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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO – UNICAP

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – DCS


HABILITAÇÃO EM JORNALISMO
PROJETO EXPERIMENTAL
IMPRESSO

mundo livre s/a:


20 anos de banda

Este trabalho é uma


série de quatro
reportagens,
apresentada, em
2003.2, como Projeto
Experimental de
conclusão do curso de
Comunicação Social –
Habilitação em
Jornalismo.

Aluno: Juliano Mendonça Domingues da Silva


Professor-orientador: Alexandre Figueiroa

Recife, novembro de 2003


mundo livre s/a

Índice das matérias


pag.

Matéria Principal 1 Liberdade é palavra de ordem para a mundo livre s/a 03


Quinto disco do grupo propõe-se a buscar uma nova
linguagem para o pop brasileiro

Vinculada 1 05
Proposta é unir música, literatura e cinema
Vinculada 2 06
Enfrentar o mercado fonográfico não é novidade
Vinculada 3 07
Quem é Manoela Rosário?

Matéria Principal 2 Uma volta no mundo livre 10

Banda completa vinte anos de trajetória, do hardcore ao


samba

Vinculada 1 14

É punk esquema samba

Matéria Principal 3 Banda acertou na medida 18


Especialistas reconhecem importância da mundo livre s/a
para música brasileira

Vinculada 1 22
Um grupo que nunca atingirá grande público

Matéria Principal 4 Dois lados de um mundo sem meio-termo 24

Fãs e desafetos tentam explicar o amor e o ódio pela mundo


livre s/a
Vinculada 1 28

Para argentino-mexicano, mundo livre s/a é a vanguarda da música

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mundo livre s/a

MATÉRIA PRINCIPAL 1

Liberdade é palavra de ordem para a mundo livre s/a


Quinto disco do grupo propõe-se a buscar uma nova linguagem para o pop
brasileiro

Um disco inovador, conceitual. Mais do que isso. Um disco-manifesto. É dessa


forma que o novo álbum da banda mundo livre s/a (grafada assim mesmo, em minúsculo),
“O Outro Mundo de Manoela Rosário” deve ser encarado – o quinto disco, em vinte anos
de carreira. Quem alerta é Fred Zeroquatro, letrista, líder do grupo e responsável pela
concepção do trabalho. “Mas não sou ingênuo a ponto de achar que todo mundo vai
entender isso”, pondera. A transgressão, por ele relatada, pode ser resumida em uma frase:
liberdade de criação.

De acordo com Zeroquatro, o disco é fruto de um questionamento quase filosófico:


qual o conceito de música pop hoje em dia? Essa indagação perseguiu a banda nos últimos
três anos, desde que a Abril Music, sua última gravadora, encerrou as atividades – para ele,
um sinal claro de falência de todo um modelo de se fazer e vender música no Brasil. Daí,
surgiu uma outra pergunta – menos filosófica, mais pragmática: vale a pena fazer um cd de
música pop?

Vale, sim, desde que – nas palavras do líder do grupo – sirva para não só negar, mas
também quebrar a engrenagem do sistema fonográfico atual. “Esse trabalho desafia toda a
lógica do mercado fonográfico. Chega de comodismo. Está na hora de meter o dedo em
tudo e transgredir o modelo”, diz, em tom revolucionário. Esse posicionamento, segundo
ele, está presente em todo o disco, desde o fato de ter sido inteiramente gravado e
produzido fora do eixo Rio-São Paulo, até a média de duração das músicas – de cinco
minutos, quando o padrão das gravadoras mais comerciais é de três minutos.

Mas para colocar em prática essa postura, a mundo livre s/a teve de arrumar uma
alternativa às grandes gravadoras. A idéia era fazer um disco que não se prendesse apenas à

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mundo livre s/a

reprodução de sons musicais, mas que, pelo conteúdo e forma de elaboração, jogasse luz
sobre outras possibilidades que se abrem com a crise do mercado fonográfico. Após três
anos de reflexão, a luz brilhou no fim do túnel e veio de um candeeiro, em agosto do ano
passado, entre um gole e outro de cerveja, durante uma festa no Recife.

“Por que você não grava a parada pela Candeeiro?”, perguntou Pupilo durante um
bate-papo. Ele, além de ser baterista da Nação Zumbi, é dono do selo Candeeiro Records,
com sede no Recife e em atividade há quatro anos. “Por que não utilizarmos o formato CD
para questionarmos o próprio CD?”, completou Zeroquatro. O acordo foi fechado na hora.

Alternativas - E foi justamente isso que, um mês depois do papo, Fred Montenegro
(Zeroquatro), Jadson Macedo do Vale (Bac), Tony Montenegro (Xef Tony), Walter
Domingos Pereira Filho (Júnior Areia) e Marcelo Alves Oliveira (Pianinho) fizeram no
estúdio Muzak, no bairro de Casa Forte, no Recife. Foram 327 horas de trabalho,
encerradas em maio deste ano.

“Os caras são muitos seguros no que fazem”, relata Pupilo, que assina a produção,
ao lado do vocalista da banda. “Fred sempre quis se livrar desse compromisso com a
indústria fonográfica. Ele sempre odiou muito esse laço que o atrelava a uma gravadora
grande”, completa.

A resposta ao que mais parecia ser uma crise de existência das brabas não poderia
ser diferente “O objetivo da banda era fazer um disco inovador”, afirma Marcelo Soares,
produtor executivo do álbum. Com isso, melodias e refrões perderam espaço. O resultado é
um desabafo sob a forma de um disco inquietante, que se propõe a entrar para o hall dos
mais inovadores da música brasileira. E Zeroquatro afirma isso sem constrangimentos.

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mundo livre s/a

VINCULADA 1

Proposta é unir música, literatura e cinema

A liberdade de criação levou O outro mundo de Manoela Rosário a dialogar com


outras linguagens, na busca por um novo formato de música pop. “Tentamos definir um
outro papel para a música no Brasil”, afirma Zeroquatro. Ao lado da música, estão a
literatura e o documentário.

Para ele, o papel da Candeeiro Records foi fundamental para a proposta do grupo, o
que é assegurado por Pupilo. “Não houve qualquer tipo de restrição ou exigência. As
músicas foram mudadas quantas vezes a banda achou que fosse necessário”, diz o produtor.

Esse processo de integração de linguagens artísticas é identificado a partir do título


do álbum. Manoela Rosário é um diálogo com a literatura, já que se trata de um
personagem presente ao longo de todo o disco, como se cada canção fosse uma espécie de
capítulo. Zeroquatro confessa, até, que ela pode virar o personagem principal de um futuro
livro seu. “Tenho um bom material. Só não sei, ainda, qual destino darei a ele”.

