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UNIVERSIDADE DE LÉON DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS DOUTORAMENTO EM SAÚDE E SEGURANÇA NO TRABALHO ESTUDO

UNIVERSIDADE DE LÉON

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS

DOUTORAMENTO EM SAÚDE E SEGURANÇA NO TRABALHO

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA

AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM

PORTUGAL

Trabalho Realizado por: Paulo Jorge Bernardes Gaspar

Orientador: Prof. Dr. Serafín de Abajo Olea

- 2011 -

Doutoramento em Saúde e Segurança no Trabalho ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA

Doutoramento em Saúde e Segurança no Trabalho

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA

POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

Outubro de 2011

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL Identificação: Paulo Jorge Bernardes Gaspar Contactos

Identificação: Paulo Jorge Bernardes Gaspar

Contactos Telefone: 216026525 Telemóvel: 912525536 Correio Electrónico: paulo.gaspar@cm-cascais.pt

Designação do Trabalho:

Estudo da Síndrome de Burnout numa Amostra da População de Bombeiros em Portugal.

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL Relatório de Trabalho de Investigação apresentado à

Relatório de Trabalho de Investigação apresentado à Universidade de León, no âmbito do Doutoramento em Segurança e Saúde no Trabalho SST, como parte dos requisitos para a obtenção do Diploma de Estudos Avançados.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL DEDICATÓRIA À Ana, minha Amiga, meu porto

DEDICATÓRIA

À Ana, minha Amiga, meu porto seguro, minha mulher.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ÍNDICE RESUMO 9 INTRODUÇÃO 11

ÍNDICE

RESUMO

9

INTRODUÇÃO

11

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

18

Capitulo I Os Bombeiros Portugueses

18

1.1. História dos Bombeiros Portugueses

18

1.2. Organização do Sistema de Socorro até 2002

36

1.2.1. Fusão do SNB, SNPC e CNEFF -antes, durante e depois

42

1.2.2. Criação do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC)

47

1.2.3. Novo Ordenamento Jurídico, Funcional e Operacional, “dito estruturante”, do Sistema de

Protecção e Socorro (2005 2008)

55

1.3.

Desenvolvimento do Serviço de Saúde nos bombeiros portugueses

65

1.3.1.Perfil Profissional dos Bombeiros Portugueses

Erro!

Marcador não definido.

Capitulo II A Síndrome de Burnout

70

2.1.

Definição de Burnout

70

2.1.1

. As Dimensões do Burnout

73

2.1.1.

Burnout e Outros Conceitos

79

2.1.1.1.

Burnout e Stress

79

2.2.

Principais Modelos explicativos

82

2.2.1. Modelo

de

Maslach

82

2.2.2. Modelo

de

Pines (1993)

83

2.2.3. Modelo de Cherniss (1993)

84

2.2.4. Modelo de Thompson, Page e Cooper (1993)

85

2.2.5. Modelo de Fases de Golembiewski, Munzenrider e Carter (1988)

86

2.2.6. Modelo de Shirom e Melamed

86

2.2.7. Modelo Kristensen e colegas

88

2.3.

O Processo de Desenvolvimento da Síndrome

88

2.3.1.

Sintomatologia

95

2.3.2. Factores de Risco e de Protecção

97

Variáveis

2.3.1.1. Pessoais

101

Variáveis

2.3.1.2. do

Trabalho

104

2.3.1.3. Variáveis da Organização

107

2.3.1.4. Variáveis

Sociais

108

2.4.

Consequências da Síndrome

110

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL 2.4.1. Consequências Pessoais 111 2.4.2.

2.4.1. Consequências

Pessoais

111

2.4.2. Consequências

Sociais

112

Consequências

2.4.3. Organizacionais

112

2.5.

Estratégias e técnicas de Intervenção

114

ESTUDO EMPÍRICO

116

Capitulo III Objectivos e Metodologia

116

3.1.

Objectivos

116

3.1.

1.Objectivo Geral

 

116

3.1.2.

Objectivos Específicos e Hipóteses

116

3.2.

Metodologia

117

3.2.1. Tipo de Estudo e Instrumentos utilizados

117

3.2.2. Procedimento de recolha de dados

123

Capitulo IV Apresentação e Análise e discussão de Resultados

124

4.1. Apresentação de resultados

124

4.2. Análise e discussão de resultados

126

4.2.1. Análise

Descritiva

126

4.2.2. Análise

Comparativa

130

4.2.3. Análise

Correlacional

131

Capitulo V Conclusões

133

BIBLIOGRAFIA

136

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ÍNDICE DE QUADROS E FIGURAS ENQUADRAMENTO TEÓRICO

ÍNDICE DE QUADROS E FIGURAS

ENQUADRAMENTO TEÓRICO Quadro 1 - Sintomatologia da Síndrome de Burnout

100

Quadro2 - Resumo dos facilitadores e/ou desencadeantes do Burnout

103

Quadro 3 -Dados epidemiológicos sobre o Burnout, segundo algumas ocupações

109

ESTUDO EMPÍRICO Tabela 1 - Análise dos resultados relativos a idade dos bombeiros

128

Tabela 2 - Caracterização da amostra em função do sexo, estado civil, situação profissional e tipo de horário de trabalho

129

Tabela 3 - Caracterização da amostra em função do nº de horas despendidas no trabalho

129

Tabela 4 - Medidas de Tendência Central, Dispersão e Distribuição relativas as dimensões do burnout esgotamento emocional, Despersonalização e Realização Pessoal

132

Tabela 5 -Resultados relativos às dimensoes exaustão emocional, despersonalização e realização.pessoal por niveis

133

Tabela 6 - Frequência de bombeiros com Burnout

134

Tabela 6 - Frequência de bombeiros com Burnout

135

Tabela 7 - Resultados relativos ao esgotamento emocional, Derpersonalização e Realização Pessoal entre bombeiros dos sexo masculino e bombeiros do sexo feminino

135

Tabela 8 - Correlação de Spearman entre idade e Realização Pessoal, Despersonalização e Exaustão Emocional

136

Tabela 9 - Resultados relativos as dimensões exaustão emocional, despersonalização e realização pessoal em função da situação profissional

136

Tabela 10 - Correlação de Spearman entre nº de horas semanais e realização pessoal, despersonalização e esgotamento emocional

137

Figura 1 - Histogramas relativos a distribuiçao de resultados das dimensoes Esgotamento, emocional, Despersoanalização e Realizaçao Pessoal

132

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RESUMO

RESUMO

Este trabalho de investigação surge no âmbito da realização do Doutoramento em Saúde e Segurança no Trabalho, para o cumprimento dos requisitos necessários para a obtenção intermédia do Diploma de Estudos Avançados, constante do programa curricular do Doutoramento.

O trabalho pretende contribuir para um melhor conhecimento da Síndrome de

Burnout nos bombeiros portugueses, abordando também as relações existentes entre o Burnout e a satisfação no trabalho. Apesar da intenção final do trabalho seja incidir o estudo do Burnout na população de Bombeiros Portugueses, nesta fase, foi apenas estudada uma amostra de uma corporação de bombeiros, os Bombeiros Voluntários de Alcabideche.

Foi elaborado um estudo empírico, seguindo o modelo de estudo epidemiológico analítico, do tipo cross-sectional ou seja, transversal e de prevalência. A técnica de estudo utilizada foi a de questionário, tendo sido construído um questionário adaptado com o fim de cruzar os dados com Inventário MBI (Maslach Burnout

Inventory), mais exactamente, o M.B.I.-H.S.S. (M.B.I.- Human Services Survey).

De uma população total de 55 bombeiros, operacionais, dos Bombeiros Voluntários

de Alcabideche, foram recolhidas 39 respostas aos questionários, das quais apenas

38 foram consideradas válidas. Para a análise dos dados recolhidos recorreu-se ao programa de análise estatística de dados SPSS Statistics vs. 19.

Da análise dos dados, destacamos como principais conclusões que:

A proporção de bombeiros com Burnout clinicamente significativo foi reduzida, tendo-se registado apenas 5.3% (N=2) de casos na amostra analisada;

Em termos médios, o esgotamento emocional manifestou-se ligeiramente baixo (M=18.05, DP=12.27), tendo em consideração um mínimo possível de 0 e um máximo de 54 pontos;

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RESUMO

Em relação a dimensão despersonalização os resultados médios obtidos (M=7.40, DP=6.51) revelaram uma baixa despersonalização, considerando os valores mínimos possíveis de 0 para um máximo de 30 pontos;

Quanto a realização pessoal de acordo com os resultados médios obtidos (M=33.77, DP=7.03) notou-se uma tendência para uma realização pessoal mais alta, tendo em consideração o valor mínimo possível de o para um máximo de 48 pontos;

Verificou-se que a maior parte dos bombeiros inquiridos trabalha como voluntário 57.9% (n=22), sendo que estes apresentam menores níveis de esgotamento emocional comparativamente aos bombeiros assalariados;

No entanto, devemos ter em conta que nesta primeira fase da nossa investigação, apenas foi estudada uma pequena amostra de uma corporação de bombeiros. É

nossa intenção dar continuidade ao presente estudo, incidindo o mesmo sobre uma amostra mais significativa da população de bombeiros portugueses, e que inclua um número razoável de indivíduos, por grupo, por regiões e corpos de bombeiros.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO INTRODUÇÃO O trabalho sempre fez parte

INTRODUÇÂO

INTRODUÇÃO

O trabalho sempre fez parte da vida dos seres humanos. Foi através dele que as civilizações conseguiram se desenvolver e alcançar o nível atual. O trabalho gera conhecimentos, riquezas materiais, satisfação pessoal e desenvolvimento económico. Por isso ele é e sempre foi muito valorizado

em todas as sociedades.

O trabalho é o melhor instrumento de realização de nossas conquistas materiais. Mas, além disso, é um grande caminho de realização pessoal. Trabalhar desenvolve a capacidade de pensar, de tomar decisões, de encontrar soluções, de construir projetos e de aprender a lidar com pessoas. A força do trabalho como meio para estimular o desenvolvimento pessoal é tão importante que, se não trabalhamos com esse objetivo, quando a reforma vem ela revela a verdadeira face de uma vida sem sentido.

Durante o nosso processo de socialização vamo-nos preparando para o nosso futuro, criando expectativas, aprendizagens, motivações e ambições sobre aquilo que gostaríamos de vir um dia a ser, enquanto profissionais. Contudo muitas vezes quando confrontados com a realidade no exercício da actividade profissional, nem sempre o que idealizámos se concretiza.

Verifica-se que diferentes profissionais apresentavam muitas vezes atitudes agressivas e distantes, numa actividade profissional em que a qualidade da relação é um factor fundamental. Das leituras efectuadas em estudos sobre

a matéria, verificou-se que, quando abordados, os seus relatos

demonstravam sofrimento, desilusão, revolta e zanga. Os seus ideais enquanto profissionais estavam esbatidos, condicionando a qualidade da prestação de serviços.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO Em qualquer profissão, o stress pode

INTRODUÇÂO

Em qualquer profissão, o stress pode ter aspectos positivos que nos desafiam, e permitem evoluir pessoalmente e profissionalmente e aspectos negativos, que nos vão colocando obstáculos e deteriorando a nossa atitude perante o trabalho, ao longo do tempo. A forma como avaliamos os acontecimentos no trabalho e com eles lidamos têm impacto a nível da nossa saúde física e mental.

Múltiplos são os factores e fontes de stress profissional a que os indivíduos estão continuamente expostos. Factores relacionados com a organização e a cultura organizacional, aspectos específicos da actividade profissional, e factores relacionados com aspectos pessoais e inter-pessoais. Quando o stress profissional se torna crónico, pode contribuir entre outras consequências, para a instalação e ou desenvolvimento da síndrome de burnout e da depressão.

O papel desempenhado pelos bombeiros é hoje uma actividade profissional com um papel fundamental na sociedade, que apresenta características específicas. Sendo uma organização relativamente fechada, com poucos estudos científicos sobre o stress profissional em Portugal, os bombeiros possuem um papel social relevante na segurança das populações, que devendo ser eficazes, sem falhar, os tornam alvo de grandes níveis de stress.

Partindo do constructo multidimensional de Cristina Maslach, a síndrome de burnout, apresenta diferentes dimensões e fases que se interligam, (exaustão, cinismo e eficácia profissional) e que se comportam de diferente maneira perante as diferentes variáveis.

Estas fases podem apresentar-se segundo uma ordem quase habitual. Começa com um entusiamo idealista, em que o trabalho promete preencher totalmente, com uma identificação excessiva à clientela e um dispêndio de

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO energia descomedido que, frequentemente, se

INTRODUÇÂO

energia descomedido que, frequentemente, se revela ineficaz. (DELBROCK, MICHEL, 2006).

Tendo em conta esta prespectiva foi construído um modelo com o objectivo contribuir para um melhor conhecimento da Síndrome de Burnout na actividade dos Bombeiros Voluntários Portugueses, tendo como objecto de estudo uma amostra da população do Corpo de Bombeiros Voluntários de Alcabideche.

Pretendemos com o presente trabalho efetuar um estudo empírico sobre uma amostra da população dos Bombeiros Voluntários de Alcabideche de

modo a contribuir para uma melhor conhecimento da Síndrome de Burnout

na atividade dos Bombeiros Voluntários Portugueses.

Para o efeito, iniciámos o nosso trabalho com um Enquadramento Teórico estruturado do seguinte modo: Capitulo I - Os Bombeiros Portuguesas, no qual apresentamos uma caracterização dos Bombeiros Portugueses, nomeadamente no que respeita à sua história, e à organização do sistema

de socorro e desenvolvimento do serviço de saúde, seguido do Capitulo II

A Síndrome de Burnout, onde efectuamos uma caracterização da Síndrome, apresentando os conceitos associados à patologia, os principais modelos explicativos, processo de desenvolvimento e consequências da síndrome.

O Estudo Empírico que se seguiu adoptou como metodologia o modelo de estudo epidemiológico analítico, do tipo cross-sectional, ou seja, transversal

e de prevalência, uma vez que analisa num único momento uma

determinada população (operacionais no Corpo de Bombeiros de Alcabideche). A técnica de estudo utilizada foi a de questionário, e os

instrumentos foram dados pelo Inventário MBI (Maslach Burnout Inventory). No Capítulo III, descrevem-se os objetivos e metodologia adoptada na investigação.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO No Capitulo IV são apresentados os

INTRODUÇÂO

No Capitulo IV são apresentados os resultados obtidos e feita a analise e discussão dos mesmos e por fim, no Capitulo V, são apresentadas as Conclusões do Estudo.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO INTRODUCCIÓN El trabajo siempre ha hecho

INTRODUÇÂO

INTRODUCCIÓN

El trabajo siempre ha hecho parte de la vida de los seres humanos. Fue a través de el que las civilizaciones fueron capaces de desarrollar y alcanzar el nivel actual. El trabajo genera el conocimiento, la riqueza material, la realización personal y el desarrollo económico. Por lo que es y siempre ha sido muy valorado en todas las sociedades.

El trabajo es el mejor instrumento de lograr nuestras aspiraciones materiales. Pero, más allá de eso, es una gran manera de realización personal. El trabajo desarrolla la capacidad de pensar, tomar decisiones, buscar soluciones, construir proyectos y aprender a tratar con la gente. La fuerza del trabajo como un medio de estimular el desarrollo personal es tan importante que si no lo hacemos con ese objetivo, cuando la jubilación llega nos revela el verdadero rostro de una vida sin sentido.

Es durante nuestro proceso de socialización que nos preparamos para nuestro futuro, creando expectativas, aprendizajes, motivaciones y ambiciones de lo que nos gustaría venir un día a ser como profesionales. Pero a menudo cuando se enfrenta con la realidad en el ejercicio de una actividad profesional, ni siempre lo que habíamos ideado se realiza.

Se ha comprobado que diferentes profesionales tenían actitudes a menudo agresivas y distantes, en un trabajo donde la calidad de la realización es un factor clave. De las lecturas realizadas en los estudios sobre el tema, se encontró que, cuando acercados, sus informes han mostrado sufrimiento, decepción, disgusto e ira. Sus ideales como profesionales eran confusos, condicionando la calidad de los servicios.

En cualquier profesión, el estrés puede tener aspectos positivos que nos desafían y dejan evolucionar personal y profesionalmente y los aspectos negativos que nos van a poner obstáculos y una actitud de deterioro al trabajo a través del tiempo. La forma en que evaluamos los acontecimientos en el trabajo y tratamos con ellos tiene un impacto en nuestra salud física y mental.

Múltiplos son los factores y las fuentes de estrés en el trabajo al que los individuos están expuestos continuamente. Factores relacionados con la organización y la cultura organizacional, aspectos específicos del trabajo y factores relacionados con la persona y interpersonal. Cuando el estrés en el trabajo se vuelve crónica, puede contribuir, entre otras consecuencias para la instalación y desarrollo del Síndrome de Burnout y depresión.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO El papel desempeñado por los bomberos

INTRODUÇÂO

El papel desempeñado por los bomberos ahora es una profesión vital en la sociedad, que tiene características específicas. Como una organización relativamente cerrada, con pocos estudios científicos sobre el estrés laboral en Portugal, los bomberos tienen un papel social relevante en la seguridad de la población, que deben ser efectivas, sin excepción, están así sujetos a los altos niveles de estrés.

Basado en el constructo multidimensional de de Cristina Maslach, el Síndrome Burnout, tiene diferentes dimensiones y etapas que están interconectadas, (agotamiento, cinismo y eficacia profesional) y que se comportan de manera diferente en las distintas variables.

Estas etapas pueden presentarse según una orden casi habitual. Se empeza con un entusiasmo idealista en que el trabajo promete llenar por entero, sobre-identificación con la clientela y un gasto excesivo de energía que a menudo resulta ineficaz. (DELBROCK, MICHEL, 2006).

