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Mba - Leitura - En Do Marketing - Marketing Pessoal

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Editorial
O comunismo perdeu, mas o capitalismo não venceu. (Vaclav Havel)

Como nos recorda Gorbachov, o período que vai de 1990 até os dias de hoje foi desperdiçado na busca de uma globalização unilateral - por parte dos Estados Unidos - e na competição ilimitada das multinacionais. Esses fatores traíram a esperança acesa em 1989 com a queda do muro de Berlim. O sistema capitalista, depois de seu efêmero triunfo, perdeu de vista a complexidade do planeta, seus problemas reais e suas contradições gravíssimas; esqueceu-se da pobreza e do atraso do Terceiro Mundo. Em vez de reduzir os desequilíbrios existentes, o capitalismo se preocupou somente em tirar o máximo de vantagem da hegemonia conquistada. Perdeu de vista a necessidade de construir uma nova ordem mundial mais justa do que aquela legada pela Guerra Fria.
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Nos tempos da primeira guerra do Golfo, Edward Luttwak disse de Saddam: “Ele não é como os príncipes sauditas, que gastam as receitas do petróleo em champanhe e viagens a Paris. Ele usa os petrodólares para construir ferrovias! Está formando uma classe de técnicos instruídos! Em poucos decênios, o Iraque poderá se transformar na principal potência da região”. Aqui estão, portanto, as razões reais de uma guerra aparentemente absurda: com o álibi de se exportar a democracia, importa-se petróleo a preço baixo e impede-se o progresso de países pobres. Entretanto, manter cinicamente atrasado o Terceiro Mundo, alimentando a mistura explosiva feita de fanatismo religioso e pobreza econômica, é um pecado mortal feito à custa das vidas de milhões de inocentes. Mais uma vez se demonstra que o comunismo perdeu, mas o capitalismo não venceu. Domenico De Masi

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Editorial

Iniciamos o século XXI presos aos fantasmas do século XX. O que aconteceu com a alegria e com os sonhos suscitados pela virada do milênio? Alguns autores chegam a apontar que nos encaminhamos para a Terceira Guerra Mundial. Embora muitas abordagens de períodos históricos tentem retratá-los como “especiais” de alguma forma, não posso deixar de acreditar que estamos chegando a um ponto de ruptura. A perversa concentração de renda, o desencanto com a política, o individualismo exacerbado, a intolerância religiosa e o consumo como fim em si mesmo são sinais de uma sociedade à beira do abismo. Mesmo o olhar mais otimista, que não negue o progresso tecnológico e os avanços da medicina, não pode deixar de constatar que falta humanidade na sociedade por nós construída.
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Difícil prever quanto tempo teremos pela frente se perpetuarmos a situação atual, porém a massa de excluídos do turbo capitalismo globalizado continua crescendo, não só no Brasil, como também em todos os cantos do planeta. A competição predatória, sem fronteiras e sem ética, perdeu de vista que já temos capacidade instalada na Terra para alimentar sem poluir, para crescer sem destruir e, principalmente, para conviver em paz sem desrespeitar as crenças alheias. Entretanto, como otimista inato que sou, não posso perder a esperança, derradeiro traço da dignidade humana. Nossa espécie tem mantido a capacidade de se reinventar e de surpreender o próprio futuro que, de tão óbvio, não se concretiza. Ivan Bentini

Cristina Nascimento (educação). Pérsio Arida (economia e finanças). em qualquer meio. Max Gehringer (marketing).Studium. sem a prévia autorização da editora.br www. número 2. O conteúdo de artigos assinados é de total responsabilidade de seus autores.Studium Brasil e S3. Roberto D’Avila (comunicação). Marina Colassanti (literatura). Demócrito Dummar (jornalismo).br Comitê Científico Affonso Romano De Sant’Anna (cultura).nextbrasil.com. Hélio Mattar (ética e cidadania). Ivo Pitanguy (medicina). Eduardo Giannetti da Fonseca (economia).Expediente Border Line NEXT BRASIL Instrumentos para a inovação Ano 2. Itália © 2004 S3. 2004 A revista NEXT Brasil é uma publicação trimestral dedicada à inovação do S3. Sebastião Salgado (fotografia). Frei Betto (sociologia e teologia).Studium.com. Milton Seligman (administração).Washington Olivetto (design e publicidade) . © 2004 S3. 293 Duque de Caxias – RJ CEP 25215-283 telefax.Studium Itália. Lino Villaventura (moda).: (21) 26761223 e-mail: info@nextbrasil. Cristovam Buarque (economia e educação). Jaime Lerner (administração pública e urbanismo). Não é permitida a reprodução parcial ou total do conteúdo desta publicação. Brasil Diretor Responsável Domenico De Masi Vice-Diretor Stefano Palumbo Editor Ivan Bentini Jornalista Responsável Carolina Vigna-Marú (4) Redação Estrada de São Mateus. Francisco Mazzucca (administração e economia).

Paris.com. 1513-1516. Musée du Louvre. ilustração inédita (6) Lan Assinaturas Informações sobre assinaturas: info@nextbrasil.br (5) . S. c. Imagens (8) Fotografias de Vania Toledo (1) Lan. Óleo sobre madeira. 69x57 cm. João Baptista (detalhe).Expediente Border Line Redação Itália Giusi Miccoli Redação Brasil Vanessa Ornella Direção de Arte Carolina Vigna-Marú ISSN 1679-7922 Impressão Barra Quatro Tradução do italiano Silva Debetto Cabral Reis Projeto gráfico original italiano Franco Maria Ricci Produção gráfica Carolina Vigna-Marú Capa Leonardo Da Vinci.

Organização e Economia Paulo Bertone Marketing não sobrevive sem endomarketing 12 André Midani Poder egocêntrico / Poder responsável 18 Eduardo Rozenthal A Gestão do Conhecimento: Inovação e Novas Práticas de RH 25 II POT-POURRI Valor Cultural Marina Colassanti Porque nos perguntam se existimos 34 Case History Angela Coutinho Análise e Reforma Institucional . 2004 Editorial por Domenico De Masi Editorial por Ivan Bentini 1 3 Metáforas Organizacionais Jorge Luis Borges A rosa de Paracelso 8 I PARTE: EM FOCO Trabalho.Sumário Border Line número 2.O Testemunho de um Percurso 44 (6) .

Sumário Border Line O Prazer do Olhar Carolina Vigna-Marú Da Mundi Cristina Nascimento Poderes 58 63 III PARTE: ANÁLISE & SÍNTESE Bits & Bites Hernani Dimantas Parangolé Brasil 66 76 78 Curta Metragem Laura Innocenti O melhor de Wired O Prazer do Olhar Lan Entrevista exclusiva V PARTE: MONOGRAFIA Giusi Miccoli A Desorientação Pasquale Gagliardi A Supremacia das Profissões Chris Meyer O Blur dos Blur: A convergência entre informação. Longo A desorientação na ciência Paolo Branca O confronto das civilizações Massimo Cacciari O conflito que gera identidade Mario Unnia Wargames para uma clonagem (7) 103 106 116 119 128 136 153 165 177 186 . biologia e business Fulvio Carmagnola Por uma estética impura Washington Olivetto A dúvida como estética Antonio Calabrò A governança da desorientação Giuseppe O.

que o inquietou. Paracelso. a seu infalou. Cada passo que lhe enviasse um disQuem és e o que deres é a meta. Durante — Acreditas que sou capaz um tempo não trocaram uma de elaborar a pedra que transpalavra.“Três dias e três noites tenho -se para acender a lâmpada de caminhado para entrar em tua ferro era demasiado trabalho. forma todos os elementos em O mestre foi o primeiro que ouro e ofereces-me ouro. replicou o outro. Paracelso lhe Recostou-se. não sem determinado Deus. juntou as pontas indicou um banco. subiu a breve costas para acender a lâmpaescada de caracol e abriu da. viu que uma das portadas. e o atanor quando bateram à Fê-lo com a mão direita. sombras irregulares. ras do Ocidente e de partida é a Pedra. sonolento. Se não entendes seu Deus. O es “O meu nome não casso fogo da lareira arrojava importa”. Não (8) . a estas palavras. Também estava uma rosa. Quero ser teu discípulo. O homem. Entrou um na mão esquerda ele segurava desconhecido. esqueceu-se de sua e tirou um taleigo que colocou prece. XIII. distraído pela Trago-te todos os meus bens”. qualquer Deus. porta.Metáforas Organizacionais A rosa de Paracelso Jorge Luis Borges De Quincey Writings. As moedas eram os empoeirados alambiques muitas e de ouro. casa. 345 Em sua oficina. cípulo. Levantar. que falou: O caminho é a abarcava os dois “Lembro-me de caPedra. Quando se voltou. “Não entendes ainda. que me lembro da tua. O ponto de cômodos do porão. muito cansado. desejas de mim?” Entardecia. fadiga. nada certa pompa. o outro dos dedos e falou: sentou-se e esperou. Paracelso pediu a caras do Oriente”. A noite havia apagado sobre a mesa. Paracelso lhe havia dado as levantou-se.

falou o discípulo. Quero que me ensines a Arte. Sei que há um Caminho. brincava com ela. disse.Metáforas Organizacionais é ouro o que procuro. ainda que devamos caminhar muitos anos. porventura. nada entendes ainda. a minha vida inteira. disse o mestre. e me chamam de impostor. e. falou com inquie(9) tude Paracelso. respondeu o outro. agora falavam em alemão. não serás meu discípulo. Cada passo que deres é a meta. Paracelso a havia tomado e. Perguntas-me se sou capaz de destruí-la? — Ninguém é incapaz de destruí-la. — És muito crédulo. — Os meus difamadores. dizem que não. Paracelso falou devagar: — O caminho é a Pedra. — O ouro não me importa. que não são menos numerosos que estúpidos. O outro o olhou com receio. e te dedicarei. — Precisamente por não ser crédulo que quero ver com os meus olhos a aniquilação e a ressurreição da rosa. — Estás equivocado. Não lhes dou razão. Falou com voz diferente: — Mas há uma meta? Paracelso riu-se. ainda que os astros não me deixem pisá-la. Mas quero uma prova antes de empreender o caminho. O ponto de partida é a Pedra. quero percorrer a teu lado o caminho que conduz à Pedra. se o ouro te importa. depois. ao menos de longe. Deixame divisar. Se não entendes estas palavras. ao falar. — Quando?. Não és o menestrel da credulidade. que algo pode ser devolvido ao nada? Acreditas que o primeiro Adão no Paraíso pode haver destruído uma só flor ou uma só palha de erva? . por obra da tua Arte. Isso te peço. mas não é impossível que seja uma ilusão.  Estou pronto a percorrê-lo contigo. respondeu com brusca decisão o discípulo. O garoto elevou no ar a rosa e falou: — É verdade que podes queimar uma rosa e fazê-la ressurgir das cinzas. Essas moedas não são mais do que uma parte da minha vontade de trabalho. — És um crédulo. Haviam começado a conversa em latim. Acreditas. — Agora mesmo. a terra prometida. Deixa-me ser testemunha desse prodígio. Exijo a Fé! O outro insistiu. Deixa–me cruzar o deserto.

— O atanor está apagado. respondeu teimosamente o moço. Digo-te que a rosa é eterna e que só a sua aparência pode mudar. o discípulo. a mercê de mostrar-me o desaparecimento e o aparecimento da rosa. Não me importa que operes com alambiques ou com o Verbo. pois. Bastar-me-ia uma palavra para que a visse de novo. tudo é mortal. com insolência. Se atiras esta rosa às brasas. O atanor está apagado e estão cheios de pó os alambiques. a Rosa. — Em que outro lugar estamos? Acreditas que a divindade pode criar um lugar que não seja o Paraíso? Acreditas que a Queda seja outra coisa que ignorar que estamos no Paraíso? — Uma rosa pode queimar–se. deixando Paracelso na dúvida se foi com astúcia ou com humildade. dirias que se trata de uma aparência imposta pela magia dos teus olhos. E continuou: — Falastes do que usou a divindade para criar os céus e a terra. O mestre elevou a voz e lhe disse: — Além disso. sempre receoso. — Ainda fica o fogo na lareira. falou o moço. Falastes do invisível Paraíso em que estamos e que o pecado original nos oculta. em nome dos muitos . disse Paracelso. reiterou. — Não me atrevo a perguntar quais são.Metáforas Organizacionais — Não estamos no Paraíso. e estão cheios de pó os alambiques. O jovem o olhou. O que farias para que ressurgissem? Paracelso olhou-o com tristeza. peço-te. — Uma palavra?. Depois disse: — Se eu o fizesse. Nesta etapa de minha longa jornada uso (10) outros instrumentos. Peço-te. temeroso: — Já que nada tenho feito. Paracelso se havia posto em pé. Aqui. acreditarias que tenha sido consumida e que a cinza é verdadeira. Falastes da Palavra que nos ensina a ciência da Cabala. perguntou com estranheza o discípulo. agora. falou. quem és tu para entrar na casa de um mestre e exigir um prodígio? Que fizeste para merecer semelhante dom? O outro replicou. abaixo da lua. O prodígio não te daria a Fé que buscas: Deixa. Paracelso refletiu.

Ambos sabiam que não voltariam a de ver. Tomou com brusquidão a rosa encarnada que Paracelso havia deixado sobre a cadeira e a atirou às chamas. esperou as palavras e o milagre. A cor se perdeu e só ficou um pouco de cinza. Paracelso não havia se alterado. Falava com genuína paixão. um intruso que havia franqueado a sua porta e o obrigava agora a confessar que as suas famosas artes mágicas eram vãs. Não te pedirei mais nada. Paracelso era um charlatão ou um mero visionário e ele. Falou com curiosa clareza: — Todos os médicos e todos os boticários de Basiléia afirmam que sou um farsante. verei a Rosa. Antes de apagar a lâmpada e de se recostar na velha cadeira de braços. escritor argentino falecido em 1986. mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava o velho mestre.Metáforas Organizacionais anos que estudarei à tua sombra. e falou: — Tenho agido de maneira imperdoável. Paracelso acompanhou-o até o pé da escada e disse-lhe que em sua casa seria sempre bemvindo. tão venerado. tão insigne e portanto tão oco. derramou o tênue punhado de cinza na mão côncava e pronunciou uma palavra em voz baixa. Jorge Luis Borges. Quem era ele. Durante um instante infinito. Talvez eles estejam certos. Ajoelhou-se. . é considerado um dos maiores representantes da literatura hispânica. Acreditarei no testemunho dos meus olhos. e depois a Rosa. Deixa-me continuar a ver as cinzas. para descobrir com mão sacrílega que detrás da máscara não havia ninguém? Deixar-lhe as moedas de ouro seria esmola. que me deixes ver a cinza. Retomou-as ao sair. Voltarei quando for mais forte e serei teu discí(11) pulo e no final do Caminho. tão agredido. Tem-me faltado a Fé que exiges dos crentes. O jovem sentiu vergonha. Johannes Grisebach. Paracelso ficou só. Aí está a cinza que foi a rosa e que não o será. A Rosa ressurgiu.

Trata-se não se lembram da última vez de ter humildade suficiente em que foram atendidos como para trocar de lugar com indi. fico imaginando a na farmácia. esclarecida. no restaurante reação de um profissional que ou tentando esclarecer uma não está diretamente ligado ao d ú v i d a p e l o t e l e f o n e c o m marketing.c a p a z e s d e r e s p o n d e r q u e ting e endomarketing. conceito. o seu banco? Ao fazer uma Para tentar facilitar o enten. vou colocar em prática o mesmo na tentativa de marcar comportamento que todos os uma hora com a secretária do cidadãos deveriam ter com as seu dentista. ou até do. polêmico e você tem a oportunão confiam em revolucionário para nidade de conhecêsi mesmos. sem ceiros. pergunto. você recebeu a pessoas do seu convívio. Dessa forma se os funcionários dúvida.seu cartão de crédito. aceitam e con. Uma os profissionais -los. chegam a discordar agradá-los. endoentrevista sobre dessa área. víduos que fazem parte do seu Até quando. entendê-los e. lembra de ter sido atendido Se para eles muitas vezes é como gostaria? Você se sentiu difícil a compreensão desse satisfeito no supermercado. sejam Um ótimo serviço lugar! eles clientes ou parpode se tornar ruim O título é.queixa com o telefonista do dimento do que estou dizen. endomarketing.Trabalho. mas depois da idéia p o r u m i n s t a n t e e p e n s a r. e que atenção esperada? Garanto para mim é o melhor e mais q u e 9 0 % d o s l e i t o r e s s ã o completo conceito de marke. os pro(12) . num primeiro moAgora vamos parar mento. você se cordam com a nova proposta.desejariam. Muitos conseqüentemente.Nas últimas 24 horas. Organização e Economia Marketing não sobrevive sem endomarketing Paulo Bertone Troquemos de dia-a-dia.

primeiro precisa mostrar aos seus funcionários quem são os clientes. não criar o comprometimento entre elas para poder satisfazer as reais necessidades do cliente. para que as ações de marketing sobrevivam. Deve orientá-los quanto ao tipo de esclarecimento que deve ser passado ao cliente. de que forma eles gostariam de ser atendidos. Por onde começar uma estratégia de endomarketing? Estamos trabalhando com seres humanos. pessoas que. como eles se comportam. porém com os questionamentos que você deve estar se fazendo agora. seja em relação ao serviço que você está prestando ou ao produto que está vendendo. não estão prepa- . Porém. Por isso. você poderá dar prosseguimento às estratégias de marketing duradouras. geralmente. Fazer uma entrevista comigo mesmo. minha estratégia será aplicar o conceito básico de marketing e endomarketing. se você não preparar (13) as pessoas da sua empresa. mas que.Trabalho. Você deve capacitar as pessoas individualmente e em grupo. Organização e Economia fissionais de marketing continuarão criando e anunciando estratégias e promoções sem ter certeza de que serão capazes de cumpri-las? Será que algum dia os departamentos de recursos humanos vão ter a sensibilidade de desenvolver procedimentos para realmente facilitar a vida dos clientes? Quando é que sentiremos os efeitos das pesquisas de opinião pública que nos chegam com tanta freqüência. apesar disso. para que possa então ter uma política interna e consolidada de endomarketing. é fundamental elaborar uma estratégia de endomarketing. ou seja. raramente nos trazem alguma melhoria? Minha entrevista comigo Para poder esclarecer esta nova proposta. ou seja. Por que você afirma com tanta convicção que marketing não sobrevive sem endomarketing? Porque não acredito em nenhuma estratégia de marketing que possa dar um resultado satisfatório. para você poder ter uma estratégia eficiente de endomarketing. Dessa forma. vou trocar de lugar com meus leitores.

além de verdadeiros seres humanos. É fundamental reconhecer neles seres humanos com valores reais. o início de tudo é o marketing pessoal. Como trabalhar o marketing pessoal em empresas com funcionários de diversas classes sócio-econômicas? O marketing pessoal deve ser tratado como uma ferramenta que vai ser usada no decorrer da vida do indivíduo. e não robôs criados somente para agradar o cliente externo. Para você poder realizar uma boa política de endomarketing. com o seu parceiro (14) e com a sua família. que vai transformar os funcionários em seres humanos com auto-estima e comportamento adequado. que são muitas vezes desconhecidos pelos próprios funcionários. com o meio ambiente. Devemos mostrar do que alguém precisa para gostar de si mesmo. Então. deve agregar ou gerar valores. Que valores você considera fundamentais no seu desenvolvimento como . nós temos de capacitar pessoas e. os valores agregados são eternos e os tornarão não apenas vendedores de sua imagem ou de ilusões. A ausência dessas características não está relacionada diretamente à classe econômica do indivíduo. para capacitá-las. em muitos casos. São valores que devem ser agregados para sempre aos seres humanos. que poderão ser agregados ou desenvolvidos pela empresa. Para fazer isso é necessário trocar de lugar com o seu funcionário. Temos que ver o conteúdo das pessoas. Assim. pois uma pessoa pode ser formada. O marketing pessoal vai ensinar-lhes características como a ética. Isto porque elas não foram treinadas para perceber as características de cada um. mas verdadeiros profissionais de qualidade. o compromisso com a sociedade.Trabalho. Organização e Economia radas e. independente da empresa em que ele trabalhe. antes de iniciar uma estratégia de endomarketing de médio e longo prazo. Por isso. mas desconhecer um hábito básico de higiene ou ter um procedimento indesejável junto ao grupo. não conseguem identificar quem são seus clientes. temos de realizar pesquisas para conhecermos melhor os nossos clientes internos.

Trabalho. Quais serão os resultados após a implantação das estratégias de endomarketing? O resultado será a satisfação do seu cliente. já que a equipe formada fará o cliente retornar sempre ao seu negócio com mais assiduidade e com a chance de consumir cada vez mais os seus produtos. Isso pode ser feito com a bonificação em planos de saúde. vai . a melhoria na prestação de serviços e a fidelidade dos seus clientes. Nesse momento. nas atitudes ilegais. se o garçom que vem nos atender tem um odor desagradável. Além das reuniões e treinamentos. Os lucros aumentarão consideravelmente dentro da sua empresa. que. por conseqüência. vai ter moral para ensinar ao seu filho que ele também não deve roubar um objeto alheio. onde o chef é qualificado no mundo inteiro. limpo e pronto para trabalhar. Isto porque você tem uma equipe preparada para atendê-los da forma adequada. Não é só para o momento de o garçom servir o cliente. Por isso. Aí também estamos falando de marketing pessoal. Contudo. é importante frisar que todos os funcionários da empresa devem participar de uma mesma reunião. Quando o indivíduo se conscientizar disso. com uma bela decoração. por exemplo. nós temos que voltar aos ensinamentos básicos de higiene. desde o faxineiro até o presidente. além de facilitar a sua venda. Este último deve saber que não pode jogar papel no chão (15) ou deixar de cumprimentar os demais funcionários apenas porque tem o cargo máximo. O segredo do endomarketing é a satisfação do cliente externo. o serviço que seria prestado ao cliente já foi comprometido. Um ser humano consciente. estamos propondo um ser humano melhor. Da mesma forma que não adianta entrar em um restaurante finíssimo. mas para que ele se sinta bem. é necessário buscar a motivação das pessoas que trabalham na empresa. as estratégias de endomarketing irão viabilizar suas ações de marketing. é aquele que não rouba energia elétrica. ou seja. Organização e Economia ser humano? Nós temos de parar de buscar exemplos na malandragem. vale-refeição e condições adequadas de trabalho.

De que forma uma empresa poderá iniciar esse trabalho que você propõe? Existem duas formas. cursos e seminários. o clima. através de palestras e cursos para implantar uma estratégia de endomarketing dentro da empresa. mas que se torna barato. As duas opções são válidas. É fácil e barato capacitar as pessoas. pois é mais fácil manter um cliente do que tentar recuperá-lo. (16) as normas de procedimento. A primeira é uma consultoria interna. A melhor alternativa é ter clientes fiéis. seus funcionários e seus clientes. desde que haja a mentalidade. equipes de venda e outros supervisores. A outra forma é capacitar funcionários como gerentes de recursos humanos. planos de cargos e salários. para a qual você contrata um profissional ou uma firma especializada que possa avaliar a situação atual. a partir do momento que você tem o retorno do seu público. É um somatório de ações que vai trazer um resultado final imensurável para os clientes internos. A partir desse momento. tais como: participação nos lucros. profissionais de marketing. a firma ou profissional especializado vai adaptar à empresa a organização desejada para satisfazer essas reivindicações. e muito mais. todas as características da empresa. Todos saem satisfeitos: você. possibilidade de ascensão dentro da empresa. seus funcionários e colaboradores. com o objetivo de conhecer as reais necessidades do público-alvo. exercitando o . Sai cara a implantação de uma estratégia de endomarketing? Eu digo que é um investimento de médio e longo prazo. Este é o grande diferencial desse tipo de consultoria: conhecer as necessidades do cliente externo e adaptar a empresa para supri-las. Organização e Economia trazer também a satisfação do cliente interno. Esse sistema é muito válido na escassez de recursos ou quando a empresa é muito grande e dispõe de pouco tempo para dar início à estratégia. a conscientização e o comprometimento dos dirigentes. e fazer também uma pesquisa de satisfação do cliente externo.Trabalho.

posso garantir que “Marketing não sobrevive sem Endomarketing”. Assim sendo. posso garantir que “Marketing não sobrevive sem Endomarketing”. Organização e Economia princípio básico de trocar de lugar constantemente. consultor de empresas e conferencista.Trabalho. Paulo Bertone é empresário.gentes. workshops e cursos sobre Marketing e Endomarketing por todo o Brasil. exercitando o princípio básico de trocar de lugar constantemente. Assim sendo. seus funcionários e colaboradores. e vem realizando palestras. (17) .

praticaa gravar músicas Criador e mente não havia o clássicas. Stan Kenton. sivamente talentos nacionais. a Siemens elenco estelar viria se juntar. em reprodução de por pessoas ligadas 1950. música criou como luta de poder A primeira investida a indústria entre gravadoras. à música. e Inglaterra e Alemanha. em 1955. atraCDs. as que lembrariam o pela indústria companhias. que tinha em seu relações públicas. a competição entre elas corria O sinal de partida para a comdentro de critérios da maior petição global foi dado. eram dirigidas Eletrônica. Como aconte. a esse EMI na Inglaterra. implanse dedicavam a explorar exclu. que Num mercado ainzação (em moldes agora é golpeada da incipiente. o mercado de discos (18) . chamada Capitol companhia de discos eram as Records.tou seus repertórios na França. a qual. óperas e criatura: a que se conhece hoje operetas. a Como se não bastasse. ceu com a RCA nos EUA. porém. etc. o que hoje elenco artistas como Sinatra. em sua contemporâneo) de equipamentos maioria independenpartiu da Philips de áudio para a tes. européias. de multinacionalifonográfica. O único motivo que poderia numa operação arrojada de levar uma empresa multinacio. vés de suas filiais importantes à época.compra da companhia amerinal a se interessar em ter uma cana nº 2. nada mais Holanda. dedicavam exclusivamente Em 1955. Les Paul & institucional”.Mary Ford. na Alemanha e a Philips na cinco anos depois. amabilidade. que ainda assim se nada menos que os Beatles. Organização e Economia Poder egocêntrico / Poder responsável André Midani Até 1950.Trabalho. conhecemos por “interesse Nat King Cole. algumas. pela EMI inglesa.

Polygram (Philips/Siemens). Por ser o rock-n-roll uma modalidade norte-americana. E assim surgiram presidentes e chairmen tais como Levin. e perder dinheiro era uma contingência. A palavra de ordem começa a deixar de ser música. Por outro lado. Warner. O mercado mundial explodia. com suporte de capital oriundo da máfia. se levaria pelo menos três anos: o primeiro disco era quase sempre considerado um teste de mercado. Yetnikov e Morgado. e dali nasceu a necessidade mercadológica de abrir filiais por todo o globo. RCA e EMI. respeitava-se a premissa de que. Europa. coincidindo com o advento de Elvis Presley. passando de muitos bilhões de dólares. começando pelos EUA. no carisma e na capacidade poética. para desenvolver um artista. a se deslocar para o lucro e a especulação. assim como os custos de gravação. porém . começou a arrematar companhias pelo mundo afora. Essa entropia atingiu em cheio a política artística das companhias que até então contratavam artistas com base na personalidade. no segundo ainda se perdia algum. nos valores que passaram a ser quase “démodé”. Enquanto isso. A luta pelo primeiro lugar no mercado mundial estava começando. e os lucros eram monumentais. de tal maneira que os diretores aos poucos foram substituindo os executivos experientes em música e inexperientes em finanças por tecnocratas experientes em finanças e inexperientes em música. Essa luta foi alimentada significativamente pelos egos colossais de certos executivos e exacerbada ainda mais pela entrada dos conglomerados de comunicação em Wall Street. onde compraram o que havia dentre as principais companhias independentes.Trabalho. Organização e Economia teve sua primeira explosão mundial. Austrália e Japão. a recém-formada Warner Communications. foram os artistas desse país que se estabeleceram pouco a pouco nos territórios importantes: Canadá. e as fortes concorrentes eram Columbia. marketing e salários dos executivos. para coordenar a venda e a promoção dessa raça nova: o artista multinacional. contratado pela RCA americana. os adiantamentos a artistas subiam vertiginosamente. (19) e a paixão. Até aquele momento. em 1965.

“o tecnocrata”. Esses altos tecnocratas eram somente tecnocratas. a equação da lucratividade imediata estava definitivamente desarticulada. o sucesso de vendas do CD está garantido? São necessárias de duas . A canção passa para o centro dessa arena. e não encontrava condições de diálogo. da mesma maneira. o que parecia ser a peça curinga. trazendo lucro no lançamento e. O que parecia ser uma solução passou a ser o início da decadência: a canção de sucesso é imprevisível por natureza. pode fazer sucesso imediato. orientando sua carreira em momento de dúvida. no terceiro. ou seja. simultaneamente. Algo como o efeito que o cão Lassie causou nos Studios Warner. essa estratégia milionária se revelou ineficiente. Organização e Economia muito menos. a indústria passou a investir cada vez mais pesado na execução nas rádios. Isso quer dizer: para tocar uma só música nas estações de rádio formadoras de opinião (as chamadas Top 40) sete vezes por dia. para assegurar o seu êxito. então. era essa a cotação. e quanto melhores no exercício dessa natureza mais abismal sua distância do artista. em 70% dos casos. Mas consideremos a hipótese otimista dos 30%. Surge. na esperança de se criar um hit. em Hollywood. Cabe dizer que cada companhia lançava entre dez e 12 canções por mês e. o artista olhava com estranheza esse ser. se não for assim.Trabalho. e dali por diante então poderia-se esperar os lucros. o público tinha o tempo de desenvolver. e. despede-se o artista. se a canção virou hit. só nos EUA. de maneira muito parecida com o que acontece na vida real entre duas pessoas. etc. a redentora nessa “cilada” em que se encontrava a (20) indústria. normalmente dava para ficar quite. sem falar de outros países. Durante esse período evolutivo. durante três semanas. Para se ter uma idéia. um relacionamento substancial e duradouro com seus ídolos. Entre a morosidade do processo de formação do artista e a incapacidade de comunicação entre este último e os tecnocratas. Essa sim. o que os fazia cada vez menos capacitados a poder se aproximar do artista para ajudá-lo na escolha de seu repertório. o investimento em jabá era de cerca de 400 mil dólares.

ficavam omissos ao deixar a pirataria industrial comer progressivamente em torno de 40% do mercado mundial.Trabalho. que estava em total descontrole. O artista pode fazer o sucesso da música. a cobrança de uma taxa compensatória sobre a venda de CDs virgens. E. Os fabricantes propuseram. garantido o fator imediatismo. essa forma de poder que exacerba os valores inferiores da vaidade e do lucro imediato. a música não faz necessariamente o sucesso do artista. pela Sony e Philips. Enquanto isso. A Philips imediatamente vendeu sua companhia de discos para a Universal e foi em frente com a fabricação de aparelhos cada vez mais sofisticados. em detrimento do “poder responsável”. enquanto os tais tecnocratas cuidavam de lapidar seus próprios umbigos. E de onde isso veio? Pasmem. os presidentes das gravadoras (essa nova casta de tecnocratas) seguiam destilando essa “banda podre” do exercício de poder. autorais e lucro cessante. (21) A indústria fonográfica não aceitou. na medida em que um hit tenha vida útil numa média otimista de nove meses a um ano. Isso quer dizer que essa mesma operação (na hipótese de dar certo) deverá ser repetida com as mesmas cifras. decidido a acabar com a Revolução Cultural. seguida pelos outros fabricantes de hardware japoneses. comprometida estará a durabilidade dessa rentabilidade. e a vida do artista estabelecido se renova por décadas. A iminência do lançamento no mercado. Mao TseTung. inclusive a Sony. porém. suplicando que não lançassem os tais aparelhos. que cobriria direitos artísticos. então. Em pouco tempo. que protestou junto a esses fabricantes. Pois bem. Ele mesmo. dos aparelhos de duplicação de CDs caseiros provocou a indústria fonográfica. da República Comunista da China. pois a vida de um hit é efêmera. lançou mão do apoio dos 16 generais responsáveis pela ordem civil e militar nas 16 províncias (creio que são . Organização e Economia a três canções de sucesso para assegurar o sucesso de venda. a ineficácia do tom de súplica deu lugar a ameaças com disputas legais.

A indústria. Dois sistemas bastante revolucionários haviam sido testados: o CD5. o player de um sistema não funcionava para tocar o outro. esses generais haviam desenvolvido cerca de 1 5 m i l e m p r e s a s . A partir de 1990. autorizou-os a desenvolverem negócios próprios à margem do Estado e da economia socialista. cigarros. cansados de esperar. e os fabricantes de equipamentos. Em troca. Uns vinte anos depois. E mais uma vez. era indispensável substituir o CD de tecnologia já obsoleta por transportes de som mais modernos. a América Latina e a antiga União Soviética. O que de fato havia acontecido foi que a indústria legítima tinha abandonado o mercado de cassetes aos piratas. prostituição. entre outros pontos de venda. Quando eu fazia parte do board da International Federation of Phonographic Industries (IFPI). e o superCD. todos produtos pirateados que inundaram inicialmente o Sudeste Asiático. que vendiam sem o menor constrangimento seus produtos em postos de gasolina nas estradas. fabricação de armas. os executivos nos informaram que não havia mais mercado de cassetes no Brasil. simplesmente abandonaram esse projeto. Os capitães da indústria nunca chegaram a um acordo quanto a adotar uma dessas duas tecnologias inovadoras. cheguei um dia ao Brasil. Organização e Economia 16). em visita oficial. parecendo não se dar conta da gravidade da situação. para verificar quais as ações que a indústria local estava desenvolvendo para o combate da então pirataria de cassetes. e de todo o grupo. em 1996. desenvolvido pela Warner e a EMI. que negociavam até cultivo e venda de drogas. em certos casos fornecia aos investidores dados falsos. como se não bastasse. para minha surpresa. Porém se esbarrava na questão da incompatibilidade na hora de tocar. roupas e CDs. desenvolvido pela Sony e a Philips – os dois sistemas com respostas acústicas sofisticadas e duração bem superiores a do CD. o “poder egocêntrico” não permitiu que a indústria como um . não investiu fundos necessários para combater esse formidável inimigo no plano mundial e. uma vez que o público tinha (22) migrado para o CD.Trabalho.

escritórios desocupados e pilhas de documentos jogados no chão. me escreveu uma carta emocionada e emocionante. Organização e Economia todo chegasse a comum acordo para a adoção de uma política comercial e estratégica única para vender música através do Napster. estruturais e filosóficas. e devo dizer que a visão que tive foi desoladora: o glamour e a criatividade deram lugar apenas a corredores vazios.Trabalho. disse ele. como se essa forma desesperada e desesperadora pudesse reverter o processo de deterioração com raízes tão mais profundas. tenha cuidado para que essa mesma indústria não acabe por matar a música”. na qual me pedia para ficar atento e lutar contra a degradação/degeneração da “nossa” indústria: “André. a música inventou essa indústria. beirando. A indústria. só encontrou soluções defensivas para tentar sobreviver – começou então a onda de demissões em massa. redução dos budgets de gravação e marketing. Certo dia. Há poucos meses. foi a indústria que matou. um querido amigo. compositor e intérprete contemporâneo dos mais importantes. sim. como num campo de batalha após a derrota. acometida por uma séria crise de criatividade. um livro intitulado A indústria da música: indústria da felicidade humana me foi dado de forma comovente e bastante solene por um idoso cavalheiro francês. em Paris. por pressões dos investidores e (23) board members. Em 1952. quase profética. a indústria tal como a conhecemos hoje. A Philips e a Time Warner já venderam suas divisões de música. seus oitenta anos. permitindo a explosão do download gratuito. Esse senhor vinha a ser o proprietário da Odeon francesa e deve ter ficado agradavelmente impressionado pelo fervor com que . Agora é somente questão de tempo para que os conglo merados se desfaçam das suas unidades de discos. Kazaa. os escritórios centrais de algumas companhias. chamado Fito Paez. A Sony e a BMG estão se juntando para reduzir custos operacionais. MP 3. em Nova York. visitei. como toda indústria velha. A Universal ainda não encontrou compradores que queiram assumir o seu passivo. naquela época. Finalmente. ficou velha de repente e.

Trabalho. isso é certo. e outro. feita nos anos de 1920. aliás. a poesia e a educação. dois. Obviamente. André Midani é e foi presidente de gravadoras no Brasil. mas isso é tema para um outro artigo. Um ciclo acabou. empresários de artistas intimidadores. Nesses depoimentos. do poder humano em sua mais deturpada versão. Organização e Economia eu falava sobre minha entrada naquele que era para mim um “divino mundo”. de emissoras de rádios corruptas e de executivos egocêntricos das indústrias do disco e da edição musical. eles anteviam a utilização dessa nova “média” para a música clássica. Irreversível? No que é que vai dar? Por que é que teve de ser assim? Bem. México e EUA. sobre a complexidade do ego humano. Esse livro era uma compilação. a ópera. contendo conferências e entrevistas concedidas pelos precursores do disco no início da invenção dos sons gravados. não poderiam a essa altura antever que essa “tal nova média” viria a se transformar na “indústria do egocentrismo”. Atraindo a ganância e o abuso por parte de advogados inescrupulosos. e falavam também com grande ternura sobre a importância desse advento/invento cultural. (24) . Um sobre música. que não seria eu a escrever.

prioritariamen. da produção nas são partes integranBOUDREAU. ao desempenho funcional a aquisição e o desenvolvimento (ROCHA-PINTO. além do treina organização. implicando a décadas. a carreira e que está em jogo. 94).vem sofrendo mudanças signivimento de crescimento integral ficativas ao longo das últimas do empregado. sem a do seu manejo nas organizações este se reduzir. O tradicionais práticas namento.Trabalho. dilatação de suas caNo novo paradigma treinamento e desenpacidades e motivado trabalho. Isto não se dá por (25) . O capitalismo quanto às tarefas 2003. o foco volvimento (T&D) ções (MILKOVICH. porque as duas prátimodificações de “atitudes” que cas apresentam-se como níveis dizem respeito. organizações recai tes da administração p. p. de de tudo.de amplitudes diferentes. ainda. a nova gestão do cesso de aquisição Na ARH. Trata-se do mo. de conhecimentos se associam. de RH (ARH). no de RH com o sentido outras experiências de implementar treinamento. p. Organização e Economia A Gestão do Conhecimento: Inovação e Novas Práticas de RH Eduardo Rozenthal Tradicionalmente. acima e de habilidades e. 2003.organização. 2000. 338) e a expansão sobre a inovação. dos trabalhadores (ROCHA-PINTO. é o proempresariais. 94). para te. treinamenou aperfeiçoamento to e desenvolvimento conhecimento. de conhecimentos no interior da Já o desenvolvimento se configu. O decognitivo exige o específicas envolvisenvolvimento comquestionamento das das em suas funções porta. Os de suas habilidades e valorizando-se o autores costumam conhecimentos para a processo subjetivo relacionar o primeisolução de novas side invenção de ro ao desempenho tuações ou problemas conhecimentos. ra como um processo mais amplo A questão do conhecimento e que inclui o treinamento.

pela especificidade dos conhecimentos que incorporam.a invenção e a organização dos conhecimentos. O paradigma da atualidade do trabalho e da produção organizacional promove uma nova relação homem-máquina. Para o que nos interessa. centradas (26) na comunicação rápida – e cada vez mais barata –. No mundo da produção organizacional de nosso tempo. O computador pessoal conectado à rede informatizada. com características fortemente integradoras. O trabalho. Podemos dizer. A problematização do saber está no cerne da mudança do paradigma que introduziu a atualidade econômica e social. o trabalho. que a “era industrial” moderna não mais se sustenta. dando lugar a uma nova dinâmica organizacional.Trabalho. vem. o conhecimento se cria. com segurança. A condição de possibilidade para a inscrição das corporações reticulares no cenário da atualidade são as novas tecnologias que. dependendo da criatividade . no interior do novo paradigma. Essa clivagem entre hardware e software submete a função da máquina ao uso que dela se pode fazer. por empresas em rede. ganha nova envergadura. a totalidade da vida tornou-se trabalho. por sua vez. se submete ao que Foucault (1990) denominou “bio-poder”. A modernidade fabril que se iniciou no final do século XVIII e se redobrou em fins do século seguinte. gradativa. Subvertendo a dominação tipicamente moderna do uso pela função. através de sofisticados sistemas monitorados de informação e comunicação. cuja implementação se faz através de uma “bio-política”. As novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC). observamos que as novas tecnologias informáticas. e que tem perdido seu território para a “era do conhecimento”. mas rapidamente. adequada denominação da contemporaneidade empresarial. proporcionam – diretamente . hoje em dia. Organização e Economia acaso. desenvolve e dissemina através de redes de empresas formadas. Por outro lado. englobaram nossas atividades mais triviais. isso quer dizer que não mais se coloca a tradicional separação entre o mundo do trabalho e o mundo da vida. apresentam-se pela separação entre a máquina e a sua programação. Na atualidade organizacional. “alienação” característica do modelo industrial.

para a capacidade de produzir torna–se imprescindível a contribuição da criatividade dos usuários. A cooperação estática. A capacidade inventiva do usuário torna-se a condição de possibilidade do funcionamento da máquina. 2003). é substituída pelas atuais dinâmicas reticulares de colaboração. Outro atributo diferencial das NTIC com relação à tecnologia industrial moderna é sua vocação para a associação horizontal dos conhecimentos em escala global. Contudo. a organização contemporânea e as relações de trabalho de nossos tempos se inserem no quadro da pós-modernidade pela via das NTIC. Essas considerações contribuem para o esclarecimento das afirmações iniciais de que. assim. desenvolvimento e articulação do conhecimento. ao mesmo tempo em que introduzem o novo paradigma social e econômico e o atual modelo das relações organizacionais do trabalho. O fator que as diferencia da modernidade fabril é representado. O privilégio da relação recai. portanto. A produção se empreende na interioridade das redes e na exterioridade das organizações. Por outro lado. O trabalho agora é criação de usos (CORSANI. 2003). o que está em jogo na nova dinâmica das organizações é a capacidade subjetiva para a aquisição. a relação do homem com a máquina. elevando a necessidade de cooperação entre os usuários à enésima potência. pela imperativa necessidade de criatividade dos usuários. que se dá pela articulação da totalidade de seus conhecimen- . então. Em suma. sobre a criatividade humana.Trabalho. não há mais separação entre o trabalho e a vida. Nas redes informa(27) tizadas. Organização e Economia do usuário é capaz de alterar constantemente o programa que dirige o funcionamento do micro. As NTIC invertem. hierarquizada ou submetida à seqüência da linha de montagem do modelo industrial. a interação não é mais prescritível e a dinâmica da cooperação entre os usuários está centrada na criação constante de conhecimento. Com esse deslocamento. sendo o conhecimento criado tributário da cooperação que se efetiva nas redes informatizadas. no mundo atual. os aspectos tecnológicos propriamente ditos dessas tecnologias de ponta devem seu potencial de transformação à sua capacidade de assistência cognitiva e relacional (JOLLIVET.

ou seja. se opõe o “capitalismo cognitivo”. processo de criação de conhecimento. artísticos ou ideológicos. somos capazes de compreender a mudança da lógica e do valor agregado envolvidos na ruptura com a dinâmica taylorista da produção industrial. Para a modernidade fabril. precisar algumas características do saber que se produz como inovação nas redes computadorizadas. então. subjetivo e reticular. Para uma maior compreensão das possibilidades contidas na nova lógica da gestão do conhecimento. Em última análise. Organização e Economia tos. A totalidade da vida é agora agente de produção. que valoriza o produto acabado como mercadoria padronizada reprodutível. A inovação aponta para o privilégio do potencial humano de conceber e desenvolver conhecimentos que se associam (28) ao caráter necessariamente indeterminado e iterativo do processo criativo.Trabalho. sem necessidade de . Coloca-se. a indiscriminação entre usuários-produtores e usuários-consumidores. Ao contrário. isto é. a um só tempo. nas características processuais da criatividade. A mudança paradigmática introduz uma economia do conhecimento. para a atualidade organizacional. na pós-modernidade das empresas em rede e das redes de empresa. o processo produtivo se torna. cabendo ao trabalhador apenas o processo de reprodução operacional. exigindo. As redes informatizadas exigem. para o desenvolvimento do processo produtivo. no contexto da atualidade econômica e social. científicos. na inovação enquanto processo. Com essa argumentação. o valor repousa na capacidade criativa da subjetividade. conhecimento e trabalho estão separados. Na economia industrial. ainda. Ao capitalismo industrial. sejam esses técnicos. ao cientificismo mecanicista e às determinações da produção com vistas à reprodução da mercadoria. a necessidade de gestão do conhecimento como conjunto de estratégias integradas para o gerenciamento da empresa de nossos tempos. por parte da administração das organizações contemporâneas. onde a não finalização do processo é seu próprio motor. é necessário. O conhecimento se encontra cristalizado na máquina. o estabelecimento de novas estratégias administrativas. o valor estava associado às possibilidades das máquinas seriais.

