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PARECER ADOÇÃO HOMOAFETIVA

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PARECER

CONSULENTES: Ciclana Perfeita e Beltrana das Flores

RESUMO:

ADOÇÃO

ADOÇÃO

POR

HOMOSSEXUAIS

UNIÃO

HOMOAFETIVA COMO CONCEITO DE FAMÍLIA – POSSIBILIDADE DE ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO COM DIREITO À INCLUSÃO DO SOBRENOME DAS DUAS PESSOAS NO REGISTRO CIVIL DO ADOTADO

A CONSULTA

As

consulentes

formulam

consulta

referente

à

possibilidade de adotarem, conjuntamente, uma criança e questionam sobre o direito de que os sobrenomes de ambas possam constar no registro civil, quando do ato de homologação da referida adoção. Relatam estabilidade no relacionamento, afirmando manterem união estável já há oito anos. Exposta a questão, solicitam Parecer Jurídico a respeito da ação pretendida, indagando das possibilidades jurídicas do pedido e se há amparo legal para sua concretização.

RESPONDE-SE

Analisando-se

a

situação

pretendida

em

questão,

depreende-se que, em princípio, o tema abordado é algo ainda muito novo para

De um movimento social sem precedentes. 43. permitindo-lhe uma educação e desenvolvimento saudável e feliz.Lei 8.o direito. O estatuto dá ênfase à criança e afirma em seu art. que.069. na qual se tenta criar para a criança uma situação familiar. passando a existir apenas uma. O ECA passa a estabelecer. A ADOÇÃO A princípio. passando-se a enxergá-la como uma forma de proteger a criança que. tenha sido desprovida. Tudo o que é inovador é visto com certo temor pela sociedade. por algum motivo. Teve origem no art. por algum motivo. Mas a humanidade vem avançando rapidamente. 227 da CF/88 que iguala os direitos dos filhos legítimos. ilegítimos e adotados. É a tentativa de se oferecer à criança a possibilidade de estabelecer laços afetivos próximos com pessoa ou pessoas capazes de amá-la e a quem possa amar como se fosse(m) seu(s) pai(s). nem tão pouco para se posicionar em relação ao tema. a igualdade de tratamento entre filhos biológicos e adotivos. A adoção é uma ficção jurídica. Só recentemente. que a adoção será deferida quando . muitas transformações estão ocorrendo e por ser um fenômeno social. Extinguem-se a Adoção Simples e Plena. que é considerada uma das leis mais avançadas do mundo em relação à infância. Não se pensava em dar uma família a uma criança abandonada. como uma forma de se perpetuar na história. tem grande relevância para o direito. a visão do instituto da adoção mudou de ângulo. estivesse sem a proteção de seus pais biológicos. que dá todos os direitos ao adotado como se filho fosse. resultou a elaboração e aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA . como lei. a adoção surgiu somente para suprir a necessidade do casal infértil. Já a “adoção moderna” visa garantir a todas as crianças o direito de serem criadas em uma família. A sociedade não se encontra plenamente preparada para aceitar a adoção homoafetiva. de 13/07/1990). A “adoção clássica” terá sempre como objetivo ter descendentes.

realizada por técnicos do Judiciário (assistente social e psicólogo). conforme preceitua o art. deve ser ouvido em Juízo (art. O ECA dispõe os seguintes requisitos (Arts. O objetivo é conseguir uma família para uma criança e não uma criança para um casal sem filhos. a idade prevista no ECA para o adotante. 1618 do Código Civil de 2002. A concepção de adoção utilizada aqui é a de “adoção moderna”. um pretendente com esta idade já possa adotar. alterando-se. demonstrando existir um ambiente familiar equilibrado. na data do pedido. assim. agora. desde que o estágio de convivência tenha se iniciado na constância da sociedade conjugal. que alterou a maioridade para 18 anos.representar reais vantagens para o adotando. Os divorciados ou separados judicialmente podem adotar em conjunto. § 2º do ECA). • • Independe o estado civil do adotante. que será dispensado caso tenha ocorrido a destituição do Poder Familiar dos mesmos (art. Necessário o consentimento dos pais ou responsável. 45 do ECA). 40) e as de pessoas maiores de 18 anos será regida pelo Código Civil. . com a entrada em vigor do novo Código Civil. Entende-se que. O adotante tem que ter mais de 18 anos (basta um dos membros do casal) e ser 16 anos mais velho que o adotado. Todas as adoções de crianças e adolescentes serão regidas pelo ECA (0 a 18 anos ou maior. • É necessário que exista avaliação psicossocial favorável. 45 e 46 do ECA) para que um pretendente possa adotar: • • A adoção não pode ser deferida a ascendentes (avós. conforme definido anteriormente. 45. bisavós) ou a irmãos. conforme art. se acordarem sobre a guarda e visitas. se já estiver. 42. na guarda dos requerentes. • • O Cônjuge pode adotar o filho do consorte. • Se o adolescente tiver mais de 12 (doze) anos.

