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SAMIZDAT11

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Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Carlos Henrique Iotti

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho
Volmar Camargo Junior

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
O homo absurdus de Camus, Henry Alfred Bugalho
Jane Eyre, de Charlotte Brönte, Guilherme Rodrigues
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, Guilherme Rodrigues

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
O Duplo, Coelho Neto
Sonetos, Camões
CONTOS
O Sabão Milagroso, Volmar Camargo Junior
O Aniversário de J.S.B., Henry Alfred Bugalho
Paulette na cidade, Joaquim Bispo
Conspiração ZHAARP, Dênis Moura
Para que nos serve, Maria de Fátima Santos
A Surpresa, Guilherme Rodrigues
Para lá do Muro, José Espírito Santo
No Elevador, Zulmar Lopes
Dezessete, Pedro Faria
Descobertas, Marcia Szajnbok
Gosto Refinado, Pedro Faria
Alice por trás do espelho, Giselle Natsu Sato

TRADUÇÃO
O Conde Lucanor, Don Juan Manuel
A Festa de São Simão Esgaratujo, Ricardo Palma

TEORIA LITERÁRIA
Enchendo Lingüística: Ficção sob Pressão, Volmar Camargo Junior
A Tese na Literatura, Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
Erótico ou Pornográfico: eis a questão, Giselle Natsu Sato
A Vida Continua, Joaquim Bispo
Nossa história abandonada, Maristela Scheuer Deves

POESIA
Laboratório Poético - Indriso, Volmar Camargo Junior
Urbanidade, Carlos Alberto Barros

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT
Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Carlos Henrique Iotti

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho
Volmar Camargo Junior

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
O homo absurdus de Camus, Henry Alfred Bugalho
Jane Eyre, de Charlotte Brönte, Guilherme Rodrigues
Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, Guilherme Rodrigues

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
O Duplo, Coelho Neto
Sonetos, Camões
CONTOS
O Sabão Milagroso, Volmar Camargo Junior
O Aniversário de J.S.B., Henry Alfred Bugalho
Paulette na cidade, Joaquim Bispo
Conspiração ZHAARP, Dênis Moura
Para que nos serve, Maria de Fátima Santos
A Surpresa, Guilherme Rodrigues
Para lá do Muro, José Espírito Santo
No Elevador, Zulmar Lopes
Dezessete, Pedro Faria
Descobertas, Marcia Szajnbok
Gosto Refinado, Pedro Faria
Alice por trás do espelho, Giselle Natsu Sato

TRADUÇÃO
O Conde Lucanor, Don Juan Manuel
A Festa de São Simão Esgaratujo, Ricardo Palma

TEORIA LITERÁRIA
Enchendo Lingüística: Ficção sob Pressão, Volmar Camargo Junior
A Tese na Literatura, Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
Erótico ou Pornográfico: eis a questão, Giselle Natsu Sato
A Vida Continua, Joaquim Bispo
Nossa história abandonada, Maristela Scheuer Deves

POESIA
Laboratório Poético - Indriso, Volmar Camargo Junior
Urbanidade, Carlos Alberto Barros

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

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Sections

Na modalidade “xixi à distância”, ninguém derrotava

o Marquinhos.

as viravoltas da vida

Henry Alfred Bugalho

Na época da escola, todo mundo tirava sarro da

“ girafa”, que corria para o banheiro chorar sozinha.

Ano passado, ela foi a modelo mais bem paga do
mundo.

Sexo virtual

Henry Alfred Bugalho

— Ai, gozei! E você?

Mal sabia ele que o computador dela havia pifado.

http://www1.pictures.gi.zimbio.com/2003+Victoria+Secret+Fashion+Show+vvTHm88Qpynl.jpg

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Pequenos

desencontros

Platão? que
Platão?

Volmar Camargo Junior

— Ouvi dizer que todas as coisas do mun-
do, um dia, existiram no mundo das idéias.
Então, como podemos saber se na verdade,
o mundo das idéias não é aqui? Às vezes,
eu penso que sou apenas um personagem
na imaginação de um escritor desocupado
e...

[Estas foram as primeiras e as últimas pa-
lavras de um personagem que não entrou
em nenhuma das minhas histórias. Não
tenho paciência para esses atrevimentos.]

