P. 1
A Terra Céltica Continental

A Terra Céltica Continental

|Views: 52|Likes:
Publicado porBellovesos

More info:

Categories:Types, Research, History
Published by: Bellovesos on Mar 03, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

03/03/2012

pdf

text

original

1

A TERRA CÉLTICA CONTINENTAL
Olivier Launay

Compilado por Bellovesos Isarnos

Introdução

Os manuais escolares representam a Gália como a prefiguração da França. A afirmação está longe da realidade. Dionísio de Halicarnasso, em sua obra posterior de meio século à conquista das Gálias por Iulius Caesar, diz que a Terra Céltica confina com os Citas (Ucrânia) e a Trácia (Bulgária), que é dividida pelo Reno em duas partes iguais e que a Germânia é uma seção da parte oriental. Os romanos chamavam ainda de "Gallia" todo o norte e o leste da Itália, Transpadânia e Cispadânia.

Certamente, já no tempo da intervenção romana, os celtas tinham perdido, além de suas terras do sul, a maior parte de seus domínios transrenanos e tinham deixado seus muito empreendedores vizinhos avançar pela margem ocidental do velho rio gaulês. O Reno não foi jamais uma fronteira linguística ou étnica e sim apenas uma posição estratégica fácil de defender, que Marcus Aurelius, aliás, dois séculos depois, achou vantajoso abandonar, a montante da foz do rio Main, para estabelecer suas fronteiras muito adiante, a leste de um território-tampão que ele criou: os Campos Decumates. Mas a Terra Céltica ou Gália era muito mais vasta que a França atual.

Nenhuma parte dessa Terra Céltica havia conhecido organização administrativa centralizada antes que os romanos recortassem o território conquistado em quatro zonas, de que somente a mais central - e a mais importante - teve o direito ao nome de "Céltica".

2

Entretanto, a unidade da Gália, no interior de limites que não cessaram de variar, era certa. É que uma civilização não é um Estado. Também os gregos, que foram os civilizadores dos romanos, jamais haviam conseguido reunir-se sob um Estado comum, supondo que algum dia tivessem sonhado fazê-lo.

A unidade dos celtas lhes adveio, antes de tudo, de uma comunidade de origens míticas e da língua. Eles se sabiam um mesmo todo humano. A instituição druídica velava para entreter esse sentimento e a cultura comum.

Uma unidade feita de caldeamentos hierarquizados

A unidade resultou também dos caldeamentos que tiveram lugar no curso de seis ou oito séculos de migrações. Os cenomanos, que fundaram Trente, e os volcos, que ocuparam o Garona, vinham da Alemanha central. Um ramo dos volcos, os tridentes, fundou Trans, em Maiena. Advirta-se que a forma antiga do nome da cidade de Trente era também "Tridentes". Os boianos, que deram seu nome à Boêmia, deitaram ramos na bacia de Arcanchon, na Borgonha, no vale do Pó e... nos arredores de Ancara. Os senones tiveram colônias um pouco por toda parte, de Bordéus a Artois e de Maine ao Meuse. Os bituríges, que deram seu nome ao Berry, povoam a margem esquerda do Gironda. Essas constantes mesclas tornaram fútil a hipótese não verificada da existência de dialetos na língua gaulesa. Teremos ocasião de ver que movimentos comparáveis ocorreram de um lado e de outro da Mancha e entre as Ilhas Britânicas. Mais tarde, quando das invasões germânicas, os mesmos fenômenos se reproduzirão: eles se prendem ao tipo social dos povos bárbaros.

Existe, entre as seis dezenas de povos da futura Gália romana, uma ordem hierárquica. Tudo se passa como se nações importantes se tenham cindido, à chegada, em diversos fragmentos. Estes em geral ostentam dois nomes, o antigo e o novo: volcos tectoságios e volcos arecômicos ou aulerques eburovícios, diablintes e cenomanos. Os segundos nomes do primeiro e do terceiro fragmento dos aulerques sugerem uma ligação ou uma fusão com elementos eburões e cenomanos. De fato, as relações entre esses povos eram

3

muito complexas, notadamente quando eles se declaravam consangüíneos, o que talvez não passasse de uma figura lírica, pois alguns dentre eles, arrebanhados para servir sob a bandeira de Caesar, se declararam "consanguíneos" do povo romano!

A hierarquia que existia entre eles e que fazia dos velavos (Velay), dos gábalos (Gévaudan) clientes ou subordinados dos arvernos, dos ossismos (Ouessant) ou dos namnetos (Nantes) clientes ou subordinados dos aliados dos vênetos (Vannes), era um traço da organização política dos celtas. Esta iria ter para eles as mais graves consequências.

Sabe-se que Caesar chamara "Bélgica" à parte da Gália situada ao norte do Sena e que havia notado que vários dos povos que ali viviam se vangloriavam de suas origens "germânicas". Esse era o caso, entre outros, dos belóvacos (Beauvais), dos suessionos (Soissons), dos atrébatas (Arras) e dos derradeiros a chegar da margem direita do Reno, os eburões, os morinos, os menapes. O mesmo ainda para a poderosa nação dos treviros (Trèves) que, contudo, não dependiam da Bélgica, pois todo o país entre Ardennes e o Reno pertencia à "Céltica".

A palavra "germânico" presta-se a mal-entendidos, pois não tinha absolutamente na Antiguidade o sentido que adquiriria, talvez, depois de Tacitus, que lhe explicou a origem bem recente, ao escrever, 150 anos depois, a conquista das Gálias. Até então, e palavra celta servia para designar todos os bárbaros louros que viviam para além dos Alpes. A Germânia não era senão um conceito geográfico. Em consequência, quando os povos belgas, que eram de língua e cultura célticas, se diziam germanos e disso ostentavam orgulho, entendiam por isso que não tinham sofrido a influência deletéria do sul e tinham conservado toda a virilidade de sua raça. Caesar, de resto, o sentiu na carne, pois em parte alguma da Gália a resistência foi tão encarniçada como na Bélgica.

Quando os romanos recorreram a tribos teutônicas verdadeiras a título de federados para defender as fronteiras do império, os batavos e os tongros, criou-se para eles a província da Germânia Inferior, distinta da Bélgica. O que mostrava que a palavra tomava um novo sentido. A Germânia Superior, talhada sobre a Céltica, de Mayence à Suíça, esta

4

não tem qualquer significado étnico. Se é provável que nessa época infiltrações tudescas haviam ocorrido no vale do Reno e no norte da Suíça, é patente que o gaulês foi, nos dois terços dessa "Germânia", substituído pelo latim e não pelo alamano.

Os "federados" tinham sido assimilados. Foi somente após as grandes invasões do século V, as dos francos e alamanos principalmente, que se efetuou um recuo do romano até o Mosela e os Vosges.

Celtas e "germanos" impossíveis de distinguir

A linha de separação, tal como a sugerem nosso nacionalismo e nosso racismo modernos, não foi jamais entre celtas e "germanos", mas entre romanos e bárbaros. Até a latinização dos celtas, os que chamaremos de germanos não procuravam se distinguir deles. Os reis dos címbrios e dos teutões tinham nomes célticos. Ariovisto, rei dos suevos, falava gaulês com os emissários de Caesar. Do mesmo modo, quando os francos sofreram o mesmo processo de latinização que os gauleses, eles se opuseram como romanos a seus irmãos de raça que tinham permanecido mais ao norte. Carlos Magno, que se queria imperador dos romanos, fez o massacre que se sabe de outros germanos, os saxões, que se obstinavam em continuar pagãos.

O caso dos eburões, na Bélgica, não se presta a nenhuma dúvida. Não é a sua adjunção ao território da Germânia Inferior que altera qualquer coisa no fato de que foi Trogus Pompeius, companheiro de Caesar, um voconte da atual Vaucluse, na província mais latinizada e mais meridional da Gália, que serviu de intérprete com eles em Tongres.