Estes fatores poderão ser melhor apresentados através da oposição entre os atributos econômicos da mercadoria e os do conhecimento. Já se pode ver . Por outro lado. 2003). ou sua”). o que se valoriza é o próprio processo. A raridade da mercadoria. cambiáveis e consumíveis”. sendo. além de não ser destruidor. a alienação do trabalhador moderno é ainda mais ampla. As mercadorias configuram-se como bens “tangíveis. Neste caso. a saber: raridade de recursos e rendimentos decres(29) centes. seu consumo. Já para o processo de incorporação. esgotamento ou degradação. que corresponde à criação de novos conhecimentos. Para a sua viabilidade. de acordo com as linhas de força da modernidade fabril. na medida em que a “força de trabalho” se afasta também da mercadoria produzida. a “inovação” nada mais será do que adaptação ou ajuste quantitativo da mercadoria visando a otimização do produto (CORSANI. Como conseqüência.Trabalho. a dinâmica processual da modernidade das organizações dependerá da presença de dois fatores econômicos. apropriáveis. está na raiz dos direitos de propriedade. uma das funções da moeda: a de ser o índice da medida comum desse “sacrifício”. nesta ponta do processo de produção. O processo de incorporação do conhecimento à mercadoria possui uma natureza diferente do conhecimento como inovação. Nesse novo contexto. o que quer dizer que seu consumo implica a sua própria destruição. ou seja. ou seja. Não finalização e continuidade são os aspectos centrais dessa modalidade de processo. Contudo. a exclusividade de sua propriedade (“ou minha. a potência de transformação nele contida. inclusive. ao contrário. desta vez na própria mercadoria. as mercadorias estão submetidas à lei dos rendimentos decrescentes. seu enriquecimento. onde o conhecimento é aquilo que se produz continuamente. a produção ou a troca de mercadorias envolvem a alienação e o despojamento dos participantes. encontraremos o conhecimento novamente materializado. Neste contexto. Já a inovação ou processo do conhecimento constante se estabelece de maneira antagônica. o objetivo é a estabilidade do produto final. Organização e Economia produção cognitiva. Para o último. acarreta.

apenas quando o conhecimento se socializa. concomitantemente. a troca de conhecimentos não corresponde a qualquer espécie de perda ou sacrifício. nos dias de hoje. Na prática. O paradigma da atualidade do trabalho exige novas políticas de gerenciamento das organizações. O capitalismo cognitivo está centrado na (30) subjetividade e na criação de conhecimentos e. e.Trabalho. nessa medida. ele adquire valor (LAZZARATO. o conhecimento como que se desprende da materialidade da máquina industrial ou da mercadoria produzida na linha de produção fabril. Isto é o que leva a maioria dos autores. Dentre as práticas de RH. 2003) . a de T&D é a responsável pelo agenciamento dos conhecimentos no interior da organização. produção e consumo coincidem. especialistas administrativos. para se apresentar em sua radical imaterialidade. Assim. a gestão de pessoas assume. isso quer dizer que os especialistas de RH não mais . Percebemos na nova economia do saber. Por seu turno. podemos dizer que a parceria empresarial implica a distribuição dos empreendimentos de RH por todos os setores da organização. a exemplo de Corsani (2003). Ao contrário. defensores dos funcionários e agentes de mudanças. Dave Ulrich (1998) identifica os profissionais de RH da atualidade como parceiros empresariais. deixando de se reduzir a um setor determinado. então. somente quando há troca. Organização e Economia que. a prática do T&D deverá colocar-se de acordo com o lugar privilegiado dos conhecimentos nas organizações contemporâneas. colocar-se no âmbito das imperativas necessidades do capitalismo cognitivo. novas práticas de RH. De maneira abrangente. especialmente. no paradigma da atualidade econômica. Na busca do cumprimento dessa meta. pelo agenciamento das NTIC. a admitir que a inovação nada mais é do que a produção de conhecimentos por conhecimentos. valorizando o processo de produção em detrimento do produto final. Essa configuração nos permite afirmar que. As práticas de RH baseadas na gestão do conhecimento vêm. na organização atual. posição de privilégio na administração. os profissionais de RH devem se tornar. que se valoriza a inovação enquanto processo de criação constante de conhecimentos. além de parceiros estratégicos.

Construído nos moldes de uma parceria estratégica e utilizando a abordagem diagnóstica. A última etapa é crucial porque. Na especificidade da parceria estratégica. No escopo de uma abordagem diagnóstica ou de uma perspectiva sistêmica. formando a base para o início de um novo ciclo de T&D. Dessa forma. Já a terceira etapa compreende a execução do treinamento através de sua realização propriamente dita. placares equilibrados. O LNT permite. isto é. espalhando-se. Organização e Economia se concentram num departamento. quaisquer que sejam as formulações daqueles objetivos – sejam eles considerados alvos financeiros. o funcional e o individual. efetuada pela administração. por sua vez. os especialistas em RH estão encarregados de converter os objetivos da organização em ação. pelas diversas unidades. Com esse expediente. etc. compreende. o planejamento relacionado a políticas e diretrizes. será necessária a utilização da abordagem diagnóstica como prática de RH. primeiramente. recursos financeiros. por assim dizer. Para cumprir esta atribuição. a identificação dos objetivos da organização sob três diferentes enfoques: o organizacional propriamente dito. do acompanhamento e da manutenção dos projetos e programas escolhidos. serão: tempo disponível. a revisão crítica da totalidade das fases envolvidas. o T&D deixa de ser uma atividade de RH dirigida exclusivamente para o enriquecimento funcional para se apresentar como proces- . torna-se possível a continuidade do processo. tornam-se visíveis as lacunas existentes na competência dos funcionários em obter as metas da organização. missões. trabalhando na associação com os gerentes de linha. A conseqüência imediata desse procedimento é a possibilidade de se fazer o “levantamento das necessidades de (31) treinamento” (LNT).Trabalho. Suas diretrizes. intenções. então. estes últimos envolvidos no dia-a-dia operacional da organização. As políticas deverão contemplar a sintonia com os objetivos maiores da organização. ainda. tecnologias possíveis. visões. o T&D pressupõe. que se empreenda a segunda etapa da prática de T&D de acordo com uma abordagem estratégica. aspirações ou metas –. segundo os objetivos do treinamento. além da avaliação dos resultados obtidos.

do “saber ser”. as funções tornam-se menos importantes para a gestão das empresas. mais ligado ao campo da invenção. articuladas à totalidade das experiências vitais. o gerenciamento de T&D . está em jogo. p. A criação de conhecimentos se efetua mais como demanda das possibilidades subjetivas. reação a acontecimentos inesperados e ênfase às habilidades de trabalho em equipe. na qualidade de processo constante de criação de conhecimentos. Tais tendências apontam para o valor do conhecimento como inovação.Trabalho. 2000. os enunciados de RH estratégico associados à abordagem sistêmica podem ser vistos como proposta de correspondência entre as atividades de RH da empresa e as novas tendências econômicas e sociais da pós–modernidade. ênfase à responsabilidade. Por esses motivos. em consonância com as constantes mudanças nas organizações e a rápida obsolescência das competências funcionais. liderança de reuniões. cada vez mais. como já vimos. incentivo à dependência dos colegas (MILKOVICH & BOUDREAU. 353/362). o LNT requer uma consideração amplificada. Organização e Economia so interminável de aquisição e aperfeiçoamento dos conhecimentos globais da personalidade do trabalhador. este último referido à subjetividade do trabalhador. do que como competência funcional no sentido restrito. um processo de dilatação subjetiva das possibilidades de criar (32) e desenvolver conhecimentos. Na atualidade. tomada de decisões. Ao contrário. Para que essa situação se efetive. um desempenho flexível. comunicação e habilidades multifuncionais. a transformação das competências ou habilidades. além do “saber fazer”. exige-se do trabalhador. pressupõe. ou a modificação das atitudes e das motivações individuais. Nesse contexto. Sendo assim. Exemplos de T&D no campo da gestão do conhecimento incluem jogos e dramatizações. além da competência para o desempenho da função. mudanças nos papéis funcionais. A inovação. Esse direcionamento da ARH tende ao estabelecimento de práticas de T&D que possam oferecer condições mais amplas para o exercício.

2 . SILVA. as novas práticas de T&D estão muito mais centradas na continuidade da inovação como processo do que propriamente na otimização do produto final. ligado às habilidades e competências funcionais. por sua vez. Por fim. A. P. 2003.Trabalho. 1998. JOLLIVET.. ULRICH. P. SILVA. redes e inovação. G. prioritariamente. J. e a gestão do conhecimento se reduziria à evolução ou ao aprimoramento do produto em detrimento das possibilidades criativas organizacionais. P. G. se associa ao “saber fazer”. Capitalismo cognitivo: trabalho. Sendo assim. 2000. MILKOVICH. P. A. Rio de Janeiro: Graal. Capitalismo cognitivo: trabalho. Os campeões de recursos humanos: inovando para obter os melhores resultados. G. R. necessária ao processo de criação de conhecimento por conhecimento.. Eduardo Rozenthal é psicanalista. GALVÃO. 1990. “NTIC e trabalho cooperativo reticular: do conhecimento socialmente incorporado à inovação sociotécnica” in: COCCO. Rio de Janeiro: DP&A. em meio a uma crescente integração às demais atividades de RH. A. R.O uso dos prazeres. T. “saber ser” indica.. G. redes e inovação. Janeiro: DP&A. a valorização do produto final implica a incorporação do conhecimento à materialidade do referido produto. A. Ao contrário. 2003. D. redes e inovação. S. R. (33) Referências Bibliográficas CORSANI. GALVÃO. LAZZARATO. FOUCAULT. Capitalismo cognitivo: trabalho. . e BOUDREAU. Dimensões funcionais da gestão de pessoas. Administração de recursos humanos. W. Nesse caso. Janeiro: DP&A. 2003. Organização e Economia pretende. GALVÃO.. contribuir para a máxima convergência entre o desenvolvimento individual do trabalhador e os objetivos organizacionais. M. doutor em Saúde Coletiva pela UERJ e fundador do Grupo de Pesquisa do Trabalho Imaterial (NITI) da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFRJ... “Elementos de uma ruptura: a hipótese do capitalismo cognitivo” in: COCCO. G. o território da subjetividade que. História da Sexualidade vol. 2003. o conhecimento se afastaria da imaterialidade “pura”. ROCHA-PINTO. São Paulo: Atlas. São Paulo: Futura. M.. G. “Trabalho e capital na produção dos conhecimentos: uma leitura através da obra de Gabriel Tarde” in: COCCO. SILVA. G. Rio de Janeiro: Editora FGV. O desenvolvimento individual deve ser entendido como mudança de atitude e transformações motivacionais visando o incremento da possibilidade de inventar conhecimentos.

recem produzir uma poderosa Pois não sou eu que a invento. seria da equivalência ções. da que o âncora – um profissional crítica exclusivamente mascu. da dificul. afinal. A resposta. Repito tudo aquilo Sorrindo para a câmara.. refere à literatura. Justamente em um dos feminina? dias em que eu estava pensanHá exatos 28 anos eu a respon. pa. Com paciência.corretíssimo. quem não nenhuma surpresa.. ao que a gente sabe. do tora Dacia Maraini. com boa cabo.original quanto a pergunta. E o que foi controle da nossa linguagem. estabelecendo os padrões. liguei a TV a do. tenho de história. veria causar maiores sem risco de parecer estremecimentos. cuja fórmula não sou só eu que a respondo. no mundo pergunta: existe uma escrita inteiro. estava a escridade de acesso à educação. Isso (34) . mas Emily feminina no sou uma escritora”. com sincero intuito literatura chamado Pickwick. gem – perguntou a ela? Vamos e da nossa força para conseguir ver se vocês adivinham. didático. façam vencer isso tudo.Valor Cultural Porque nos perguntam se existimos Marina Colassanti Se eu disser: “Eu sou A pergunta “existe tempo.do nessa palestra. Quando há um esforço de imaginação. dou um pouco uma mulher”. Dickinson já deu até exercício do poder Isso também não depeça. e dizer: “Eu abusar. falo das mação não causará feminina?” não se Brontë. As pedante. duas questões são pacíficas. conhece as Brontë? Permito-me prosseNão ouso chegar até mas ao medo viril guir com as afirmaAphra Behn.lado do âncora.combinadas. pode-se citar da palavra. reação química. vou até o uma literatura certeza de que a afirséculo XIX. é tão pouco Entretanto. diga-se de passalina. num programa italiano de educação. conduz inevitavelmente à Somos milhares.

em vez de respondê-la. e a resposta não foi diferente.Valor Cultural mesmo: “Existe literatura feminina?” Ela continuou sorrindo e respondeu. quem sabe. E. que a partir da escrita estou há anos empenhada em construir a arquitetura de uma voz. Nenhum argumento a atinge. No entanto. talvez pertinente há vinte anos. lhe perguntaram exatamente a mesma coisa. depois de tê-la repetido infinitas vezes. em conferência que fez e na qual fui chamada a servir de spalla. Há anos. a relação feminina com aquilo que é físico. ela parece passar por cima disso tudo. Que pergunta é essa. Como se nada tivéssemos dito. pela fala de muitas autoras. Imagino que soubesse a resposta de cor. depois de tanto responder. com a mesma insistência. Normal mesmo seria que essa pergunta. estamos respondendo. Fosse uma pergunta normal. afinal? Não é nova. Isso posto. com idênticas palavras. não vou mais comprar o peixe que querem me vender. a resposta tem se demonstrado ineficiente. a que poderíamos chamar de fisicidade das mulheres. com aqueles mesmos argumentos que eu e todas nós usamos. Não consegue sequer modificá-la. Por quê? Porque ela não está interessada nos argu- . paciente. tivesse se desgastado e desaparecido. da mesma maneira. Mas. continuam questionando nosso fazer literário exatamente da mesma maneira. Recuso-me a procurar novos e. pelo intenso trabalho da crítica feminista. minada pelos estudos acadêmicos. embora clara e justa. Apesar de tudo o que já dissemos. educada. mantendo-se absolutamente inalterada. certamente. Eu. Não vou mais aceitar essa pergunta como se aceitam as perguntas que esperam respostas. de uma voz que sendo minha é feminina. tivesse sofrido alguma alteração. no Rio. cheguei a uma convicção: o (35) erro não está na resposta. talvez acrescentando mais alguns. declaro-me ofendida pela pergunta. Então. em todos os níveis. até mesmo na formulação. o mundo das emoções ao qual as mulheres são historicamente mais afeitas. seria de se esperar que ao longo do tempo. a questiono. mais convincentes argumentos. pela simples evolução e até mesmo pelos avanços da ciência. o olhar feminino. com a melhor das intenções. Não consegue eliminar a pergunta.

Se homens e mulheres utilizam o cérebro de maneira diferente ao falar.Nos últimos anos. que as mulheres – e só as mulheres – utilizam para falar. do ponto de vista puramente físico. verificou-se a presença de apenas uma menina para três meninos.Por experiências científicas anteriores.Valor Cultural mentos. e de forma apenas esquemática. Nas salas de reforço de aprendizado de leitura. ao falar. afirma que foi possível demonstrar diferenças consideráveis na organização funcional de um componente específico do processo de linguagem entre homens e (36) mulheres.Além disso. os homens usam basicamente uma seção do lado esquerdo do cérebro. p a r e c e apenas lógico que o utilizem de maneira diferente também para escrever. mas me parece que esses são suficientes para encaminhar-nos a uma dedução.O aprendizado da escrita também é diferenciado. é pouco provável. Indo mais longe. . Existem. Não vamos aqui nos estender sobre as infinitas diferenças biológicas. verificaram que. responsável pelo projeto. estão aquela que controla a visão e aquela que controla os sentimentos. certamente. sabemos que entre as áreas cerebrais dos dois hemisférios. ao que tudo indica.Cientistas da Universidade de Yale descobriram que os homens e as mulheres falam línguas diferentes. Vamos nos ater. comprovadamente. enunciam melhor e têm melhor vocabulário. a ciência tem provado que homens e mulheres não são iguais. é a pergunta em si. É uma espécie rara de pergunta. ao que interessa ao nosso caso: . o utilizam de maneira d i f e r e n t e p a r a l e r. mais dados. enquanto as mulheres recorrem a diversas áreas dos dois lados do cérebro. nos EUA. cuja razão de ser não é a busca de um esclarecimento. e se. . . as mulheres falam mais cedo. que havendo um mecanismo bioló- . Graças à utilização de um campo magnético e de ondas de rádio capazes de construir a imagem dos tecidos do corpo. As mulheres aprendem a ler e a escrever mais facilmente que os homens. Isso se torna mais claro quando vemos como ignora as evidências científicas. Independe da resposta. Bennet Shaywitz.

Mas. Não passou. a literatura das mulheres.Valor Cultural gico diferenciado para falar e ler. E se alguém disser “sim. Pior ainda. está afirmando que. está sendo repetida com maior freqüência. a dúvida estará sendo aceita com ela. Mas se eu perguntar “esse copo é de vidro?”. embora possa existir. (37) eu sei hoje que quem está fazendo a pergunta não é esse alguém – indivíduos não fazem perguntas dessa forma tão simétrica e uníssona. feita infalivelmen- . Um espaço claramente localizado atrás do espaço literário já reconhecidamente existente. o masculino. esse mecanismo não atue no ato de escrever. A pergunta. eu o confirmarei copo e vidro. Sua função não se alterou. sobretudo a mim. Quem está perguntando é a sociedade. Quando alguém me pergunta se existe uma literatura feminina. eu perguntar com ar de dúvida. sua existência é tão fraca. e então. no limbo. do decalque. tão imperceptível. E a essa altura. sobretudo. Mas se a função de uma pergunta não cessa apesar das respostas. num espaço intermediário entre o paraíso da plena literatura e o inferno da não-escrita. a pergunta passasse para outro patamar. estarei levantando uma dúvida. já tenho elementos para crer que a sociedade não quer de fato saber se existe uma literatura feminina. Se eu disser “esse copo é de vidro”. Seria de se esperar que. estará num espaço que. não sendo o seu verdadeiro. que estão meio distantes dele. que é bem provável que não exista. A função de uma pergunta que está em busca de resposta cessa quando a resposta é obtida. Aquilo de que se duvida está em suspeição. é de vidro”. Vocês que não têm o copo na mão. “mas é de vidro mesmo?”. estará suspensa. só pode ser o espaço do plágio. O que ela quer é colocar em dúvida a sua existência. depois dessas descobertas. É na permanência que a pergunta continua cumprindo sua função. se perguntarão se ele não é de plástico. estarei plastificando esse copo de vidro para muita gente. Está em suspensão. se o que eu faço existe realmente. escritora. E a nossa literatura. Ao me perguntar. Enquanto a pergunta for aceita. com o aumento da presença feminina no mundo literário. devemos procurar em outro lugar sua verdadeira função.

como acontecia no século XIX. e se refugiam no território neutro de uma utópica androginia.Valor Cultural te às escritoras. A militância não as teve em seus quadros. que envolveu os escritos das mulheres em um grande e esperançoso movimento. A crítica feminista. cravando-se como uma cunha no intocável e viril universo das letras. sem influência no mercado. quando os sexos são apenas um. Pesquisas mostram que basta a palavra mulher em um título para espantar os leitores homens e abrandar o entusiasmo dos críticos. Que digam elas próprias se classificam seu trabalho como feminino. Não se constituiu como pensamento comum às escritoras ou pelo menos a uma parte considerável – ou mais visível – delas. e onde a crítica feminista ocupou espaços importantes. esse um é masculino. as escritoras estão perfeitamente conscientes de que ainda hoje um preconceito pesado tende a colorir de rosa qualquer obra de literatura feminina. Já não podemos ignorar que em nossa sociedade. Ora. forçando-as a uma definição. buscando evitar o risco de desvalorização ao declarar feminina sua própria escrita. O mesmo não se pode dizer em relação ao Brasil. sobretudo nos países que vivenciaram mais intensamente o feminismo. Atuantes os preconceitos. preferem negar qualquer possibilidade de gênero no texto. . desenhou entre nós um percurso diferente. O preconceito perdura. tardiamente chegado ao País em virtude da ditadura militar e obrigado em seguida a acelerar seus tempos. sem presença sensível na mídia. Apesar da onda dos anos de 1960. não conseguimos vencer a barreira. Mas se no tempo desse autor a afirmação era revolucionária. O feminismo. sabemos que os leitores abordam um livro de maneira diferente quando ele é escrito por uma mulher ou por um homem. ainda assim numerosas escritoras afirmam a feminilidade dos seus textos. hoje isso mudou de sentido. Muitas escritoras então. atua de forma maquiavélica. E embora não precisemos mais nos esconder atrás de pseudônimos masculinos. ou não. atuando apenas no meio acadêmico. E excludente. repetem “os dois sexos são apenas um para quem escreve”. sem força editorial. (38) Como George Sand.

Hoje. a carga horária diária da mulher é 13% superior à dos homens. aconselham mais livros do que os homens. Mas de acordo com dados recentemente divulgados pela ONU. No mundo inteiro. porque têm mais interesse pela leitura. E esses sempre disseram que as mulheres lêem mais porque (39) têm mais tempo livre (entenda-se. Reunidas ao redor de revistas para mulheres. Então. as mulheres trabalham mais que os homens. não têm o que fazer). Jornal das Damas e A Mensageira. No caso dos países em desenvolvimento. as mulheres lêem mais que os homens. de 1995. a literatura feminina brasileira despiu-se dessas características ao entrar no novo século e numa luta mais acirrada por um lugar de destaque entre os escritores homens. as escritoras visavam não apenas abrigar e desenvolver a mão–de-obra literária feminina. de pocket de boa qualidade literária. por melhor educação e pelos direitos das mulheres. na França. como O Jornal das Senhoras. Uma pesquisa realizada em outubro de 1994. As mulheres compram mais livros. Curioso é notar que quando a literatura feminina surge no Brasil. a questão do gênero não passa pelo texto. embora tendo menos tempo disponível. para a quase totalidade das escritoras exponenciais. . junto à editora Librio. 69% das mulheres lêem um livro. como o Brasil. 71% de seus compradores são mulheres.Valor Cultural poucas possibilidades tem de influenciar esse quadro. mas também lutar pela libertação dos escravos. dão mais livros de presente. é sobretudo através do pensamento libertário que ela se afirma. Essa constatação ganha ainda em intensidade quando lembramos que as mulheres representam 2/3 do analfabetismo mundial. preparando o terreno para as reivindicações que viriam em seguida. através do Relatório do Desenvolvimento Humano. Coletiva e altamente política na origem. podemos dizer sem medo de erro que as mulheres lêem mais. Segundo um levantamento realizado também na França. O Sexo Feminino. na segunda metade do século XIX. revelava que enquanto 70% dos leitores masculinos dedicam o tempo do transporte diário à leitura do jornal. Eram pré-feministas.

tão mais comprometedora? Durante séculos. Em cada dez leitores de romances. Em segundo lugar. entre 1973 e 1989. às mulheres. a negação. sete são mulheres.Valor Cultural E mais uma pesquisa. aqui. o poder da palavra. As mulheres não são apenas as que mais lêem. consideram sua propriedade. Ela é arma numa intensa luta pelo poder. junto com seu envelhecimento. Se nos negam a palavra oral. A narradoras recorreram os irmãos Grimm para elaborar sua coletânea. E foi sobretudo graças às narradoras que se preservou o folclore narrativo italiano. o excesso de força que as mulheres. são também as que mais compram livros escritos por mulheres. com decorrente ocupação de parte daquele espaço mais conceituado (40) que os homens. realizada pelo Ministério da Cultura francês. como crer que reconheceriam nosso direito à palavra escrita. o poder literário. Esses dados servem para mostrar que a nossa pergunta-tema não é naïve. o abuso verbal comprovado a que somos submetidas no cotidiano. volátil e efêmera. E o número de escritoras – que indubitavelmente escrevem tão bem quanto os escritores – vem crescendo no mundo inteiro. uma vez removido o preconceito. já geradoras da vida. haveria um considerável avanço feminino no universo literário. as mulheres foram as grandes narradoras. Esse papel foi consentido às mulhe- . consciente ou inconscientemente. sobre as Práticas Culturais dos Franceses. o maior fenômeno do mundo literário dos últimos anos. aquelas que ao redor do fogo ou à beira da cama mantinham vivas narrativas milenares. O preconceito tem conseguido manter a maior parte desse contingente feminino no segundo escalão. das palavras sagradas. através da interrupção e encobrimento das nossas frases. teriam se possuíssem seu livre uso. estender-me sobre aquilo que todas já conhecemos e sobre o que muito se escreveu: o poder gerador da palavra. Não me parece necessário. Em primeiro lugar. nos diz que a feminização do leitorado é. Ela é gerada por um mercado forte e pelo avanço das mulheres nesse mercado. como reconhece Italo Calvino na introdução da coletânea por ele elaborada. Não é difícil perceber que.

A coisa muda de figura quando elas se tornam narradoras de seus próprios textos. E linguagem individual é transgressão. aquela mesma falsidade que já se havia atribuído com sucesso à voz das sereias. Em última análise. Literatura – reconhecível (41) como tal – implica linguagem individual. é posta em questão. enaltecendo-a. de uma escrita feminina. se transformam em ameaça.Valor Cultural res sem constrangimentos. das feiticeiras. Trocando em miúdos: aceitando a literatura feminina. A palavra da narradora perde seu pleno poder. não apenas à legitimação de transgressão por parte das mulheres. como mantenedoras de valores da sociedade patriarcal. Estudando textos sobre a existência. e de tantas mulheres tentadoras que ao longo da história levaram os homens à perdição. E qual a melhor maneira de fazê-lo senão duvidando da autenticidade de sua criação? A mulher narradora. ou não. No reconhecimento de uma literatura feminina. Se nos homens a transgressão é estimulada e louvada pela sociedade – o herói é sempre. elas escapam ao controle. E esse reconhecimento levaria. ruptura das normas. de uma maneira ou de outra. Turva-se a limpidez da sua voz com acusações de falsidade. Criadoras. encontramos um elemento muito revelador: a afirmação freqüentemente repetida – praticamente um . questionamento do já estabelecido. E não apenas porque se tratava de oralidade – aparentemente mais perecível – mas porque elas atuavam como transmissoras de elementos culturais estratificados. e que com tanto esforço estamos tentando impor. Mas a literatura traz consigo outro fator extremamente ameaçador. nas mulheres ela é execrada. A heroína não é aquela que transgride. um transgressor –. repetidoras de narrativas já existentes e emitidas por outras fontes. Faz–se preciso retirar a força antes permitida. antes aceita sem reservas. mas aquela que dentro da norma se supera. mas à afirmação inequívoca de que transgredir faz parte da sua natureza e não diminui em nada a feminilidade. viria embutido o reconhecimento de uma linguagem individual. a sociedade estaria aceitando aquele modelo de mulher que ela própria tanto nega.

Em última análise. As menores são mais fáceis de contestar. Circunscreve-se assim o risco de contaminação. Para as grandes. que é a do medo viril da equivalência feminina. a pergunta fatídica não vigora. menos papéis disponíveis nas artes cênicas. às outras todas. Nas artes ou na vida. me parece necessário. podemos dizer que. temo o preconceito. na plena individualidade. a individualidade de um texto universal. a força. na qual ele está involucrado. Uma vez que é impossível negar a qualidade. e tendo em vista que tampouco se pode aceitá-lo. ou seja. a pergunta “existe uma literatura feminina?” não é relativa à literatura. Para finalizar. quando não se calculam como tempo de trabalho as horas passadas na cozinha. como escritora. Provavelmente porque nenhuma outra lida com a palavra em estado puro. dar minha posição pessoal.Valor Cultural consenso – de que a pergunta sobre a existência ou não de uma literatura feminina torna–se desnecessária a partir de determinado nível qualitativo da escrita. ao contrário do que parece. ainda que escrito por mulher. ou quando se veta nosso acesso a cargos de chefia. embora não goste muito de personalizar. a negação da nossa atuação pouco difere. descuido com nossos tra(42) balhos. e a incluirmos no âmbito da questão mais ampla. em se tratando de escritoras ditas universais. deveríamos abordar a questão das mulheres nas artes. desatenção dos críticos e sistemático apagamento na história da arte – em nenhuma outra a pergunta é formulada de forma tão explícita e constante. a aceitação: retiram-se as escritoras universais do questionamento. e nenhuma outra forma de expressão é tão ameaçadora quanto a palavra. E a responderemos melhor sempre que a tirarmos de seu falso lugar. Nos basta lembrar que. Para desenvolvermos mais plenamente nosso tema. sob pena de estender às outras. Ela é a mesma quando se atribuem a outros autores os quadros de Artemísia Gentileschi. a presença do gênero. uma vez que é impossível negar. . esquecimento dos nossos nomes. embora em todas as outras artes seja intensa a resistência ao nosso fazer – traduzida em pouca presença nos museus. Mas ele me fere mais do que me assusta. Como todo mundo.

E que essa é. é assumir todas as formas. o que sinto. através de minha própria. EEUU. Marina Colassanti é contista. E o que sinto em mim. quando diante do computador busco a essência do homem.Valor Cultural E sempre armei minha defesa não na esquiva. mas no enfrentamento. intensamente. cronista e poetisa duas vezes vencedora do prêmio Jabuti. uma essência de mulher. mais profunda essência. através de mim. é que eu a procuro dentro de mim. Mas Proteu mudava apenas de aparência. é ser animal e pedra. O escritor. Escrever. antes de mais nada. já foi dito infinitas vezes. que me permitirá escrevê-los. (43) . é criatura cambiante. Seminário “Entre resistir e identificar-se”. enquanto o escritor busca na metamorfose a essência para entregar-se. a essência profunda do animal e da pedra. é ser homem e ser mulher. como o deus marinho Proteu. para iludir os outros e esconder-se. Universidade de Illinois.

agindo ao mesmo tempo em c o m s u a s s i n g u l a r i d a d e s que diagnostica. diferenças entre o enfoque da Toda e qualquer instituição organização SPID e o da ins. que passe Psicanálise Iracy de Psicanálise dez anos sem ser Doyle (SPID) Iracy Doyle (SPID).não está ainda instituído. burocratisInicialmente. seja ele Sociedade de nal da Sociedade qual for. que em o aparecimento de de um modelo de 2003 completou 50 maneiras de ser topoder democrático anos de existência. Nesse caso. incapacidade fundamental esclarecermos as de se questionar. É fundamenlise institucional como base tal a aceitação da existência de sustentação para a reforma deste paradoxo – intrínseco à (44) . gância. por mais “democrávias de se instituir. O trabalho or. análise e reforma cesso de análise e Qualquer corpo institucional da reforma instituciosocial. arroFoucault.Case History Análise e reforma institucional . talitárias entre seus e representativo. – se inviabilize em um dado trabalha-se com o que está em momento. enquanto “instituinte” – isto é.que se institui. provoca a implementação Janeiro. questionado ou moprovou ser possível sediada no Rio de dificado.O testemunho de um percurso Angela Coutinho Acompanhamos em sua estrutura e O processo de desde 1999 o profuncionamento.autodenomine. o que o trabalho institucional co. à Va m o s a p r e s e n t a r membros: desprezo luz dos conceitos de aqui um testemunho dos colegas. A SPID se tica” que uma instituição se propôs a um trabalho de aná. desse trabalho. o loca demandas em análise. que se acha em movimento. é mos.b u s c a a f i x a ç ã o d a q u i l o tituição SPID. daí o risco ganizacional se detém ao que s e m p r e p r e s e n t e d e q u e o já está instituído.

A força só tem como objeto outras forças. pontos de enfrentamento. para que o já instituído não impeça o novo de florescer. focos de instabilidade. a relação de poder não se confunde com a violência que age sobre corpos. O poder é uma relação de forças. apresenta essa nova concepção de poder que nos ajuda a pensar a tensão permanente entre instituinte e instituído. O poder se exerce. tem um potencial que é sua capacidade de resistência. é um conjunto de ações sobre ações possíveis 3. técnicas.O que garante a criação é justamente essa porosidade. (45) impedindo a maleabilidade necessária ao enfrentamento do novo. alterando-os ou destruindo-os 2. Essa tensão pode desembocar em uma crise caso o dispositivo de poder se cristalize. Sabemos que o poder está em todos os lugares onde existam singularidades. Na relação de poder é indispensável que o outro seja mantido até o fim como sujeito de ação. que torna possível a construção de novas formas. cada um comportando seus riscos de conflito. O poder não tem essência. Embora possa haver um dispositivo rígido de poder. mesmo sendo afetada por outra. não se possui. Sua característica essencial é estar em relação com outras forças. funcionamentos. O poder não tem homogeneidade e é definido pelos pontos singulares por onde passa. os efeitos do poder são atribuídos a disposições.Case History vida institucional – para que se perceba a precariedade de todo e qualquer dispositivo que esteja em vigor em determinada sociedade. importante pensador do século XX. essa tensão pressupõe uma relação de forças. táticas. De um modo ou de outro. uma vez que estas se constituem como relação de forças. ele é operatório. inerente a . um embate que remete à questão do poder. Enquanto estratégia. nunca no singular. É preciso enfrentar este paradoxo com a utilização máxima do potencial criativo inerente à tensão permanente entre”instituinte” e “instituído”. manobras. Não há um lugar privilegiado como fonte de poder. de lutas e de inversão da relação de forças 1. 4 A resistência é a potência da força. objetos. Michel Foucault. A força. Forças.

investigações e pesquisas. há nas relações de poder a inclusão da liberdade. Desse modo. houve a constituição de um espaço específico para a discussão dos instrumentos de poder e de organização que regem a SPID. A denominação de “sociedade”. tem uma capacidade imprevisível. em toda relação de poder há uma possibilidade de resistência. trata-se de uma sociedade de psicanalistas em constante formação. Resistência é o que permite o confronto com a dominação. liberdade como condição de existência do poder. inventiva e produtiva como o poder. formar e promover o progresso da Psicanálise em todos os domínios nos quais a sua prática esteja implicada. e não de “escola”. No trabalho de análise e (46) reforma institucional que vamos relatar aqui. Seu compromisso fundamental é com a difícil tarefa de transmissão d a p s i c a n á l i s e . é o que a mantém como força. tornando possível o questionamento do poder exercido. Assim. Ali. trocar experiências. enquanto ser. cujo objetivo é congregar profissionais com o intuito de transmitir conhecimentos. seu suporte fundamental. Ou seja. O homem é como um conjunto de “forças que resistem” e. O fundamental é que o exercício do poder seja dotado de procedimentos passíveis de discussão e de transformação. é justo por ter como premissa básica uma relação paritária entre seus membros. ela não é mais força. realizar estudos. e não uma estrutura hierárquica nos moldes mestre/discípulo. Te m c o m o princípio a aceitação das diferenças teóricas e práticas .Case History si própria. A resistência. É justamente essa inclusão da liberdade nas relações de poder que viabiliza a atualização do potencial criativo inerente à tensão entre instituinte e instituído. já que entende a formação como um processo permanente. uma sociedade civil de caráter cultural e científico. As relações de poder são inevitáveis. sendo tão móvel. a SPID não “forma” analistas. onde não resiste. Embora seja uma instituição de formação psicanalítica. vem de “baixo” e se distribui estrategicamente. Há uma tensão recíproca entre liberdade e poder.

assim. constituído por dez conselheiros.Case History e a troca permanente entre pares. O Secretário Geral representava a SPID interna e externamente para efeitos jurídicos e presidia todas as reuniões. mas sem direito à voz nem ao voto. Isso gerava um mal-estar constante e um inconformismo diante da situação de exclusão frente . O segundo órgão de poder era o Conselho Deliberativo. sem direito à voz nem ao voto nas reuniões e assembléias. O órgão máximo de poder decisório era a Assembléia Geral. secretários. as funções executiva e deliberativa. Até 2003. Estavam presentes. Apesar dessa abertura. além dos dez conselheiros. mas não pertenciam. só freqüentava as reuniões quem era do Conselho. isto é. isto é. que faziam o curso de formação durante anos a fio. o que a caracteriza como pluralista. pertencer à sociedade. As reuniões do Conselho Deliberativo eram abertas aos demais membros da sociedade. os candidatos a membros psicanalistas. embora pudessem participar ativamente de todas as atividades institucionais. isto é. Os conselheiros que eram. com função diretora e executiva. Pluralismo como bandeira fundante que suporta a diferença. Era presidida pelo Secretário Geral. seis dos quais com encargos de Secretários. cargo máximo de poder exercido por um dos membros psicanalistas eleito em Assembléia. Deliberavam sobre o que eles próprios propunham. e quatro representantes do Corpo Social. antes da conclusão dessa reforma institucional. sem. acumulavam. ao mesmo tempo. Participavam também da sociedade os cursistas. excluindo os cursistas. (47) devendo se remeter sempre ao Conselho Deliberativo para o encaminhamento de propostas e votação das mesmas. que deseja a diferença. As diferentes secretarias tinham função executiva. Não tinham nenhum poder político. com a participação de todos os membros. no entanto. no sentido de não terem direito à cidadania institucional. a SPID estava estruturada em torno de duas instâncias de poder: a Assembléia Geral e o Conselho Deliberativo.

naquele momento. foi a primeira questão que se colocou. muito se discutiu acerca da necessidade de se abrir um espaço para exame da situação institucional da SPID. Sobre o processo de Análise institucional Quem iria participar desse processo de análise?. As reuniões semanais da CARI eram abertas a todos os membros e cursistas da SPID. que este trabalho teria de ser tecido. em 1984. Durante o período transcorrido entre a última reforma estatutária. eleita em Assembléia Geral e composta por cinco membros da SPID. O efeito disso pôde ser constatado em um expressivo movimento: as pessoas . por telefone ou por e-mail – de convocação dos membros e cursistas da SPID. Todo nosso potencial criativo disponível foi acionado para agenciar esse processo de mudança. Constatamos. A legitimidade requeria trabalho. passo a passo. mas (48) isto não garantia sua legitimidade. por todos os envolvidos. o que. a fim de tornar de fato representativo o trabalho de análise. era inquestionável. acabou provocando grande evasão . de saída. a CARI iniciou um trabalho “corpo-a–corpo” – fosse pessoalmente. Entendemos que a ação política mais urgente. Nosso primeiro esforço foi o de reunir um grupo significativo para que pudéssemos traçar um perfil atual da SPID. Qual era a demanda do grupo? A comissão foi eleita em assembléia. foi contratar uma analista institucional a fim de viabilizar um diagnóstico da situação. representando oficialmente a instituição. bem como indicar possíveis soluções. A partir das primeiras intervenções da analista institucional. surgiu a idéia de se formar uma Comissão de Análise e Reforma Institucional (CARI). Finalmente. e os dias atuais. era a congregação de todos. em 1999. portanto. em médio prazo. incluindo o maior número possível de participantes. o que não significava que as pessoas se dispusessem a delas participar.Case History ao poder decisório. não havia uma receita pronta. A legalidade da comissão. A primeira iniciativa da CARI. dentro dos objetivos estabelecidos na Assembléia.

Durante o período de análise institucional foi possível também uma interlocução via internet. O esforço de cada um com seu depoimento foi possibilitando o trabalho conjunto. bem como uma análise qualitativa da situação global. Assim. das crises e eventos traumáticos ocorridos. Esta análise levou ao delineamento das grandes questões atuais da SPID. Os encontros semanais do grupo institucional. Foram sintetizados alguns tópicos recorrentes nessa troca que mereceram uma análise mais aprofundada.Case History foram pouco a pouco saindo dos seus redutos fechados e se dando conta da importância de sua participação nesse processo. um espaço para que as histórias pudessem aparecer. através da elaboração de um questionário respondido por grande parte dos participantes. A memória produziu diferença. das respostas e das não-respostas dadas pela Sociedade a estes eventos. foi se tornando possível a reconstrução de um certo passado/presente para a construção de um presente/futuro. Questões relevantes foram discutidas e as divergências confrontadas de maneira pro(49) dutiva. A Passagem Cerne da discussão político–ideológico-conceitual que se estabeleceu na SPID. A construção da memória é algo do presente. além das discussões livres e temáticas nas reuniões do grupo institucional. Foi fundamental a possibilidade de se contar histórias com o intuito de fazer circular a palavra. Criou-se. desse modo. sintonizado com a vontade da maioria. a questão dos critérios de passagem para as mudanças de categoria . ofereceram condições para a livre exposição de idéias a respeito da história da SPID. foi possível se fazer uma sistematização do que havia sido discutido. A questão da história só pode ser pensada em sua pluralidade. assim constituído. estudo e propostas de novas soluções. ampliando as perspectivas de uma atuação institucional em direção à ref o r m a c r i a t i v a almejada. aos poucos. Constatou-se que os fluxos de comunicação estavam obstruídos e. questões estas que requeriam análise. Foram várias histórias.

o cursista solicitava a passagem à categoria de membro psicanalista da SPID. de certo modo. Tais critérios foram discutidos na maioria das reuniões da CARI e considerados anacrônicos frente à realidade atual e. Nesse sentido. Os critérios de passagem então vigentes funcionavam mais como elemento excludente. isto é. Falou-se de uma hostilidade que parecia mover os que não vinham. mas que nem sempre vinha à luz do dia.Case History foi discutida exaustivamente nos encontros da CARI. foi apresentado como o rito da “não passagem”. a dificuldade de se realizar um confronto pro- . Tudo isso expressava. mas não havia ânimo para uma participação efetiva na vida institucional. Participação Um dos assuntos mais dis cutidos expressou uma situação fortemente vivida entre os membros e cursistas da SPID. uma instituição “fantasma”. Havia vida circulando nos bastidores.” sem ser considerado membro. abandonos e recusas. Os membros e cursistas pagavam as mensalidades referidas à respectiva filiação. pois os ausentes não explicavam sua ausência. esteve longe de congregar a maioria dos membros e cursistas da SPID. portanto. A SPID parecia. Após um longo percurso institucional. Havia também alguma hostilidade entre os que compareciam e alguma rivalidade. Porque queriam ali permanecer? Observava-se um alto índice de absenteísmo nas reuniões e assembléias gerais. apatia ou uma forma de protesto? Essa questão da participação se refletiu nas reuniões da CARI. sem direito a votar nem a ser votado. O dado marcante é que se tratava de uma discussão (50) complicada. enfim. Desinteresse. necessitando de revisão e mudança. se mantinham na instituição. este com plenos direitos. que. Quando alguém era selecionado para ser participante da SPID. embora tenha contado com um número gradativamente crescente de participantes. constituindo-se como instrumento de poder. Ao mesmo tempo. apenas a manifestavam. ingressava na qualidade de “cursista. servindo de catalisador para rachas.

na transferência institucional. na SPID. entre o pluralismo que se constitui na base estrutural da Sociedade e o sectarismo que às vezes se evidencia. Tr a n s f e r ê n c i a p e s soal se refere a um investimento dirigido a alguém em particular. o que a caracteriza como pluralista. Será que a SPID construiu mecanismos para concretizar uma transferência institucional? Qual a imagem que havia da sociedade em si? Nenhuma transferência é dada – trata-se de um processo a ser construído. um grupo institucional. deslocamento de certa intensidade a f e t i v a . ao passo que. a dificuldade de se estabelecer a diferença entre transferência institucional e transferência (51) pessoal. lugar de monumento e. impedido de fazer diferença. Possui um sentido geral de investimento. A transferência institucional se dá com e através das pessoas. oprimido. o assunto vertia para a figura emblemática de um de seus fundadores. há a possibilidade de coexistência? Como construir uma transferência institucional tendo em vista tamanha dispersão? .Case History dutivo com diferentes pontos de vista. representativo das diferentes facções. a uma instituição. mas. além disso. No entanto. por um compromisso com a ética expressa pelo respeito ao pluralismo. o investimento se dirige ao coletivo. Como conseguir a participação efetiva de todos neste processo de análise e reforma institucional? E como conquistar a adesão dos membros psicanalistas da SPID que se colocavam fora desse processo? O trabalho empreendido pela CARI teve como efeito a sedimentação de um grupo mais permanente nas reuniões. A SPID tem como princípio a aceitação das diferenças teóricas e práticas e a troca permanente entre pares. Quando se tentava pensar a transferência institucional. Transferência Institucional O termo “transferência” não pertence exclusivamente ao vocabulário psicanalítico. neste sentido. Constatava-se.