Primeiro amor

Volmar Camargo Junior

Orlando reconheceu na rua a menina por
quem havia se apaixonado nos tempos
do primário, e correu para dar-lhe um
abraço. Thereza, abordada por um desco-
nhecido com tamanha intimidade, achou
que seria descortês dizer-lhe que foi um
engano, mas evitou o contato físico. Sol-
dado Juarez, à paisana, viu na cena um
princípio de assalto, e com dois golpes
fulminantes nocauteou e imobilizou o

suspeito. Um cinegrafsta amador flmou

com a câmera do telefone celular a ação
do policial responsável pela captura de
Orlando Silva da Silva, estelionatário, que
estava foragido havia meses. Nem depois
de a foto do dito cujo sair nas manchetes
dos noticiários Thereza associou aquela
cara à do gorducho que lhe deu um beijo
babado na quarta-série. Naquela época, ela
só tinha olhos para o Roberto Carlos.

Voyeurismo

Volmar Camargo Junior

Todos os dias, o menino espiava pelo bu-
raco no muro do vizinho, e do outro lado
via um gramado e, à distância, uma caba-
na na árvore. Tocado pelo remorso, o pai
esmerou-se para fazer um bela plataforma
de madeira, sustentada pelos galhos da
mangueira que havia em seu próprio pátio.
Feliz da vida, o menino correu até seu baú
de brinquedos, tirando de lá o binóculo
que ganhara no Natal. Finalmente teria
uma vista privilegiada da tão amada caba-
ninha do quintal ao lado.

http://www.pedagogy.ca/Sanzio_01_Plato_Aristotle.jpg

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SAMIZDAT dezembro de 2008

recomendações de Leitura

o homo absurdus

de Camus

Henry Alfred Bugalho

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Albert Camus é um dos

grandes autores do século

XX, e sua obra é um símbo-

lo da crise epistemológica,

ética e ontológica do Homem

contemporâneo.

É impos-

sível negar

a infuência

que Nietzsche

exerceu sobre

o pensamen-

to e arte do

século XX.

A ruptura

irremediá-

vel entre mundo de fato e o

mundo inteligível, a relati-

vização de todas as noções

morais, a certeza de que não

existem certezas e o fm de

todo e qualquer sentido pai-

rou sobre as flosofas da Eu-

ropa continenal - de Husserl,

de Heidegger, de Sartre, de

Merleau-Ponty, de Foucault

- , sobre todas as formas de

expressão artística - o mo-

dernismo, o surrealismo, o

concretismo, o pós-modernis-

mo - e também assombrou a

Literatura.

Camus é um flho desta

geração esvaziada de sentido.

Dois temas são fundamentais

para esta geração: o sentido

da existência e a morte. Am-

bas questões se interligam: se

não existe um sentido para

a vida, por que viver? O que

me impede de me matar?

Para Sartre, o gênio in-

telectual da época, cometer

suicídio não era um ato

imoral, aliás era um ato de

supremo exercício da liber-

dade. O homem é livre, e

tirar a própria vida é um ato

de liberdade.

As duas primeiras obras

de Camus abordam tais

problemas.

Por um lado,

temos uma

obra fccio-

nal austera,

com uma

linguagem

comedida e

um enredo

atômico: “O

Estrangeiro”; por outro lado,

há uma obra flosófca, com

uma linguagem que pare-

ce se aproximar do estilo

sartreano, dividida em vários

ensaios, na qual tais questões

são apresentadas explícita-

mente: O Mito de Sísifo.

Temos de pensar nestas

duas obras em paralelo, pois

uma esclarece a outra.

Em O Estrangeiro, o prota-

gonista é um sujeito chama-

do Mersault.

A obra é di-

vida em duas

partes:

- Na pri-

meira delas,

Mersault

acompanha

o velório e

o enterro

de sua pró-

pria mãe. O

protagonista

é indiferente

ao fato, age

quase mecanicamente, cum-

prindo o protocolo. Logo

após o sepultamento, retorna

ao marasmo da sua existên-

cia, que é quebrado quan-

do Mersault assassina, sem

nenhuma razão óbvia, um

árabe na praia;

- Na segunda parte, assisti-

mos ao julgamente do pro-

tagonista. Ele é condenado

à morte e, nos dias antes de

sua execução, Mersault ana-

lisa vários conceitos morais

e sociais, sem identifcar-se

com eles, renegando-os. É a

parte flosófca.

O protagonista move-se

num universo ausente de

sentido, realiza atos também

desprovidos de sentido, não

tem remoso, e só passa a

fazer uma revisão de seus

conceitos diante da presença

inevitável da morte.