Teniendo en cuenta este punto de vista fue construido un modelo con el objetivo de contribuir a una mejor comprensión del Síndrome Burnout en la actividad de los Bomberos Voluntarios Portugueses, que tiene como tema una muestra del Departamento de los Bomberos Voluntarios de Alcabideche.

La intención de hacer con esto trabajo un estudio empírico sobre una muestra de la población de los Bomberos Voluntarios de Alcabideche para contribuir a una mejor comprensión del Síndrome Burnout en la actividad de los Bomberos Voluntarios Portugueses.

Para

este

fin,

empezamos

nuestro

trabajo

con

 

un

marco

teórico

estructurado

de

la

siguiente

manera:

Capitulo

I

Los

Bomberos

Portugueses en que se presenta una caracterización de los Bomberos Portugueses, en particular con respecto a su historia y a la organización del sistema de asistencia y desarrollo de servicios de salud, seguido por el Capitulo II El Síndrome Burnout donde llevamos a cabo una caracterización del Síndrome, la presentación de los conceptos asociados a la patología, los primeros modelos explicativos, el proceso de desarrollo y las consecuencias del Síndrome.

El Estudio Empírico que se siguió adoptó como metodología y modelo de estudio epidemiologico analitico, como intersectorial, la cruz y la predominación ya que un solo momento analiza una población dada (el funcionamiento del Departamento de los Bomberos Voluntarios de Alcabideche), la técnica de estudio utilizada fue el cuestionario, y los instrumentos fueron dados por inventario MBI (Malach Burnout Inventory).

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL INTRODUÇÂO En el Capitulo III se describen

INTRODUÇÂO

En el Capitulo III se describen los objetivos y la metodología adoptada en la investigación.

En el Capitulo IV se presentan los resultados obtenidos y se realizó el

se

análisis y discusión

presentan las conclusiones del estudio.

de

los

mismos

y

por

último, en

el

Capitulo V

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

ENQUADRAMENTO TEÓRICO

CAPITULO I OS BOMBEIROS PORTUGUESES

1.1. HISTÓRIA DOS BOMBEIROS PORTUGUESES

Os incêndios, grande flagelo, ao longo dos tempos, outrora mais a nível urbano, e hoje mais a nível florestal, começaram a ser combatidos com meios arcaicos, mas com expressivo e contagiante espírito de solidariedade não só dos vizinhos, mas da população em geral.

não só dos vizinhos, mas da população em geral. D. João I (1385-1433) Carta Régia de

D. João I (1385-1433)

mas da população em geral. D. João I (1385-1433) Carta Régia de D. João I D.

Carta Régia de D. João I

D. João I, através da Carta Régia de 23 de Agosto de 1395, tomou a primeira iniciativa em promulgar a organização do primeiro Serviço de Incêndios de Lisboa, ordenando “que em caso que se algum fogo levantasse, o que Deus não queria, que todos os carpinteiros e calafates venham àquele lugar, cada um com seu machado, para haverem de atalhar o dito fogo. E que outros sim todas as mulheres que ao dito fogo acudirem, tragam cada uma seu cântaro ou pote para acarretar água para apagar o dito fogo”.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Estabelecia também

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Estabelecia também que os pregoeiros da cidade saíssem de noite pela ruas, a avisar, em voz alta, os moradores, de que deveriam tomar cuidado com o lume em suas casas.

No Porto, os Serviços de Incêndio também funcionaram, desde o século XV. Medidas de prevenção foram tomadas, nos séculos XV, XVI e meados do século XVII. O senado da Câmara de Lisboa promulgou normas, com o objectivo de prevenir incêndios, provocados pelas fogueiras, manuseamento de pólvoras ou lumes domésticos.

Esta preocupação de organização começou a generalizar-se por todo o País, tendo decidido a Câmara do Porto, na reunião de 14 de Julho de 1513:

“Eleger diversos cidadãos para fiscalizar se os restantes moradores da cidade apagavam o lume das cozinhas à hora indicada pelo sino da noite”. E

a mesma Câmara, na reunião de 9 de Setembro de 1612 “ordenou que

fossem notificados os carpinteiros da cidade de que iriam receber machados e outras pessoas de que entrariam na posse de bicheiros, para que,

havendo incêndios, acudissem a ele com toda a diligência”. Mas só no Reinado de D. João IV, se tentou introduzir em Lisboa, o sistema usado em Paris, tendo o Senado aprovado a aquisição de diverso material e equipamentos, e concedendo prerrogativas a nível de remunerações e de habitações.

O serviço de incêndios, em 1646, reorganizou-se, tendo a Câmara proposto

a compra ao Rei D. João IV: “de seis escadas ferradas no alto delas, duas

de quinze degraus e outras de vinte cinco; e outras duas de trinta, as quais

se encostão na caza onde se pega o fogo, e seis varas de trinta palmos de comprido ferradas com seus bicheiros de ganchos e duzentos calões de couro cru que leve hum almude de ágoa cada hum, porque estes servem e não quebram, e se lançam do alto das cazas à rua e para cima vão

continuando cheos de àgoa

A estes homens dá a Câmara casas em que

morem por esta pensão de acudirem, tanto se toca a sino a incêndio. Porém, não tendo a Câmara desta cidade comodidade de dar casas a estes homens se pode remediar dando-lhes um salário conveniente para estarem

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I e parecendo

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

e parecendo conveniente se obrigarem os

donos das casas circunvizinhos do incêndio a darem um adjutório para estes homens que trabalham por lhe livrarem suas casas. E tendo estes salários acudirão com obrigação porque a razão de não acudirem é por quebrarem suas ferramentas e queimarem seus vestidos, arriscando-se sem lhes darem nenhum socorro e por esta causa se escondem fogem do trabalho.

A instalação, em Lisboa, dos três primeiros “quartéis” (três estações para

arrecadação de aparelhos e ferramentas), foi decidida por D. Afonso VI, em

28 de Março de 1678: “O Senado ordenará, com toda a brevidade, que

nesta cidade haja três armazéns

instrumentos que se julgarem necessários para se acudir aos incêndios, e escadas dobradas de altura competente, para que, com toda a prontidão, se possam remediar logo no princípio; e a chave terá cada um dos mestres assalariados pelo Senado, com obrigação que, logo que se tocar a fogo, abra o armazém que tiver a seu cargo, onde acudirão todos os oficiais assalariados ”

e que estejam providos de todos os

à obrigação deste trabalho

Três anos depois, em 1681, a reorganização, prosseguiu, tendo sido mandado vir da Holanda, duas bombas e uma grande quantidade de baldes de couro, sendo distribuídos 50, por cada bairro. Os pedreiros, os carpinteiros e outros mestres passaram a ser alistados para o combate aos sinistros, ficando sujeitos a uma pena de prisão por cada incêndio, a que não comparecessem.

de prisão por cada incêndio, a que não comparecessem. D. Pedro II (1683-1706) O primeiro Regulamento

D. Pedro II (1683-1706)

O primeiro Regulamento do Pessoal, publicado, em Lisboa, no ano de 1683,

assim determinava entre outras medidas:

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Capítulo I

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Capítulo I Cada um dos juízes do crime desta cidade no bairro de sua repartição mandará fazer uma lista de todos os pedreiros, carpinteiros, calceteiros, serradores e trabalhadores que por seus jornais costumam ganhar dinheiro

Capítulo II e III Cada um dos ofícios nomeasse dois oficiais mais idóneos para servirem

de cabos e que houvesse um livro no qual constasse toda a existência

dos materiais de combate.

Capítulo IV para saberem se as pessoas a quem estas ferramentas, baldes, lanternas forem repartidas estão moradoras nos ditos bairros em que forem alistadas…

Capítulo V Para se porem em resguardo os esguichos, escadas e morriões e mais apetrechos que ao Senado parecer necessário, com diligência e

prontidão se acudir aos incêndios, terá o mesmo Senado duas casas ”

A prevenção continuava a ser considerada fundamental, para se

evitarem maiores catástrofes, tendo apresentado o Senado da Câmara de Lisboa, em 1714, a Sua Magestade, D. João V, diversas medidas:

“Haverá três armazéns: um no meio do Bairro Alto; outro no meio do Bairro da Alfama e outro no meio do Bairro de inter-médio dos dois bairros. Em cada um destes estarão duas bombas, quatro escadas

uma dúzia de baldes com suas cordas ”

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I A Companhia

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I A Companhia do Fogo ou Companhia da

A Companhia do Fogo ou Companhia da Bomba, fundada, em 1722, no

Porto, era constituída por 100 “homens práticos”, capazes de manobrarem a “Bomba, machados, fouces” tendo publicado D. João V, em 5 de Fevereiro, de 1728, a provisão acima reproduzida e que, em parte, transcrevemos: “Dom João por graça de Deos, rei de Portugal, e dos

Faço saber

aos que esta minha Provizão virem, que tendo consideração a Me representarem os Officiaes da Camara da Cidade do Porto, que na dita Cidade havia uma Bomba com que se acudia aos incêndios, remedio mais eficaz a atalhar aquelle damno, e esta estava depositada em casa de hum

Algarves d’aquem, e d’além mar em África, Senhor da Guiné

homem intitulado Cabo, que a tinha prompta sempre, e capaz de servir, e ao primeiro toque do sino mais vizinho ao lugar do fogo, que fazia signal de o haver, acudião à casa do dito cabo oito homens, que erão obri-gados a ir

buscalla

por prémio daquelle grande trabalho a que não só restavam castigo quando

faltavão; para o que tomava conta delles em toda a ocasião o Cabo, e de

tudo dava parte na Cãmara

por não querer conservar a isenção aos ditos homens, largarão todos as

ocupações, causa por que nesta parte ficará a dita Cidade em notavel

desam-paro

ordenar, que o Coronel que governa as Armas do Partido da dita Cidade, e seus sucessores não obriguem aos ditos homens pelo Militar, e encargos de

guerra, para por aquelle trabalho terem este Privilégio por prémio ”

Privilégio que os iisen-tava dos encargos do concelho, e guerra,

o Tenente Coronel Bento Felix da Veiga, que

me pedião em nome de todo aquelle Povo lhe fizesse mercê

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I D.João V

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I D.João V (1706-1750) O termo “Bombeiro”, que

D.João V (1706-1750)

O termo “Bombeiro”, que está intimamente ligado às bombas, um dos equipamentos mais avançados para a época, e que as Corporações consideraram da maior utilidade, surgiu, pela primeira vez, em Lisboa, no ano de 1734. Neste mesmo ano foram adquiridas mais quatro bombas, em Inglaterra. Aos homens dos serviços dos incêndios, por trabalharem com as Bombas, passaram a ser designados Bombeiros.

Encontramos aqui a origem da denominação de bombeiro, assim como a razão de ser da origem do nome “Companhia da Bomba”. Existiram outras designações, para as quais ainda não encontrámos explicação. (Informação retirada do livro Bombeiros de Gouveia (1904-2004))

Sec. XIX (1800/1868)

No séc. XIX assiste-se, logo no seu início, a uma nova reorganização da Inspeção Geral de Incêndios de Lisboa, com a apresentação de uma série de medidas que encorpavam o comando do combate a incêndios em Inspectores Gerais dos incêndios, por parte do Senado da Câmara que culminou com a aprovação de d. João VI.

È a partir desta data que se multiplicam o nº de bombas com missão de suprimir os incêndios pelos grandes centros urbanos da época. (Santos,

1995).

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I A prevenção

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

A prevenção de incêndios sempre foi uma grande preocupação pelos responsáveis dos municípios. De acordo com o Decreto de 16 de Maio de 1832, competia ao provedor do concelho, a que corresponde na actualidade o cargo de presidente da Câmara Municipal, no cumprimento das obrigações de superintendência da polícia, “ evitar os incêndios, fazendo visitar a chaminés e fornos (Santos, 1995).

A Câmara de Lisboa deliberou, em 17 de Julho de 1834, proceder a uma

importante reorganização dos serviços de incêndios, incumbindo a Câmara Municipal de uma série de obrigações que incluía a divisão da cidade em quatro distritos territoriais para intervenção das brigadas de incêndios. (Santos, 1995)

Apesar de a Câmara não ter criado uma “companhia de bombeiros” conforme referido no preâmbulo do regulamento, foi criada a primeira companhia de bombeiros de Lisboa denominada por Companhia do Caldo e do Nabo, seguindo-se a criação de inúmeras “companhias de Incêndios” em diversas cidades do país (Santos, 1995).

O Código Administrativo de 18 de Março de 1842 cometeu ao administrador

do concelho a tarefa de “ providenciar nos casos d´incêndio, innundações, naufrágios e semelhantes” e às Câmaras Municipais a incumbência de “ regular o depósito e guarda de combustíveis, e limpeza de chaminés e fornos” (Santos, 1995).

Em 1852 o Serviço de incêndios foi novamente reorganizado, onde foi introduzido o “ Regulamento para os Empregados da Repartição dos Incêndios, tendo sido publicadas em 1853 providências com o objectivo de evitarem acidentes graves resultantes dos incêndios em casas de espectáculos. São também introduzidas em 1853 as primeiras medidas concretas de natureza social à muito defendidas pelos Bombeiros. Foi contemplado uma responsabilização por parte da Câmara a todos os acidentados em acções de socorro ao serviço da Companhia de incêndios,

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I medidas actualmente

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

medidas actualmente consubstanciadas no estatuto social do bombeiro e no fundo de protecção social.

Em 26 de Junho de 1867, sucedendo ao código administrativo de 1842, foi aprovada a primeira “Lei de Administração Civil” que dividiu o Reino de Portugal em distritos, concelhos e paróquias civis

A partir do ano 1868, foram introduzidas as bombas a vapor, originando a

obrigatoriedade dos proprietários instalarem bocas-de-incêndio nos prédios. Apareceu também a escada “Fernandes”, precursora da “Magyrus” e foi instituída a classe de Sotas - Bombeiros permanentes, cuja denominação era atribuída aos Capatazes dos antigos aguadeiros.

Em 1868 um grupo de amigos (individualidades da cidade), propõe a criação de uma companhia de bombeiros voluntários. Este acontecimento deu-se na farmácia dos irmãos Azevedo, em Lisboa, na sequência de várias discussões sobre o deficiente estado em que se encontrava o serviço de incêndio na cidade (Caldeira, 2006:19).

Em 18 de Outubro seguinte, em reunião presidida pelo barão de Mendonça, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi deliberado criar uma companhia de voluntários bombeiros”, que ficou adstrita ao Corpo de Bombeiros Municipais. Acordou-se ainda que ficavam desde logo inscritos 26 cidadãos (Caldeira, 2006, in Amaro 2009)

Depois da criação em 1868 da “companhia voluntária de bombeirostransformada na Associação dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, até ao final do século XIX, foram fundadas 82 associações de bombeiros voluntários e corpos de bombeiros municipais, sucedendo a algumas associações entretanto extintas (Santos, 1995).

O movimento associativo nascente deu lugar ao aparecimento de grupos de

homens e mulheres que abraçaram a causa dos bombeiros portugueses e

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I que, integrando

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

que, integrando os corpos gerentes, deram e continuarão a emprestar o seu prestimoso contributo, administrando as associações de bombeiros. São os vulgarmente chamados “bombeiros sem farda(Santos, 1995).

Se no inicial e conturbado processo de criação dos bombeiros a sua actividade apenas se cingia à extinção de incêndios, com a nova organização se aperceberam que poderiam alargar a sua actuação a duas áreas de socorrismo: a Saúde e os socorros a náufragos.

Na área da urgência, começaram a ser organizadas as “ambulâncias”, que tinham como objectivo “o serviço médico e cirúrgico, em ocasiões de sinistro e suas consequências” e dispunham de macas de padiola e de macas rodadas e de pessoal próprio, isto é, o “pessoal da ambulância”, normalmente dirigido pelo “facultativo” (Santos, 1995).

Na sequência de códigos anteriores, o código administrativo de 1878 deu às câmaras a responsabilidade de “organizar serviços ordinários ou extraordinários para extinção dos incêndios…”. Competia-lhes ainda fazer posturas “para limpeza das chaminés e fornos, e o serviço para a extinção de incêndios e contra inundações” (Santos, 1995).

Entretanto, no cumprimento das obrigações legais que lhes atribuíram os diferentes códigos administrativos, as câmaras municipais continuaram a adquirir material para a extinção de incêndios, não obstante se constatar o facto de muitas vezes o socorro não funcionar com prontidão e eficácia, já que o material disponível não era utilizado correctamente, mormente por falta de instruções e competências. Nesta linha, algumas câmaras municipais e muitas comunidades locais tomaram a iniciativa de organizarem corpos de bombeiros devidamente enquadrados e comandados” (Santos, 1995).

A formação dos bombeiros era ministrada nos “quartéis” constando basicamente de exercícios práticos com bombas e com escadas. A partir do último quartel do Sec. XIX as preocupações quanto à formação dos

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I bombeiros foram

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

bombeiros foram mais evidentes e, em Lisboa, foi criada em 1876 uma Escola de Bombeiros, adstrita ao Corpo de Bombeiros Municipais e com muita frequência eram realizados simulacros por todo o País (Santos,

1995).