Era necessário, para compreender qual foi a civilização céltica, reduzir a nada uma pretensa oposição entre celtas e germanos num contexto no qual ela introduziria noções falsas e confusão. A "imbricação" dos nórdicos das duas etnias era tal, na época pagã que aqui nos interessa, que se pode ler em Tácito, a propósito dos estianos das orlas do Báltico: "Eles têm os usos e costumes do suevos, mas sua língua se aproxima da dos bretões. Adoram a Mãe dos Deuses e figuras de javali [traço tipicamente céltico] são o emblema de sua religião." Enfim, é com os címbrios que se encontrará, no séc. XIX, a

5

mais bela peça de arqueologia céltica, o vaso de Gundestrup, que permite supor, além dos vínculos que já conhecemos, práticas religiosas em comum.

O celtismo era um mundo aberto

Habituados como estamos a ver nos celtas restos de povos fechados e concentrados nas lembranças de seu passado e hostis às influências exteriores, custa-nos imaginar a que ponto o mundo céltico estava aberto a todas as correntes que vinham bater à sua porta. Uma descoberta estupefaciente, feita em 1942, no coração da França, perto de Châtillon-sur-Seine, nos traz a prova.

Extraiu-se do túmulo de uma mulher de alta categoria, datando da primeira Idade do Ferro, portanto numa época em que os gauleses viviam numa civilização das mais rudimentares, uma obra de arte grega sensacional, simplesmente a cratera de bronze maior e mais bela que existe no mundo, podendo conter 1.100 l e pesando 208 kg. Podem-se imaginar os sacrifícios, as penas e o tempo que demandaram a encomenda, o pagamento e o transporte de um tal objeto desde a loja de um grande negociante grego, que aliás não podia estar senão em Marselha? Sem uma ávida curiosidade das civilizações diferentes da deles, um ardente desejo de "progresso", um gosto inato pelo belo e pelo grande, um tal prodígio jamais teria ocorrido. Muitos outros sinais nos indicam que relações continuadas de toda natureza existiam entre os celtas e os helenos desde o séc. VII antes de nossa era. A cratera de Vix não é um testemunho isolado. Numerosos objetos gregos e etruscos fazem parte do mobiliário dos túmulos dos nobres celtas.

Na época de Vix, no extremo oriental da Terra Céltica, desencavou-se, em Heuneburgo, um recinto militar cercado de tijolos secos sobre fundações de pedra, de plano e técnica helênicos. Para erigir esse oppidum, os gauleses tinham preferido a seu muro tradicional, composto de terra, de pedras e de vigas, a construção de um engenheiro grego. Também não está excluída a hipótese de que se tenham deixado lograr por um hábil caixeiro-viajante de boa conversa, pois o murus gallicus constituía uma defesa em nada inferior à muralha helênica.

6

A partir do séc. III a. C., o tráfico tendo por base a troca de metais (cobre, estanho, ferro), cereais, carnes defumadas do norte, contra os objetos fabricados, o óleo e o vinho do sul, passou pelo intermediário romano. A língua latina penetrou na Gália pelos mercadores, que plantaram os elementos de uma quinta-coluna à qual o conquistador romano deveu em parte sua vitória rápida e total.

A pequena cidade dos parisienses Juliano, dito o Apóstata, injustamente, talvez, deteve de 356 a 360 o governo da Gália com o título de Caesar e morreu imperador. Assim ele fala da pequena cidade dos parisienses que ele tanto amava: É uma pequena ilha em um rio. É cercada por um muro. Penetra-se nela das duas margens por pontes de madeira. A água do rio é excelente para beber. Nessa cidade, não faz frio no inverno, graças à proximidade do mar. Nela existem vinhas e figueiras que se empalham no inverno.

A revelação da arte gaulesa

Quando, há cerca de 40 anos, teve lugar no Palácio de Chaillot a primeira exposição de arte gaulesa, os críticos parisienses não puderam acreditar nos próprios olhos. Estavam preparados para ver desajeitadas imitações da arte greco-romana e achavam-se na presença de uma demonstração de arte abstrata.

A descrição que tentaremos bosquejar da organização da Gália e da crise que ela atravessou ao se aproximar a era cristã não encontrará a compreensão do leitor senão com a condição de abrir previamente um parêntese para colocá-lo em contato com o gênio céltico, entrevisto através de suas manifestações mais límpidas: as artes.

O Egito, a Assíria, a Ásia khmer, a América asteca e maia são a arte monumental. A Grécia, a arte plástica. Roma é o gênio civil; a Terra Céltica é a arte simbólica. Muitas vezes se tem perguntado ironicamente: que é o gênio celta? O gênio celta é isto: a espiritualidade exprimindo-se por meios decorativos. Não existe nenhuma outra arte no mundo que se lhe possa comparar.

As fórmulas que caracterizam essa arte começam a se precisar desde a primeira Idade do Ferro. Elas florescem no decurso do período de Tène. Depois da noite da derrota e

7

depois que as almas tenham se refeito do choque da conversão ao cristianismo, ela renasce em formas novas e triunfantes nas ilhas célticas e também no continente, nessa arte medieval que volta as costas às lições do Mediterrâneo.

Antes de tudo, o celta, ao contrário do heleno, não se contentava com o testemunho de seus sentidos. Pressentia que a verdade das coisas estava além. As palavras eram instrumento inadequado para expressá-la. O artista, como o poeta, o narrador ou o embaixador, se exprime por símbolos, porque eles falam à imaginação. "Seu falar é breve", dizia Diodoro, "enigmático, procedendo por alusões e subentendidos, muitas vezes hiperbólicos..." As palavras não lhes parecem o melhor meio para comunicar seus pensamentos mais elevados. Preferem por seus ouvintes ou leitores, por meio de representações simbólicas, figuradas ou descritas, no caminho que leva até lá, fazendoos ao mesmo tempo entrar em estado de graça por processos prosódicos e estilísticos consagrados.

Nem repouso, nem progresso: uma ronda sem fim

Essa arte, qualquer que seja o registro no qual se exerce, obedece a um ritmo profundo que lembra uma combinação musical sem fim, à maneira dessas danças bretãs que enfeitiçam por seu martelar incessantemente repetido. Nela nada se encontra que se assemelhe ao repouso satisfeito da arte grega. O mito primordial que a inspira é o do eterno retorno, da vida que surge da morte, numa ronda sem princípio nem fim, como as curvas entrelaçadas que se enrolam sobre os relevos de bronze de Tène ou as iluminuras do "Livro de Kells".

A convicção de que a vida é um eterno recomeçar, portanto, uma ordem de coisas fixadas para a eternidade, distancia fatalmente dos empreendimentos políticos, que repousam na fé sobre a possibilidade de melhorar, de reformar, numa palavra, progresso, isto é, na progressão linear para um alvo utópico. A visão celta implica uma atitude muito concreta acerca das realidades da existência, que são apreciadas sem ilusões e sem preconceito moralizador. Ela deu nascimento a sistemas jurídicos que se conjugam estreitamente com as situações humanas, como se verá mais adiante.

8

A Gália, que nos aparece principalmente sob seus aspectos galorromanos fazendo grandes concessões aos modos de expressão mediterrâneos, forneceu-nos, não obstante, a forma de arte mais representativa do gênio céltico tal como procuramos analisar: a numismática.

Os gauleses descobrem a moeda e a reinventam

Os gauleses trocavam os produtos de sua agricultura e de seu artesanato em feiras, como a de Mont Beauvray, que ainda estava florescente na Idade Média. Os comerciantes ali não se apartavam de suas balanças, que lhes permitiam verificar o peso dos objetos de ouro e de prata que serviam de moeda, notadamente as fíbulas ou broches abertos, com que os peregrinos prendiam suas vestes. Ao contato dos gregos, depressa descobriram a vantagem das moedas, marcadas e tituladas, sobre as suas laboriosas pesagens e seus trocos cujo padrão era... a vaca. Nossos bretões ainda se lembram disso nos dias de hoje empregando a palavra saout (de soldus, moeda de ouro romana) para designar seus animais de chifre.

