua a ser, num certo sentido, apreciável, pois Popper professa uma concepção dedutivista e negativa da testabilidade, que ele identifica com a refutabili-

(1936) e

(1937); reproduzido parcialmentte em H. Feigl e M. Brodbeck Rea-

s i n the Philosophy of Science, Appleton- Century-Crofts, Nova

íorque, 1953, pp. 47-92 (cf. p. 47). Citaremos o texto na versão de Feigl

8 Brodbeck e utilizaremos, para o designar, a abreviação TM.

(') Testability

and Meaning,

Philosophy of Science III

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dade, só aceitando falar de «confirmação» se por tal for enten- dido o facto de ter resistido a sérias tentativas de refutação, enquanto Carnap é fiel à concepção indutivista e positiva que considera a confirmação como uma forma enfraquecida e um

sucedâneo da verificação. O que é muito mais significativo é que Carnap prefere dora- vante apresentar o princípio do empirismo — e, portanto, o prin- cípio do não sentido da metafísica, que nele toma praticamente

o mesmo sentido — mais como «uma proposição ou um requi-

sito» (ibiã., p. 84) para a escolha de uma linguagem da ciência

do que como uma tese

explica ele, «exigimos que a linguagem da ciência seja subme- tida a um certo tipo de restrição; exigimos que os predicados descritivos e, consequentemente, as proposições sintéticas, só sejam admitidos quando têm uma certa relação com observa- ções possíveis, uma relação que deve ser caracterizada de ma- neira apropriada» (ibid.). O critério da significância cognitiva para que Carnap se orienta é pois um critério do seguinte tipo:

«Na nossa qualidade de empiristas»,

Uma proposição tem uma significação cognitiva quando, e só quando, é traduzível numa linguagem empirista, isto é, numa linguagem cujos constituintes não lógicos se referem directa- mente ou de modo indirecto, por vias específicas, a elementos observáveis. Há evidentemente, diferentes maneiras de constituir uma linguagem empirista e Carnap, em Testability and Meaning, enumera quatro principais. É possível, de facto, adoptar como reformulação exacta do princípio do empirismo um dos quatro critérios seguintes (do mais restritivo ao mais liberal):

1) o requisito da testabilidade completa (RTC); 2) o requisito da confirmabilidade completa (verificabilidade) (RCC); 3) o re- quisito da testabilidade (RT); 4) o requisito da confirmabili- dade (RC). Por oposição a RTC, RCC autoriza a presença, em proposições sintéticas, de predicados que não sejam completa- mente testáveis mas apenas confirmáveis no sentido acima definido. A diferença entre estes dois requisitos não è, na prática, muito grande, mas a que existe entre RTC e RT é con- siderável, pois RT admite proposições incompletamente testá- veis —' essencialmente proposições universais que só podem ser confirmadas parcialmente através dos seus casos particulares, portanto, entre outras, as leis da ciência formuladas deste modo. Na linguagem que corresponde a RC encontraremos simulta- neamente predicados confirmáveis, mas não testáveis, e propo- sições generalizadas. Esta linguagem, a que Carnap chama uma linguagem generalizada- confirmável, contém as três preceden- tes como linguagens próprias. É considerada como a mais liberal

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possível, tendo em consideração que Carnap não renuncia a eli- minar a totalidade ou pelo menos uma boa parte da metafísica:

que L devesse ser uma linguagem adequada para

toda a ciência (

houvesse proposições correspondentes a um grande número ou talvez ao maior número das proposições que figuram nos livros dos metafísicos.» (TM, p. 75). Mas, deste ponto de vista, RC pode ser considerado como suficientemente restritivo e Carnap propõe-o, por fim, como a versão mais aceitável, no caso geral, do princípio do empirismo. (Cf. ibid., p. 86). Como assinala Popper, Carnap permanece fiel, em Testability and Meaning, a duas das suas ideias centrais: 1) a de uma lín- gua da ciência que excluísse a própria possibilidade da meta- física através de regras de formação apropriadas; 2) a de uma língua adequada para a totalidade da ciência, ou seja, de uma língua unitária da ciência. É interessante considerar a resposta de Carnap a estes dois pontos. No que se refere a 1), Popper tinha assinalado que é possível formular como uma proposição bem formada e, portanto, dotada de sentido, numa linguagem fisicalista perfeitamente análoga às que são propostas em Tes- tábility and Meaning, o seguinte enunciado (a que ele chama «a asserção arquimetafísica»): «Existe um ser espiritual pessoal que é omnipotente, omnipresente e omnisciente.» (Cf. PR C, pó. 207-209.) Carnap resolve o problema introduzindo uma dis- tinção já não só entre duas mas entre três categorias de propo- sições: a categoria I compreende os enunciados científicos au- tênticos, isto é, essencialmente os que, em virtude da sua forma, seriam assim considerados pelos cientistas, independentemente da questão de saber se há ou não razões suficientes para os aceitar ou rejeitar; a categoria II, os enunciados «pseudocien- tíficos» (completamente diferentes dos «pseudo-enunciados»), ou seja, enunciados como os que dependem da astrologia, dos mitos, da magia ou de certas superstições populares, que são compreensíveis e têm uma referência empírica indiscutível, mas «não podem ser encarados seriamente de um ponto de vista científico»; a categoria III, osi «pseudo-enunciados» no sentido estrito, isto é, as proposições declarativas que são desprovidas de significação cognitiva como, por exemplo, «O número cardi- nal cinco é azul» ou «O nada nadifica». (Cf. PRC, p. 878.) Visto os termos que figuram na proposição arquimetafísica por , segundo parece, ser definidos numa linguagem fisicalista,

