Você está na página 1de 6

A construção da subjetividade de crianças e adolescentes em circulação nas ruas Patrícia Yumi Nakagawa Psicanalista, mestre em Psicologia escolar e do desenvolvimento

humano (USP) e doutoranda em Saúde Coletiva (Universidade Federal de São Paulo). Supervisora do curso de especialização em Psicologia da Infância (Universidade Federal de São Paulo). yumi.nakagawa@gmail.com Rua Dr. Diogo de Faria, 984 Vila Clementino – São Paulo – SP CEP: 04037-000 Sumário Evidenciada principalmente nos textos “O mal-estar na cultura” e “Totem e tabu”, a relação constitutiva do sujeito com a cultura e a sociedade pode ser incluída como uma das preocupações centrais de Freud. O presente trabalho busca, a partir deste pressuposto, problematizar as repercussões das relações que acontecem nos espaços (casa-rua-instituições) por onde as crianças e os adolescentes de rua circulam. Neste espaço simbólico se materializam imagens, atributos e a ideologia que carregam o discurso social sobre a pobreza, a infância, a juventude e a violência. Muitas vezes, estes discursos estão legitimados pelos “peritos” da rede de atendimento que tendem a oferecer um lugar a estes sujeitos ora na vertente de quem é “vitimizado-carente”, ora como quem goza “fora da lei-delinqüente e perigoso”. Estes significantes estão impregnados por um sistema de valores e produzem marcas consideráveis nos sujeitos em constituição. Portanto, pretendemos apresentar este universo a partir da escuta destes sujeitos. A construção da subjetividade de crianças e adolescentes em circulação nas ruas Patrícia Yumi Nakagawa Pedro, 17 anos, costumava dizer sorrindo: “gosto da rua, você sabe a Mãe–Rua”. E como é esta história de “Mãe-Rua” ... mãe ... rua...? Ele riu e disse: “ é a liberdade total, pode tudo” e acrescentou: “é uma mãe perfeita, ela deixa tudo”. Convidei-o a associar sobre esta fala tão enfática, a partir da questão: “pode tudo assim?”:
... na verdade, na rua não era liberdade total, porque não acontecia o mesmo na minha casa. Na rua tem regra, se você não obedecer, morre. Em casa meu padrasto fazia de tudo e ninguém ficava sabendo.... Fui para a ... porque acharam que eu ‘mandei ver’ num menino que eu nunca vi, sabe... Só porque eu dormia na rua. Eu não fiz isso, na minha casa isso aconteceu, mas quem fez não pagou por isso. A rua, você pode não acreditar, é mais justa. Na casa não tem ninguém para ver o que acontece, na rua sempre tem alguém sabendo.

Foi com grande surpresa que escutei e me deparei com algo inesperado em seu relato: “a rua, você pode não acreditar, é mais justa”. Com tom de certeza Pedro afirma “a rua é melhor que a minha casa, que a minha família”, porque é exatamente, como pude

... Mas na delegacia tinha eu e um “boyzinho” sendo acusado. Parte para encontrar justiça e promove um corte nesta situação que se estendia. Na forma de denúncia e apelo acabava dormindo nas redondezas do trabalho evitando o retorno à casa e seu encontro com o “pavor” da cena que lhe tomava: . Foi passando seu tempo cada vez mais na rua. pois há uma lei. onde não se pode fazer de tudo.escutar. pois meu padrasto fez isso comigo e eu não quero isso para ninguém”. até que arrumou um “bico” no supermercado. Quem foi condenado? Claro que fui eu. Pedro procurava ficar fora de casa grande parte do dia para o padrasto não agredi-lo. eu fui acusado por uns moleques de uma coisa que eu não fiz. nem estuprá-lo (SIC). toma remédio e já ficou internada. por acusação de violência sexual contra outro adolescente.. revelando um limite tênue entre estes lugares e o próprio. até que foi cumprir medida sócio-educativa. Pedro sai em direção às ruas em busca de algo que funcione como Lei a esta situação em que ficou como objeto de gozo do Outro perverso. agora que eu cresci sei me defender. é desse pai gozador que Pedro se põe a falar.. Menciona que o que o “deixou mais triste” foi o fato da mãe não procurá-lo enquanto esteve na rua. menino de rua e feio. Batia. Ficou um ano morando com a “mãe de rua”. era irrestrita”. Na rua estabelece laços com uma “mãe de rua”. dizia que ia bater na minha mãe. em mim e nos meus irmãos também. Segundo ele a mãe tem “problemas de cabeça”.. um garoto pobre. pois não percebia que o padrasto fazia isso com ele. muito severa. o pai. inventaram uma história numa das tretas. ora como companheira. Suas lembranças nos permitem uma aproximação com a idéia da horda primeva descrita por Freud [191314] em que “a vontade arbitrária de seu chefe. Pedro chegou para ser escutado a partir desta queixa: . . que cuida dele ora como figura materna. Pedro expressa seus valores morais revelados pela culpa e pelo intenso sofrimento provocado pelo conflito entre o ódio e a interdição de seus sentimentos violentos contra o padrasto. tinha pavor. mas ele me ameaçava muito.