Em 1876 foi então criada uma Escola de Bombeiros, dependente do Corpo de Bombeiros Municipais de Lisboa, na rua da Inveja, tendo-se iniciado por essa altura a realização de manobras, exercícios de salvamento e simulacros pelo País. Um extracto da Ordem de Serviços do inspector de incêndios de 15 de Janeiro de 1876, entre outros, determina que na Escola

de Bombeiros se cumpra o seguinte:

Art.º 1.º -A instrução é obrigatória para que todos os homens que compõem o corpo de bombeiros, e em cumprimento do art.º 131 do Regulamento ninguém poderá passar à classe imediatamente superior, nem mesmo ter preferência por qualquer serviço dentro da sua própria classe, senão em virtude das habilitações que tiver alcançado pela sua aplicação. Para este efeito, nenhum “patrão” ou “aspirante” seria nomeado para lugar imediatamente superior sem prévio exame das disciplinas que se ensinaram na Escola. “Cento e trinta e dois anos depois, o espírito desta ordem de serviço contínua perfeitamente actual. Seria bom que fosse aplicado a todos os bombeiros, sobretudo aos elementos de comando” (Lourenço, 2001).

Em 1882 o corpo activo de bombeiros de Lisboa passou a chamar-se “Corpo de Bombeiros Municipais”, constituído por 163 homens, coadjuvados por um “corpo auxiliar” de 530 sotas, condutores e moços, “além de todos os homens que se acharam matriculados como aguadeiros na cidade de Lisboa” (Santos, 1995).

Em finais do século em análise estão registadas as primeiras manifestações desportivas, a publicação do primeiro poema em dedicatória dos bombeiros,

a participação em concursos internacionais, o início da prestação de

serviços de saúde para os sócios das associações, o aparecimento das primeiras bandas de música, bibliotecas e o aparecimento dos primeiros

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I capelães dos

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

capelães dos bombeiros portugueses (Caldeira, 2006).

Sec. XX

O grande boom na implantação dos Corpos Bombeiros em Portugal dá-se nos Sec. XIX princípios do Sec. XX com a criação de inúmeras associações de beneficência e humanitárias, por iniciativa das populações que constituíam as unidades locais, no sentido de defesa das próprias pessoas e bens (Santos, 1995).

Também o novo Código Administrativo de 1900 reitera as responsabilidades, em matéria de incêndios às Câmaras e administrador do concelho, tendo em 1901 o serviço de incêndios do município de Lisboa com todo o pessoal e edifícios passado para o Estado passando a depender hierarquicamente do governador civil, continuando no entanto os encargos a cargo do município. Em matéria de legislação promulgada neste período, no âmbito da prevenção e extinção de incêndios, não se foi muito além das cidades de Lisboa, do Porto, Viana do Castelo, Braga e Lamego, sendo evidente que o rei D. João V foi o mais actuante nesta área, tendo reinado durante 44 anos, sendo de aceitar que a organização dos bombeiros, no período que se seguiu tenha sido favorecida pelas ideias liberais proclamadas pela Revolução Francesa, sobretudo ao nível do voluntariado (Matos, 1995).

Havia já na época uma preocupação com a segurança das populações por parte do Estado, tendo publicado o decreto nº 23 de 16 de Maio de 1832, de Mouzinho da Silveira, competia ao provedor do concelho (a que corresponde na actualidade o cargo de presidente da câmara municipal) no cumprimento das obrigações de superintendência da polícia, “o dever de evitar os incêndios, fazendo visitas às chaminés e fornos, condenando as que se achem em estado perigoso e impondo multas e proibindo os fogos- de-artifício em lugares perigosos e disparar armas de fogo e semelhantes.” (Matos, 1995).

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I É o

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

É o caso da primeira Companhia de Bombeiros de Lisboa, criada, em 17 de Julho de 1834, pela Câmara Municipal, que ficou também conhecida por Companhia do Caldo e do Nabo. (mais tarde Corpo de Salvação Pública e transformada em Batalhão em 1937) dividindo a cidade em três distritos para efeitos de socorro e combate a incêndios. Em 1852 o serviço de incêndios de Lisboa foi novamente reorganizado e foi publicado o “Regulamento para os Empregados da Repartição dos Incêndios.” (Matos,

1995).

Em 26 de Junho de 1867, sucedendo ao código administrativo de 1842, foi aprovada a primeira “Lei de Administração Civil” que dividiu o Reino de Portugal em distritos, concelhos e paróquias civis.

Pelo artigo 12 do Código Administrativo de 1842 (reinado de D. Maria II) cabia à Câmara Municipal fazer posturas e regulamentos “para regular o depósito e guarda de combustíveis e a natureza das chaminés e fornos”.

Pelo n.º 13 do art. 87 competia às câmaras municipais tomar resoluções sobre polícia de segurança e limpeza pública, serviço sanitário, socorros para a extinção dos incêndios e contra inundações e demolição de edifícios arruinados ou que ameaçam ruína, nos termos da legislação em vigor (Matos, 1995:49). No nº. 18, do mesmo artigo, “competia a distribuição de socorros dentro das forças do respectivo orçamento, quando se dê alguma calamidade pública” (Matos, 1995).

Pela resolução n.º 577, de 21/07/1870 foi aprovado novo código administrativo, dizendo-se no artigo 121º que a Câmara delibera nos termos das leis e dos regulamentos, nomeadamente: “sobre polícia de segurança e de limpeza pública, serviço sanitário, socorros para extinção de incêndios e contra inundações e demolição de edifícios arruinados, ou que ameaçam ruína, nos termos da legislação em vigor” (Matos, 1995).

Por força de lei competia ao Administrador do concelho “providenciar nos casos de incêndio, inundações, naufrágios e semelhantes e promover a

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I distribuição de

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

distribuição de socorro no caso de calamidades públicas”. Sucedeu-se o código administrativo de 1878, que, no artigo 103º, n.º 2, aludia à competência da Câmara para (…) “conceder pensões aos bombeiros, que se impossibilitarem de trabalhar por desastre sofrido no serviço dos incêndios, devendo cessar a pensão, quando cesse a impossibilidade”.

Em suma, os diversos códigos administrativos de 1836, 1842, 1870, 1878, 1886, 1895/96 e 1900, que podem ser, até certa medida, “consideradas sucessivas edições actualizadas do mesmo diploma”, colocaram sempre a tónica da responsabilidade da Câmara e do seu “provedor/administrador/presidente” na organização dos serviços de extinção de incêndios, Prevenção e socorro das populações em situações de calamidade Além disso, cabia-lhe, como se disse, a concessão de pensões aos bombeiros acidentados. (Amaro 2009)

O ano de 1930 é, para os bombeiros portugueses, um marco importante na sua história e, em especial, na sua história recente. Depois de várias tentativas de reorganização da Federação dos Bombeiros Portugueses, as associações e corpos de bombeiros decidiram a criação de uma confederação nacional denominada Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) em 1931 (Santos, 1995).

e

promover quanto importe aos serviços de incêndios e socorros em calamidades públicas”. É nesta Com a criação da Liga, a ocorrência de acidentes em serviço originou uma preocupação social para com os bombeiros e as suas famílias, criando-se uma Caixa de Previdência e Socorros aos Órfãos e Viúvas de Bombeiros, em funcionamento durante alguns anos, sucedendo-lhe o Fundo de Protecção Social do Bombeiro, ainda hoje existente, no âmbito da Fénix Social dos Bombeiros. Além desta vertente social, a Liga publica desde 1943 o Boletim da Liga dos Bombeiros Portugueses que em 1978 passou a denominar-se o Fogo e a Técnica, a que sucedeu, desde 1982, o actual jornal mensal Bombeiros de Portugal (Santos, 1995).

Os

Estatutos

da

LBP,

definiram

como

grande

objectivo

“defender

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Sendo certo

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Sendo certo que a organização dos bombeiros, ao nível associativo se revigorou e adquiriu maior prestígio e direitos próprios sob a égide e orientação da LBP, liderada por uma plêiade de figuras de elevado nível da organização operacional, eram muito significativas as dificuldades com que se debatiam os corpos de bombeiros, seja devido à sua autonomia e dispersão, seja devido à ausência de um órgão nacional aglutinador e coordenador.

Não obstante os esforços da Liga, não existia uma matriz comum, quer no que se refere à organização interna das Associações e dos seus corpos de bombeiros, quer na organização voltada para o exterior, relevando os aspectos disciplinares, a constituição do corpo de bombeiros, a nomeação dos elementos do comando, a instrução, o fardamento, entre outros, sendo evidente a necessidade de uma certa uniformização e a existência de uma entidade que represente convenientemente os bombeiros. (Amaro, 2009)

Neste contexto é legitimo referir que, “no período em apreço, è inexistente um quadro verdadeiramente estruturante, bem evidenciado pela diversidade de conceitos e práticas verificados na organização dos bombeiros, ainda que neste período tenham sido introduzidas inovações dignas de registo, reconhecendo-se a necessidade de ser convenientemente institucionalizada a criação de entidades voltadas essencialmente para o socorro” (Matos, 1995).

Ainda assim, em 1937, a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) lançou um Plano de Uniformes para todos os corpos de bombeiros intentando contribuir também para regular a organização e funcionamento dos mesmos. Ora, volvidos 71 anos, ainda não está conseguido este desiderato, comprovando-se, assim, a “singularidade autonòmica” de cada um dos corpos de bombeiros ditos voluntirios. (Amaro, 2009)

O Estado, pelo seu lado, evidenciava a sua vulnerabilidade no domínio da organização nacional dos serviços de incêndios (e outros serviços de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I socorro), e

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

socorro), e somente a partir do Código Administrativo de 1936 assumiria a publicação da primeira regulamentação de carácter global dos corpos e associações de bombeiros. Foi então, o País dividido em duas zonas: Norte

e Sul, com as respectivas Inspecções de Incêndios, dirigidas pelos

comandantes dos Batalhões do Porto e de Lisboa, que detinham poderes de “inspecção técnica em tudo o que respeita j aquisição, conservação e

utilização de material e j instrução do pessoal” (art.º 159 do Código Administrativo, de 1936) (Amaro, 2009).

Pela primeira vez, a Administração Central do Estado Português, mantendo

a independência das associações, assume a tutela administrativa de todos

os corpos de bombeiros: Sapadores, Municipais, Voluntários e Privativos.

Dez anos volvidos, merece especial menção a tentativa de uma maior

organização nacional dos Serviços de Incêndios, através da publicação do Decreto-Lei n.º 35857, de 11 de Setembro de 1946, que criava o Conselho

outras

incumbências, “fomentar a criação de corpos de bombeiros nas localidades onde se tornam necessários e indicar aos corpos existentes os serviços que mais convenha estabelecer” (Santos, 1995).

Nacional

do

Serviço

de

Incêndios,

ao

qual

competia,

entre

Em suma, o Decreto Lei n.º 35857, de 11 de Setembro de 1946, regrou o que já estava instituído nas associações e corpos de bombeiros. Foram definidas normas de organização dos corpos de bombeiros em que cada um deles deveria ter total ou parcialmente os seguintes serviços: serviço de incêndios, serviço de saúde, serviço de socorros a náufragos. Estes seriam constituídos internamente por comando e quadros activo, auxiliar e honorário.

Este diploma determinou também a classificação do material e as denominações das unidades (divisão, secção, pelotão, companhia e batalhão), definiu normas sobre categorias, quadros, recrutamento, situações no quadro, licenças, disciplina, instrução e prestação de serviço. Inclui ainda o primeiro plano de uniformes de iniciativa governamental,

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I determinando os

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

determinando os tipos de uniformes e a sua composição, os distintivos dos postos e especialidades do pessoal dos corpos de bombeiros, definiu o papel da mulher na estrutura dos bombeiros, ao nível dos serviços de enfermagem, condução de viaturas, cantinas, secretária e outras semelhantes e abriu a possibilidade de, nas localidades afastadas das sedes dos corpos de bombeiros, serem organizadas brigadas ou secções destacadas, como hoje são designadas (Santos, 1995).

Datam também dos anos 40 os primeiros quartéis construídos de raiz com instalações mais adequadas à missão dos bombeiros e, em muitos casos, tendo também em vista objectivos de solidariedade social e de índole sociocultural com forte implantação na vida das respectivas comunidades locais (Branco, 1995).

Decorridos cinco anos sobre a publicação deste primeiro regulamento geral dos corpos de bombeiros, o governo embora reconhecendo o “notável êxito alcançado” e correspondendo a sugestões dos próprios corpos de bombeiros, aprovou pelo Decreto-Lei n.º 38439, de 27 de Setembro de 1951, novo regulamento geral, alterando apenas alguns preceitos estabelecidos de encontro ao contexto da época e aspirações dos próprios bombeiros.

A nova lei atribuiu aos Inspectores de Zona (Norte e Sul) as competências de “aprovar os modelos de material e dar parecer sobre os tipos de viaturas e restante material de incêndios de que deviam ser dotados os corpos de bombeiros, tendo em atenção as características dos serviços a que se destinavam” (art.º 9º do Dec. Lei nº 38439).

Intentava-se desta forma “uniformizar a diversidade verificada até então na organização dos corpos de bombeiros municipais, voluntários e privativos.” Por outro lado, no domínio da organização de conjuntura o referido Decreto- Lei n.º 38439, estabelecia na parte final, Capítulo V Da prestação de serviços algumas normas de uso interno, para cada corpo de bombeiros e princípios de comando, em caso de actuação conjunta de unidades idênticas

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I ou de

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

ou de diferentes tipos (Cristiano Santos, 1995:124).

A década de 60 é ainda marcada pela realização, em Lisboa, do II

Congresso Mundial do Fogo, promovido pelo Comité Técnico Internacional do Fogo (C.T.I.F.) e em 1963, são conhecidas as primeiras instruções conhecidas do Governo manifestando preocupações aos Governos Civis, Câmaras e Direcções das Associações, sobre o número e a extensão dos incêndios florestais “que causavam avultados prejuízos à economia

nacional”, mas que, nesta fase, não eram ainda responsabilidade dos Corpos de Bombeiros (Gomes, 2002).

Aliás o Decreto-Lei n.º 38439, de 27 de Setembro de 1951, verdadeiro Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros “é omisso no que se refere a situações graves (consideradas de calamidade pública) como sejam:

incêndios em vastas zonas florestais, inundações de grande vastidão nos meios populacionais, terramotos, ciclones, etc. Se é certo que a solução de tais emergências compete à Defesa Civil do Território, não é menos certo que em tais circunstâncias são as corporações de bombeiros os principais agentes de socorro, como aconteceu em 1967 nas grandes inundações ocorridas na área de Lisboa” (Laranjeira, 2002).

Por outro lado, quando tais emergências tinham lugar, sobretudo em áreas muito grandes ou em zonas dispersas, é evidente que os corpos de Bombeiros não podiam ter uma actuação oportuna e eficiente “enquanto não for criado, em cada Distrito, um Comando que tenha a seu cargo: o estudo dos meios necessários para as debelar; o planeamento da actuação das Corporações; a requisição directa e imediata dos elementos actuantes e de reforço e a direcção dos trabalhos de socorro e salvamento” (Laranjeira,

2002).

Num quadro de “intenso fervilhar de novas ideias”, no Congresso da LBP, em Aveiro, realizado em 1970, ganha força a, já antiga, aspiração dos bombeiros para a criação de um serviço nacional, como entidade única de coordenação e apoio às actividades dos corpos de bombeiros, entidade que

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I só viria

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

só viria a ser criada nove anos depois.

Em 1978, depois de trinta e dois anos de vigência do regulamento de 1951, foi reconhecido de “interesse público nacional e face às enormes carências em matéria de recursos humanos, de equipamentos e de meios financeirosreestruturar o Conselho Nacional de Serviços de Incêndios, criando-se o Conselho Coordenador do Serviço de Bombeiros, o qual estava incumbido de apoiar o Governo na definição da política a desenvolver no sector, promover a realização de estudos sobre o ordenamento territorial dos meios de combate a incêndios e de acções gerais de planeamento, coordenação e implementação de medidas para uma utilização racional dos esforços e de equipamentos de combate a incêndios. Quanto às inspecções, o diploma previa a existência de serviços de apoio próprio a cargo de pessoal a destacar dos Batalhões (Lisboa e Porto), onde funcionavam as sedes daquelas instituições (Santos:1995).

Um ano mais tarde, a Lei n.º 10/79 cria o Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), competindo-lhe orientar e coordenar as actividades e serviços de socorro exercidos pelos corpos de bombeiros e assegurar a sua articulação, em caso de emergência, com o Serviço Nacional de Protecção Civil (SNPC), criado em 1975, após a extinção em 1974, da Defesa Civil do Território (Santos, 1995).

Em 1980 é publicado o Decreto-Lei n.º 418/80, de 29 de Setembro (um mês mais tarde publica-se a Lei Orgânica da Protecção Civil, Decreto-Lei nº 510/80, de 25 de Outubro), que implementou uma nova e autonomizada estrutura do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), com competências de orientar, coordenar e fiscalizar as actividades e serviços exercidos pelos corpos de bombeiros, assegurando a sua formação. Este diploma criou ainda cinco inspecções regionais de bombeiros que asseguram a nível regional a inspecção e coordenação do Serviço Nacional de Bombeiros.

Além, destas atribuições, cabia ao SNB, “promover a instalação gradual de uma escola nacional de bombeiros e assegurar a realização de acções de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I formação e

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

formação e de aperfeiçoamento profissional, com vista à melhoria contínua de conhecimentos técnicos do pessoal dos corpos de bombeiros.” (Santos,

1995).

Por outro lado, o Decreto Regulamentar n.º 55/81 veio cometer aos corpos de bombeiros, pela primeira vez, a responsabilidade do combate aos incêndios florestais, o que provocou uma profunda modificação na organização e actividade daqueles corpos, posto que os meios humanos e materiais dos corpos de bombeiros não tinham formação nem adequação às respectivas missões de combate na floresta. Além disso, salvo raras excepções subsistia um certo isolamento operacional intercorpos de bombeiros, logo inexistência de qualquer estrutura orgânica globalizante no âmbito operacional e ausência de quaisquer normas e procedimentos de natureza operacional conjunta (Santos, 1995).