Em outro momento do disco, na faixa “O outro mundo de Xicão Xucuru”, uma


reportagem – e não um trecho de música – é “sampleada”. O “sample” é um recurso de
edição de som, como uma espécie de colagem sonora, bastante utilizada na música
eletrônica. “Trata-se de um conceito diferente de ´sample´. ´Sample´ sendo ousado. Isso é
quase uma ofensa a certos ideólogos do pop”, destaca.

A idéia de fazer um videoclipe que mais parece um documentário – como em “O


outro mundo de Xicão Xucuru”, produzido pela TV Viva – também faz parte do conceito
proposto no disco. Além disso, qualquer pessoa pode se habilitar a produzir um “videoclipe
genérico”, como diz Zeroquatro. Se a banda estivesse vinculada a uma gravadora, seria
preciso uma autorização da empresa. “Hoje, estamos livre desse tipo de coisa”, finaliza.

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mundo livre s/a

VINCULADA 2

Enfrentar o mercado fonográfico não é novidade

“A gente quis aproveitar a liberdade total que tivemos, pelo fato do disco ter sido
produzido por um amigo e parceiro que é Pupilo, e no Recife, para dizermos o seguinte:
fomos quase engolidos por uma engrenagem que funcionou por algumas décadas e que era
totalmente perversa com o compositor e com o consumidor. Agora, há a possibilidade de
zerar tudo isso”, afirma Zeroquatro, em tom claro de enfretamento ao sistema fonográfico.

Apesar da ruptura, fazer música de maneira independente, nos moldes propostos


pela mundo livre s/a, não é nenhuma novidade, de acordo com o doutor em Sociologia da
Arte pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Paulo Marcondes. “Na segunda
metade dos anos 70, as produções independentes foram um grande desmapeamento em
comparação com o que produziam as grandes gravadoras”, observa.

Marcondes cita como exemplos o selo Lira Paulistana e o Feito em Casa, de


Antônio Adolfo, pelo qual Arrigo Barnabé lançou seu primeiro LP, chamado “Clara
Crocodilo”. Ainda segundo ele, foi nos anos 80 e 90 que a produção alternativa pipocou, ou
seja, no mesmo período em que as multinacionais fonográficas começavam a exercer maior
influência no mercado nacional. “Mas a atitude da banda, de não optar por uma grande
gravadora, não deixa de ser ousada”, reconhece.

Para o doutor em Sociologia da Comunicação pela Universidade de Westminster,


em Londres, Nadilson Manoel da Silva, o mais interessante na postura do grupo é se propor
a abrir caminhos, a partir de vários questionamentos feitos ao mercado e sua relação com os
músicos. “O interessante é querer mostrar uma visão sobre a produção artística, que não
esteja completamente sobre os controles externos das gravadoras”. Para Nadilson, é
preciso, agora, saber de que forma essa postura repercute em outros artistas.

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mundo livre s/a

VINCULADA 3

Quem é Manoela Rosário?

Afinal de contas, quem é essa tal de Manoela Rosário? Essa será a pergunta mais
freqüente que os integrantes da mundo livre s/a terão de encarar daqui para frente.
“Manoela Rosário é uma ficção, com muito de realidade”, responderá Zeroquatro. Aliás, é
sempre assim que o criador se refere a sua relação com a personagem, como se ela nunca
tivesse existido de fato.

A versão oficial conta que Manoela é brasileira, mas conheceu a banda em


Guadalajara, no México, onde estudou cinema e se envolveu com a guerrilha zapatista. É aí
que a ficção toma forma de realidade – ou será o inverso? É que boa parte dessa lenda
urbana é bem real e encontra-se vizinha ao estúdio onde o disco foi gravado, em Casa
Forte. É lá onde a arquiteta Séfora Silva passa boa parte do seu dia, no Museu do Homem
do Nordeste, na Avenida 17 de Agosto, onde trabalha.

Paulista de nascimento e pernambucana por opção, Séfora é receptiva, simpática, de


sorriso fácil e, assim como Manoela Rosário, estudou cinema na Universidade de
Guadalajara. Para confirmar ainda mais a suspeita, ela diz ser uma grande admiradora da
causa Zapatista. “Sempre fui militante”, assegura. Ela esteve na cidade de San Juan de
Dios, em Chiapas, onde se encontra um dos principais quartéis generais da guerrilha
liderada pelo subcomandante Marcos.

“Acompanho todos os discursos dele. Marcos representa o mexicano comum em


busca dos valores da sua terra”, afirma. A admiração pelo zapatismo virou até nome de bar.
Entre 1994 e 1998, funcionou, na Cidade Alta de Olinda, o bar e restaurante Viva Zapata!,
do qual Séfora era uma das proprietárias.

As coincidências não param por aí. Manoela Rosário, segundo Zeroquatro, gravou
vários documentários, dentre os quais um sobre os índios Xucurus. “Quem assistir ao

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mundo livre s/a

videoclipe da música “O outro mundo de Xicão Xucuru” pode até pensar que as imagens
foram gravadas por Manoelita”, brinca o líder da mundo livre s/a.

Ao mesmo tempo, Séfora já participou de vários vídeos, curtas e longas-metragens.


Como se não bastasse, ela confessa que chegou a discutir com colegas cineastas a
possibilidade de fazer um documentário sobre os índios Xucurus – o que não se
concretizou.

Pensativa, Séfora afirma que ainda não havia tomado conhecimento da idéia contida
no novo disco do grupo. Durante a constatação das semelhanças, ela divertiu-se bastante.
“Realmente, há muita coisa parecida. Mas eu não sou a... como é mesmo o nome dela?
Manoela? É isso?”, afirma, com um leve sorriso.

Vida real – Séfora sempre acompanhou o trabalho da banda. Mas a relação entre ela e o
grupo se intensificou em 1995, quando estudava cinema em Guadalajara. Para o México,
ela levou o disco “Samba Esquema Noise”, o primeiro da mundo livre s/a, lançado um ano
antes, e o apresentou ao seu amigo Che, um dos produtores da rádio universitária. As
músicas do álbum logo entraram para o set list. Era o início de uma relação que iria gerar
bons frutos para a banda.

Em 1996 o grupo lança o álbum “Guentando a Ôia”, do qual uma das faixas
homenageia o subcomandante Marcos. “Salve Marcos, salve, salve / Viva México!”, diz a
letra. Séfora teve, então, a idéia de sugerir à universidade a participação da banda em um
festival de música, programado para janeiro de 1997. A homenagem ao país era o gancho
de que ela precisava.

“Consegue as passagens que o resto é comigo”, disse ela, por telefone, a Antônio
Gutierrez, o Guti, então empresário da banda. Na segunda quinzena de janeiro de 1997, a
mundo livre s/a rompeu as fronteiras do Brasil e aterrissou na Cidade do México. Foram
quatro apresentações em 15 dias – uma pela universidade e três em casas de shows.

