Entredentes antropofágicos: um museu de grandes novidades

“Lembre-se da palavra de ordem de Mao „de derrota a derrota, até a vitória final‟, que
ecoa a divisa já citada de Beckett: “Tente de novo. Falhe de novo. Falhe melhor”
Slajov Zizek, Em Defesa das Causas Perdidas
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

Introdução

A peça Entredentes, dirigida por Gerald Thomas e estrelada por Ney
Latorraca, Edi Botelho e Maria de Lima representa a volta do ator Ney
Latorraca aos palcos após um período em coma.
Desde os anos 2000, Gerald Thomas passou a produzir a própria
dramaturgia, deixando de lado a direção de peças de outros autores.
Os nomes dos personagens são Ney, Edi e Maria. Ao contrário da peça
anterior, Throats (Gárgulas) em que o objetivo era o diálogo com o público
internacional e até mesmo tinha legendas, essa tem um ator de grande
visibilidade na Rede Globo, Ney Latorraca, que aliás é um grande ator cômico.
A peça apresenta Ney chegando de astronauta junto com Edi, depois
desloca-se para um Muro das Lamentações que, por fim, passa a ser o Muro
de Berlim. Nesse ínterim, muitas obsessões são revisitadas, embora o cenário
modifique-se: Esperando Godot, de Beckett, é uma influência muito presente. A
singularidade dessa peça em relação à produção anterior é que essa peça não
baseia-se tanto em imagens, ela busca ancorar-se firmemente no texto, um
texto que precisaria ser comunicativo para o público brasileiro, mas que está
totalmente voltado para o que ocorre no estrangeiro. Tanto que o diretor e o
ator abandonaram as extravagâncias da peça anterior, em que o diálogo, em
inglês, era transmitido em legendas no palco. O elenco era de atores de várias
nacionalidades, mas em sua maioria, composto de ingleses. Da London Dry
Opera, nessa peça Entredentes, ficou apenas a atriz portuguesa Maria de
Lima, que é um verdadeiro “animal de palco”, como se diz em Portugal. Ela
rouba a cena até do veterano Ney Latorraca.
O cenário é uma enorme vagina que, da forma como é apresentada,
remete a um “buraco negro”, quem sabe passagem para outra dimensão, a
partir do qual os “cosmonautas do espaço interior” surgem para a plateia.
Pode-se também especular que trata-se da viagem do astronauta Marcos
César Pontes durante o governo Lula, que resumiu bem o espírito do tempo: o
Brasil decolando falsamente para o espaço sideral, como na imagem que
utilizou o Cristo Redentor como um foguete e que foi reproduzida na capa de
revistas internacionais. No entanto, logo essa imagem foi substituída por uma
imagem de um Cristo-foguete rodando desgovernado e voltado para a terra ao
invés de fazer sua trajetória para cima. Igualmente, o programa que colocou
Marcos Montes em órbita foi criticado por representar simplesmente a compra
de um ingresso em um programa espacial estrangeiro e não o desenvolvimento
de um programa espacial capaz de colocar um satélite em órbita, façanha que
recentemente um país com bem menos recursos, tal como a Coreia do Norte,
conseguiu realizar. Sem isso, o Brasil depende de aluguel de satélites,
pagando um valor muito alto por isso.
Pode-se dizer que Entredentes, embora não seja o melhor da produção do
encenador Gerald Thomas, é uma peça apresenta alguns impasses da
dramaturgia do diretor e que serão analisados aqui.