A imitação que fizeram de uma moeda de ouro de Filipe da Macedônia, era tão perfeita que era, às vezes, difícil distinguí-la de seu modelo. Cunhada pelos arvernos que, no terceiro século antes de Cristo, exerciam sua hegemonia sobre grande parte do país, ela foi de uso geral. Depois, a partir de 120, apareciam oficinas locais e tipos de moeda que se diferenciavam segundo os povos. Os arvernos se haviam contentado com uma deformação decorativa, no verso, caracteres gregos e a adjunção de algum motivo céltico. A partir de então tudo mudará. O modelo antigo é subvertido, esquecido. É uma revolução. As peças se recobrem de motivos enigmáticos, que às vezes se torcem em cintilantes turbilhões, dando a impressão que o artesão que os gravou estava num estado paranormal. Que se passou? O enigma hoje está semirresolvido e as explicações iniciais foram abandonadas.

Canhestrices de primitivos, tinham dito os primeiros descobridores! Era uma hipótese gratuita, não justificada pela habilidade bem comprovada dos gravadores e cinzeladores

9

gauleses e pela excelência das primeiras imitações. Havia ali, decerto, a vontade de representar qualquer coisa. Isso não foi compreendido de imediato.

A atenção foi atraída no início para o testemunho histórico trazido pela exumação num ponto dado do território de um depósito de moedas de origem identificável. Desenterraram-se em Jérsei, por exemplo, tesouros encerrando milhares de peças, pertencentes na maioria ao povo dos curiosolitos que, ao norte, confina com os vênetos e pertencia a sua confederação. Tem-se aí a prova, primeiro, de que Jérsei fazia parte do território dos curiosolitos ou estava em estreita relação com eles; segundo, de que uma tal quantidade de numerário evoca uma riqueza pública que foi mister subtrair à pilhagem do inimigo. A idéia se apresenta de imediato que bem poderia tratar-se de fundos das tropas curiosolitas em fuga diante dos romanos vencedores em Morbihan. A primeira hipótese é consolidada quando se constata que, no momento da delimitação das dioceses galorromanas, as ilhas da Mancha serão distribuídas ao bispo de Alet (SaintMalo), como antiga região curiosolita.

Mais de 100.000 peças gaulesas abstratas e exaltadas

As descobertas se multiplicaram. Mais de 100.000 peças gaulesas de ouro, prata e bronze enchem os museus e as coleções particulares, colocando o inarredável enigma de sua decoração. Alguma coisa se passou quando o artista celta, "copiando o perfil de Felipe", transformou as mechas de seus cabelos em espirais, em crescentes, em cornos extraordinários e imprimiu-lhe sobre toda a face uma roda solar. Finalmente, nada resta do perfil helênico, quando o olho foi substituído por três pontos, o nariz por um T contornado e a boca por um Z ao inverso. E não se trata de motivos obrigatórios. Existem variedades às dúzias. Eles se entrelaçam, se opõem, se compõem numa espécie de exaltação. Uma cabeça laureada dos belóvacos tem o esplendor das esculturas mexicanas. A abstração é levada a seus limites extremos nos belgas do norte e da Armórica. Os ramos das árvores que cingem a cabeça de um cervo de Cernunnos se converteram num complexo de linhas impetuosas, dignas de uma exposição de arte moderna não figurativa. Quem não é iniciado vê nelas, de qualquer modo, uma estrambólica composição decorativa.

10

Tudo se passa, assim, como se nossos gauleses tivessem escolhido a numismática para demonstrar a incompatibilidade do gênio de sua raça com o dos povos do sul.

Eles descobriram a moeda com seus vizinhos, é certo, mas eles a reinventaram à sua maneira. Nem todas as oficinas locais o fizeram com a mesma força, nem com a mesma originalidade. Em geral, e é lógico, são as zonas menos expostas à influência clássica que apresentam os tipos mais característicos que são, aliás, mais belos. Elas se estendem do vale do Garona às embocaduras do Escaut e das ribanceiras armoricanas ao Charolais com uma penetração na Helvécia.

O código da decifração: a mitologia céltica

As cenas representadas pelas moedas não são, contudo, uma composição decorativa, pois são sempre os mesmos motivos que retornam. Trata-se, pois, do agenciamento de sinais simbólicos, deixando grande margem à interpretação pessoal do artista e representando uma mitologia constante e precisa. Por trás dessas figuras existe, é evidente, um ensinamento religioso único e vigilante, que não pode ser senão o do colégio druídico.

Não dispomos de nenhum manual de mitologia céltica, mas a literatura insular da Alta Idade Média é um reflexo tão puro que é lícito rebuscar nela, por aproximações, as explicações que procuramos. Foi essa a idéia que tiveram a celtista Sjoestedt-Jonval com prudência bem universitária, e um numismata, Lancelot Lengyel, com um entusiasmo que desperta às vezes certas reservas.

Evidentemente não sabemos, de ciência certa, qual era o sentido dado por nossos ancestrais a tal símbolo há dois mil anos, mas, se nossa leitura é falível, estamos certos vendo nele a afirmação de uma crença escatológica. Os motivos são adivinhações cuja solução é, às vezes, quase evidente mas que, as mais das vezes, admitem diversas respostas. A ambigüidade era, sem dúvida, admitida, senão intencional.

11

Um disco, uma roda, evocam o Sol; um crescente, a Lua, sem nenhuma dúvida. Mas seu sinal gráfico pode, conforme o caso, conservar o sentido do símbolo puro ou remeter a um tema de que são um dos elementos. Um conhecimento aprofundado da tradição indo-européia é necessário para nela os reconhecer. Ele o é também para saber interpretar corretamente figuras tão surpreendentes como uma cabeça humana encimada por cornos de cervo ou uma serpente com cabeça de carneiro, para nos cingirmos aos temas menos elaborados da escultura galorromana.

Sabemos que o caldeirão é o símbolo absoluto da ressurreição. Sua presença sob o ventre do cavalo completa o sentido próprio do animal sagrado. Na maioria das peças armoricanas, o cavaleiro que o cavalga lança, diante da cabeça de sua montaria, um motivo na extremidade de uma linha, que é, o mais das vezes, um quadrado riscado por duas diagonais marcadas por cinco bolas. Os arqueólogos reconheceram aí o uexillum, a bandeira militar romana. A hipótese é ousada, pois nos indagamos de que modo os armoricanos, que jamais a haviam visto, poderiam ter se inspirado nela. Entretanto, o sentido se depreende por si mesmo de uma cena que recorda inequivocamente o clássico quadro do cavaleiro montado num asno ao qual apresenta a cenoura na ponta de um bastão, para incitá-lo a seguir para diante. E o cinco é o signo do movimento contínuo. Estaríamos, assim, em presença de uma figuração do curso da vida para a ressurreição, depois da morte.

Nenhum limite para escapar às leis físicas

O motivo que retorna com insistência é o ovo, cujo sentido é universal, outro é a cabeça humana, que foi objeto de um culto entre os celtas de que ainda falaremos. Uma linha envolvente pode ser compreendida como o símbolo da matriz e o polegar para cima do cavaleiro como um símbolo viril.

O culto do Sol e da Lua, exprimindo o círculo que vai do nascimento à morte passando pela vida, associada à fertilidade que a entretém, utilizava todo um simbolismo dos números que, sobre as medalhas, toma uma diversidade de formas: três vírgulas, nove

12

bolas, cinco bastonetes (os dedos da mão), etc. Vê-se por onde Diodoro associava o Druidismo às doutrinas pitagóricas.

Não existe limite para escapar às leis físicas, se um símbolo é bem sucedido: mãos de seis dedos, cavalos de cinco pernas, traços do semblante reduzidos a sinais geométricos que não respeitavam nenhuma lei anatômica. (O cubismo é ainda muito representativo em comparação). Pois, como fazer sentir que um homem, representado por uma cabeça, é imortal? Uma inscrição seria uma sensaboria. Seu olho torna-se então um emblema solar e seu nariz é substituído pelo sinal da ressurreição!

Recuaremos diante de hipóteses ousadas? Os filamentos em volutas que se escapam da fronte, dos olhos, da boca, do perfil dessa peça parisiense ou batava, são o fluxo vital em suas funções espirituais, oculares e verbal. Os que saem do ventre do cavalo são o fluxo seminal!