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mundo livre s/a

Nesse meio tempo, Séfora ainda roteirizou e dirigiu a gravação do videoclipe da


música “Desafiando Roma”. As filmagens foram feitas em apenas um dia e consumiram R$
300,00. “Gastamos só com a compra das fitas. Foi um barato”, recorda.

Hoje, Séfora Silva coordena o projeto Faço Arte com Quem Sabe, hospedado no
prédio no Museu do Homem do Nordeste, onde são ministradas oficinas de arte voltadas a
crianças de baixa renda. Mais recentemente, ela assinou a produção de arte do premiado
filme de Cláudio Assis “Amarelo Manga”. Em andamento, está mais uma produção de arte
para outro longa, dessa vez dirigido por Marcelo Gomes, chamado “Cinema, aspirinas e
urubus”.

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mundo livre s/a

MATÉRIA PRINCIPAL 2

Uma volta no mundo livre


Banda completa vinte anos de trajetória, do hardcore ao samba

Rua José Bonifácio, número 43, bairro da Madalena. Às 14h30, Damião Venâncio
Coutinho, de 61 anos dá uma geral no ambiente, localizado nos fundos do terreno.
Aspirador e purificador de ar em mãos, é hora de preparar o estúdio. Cinzeiros e carpete
limpos, biscoitos, bolachas e café à espera da banda que irá ensaiar das 15h às 18h. É a
mundo livre s/a, que acumula cinco discos gravados em 20 anos de trajetória. Mas antes do
grupo chegar, um flashback.

Rua Abdo Cabuz, bairro de Candeias, 1978. O garoto Fred Rodrigues Montenegro,
de 16 anos, acabou de chegar da Mesbla Magazine, localizada, à época, na rua da Palma, no
centro do Recife. Na sacola, ele trazia um single do grupo Silvester. A música “You make
me feel” tocava no último volume, sob reclamação da sua mãe, Eliete. O som rolava solto
na radiola, observada com atenção por Tony Montenegro, caçula da família, de apenas seis
anos, e por Fábio Montenegro, de 11 – os três integrariam, anos mais tarde, a mundo livre.
Mas até lá, há um pouco de história a ser contada, com mais flashback.

Fred Montenegro comprava tudo quanto era disco – desde a Discoteca do Papagaio
até Rick James, passando por Slade, Nazareth, Yes e Rolling Stones. “Eu misturava rock
com discoteca, o que era uma heresia, como fui saber depois. Mas como não conhecia
ninguém que também gostasse de música, não tinha quem tirasse onda com a minha cara
por causa disso”, diverte-se.

Na mesma época, a duas ruas da Abdo Cabuz, uma radiola também rodava, mas o
som era bem diferente. Lá, Renato Lins, também com 16 anos, escutava “My Generation”,
clássico do The Who. Na sua coleção, porém, nada de discoteca; só rock anos 60, como
Jimi Hendrix e... Rolling Stones. Pois foi justamente a música de Mick Jagger e Keith
Richards que aproximou Fred e Renato.

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mundo livre s/a

Em 1979, o cenário era outro: beira-mar de Candeias. Um jovem de 17 anos,


cabelos encaracolados e óculos escuros à Bob Dylan, toca Stones rodeado por amigos – era
Fred Montenegro. Renato, que caminhava pela praia, escutou e se aproximou. “Posso dizer
que foi um encontro que mudou a minha vida”, confessa Renato.

Na verdade, mudou a vida de ambos. “Antes de conhecer Renato, eu era o típico


consumidor de música solitário. Não tinha ninguém com quem compartilhar informação”,
diz Fred, que ganhava, a partir daquele momento, uma espécie de orientador musical. Na
verdade, Renato Lins, mais conhecido por Renato L, tornou-se um verdadeiro guru
intelectual da turma de Candeias e um dos co-criadores da mundo livre.

Quanto mais sujo, melhor - Em 1982, Renato L participou de um congresso de


Comunicação Social em São Paulo e conheceu a efervescente cena punk da região do ABC
paulista. Na volta de Sampa, na bagagem, o estudante de jornalismo trouxe o LP “Grito
Suburbano”, a primeira coletânea brasileira dos grupos do gênero. “Quando nos reunimos
para escutar o disco, pensei: isso é que é som”, lembra Fred. O LP reunia grupos como
Olho Seco, Cólera e Inocentes. “Daí em diante, todo mundo quis montar uma banda punk”,
completa Renato L.

Nascido no final dos anos 70, o punk rock foi reciclado em São Paulo e fincou
raízes, também, junto aos coqueiros da praia de Candeias. Fred Montenegro adotou o
apelido Rato, assumiu a filosofia do “faça você mesmo” e ensinou não só baixo ao irmão
Fábio, como também bateria e guitarra aos amigos Avron e Neguinho, respectivamente.
Juntos, eles formaram a banda Trapaça, que deu lugar a Serviço Sujo, em 1983. Era o
reflexo da influencia do LP “Grito Suburbano”.

Mas ser punk não era apenas ter uma banda; era, sobretudo, ter atitude. E isso
significava cara de poucos amigos, calças rasgadas, coturnos, narizes furados com grampos
e, é claro, anarquia – ensinamentos que o pessoal de Candeias levou ao pé da letra. “A
turma se vestia de preto, ia para as festas dos ‘boyzinhos’ e destruía tudo. Em Candeias,

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mundo livre s/a

terra de praia e muito sol, eram mesmo que alienígenas”, relembra Tony Montenegro, hoje
com 32 anos, antes de soltar uma boa gargalhada.

Punk, praia e samba? - Mas um punk rocker escutaria Samba? E funk? A princípio, a
resposta é não. Mas um dos ícones do gênero, a banda inglesa The Clash, havia lançado, em
1981, o disco “Sandinista”. Nele, como disse John Piccarella em resenha da revista Rolling
Stones em março daquele ano, há uma verdadeira mistura de ritmos, sobretudo jamaicanos,
com espaço para o reggae e dub. “Essa mistura deu um curto-circuito na cabeça da gente”,
lembra Renato L.

É que em 1983, uma corrente do punk rock inglês ganhava força, a chamada
segunda geração – ou seja, posterior àquela dos Sex Pistols e do The Clash. Dela, faziam
parte bandas como Exploited e Damed, com as quais boa parte dos grupos de São Paulo se
identificava. Mas a turma de Candeias gostava mesmo era de The Clash. Então, misturar
samba e punk “era nenhuma”.

O resultado é o fim da Serviço Sujo e a fundação, em 1984, da mundo livre s/a. “A


proposta era ser uma banda com atitude de provocação oriunda do punk, anarquista, mas
que, musicalmente, não se limitasse às amarras do hardcore ou de qualquer outro gênero
específico”, explica Fred, que passou a se chamar Zeroquatro – nome de guerra formado a
partir dos dois últimos dígitos da sua carteira de identidade, como uma espécie de agente
secreto.