É assim que deve ser? Perguntei-lhe. Porta um saber que estabelece uma relação de obviedade entre o que diz ser – pobre. rua e em duas instituições. é representativa a constância na circulação entre a família. a juventude e a violência.Neste pequeno fragmento Pedro se mostra indignado. atributos. os técnicos como são chamados – vêm ocupando um lugar privilegiado nas decisões sobre o que é mais indicado aos pais na criação de seus filhos. entrando em um território que antes estava reservado apenas aos sujeitos e à família (JULIEN. A autora discute os significados que surgem das relações que acontecem nestes espaços. sem questionamento. a infância. Nota-se que este poder está legitimado pelos inúmeros deveres dos pais. Pedro diz que não. como se realizasse uma profecia. feio e de rua) à punição injusta. seu discurso “naturaliza” e associa seus atributos (pobre. circulou em diferentes espaços: casa. educadores. . mas que ficou sem saber por que o “boyzinho” teve advogado e ele não. os especialistas. mesmo havendo particularidades nas histórias de vida. Reforça a crença de que por ser pobre não teve direito à justiça. pois foi transferido a um abrigo definitivo que ficava num local distante e precisou interromper o trabalho de escuta. juízes) – os peritos. além da ideologia que carrega o discurso social sobre a pobreza. assistentes sociais. As experiências proporcionadas pela constante circulação são formadoras e produzem marcas na constituição da subjetividade da criança e adolescente. para que a verdade aparecesse. Pautados pelo discurso da “ciência”. de alguns meses. Essa experiência faz-nos lembrar das colocações de Gregori (2000) ao ressaltar que. Pedro num curto período de tempo. eles são convidados a falar dos direitos da criança e do adolescente. 2000). Meu contato com ele durou o “tempo” dado pela rede. feio e de rua – e a violência sofrida. os inúmeros trabalhadores (psicólogos. a rua e as instituições como expressão de seus modos de vida. pois nestes se materializam imagens. ao mesmo tempo. da educação. dos problemas familiares e participam das decisões sobre o destino dos filhos e das famílias “assistidas”. que não podem ser ignoradas por quem trabalha junto a este grupo. Em nome do “bem” do “menino de rua” e do “amor a esta causa”. seja criança ou adolescente. de seu desenvolvimento.