Uma cabeleira nada banal é aquela que é formada de crescentes lunares. Poder-se-ia perguntar porque, se um texto irlandês não nos dissesse: "A Lua do herói apareceu sobre sua cabeça."

Onde o positivismo resvala para o ridículo

"Atrás do cavalo" diz um sábio, "se acha uma roda que representa o carro que se supõe que o auriga conduz." O termo "se supõe" não é demais, pois a "roda" se torna com facilidade um motivo solar colocado diante do peitoral do cavalo, e o auriga se transforma de bom grado num soberbo pássaro cujas patas nem sequer descansam sobre o dorso da montaria. A explicação naturalista é notoriamente insuficiente. Há muito que o carro de duas rodas do modelo grego inicial foi esquecido.

O cavaleiro, por seu lado, sentiu a pressão metamórfica do polegar céltico. Uma peça o mostra com a cabeça ornada por três chifres, cujos dois exteriores têm a forma de uma lira. Ele brande o Sol com uma das mãos e a Lua com a outra. É assim que um gravador, que tinha a sua idéia, representou o homem universal ou coisa que o valha. Os

13

três elementos que encimam sua cabeça se reencontram alhures em outras composições.

Os animais rastejantes, lagarto, serpente, crocodilo, exprimem a idéia das origens, segundo a tradição. Por conseguinte, um cavalo cujo traseiro se transforma em cauda sinuosa será ou o cavalo das origens, ou o deus-cavalo, ou o símbolo do curso do Sol a partir de um renascimento.

Os positivistas do séc. XIX se acreditavam sérios, acima de toda pecha de espiritualismo, quando se entregavam a reflexões deste gênero: "O testemunho das moedas, com um cavalo a galope, a roda e a figura alada (o famoso auriga), ainda que sejam figuras convencionais (sic) derivadas de modelos gregos, sugerem..." Aqui cortamos e damos só o final: "... a existência de um sistema de estradas."

A explicação de um motivo céltico por um empréstimo tomado às civilizações conhecidas foi o método de rigor até há alguns anos. A escola celtista de Rennes foi a primeira a se emancipar. Uma moeda ambiana (Picardia) mostra um cavalo de cabeça grande e focinho prolongado. Chamou-se a isso "cavalo com cabeça de elefante", o que supõe um modelo africano ou oriental. É esquecer que o dito cavalo é alado e tem crina. Quanto à tromba, é um motivo banal das moedas gaulesas - talvez a cabeça do javali? herdado, em certas ocasiões, pelo próprio cavaleiro, ou pelo estranho pássaro que o substitui. Porque não o cavaleiro-elefante, o pássaro-elefante?

A fantasia celta não tem limites. Ela está no sangue. Mil anos mais tarde, ela ressurge nas iluminuras irlandesas, semelhante a si mesma.

Uma tal visão das coisas era inacessível ao conquistador romano, quer estivesse de toga ou sobrepeliz. Como o vencido adota sempre a linguagem do vencedor, os artistas gauleses haviam feito concessões de forma. A arte galorromana, por seu conteúdo, foi, porém, a oportunidade para uma revanche velada.

Como os celtas mediam o tempo

14

Os celtas regulavam sua vida segundo as fases da Lua, mestra da fecundidade da terra e das mulheres, e ritmavam-na por quatro grandes festas sazonais de que a Irlanda guardou os nomes. O ano começava a 1o. de maio, ou seja, pela estação dos dias mais longos. Em bretão moderno, junho se chama mez-Heven, meio-verão. O inverno começava a 1o. de novembro, em bretão "início dos meses negros", como o anuncia o nome de outubro, gau-Here, suboutono. Quer dizer que ao calendário de meses lunares se superpunham estações estabelecidas segundo o ciclo solar. Os dois processos de medição astronômica do tempo eram postos de acordo por meses intercalares que recuparavam a diferença entre o ano lunar de 354 dias e o ano solar de 365 e uma fração.

Foi em 1897 que se encontraram, na terra, em Coligny, na Borgonha, ao acaso de uma mineração, os restos de uma tábua de bronze gaulesa sobre a qual estava gravado o detalhe de 62 meses, repartidos em cinco anos sucessivos de 12 meses, mais dois meses intercalares, um na cabeça, o outro no meio da série.

O texto está escrito em velho céltico comum, mas muitas palavras estão abreviadas e levantam problemas. O ordenador do Colégio de França, incumbido da questão em 1972 pelo Pe. Pierre-Marie Duval, confirmou e completou em meia hora soluções que os celtólogos tinham levado mais de 60 anos para achar. Mas tropeçou na determinação do ciclo de certas menções que voltam regularmente. Contudo, se resta ainda muito labor em perspectiva, é preciso também ter em mente que três gerações de especialistas penaram para decifrar os enigmas do calendário maia. A grande dificuldade não é de ordem filológica, mas, sim, penetrar uma maneira de pensar tornada totalmente estranha à nossa.

Um calendário metafísico vivo

Um mês céltico de 30 dias nada tem em comum com um mês moderno de 30 dias. Mesmo se, fortuitamente, os períodos do ano que eles indicam coincidirem. Um calendário metafísico se sobrepõe ao calendário astronômico, dotando os meses, os dias ou certos grupos de dias, de uma qualidade particular, favorável ou não a certas ações.

15

Os romanos tinham também seus dias "fastos" e seus dias "nefastos". Essa preocupação vai tão longe que o calendário comporta mudanças de datas para transferir de um mês para outro um dia notável a fim de que se torne um "bom" dia. Desse calendário traduzido em termos de hoje, Paul-Marie Duval dá um exemplo: "o 19 de maio, dia de São Ivo, tomará emprestada a notação do 19 de junho, dia de São Gervásio, seguida do nome desse mês. Teremos, assim, em maio: 19, São Gervásio de junho, em lugar de '19, São Ivo', e reciprocamente em junho: 19, São Ivo de maio."

Trata-se, em suma, de um conjunto orgânico e vivo. "Durações quantitativamente iguais", diz Julius Evola, "podiam ser consideradas como iguais desde o momento em que cada uma delas contivesse e reproduzisse todos os momentos típicos de um ciclo. É por isso que se vê repetirem-se tradicionalmente números fixos - por exemplo, o 7 o 9, o 12, o 1.000 - que não exprimem quantidades, mas estruturas típicas de ritmo, que permitem ordenar durações materialmente diferentes, mas simbolicamente

equivalentes".

Assim, cada dia de um mês intercalar levava o nome de um dos 30 meses que se seguiam. Restou disso alguma coisa em bretão na tradição dos gourdeziou. Para pessoas que hoje conhecem uma língua céltica e as crenças tradicionais que ela veicula, sob uma forma tornada folcórica, o calendário céltico não é totalmente estranho. Evoca neles ressonâncias profundas, que, mesmo quando não seguidas de adesões intelectuais, comovem-nos ao comunicar-lhes o sentimento profundo de suas origens.

Uma grande mutação política em curso

A sociedade céltica, tal como se conservou até o fim nas ilhas, era monárquica. A Gália, desde antes do primeiro século precedente à era cristã, havia começado e já levado a termo uma verdadeira mutação política. A monarquia semiteocrática estava quase em toda parte substituída pelo governo coletivo da aristocracia. Era, como se iria dizer mais tarde, a vitória dos "grandes" sobre o rei e a Igreja. Essa mutação retirava ao mesmo tempo da corporação dos druidas a influência predominante que ela exercia diretamente sobre o executivo pelo papel que representava junto à pessoa do rei. Para continuar a

16

influenciar os acontecimentos, os druidas foram constrangidos a entrar individualmente no jogo político. À chegada de Caesar, não restam senão dois reis, o dos nitióbrogos, a oeste de Toulouse, e o dos sénones (ao redor de Sens). E o segundo, que perdeu seu trono, somente deveu sua salvação à fuga.