Mas para além destas dificuldades e disfunções com que o SNB e as suas Inspecções Regionais e Superior se depararam, acrescia ainda “a inexistência de normas e procedimentos de telecomunicações e de qualquer tipo de formação e treino de comandos, e bem assim desconhecimento por parte dos corpos de bombeiros da temática concernente ao transporte de mercadorias perigosas e, também, das técnicas e práticas tendentes ao estabelecimento de planos prévios de intervenção” (Santos, 1995).

Em conclusão, no decurso do século XIX, mais propriamente entre 1900- 1980, foram fundadas 298 Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários e 9 corpos de bombeiros

1.2. ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA DE SOCORRO ATÉ 2002

Os anos que se sucederam até ao início dos anos oitenta caracterizaram-se por um intenso e participado debate entre o poder político e as entidades representativas da sociedade, mormente a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), quanto ao modelo estrutural e organizativo das actividades de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I socorro e

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

socorro e emergência em Portugal.

Importa salientar, como já foi referido, que o nascimento do Serviço Nacional de Protecção Civil (SNPC), veio, de algum modo, substituir a “Defesa Civil do Território”, organização criada pela Lei 2093, de 20 de Junho de 1958, na dependência do Ministério da Defesa Nacional e inspirada pela Convenção de Genebra de 12 de Agosto de 1949, relativas à protecção das vítimas de conflitos armados. Todavia, assevera Duarte Caldeira (2003) desde a sua criação nunca assumiu, no espírito e na forma, a função social e política que na Europa do pós-guerra assumiram estruturas congéneres. Por sua vez, Veloso (2002), alude ao facto da “Defesa Civil do Território” ter dado origem no pós 25 de Abril a dois sistemas: o Sistema Nacional de protecção Civil e o Sistema de Planeamento Civil de Emergência” que não é tratado neste trabalho. (in Amaro 2009)

Dos diplomas já citados, nomeadamente o código Administrativo de 1940, o Decreto-Lei nº 38439, de 27 de Setembro de 1951, o Decreto-Lei nº 418/80, de 29 de Setembro, alterado pelo Decreto Regulamentar nº 277/94, de 3 de Novembro, o Decreto-Lei nº 407/93, de 14 de Dezembro, só para referir alguns, verifica-se que a organização de bombeiros, além dos serviços de incêndios, presta serviços na área de saúde, em especial na prestação de primeiros socorros, no transporte de doentes para unidades hospitalares, na área de socorros a náufragos, além da sua actuação como força de socorro na protecção civil.

Com a publicação do Decreto-Lei n.º 510/80, de 25 de Outubro, que aprovou a Lei Orgânica do Serviço Nacional de Protecção Civil (SNPC), é consagrado no ordenamento jurídico nacional um conceito amplo da função protecção civil, estabelecendo que esta “compreende o conjunto de medidas destinadas a proteger o cidadão como pessoa humana e a população no seu conjunto, de tudo o que represente perigo para a saúde, recursos, bens culturais e materiais, limitando os riscos e minimizando os prejuízos quando ocorram sinistros, catástrofes ou calamidades, incluindo os imputáveis à

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I guerra. ”

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

guerra.” Quanto ao SNB, a respectiva Lei Orgânica, aprovada pelo Decreto- Lei n.º 418/80, de 29 de Setembro, conforme atrás referido, consagrou a sua missão específica definindo-o como um organismo com as atribuições genéricas de “orientação, coordenação e fiscalização das actividades e serviços exercidos pelos corpos de bombeiros” que na sua maioria eram (e continuam a ser) mantidos por Associações de Bombeiros Voluntários, criadas pela sociedade civil organizada e independentes do Estado.

Relativamente à componente do socorro extra-hospitalar, na sequência da Resolução do Conselho de Ministros n.º 84/80, de 11 de Março, é dado início a um trabalho de análise e aprofundamento do Serviço Nacional de Ambulâncias, criado pelo Decreto-Lei n.º 511/71, de 22 de Novembro, tendo em vista criar um novo organismo que materializasse o conceito de Sistema Integrado de Emergência Médica, entretanto identificado como adequado para a elevação da qualidade do socorro prestado às populações. É neste quadro que, através do Decreto-Lei n.º 234/81, de 3 de Agosto, é criado o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

Em Dezembro do ano seguinte, o já referido Decreto Regulamentar n.º 55/81 clarificou as competências das diferentes entidades quanto aos incêndios florestais, até aí dependentes dos serviços florestais do Ministério da Agricultura, ou seja, segundo Lourenço (2006):

Os Serviços Florestais do Estado passaram a ficar responsáveis apenas pela prevenção e detecção;

Os Corpos de Bombeiros passaram a responder pelo combate e rescaldo;

Os Municípios assumiram a responsabilidade da protecção civil municipal e da dinamização das Comissões Municipais Especializadas em Fogos Florestais.

Decorridos sete anos da aprovação da Lei Orgânica do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), foi publicada a Lei n.º 21/ 87, de 20 de Junho, que aprovou o Estatuto Social do Bombeiro, sendo alterada anos depois pela Lei

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I n.º 23/95,

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

n.º 23/95, de 18 de Agosto, a Liga dos Bombeiros Portugueses criou, com base nesse diploma de 1987, o já referido Fundo de Protecção Social do Bombeiro.

O regime jurídico dos corpos de bombeiros foi estabelecido no Decreto-Lei n.º 407/93, de 14 de Dezembro, e foi também criado um novo Conselho Nacional dos Bombeiros Portugueses, órgão de cariz consultivo, presidido pelo Ministro da Administração Interna.

Entre 1980 e 1995 foram criadas 54 associações de bombeiros voluntários e 8 corpos de bombeiros privativos (Santos, 1995).

Mas a década de 90 foi marcada, no plano legislativo, pela aprovação da Lei n.º 113/91, de 29 de Agosto (Lei de Bases da Protecção Civil), definindo esta como uma “actividade desenvolvida pelo Estado e pelos cidadãos”.

A publicação desta lei marca um momento de viragem na função protecção civil no nosso País, uma vez que retira o SNPC do âmbito da legislação reguladora da Defesa Nacional e confere-lhe um conceito doutrinário autónomo e específico.

Esta evolução legislativa e conceptual foi consolidada pela Resolução da Assembleia da República n.º 10/92, de 1 de Abril, que integrou, na ordem jurídica nacional, os Protocolos Adicionais I e II das Convenções de Genebra, de 12 de Agosto de 1949, concluídos em Genebra em 12 de Dezembro de 1977, que, nos primeiros protocolos referidos, consagra um conceito amplo de protecção civil (Caldeira, 2003).

O artigo 6.º da Lei 113/91 considera a Protecção Civil “permanente, multidisciplinar e plurisectorial, cabendo a todos os órgãos e departamentos do Estado promover a sua execução de forma descentralizada” (delegações distritais). No artigo 8.º (informação e formação dos cidadãos) diz-se que “os programas de ensino, nos seus diversos graus, incluirão, na área de formação cívica, matérias de Protecção Civil e auto protecção”e no artigo

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I 18.º (Agentes

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

18.º (Agentes de Protecção Civil), consideram-se “SNB, Forças de Segurança, Forças Armadas, Sistema de Autoridade Marítima e Aeronáutica, Instituto Nacional de Emergência Médica. Especial dever de cooperação:

.

Serviços e Associações de Bombeiros”

Relativamente aos agentes de protecção civil, o legislador tipificou as suas funções, classificando-as como de “alerta, intervenção, apoio e socorro, de acordo com as suas atribuições próprias” e actuando “sob a direcção dos comandos ou chefias próprios”.

Quanto às operações de protecção civil, este diploma estruturante do Sistema, prevê a activação de centros operacionais de protecção civil de nível nacional, regional, distrital ou municipal, de harmonia com programas e planos de emergência previamente elaborados.

Mas esta década ficou igualmente marcada pela revisão de diversos diplomas reguladores do Sistema. Neste período foram revistas as Leis Orgânicas do SNPC, SNB e INEM, antevendo a necessidade de se proceder a uma análise integrada e de conjunto do sistema e subsistemas de socorro no nosso País (Caldeira, 2003).

Em 1992 foi reconhecida a “necessidade de promover a reestruturação do quadro em que é exercida a actividade pelos bombeiros, pela importância primordial e pelos valores e tradição de que são depositários” (Santos, 1995). Foi aprovado o novo estatuto de bombeiro profissional, pelo Decreto n.º 293/92, de 30 de Dezembro, alterado, por rectificação, pela Lei n.º 52/93, de 14 de Julho.

Particularmente importante é o Decreto-Lei n.º 203/93, de 3 de Junho (Lei Orgânica do SNPC), que estabelece a organização, as atribuições, as competências, o funcionamento, o estatuto e as estruturas inspectivas dos serviços que integram o Sistema Nacional de Protecção Civil, bem como a orgânica e competências do Serviço Nacional de Protecção Civil. No seu art. 5.º pode ler-se que os Municípios dispõem de Serviços Municipais de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Protecção Civil,

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Protecção Civil, devendo aqueles que à data de publicação do diploma os não tenham criado promover a sua criação. Eis a primeira referência expressa de motivação para a organização do subsistema municipal de protecção civil, que alerta para o cumprimento do DL n.º 100/84, de 29 de Março o qual define o regime de atribuições das autarquias locais e as competências dos respectivos órgãos, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 18/91, de 12 de Junho que comete ao Presidente da Câmara Municipal a direcção, em estreita articulação com o SNPC, do Serviço Municipal de Protecção Civil: “tendo em vista o cumprimento dos planos e programas estabelecidos e a coordenação das actividades a desenvolver no domínio da protecção civil, designadamente em operações de socorro e assistência, com especial relevo em situações de catástrofe e calamidade Pública.” (alínea i, do n.º 1, do art.º n.º 53).

Ora, como sabemos, decorridos 15 anos, existem Câmaras Municipais em que Serviço Municipal de Protecção Civil, ainda não se encontra organizado, não obstante o disposto na Lei 27/2006, de 3 de Julho (Lei de Bases da Protecção Civil) e em especial na Lei nº 65/2007 de 12 de Novembro que define o enquadramento institucional e operacional da protecção civil no âmbito municipal e estabelece a organização dos serviços municipais de protecção civil e determina as competências do comandante operacional municipal.

Por outro lado, na sequência da iniciativa legal que criou o novo Estatuto Social do Bombeiro, seguiu-se o estabelecimento do novo regime jurídico dos corpos de bombeiros, pelo Decreto Regulamentar n.º 62/94, de 2 de Novembro, que constitui “nova peça do quadro legislativo, definidor da actividade desenvolvida pelos bombeiros” (Santos, 1995).

Ainda em 1994, sobressai uma alteração à Lei Orgânica do SNB, com vista à sua participação “numa associação de direcção privada, sem fins lucrativos, entretanto fundada, destinada à formação técnica dos bombeiros, ou seja, a Escola Nacional de Bombeiros

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I 1.2.1.Fusão do

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

1.2.1.Fusão do SNB, SNPC e CNEFF -antes, durante e depois

Em 1997, o Governo em funções, sob a orientação do Secretário de Estado

da Administração Interna, iniciou um processo de “nova” abordagem do

sistema de protecção civil, impulsionado pela ocorrência das inundações no Alentejo e Algarve, de que resultaram graves consequências e puseram em

causa, com ampla cobertura mediática, a forma de actuação e de coordenação dos serviços e agentes envolvidos nas operações de socorro e assistência às populações afectadas (Caldeira, 2003).

Neste mesmo ano, foi transposta para o ordenamento jurídico nacional a decisão do Conselho de Ministros da Comunidade Europeia de 29 de Julho

de

1991 que criou o número de telefone 112 para toda a comunidade e que

foi

instituído como número nacional de emergência, através do Decreto-Lei

n.º 73/97 de 3 de Abril, confiando-se ao Ministério da Administração

Interna “a reformulação e gestão das centrais de emergência”.

O Governo de então, a partir de um diagnóstico de vulnerabilidades, tomou

a decisão programática de fundir três serviços do Ministério da

Administração Interna (SNPC, SNB e CNEFF-Comissão Nacional Especializada de Fogos Florestais) ligados à protecção das populações, num único serviço tendo por objectivo, com tal medida, “garantir uma coordenação operacional eficaz e eficiente, em caso de acidente grave, catástrofe e calamidade”. Esta intenção, assinala Caldeira (2003:18), deu origem a um anteprojecto de lei que chegou a ser explicitado, nas suas

linhas gerais, aos parceiros associativos do Ministério da Administração Interna (MAI), Liga dos Bombeiros Portugueses e Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais.

Esta iniciativa da reforma do sistema falhou, assevera Caldeira (2003), em consequência da falta de consenso quanto à matriz organizacional e funcional, em especial porque os responsáveis políticos que então lideravam o processo esqueceram aspectos essenciais que os “arquitectos legislativos

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I do Sistema

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

do Sistema de Socorro sempre tiveram presente, aquando da sua elaboração conceptual, no período decorrente entre o final da década de 70 e o início da década de 80, a saber:

As Associações de Bombeiros Voluntários são entidades privadas e os corpos de bombeiros sapadores e municipais são unidades orgânicas dos respectivos municípios;

A génese dos corpos de bombeiros confere-lhes uma dimensão essencialmente local, estando muito ligados às autarquias;

A Administração Central não dispõe de corpos de bombeiros, nem de estruturas operacionais de reserva ou complemento.

E, finalmente, que o sistema de protecção civil em Portugal está sustentado no princípio da subsidiariedade (Caldeira, 2003).

Em 1999, o objectivo “Reforma do Sistema” voltou à agenda do poder político e dos parceiros envolvidos e, no ano seguinte, surge desenvolvido pela mão do Secretário de Estado, Professor Carlos Zorrinho, responsável pela Protecção Civil, o conceito de Sistema Nacional de Protecção e Socorro, consubstanciado em dois pilares institucionais (SNPC e SNB) e três parceiros associativos Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) e Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais (ANBP). Pela sua importância, vejamos, em liminar síntese, as principais linhas de acção estratégicas definidas pelo então responsável político do sector, Professor Carlos Zorrinho:

a) “Reforço do voluntariado, “com mecanismos complementares adequados tratava-se de valorizar a matriz voluntária do Sistema Nacional de Protecção e Socorro, mas garantindo, gradativamente, a criação de grupos de intervenção permanente nos corpos de bombeiros, para efeitos de prontidão no socorro. b) “Definição de metodologias participadas e rigorosas de afectação de recursos”, ou seja, distribuir, com racionalidade (sem bairrismos) os recursos disponíveis, concertados com os vários parceiros do sector.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I c) “

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

c) “Implantação duma rede de emergência e circulação rápida de informação e desenvolvimento de uma cultura de rede e complementaridade de meios” – com vista à implantação de uma rede integrada de comunicações de emergência que interligará todas as associações e agentes do sistema.

d) “Atribuição da competência de protecção e socorro dum carácter

qualificante” – ou seja, considerando a exigência da função bombeiro, é imperiosa a formação permanente e especializada, aludindo-se ao redesenhar do papel da ENB Escola Nacional de Bombeiros, no sentido de priorizar a certificação das qualificações, à função de formadores e à formação descentralizada dos agentes do sistema. e) “Estruturação de mecanismos intergovernamentais e interinstitucionais de resposta rápida a situações de acidente grave, catástrofe e calamidade A lei de bases da protecção civil traça os mecanismos de coordenação a accionar em situações classificadas.” Tratava-se, no fundo, de criar um Manual de Conduta em situações de acidente grave, catástrofe ou calamidade (Caldeira, 2003).

Infelizmente, a este nível, a implementação do carácter qualificante veio a traduzir-se, na prática, pela substituição à frente da ENB, de um académico e pedagogo da Universidade de Coimbra, por uma personalidade que é reconhecida pelas suas competências de cariz político, no âmbito da confederação dos bombeiros portugueses.

Em boa verdade, as linhas de acção estratégica definidas não se traduziram em projectos concretos dignos de nota, considerando a resistência à mudança muito característico das Associações e respectivos corpos de bombeiros, sem prejuízo de aqui e ali se assistir ao incremento de estruturas permanentes nos CBs, com dimensão financeira para tal.

Regia então o sistema, ao nível dos bombeiros o pacote legislativo iniciado com a nova “Lei Orgânica do Serviço Nacional de Bombeiros Decreto-Lei n.º 293/2000, de 17 de Setembro”. Nesse mesmo Diário da República de 17 de Setembro de 2000, para além do Decreto-Lei n.º 293/2000 foram

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I publicados os

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

publicados os seguintes normativos: Regime Jurídico dos Corpos de Bombeiros; Decreto-Lei n.º 294/2000, Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros; Decreto-Lei n.º 295/2000, Centros de Coordenação de Socorros (CCS) a nível nacional e distrital, Decreto-Lei n.º 296/2000 e Estatuto Social do Bombeiro, Decreto-Lei n.º 297/2000. De relevar ainda a Portaria n.º 449/2001, de 5 de Maio, que cria o “Sistema de Socorro e Luta contra Incêndios (SSLI) ”. Não obstante, esta profusa legislação subsistiram as dificuldades de articulação e coordenação entre os vários serviços e sectores envolvidos nas operações de protecção e socorro, agravadas quanto maior era o número de agentes do sistema envolvidos, atenta a cultura diferenciada da sua natureza e matriz organizacional.

Por outro lado, dá-se conta, da reduzida exigência de habilitações literárias no recrutamento a todos os níveis, Inspectores, Quadro de Comando e Bombeiros em geral, não se seguindo princípios em desenvolvimento noutros países europeus, como a França ou a Inglaterra. Neste aspecto é sintomático que, até no Estatuto Social do Bombeiro (Decreto-Lei n.º 297/2000), no que respeita a “Isenção de propinas e taxas de inscrição”, apenas se menciona o ensino secundário (Art. 17º) (Pena, 2005 in Amaro

2009).