desde que preencham os requisitos necessários. Por mais que se defenda a capacidade dos pais homossexuais de criarem os filhos. os direitos e deveres individuais e coletivos. no ECA. o legislador afirma que. e sua condição peculiar de desenvolvimento”. nossa Lei Maior (CRFB/88). Porém. fundando-se em motivos legítimos. mas poderão adotar individualmente. O sofrimento psíquico é inevitável por conta da incompreensão e discriminação daqueles que não toleram a diversidade. em consonância com a Constituição Brasileira de 1988. Infelizmente. não existe. No art. as exigências do bem comum. . não há como protegê-la da discriminação reservada a quem se atreve a romper os modelos socialmente impostos. denota-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente não faz menção a requisito para adotar vinculado à sexualidade do requerente. Como forma de reforçar o princípio acima exposto. pelo fato desse par não ser reconhecido legalmente como entidade familiar. ainda não podem adotar conjuntamente.• Estágio de convivência a ser fixado pelo Juiz. devendo-se levar em conta “os fins sociais a que se dirige. podendo ser dispensado se a criança for menor que um ano ou já residir com o adotante (art 46 do ECA). 43 do ECA dispõe que a adoção somente será deferida quando for verificada real vantagem para o adotando. o art. nenhum dispositivo proibindo a adoção por homossexuais. A ADOÇÃO POR HOMOSSEXUAIS Com base nestes preceitos legais. não se pode negar que a criança ficará exposta a constrangimentos imediatos. se deve prestigiar o Princípio da Prevalência dos Interesses do Menor. na interpretação do ECA. segundo a corrente majoritária. Como se pode notar. 6º.

”. de forma que a marginalização das relações . enlaçadas pelo afeto. defendido pela Desembargadora Maria Berenice Dias: [.. A UNIÃO HOMOAFETIVA COMO CONCEITO DE FAMÍLIA A partir da publicação do Código Civil de 2002. Nesse sentido. das variadas formas de família. durante um determinado espaço de tempo no qual somaram esforços comuns. A afetividade nas relações passa ao eixo central em detrimento da sexualidade e dos vínculos puramente genéticos. A união pelo amor é que caracteriza a entidade familiar e não a diversidade de gêneros. pela sociedade e pelo próprio Estado.]. Assim..No entanto. de forma contínua. os pais devem ir estruturando os valores dos filhos aos poucos. que o relacionamento homoafetivo é um fato social que se perpetuou através dos séculos. as monoparentais... Daí o reconhecimento de famílias plurais. uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo não podem mais ser tratadas como algo condenável ou que devam permanecer na obscuridade. para que eles lidem com as diferenças. antes disso. sem que elas impliquem em desigualdade. é o afeto a mais pura exteriorização do ser e do viver. assumem feição de família. as informais. não podendo o judiciário se olvidar de prestar a tutela jurisdicional a uniões que. observase uma crescente tendência ao reconhecimento. as pluriparentais e as paralelas. já é fato na jurisprudência pátria que é cada vez maior o número de julgados instituindo o direito obrigacional entre pares homoafetivos que constituíram. ”são famílias: as matrimoniais. as anaparentais. Inconteste. as homoafetivas. uma relação familiar afetiva. para atenuá-lo. E.

em atitude manifestamente preconceituosa e discriminatória. no caso de morte do pai (ou mãe) adotivo.mantidas entre pessoas do mesmo sexo constitui forma de privação do direito à vida. cor. IV). ainda. Mas fazer de conta que. Portanto. Cabe transcrever lição da Desembargadora do Rio Grande do Sul. sexo. só um está adotando. no caso de uma criança adotada somente por um dos dois parceiros. “sem preconceitos de origem. se entende que. E o rol de famílias não é excludente. caput) e prevê como objetivo fundamental.” Dessa forma. rechaçando qualquer forma de exclusão social ou tratamento desigual.” A Constituição Federal proclama o direito à vida. Apesar de a Constituição listar somente três. que “a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais” (art. 3º. 5º. que são livres para ser. Maria Berenice Dias: “Existe uma máxima no direito: o que não é proibido é permitido. XLI). sua intenção é a promoção do bem dos cidadãos. correndo o risco de retornar a um abrigo. ela voltará à condição de órfã. à igualdade e à intimidade (art. à liberdade. 5º. que o próximo passo do Judiciário será legitimar a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo. Maria Berenice Dias afirma: “O que vem acontecendo é que apenas um homossexual consegue adotar. A POSSIBILIDADE DE ADOÇÃO POR CASAL HOMOAFETIVO COM DIREITO À INCLUSÃO DO SOBRENOME DAS DUAS PESSOAS NO REGISTRO CIVIL DO ADOTADO Acredita-se. a promoção do bem de todos. Dispõe. . a lei não diz que é ilegal outro tipo de família. efetivamente. raça. desatende até mesmo a determinação constitucional de que a criança tem de ter proteção. idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art. A união homossexual não é ilegal.

