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Universidade do Minho Escola de Direito Mestrado em Direito dos Contratos e das Empresas O

Universidade do Minho Escola de Direito Mestrado em Direito dos Contratos e das Empresas

O Pagamento da Renda no Âmbito do Contrato de Locação Financeira.

Eduardo Nuno de Castro Gomes PG20502

Braga Julho de 2012

Índice.

Lista de

3

Introdução

4

Obrigação do Pagamento da Renda

5

Características Gerais

5

Natureza e Prazo de Prescrição da Obrigação do Pagamento da Renda

8

Meios de Defesa do Locador

10

Conclusão

12

Bibliografia

13

Lista de Abreviaturas.

Art. Artigo. DL Decreto-Lei.

Introdução.

O relatório que agora se inicia tem como objecto de estudo o contrato de locação financeira. Contudo, devido às limitações inerentes a um relatório, seria impossível abordar com o necessário detalhe este contrato no seu todo e, assim sendo, vamos limitar o estudo apenas às características principais da obrigação do pagamento da renda, à natureza e prazo de prescrição da obrigação do pagamento da renda e, por fim, vamos analisar os meios de defesa do locador, nomeadamente a mora e a cláusula de vencimento antecipado das rendas vincendas, com o cuidado de recorrer a jurisprudência quando tal for benéfico.

Obrigação do Pagamento da Renda.

Características Gerais

Resulta dos artigos 10.º nº1, a) e 19.º do DL 149/95 que “incumbe ao locatário o cumprimento de uma prestação de capital: o pagamento da renda” 1 . O termo “renda”, tal como nos diz GRAVATO MORAIS 2 , está associado ao pagamento de uma prestação relativa a um imóvel, como aliás é corroborado por PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA 3 . Contudo, no caso do contrato de locação financeira, o termo “renda” não pode ser entendido neste sentido uma vez que, conforme se percebe pela leitura do artigo 1.º do DL 149/95, o contrato de locação financeira pode incidir sobre um bem móvel ou imóvel e, em adição, a função da renda também não pode ser entendido no seu sentido tradicional uma vez que “na locação financeira, a renda destina-se a cobrir a amortização financeira global do custo do investimento (incluindo aqui a amortização do bem locado e a retribuição pela sua utilização) e a remuneração do risco suportado4 pelo locador. É ainda necessário referir que esta obrigação do locatário é uma obrigação pecuniária.

Uma

questão

relativamente

assente

no

ordenamento

jurídico

português

prende-se com o tipo de rendas. Estas podem ser de dois tipos.

No primeiro tipo falamos de rendas de valor variável, que por sua vez se subdividem em dois tipos distintos, prestação da renda progressiva, ou seja a renda aumenta com o decurso do tempo, ou, prestação da renda degressiva, em que, como o próprio nome indica, a renda diminui ao longo do decurso do tempo. 5

1 MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 104.

2 Idem p. 105. 3 LIMA, Fernando Andrade Pires de / VARELA, João de Matos Antunes, Código Civil Anotado Volume II, 2ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1981, pp. 356 a 360. 4 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 20-03-1991, disponível em:

5 Neste sentido: MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 105

O segundo tipo de rendas designa-se de rendas de valor constante, que são as

mais recorrentes no nosso país e que se caracterizam por se manterem constantes,

durante toda a duração do contrato o valor a ser pago pelo locatário. 6

Por outro lado, no que diz respeito à periodicidade das rendas, estas podem essencialmente ser de quatro tipos diferentes: mensais, trimestrais, semestrais e, também, anuais, sendo que, este último é o prazo máximo para a periodicidade das rendas. 7

Como já acima se disse, a função da renda no âmbito do contrato de locação financeira não é o mesmo da renda entendida na sua acepção tradicional. Existem então três teses distintas que se propõem explicar qual a função da renda no contrato de locação financeira.

A primeira diz que não existe qualquer tipo de distinção entre a renda da

locação e a da locação financeira. Contudo, este tese não pode ser admitida uma vez que, como já foi supra dito, a renda não representa uma simples contrapartida pela concessão do uso da coisa locada, desde logo porque o valor cobrado excede largamente o valor que seria normalmente cobrado pelo uso do bem locado. 8

Por outro lado, a segunda tese defende que a renda constitui “parcelas do preço enquanto correspectivo da transferência futura da propriedade” 9 do bem objecto do contrato de locação financeira. Ora, também esta tese não é passível de defesa, uma vez que não existe qualquer disposição legal no Decreto-Lei 149/95 que aponte no sentido da transmissão automática do direito de propriedade findo o contrato de locação financeira e, aliás, o artigo 1º do mesmo diploma dispõe que “o locatário poderá comprar” o bem objecto do contrato de locação financeira. 10