Para Renato L, a formação da mundo livre representou um processo evolutivo.


“Fred sempre foi talentoso demais para se resumir à simplicidade do punk rock. O
refinamento está até no nome da banda” – uma sutil ironia com o “mundo da liberdade”
norte-americano.

Em seguida, Neguinho e Avron saíram do grupo, para o qual entraram Tony,


Bactéria e Otto – que em 1996 deu lugar a Marcelo Pianinho. Fábio também deixou a
banda, no final de 2002, para a entrada de Júnior Areia. Está aí a formação atual: Fred

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mundo livre s/a

Zeroquatro no cavaquinho, violão, voz e guitarra; Bactéria nos teclados e nas guitarras;
Areia no baixo; Tony na bateria e Pianinho na percussão.

******

De volta a 2003, Rua José Bonifácio, 43, Madalena. São 15h e Damião faz os
últimos ajustes no ar condicionado. "Já era pra eles terem chegado", comenta, olhando o
relógio de parede. Com 45 minutos para encerrar as três horas reservadas ao ensaio, chega a
banda. Todos atrasados. A causa: fila de banco. Mas não há problemas, o clima é de alto
astral. Disco novo nas lojas, novo gás. “Esse é o melhor momento que a banda já viveu”,
destaca Zeroquatro, sorridente.

Damião é nome certo na lista de agradecimentos dos discos. Desde 1996, ano de
inauguração da casa, a mundo livre s/a ensaia no seu estúdio. “Acho isso uma bobagem”,
diz Damião, referindo-se aos agradecimentos. “Eles não estão pagando pelo serviço? Então,
por que agradecer dessa forma?”, indaga, encabulado.

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mundo livre s/a

VINCULADA 1

É punk esquema samba

“Mandou me chamar, eu estou aqui, o que é que há?”, parecia dizer o balacobaco
do samba de Dona Yvone Lara à sisudez do punk dos Sex Pistols, The Clash e companhia.
É que, na verdade, apesar de ter o rock do ABC paulista como um modelo pelo qual se
guiar, o punk do pessoal de Candeias sempre esteve acompanhado de samba, suor e
cerveja.

O disco de estréia da mundo livre s/a, por exemplo, lançado em 1994 pelo selo
Banguela, dos Titãs, tem o nome de “Samba Esquema Noise” – uma referência direta ao
disco de estréia de Jorge Ben, “Samba Esquema Novo”, considerado pela crítica musical
como um dos marcos do samba-rock brasileiro.

Para contar um pouco mais sobre essa influência, vale “um parêntese”. Zeroquatro
lembra que escutava o disco Tábua de Esmeraldas, comprado pelo seu pai, José Rodrigues
Montenegro, mais conhecido por Zelito, e fazia que tocava um violão, imitando Jorge Ben.
“Aí meu pai me prometeu que, se eu passasse por média na escola, me daria um
instrumento. Passei, ganhei um violão e ficava tentando aprender a batida do disco”,
recorda-se.

Mas não dava para ficar só imitando, era preciso aprender. Daí, Zelito chamou o
vizinho do prédio de trás, que era músico de uma banda de baile, para dar umas aulas ao
filho. No repertório, desde valsa até Kiss, banda de rock preferida do professor. Na primeira
aula, o garoto aprendeu três acordes, com os quais compôs uma canção.

No dia seguinte, apresentou-a ao músico. “Rapaz... tu és um compositor!”,


espantou-se o professor. “Pois é... gostei de inventar”, disse o garoto em seguida.
Zeroquatro não lembra o nome do professor, mas não esquece aquele momento, até porque
aquela era a primeira de uma série de “invenções”.

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mundo livre s/a

Do violão ganho de presente pelo pai para a guitarra foi um pulo – ou melhor, uma
noite. Era alguma sexta-feira de 1981, quando a Banda Vermelha das Trevas se apresentava
em um bar na avenida Bernardo Vieira de Melo, em Candeias. Os amigos Fred Montenegro
e Renato Lins vinham da praia, sem rumo, após fumar “unzinho”, quando entraram no bar
para ouvir o som.

“Do nada, no meio do show, o guitarrista chamou Fred ao palco para tocar guitarra.
Foi um momento decisivo... né?”, lembra-se Renato L, diringido-se ao amigo, com certo
saudosismo. “Decisivo, sim, pois era a primeira vez que eu pegava em uma guitarra”,
completa Zeroquatro. No dia seguinte a essa noite, veio a idéia de formar uma banda, a
Trapaça – mas essa história já foi contada. Bem, agora é hora de “fechar o parêntese”
aberto há quatro parágrafos e voltar a mundo livre, em 1984.

Punk e samba no mesmo groove - Surgiu, então, o primeiro show, em março, em uma
churrascaria, no bairro de Candeias. Na platéia, só os pais dos integrantes. Um mês depois,
a banda tocou em uma festa de 15 anos, também em Candeias, com a guitarra, o baixo e o
microfone conectados em um micro-system “3 em 1”. No repertório, só mundo livre, como
“Samanta Smith”, inédita até hoje, “Rios, pontes (smart drugs) e overdrives”, gravada no
disco de estréia, e “Quarta Parede”, do disco “Carnaval na Obra”, lançado em 1998. O
tamborim e o agogô estavam lá, presentes – o cavaquinho, porém, só entrou no som da
banda quatro anos mais tarde, em 1988.

Depois, foi a vez das boates da zona sul, como Lacadoro e Grants. No cartaz de
divulgação, lia-se “Show de rock com a banda mundo livre s/a”. “O pessoal via esse
anúncio e não entendia quando a gente começava a tocar com tamborim e outros
instrumentos de percussão”, diverte-se Zeroquatro. No palco, a platéia assistiu à esquisita
tentativa de misturar samba, psicodelia, noise e punk – o que se poderia chamar de
psychosamba.

Mas a banda encontrou seu público nos shows da Soparia de Roger de Renor, no
Pina; no Espaço Arte Viva, em Boa Viagem – coordenado por Lourdes Rossiter –; nas

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mundo livre s/a

apresentações no Espaço Oásis, em Casa Caiada, Olinda; e no circuito Viagem ao Centro


do Mangue. A partir daí, início da década de 90, a cooperativa que deu origem ao
Movimento Manguebeat começou a se formar e a unir Rio Doce a Piedade, Barra de
Jangada a Casa Caiada. Dividiram os mesmos shows bandas como Loustal, Chico Science
e Lamento Negro e mundo livre s/a.