Em O Mito de Sísifo pos-

suímos a explicitação teó-

rica da prática literária de

Camus. Nesta coleção de

ensaios, a tese

básica pode

ser resumida

da seguinte

maneira: “o

Homem vive

por causa da

esperança do

amanhã, mas

cada dia que

passa não o

aproxima do

futuro, e sim

da morte.

Mas o Ho-

mem prefere

Quando o Homem
compreende-se em
sua absurdez, ele
deixa de buscar o
sentido, e passa a
criá-lo.

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SAMIZDAT dezembro de 2008

ignorar a presença da morte

e vive uma vida de fngimen-

to, considerando o mundo

como familiar, quando, na

verdade, o mundo é hostil,

inóspito, absurdo e não for-

nece respostas.”

A saída para este abismo

- representado pelo absurdo

da existência - não é o suicí-

dio, por ela ser a negação da

existência, mas sim a revolta.

Quando o Homem compre-

ende-se em sua absurdez, ele

deixa de buscar o sentido, e

passa a criá-lo.

A metáfora para este homo

absurdus, para Camus, é o

mito de Sísifo, aquele que,

na mitologia grega, desa-

fou os deuses olímpicos e

foi condenado a empurrar

uma rocha até o topo dum

penhasco, por toda a eterni-

dade. Toda vez que a rocha

era carregada até o cimo, ela

rolava morro abaixo. Sísifo

deveria, então, perfazer esta

tarefa inglória e sem sentido

por toda sua existência. Para

Camus, somos como Sísifo,

realizando projetos e tarefas

sem sentido e que sempre re-

dundam em nada, ou condu-

zindo-nos para a morte.

A obra deste autor francês,

laureado pelo Prêmio Nobel

em 1957, é profunda, apesar

da superfcial leveza, e causa

o mal-estar de toda quebra

de paradigmas.

O Estrangeiro

Autor: Albert Camus

Editora: Record

Publicação: 2001

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Jane Eyre é um romance
gótico escrito pela escritora
inglesa Charlotte Brontë e
publicado pela primeira vez
em 1847.

Jane Eyre, a personagem-
protagonista, órfã de pai e
mãe, vive terríveis dias na
casa de seu tio após seu fa-
lecimento. Passa a ser criada
pela senhora Reed, esposa
do falecido, uma pessoa
cruel que a deixava presa
num quarto escuro para
amedrontá-la e afastá-la de
seu flho John. O qual sem-
pre batia na pobre e indefesa
Jane. Certo dia, ela resolveu,
então mandá-la para Lowood
School cuja escola era des-
tinada para crianças órfãs.
Esta instituição, administrada
pelo clérigo Brocklehurst, ho-
mem religioso, mas de gestos
desumanos e cruéis com seus
subalternos. Ele, infuencia-
do pela senhora Reed, dizia
ser ela uma menina rebelde,
mentirosa e que não merecia

a confança de ninguém. No

entanto, Jane encontrou uma
aliada na escola, a senhorita
Temple, a quem tinha amiza-
de e a defendia dos impro-
périos do administrador de
Lowood School. Jane fez ami-
zades com suas colegas, mas,
infelizmente, a escola não
era um lugar feliz e algumas
de suas amigas vieram a

morrer. O tempo se passou,
ela, uma mulher à frente de
seu tempo, foi aprendendo as
lições até se tornar profes-
sora de Lowood School. No
entanto, com a partida de sua
amiga e aliada, a senhorita
Temple, que havia se casado,
procurou um novo trabalho.
Então, Jane mudou-se para

Thornfeld Hall, a casa do

senhor Edward, para cuidar
da pequena Adele. Seu vín-
culo como professora foi se
ampliando e logo conseguiu
com suas habilidades em
línguas e pintura, também
mexer com o senhor Edward.

Tudo do melhor que um
romance gótico poderia ter.
O cenário sombrio, o mis-
terioso, o terror e a névoa
envolvem o leitor para um
mundo fantástico e sobrena-
tural.

O livro pode ser consi-

derado uma autobiografa

de Charlotte Brontë, pois há
muitas semelhanças entre
ela e Jane Eyre. Eram órfãs,
viveram em orfanatos, foram
professoras e mulheres inde-
pendentes.

Jane Eyre mostra que já
naquela época a mulher,
muito desprezada e encar-
regada de cuidar das tarefas
domésticas apenas, podia ser
independente e demonstrar
sua capacidade perante a
sociedade.