6 Ibidem.

7 PME Investimentos, nº 14, Maio de 2001, disponível em http://www.iapmei.pt/iapmei-art- 03.php?id=814 .

8 MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 106

9 Idem p. 107

10 Neste sentido: MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 107.

Por fim, a terceira e última tese, defendida entre outros por GRAVATO MORAIS 11 e que também merece a nossa aprovação, como aliás já foi acima dito, diz-nos que “o valor global correspondente ao conjunto das rendas a pagar pelo locatário representa, no essencial, o capital investido pelo locador com a aquisição, os respectivos juros e a soma inerente aos riscos de concessão de crédito” 12 .

11 Ibidem e Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 20-03-1991, disponível em:

Natureza e Prazo de Prescrição da Obrigação do Pagamento da Renda

Uma outra problemática intrinsecamente associada ao pagamento das rendas prende-se com a natureza da obrigação do pagamento das mesmas.

Acerca desta situação existem dois entendimentos diferentes, os que defendem que as rendas são uma prestação periódica 13 e os que defendem que as rendas são uma prestação de carácter fraccionado 14 . Esta distinção é da maior importância uma vez que da natureza da obrigação vai depender também o prazo de prescrição da obrigação do pagamento da renda.

Esta questão tem sido abundantemente discutida nos tribunais, com três soluções distintas.

A primeira, vista por exemplo no Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa 15 , defende que deve ser aplicado o prazo geral previsto no artigo 309.º do Código Civil, ou seja, 20 anos.

Uma segunda perspectiva é a encontrada no Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa 16 , que defende que o prazo que deve aqui ser aplicado é de cinco anos.

Por fim, a terceira perspectiva, passível de ser encontrada no Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça 17 , defende que deve ser aplicado o prazo geral de vinte anos para as rendas em falta, mas, defende também que, no que diz respeito aos juros vencidos, deverá ser aplicado o prazo previsto no artigo 310.º, d) do Código Civil, ou seja, o prazo encurtado de cinco anos.

13 Jorge Costa Santos apud MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 592. 14 Diogo Leite Campos apud MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 132.

15 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 15-12-2005 (Olindo Geraldes), disponível em: http://biblioteca.mj.pt/Paginas/default.aspx .

16 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 28-10-1999 (Martins Lopes), disponível em:

17 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 04-10-2000 (Barata Figueira), Colectânea de Jurisprudência, Supremo Tribunal de Justiça, 2000, pp. 59 e ss.

Na opinião de GRAVATO MORAIS 18 , que merece também a nossa aprovação, as rendas constituem uma dívida a prestações, uma vez que o objecto da prestação é pré-fixado, ou seja, o valor da renda não está dependente da duração do contrato. Assim, e por forma a evitar que o credor acumule créditos de tal maneira onerosos para o locatário que tornassem o pagamento por parte deste extremamente difícil, deve ser então, utilizado o prazo mais curto previsto no artigo 310.º b) do Código Civil. 19

18 MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 110. 19 Ibidem.

Meios de Defesa do Locador

É agora necessário discutir os meios de defesa ao dispor do locador no caso de

o locatário não pagar uma renda.

O primeiro desses mecanismos é claro, a mora, ou seja, a partir do momento

em que o locatário não paga a renda, este é constituído em mora 20 , que, como é lógico, tem até algumas vantagens para o locador uma vez que o atraso do pagamento irá dar lugar ao recebimento dos respectivos juros. 21

O segundo mecanismo é o da cláusula de vencimento antecipado das rendas

vincendas. Esta cláusula, que por norma existe nos contratos de locação financeira,

permite ao locador exigir o pagamento das rendas vencidas e respectivos juros de

mora e ainda o pagamento das restantes prestações, ou seja, esta cláusula faz com que

o locatário perca o benefício do prazo.

É, no entanto, possível que as partes possam dispor contratualmente de forma

distinta, uma vez que o artigo 781.º do Código Civil tem natureza supletiva. 22

Ora, uma vez provocada a perda do benefício do prazo, é importante averiguar se esta dá direito a pagamento de juros indemnizatórios pelas rendas antecipadamente vencidas.

É necessário, em primeiro lugar referir que estamos a falar aqui de dois tipos

distintos de prestações, ou seja, prestações de capital e de juro. Significa isto que sendo as prestações diferentes, então, terão, também de serem tratadas distintamente.