Abril pro Rock - O show decisivo surgiu em 1993, no primeiro Abril pro Rock, sob as
lonas do Circo Maluco Beleza. Com o irmão caçula Tony na bateria, Bactéria nos teclados
e Otto na percussão, a mundo livre mostrou aos correspondentes da imprensa nacional,
como a revista Bizz e a MTV, presentes ao evento, que os caranguejos do Recife tinham
cérebro.

Ainda em 1993, o grupo se juntou a Chico Science e Nação Zumbi e caiu na estrada
em busca de contatos com gravadoras. Em São Paulo, fizeram uma apresentação na casa de
show Aeroanta, para 700 pessoas. Era a Mangue Tour, que incluiu, também, Belo
Horizonte.

Na volta para o Recife, as bandas trouxeram contrato assinado para gravação de


disco. Chico Science e Nação Zumbi assinou com a Sony o lançamento de três discos e a
mundo livre acertou com a Banguela, dos Titãs, a gravação do disco de estréia. Com
“Samba Esquema Noise”, a banda de Candeias entrou para o hall das mais importantes dos
anos 90. O disco ganhou o Prêmio Bizz em três categorias: Melhor Disco, Melhor Letrista e
Banda Revelação.

Com o segundo álbum, “Guentando a Ôia”, de 1996 – lançado pela Excelente


Records, um outro selo da Warner –, a banda estreou internacionalmente, com shows no
México. Em setembro de 1998, saiu o terceiro álbum, “Carnaval na Obra”, pela Abril
Music. Baseado nesse disco, a Associação de Críticos de Arte de São Paulo (APCA) elegeu
a mundo livre como a melhor banda do ano.

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mundo livre s/a

Em 2000, a banda ganhou outro prêmio da APCA. “Por Pouco”, lançado em 2000
pela Abril Music, é eleito melhor disco daquele ano. Agora, a banda aguarda os frutos de
“O Outro Mundo de Manoela Rosário”.

Sugestão de arte: discografia da banda

Samba Esquema Noise (Banguela/1994)


Guentando a Ôia (Execelente/1996)
Carnaval na Obra (Abril/1998)
Por Pouco (Abril/2000)
O Outro Mundo de Manoela Rosário (Candeeiro/2003)

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mundo livre s/a

MATÉRIA PRINCIPAL 3

Banda acertou na medida


Especialistas reconhecem importância da mundo livre s/a para música
brasileira

“Da lama para a fama: Recife inventa o manguebeat”, traz a manchete da primeira
reportagem sobre a cena recifense na imprensa nacional, escrita pelo jornalista José Teles e
publicada na extinta revista Bizz (Editora Abril), em março de 1993. Na foto, Fred,
acocorado no mangue do Rio Capibaribe, empunha o cavaquinho com uma mão, enquanto
a outra faz o sinal da patola do caranguejo. Ao seu lado, Chico Science e Nação Zumbi e o
restante da mundo livre s/a.

Exatamente um ano após a publicação da reportagem, a banda liderada por


Zeroquatro entrou no estúdio Be Bop, em São Paulo, para gravar o disco de estréia, “Samba
Esquema Noise”, produzido por Carlos Eduardo Miranda. “Fiquei quase três dias sem sair
do estúdio, sem dormir, possuído por aquele disco”, lembra Miranda.

A repercussão ganhou as páginas dos jornais. “A estréia do mundo livre s/a é


embasbacante. Esse segundo grupo a despontar da tal cena de Recife fez a última coisa que
se esperava: um disco importante”, dizia a nota publicada no jornal Folha de S. Paulo, em
05 de setembro de 1994. Era meados da década de 1990 e a banda despontava como a
grande novidade do pop nacional. Até na badalada coluna social de Joyce Pascowitch o
grupo figurou: “Malu Mader estréia agora como cantora. Faz backing vocal no disco da
banda mundo livre s/a, do Recife, no hit Musa da Ilha Grande”, dizia a nota, também
publicada em 1994.

Após quase 10 anos de estréia fonográfica e cinco discos lançados, pode-se dizer
que o grupo está mais do que inserido no contexto musical do País. “A mundo livre é uma
banda que, apesar de não ser uma das minhas preferidas, é importantíssima dentro do

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mundo livre s/a

cenário brasileiro”, admite o jornalista Luiz César Pimentel, diretor de redação da revista
Zero.

O músico João Marcelo Bôscoli, produtor e presidente da gravadora Trama, também


enxerga o grupo de forma diferenciada no cenário da música brasileira. “Acho uma das
bandas mais criativas dos nossos dias. Fred Zeroquatro é especial”, garante. A Trama é
responsável pela distribuição do último disco do grupo, “O Outro Mundo de Manoela
Rosário”, gravado pelo selo recifense Candeeiro Records.

Bôscoli participou da votação para eleger os 25 melhores discos do Brasil, realizada


pela revista Zero, na sua edição de agosto último. Em 16°, logo à frente do álbum “As
Quatro Estações”, da Legião Urbana, está “Samba Esquema Noise”. Além do produtor da
Trama, outras 178 pessoas, entre jornalistas, produtores, críticos e músicos, participaram da
votação. Bôscoli, porém, é um tanto cauteloso ao falar sobre o primeiro disco do grupo.
“Adotar o termo ‘clássico’ para se referir à mundo livre é curioso. Prefiro
dizer que é um grande álbum”.

Em uma outra recente votação, desta vez realizada pela Revista da MTV, em
fevereiro deste ano, 52 pessoas ligadas, direta ou indiretamente, ao ramo da música
elegeram os 100 melhores discos brasileiros de todos os tempos. Bôscoli também
participou dessa votação. Em 50° lugar está, novamente, o disco de estréia do grupo, à
frente de clássicos da música nacional, como o álbum branco de Caetano Veloso
(Philips/1969); Matita Perê (Polygram/1973) e Wave (AM Records/1967), de Tom Jobim;
e Volume 2 (RGE/1967), de Chico Buarque.

Pimentel procura justificar o bom desempenho de crítica do disco. Para ele o


“Samba Esquema Noise” marca o maior mérito da banda: misturar samba com guitarras
pesadas e samplers. O som une o harmônico e o pesado na medida certa. “Isso abriu a
cabeça de muita gente para a possibilidade de usar gêneros diferentes de forma harmônica e
com qualidade”.

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mundo livre s/a

O jornalista e escritor Alex Antunes, colaborador da extinta revista Bizz, segue pelo
mesmo caminho do diretor de redação da revista Zero: a banda de Candeias acertou no
tempero da mistura. Para ele, os tropicalistas abriram o que chama de “crise de dosagem”
que, em outras palavras, significa se perguntar o quanto de música de raiz e o quanto de
cosmopolitismo fazem ou fariam o pop nacional. “Essa dosagem, o iê-iê-iê e o samba-rock
fizeram sem se perguntar”, compara.