Entre os sequanos do Jura, o filho do último rei não conseguiu recuperar a coroa. Orgetórix, entre os helvécios, malogra numa tentativa análoga, embora o inimigo estivesse às portas. São os romanos que, em 56 a. C., recolocam Tasgetios, no papel de um El Glaoui, no trono dos carnutos (Chartres). Mas, dois anos mais tarde, ele é morto por seus inimigos com a aprovação de seus súditos, que não erguem um dedo quando Caesar vem punir os matadores.

No século que precede a perda de sua independência, a Gália vê assim seus povos mais importantes e mais abertos às correntes da História tomar a feição de nações, dando-se constituições e um começo de administração.

Essas modificações não se efetuaram sem o apoio de uma consciência bastante generalizada do bem comum, sobre uma base não mais tradicional, mas voluntarista. Esses povos-nações são desde então governados por assembléias que os romanos chamarão "senados", que delegam o poder por um ano a um mandatário, o uergobret. Receosos do poder pessoal, os éduos chegam mesmo a nomear dois. O uergobret se apóia nos "principais" - no seu gabinete, diríamos nós. Cada família (no sentido lato) fornece um senador, um cavaleiro e 10 infantes em caso de guerra. Entre os nérvios, os senadores são 600. Não sobrarão senão 3 depois da repressão. Entre os vênetos, são todos mortos a fio de espada.

A origem dos vassalos

A massa do povo forma a plebe dos camponeses. Eles são pobres, crivados de dívidas e não gozam da solidariedade dos nobres. Estes não se importam nada com eles. Têm seus ambactes, seus camaradas de combate e fiéis clientes. Em plena guerra das Gálias, o éduo Litavicos, obrigado a fugir da vingança de Caesar, é seguido por seu bando,

17

"pois", diz Caesar, "é julgado indigno entre os gauleses abandonar seu patrão, mesmo em caso extremo". A existência dessa fraternidade de combate tinha já sido notada por Políbio entre os gauleses cisalpinos. Ela a chamava hetairia. Caesar os chama soldarii. Existem deles entre os aquitanos, entre os celtiberos, o que bem mostra que a sociedade céltica conheceu uma grande irradiação. Talvez seja lícito associar à sua influência a instituição teutônia dos Geselle, ou companheiros, devotados a seu chefe na vida e na morte. A palavra gaulesa para esses fiéis era uassos, que deu uassalus em latim, vassal em francês e gwas em bretão, que com o tempo adquiriu o sentido técnico de homem e depois de marido.

Lutas intestinas pelo predomínio

A igualdade entre povos, pequenos ou grandes, era uma noção que teria parecido absurda na Antiguidade. A época não colocava teses filosóficas acima da realidade. E esta era a desigualdade dos povos, em poder e prestígio. Na Gália, produzir-se-á logicamente um fenômeno duplo: de uma parte, a atração que exercem os grupos principais que fazem já figura de nações, sobre os menos importantes, que buscam uma proteção; de outra, uma rivalidade aguda entre os povos principais, cada um procurando tomar a frente dos outros.

Não cabe deplorar sentimentalmente essas "divisões" de que a avidez dos romanos e a ambição pessoal de Caesar iam muito habilmente tirar proveito, pois era o processo natural de formação de uma nação-estado. Não existe outro.

Quando, em 121 a. C., os arvernos estão em guerra com os romanos, eles têm uma enorme clientela, que se estende até os Pireneus, a Mancha e o Reno. Mas esses laços são ainda demasiado débeis para permitir organizar uma coalisão eficaz. Batidos, os arvernos se reencontram sós.

Os nérvios, os treviros tiveram também seus clientes. Os suessionos, no primeiro século antes de Cristo, dominavam mesmo uma parte da ilha da Britânia.

18

A presença dos romanos na Gália não dá uma trégua às rivalidades. Ao contrário. Os séquanos, que tinham sido um dos principais clientes dos arvernos, se substituem a eles como chefes do partido oposto aos éduos. Enquanto diversos pequenos povos igualmente inimigos dos éduos, depois de ter sido sucessivamente clientes dos arvernos e dos séquanos, procuram o apoio dos remos para se assegurarem a benevolência do invasor, embora os remos sejam belgas. Entre eles, os carnutos, que foram chamados de umbigo das Gálias!

Os éduos, por sua vez, oprimidos pelos suevos de Ariovisto e sôfregos para se desembaraçarem da tutela dos séquanos, não hesitam em apelar para os romanos. Para a mentalidade gaulesa, é preciso que um povo exerça o principado. Roma, que ficava longe, sem dúvida parecia aos éduos um perigo menor do que tal ou qual povo gaulês ou germano vizinho. Os historiadores franceses nacionalistas consideraram o embaixador éduo em Roma, Divicíaco, como um traidor da pátria gaulesa. É um anacronismo. A pátria gaulesa despontava no horizonte, ela não existia ainda senão para uma minoria de visionários.

Vercingetórix, o primeiro espírito político

Os povos de importância média debatiam-se sem cessar para escapar à supremacia de um maior, mas caíam sob a tutela de outro. Os belóvacos , para se libertarem dos remos, se unem aos éduos, que perdem os treviros que se passam para os suessionos. Os ciumentos fazem bando à parte. Em 58, os lingões fornecem o melhor trigo às legiões e, em 52, recusam-se a seguir Vercingetórix em companhia dos remos e dos treviros, que fizeram a mesma escolha. O ciúme era a razão pela qual, em 57, os remos haviam dado o mau exemplo: eles não tinham podido suportar que o exército dos belgas tivesse recebido um comando suessiono. A vitória romana foi proveitosa aos remos, pois que ainda hoje Reims domina Soissons.

Vercingetórix joga com a ambição, como seu adversário. Oferece o principado da Província romana aos alóbrogos, que se esquivam. É o conselho geral das Gálias insurretas que, dando o comando supremo a um arverno, retirou ipso facto o principado

19

aos éduos, que ficaram mortificados. Isso explica porque Vercingetórix, ordenando aos segusiavos que atacassem os alóbrogos com 10.000 infantes, coloca-os sob as ordens de um éduo, malgrado sua antipatia pessoal por esse povo. O espírito político pela primeira vez dominou na Terra Céltica o da vendetta.

A história moderna conheceu um desenrolar análogo. A casa da Áustria exercia o principado sobre os Estados alemães. A política francesa empenhou-se em sustentar seus inimigos. Mas a Prússia, embora se aproveitando das manobras francesas, não passou à França por causa disso.

A tentação romana

Vimos as razões negativas por que tantos povos gauleses se orientaram para Roma. Havia-as também positivas. Ninguém pensaria em negar o prestígio de que desfrutava em terras gaulesas a Cidade Eterna havia muitos lustros. O prestígio da ordem e da eficiência.

Quando uma civilização de tipo arcaico, como era a civilização céltica, se acha em contato com uma civilização mais evoluída, que lhe proporciona como que uma imagem de um progresso invejável, ela é tentada por uma mutação brusca, que a levará ao mesmo grau de poder e ao mesmo nível de rendimento em todos os domínios. Havia certamente para os gauleses, no espetáculo da eficiência romana, algo de fascinante. O próprio Vercingetórix, antes de tomar consciência do destino próprio da Gália, havia sucumbido à tentação e durante muitos anos feito parte do séquito de Caesar.

Roma, em suma, era para os celtas o que Londres e Paris são para seus descendentes. É ocioso procurar razões de particular afinidade entre latinos e celtas para explicar a fácil assimilação da Gália. O mesmo fenômeno se observa na África negra, onde campeia o frenesi de europeização, amiúde a par, advirta-se, com a repulsa ao branco.

Caesar não era homem para negligenciar circunstâncias tão favoráveis a sua intervenção. Só tinha necessidade de um pretexto. A pretensão dos helvécios de se

20

instalarem no interior da Gália forneceu-lho. Não seria surpreendente, além do mais, que tivesse sido informado da conjuração de Orgetórix (helvécio), de Dumnórix (éduo) e de Casticos (séquano), buscando formar uma federação que teria dominado a Gália. A união dos gauleses era a última coisa que estava disposto a tolerar.