Esse grupo institucional provocou movimento. Não havia uma tradição de ampla consulta aos membros da SPID para o desenvolvimento de suas atividades. os dirigentes e os membros e cursistas da SPID? Como alcançar um modelo democrático de tomada de decisões? Como trabalhar a Sociedade de modo a superar o autoritarismo. Pôde ser compartilhada e produzir diferença. não havendo espaço para que a instituição produzisse seu pensamento. isto é. Foi um modelo de agregação. Numa política democrática se busca aliados. provocando essa reviravolta efetiva. Como reduzir a distância entre as “autoridades”. mas não de homogeneidade. conexão. isto é. dois movimentos se evidenciaram: 1. todos os itens anteriores formavam um solo político. mais sujeito ao imaginário social. produção de vida. Embora houvesse um franco posicionamento sobre as formas políticas na instituição. A própria forma dos trabalhos da CARI se deslocou. constituído pela CARI. como estava organizado e como era exercido. Esse grupo institucional. Falou-se de uma fragmentação entre as secretarias. através do exercício de um confronto produtivo no grupo institucional. Uma ação política. não sem choques. na qualidade de grupo. onde foi construído um espaço específico para a discussão dos instrumentos de poder e de organização na SPID. Também não implicou harmonia sem conflito. Após um ano de trabalho semanal ininterrupto. este foi um assunto de trato mais difícil. Discutiu-se como o poder circulava na SPID. de ação sobre os outros. Essa história incluiu os ausentes e os presentes. expressou um exemplo de exercício democrático de poder. tanto o explícito quanto o subreptício e silencioso? Como alcançar o lugar de diálogo e troca entre (52) pares? Como conseguir que houvesse uma participação efetiva dos membros da SPID nas tomadas de decisões da vida institucional? Houve a indagação de como se dava a construção de espaços de poder.Case History Política Naturalmente. produzindo movimentos que se espalham. manifestada através . conquistando.

Foram feitas algumas propostas metodológicas. Na reforma empreendida. a fim (53) de diferenciá-lo do trabalho do grupo institucional. o caráter de assembléia fez um contraponto ao estilo habitual de hierarquia e de gabinete. fez-se oportuno um recolhimento da mesma para um trabalho mais solitário. baseado nas idéias novas surgidas frente ao estatuto e regimento que vigorava na SPID até então. para dar continuidade ao trabalho institucional a partir dessa delimitação de campos. de ruptura. Houve uma certa dificuldade para se iniciar a elaboração de propostas concretas. de elaboração? O que a análise pode? O que ela suporta? Surgiu a necessidade de se delinear o espaço específico da comissão.Case History da constituição de um grupo aberto. não excludentes entre si. representou uma resposta às críticas de exclusão e de não-participação. Havia o risco de se criar o momento do já instituído para aquilo que ainda estava se instituindo. o que demandou um certo tempo de incubação. discutidas e votadas nas Assembléias realizadas para este fim. Após o período de três anos. Finalmente. durante os quais se estimulou o debate e a participação de todos na vida societária. de palavra igualitária. visando a elaboração de propostas objetivas de reforma institucional. estabelecendo uma prática consistente pela sucessão de encontros. Neste sentido. 2. O que é um bom tempo de análise institucional? Como suportar o tempo de criação. Como atuação política. em processo. liderado pela CARI. houve uma ruptura e uma mudança na constituição da própria comissão. tais propostas foram concluídas. integrada pelos cinco membros eleitos. Depois disso. Sobre a reforma institucional. A urgência de serem elaboradas propostas objetivas que viabilizassem as mudanças efetivas. foram considerados as reivindicações e os temas mais intensamente tocados nas reuniões da CARI e na pesquisa realizada junto aos integran- . possivelmente por não estarem maduras. Aqui se discutiu a questão do manejo do tempo.

com a abolição do cargo de Secretário Geral. da participação e da transferência institucional e política. Em relação à transferência institucional. foi concebida uma nova organização capaz de atender às necessidades de uma entidade pluralista. O principal aspecto da mudança diz respeito a uma quebra no ápice da hierarquização. apesar de continuarem existindo critérios gerais. Evidentemente. Se remontarmos às questões delineadas acima. Quanto à questão da passagem. através de um Planejamento de Acesso individualizado do qual participarão os próprios candidatos em conjunto com dois membros psicanalistas da SPID. constatamos o deslocamento de ênfase da figura do membro fundador para um foco na própria vida institucional. esses. com ampla participação e menor hierarquização política. a transferência institucional está pouco a pouco sendo construída através de um compromisso ético com os princípios que regem a SPID. já na condição de membros associados.Case History tes da SPID. que participava de tudo mas não pertencia à (54) sociedade e agora temos os candidatos a membros que poderão participar de todas as reuniões com direito à voz. eles serão confrontados com o percurso singularizado de cada um. terão direito à voz e ao voto. constatamos que a reforma realizada contemplou cada uma delas. as novas re- . respeitando uma representação proporcional em relação aos membros psicanalistas. A partir do caráter societário. que têm plenos direitos de votar e ser votados. Após um percurso na SPID. A partir dessa reforma. com cinco membros coordenando os trabalhos e abertura à participação efetiva de todos os membros da SPID. agora a segunda instância de poder depois da Assembléia. os espaços de poder da SPID passaram a ser coordenados por cinco membros psicanalistas que não tem poder deliberativo algum. Eliminou-se a categoria de cursista. acerca da passagem. está pautado no modo de atuação do grupo institucional liderado pela CARI. Desse modo. O funcionamento do Conselho Gestor.

Ao mesmo tempo. Finalmente. considerando que foi a primeira vez na história da instituição que se desmontou uma estrutura hierarquizada em vigor desde sua criação. a resistência das forças que se opunham ao “já instituído”. em que apenas as linhas gerais são definidas. forças que sustentavam o dispositivo vigente e tentavam impedir o surgimento de novas formas. É preciso um trabalho constante. Desse modo. que detinha um poder centralizador.Case History gras instituídas vislumbram as mudanças efetivas como condição de possibilidade. Ressaltamos o aspecto inovador deste trabalho. tendo como figura central o Secretário Geral. há espaço para maior maleabilidade. A iniciativa de se empreender um trabalho de a n á l i s e i n s t i t u c i o n a l . onde cada um de seus participantes é co-responsável pela implementação do novo. há 50 anos. constatamos que a crise institucional havia sido gerada por uma cristalização do dispositivo de poder que impedia a maleabilidade necessária ao enfrentamento do novo.” testemunhamos um verdadeiro embate: de um lado. um exercício de cidadania no cotidiano da vida institucional. Retomando as premissas que fundamentam este trabalho. referidas à tensão permanente entre “instituinte-instituído. mas não são suficientes. . foi uma manifestação de resistência das forças. (55) possibilitando a criação de procedimentos que levaram à discussão e transformação do que se supôs ultrapassado. em uma tentativa de dominação. não podemos perder de vista a precariedade do que foi instituído pela reforma. devendo ser sempre vigilante para que esse novo não se feche a outras novidades que estão por vir. dificultando o exercício da liberdade frente ao poder constituído. urgindo por mudanças. Em se tratando de uma sociedade que tem como premissa básica uma relação paritária entre seus membros. Nessa nova estrutura da Sociedade. para que não se engesse o que deve permanecer potencialmente em movimento: a própria instituição. p o rtanto. podendo a tensão permanente entre o instituído e o instituinte ser melhor administrada.

enfim. A vida. bem como a abertura das reuniões ao corpo societário. isto é. e não a partir de uma cúpula fechada. saía dos bastidores. Todos perceberam a importância de sua participação e se sentiram (56) valorizados. Desse modo. sim. Contudo. pesquisa e ação inovadora caminharam juntas. legitimando as decisões tomadas. constatamos . mas. era. resultando em maior participação de seus membros. o movimento institucional foi reativado. nas quais se incentivava a participação de todos nos processos de decisão – foi eleito para constituir a nova estrutura que rege a SPID hoje.Case History tal estrutura. experimentada. A transparência e o incentivo à participação e à produção na vida institucional foram a mola mestra dessa reforma. Tudo foi resolvido com a aquiescência de todos. nenhuma ousou uma reviravolta tão inovadora. não foi uma solução idealizada. Um novo modo de aproximação das questões implicou a própria solução. Finalizando o testemunho desse percurso. o processo de criação da nova estrutura se deu pela ação. A descentralização do poder. Isto só foi possível graças ao envolvimento de todos nesse processo. e isso fez com que colaborassem mais efetivamente. O s u c e s s o d e s s e e m p r e e ndimento inovador se deve à inclusão de muitos nos processos de decisão. no mínimo. extinguir a figura do Secretário Geral. Nesta. o aumento da cidadania institucional – expressa pelo direito de todos à opinião e ao voto em reuniões e assembléias –. Assim. aumentou o interesse pela instituição. novos candidatos se interessaram por participar da SPID. ao mesmo tempo em que era utilizada uma metodologia para diagnosticar o perfil da instituição e seus entraves. contraditória. essa mesma metodologia serviu como modelo para a reforma a que se aspirava. O próprio modelo instituído pela CARI – em que cinco membros coordenavam as reuniões abertas ao Corpo Societário. O índice de apresentação de trabalhos aumentou significativamente. apesar de várias reformas terem sido empreendidas ao longo desses 50 anos. acarretando outras conseqüências.

professora e supervisora do Centro de Ensino. por um extenso período de tempo. “Não ao sexo rei”. p. Coordenadora da Comissão de Análise e Reforma Institucional (CARI). p. portanto. M. doutora em Psicologia Clínica. 243. p. 3 4 Foucault. Vigiar e punir. p. Pesquisa e Clínica em Psicanálise (CEPCOP) da Universidade Santa Úrsula. In: DREYFUS. 3133. Foucault. Rio de Janeiro: Forense Universitária. P. l995. São. resultado de um modelo democrático de trabalho.. no Rio de Janeiro. Angela Coutinho é membro Psicanalista da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID). coordenadora . Petrópolis: Vozes. 1993. M. Vigiar e Punir. “O Sujeito e o Poder”. “O Sujeito e o Poder”. para se chegar à tomada de decisões acerca das reformas a que a Sociedade aspira. U m a Tr a j e t ó r i a Filosófica. M. M. 1977. RABINOW. I n : M i c h e l F o u c a u l t . FOUCAULT.243/244 (Notas) 1 2 Foucault. p. In: Microfísica do Poder.241. M. Michel Foucault . In: Microfísica do Poder. M.uma trajetória filosófica. 241. 31/32 FOUCAULT. pp. Referências bibliográficas FOUCAULT. H. Rio de Janeiro: Graal. “Não ao Sexo Rei”. “O Sujeito e o Poder”. M.Case History que o estatuto e o regimento frutos da reforma institucional atualmente em vigor surgiram da participação e do trabalho de muitos membros da SPID. 244. Foucault. p. (57) .

O Prazer do Olhar

Da Mundi
Carolina Vigna-Marú “Ferro enferruja com o desuso; água parada perde sua pureza e no frio congela; da mesma forma, a inatividade também tira o vigor da mente.” Leonardo da Vinci
A genialidade do renascentista Leonardo da Vinci encontra paralelo no homem moderno, que precisa se reinventar e renascer a todo o tempo para sobreviver. Talvez a própria internet simbolize uma nova era de grandes navegações em busca de novos horizontes.

Rápida bio Leonardo nasceu ilegítimo, de mãe pobre, às três da manhã do sábado de 15 de abril de 1452. Aos cinco anos, foi largado pela mãe na casa dos avós paternos e, a partir de então, foi criado pela família paterna. Na certidão de nascimento de Leonardo consta apenas o nome do pai. Leonardo foi filho de mãe ausente. Em 1468, seu pai mostrou alguns de seus desenhos a Andrea del Verrocchio. No ano seguinte, Leonardo ingressou no atelier de Verrocchio onde aprendeu algo extremamente valioso:

andar sempre com um caderno de rascunhos para todo canto. Preciso voltar a ter esse hábito. Em janeiro de 1478, Leonardo recebe sua primeira encomenda importante: uma pintura de altar para a capela Bernhard na sede do governo em Florença, que ele não terminou. Em março de 1481, recebe outro pedido grande, dessa vez para a igreja San Donato a Scopeto, que Leonardo também não concluiu. De 1489 a 1494, Leonardo trabalha na estátua do cavalo de Francesco Sforza em Milão, encomendada por Ludovico Sforza, o mesmo mecenas que encomendou A Última Ceia, que Leonardo pintou de 1495 a 1498. Em 1500, retorna a Florença. Em 1503, pinta a Mona Lisa, retrato da esposa de Francesco del

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O Prazer do Olhar Giocondo, que nunca recebeu o quadro encomendado. De 1508 a 1512, serve ao governador francês em Milão, Charles d’Amboise. Em 1512 os franceses são expulsos de Milão e, em 1513, da Vinci vai para Roma trabalhar para Giuliano de Medici, irmão do Papa Leão X. Fidelidade política não era o seu forte. Em 1516, muda-se para a França com dois alunos seus, Francesco Melzi e Giocomo Salai, ocupando o lugar de pintor da corte. Em 23 de abril de 1519, escreve o seu testamento, deixando todos os seus manuscritos, desenhos, instrumentos e ferramentas para Melzi, e suas pinturas (inclusive a Mona Lisa) para Salai. Morre nove dias depois, aos 67 anos. Leonardo da Vinci terminou 12 pinturas e milhares de desenhos. Considero esse fato muito significativo. Os desenhos são sempre a origem do pensamento, da criação. Ninguém projeta alguma coisa sem desenhá-la antes. Leonardo foi um criador, não um arte-finalista, e isso é suficiente para defini-lo como gênio, penso eu. O desenho, justamente por ser o princí(59)

pio, mantém-se moderno e atual. As mídias mudam, as técnicas evoluem, mas um bom desenho será sempre um bom desenho. Como disse o fotógrafo Cartier-Bresson, o importante mesmo é saber desenhar bem. O Gênio Alto, louro, cabelos longos e cacheados, Leonardo cantava divinamente e tinha bom papo. Era um sujeito distraído, desatento, volúvel, cheio de caprichos e que se entediava facilmente. Leonardo era considerado um homem belo, sedutor e bem sucedido. Gozou de fama e popularidade enquanto vivo. Reza a lenda que a população de Florença aguardou durante dois dias em frente a seu atelier, na rua, só para poder ver um de seus quadros. Esse negócio de artista sofredor, pobre e que só ganha fama depois de morto surgiu mais tarde, com o Maneirismo. Leonardo foi arquiteto, des e n h i s t a , p i n t o r, m ú s i c o , engenheiro, cantor, alpinista, naturalista, inventor e mais um monte de outras coisas igualmente impressionantes. Foi ele quem inventou

O Prazer do Olhar o helicóptero , a tesoura, o carro blindado e várias máquinas de guerra. Um homem incrível, que pertenceu a dois grandes mundos: o da arte e o da ciência. A genialidade de Leonardo pode ser lida em qualquer biografia sua. O que me impressiona é a seriedade com que ele se dedicava a um determinado projeto. Não deixe o fato de ele não ter terminado muitos deles confundir você - Leonardo se cansava rapidamente, e uma vez que atingisse o conhecimento do assunto, este perdia a graça. Contudo, ele era obstinado, disciplinado e sério em seus estudos. Leonardo passou anos como interno em um hospital e dissecou mais de trinta cadáveres para aprender anatomia, coisa proibida na época. Fatos como esse são o que mais me apaixonam nele. Tenho um certo repúdio a esses pretensos profissionais de hoje em dia que fazem as coisas sem entender os porquês. Existe hoje uma grande confusão entre ferramenta e criação por causa do computador. Não basta saber usar um programa, é preciso entender os motivos de cada
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coisa. A informática é uma ferramenta ímpar, mas, sob o aspecto do embasamento, é o câncer da criatividade. Diga-me com quem Leonardo e Niccolò Machiavelli, autor de O Príncipe, foram bons amigos. Maquiavel era um conselheiro importante em Florença e provavelmente a sua influência conseguiu para Leonardo dois importantes trabalhos: uma obra para desviar as águas do Arno (impedindo que fossem até Pisa, cidade rival na época) e um mural - Batalha de Anghiari - para o Palazzo Vecchio. A Signoria (corpo governante, algo como uma prefeitura) entregou a tarefa a dois rivais, Leonardo e Michelangelo. Os dois pintaram em paredes diferentes da mesma sala as suas versões para o mural, numa espécie de competição pública. A situação se tornou um evento popular justamente pelo fato de os dois não se darem. Nenhum dos dois cumpriu o contrato. Michelangelo fez um enorme esboço da Batalha de Coscina, mas nunca a pintou, ao passo que Leonardo terminou apenas a

está cada vez mais decadente e burra. Criou para si um universo belo e rico. mal iluminada e de poucas janelas. de Michelangelo. Antes de a Mona Lisa ter sido terminada. balaustrada com pilares ligando os planos e objeto próximo à extremidade frontal do quadro). Entretanto. era pobre. O grande homem renascentista se recriou. Em poucos momentos o termo “renascentista” fez mais sentido para mim. e se não investir em cultura . pequena. mesmo que em uma sala de chat para prazeres imediatos. nos subdividimos em profissionais. mereceu o título de gênio. Rafael visitou o atelier de Leonardo e ficou tão impressionado que adotou o seu esquema de retrato (meia figura virada dois terços na direção do observador. antes ou depois dele. ninguém mais. como mandava a arquitetura campesina da época. amigos e outros inúmeros sub-rótulos de nós .O Prazer do Olhar parte central de seu mural. parentes. Por outro lado. Criamos personas. Eles competiam pelos mesmos trabalhos e por quem desenvolvia melhor uma técnica ou estilo. Este modelo de retrato perdurou por décadas. Michelangelo e Rafael se admiravam mutuamente e competiam o tempo todo. Leonardo é reconhecido por suas criações e. sem dúvida. Inventum A casa em que Leonardo nasceu e viveu seus cinco primeiros anos. poucos falam de sua maior criação. a de si mesmo. (61) oposto à sua realidade natal. A burguesia. A Renascença foi repleta de grandes rivais. de fato. que não sua. Leonardo. Briga de cachorro grande. o único desenho que Leonardo fez de uma outra obra. As pessoas precisam se reinventar o tempo todo para sobreviver. de tão injusta. Pegou a sua vivência do abandono materno e pintou a mulher mais bela e famosa do mundo. Às vezes me pergunto se o que vivemos hoje não é uma idade “remedieval”. Tempos confusos. foi o David. em Anchiano.vai ser comida viva. que nunca foi lá essas coisas. transformou a sua primeira infância ruim e de poucos carinhos em uma vida plena e cheia de admiração.a exemplo da época do mecenato . com uma sociedade quase feudal.

Precisamos reunificar as nossas vidas.O Prazer do Olhar mesmos. então. designer e diretora de arte. É o mundo sendo solucionado pela navegação mais uma vez. portanto. E é justamente este aspecto da nossa sociedade que torna Leonardo da Vinci tão necessário. Carolina Vigna-Marú é jornalista. notícias frescas d’além mar. negócios à parte”. com pedaços de si. Não somos mais pessoas inteiras.com. Os grandes centros carregam consigo a solidão da pólis e sua estratificação social. É necessário saber “separar as coisas” .“amigos. A má é que só vem com uma reestruturação profunda das relações sociais e trabalhistas. Ta l v e z a i n t e r n e t s e j a u m Leonardo contemporâneo. Precisamos nos inventar a cada instante.br (62) . e isso não é lá muito rápido nem indolor. A internet é a democratização da informação e da expressão individual e. da arte. nem se fala. A boa notícia é que depois de tudo isso vem algum tipo de renascimento. Ela nos traz novos horizontes. nos falando em zeros e uns como em um espelho de nossos tantos idiomas. Precisamos juntar arte com economia e colocar um pouco de poesia na política. www. Conviver consigo mesmo já é difícil.vignamaru. amigos.

querida o que desejas?' e ela me responde: 'Um coração de rubis. onde estão presentes os impulsos instintivos mais primários. tornar-se mais belo e mais atraente aos olhos do outro que se quer encantar? No terreno da sedução. na grande maioria dos casos. Objetos de desejo e sedução por excelência. havendo um impulso que nos leva. os humanos são os únicos animais para quem os atributos naturais não são suficientes. supera as determinações biológicas e transforma-se em uma trama sutil. inteligência e imaginação. da atração dos corpos. Apesar de nossa natureza animal. elas foram ornamentos criados por todas as culturas humanas. que nos conduz à contínua invenção e reinvenção do que somos e no que queremos nos transformar. nos seres humanos o jogo da sedução é infinitamente mais complexo. No imaginativo terreno das coisas inventadas para aumentar o poder de atrair. não daria tudo para aumentar seu poder de sedução. dos povos (63) mais primitivos aos mais civilizados. Oscar Wilde Que ser humano. as jóias são um caso à parte. cruelmente imperfeitos. que palpite!' Salvador Dali “São superficiais as pessoas que não julgam pelas aparências”. . de forma quase universal. Desde tempos imemoriais. encantar e fascinar o outro. jamais nos conformamos com a quota de beleza que a loteria genética nos brindou e que nos fez.O Prazer do Olhar Poderes Cristina Nascimento Poderes Seria o prazer o fio condutor da ética? “Pergunto sempre a Gala: 'querida o que queres. em sã consciência. a acrescentar mais poder às faculdades com que a natureza nos brindou. fruto da síntese sempre poderosa de sensualidade.

na visão extraordinária de Georges Bataille. que as transformaram em obras de arte assinadas. E. devem nos mostrar a sutil diferença entre o que custa e o que vale em um objeto. transformar a vida opaca em algo repleto de transparências e brilho. Símbolo de luxo e poder material. ilumina as regiões mais escuras de nossos seres. que diz que para os humanos nada é mais essencial que o supérfluo. as jóias devem ser. das aparências superficiais. este poder que oxigena nossos órgãos. esses “estranhos ímpares” de que fala o poema de Drummond. Além de nos enfeitar. antes de tudo. que nos livra dos entraves que vêm dos lugares-comuns e das religiões e acorda a criança que ignora o pudor e a morte. esconder quem somos. inscritas na aventura estética de nosso tempo. (64) Para quem pensa que este é o campo apenas das frivolidades. Devem ter humor para tornar a vida mais leve e mais alegre. intrigar. no mundo em que tudo está se tornando cada vez mais igual. únicas. E. como todos os humanos. o erotismo como força que se opõe ao hedonismo vazio e consumista. Devem nos levar a um mundo de descobertas. potencializa todas as faculdades humanas. podemos também nos perguntar que força mais profunda pode existir que o despertar do erotismo pela sedução. o peso das convenções. desperta nossos sentidos. raiz de todo sentimento de . que brinca e dança dentro de nós”. nesta época em que os bens intangíveis ocupam um lugar cada vez mais privilegiado. Calder. Podemos ir mais longe e pensar também que o prazer pode ser o fio condutor da ética. originais. além de lembrar a fina ironia de Oscar Wilde. que força mais profunda pode existir que “o erotismo que desafia a tirania da razão. agudiza nossa percepção do mundo. mostrar quem somos. se conseguirem traduzir o espírito contemporâneo. Cocteau –. O erotismo como a força naturalmente benéfica. de deslumbramento. as jóias. Braque.O Prazer do Olhar desafiando o talento de artesãos anônimos de todos os tempos e dos grandes criadores do século XX – Dali. elas podem nos surpreender. pois subverte as regras do interesse material e egoísta. podem também acrescentar às nossas vidas algo que vai além do precioso intangível da beleza. exclusivas. Picasso.

O ser por quem nosso coração irá para sempre palpitar. se tivermos sorte podemos ser brindados com algo mais raro que o ouro e o diamante: o encontro com nosso parceiro ideal. mais delicados de gestos. aquela de que fala Domenico De Masi em um capítulo de seu livro “Criatividade”. que alimenta nossos dias de entusiasmo. aleatória. O prazer e a alegria que são meus. A “alma musa”. na celebração do prazer e da beleza dos corpos. aquele que desperta e potencializa o melhor que existe em nós. mais delicados de alma. precária e mortal? Cristina Nascimento é empresária da área de Recursos Humanos e uma das fundadoras do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. protagonista de um jogo onde todos ganham. o ser que “excita nossa capacidade criativa através do fascínio”. (65) . E. mas que dependem do prazer e da alegria do outro.O Prazer do Olhar generosidade. E que outra força poderia melhor nos fazer superar o sentimento sempre presente da fragilidade humana. da vida efêmera. tão mais fascinante quanto mais compartilhado. que nos torna verdadeiramente mais belos. que nos faz maiores do que somos em cada momento desta vida necessariamente breve. finalmente.

Adriana Calcanhoto fechado. em que pou"O Parangolé perde.dadania pressupõe direitos e te. A humapodemos transfornidade anseia por mar o conhecimento transparência. Somente com necessidades. O conservador sempre O Movimento do Software Livre1 está impedindo o livre trânsito clama pela descentralização da da informação. Nas sociedades o conhecimento livre e acescontemporâneas. ou seja. O criação e inovação cor só conhecimento flui estiver limitada pelo E é só dançar melhor quando é desconhecimento E é só deixar a cor recriado sobre uma ou pela imposição tomar conta do ar" base anteriormente de um sistema elaborada. uma sociedade retrógrada. O que queremos indústria de software. rismo. A exprespara o nosso Brasil? Uma socie. riqueza e manejam o mesmo faz É interessante obserconhecimento? O Parangolé var que essa frase de Aposto na liberdaPamplona a gente Lavoisier vale para de.estudarem.dar um salto para o futuro. distribuírem. A cijá estabelecido em algo diferen. A idéia (66) . nada se cria: cos participam da Pamplona você tudo se transforma”.sível para todas as pessoas vimento se dá pela limitação é que teremos condições de da influência do conservado. mais apropriado às nossas deveres iguais. Uma sociedade mesmo faz entender o que se não pode crescer se Com um retângulo passa na sociedade a sua capacidade de de pano de uma da informação. modificarem e apercada na velha ordem econômica feiçoarem um software.Bits & Bites Parangolé Brasil Hernani Dimantas “Na Natureza nada se e social. copiarem.são “software livre” se refere à dade catalisada pela liberdade liberdade de os usuários execuna utilização da tecnologia ou tarem. cal. o desenvol.

ele permite o diálogo entre o ser humano e a máquina. ou seja. que é muito maior do que dinheiro. disponibilizada por outras pessoas. Entendo. acessíveis à comunidade. nos últimos séculos. O livro de Linus Torvalds intitula-se “Só por prazer”. O mais importante é que todas estas conquistas ficam disponíveis. Foi criado pela colaboração entre pessoas comuns. o GNU-Linux está na boca do povo. no copyright. desenvolver seu trabalho sobre uma base conhecida. con- . assim. Esse sistema permite que os softwares evoluam. da maneira que conhecemos. do desenvolvimento humano. Os softwares livres. mas. Pois bem. não apenas do ponto de vista tecnológico. E vice-versa. Insistir no conceito de propriedade. Isso acontece em uma velocidade impressionante. submetido ao domínio do pensamento burocrático da Era Industrial. Revolucionam a noção de trabalho para o novo milênio. adaptam e corrigem os bugs (erros). Mas Linus não é o estereótipo do que conhecemos como um boa–vida. O grande diferencial deste sistema operacional está no modo de produção. O que isso significa? Trata-se de um avanço. Podemos dizer que o GNU-Linux é um tradutor da expressão humana para a linguagem binária.Bits & Bites básica por trás deste movimento é muito simples: os programadores podem alterar o códigofonte de um programa e. Ele trabalhou muito para criar o GNU-Linux. lucros e capitalismo selvagem. principalmente o GNU-Linux. O ser humano esteve. sobretudo no campo das idéias. que priorizou a produção e o consumo de massa. Um novo sistema Mas será que um programa de computador pode ser revolucionário? O GNU-Linux é um sistema operacional. É curioso saber que todo este processo de criação foi comandado por um garoto de 20 anos e acabou envolvendo centenas de programadores espalhados pelo mundo. é não perceber a revolução digital. são soluções modernas de desenvolvimento de produtos. o sistema operacional mais aclamado nos últimos tempos. Esta nova forma de produzir e gerir o conhecimento promove um retorno à importância do (67) ser humano no jogo da vida. Pessoas melhoram.

caracterizado pelos produtos da Microsoft. Isso significa liberdade de cessão. Do mesmo modo que pesquisadores permitem a todos os demais em seus campos de estudo examinar e utilizar suas descobertas. mas . E Linus trabalhou com amor. mas sim no social. O meio digital abre espaço para a criatividade. utilização e distribuição do software. não está no aspecto técnico. é uma empresa em que o lucro se sobrepôs à paixão. seja com programas. Na programação. O amor de viver. por outro lado. desponta como o primeiro produto idealizado e concebido pela sociedade da informação. Libera a mente humana para estabelecer a diversidade. A distinção do GNU-Linux frente ao modelo comercial dominante de software. Na era da internet. (68) sobretudo. Com o GNU-Linux. O artesão volta à cena após tanto tempo de segregação. O Hyperlink subverte a hierarquia O GNU-Linux é subversivo. de trabalhar. que o prazer se confunde com o amor. Fazer da nossa existência algo mais importante. palavras ou imagens. Isto faz parte de uma nova maneira de pensar. ao contrário do que muita gente pensa. atendendo a uma inclinação vital. na qual os alunos não eram vistos como a meta dos ensinamentos. temos o mesmo modelo de desenvolvimento utilizado nas academias de Platão. Por isso é tão questionada por profissionais éticos. Isso é conhecido como ética científica. alteração. é. sua abertura. Mas a grande inovação do GNU-Linux. A Microsoft. este comportamento recebe o nome de código-fonte aberto ou open source.Bits & Bites tudo. de fazer as coisas que realmente nos importam. Buscar a satisfação nas tarefas rotineiras. Compartilhar informações e conhecimento foi o que permitiu a maioria dos grandes avanços da ciência. Trabalhar para satisfazer as necessidades vitais. pois transforma a estrutura imposta pela revolução industrial. os hackers que participam do projeto GNU-Linux permitem a todos os demais utilizar. A internet facilita essa aproximação. para serem testadas e desenvolvidas além do ponto em que se encontram. testar e desenvolver seus programas. Estamos constantemente trocando informações e recriando conceitos.

nacionalidade. Este tipo de abordagem tem aderência ao pano de fundo anárquico encontrado na rede. permitindo a qualquer pessoa. Afinal. onde as melhores cabeças do mundo estão comprometidas com este movimento e dedicam suas habilidades a disseminar uma nova forma de desenvolvimento de softwares e de trabalhar colaborativamente com o . acesso ao código-fonte do software. Naturalmente. para o bem e para o mal. e principalmente. É um conceito há muito conhecido e considerado como uma alternativa para o crescimento colaborativo. Pense em liberdade de expressão. para tarefas específicas e modificações exclusivas. Logo. as ferramentas e as atualizações. mostrando ao mundo que essa tendência não é apenas uma realidade como também. China e Coréia já estabeleceram a utilização de softwares livres na administração pública. Países como Alemanha. em um ambiente colaborativo.2 O Brasil tem a possibilidade de criar produtos e serviços com uma tecnologia disponível a todos. As pessoas não querem mais ser telespectadores. É comercializado através da venda de serviços. protagonizar sua própria existência. O trabalho voluntário criou e mantém o sistema operacional. O software livre tem custo. tirou o projeto do papel e fez com que este se tornasse re(69) alidade. o modelo aberto não é uma invenção alucinada de algum nerd finlandês.Bits & Bites como companheiros na aprendizagem. O software está cada vez mais livre Vamos. As pessoas têm a possibilidade de interagir com as comunidades na internet e. pois o capital é o grande impulsionador de nossa sociedade. Não podemos confundir software livre com filantropia ou voluntariado. buscando e construindo na comunidade digital os interesses comuns. são contratados programadores remunerados. uma alternativa à política comercial norte-americana em relação a softwares e criptografia. este simplesmente não existiria. assim. não em cerveja grátis. França. estender um pouco mais o conceito de software livre. Os mercados são conversações. agora. se ninguém ganhasse dinheiro com o software livre. sexo e raça. independentemente de sua classe social.

não existe jogo de poder. vemos atualmente o crescimento da idéia do copyleft em toda a indústria relacionada com o conhecimento. A abrangência é universal. uma vez que permite um avanço tecnológico rumo a um mundo colaborativo.4. Algumas pessoas acham que o software livre na administração pública pode ser um retrocesso. Neste mundo de códigos livres. Eu acredito que o software livre é estratégico. um brasileiro de 17 anos. do GNULinux – para citar um exemplo – está sob responsabilidade de Marcelo Tossati. A rede é função inequívoca da conversação entre pessoas. E. e os produtos são considerados um patrimônio da humanidade. O fluxo do conhecimento torna-se mais livre a cada dia. Mas a história é totalmente diferente. se levarmos em consideração os projetos de inclusão digital e suas perspectivas em relação às comunidades envolvidas. uma vez que a obrigatoriedade nos remete ao protecionismo da indústria da informática dos anos de 1970. O que é esse tal de CopyLeft? Prefiro o copyleft ao copyright. versão 2. Dizem que os brasileiros devem ser treinados com os produtos da empresa (70) líder para que o mercado de trabalho absorva estes novos profissionais. O governo brasileiro corre menos risco utilizando obrigatoriamente softwares com código aberto do que os proprietários. o jogo do saber. Existe. Falácia.Bits & Bites conhecimento. A manutenção do kernel. sim. Trata-se da maneira como o movimento do software livre enxerga a questão dos direitos autorais. em um constante ensinar e aprender. Outro argumento contrário à adoção de programas livres tem origem na padronização imposta aos mercados. Da mesma maneira que o copyright reinou durante toda a era industrial. A lógica na informática é a mesma coisa. Os programas livres não estão restritos a um desenvolvimento tecnológico nacional. Temos de encarar o fato de uma forma mais pragmática e repensar a dinâmica da remuneração. A opção pelo software livre pode e deve estabelecer contato com as inúmeras comunidades digitais que objetivam a troca de informação. Não pertence a . pode–se ir mais além: internet não tem a ver só com computadores.

teórico das relações entre o ser humano e o trabalho. Ao mesmo tempo. imagens e textos estão sendo difundidos de forma livre. estão buscando se firmar. mas pela oferta. em difundir suas idéias ou seus programas gratuitamente. a questão de como criar um esquema de remuneração para toda essa criatividade. o progresso tecnológico e o desenvolvimento organizacional. O ócio criativo une o trabalho com o estudo (conhecimento) e o lazer (jogo e diversão). É importante entender o conceito de reputação em um ambiente caótico e rico em diversidade. Vejo esta tendência se espalhar pela rede. Este conceito capacita muito mais gente a participar da vida inteligente. Domenico De Masi. apesar de terem como objetivo final a remuneração. Chegou o tempo de trabalhar sem o suor do rosto.Bits & Bites uma entidade ou a uma empresa. Qualquer pessoa pode desenvolver um projeto. . Querem ser reconhecidos por sua criatividade e pela qualidade dos seus trabalhos. em curto prazo. mais expectativas de alcançar seus sonhos. não pertence a ninguém. apregoa uma forma inteligente e construtiva de utilizar o tempo. Creio que estas pessoas. Tem gente fazendo de tudo e mandando muito bem. em uma quantidade jamais vista. Pisar em um terreno mais sólido. As pessoas estão (71) tão empolgadas em produzir livremente que não se incomodam. Não temos respostas. Na verdade. Uma verdadeira descentralização no processo de produção de conhecimento está sendo criada não pela demanda. As pessoas buscam nas comunidades um reencontro com a cidadania. A atual expectativa média de vida da população é mais do que o dobro do que no tempo dos nossos avós. Podemos organizar nosso tempo e fazer com que todos os três coincidam. anseiam por reputação. E. As pessoas têm mais possibilidades de mostrar seus trabalhos. O ócio criativo consiste em saber empregar o tempo livre. característicos da sociedade pós-industrial. Permanece em aberto. A internet é um canteiro de talentos. Músicas. mais. Temos o direito de trabalhar aproveitando o trabalho. Temos idéias. no entanto. permitem produzir mais com menos esforço.

o movimento não vai ficar restrito à arena tecnológica. Hackers não são crackers. Saber dar e receber faz parte deste jogo. A cultura hacker é sadia e autocontemplativa. O comércio eletrônico só existe porque o meio ambiente foi construído e adaptado. não há receitas (72) para garantir o desenvolvimento dos negócios. Quem manda é a torcida desuniformizada. Não se trata de negar o trabalho remunerado. A cultura hacker já invade outras praias. do software livre. Basta que analisemos os mercados e as tendências. Mas temos de admitir que nossa geração está sendo influenciada por esta cultura. Ética. 50% dos servidores de web utilizam o Apache. Por isso.Bits & Bites No futuro. Cada vez mais. Nas outras áreas do conhecimento. A qualidade do trabalho. Hackers constroem a rede. Na programação de computadores. mas de se estabelecer uma outra ordem de prioridades. a cultura hacker é mais visível. fazendo jus aos criadores dos códigos abertos. Temos de aprender a potencializar todo o conhecimento de que precisamos para viver melhor. Neste universo. O produto é intangível (estamos tratando de serviços). e 30% dos provedores. É mais importante ter reputação do que bens materiais. A internet é a obra-prima hacker. pois muita coisa está acontecendo nesses mercados. seremos todos hackers Nomes parecidos nos confundem. Não pense que os negócios vão permanecer intocáveis. a perseverança e. Vimos que este movimento não se limita à programação de computadores. o GNU-Linux. . Tal fato deve ser encarado com seriedade. A avalanche de sites é proveniente desta tecnologia. respeito e responsabilidade são as palavras de ordem. A internet é o meio lógico para alcançarmos o futuro. Não me atenho ao que a imprensa diz. Os negócios podem ser diferentes. Disseca e corta cirurgicamente as amarras da era industrial. a humanização são as características mais marcantes desta filosofia. Crackers são os piratas cibernéticos. os homens do GNU-Linux. Não podemos deixar o trem passar. a palavra hacker se cola ao seu sentido histórico. Existe um produto final. principalmente. as prerrogativas são outras. Hoje.

Eric Raymond 4 . Palavras como reputação. Então. A revolução não televisionada Mas não é nada fácil sentir esta revolução. Esses são os novos valores. o servidor web Apache 8 e a própria internet. respeito e ética fazem parte do cotidiano no espaço digital. publicando nos sites e chamando a atenção dos incautos. significa a busca de uma vida melhor para todos nós. Linus Torvalds6 e Tim Berners-Lee 7 colocam o coração à frente da razão e metem a cara nos pequenos detalhes da nossa sociedade. As pessoas estão acessando os sites e repassando o conhecimento para as listas de debates. Não só por meio de relações fortuitas. Uma realidade virtual que chega para destruir e reconstruir o nosso universo.Bits & Bites Se o mundo dos negócios está mudando. onde entra a filosofia hacker nessa mudança? Pessoas como Richard Stallman 3 . o quilombo digital 12. Estão recriando conceitos e modificando a forma de o ser humano se relacionar. quando ler em um artigo uma referência equivocada à palavra hacker. pelo estabelecimento de uma nova forma de inter-relacionamento na produção de bens e serviços. Muitas pessoas estão atuando em prol do software livre. No Brasil. com exemplos como o Linux. estamos vendo uma enxurrada de informação disponibilizada. A exemplo das músicas que trocamos. Ser hacker não significa ser bandido. o Linux-SP. bom senso. É um processo sutil e vagaroso. Essa é a grande novidade da era do conhecimento. A ética hacker invadiu o mundo dos negócios. o Rau tu10. isto não é diferente. pense no jogo de poder que envolve a nossa civilização. introduzindo uma maneira diferente de se trabalhar. mas ser revolucionário. mas. além de muitas pessoas que militam por uma so(73) ciedade mais justa a partir da democratização do acesso e da descentralização da produção tecnológica. sobretudo. Grupos de incentivo e argumentação para a utilização majoritária dos sistemas abertos é uma realidade. o GASLi11. Esther Dyson5. A promessa da internet é um novo mundo. Podemos citar o CIPSGA9. Vem tomando .

Precisamos de liberdade para extravasar a criatividade. facilitando a publicação dos pensamentos mais profundos e o acesso indiscriminado destes pensamentos a qualquer ponto da rede. Criar para a sociedade. O mundo virtual não é diferente do nosso bom e querido mundo real. Para entender esta ruptura dos paradigmas. É essa a grande novidade. Apresentam-se novas possibilidades para escolher um projeto pessoal junto com um grupo de convívio em uma abstração dos limites territoriais e temporais. Nem mesmo as grandes corporações acreditam na continuidade de um gerenciamento de cima para baixo e controlador. escancara as portas da comunicação. Uma promessa para uma humanidade capaz de reviver o amor. A internet está ensinando os usuários a se inter-relacionarem neste espaço virtual. assim. No entanto.Bits & Bites corpo. A comunidade virtual mostra a sua cara trazendo novidades tecnológicas e filosóficas. O mundo não é mais o mesmo. A colaboração reaparece como uma das formas de diminuir a fricção entre a sociedade e os anseios das pessoas. Fazer acontecer independentemente do retorno financeiro em curto prazo. a desenvolver projetos on-line e a espelhar seus sonhos no ambiente web. A metodologia de trabalho é simples e virtual. A revolução dos bits se contrapõe ao padrão da sociedade ocidental. Crianças aprendem a colaborar. Qualquer pessoa com um computador conectado à rede e com um pouco de conhecimento tem a possibilidade de participar voluntariamente de alguns . ensinando a nova geração a compartilhar conhecimento. O mundo digital já se deu conta de que é possível quebrar paradigmas. Está surgindo uma consciência inequívoca de que a construção de baixo para cima tem muito (74) para oferecer para o desenvolvimento do processo coletivo. Uma nova ordem está sendo construída. Não existe segredo. tudo muda. temos de pensar e participar. A sociedade necessita desta diversidade para sobreviver. Isto se torna verdadeiro quando detonamos a forma egoísta pela qual nos acostumamos a pensar. E. apenas boa vontade e obstinação.

org/People/Berners-Lee/] 8 Apache: servidor de web criado por Brian Behlendorf [http://www.stallman. O ser humano está se transformando.org] 5 6 Esther Dyson [www.br/] Grupo de Argumentação para o Software Livre [http://www.org] 2 A criptografia é tratada com segurança máxima nos EUA.opensource. autor de Marketing Hacker: a revolução dos mercados e colaborador em Software Livre e Inclusão Digital. Está catalisando as informações. Políticos e Filosóficos Relacionados ao Software Livre [http://www.br] 10 11 Rau Tu [http://rautu. Gritar.Bits & Bites p r o j e t o s i m p o r t a n t e s . Construir escolas. As vozes das pessoas estão cada vez mais altas. a solução está na disseminação do acesso. Na minha opinião. Atualmente.cipsga. bibliotecas e toda a infra-estrutura para a catalisação do conhecimento é muito mais caro do que prover acesso de banda larga e wi-fi 13 e promover um verdadeiro projeto de inclusão digital.br.tk] 12 Quilombo Digital – Grupo de Estudo dos Aspectos Éticos.com.org] 13 Placa que permite conexão sem fio Hernani Dimantas é coordenador do projeto w ww. Brasileiros e Brasileiras. 3 4 Richard Stallman [http://www.w3.org.quilombodigital. (75) (Notas) 1 GNU [http://www. apenas algumas chaves criptográficas mais fracas podem ser comercializadas com outros países. . até algum tempo atrás. Estamos sentindo esta mutação. criador da WEB [http://www.org.gnu. esta é a nossa chance de protagonizar a nossa história. principalmente. Mostrar a cara para a vida. p o i s a voz humana tem o poder de transpor as maiores barreiras. criador do sistema operacional Linux 7 Tim Berners-Lee. um enorme movimento de colaboração. mas.apache.gasli. Te m d e s a b e r c o n v e r s a r. Talvez esta seja a melhor oportunidade de levar informação a todos os brasileiros. presidente da Open Source Initiative [http://www.org/] 9 Comitê de Incentivo e Produção de Software GNU e Alternativo [www. assim.cipsga. E. Estamos inseridos em um momento histórico.marketinghacker.org] e Open Source Initiative [http://www. não podia ser exportada. As pessoas sabem que precisam se desvelar.org/] Eric Raymond. Acredito que. participar.com] Linus Torvalds. se revoltar.opensource. O conhecimento está fervendo na rede.edventure. podemos vencer o gargalo da educação.

ou seja. Em oupessoa utilizar não é protegida por tras palavras. Greg objetivos comerciais ou promo. a efeito. que BBC resolve de uma agência feo capital intelectual e disponibilizar ao deral. Qualquer pessoa é livre. é possível baixar. até mais vastos arquivos públicos de a série de programas da tevê de informação – noticiários. em arquivos – desde documenInfelizmente. No verão de não utilizar as imagens com passado. que Talvez nem todos eventos especiais e a permite a qualquer saibam que a NASA um alto custo. na BBC1 entre as quais algumas das mais Contudo. para Algo profundamente copiar e reproduzir o mais vasto diferente está acontecendo arquivo de imagens do mundo.Dyke. autorais sobre o que perto da realidade. mistu(76) . Os cursos de Winston Churchill. Com imagens fotográficas de promessa da era exclusivas. Com a única condição a abrir esse caminho. o Estado não cultural do mundo sepúblico um dos pode reclamar juriria acessível a todos. ela produz. anunciou a decisão de dicionais. por gitalizar e tornar acessível ao exemplo.Curta Metragem O melhor de Wired Laura Innocenti Instantâneos da mente são acessíveis Depois do exemplo Lua na rede. tantas fotos de Neil público todo o material reunido Armstrong quanto se desejar. a granum copyright.– que podem ser copiados. revistas. portanto. podemos estar próximos exclusivas e pesquisadas em toda de uma mudança – e seria a BBC a história. maiores arquivos do dicamente direitos realmente não está mundo. casos de abertura tários sobre a natureza de David e disponibilidade semelhantes Attenborough e registros de disnão são muito difundidos. exceto em da NASA. o seu diretor geral. maior sucesso nos últimos anos programas de rádio e tevê – rara. por se tratar digital.