Mas para Antunes, essa é uma pergunta cerebral, cuja única maneira de ser
respondida é por meio do talento e da intuição, e não “cerebralmente”. “E o Zeroquatro tem
isso, apesar das suas preocupações políticas ostensivas”, afirma. Nesse sentido, a banda é,
para ele, o elo perdido da inspiração entre os compositores da MPB-pop da passagem dos
anos 60 para os 70 e o momento atual. Isso tem gerado, segundo Antunes, uma espécie de
retomada com boas conseqüências, como o Los Hermanos dos últimos dois discos. “Ou
seja, para ser Chico Buarque, só faltou o Zeroquatro ser lindo”, diz.

Para o também jornalista José Teles, autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat”,
lançado em 2000 pela editora 34, a mundo livre possui características que são só suas,
desde a sonoridade, até a postura política. “Eles fazem músicas de cunho social e político,
mas não pertencem a nenhuma facção, nem étnica, nem ideológica”, ressalta. Quanto à
música, Teles é contundente. “O som não tem parâmetros com outros grupos atuais. A
banda é única”.

Com relação a esse aspecto, Pimentel é um pouco mais ponderado. Para ele, a
originalidade se restringe aos três primeiros discos da banda – “Samba Esquema Noise”
(Banguela/1994), “Guentando a Ôia” (Execelente/1996), e “Carnaval na Obra”
(Abril/1998). “Esses três discos são muito bons. Desde então, vejo uma repetição na
fórmula, culminando neste último, de 2003 [“O Outro Mundo de Manoela Rosário”], que,
sinto, não acrescenta nada à banda”.

Alex Antunes compartilha, em parte, da mesma opinião de Pimentel. Apesar de ter


feito um disco de estréia, nas suas palavras, “maravilhoso”, a banda não manteve uma

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mundo livre s/a

regularidade quanto ao estilo de produção. “O segundo disco é espartano demais, simples


demais”, opina. Mas, ao mesmo tempo, “Guentando a Ôia” é apontado por ele como o
início da busca pelo equilíbrio entre uma mobilização excessiva de recursos sonoros,
presentes no “Samba Esquema Noise”, e a simplicidade. “Desde então, eles vêm tentando
achar um modo equilibrado de produção, com alguns resultados muito bons”, completa
Antunes.

Os resultados satisfatórios se devem, de acordo com Tárik de Sousa, do Jornal do


Brasil, à coerência e organicidade preservada pela banda ao longo dos discos. Segundo ele,
aceitar a tarefa de experimentar novas linguagens é um desafio e algo muito difícil. “O
importante é que nesses ‘altos’ e ‘baixos’ a coerência seja mantida, o que está acontecendo
com a mundo livre s/a”.

Para ele, o último disco da banda, o mesmo criticado negativamente por Pimentel, é
algo realmente inovador. “Uma mistura revolucionária de música, política, jornalismo,
roteiro de cinema”, destaca Tárik.

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mundo livre s/a

VINCULADA 1
Um grupo que nunca atingirá grande público

Por um lado, elogios da crítica: “mistura perfeita”, “banda única”, “disco


maravilhoso”, “Zeroquatro é especial”. Por outro, poucos discos vendidos: 15 mil cópias,
em média, segundo dados da Warner e Abril Music – detentoras dos direitos fonográficos
da banda.

Há controvérsias, porém, quanto a esses números. “Isso é uma máfia. Não temos
nem noção de quantos discos vendemos, pois deixamos de receber relatórios das
gravadoras há um bom tempo”, afirma Zeroquatro. Como exemplo, ele relata que a banda
vendeu cerca de 4,5 mil cópias nos Estados Unidos e nunca recebeu qualquer comprovante
de prestação de contas. ”Já do último disco, cujos números estamos acompanhando de
perto, vendemos 3 mil cópias em um mês!”, festeja o que considera um bom desempenho
mercadológico para uma banda independente.

Para o diretor de redação da revista Zero, Luiz César Pimentel, comemorar muitas
cópias vendidas nunca será uma prática do grupo. Ele encaixa a mundo livre no estereótipo
de banda cult, daquelas que agradam a crítica, mas nunca venderão muito. No entanto, o
grupo sempre manterá uma média de discos vendidos considerada boa, quando se trata do
contexto nacional. “Daqui a 20 anos, pessoas ainda vão estar comprando o disco. O grupo
contraria as bolhas de explosão, aquelas bandas que vendem 1 milhão de cópias e param
por aí”. De acordo com Pimentel, isso faz da mundo livre um bom exemplo para a indústria
musical.

O jornalista especializado em música Alex Antunes também afirma que dificilmente


a banda atingirá o grande público. O principal motivo que o leva a pensar dessa forma se
deve ao fato de Zeroquatro abrir mão do que ele chama de “estratégia de celebridade”, em
favor de um conjunto, formado pelos integrantes da banda. “Eu, sinceramente, acho essa
‘estratégia de celebridade’ mais prática, embora tenha seus riscos”. Nesse sentido, para
Antunes a banda é um veículo de um grande compositor de MPB, passando-se por coletivo.

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mundo livre s/a

Em outras palavras, Zeroquatro venderia mais se seguisse carreira solo, assim como Otto
que, para Antunes, é um bom exemplo de artista que se utilizou desse instrumento.

O ex-percusionista da mundo livre s/a abandonou a coletividade – a banda – logo


após a gravação de “Guentanto a Ôia” e seguiu carreira solo. Antunes argumenta, ainda,
que o seu disco de estréia, “Samba pra Burro” (Matraca/Trama/1998), apesar de ter sido
uma parceria com Apollo 9, leva apenas seu nome na capa. De acordo com a assessoria de
comunicação da Trama, gravadora pela qual Otto lançou seus outros quatro discos, o álbum
de estréia vendeu 30 mil, e o segundo, “Condom Black”, 20 mil – quase o dobro da média
da mundo livre.

José Teles, porém, discorda de Antunes. Para ele, outros artistas com trabalhos
muito mais complexos atingiram o grande público. “Isso é imprevisível”, garante. Como
exemplo, Teles cita os cantores do Tropicalismo, cujas músicas tocavam nas rádios “o
tempo inteiro”. Hoje, salvo um ou outro fenômeno isolado, são raros os grupos que
conseguem sucesso sem tocar no rádio. “A mundo livre não é uma exceção”.

Tárik de Sousa, do Jornal do Brasil, atribui a dificuldade de tocar no rádio não à


complexidade do trabalho do artista, mas a um a fator externo: a prática do jabá (valor pago
pelas gravadoras, para as rádios tocarem seus artistas). Ele compara o jabá à censura
imposta pela ditadura, que deixou de ser política para se tornar econômica. “Ou seja: sem
jabá, não se toca nas grandes cadeias de rádio e TV, as que atingem o povão e podem
motivar uma adesão maior ao ideário da banda”.

