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A leitura que se propõe da peça de Pedro Eiras Um Punhado de Terra está

condicionada, para o bem e para o mal, por uma prática de encenação. Enquanto
encenador leio este texto e de imediato me ocorrem imagens que lhe poderão dar vida
cénica. O fazer do teatro poderá comprometer a literatura? Penso que muitas questões
literárias se diluirão irremediavelmente nesse processo diria textofágico. O teatro come
a literatura, banqueteia-se e depois, talvez, nada reste. Este cenário no entanto tem um
enquadramento, diria, elegante e irónico pois que enquanto a literatura fica ao dispor de
novos leitores e comedores de textos, com intenções terríficas e piedosas, o teatro
inevitavelmente acaba, morre. O teatro morre sempre abrindo-se de novo o cenário à
voragem e, assim o creio, à vida.
Serve este pequeno preâmbulo para situar a leitura que me proponho fazer de Um
Punhado de Terra. Tentarei fazê-la sem escrúpulos de outra ordem senão aqueles que
dizem respeito ao pragmatismo irreprimível do fazer teatro, desse fazer aqui e agora,
fazer livre numa ética que se desenha no compromisso de liberdades idênticas entre
iguais; enquanto fazedor de teatro dependo e interajo com os outros, actores, cenógrafos
etc., e nessa medida o acto criativo tem uma dimensão colectiva que extravasa o
individualismo exacerbado fundando-se numa prática, assim a entendo, democrática, à
falta de melhor, nos seus propósitos e na sua matriz. Quero com isto dizer que a minha
leitura enquanto encenador não determina o espectáculo, determina tão só um projecto
de espectáculo.
Passo agora a apresentar a peça de Pedro Eiras rezando qual marinheiro português do
século XVI para que a tormenta não me leve a alma para os anjinhos e que neste caso o
autor emérito não me fuzile ao fim do terceiro parágrafo.
O quadro inicial da peça revela o escravo raptado por marinheiros ávidos e
cruéis ao serviço de uma sanha fanática. Os portugueses, em nome dos santos e da
cobiça, procuram na terra africana a conquista e a riqueza. Todo o texto sublinha o
registo do escravo, do homem que expõe a sua biografia e a sua revolta. Esta leitura
epidérmica não pode deixar de ser superficial proponho-me, por isso, tentar expor
alguns argumentos que me parecem poder contribuir para o tal mergulho cénico que
vislumbro, e invento, no texto de Pedro Eiras.
Um Punhado de Terra é também (desculpa lá qualquer coisinha Pedro…), por
um punhado de carne. Citação:

1
Toma o meu corpo
senhor do fogo!
Vem e devasta
esta terra estrangeira!

Fim de citação. A carne e a terra surgem como referências cénicas capazes de gizarem a
acção dramática. Assumidamente um monólogo o texto não deixa, a meu ver, de
desencadear este diálogo que é também, a assunção de uma condição humana,
duplamente, escravizada, pelo corpo e pela terra. E aqui talvez possamos encetar uma
reflexão sobre o alcance desta dupla escravidão. Sendo certo que o escravo representa a
força de trabalho, motor essencial do desenvolvimento das sociedades, é a própria
condição paradoxal do desenvolvimento que, parece-me, é tratada no texto de Pedro
Eiras. Dito de outro modo o autor parece sustentar essa contradição insanável de que o
desenvolvimento se faz à custa do sofrimento de alguém. Nessa medida a terra utópica
inicial, a terra feliz do escravo seria o objectivo a resgatar, tal como foi pensado na luta
de classes e na reivindicação da igualdade. No entanto este cenário generoso é, de certa
forma, enganador. O autor, a meu ver, não pretende o resgate da utopia, do paraíso
perdido, do exotismo vivificador. Não existe no texto de Pedro Eiras remissão,
complacência, piedade ou heroísmo. O movimento do texto na sua crueza, na sua poesia
documental desfaz todo e qualquer equívoco mais ou menos pubertário que nos pudesse
fazer pensar na tribo feliz de novo reunida. A tribo talvez nunca tenha existido e, de
certa forma, a biografia sincopada, febril, agonizante do homem escravo talvez articule
apenas uma história que nunca existiu.
Passo a explicar. Não são só os actores que têm brancas, lapsos de memória na
elocução do texto, aliás, muitas vezes, as brancas motivam descobertas inesperadas,
achados que impregnam a representação teatral de inusitada densidade. As brancas do
teatro são espaços em branco. Estou pois em crer que a memória tem desvios, zonas
incertas, zonas de realidade e fantasia. Assim a saga cantada pelo pobre homem, a quem
acometem todas as desgraças e mais algumas, é talvez expressão de dor, de uma dor
universal, de uma dor de existir que reflecte menos a narrativa de factos, eventualmente
ocorridos, que um sentimento estranhamente familiar. A memória que evoca a
personagem da peça é, sobretudo, a memória da insuportabilidade da memória, do peso
de um horror universal que torna a carne um arrepiante território de contradições. Não
estou apenas a lembrar-me das atrocidades cometidas nas sucessivas idades da