(Notas) 1 Síntese do artigo de Danny O’Brien. mas se a BBC assumir o ônus mais pesado. A possibilidade de acessar tais bancos de dados certamente estimularia a criatividade e a fantasia de seus usuários. mas caso a BBC consiga. este modelo poderá servir para todos. já que se firmará um modelo de comportamento que pode ser imitado por muitas empresas públicas ativas no mundo. programas científicos e educativos. Graças a um sistema confusamente mesclado. Tal abordagem repercutirá bem além do Canal da Mancha. esta é realmente a inauguração de uma nova era. de modo que cedam seus trabalhos sem depois reclamar os direitos. um pequeno passo seu nessa direção representará um grande salto na difusão de informações. in Wired. Esse é um sonho ainda distante. quem quiser seguir seu exemplo vai encontrar o caminho já planificado.Curta Metragem rados e utilizados à vontade. Para uma empresa pública como a BBC. Para permitir a distribuição do material é necessário obter a autorização de quem detém os direitos. para o material já presente no arquivo a questão se apresenta bem mais complexa. seguir o exemplo da NASA. Laura Innocenti. Se para as produções futuras a BBC pode instaurar novas modalidades de relação com produtores e artistas. entrevistas com personalidades históricas. Bem realizado. no setor de mídia. "Something completely Different". Mora e trabalha em Roma. muitos dos direitos sobre o material em arquivo são atribuídos a diferentes entidades. Até o mundo da mídia se beneficiaria . . como parece intencionada. em absoluto. instaurando uma espécie de denominador comum que simplifique as relações entre as partes. e novos trabalhos tomariam impulso e ganhariam novos moldes a partir dessa inesgotável mina. tudo isto estaria disponível. com seus 81 anos de história. Não que se trate de uma medida simples e econômica. cena por cena. a BBC deverá encontrar uma nova maneira de administrar as relações comerciais. novembro de 2003. Para se sair bem desse entrave. Certamente não (77) será fácil. Documentários há muito esquecidos. o que dificulta os trâmites legais. é consultora de gestão de recursos humanos. mesmo não sendo autorizado a reproduzir o material para fins comerciais.

Depois. chegou a ser a melhor nar os principais músicos da orquestra sinfônica da América Itália. desenho de criança. Só que Nunca poderia imaginar que um meu pai tinha se casado e teve dia eu viveria só de caricatura. à primeira proposta. Foi assim saiu da Itália? que nós chegamos a em descontraída Lan: Meu pai. com meu pai no mesmo Instituto no período da guerra. onde estudou. meu pai foi indicado pelo Latina. Florença . falou com meu pai: “Olha. Minha mãe olho os desenhos que fazia nos também ficou chateada e. Toscanino foi à em determinado moEuropa em 1927 para selecio. que. Ubaldi. como cadernos infantis e digo: “Que já não se dava muito bem com a negócio horrível.O tipo de professor que botava vidou meu pai para vir para a todo mundo no anfiteatro e come(78) .entrevista exclusiva Entrevista de Lan a Ivan Bentini e Guilherme Rodrigues IB: Como o senhor O caricaturista Lan. priSão Paulo. que havia estudado quando eu tinha já 16.mento. Ficou chateado por ter um negócio desses. Lamberto Colégio Alemão de Montevidéu. meu balanço de sua Vaselli – La Debilos. América. Municipal de São Paulo e con. Hoje eu regente da história. De repente. pai foi contratado vida e nasceu para a músipela Sinfônica de carreira. conversa. a gente se não mais que de repente.” Em 1929. que eu tive Luterano Vicetti. Quando Arturo Montevidéu. faz um mogênito da família em 1931. ca. E foi assim que eu fui Instituto Luterano Vicetti de criado e educado no Uruguai. pelo contrário.” Era aquele sogra. foi no manda. porque eu perdido a oportunidade de tocar não fui um Mozart ou um enfant com Arturo Toscanini.O Prazer do Olhar Lan . 18 anos. o melhor prodige. foi contratado um professor de química que era como regente da Sinfônica do um filho da p* de marca maior. de deixar a música por imposição Nem me passava pela cabeça do sogro.

Por exemplo. a caricatura de todos os outros professores e de todos os companheiros e funcionários. Nessa época. Todo mundo vai reconhecer o que você vai fazer porque é uma sensação que praticamente todo mundo tem em relação a determinado indivíduo. graças ao movimento. o movimento do Guilherme sentado aqui. Eu. o estilo de jogo. E. uma figura maravilhosa e nosso professor de filosofia. ao mesmo tempo. o professor Kovatch. que já estava fazendo minhas caricaturas. de Montevidéu. O jornal me chamou para trabalhar na seção de esportes. Na memória fica o essencial. naquela época me chamavam de Fran1– “você não vai fazer o curso com seus companheiros. e é uma impressão subjetiva sua. eu fiz a caricatura dele bem assim.O Prazer do Olhar çava: “Me dá a fórmula de tal. Então.” Se você dizia: “Não sei”. até hoje. como todo aluno tem seu desafeto. ainda no preparatório do colégio alemão. E isso é a caricatura pura. tal e tal. zero. começaram a me pedir a caricatura de outros professores. além de ter umas orelhas de abano incríveis. ele: “Zero. o Nacional de Montevidéo. eu consegui meu primeiro trabalho no El País. zero”. desenho de memória. objetiva. e comecei a observar os jogadores de futebol.” Perguntei: “Por que de memória?” Ele disse: “Porque a memória é um circo. IB: Fantástico. Um companheiro pegou um desenho meu [de futebol] e levou pra o El País. Lan: Até hoje. Eu não preciso que o Guilherme pose para desenhá-lo assim: está na cabeça.” Eu. Você vai ter de estimular sua memória observando-os com (79) outro olhar. disse no primeiro dia de aula de desenho que cada um desenhasse o que quisesse. fiz a do Herr Heningam. eu tinha um ódio dele enorme. Vai-se registrando tudo. É a essência do que fica dentro de você com relação aos outros. E é curioso: sempre comecei pela seção de esportes em todas . Pois bem. diretor do colégio. o jeito de usar o uniforme do clube. Um dia resolvi fazer sua caricatura e pronto. O professor de desenho me disse: “Lan” – aliás. um húngaro. saiu! Você pode imaginar que. No último ano ginasial. Ele se sentava de uma forma engraçada porque era muito magro e conseguia enrolar as pernas. de memória. o que seria o pré-vestibular daqui. inclusive o movimento. eu ia ao estádio torcer pelo meu clube. Você vai fazer.

Ela era mulher do presidente do Country Club de Cantegry. Não mais com aquelas performances maravilhosas. E eu. por exemplo. o que foi difícil porque era época de provas na faculdade de arquitetura. com quase 80 anos. o clube mais grã-fino do Uruguai. señora”? Fiquei sem jeito. Eu já estava deslumbrado com o Rio de Janeiro. O meu jornal tinha feito uma tremenda reportagem sobre meu lançamento em Punta del Este e eu estava com vergonha . GR: Conte-nos como se iniciou sua carreira internacional. Aqui. O que fez o senhor se apaixonar pelo Brasil? Lan: Mulher é fundamental. IB: Era exatamente o que eu ia perguntar. se há uma constante em toda a minha vida. Não tinha ninguém. continuo na mesma. com a minha mala. e ele me contou que ela estava se “encontrando” com o diretor do meu jornal no jardim do Country. irmã do Nelson Rodrigues. Ela me pediu um desenho e. Eu. Eu. Ela disse que tudo ficaria por conta dela. acabei sendo convidado a ficar no Brasil. eu devo reconhecer que. convenci meus pais a me deixarem fazer a exposição. Cheguei às dez horas da noite no Country Club. e as cariocas foram um dos motivos fundamentais pelos quais eu fiquei no Brasil. Só penso naquilo! Até hoje. Eu aceitei. De repente. claro. só o porteiro. desde a infância. graças a Deus. Lan: Eu trabalhava no El País. inclusive a hospedagem.. mas hoje em dia. Esperei uns 15 minutos. de Montevidéu. O que ia dizer? “Buenas noches.O Prazer do Olhar as partes por onde trabalhei – no Uruguai. um ex-jogador de basquete que eu reconheci. Aliás. a única testemunha. na Argentina e no Brasil. em Punta del Este. tem o Viagra. me entrevistou. tudo muito precário. No dia seguinte fui à redação do jornal Última Hora cumprimentar amigos que tinham trabalhado comigo em Buenos Aires e a Bianca Rodrigues. jogar em 1952. aparece a mulher sendo arrastada pelo marido. fora do amparo familiar. vi Baltazar Cabecinha de Ouro. então. o convidado da senhora. e uma dondoca uruguaia resolveu ser madrinha (80) da minha primeira exposição. com meus quadrinhos. Perguntei ao porteiro o que tinha acontecido. do Corinthians. por causa dele.. que lhe deu um chute na bunda e botou-a no carro. O que fazer? Essa foi a primeira decisão que tive que tomar na minha vida. é que sou fissurado em mulheres.

nunca vou esquecer: “Y (81) esta tarde. O Dante foi embora e fiquei sozinho. Fui para o bar da boate La Fragata. todos os eventos de Punta del Este eram anunciados em alto-falantes por um carro de som. perdendo. Passou o primeiro dia. mas tinha a sala do cassino. naquela época. botei o meu blazer de alpaca inglesa. E tic tic tic. por via das dúvidas. la grande exposición del internacional caricaturista Lan. naturalmente. com cara de rico. olhando as modas. meu aniversário! Bom. quando Dante já estava na cidade.. tinha me dado um dinheirinho. Mas tudo bem.O Prazer do Olhar de voltar a Montevidéu sem ter feito a exposição. Dante escreveu um texto de divulgação porque. e ninguém dando pelota para os quadros. Chamei um táxi e fui para o melhor hotel de Punta del Este. en lo hotel Novaron. Faltavam dois dias para eu pagar o meu hotel. Já era perto da meia-noite. e eu lá esticando. pelo menos tinha um lugar onde eu podia botar os quadros. que era a boate da moda e.” Cada vez que ouvia aquilo. E eu tinha trezentos. perguntei para o gerente do hotel se lá havia algum local onde eu pudesse fazer uma exposição. senhores”. Eu subia. perdendo. A diária custava dez pesos. todo mundo jogando. meu querido amigo: “Dante. pois pagava por semana. que era só porque ele não acreditava nessas dondocas. Gim tônica é bom porque você vai misturando com a tônica e dura horas. O texto do sacana era assim. colocam um holofote em minha cara e a orquestra . Mal sabia eu que o camarada que vai jogar não dá nem pelota para o que está nas paredes. combinando com a calça. Não ganhei uma! Fiquei só com 35 pesos. jogava em chance ou perto ou colorado e perdia. pegue um ônibus amanhã e venha para Punta del Este porque você tem que me ajudar a resolver isso tudo. com uma vergonha enorme. “Façam seus jogos. aquele barulhinho de ficha tentador. Peguei um apartamento e telefonei para Dante Picarelli. vendo se tinha alguma garota interessante. À meia-noite. era dinheiro à beça. não poderia explicar o motivo. dizendo que não era pra gastar. Não existia um salão para exposição. Era o dia 18 de fevereiro. eu tinha de festejar o meu aniversário. Me emperiquitei todo.” Na manhã seguinte. Meu pai. um lenço pendurado no pescoço assim. eu afundava a cara na areia. pegava dez mangos. pedi a bebida dos tesos: gim tônica. E assim fui perdendo. só fica atento aos numerozinhos..

Daqui a dois dias tenho que pagar o hotel e estou quebrado. todo mundo indo embora de porre.. happy birthday Lanfranco. que quiseram. autor do tango Luno. não posso deixar de aceitar!” Meu pai ficou louco da vida. por dia.” E ele: “De quanto você precisa. Cuanto cobras?” Eu olhei pra cara dele e disse: “Quanto cobro? Nem sei. uma orquestra argentina de jazz: “Me gustaran mucho tus caricaturas. Depois vieram mais cinco e também todos os croupiers do cassino. me entusiasmei! Voltei para Montevidéu e falei com meus pais: “O Divito me convidou para trabalhar em sua revista. Ele então me pediu para passar em seu hotel no dia no dia seguinte e me apresentou a mais cinco mú(82) sicos da orquestra. cada um. um velho saudoso. Com isso.. Ele conhecia o famoso [José Antonio Guilhermo] Divito. Até hoje não houve nada que superasse a Rico Tipo. Acabei tomando um porre de whisky boca-livre. conheci um caricaturista argentino. uns 40 pesos!”. que você tem que estudar!” Quando cheguei a Punta Del Este. uma caricatura também. ele me disse: “Quando você for a Buenos Aires. Quando eu encontrei Divito em pessoa. mais cigarrilos. para ficar em Punta del Este?” Ao que eu digo: “Dez de hotel.. O lugar estava cheio de artistas e comecei a ser convidado de um lado e de outro. teria de ir a Buenos Aires. Lá também estava Henrique Santos De Chepra. a maior da América Latina. E meu pai me telefonando: “Volta. entre em contato comigo. almoço. um amigo de infância que mandou tocar Parabéns pra você. IB: Ficou lá por quase dois meses? Lan: É.. que me disse que se eu quisesse ganhar dinheiro como caricaturista. acabei ficando até o final de março fazendo caricaturas em Punta del Este. Cheguei mais ou menos no dia 10 de fevereiro. tem mais um Lanfranco aqui? Que coincidência. por volta das cinco horas. crooner da Santa Palo Serenade. happy birthday to you.” Com um convite daqueles.”. Acontece que o baixista da orquestra era Hélio Batezini. vem falar comigo Gozio Montana. Era o sonho de todo desenhista trabalhar nessa revista.O Prazer do Olhar – um quinteto de jazz uruguaio – começa a tocar “Happy birthday to you. Mas eu vou te contar uma coisa: meu pai me deu uma grana e eu estourei tudo no cassino.” E eu digo: “Ué. dono da revista humorística de maior sucesso que já houve na América Latina. . De madrugada.

e entrávamos de graça. E foi assim que fui me familiarizando com os jogadores argentinos da época. noivo de uma aluna sua em Montevidéu e para quem ela tinha mandado uns desenhos meus. Mendes. Chegando lá. La Gruna. para nós que vínhamos de Montevidéu. Chegava o fim de semana. Foi o primeiro balde de água fria que tomei.O Prazer do Olhar mas minha mãe e meu irmão me deram uma força muito grande e convenceram meu pai a me deixar passar seis meses em Buenos Aires para eu provar que podia me defender com a caricatura. lá voltei com os desenhos.” Você pode imaginar o meu ânimo. No dia seguinte. e meu pai me prometeu mandar uma mesadinha. embora morasse com ela em uma casa maravilhosa. . Até que meu tio disse: “Porque você não vai a um bar e fica fazendo desenhos para os clientes?” Esse foi o máximo de ajuda que eu recebi desse cara. Martin. IB: Nessa época. Nestor Rossi. Se tivesse (83) lá encontrado um montevideano. Passados três meses. crente que estava abafando. e vou à redação de Rico Tipo. Ele era irmão da dona do hotel Cottege. cheia de gente. jogo no Monumental de Nuñes. e coisa e tal. Ele não queria o dinheiro da irmã. e dessa vez me disse o Divito: “O senhor me desculpe. fui a Buenos Aires morar na casa de um tio de quem eu não gostava muito. Eu botava um guarda-pó de enfermeiro e esse meu amigo. a grande cidade. queria me conhecer. de Bariloche – uma mulher riquíssima. fui atendido por um tal de Boneli. minha mãe me escreve contando que um médico recém-formado. eu o teria abraçado. um avental de médico. secretário do Divito. Buenos Aires era. o senhor ainda fazia a faculdade de arquitetura? Lan: Exatamente. Naquela época. Assim mesmo. Nestor. No dia seguinte à minha chegada em Buenos Aires. Leposé. mas cuja esposa era maravilhosa. queria ser independente. Acabamos ficando amigos. E assim foram se passando as semanas. ele me conta. quando eu já estava pronto para retornar a Montevidéu. a Meca cultural. mas neste momento não temos espaço na revista. eu ficava fazendo as caricaturas desses jogadores. Aí. Enquanto ele estudava. cinco meses depois. pego meus desenhos. que me pediu para deixar os desenhos ali porque seu chefe estava muito ocupado. Eu pouco ficava em casa.

recebo o recado de que havia me ligado o dr.. sempre pra cima. e tirou esse prêmio de loteria. até porque estava com complexo portenho. Lan: Se há uma coisa a que eu jamais terei direito é de me queixar da vida. É saber viver e saber se adaptar a tudo. Moral da história: eu passei a trabalhar em cinco revistas e em dois jornais. em toda a minha vida. Então acertei com ele e Ardingot ficou danado da vida comigo. Porque. GR:. Aquela alegria da carioca. foram muito bem vividos. a Goles. com um salário de primeira categoria em cada um deles. que levou uns desenhos meus para Enzo Ardingot. de repente. É muito importante manter a alegria mesmo sem ter um centavo. do que trabalhar uma vez por semana para fazer uma capa. Emilio Rubio me prometeu que Evita Perón. Eu mal falava português. cedeu-me seu apartamento pertinho da Praça de Maio. numa época em que não se encontrava apartamento no centro de Buenos Aires por nada! Nunca ganhei tanta grana com imprensa. em Buenos Aires. com um bom soldo. Não bastasse esse golpe de sorte. Emilio Rubio com uma proposta para me fazer. garanto. Ou não? Lan: Diria que sim. Ardingot queria fazer as capas da revista com meus desenhos. as mulheres ajudam muito. IB: As mulheres argentinas. o adido cultural da embaixada italiana era amigo de meu pai e. Já falei que o que me prendeu aqui no Brasil foram as mulheres. como na época de Evita. Meus 80 anos.. mas o que eu ia fazer? Além disso. Você pode imaginar a maravilha que isso foi para mim! No mesmo dia. Sempre rindo. em notícias gráficas jornalísticas. temos de ser pra cima. E. então eu nunca fui de falar com mulheres na rua. dona de toda a imprensa portenha. responsável por várias publicações. El Lugar e Caras y Caretas. aos 23 anos. como El Mundo argentino.. ao chegar à casa de minha tia. um grande cronista argentino que estava inaugurando uma revista de esporte. aquela gentileza. em Buenos Aires. mais tradicionalistas. assim. como fora transferido (84) para Montevidéu. como você pode imaginar. tinha-o nomeado diretor da editoria Heines..O Prazer do Olhar feliz. coisa particular. IB: Saiu da casa do tio chato. Ele dizia que seria muito melhor que eu fosse trabalhar com ele diariamente. se você cantasse uma mulher na . de cantar. são bem diferentes das brasileiras.

”.” Olhei em volta e percebi que o ambiente de gozação não existia. E olha que época! GR: E a história da caricatura daquele general do Perón? Lan: Guilherme Carlos Cantaño. IB: E deu para fazer a caricatura assim? Lan: Às vezes desenho por espiritismo. IB: E era o governador mesmo. estava todo mundo trabalhando. Vivíamos a ditadura. eu tive um furo que – sem exagero . desci pela escada. me deram uma porcaria de fotografia 3x4.. Botei meu paletó. porque eu não trabalhava. Tremi que nem vara verde. Era gozação. com um medo que vou te contar. eu digo: “Vai praquele lugar e não me enche mais o saco. Um belo dia. e – tum! (85) – saiu.poderia ter modificado a História argentina. mas o pessoal da redação passou a me gozar: “Quer dizer que agora você é amiguinho do Guilhermo Carlos Cantaño?” Telefonavam: “Lan.” Novamente. batendo o telefone na cara do sujeito. e esperei bem em frente da porta do jornal. gozação. me dando ordens militares: “Espero você dentro de dez minutos na porta do diário. assim. eu atendo o telefone e ouço: “Aqui é o governador Carlos Cantaño. a mulher chamava um guarda e você ia em cana! IB: É um choque cultural! Lan: É muito diferente.” Então. Em Buenos Aires. entendeu? Elas telefonavam no dia seguinte e iam descansadas para o meu apartamento. dizendo que queriam o original para enviar ao governador. A história ocorreu quando eu tive de fazer a caricatura de cada um dos governadores.O Prazer do Olhar rua. Na semana seguinte. Principalmente aos sábados. Apartamento eu tinha. “Lan. todo mundo tinha de ter carro ou apartamento. não pense . Eu cheguei e ele ordenou: “Entra.. capitão de fragata e governador da Terra do Fogo. Carlos Cantaño no telefone”. Para essa do Carlos Cantaño. É preciso tomar cuidado.” Eu entrei. o governador no telefone. Eu mandei. Você pode imaginar a cara com que fui encontrar o governador. me telefonam da Governación da Terra do Fogo – cada província tem representação na capital federal –. onde encontrava minhas amigas. Em determinado momento da minha vida profissional como jornalista. Saía do jornal às dez e meia da noite e ia jantar nas cantinas lá da Boca ou La Basto com uns amigos e acabava sempre em um cabaré. Lan: Que telefona imediatamente a seguir.

Los . de que não vai falar sobre nossa conversa a ninguém. Eu tenho uma coisa para lhe falar. mas sou militar. mais do que nunca. perguntei: “Bom. Ele me convidou para a viagem inaugural do encouraçado Del Gran à Terra do Fogo. Nos encontrávamos sempre em um café entre Sarmiento e Casal. Arrambulo. seguindo o seguinte itinerário: Rio de Janeiro. Resumindo: fizemos uma amizade maravilhosa. Nova York. para poder chegar a Perón. Eu sou peronista. do que se trata?” E ele: “Antes. precisamos nos encontrar. aquele mesmo que os ingleses afundaram na Guerra das Malvinas. IB: Você soube do golpe que derrubou Perón três anos antes? Lan: Três anos antes. Então o governador diz: “Já entendi o que se passou. resolvi viajar. Sou seu muchacho e seus companheiros com certeza estão fazendo gozação. E foi assim que eu resolvi tirar férias até a saúde melhorar.O Prazer do Olhar que era uma doçura não. perto do jornal. Danusia. que tem 15 anos e toca piano para que você me diga o que acha. Estava cansado também porque não há como juntar uma boemia desvairada a sete empregos de primeira categoria. de amigo. logo após a morte de Evita. tenho de pedir licença ao ministro da Marinha para ter uma audiência com o presidente.” E então me deu o nome de cinco dos generais e almirantes que vieram a derrubar Perón em 1955. Eu estava muito cansado. Vamos para minha casa que quero apresentar-lhe a minha filha. Fiquei 15 dias com ele na Terra do Fogo.” O governador tinha orgulho da filha dele. e agora não me lembro mais. governador. aliviado: “É isso aí. Lá. pessoas sumiam do mesmo jeito que em outros países. New Orleans. está perdonado. ele me telefona e diz: “Hoje. Depois disso. quando nos encontramos. Nos despedimos e eu vi Castaño mais umas duas vezes. Rojas. Sempre que ele chegava a Buenos Aires a primeira coisa que fazia era me telefonar. E. está perdonado. “E um deles é o ministro da Marinha.” E aí. você tem de me (86) dar a sua palavra de honra. Eu não sou mais governador. Aí. Isso foi em 1952 e eu tinha o nome de todos eles.” Ao que eu retruco. em janeiro de 1952. Simplesmente porque le están moviendo el piso a Perón” – nunca vou esquecer da expressão: “estão puxando o tapete de Perón”. o que eu poderia fazer?” “Está bem. a não ser que eu peça ou o chame como testemunha.

sumido com eles. Parou aí. foi aquele deslumbramento. tinha uma ponta de cigarro que eu havia deixado cinco anos antes. um uruguaio desamparado que eu acolhera em minha casa porque não tinha onde dormir. sempre elegante. Basta dizer uma coisa: ele conservou o apartamento como um museu! Até o livro que eu estava lendo na mesinha de cabeceira estava no mesmo lugar. fazia a barba. tudo assim. Só que. Se a Última Hora publicasse os nomes dos generais que conspiravam contra Perón com três anos de antecipação. IB: E o que aconteceu com o governador amigo do senhor? (87) Lan: Nunca mais soube do Carlos Cantaño. voltei a Buenos Aires. você pode imaginar? O apartamento . O camarada da farmácia já sabia: “Sr.” IB: Completamente doido! Lan: Completamente! E quando voltei. Santiago do Chile e o retorno a Buenos Aires. ao chegar ao Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro. sabe qual era? Tomava banho. Eu mordi a língua para não contar do golpe.O Prazer do Olhar Angeles. Em 1957. Conheci-o ainda garoto. aos sábados. amigo de Perón. E eu mordendo a língua com essa história do meu amigo. Agora. citando os nomes e tudo. Eu havia deixado meu apartamento com um amigo. ele me perguntou se eu tinha em casa um armário embutido só pra ele guardar seus remédios! Era hipocondríaco e encheu o apartamento de remédio. então. nem pensar. Acabei ficando. tudo italiano e ia para a Farmácia Franco-Inglesa. cinco anos depois. Veja que preciosidade este envase aqui. chegaram uns remédios contra reumatismo. o cara mais esquisito do mundo. eu estava trabalhando no jornal de Getúlio –Última Hora –. seria um escândalo lá em Buenos Aires. nem continuou? Lan: Nem continuei. México. Se eu desse essa notícia. Ainda tive de ficar em São Paulo durante seis meses porque eles me mandaram para lá antes de me trazer ao Rio de Janeiro. Na época.” E ele dizia: “Me dá cinco. Eu sou o único da família que nunca foi à Nova York e não quero ir. o que teria acontecido? IB: Ele teria matado os generais todos. O cara era doido. Lima. IB: E seu roteiro turístico. A farra dele. Quando o senhor chegou ao Rio de Janeiro? Lan: Em 10 de setembro de 1952. Bruno. modelo italiano. sapatinho italiano. com o terrorismo.

te vira!” A quinze minutos . Nem pensar em ficar. uma coisa bem truculenta aí. o termo cartunista. O Lacerda. eu tinha um encontro marcado com uma mulata maravilhosa na Praça da Cruz Vermelha. Esse conceito pode funcionar em alguns casos. agregando mais uma palavra de origem inglesa e americana a nosso vocabulário – já temos tantas. Esta é a forma de criticá-lo. IB: Cariocaturista! Muito bom! Lan: Estou só me dedicando ao Rio de Janeiro. Mas o contínuo me diz: “Ele me disse pra pegar você no leme. Nesse mesmo dia. jornalista da noite. sim. Bom. total. que aquele sacana estava todo vestido de negro. agosto ou julho. assim-assado. mas eu discordo que possa ser um conceito geral. Eu não sou cartunista. a caricatura ou a crítica tem de ser em cima do fato que o envolve como administrador. A verdade é que morreu de infarto. que estava em guerra aberta contra o Última Hora e contra Getúlio Vargas. às oito e quinze. do jornal A Noite. Imbecil de quem inventou. IB: Já foi dito que a caricatura é a arte de destacar o grotesco e o ridículo das pessoas. Já eram oito horas. pessoa jurídica ou pessoa pública. quando o Samuel manda alguém me chamar. eu já havia tomado o elevador. resolveu algumas coisas e voltou? Lan: Rapidamente.O Prazer do Olhar estava impecável! IB: Qual o motivo de seu retorno? Passou algum tempo lá. O senhor concorda? Lan: Discordo. morreu Nestor Moreira. Eu me recuso a ser chamado de cartunista.” Aí fui voando e ouço do Samuel: “Olha. A crítica não se aplica a ele. Não quis ir. Faz um papa defunto. no velório. Não é cartum. Lan: Quando se trata de homem público. Em 1954. Eu pergunto a você uma coisa: se eu faço a caricatura da Sophia Loren – há grotesco ou ridículo para se destacar nela? IB: Que eu saiba. Ele foi levado à delegacia e levou tanta porrada que morreu. pessoa física. não me lembro bem. estou com pressa. aproveitou o lance para atacar o governo federal. Este é o meu ponto de vista. Eu o conhecia. não. Eu sou caricaturista. não? Lan: O corvo? IB: É. Lan: O corvo é uma história curiosa. até cariocaturista. no Brasil. o corvo. IB: O senhor criou a ave negra. não. até demais. Hoje em (88) dia. Esse conceito é renascentista.

porque corvo não é pássaro nacional. Fui amigo dos filhos do Lacerda. O espanhol safado era eu. IB: Ele matou a charada. E pensei: “De corvo eu lembro. Só que. O fato é que pegou. Lan: É. com o passar dos anos. acabamos muito bem.” Foi assim que surgiu o corvo. Getulistas. depois do corvo. quando volto para a redação do Última Hora. que sonhou com um corvo e telefonou para o Samuel Wein para me dar a idéia para o desenho. No mínimo. não dava pra fazer um colibri. dizendo que isso só poderia ser idéia de um espanhol safado. do Sebastião e da Cristina. (89) O Samuel escreveu no livro dele que tinha visto o Lacerda vestido de preto e que pensou num corvo. lá em Bauru. Cheguei ao encontro só com cinco minutos de atraso. Bocaiúva e Danton Coelho. Tudo bem. atribuíram o desenho ao Otávio. é pássaro europeu. o senhor é mais conhecido pelas mulatas. IB: Hoje em dia. Eu sempre gostei muito do Sérgio. estou demitido” Eu tinha visto o jornal e tinha achado o desenho uma droga. Passei uma noite esplêndida e. Mas o curioso é que quando ele se candidatou a governador da Guanabara. Dutra. eu pensei em urubu. o negócio do corvo. Fiz um desenho bem truculento. um beija-flor. sempre me dei muito bem com eles. . pela caricatura do Rio de Janeiro. No jornal Folha de São Paulo. corvo não tem mistério. Aí o Danton Coelho me abraça e diz: “Você fez um trabalho de uma profundidade psicológica incrível. Penso: “Lá vem esporro. Poucas caricaturas e charges políticas tiveram o sucesso e a transcendência que teve o corvo. que eu já tinha feito caricatura dele. presidente do PTB na época. A verdade é que. Só que o Lacerda respondeu com um discurso. a agência publicitária que estava criando sua campanha me disse que o Lacerda queria que eu criasse o símbolo positivo dele. não sei como você conseguiu isso!” E eu digo: “Santa mulata!” IB: Foi a mulata! Lan: Essa é a verdadeira história do corvo. Lembrava da cara do Lacerda. quem encontro? Samuel Wein. às dez da manhã. Todo mundo ficou querendo saber como foi criada. e por sorte a menina ainda não tinha chegado. você desencavou a alma torta daquele safado. mas não me lembrava do bicho. mas do urubu não lembrava.O Prazer do Olhar do encontro. O Mauritânio Meira.

O Prazer do Olhar Lan: Graças a Deus. mas não explicou qual era a intenção dele com a charge. luto. “quem inventou a mulata não foi o português. o senhor acha o olhar estrangeiro sobre uma cultura local benéfico ao humor? Lan: Eu acho que sim. não? Lan: Muito forte. que extrapolou. a entrar com uma caricatura ou qualquer coisa que lembre humor em um momento desses. IB: Mas por que o senhor abandonou a caricatura política? Lan: A política me dá um mau humor incrível. acha que você exagerou. maior o sucesso. IB: Eu. editor do Jornal do Brasil. é prêmio! Não é sinal de vitória. e não agressão. Ultrapassou? O leitor fica contra você e a favor da vítima. como o Aroeira e o Chico [Caruso]. O mau humor realmente aguça a criatividade.” Considerando a maestria de Caribé em retratar a nossa cultura. que dizia que quanto mais furioso eu ficava. por princípio. na qual ele retratava Bin Laden como um toureiro2. não. IB: É tragédia. da crítica. Eu concordo com o José Silveira. é prêmio por uma grande façanha. Só que eu sempre parti do princípio que crítica tem de ser crítica. Lan: Eu respeito quem faz esse tipo de charge. não achei a charge tão ofensiva. a crítica. particularmente. melhor saíam as charges. claro: “Ele está elogiando o Bin Laden! Ele matou 200 pessoas!” IB: E quem não conhece tourada não sabe desse detalhe da orelha. É o que sempre falo com os meninos. fim de papo. A charge política tem um limite. que uma tragédia dessas não comporta humor. Eu acho que o Caruso deveria ter se explicado. Eu acho. Ele se desculpou e disse que não sabia do significado da orelha. Logo. É preferível encher de preto todo o quadrado. foi o Lan. mas eu nunca fiz um negócio desses. os espanhóis inter(90) pretaram isso com o jeito deles. Lan: Como o Chico não sabia. Lan: Acontece que faltou ao Chico explicar uma coisa: quando o toureiro ganha a orelha e o rabo. IB: Houve uma polêmica bem recente com uma charge do Chico Caruso. que ficou confusa. Lan: Ele recebeu carta do embaixador da Espanha e um monte de e-mails de espanhóis. IB: Entrando em um assunto mais ameno: para Caribé. IB: E suscitou uma resposta forte. Quanto mais perto você chega desse limite. O olhar estrangeiro é um pouquinho mais .

a (91) sensibilidade para a dança. Eu tenho um episódio ilustrativo para contar a vocês. Cervejinha. por ser italiano. não se podia dizer que freqüentava escola de samba! O ano era 1953. pois é o olhar de um expectador. Paris ou qualquer parte do mundo. depois de três meses de namoro. estrangeiros. Marcamos o encontro no Clube Militar. eu estou realmente admirado com o povo brasileiro. Eu tinha ouvido samba no dia anterior e não pensava em outra coisa. Lá pelas tantas. que todo mundo fica à vontade. Foi meu primeiro encontro com um milico aqui no Brasil. quando eu disse “escola de samba”. o restaurante da moda. então disse: “General. depois de toda essa explosão de entusiasmo. Isso eu já conheço. Fazia um calor daqueles. achando que eu. Eu ontem estive em uma escola de samba. sua musicalidade. começa a cantar pra mim.” Olha. nem pensar. as coisas que existem em Buenos Aires. o que é preciso fazer? É preciso . em um domingo. um primo da menina. estava doido para ouvir música brasileira. Mas eu não podia sair com o rabo entre as pernas. estrangeiros. tinha de cantar alguma canção italiana. sobem essas favelas. chegamos aqui e procuramos as coisas negativas deste país.” Ele me esculhambou. que são as escolas de samba. Naquela época se usava terno e gravata. então eu disse: “General. e eu. suando horrores. o senhor falou que nós. Se eu procurasse o que o senhor gostaria que eu procurasse. todo mundo cruzou os braços e ficou olhando pra minha cara. O expectador pode analisar melhor atitudes e costumes. de terno e gravata. com esses negros. Mas para conhecer o povo brasileiro. ele disse: “O senhor esteve numa escola de samba? Isso é uma vergonha! Vocês. não é como hoje. o namoro já tinha se acabado. às quatro da tarde. para mim não seria novidade alguma. Chegou um momento em que eu pensei que tinha de falar alguma coisa pra agradar aquelas pessoas. Vão para as macumbas. Aí. quis me apresentar à família.O Prazer do Olhar objetivo. A essa altura do campeonato. chegam ao Brasil e logo vão procurar as coisas mais negativas que temos em nosso país. seu ritmo. Biscoitinho champanhe com guaraná. a Orquestra Sinfônica no Teatro Municipal. cantor. o samba. Eu tinha ido a uma escola de samba na véspera – estava entusiasmado com esse negócio de escola de samba – e estava namorando a filha de um general que. Naquela época.

a eterna seca. Tem mais uma coisa: os primeiros negros que aqui chegaram escravizados foram trazidos da África porque o índio era irrecuperável para a fé cristã. Lan: O Caribé é uma das coisas mais lindas que eu conheço. muitas camadas sociais brasileiras.” Dito isso. que até hoje não mudou. que tinha acabado de morrer em um acidente na Via Dutra. Hoje. Nós só não esculhambamos o Juscelino Kubitschek [em função da construção de Brasília] em consideração a Oscar Niemeyer. porque gostamos muito do Oscar. nesse aspecto. dedicada ao Chico Alves.. Em 1992. na verdade. GR: Fale um pouco sobre sua amizade com o Caribé. a eterna escola. E como este é um dos maiores temas da charge política. eu fui ficando cada vez mais indignado com a política. Grande presidente uma ova! A inflação brasileira começou com ele. os problemas (92) eram exatamente os mesmos que encontrei quando aqui cheguei: o eterno Nordeste. Esse foi um episódio inesquecível para mim porque. até mesmo como jornalista.. nada mudou. eu noto que quem acabou com o Rio de Janeiro foi o Juscelino Kubitschek. Passaram-se cinqüenta anos e eu vejo que. Eu já estava trabalhando no Última Hora paulista quando houve uma seresta muito bonita. não. Foram eles que trabalharam este país. E muita gente ainda se refere a ele como “o grande presidente”. e isso não está certo. me fez perceber a mentalidade de.O Prazer do Olhar ir justamente aos lugares que o senhor condena para se conhecer a cultura popular deste país. porque a conta dos “50 anos em cinco” estamos pagando até agora. Aonde o negro chegou é que se encontra a maior riqueza musical desses três continentes. IB: O que o senhor achava de Juscelino Kubitschek? Lan: O JK foi um grande safado. pois reflete também o desconhecimento da sensibilidade musical que há de enriquecer todas as Américas. O senhor fala dos negros com desprezo. que eu já conhecia de Buenos Aires! . a eterna roubalheira. infelizmente. Quem encontrei lá? Meu querido amigo Caribé. É isso que me interessa. Eles não trouxeram os negros para fazer turismo aqui. como eu e o Jaguar concluímos recentemente em conversa que tivemos. quando abandonei definitivamente a charge política. agradeci o biscoito champanhe e fui-me embora.

Lan: O Caribé não valia nada. A diferença de idade era uma coisa gratificante. não fui e não fui. livros em italiano. livros em gíria portenha. eu vou ser um homem realizado.” Hoje em dia. de Buenos Aires. quando é que você vem. Eu me sentiria como um adúltero (93) com o Rio de Janeiro se fosse e tivesse ficado em Salvador. Eu e Lan nos falamos diariamente.” Ou: “Quer mais? Quer três? Quer quatro? Quantas mulatas você quer? Mas venha aqui para Salvador. o editor-chefe. ele disse assim: “Venha comigo para Salvador. Cheguei a dizer isso em uma entrevista. morríamos de rir. em um restaurante. e era assim com o Caribé também. eu realmente perdi toda a vontade de ir a Salvador. dizendo: “Eu quero lhe agradecer pelo que o senhor falou a respeito do meu avô. pô?” Lan: O Pancetti me mandava recadinhos através do Paulo Medeiros. pânico de ficar. um tal de Castex. Com medo de ficar. quando faleceu Caribé.” Eu já tinha me apaixonado pelo Rio de Janeiro. Ele era um gozador incrível. e não fui. o dia em que eu for para o Rio de Janeiro 1% do que você é para Salvador. da Bahia. Eu lhe mandava livros. Lan: Era outro sempre pra cima! GR: E era de uma seriedade incrível! O brincar dele era um estado de espírito. Lan: Creio que consegui. Aí eu olhei pra cara dele e disse: “Olha. que foi um cara que passou a vida brincando. Caribé. eu conheço outras tantas. como em uma família. Eram assim: “Te espero com duas mulatas. não fui. veio uma moça e me deu um beijo. Em Crítica. GR: Eu tive o prazer de conviver com os dois. era um carola daqueles . que foi trabalhar no Jornal da Tarde. porque quando falávamos em gíria ou folclore argentino.” E não fui. Nunca vou me esquecer. Na verdade. pela promessa de voltar ao Rio. Eu tinha pânico. Contudo. eu nunca fui a Salvador. Eu resisti a todos os convites. GR: O Caribé passou a vida cobrando: “E aí. acredito ter conseguido esse feito. Realmente eu tinha um carinho muito grande por ele. e isso me dá uma grande felicidade.” A neta do Caribé veio falar comigo. e fiquei emocionado quando um dia. Quando nos encontramos. Caribé e Lan. IB: Sem dúvida.O Prazer do Olhar O Caribé era uma figura inacreditável! O Guilherme conhece mil histórias dele. até o do governador do estado.

ele botou. É baixinho e gordinho! IB: Fale-nos do baixinho e gordinho. coisas assim. Eu estava fazendo cenas cariocas. etc. uma bundinha. Era uma bundinha. Então. no meio no capinzal. eu apertei o botão para parar o elevador e lhe disse: ‘Castex. Na revista Geoplan – olha como mudaram os tempos – ele sempre fazia uma página dupla com “Piquenique no Tigre”. um clube para torcer e uma escola de samba para desfilar. Caribé era um grande desenhista. GR: Realmente. (94) IB: Em seus desenhos. Eu sou um camarada meio difícil de me emocionar com a pintura.” Esse era o Caribé. Sentia falta de um personagem de base que me servisse de ponto de partida para uma porção de coisa. o baixinho. Lan: Exatamente. Saudades dele. Fui perguntar a Caribé o que ele tinha feito pra suscitar essa suspeita. só. na praia. tremendo. Um dia chega o Castex branco. Você não vai acreditar: Caribé é gay!”. simulando um ato sexual. pálido. que quase dissesse o que sente um homem de terceira idade em relação à vida. IB: Mas por que o senhor se retratou tão baixinho. contou-me: “Não fiz nada de mais. se esta não é a realidade? Lan: Foi espontâneo. Lan: O baixinho nasceu de uma forma totalmente espontânea. o senhor sempre retrata seu alter ego. mostrando uma verdadeira fauna em diferentes atividades e momentos. nesse Piquenique no Tigre. Os meus desenhistas preferidos são o Modigliani e o Caribé. no botequim. Eu tenho muita saudade do Caribé porque realmente era uma figura que eu admirava e admiro até hoje. circo. Me chama de lado: “Que horrível! Que horrível! Já era tempo de te contar uma coisa. como no bar. GR: Nós vínhamos conversando muito antes disso sobre a preocupação do Lan com a terceira idade e a necessidade de transferir sua experiência de vida através de um personagem que seria ele próprio. Lan: Ele não é só baixinho. Estávamos subindo no elevador. me dá um besito?’ Só para ver a reação dele. então. Eu sempre falei que. enquanto houver o amor de uma mulher. Só por causa disso suspenderam a revista por três meses. “Quermesse no lago”.O Prazer do Olhar de colarinho duro que ia à missa todos os domingos. qualquer um con- . em 1995. Ele.

me chateia eu não poder me guiar mais. não pensar na morte. quando entra no metrô. então tudo bem. Dia desses. Ninguém diz que tenho 59 anos. você é que está dizendo que esse personagem sou eu. com alto astral. Os homens passam todos transparentes. é Flamengo e Portela. usei estes olhos por 58 anos em cima de um papel em branco que. o meu caso é irreversível. a minha juventude está só na cabeça. Uma vez. Eu ainda não atingi essa idade.” Eu fiquei tão pau da vida (95) que recusei. IB: Que limitações? Lan: Não adianta você se sentir jovem e pensar que nada mudou. para piorar. você não é tão baixinho assim!”. é por isso que estou estropiado. sabe aquelas gostosas assim. muita coisa! Olha. mas a verdade é que isso é o desgaste de uma vida de boemia. É um desgaste natural da idade. de saia curta? Eu fiquei olhando para ela. Eu já não consigo ler. uma moça me disse: “Mas. Afinal de contas. porque todo mundo está achando que é meu alter ego. Lan. IB: O senhor nunca teve vontade de escrever? Lan: Eu não. Vendi . eu vi uma mulher sentada em um banco amarelo. as pessoas lhe cedem um assento nos bancos amarelos. que é um horror! IB: Já pensou em se submeter a uma dessas cirurgias oftálmicas com laser? Lan: Não.. Quem lê o jornal para mim é minha mulher. logo. É provável. muita noitada. senão já seriam transparentes. sério. Aliás.O Prazer do Olhar tinua vivendo numa boa. Vocês só existem aqui porque não tem mulher alguma no recinto. Mas estou conseguindo trabalhar. E agora não posso escrever porque não enxergo muito bem nem mesmo o papel. mas como ela fazia questão que eu sentasse. reflete a luz. ao que respondi: “Bom. por isso a senhora pode continuar sentada!” Ela ficou olhando para minha cara o tempo todo e eu. hoje em dia eu tenha um olhar seletivo: só olho pra mulher.. no metrô. aí ela se levanta e diz: “O senhor pode se sentar. nem pensar! Tenho de assistir cinema dublado. Mas deve ser. Eu sou um velho paquerador. Ele gosta de mulher. na idade. Na verdade. se. muita bebida. Agora. Já fui aos melhores médicos do Brasil. Um desgaste muito grande.” A baixa estatura reflete justamente as limitações da terceira idade. naturalmente. em nada disso. eu disse: “Não faça questão. Cinema legendado.

viu? Lidar com francês não é fácil. Enquanto o Rio de Janeiro é luz. Apesar disso. Ele ganhou uma caricatura minha que havia sido feita em uma exposição no grupo Lune. Mas Paris também tem seus encantos. porque sempre fui um leitor voraz. te abraça e ainda te dá uma massagem nas costas (já reparou que o abraço carioca dá (96) direito a massagem nas costas?) –. onde não tenho problemas para dormir de portas abertas. E a verdade é que aqui estou. inclusive o próprio presidente Médici. transparência – o carioca é transparente. IB: Durante a ditadura militar no Brasil. ninguém tomava banho. mal-educado. Mas o pior é não poder ler. Mesmo assim. Já foi até homenageado no carnaval e tem uma identificação total com a cultura dessa cidade. em que. vivendo em um sítio onde não há violência. altruísmo. uma das razões de não querer ir a Salvador é não querer acrescentar mais uma saudade. em 1972. mas. O único camarada da ditadura que realmente me deixou muito bem impressionado foi Mário Andreazza. curioso: o parisiense. sujo e não toma banho. Chagas Freitas. Se o banho não era popular no verão. vou te contar. onde eu desenhei todos os ministros do governo Médici. explosão. Só que os filhos do Mário Andreazza . São outros hábitos. Mas não me queixo da vida. o parisiense é mesquinho. e por que digo isso? Porque é uma cidade que é o contrário do Rio de Janeiro. cor. governador. no inverno. Por quê? Saudade de Montevidéu? Claro! Saudade de Buenos Aires? Claro! Saudades desses anos que passei na Itália? Tenho! Não tenho saudades de Paris. enfim. tem alegria. alegria. IB: O senhor é o “gringo” mais carioca que o Rio de Janeiro conheceu. porque ficava parado por meses. Tinha épocas. o senhor sente saudade de algum dos países onde morou (Itália. Uruguai e Argentina)? Lan: Meu querido. gentileza. costumava engolir livros. fora da França. Eu não me adaptei a Paris justamente pelo espírito do parisiense. Nós tomamos banho duas a quatro vezes por dia. o senhor se exilou em Paris. imagina no inverno! É por isso que o bidê é uma instituição francesa. em Paris. volto a dizer: eu fui um afortunado.O Prazer do Olhar até o carro. Por quê o exílio? Lan: Militar não entende de caricatura. Espanha. comprou todas as caricaturas e presenteou cada um deles.

porque eu entendo bulhufas de economia e não tenho pergunta alguma a lhe fazer” “Não. mas não sei o que estou fazendo aqui. “E agora? Vou ter que almoçar com o ministro e não sei por quê. como administrador. Um belo dia chega uma carta do ministério da Fazenda me convidando para almoçar com o Delfim em uma quinta-feira. por que você critica a gente? Eu. Nós podemos sair. gostando. eu continuei fazendo as charges.O Prazer do Olhar começaram a brigar pela caricatura do pai. sobre aquilo.” E dei aquela explicação de que falei antes: “Eu não tenho nada contra o senhor como pessoa física. Lá pelas tantas. do Estado de S. todos queriam tê-la. Aí o Andreazza me chamou no ministério de aviação. não fico chateado. e fui lá no ministério. tomar um chopinho juntos. estás gostando do almoço?” “Ministro. o Delfim me pergunta: “Lan. (97) IB: Interessante. do Zero Hora de Porto Alegre. e eu calado. e me explicou: “Olha. através das críticas. faço questão que você se sente na minha frente. ir para um bar. outra coisa é agredir. o mais engraçado de todos foi o Delfim Neto: ele me telefonava todos os dias com sugestões de charges para o esculhambar. Uma coisa é criticar. Lan. editores de todas as partes. bem gordinho. Paulo.” Aí botei minha melhor beca. e começaram a bombardeá-lo com perguntas. e eu nunca soube agredir. sobre isto.” Eu digo: “Tudo bem. um filho meu a levou e o outro também quer uma. que bom!” Aí chamou todos os secretários: “Não quer repetir para eles a explicação que você me deu?” Agora. é que esta é uma entrevista audiovisual e quero que você observe que estou comendo bife na grelha com . certo? Agindo certo ou errado. pelo menos. o senhor é o ministro e a minha função no jornal é destacar isso na charge política.” Então ele me perguntou: “Me diz uma coisa. eu ganhei a sua caricatura. sem problemas. aquela dos domingos. Lan. está sujeito a críticas.” Aí começaram a chegar editores de economia do Jornal do Brasil. nunca fui de agredir ninguém. ele fazia suas reivindicações ao presidente. Lan: Depois que ele se tornou ministro da Fazenda. Lan. sobre as multinacionais. Ele me recebeu: “Lan. Sobre a Petrobrás. do Diário da Bahia. Mas o senhor.” “Ah. O desenhava bem redondinho. Sempre me dei muito bem com ele. mas gostaria de saber por quê. eu estou. Isso porque. vamos fazer outra.