O Acórdão da Relação de Lisboa 23 , diz-nos que os juros remuneratórios, por

serem uma prestação periódica, não podem ser exigidos antes da data em que normalmente se venceriam. A isto soma-se o facto de as prestações de juros serem flutuantes ao longo do tempo, ou seja, o valor a ser prestado pode não ser sempre o

20 LIMA, Fernando Andrade Pires de / VARELA, João de Matos Antunes, Código Civil Anotado Volume II, 2ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1981, pp.55 a 57

21 Neste sentido: LIMA, Fernando Andrade Pires de / VARELA, João de Matos Antunes, Código Civil Anotado Volume II, 2ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1981, p. 57. 22 Neste sentido: MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 114.

23 Acórdão do Tribunal Relação de Lisboa, de 06-06-2002 (Tomé Gomes), disponível em:

mesmo e ainda não fazer muito sentido exigir uma prestação que ainda não existe uma vez que os juros “só nascem com o decurso do tempo” 24 .

Por outro lado, outros há que defendem que os juros podem ser exigidos uma vez que, “a convenção das partes não pode ser desconsiderada, ultrapassando, deste modo, a natureza distinta das prestações” 25 , a que se junta o argumento de que “a referência ao custo total do crédito expresso em percentagem através da TAEG ( ) permite demonstrar igualmente a incindibilidade das prestações” 26 .

Expostos os argumentos, partilhamos a posição de GRAVATO MORAIS 27 , que se encontra também explícita no Acórdão Uniformizador de Jurisprudência, de 25-03-2009 28 , que defende que os juros remuneratórios não são abrangidos pela disposição do artigo 781.º do Código Civil.

O mesmo autor acrescenta ainda que “não é a percentagem de incumprimento contratual do devedor, nem o seu total alheamento, seja quanto à assunção dos compromissos assumidos, seja quanto ao resultado das acções originadas pelo incumprimento, que permite justificar a cobrança de juros remuneratórios” 29 . Acresce ainda a isto o facto de que se os juros fossem abrangidos pelo artigo 781.º, então o regime do benefício da perda do prazo seria ainda mais vantajoso do que a resolução do contrato, o que nos parece que geraria uma situação no mínimo caricata. 30

24 Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 27-09-2005 (Ana Agrácio) apud MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 116.

25 MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 116.

26 Idem, p.117

27 Ibidem. 28 Acórdão Uniformizador de Jurisprudência, de 25-03-2009 (Cardozo de Albuquerque) disponível em: http://www.dgsi.pt/ .

29 MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p. 117.

30 Neste sentido: MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011, p.117.

Conclusão

Depois deste longo percurso efectuado podemos tirar várias conclusões.

Uma conclusão que podemos retirar é a de que o pagamento da renda é uma obrigação do locatário, e que esta é uma prestação pecuniária.

Uma outra conclusão, que podemos extrair deste estudo, é a de que o termo “renda” no âmbito do contrato de locação financeira não pode ser entendido na sua acepção tradicional, uma vez que esta prestação pode não dizer respeito a um imóvel.

Também podemos concluir que existem dois tipos distintos de rendas, as rendas de valor constante e as rendas de valor variável e concluímos que estas tem como função “cobrir a amortização financeira global do custo do investimento (incluindo aqui a amortização do bem locado e a retribuição pela sua utilização) e a remuneração do risco suportado” 31 pelo locador.

Podemos também constatar que a renda constitui uma dívida a prestações e que, por isso, dever-se-á aplicar-lhe o prazo de cinco anos para a prescrição da obrigação de pagamento, prevista no artigo 310.º, h) do Código Civil.

Analisámos também dois meios de defesa do locador, a mora e a cláusula de vencimento antecipado das rendas vincendas e, acerca desta última, podemos concluir que a mesma dá ao locador a faculdade de exigir do locatário, quando este entrar em mora, o pagamento das rendas vencidas e respectivos juros de mora e, também das rendas antecipadamente vencidas, mas, ao contrário das primeiras, sem direito a receber os juros, neste caso remuneratórios.

31

Acórdão

do

Tribunal

da

Relação

de

Lisboa

de

20-03-1991,

disponível

em:

Bibliografia

MORAIS, Fernando de Gravato, Manual da Locação Financeira, 2.ª edição, Coimbra, Almedina, 2011.

PIZARRO,

Almedina, 2004.

Sebastião

Nóbrega,

O

Contrato

de

Locação

Financeira,

Coimbra,

VALENTE, J. A. Rosado, Locação Financeira (Leasing) e Aluguer de Longa Duração (ALD), 2ª edição, Coimbra, Edições Minerva, 1996.

DUARTE, Rui Pinto, Escritos sobre Leasing e Factoring, Editora Principia, 2001.

LIMA, Fernando Andrade Pires de / VARELA, João de Matos Antunes, Código Civil Anotado Volume II, 2ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1981.