Jane Eyre,

de Charlotte Brönte

Guilherme Rodrigues

recomendações de Leitura

O livro pode ser
considerado uma

autobiografa de

Charlotte Brontë, pois
há muitas semelhanças
entre ela e Jane Eyre.

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SAMIZDAT dezembro de 2008

Orgulho e Preconceito é o romance mais
popular da escritora inglesa Jane Austen.
Foi publicado pela primeira vez em 1813
e chegou a se chamar Primeiras Impressões.
embora nunca impresso com este título. A
História nos é apresentada de uma manei-
ra inteligente e cômica e com um estilo
sarcástico em que as personagens nos são
reveladas aos poucos.

Na Inglaterra rural do século XVII a
chegada ao local do milionário sr. Darcy,
uma pessoa muito bonita e fria, cria gran-
de expectativa dentro da família Bennet.
A sr.ª Bennet, até então desconsolada com

as flhas ainda não casadas, tem esperança

de que uma delas irá conquistar o jovem
aristocrata.

O romance conta sobre as flhas de

uma família campestre, sobretudo o ódio
e amor entre Elizabeth e o sr. Darcy. Ela
cria preconceitos sobre ele, que a insultou
no baile, e nos comentários maldosos dos
amigos. Um não declara amor pelo ou-
tro de princípio, eles relutam. No entanto,
enquanto ela se ocupa com os romances
e escândalos das suas irmãs, se encontra
novamente na companhia dele. Progres-
sivamente as suas opiniões em relação a
este jovem começam a mudar. Darcy é
um homem orgulhoso por ser o mais rico
das redondezas, e se sente superior àquelas
pessoas do campo, considerando-as boê-
mias e preconceituosas. Com o desenrolar

da trama, Darcy e Elizabeth revelam o
amor que um sente pelo outro.

Jane, a flha mais velha dos Bennet, é

uma jovem muito bonita com uma perso-
nalidade cativante. O sr. Bingley, o amigo
de Darcy, apaixona-se por ela.

Lydia, a flha mais nova, mimada pela

mãe, é vaidosa e frágil que nunca pensa
nas conseqüências dos seus atos, foge com
o jovem Wikham, que nada vale, e coloca
o nome desta família em perigo.

A história se mantém atual mesmo nos
dias de hoje que mostra o preconceito por
diferentes classes sociais e o amor juvenil

e leviano; e a infuência e manipulação das

famílias para conseguirem uma situação
melhor, preocupados com os olhares da
sociedade.

orgulho e
Preconceito,

de Jane austen

Guilherme Rodrigues

recomendações de Leitura

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ficina

A Ofcina Editora é uma utopia, um não-

lugar. Apenas no século XXI uma vintena
de autores, que jamais se encontraram

fsicamente, poderia conceber um projeto

semelhante.

O livro, sempre tido em conta como umas
das principais fontes de cultura, tornou-se
apenas um bem de consumo, tornou-se um
elemento de exclusão cultural.

A proposta da Ofcina Editora é resgatar o

valor natural e primeiro da Literatura: de bem
cultural. Disponibilizando gratuitamente
e-books e com o custo mínimo para livros
impressos, nossos autores apresentam
a demonstração máxima de respeito à
Literatura e aos leitores.

http://ofcinaeditora.org/

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SAMIZDAT dezembro de 2008

autor em Língua Portuguesa

o duPLo

- Temos, então, um caso
de desdobramento da per-
sonalidade do meu querido
amigo?

- Quem te disse ?

- Laura.

Benito Soares fcou um

momento encarado no

coronel. Por fm, meneando

com a cabeça, desabafou
contrariando:

- Laura... Laura faz mal

em andar contando essa
história por aí.

- Que tem?