Sarti (1995) faz um apontamento importante e nos alerta sobre: o “abismo de linguagem” existente entre as crianças e os que buscam atendê-las. (LACAN. Ele ficou bastante deprimido e se questionou se teria valido a pena ter feito tudo isso. reeduca e de quem também pune os pais que não cuidam de seus filhos como “deveriam”. conferido como lugar de ideal. seja na forma de conhecimentos. uma vez que os educadores. Pedro perdeu o contato com os irmãos que foram rapidamente adotados por uma família estrangeira. portanto. acredita poder dominar por meio de seu saber.idealizados pela sociedade. pois estava para completar a maioridade. do desejo. com uma série de idéias pré-concebidas. pois o discurso social vitimiza de um lado pelo aspecto da pobreza e do abandono e por outro qualifica os jovens como perigosos. já que quem . já que os códigos por eles compartilhados não encontram ressonância nas intervenções. 1969-70) À serviço deste discurso há uma infinidade de oferta de instituições e serviços especializados. denunciado o padrasto.” De alguma forma. O engodo deste fenômeno situa-se quando o discurso social impera em detrimento do discurso do sujeito. freqüentemente. (ROSA. isso aconteceu. discursos que não são o familiar. como aqueles que gozam fora da lei e que. O especialista. a universalização e a generalização do discurso dos “peritos” sobre as crianças e adolescentes pobres estão ancorados na sociedade atual que sustenta. convicto do discurso da ciência. De acordo com o setor jurídico. precisam ficar afastados do convívio. que se recusou a adotá-lo. judicial. A fala que circula nas instituições revela a aproximação entre saber e poder. cada vez mais. ignoram o universo sócio-cultural do qual se originam os educandos. As instituições sejam elas policial. o desconhecimento do universo das crianças e adolescentes em circulação nas ruas se respalda nos significados que circulam e que impedem a escuta do novo. leis ou pelos mecanismos interventivos das instituições que prestam assistência. de saúde ou assistencial materializam este lugar cujo discurso está oficializado e colocam à disposição soluções que suprem ilusoriamente o lugar de quem educa. O anonimato. 1999). sem a mediação do desejo que dê suporte. Isso os distancia da prática.

1996. 2000. 13). Rio de Janeiro: Imago. somente Pedro poderá dizer. Rio de Janeiro: Imago. (Edição Standart das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. destacando significantes a partir do lugar de quem fala e não mais do lugar de quem é falado. 21). v. (1930). mesmo que de modo ainda incipiente. pois. em outros significantes: cuidadoso. FREUD. a mãe e vida familiar. O mal-estar na civilização. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. (1913-1914). mas pude escutar que Deus como representante de um pai. Como analista fica a pergunta se haveria a possibilidade. v. 1996. o que se sucedeu por algumas ligações telefônicas e um encontro. pobre e de rua” pôde se reconhecer. M. mas “quer o meu bem”. justo e preocupado. Totem e tabu. Pedro de “feio. F. S. Na última sessão Pedro estava sorridente e falante. Deus está no céu. autoriza o vigor de uma Lei que preserva a vida. nas instituições assistenciais. de outras ofertas de significantes para além do “carente”. Se todos estes processos decididos pela rede de atendimento foram as melhores como ele perguntou. das Letras. A instituição onde foi morar é religiosa – católica – nesta Pedro diz ter encontrado “sossego”. Isso foi o melhor? E o psicanalista diante disso? Como psicanalista pude escutá-lo como cuidadoso.saiu perdendo mais foi ele: os irmãos. enfatizou seu encontro com Deus por meio da religião. pois “quer o bem”. (Edição Standart das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. . Na análise o que pude garantir é que na transferência não se repetisse a ruptura e que ele pudesse se despedir. Tentava com muito esforço se tranqüilizar dizendo “foi melhor assim”. “delinqüente” ou “fora da lei” como forma de nomeação? Só assim será possível que ressignificações aconteçam para além do aspecto traumático dos acontecimentos. S. Viração: Experiências de meninos nas ruas. preocupado e justo. É cedo para falar das repercussões deste “encontro”. mesmo que morto. para ele. Tradução sob a direção de Jayme Salomão. sem precisar romper bruscamente. GREGORI. Rio de Janeiro: Cia. Bibliografia FREUD.

. C. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano . livro 17: o avesso da Psicanálise. p. Rio de Janeiro: Cia de Freud. v. A continuidade entre casa e rua no mundo da criança pobre. Abandonarás teu Pai e tua Mãe. Zahar.JULIEN. SARTI. O seminário. P. (1969-70) – Saber meio de gozo. 39-47. A.5(1/2). 2000. LACAN. São Paulo. 1992. 1995. J. Rio de Janeiro: Ed.