Apesar de tudo, em Janeiro de 2002, o balanço do projecto reformista concebido pelo Professor Carlos Zorrinho apresentava um rumo, uma estratégia e a séria vontade dos parceiros do Sistema se envolverem activamente na construção conjunta de uma efectiva Reforma das estruturas de socorro em Portugal (Caldeira, 2003).

“A Protecção e Socorro em Portugal recorre a uma confluência de contributos, que vão desde o papel basilar das Associações Voluntárias de Bombeiros e das Corporações Municipais ou Privadas, até ao papel regulador do Serviço Nacional de Bombeiros e do Serviço Nacional de Protecção Civil e à parceria indispensável das Autarquias Locais.

Procurando

concretizar

esta

visão

fundada

na

sinergia

e

na

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I complementaridade

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

complementaridade funcional, em parceria com os principais agentes do sector, foi possível desenvolver e iniciar a aplicação do conceito de Sistema Nacional de Protecção e Socorro, traduzido num modelo organizacional coordenado pelo Secretário de Estado com a tutela e estruturado em dois pilares institucionais (Serviço Nacional de Protecção Civil e Serviço Nacional de Bombeiros) e três parceiros associativos (Associação Nacional de Municípios Portugueses, Liga de Bombeiros de Portugal e Associação Nacional de Bombeiros Profissionais). Este modelo está a ser progressivamente reproduzido à escala Distrital com a instalação de Centros Coordenadores de Socorros onde se aplica o conceito de Sistema Distrital de Protecção e Socorro, sob coordenação dos Governadores Civis e à escala Municipal com a aplicação do conceito de Sistema Municipal de Protecção e Socorro sob Coordenação do Presidente da Autarquia.” (Zorrinho, 2002, in Amaro, 2009).

É evidente que, ao tempo, não obstante a bondade das propostas do Professor Zorrinho, nem as autarquias, nem a estrutura dirigente e operacional dos bombeiros, pouco qualificada, mas mantida quase intacta, estavam dispostas a eventuais mudanças que apontavam no sentido da criação de Equipas Permanentes nos CBs, rendo-se mantido a “espinha dorsal” do socorro, baseada no modelo de voluntariado existente, não obstante as insuficiências de disponibilidade, formação e segurança, dos bombeiros “ditos voluntários”.

Por outro lado, a legislação não conseguiu resolver os problemas de articulação e coordenação entre as entidades intervenientes no socorro, em especial a cultura de comando único.

Em Abril de 2002, inicia-se um novo ciclo político resultante das eleições legislativas e, com ele, uma nova abordagem à problemática da reforma da Protecção Civil e dos Bombeiros, na sequência da publicação do Decreto-Lei n.º 49/2003 de 25 de Março.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I 1.2.2.Criação do

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

1.2.2.Criação do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC)

O Decreto-Lei nº 49/2003, de 25 de Março, publicado no Diário da

República, série I, n.º 71, de 25 de Março de 2003, criou o Serviço

Nacional de Bombeiros e Protecção Civil - SNBPC, em substituição dos

então existentes Serviço Nacional de Bombeiros (SNB), Serviço Nacional de

Protecção Civil (SNPC) e Comissão Nacional Especializada de Fogos

Florestais (CNEFF).

De acordo com a nova legislação, cabe ao SNBPC “prevenir os riscos

inerentes a situações de acidente, catástrofe ou calamidade, bem como

resolver os efeitos decorrentes de tais situações, protegendo e socorrendo

pessoas e bens”, mas também “orientar, coordenar e fiscalizar as

actividades exercidas pelos corpos de bombeiros e todas as actividades de

protecção civil e socorro”. (nº 1 do art.º 3.º do Decreto-Lei n.º 49/2003).

Entre outras, o SNBPC tem a responsabilidade de “exercer a acção

inspectiva sobre os corpos de bombeiros e as estruturas de protecção civil”,

homologar a criação de novos corpos de bombeiros voluntários e privativos

e suas secç}es e “emitir parecer sobre projectos de natureza legislativa que

visem questões de socorro e protecção civil” (alínea e) do art.º 3.º do

Decreto-Lei 49/2003).

Dita ainda o citado Decreto-Lei n.º 49/2003 que o SNBPC passari a “emitir

parecer obrigatório sobre os pedidos de isenção de impostos ou taxas

relativos a importação de material ou equipamentos para os corpos de

bombeiros, bem como sobre o reconhecimento de benefícios fiscais ao

abrigo da lei do mecenato” (alínea m) do nº 3 do art.º 3.º).

Em matéria de formação, este serviço deveri “assegurar a realização das

acções de formação e de aperfeiçoamento operacional com vista à melhoria

contínua de conhecimentos técnicos do pessoal dos corpos de bombeiros”.

O SNBPC é dirigido por um presidente apoiado por três vice-presidentes,

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I a quem

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

a quem cabe, entre outras tarefas, “orientar e dirigir a participação do

SNBPC na actividade da Escola Nacional de Bombeiros, no âmbito da formação técnica do pessoal dos corpos de bombeiros e dos agentes de protecção civil”. (alínea d) do nº 2 art.º 6.º). È tambèm ao presidente que cabe “elaborar o plano anual de apoio às associações e corpos de bombeiros”. (alínea g) do nº 2 do art.º 6º).

O novo serviço passa a ser dividido em serviços centrais e distritais. No

primeiro caso subdividiu-se em o Centro Nacional de Operações de Socorro, Núcleo de Protecção da Floresta, Direcção de Serviços de Recursos Humanos e Financeiros, Direcção de Serviços Técnicos e Direcção de Serviços de Prevenção e Protecção. No que toca aos distritos, o diploma refere a criação de Centros Distritais de Operações de Socorro (dirigidos por coordenadores distritais).

Entre os serviços de apoio, o SNBPC contou com um Gabinete de Inspecção e uma novidade, o Gabinete de Apoio ao Voluntariado.

Em matéria de orgânica deste serviço, passou a existir a Divisão de Saúde, à qual competia “promover e desenvolver as acções necessárias à instalação e funcionamento de um sistema destinado à vigilância sanitária do pessoal dos corpos de bombeiros desde a sua admissão no quadro”.

Fazia ainda parte do SNBPC a Divisão de Segurança contra Incêndios, cuja missão era “propor medidas legislativas, efectuar estudos, emitir pareceres, definir critérios de análise e elaborar planos de inspecções no âmbito da segurança contra incêndios”. De qualquer forma, o diploma remete para regulamentação futura as matérias de segurança contra incêndios.

Ainda no que toca à Escola Nacional de Bombeiros, diz o referido Decreto- Lei que constituem encargos do SNBPC “as despesas decorrentes do funcionamento dos seus órgãos e serviços, bem como as despesas resultantes da sua participação na ENB” (alínea a) do art.º 39). O diploma refere que o SNBPC participa na ENB como associado, em moldes definidos

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I por despacho

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

por despacho conjunto dos ministérios das Finanças e da Administração Interna. De resto, o documento refere que “os planos, os programas e o desenvolvimento das actividades formativas são estabelecidos pelos associados em conformidade com as necessidades e os recursos disponíveis”.

No que toca aos apoios às associações e corpos de bombeiros, mantêm-se as condições anteriormente existentes no Serviço Nacional de Bombeiros. Actualmente com a extinção do SNB e do SNBPC, o apoio financeiro e logístico à actividade associativa é regulado pelo art.º 31 da Lei nº 32/2007 de 13 de Agosto, que aprovou o novo regime jurídico das associações humanitárias de bombeiros, aplicável às Regiões Autónomas, “sem prejuízo da sua adaptação às competências dos órgãos de governo próprios.” (art.º

49).

Observemos, de seguida, as reacções de então, vindas de diversos quadrantes, na sequência da publicação deste diploma:

“Guerra na Protecção Civil. Os bombeiros criticam a sua integração no serviço e avisam que o combate aos fogos está atrasado. O recém-criado Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC) ainda mal nasceu e já está a ser contestado pelas principais organizações de bombeiros. (…) Todos acusam o Governo de “falta de debate”. (…) Duarte Caldeira diz que todo “o processo decorreu de forma muito atribulada” e que “só com marcação cerrada” teve acesso ao projecto de diploma. (…) O Presidente da Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais (ANBP) que integra sapadores municipais das maiores cidades do país, servindo mais de dois terços da população é ainda mais feroz nas suas críticas: “ É inconcebível que toda esta reforma se tenha feito sem ouvir os profissionais”, destaca Fernando Curto. “Fomos completamente ignorados em todo o processo daí recearmos que tudo não passe de uma reforma no papel”, reitera este dirigente (…)” (Expresso, 2003/02/15, p. 14 Valentina Marcelino).

“Reestruturação do Serviço Nacional de Bombeiros deixa corporações sem

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I dinheiro. Fusão

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

dinheiro. Fusão alvo de críticas. (…) A reestruturação dos meios de socorro portugueses, com a fusão do Serviço Nacional de Bombeiros e da Protecção Civil, é vista com cepticismo por algumas corporações de bombeiros. A ausência do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) do novo organismo e a incapacidade de dar resposta aos principais problemas dos bombeiros são as críticas mais repetidas. Salvador da Luz, da Federação de Bombeiros do Distrito de Lisboa, defende que esta è apenas uma “arrumação tècnica das cöpulas”, que não resolve as deficiências existentes. (…).” (Publico, 2003/03/29 Mariana Oliveira -in Pena, 2005).

As reacções sucediam-se, além dos inspectores distritais, só três bombeiros compareceram fardados à tomada de posse de Leal Martins, como Presidente do SNBPC. (Pena, 2005).

“Bombeiros ausentes na posse de Presidente. Polémica marca entrada em funções do responsável do novo serviço. (…) Aliás, de bombeiros fardados apenas estiveram presentes 14 inspectores do ex-Serviço Nacional de Bombeiros já que, apurou o Correio da Manhã, nem para uma pretendida guarda de honra houve disponibilidade dos bombeiros voluntários. (…) A respeito de ser um responsável oriundo de fora do meio dos bombeiros e socorro, Leal Martins referiu que embora a ligação às instituições seja fundamental, a existência de “conhecimentos mínimos” e a “capacidade de aprendizagem com a instituição em tempo ötil” determinaram a sua aceitação no lugar. (…)” (Correio da Manhã, 2003/04/03, p: 10 – Falcão Machado).

Em resumo, a entrada em vigor do diploma 49/2003, de 25 de Março, mereceu o seguinte comentário do Primeiro-Ministro de então, Dr. Durão Barroso, que no discurso de tomada de posse frisou que “a entrada em vigor do diploma orgânico que criou o novo Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil é um importante passo numa das mais exigentes e difíceis reformas que o Programa do XV Governo preconiza na área da Administração Interna. Brevemente teremos o Serviço a operar em conformidade com o novo modelo orgânico, assim que tomem posse os

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I coordenadores distritais

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coordenadores distritais cuja nomeação obedecerá a critérios rigorosos de competência e idoneidade, como é o meu desejo expressamente reiterado (…).” (Semanário, 2003/04/04, in Amaro).

Particularmente relevante era a opinião, ao tempo, do Presidente da Liga (…): “O Decreto-Lei n.º 49/2003 de 25 de Março constitui o produto final de uma visão inconsistente, incompleta e conceptualmente pobre, em especial no que concerne às articulações operacionais entre os vários níveis em que se estrutura o Sistema definido pela Lei de Bases da Protecção Civil. Só a título de exemplo, importa sublinhar que o nível municipal é completamente esquecido no diploma, isto é, a base em que se sustenta toda a doutrina da Protecção Civil” (Caldeira, 2003).

O sentimento dominante na época era de grande desconfiança perante o novel serviço, no quadro do ambiente criado pelos catastróficos incêndios de 2003.

“Bombeiros estão a passar dificuldades como nunca sentiram (…) A LBP reivindicou junto do Ministro da Administração Interna uma nova lei orgânica que não se circunscreve ao SNBPC, um serviço que foi criado por um erro político. A Liga quer também uma central integrada de coordenação entre as várias estruturas de socorro e quer estruturas permanentes de bombeiros que actuam nas populações entre as 8 h e as 20 h, um período crítico durante o qual há dificuldade de garantir o socorro em algumas zonas do território.” (Bombeiros de Portugal, s/autor, n.º 216/2004).

Por outro lado, merece relevo o “equívoco semântico” da designação do novo serviço, dando-se a entender que os Bombeiros é que continham a Protecção Civil e não o contrário, particularmente relevante e singular nesta matéria, que o governo, face à dificuldade de recrutamento “de indivíduos vinculados ou não à Administração Pública, que possuam licenciatura e experiência funcionais adequadas ao exercício daquelas funções” tenha sido obrigado a proceder através do Decreto-Lei nº 21/2006 de 2 de Fevereiro, ao aditamento ao Decreto-Lei nº 49/2003, de 25 de Março nos termos que

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I seguem: Artigo

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

seguem:

Artigo 2º (do Decreto-Lei nº 21/2006 Aditamento ao Decreto-Lei n.º 49/2003 de 25 de Março É aditado ao Decreto-Lei nº 49/2003, de 25 de Março, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 97/2005, de 16 de Junho, o artigo 49º-A, com a seguinte redacção:

«Artigo 49º-A Recrutamento excepcional transitório Transitoriamente, pelo período de 10 anos após a entrada em vigor do presente diploma, podem ser nomeados a título excepcional, para as

funções a que se reporta o n.º 1 do artigo 42.º, indivíduos que possuam uma das seguintes condições:

a) Serem comandantes ou 2ºs comandantes de corpos de bombeiros, com, pelo menos, cinco anos de serviço efectivo nas respectivas funções, possuidores das competências exigidas pelo Regulamento Geral dos Corpos de Bombeiros e habilitados com o 12.º ano de escolaridade;

b) Serem chefes de corpos de bombeiros municipais ou de bombeiros

sapadores com, pelo menos, cinco anos de serviço nas respectivas funções e habilitados com o 12.º ano de escolaridade; c) Terem exercido cargos dirigentes, funções de inspecção, de coordenação dos centros distritais de operações de socorro, de comandante operacional ou de chefe de operações em centros operacionais de âmbito nacional, durante mais de cinco anos, podendo estes ser cumulativos.»

Em suma, prevalece, até hoje, a incongruência entre as palavras e os actos, entenda-se, entre o discurso político da exigência e a realidade prática vivenciada. Ou seja, os bombeiros estavam contidos na Protecção Civil como seu “braço armado” na filosofia da Lei de Bases. Este erro semântico, aliado a toda a “dramatização” que se seguiu aos fogos florestais do Verão de 2003, não permitiram um mínimo de serenidade à presidência do serviço pelo Engenheiro Maquinista Naval Leal Martins, substituído “com mágoa

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I pelo Major

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

pelo Major General Paiva Monteiro, em 9 de Setembro de 2003, no rescaldo da pior época de incêndios de sempre. No balanço de quatro meses de trabalho, nega a presença de “lobbies” no serviço, mas defende que é necessário clarificar e fiscalizar o sistema. (…) “Preocupa-me a formação deficiente dos responsáveis pelas associações humanitárias de bombeiros que dirigem as associações. (…) Outra das finalidades é dotar a ENB da vertente de protecção civil e isso demora o seu tempo. Não há ainda cultura de protecção civil e, porventura, formadores adequados” (Pena, 2005).

Relativamente à sua posição sobre a profissionalização dos bombeiros, o General Paiva Monteiro refere em entrevista à Revista Alto Risco de Junho 2004, o seguinte: “A minha permanência à frente do serviço permite-me dizer que o voluntariado é importante na prevenção e socorro, por isso, devemos incentivá-lo. A estrutura do voluntariado tem de ser apoiada por um núcleo permanente de bombeiros que deve ir a cursos, visto o voluntário não ter disponibilidade para frequentar essas acções de formação.

Temos auscultado diversas entidades, designadamente câmaras municipais, quanto à forma de actuação na captação de voluntários, não só para a área dos bombeiros, mas também da protecção civil, que é uma área para a qual, em situação de catástrofe, é importante ter bolsas de voluntariado. É importante que o serviço tenha uma referência com voluntários para determinadas áreas.” (Monteiro, 2004).

Seguiram-se períodos de grande instabilidade organizacional no SNBPC, com a sucessiva nomeação e demissão de responsáveis a que não era alheia a instabilidade política no quadro do XVI Governo Constitucional e uma enorme desorientação no sector, que culminou na tristemente célebre frase do Secretário de Estado da Administração Interna de então, Dr. Paulo Coelho à revista Alto Risco (2006:17-18),“(…) tenho vergonha da protecção civil que temos (…), porque o mal, muitas vezes, do próprio SNBPC è que ele è demasiadamente partidarizado. Mudava o governo, mudavam logo os protagonistas, porque este è da cor A e tinha que ser da cor B (…). Nesta

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I área eu

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

área eu considero um ultraje. (…) Estão em causa vidas de pessoas e o património nacional. (…) Aqui o critèrio deve ser a capacidade técnica e a adequação das qualidades humanas ao posto de liderança que se está a exercer no momento. (…) Daí que eu defenda que haja uma responsabilização, uma profissionalização deixemo-nos de amadorismo”.

Após a criação desta primeira licenciatura em Protecção Civil criada, em 2004, pelo Estado, ainda em modelo bietápico, seguiram-se mais duas licenciaturas criadas, também, em estabelecimentos do ensino superior público, respectivamente na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Beja e na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Mais recentemente, foram criadas, em estabelecimentos superiores privados, mais duas licenciaturas em Protecção Civil, respectivamente no Instituto Superior de Educação e Ciências e no Instituto Superior de Línguas e Administração, ambas em Lisboa e uma licenciatura que, embora com outra designação Segurança Comunitária também se situa na área da Protecção Civil e é ministrada no Instituto Superior de Ciências da Informação e da Administração (ISCIA), em Aveiro.