Ajudou a revelar o próprio Chico Caruso. tem coleções incríveis. Esse que é o grande segredo. o Samuel Wein perguntou quem entraria em meu lugar em São Paulo? Aí eu indiquei um rapaz. que. o famoso Hermenegildo Sabbat. fui direto para a redação e falei com o Walter Fontoura: “Walter. teu amigo foi raptado lá. Fui incentivador do Chico Caruso quando ele estava começando. que ele é fera!” Aí ele me fez uma pergunta engraçada: “Lan. que mais tarde foi para Porto Alegre. o Otávio. já é popular.” E foi assim que Otávio ficou famoso lá em São Paulo.” Aí eu peguei o carro. Consegui a contratação de Menti Sabbat. faz o favor de trazer esse rapaz para o Rio de Janeiro. Depois. Primeiro você convidou o Henfil e depois o Ziraldo para dividir com você o seu espaço. eu tive o prazer de lançar o Bendati. você pode ser transferido. na época de Isabelita. Quando eu fui transferido da redação paulista para a carioca do Última Hora. funcionário do Banco do Brasil que fazia uns desenhos (98) muito bonitos. está querendo trazer o Sabbat. eu não entendo você. O caricaturista não faz caricatura de qualquer um. o Paulo Caruso. Aí o Orlando Carneiro me telefonou e disse: “Olha. foi raptado em 1975. No Última Hora e no Jornal do Brasil. pelo Banco do Brasil. vê se nas próximas caricaturas você me desenha mais magro!” Aquilo foi genial! O Bernardo Campos deve ter mandado originais de charges minhas para ele – eram umas 25 charges –.” “Então vá para lá porque você vai trabalhar para o Última Hora.O Prazer do Olhar espinafre na água e sal. Agora. IB: O senhor também é conhecido como descobridor de talentos. durante três dias. e do Chico Caruso também. A gente sempre tem que se nivelar por cima e nunca por . que eu trouxe de São Paulo. você não está entendendo nada. de uma figura desconhecida. Hoje ele está sendo homenageado por seus 20 anos de charge política. foram o Chico.” Quando camarada se torna personagem de charges. Contrata. Logo. para São Paulo?” “Posso. mas botem a fotografia do lado. O que o senhor acha dos novos caricaturistas? Algum talento surgindo? Lan: Olha. realmente eu fico muito satisfeito com essa pergunta porque realmente eu sempre quis revelar novos talentos. Ele adora caricaturas. o Ique. Perguntei a ele: “Otávio. Qual é a tua?” E eu disse: “Walter. entendeu? É como dizia Ronaldo Bôscoli: “Falem mal de mim.

mas por outro lado. se eu tivesse um filho. Eu queria comprar esse apartamento. pelo contrário! Ele é um fenômeno! IB: As suas caricaturas são o resultado da observação do cotidiano carioca? Lan: Certo. Agora trabalho aqui no sítio.. Está explicado? Então. eu sou bonzinho. eu não estava morando lá. que sou um preguiçoso de marca maior. Ele tem uma preocupação comigo que eu acho que um filho não teria. maravilhoso. E depois que parei de guiar e passei a usar táxi. eu não troquei o Rio de Janeiro por Petrópolis. Só que a famigerada Delfin comprou o prédio inteiro e me deu um prazo para sair. Um apartamento antigo. ficou muito pesado pra mim. Na verdade. Tínhamos o atelier mais bonito do Rio de Janeiro. . O nosso relacionamento é muito pai e filho.” Estou certo ou errado. Quanto melhor for o desenhista que fica ao meu lado. Lan: Aí deixei o atelier do Vidigal. IB: Sendo tão apaixonado pelo Rio de Janeiro. GR: E tem um neto emprestado. eu. três quartos em cima da João Lyra. Quando eu vou ao Rio de Janeiro. mas não gostei. por um lado. que se preocupam terrivelmente comigo: a Valéria e o Chico. Acontece que o apartamento que eu alugava no Leblon ficava onde hoje em dia é o Hotel Marina. com duas salas maravilhosas em cima da Delfim Moreira. entendeu? Ele me chama de “papi”. Aluguei um apartamento na Rua San Martin. eu tenho dois filhos.O Prazer do Olhar baixo. gostaria que fosse ele. Guilherme? GR: Está certíssimo! IB: O senhor ainda divide um atelier com o Chico Caruso? Lan: Não mais. IB: A vista de lá é linda. no Vidigal. Lan: Mas acontece uma coisa: depois que o Chico saiu. um desenhista qualquer. Eu sempre (99) digo que. fico na casa do Chico. Lan: E um neto! Um neto que não enche o saco.. por que o senhor trocou essa cidade por Petrópolis? Tem a ver com o clima? Lan: Veja bem. Eu jamais dividiria meu espaço com um pé-rapado ou com um principiante. estou muito interessado em me manter em plena atividade. De gozação talvez. IB: Ficou complicado. vou ter de me esmerar para não perder qualidade de produção. o que pra mim é uma boa. Não era só o aluguel de dois mil reais que tinha que pagar por mês para utilizar nos poucos dias em que ficava no Rio – na verdade.

. e todas eram reprovadas. quer dizer. Mas não deixei o Rio de Janeiro: eu continuo freqüentando o Rio. Quando voltei. a indústria da nudez.O Prazer do Olhar Nessa época. Lan: Mineiro é bonzinho. diariamente não dá mais para eu fazer. Nesse processo. Onze milicos! E não tinha jeito de fazer charge. Reformamos e já há 30 anos que estou aqui. E o Ziraldo é mineiro. GR: É verdade. em 1973. panfletário e tal e coisa. que era o prazo máximo para entregar o desenho. que trabalhava no Jornal dos Esportes. IB: O senhor celebra a mulher e suas curvas sensuais. essa nova preferência das mulheres brasileiras por próteses de silicone? Lan: Eu não sei. Era na munheca mesmo. Foi quando eu inventei o Caliosto. e pronto. O Nascimento Brito detestava o Ziraldo porque ele fazia mais texto que desenho. participava da reunião de editorialistas do jornal até as seis horas. Então eu convidei o Ziraldo. Seis meses depois. escolha alguém para revezar com você. Subimos a serra e Olívia achou ótimo o lugar. eu resolvi começar a procurar uma casa. Isso porque. Foi quando encontramos esta casa. vomitar ácido clorídrico. não adiantava nada. IB: Tranqüilão. Sabe como é mineiro. Às nove horas. Todo santo dia. Diniz. então. não tendo assunto. além de ser um grande entusiasta do carnaval carioca. Então. fruto do AI-5. nada disso. aí. quatro. Bom. falei com o editor: “Olha.” Eu escolhi o Henfil. Para dizer a verdade. onde meu trabalho rende muito mais. O Rio de Janeiro estava proibitivo. quando editaram o AI-5. era um drama! E naquela época não havia computador. Meu médico me alertou da gravidade e eu acabei pedindo licença médica.. eu tinha que ir ao banheiro. só que trabalho aqui. três. eu não sou muito chegado (100) . eu estava com problema sério de úlcera. tínhamos onze censores dentro do jornal verificando o que a gente publicava. duas charges. e nada de sair algum tema que eu pudesse usar. cinco.” “Bom. um personagem mal-humorado. enfiar o dedo na garganta. Como o senhor vê a sexualização do carnaval. o Henfil desistiu e ficou fazendo o Zeferino mesmo. minha saúde só piorava. Só que o Henfil era tão violento que mandava uma charge. Aqui ninguém me perturba. não tendo tema. Aí me chamavam: “La-a-an!” Eu acabava tendo que fazer a suplência do Henfil. Enchia os desenhos de texto. eu ficava na seção.

IB: Hoje em dia há uma indústria da nudez algo apelativa. na mulata.O Prazer do Olhar às mulheres siliconadas. não. Outro dia. E essa mistura. concentrou [a miscigenação]. para fazer uma obra de arte. era impossível de se equilibrar dançando samba pra valer. que eu me lembre. mas e sambando? Não. exagerada. na verdade. Estou falando especificamente da mulata. Eu também sou exigente quando a questão é samba no pé. comigo não funciona. monumental. é necessário misturar as tintas. a mim não apetece. Samba no pé é o da Dona Ivone. não. Acontece uma coisa: esteticamente é uma coisa. Recebi uma carta (101) . para a carioca em geral. Não é bom. a mulher consiga melhorar.” Não fazia meu gênero. usando uns saltos deste tamanho. Por exemplo. Pode ser que. Lan: Exato. uma cena carioca. de todas as partes do Brasil. Sou extremamente exigente nesse aspecto. O [Ivo] Pitanguy faz misérias com o corpo de uma mulher. brochei. Para se fazer uma bela pintura. Durante as décadas em que o Rio foi capital. como apelo sexual. sim. Entrou silicone. houve uma fusão. As mulatas da escola do Sargentelli. mas. como um pintor que. Não. Eu não encaro a mulata como meu querido e saudoso amigo Sargentelli. porque a miscigenação que deu mais certo em todo o Brasil é a do Rio de Janeiro. em que havia uma porção de crioulinhos limpando os carros. esteticamente. Eu faço um pouquinho de poesia quando digo que Deus fez as cinco raças para que se misturassem. Eu acho que a sensualidade da carioca não depende dessas coisas. foi tão bem sucedida que a transformou em obra-prima. isso vale para a morena. vieram várias raças. ela é triste sambando. vi uma charge que dizia que é chilique no pé. Cena tipicamente carioca. Gosto da beleza delas. Os shows deles pareciam um mercado de escravos: “Mostra a bunda. tudo que é apelação não é bom. Crítica em relação ao sentido do desenho. A Globeleza mesmo. mas sambando. Tudo que não é real. IB: O senhor já recebeu alguma crítica que tenha chamado a sua atenção? Lan: Em relação à qualidade do trabalho. não é mais samba no pé. Corpo perfeito. uma mistura privilegiada. que mostrava apenas o apelo sexual dela. E não é por isso que eu vou achar bonito. Faz uma escultura. mas. mistura as tintas. uma vez eu fiz um desenho de rua. do Jair do Cavaco.

O Prazer do Olhar de uma sociedade de proteção ao negro da Bahia, me chamando de racista, e ainda se referindo a mim como estrangeiro, de forma preconceituosa. Pô, eu sou casado com uma mulata. É a coisa mais ridícula do mundo me chamar de racista. IB: É fácil vender humor? Lan: Justiça seja feita: em matéria de desenhos de humor, a Lithos é a única editora que realmente deu importância ao trabalho de todos nós. Não só ao meu, mas ao do Ziraldo e de vários outros. GR: Desde 1975, O Lan vem fazendo gravuras de desenhos de humor. Eu acho o humor da maior importância, sempre achei. Lan: Mas sabe de uma coisa? O humor, o bom humor, nunca teve lugar no mercado de artes plásticas. Eu pergunto: quanto deve valer no mercado um original de J. Carlos se os marchands, os donos de galerias, os críticos de arte realmente vissem a importância que tem a caricatura? Eu sempre digo uma coisa: a caricatura é a mais inteligente das expressões artísticas: da pintura, do desenho, do que for. É a mais inteligente porque não se admite um chargista, um caricaturista burro. Para vencer, o cartunista, no mínimo, tem de ser inteligente. Um pintor pode ser valorizado até se for analfabeto, sem preconceitos, sobretudo se fizer uma pintura primitiva, como em uma moda de muitos anos atrás, em que os críticos de arte encontravam nesses trabalhos a pureza da cor, achavam uma beleza a cor assim, e essas pinturas custavam horrores. Na verdade, a caricatura, como expressão de arte gráfica, é a única destinada a viver enquanto houver dois homens na Terra, porque sempre vai ter um querendo caçoar do outro. E como vai existir sempre esse negócio do sacana, sempre existirá a figura do caricaturista. A caricatura persistirá.
(Notas) 1 Lan foi batizado Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortelini Rossi Rossini. 2 A charge – publicada em março de 2004, no Jornal O Globo, um dia após o atentado terrorista a estações de trem em Madri – mostrava Bin Laden vestido como toureiro, investindo contra um touro com o planisfério desenhado sobre o corpo, no qual se encontravam cravadas as Torres Gêmeas.

Lan é caricaturista do jornal O Globo. Ivan Bentini é editor da NEXT Brasil. Guilherme Rodrigues é diretor geral da Lithos Edições de Arte, responsável pela edição das gravuras do cartunista Lan.

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Monografia

As numerosas faces da desorientação
Giusi Miccoli Em busca de novos paradigmas do O que nos orientação business. desorienta? Em Nunca, como nos As mudanças pratique consiste a últimos tempos, as cadas são explicadesorientação nossas convicções das com o declínio na economia, tornaram-se tão fradas três dimensões na política, na cas e inconsistentes. com as quais estásociedade, nas Perdemos a bússola vamos acostumados organizações? como indivíduos e a medir o universo como cidadãos. – espaço, tempo e É fácil olhar as outras culturas massa –, que cederam lugar a e os outros povos utilizando as três novas forças: velocidade, nossas maneiras de analisar e interconexão e imaterialidade. compreender. Com freqüência Estas três forças nos obrigam a esquecemos que vivemos em rever nossos modos de perceum país rico e que compar- ber, analisar e organizar a nós tilhamos o bem-estar com os mesmos e os sistemas sociais. outros países industrializados. A complexidade, longe de ser Mas agindo assim, excluímos um obstáculo para a inovação, o resto do mundo. Nos últimos oferece contínuos e múltiplos anos, as nossas análises da eco- inputs, que representam uma nomia, da política e da socieda- fonte inesgotável de novas de concentraram-se sobretudo idéias. na compreensão, explicação e Enfim, a incerteza é consideraantecipação do mundo ociden- da um elemento de certa forma tal e do sistema capitalista. Os governável. Em suma, sentimotemas de mudança, de comple- nos infalíveis. xidade e de incerteza foram en- Os economistas buscam uma frentados buscando o caminho solução de equilíbrio com exdo (nosso!) futuro, em termos de pectativas racionais.
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Monografia Os estudiosos de organização procuram analisar uma estrutura no mundo aparentemente desorganizado. E dão uma importância sempre crescente ao human talent e ao human capital, ainda que a valorização dos recursos seja teorizada, e não praticada. Tornamo-nos cada vez mais conscientes da falta de credibilidade das promessas da Idade Moderna. No plano mundial, aumentam tanto a concentração da riqueza quanto a difusão da pobreza. As desigualdades sociais e econômicas crescem, alimentando a conflituosidade. Desencadeiam-se pequenas e grandes guerras. Diminui-se a confiança num mundo onde não é fácil viver. Touraine, num ensaio recente, penetra no calor do debate, saindo em busca dos possíveis caminhos para enfrentar os problemas e resolvê-los. Em Touraine há uma confiança na possibilidade de certa concepção, diferente da convivência civil e da sociedade pós-industrial (que ele denomina “programada”). Mas na falta de critérios válidos para entender aquilo que muda e como, cada vez com maior freqüência nos perguntamos: o que é este estado de coisas no qual nos encontramos? O que nos desorienta? Em que consiste a desorientação na economia, na política, na sociedade, nas organizações? Quais são as conseqüências negativas e quais as positivas? Entrevêem-se novos paradigmas e novas experiências com os quais se possa superar essa desorientação? Será oportuno e possível criar novos pontos de referência e novos fatores de convicção? Quais? A quem cabe essa tarefa? Foi por essa razão que S3.Studium dedicou todo o Seminário de Verão 2002 à desorientação. O método e as questões Há 17 anos o S3.Studium organiza o Seminário de Verão em Ravello, segundo uma fórmula bem aprovada, que consiste em cinco sessões nas quais intervêm especialistas de alto nível, italianos e estrangeiros, escolhidos entre os maiores estudiosos das matérias tratadas. O seminário destina-se a empresários, empreendedores, membros do Club S3, aos estudiosos de ciências organizadoras e a

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Monografia todos aqueles que pretendem enriquecer a própria cultura empresarial com temas capazes de ampliá-la em direção à criatividade. Antonio Calabrò). que nos ajuda a recuperar – ao menos em parte – a nossa capacidade de nos orientar. Wa s h i n g t o n O l i v e t t o ) .Studium Italia. No primeiro número da Next Brasil. antecipamos o tema com a reflexão de Cristovam Buarque. Paolo Branca). rico de estímulos. Longo. Nas cinco sessões foi ana lisada a desorientação na Organização (Pasquale Gagliardi. instituição privada de ensino. Giusi Miccoli é coordenadora acadêmica do S3. Massimo Cacciari). na Política (Cristovam Buarque. Chris Meyer). pesquisa e consultoria em Ciências Organizacionais sediada em Roma. Nesta monografia propomos os outros dez relatórios que traçam um mapa entrecortado. na Estética (Fulvio Carmagnola. n a Economia (Persio Arida. na Cultura ( G i u s e p pe O. (105) .

movidos por interesses por racionalidade instrumental que Habermas definiu como – desenvolveram e continuam emancipadores.organizações como instrumenmental na construção da ordem tos de domínio e consideram social das sociedades ociden. perdem criar novos pontos de organização pode a capacidade de certeza organizativa. organizações exista estima mais que o uma “desorientação”. concebem as a desenvolver um papel funda. fato de possuir uma Essa premissa é compartilhada. Esses estugovernadas tendencialmente diosos.estudiosos.depreciável a identificação tais evoluídas.Monografia A supremacia das profissões Pasquale Gagliardi Novos fatores identidade organiEnquanto as de certeza zativa assumiu uma organizações organizativa importância crucial vão aos poucos O XVII Seminário na definição da deixando de ser de Verão de Ravello identidade social gaiolas de ferro nos convida a refletir e da imagem de si: para se tornarem sobre a oportunidade o fato de pertenconjuntos fluidos e e a possibilidade de cer à determinada precários. a sem identidades sociais legíti(106) . a meu ver. agregação social. Para esses linear que parecia irreprimí. O alarmismo crescente dos exAs organizações – entendidas poentes da chamada sociologia como formas utilitaristas de crítica constitui. Naquelas sociedades. voltadas para uma comprovação da difusão o alcance de fins específicos e desse fenômeno. particular competência. influenciar o prestíorientar a ação prevendo que nas gio social e a autoindividual e social. ainda que com certa cautela. ainda que se dos dependentes com os obtenham criado algumas fendas jetivos das organizações pelas relevantes numa tendência quais trabalham. é como se existisvel.

desejos e propósitos coletivos na ação social e as organizações substituem progressivamente ou contaminam formas comunitárias de agregação (naturais. os motivos daquelas fendas cada vez mais perceptíveis e discutir sobre novos fatores de certeza. autênticas bússolas para a pesquisa do sentido (de si mesmos e do mundo no qual se encontram catapultados milhões de indivíduos). A gaiola de ferro Não há dúvida de que os sistemas de cooperação inspirados em critérios de racionalidade instrumental caracterizem de modo inconfundível a paisagem social da modernidade. na escola. como dissemos. legalidade e certeza. teria gradualmente substituído outros modelos de administração graças à sua intrínseca superioridade técnica. comunidades utópicas se esforçam para traduzir visões idealistas em planos e objetivos operativos. a sociedade delega a tarefa de traduzir valores.Monografia mas (as quais se adquirem na família. é que poderemos entender as razões da desorientação. na comunidade ocupacional ou de vida) e condições. e a ordem (107) . A esses sistemas. espontâneas ou moldadas pela tradição): as igrejas não contam mais somente com a Providência ou com a generosidade espontânea dos fiéis para angariar subsídios. que se desejaria fossem sempre o objeto de uma escolha consciente e instrumental de um sujeito que não insere aquela condição entre os fundamentos do si. as associações de voluntariado recrutam profissionais. fundamentado em princípios de racionalidade instrumental. parece realizar-se por completo a previsão de Max Weber. Em vez disso. como a laboral. Por quê? Somente se refletirmos sobre as razões pelas quais as organizações foram – e continuam a ser – fatores de certeza. Sob esse ponto de vista. prioritariamente. um clube esportivo respeitável – até diletantista – não pode deixar de ter um empresário. de que o modelo de administração burocrático. com muita freqüência a identidade organizativa desempenha papel essencial na construção do conjunto da identidade pessoal: a organização para a qual você trabalha pode contar quanto e falar mais sobre o trabalho que você faz. mas adotam técnicas de marketing.

e é a diminuição dessas características que – por reduzir a identificação com terrenos de cultura – reduz indiretamente sua força orientadora. Por outro lado. 3) possui limites definidos (em sentido literal ou metafórico: sabe-se quem está dentro e quem está fora da organização) e. dentro do qual adensam-se as interações entre os membros da organização. no significado literal e metafórico da expressão). fundamentado em relações unívocas de supremacia e subordinação. atribuindo a uniformidade local das condutas à adoção de paradigmas culturais idiossincráticos. a teoria da gaiola de ferro foi objeto de revisões críticas por parte de pelo menos duas correntes de pensamento. nem o enjaulamento. Características e desfiamento Quais são as características fundamentais – sob esse ponto de vista – do tipo ideal burocrático? A organização clássica é: 1) um sistema inevitavelmente hierárquico. As organizações orientam a vida individual e social – e condicionam sua qualidade – não em virtude da lógica universal da racionalidade.Monografia da racionalização teria aprisionado a humanidade numa “gaiola de ferro”. isto é. não negaram nem a homologação das estruturas. em seu célebre ensaio fundativo do neo-institucionalismo organizativo. mas por dinâmicas culturais locais. mas atribuíram ambos os efeitos – em vez de à adoção universal da ordem da racionalização – à tendência das organizações de adotar cerimonialmente formas organizativas que encarnem mitos coletivos. Porém. os fundadores da chamada antropologia organizativa não negaram o efeito de enjaulamento mas contestaram a homologação cultural. Esta é a tese que vou sustentar. existem algumas características essenciais do tipo ideal burocrático que tornam as organizações particularmente adequadas à classificação culture bearing milieux (“terrenos de cultura”. Como se sabe. portanto. apagando as diferenças culturais e produzindo aquilo que o autor definia como “o desencantamento do mundo”. Em primeiro lugar. das condutas individuais. 2) esse sistema opera num território circunscritível. Powel e Di Maggio. é “individualizá- (108) .

não eram postos em discussão três princípios de fundo: 1) A empresa permanece a unidade-chave da ação econômica. Contudo. na forma N(etwork) os limites não são mais barreiras. inovação/rotina. 5) sobretudo. a delegação e a gestão para objetivos superam a dicotomia decisão-execução e problematizam a relação centro/periferia. estratégia/operações). centro e periferia descrevem espacialmente o sistema mas refletem ao mesmo tempo critérios de divisão das tarefas baseadas tendencialmente em dicotomias (projeção/ execução. a chamada empresa virtual – uma empresa totalmente real. alternativo ao mercado. Uma rápida resenha dos principais modelos organizativos que se afirmaram no decorrer do tempo permite identificar os principais desdobramentos que eles introduziram na “gaiola de ferro”. que simplesmente explode o potencial comunicativo e interativo das novas tecnologias informáticas – tira da interação cara-a-cara o tradicional primado. 4) conceitos como alto (nível) e baixo (nível). a organização matriz multiplica as dependências. (109) . é sempre a hierarquia que marca as organizações como mecanismo de governo das transições. responsável (também quando adota a forma N: não por acaso os estudiosos do network falam de dupla rede – externa/interna – e de unidades de limite). a organização clássica deve sua força à estabilização dos processos e à impessoalidade dos papéis (as pessoas passam. porque é um sujeito distinguível do contexto e. A organização staff-line rompe com rapidez o princípio de autoridade e introduz a dimensão ambígua da respeitabilidade. mas membranas que conectam suavemente a empresa focal a um sistema operativo mais vasto. desvinculando a organização do território. 2) as organizações formais permanecem intrinsecamente hierárquicas: porquanto moderada por mecanismos de participação que visam criar democracias. conseqüentemente. a organização divisional. a organização permanece).Monografia vel” dentro do contexto no qual está situado. as pertinências e os critérios de avaliação da ação. e essa visão constitui uma premissa e uma promessa de imortalidade. até tempos relativamente recentes.

na possibilidade de sobreviver aos indivíduos que as compõem. porque favorecem o desenvolvimento do processo que Selznick definiu como institucionalização. combinada com os contínuos processos de redefinição dos setores e segmentação dos mercados na escala regional e global. Esses processos são mais evidentes em setores como a microeletrônica.Monografia 3) as organizações são feitas para durar: sua eficiência está na capacidade de estabilizar e otimizar rotinas. A estabilização das rotinas permite e exige a definição de sistemas de significado aceitos como premissas e condições da ação coletiva. a promessa de imortalidade favorece a idealização da tarefa – que de task torna-se mission – e torna desejável a identificação possível. e seu fascínio. também esses três princípios de fundo. em consentir a flexibilidade e a rapidez de ação que o dinamismo dos contextos exige. que pareciam imutáveis. Pois bem. Esses três princípios. idôneas. para sublinhar o (110) . a individualidade da empresa torna-a um possível objeto de identificação emotiva. heterarquias. mas referem-se tendencialmente a todas as empresas que operam em ambientes caracterizados pela elevada incerteza e volatilidade dos mercados. a distribuição desigual do controle dos recursos acelera os processos intersubjetivos de tais sistemas de sentido. mais que os outros (que logo foram corroídos pelas ondas da reestruturação organizativa que se sucederam num ritmo cada vez mais acelerado na segunda metade do século XX) concorrem – com modalidades e por várias razões – para fazer das organizações excelentes terrenos de cultura. a comunicação digital. A máquina organizativa projetada racionalmente perde progressivamente a sua pureza: nenhum processo produtivo permanece exclusivamente tal. são hoje contraditos – de várias maneiras – pelas formas organizativas que as empresas tendem a adotar para enfrentar as extraordinárias incertezas derivadas da rapidíssima taxa de inovação das tecnologias. um processo simbólico. com o tempo. Alguns estudiosos de organização definiram essas formas emergentes. um modo de manifestar a própria visão do mundo. as biotecnologias. mas tornase.

Monografia principal traço distintivo: a minimização da hierarquia como mecanismo de governo das transações. A heterarquia A heterarquia – que de certo modo pode ser vista como evolução ou versão radical da forma N(etwork) – exprime uma lógica organizadora nova, que não a do mercado nem a da hierarquia. Lá onde o mercado implica com relações de independência e a hierarquia de dependência, a heterarquia implica com relações horizontais de interdependência. Nessas formas, a inovação é descentralizada e se refere virtualmente a qualquer unidade organizativa; cai a distinção entre quem produz um novo conhecimento e quem usufrui do conhecimento existente; a inteligência é distribuída e a tarefa de explorar (novos mercados, novos produtos, novas combinações produtivas) não é mais tributo de funções especializadas, mas é difundida em toda a organização; os recursos são constantemente recombinados e empregados numa pluralidade de escopos diferentes. Esses desenvolvimentos aumentam a interdependência entre as unidades e os grupos de trabalho, mas a interdependência não é administrada hierarquicamente através de mecanismos convencionais de coordenação, seja pela complexidade das relações, seja porque as tecnologias informáticas permitem conectar todas as unidades envolvidas na rede sem a mediação de controles centralizados: em medida crescente, portanto, não se refere (reporta, responde) a um superior, e sim a um outro grupo, numa condição de dependência mútua e circular. Tudo isto nada tem a ver com a idéia – muito em voga há alguns anos – dos mercados internos, na qual cada unidade considera uma outra unidade como um cliente. A heterarquia, de fato, rejeita a idéia de que o limite da empresa e os limites das unidades que a compõem sejam definíveis com base em parâmetros dados: a empresa reinventa-se constantemente e a tarefa do management é a de criar os espaços e as condições organizativas dessa contínua reinvenção. A possibilidade de contar com as capacidades criativas dos clientes e fornecedores é dramaticamente aumentada pelas tecnologias digitais:

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Monografia os clientes podem tornar-se fornecedores e, em alguns casos (como nas comunidades online), gerar eles mesmos o produto, tornando impossível identificar e separar o que está dentro e o que está fora da organização: a inteligência é distribuída não só dentro do conjunto aproximativamente identificável – segundo os critérios tradicionais – com a empresa, mas através daqueles que estávamos acostumados a considerar como os limites da empresa. A autoridade distribuída não implica apenas que as diferentes unidades devam prestar contas uma à outra, mas também que possam coexistir no mesmo espaço social critérios de legitimação e avaliação das múltiplas prestações, às vezes contraditórios, porque refletem diferentes formas de justificação. Para sublinhar essas características de heterogeneidade, dinamismo e ambigüidade das novas formas e o caráter recursivo dos processos que as estruturam, utilizam-se – como sempre ocorreu na história da organização – imagens e metáforas extraídas de experiências cotidianas: fala-se de moebius strip organizations (aludindo a objetos que produzem um efeito ótico que impede distinguir o interior e o exterior), de bricolage (uma modalidade de resolução dos problemas que não recorre a teorias anteriores mas baseia-se nos meios disponíveis no momento, reutilizando criativamente “avanços” de rotina, procedimentos e sistemas organizativos), de collage, de plataformas, em vez de formas organizativas (para indicar que existe um conjunto de recursos humanos, processuais e tecnológicos reconfiguráveis de acordo com as circunstâncias), e por aí afora. A organização por projetos Se a heterarquia – como versão radical da forma N (Network) – renega a hierarquia e confunde os limites, ela não renuncia ao princípio da persistência e à ilusão da imortalidade, mas os reforça: se a empresa pode sobreviver aos indivíduos, a rede pode sobreviver a cada empresa. Conforme foi observado particularmente por quem estudou formas heterárquicas na Ásia Oriental, as empresas vão e vêm, nascem e morrem, enquanto a rede permanece. Mas o princípio da persistência é, por definição, negado por uma

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Monografia outra importante forma organizativa emergente: a organização por projeto, que nasce como empresa coletiva e temporária, destinada a morrer. Ao caráter episódico do projeto deve-se a sua força e a sua fraqueza. Na organização por projeto, a criatividade não é vinculada pela tradição e a ausência de um futuro a ser preparado permite e obriga a concentrar as energias no presente, mas é preciso inventar de vez em quando as condições da participação (da motivação, identificação e coesão dos membros) e desenvolver uma reflexividade pragmática, adaptando-se aos eventos e aprendendo pela experiência (presente, porque não existe passado), sobretudo quando o projeto nasce para enfrentar uma emergência. Essa ocorrência, observe-se, é cada vez mais freqüente. Existe hoje uma crescente interdependência entre fenômenos naturais, categorias sociais e programas de ação que a tecnologia permite delegar a sujeitos não-humanos ou a híbridos homem-máquina: isto aumenta a complexidade e, portanto, a vulnerabilidade e o risco de colapso dos sistemas sociotécnicos. Por este motivo, o estudo das catástrofes e da administração das emergências tornou-se um dos territórios mais promissores da pesquisa empírica e da reflexão teórica nas organizações: aquelas situações representam, de fato, versões extremas de eventos e processos que, do ponto de vista conceitual, não são diferentes daqueles que muitas empresas enfrentam ou ativam diariamente. A renascente supremacia das profissões Que se trate de heterarquias ou de projetos, essas novas entidades econômicas colocam novos problemas, que não atendem apenas à racionalidade instrumental dos modelos – logo não se referem somente aos estudiosos de organização –, mas possuem implicações sociais, políticas e jurídicas importantes. Basta pensar na necessidade de conciliar flexibilidade e responsabilidade: se a nova unidade de ação não é nem o indivíduo nem a empresa – entendida como sujeito dotado de personalidade jurídica – mas o conjunto fluido e precário que descrevemos, onde se situa a responsabilidade? Quem e como deve prestar contas, a

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os project managers tendem a identificar-se mais com a profissão do que com a empresa para a qual preparam e administram as organizações temporárias pelas quais são responsáveis.Monografia quem. alguns participam das atividades das associações profissionais. e segundo quais critérios? É possível. a chance mais comum de encontro são os programas de formação destinados à categoria profissional por institutos especializados. Ou seja. a comunidade profissional é um grupo de referência ideal ao qual sente-se pertencer. Essa tendência já se manifestou em toda a sua evidência na área do project management. tornar distinguível e responsável uma heterarquia? Mas retornemos ao nosso tema: a desorientação. que se tornaram possíveis pelas tecnologias de rede. Mesmo quando essa prática é desenvolvida no âmago de grandes organizações. O aspecto paradoxal é que definimos como comunidades reais aquelas que. se são formalmente constituídas. exigem as certificações do Project Management Institute (a instituição internacional que codifica e rege as normas técnicas e deontológicas da profissão) e geralmente pagam a própria formação profissional. graças à rede. quem nos ajudará a construir (para usar uma eficaz expressão de Di Chiara) as couraças – emaranhadas porém indispensáveis – com as quais podemos nos defender de nossa ignorância do mundo? Minha opinião é que a ênfase retornará para as profissões e o pêndulo apontará uma renascente supremacia das comunidades ocupacionais sobre as comunidades organizativas. mas para a maioria dos membros o sentimento de pertença não é sustentado por interações sociais de intensidade comparável àquela das interações que se estabelecem entre os membros de uma comunidade organizativa. Lêem-se as mesmas revistas. tradicionalmente. tornam-se finalmente reais. (114) . e como. Se estes conjuntos fluidos e precários não permitem a construção de sistemas estáveis de sentido. a rede oferece finalmente um contexto que multiplica as ocasiões de comunicação. Hoje. Um outro sintoma da renascente supremacia das profissões é o espantoso desenvolvimento das comunidades profissionais virtuais.

de intercâmbio entre pessoas que exercem a mesma profissão em diversas organizações. é finalmente possível) que a pertença a uma comunidade ocupacional e a propensão para compartilhar os seus códigos técnicos e éticos prevaleça sobre a pertença a uma organização e a propensão para idealizar o papel e os objetivos.Monografia de confronto. Gostaria de concluir – como tinha iniciado – com uma cautela. Mas nunca terá terminado de nos surpreender a capacidade da história de desmentir as nossas previsões sobre o futuro. não podemos resistir à tentação de imaginar isto. professor de Sociologia da Organização na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Católica de Milão e Secretário Geral da Associação Giorgio Cini. (115) . e é mais provável (ou. Pasquale Gagliardi é administrador delegado do Istud. Falamos de formas organizativas emergentes e de erosão marginal de instituições que possuem raízes antigas e solidamente ramificadas. Contudo. talvez.

biologia e business Chris Meyer A information techCada uma das três As tecnologias nology. o universo e para um posterior alongamen. Cercados por da biologia ou que possuem uma objetos. hoje plena saúde. a tecnologia forças citadas será da informática molecular e o maum desafio e mufazem referência nagement evolutivo dará profundamente aos mesmos time based são hoje nosso modo de penmodelos cognitivos três forças enormes sar.biológico. moléculas das ciências existência autônoma e negócios. to da vida média humana em A exemplo de Newton. chegar à lua. Permanece certeza de como elas evolução é um prino problema interagem entre si e cípio universal que de construir em nosso cotidiano. que ness e para a sociedade inteira. asCertamente essa temsim como aconteceu empreendimentos pestade de mudanças com o princípio da adaptáveis. checriando o maior sas vidas.ção para o desenvolvimento de neficiamos de uma nova onda armamentos e mísseis para se de inovações technology driver. os cientistas codificam as leis (116) . vai produzir aquela gravidade. gravidade pela queda de uma mas criará também grandes maçã e foi inspirado a criar mooportunidades para cada busi. influencia tudo. Temos todas as potencialidades captamos a evolução a partir para um longo boom econômico de um só momento. Newton que Schumpeter denominou compreendeu o princípio da gales of creative destruction. e influenciam nosem viva ação. gamos aos poucos blur de todos os ainda não se tem a entender que a tempos. Paralelamente.delos matemáticos e físicos. Contudo. permitiram em seguida a evolugraças ao fato de que já nos be. todos empresariais.Monografia O blur dos blur1: a convergência entre informação.

o return on time ainda não susbstituiu o return on equity como medida fundamental de business. mas a surpresa contínua. Já hoje. Em suma. Em particular. a Information Technology. No final. Contudo. compreendemos que o tempo é um recurso muito mais escasso do capital financeiro. porque essas hoje já saíram dos laboratórios como tecnologias e ofertas comerciais e estão mudando radicalmente os modelos econômicos submissos a todas as nossas atividades.Monografia da evolução. não apenas a observam. adaptando-as aos respectivos ambientes. o fator tempo e a implementação da mudança tinham se tornado o imperativo dominante no pensamento business e na sociedade em geral. o business continua a crer firmemente na estabilidade do management. ainda não pensamos na articulação de um novo sistema que assumisse como princípios não a estabilidade. Nossa previsão para a próxima década não pode ser passiva. Como segunda vantagem. em nossos sistemas informativos ou empresariais usamos novos instrumentos ou modelos tomados de empréstimo da biologia. Absorvidos pela atividade diária. Compreendemos que os empreendimentos precisam ser projetados de modo a se adaptarem ao time-aware management framework. Estamos entrando numa nova era de evolução geral. não a previsibilidade. O instrumento da velocidade das informações. esses novos instrumentos já estão prontos para as organizações que se adaptam de maneira mais eficaz às mudanças e à volatilidade dos atuais ambientes de business. torna possível a adaptação. engenheiros e empreendedores estão aprendendo como aplicar as mesmas leis a tantos outros sistemas. nas nanotecnologias e nas ciências dos materiais. em tempo real. mas a volatilidade. A volatilidade econômica impõe hoje a necessidade de criar a empresa adaptativa. são muitas as vantagens que podemos extrair da convergência entre informação. no qual o custo da mudança não é contabilizado como um custo extraordinário. Ao mesmo tempo. (117) . Na década passada. A primeira é começar a prestar atenção e interesse nas biotecnologias. biologia e business.

Ainda não concretizamos a afirmativa sobre a economia estar viva. Creio que este seja o maior blur de tudo: apaga os limites entre aquilo que é real e o que é virtual. não um teórico do management mas biólogo. (Fig. Lynn Margulis. manter e se auto-reproduzir”. Tudo referente ao “como se faz” está sujeito a mudanças no tempo. As primeiras células são metabolizadas: usam energia e materiais do exterior para produzir. as possibilidades que se tornam disponíveis. de Boston (EEUU). entre o orgânico e o inorgânico. afirma algo bastante parecido: “O metabolismo faz parte da vida desde o seu início. = erro) (N. uma vez que ocorram eventos sucessivos.) Chris Meyer é diretor do Center of Business Innovation Cap Gemini Ernst & Young. o que mais pode acontecer? Em meu livro Blur. ativos e conexos. Quando a biologia suplantou a física como modelo de pensamento. Parece que se fala de business. quando temos poder de manipular desde nossa saúde até a agricultura. borrão.T. quando os objetos são inteligentes. eu definia assim a essência da economia: “utiliza meios para satisfazer desejos”.Monografia e sim como uma normal voz de custo para construir o próprio negócio. (118) . A que nos levará isto? Os teóricos da complexidade falam de Adjacent Possible. de 1998. (Notas) 1 Blur = mancha. tudo no plano molecular. entre o que está vivo e o que não está.

são um dos meios nica de “grito de dor”.e discutir. que são. (119) . porém. ilustra uma espécie irôeconômico. presumível universatransitoriedade tornando-se impura. perPode-se repelir essa “orientadas”? deu alguns de seus situação em nome A desorientação conteúdos histórida pureza ou de uma e a sensação de cos que a definiam. sociedades algum tempo. será que lugar festação. nosso modo de viver os fenô. utilimenos estéticos. que Museu de Nizza. tanto cogni. os objetos A obra de Ben Vautier no comprados e vendidos. que especificamente cialmente finalidade em vez de opor-se estética? sem escopo. produção e nunca existiram A estética. ou fazem parte do De fato. era essenParece. contemporânea. Neste momento. seja mais interessante componente fundamental de passar através dela. portanto. na zarei uma série de imagens realidade. produção que tinha tância histórica que Mas existe uma como modelo-chave caracteriza a cultura desorientação a contemplação e. lidade da estética. a mercado. contaminados por sobre as quais iremos refletir outros processos.Monografia Por uma estética impura Fulvio Carmagnola A arte fora de principais de maniAfinal. os produtos.Para falar de estética. a estéà desorientação protica impura implica pondo modelos de com a desorientação como ordem. Há arte decorrespondem à lógica do valor mais. já há fruição da estética. enquanto se pode ainda tentar mundo onde a estética pura era entender e explicar qualquer cultura aquela forma de essa nova circunscuida de si própria. tivos quanto comerciais.Há arte demais ria.