não desejaríamos, por exemplo, que nela

Mesmo «

),

a proposição em questão é empírica e não metafísica; pertence

a categoria II e não à categoria III. Na sua resposta às observa- S°es de Paul Henle (PRÓ, pp. 874-877) Carnap recorda, além disso, a distinção que ele e Neurath fizeram nos anos Trinta

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entre o uso mítico (ou mágico) e o uso metafísico da palavra «Deus», que é utilizada nos enunciados da teologia umas vezes com uma significação mítica, portanto empírica, outras com uma significação metafísica, ou seja, de facto sem significação, outras ainda com uma significação ambígua. De facto, Carnap considera finalmente que, se proposições qualificadas numa certa época de «metafísicas» pela maior parte das pessoas podem vir a ser refutadas ou confirmadas em vir- tude de certos desenvolvimentos ulteriores da ciência, é que per- tencem na pior das hipóteses à pseudociência mas não à meta- física. No que se refere a saber se uma proposição com um con- teúdo empírico deve ou não ser encarada seriamente de um ponto de vista científico, a decisão compete aparentemente aos cientistas da época e não ã lógica da ciência C1). Carnapi man- tém que há proposições que devem ser excluídas da linguagem da ciência como intrinsecamente destituídas de sentido cogni- tivo. Mas o que qualifica uma proposição como metafísica e dispensa os cientistas de lhe prestarem qualquer atenção (ao contrário do que se passa em relação a uma afirmação irres- ponsável da pseudociência) é o facto de ser uma proposição sintética proposta sem qualquer interpretação empírica: se, por qualquer razão, se conferir à proposição uma interpretação deste género, podemos defender legitimamente que se trata de mitra A proposição. tese da possibilidade de uma linguagem científica uni-

ficada suscitou imensos comentários irónicos ou compadecidos. Ela não constituía, no entanto, no espírito dos seus defensores, uma afirmação dogmática, mas uma simples sugestão respei- tante à procura de uma base de confirmação uniforme para a totalidade das proposições da ciência, isto é, dirigida sobretudo contra certas tendências filosóficas descontinuistas e dualistas (introspeccionismo, vitalismo, emergentismo, etc.). Os membros do Círculo de Viena não tiveram por certo a ingenuidade de pre- tender que todas as ciências falavam a mesma linguagem ou que era possível destinar de uma vez para sempre à ciência os meios de expressão que deve utilizar (a atitude «tolerante» e o pragmatismo consequente de Carnap implicam, na realidade, exactamente o contrário.). A tese da linguagem universal da ciência não é, de facto, nada mais do que uma norma regula- dora: não estabelecer dogmaticamente diferenças de natureza e introduzir descontinuidades intrasponíveis onde tal não é abso-

era entendida», explica Carnap,

lutamente necessário. «

Ela

(') Sobre a questão de saber se a «fórmula arquimetafísica» pode ser confirmada ou infirmada pela experiência, ver Popper, PRÓ, p. 209, nota 57 a.

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«como uma rejeição da divisão da ciência empírica em domínios que se pretendia fundamentalmente separados e, sobretudo, da divisão efectuada entre as ciências da natureza e as ciências sociais (Geisteswissenschaften), divisão fundada na metafísica dualista que se encontrava, nessa época, em posição dominante na Alemanha. Ao contrário desta concepção dualista, a nossa tese afirmava que a ciência empírica, com todos os seus dife- rentes domínios, pode ssr construída sobre uma base uniforme. Se for compreendida neste sentido, é uma tese que ainda hoje defendo.» (PRC, p. 880.)

4. O problema da base observacional»

Popper tinha utilizado em Logik der Forschuncf o termo «proposição de base » (Basissatz) para designar as proposições descritivas singulares que deduzimos das nossas teorias abstrac- tas para as submeter à prova da experiência. Os enunciados de base eram, no espírito de Popper, enunciados sobre o comporta- mento directamente observável de certos objectos físicos, sendo, aliás, esse comportamento interpretado já à luz de certas teo- rias (o que cria um risco de circularidade cf. LSD, p. 107, nota 3, e PRC, p. 198, nota 35). Foram, certamente, em grande parte, as críticas de Popper que levaram Carnap a renunciar à ideia de que as proposições que constituem a «base empírica» da ciência (chamadas «proposições protocolares.» na linguagem do Círculo de Viena) deviam ser constatações de observação re- latando as nossas próprias experiências («solipsismo metodoló- gico»), quer na linguagem fenomenalista dos estados de cons- ciência quer na linguagem fisicalista da descrição corporal.