A idéia da pátria gaulesa ainda não tomou corpo

Em 52 a. C., Vercingetórix havia tomado armas contra a vontade dos principais de sua cidade graças ao apoio de seus clientes. Haverá a partir de então duas facções entre os Arvernos e a que for contra Vercingetórix será a favor de Caesar. Fato semelhante ocorre com a maioria dos povos arrastados no conflito. A Gália, colhida em plena mutação política e psíquica, opõe à intervenção romana uma couraça cujos defeitos lhe serão funestos. Seu patriotismo irá vacilar com frequência, pois o gaulês sente muito bem que sua nação regional não está mais à altura das circunstâncias, mas falta-lhe fé na pátria gaulesa evocada nos discursos do chefe arverno: a idéia é bela, mas ainda não tomou corpo.

Em face das previsões e dos cálculos dos romanos, de seus vastos planos , as vacilações e a miopia política dos celtas fazem contraste. Quando os cartagineses atacam Roma e penetram vitoriosos na Itália, nenhum gaulês os segue, a despeito das prodigalidades de Aníbal nem mesmo os cisalpinos, que odeiam a Cidade-Polvo. Só quando aparece Asdrúbal e seu exército de socorro é que os boios (Bolonha) se decidem e sozinhos. Tarde e a más horas...

Quando, 75 anos antes da campanha de Caesar, o cônsul Sextius, chamado pelos gregos de Marselha, que se sentem perigosamente bloqueados pelos gauleses, desembarca e aniquila o povo sálio e arrasa a sua capital, onde estava talvez prestes a nascer uma nova Terra Céltica, ninguém se sente atingido. Os chefes sálios que escapam se refugiam entre os alóbrogos, os ancestrais dos savoianos. Os romanos os seguem e infligem uma correção aos montanheses hospitaleiros. Não é senão depois da derrota dos alóbrogos que os arvernos se decidem a intervir. São, por seu turno, batidos, derrota infinitamente mais grave, já que a nação arverna era então preponderante na Gália. E ninguém acorre

21

em ajuda dos arvernos. É então que Roma sujeita todo o sul do país, de que faz uma província anexada: a Prouincia, de onde vem o nome da nossa Provença.

O rei arverno, Bituit, visivelmente não compreende nada do que se passa. Aceita ir ao campo romano para negociar. É posto em correntes. De novo, ninguém reage.

A Gália cava sua própria sepultura

Tendo repelido a invasão dos suevos de Ariovisto, entrados na Gália para expropriar seus habitantes de suas terras, Caesar, em 58 a. C., se tinha assegurado o reconhecimento e a confiança de diversas nações: fizera figura de salvador. Isso freou a resistência a sua nova empresa. Desde o início, os chefes se declararam a favor de Roma, não somente entre os éduos, mas também entre os arvernos, os carnutos, os pictões, os treviros. Entre os mais indóceis sente-se a hesitação. Ambiórix, antes de atacar Sabino, era amigo de Caesar e tira partido de sua amizade para livrar-se de suas obrigações em relação aos atuatucos. Estes, quando se veem batidos, suplicam que lhes deixem as armas para se defenderem de seus vizinhos prestes a se lançarem sobre eles.

Alguns vão mais longe. Muitos se indignaram de que Caesar tenha empregado a cavalaria germânica contra Vercingetórix. Mas a cavalaria édua estava sob suas ordens contra os helvécios! Contra os belgas, esses campeões da independência, Caesar dispõe dos éduos e dos remos. Contra a feroz nação dos nérvios, ele tem a ventura de contar com fortes contingentes pertencentes a outros povos belgas e aos treviros. Contra os britanos insulares, conduz "toda a cavalaria gaulesa". Assim, em todas as suas campanhas para concluir a conquista das Gálias, suas legiões se recheiam de tropas gaulesas.

Cada um por si e por ódio ao vizinho

Decididamente, entre os gauleses o coração não está mais voltado para a glória militar e as ambições imperiais, como no tempo de Ambigat. Muitos combates sem prosseguimento, muitas capitulações precipitadas fazem pensar em meros combates de

22

honra. É o cada-um-por-si e o ódio ao vizinho que estão por toda parte. Quando os helvécios vencidos tentam escapar, Caesar ordena às populações dos países que atravessam que os detenham: é obedecido sem um murmúrio. Os senones informam aos romanos sobre as tropas aliciadas pelos belgas e seus locais de reunião. Os remos fazem a mesma coisa. Tendo sabido, na qualidade de vizinhos, os efetivos que cada povo conseguiu fornecer à revolta, eles o comunicam a Caesar. Quando os vênetos aceitam o desafio, os pictões e os santões, do Loire à Gironda, constroem barcos para Caesar e permitem assim sua vitória sobre o Morbihan. Tendo jurado exterminar os eburões, mas sem conseguí-lo, o procônsul convida os povos vizinhos a vir participar da pilhagem de seus compatriotas. Eles acorrem em massa e, após a pilhagem, massacram.

A guerra das Gálias tem algo das guerras indígenas nos Estados Unidos e as marchas de Caesar lembram as U. S. Cavalry, que utilizava os crows contra os sioux e os pawnies contra os cheyennes. A partida era jogada de antemão.

Mas a inexistência de uma pátria gaulesa sentida por todos e, com maior razão, a de um "império" celta, não infirma a existência de uma civilização céltica. A idéia de nação também não existia em Roma, que era coisa muito diversa: uma empresa da expansão pela força e pela diplomacia, como o foi, quase dois mil anos mais tarde, o Império Britânico.

O que fez a superioridade ou a fortuna dos impérios da Antiguidade foi a ambição de um homem - Dario, Alexandre, Caesar - apoiada numa forte organização. Uma tal fórmula não podia nascer senão em países que admitem o poder absoluto, não no norte "bárbaro" e sobretudo não entre os celtas, amantes da vida sem barreiras.

Entretanto, o espírito subjacente à civilização céltica era por demais ligado a naturezas físicas e a costumes. Nenhum conquistador o podia alterar de repente. Ele continuou a sua vida subterrânea e valeu-se de todas as circunstâncias para se manifestar, até nossos dias.

Mobilização celta

23

As diferenças entre os exércitos celtas e romanos eram numerosas e fundamentais . Cada nação celta, quando empenhada numa guerra, chamava ao combate os homens válidos. O número deles era elevado, perto de um quarto da população. Somente as possibilidades de abastecimento limitavam as circunscrições. A Gália teria facilmente mobilizado um milhão de homens se tivesse podido reuní-los, organizá-los, treiná-los e alimentá-los, tudo coisas impossíveis sem meios de transporte, de que a época não dispunha, e sem uma organização profissional sob um estado-maior geral que somente um Estado central teria podido constituir. Sobretudo sem o culto da disciplina, que uma civilização que tinha o da fantasia dificilmente poderia conceber.

Fixava-se, pois, um contingente por povo para chegar a um total manejável. As tropas dos Estados-clientes eram em geral fundidas com as do Estado dominante. Três dos Estados que estavam na clientela dos éduos forneceram, porém com grande alívio, contingentes separados, o que indica que eles mantinham uma completa autonomia: os bituríges (12.000 homens), os senones (outro tanto), os parísios (10.000). Foram mais tarde reconhecidos como "cidades" pelos romanos. Por outro lado, os clientes mais modestos dos éduos, os segusiavos, os ambivaretos, os branovicos forneceram contingentes mesclados. Foi, também, o caso dos cadurcianos, gábalos e velavos, em relação aos arvernos.

À proclamação do "tumulto", os mobilizados deviam dirigir-se sem demora ao ponto de encontro. O último a chegar seria sacrificado aos deuses. Depois se punham em marcha sob um chefe eleito. Os nobres, a cavalo, se reuniam à parte para formar um corpo de cavalaria. A plebe formava a infantaria. Entre os insulares, que veremos sempre fiéis aos costumes mais tradicionais, os nobres combatiam em seu clã. Entre os séculos III e IV, os celtas continentais tinham cessado de se servir do carro de guerra, ao qual permaneceram obstinadamente fiéis britânicos e escotos, que não tinham dado acolhida a essa novidade: a cavalaria.