Em seguida. utilizando como argumentação o fato de viverem em união estável e pública há mais de 13 anos. Uma das mulheres conquistou o direito de adotar dois irmãos biológicos.657/42 (Lei de Introdução ao Código Civil). sempre atentado . o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. em 2005.”. por casal homoafetivo. contudo. aconteceu na cidade de Bagé. os costumes e os princípios gerais de direito. Graças à evolução das terapias de fertilização artificial. Nesse caso. também gêmeos. o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. Outros casos de adoção de crianças por casais do mesmo sexo já foram registrados no Brasil. as duas mulheres podem ser consideradas genitoras das crianças. de forma a acolher tal possibilidade. o óvulo fecundado (por doador desconhecido) de Munira foi implantado no útero de Adriana. As professoras universitárias Michele Kaners e Carla Regina Cumiotto conseguiram na Justiça o direito de dar o nome de ambas ao casal de gêmeos nascido de uma inseminação artificial. e principalmente. cabe aqui a aplicação analógica ou dos costumes. que levou a gestação adiante. E mais. O mais recente aconteceu no Rio Grande do Sul.” Por ser este um caso de omissão legislativa. como uma família. também. no seu artigo 4º. afirma.O primeiro caso de registro conjunto de crianças. que: “Quando a lei for omissa. uma busca dos princípios gerais de direito. complementa ordenando que: “Na aplicação da lei. além de que cabe. CONCLUSÃO Deve-se atentar para o fato de que o Direito deve acompanhar os anseios da sociedade. a companheira da requerente entrou com ação pedindo novamente a adoção dos menores. Caso semelhante acontece na Justiça paulista: Adriana Tito Maciel e Munira Kalil El Ourra pretendem criar e registrar os filhos. e no seu artigo 5º. Rio Grande do Sul. que o Decreto-Lei nº 4. de 3 e 2 anos.

Pelos Princípios Gerais do Direito (da isonomia. E todos esses caminhos levam a possibilitar tais adoções. que lhe ofereça amor e carinho. procurando garantir-lhe um lar seguro. igualmente. e às exigências do bem comum. formada por pessoas do mesmo sexo. E. o direito à adoção conjunta e o seu registro civil. acima de tudo. aceita tal fato. não existe qualquer lacuna no direito. na realidade. conforme exposto. a cada dia.aos fins sociais da lei. não é possível privar os homossexuais do direito de adotar. posto que. possível o deferimento de adoção a casais homossexuais. fica ainda mais flagrante a possibilidade da adoção por casais homossexuais. passe a conceder à família. independentemente da orientação sexual daqueles que a acolhem. estando devidamente legislado o direito dos homossexuais à adoção). resguardar a dignidade da criança e do adolescente. a sociedade. conclui-se que é possível equiparar a adoção por homossexual à adoção por heterossexual. Por analogia. Pelos costumes é. todos expressos na Constituição Federal de 1988. da nãodiscriminação por orientação sexual e da legalidade). os menores adotados sairão da condição de órfãos e passarão a integrar uma família que as escolheu para amar e . de forma que ambas as adoções são exatamente iguais (o que leva a concluir que. de forma geral. pelos fins sociais do estatuto da Criança e do Adolescente. Assim. posto que o único elemento discrepante seja a orientação sexual do adotante. se conscientizar da necessidade de reconhecer o direito da adoção homoparental ou homoafetiva e. Espera-se que a jurisprudência brasileira possa. o qual não é o elemento essencial da adoção. uma vez que tal Lei busca.

Itajaí.proteger. que o aspecto puramente biológico. salvo melhor juízo. o cuidado e o respeito com a prole são mais relevantes para o bom desenvolvimento da criança e do adolescente. É o parecer. por algum motivo. 12 de abril de 2011 Adriana Araujo Manzoli . a solidariedade. Esse novo conceito de paternidade e de maternidade socioafetiva deixa claro que o amor. recusaram ou não puderam honrar. que os pais biológicos. tomando para si os deveres.

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