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escravatura que preenchem a história humana mas de Auschwitz, no extermínio puro e
simples, no rasto insuportável e indizível que nos precede. Sinto, numa atrapalhação de
elefante em loja de cristal, que todos temos um pouco desse homem escravo que num
manifesto pungente lança, sob a forma de frases pueris, a maldição do nosso tempo, a
maldição de uma terra e de um corpo irmanados na orfandade de sentido. Esta
constatação não tem um pendor de denúncia ou de gravidade política mas antes o
reconhecimento filosófico e histórico que confirma uma humanidade em perda
irreversível. A meu ver, Um Punhado de Terra, diz respeito a essa espécie de contagem
decrescente que parece acompanhar o destino da personagem e que se confunde, com o
nosso próprio destino.
A contagem decrescente que acompanha a narrativa dramática do homem é pois
o fim do próprio homem e do mundo, como os conhecemos? Este fim anunciado, esta
crise tão evidente, não apenas nos palcos financeiros, económicos e quejandos, terá pois
uma raiz civilizacional? Os fazedores de teatro como profetas do efémero têm por vezes
tendência para o exagero por isso vou procurar não fazer uma cena e bater no peito
anunciando como o louco de Nietzsche: “Deus morreu, Deus morreu!”, tudo morreu e
eu sou uma galinha sem cabeça. Esta crise da civilização, assim entendo que entende o
Pedro Eiras, é também o modo da sua inelutável transformação. O fim do homem
pronunciado pelo autor é também o princípio; um princípio que se confunde com a
terra, uma terra devastada, uma terra que nasce dos corpos na podridão fértil dos
pântanos. Mais que a iluminação límpida Pedro Eiras parece eleger a putrefacção
escatológica, o interstício fervilhante como modo de, não apenas, descrever o fim da
personagem mas de lhe dar a identidade que lhe faltava numa génese — sugiro
iluminação em contra luz, que apenas pudemos adivinhar.
Pergunto-me então: o nome do homem escravo é também o nome que buscamos
para as coisas, ainda sem nome, que amavelmente nos invadem o quotidiano? Afinal
como nos chamamos, ainda seremos Pedro e Carlos, ou outros nomes se inscrevem na
nossa inexorável trajectória mutante? E mudamos para quê? …
Outro dia dois amigos discutiam qual o melhor método para nos libertarmos dos
cadáveres, se a cremação ou o enterro. Um dizia: “eh pá estar ali a ver o caixão a levar
com pazadas de terra durante uma data de tempo é uma coisa insuportável.” “Pois”,
retorquia o outro, “mas outro dia um tipo de uma agência funerária contou-me que os
cadáveres demoram cada vez mais tempo a incinerar por causa dos químicos todos que
temos no corpo.” Que sina, digo eu, que sina!

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Não há concessões neste texto, tudo serve a lógica inexorável do fim, não de um
mundo feliz ou de um mundo horrível mas dos dois, do feliz e do horrível já que, talvez,
a lógica dialéctica não seja de todo suportável nem existam mortes felizes.
No teatro percebemos muito bem isso: a Lady Macbeth não é só má pessoa…
Aliás o que é uma má pessoa ou uma boa pessoa, que aparelho é que mede a maldade, a
bondade, que aparelho é que mede a boa arte ou a má arte? Dirão que se tratam de
problemas tecnológicos em vias de resolução; que os japoneses numa joint-venture com
os chineses e os indianos estão a tratar do assunto; que, mais dia, menos dia, teremos
aparelhos para medir a bondade a maldade e a arte. Porreiro! Mas por enquanto não
temos aparelhómetros e temos pressa, uma pressa estranha que aparece, proposta de
encenador, em câmara lenta.
O vago maniqueísmo, a vaga escolha entre preto e branco, entre certo e errado,
entre bom a mau são enterrados sem espinhas por Pedro Eiras; enterrados com o homem
escravo, é bom de ver, reivindicando-se, implicitamente, um ensaio ético que tem tanto
de fluído como de afirmativo.
O autor liga o interruptor ou sou eu que o imagino, peço desculpa pelo lapso!
Vemos o homem e a terra. Terra moldável num corpo moldável. Esta espécie de
instalação em processo que mistura, reorganiza interpela a terra e o corpo, é, parece-me,
o laboratório, a imagem seminal do compromisso proposto por Pedro Eiras. Não se trata
já de dizer o que fazer ou não fazer, de uma qualquer cartilha paternal mas de juntar
peças, agregar, por em confronto e deixar a interpretação dos resultados aos que vêm,
com boas e más intenções, aos que vêm ler ou comer. O carácter quase diria escultórico
da peça de Pedro Eiras não tem uma moral óbvia e essa parece-me ser a sua maior
virtude, sem querer aludir com isto a Robespierre ou uma qualquer intenção jacobina; o
seu desígnio não é o da revolução mas o de uma operatividade performativa, qualquer
coisa entre mon ami Mitterrand, uma escapadinha de fim-de-semana e a crua realidade.
Citação:

é triste morrer
a comer terra que não é nossa

Fim de citação. Os gestos finais do homem escravo representam a assunção do


livre arbítrio. Pode, por uma vez, decidir; pode decidir morrer e na forma que essa
decisão assume, comer a terra, percebemos o seu derradeiro testemunho, o seu

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testamento. O corpo torna-se terra e a terra corpo e nessa espécie de perpétua
transmigração se não reavemos o sentido perdido, a desocultação da esperança, temos,
de um modo inusitadamente lúcido, o ensejo de tocar os instrumentos e a matéria do
mundo. Se um texto são palavras ordenadas as palavras de Pedro Eiras são de terra e de
carne e não podemos, felizmente, sacudi-las de ânimo leve. Elas talvez estejam no
código genético desse novo homem, velho de mil reencarnações e reflexos, no teatro do
mundo, palco da vida. Parabéns Pedro e que os Deuses te protejam.

Carlos J. Pessoa
Amadora, 1 Maio 2009