Este é um aspecto interessante para se refletir e discutir. A primeira situação é caracterizada por grandes eventos que destroem os nossos frames de compreensão. ao passo que a segunda é algo de ansiógeno. ou melhor. incompreensível. Uma das origens da desorientação consiste no fato de que existe um escapamento do estético de sua sede natural. de um murmúrio contínuo que nos impede de encontrar uma dimensão de compreensão. que nos persegue constantemente. Essa obra diz o contrário: Il y a trop d’art [Há arte demais]. Podemos dizer que existem duas tonalidades de desorientação: a primeira é a que nasce por descontinuidade. queda. enquanto o mesmo terreno é invadido por algum outro. São os artistas que dizem “basta” com a arte e a beleza – que não são a mesma coisa. que interrompe uma rede de conhecimentos previstos.Monografia Estamos acostumados a pensar que a arte e a beleza são sujeitas a ameaças e que devem ser preservadas. Isto produz uma sensação de não saber. significa interrupção. na ótica psiquiátrica. entropia. uma desorientação que deriva de uma espécie de rumor de fundo. um evento improvisado. de desorientação. cultural. a segunda. isto é. significa interrupção. A desorientação é também caracterizada pela percepção de uma violação. bloqueio dos costumes que nos permitem fazer circular e fluir o sentido dos nossos processos culturais. Para compreender a desorientação estética deve- (120) . por outros processos. de não estar no lugar certo. O sui generis é que aparentemente são os artistas que se retiram do estético. porém se confundem. ambas as dimensões são extremamente freqüentes. No contexto estético. antes de tudo. de uma incorreção e de um emergido estorvo. Não se está mais à vontade em termos cognitivo-antropológicos: os frames de referência do evento ao qual se assiste estão em desordem. da sede em que os nossos hábitos culturais o confinaram. a desorientação é uma situação caracterizada. pela perda da confiança. O termo breakdown. em uso pelos psicólogos e cientistas cognitivos. Então. delirante. Em nossa época. “A arte em toda parte” provoca confusão e desorientação.

Mas ainda que se tenha encerrado. mais ou menos quando começam os fermentos da Pop-Art. de Kant. Logo. se observarmos a foto da vitrine da Dolce & Gabbana. De Chirico & Dolce e Gabbana Confrontemos um quadro de De Chirico (Natureza silenciosa. Observemos algumas datas: nasce em torno de 1700. continuamos a pensar no que responde aos cânones. então inventados. O que choca é como a instabilidade dos nossos quadros de atribuição de significado daquilo que vemos deriva do fato de que as coisas não estão paradas e que as imagens passam de um território para o outro.Monografia mos. do “alto” da arte ao “baixo” das culturas mediais. Quando nasce e como evolui a estética A esta altura podemos tirar algumas considerações sobre o que era a estética e no que ela se transformou. Bérgamo) com uma fotografia da vitrine de Dolce & Gabbana na Via della Spiga. Este é um caso de desorientação. singularmente breve. os nossos frames estão estáveis. durante o período natalino de aguns anos atrás. em Milão. Kant obteve o grande mérito de de- (121) . No final do século XVI. então. Por outro lado. da estética e da arte. nas primeiras décadas do século XIX. de Hegel. descobriremos a quase perfeita capacidade que o sistema de moda tem de citar os lugares tradicionais que orientam a nossa percepção do belo e da arte. coleção Spajani. é consagrada por volta de 1790. Enquanto olhamos o quadro de De Chirico. com A Crítica do Juízo. e que desviam continuamente as nossas possibilidades de situá-las num ponto preciso. sua posterior sistematização acontece com a Estética. porque os pontos de referência que fixam e formalizam os cânones da estética moderna cessam de ter validade para a compreensão dos fenômenos estéticos do presente mais ou menos por volta da Segunda Guerra Mundial ou no máximo uma década mais tarde. procurar entender o quanto nos afastamos daqueles lugares que fundamentaram a nossa idéia do que é o belo e do que é a estética. A estética é um período singularmente breve de nossa história. 1959. de dar a elas a atribuição determinada.

espaço separado da estética. oscilam: a arte os trai. que foram criados naquele lugar da história e se tornaram trans-históricos. Herdamos um conjunto de pontos de vista potentes. continuamos a usar quadros criados e inventados numa certa situação histórica e cultural. fala de obra de arte e diz. franquia. através do gosto. alguma coisa que possui algumas características dificilmente codificáveis. A junção beleza-estética é um dos nossos mitos e é o mito de um território elevado. ao mesmo tempo. Ele fala sobretudo de belo natural e não de obra de arte. Uma espécie de reserva indígena. pois. constrói ao redor dos fenômenos estéticos uma espécie de recinto. livre. por uma nuvem de noções tais como beleza. Kant observa que a capacidade de julgar o belo deve se tornar independente. Esse gosto é universal mas não pode ser conceitualizado. e com essa operação libera a beleza e o gosto enquanto. subtraído do cotidiano. (122) . Quando. Hegel. porém uma espécie de recinto. Usa a palavra enfranchisement. falamos de estética. mas codifica pela primeira vez a faculdade de discernir o belo.Monografia finir o belo e nos tornar conscientes da nossa faculdade de interpretá-lo. como se essa situação fosse imutável. O gosto é a capacidade de discernir o que vemos no reino do sensível –o estético em sentido lato –. quando não caem. mas não pode valer indiferentemente para todos. mas que continuamos a utilizar como se funcionassem. o mito é dominado por algo de não-conceitual. deve valer para cada um. eternizaram-se. O filósofo americano Arthur Danto exprime essa situação histórica com um termo muito interessante. seja pela capacidade ética. por sua vez. das normas do verdadeiro e do bem. que indica ao mesmo tempom. símbolo e imaginação que não funcionam mais. numa distância de 35 anos. Lateral. algo que abala: “a arte já morreu”. Os rumos que a nossa cultura estética tomou são fortemente centrífugos em relação a esses cânones. seja pela capacidade cognitiva. porém. isto é. a publicidade os confirma e o comércio os cultiva. os nossos quadros conceituais. intangível.

O artefato artístico não apresenta mais os caracteres típicos da esteticidade. que entram nas retículas da valorização e produzem formas de economia que podemos chamar economia do simbólico. invade o território da estética. A esfera econômica alarga-se até o simbólico.Monografia Um exemplo de direção centrífuga: o visível não basta a si mesmo. extensão. Este é um dos sistemas mais interessantes e realmente confusionais do presente. ao elemento estético. dado um visível. torna-se gestão do imaterial. A intrusão do estético no mundo cotidiano e das mercadorias possui algumas grandes chaves-mestras: o sistema da moda. que produzem desequilíbrio. a presença física dos objetos. A economia do simbólico A estetização do mundo da vida refere-se também à economia. da presença física dos artefatos. fenômenos de hibridação. Estetização do mundo da vida Há anos falamos de estetização do mundo da vida. ocorre que cultivamos esta associação: o reino do estético por excelência é o reino da arte. ele agora apresenta outros. não funciona mais o mecanismo de atribuição de sentido. dos produtos. pois. do design e em geral o sistema das mercadorias. Ora dá-se o caso que a arte não é mais esse território privilegiado e escapa da própria autonomia. dimensão cada vez mais especializada. afirmada num determinado período da modernidade. dos processos imateriais de produção do valor. de frame ou de contexto imediato. Por outro lado. Quando vemos a vitrine de Dolce & Gabbana. é um sistema de valores do imaginário economicamente avaliáveis. não somos capazes de destiná-lo a um domínio. O fetichismo é uma fonte de criação do significado. Ocorrem. A estética não está em seu lugar. não permanece no território livre. ou a quota do imaginário que os produtos encerram em si mesmos. é a atribuição a um objeto de algo além de seu valor de uso. por um lado. por outro lado. é uma fonte de valorização. porém em cercado que a modernidade lhe tinha reservado. Em outras palavras. intrusão e deslocalização do estético. A economia do simbólico é (123) . A economia. isto é.

exaltemos o fetichismo da mercadoria e imerjamos sem nenhuma distância crítica” – nesse aspecto. deslocamento ou oposição possa ser produzido. “mergulhemos no mundo das mercadorias. impuros. para que um novo seja produzido. Então. Mas o que é o curso do sentido? É a situação dos frames habituais. Existem várias atitudes a serem tomadas em relação a essa questão: por exemplo. O estético torna-se um componente estrutural da mercadoria. ou pode-se adotar uma atitude “pós-moderna” e dizer “é preciso entrar no meio disto”. por excelência. entendemos. A produção de sentido é. livre e independente para o plano dos processos de valorização econômica. Estudar o mundo da moda e do design é muito importante para entender como os sistemas de formas e significados fogem do seu lugar de origem e vão se posicionar nesses outros lugares. pode-se assumir uma atitude crítica que leva a um afastamento. Seria melhor. posto na espera. na desorientação programática desse curso pacífico: o sentido – entendido como senso comum – deve ser suspenso. por essa razão. um fenômeno de descontinuidade.Monografia uma circunstância cultural pela qual a produção e a fruição de símbolos e imagens passam do plano expressivo. assumir uma atitude de compreensão e de fruição crítica dessa circunstância: a economia do simbólico produz ocasiões de sentido e de significado. porém. pois. (124) . para que algo de novo por diferença. rejeitá-lo. a década de 1980 foi de grande importância. interrompido. espúrios. permeia horizontalmente o nosso universo do cotidiano e isto é fonte de grande desorientação. O trabalho do sentido consiste exatamente na suspensão. o curso das coisas que estão bem em seus lugares e que. portanto. compreendemos e dentro das quais estamos pacificados. incertos. de desorientação. pode-se dizer que o mundo da beleza está comercializado e. Frame e breakdown O filósofo francês Jean-Luc Nancy afirma: “O curso do sentido deve ser suspenso para que o sentido tenha lugar”. passar através da freqüência da mercadoria sem necessariamente cair presa do fetichismo pleno é uma chance para se produzir e preservar o sentido.

Monografia precisamente um breakdown. Creio que a arte faça isto há muito tempo, desde a época das vanguardas, ainda que se discuta como o faça. O singular, porém, é observar que também a mercadoria, também a comunicação ligada à mercadoria, como a publicidade, é capaz de criar breakdown trabalhando na suspensão do curso do sentido. Temos, portanto, um panorama transversal, no qual essa confusão de domínios pode ser vivida como uma definitiva apropriação do mundo da beleza por parte do mundo do capital, das mercadorias, ou um alargamento interessante e certa desorientação da noção tradicional de estética. Que seja visto como cenário apocalíptico ou não, enfim a situação é muito complexa: o sentido circula continuamente numa dimensão ao mesmo tempo vertical e horizontal, nos vários domínios que vão do mundo “alto” da cultura e da arte ao “baixo” das mercadorias. Circulando continuamente, esse sentido produz continuamente hibridações, pensamento, nos faz pensar. Motel Vilina Vlas Para acentuar o quanto estamos distantes do ponto em que partimos, a estética da modernidade, gostaria de comentar uma obra de arte recente. Tr a t a - s e d e u m a o b r a d e Dennis Del Favero, Motel Vi l i n a V l a s , d e 1 9 9 9 , q u e mostra, por um lado, como o objeto artístico pode englobar literalmente um texto, sendo intrinsecamente logos e figura visível e, por outro lado, que a obra não funcionaria se não houvesse esse texto. O título desta obra refere-se a um lugar da Bósnia onde foram encarceradas algumas dezenas de mulheres bosnianas. A obra era apresentada da seguinte maneira: um imenso salão, paredes brancas, 12 f o t o s e m c i b a c h ro m e , n a s dimensões aproximadamente de 70 x 100 cm, tons de azulda-prússia. Representam detalhes de corpos humanos, de maneira pouco pornográfica ou representativa. Podem ser pedaços de pele, porém, detalhes imperceptíveis, não se vê que parte do corpo retratam. Sob cada uma das fotos há um texto, uma frase. O expectador as lê e aqui produz-se o choque que torna significativo o visível: trata-se da confissão de um dos estupradores, ex-

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Monografia traída do depoimento durante o processo. O texto das 12 frases recita: – Tínhamos atacado a cidade durante semanas inteiras (primeiro quadro). – Naquela noite finalmente a capturamos (segundo quadro). – As mulheres feitas prisioneiras foram levadas ao Motel Vilina Vlas (terceiro quadro). – Entre elas também estava a minha noiva, Nina (quarto quadro). – O comandante passou em revista as mulheres (quinto quadro). – Disseram a elas que nós tínhamos um código especial, há séculos antigo, em nossos genes (sexto quadro). – Elas tinham sido escolhidas como veículos para purificar a nossa mãe-pátria (sétimo quadro). – Apesar de minhas súplicas, meu irmão recusava-se a participar (oitavo quadro). – Foi castrado e em seguida fuzilado (nono quadro). – Fui o último a possuir Nina (décimo quadro). – Afastei-me dela cambaleando (décimo primeiro quadro). – Meu coração transformou-se em pedra (décimo segundo quadro). Contaminação e desorientação Gostaria de acentuar algumas características que nos fazem refletir. Os quadros visuais são não-evidentes, violam uma das condições de evidência da obra: vêem-se pedaços de corpo, mas nunca a forma ou a integridade de uma figura perceptível ictu oculi, completa. Então, essa condição de incompleta visibilidade corresponde a uma das condições extremas do estético que já tinha sido intuída por Kant, exatamente a condição do sublime. O sublime representa o desastre da imaginação, a nossa impossibilidade de reconduzir os fragmentos do visível à unidade da forma, à demonstração de algo exorbitante, terrível. Em segundo lugar, o texto (lingüístico) é parte fundamental do choque (poético), portanto faz parte do estético, mas insinua-se no visível e o desorienta. A condição estética se torna impura, contamina-se, mas se enriquece, até porque vai além do cognitivo, enquanto a beleza, a serenidade da obra — que era a dominante em sua condição tradicional — desaparece. Essa é a condição de produção e de exercício da estética.

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Monografia Impura. Transbordante. Confusa de um lado, com o domínio das mercadorias, e de outro, com o mundo mais abstrato dos conceitos. Condição de desorientação, mas também de maior riqueza, em que o artefato é ocasião complexa de compreensão do presente.

Fulvio Carmagnola é professor de Educação Estética na Universidade Bicocca de Milão.

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no a falar de lésbicas espelho: “Existe Brasil. P a r a i s s o . Esta. No final dos anos de 1960. à melhor das pessoas expressões que cantora. era muito acadêmica referência a mulhe– tratava o espectares de pés grandes. o programa de informal. o fantasia diferente a cada vez. ao melhor ator. como v e u f a z e r u m p r o g r a m a d e a célebre máxima: “Quem não auditório no qual.nos 35 milhões de brasileiros guagem formal. bons.Ele fazia canções. viveu um n a T V. dor como se ele fosse um an.Abelardo oferecia um prêmio c i d a d e d e c o l o c a r n a b o c a ao melhor cantor. usar gravata. fazia soar uma um homem chamado Abelardo buzina. até aquele momento.pressões espetaculares. o primeiro perguntava ao seu 1970 e 1980. se fossem ruins. a palavra “sapatão”. por sociedade capitalista Nos anos de 1960. à meninguém imaginaria possíveis lhor atriz e ao melhor cineasta. dizia que teriam futuro. ele utilizava assistiam ao seu programa. u m a l i n g u a g e m t o t a l m e n t e Todos os anos. o Chacrinha. Esse homem criou exBarbosa. no 11 são brasileira. seu programa teve a apresentadores. em vez de se comunica. brincadeicião e como se ela tivesse de ras e apresentava os chamapedir permissão para entrar na dos calouros. exemplo. de “lésbica”. Ele tinha a capa. (128) . usou de setembro 2001. Ele foi. desorientou-a. Se estes fossem casa das pessoas. homem que fez uma alguém mais bela do Chacrinha criou um que eu?” A resposta revolução na televieufemismo: em vez do espelho. vestia uma incrível audiência de 70%.Monografia A dúvida como estética Washington Olivetto Organizar e na linguagem televiA estética da desorganizar siva. se trombica”. como todos os Em 1981. resol. que significa que mais ou mee m v e z d e a d o t a r u m a l i n .

Monografia Eu não sei por que ele resolveu premiar também o melhor publicitário. Antes de começar a apresentação naquele dia. ou seja. A arte como a vida A idéia da desorientação da estética pressupõe que falamos da Arte. de regra. Tanto os pós-modernos quanto os pseudomodernos um pouco espirituosos. eu não posso bagunçar”. mas. Vamos tentar definir Arte: é a capacidade encantadora e maravilhosa que o homem tem de pôr em pratica uma idéia. para serem quebrados. Todos. como eu. Só tem um problema: (129) . para torná-lo mais amplo. destruídos. Podemos comparar esse raciocínio a uma galeria de arte ou ao mundo. em verdade. podemos chamar a desorientação da estética de uma falta de direção. antes de seu início. eu começo a reflexão sobre a desorientação da estética. que imita a arte. de qualquer maneira. Abelardo me disse que gostava de ter tudo organizado e perguntou: “Você sabe por quê? Porque eu entro e desorganizo! Se não está organizado. obviamente. A era das incertezas A idéia de Domenico De Masi sobre a redução da presença do corpo no trabalho e sobre a expansão do cérebro é fundamental. Chacrinha jogava comida e objetos às pessoas no auditório e fazia muitas piadas. Mas. arteiras por natureza. durante. E lá fui eu recebê-lo. ficando muito impressionado com a organização de seu programa – quero dizer. várias direções. de sentido. valendo-se da capacidade de dominar a matéria. decididamente acham que a arte criativa não pode estar separada do trabalho nem do aprendizado. várias regras. Como quando a gente se encanta com as crianças. mexe com tudo. E isso pode se tornar uma discussão pós-industrial ou pós-moderna. porque. com sua habilidade de inventar brincadeiras. naquele ano eu ganhei esse prêmio. acho que estamos falando da vida. A partir dessa minha musa inspiradora. de ser arteiro (e não artista). Tudo o que mexe com a estética. Mas podemos também dizer que há vários sentidos. Ser artista é ter a capacidade de produzir vida em busca de uma direção. Portanto.

com sentido e sem sentido. como estilete. pois essa é muito mais ampla e mais abrangente. Tal discussão sobre o que se fazer no tempo livre foi pega de surpresa no dia 11 setembro de 2001. ponta de caneta e pedaços de faca junto às mais sofisticadas tecnologias fosse possível criar um elemento totalmente desorientador: o homem-bomba. do que se acha bonito ou feio: a sacola da grife Giorgio Armani. e isso causou espanto. O elemento novo nessa forma de desorientação estética. de não ser tempo. o mecenatismo. geográfica. Quem eram os homens-bomba? Eram representantes de grupos com uma ideologia própria. O tempo dos supersônicos se fundiu com o tempo das cavernas. a teoria quântica. em Nova York. Porque tudo isso estava “cercado” pela política externa americana em todos os lugares.Monografia pode ser usada tanto para o bem. e com elas caíram os ideais de consumo. este já estava se realizando em outras velocidades. antimatéria. a ponto de não ter tempo. O mais interessante de tudo isso é o seguinte: na época em que De Masi brilhantemente pensou o ócio. a ponto de parecer separado. etc. Nunca se pensou que. sua idéia de invulnerabilidade criou sua vulnerabilidade. o design. Como aquela rainha que se olhava todos os dias no espelho e perguntava: “Existe alguém mais bela do que eu?” Até que um dia o espelho disse: “Branca de Neve”. O compositor brasileiro Tom Zé disse uma frase muito interessante: “A gente não está vivendo o tempo da globaliza- (130) . além do World Trade Center? As torres eram um símbolo. é que as próprias características do neoliberalismo americano criaram sua fraqueza. usando-se materiais primários. de não se medir. cordão. política. Com um pedaço de faca. os homens-bomba podiam invadir a cabine de um avião. e acabaram com as crenças da sociedade capitalista ocidental. Fizeram os americanos entenderem que eles não eram indestrutíveis. quanto para o mal. mas antitempo. Esse feito gerou uma nova topografia do pensamento em um lugar muito interessante. O que foi derrubado naquele dia. a revista Wallpaper.

tendo cavernas supersônicas que são apartamentos de alto luxo por dentro e açougues por fora. Cientistas e artistas sabem disso há muito tempo. e 6. Gostamos da desorientação na estética: percebê-la já é uma maneira de superar a própria desorientação. caos e ordem. porque se não estiver organizado não dá para desorganizar. Essa certamente é uma mudança na estética. podemos imaginar que essa é a ordem do próprio universo: cataclismos e reorganizações. mas o tempo da globarbarização”. obtém-se uma imagem multifacetada. que dizia: “Eu organizo tudo. Uma nova ordem é sempre precedida de um estado de anarquia. Aí volta o nosso Chacrinha. Esse movimento se baseava em uma liquidificação antropofágica das culturas do mundo. e produziu um Bin Laden brasileiro chamado Macunaíma. Picasso. Alguns filósofos. Curiosamente. que era exatamente assim. felizmente sem nenhuma tragédia. depois de conhecer a arte africana. em 1922. Deleuze fala da criação da quarta pessoa do singular: o eu. como Felix Guattari e Gilles Deleuze. Delaney percebeu isso com o simultaneísmo e o futurismo. A Semana de Arte Moderna de 1922 gerou a antropofagia cultural. isso aconteceu no Brasil. um herói sem caráter algum. É interessante. pelo contrário: fazendo-se várias voltas. E a música de Erik Satie também surgiu de observações desse tipo.000 ex-yuppies e parentes das vítimas do episódio do World Trade Center agora querem morar em Nova York. falam disso. (131) . Nessa confusão.Monografia ção. o tu e o ele estabelecidos têm agora de se repensar e se recompor para identificarem novas pessoas desse novo sistema que nomeia e cria conceitos do belo e do feio.” O jazz no fundo das nossas almas Dentro disso. é possível que estejamos vivendo um dos momentos mais criativos e mais interessantes da história da humanidade. o ponto e a linha de Kandinsky foram pintados assim. porque é o tempo das cavernas supersônicas: o Bin Laden vive em uma caverna de alta tecnologia. percebeu que o objeto pintado não deve ser olhado de um só ponto de vista.

para gerar uma nova pseudo-estabilidade estética. O que acontece é que o criativo não é bom ou mau. Reconhecer essa instabilidade é deixar fluir o jazz que existe no fundo das nossas almas. que Hitler era um criativo e Proust. Citando De Masi. antes de imaginar que todo o mundo encontra-se coeso na idéia da sobrevivência. Talvez estejamos inaugurando um novo período.Monografia Ou seja. Então. mais importante que superar a desorientação é saber conviver com ela e saber se aproveitar dela. Nós somos feitos exatamente das mesmas partículas de carbono. Não existe. nem belos nem feios. mas as duas coisas ao mesmo tempo. “o que difere um sonhador de um criativo é a capacidade que um criativo tem de concretizar a fantasia”. Até que a estabilidade fique chata de novo e seja quebrada outra vez. Como o Deus judaico-cristão: Deus é bom? Deus é mau? Deus é bonito? Deus é feio? Não: Deus é Deus. essa nova estabilidade estética é principalmente a constatação do efêmero. dentro desse critério. Curiosamente. Acho que estamos em um momento em que se faz necessário pensar que não somos nem bons nem maus. Primeira constatação: nessa nova estabilidade não existe estabilidade. despotismos: isso terminou. mas apenas o que cria algo do nada. que nos indica a dúvida como estética. antes de as Memórias. e a tarefa é integrar o sentir e o pensar. Quanto mais a gente se aproxima das diferenças. como muitos já perceberam. Existem bancos cujos investimentos se baseiam no ecossistema e na economia auto-sustentável. fascismos. Mas. Mas não é bem assim. radicalizando. incorporando novos pontos de referência. novos fatores. Não existe lugar no espaço para tal coisa. aquela ordem aceita pelos totalitaristas que fundamentou impérios. temos de lembrar que há ainda a quarta pessoa do singular: alguém que resolve ser uma bomba eterna. que é o essencial. felizmente. (132) . tão mais a gente se aproxima de um denominador comum. hamletiano. também poderíamos pensar. não o era. da multiplicidade dos sensos. da não estabilidade.

Também não acho que chegue a tanto. a publicidade. é a base para eu falar da atividade da qual eu entendo um pouco. como um dos males do capitalismo — coisa que não acho que seja — e. eu desconheço qualquer moda que tenha sido ditada pela globalização. Isso que eu tento buscar em meu trabalho é a capacidade de surpreender.Monografia O que é a publicidade? Esse discurso. Em 1986. na maioria dos países. fazendo esse trabalho no Brasil. de um lado. E. aos 50 —. de olhar o outro lado das coisas. Eu acredito sinceramente em conceitos globais voltados para a comunicação local. é muito mal desenvolvida e. Então. não manifestando opiniões. o presidente da empresa — e que os espaços seriam todos abertos. como uma atividade extremamente criativa. ela não pode ser vanguarda. ela utiliza componentes da arte para se expressar. por esse motivo. busco uma publicidade que seja visivelmente atrelada à cultura popular. muito pretensioso. com uma cadeira para mim na mesa de cada pessoa que trabalha na empresa. de perceber as coisas de uma maneira jamais antes percebida. é fundamental fazer um trabalho brilhante e. mas pode estar colada no pára-choque posterior da vanguarda. (133) . Trabalhar numa empresa pós-industrial Em meu ramo de atividade. mas. acaba por exacerbar os preconceitos contra ela. Mesmo não sendo arte. eu decidi que nós não teríamos salas — nem mesmo eu. para isso. a publicidade não pode ser vanguarda. o que a arte não busca em princípio. A partir disso. No trabalho que venho tentando desenvolver na minha vida — dos 18 anos de idade até hoje. é preciso pensar também na estética do próprio negócio. Em alguns lugares é visivelmente mais bem-feita — caso do Brasil. de raciocinar de forma inversa. porque a primeira busca da publicidade é pelo entendimento. A publicidade é vista. da Inglaterra e dos Estados Unidos —. A primeira coisa que se deve pensar é que a publicidade não é arte e não é manifestação de opinião: é a manifestação da opinião dos produtos. por outro lado. quando criei a W/Brasil.

nos faz prestar atenção no universo das possibilidades e novidades (134) . tendo a concordar. Eu tendo a concordar com ele. Nós trabalhamos com o dinheiro de terceiros e. dizendo que liderar é saber a hora de servir o sorvete. E ando pela agência. Eu faço isso claramente nos momentos de alta tensão na empresa. Por essa razão. a alegria. Quando ele fala que a publicidade italiana é um monte de lixo com um pouco de Chanel borrifado por cima. eu poderia trabalhar com elas. da arte. Eu brinco com isso. ao contrário da moda. da literatura. tomou outro caminho. Ta m b é m d e c i d i m o s q u e a condução do que eu chamo de “astral” seria outro ponto importante. Minha atividade só pode ser uma destas duas coisas: absolutamente adorável ou totalmente insuportável. faz parte de uma coisa que eu quero. da música. mas é fundamental gerenciar um componente básico que é a matéria-prima de nosso negócio: a alegria. Isso faz parte do nosso negócio. É como se uma determinada frase ou imagem não pudesse existir se não estivesse ligada especificamente àquele produto. é que eu gosto mais ainda quando uma dona de casa comenta o meu trabalho. que gosto de fazer e deliro fazendo. em que todo mundo está trabalhando: mando parar tudo para servir sorvete a todos. mais importante até do que a administração da caixa.Monografia Assim. Festival e premiações são insignificantes se comparados à reação do público. e essa é a nossa busca. de cadeira para cadeira. Eu fiquei muito impressionado com meu grupo no período em que eu estive afastado da agência por motivos de força maior. sem dúvida. a agência conseguiu manter a tal matéria-prima. Então. Mas não tem de ser necessariamente assim. apesar de gostar muito quando meus colegas publicitários elogiam meu trabalho. mas sim que o próprio produto a gerou. parece que não há autores. do design. Essa reação é fascinante porque nos indica o caminho. porque a publicidade italiana. temos de ser responsáveis. eu não tenho uma sala: tenho cadeiras. Em uma publicidade bem-sucedida. Oliviero Toscani considera publicidade uma atividade muito ruim. Naqueles três meses.

mas. Acho o “politicamente correto” muito chato. Recebeu 54 Leões no Festival Internacional de Publicidade de Cannes. por outro lado.Monografia que existem. uma declaração de amor à vida que tem de existir em qualquer orientação ou desorientação na estética. Em meio a isso está o que chamo de “politicamente saudável”. Fundador e presidente da W/Brasil. (135) . Washington Olivetto é publicitário. na política ou em qualquer área. a falta de educação é inadmissível. na economia.

tores de plantão. incoerência e s e v e r o d e m a i s p o r q u e . economia humana.mercado e de quem o govertrodução do livro de Bauman. Pode.” Dito poder e o mercado. Julgamento um tanto “Interrupção. da história e da segunda traição dos clérigos. que começa possuem nenhuma capacidade com uma frase de Paul Valéry: crítica. com a minha análise sobre com o mesmo rigor atenção nos longos a desorientação. na economia à Gostaria de começar exatamente como desorientação na com uma pilhéria tinha feito na décapolítica. dução intelectual. carregada de adaptando-o às circunstân. que a profissão do intelectual Por outro lado. a mente humana dominar ir até à livraria e descobrir aquilo que criou?” facilmente uma enorme proSe ainda fosse vivo. s e s u r p r e s a s ã o a s c o n d i ç õ e s quiséssemos bancar os oposinormais da nossa vida. sobre a da confiança na “Estamos em um perelação entre a proonipotência do ríodo de transição. A crise de Ennio Flaiano: da de 1930. para entender está ligada às orientações do melhor. e que os intelectuais não Modalità liquida. muito outro Tradimento dei chierici. posso concluir E provavelmente.Monografia A governança da desorientação Antonio Calabrò A traição dos cias atuais. o mercado nos obriga como sempre. e outra. (136) .dúvidas e de perplexidades. cutindo sobre uma pesquisa. na. atenta. poderíamos pois. com que havia disperíodos e no porque estamos distinguido a primeira equilíbrio global. a repensar uma isso. Benda dução intelectual que é absoprovavelmente escreveria um lutamente antagônica. experiDa desorientação intelectuais mentando indagar. escreveria condição normal que hoje existe uma da aventura. crítica. sou ajudado pela in.

político e sociológico sobre quais são as condições do mundo em que vivemos e sobre quais são as regras da transformação. recuperando. ou desde a metade da década de 1990. assim. ou também nos últimos dois livros de Bauman. mas também parte da católica. Lo sviluppo è libertà e Globalizzazione e libertà. não somente uma larga fatia da cultura liberal. infelizmente deixada. mas também ao conjunto das questões ligadas àquela pas- (137) . mas em busca de orientação. Martha Nussbaum. por ocasião de uma convenção em 2001. porém gosto de relembrar um livro que havia marcado o crescimento da consciência do mundo econômico em relação aos fenômenos críticos da globalização: Lo sguardo dell’altro.Monografia desorientada sob certo ponto de vista. desde antes do 11 de setembro. Sviluppo sociale e dignità umana. insistindo na passagem do conceito de indivíduo para o de pessoa. da governança da globalização e de como as empresas podem estar no mercado levando em conta a complexidade dos fenômenos em que estão inseridas. muitas contribuições excelentes para nos mostrar que está em curso. Também a ex-mulher de Sen. confinada num canto. que nos lembra a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento em geral. em suma. Ele coloca o problema da globalização. escreveu um livro bem interessante. No primeiro. em um jogo de inter-relação muito bom. mas bastante crítico. Por outro lado. aquele “è” faz coincidir os mecanismos do crescimento econômico e do desenvolvimento em geral com os sistemas de liberdade. não apenas às grandes categorias da economia. ou os últimos dois livros de Amartya Sen. Lo sguardo dell’altro significa uma atenção particularmente solícita. penso em Daly. sob esse aspecto. Existem. Reúne uma série de ensaios encomendados pelos jovens empreendedores da Confindustria. uma consistente reflexão crítica e autocrítica do pensamento econômico. Não citei autores italianos para não arriscar facciosidades estranhas ao debate muito vivo sobre os alinhamentos intelectuais. Alguns títulos: o texto de Stiglitz sobre o mundo imperfeito (não por acaso Stiglitz ganhou o Nobel por isso).

de outro modo. como a capacidade de gerar riquezas. sobre todos os atores sociais que têm a ver com os poderes. que ocorre um pouco por toda parte: governança. Palavra-chave: governança Há uma palavra-chave naquela coletânea de ensaios. da metade dos anos de 1960.Monografia sagem. no máximo. de crise na Nasdaq. mas dentro dele não existe uma série de coisas importantes como. citada por Nussbaum. os resultados de uma série de negócios e transações dos quais a população não pode se orgulhar. certamente. de desenvolvimento sustentável e por aí afora. falar dos mecanismos de crescimento. as regras e os reguladores é fundamental. é um raciocínio sobre as regras e também sobre os reguladores. porque. mede muitas coisas. Um conceito impactante. não conseguiremos mais raciocinar sobre os mecanismos de desenvolvimento. isto é. basta pegar nas mãos uma bela análise de Bob Kennedy. cujo “índice” foi definido com a contribuição de Sen e de Nussbaum. de Corte penal internacional. na qual dizia que o Gross Domestic Product (GDP). Eis uma diferença fundamental. se falamos de déficit público. mas que dentro de GDP também estão os proventos da indústria pornográfica e da indústria de armamentos. Para entender melhor. Governança não significa apenas “governo”. A palavra governança é aquela que melhor nos ajuda a entender os fatos que lemos diariamente nos jornais. ou seja. de confronto comercial Europa-EUA. o PIB norte-americano. mas que centralizava uma questão fundamental. enquanto ficam fora do GDP grande parte daqueles elementos que – segundo Kennedy – fazem o norte-americano sentir orgulho de seu país. Então. por exemplo. Esse discurso sobre a governança. as instituições e o mercado. como se mover em (138) . as diferenças de desenvolvimento dentro de cada país. poderemos. de extrema atualidade ainda hoje: exatamente aquilo que a ONU chama de “desenvolvimento humano”. de indivíduo a pessoa. que nos permite uma reorientação: mede-se o crescimento pelo PIB. de sujeito econômico a titular de direitos.

Recupera-se até o fio do pensamento thatcheriano. a política não adianta mais para nós. é o sistema de mediação dos conflitos.Monografia direção ao desenvolvimento e como enfrentar a questão da governança? Como enfrentar. Quando cai o Muro e define-se esse m o d e l o v e n c e d o r. porém com um fio de desalento percebido pelos observadores mais atentos: o fim do inimigo põe em crise radical a identidade. também não nos adianta a sociedade civil. único modelo vencedor. estamos diante de uma dimensão pacifista do desenvolvimento. ano-chave das transformações. mas o conflito radical não existe mais. aquela que conhecemos. discute-se muito sobre o final da história: termina a história dos conflitos. no mundo inteiro. o capitalismo tecnológico avançado se conecta aos instrumentos da democracia. a democracia liberal de mercado se afirma como modelo vencedor. Em suma. O mercado pode regular tudo com a sua mão invisível. porque é aquele que libera mais energias e serve de referência para as ambições. porque mais forte. os protestos. os sonhos. mas também para os mecanismos de emulação do resto do mundo. é preciso retroceder um pouco. que é considerada um fenômeno positivo. Assim. o mercado coloca as coisas nos seus lugares e a política deixa de ter importância. da economia e. produtor de conseqüências boas para todos. até 1989. termina o equilíbrio bipolar. porque permite um crescimento e um desenvolvimento maiores. e começa a euforia ligada à capacidade espontânea dos mercados de criar riqueza. de fato. sob esse ponto de vista. A política. então. isto é. de uma reproposição ideológica da função de elementos (139) . Cai o Muro de Berlim. o triunfo da globalização. Em meio a essa euforia. justamente no momento em que caem as ideologias. segundo o qual a sociedade civil não existe e registra-se o triunfo do mercado. h á u m a grande festa feita pelos vencedores. incontrolável. o tema da desorientação? O final da história Para entender melhor.

com o desinflar da bolha especulativa dos mercados financeiros e com o rumo da recessão americana. tudo tem custo e preço. Assim. já estávamos na longa onda de crescimento dos anos de 1980. Há gerações que nunca viram uma recessão e pensou-se que a modificação das características de produção da economia – a internet. seguiu-se adiante em todo o percurso dos anos de 1990. a economia e o mercado. Contudo.” O terceiro elemento a ser lembrado é que os mercados precisam de regras: um mercado não é uma arena de guerra.Monografia que. Infelizmente. A segunda é que a economia é cíclica. toleram pouco a ideologia: ou seja. Na década de 1990. isto é. a atitude enganosa de favorecer o público. As regras atuam de forma que os atores do mercado partam em condições de uma não evidente desvantagem de muitos para uma vantagem de poucos: caso contrário. da competição entre atores e da mediação entre as diversas posições e diferentes interesses. a tendência à falta de crítica na leitura dos fenômenos e o fastio com que são tratados todos aqueles que dizem: “Desculpe. de sua ciclicidade. caso a competição não tivesse regras e as tendências monopolistas (140) . por outro lado. devido a sua natureza. nessa condição. mas realmente não concordo com isto. enquanto. era como se a ciclicidade tivesse desaparecido. a amnésia difusa foi ajudada por alguns dos elementos negativos da comunicação: o excesso de informações mal selecionadas. para muitos. Nós a descobrimos agora. juntamente com a história. esquecendo-se de quatro c o i s a s f u n d a m e n t a i s r e f erentes à economia e à política econômica. n u n c a d e v e r í a m o s n o s e squecer disso. a tecnologia da informação e a economia virtual – fosse o fim de uma condição estrutural da própria economia. com os sucessos de Reagan e de Thatcher. é a arena do intercâmbio. As quatro regras A primeira dimensão é conhecida por qualquer estudioso de economia como regra fundamental: não existe alimento grátis. não teríamos um mercado e sim um autêntico faroeste.

– não é fenômeno natural. O Mediterrâneo era um grande mar de globalização. há mais necessidade de governança. fundamentado em um contrato que liga os indivíduos. Devido à velocidade dos processos. mais carregada de contrastes e de contradições: assim. A quarta regra a ser lembrada é que o capitalismo é a estrutura produtiva e social mais flexível e mais reformável que pode existir. tanta riqueza para muitos. Os fenômenos são muito mais acelerados e rápidos. no qual todos comercializavam com todos. Aqui se introduzem dois conceitos fundamentais: a flexibilidade é uma questão de escolhas. O mercado – conforme foi sustentado com extrema clareza pelo pai do liberalismo. que derrotou quem estava do outro lado do muro justamente porque é flexível e reformável. aquela que foi historicamente capaz de sobreviver a todos os seus adversários. prescindindo das regras e da política e. fazendo com que desempenhasse uma profissão que não é a sua. induzindo-os a se comportarem de um certo modo e não de outro. a nossa globalização é mais ampla. Contudo. a globalização que vivemos agora é diferente da antiga globalização mediterrânea. porque no mesmo instante em que ideologizamos o mercado. Com uma diferença em relação aos dias de hoje: a variante que ora nos faz falar de desorientação e dificuldade de interpretação – o tempo. de políticas. Essa dimensão também foi esquecida. o desvinculamos das muitas regras e lhe conferimos a tarefa de produzir. todas as guerras que marcaram o Mediterrâneo foram guerras (141) . inclusive na primordial. Adam Smith. espontaneamente. Essas quatro regras sempre estiveram presentes na economia. das inter-relações e dos intercâmbios. ao passo que a reformabilidade depende das orientações que queremos dar-nos em um momento em que todas as coisas se transformam muito rapidamente. mais complicada. O mercado sem regras não é mercado. A melhor que já conhecemos até hoje e que provavelmente conheceremos por muito tempo. que durou até 1492. embora restringidas.Monografia fossem favorecidas sem limites. A bem pensar. assim. é fenômeno artificial.

se lido sob certo ponto de vista: a extensão da cidadania romana e a difusão da “romanidade” têm a ver com as leis e a língua.Monografia em busca de governança. A benevolência é um dos piores males da análise econômica e política. um dado que. Os seres humanos sempre alimentaram a ilusão de que haveria uma riqueza pronta para todos: é uma característica inextinguível da nossa condição humana. O crescimento da globalização incrementa essa riqueza e impele. na (142) . porém. milhares de pessoas nos chamados países do Terceiro Mundo ou nas áreas em vias de desenvolvimento. mais aumenta a riqueza e mais aumentam as diversidades. metade dessa população ganha menos de um dólar/dia. A confiança na capacidade da internet de produzir riqueza infinita é exatamente isso. Das 50 nações mais pobres do mundo. Sinceramente. Assim. Não há alimento grátis A experiência direta desses anos nos confirma como. na ausência de políticas corretivas. no decorrer desses anos. para fora da soleira da pobreza e em direção a uma melhor condição econômica. foi minimizado: o processo de produção de riqueza nas mãos de uma sociedade que representa um quinto ou 20% da população mundial. em vez disso. Há. termos enfrentado nesses anos o problema-chave de sua redistribuição entre os diversos países e dentro das sociedades mais ricas e sofisticadas. e a expectativa de vida raramente supera os 50 anos. uma dupla diversidade: interna e externa. Uma outra ilusão consiste na idéia de que ainda pode existir um Eldorado a ser conquistado. Então. logo. há 800 milhões de pessoas que vivem em condições desesperadoras. com duas “estruturas” disciplinadoras. tivemos um aumento consistente da riqueza sem. Creio muito. 34 são africanas. porém. que são atores de processos de crescimento bastante avançados. com os 80% restantes permanentemente de fora. creio pouco na consciência. O Império Romano é um grande autor de governança. Na África. Com efeito. a África é um problema e não somente para nossa consciência.

que poderia até mesmo ser denunciada pelos países da OCDE. Ou seja. as áreas gordas do mundo subvencionam agriculturas que não têm nenhum espaço produtivo particular e que vivem somente porque as barreiras estão fechadas. Assim. Uma miséria! Por que não gastamos essa quantia? Em parte. o dobro do que gastam para financiar a ajuda aos países em vias de desenvolvimento. escapa-nos a relação entre a nossa condição de conforto de vida e as condições incômodas às quais condenamos populações das áreas mais carentes do mundo. relembrando como – para reduzir à metade o número de pessoas que morrem de fome – bastariam 24 milhões de dólares/ano. 11 centavos de euro/ dia. mas não faça o que eu faço Mais um dado: os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) gastam 347 bilhões de dólares em subsídios agrícolas. das regras do (143) .Monografia lição de Adam Smith sobre o interesse. equivalentes a dois por cento do PIB italiano. então. Faça o que eu digo. Sobretudo. Existe o protecionismo e existe o subsídio. Depois pregam a necessidade de crescer. porque nos escapa a relação estreita entre o desenvolvimento das áreas fracas do mundo e a nossa segurança. abre-se uma contradição clara. mas que. mas. Como podemos fazer isto se justamente vocês. refere-se sobretudo à política dos Estados Unidos em alguns setores: agricultura e aço. exatamente diante de um problema de governança. Para todos. estamos diante de uma daquelas questões radicais do desenvolvimento contemporâneo. porque somos egoístas ou desatentos. Aqui. são os primeiros a fechar seus mercados?” Um julgamento severo sobre uma contradição autêntica. por outro lado. particularmente neste momento. da globalização e dos intercâmbios. que é uma forma de protecionismo indireto. Basta propor uma conta muito simples. os defensores da economia de mercado. imediatamente relevada pelos países em vias de desenvolvimento: “Fecham as fronteiras aos nossos produtos e impedem-nos de crescer.