Uma outra barreira apontada por Tárik é a postura política do grupo. “A


probabilidade de altas vendagens de uma banda questionadora e incômoda para o sistema,
hoje mais deteriorado do que nunca, é pequena”. Mas mesmo assim, destaca ele, a mundo
livre s/a cumpre, dinamicamente, seu papel de não só inovar no cenário brasileiro, mas
buscar uma linha engajada, ansiosa por uma unidade latino-americana. “Até que ponto isso
será assimilado, vai virar corrente ou influenciará outros criadores, ainda é cedo para
definir”, finaliza.

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mundo livre s/a

MATÉRIA PRINCIPAL 4

Dois lados de um mundo sem meio-termo


Fãs e desafetos tentam explicar o amor e o ódio pela mundo livre s/a

Vinte anos de estrada, 10 de indústria fonográfica e cinco discos lançados. Uma


banda com esse histórico tem, naturalmente, fãs. Mas onde estão os fãs da mundo livre s/a?
Música estourada nas rádios ou videoclipe entre os mais pedidos da MTV nunca estiveram
no currículo do grupo de Candeias. Além disso, o grupo faz aquele tipo de som que ou
agrada ou desagrada, sem meio-termo. Portanto, não se vê um fã da banda facilmente,
andando na rua ou em cada esquina, por exemplo.

Em Olinda, em uma pequena casa dúplex do bairro de Ouro Preto, está um exemplo
de cultuador da banda. Trata-se do jornalista Bruno Brito, de 24 anos – seis deles movidos a
muito “samba esquema noise”, como ele diz. “O cara que curte o grupo não é uma pessoa
alienada politicamente, mas quem consegue enxergar a realidade das coisas, mesmo quando
ela não está explicitamente clara”, garante, para brincar em seguida: “poxa, será que sou
convencido?!”

Se Brito sente-se assim hoje, ele deve agradecer a Fred – não o Zeroquatro, mas a
um primo chamado Fred Brito. Foi ele quem o fez “enxergar a realidade”, em meio a uma
prateleira cheia de discos. Isso foi em janeiro de 1997, quando os dois passeavam pela
sessão de música de um supermercado no bairro da Torre, no Recife. Na prateleira,
“Guentando a Ôia”, segundo disco da banda, pela bagatela de R$ 13,00. “Compra, rapaz.
Essa banda é muito boa, vale a pena! E por esse preço...”, recomendou Fred Brito,
admirador do movimento Manguebeat e vizinho de Francisco Assis França, o Chico
Science, em Rio Doce.

Brito ouviu o conselho e tornou-se fã incondicional das criações de Fred e


companhia – não o primo, mas, agora, o Zeroquatro. “A mundo livre reúne, em suas
músicas, tudo o que há de bom e de ruim na vida. Numa hora, o grupo fala da causa dos

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mundo livre s/a

índios Xucurus [‘O Outro Mundo de Xicão Xucuru’, presente no último disco]; noutra, uma
música diz que vai fazer a mulher tremer [‘Treme-Treme’, do disco Por Pouco, de 2000]”,
argumenta.

Mas ele confessa ter sido o discurso politizado da banda que o conquistou. Ele conta
que na primeira vez em que foi a um show do grupo, ouviu um discurso de Zeroquatro em
defesa da resistência da Venezuela e de Hugo Chaves, frente a uma suposta conspiração
americana. “Isso mexe comigo. Ele não é o primeiro nem será o último a fazer isso. Mas
quem mantém essa postura de contestação hoje?”.

Originalidade – Para o editor de imagens George Tavares, de 27 anos, o grupo carioca O


Rappa também fala de questões políticas. “Mas não de forma tão clara como faz a mundo
livre, cujas letras me fazem pensar mais”, ressalta. O que chama atenção dele, além “das
letras que o fazem pensar”, é a diversidade rítmica. “Tanto faz tocarem uma coisa mais sutil
e dançante musicalmente, como também uma porrada, um hardcore”.

Tavares, morador de Jardim Paulista, Região Metropolitana do Recife, está


produzindo um CD-ROM da mundo livre s/a, a custo zero para a banda. Fã tem dessas
coisas. Foi justamente durante a produção desse CD-ROM que Tavares ouviu o que, para
ele, é a melhor definição do grupo. “A mundo livre é ímpar”, disse Jorge Du Peixe,
vocalista da Nação Zumbi. “A mundo livre é única! Quero ver alguém dizer: eles copiaram
essa ou aquela banda. Não tem como dizer isso, pois eles são originais”.

A originalidade é também destacada pela estudante de psicologia Bruna Roberta


Íris, de 22 anos. “Eles fazem um ritmo diferente, bem original”, afirma, com entusiasmo,
para, em seguida, derreter-se. “Acho tudo que Fred faz maravilhoso”. Para ela, não é difícil
identificar um fã da banda. “Quem gosta de boa música, gosta da mundo livre s/a”, garante.
No entanto, ela se confunde ao tentar buscar os motivos que a fazem ser uma fã. “Acho que
é por conta das melodias... ou das letras, que são sensíveis e, ao mesmo tempo,
politizadas... acho que é por aí... não sei”.

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mundo livre s/a

A estudante de psicologia considera-se uma louca pela banda, daquelas capazes de


fazer qualquer coisa para não perder um show, mesmo que esteja doente, com amidalite,
por exemplo – como aconteceu no último dia 12 de outubro, quando a mundo livre se
apresentou no campus da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Desde o Abril pro
Rock de 2001, quando viu a banda no palco pela primeira vez, ela vai a todos os shows.

“Me encantei. Achei o máximo. Eu nunca tinha ouvido uma mistura daquelas:
samba com punk rock; guitarra com cavaquinho”, lembra. Seu namorado à época, o
jornalista Marcel Tito, levou-a para a “fila do gargarejo”, bem em frente a Fred Zeroquatro.
Aliás, de acordo com Bruna íris, ser jornalista é meio caminho andado para gostar da
banda. É que outros dois amigos seus, além do ex-namorado, são jornalistas e fãs da banda
de Candeias.

Do outro lado do Mundo – O jornalista Roberto Beltrão, de 35 anos, porém, é enfático ao


discordar de Bruna. “Não tem nada a ver! Não há relação alguma entre ser jornalista e
gostar da mundo livre”.

Ele conheceu a banda na década de 1980, quando era baterista da N.D.R. – que,
posteriormente, deu origem à irreverente Paulo Francis vai pro Céu. Para a turma de jovens
que Beltrão integrava, Fred Zeroquatro era considerado uma espécie de guru. “Ele era mais
velho do que a gente e fazia umas letras bem sacadas”, lembra, citando como exemplo a
canção “Computadores fazem arte”, do álbum “Guentando a Ôia” (Execelente/1996).