Sem prejuízo da importância e necessidade de formação superior nesta área, “existem problemas transversais às várias instituições que leccionam estas licenciaturas. Uma dessas situações é a incapacidade da adequação das áreas de componente geral, tais como as físicas, químicas, matemáticas, entre outras, dos conteúdos à real actuação e intervenção da actividade de protecção civil. Embora exista uma abordagem a estas problemáticas não é nada concreto e específico, acabando pró criar uma certa lacuna que exige uma aprendizagem posterior e mesmo quase autodidacta, para a qual nem todos os alunos estão despertos” (Carmo,

2008).

Por outro lado, não sendo fácil encontrar docentes com elevadas qualificações académicas em protecção civil (por se tratar de uma área científica recente), o recurso sistemático aos técnicos e profissionais do sector (independentemente das competências detidas), tende a dar a esta

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I formação um

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

formação um cunho, ainda, marcadamente, técnico-profissional.

1.2.3. Novo Ordenamento Jurídico, Funcional e Operacional, “dito estruturante”, do Sistema de Protecção e Socorro (2005 – 2008)

No Capítulo da Segurança Interna do Programa do XVII Governo

Constitucional, que entrou em funções em 12 de Março de 2005, pode ler-

se: “ A prevenção e a minimização das consequências de catástrofes

naturais ou provocadas -, como os grandes incêndios florestais ocorridos no

Verão de 2003 ou, à escala internacional, o ataque terrorista às torres de

Nova Iorque em 11 de Setembro de 2001 e o maremoto asiático de

Dezembro de 2004, requerem a elaboração ou actualização de planos de

emergência relativos a incêndios, cheias e abalos sísmicos. A planificação é

essencial para evitar uma política puramente reactiva. A simulação de

situações de perigo, por seu lado, é indispensável para criar uma

capacidade de resposta efectiva nas comunidades.

A sensibilização de crianças e adolescentes para estes problemas, através

de prelecções e exercícios realizados nas escolas, afigura-se muito

relevante. Para dar um cunho sistemático a tais acções, será valorizado o

Dia Nacional da Protecção Civil. Para coordenar estas actividades, é

imperioso reabilitar a Protecção Civil, cometendo-lhe a missão de elaborar

um Plano Nacional de Detecção, Aviso e Alerta de Catástrofes.

Os corpos de bombeiros, por seu turno, carecem de um aumento do nível

de profissionalização, de uma revisão do sistema de financiamento (que

deve tornar-se mais transparente) e da aprovação de um plano de

reequipamento. Por outro lado, torna-se necessário rever a legislação em

vigor, de forma a introduzir ou actualizar as regras de construção anti-

sísmica e zelar pela sua efectiva aplicação.

Ao nível do sistema de protecção civil, é necessário reavaliar os termos

da articulação entre a Protecção Civil e os Bombeiros, de forma a assegurar

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I o reforço

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

o reforço da coordenação e da operacionalidade. Por outra parte, devem ser criados Serviços Distritais de Protecção Civil, vocacionados para a análise de riscos, o planeamento operacional e a informação das populações. Para que os corpos de bombeiros voluntários e municipais possam desempenhar com proficiência a sua missão de prestação de primeiro socorro, proceder-se-á à progressiva profissionalização, no decurso desta legislatura, da respectiva estrutura de comando e serão criadas, em parceria com os municípios, equipas profissionalizadas de primeira intervenção. Será ainda consagrado o princípio da inter-operacionalidade dos meios, permitindo aos corpos de bombeiros a utilização, em cada caso, dos equipamentos situados mais perto da sua área de intervenção.

A prevenção de incêndios florestais, pela sua vital importância para o País, até como factor de desenvolvimento rural, envolve hoje responsabilidades transversais a todo o Governo, às autarquias e aos cidadãos. Serão reforçados os mecanismos de prevenção de fogos florestais, potenciando-se a intervenção da Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais (APIF) e melhorando-se a capacidade operacional de alguns instrumentos, de que são exemplo as equipas de sapadores florestais.

O diagnóstico da situação estava, em boa medida bem feito, entretanto, contra todas as expectativas relativamente à política de prevenção de incêndios florestais, o governo ao contrário do anunciado no seu programa, pelo Decreto-Lei 69/2006, de 23 de Março, extinguiu a Agência para a Prevenção de Incêndios Florestais (APIF), entidade criada pelo Decreto Regulamentar n.º 5/2004, que constituiu uma verdadeira “lufada de ar fresco” no mar de “interesses” e “modismos” da política de gestão florestal vigente. A extinção da APIF, organização que era gerida pelo Professor Luciano Lourenço, figura incontornável do estudo técnico-científico da problemática da prevenção dos incêndios florestais, mereceu em 24/10/05, um requerimento entregue na Assembleia da República pelo deputado do partido ecologista “os Verdes”, José Luís Ferreira, sustentando que “a APIF apesar de ter sido criada há pouco mais de um ano, tem um papel

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I fundamental na

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

fundamental na compatibilização das intervenções a nível central e local no âmbito da prevenção e protecção da floresta contra incêndios. A triste realidade dos incêndios em Portugal comprova a inegável importância da APIF, no sentido de assegurar os necessários mecanismos de prevenção de incêndios. Todas as estratégias implementadas com o objectivo de pôr um ponto final definitivo neste drama sazonal são poucas”, frisa o parlamentar no seu requerimento (Diário de Noticias 24/10/05). Ficava assim provado, na perspectiva deste parlamentar, que a cultura da prevenção, tarda em impor-se como um dos pilares fundamentais da problemática da política de gestão florestal (in Amaro, 2009).

Vejamos, de seguida, a legislação “dita estruturante” ou “revolução tranquila” dos Sistema de Protecção e Socorro:

a) Nova Lei de Bases de Protecção Civil Lei 27/2006, de 3 de Julho, publicada no DR, 1.ª Série, n.º 126 de 3 de Julho.

Esta nova Lei promoveu, uma profunda alteração no sistema. Desde logo, porque provocou uma clarificação das estruturas política (competências do Ministro da Administração Interna, Governadores Civis e Presidentes de Câmara) e operacional, definindo-se a forma de participação e articulação dos agentes de protecção civil e as obrigações de colaboração de entidades agregadas. Por outro lado determinou quem declara as situações de, alerta, contingência e calamidade e em que circunstâncias (art.º 9º). Definiu os conceitos de acidente grave e de catástrofe (art.º 3º). Todavia, no seu extenso articulado, não se encontra claramente expresso o conceito de análise de risco, como metodologia de trabalho a” institucionalizar” o que consideramos uma séria limitação à dinâmica de gestão de riscos em protecção civil.

b) Sistema Integrado de Operações e Socorro (SIOPS) Decreto-Lei 134/2006, de 25 de Julho, publicado, no DR, 1.ª Série, n.º 142, de 25 de Julho.

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I As acções

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

As acções de socorro integradas numa operação de protecção civil podem envolver agentes e serviços que advêm de diferentes organismos do Estado, das regiões autónomas, das autarquias locais e das organizações não governamentais, entre outros.

Foi neste quadro que se definiu o SIOPS, criado pelo Decreto-Lei n.º 134/2006, de 25 de Julho, “como um conjunto de estruturas, normas e procedimentos de natureza permanente e conjuntural que assegurem que todos os agentes de protecção civil actuam, no plano operacional, articuladamente sob um comando único, sem prejuízo da respectiva dependência hierárquica e funcional”.

Este sistema “visa responder a situações de urgência ou de ocorrência de acidente grave ou catástrofe” (n.º 2 do art.º 1º), situações em que o sistema nacional de protecção civil deve ser activado, constituindo um instrumento global e centralizado de coordenação e comando de operações de socorro, ainda que a sua execução seja competência de diversas entidades não integradas na ANPC, mas que, operacionalmente, enquadram o SIOPS.

O princípio de comando único assenta nas duas dimensões do sistema respectivamente Coordenação institucional e Comando operacional. A compreensão global do sistema, implica ainda o conhecimento da direcção, coordenação e execução da política de protecção civil, nos termos do capítulo III, artigos 31 a 35 da LBPC, com a inclusão lógica do Centro Municipal de Organização do Socorro (CMOS) na dependência do Comandante Operacional Municipal (COM).

Nesta perspectiva, para conseguir uma eficaz coordenação institucional, o SIOPS prevê a constituição de centros de coordenação operacional (CCO), que integram representantes das entidades, cuja intervenção se justifica em função de cada ocorrência em concreto.

No âmbito da lei, os centros de coordenação são: de âmbito nacional

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Centro de

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Centro de Coordenação Operacional Nacional (CCON), de âmbito distrital Centro de Coordenação Operacional Distrital (CCOD), de âmbito municipal - Centro de Coordenação Operacional Municipal (CCOM)

No regulamento de funcionamento dos CCON e CCOD, aprovado pela Comissão Nacional de Protecção Civil (CNPC), estão previstas as formas de mobilização e de articulação entre as entidades integrantes, as relações operacionais com o Comando Nacional de Operações de Socorro (CNOS) e com os Comandos Distritais de Operações e Socorro (CDOS), bem como a recolha e articulação da informação necessária à componente operacional.

Os CCO, Nacional e Distrital, asseguram, nos termos do artigo 2.º do SIOPS, que todas as entidades e instituições se articulam entre si, garantindo os meios considerados adequados à gestão da ocorrência em cada caso concreto. Têm as seguintes atribuições genéricas:

Assegurar a coordenação dos recursos e do apoio logístico das operações de socorro, emergência e assistência;

Proceder à recolha de informação estratégica, relevante para as missões de protecção e socorro e proceder à sua gestão;

Recolher e divulgar informações de carácter estratégico essencial à componente de comando operacional táctico;

Informar permanentemente a autoridade política respectiva, de todos os factos relevantes que possam gerar problemas ou estrangulamentos no âmbito da resposta operacional;

Garantir a gestão e acompanhar todas as ocorrências, assegurando uma resposta adequada, no âmbito do SIOPS.

Ao nível da gestão de operações, todas as instituições representadas nos centros de coordenação operacional dispõem de estruturas de intervenção com direcção e comando próprios, competindo, no entanto, à ANPC assegurar o Comando Operacional Integrado de todos os corpos de bombeiros, de acordo com o previsto no seu regime jurídico.

Nos termos do artigo 6.º do SIOPS, o comando das operações de socorro

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I desempenhado pela

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

desempenhado pela ANPC é assegurado pelo CNOS que dispõe de um Comando Operacional Nacional, de um 2.º Comandante Operacional Nacional e dos dois adjuntos de operações e informações e a célula de logística. Dispõe ainda de células de planeamento de operações logística, gestão de meios aéreos e de comunicações.

Ao nível da gestão de operações propriamente dito, no Capítulo IV do diploma de criação do SIOPS (art.º 12 a 25) está estabelecido um sistema de gestão de operações (SGO) onde se define a organização dos teatros de operações (TO), dos postos de comando, clarificando-se competências e a doutrina operacional.

Ao nível da definição, o SGO é um esquema de organização operacional que se desenvolve de forma modular, de acordo com a importância e o tipo de ocorrência. Sempre que uma força de socorro de uma qualquer das entidades que integra o SIOPS seja accionada para uma ocorrência, o chefe da primeira força a chegar ao local assume o comando da operação e garante a construção de um sistema evolutivo de comando e controlo da operação. Este comandante das operações de socorro deve tomar a decisão de desenvolvimento da organização sempre que os meios disponíveis no ataque inicial e respectivos esforços se mostrem insuficientes.

Esta lógica deverá aplicar-se, igualmente, à escala municipal. Nos termos do artigo 13.º do SIOPS, o SGO configura-se nos níveis estratégicos, táctico e de manobra.

No nível estratégico, n.º 2 do art.º 13 do SIOPS, assegura-se a gestão da operação, que inclui:

“A determinação da estratégia apropriada;

O estabelecimento dos objectivos gerais da operação;

A definição de prioridades;

A elaboração e actualização do plano estratégico de acção;

A recepção e colocação de meios de reforço;

A previsão e planeamento de resultados;

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I  A

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

A fixação de objectivos a nível táctico”.

No

comando operacional (PCO) e destina-se a apoiar o responsável das

operações na preparação das decisões e na articulação dos meios no teatro

local da ocorrência, o órgão director das operações é o posto de

de

operações.

O PCO, nos termos do art.º 15 do SIOPS, tem como missões genéricas:

“A recolha e o tratamento operacional das informações;

A preparação das acções a desenvolver;

A formulação e a transmissão de ordens, directrizes e pedidos;

O controlo da execução das ordens;

A manutenção das capacidades operacionais dos meios empregues;

A gestão dos meios de reserva.”.

O

Posto de Comando Operacional é constituído, nos termos do n.º 1 do

art.º 16, “pelas células de planeamento, combate e logística, cada uma com

seu responsável e coordenadas pelo Comandante das Operações de Socorro” (COS). Assessorando o COS existem ainda três oficiais, um como adjunto para a segurança, outro para as relações públicas e outro para a ligação com outras entidades, activando os recursos disponíveis e na adopção e coordenação de outras medidas que venham a ser oportunamente julgadas.

A gravidade da situação e o grau de prontidão que esta exige dá origem a um diferente nível de alerta especial, graduado progressivamente entre os níveis azul, amarelo, laranja e vermelho.

As regras de activação do estado de alerta especial são determinadas por directiva operacional, devidamente aprovada pela comissão nacional de protecção civil (CNPC), nos termos do art.º 37 da LBPC, e a sua determinação é da competência exclusiva do CCON.

É ao CCON que compete a informação aos centros de coordenação

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I operacional distritais

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

operacional distritais (CCOD) sobre a activação do estado de alerta especial, determinando as áreas abrangidas, tipo de situação, gravidade, nível de prontidão exigido e período de tempo em que se preveja especial incidência

do

fenómeno.

O

dispositivo de resposta operacional é constituído por equipas de

intervenção permanente destinadas à intervenção prioritária em missões de socorro e são dimensionadas de acordo com as competências e

disponibilidades de cada um dos agentes de protecção civil (APC).

Para fazer face a determinadas ocorrências ou conjunto de ocorrências previsíveis ou verificadas, como seja o caso dos incêndios florestais, existem dois dispositivos, respectivamente, o dispositivo de Prevenção, Detecção, Vigilância e Fiscalização e o dispositivo especial de combate a incêndios florestais (DECIF). Este actua a dois níveis: ataque inicial e ataque ampliado.

No primeiro caso, o ataque inicial configura uma primeira intervenção organizada e integrada, de resposta imediata a fogos nascentes, envolvendo equipas terrestres e meios aéreos com equipas helitransportada até o incêndio ser considerado resolvido (circunscrito) pelo comandante de operações (COS), o que deverá suceder nos primeiros 90 minutos.

O ataque ampliado, inicia-se sempre que, chegado aos 90 minutos de incêndio, o mesmo não seja dado por circunscrito pelo COS, entrando em acção meios de reforço e outros agentes.

Ainda no domínio dos incêndios florestais as Forças Operacionais Conjuntas (FOCON) que constituem o socorro, organizam-se nos termos da directiva

–

(1 de Janeiro a 14 de Maio)

Fase BRAVO (15 de Maio a 30 de Junho) Fase CHARLIE (1 de Julho a 30 de Setembro)

Fase DELTA (1 de Outubro a 15 de Outubro)

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I  Fase

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Fase ECHO (16 de Outubro a 31 de Dezembro)

Em síntese, vale a pena assinalar, mais uma vez, que a ligação entre os diferentes intervenientes do sistema de protecção e socorro obriga, necessariamente, a uma perfeita coordenação e entrosamento que garanta uma acção eficaz e uma rentabilidade adequada aos meios disponíveis, seja no domínio dos incêndios florestais, seja noutros domínios de riscos naturais e antrópicos.

Todavia, as experiências de anos anteriores e mormente dos anos críticos 2003 e 2005 mostraram quão difícil é de ser conseguida esta coordenação, sobretudo antes da instalação de um posto de comando operacional conjunto (com forças de culturas organizacionais diferentes) que ainda não está instalado aquando da primeira intervenção, no período em que a coordenação referida é, a todos os títulos, essencial.

No entanto é justo salientar alguma melhoria ao nível organizacional global

e designadamente, quanto ao sistema de comunicações, de vigilância e

detecção. Talvez por estas razões e outras de ordem meteorológica, os anos

de 2007 e 2008 não foram anos problemáticos ao nível dos incêndios florestais.

c) Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) Decreto-Lei n.º 75/2007 publicado no DR, I Série, n.º 63, de 29 de Março de 2007, que substitui o SNBPC.

È na sequência das alterações “estruturais” atrás referenciadas, consubstanciadas na LBPC e do SIOPS, que surge a necessidade de alterar a estrutura do SNBPC, criando-se a Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC). Esta nova entidade culmina um processo institucional evolutivo iniciado nos anos 80.

A nova organização passou a contar com três novas Direcções Nacionais de

nível superior: uma Direcção Nacional de Recursos de Protecção Civil, uma

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Direcção Nacional

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Direcção Nacional de Planeamento de Emergência e uma Direcção Nacional de Bombeiros, (…) “pretendendo-se cada vez mais prestigiar o papel dos bombeiros que passaram a ter uma direcção nacional que vai assumir daqui para a frente tudo o que tiver a ver com eles” (Cruz, 2007).