- Ora! Que tem... Há
dias, em casa do Leivas,
pouco faltou para que eu
rompesse com o Malveiro,
a propósito do que se deu
comigo, e que lhe contaram
não sei onde, entendeu que
me devia tomar à sua conta,
expondo-me à risota de uns
petimetres ridículos que o
cercam. Fiz-lhe sentir que
não me agradavam os seus

remoques e deixei-o com
os tais mocinhos, que lhe
aplaudem os versos quando
ele lhes paga a cerveja ou
o chá, aí por essas casas.
Não ando a pregar dou-
trinas: não sou sectário,
não freqüento sessões nem
leio, sequer, as tais obras de
propaganda que pretendem
revelar o que se passa no
Além da morte. Sou religio-
so à velha moda, observan-
do a doutrina que aprendi,
ainda que não ande beata-

Coelho Neto

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mente pelas igrejas de círio
e ripanço. Cumpro rigoro-
samente os Mandamentos
e os marcos que limitam a
minha Crença são os qua-
tro evangelistas; fora de tais

“termos” não dou um passo

- nem para diante, seguin-
do os reformadores, que
pregam o novo Credo, nem
para trás acercando-me de
altares pagãos ou adorando
ídolos grosseiros. Onde me
deixaram meus pais, que
foram os meus iniciadores,

aí fcarei até morrer.

Contei a Laura a tal
história como contaria um
acidente qualquer de rua,

sem cuidar que ela fzesse

do caso assunto de palestra
nos salões que freqüenta.

O resultado disso é o
que se está dando comigo,
aborrecendo-me, irritando-
me, porque desconfo de to-
dos os olhares e, se alguém
sorri à minha passagem,
imaginando que comenta

o meu caso, fco logo pelos

cabelos.

- Mas, afnal, como foi?

Comigo podes abrir-te sem
receio. Sabes que, além de
discreto, não sou dos que
zombam do sobrenatural.
Os fatos ai estão: produ-
zem-se, reproduzem-se e, se
ninguém os explica, muitos
dão deles testemunho e
provas e eles, efetivamente,
manifestam-se visível, sensi-
velmente.

Os cépticos encolhem os
ombros sorrindo, os adver-
sários, à falta de argumen-
tos com que os destruam,

bradam contra os que
os apregoam. A verdade,
porém, é que nos achamos
diante de uma porta de
bronze que nos veda um
grande mistério, ou melhor
- Mistério.

Mas já é muito havermos
chegado à porta. Sente-se
que além dos túmulos, que
são limiares de outro mun-
do, há alguma coisa que...
ninguém sabe o que é.

A porta mantém-se
fechada, deixando apenas
passar um rastinho de luz

no qual futuam indícios,

revelações vagas, como áto-
mos nos raios de sol. Mas
deixemos as dissertações
para mais tarde. Vamos ao
teu caso. Foi, então, um des-
dobramento da tua persona-
lidade...?

- Não sei que foi. Digo-te
apenas que passei os mi-
nutos mais angustiosos da
minha vida.

Saindo do Alvear, subi
vagarosamente a Avenida
até a Tabacaria Londres,
onde comprei charutos e
estive um instante a con-
versar com o Borges sobre
coisas da vida. O Borges
anda com a mania dos
Marcos; possuí não sei
quantos milhões, e espera
que a Alemanha recompo-
nha as fnanças para atur-
dir-nos, a nós e ao mundo,
com a vida maravilhosa que
tem toda em plano. O que
me está parecendo é que o
pobre está com o juízo em
pior estado de que as fnan-
ças germânicas. Enfm, dei-

xando o Borges, dirigi-me,
sem mais empeços, para a
Galeria, onde comprei os
jornais.

O meu bonde apareceu
logo e logo foi assaltado.
Não consegui uma ponta

e fquei entalado no banco

da frente, entre um obeso
cavalheiro ruivo e uma ma-
trona anafada, dessas que se
esparralham.

O bonde partiu e, opri-
mido pelas duas enxúndias,

difcilmente consegui abrir

um dos jornais. Pus-me a
ler, ou antes: a olhar a pá-
gina porque, em verdade, a
minha atenção vagueava, aí
por longe. Os olhos passe-
avam pelas palavras, sem
que o espírito lhe colhesse
o sentido, como deve acon-
tecer com os aviadores que
vêem, de muito alto, todo o
panorama de uma cidade
em mancha, sem distinguir
os bairros, as ruas, os edifí-
cios, apenas o alvejamento
das casas, a placa cintilante
do mar, o relevo dos mon-
tes. Sentia-me atraído por
alguma coisa. Voltei página
do jornal - a mesma confu-
são, o mesmo empastamen-
to. Foi então, que levantei a
cabeça, olhando em frente e
vi, meu amigo, vi...!

- Viste...?

- A mim mesmo, a mim!
Eu, eu em pessoa sentado
defronte de mim, no ban-
co da frente, que dá costas
à plataforma. Era eu, eu!

como refetido em um

espelho, e certo estremeci
vivamente, incomodando os

22

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SAMIZDAT dezembro de 2008

meus companheiros laterais,
porque ambos voltaram-se
encarando-se de má som-
bra.