A destruição do santuário druídico de Mona (Anglesey) "O exército ('acies') inimigo fazia face sobre a margem, com uma densa turba de guerreiros armados e de mulheres gritando imprecações, vestidas de negro como as Fúrias, os cabelos em desalinho, brandindo tochas. Ao redor, os druidas, as mãos erguidas para o céu, lançando maldições aterradoras, estarreceram os soldados pela

24

novidade do espetáculo: era como se tivessem os membros paralisados, o corpo imóvel exposto aos golpes. Mas, ao apelo de seu chefe e exortando-se a si mesmos a não tremer diante de uma malta de mulheres fanatizadas, fazem avançar as hostes, esmagam toda resistência e envolvem o inimigo em suas próprias chamas. Colocou-se em seguida uma guarnição entre os vencidos e destruiu-se seu bosque consagrado às cruéis superstições..." (Tacitus, Annales, XIV, 29-30) "... O que os romanos tomaram (ou quiseram tomar) por um exército certamente não o era, pois Tácito não narra nenhum combate e foi sem nenhuma dificuldade que as legiões se apoderaram de uma ilha sagrada que não era defendida e que os britanos não imaginavam, sem dúvida, poder ser atacada um dia. 'Acies' é uma palavra errônea que designa provavelmente os druidas, seus alunos e as esposas de uns e de outros (ou simplesmente druidisas) alinhados ao longo da margem. Para se defender, não foram meios militares clássicos que eles puseram em ação, mas meios mágicos... "... Os druidas dirigiram suas maldições a gente que não estava de nenhum modo preparada para sofrê-las ou dar-lhes fé, pois suas concepções religiosas eram por demais diferentes. Os romanos não empreenderam a fuga, como o teria feito infalivelmente um exército celta. Simples fórmulas de imprecação ou archotes, contra o poderio militar romano do primeiro século, eram - ai dos celtas! – bem pouco..." ('Ogam', XII, 225-226)

Estúpidas batalhas arrumadas...

Nenhuma estratégia inteligente, nenhuma tática refinada eram possíveis a tais exércitos improvisados. O ataque ocorria sob a forma de uma arremetida frontal que, para levar tudo de roldão, se fazia acompanhar de uma mise-en-scène psicológica, comportando maldições, passes de mágica, urros terríveis, gesticulação, insultos terrificantes, que, aliás, muitas vezes surtiam efeito.

Mas os contingentes romanos sabiam recobrar-se em tempo e manobrar. Mediante manobras de envolvimento, a escolha das posições, uma hábil utilização dos acidentes do terreno, a entrada em cena das reservas, eles sabiam deixar o adversário em má situação e conquistar a vitória, às vezes inferiorizados de um contra seis ou mais. Pois, uma vez desmantelado o ataque, os gauleses não dispunham nem de treino, nem da cadeia de comando necessária às mudanças de formação, às conversões de frente ou às marchas de desenvolvimento. O mais das vezes era a fuga e a hecatombe. Só recuperavam sua vantagem na guerrilha. Mas esta não os atraía, pois faltava-lhe brilhantismo.

25

De 201 a 190, os cisalpinos se deixaram maltratar assim em estúpidas batalhas arrumadas, aliás com a defecção de um de seus povos, os cenomanos. Em 197, os insubres perderam 35.000 homens; no ano seguinte, 40.000. Os boios perderam 61.000 em quatro anos. Esses povos não podiam sobreviver a tais sangrias. Em 225 a. C., reforços haviam chegado aos cisalpinos de pontos tão distantes como a Bélgica. No curso da batalha de Telâmon, os Gesatos debalde se lançam ao combate de dorso nu para que sua bravura impressione o inimigo. Perdem 40.000 homens e Milão é tomada. Tal foi a primeira grande derrota dos celtas, que marcou o refluxo de sua grande vaga.

... mas progressos rápidos

Nada se sabia na Gália Transalpina. Chegando à vista do quadrado ocupado pelas legiões romanas perto de Orange, o rei Bituit fanfarrona: "Se vêm como parlamentares, são demais. Se vêm para combater, haverá apenas o suficiente para a ração de meus cães." Seus cães quebram os dentes sobre o pequeno quadrado e está acabada para sempre a grandeza arverna.

Os exércitos celtas se batem pelo solo, eles não fazem política. Caesar faz. Dumnórix manobra para se beneficiar de uma restauração entre os éduos. Ele o manda assassinar, porque não deseja um inimigo unido. Manipula as tribos gaulesas como um Lyautey manipula as bérberes. Seus adversários não são de porte. Em 54, Ambiórix, que montou um complô fadado a ter uma extensão que seria fatal aos romanos, comete o erro imperdoável de desencadear a insurreição logo antes da partida de Caesar para a Itália. A réplica é fulminante e a Gália central, impressionada, não segue a Bélgica. Mas podese dizer que Caesar ganhou contra o relógio, pois os gauleses faziam rápidos progressos. Bituit já tinha seu corpo de pontoneiros. Quanto a Vercingetórix, havia se igualado aos romanos em poucos meses em matéria de tática e de trabalhos de sítio.

Os gauleses aturdidos da derrota

26

O partido romano, essa terrível quinta-coluna que havia, quase que em toda circunstância decisiva, sabotado a resistência gaulesa, não havia previsto que a mudança seria para a Gália o domínio romano. A passagem do sistema gaulês da lei "privada", dos arranjos de homem a homem num círculo familiar, ao sistema de governo autoritário, representado por funcionários impostos, aplicando leis desejadas por estrangeiros, constituía uma mudança de plano psicológico tão desconcertante que devia deixar o espírito dos vencidos como que "em branco". Os gauleses, aturdidos, entregaram-se eles mesmos à latinização. É esse o segredo de sua incorporação relativamente fácil ao império e não uma pretensa ausência de antagonismo entre o gênio da Terra Céltica e o de Roma, pois tudo que sabemos de uma e de outra o desmente.

Caesar, na impossibilidade em que estava de manter o poder romano pela força num país tão vasto, mais rico e mais povoado do que a Itália, adotou, aliás, uma política hábil que tinha mais de protetorado que de anexação. Depois de sua vitória, teve o cuidado de respeitar a hierarquia tradicional entre as "cidades" e de angariar o reconhecimento dos povos mais importantes por um tratamento de favor.

Os prisioneiros éduos e arvernos não foram distribuídos como escravos a seus soldados, mas libertados. Os arvernos se beneficiaram de uma isenção de impostos e conservaram seu título bem como seus privilégios de federados. O mesmo sucedeu em relação aos éduos, apesar de sua "traição". Os povos secundários, em compensação, foram duramente subjugados e gravados com contribuições.

Os "crimes de guerra" depressa foram esquecidos. Os costumes do tempo eram duros e, entre adversários, não se guardava por muito tempo mágoa pelas "atrocidades" cometidas. Entre eles, de resto, os celtas não eram exceção. Quando os helvécios tinham penetrado no território dos éduos, que lhes recusavam passagem, tinham feito escravos os seus prisioneiros. Os atuatucos, quando receberam como reféns o filho e o sobrinho de Ambiórix, não só os trataram como escravos, mas os mantiveram acorrentados.

27

Os gauleses, contudo, passavam a esponja, felizes de poderem beneficiar-se com a paz romana! Mas iam desencantar-se.

Esse presente romano, o perceptor

O sistema de impostos estabelecido por Augusto substituía a propriedade pública da terra pela propriedade privada. Caesar havia arrochado a Gália com um imposto de 40 milhões de sestércios (8 milhões-ouro), repartido entre as cidades. Augusto o substituiu pelo censo, que atingia a um tempo as pessoas e as terras, depois de uma agrimensura que durou 16 anos e foi a base da arrecadação do imposto sobre bens de raiz. Os homens que haviam combatido os romanos de gládio na mão deviam agora pagar-lhes o salário de sua presença.