Ao rejeitar a teoria dos enunciados protocolares, conside- rada como sendo, por exemplo, em Carnap «nada mais do que psicologismo traduzido no modo de discurso formal» (isto é, o que consiste em falar de palavras e já não de objectos, de pro- posições e já não de factos), Popper tinha proposto que se «dis- tinguisse claramente a ciência objectiva por um lado, e o «nosso conhecimento» por outro» (LSD, p. 98). A decisão de aceitar um enunciado de base e de não procurar testá-lo doravante en- contra-se, evidentemente, em relação causal com as nossas expe- riências, mas não são essas experiências que servem para jus- tificar um enunciado de base: «As experiências podem motivar uma decisão e, por consequência, uma aceitação ou recusa de um enunciado1, mas um enunciado de base não pode ser justi- ficado por elas— do mesmo modo que não seria possível justi-

ficá-lo batendo na mesa.» (LSD, p. 105.)

Por outras palavras,

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as proposições de base não são proposições total e definitiva- mente subtraídas à dúvida por incidirem em dados da expe- riência mais imediata, são proposições que constituem um ponto de paragem, em parte convencional e em parte natural, para o processo de testagem, no sentido em que são fáceis de testar e em que comodamente se pode chegar a acordo sobre a questão da sua aceitação ou rejeição. Distinguem-se portanto das propo- sições protocolares pela sua objectividade e validade intersub- jectiva por um lado, e pela sua relatividade e carácter provisório por outro, pois não são de modo algum incorrigíveis ou irrefu-

táveis. Feyerabend denominou «.teoria 'pragmática da observação» a teoria segundo a qual «o facto de uma proposição pertencer ao domínio observacional não tem incidência na sua significa- ção». C1) Como acabamos de ver, Popper tinha insistido parti- cularmente no facto de que as proposições de observação não têm de ser interpretadas em termos de experiências subjectivas ou intersubjectivas. A teoria pragmática consiste em distinguir cuidadosamente, como ele recomendava que se fizesse, as causas da produção ou as características do processo de produção de um enunciado observacional e a significação deste enunciado, mais precisamente, para um ser dotado de sensações o facto de ter uma certa sensação ou uma disposição para um deter- minado comportamento verbal e a interpretação da proposição enunciada na presença dessa sensação ou constituindo o resul- tado desse comportamento verbal (cf. ibiã., p. 94). Esta con- cepção implica, naturalmente, que se admita que a dicotomia

observacional/teórico não tem qualquer carácter absoluto e mesmo, num determinado sentido, que todas as proposições são teóricas, A este respeito, o melhor que podemos fazer é citar

podemos formular qualquer enun-

novamente Popper: «

Não

ciado científico que não vá bem além do que pode ser conhecido com certeza «na base da experiência imediata». (Podemos falar, para designar esse facto, da «transcendência inerente a qualquer espécie de descrição».) Qualquer descrição faz uso de nomes (ou símbolos, ou ideias) universais; qualquer enunciado tem o carácter de uma teoria, de uma hipótese. O enunciado «Há aqui um copo de água» não pode ser verificado por nenhuma experiência observacional. A razão para isso é que os universais que nela aparecem não podem ser postos em correlação com ne- nhuma experiência sensorial específica. (Uma «experiência ime-

n P. K. Feyerabend, «Explanation, Reduction and Empiricism», Minnesota Studies in the PMlosopTiy of Science, Vol. III, University of Minnesota Press, 1962, p. 39

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diata» só é «dada imediatamente» uma única vez, ela é única.) Pela palavra «copo», por exemplo, denotamos corpos físicos que manifestam um certo comportamento região por leis, e o mesmo se passa com a palavra «água». Os universais não podem ser reduzidos a classes de experiências; não podem ser «constituí- dos». (LSD, pp. 94-95.) Na prática, como observa G. Marxwell, «o facto de fazermos passar a linha de demarcação entre o observacional e o teórico por um determinado ponto qualquer

é um acidente e uma função da nossa constituição fisiológica, do estado dos nossos conhecimentos no momento considerado e

dos instrumentos de que podemos dispor

o tem «qualquer espécie de significação ontológica»), t1) Na época de Testábility and Meaning, Carnap parece ter abandonado completamente a teoria naturalista substituindo-a pela teoria pragmática da observação. O modo como o termo primitivo «observável» é introduzido e utilizado coincide prati- camente com o de Popper (cf. LSD, § 28, pp. 102-103). Os ter- mos descritivos da «linguagem de coisas» (tning-language) adoptada por Carnap não se referem a experiências mas a pn> priedades de objectos acessíveis à observação, ou seja, tais que um observador colocado em condições apropriadas pode decidir rapidamente se um dado objecto possui ou não esta ou aquela propriedade. Ou, mais exactamente: «Diz-se que um pre- dicado «P» de uma linguagem L é observável