O nível legislativo, não pode deixar de reconhecer-se que este diploma respeita, “latu sensu”, a especificidade dos bombeiros no quadro da protecção civil e trouxe alguma inovação ao nível institucional e operacional do sistema, cabendo-lhe planear, coordenar e executar a política de protecção civil, “designadamente na prevenção e reacção a acidentes graves e catástrofes, de protecção e socorro das populações e de superintendência da actividade dos bombeiros” (n.º 1 art.º 2.º).

Todavia, leis tecnicamente bem elaboradas não garantem só por si boas e adequadas dinâmicas funcionais. Neste domínio, assevera Duarte Caldeira “urge que se ponha cobro â falta de coerência e de unidade ao nível das estruturas distritais, tanto do ponto de vista operacional, como do projecto de liderança. É desejável que os 18 “países” que muitas vezes parecem existir nos 18 CDOS sejam substituídos por um nível distrital unificado no contexto da ANPC. Esta medida é mais importante do que a habitual mudança de cadeiras, tradicionalmente inerente às alterações legislativas. Primeiro, não é desejável que os comandantes distritais (CODIS) sejam partilhados pelos governadores civis e pelo comandante nacional de operações de socorro. O Decreto-Lei 134/2006, de 25 de Julho, é claro ao definir que o comandante operacional distrital reporta hierarquicamente ao comandante operacional nacional. Todos os dias, digo eu, e não âs vezes”. Segundo, a Portaria 338/2007, de 30 de Março, veio fixar as competências da Inspecção de Protecção Civil (IPC), enquanto unidade orgânica nuclear da ANPC. Deste modo, à IPC é conferida, entre outras, a competência de “fiscalização da actividade dos comandos distritais de operações de socorro e dos corpos de bombeiros” (Caldeira, 2007).

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I 1.3. D

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

1.3. DESENVOLVIMENTO DO SERVIÇO DE SAÚDE NOS BOMBEIROS PORTUGUESES

Cultura

de

Segurança

e

Saúde

no

Trabalho

(SST)

nos

Bombeiros

Portugueses

Desde finais do SEC XX, princípios do SEC XXI, as dinâmicas em matéria de SST, ultrapassam a simples gestão de acidentes e doenças profissionais, encarando a problemática de SST como um factor de competitividade das organizações, fazendo uma gestão estratégica dos acidentes de trabalho e prevenção de doenças profissionais.

No dia internacional Dia Internacional da Segurança e Saúde no Trabalho -2010 Juan Somavia, Director Geral da OIT, em um comunicado divulgado por ocasião do dia, destacou os novos riscos e estratégias de prevenção em um mundo do trabalho em rápida mutação, Somavia acrescentou que um elemento de preocupação “é o recrudescimento de distúrbios psicossociais relacionados com novas situações de stress e pressão de trabalho na economia global. "

"Ultimamente, a crise económica sofrida pelas empresas tem efeitos prejudiciais para muitos trabalhadores", “Para implementar e apoiar a recuperação, temos de aproveitar a oportunidade para abordagens integradas de trabalho decente baseadas na segurança e na saúde no trabalho. Após a crise, temos de agir em conjunto para prevenir uma espiral degenerativa das condições de trabalho e promover uma recuperação com base no trabalho decente”.

Um mundo do trabalho em transformação” afirma questões-chave sobre o novo SST, incluindo aqueles relacionados às inovações técnicas, como a nanotecnologia e a biotecnologia. Além disso, os peritos em matéria de SST têm notado um aumento preocupante no perturbação causada pelo stress no trabalho devido à incapacidade de "lidar com os novos padrões de vida no trabalho."

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I A OIT

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

A OIT aprovou recentemente uma nova lista de doenças profissionais, incluindo, pela primeira vez transtornos mentais e comportamentais e transtornos psicológicos após o trauma. O Conselho de Administração da OIT também aprovou um plano de acção para atingir a ratificação generalizada e eficaz aplicação dos instrumentos de segurança e saúde (Convenção OIT n º 155, o seu Protocolo de 2002 e a Convenção n. º 187).

Tanto a lista de novos padrões de trabalho da OIT sobre SST oferecem um quadro comum para os países membros da OIT", disse Seiji Machida, director do Programa SafeWork OIT. "A OIT faz um apelo para que as normas de trabalho acordadas em nível internacional sejam um instrumento primário para reduzir a carga humana e económica dos acidentes e doenças relacionadas com o trabalho”.

Os dados da OIT indicam que a cada dia cerca de 6.300 pessoas morrem como resultado de lesões ou doenças relacionadas ao trabalho, o que corresponde a mais de 2,3 milhões de mortes por ano. Além disso, a cada ano ocorrem cerca de 337.000 mil acidentes de trabalho que resultam na ausência prolongada do trabalho. “O custo humano que representa essa tragédia diária é incalculável", disse Juan Somavia. “No entanto, estima-se que os custos económicos da perda de dias de trabalho, o tratamento médico e as pensões pagas a cada ano equivalem a 4 por cento de PIB mundial. Isso excede o valor total das medidas de estímulo tomadas para responder à crise económica de 2008-09.

Face a esta problemática e para fazer face aos riscos profissionais emergentes, importa que haja uma atitude proactiva no controlo e gestão destes. Perante este consenso, sobre a importância da cultura de segurança nas práticas e comportamentos de segurança nas organizações, importa saber como intervir a este nível, conciliando a cultura de segurança com a cultura organizacional, uma vez que esta integra aquela. De forma explícita ou implícita existem em todas as organizações regras que regulam a segurança e que designamos por cultura de segurança, que é tanto mais

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I progressista e

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

progressista e eficaz quanto o for a cultura de organização. Assim, uma cultura organizacional que promova a segurança é essencial para a prevenção de acidentes de trabalho e doenças profissionais. E se é verdade que os programas de formação podem ajudar a melhorar o enquadramento para a promoção e execução de medidas de prevenção, “não è menos verdade que estas só alcançam pleno sucesso em função da percepção dos colaboradores acerca do valor da segurança para si próprios e da importância para a organização” (Freitas, 2003).

De acordo com a legislação em vigor acerca de SST, na sua alínea a) do nº2 do DL 441/91, as normas aplicam-se a todos os ramos de actividade, nos sectores público, privado, não se aplicando a actividades da função pública cujo exercício seja condicionado por critérios de segurança e emergência, caso das forças armadas ou de polícia e actividades do serviço de protecção civil. Deixando aqui em aberta a aplicação ou não às Corporações de Bombeiros quando no cumprimento da sua missão em actividades de Protecção Civil.

Contudo, ainda que a legislação em vigor não seja totalmente aplicável aos bombeiros a legislação de protecção civil refere-se a esta problemática, com ênfase, em vários normativos legais. Por exemplo a alínea d) do n.º 5 do art.º 2 do Decreto-Lei n.º 75, de 29 de Março, assinala que à Autoridade Nacional de Protecção Civil compete, no âmbito das actividades dos bombeiros, “assegurar a prevenção sanitária, higiene e a segurança do pessoal dos corpos de bombeiros bem como a investigação de acidentes em acções de socorro”. Mais adiante no art.º 15, alínea c), está bem explícito que compete à direcção nacional de bombeiros da ANPC “desenvolver, implementar e manter os programas de prevenção sanitária, higiene e segurança do pessoal dos corpos de bombeiros”, tendo sido criada uma chefia de divisão para tal efeito (Amaro, 2009).

Por outro lado, na alínea d) do n.º 1 do art.º 4.º do Regime Jurídico dos Bombeiros Portugueses, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 241/2007, assinala- se como deveres do bombeiro do quadro activo “cumprir as normas de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I higiene e

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

higiene e segurança” e na alínea g) “usar o fardamento e equipamento adequado âs acções a que participe.” Já no n.º 2 do art.º 5.º do mesmo Decreto-Lei, se refere que os bombeiros devem “beneficiar de vigilância médica da saúde através de inspecções médico-sanitárias periódicas e ainda da vacinação adequada, estabelecida para os profissionais de risco”. Ainda, na alínea i) do corpo do mesmo artigo, está bem expresso que são direitos dos bombeiros dos quadros de comando e activo “ter acesso a um sistema de segurança, higiene e saúde o trabalho organizado nos termos da legislação vigente, com as necessárias adaptações.” Vale a pena referenciar, ainda, que incumbe aos elementos do quadro de comando o dever especial de “zelar pela segurança e saúde dos bombeiros” alínea f), do n.º 2 do art.º 4.º do Decreto-Lei 241/2007) (Amaro, 2009).

Em termos gerais, ao longo da sua história, a problemática da segurança e saúde ocupacional dos bombeiros não tem merecido, salvo raras excepções, a devida atenção dos respectivos organismos e entidades tutelares. Com efeito, desde 1951, ano de publicação do paradigmático Decreto-Lei n.º 38439, de 27 de Setembro, que durante largos anos regeu a vida dos corpos de bombeiros, “os contornos do serviço de saúde evoluíram, na medida em que as solicitações para socorro a pessoas aumentaram exponencialmente, ao mesmo tempo que os bombeiros concluíram que, não só a prestação de cuidados para ser exercida com competência exigia que eles próprios tivessem a formação adequada, mas também que o perfil físico e psíquico do bombeiro fosse o desejável. Assim, em termos funcionais tornar-se-ia necessário que o Serviço de Saúde assumisse as vertentes da medicina ocupacional, da formação e da intervenção. Por despacho de 30 de Setembro de 1982, do então Presidente do novel SNB, Padre Vítor Melícias, foi ao primeiro autor deste artigo cometida a função de elaborar uma proposta para funcionamento do referido Serviço da Saúde, tendo como co-autor Eduardo Agostinho, médico, ao tempo Comandante dos Bombeiros Voluntários de Rio Maior. Mais tarde, a 10 de Maio de 1995, surgiu uma proposta de trabalho da Comissão de Saúde do SNB/LBP. Posteriormente, um outro documento foi elaborado a 10 de Novembro de 1999, tendo igualmente como autores, Romero Bandeira, Dr.ª Céu Teiga e

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Enfermeira Sara

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Enfermeira Sara Gandra, dando assim cumprimento ao solicitado pela inspecção superior dos bombeiros através de ofícios de 13 e 14 de Outubro de 1999” (Bandeira et al, 2007: 98). ( in Amaro, 2009).

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I C APITULO

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

CAPITULO II A SÍNDROME DE BURNOUT

2.1. DEFINIÇÃO DE BURNOUT

A abordagem ao tema “Burnout” tem um início popular, com o tema foi adoptado por Graham Green em 1961 no romance “A Burn-out Case” que narra a história de um arquitecto espiritualmente atormentado e desiludido, que desiste do seu trabalho e se retira para a selva africana.

A expressão Burn Out é um termo transportado da indústria aeroespacial, o que significa esgotamento do combustível de um foguete, como resultado de calor excessivo. A tradução literal desse termo é Burnout.

As primeiras pesquisas sobre a Síndrome de Burnout são resultado de um trabalho sobre o estudo das emoções e modos de lidar com elas, desenvolvido com profissionais que, pela natureza do seu trabalho, necessitavam manter contacto directo com outras pessoas (trabalhadores da área da saúde, serviços sociais e educação), uma vez que se percebia a manifestação de stress emocional e sintomas físicos por parte de tais profissionais.

O termo Burnout, cuja tradução literal significa estar esgotado (desgaste profissional), enquanto terminologia científica, efectivamente, surgiu no início dos anos setenta, com Freudenberger (1974), que aplicou o conceito para se referir ao estado físico e mental dos jovens voluntários que trabalhavam na sua “Free Clinic” em Nova York. Estes jovens esforçavam-se nas suas funções, sacrificando a sua própria saúde para alcançar ideais

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I superiores sem

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

superiores sem receberem qualquer recompensa pelo esforço despendido. Assim verificava-se que ao fim de um a três anos no desempenho da missão, apresentavam condutas de irritação, esgotamento, atitudes de cinismo com os pacientes e tendência para os evitar.

Freudenberg caracteriza Burnout como, “um estado de fadiga ou de frustração surgido pela devoção por uma causa, por uma forma de vida ou por uma relação que fracassou no que respeita à recompensa esperada” (Freudenberg, 1974, p.162). Pelo que se “baptizou” de “Síndrome”. Posteriormente, Freudenberg complementou os seus estudos em 1975 e 1977, incluindo na sua definição comportamentos de depressão, irritabilidade, aborrecimento, sobrecarga de trabalho, rigidez e inflexibilidade (Perlman & Hartman, 1982).

A partir dessas observações, Freudenberger, descreve um perfil das pessoas com risco de desenvolver a síndrome de Burnout, que se caracteriza por sentimentos idealistas, optimistas e ingénuos. Também afirma que estes sujeitos se entregam demasiado ao trabalho para conseguirem uma boa opinião de si mesmos e para colaborarem com o bem, contudo, a pesar desse esforço e compromisso fracassam em fazer a diferença na vida dos pacientes. O sentido da existência está posto no âmbito laboral, o que gera execiva implicação com o trabalho e que geralmente acaba em abandono (Mingote, 1998).

Simultaneamente a Freudenberger, Maslach em 1976 investiga a carga emocional do trabalho de enfermeiros, médicos, assistentes sociais, advogados e constata que o termo burnout (ser consumido, queimado pelo trabalho) era em geral usado para expressar uma exaustão emocional gradual, um cinismo e uma ausência de comprometimento experimentado em função de altas solicitações de trabalho.

De acordo com Maslach e Shaufeli (1993, p.02) burnout primeiro emergiu como um problema social e não como um constructo académico”, de maneira que a descoberta e a definição de burnout não derivou de uma

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I teoria prévia,

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

teoria prévia, mas desenvolveu-se com base em vários anos de pesquisa exploratória” (Maslach, 1993, p.21).

Numa fase inicial, Maslach trabalha com casos individuais através de entrevistas e identifica um grande numero de profissionais exaustos física e emocionalmente, com aversão e menosprezo pelas pessoas a quem prestavam os seus serviços (pacientes, clientes, etc.) e vivendo uma sensação de fracasso profissional que os fazia questionar sua competência (Maslach, 1993). Numa fase posterior passou a fazer observações com categorias profissionais através de questionários e observa uma correlação entre as variáveis de burnout com certos stressores relacionados ao trabalho: alto número de clientes/pacientes (sobrecarga), prevalência de avaliações negativas dos pacientes/clientes em relação ao trabalho do profissional e, ainda, a escassez de recursos para o bom desempenho das tarefas.

Maslach e Jackson (1981) utilizam testes psicométricos para avaliar a prevalência de burnout em certas categorias profissionais, o que permite confirmar a existência da dimensão de perda da realização pessoal como essencial na constituição desse problema ligado ao trabalho, juntamente com a exaustão e as atitudes negativas (Maslach,1993). Maslach, em convergência com as observações preliminares de Freudenberger, chega, dessa forma, a descoberta de burnout como sendo uma “síndrome psicológica decorrente da tensão emocional crónica, vivida pelos profissionais cujo trabalho envolve o relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam de cuidado e/ou assistência”.

Assim, nos anos 80, Maslach e Jackson descrevem o Burnout como uma manifestação comportamental de stress laboral e definem o Burnout como uma síndrome emocional de exaustão e cinismo, que afecta profissionais que passam muito tempo envolvidos intensamente com outras pessoas e cuja interacção profissional/cliente se centra nos problemas psicológicos, sociais ou físicos. Entendem-no como uma síndrome tridimensional

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I caracterizado por

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

caracterizado por Exaustão Emocional, Despersonalização (Cinismo) no

a

tratamento

com

os

pacientes/clientes

e

como

terceira

dimensão

Realização Pessoal.

2.1.1. As Dimensões do Burnout

A dimensão de exaustão emocional É a dimensão de maior peso na identificação do Burnout, caracterizada pelo facto do sujeito se encontrar exausto, esgotado, sem energia para enfrentar outro projecto, outras pessoas e incapaz de recuperar de um dia para o outro (Maslach, Shaufeli & Leiter, 2001).

Nos seus indicadores, (Maslach e Jackson 1981), procuram verificar o esgotamento emocional para o trabalho, o sentimento de cansaço após uma jornada de trabalho e a dificuldade para enfrentar uma nova, o sentimento de exaustão pelo facto de ter que trabalhar com pessoas diariamente, a sensação de estar a trabalhar em demasia e no limite de suas possibilidades, bem como, o sentimento de frustração pelo trabalho realizado. Ou seja, a variável exaustão emocional caracteriza-se pela experimentação psico-física da exaustão e pelo facto da pessoa ter chegado ao limite de suas forças.

A dimensão de despersonalização (Cinismo) É caracterizada pelo facto do sujeito adoptar atitudes de descrença, distância, frieza e indiferença em relação ao trabalho e aos colegas de trabalho e representa a componente interpessoal do Burnout (Maslach, Shaufeli & Leiter, 2001).

Nos seus indicadores, Maslach & Jackson, (1981) procuram verificar se o profissional trata os seus clientes ou pacientes e colegas como se fossem objectos, se o profissional se tem tornado insensível com as pessoas que assiste e se sente culpado por elas terem problemas e, por fim, se se tem

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I tornado alguém

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

tornado alguém emocionalmente mais endurecido em função do trabalho que realiza. Ou seja, a dimensão de despersonalização abrange a relação com os outros e é caracterizada pela indiferença, descaso, cinismo e descomprometimento com as necessidades e sofrimentos das pessoas assistidas e de seus colegas. Neste sentido, Burnout não é somente a síndrome do profissional exausto, mas também do profissional indiferente e descomprometido em relação às pessoas com quem trabalha.