A Gallia Comata (Gália Cabeluda) apareceu assim formada por 305 "povos", que o imperador reduziu a seis dezenas de regiões, divididas elas mesmas em países e estes em fundos. Não haverá fundo sem uma uilla e um proprietário. Os nomes em -ac (Sevignac), em –é (Sévigné) e em -y (Savigny) vêm do fundus (Sabiniacus). A uilla se tornou o village, ou tomou a terminação -ville. A feudalidade francesa, que repousa inicialmente sobre a propriedade individual do solo, decorre nesse particular do sistema romano, não céltico, embora tenha também sua haste céltica no sistema vassálico.

Já se vê que esse presente romano, o perceptor, ia semear a consternação entre os gauleses. O que restava dos tesouros foi enterrado. Carecia-se de moedas. Um número reduzido de tipos, em ligas depreciadas, foi de circulação geral. Logo se estava reduzido a peças de bronze. Apesar disso, os gauleses se obstinaram em conservar o uso de suas próprias moedas. Ele levou três séculos a desaparecer.

Uma certa resistência...

Quando, nos primórdios do primeiro século de nossa era, Claudius interditou os druidas, a resistência ia afinal se manifestar. A resistência assume formas variadas. Os druidas, os primeiros interessados, se refugiam nas cavernas, ou no fundo dos bosques, onde

28

prosseguem clandestinamente seu ensino e a celebração de seus ritos, enquanto a jeunesse dorée se comprime na escola romana de Autun. Muitos camponeses e artesãos permanecem agarrados aos burgos-fortalezas das alturas, onde os romanos não vêm sujar seus coturnos e deixam as novas cidades construídas em pedra, junto às vias comerciais, aos comerciantes e aos oportunistas. Há assim fugas clandestinas não para Londres, que é também terra romana, mas para a Germânia, onde os homens ainda são livres e cujos costumes rudes recordam aos celtas o tempo de sua grandeza. Drusus manda interceptar as tropas gaulesas que passam o Reno com armas e bagagens, edificando à sua maneira um "muro-da-vergonha". Para que reine a paz romana, é preciso impedir a todo preço uma coalizão céltico-germânica. Barrado o Reno, Drusus partirá em campanha além-Reno, para cortar o mal pela raiz.

... mas empresa colonial bem-sucedida

Preocupado em apagar as veleidades guerreiras, o exército romano recruta livremente. Os cipaios celtas darão satisfação. Já que os druidas são a classe intelectual, Roma resolve não os impelir ao sombrio desespero e oferece-lhes uma alternativa à condição de maquis: a reconversão bajuladora. Os que têm a espinha flexível se tornarão professores ou poetas oficiais. As novas estradas, que amplificam a rede gaulesa, permitem uma forte expansão ao comércio. O sul compra metais, produtos de forja, couros, tecidos, madeira trabalhada, carnes defumadas, cereais. Vende objetos de luxo e de conforto, óleo e vinho, que vêm a princípio em pesadas e frágeis ânforas de terracota, do gênero daquelas que os mergulhadores submarinos encontram na costa provençal, depois nas boas barricas que os gauleses mandam para os transportar. A massa da população é arrastada pelo poderoso derivativo da atividade econômica.

Quanto ao mais, o ocupante contentou-se em guarnecer a organização gaulesa com seus homens de confiança, capazes de fazê-la evoluir no sentido imperial. A intervenção dos escritórios romanos foi menor, apesar de tudo o que hoje nas províncias faz a onipotência das administrações parisienses. A Gália desfrutava, de fato, de autonomia local e provincial. A classe dirigente dos oficiais municipais, formada de antigos

29

artesãos e comerciantes, tomou o lugar da nobreza, relegada a suas terras ou enviada ao exército, e ela é firmemente ligada à nova ordem.

Segundo J. J. Hatt, a Gália foi uma empresa colonial bem-sucedida, em contraste com a África romana, jamais resignada. Ela nada tem de paralelo com os 20 levantes, amiúde muito graves, de sua congênere. No século III, três mil homens bastam para guardá-la. A França, que é menos extensa, e possui só três vezes mais habitantes, deveria, para ficar nas mesmas proporções, contentar-se com nove mil guardas...

Assim, quando, no ano 70, o grande conselho das Gálias se reuniu para decidir se chegara o momento de decretar um levante contra o domínio romano, ele se pronuncia livremente em favor desse domínio. Receia grandemente que discórdias possam surgir imediatamente entre nações gaulesas ávidas por se assegurar a supremacia.

A Terra Céltica morre suavemente

Por muito tempo se acreditou que a língua latina havia rapidamente substituído a céltica. Hoje se sabe que tal não ocorreu. O imenso povo dos campos conservou seu falar nacional por vários séculos. Duzentos anos depois da conquista, os fideicomissos ainda podem ser redigidos em gaulês, o que prova que se sabia lê-lo e escrevê-lo e que, pouco ou muito, era ensinado. As crenças populares sofrem o contágio dos cultos orientais em moda, mas permanecem firmes em vários terrenos. Descobriu-se em 1956, em Montmaurin, um poço funerário do século IV da era cristã, onde estava enterrada uma sacerdotisa com o material de um templo, revelando um ritual de Tène II, que remontava ao século V antes de Jesus Cristo.

O discurso de Calgacos: a vida ou a honra "Qualquer que seja o objetivo pelo qual combatemos, estou persuadido de que hoje nossa esplêndida união pode ter como significado a aurora da liberdade de toda a Britânia... Batalhas contra Roma foram ganhas e perdidas no passado, mas jamais sem esperança: estávamos sempre lá de reserva. Nós, a fina flor da Britânia, éramos o tesouro escondido ao longe... Mas eis que a própria extremidade da Britânia é ameaçada: atrás de nós, não há outro povo, nada mais além de ondas e rochedos e, diante de nós, os romanos, ainda mais mortais do que eles, aos quais nenhuma submissão ditada pela razão poderia diminuir a arrogância.

30

"Salteadores do mundo, esgotaram o país com seus saques desordenados e eis que fazem a mesma coisa sobre o mar. A riqueza de um inimigo acende-lhes a cupidez, sua pobreza lhes excita a sede de domínio. Roubos, massacres, rapinas são a realidade de uma palavra mentirosa: o império. Eles criam a desolação e chamam a isso de paz. "Amamos por instinto nossos filhos e nossos irmãos de sangue acima de tudo. Eles os arrebatam de nós pelo recrutamento para fazer deles escravos em longínquas regiões. Nossas mulheres e nossas irmãs, se não são violadas pelos inimigos romanos, são seduzidas por eles como hospedeiras ou como amantes. Nossos bens e fortunas são reduzidos a nada para pagar tributos, nossas safras para as requisições, nossos corpos e nossas mãos para construir estradas através de bosques e brejos. E todas essas extorsões sob uma chuva de golpes e insultos. Os escravos nascidos em servidão recebem o mantimento de seus donos. Mas a Britânia, não passa um dia sem que ela pague e engorde os que a escravizam. "... Temos coragem e um espírito marcial, mas não qualidades que o dono aprecie no escravo... Abandonemos pois toda esperança de mercê e tenhamos ânimo para nos perguntarmos o que preferimos: a vida ou a honra..." (Tacitus, Agricola, 30-31)

Mas uma sutil chantagem acabaria finalmente pondo por terra toda resistência. Não há dignidade e opulência senão para os cidadãos romanos. Ora, todo gaulês poderá tornarse um deles. É o adeus à personalidade céltica. Recebendo a cidadania, o celta deve latinizar seu nome e inscrever-se nominalmente numa das 35 tribos que compõem o território municipal da Cidade Eterna. Os narboneses se fazem adotar pela tribo Voltínia, os das três Gálias, muitas vezes, pela Quirina.

Os derradeiros druidas se tornam curandeiros, algumas druidisas, profetisas, uma delas se faz dona de um cabaré! A gente jovem, por tradição e hábito, faz certos dias banquetes noturnos nos bosques e se enfeita com galharias de cervos. As mães falam de fadas a seus filhos nos berços. A Terra Céltica Continental morre suavemente.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->