De lá para cá, porém, na sua opinião, a banda não evoluiu: as letras já não o
impressionam, a influência de Jorge Ben tornou o som sacal, e o engajamento político soa,
nas suas palavras, à “Coleção Primeiros Passos”, da editora Brasiliense, ou à uma “apostila
de Marilena Chauí”, filósofa brasileira.

“As letras são de um engajamento político meio bobo. A mundo livre tenta fazer um
trabalho intelectualizado, mas, lamentavelmente, não consegue. Além disso, Fred não tem
carisma, tem voz chata e, quando o assunto é música, isso conta muito”, opina. Para aliviar,

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mundo livre s/a

um desagravo: “Nada de pessoal contra ele! Fred é um cara legal, bem intencionado, até
meio ingênuo. Ele é fã do subcomandante Marcos, veja só!”, ironiza.

O administrador de empresas João de Araújo, de 30 anos, compactua da opinião de


Beltrão no quesito voz. “As letras são legais, da política ao humor. Mas o que me irrita é o
jeito de Fred cantar.” Mas não é só isso. Para ele, o líder da banda não tem presença de
palco e a mistura entre samba e rock não deu muito certo.

Como fã da música brasileira, Araújo confessa que já fez de tudo para gostar da
banda de Candeias. Durante quase um mês, ouviu três discos emprestados pelo amigo
Fábio Marconi e chegou até a ir a um show, no campus da UFPE. Mas na terceira música,
ele foi embora. “Não tem jeito, eu me esforço para caramba para engolir o som”, lamenta.
Ele justifica a insistência: “Uma banda tão premiada e conceituada entre quem gosta de
música... e eu não consigo gostar? Será que tem alguma coisa errada comigo?”, diverte-se
Araújo.

“Não!”, responderia Beltrão, que se arriscou a traçar um perfil de uma pessoa que
gosta do grupo. A princípio, quem simpatiza com a mundo livre tem suas opiniões movidas
por uma espécie de “senso-comum-intelectualóide”, típicas de quem tem medo de ficar por
fora do que está em alta. “Se o lance é maracatu, vamos bater bumbo! Se o maneiro é o
bate-estaca-dance, vamos para a rave! Que saco! Será que a gente tem de dizer amém a
todos os modismos que ilustram as primeiras páginas dos cadernos de cultura? Prefiro ficar
em casa, ouvindo Beatles”, completa Beltrão.

A reflexão sobre a mundo livre o levou a elaborar, ainda, uma teoria para explicar
por que a banda sustenta-se na mídia. Para ele, há um lobby não só por parte de críticos de
música local que, na sua opinião, não gostam de falar mal dos artistas da terra; mas também
de críticos do sul e do sudeste do País. Estes, segundo Beltrão, caracterizam-se por cultuar
esquisitices, bizarrices, que, de acordo com ele, nunca vão cair no gosto da massa. Nesse
contexto, na sua opinião, está a banda de Candeias.

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mundo livre s/a

VINCULADA 1
Para argentino-mexicano, mundo livre s/a é a vanguarda da música

O estudante de arquitetura Fábio Giannuzzi é o que se pode chamar de um barbubo


simpático. Nascido, em 1982, em Santiago Del Estero, na Argentina, mudou-se para o
México com apenas seis anos de vida. Em Guadalajara ele cresceu e é lá onde vive hoje.
Foi lá, também, que se tornou fã de carteirinha da mundo livre s/a, ao descobrir o que
chama de “verdadeiro underground brasileiro”. “Eles são o que há de melhor, a vanguarda
da música!”, afirma, em alto e bom portunhol.

Aluno de arquitetura na Universidade de Guadalajara, Giannuzzi participa de um


programa de intercâmbio que o trouxe ao Brasil, onde está desde junho. Dos três motivos
que o fizeram viajar até aqui, todos estão diretamente relacionados à banda de Candeias.
Um deles é finalizar sua pesquisa de conclusão de curso, que conceitua a música enquanto
espaço arquitetônico, inclusive quando se trata do som da mundo livre. “Que formato teria
o som da banda se ele fosse um espaço físico?”, pergunta-se.

Giannuzzi pretende, também, conhecer melhor os integrantes do grupo e a música


contemporânea do Recife. Ele quer, ainda, levar a banda para tocar, pela segunda vez, em
Guadalajara. Mas por trás de tudo isso, há um objetivo maior: fazer música pernambucana,
nos moldes mexicanos.

A mistura entre tradições folclóricas e música de vanguarda, no estilo Movimento


Mangue, impressiona-o, até porque isso, segundo ele, nunca foi uma prática do país em que
vive, sobretudo em Guadalajara. “É uma sociedade muito fechada e preconceituosa”, diz.
Mas esse quadro dá sinais de que poderá mudar em breve, devido a uma espécie de
movimento de música eletrônica, com origem no norte do México – o Nortech, daí o nome.
“O que já acontece aqui há um bom tempo com o Manguebeat só começou a acontecer lá
há três anos, quando se passou a misturar música eletrônica com música folclórica”,
contextualiza.

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mundo livre s/a

Giannuzzi sempre gostou de música e se interessou por samba, ao mesmo tempo em


que ouvia rock. Mas as mistura entre os dois estilos – cavaquinho com guitarra – como faz
a banda de Candeias, é uma novidade para ele. “Vim ao Brasil para entender melhor como
tudo isso é feito”, revela. Até chegar ao Recife, ele não sabia que havia uma cena cultural
na cidade, criada por Fred Zeroquatro e Chico Science, apesar de conhecer o trabalho das
bandas lideradas por eles. “É mais ou menos isso que eu quero fazer na minha cidade: uma
espécie de movimento”, planeja, entusiasmado.

O fato de ser fã da mundo livre levou Giannuzzi a aprender a tocar cavaquinho,


comprado durante uma viagem ao Rio de Janeiro. “Pegava pela internet os acordes e
tentava tocar as músicas”. Ele montou, então, uma banda com amigos que já haviam tocado
com ele em um outro grupo, o La Goma. No repertório, uma versão de “Livre Iniciativa”,
do disco “Samba Esquema Noise”.

A volta para Guadalajara está marcada para janeiro. “Na bagagem, levarei muito
samba esquema noise”, brinca. Até lá, ele pretende acertar com o grupo alguns shows no
México, com seu grupo abrindo as apresentações. De acordo com ele, há público de sobra
para a banda. “Hoje, muito mais gente os conhece do que em 1997, quando tocaram em
Guadalajara”, garante.

Fábio Giannuzzi é uma prova de que o sinal emitido pela “parabólica enfiada na
lama”, pensada por Fred Zeroquatro à época do Manifesto Mangue, em 1993, tem difusão
garantida no país do zapatismo. “Viva, México!”

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