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com licença poética - Adelia Prado

com licença poética - Adelia Prado

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08/06/2013

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Discentes: Victoria Pereira da Silva Washington Mattos Polotto

RA: 1104250-8 RA: 1104099-8

Curso: Licenciatura em Letras, noturno – 2º ano

Análise interpretativa do poema “Com licença poética”, de Adélia Prado, relacionado às teorias de Paul Valéry e Theodor W. Adorno

Adélia Prado é uma escritora mineira que busca retratar por meio de seus textos o cotidiano com perplexidade e encanto, relacionados sempre a sua religiosidade e permeados pelo aspecto lúdico característicos da poetisa. Na literatura brasileira, a poetisa representou a revalorização do feminismo e da mulher como ser pensante, levando em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e mãe, esposa e dona-de-casa, por isso sendo considerada por alguns como a que encontrou o equilíbrio entre o feminino e o feminismo, movimentos cujos conflitos não aparecem em seus textos.

Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto. desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a aminha vontade tem alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.

Este é um dos primeiros poemas do livro “Bagagem”, e procura definir a imagem da poetisa. Neste poema, o eu-lírico feminino assume sua sina de mulher-poeta, de forma simples e explicitando as antíteses do universo feminino e suas diferenças diante do universo masculino. O poema se inicia descrevendo o momento do nascimento do eu-lírico: “Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira.”. Neste trecho podemos notar que é feita uma alusão à bíblia, no trecho em que o arcanjo Gabriel faz a anunciação à Maria, como se deus tivesse atribuído esse cargo ao eu-lírico, e sua poesia fosse apenas para inspirar e puramente o que ela sente (isso é reforçado no 11º verso), parecendo conflitar com a ideia de Valéry (1999) de que o trabalho do poeta está em sua capacidade de “construir” e “combinar” palavras, produzindo emoção e resultando em poesia. O eu-lírico ao afirmar que sua sina de poetisa foi dada por deus e não por escolha dele, nega o seu trabalho ao fazer poesia, como se na verdade fosse a voz de uma divindade falando no poema, retomando o choque entre Aristóteles, que trata o poeta como “criador de sua obra”, e Platão, que trata o poeta como “meio utilizado pelo poema para se manifestar”. No entanto, o eu-lírico também assume que seu cargo é pesado, e, portanto, árduo, concordando com a ideia de Valéry, de que o poema tem que ser trabalhado. Ainda neste trecho, também notamos uma paródia do poema de “Sete faces”, de Carlos Drummond de Andrade, como podemos comparar com os três primeiros versos drummondianos “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” É relevante notar também a visão positivista de Prado, ao contrário do poema de Drummond, em que o eu-lírico diz que está abandonado por Deus e finaliza justificando que está comovido por causa da lua e do conhaque. No poema de Adélia Prado, o anjo é esbelto e anunciou sua sina: carregar bandeira. Bandeira nesse verso pode ser interpretado como uma alusão ao poeta Manuel Bandeira e à sua importância para a poesia nacional (e o peso de carregar a sina de poeta) ou como ideia que serve de guia, símbolo a um movimento, completando a ideia de guia presente tanto na alusão a Manuel Bandeira como na alusão bíblica. Nos próximos versos, o eu-lírico reforça a responsabilidade de ser poetisa: “Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.” como se ser poetisa fosse ainda mais difícil do que ser poeta, devido a mulher ser uma espécie ainda tímida, não reconhecendo seu verdadeiro potencial, que permitiria se igualar a homens e fazer poesia. Nos próximos versos, o eu-lírico assume suas dificuldades e fala sobre alguns medos comuns às mulheres na época: “Aceito os subterfúgios que me cabem, / sem precisar mentir.”. O eu-lírico se mostra conformado sua condição, sem mentir, transformando essas dificuldades em características dele próprio. Em seguida diz “Não sou tão feia que não possa casar, / acho o Rio de Janeiro uma beleza e / ora sim, ora não, creio em parto sem dor. / Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.” neste trecho, o eulírico ao mesmo tempo em que fala de alguns de seus pontos positivos que a façam uma mulher “boa” para os requisitos da época, fala também dos medos das mulheres, de não casar e da dor do parto. Revela também que escreve o que sente, e por isso cumpre a sua sina, como se sua poesia fosse puramente sentimental, e seu único trabalho como poetisa fosse sentir.

Continua o poema dizendo “Inauguro linhagens, fundo reinos / - dor não é amargura.”, se referindo ainda à sua sina e dificuldades das mulheres, nessa transição entre as velhas responsabilidades que a sociedade atribui a elas e as novas responsabilidades que elas chamaram, para tentar mudar sua posição na sociedade. Sua dor não é amargura e é transformada em poesia. Segundo Adorno (2003), a referência ao social faz parte do poema, já que este não se limita a expressar opiniões ou experiências individuais. Com os traços feministas no poema, podemos ver que mesmo que o eu-lírico se limite a falar dele, muitas mulheres se identificam com o poema, o que torna o poema uma obra de arte na teoria de Adorno. Este universalismo é reforçado nos seguintes versos: “Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, / sua raiz vai ao meu mil avô.” em que a sua tristeza é de qualquer um e sua alegria é antiga, herdada de seu mil avô. Por sua tristeza ser comum, faz parte do coletivo, e sua alegria, desejo e determinação estão presentes dentro de todo ser humano. Finaliza o poema numa paródia (quase resposta) ao poema de Drummond “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou.” reforçando a ideia de superioridade feminina, não aceitando o destino defeituoso que a sociedade lhe atribui, ao contrário de Drummond (que se conforma com sua maldição). O poema mostra a missão do eu-lírico de poetisa, de construir por meio das palavras algo que seja seu, mas para o coletivo, para que este veja a humanidade dentro de cada um.

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