Relembro uma piada mordaz do pre sidente do Banco Mundial: “Sem conseguir enfrentar os temas da pobreza do mundo. ou até mais. dessa forma. descontraída. mas os ajudamos muito pouco. nunca conseguiremos eliminar o terrorismo internacional.Monografia comércio internacional. Sabemos. mas abrindo a eles os nossos mercados. um cenário de hostilidade. de crise. Isso sem entender um dado essencial: quanto menos crescem economicamente e. mais corremos o risco de alimentar fenômenos distorcidos como as migrações em massa para o Ocidente e a rancorosa hostilidade fundamentalista islâmica. isto é. subvencionando. (144) . por outro lado. em certos casos até um tanto caloteira ou. mas não movemos um dedo para enfrentar a questão fundamental da utilização dos recursos europeus. Mas também. a sua economia agrícola esbanjadora. que mantém fechadas as suas fronteiras a muitos produtos dos países da margem árabe do Mediterrâneo. da abertura real dos mercados. Reflitamos sobre o ataque terrorista aos Estados Unidos. Em suma. como ao mau exemplo que vem dos EUA se poderia somar o da Europa. que leva consigo metade. de certa forma. social e politicamente. sobre o 11 de setembro e as Torres Gêmeas. assistencial. nós. Não é uma questão de humanidade. Logo nos encontramos diante de algumas questões-chave. que têm um discurso dissociado da ação. como a política agrícola. de falta de reconhecimento das “qualidades” ocidentais por parte dos países mais fracos. Sabemos como estes procuram crescer em relação aos países mais ricos. dos recursos comunitários. egoisticamente. europeus. um problema de segurança. de segurança. temos um problema aberto a respeito da margem árabe. ao mesmo tempo. não com subvenções. da possibilidade para os países em vias de desenvolvimento de comerciar para superar as suas condições de subdesenvolvimento. porém. Pregamos aos países da margem árabe o crescimento segundo as lógicas do capitalismo moderno. de prejuízo.” Sabe-se que Bin Laden não é um defensor dos pobres e que existe.

Mas a questão das diversidades tem a ver. por exemplo sobre a relação entre as novas gerações e o mercado. com as políticas internas que permitem o crescimento de cada país. errou os cálculos com a Argentina. Como enfrentar realmente. mas não com os pobres. quem paga. É uma velha regra econômica. Ora. (145) .Monografia Quem paga. ou jamais sairemos dessa ratoeira de uma riqueza concentrada e de um rancor que monta e produz álibis até em relação a quem. Pergunto-me. manda. como Bin Laden. não. portanto. etc. sem limitar-se aos “ventos de guerra”? Aqui. que arca sozinho com 18% de suas contribuições. manda e governa. da Organização Mundial do Comércio (OMC). Ou conseguimos enfrentar a reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI). para o qual foram direcionadas muitas críticas: responde aos interesses dos americanos. E em relação à governança e às reformas é preciso lembrar-se novamente da velha regra segundo a qual não há alimento grátis. porém: os erros do Fundo estão ligados à incapacidade dos seus analistas ou a uma série de opções que favorecem certos interesses em lugar de outros? Uma resposta interessante pode ser encontrada se olharmos as contribuições para o FMI: seu maior contribuinte é o Tesouro Americano. move-se sobretudo de acordo com os interesses do Tesouro Americano. O FMI não funciona como um órgão harmonizador no quadro de uma genérica composição de interesses internacionais. também. encaremos então o problema. Se tudo isso não nos agrada. a indispensável questão da luta contra o terrorismo. de quanto custa pagar uma contribuição maior para poder ter voz no capítulo sobre as intervenções do FMI. Uma escolha totalmente legítima: tem razão o Fundo e tem razão o Tesouro Americano. tem a ver com a guerra do petróleo e com os fatos internos da casa real saudita. manda. funciona mal. Tomemos o caso do FMI. retornam ao primeiro plano as questões da governança. se não paga. do Banco Mundial e de algumas instituições da Organização das Nações Unidas (ONU) para fazer os países mais pobres crescerem. Novamente: se paga. como na Europa.

certamente. incluindo os serviços de segurança. O risco é mensurável. outsourcing. a pessoas às quais não importa prestar. Quem quer que conheça os aeroportos americanos sabe que o pessoal da segurança geralmente é negro ou latino-americano. agora. não existe a margem da incerteza: estruturalmente existe a incerteza. Fear economy Paul Krugman escreveu recentemente um livro fascinante. a estruturas profissionais pouco especializadas. Dou um exemplo para entender o mecanismo. de imigração recente. mas também a condição estrutural de incerteza na qual estamos vivendo. com poucas perspectivas profissionais. qualquer hábil e m p r e e n d e d o r. em troca daquele salário. pouco seguras. Delega-se. portanto. No entanto. que é normal em economia (o capital é um fator de risco. mas o próprio jogo das expectativas que. em que define o estado atual da economia americana como fear economy. em uma condição de incerteza que modifica radicalmente não apenas o cálculo do risco. uma queda psicológica na incerteza. um serviço de alta qualidade. Qualquer bom economista. Também aqui valem as velhas regras: a salários altos e incentivos (146) . liberações apresentadas. de maneira aproximada. grandes concessões no mercado. que não é mensurável nem verificável. nessa fear economy. E estamos registrando. porém. por outro lado. q u a l q u e r analista financeiro sabe ler um business plan e calcular a margem de risco envolvida. economia do medo. para a economia. um aspecto delicado e oneroso como o da segurança. é fundamental. fazendo uma interessante distinção entre a categoria do risco. mal pago.Monografia Está ligada. mas mensurável. aos profundos sistemas de reforma para poder enfrentar não somente as transformações econômicas em curso. As companhias aéreas americanas delegam ao exterior uma quantidade de serviços. ao contrário da incerteza. chama-se também “capital de risco”). e a incerteza. Mensurável. Todos estamos. Anos 80 e 90. conseqüência estrutural de uma série de decisões que tomamos.

Monografia claros correspondem serviços elevados. Aquela reconsideração sobre a economia. mas especulativamente em termos de curto prazo. p u b l i c o u u m a c a p a muito bonita sob o título "Rethinking the economy" – repensemos os modelos da economia. a começar pela segurança dos aeroportos. a corrupção difundida. então. um dos jornais mais próximos da comunidade empresarial americana. corruptos e embusteiros. que revela o mau funcionamento dos sistemas de controle. nem sempre. Diz-se: “Tudo aquilo que é de mercado. os efeitos negativos da ideologização da função dos empresários e a queda dos ídolos (mas os ídolos estão sempre destinados a cair e. Há uma crise de modelo. A fina flor das grandes empresas americanas foi tocada pela onda dos escândalos. de Enron à Wo r l d c o m . justamente toda consciência leiga desconfia profundamente disso). aquela política que retorna em primeiro plano. são dimensões fundamentais para reencontrar uma orientação. Não por acaso. livre. nem tudo. Business We e k . A chamada da capa insistia em uma forte reavaliação da política. o Wa l l S t re e t Journal publicou que desde os tempos da Grande Recessão de 1929 não se viam tantas regras infringidas nos mercados americanos. deslocar o debate da desorientação na economia para a desorientação na política. aberto e competitivo. funciona”. no dia seguinte ao ataque terrorista às Torres Gêmeas. A dimensão da segurança dos aeroportos americanos nos dá o sentido da crise interna de um processo de liberação que é administrado não segundo lógicas de longo prazo. É preciso sempre ter claro que a beleza da economia é possuir uma robusta solidez e concretude. A lista é imensa. não é verdade. pois. mas não podem existir prestações de serviço altas com salários baixos. (147) . Crises de confiança Um outro elemento de reflexão são os mercados e as regras. E não podemos liquidar a questão falando de empresários liberais. gigantesca. isto é. Convém. a avidez. A propósito dos escândalos financeiros. do instrumento geral que governa – novamente a governança – os grandes percursos econômicos.

não há mercado que possa crescer sem um dado fiduciário forte. não só para os produtos financeiros ou para os serviços da Internet. à qualidade. tem a ver com a tomada de consciência. pena. posto para fora da comunidade dos intercâmbios e do mercado. Voltemos a raciocinar sobre as dimensões estruturais da economia. fazem sonhar. não há intercâmbios possíveis se eu não souber se o meu interlocutor é ou não um trambiqueiro. mais difundidas. banido. Trata-se de restaurar a confiança. Da crise de confiança. no entanto. Essa necessidade de recuperação da confiança impõe uma capacidade de reforma: pode-se brincar quanto se quiser com os fatos econômicos. a economia. Damo-nos conta de que o problema do crescimento norte-americano e europeu não é apenas o de refazer os cálculos com a concretude das coisas. na economia. que seja punido. gozam de forte suporte comunicativo e publicitário. mas também para os produtos das marcas mais sólidas. é política. Se a Walt Disney não tiver suas contas perfeitamente em dia. por exemplo. bem radicadas nos hábitos de consumo. Em suma. conta. E da crise mais estreitamente econômica e política. se for. de que aquele bolinho de carne não é tão bom como dizem. que sejam feitos por crianças que trabalham em condições desastrosas. A crise do McDonald’s. no final. Ou. se vinga das abstrações feitas: é um bom indício de orientação. são belos e funcionais. mas depois as coisas voltam aos nós fundamentais. A ética. E ai de quem não levá-la em consideração. A ética e os balanços. mas também de começar a enfrentar algumas questões estruturais da crise. Grande parte da crise da Nike vem do fato de que aqueles calçados possuem forte conteúdo imaginário. a Bolsa de Wall Street a punirá. E a qualidade deve ser respeitada.Monografia Peguemos novamente nas mãos a revista Business Week: a questão-chave – prossegue o autor – não é econômica. por parte de muitos consumidores norte-americanos. O superdólar A economia americana foi erguida sobre um desequilíbrio – sanado provisoriamente (148) .

os EUA não mostram uma clara linha estratégica de comportamento. o superdólar. então. Ora. Diante de tais tensões. sob forma de comparação monetária. os EUA bancam a superpotência internacional por própria tentação. em parte. que correspondia a uma política externa que apresentava os Estados U n i d o s c o m o ú n i c a s u p e rpotência. Mas também a imposição. durante longo tempo. O superdólar. mais expostos que os outros às críticas e às contestações. O buraco da balança comercial que os norte-americanos mascararam até ontem. A chave de tudo foi.Monografia – entre uma balança comercial deficitária e um balanço de pagamentos fortemente ativo: um afluxo de capitais externos compensava seu defluxo de capital para pagar suas importações. mas também por efeito natural de um processo de compensação do vazio alheio. Pois bem. Ficam. no centro de um mecanismo de contradições e de reivindicações. da função de domínio dos EUA nos processos internacionais. sonhador. Rússia e China). toda a sua fragilidade. mas em uma forte carência de outros grandes atores. como revela o 11 de setembro e como se teme que acontecerá ainda por longo tempo. hoje. O que era o superdólar? Não somente o efeito da distorção da qual falamos. aquele desequilíbrio revela. camuflados. Mas as realidades macro-econômicas cedo ou tarde impõem a sua verdade. podem apenas ser mascarados durante certo período. dizíamos. Oscilam entre a inteligência de um indispensável equilíbrio internacional multilateral (EUA e também Europa. E abre uma outra questão – novamente política – do reequilíbrio das políticas internacionais em relação às políticas econômicas. se desinfla. Os buracos não podem ser eliminados. da capacidade de atração de capitais internacionais por parte de um mercado financeiro. Um domínio fundamentado não tanto e não apenas na capacidade expansiva dos EUA. funcional e. E é preciso ter a coragem para enfrentá-las. hoje é muito visível e alarmante. de outros fortes reguladores dos problemas do mundo. compensados provisoriamente. no quadro de uma busca a cada (149) . em parte.

Essa oscilação do pêndulo entre multilateralismo e unilateralismo. decidimos a lista dos países inimigos e preparamos a guerra. vamos aonde bem entendemos. da constituição. de que modo ajuda a orientação de nós. com ou sem o consenso dos outros. seja do ponto de vista das valências econômicas. continuamente derrubamos os aliados do cavalo. A política desses últimos meses é absolutamente fechada e unilateral: somos policiais do mundo. naturalmente. Mas em seguida. A crise ideológica torna paupérrima a política dos EUA e fragilíssimo o seu sistema de segurança. fazemos aquilo que consideramos mais útil para os nossos interesses. começam a recuar. (150) . concretizamos com sucesso o extraordinário processo do euro. que em longo prazo pode enfraquecer a América do Norte e. para a Europa. fosse privada de um centro de referência e de identidade. diante de uma série de desafios. Coloca também.Monografia vez mais amplos consensos internacionais. a moeda é um símbolo. freiam e reavaliam o poder dos antigos Estados Nacionais. Posição perigosa. ou se quisermos dizer isso de outro modo. do governo político europeu. seja daquele das lógicas da política: a moeda não é só um instrumento econômico. não sabem como se movimentar. todos visíveis e analisáveis. todas as democracias ocidentais. Mas aqui paramos: todo o debate sobre a Europa é um debate entre países que. com ela. conforme confirmou a política externa estabelecida por Bush na campanha no Afeganistão. numerosas questões: O que é a União Européia? Que política possui? Qual o seu papel como ator internacional? Cresce? Ou retroage? Em suma. a política econômica norteamericana. europeus. particularmente desorientados? Não há moeda sem espada Nós. com ou sem os nossos aliados. Debatem sobre o avanço da integração. nas decisões concretas. depois da moeda única. europeus. É como se a política externa norte-americana. que é uma constante da política norte-americana. nunca foi tão acentuada em um breve período e tão desorientada e desorientadora como nesse último período.

a Europa. educacionais e sanitárias. a história nos ensina que não há moeda sem espada. em nossa casa” é dizer uma mentira. de gente que vem e gente que (151) . existe e deve ser enfrentada em muitos aspectos. nos países em vias de desenvolvimento. um momento político que forneça os objetivos do próprio crescimento em escala internacional. que afirmam a própria antiga soberania sem conseguir jogar com a dupla soberania necessária à Europa.Monografia Contudo. o global e o local. não é algo que delegamos a um Ministro do Interior ou a uma autoridade policial eficiente e depois lavamos as mãos. nem no tema do alargamento até os países do Leste. Trata-se de dois temas fundamentais da nossa política: segurança e desenvolvimento. É uma questão que se refere ao desenvolvimento. Uma questão que. Repensar a política para governar a economia A imigração não apresenta apenas um problema de segurança. uma política que não saiba enfrentar seus desafios fundamentais: o do welfare a ser reformado e o da imigração. não existe política econômica possível sem uma política internacional. nessa situação de desorientação. Sob esse ponto de vista. prevaleça. Isso significa conseguir administrar políticas de stop and go de um lado. como Estados Nacionais. Qualquer estudo bem feito sobre as situações sociais e os fluxos migratórios demonstra como ao crescimento das condições econômicas. nacional e internacional. Vejamos o debate em curso sobre a imigração: não se acha uma linha comum. No que tange aos medos. em vez disso. estamos diante de um europeísmo compromissado. é absolutamente carente. Mas. Dizer: “Ajudamos os países em vias de desenvolvimento lá na casa deles. residuais. uma fear economy. tenho receio de que. corresponde um aumento nos fluxos de migração e não uma diminuição. e políticas bilaterais. em todo caso. também na Europa. para que não venham quebrar nosso equilíbrio aqui. sobre o qual é preciso raciocinar tendo diante de si um quadro de grande complexidade. mesmo depois de ter criado o euro.

um mercado que funcione em sua circularidade. Essas são as questões que precisamos enfrentar. manter os mecanismos constantes. Antonio Calabrò é chefe de editorial do Il Sole 24 Ore. intercâmbios muito fortes no plano internacional. assim. formação e utilização de recursos dos países dos quais vem a imigração para fazer crescer os nossos países e. obrigando-nos a repensar a política para governar a economia: novamente uma questão de governança. (152) . principal diário econômico italiano. tendo juntamente lógicas de desenvolvimento econômico local.Monografia vai. de outro.

Naqueles planetas racionalidade que será uma célula.quenas bolhas. do paraíso. perguntas se fará. relação a uma bio-informáticas. o que quer. As nossas insistentes proteiforme? preces serão ouvidas e nos Um dia se acenderá na Criatura transformaremos em máquinas: uma centelha de volição e ela fortes. só as coisa de inaudilagos profundos. Dentro. as muse mostrou invasiva superorganismo já lheres não farão mais possui uma fervente filhos com o corpo. ao lado de lapidado. homens e mulheres lanternas mágicas e de dinosdormirão um sono profético. mas. em tegrado em próteses cidades celestes. Os úteros acacada qual num ovo de cristal barão nos museus. nosso redor alguma mais obscuros. Este tão distantes. Há to: uma Criatura bitados por estirpes uma desconfiança Planetária da qual anônimas inexplicadifundida. indas.dos observatórios terão as cará o cosmo por séculos e séculos vidades amarelas e vermelhas de escuridão sideral. que histórias em sintonia com a precisão da vai contar esse ser múltiplo e ciência. sauros embalsamados. da reprodução. hafez lampejar. zarpará em direção às Plêiades: Somente as mulheres de cera qual certeira espaçonave risca. demais. inteligência coletiva entre jatos e pee destilará sua turva consciên.Monografia A desorientação na ciência Giuseppe O. de em vez disso. A espaçonave aberto as portas nascer em nós e ao irá a outros planetas. Longo Em outros guardando no corpo Chegamos a planetas gélido o sangue e o acreditar que a Com entusiasmo e esperma de uma raça ciência nos havia desalento sentimos futura. Tornados (153) . inoxidáveis. que sistema mais dignitoso e exato. Será criado um cia: quem é. senão todo ser humano. duras. povoados por uma recusa.

assemelham-se ao homem primitivo. facilitada pelas discussões. A crise da ciência Essa premissa. e Max Planck (154) . absolutamente imaginária. que vive na consciência. então. Criaremos um mundo preciso e pontual. há uma categoria de cientistas que se encontram num estágio mais primitivo. Se for verdade que por sua natureza finalista o ser humano é desestabilizante. pelos encontros. Ao contrário. No início do século XX difundia-se uma vasta e aplacada sensação de plenitude. Oniscientes e insensatos. Ao menos nas ciências físico-matemáticas parecia-se estar a um passo da meta final: a representação. Ciência e tecnologia são produtos intelectuais muito importantes de nosso tempo. nos dedicaremos a uma inócua e refinada imitação da vida. seremos imortais. porém não estão isentos de problemas. pela troca de opiniões e pela circulação global de quantidades cada vez maiores de informações. descrição e explicação “verdadeira” do mundo. O conceito de orientação é típico da contemporaneidade. os animais): trágico porque sabemos que as nossas decisões podem trazer conseqüências irreversíveis e irreparáveis. é preciso tê-la tido. é acompanhada de um sentimento trágico da vida.Monografia máquinas. A pesquisa científica celebrava seus triunfos: Marcelin Berthelot podia dizer que a química. onde reinará a demência onipotente dos autônomos. já não tinha mais segredos. os povos vencidos. existe. uma grande diferença ética e prática entre ser consciente e ser inconsciente dessa característica. inconsciente de sua capacidade desestabilizante. Quando perdemos a orientação da ciência? No entanto. Essa consciência. enfim. Retornemos à ciência. poderia servir para temperar um certo excessivo otimismo que me parece esvoaçar ao redor de alguns setores tecnológicos e tecnófilos da nossa sociedade. nesse sentido. e que são levados a observar a regra que impõe fazer tudo aquilo que se pode fazer. derivado da responsabilidade em relação ao outro (as gerações futuras. caracterizado por uma certa falta de reflexão consciente. para termos perdido a orientação.

mas tratavam-se de inércias. alguns detalhes inexplicados. O nascimento da mecânica quântica Nas primeiras décadas do século XX. Richard Feynman. próxima da pacífica meta da completude. uma revolução de peso incrível não somente no campo da física. como a radiação do corpo negro. nasce a mecânica quântica. mas a arquitetura do conjunto escapava. aquela grandeza não possui valor determinado. pelo qual. Dali a alguns anos. Vislumbrávamos alguns detalhes: aqui os pés de uma estátua.Monografia estava convicto de que a física estava. com aquele imediatismo perceptivo que preludia reflexões posteriores. obviamente. Permaneciam. como se entende o nosso estar aqui. o grande físico americano. Parece que o mundo é um enorme sistema único. que os instrumentos da física clássica não conseguiam justificar. o sujeito pode preparar o sistema que está estudando para que lhe dê respostas. antes da medida de uma grandeza. afirma que “não há pessoa que realmente tenha entendido a mecânica quântica” no sentido em que são entendidas as coisas do mundo. nos dávamos conta de que só havia sido explorado o limiar e através daquele obscuro furo do corpo negro entrávamos numa cavidade imensa armados apenas com a luz de uma tocha. mais rica e complexa do quanto tinham imaginado. então. A ciência tinha entrado numa crise que deveria conduzir a uma grandiosa revolução conceitual: daí a desorientação. por hora. Os cientistas começavam a suspeitar que a realidade podia ser muito diferente. mas também no da epistemologia e da filosofia. mais adiante a base de uma imensa pilastra que desaparecia na escuridão de um teto muito longe. que constitui uma transformação epocal. em certo sentido dependentes de sua presença. se duas partículas interagiram ‘aqui e agora’ (155) . ali a moldura de um quadro. Na mecânica quântica tudo é de certo modo louco: o objeto e o sujeito não são mais separáveis como na física clássica. aquela que parecia uma fenda superficial revelava-se o ingresso para o reino inquietante de um novo mundo: parecia que havia sido dimensionada a grande catedral da ciência e.

ao contrário do que ocorre com as quantidades físicas até então consideradas centrais na explicação científica do mundo (matéria e energia). universais. Um outro elemento dessa revolução conceitual. determina-se o conceito de código. que justamente o computador contribuiu. na (156) . que permite transferir a informação de um suporte para outro. Quando é trocada a informação. é o nascimento da teoria da informação. como pensava Laplace: não. nessa perspectiva. é aquela denominada teoria da complexidade ou do caos determinista. Causas internas da transformação da ciência Assim. que coloca no destinatário o sentido e o significado das mensagens. Por outro lado. marcadas pela incerteza e pela indeterminação. partindo de seu interior. Mas em vez disso. Com essa. deterministas. aquelas leis que os físicos andavam procurando na convicção de uma subjacente simplicidade do mundo resumível em uma única fórmula capaz de nos permitir o acesso à visão última de Deus ou da realidade. A implantação conceitual dessa nova visão da física demonstra o quão revolucionária é pela circunstância paradoxal de que um dos pais da mecânica quântica. seja qual for a distância em que se encontrem e interagirão de imediato. o caos faz parte intrínseca do mundo. da física em particular. retornam ao quadro da física o tempo irreversível. a última grande causa interna de transformação da ciência. Essa máquina. Um dos resultados mais evidentes e preciosos dessas revoluções internas da ciência é que não existem leis fixas. com a teoria da informação. sem retardo temporal.Monografia serão ligadas para sempre. as quais se dividem pelo número dos participantes. Quero observar. paradoxalmente. a mecânica quântica põe em crise a ciência clássica. tem-se um coacervo de leis estatísticas. nunca a aceitou integralmente. Na ordem do tempo. para que adquiríssemos uma visão indeterminista do mundo. O caos não é devido à nossa ignorância. Albert Einstein. que um dia será superada. a imprecisão e a sensibilidade às condições iniciais. ainda dentro da ciência. ela se multiplica pelo número dos participantes no jogo.

uma máquina que havia sido concebida para ordenar. Entra em crise a fé no tempo reversível típico da física clássica. mas também o conceitual: passa-se de uma visão estática do mundo. Nesse quadro tumultuado o pensamento evolucionista de Darwin adquire um peso cada vez mais relevante e estende-se para além dos limites da biologia. simplicidade e precisão na enorme massa de dados que iam se acumulando. os físicos sabem que também em sua descrição da realidade existe um tempo irreversível: o tempo reversível da física clássica é um tempo de opereta. através do estudo da complexidade. retorna a história que os físicos se esforçaram para expelir. Logo. Hoje. também houve importantes causas externas que conduziram a uma modificação da ciência e da nossa atitude em relação a ela. O impetuoso desenvolvimento da inovação técnica impediu a ciência não só de preparar o terreno para a construção das máquinas e (157) . fornecendo a teoria sobre seu funcionamento. estatística e indeterminada da realidade.Monografia ingênua visão inicial. heraclítea. fictício. Antigamente a ciência preparava as invenções e os instrumentos técnicos ou ao menos os justificava e os explicava em seguida. a mesma fé que impelia Einstein a escrever à viúva de seu amigo Besso: “Para nós. a tecnologia. A revolução da ciência não envolve somente o âmbito operativo. devido à velocidade do desenvolvimento. mas. de fato desordenou a visão do mundo. da mecânica quântica e da informação. para uma visão dinâmica. isto é. Conforme aludi. se quisermos parmenídea ou platônica. trouxe uma visão complexa. que serve para construir o formalismo. na física retorna o tempo irreversível. Causas da transformação da ciência ligadas à tecnologia Ao lado dessas causas internas. a diferença entre passado e futuro é uma tenaz ilusão”. na qual tudo está em transformação. devia impor ordem. que cremos nas leis da física. para deixar um sinal de si em toda a ciência. superou a ciência. é uma abstração útil numa primeira aproximação e em âmbitos limitados. exatamente pela grandiosa capacidade de cálculo. Mas no século XX.

cessa rapidamente de ser visível e torna-se transparente. que não exige explicações. mas também de explicar seu funcionamento a posteriori. não as postula. durante séculos. estamos contentes. sofrem uma manipulação forte e geralmente pouco idônea. tornam-se outra coisa. hoje está cada vez mais em crise. dos computadores e das redes. conceitualmente diferente dos anteriores: o instrumento da simulação. quando é importante e penetrante como a informação. fazer aflorar a complexidade do mundo para enfrentá-la. o intuito fundamental da ciência. Sob o ponto de vista epistemológico. e nem nos interessa saber porque ou como funcionam. é uma prática que se situa numa virtualidade. para os quais só se conhece uma coisa quando se sabe construir uma teoria sobre ela. A tecnologia. a tecnologia começa a produzir seus efeitos e seus condicionamentos mais importantes e sutis. A simulação não é teoria nem experimento. espaço e causa-efeito se confundem. numa espécie de cyberespaço. Nesse âmbito nasce um instrumento para o estudo da realidade. Quando começamos a usar os instrumentos tecnológicos com a mesma desenvoltura com que utilizamos os instrumentos do nosso corpo. eficaz e eficiente. trata-se de uma mudança extraordinária: é uma reviravolta daquilo que foi. e desse mundo essencialmente manipulador. as categorias tradicionais do conhecimento. aquelas fundamentais de tempo. exorcizá-la e reduzi-la à simplicidade. porque são (158) . Homo tecnologicus Um dos setores tecnológicos mais importantes do século XX é. insinua-se na sociedade que a adota e nos indivíduos que a usam. natural e artificial. Na simulação. de uso elementar. oculta a complexidade dos seus manufaturados sob interfaces amigáveis e sociáveis. Hoje. obviamente. que se apresenta fácil de usar. o tipo de conhecimento que herdamos dos gregos. Assim. instrumentos e sistemas que usamos quase sempre sem nem saber como funcionam.Monografia dos sistemas. isto é. Ela sobrepõe ao mundo natural um mundo artificial. o da informática. a tecnologia nos oferece objetos. ao invés disso. A tecnologia. da informação.

de forma muito rápida. desde que a nossa espécie ou protoespécie começou a manejar instrumentos. enquanto os resultados da evolução biológica de tipo darwiniano são fortes e lentos. modifica a si mesmo e essa modificação contínua apresenta-se no cenário do mundo desde o tempo do homo habilis. de artificial e biológico. A mestiçagem entre homem e instrumentos produz um efeito inesperado: o acento da pressão seletiva desloca-se continuamente. O ser humano possui uma grande capacidade mimética: a cultura. as idéias e as modas difundem–se por imitação. podem também ser produzidas mudanças de tipo genérico.Monografia inconscientes. oposta à robustez da natureza. As contínuas modificações do ambiente produzidas pelo homem postulam uma modificação constante da espécie que habita esse ambiente. profundo. da ciência e da técnica. com base na herança dos caracteres adquiridos. modificando o ambiente. A longo prazo. a visão teórica herdada dos gregos é hoje superada por esses processos tecnológicos que assemelham-se muito à (159) . isto é. Naturalmente. porque opera numa unidade biotecnológica que é continuamente diferente. com os manufaturados e com as máquinas que ele constrói e com as quais interage. uma espécie de simbionte de máquinas e homem. Graças à presença da cultura e. o natural e o artificial tendem a confundir-se. numa situação de risco que pode lançar-nos de uma hora para outra em uma catástrofe. em particular. depois apresentam-se mudanças de tipo cultural. os lamarckianos são velozes e frágeis. O homem. A hibridação e a mestiçagem contínuas do homem. conduzem ao que chamamos de homo tecnologicus. a evolução biológica e a evolução tecnológica tendem a fundir-se. No homo tecnologicus. nunca deve fazer esquecer que vivemos sempre no fio da navalha. A fragilidade é um dos aspectos importantes da tecnologia e do mundo artificial que criamos e. Assim. A hibridação conduz a mudanças de tipo perceptivo e ativo. aos lentos mecanismos darwinianos da evolução biológica somam-se rápidos mecanismos de tipo lamarckiano.

o perigo de um reducionismo total da vida às suas dimensões racionais-computantes. talvez. ou certamente apenas o que é cientificamente demonstrável. ainda que não sejam as melhores possíveis sob o aspecto teórico. a transformação que a ciência vem sofrendo possui também outros componentes.. Assim. Talvez nem a biologia o consiga. que amanhã serão superadas mas hoje funcionam. Trata-se de causas que podemos definir como sociais. a frustrar.. é um erro que insere conseqüências desastrosas [. de chavascar soluções temporâneas e extemporâneas. Isto naturalmente inclui muitos riscos. Iludimo–nos de obter da ciência uma explicação total do mundo. extraídas do seu livro Gli otto peccati capitali della nostra civiltà: “Crer que faça parte do patrimônio estável da humanidade somente aquilo que é compreensível por via racional. Nasceu absolutamente como substituta da religião. o imaginário coletivo cultivou. expectativas de tipo salvífico. de emendar certos defeitos.Monografia bricolage: a internet foi criada por bricoleurs muito hábeis. até pela fragilidade dos sistemas tecnológicos. porém não tem capacidade para resolver os problemas que as religiões tradicionais resolviam ou procuravam resolver. que no entanto nem a física. porque afasta.] e induz a jogar ao mar o imenso tesouro de conhecimentos e de sabedoria contido nas tradições de todas as antigas culturas e (160) . em geral. nem a inteligência artificial e nem as outras disciplinas conseguiram dar. Certamente foi uma grande desilusão. mais tarde. Também aqueles que trabalham no setor das biotecnologias fazem grandes operações de bricolage. Gostaria de citar algumas linhas iluminadoras de Konrad Lorenz. radicados na mutação que sofreu a nossa imagem da ciência. A ciência. não possuem uma teoria importante e profunda que explique e possa prever as conseqüências das suas manipulações. que esta veio. em relação à ciência. Causas sociais da transformação da ciência Além das causas internas e das causas ligadas à interação com a tecnologia. Mas essa decepção também possui aspectos positivos. que estão continuamente em busca de aperfeiçoar localmente. apresentou-se como uma religião.

Não devemos. é interessante que hoje. A tecnologia da imprensa tinha anulado o tempo. a história. O significado que atribuímos a tempo. não pode quase nunca comunicá-las. os sentimentos e as intuições. a razão é um instrumento de importância fundamental. tenda a ser anulada: achatada num eterno presente. da simulação e da rede provocaram toda uma série de desabamentos culturais.Monografia nas doutrinas das grandes religiões universais [e a] viver na convicção de que a ciência é capaz de dar vida do nada. As conseqüências do advento da informática na cultura A introdução do calculador e o acesso ao grande jogo manipulador do cyberespaço. graças à tecnologia da informática. inevitável que certos conceitos. unicamente por via racional. permitindo alargar desmedidamente o raio de ação do texto no futuro e uma propagação sem precedentes da cultura. mas a racionalidade chegou em último lugar entre as faculdades do homem. memória mudou quase que inadvertidamente: mudou o significado operativo e a referência epistemológica. se transformem. Se o homem não consegue filtrar. ligados a esse grande ressonante circo em que nos encontramos projetados quando nascemos. certos pontos de referência. através da razão. com uma frieza implacável. causa um sofrimento devastador. onde não existem mais distâncias. sacrificar tudo exclusivamente à racionalidade. muito antes se desenvolveram as percepções. nas quais se baseiam a sensação e o sentido de nosso estar aqui no mundo. a uma cultura inteira. Não existe o claro-escuro que na memória humana deriva da interação entre memória e esquecimento. É. então. espaço. com tudo aquilo que ela comporta”. como momento de organização e de interpretação do passado e de orientação para o futuro. As grandes memórias artificiais conservam. todos os dados do mesmo modo. Conectar-se à rede significa entrar num espaço virtual. a rede opera a mesma anulação em relação ao espaço. num não-lugar. Hoje. Portanto. pois. Quanto ao tempo. desaparece como dimensão cronológica. nas memórias artificiais não existe (161) . as suas intuições e emoções.

de sentimento. Na lingüística e nas ciências cognitivas nascem mitos extraordinários: o mito do tradutor universal. mas. na qual a demonstração não esteja mais no centro da cena. o mito da inteligência artificial. quem interage com a rede deixa-se condicionar e permuta certas atitudes que podemos definir como históricas. todos esses mitos são destinados a confrontar-se com a natureza do homem. a perspectiva histórica. Como nasce a desorientação? A desorientação nasce da rapidez abaladora da inovação tecnológica e de suas conseqüências. e é contagiada pelo mal evolutivo. Naturalmente. porque a rede nos ilude em onisciência e onipotência. o mito da onisciência. Contudo. logo. também ela. descobriu-se a complexidade e a indeterminação. não mais do tipo materialista e sim do tipo informacional. outros começam a fornecer demonstrações de probabilidades em que a tese não apresenta mais certeza absoluta. estamos diante de uma espécie de reducionismo. Trata-se de modificações profundas. A matemática torna-se.Monografia o filtro das emoções. como dito. que fixa uma lembrança mais que outra. experimental. que talvez anunciam uma mudança do paradigma radical naquela que é considerada não somente como a rainha das ciências abstratas. mas também como a imagem terrena do Hiperurânio. também este empobrece aquilo que toca. Sob o aspecto epistemológico. A informática também possui efeitos importantes em algumas disciplinas particulares. alguns matemáticos são impelidos a declarar que é preciso construir uma nova matemática. que ainda precisa de pão e água. mas somente uma certa probabilidade. Na física. não só na vida cotidiana mas também nas camadas profundas de nosso ser. De Euclides em diante a matemática baseou-se na demonstração precisamente euclídea. como todos os reducionismos. Hoje. A globali- (162) . Um dado existe ou não: não se tinge de nuances. uma disciplina histórica. Assim. mas o computador coloca em crise esse conceito e todo o edifício da matemática. falta o colorido sombreado da temporalidade. de comoção. A redução a um só princípio converge para a informação.

com as suas convocações econômicas e financeiras. no momento em que as máquinas começaram a possuir capacidades menos rudimentares. nos competia. O ser humano sempre delegou a outros certas tarefas e responsabilidades: aos animais domésticos e aos seus semelhantes. Tenho a impressão que sobretudo os jovens percebam esse (163) . Mas trata-se de uma recusa da racionalidade em si ou é uma reação no modo em que a racionalidade se colocou? É claro que esse fenômeno histórico que chamamos ciência ocidental possui características e méritos importantíssimos. isto é. Um componente importante da desorientação é representado pela delegação tecnológica. na origem. senão de recusa. a desorientação nasce de uma situação complexa. avaliação. o sapateiro. pelo menos. entrelaçada de componentes que não são apenas de ordem tecnocientífica e comunicativa. não foi dito que seja um fenômeno duradouro: pode ser que sob o incômodo da tecnologia e de novas formas de aquisição do conhecimento seja destinado a desaparecer ou. análise e transmissão que. o médico.Monografia zação. o conceito de responsabilidade dilui-se e emergem muitos problemas ainda não enfrentados: quem será responsável pelas ações e pelas decisões quando o homem está completamente mestiçado com a máquina? A quem confiar a tarefa de tutelar os direitos de terceiros em relação àqueles que cometem erros porque confiam na máquina? Tudo aquilo que dissemos até aqui enquadra-se hoje numa difusa reação de desconfiança. de vagos misticismos que são deplorados pelos cientistas. capacidades e responsabilidades. de irracionalidades. aos especialistas: o padeiro. A enorme e crescente massa das informações produzidas e intercambiadas nos obriga a delegar às máquinas muitas funções de elaboração. Depois. Com a delegação tecnológica. o advogado. começamos a delegar a elas algumas de nossas funções. em relação a uma racionalidade que terminou por mostrar-se invasora demais. a declinar. mas de natureza econômica e mercantil. Portanto. porém algum aspecto discutível. uma reação que se configura como recuperação de fumosidades mistificantes. No mais. dá um impulso hercúleo a essa rapidez.

diminuiu de modo perceptível a propensão para inscrever-se nas faculdades científicas. baseado na teoria e no primado da mente em relação ao corpo. ou rápido. É um momento de forte desorientação: chegamos a acreditar que a ciência nos havia aberto as portas do paraíso. ocaso de um tipo particular de ciência. só as fez lampejar. Giuseppe O. mas. (164) . em vez disso. Longo é professor de Teoria da Informação na Università degli Studi di Trieste. Com efeito.Monografia lento.

mas um ponto de referência con. que também signimuito tempo. O que significa. construídas de maneira que se quiserem. o oriente era o ponto de o lugar onde o sol nasce era referência fundamental. Ora. o oriente em busca de direção: pois. não as coisas que traz a herança de só a nossa. mas também podia ser mais. esses sinais. os conceitos ladora desse ponto é o pensamento de que utilizamos.Monografia O confronto das civilizações Paolo Branca “Orientar-se” o sol atingisse a “Senhor. quando é que estando desorientar-se? Estar deso.na Arábia tem-se o Yemen rientado? Não achar o orien. As nossas paé uma língua revenão posso mudar” lavras. dai-me a Freqüentemente abside. conde vista: os nomes Tomás Morus. Da o principal ponto cardeal de mesma forma. em particular. trazem posso modificar e um mundo que. Olhava-se para fica “esquerda”. se o nome Yemen.já faz muito tempo que não é creto. norte se diz referência? Certamente há “Shamâl”. Também as força para mudar nossa linguagem outras línguas. a essa palavra ligapor longo tempo. de vida. As igrejas eram repartição do mundo. de xe uma revolução também na luz. literalmente. que tinuam ligados em “Sul” e “direita” poderia ser adotado sua origem e etimopossuem a mesma como um possível logia à relidade que raiz: Y-M-N. Trata-se. Antigamente. aceitar aquelas que mais. já não existe be. O áraa paciência para enfim. O desenvolvimento da interpretado simbolicamente tecnologia e das ciências troucomo nascente de calor. Yamin manifesto da os gerou e à qual quer dizer direita e talvez sobrevivam tolerância universal.exatamente à direita? Quando te? Mas quando o oriente foi se olha para o oriente. de uma pequena (165) .

a hipótese segundo a qual os grandes conflitos que esperam a humanidade não serão mais os ligados às ideologias. entre as várias civilizações que estão em jogo dentro desse fenômeno global. Tão crucial que o politólogo americano Samuel Huntington teorizou o “encontro das civilizações”. Conhecer o outro O problema com o qual hoje devemos nos defrontar. identificado mais por problemas políticos. certifico melhor a minha identidade. Se o outro me cria um problema. é o da alteridade. Em outras palavras. como reverso da medalha. os “inimigos públicos” por excelência eram todos muçulmanos: Khadaffi. Depois do 11 de setembro. E é bom que essa aproximação nos provoque e gere problemas. que até bem pouco tempo atrás era representado por um outro oriente. o da identidade. Saddam Hussein e por aí afora. ou seja. geo-estratégicos. ideológicos. sobretudo e precisamente porque o mundo tornou-se tão pequeno que os contatos e os deslocamentos são tão fáceis e freqüentes. O outro não é mais aquele que vive na casa dele. Khomeini. distante. não é mais algo do futuro e sim uma realidade: já antes de Osama Bin Laden. em parte. Com base em sua análise. que culturais. É um tema que está se tornando crucial. nessa relação com ele. tenho de esclarecer quem eu sou em relação a ele e. o exótico que mora além do oceano. e sim às identidades culturais. Devemos sempre lembrar que o problema da alteridade possui. sobretudo depois da queda do Muro de Berlim e da dissolução do Império Soviético. essa percepção acentuou-se ainda mais e não é preciso lembrar as expressões (166) . o Islã ocupa lugar de destaque e é o candidato ideal para assumir o posto daquele grande antagonista do ocidente. começando. como no recente passado. por a fazer vibrar dentro de nós toda uma série de consciências que reencontraremos nas reflexões desenvolvidas daqui em diante. Tudo isto. o confronto mais crucial que parece delinear-se será aquele entre a civilização ocidental e a islâmica. mas é alguém com quem temos cada vez mais chance de entrar em contato. Ele destacou no mundo algumas áreas destinadas a se enfrentar.Monografia nota marginal.

É mais fácil gerar-se mal-entendidos quando existe maior comunização de elementos originais. cedo ou tarde. assim. intitula-se Di fronte all’Islam e na introdução declara explicitamente que com isto entende-se o adversus dos tratados medievais com os quais se combatiam as heresias. exceto a islâmica. é um livro que se enquadra na literatura de contraposição. o grande antropólogo Lévy Strauss definia o Islã como “o ocidente do oriente”. não apenas por contigüidade geográfica mas também por raízes comuns. um país que aceitou a economia de mercado. a mais próxima de nós. No entanto. sem tê-la estudado a fundo. entendendo que entre todas as civilizações do oriente. que são orientais menos exóticos. a proferir algum enorme disparate. Se tentarem falar uma língua do mesmo tronco que a sua. como geralmente acontece. Os muçulmanos são portadores de uma visão de mundo que pela própria natureza não é assimilável. o livro sobre o multiculturalismo de Giovanni Sartori 2 é revelador. entrou no universo capitalista e parece um oriente menos exótico que os outros. De fato. Pensemos no Japão. institucional. econômico. Também outras pessoas expressaram-se em termos análogos e bem antes desta data. à mesma conclusão: todas as civilizações são integráveis. às vezes não nos entendemos de uma maneira ainda mais clara do que com os representantes de culturas do Extremo oriente. o livro de Baget Bozzo é impressionante 1. Precisamos (167) . Chega-se. deduzir que. como ocorre entre as línguas. assim como com os judeus. Com os muçulmanos.Monografia viscerais que pudemos ler nos artigos e livros de Oriana Fallaci. é antitética à nossa e o grande problema que temos que enfrentar é exatamente este. Segundo admissão do próprio autor. talvez. percebido como menos exótico por razões de cunho político. Sob este ponto de vista. Poderíamos. é mais difícil existir comunização entre parentes que entre estranhos. facilmente adquirirão uma certa afoiteza que vai levá-los. No meio dos intelectuais de diferentes linhas e orientação também encontramos algo semelhante: a esse respeito. a islâmica é a mais ocidental.