Pasmado, sem poder

desftar os olhos daquele
refexo, que era, em tudo,

eu: nas feições, na atitude,
no trajo, não parecido, mas
reproduzido em exterioriza-
ção, pensei de mim comigo:

“Se tal se dá é que o meu

espírito, alma, ou lá o que
seja, exalou-se de mim,
deixando-me apenas o cor-
po, como a borboleta deixa
o casulo em que se opera a
metamorfose. Assim, pois, o
que ali se achava, no bon-
de, era uma massa inerte,
sustida pelos dois corpanzis
que ladeavam. E, em menos
de um segundo, vi todo o
horror da cena, que seria
cômica, se não fosse trágica,
que se daria com a retirada
de um daqueles gordos.

Desamparado, o meu
corpo vazio tombaria. Dar-
se-ia, então, o alarma: todos
os passageiros de pé, a

verifcação da minha morte,

o reconhecimento do meu
cadáver pelo condutor e a
minha entrada fúnebre em

casa”.

Que angústia, meu ami-
go! E o outro lá estava em
frente a olhar-me, como se
gozasse com o meu sofri-
mento. Lembrei-me, então,
de fazer um movimento
com os braços, com as
mãos; o receio, porém, de
ser a minha vontade aten-
dida pelos nervos fez-me
hesitar. Mas eu pensava,

raciocinava. Sim, mas o
corpo não esfria de repente
e tais pensamentos e tais
raciocínios podiam ser ain-
da restos de energia d’alma

que me houvessem fcado
nas células, como fca nas

polias o movimento ainda
depois do motor parado.

Sentia-me rígido, petri-

fcado e tinha a sensação

de frio, como se me fosse
congelando, a começar
pelos pés. E o outro sempre
encarado em mim.

Fiz um esforço supremo
como se quisesse levantar o
bonde com todos os pas-
sageiros que ele continha
e, arremessando os braços,
pus-me de pé.

A matrona levantou a
cabeça com atrevimento e
olhou-me com tal carranca
que eu pensei que me fosse
agatafunhar ou, com a força
dos braços, que eram duas
coxas, atirar-me do bonde
abaixo e o ruivo roncou
ameaçadoramente, apru-
mando a cabeçorra quadra-
da de ulano com entono de

desafo.

Mas que me importavam
ameaças A minha alegria
era grande e tornou-se
maior quando, ao procurar
com os olhos o meu outro

“eu”, não o vi mais.

Teria descido? Não ! Não
descera. Tornara a mim,
atraído pela vontade, na
ânsia de viver, no desespero
em que me vi, só compará-
vel ao de alguém que, indo
ao fundo, sem saber nadar,

debate-se agoniadamente
conseguindo elevar-se à
tona e gritar a socorro.

E tudo isso, meu ami-
go, não durou, talvez, um
minuto e eu guardo de
tais instantes a impressão
penosa de um século de
sofrimento.

Eis o meu caso, o caso
que tantos aborrecimentos
me tem trazido pela taga-
relice de Laura, a quem o
contei, e que o repete por
aí, a todo o mundo.

E crença que D. Juan de
Maraña, encontrando-se,
certa noite, com um sai-
mento, perguntou a um dos
que conduziam o esquife: ‘~

Quem era o morto?” E logo

lhe foi respondido:

- É D. Juan de Maraña.
Querendo o fdalgo verif-
car o que lhe dizia o farri-
coco e outros sinistramente
repetiam, afastou o sudário
e viu. Efetivamente: o de-
funto era ele. E tal visão
foi que o levou ao arre-
pendimento. Pois comigo
a coisa foi num bonde. Eu
vi-me, como te estou vendo;
a mim, entendes? a mim!
Como explicas tal coisa?

- Essas coisas, meu amigo,
não se explicam: registam-
se, são observações, fatos,
elementos para a Ciência
do Futuro, que será, talvez,
Ciência da Verdade.

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Henrique Maximiano
Coelho Neto
(Caxias, 21 de
fevereiro de 1864 — Rio de
Janeiro, 28 de novembro de
1934) foi um escritor, político
e professor brasileiro.