A dimensão de perda da Realização Pessoal É caracterizada pelo facto da pessoa experimentar-se ineficiente, incapaz e certa de que seu trabalho não faz diferença. Os seus indicadores procuram verificar se o profissional entende com facilidade o que os seus pacientes necessitam, se consegue criar uma atmosfera tranquila e fica estimulado após o trabalho realizado, se lida de forma eficaz com os problemas das pessoas assistidas, e se sente sua influência positiva na vida dos outros através do trabalho que realiza. Essa terceira dimensão abrange o domínio do eu(Maslach, 1993), da experimentação de si mesmo em relação ao trabalho realizado. Tal permite concluir que Burnout é a síndrome do profissional que perdeu a realização de si mesmo, descomprometido com os outros e exausto emocionalmente. (Benevides-Pereira, 2002).

Essa definição do fenómeno de Burnout tem sido confirmada por investigações que atestam a coesão entre as três dimensões constitutivas da síndrome e as suas relações com stressores organizacionais. Um importante estudo, nesse sentido é a meta-analise de Lee e Ashfort (1996) que investigam a correlação entre as três dimensões de burnout e as suas relações com as altas solicitações de trabalho e os baixos recursos. Os autores analisam estudos empíricos realizados entre 1982 e 1994 que se utilizaram da definição multidimensional de Maslach e Jackson (1981) a respeito de Burnout, e procuram, desta forma, confirmar as correlações entre as três variáveis e os stressores ligados ao trabalho. Lee e Ashfort (1996) concluem que, o conjunto dos estudos empíricos realizados no período, a respeito da síndrome de burnout, confirma a natureza multidimensional desse fenómeno, verificando que a dimensão de exaustão

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I emocional aparece

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

emocional aparece regularmente correlacionada com altas solicitações de trabalho (sobrecarga, pressão de tempo, conflitos e ambiguidades do papel profissional) e que as dimensões de despersonalização e de perda da realização pessoal aparecem regularmente correlacionadas com baixos recursos (baixa autonomia e poder de decisão e falta de suporte de colegas e de chefias).

Em relação às altas solicitações, são especificadas as seguintes:

- Aumento da carga de trabalho, caracterizada pelo facto de poucas

pessoas estarem fazem mais trabalho;

- Pressão de tempo, caracterizada pelo tempo não ser suficiente para

cumprir as exigências de trabalho;

- Aumento da complexidade das tarefas, caracterizada pelo facto de um

mesmo profissional desempenhar múltiplas funções simultaneamente;

- Papel conflituante, caracterizado pela obrigação profissional de executar duas funções contrárias e conflituosas (por exemplo, um médico que tem como objectivo prestar o melhor atendimento a seus pacientes, mas é

obrigado pelas exigências organizacionais a prestar um atendimento rápido e precário); -E, por último, a ambiguidade de papéis, decorrente de informações inadequadas ao comprimento da função profissional, que prejudica a realização dos objectivos de trabalho.

Em relação ao conjunto de dimensões relacionadas com poucos recursos, são especificadas as seguintes:

- Falta de suporte no trabalho por parte de supervisores, que deixam o

profissional sem uma chefia que de apoio para o encarar e resolução dos problemas;

- Falta de suporte de colegas, caracterizado pela perda da confiança no

trabalho de equipa, criando relações de competição e isolamento entre os profissionais;

- Falta de controlo e autonomia sobre dimensões importantes das suas

actividades profissionais, que impede os profissionais de resolverem os problemas relacionados com o seu trabalho e assim os inviabiliza de

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I realizar correctamente

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

realizar correctamente as tarefas para as quais têm formação e capacidade;

- E, por fim, falta de recompensa material caracterizada pela redução de

salários e benefícios e por menos oportunidades de progresso na carreira.

Shaufeli e Buunk (2003), ao fazerem, o estado da arte sobre o fenómeno de burnout, confirmam o mesmo conjunto de dimensões stressoras organizacionais relacionadas com o desencadeamento de burnout, dando

especial destaque à sobrecarga, à pressão de tempo, ao conflito de papéis

e à falta de suporte.

Evidenciam-se, além dessas, dimensões de ordem interpessoais (falta de suporte) e também relativas ao modo de funcionamento organizacional (conflitos de papel e falta de autonomia) que, ao actuarem em conjunto, tiram do indivíduo a sua condição de sujeito capaz de realizar bem seu trabalho, bem como, a de se realizar através do trabalho que executa. Para se compreender o fenómeno de Burnout é necessário, portanto, situar o indivíduo dentro desse conjunto de dimensões stressoras organizacionais e do trabalho que, por sua vez, evidenciam uma determinada lógica de funcionamento e de gestão em que o indivíduo está inserido e que se torna necessário compreender.

Há um acordo geral de que a Síndrome de Burnout é uma resposta ao stress crónico no trabalho (a longo prazo e cumulativo), com consequências negativas a nível individual e organizacional e tem peculiaridades muito específicas em áreas determinadas do trabalho profissional, voluntário ou doméstico, quando este se realiza directamente com grupos com grande dependência emocional ou alunos conflituosos. Estes casos são os mais reiterados, mas não se excluem outros, pois verifica-se que a síndrome se manifesta menos nos trabalhos de tipo administrativo, manual, etc…

Contudo, a polémica continua e consegue-se encontrar outras definições que vêm complementar a de Maslach como, por exemplo, a de Burke (1987), que explica que o Burnout é um processo de adaptação do stress

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I laboral que

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

laboral que se caracteriza por desorientação profissional, desgaste, sentimentos de culpa por falta de êxito profissional, frieza ou distanciamento emocional e isolamento.

Farber (2000) descreve-o como um reflexo da maioria dos ambientes de trabalho actuais e que a competência laboral exige índices cada vez maiores de produção e melhores resultados com o menos tempo possível e com o mínimo de recursos possíveis. A partir desta realidade, este autor assinala quatro variáveis importantes para explicar o aparecimento e o desenvolvimento do Burnout:

Pressão de satisfazer as solicitações de outros;

Intensa competitividade;

Desejo de obter mais dinheiro;

Sensação de não recompensa de algo que se merece.

Na tendência de aplicar o Burnout só a profissionais que prestam assistência a outros, Maslach e Schaufeli (1993) inventaram uma aplicação do conceito, aceitando diversas definições, em função de algumas características similares, das quais se destacam:

Predominam mais os sintomas mentais ou comportamentais que os físicos e entre os sintomas disfuncionais assinalam-se o cansaço mental ou emocional, fadiga e depressão, sendo o principal o cansaço emocional;

Os sintomas manifestam-se em pessoas que não sofriam de nenhuma psicopatologia anterior;

Classifica-se a síndrome como uma síndrome clínico-laboral;

Desencadeia-se por uma inadequada adaptação ao trabalho que culmina com a diminuição do rendimento laboral e uma sensação de baixa auto-estima.

Por outro lado, outros autores aplicam a síndrome a profissionais não assistenciais, destacando-se os conhecidos trabalhos de Pines e Aronson (1988) que definem que os sintomas do Burnout podem ser observados também em pessoas que não trabalham no sector da assistência social. A

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I síndrome manifesta-se

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

síndrome manifesta-se igualmente como um estado de esgotamento emocional, mental e físico que inclui sentimentos de impotência e de inutilidade, sensações de prisão, falta de entusiasmo e auto-estima. Este estado seria causado por uma implicação durante um tempo prolongado em situações que são emocionalmente exigentes.

Nesta óptica, Pines e Aronson desenvolveram uma escala de carácter unidimensional, distinguindo três aspectos: esgotamento, desmoralização e perda de motivação. No mesmo sentido, Shirom (1989), através de uma revisão de diversos estudos, conclui que o conteúdo da síndrome de Burnout tem a ver com uma perda das fontes de energia do sujeito e definiu-o como “uma combinação de fadiga física, cansaço emocional e cansaço cognitivo”.

Há que somar outros factores como os culturais, ocupacionais, educacionais, individuais e de personalidade (De Las Cuevas, 1996). Mais recentemente, Hombrados (1997) propõe uma definição de conduta baseada na coexistência de um conjunto de respostas motoras, verbais- cognitivas e fisiológicas perante uma situação laboral com altas exigências e prolongada no tempo. As repercussões desta coexistência sobre a saúde do trabalhador e as suas funções supõem um desenvolvimento da Síndrome de Burnout. No entanto, entende como elementos fundamentais: “as mudanças emocionais e cognitivas, mudanças negativas na organização profissional e uma situação de pressão social ou profissional que aparece de maneira continuada”.

Em síntese, actualmente aplica-se a Síndrome de Burnout a diversos grupos de profissionais, que incluem desde directores a donas de casa, desde trabalhadores de âmbito social até voluntários de organizações do sector terciário. Contudo, é unânime que a síndrome é resultado de um processo em que o sujeito se vê exposto a uma situação de stress crónico laboral e que as estratégias de coping não são eficazes. É o mesmo que dizer que, no âmbito individual, os sujeitos, no seu esforço por adaptar-se e responder eficazmente às solicitações e pressões laborais, podem chegar a esforçar-se

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I em excesso

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

em excesso e de maneira prolongada no tempo, o que lhes traduz essa sensação que descrevem como “estou queimado”. Contudo, no âmbito laboral em que se produzem a maioria dos casos estudados, cada dia mais por interesse das empresas, a sensação de que o rendimento é baixo e a organização falha conduzem à deterioração da qualidade do serviço, absentismo, alto número de rotações e, inclusivamente, abandono do posto de trabalho. (Martínez Pérez, 2010)

As definições de Cherniss (1980) ou de Etzion (1987), concebem claramente o Burnout como um processo. Para Schaufeli e Enzmann (1998), as definições em termos de “processo afirmam que:

- O Burnout arranca com tensões que resultam do afastamento entre as

expectativas, as intenções, os esforços, os ideais do indivíduo e as exigências da dura realidade do quotidiano;

- O stress que resulta deste desequilíbrio desenvolve-se gradualmente.

Pode ser sentido conscientemente pelo indivíduo ou ficar ignorado durante

um longo período de tempo; - A maneira como o indivíduo faz face ao stress é crucial para o desenvolvimento do Burnout.”

2.1.1.

Burnout e Outros Conceitos

2.1.1.1.

Burnout e Stress

O stress tem sido responsabilizado pela maioria das doenças do homem moderno, dadas às complexas e profundas alterações psicofisiológicas que desencadeia. Ao definir stress, Lipp (1996) menciona que este processo é composto por reacções físicas e psicológicas desencadeadas frente a situações que, de alguma maneira, ocasione irritação; medo ou temor; confusão; excitação, muita alegria ou sentimento de felicidade. Pioneiro no estudo do stress, Selye (1984) considerou os aspectos negativos e positivos

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BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I desse processo,

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

desse processo, sendo estes representados pela disposição e/ou impulso para a acção.

O processo de stress foi descrito por Selye (1984) de acordo com um modelo trifásico, o qual denominou de “Síndrome Geral de Adaptação”, compreendendo três sucessivas fases:

(1) Fase de alerta, quando o organismo é mobilizado para situações de emergência, numa reacção de luta ou fuga; (2) Fase de defesa ou resistência, representada pela tentativa do organismo de se adaptar e manter a homeostasia interna, quando há continuidade do agente stressor, ocorrendo um grande dispêndio de energia, a qual seria necessária para outras funções vitais; (3) Fase de exaustão, constituída pela consequência da falha dos mecanismos adaptativos a estímulos stressantes permanentes ou excessivos, tornando o organismo susceptível a doenças e disfunções ou mesmo à morte.

Uma quarta fase de stress foi identificada e descrita por Lipp (2000) no seu trabalho de elaboração e padronização de um instrumento brasileiro de medida do stress em adultos, o ISSL Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp. A quarta fase do stress foi definida do ponto de vista estatístico e clínico e denominado de “quase exaustão”, visto situar-se entre a fase de resistência e a de exaustão. Esta fase caracteriza-se por um enfraquecimento da pessoa, permitindo o surgimento de doenças, embora ainda com menor intensidade do que na fase seguinte, a da exaustão, e possibilitando que a pessoa leve uma vida ainda razoavelmente normal (LIPP; MALAGRIS, 1995).

Os dados de Lipp (2000) revelaram que a fase de resistência descrita por Selye representava, na realidade, dois estágios distintos em função da quantidade e intensidade de sintomas.

Nem todas as pessoas são igualmente vulneráveis ao stress; um mesmo evento de stress pode afectar profundamente uma pessoa e não afectar

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I outra. Existem

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

outra. Existem vulnerabilidades físicas e psicológicas que irão determinar a reacção de stress de cada indivíduo diante do estímulo bem como diferenças intersubjectivas quanto ao modo de enfrentar o stress, que determinarão a manutenção, ou não, das reacções de stress ao longo do tempo, aumentando a susceptibilidade a doenças (LIPP, 2000)

O stress e suas consequências na saúde e qualidade de vida das pessoas tem sido estudado desde as primeiras pesquisas de Selye, constituindo um amplo campo de estudos científicos, fundamental para a compreensão das relações entre o indivíduo, seu meio externo e interno e sua saúde ou adoecimento.

Inúmeras doenças podem surgir como parte das reações a situações stressantes, especialmente as doenças cardio-vasculares (MORENO JR; MELO; ROCHA, 2003); as doenças dermatológicas (STEINER; PERFEITO, 2003); as doenças gastro-intestinais (MAGALHÃES; BRASIO, 2003); as doenças respiratórias (TEIXEIRA, 2003); as doenças e as dores músculo- esqueléticas (COHEN; ALMEIDA; PECCIN, 2003), além das doenças bucais (MORAES, 2003) e doenças relacionadas ao funcionamento do sistema imunológico (NEME, SOLIVA; RIBEIRO, 2003; PINHO JR., 2003; LIPP,

2003).

Os efeitos do stress excessivo na produtividade foram descritos por, (SAVOIA, 2003), indicando a ocorrência de decréscimos na concentração e atenção, na capacidade de observação; nas memórias de curto e longo prazo; na capacidade de reconhecimento de estímulos e na velocidade da resposta; na capacidade de articulação verbal e no interesse e prazer pelo trabalho.

Além destas alterações neuropsicológicas, o stress excessivo relaciona-se com o aparecimento de vários transtornos mentais, visto que gera mudanças em características de personalidade, no nível de energia e no controlo emocional, associando-se a transtornos como o de ansiedade e de pânico (SAVOIA, 2003).

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I De acordo

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

De acordo com Savoia (2003), qualquer alteração na vida representa algum nível de stress, podendo afectar positivamente o desempenho (eutress) ou ameaçar a capacidade do indivíduo em enfrentar as solicitações do dia-a- dia, na família ou no trabalho (distress), sendo que os eventos stressores podem ocorrer em qualquer área da vida, como na família, nas relações interpessoais em geral ou no trabalho. Os elementos stressores encontrados no trabalho, em geral, estão ligados a pressões de tempo e produtividade, conflitos com colegas ou chefias ou a aspectos físicos negativos do próprio local de trabalho.

2.2. PRINCIPAIS MODELOS EXPLICATIVOS

Métodos de avaliação da Síndrome de Burnout

2.2.1. Modelo de Maslach

A maior parte da investigação inicial sobre a Síndrome de Burnout foi descritiva e de observação numa perspectiva qualitativa. Maslach desenvolveu, a partir dos anos 80, instrumentos psicométricos para uma visão mais quantitativa da síndrome, tornando-se a investigação mais sistemática, com recurso a inquéritos.

Inicialmente o Maslach Burnout Inventory (MBI), de Maslach & Jackson (1981), permitiu o acesso às três dimensões (exaustão, cinismo e eficácia profissional), sendo considerado um instrumento standard na área e na estrutura multidimensional. Explorado numa amostra de 1025 indivíduos que trabalhavam em profissões de ajuda a pessoas, é constituído por 22 itens, que, através da análise factorial, reflectem as três dimensões:

exaustão emocional (com 9 itens), despersonalização (com 5 itens) e realização pessoal (com 8 itens).

ESTUDO DA SÍNDROME DE BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL

BURNOUT NUMA AMOSTRA DA POPULAÇÃO DE BOMBEIROS EM PORTUGAL ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I Devido ao

ENQUADRAMENTO TEÓRICO - CAPITULO I

Devido ao interesse desenvolvido na área e no fenómeno, surgiram novas formas do M.B.I., dirigidas e orientadas para novas ocupações. Em 1996, foi construído o M.B.I.-H.S.S. (M.B.I.- Human Services Survey), para avaliar as pessoas que trabalham em serviços humanos e de saúde, também construído com 22 itens. No presente estudo, esta foi a versão utilizada para se avaliar a variável Síndrome de Burnout.

Outra versão desenvolvida, foi o M.B.I.-E.S. (M.B.I.-Educators Survey), para avaliar ocupações relacionadas com a educação. Em ambas as versões, o foco das dimensões reflecte ocupações onde se trabalha com outras pessoas (alunos e utentes).

Foi então necessário criar uma versão que avaliasse profissões que não fossem directamente orientadas para pessoas, surgindo a M.B.I.-G.S.

(M.B.I.-General

componentes do burnout (exaustão, cinismo e eficácia profissional) em profissões que não dependem do contacto directo com pessoas, mas em que casualmente existe o contacto com elas.

três

Survey).

Constituído

por

16

itens,

avalia

as

2.2.2. Modelo de Pines (1993)

De acordo com Pérez (2010), Pines afirma que o fenómeno da Síndrome de Burnout se instala quando o sujeito procura o sentido existencial no trabalho e este fracassa. Estes sujeitos dão sentido à sua existência por via das tarefas laborais humanitárias. Este modelo é motivacional e considera que estão vulneráveis os indivíduos com altas motivações e altas expectativas. Um trabalhador com baixa motivação inicial pode sofrer de stress, alienação, depressão ou fadiga, contudo não chegará a desenvolver Burnout.

Então, o Burnout, é explicado como um estado de esgotamento físico, emocional e mental causado pelo acumular de situações de stress crónico