Em nosso conceito de religião. assim como o judaísmo: é uma ortopráxis mais que uma ortodoxia. não somos chamados a descobrir o mistério. que é filha da minha história. como um alemão (168) . atribuo a ele um significado universal. confrontar o Islã com o ocidente? São duas realidades homogêneas? O que é o Islã? Se perguntarmos isto a um indivíduo na rua. é bem difícil que os muçulmanos se convertam a outras religiões. de Deus. Mas a palavra religião seria a mais adequada para definir o Islã? Quando uso o termo religião. Eles sim. com essa palavra exprimo meu modo de entender a religião. ligado aos princípios e ao credo. caminharam uma ao lado da outra. Segundo o Islã. nós. se nos detivermos um momento apenas para refletir nas palavras que utilizamos e sobre os conceitos que elas veiculam. Mas. nossa desorientação aumenta. do encontro e desencontro entre Islã e ocidente. Sou eu quem considera fundamental para a fé a convicção na adesão intelectual ao dogma. que por sua vez tem bastante a ver com a filosofia. E terá razão. Um muçulmano é muçulmano. porque cada uma delas tendia a penetrar no campo da outra. acreditando que todos os povos do mundo entendam por religião a mesma coisa. mas sim chamados a lhe obedecer. transfiro para eles um modo meu de aderir à fé. O Islã é uma religião quase privada de teologia. Para um muçulmano. trata-se de uma pertença mais totalizadora. O que é o Islã? Quando falamos do confronto. Nela. são crentes fiéis!”. mas não esgotada. faço uma afirmativa não exata. Mas quando digo: “Ora. Com efeito. além disso. logo a lei tem valor muito superior ao da especulação.Monografia perguntar-nos se as coisas são realmente assim. tão semelhantes entre si a ponto de quase nunca conseguirem se entender. provavelmente nos responderá que o Islã é uma religião. é uma das grandes religiões monoteístas que se reportam a Abraão. porque parcial. digo uma verdade. porém. a religião é algo que tem muito a ver com a teologia. Que sentido tem comparar. enfatiza-se o aspecto intelectual. Teologia e filosofia sempre foram irmãs. quase de tipo étnico. dogmático. Assim. quando afirmo que o Islã é uma religião.

o Oeste. É singular que tenha sido dita por um padre ocidental. (169) . o que temos? O ocidente. que se baseia em outros pressupostos. são ainda culturas de tipo tradicional. porque não realizaram as rupturas epistemológicas que ocorreram no ocidente. com a civilização e com a ciência numa determinada área do mundo. Nenhum padre oriental. de nenhuma religião. O que é o ocidente? Vejam. embora sejamos mais fortes. quando falamos do ocidente em confronto com outras culturas. que somos a minoria. na verdade o que surge em nossa mente não é um conceito de tipo geográfico-espacial. de uns anos pra cá. O ocidente é o que aconteceu com a cultura. a Revolução Industrial. Mas. o pós–moderno: tudo isto caracteriza a nós. incluindo a cristã. Conhecer a diversidade Além de toda a nossa boa vontade – que é preciosa – em querer sintonizar oriente e ocidente. E por outro lado. Facilmente ele dará uma definição ligada ao espaço: o ocidente é uma região geográfica. que já dentro de uma simples palavra como religião encontramos muitas coisas a serem vistas. essas civilizações são diferentes. Lorenzo Milani. não podemos esquecer que somos diferentes e que devemos reconhecer. vão deixá-lo numa posição ainda mais difícil. superando tudo aquilo que nos separa. compartilham com os muçulmanos uma antropologia. que afirma: “A obediência não é mais uma virtude”. mas sim de tipo temporal: o ocidente é a modernidade.Monografia é alemão. E somos nós a exceção. A maioria das culturas da Terra. Sob esse ponto de vista. Seria exaustivo checar os detalhes do que caracteriza esse ocidente. assinaria um tal tipo de afirmação. os cristãos orientais são mais semelhantes aos muçulmanos que aos seus correligionários ocidentais. e não só a islâmica mas também as da Ásia e da África. Mas o que é o ocidente? Se perguntarem novamente ao indivíduo na rua. Relembro a famosa frase de D. Portanto. então. A Reforma Protestante. uma concepção do mundo. Não como um cristão é cristão. se refletirem um momento. a Revolução Francesa. não os outros.

o sacrifício da sede nem da morte. aos quais são concedidos todos aqueles tesouros. uma fonte ou uma rosa. eles se entregam a confidências. O guia os conduziu a uma grande cascata. deserto. E assim. o Deus dos franceses. Eram da raça dos que. "– Veja você. 4 : “assumir de forma imaginativa ou simpatetica 5 a história do outro através das narrações que lhe dizem respeito”. uma espécie de coluna de pedras de onde desciam tranças de águas barulhentas. E era água doce. Às vezes a literatura possui a capacidade de explicar com uma imagem aquilo que mil ensaios não conseguem exprimir. E é por isso que ali. em volta de sua tenda. Uma coisa interessante que podemos fazer para isto é. três deles visitaram aquela França desconhecida. antes. Mas Deus os engana. transcrevo uma narração emblemática de Antoine de Saint-Exupéry. E essa tarefa é justamente a de nos conhecer. “Assim. olhando o Saara que se estende. Ignorá-las não adianta. porque é um velleitarismo que no final não nos prepara para a tarefa que nos espera. Ele é mais generoso pra os franceses do que o Deus dos mouros para os mouros! Algumas semanas antes haviam sido levados a passear em Savóia. É por isso que eles estão meditando agora. choraram ao ver árvores. o Saara que até a morte lhes dará tão magros prazeres. eles falavam com admiração dos music-halls em que haviam visto mulheres nuas dançando entre flores. como afirma Paul Ricoeur. a um tiro de fuzil de um infiel. uma árvore. tendo uma vez me acompanhado ao Senegal. poderia ser contraproducente. Só através do Alcorão conheciam a existência de jardins em que murmuram regatos. Quando os encontrei novamente em suas tendas. depois de trinta anos de miséria. pois assim é chamado o Paraíso. (170) .. e lhes disse: – Bebam. A esse propósito.. nós os levávamos a passear. Aqueles homens jamais haviam visto. Água! Aqui.Monografia conhecer e administrar essas diferenças. extraído do seu célebre livro Terra dos Homens 6. Esse Paraíso e suas belas cativas é ganho pela morte amarga sobre a areia.. porque não exige dos franceses. a longo prazo.. Antes. os velhos chefes.

Ele se arrepende depressa. quando se encontra esse poço.. haviam mergulhado para sempre no infinito dos lagos de sal e das miragens.. bêbadas de sede. Deus.. em Port-Étienne. ali. – Esperar o que? – O fim. água. Água. É melhor calar certos milagres. o Deus dos franceses. É melhor não pensar muito nessas coisas porque então não se compreende mais nada.. O que saltava. Calavam-se e assistiam. água vale seu peso em ouro. se manifestava: não se lhe podia virar as costas. quantas horas para cavar na areia que o cobriu. até chegar a uma pobre lama misturada com urina de camelo! Água! Em Cabo Juby. do ventre da montanha." (171) .. naquela noite.. o próprio sangue dos homens... me dá. em Cisneros. Deus abria suas represas e mostrava sua potência: os três mouros permaneciam imóveis. cuja menor gota tira da areia a centelha verde de uma folha. As tribos caminham para aquela erva que crescerá a trezentos quilômetros de distância.. – Veja você.. ele é avaro. – Vamos embora – disse-lhes o guia. graves.. – Mas essa água corre há milhares de anos! Assim. Com uma lata de conserva vazia na mão pedem esmola de água: – Me dá um pouquinho de água.. os meninos mouros não mendigam dinheiro.Monografia quantos dias de marcha para atingir o poço mais perto e.. assim. eles não insistiam sobre a cascata. era a vida. A água que passava em um só segundo teria ressuscitado caravanas inteiras que. um grande êxodo anima o Saara. essa água roncava ali como se de uma cisterna arrebentada saltassem todas as provisões do mundo. Queriam esperar a hora em que Deus se cansasse de sua loucura.. Podese até duvidar de Deus. – É preciso esperar. E essa água tão avara. – Que querem ver mais? Vamos embora. Mas eles não se mexiam: – Deixe-nos ficar um pouco mais. da qual não caiu nem uma gota em Port–Étienne durante dez anos. mudos.. ao desenrolar de um mistério solene. Quando chove em algum lugar. – Se você se portar bem..

Le regard mutilé 7. Desse modo. No entanto. que mostra qual é a sua relação com a modernidade. não devemos projetar nos outros nosso modo de perceber e de viver as coisas. perturbam meus hábitos e me são impostos inevitavelmente. o moderno era uma imposição deliberada que os povos colonizadores faziam com relação aos outros. Também neste caso. São algo de insondável. Hoje. nem encontro em meu espírito as representações adequadas para poder fazê-lo. mas os tolero no mesmo instante em que me aposso deles. há neles algo que me seduz. o que agride os representantes da cultura árabe e muçulmana não é uma crise de fé. mas que lhes é imposta. me atrai. que me sirvo deles. Nós vivenciamos o problema da morte de Deus: este não é absolutamente o problema (172) . se autoimpõe e gera reações talvez exasperadas. Não tenho nem palavras apropriadas para compreendê-los. tanto que não posso evitar confrontar-me com eles. não vi seu nascimento. entendidos em toda a sua espessura. Trata-se de Dariush Shayegan. trata-se de um mecanismo que funciona por si. na época colonial. que se propõe subitamente no campo do meu conhecimento. não participei das crises sucessivas que foram o prelúdio de sua fabricação. dessa vez muçulmano. mais uma vez.Monografia Essa atitude diante de um fato natural. intelectual iraniano que escreveu em francês um livro muito interessante. São qualquer coisa de aberração que não posso evitar. É bem verdade que os vejo. que quase fugiu de todo controle. que fala da esquizofrenia cultural nesses termos: “As novas idéias que me assaltam e os novos objetos com os quais me deparo. que devem de algum modo suportar o produto da modernidade como coisa que não escolhem. Também sob este aspecto houve uma grande mudança. porque. Também não tomei parte das tentativas que os tornaram possíveis. mesmo que também isto exigisse abrir mão de todas as minhas energias”. admiravelmente narrado por um autor ocidental. A raiz da crise A crise é o maior drama das grandes civilizações. acha um correlato na reflexão de um intelectual. Não conheço sua origem. são–me estranhos.

até demais. é impor a todos os nossos modelos. Mas. Mas há tempos sabemos do reverso da medalha. ou que ainda estamos fazendo inconscientemente. progresso. poder. Um intelectual egípcio. Ariosto narra que o arcabuz foi lançado nas profundezas do mar porque é uma arma infernal e diz: “Nunca mais se vanglorie o perverso por te possuir”. que nos levou a ser uma das maiores civilizações da história e a ter papel de prestígio na escala internacional (até a Primeira Guerra Mundial. quem brande a espada. Em Orlando furioso. Deus existe. e era um valente. de alguma forma. hoje não funciona mais. isto é. O que fizemos muitas vezes conscientemente. como fazer para renunciar a propô-los? (173) . A tecnologia é uma arma. um choque ao qual se responde de vários modos da parte dos fundamentalistas.. O que ocorre é uma crise de religião. uma crise do sistema. o império otomano era uma grande superpotência). Esse sistema. mas simplesmente porque nossos modelos são de tal maneira bem engendrados e eficazes. a sua crise. seria presunçoso e arrogante. considera-se uma evidência e não se coloca em questão esse fato. global e totalizador. contemporâneo. é um instrumento que oculta o valor de quem o utiliza. porque queremos dominar os outros. a sua desorientação diante desse fenômeno possui um correspondente em nossa consciência. onicompreensivo. saúde.Monografia dos muçulmanos. o Islã. então? Não pretendo dar uma resposta. mas como símbolo de todo mecanismo que produz um efeito. quem aciona um gatilho pode ser bem inferior em relação à pessoa a quem ataca. É essa a raiz da crise. Qual o caminho da saída? Como sair disto. Enquanto o cavaleiro medieval devia submeter-se a um rígido adestramento para usar suas armas. reformistas e modernistas. Somos bem conscientes de que o nosso sistema funciona muito bem. nos dá bem-estar.. Estou falando do arcabuz não só como arma. exprimiu muito bem tal desorientação nessa frase: “Nós nos perguntamos como foi que o mundo tornou-se o inferno dos crentes e o paraíso dos descrentes”. Não necessariamente por má fé.

É um ensaio no qual se recapitula a história da tradução. Este aspecto contraditório é típico da natureza humana. impossíveis e inevitáveis. esta natureza marcada por uma grande miséria e uma imensa dignidade. em outras palavras. das teorias dos lingüistas e. perceber que os outros têm seu caminho e passos a dar. vigiar sobre esse mecanismo que vem se autoalimentando para favorecer os processos. Contudo. 30). Também no Alcorão encontramos esse conceito. Deveremos resistir a essa tentação. g o v e r n a r t u d o . fazendo-se perguntas. acima. Logo. caminhando através de passagens que talvez possam ser semelhantes. mas lhes diz: “Eu sei o que vós não sabeis” (II. a tradução é uma coisa impossível. os anjos o observam com um certo incômodo e lhe perguntam: “Quer colocar na terra quem trará a corrupção e esparzirá o sangue. não os desmente. enquanto cantamos os teus louvores e exaltamos a tua santidade?”. um mistério que não pode ser explicado. e x p l i c a r. devemos. responde dando implicitamente razão aos anjos. Falávamos. Conscientes e orgulhosos das coisas boas que com esforço conquistamos. isto os homens fazem desde sempre. porém. coisas que fazemos diariamente. Deus n ã o r e s p o n d e a e s s a p e rgunta. o homem é um corruptor. Portanto. ao mesmo tempo. de aceitar viver o caráter paradoxal da condição humana. referente à tradução. no final. O destino do ser humano é.Monografia Impõem-se por si mesmos. em vez de impor modelos. a condição humana é uma constante concatenação de coisas que são. portanto. Quando Deus cria o ser humano. Trata-se. escreve-se outra coisa que não é nem jamais será a tradução perfeita do original. Não porque seja absurdo e completamente in- (174) . algo de paradoxal. Não é viável traduzir de uma língua para outra. ou melhor. se descobre isto: do ponto de vista teórico. que a racionalidade não pode ter a p r e t e n s ã o d e d o m i n a r. mas não devem necessariamente ser idênticas às que nós conhecemos. que encontrei expresso de modo extraordinário no já citado livro de Paul Ricoeur.

Relembro uma frase de Tomás Morus: “Senhor. alguma coisa que é passível de contínuos aprofundamentos. que nos conduzirá sempre mais além. mas uma coisa que não se termina nunca de entender. estabelecendo quem é melhor e quem é pior. e aceitarmos a nossa provisoriedade conscientes das positividades que cada qual possui. dai-me a força para mudar as coisas que posso modificar e a paciência para aceitar aquelas que não posso mudar”. Dentro dessa perspectiva. Quando formos capazes de desistir de fazer graduações.Monografia compreensível: entendo por mistério não tanto uma coisa que não se entende. depois do 11 de setembro. os muçulmanos não lêem esse versículo e a sua condição histórica e cultural os induz a preferir outros versículos. Qual é o problema? O problema é que. A nossa respon- (175) . de novas interpretações. Diverti-me enviando aos amigos. 48). com obras boas. mas não fez isto para provar-vos naquilo que vos concedeu. Enfim. à Guerra Santa. creio ser possível também um confronto entre culturas. A aceitação da diversidade faz parte de todas as grandes tradições religiosas. então admitiremos que o outro pode fazer percursos diferentes. Competi. e jamais será esgotado. porque todos retornareis a Deus. freqüentemente citado como texto que conduz à violência. quem precisa aprender e quem deve ensinar. É um texto que tem dentro de si também os germens de profunda tolerância. no Natal. mas essas coisas não estão ausentes nem no Alcorão. se Deus tivesse desejado. da identidade. além da relatividade das formas concretas que os seus valores souberam assumir no curso do tempo. e. que são os da pertença. esse versículo do Alcorão com o qual todos ficaram assombrados: “A cada um de vós assinalamos uma regra. pois. do confronto e do desencontro. e então Ele vos informará sobre as coisas pelas quais agora viveis em discórdia” (5. É o manifesto da tolerância universal. Pode parecer estranho. embora sem renunciar de propor-lhe a nossa experiência. hoje. teria feito de vós uma Comunidade Única. à contraposição.

Di fronte all’Islam. 2001. 5 Que está em perfeito acordo com as qualidades e características de outra pessoa ou coisa.Monografia sabilidade é a de criar condições para que cada um seja estimulado a extrair do seu patrimônio esses tesouros. D. 69-71 (N. Genova. Rio de Janeiro. 1989. 6 SAINT-EXUPÉRY. 4 RICOEUR. 2 SARTORI. G. caracterizada pela desproporção entre forças e fins. 3 Ação política ou social com objetivos extremistas ou exagerados. 2001. Terra dos Homens. A. (Notas) 1 BOZZO. Paris. Brescia. Rizzoli. Pluralismo. 1981. Paolo Branca é islamista e professor de árabe na Universidade Católica de Milão. G.). Una sfida etica. P. La traduzione. Milano.T. Marietti. (176) . multi– culturalismo e estranhos. pp. 2000.T.) 7 SHAYEGAN. Le regard mutilé. Morcelliana. José Olympio Editora. e não apenas seus pesadelos. (N. Albin Michel.

nada tem a ver com a tempe. com “técnica política”. É justanão se trataria de identidades? mente no moderno política. trador ou empresário.perança. A tônica revolucionária do A virtus política não é temdiscurso de Maquiavel. mas consta sua potência. que quer afir. comunidade nifica cortar.também de uma tèkne basilikè. sobretudo motão responderia que dernamente. tivesse a ver com que produz novos A política “Política” isto. e sim com a virtus. Neste caso. da capacidade de proinimigo porcionar os fins estratégicos Isto é a virtus: a capacidade do aos meios indispensáveis para (177) .A política não é reduzível à rança. Decidir sigsegui-lo. àquela que a afirmação do vir. Maquiavel enconflitos e novas é isto. do homem p o d e m o s d e f i n i r c o m o b o a maduro na culminância de administração.Monografia O conflito que gera identidade Massimo Cacciari A virtus política homem de colocar Que política Quem poderia fazer um objetivo além se afirmará crer que a política do horizonte onde na época dos possui apenas uma pode chegar o olhar impérios? Aquela função orientadora de seus inimigos. anti. mar a sua vontade contra um ou seja. a ela deve seguir-se aristotélico por excelência. que a política perde seria preferível que aquele papel de temperança nós nos dedicássemos a outros que algumas escolas filosóficas encargos: melhor ser adminisantigas lhe atribuíam. é uma tèkne politikè. tomar Se a política nada empresarial ou a parte e posição. para proexatamente esta: a política porcionar os fins aos meios. e e tranqüilizadora? A de obrigar os seus que administra política é a arte da contemporâneos a por conta da decisão.

Ela jamais é compreensível com base em critérios de utilidade: que utilidade possuíam os franceses quando se deixaram massacrar na casa dos cinco milhões durante as guerras napoleônicas? Certamente não era a ditadura que os obrigava e sim uma adesão que dura bem além do período napoleônico. capaz de inquietar e que não tranqüiliza. Certamente existem essas duas tradições: por qual delas somos? Somos por uma política-administração. A política inventa e cria energias. mobilizadoras de fins que podem ir totalmente contra todo critério de utilidade (esse é o grande vício de todo determinismo materialista. uma arte do cálculo: essencialmente como tèkne politikè. Aquela arte. é posto entre parênteses. mobiliza. a tèkne basilikè não se limita à administração da tèkne politikè. “ministra”. que administra bens com (178) . Desse modo. isto é. que desorienta totalmente em relação à situação dada. portanto. aponta um objetivo que seus semelhantes não vêem nem compreendem e consegue juntar os meios necessários para alcançar aquele fim. porque toda a filosofia política contemporânea parte da reflexão sobre o significado da revolução e da conclusão napoleônica sobre ela. também há uma tradição que vê a política como temperança (como fronesis). o acento decisionista. mas é a linguagem que Tucídides faz os atenienses falarem quando constroem o seu império. dentro da sociedade. ao contrário. Por outro lado. ou totalmente eliminado. Esta é uma grande tradição do conceito de política no Ocidente. Ao lado dessa tradição dominante na modernidade que vai de Maquiavel a Hegel e Smith. Mas não se deve entender “Ocidente” como critério geográfico. Em seu interior existe essa corrente de pensamento. Trata–se de uma fase de desorientação total: vem o político. que podemos dizer consistir no fundar do império.Monografia alcançá-los. dramática e trágica. porque atualmente a ocidental é uma cultura que se tornou planetária. que entende a política como insegura. Não falo de Napoleão por acaso. próprio do termo (já platônico) da tèkne basilikè. economista e sociológico).

A política como tèkne basilikè É preciso. como políticas fiscais. Os grandes países possuem. contrária e oposta àquela precedente. que se coloca (179) . Essa é a política que encontramos em Maquiavel. é a tradição que pensa a política entendida como indicação de objetivos estratégicos. ligada à despolitização. mas transversal. porém a filosofia e a abordagem de fundo ao problema caracteriza-se pelo entender a política como administração do econômico. agir de modo que a política seja um lugar onde se produzam normas e regras definidas para o bom funcionamento do estado das coisas. Podemos encontrar a linha da despolitização num pensamento conservador e restaurador autêntico. pede-se ao público para desorientar-se em relação à sua utilidade e cálculo econômico e para reorientar-se sobre motivações e escopos absolutamente valoriais. até para evitar as tragédias do político fundamentado no apelo ao público para alcançar os objetivos absolutamente de valor e com base numa política da convicção. Temos enfoques de tipo revolucionário. além disso. entendem a política justamente como tèkne basilikè. deve-se procurar reduzir a taxa de tragicidade desses destinos através da mediação política. de redistribuição e do trabalho. sempre e de algum modo. malgrado essa sua diversidade. porque ele também pensa a política sem confundila com pacifismo ou com igualitarismo.Monografia base em critérios econômicos? Esta é uma grande tradição da cultura ocidental. Nessas bases podem existir opções bastante diversificadas. ou seja. Essa idéia da despolitização é cada vez mais entendida como redução do político ao administrativo. é pedido um sacrifício. isto é. características para ele reconduzíveis às realidades dos Cantões Suíços. reduzir a política a administração. É claro que se trata de um quadro geral. em que há toda uma série de especificidades. E em Weber. De acordo com o objetivo que é imposto. Hegel e Smith. destinos que os levam a conflitar-se entre si. Contudo. Essa abordagem não é unicamente de uma parte política. como o precedente. conservador e reacionário que.

como afirmavam Baudelaire e seu ilustre mestre De Metre (ambos. com o escopo de reduzir o poder da máquina estadual jacobina que devora as chamadas “comunidades originais”. de que fala Polany e que aconteceu no decorrer do século XIX. mas o econômico. então. Assim. entendido como tèkne basilikè. Basta referir-se. paradoxalmente. Ocorre. incluindo valores “não-negociáveis” porque absolutos. sem eliminá-la. ao discurso da divisão dos poderes. A divisão dos poderes tem o objetivo primário de eliminar ou. Em vários aspectos. que tem como objetivo primeiro reduzir efetivamente o peso do poder político. (180) . administra e normatiza o econômico. porque se eliminada completamente tem-se a anarquia. A idéia de que o destino do Ocidente consista na despotencialização progressiva da política representa um formidável denominador comum em tradições absolutamente opostas sob o ponto de vista da práxis política. o problema europeu consiste em reduzir a soberania. a reviravolta completa em relação ao paradigma clássico. no sentido antropológico do termo. para isso. ensinam a raciocinar de maneira sóbria e não ilusória). fixadas nos vínculos sociais tradicionais. o fim último da revolução consiste justamente na eliminação de toda forma de soberania política. A descategorização do político para o administrativo constitui também a alma secreta do comunismo para o qual. É essa a grande e inédita transformação cultural. isto é.Monografia como imperativo categórico com a Restauração do início do século XIX. a redução do político se traduz em poder que regula. Neste sentido. embora totalmente reacionários. o político e o estadual. O comando da res publica não está mais nas mãos de quem educa e forma: não é mais a política que governa a pólis. essa idéia da descategorização do político para o administrativo pertence também ao grande pensamento liberal a partir de Montesquieu e Locke. ao menos. Não com base num cálculo de utilidade e sim em vista de uma reorientação social. ao medieval e também ao maquiavélico. reduzir o risco de um poder político absoluto. que impedem o cálculo e a lógica mercantil do intercâmbio.

Monografia porque são as normas. uma subjetividade forte. das forças produtivas. como o pensamento da Restauração ou como a tradição marxista. Ao contrário. porque para Marx o momento da política é exatamente um “momento”: é verdade que nesse momento a política alcança a sua intensidade máxima. o político deve ser extinto através de um mecanismo que profetiza a tomada plena do poder por parte do econômico. Pensamos na política para eliminar dela o polemos? Nosso Vico sabia bem que toda probabilidade. opostas e polêmicas. mas somente para desaparecer e auto-superar-se. O que queremos realmente? Pensamos como os libe rais. que caminha no percurso maquiavélico jacobino e não pensa na superação do político. o conflito contínuo entre os patrícios e os plebeus. a ponto de superar o político. O conflito segundo Maquiavel Mas. o conflito se tor- (181) . justamente porque a figura do espírito absoluto é o Estado. chega a um ponto em que elas adquirem um tal grau de poder e maturidade.1 Esse raciocínio vale tanto para o pensamento da Restauração e para o liberal quanto para o marxismo. para dizer em termos maquiavélicos. as regras e os mecanismos do econômico para que o político é chamado a administrar: o político torna-se ancillae aeconomiae. ou seja. Para Marx. Este segundo conflito é positivo e representa a verdadeira causa da grandeza de Roma. Nisto Marx é contrário a Hegel. O capitalismo nunca encontrou um apologético tão desenfreado quanto Marx. afinal. com relação também ao discurso político. de que lado estamos? O Ocidente é um conjunto de numerosas tradições. o conflito da política? Raciocinando nos escritos de Tito Lívio. porque através da organização da plebe se produz uma identidade coletiva. que só o capitalismo permite. dominante no século XX. Maquiavel distinguia dois tipos de conflito: o conflito na antiga Roma republicana e a guerra civil. e então queremos eliminar. cidade (polis) e guerra (polemos) possuem a mesma raiz. o desenvolvimento das forças produtivas. expressão máxima da soberania e do poder político.

para Maquiavel o conflito é fundamental para amadurecer identidades fortes. historicamente significativas. sem afirmar novas. A esse respeito. impossíveis de constituir: é através das lutas. isto é. mas que já morreu. terminou. nunca algo poderá ser mudado. em caso contrário. como organização iniludível de identidade. amadurecidas e virtuosas. império só pode existir um só. agrade-nos ou não. A época que se abre. territorialmente determinadas. desde o fim da Segunda Guerra.Monografia na negativo quando se coloca como processo que desagrega as identidades anteriores. e o único no momento previsível é o dos Estados Unidos. Assim. numerosas seriam as críticas e as reservas sobre as potencialidades da cultura americana. dos antigos Estados: a história dos Estados. porém o discurso seria extenso demais: nesse campo quero somente acentuar que com o termo império aponto a formação de entidades políticas sobrenacionais. quando não é constituinte: nesses termos nenhuma cidade ou Estado poderá tornar-se grande. Este é o ponto fundamental: será possível ainda raciocinar sobre política nesse sentido. com a queda dos muros. No máximo. a meu ver culturalmente incapaz de articular-se de modo planetário em comunidades ricas e (182) . ou seja. é a dos impérios. Poderão existir vários impérios ou um único apenas. porque o Estado é potente na medida em que dentro dele há articulações por linguagens fortes. Por mais que dure este fim. poderão durar somente como a luz de uma estrela que pode ainda ser vista depois de milhares de anos. de comunidade dentro de um Estado? A política na época dos impérios É bom observar que seremos reacionários se pensarmos que a política ainda possa centralizar-se nas soberanias. dos exílios e dos conflitos que surgem os grandes grupos dirigentes e se afirmam as novas classes políticas. o certo é que a história dos estados nacionais está filosoficamente terminada. ou a história de um único império abstrato e absoluto. É preciso entender se será esta a história de impérios e numerosas comunidades sobrenacionais.

Parece que no plano global. O desafio da modernidade A política deve ser entendida como organização de conflitos constituintes. historicamente fundamentada. considerando. pois. Esses são os traços característicos que nos desorientam nesse nosso período histórico. como dado realística e absolutamente irreversível. Esse é o dilema e a oposição que percorrem toda a modernidade e aos quais também nós devemos prestar contas. financeira e econômica. Minha tese é que. em sentido próprio. um valor próprio. assim.Monografia dotadas de sentido. em cujo interior haja um conflito político? Sem o conflito político não se consegue regenerar o sistema. ou considerar que a política ainda tenha. porém. não se tem intercâmbio de classe política e nem a inovação. aos poucos. o que vigora em contrapartida é uma hierarquia dominada por regras e normas de intercâmbio (uma espécie de lex de mercado universal). devemos. não–histórica. dado que vivemos uma época de desorientação na qual é evidente que as antigas formas de soberania (os antigos Leviatãs e as tradicionais formas de poder territoriais) estão no ocaso. perguntarnos se nesse cenário em que estamos imersos nosso destino será a assunção não-ilusória desse processo e simplesmente a tentativa de administrá-lo da melhor maneira possível. Esta é a grande aposta européia: A Europa conseguirá tornar-se grande exemplo internacional de uma verdadeira comunidade sobrenacional. fazer política para organizar novas identidades. técnico-científica. a potência do econômico sobre toda orientação política. para manter-se em produtiva contra- (183) . seja possível analisar comunidade e identidade. ricas de sentido historicamente concreto. Devemos. reduzida a administração econômica. uma privatização progressiva do direito público europeu. e que falta toda a instituição política global e todo o direito internacional. tendência fundamental de nossa época. hoje mero produto da comunidade empresarial. Atua. O ponto é: se achamos que seja iniludível essa tarefa ou se pensamos que a política deva ser. dentro de uma globalização abstrata.

afirmando a minha liberdade e reconhecendo o outro. e amadurecer nessa questão. daria como oficialmente reconhecida uma dependência abissal daquilo contra o qual sou “anti”. esta é a minha política. contradizer: é na contradição que desejo ser reconhecido. mas a uma procura de identidade que se refira à liberdade de cada indivíduo dentro do sistema. Eu não sou “anti”.Monografia dição e produtivo conflito com a estrutura técnico-científica e econômica. essa é a lastimável tendência conservadora e reacionária de certas democracias sociais européias. No moderno existe este significado da política. ao contrário. competir. A essa altura o problema é claro: é possível analisar. isto é. como expressão potencial de novas formas de sociedade? Este é o novo trabalho que cabe à nova política para ser realmente ela mesma e não para definir-se “anti”: negar o novo processo em curso é um exercício que resultaria reacionário por parte da política que deve ser. em polêmica. sem estar a seu serviço mas com a intenção de conflitar-se com ele. Ai de mim se enxergasse a nova orientação da política voltada para a defesa dos antigos Estados. que demonstra a prepotência do econômico em relação ao moderno. É possível redescobri-lo hoje. confrontar-me. quero. que não seja a antiglobal. a potencialidade de subjetividades políticoculturais de forma a ver o sistema em seu conjunto como contraditório e conflitante em sua essência? É possível. orientada para a organização de produtivos conflitos. em vez. Nessa controvérsia também há o reconhecimento do sistema: se de fato eu fosse antiglobal. dentro da nova economia e das novas (184) . de ficar em contradição. analisar a potencialidade dessas identidades. a procura de subjetividade e liberdade? Não me refiro a comunidades guetizadas ou fechadas. É antes necessário vigiar e analisar com curiosidade. na nova economia. só porque parece que ali haja maior respaldo. que conduz em direção ao único império? Podemos pensar a nova economia. numa situação extremamente mais complexa e difícil. Este é o verdadeiro conflito produtivo. nesse processo.

(Nota) 1 Servo da economia (N. (185) .Monografia profissões. o conflito político e a nova orientação que a política deve seguir. a existência dessas potenciais novas identidades e comunidades e dar-lhes a palavra. hoje. Este é. ajudando-as a contradizer o global.) Massimo Cacciari é professor de Filosofia Estética na Universidade de Veneza.T.

a deusa do abundantes e com uma imenamor. naqueles por sua vez. uniu-se ao pastor troiano sa vontade de banquetear-se. mundial. de ordem. As núpcias de Peleu verdadeira guerra então. trazendo presentes mais: Afrodite. foram as mais com os mortais com a finalidade celebradas dentre as citadas de produzir homens superiores nas histórias de deuses e heou. como serpentes. a mais delicada dos sua primeira e Terra começava a peixes. Tinham sido (186) . pouco exemplares. porém houve muitos nupcial. relutantes. sofrer. e heróis estava na artes transformistas por obra de Hera ordem do dia. Impôs-se. Tétis. e truques insidiosos. os róis. mais precisamente. à memas. primórdios. e pronto. Algumas depois do casagrandes deusas fomento de Cadmo ram condenadas a gerar filhos e Harmonia.Monografia Wargames para uma clonagem Mario Unnia Nos tempos antigos.surtiu efeitos dessa época. Não eram juntos em alegria. as coisas rugiam os dentes Uma espiral de não eram assim: os como leoas. deuses tinham seus zavam escapando desejos desmedidos afazeres. como era costume. As A primeira o envolvimento eródeusas.em grande número à festa plos.a de Helena. uniu-se a Peleu mortais e imortais se sentarem e gerou Aquiles. depois.belos tempos que ainda viam sa marinha. nos conjunção carnal. No entanto. grande deu. Citaremos dois exem. relações fáceis. Anquises e deu à luz a Enéias. clonagem histórica tico entre deuses utilizavam todas as . Os deuses compareceram heróis. desliintrigas e volteios. renprecipitaram a dida que crescia diam-se sob a forma humanidade em a Humanidade. Antes para se subtrair à . a necessidade com a deusa Tétis.

mas também o que cada uma oferecia: Atenas. que havia gerado Helena e favorecido o casamento que se festejava (ambos os eventos teriam conseqüências terríveis para a estirpe dos heróis). belíssimas. optou por Afrodite. sua outra filha – Cassandra. Hera. excluiu Éris. a deusa da discórdia. Ele era filho de Príamo. o poder e a soberania sobre a Ásia. a mão de uma princesa devia ser pedida simultaneamente pelos pretendentes merecedores da (187) . As três deusas mais importantes. Em tenra idade. Páris (como não escolhêla?) cedeu ao desejo amoroso e. porém seus irmãos. porque a ele estaria ligado o triste destino da cidade. a reconduziram para casa. estava grávida. os dióscuros. mas. foi designado para levar a maçã e as três deusas a Páris. eliminando-o. como condiz com o mérito de uma esposa divina. a vitória e o heroísmo. Afrodite. Sucessivamente. Agamemnon e Menelau. de temperamento forte como um Zeus terreno.Monografia pessoalmente convidados por Zeus. decidida por um mortal. Agamemnon. Afrodite e Atenas. Hera. Deveria escolher não só a mais bela deusa. bondade sua. ou seja. o amor. Ofendida com a afronta. o mortal escolhido para dirimir a disputa. tirou Helena do primo Tântalo. rei dos ladrões. rei de Tróia. a filha de Zeus. Helena não era uma qualquer. os dois filhos de Argo. quiseram agarrar o presente. pousaram os olhos nas irmãs Clitemnestra e Helena. Éris jogou entre os convidados uma maçã. Hermes. portador da desgraça. já havia sido raptada por Teseu. devia conduzir ao enfraquecimento do gênero humano. Hécuba. Segundo os costumes. A questão foi colocada a Páris. dotada de dons proféticos – sugeriu que o abortasse. quando a mulher deste. Teve início uma disputa que. nunca era acreditada – e mandou levar o filho Páris até o monte Ida. dotado de um temperamento manso e obediente. a posse de Helena. tendo sido rejeitada por Apolo. à destruição de Tróia e ao fim do reino de Micenas. que se tornaria tão famosa para a posteridade quanto aquela memorável dos judeus e cristãos. sem nem ter visto Helena. É fácil imaginar a reação das outras duas deusas excluídas. e pediu a mão de Helena para Menelau. Mas Príamo não acreditou – Cassandra.

sua cópia mais jovem. a alcoviteira mensageira dos deuses. Podalírio. o argumento era forte. Feliz e ao mesmo tempo trágica precaução. pois. na Grécia. Helena cedeu a Afrodite como uma rainha mortal. tinha olhos azuis. mas (188) . acompanhou-o levando consigo muitos tesouros da casa real. Macaon. levou dez anos para que convencesse os reis a preparar a expedição. Agamemnon não hesitou em enviar uma mensagem aos pretendentes para que não esquecessem do juramento feito e lembrassem que. Como então o adultério era coisa habitual. Idomeneu e – há controvérsias –. Todos os heróis que combateram em Tróia por causa de Helena tomaram parte na disputa matrimonial: pela ordem. nas horas que se seguiram. O casal uniu-se na ilha rochosa de Canae e. No décimo dia precisou ir a Creta e. feliz a seu modo. Íris. deveria entrar Páris. à margem dos fatos. resolvido a cobrar o prêmio. o próprio Aquiles. Menelau. o viço da juventude nas faces e os pés fortes. Enamorada de Páris. como se sabe. dali. em Micenas. A coroa destinada ao genro de Zeus foi dada. Hermíone. Mas nesse casamento. Helena lhe deu uma filha. recebeuo em Esparta como hóspede honorário e bem-vindo. que era louro. Não adiantou a Odisseu fingir–se de louco para subtrair-se ao juramento. Tendo Agamemnon demonstrado preferência por Menelau para esposo de Helena. que partiu de Creta até o irmão. Ajax. nenhum rei podia considerar-se seguro em relação à esposa se aquele sedutor não fosse punido. levou a notícia a Menelau. mas para dar aos pretendentes a chance de mostrar o fascínio e o poder de que eram capazes. todos os heróis foram convocados e foi-lhes pedido que jurassem que iriam ajudar o marido escolhido se alguém pretendesse disputar sua esposa. citando apenas os maiores. mas não como Agamemnon esperava: com efeito. dali em diante. a Menelau. nem a Aquiles fingir-se de mulher para recusar a convocação.Monografia cidade inteira. a frota preparou-se para partir. Completadas as fileiras. o outro Ajax – o Pequeno –. desfilaram Diomedes. Odisseu. e tendo ela aceitado. velejaram até Tróia. e isto não tanto para permitir à jovem a escolha.

anos depois. Fazendo-se ao mar. mas não foi assim. ofendida com a mentira e o rapto da filha. Na viagem para Tróia pararam para visitar o santuário da deusa Crisis. somente depois da destruição da Teutrânia deram-se conta do erro. de volta para casa. privada do ato amoroso. passaram um ano inteiro em guerra e. Oito anos se passaram antes que eles se reunissem novamente na Aulida. O herói estava casado havia só uma noite. onde serviria como sacerdotisa. no momento de ser morta. sugeriu Odisseu. manifestaram-se imediatamente. velejando. O primeiro herói que desceu à terra foi Protesilau. prontos para a partida. atacou os heróis mais próximos e mordeu o pé de Filoteto. Ofereceram um cabritinho à deusa Artemis para que liberasse o caminho. Um segundo sinal premonitório deveria detê-los. surgiu uma serpente de dorso vermelho. lhe seria fatal. Novamente eles não quiseram dar ouvidos aos sinais do céu. o adivinho. Como tirá-la da mãe. não teve dúvidas: a guerra ia durar nove anos e somente no décimo Tróia seria vencida. que. que subiu num plátano em cuja ponta havia um ninho e engoliu oito tentilhões e a mãe. Pilotora. na Mísia. então. que foi abandonado na ilha de Lemno. Mas. não se considerava recompensada (189) . os gregos foram impelidos para longe de Tróia. Clitemnestra começou a cultivar ódio pelo marido. ainda que não consumado. A esposa. Nesse ínterim. guardiã do templo e para ela sagrada. a filha de Agamemnon. E assim foi feito. avistaram os muros de Tróia. reino de Teutrante. As conseqüências nefastas desse sacrifício. Os mares se acalmaram e os gregos puderam partir. porém não agradou à deusa caprichosa que exigiu um sacrifício ao mesmo tempo reparador e propiciatório: o de Ifigênia. Essa desorientação deveria iluminar suas mentes. Finalmente. a deusa substituiu a jovem por uma corça e levou-a consigo a Criméia. que foi imediatamente morto por um troiano desconhecido.Monografia as tempestades ameaçavam a partida. Acreditando que aquela tinha relação com a terra de Príamo. Os insensatos decidiram prosseguir mesmo assim. A serpente. Durante um sacrifício de propiciação. Calcante. Clitemnestra? Fingindo levá-la para ser esposa de Aquiles.

Inutilmente lembraram-no da profecia de Tétis: “Depois de Heitor. investido de suas armas. começam a (190) .Monografia pelas elevadas honras reservadas ao cônjuge abatido. de Odisseu – que entra na cidade disfarçado de mendigo – e Helena. pediu à mãe. onde encontrou a morte pelas mãos de Euforbio e Heitor. lançando os troianos em desespero pelo furto sacrílego. Quando Protesilau desapareceu. verdadeiras destruições. filho da deusa Eros. filho de Poseidon. quando já tinha organizado os seus homens para partir. A sorte de Tróia estava lançada. O primeiro sinal fora a morte de Páris pela mão de Diomedes. Teria sido melhor para todos. tinha se aventurado sob os muros de Tróia. Encolerizado. em Tróia. como se não estivesse morto. Assim. atingido no calcanhar pela flecha disparada por Páris. mas na beleza de seu corpo. Odisseu apodera-se do paládio1. não como uma sombra. De nada valeram as súplicas dos companheiros. Também este sinal premonitório não os deteve. A certa altura. Graças à sua ajuda. então”. O combate começou quando Aquiles matou Cicno. e agora a cidade de Ílion tinha de tombar. sua resposta foi: “Que eu morra. o encontro. Aquiles briga com Agamemnon por uma troca de concubinas e decide ir embora. Mas. tu morrerás”. mas dirigida a Apolo. os deuses se enterneceram e permitiram que Protesilau ficasse uma noite com a mulher. foi avisado que Patroclo. Tétis. Aquiles olha para ela e expira. quis vingança. Foram combater em favor de Tróia algumas mulheres guerreiras que. o segundo. e se intensificaria depois que matasse Troilo. raptos de mulheres. segundo a tradição. Os nove anos passaram-se num crescendo de duelos. sua imortalidade estava ligada a um fio e. deveriam distinguir-se na batalha para poder escolher o esposo. Com a ajuda de Afrodite. para ver ao menos uma vez a bela mulher pela qual estava combatendo. morrendo pouco depois – como se sabe. Aquiles enfrentou e matou Heitor. filho de Hécuba e Apolo. ela se matou. Também tombou no campo Memnon. Contudo. Entre elas estava a amazona Pantesiléia. a mãe lhe mostra Helena em pessoa. morta por Aquiles. antes de morrer. Então.

no exílio. apressam-se a chegar até os navios. foi destinado um retorno feliz. Odisseu conduz Menelau até Helena. depois para a Fenícia. ao contrário: descobre o peito como se quisesse receber o golpe. e ofereceram sacrifícios a Zeus para reencontrar o caminho de casa. que acabava de desembarcar em busca do pai que não conhecia: uma cruel e tardia vingança da maga. correu até a margem do rio para puni-lo e aí foi atingido por uma flecha disparada por um de seus filhos. nascido de Circe. Em seguida. retornaram ao Nilo para reparar os pecados e as omissões. enquanto Odisseu e seus homens abrem os portões para o exército em peso. na costa meridional da Itália. As agruras de Odisseu duraram dez anos. como ao velho Nestor de Pilos. junto com Odisseu. Helena não foge. nas Tremites. mas a espada cai no chão. Diomedes. cujo caminho conhece bem. Helena espera pelo marido abandonado. causa da longa guerra e daquela noite terrível. uma viagem de oito anos os levou à revelia primeiro para Chipre. Tenho chegado a Ítaca. Quanto a Helena e Menelau. Os dois se abraçam.Monografia construção do cavalo com o objetivo de ressarcimento e perdão: os troianos caem no logro. Dos troianos. junto ao santuário do paládio. Idomeneu. Segue-se a matança. quando acreditava ter escapado de todos os perigos. Em suma. Somente a poucos. só Enéias se salvou porque há tempos tinha se retirado para as colinas nas cercanias de Tróia. a morte chegou também para ele. Contudo. Ajax de Locrides morre num naufrágio. teve a satisfação de vencer os arrogantes pretendentes que ameaçavam sua mulher. Em meio a tamanha crueldade. depois de um naufrágio perto de Festo. nos quartos do Deífobo. onde perderam cinqüenta e cinco de seus sessenta navios. Telégono. chegamos ao final da (191) . começava o retorno dos heróis da guerra troiana. põem o cavalo para dentro dos muros e comemoram. felizes. Assim. pelo fim do cerco. Agamemnon morre por mão assassina. Egito e Líbia. Ao receber a notícia de que um ladrão roubava seus rebanhos. A conselho de Proteu. Menelau se lança sobre ela. Brandindo a espada. Ao voltar para casa. na costa de Creta.

O que aconteceu?. tinha posto nos braços do troiano uma imagem viva de Helena e fez Hermes conduzir a verdadeira Helena a Proteu. a cidade inteira de Ílion e uma estirpe de heróis.T.. mas a filha de Zeus. e ainda depois.. (192) . que teria o poder de tornar inexpugnável a cidade (N.. ofendida com o julgamento de Páris. ou Minerva. o esperava lá desde que havia sido raptada.) Mario Unnia é presidente da Prospecta (Milão). (Notas) 1 Estátua de Palas. Páris. Uma vã aparência e uma escolha absurda fizeram correr torrentes de sangue em Tróia. Menelau conduz de Faro para casa a “verdadeira” mulher. Assim. Sem saber. para que a protegesse até o fim da guerra.Monografia história. imolaram-se por um “engano”. deusa das artes e da sabedoria.. venerada em Tróia. Fontes confiáveis transmitem que a deusa Hera.

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