Nascido em épocas antes
na vila de Caxias interior do
Maranhão. Foram seus pais
Antônio da Fonseca Coelho,
português, e Ana Silvestre Co-
elho, de sangue índio. Tinha
seis anos quando seus pais
se transferiram para o Rio.
Fez os seus preparatórios no
Externato do Colégio Pedro
II. Tentou o curso de Medici-
na, logo desistindo. Em 1883
matriculou-se na Faculdade de
Direito do Largo de São Fran-
cisco, morando na pensão em
que vivia Raul Pompéia, que
também frequentava a Acade-
mia de São Paulo à época. Seu
espírito irrequieto encontrou
ali ótimo ambiente para deste-
midas expansões, e logo ele se
viu envolvido num movimen-
to dos estudantes contra um
professor. Antevendo represá-
lias, transferiu-se para a facul-
dade de Recife, onde comple-
tou o primeiro ano de Direito,
tendo sido aluno do jurista e
poeta Tobias Barreto. Regres-
sando a São Paulo, dedicou-se
ardentemente à campanha
abolicionista e republicana,
atitute que rendeu-lhe novos
atritos com o corpo docente
da Faculdade do Largo de São
Francisco. Em 1885 desistiu,

por fm, de suas pretensões

jurídicas, e transferiu-se para
o Rio de Janeiro.
Fez parte do grupo de

boêmios que abrangia fguras

da monta de Olavo Bilac, Luís
Murat, Guimaraens Passos e
Paula Ney. A história dessa
geração apareceria depois em
seus romance A Conquista e
Fogo Fátuo, dedicado este ao
amigo Francisco de Paula Ney,
jornalista e brilhante orador

conhecido por sua boemia e
seu célebre anedotário. Tor-
nou-se companheiro assíduo
de José do Patrocínio, na cam-
panha abolicionista. Ingressou
no jornal Gazeta da Tarde,
passando depois para a folha
Cidade do Rio, onde chegou a
exercer o cargo de secretário.
Desta época datam seus pri-
meiros volumes publicados.
Em 1890, contraiu matri-
mônio com Maria Gabriela

Brandão, flha do educador

Alberto Olympio Brandão.

Tiveram 14 flhos.

Foi nomeado para o cargo
de secretário do Governo do
Estado do Rio de Janeiro e, no
ano seguinte, diretor dos Ne-
gócios do Estado. Em 1892, foi
nomeado professor de História
da Arte na Escola Nacional de
Belas Artes e, mais tarde, pro-
fessor de Literatura do Colégio
Pedro II. Autor de numero-
sos livros, artigos, crônicas e
folhetins, em 1910, foi nome-
ado professor de História do
Teatro e Literatura Dramática
da Escola de Arte Dramática,
sendo logo depois diretor do
estabelecimento.
Eleito deputado federal pelo
Maranhão, em 1909, e reeleito
em 1917. Foi também secre-
tário-geral da Liga de Defesa
Nacional e membro do Con-
selho Consultivo do Theatro
Municipal do Rio de Janeiro.
Além de exercer os car-
gos públicos, Coelho Neto
manteve e multiplicou a sua
atividade em revistas e jornais
de todos os feitios, no Rio e
em outras cidades. Além de
assinar trabalhos com seu
próprio nome, escrevia sob
inúmeros pseudônimos, entre
eles Anselmo Ribas, Caliban,
Ariel, Amador Santelmo, Blan-
co Canabarro, Charles Rouget,
Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-
Fur, Manés.
Em 1923, converteu-se ao
Espiritismo.

Cultivou praticamente
todos os gêneros literários e
foi, por muitos anos, o escri-
tor mais lido do Brasil, tendo,
provavelmente a sua maior
consagração ao ser nomeado,
em votação aberta ao público
promovida pela revista O Ma-
lho, o "Príncipe dos Prosadores
Brasileiros", em 1928.
Foi provavelmente o pro-
sador brasileiro mais lido nas
primeiras décadas do século
XX, tendo sofrido sua pessoa
e sua obra furiosos ataques
do Modernismo posterior à
Semana de Arte Moderna de
1922, o que provavelmente
colaborou no injusto esqueci-
mento que o mercado edito-
rial e os leitores brasileiros
tem-lhe reservado. Para o
cinema, escreveu o que seria o

primeiro flme brasileiro em

série, Os mistérios do Rio de
Janeiro, do qual só foi termi-
nado e lançado o primeiro
episódio.

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SAMIZDAT dezembro de 2008

autor em Língua Portuguesa

Camões

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