1. Grunhindo do berço até a tumba: texto e imagem sob o signo
da vagina dentada

O texto e a dramaturgia de Entredentes é o grande impasse que o
espetáculo tem que enfrentar. Primeiro, como para o texto escrito para
Fernanda Montenegro e Marco Nanini, esse texto do diretor dialoga com o que
o ator Ney Latorraca está vivendo, sua experiência de coma recente, com
certeza aproveitando elementos caros ao ator Ney Latorraca: a religião espírita,
o judaísmo (o próprio teatro está no bairro judeu do Bom Retiro), as músicas de
sua época: o personagem do astronauta/judeu ortodoxo canta a canção
saudosista Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa, celebrizada por Sílvio
Caldas. Maria de Lima, que também faz o papel de si mesma, canta Trem das
Onze, de Adoniran Barbosa, canção que recentemente produziu um estranho
intertexto: enquanto o prefeito Haddad e o governador Alckmin cantavam uma
canção sobre o transporte em Paris, uma enorme manifestação contra o
aumento de ônibus estremecia São Paulo e estendia-se ao restante do Brasil,
configurando as já históricas Jornadas de Junho, depois das quais o país não
mais foi o mesmo, entrando de fato em outra fase. Ficou evidente a falácia de
que o país estava numa conciliação capital/trabalho e iria para o “primeiro
mundo”. Isso é parte do espírito do tempo, mas o texto de Thomas é como um
deus Janus, o deus bicéfalo que mira tanto o presente quanto o passado.
No entanto, o pescoço está mais voltado, nostalgicamente, para o passado:
quando se fala nas novas tecnologias, há sempre resistência em relação a
elas, há saudade do passado, mas sem encontrar nessa saudade uma força
crítica. Quando o médium Latorraca fala em download, ou seja, baixar coisas
na internet, associa-se esse “baixar” ao ato de “baixar” os espíritos, ou seja,
fazer com que baixem novamente à terra em um “cavalo”, ou seja, um pai de
santo ou médium que faz as vezes de intermediário. A luz, nessa passagem da
peça, dá a idéia de que o que está ocorrendo é o “baixar” dos espíritos.
Defende-se o espiritismo enquanto metafísica moderna, dizendo que ele não é
mais coisa de figuras estranhas, com peruca, morando no interior (supõe-se,
então, uma referência à figura do médium uberabense Chico Xavier).
Assim, os personagens Edi e Ney parecem estar num prólogo
interminável ao modo dos diálogos dos dois vagabundos em Esperando Godot.
Já ao final da peça, o personagem de Ney fala sobre isso, nesses termos, num
lance de metateatro. Também surge uma referência à peça Circo de Rins e
Fígados, comentando justamente o fato de que ela já aconteceu há quinze
anos atrás. Esse comentário se dá com bastante perplexidade e dá o tom geral
nessa peça: nela, embora o cenário mude de um lugar ermo onde chegam
astronautas, para um muro das lamentações, muro entre Israel e Palestina e
cena que apresenta um muçulmano e um judeu diante da parede que simboliza
o Muro das Lamentações, em Jerusalém, anexo a uma fachada de favela, é um
visível o desconforto com o passar do tempo, desconforto que se transfere à
plateia (RIOS, 2014).
É a entrada de Maria Lima que explode com esse clima, introduzindo a
temática sexual, a música brasileira, etc. Ela introduz, entre as questões
nacionais, também um dilema fáustico: fazer ou ceder um espaço para um
comercial, para o artista, seria como fazer um michê, ou seja, prostituir-se.
O tempo parece ser o principal problema de toda a parte inicial da peça.
Num tempo que parece não passar enquanto Godot não chega, Ney Latorraca
preenche o vazio com algumas piadas do texto do diretor, piadas muitas vezes
sem graça às quais Ney Latorraca consegue conferir graça. Dificilmente, se
tivéssemos outro ator, seria possível segurar essa parte da peça. Se ela se
sustenta, é devido ao talento cômico e imenso carisma de Latorraca.
Assim, embora o caminho de Ney Latorraca seja de celebrar a vida e ver
a leveza das coisas com humor, ele pontua com esse tom apenas a primeira
parte de Entredentes. A segunda parte, marcada pela aparição quase ciclópica
de Maria (Maria de Lima) deixa sua atuação, ainda que graciosa e marcante, à
parte. É porque Maria, com a voz do antigo colonizador português, apresenta
queixas a respeito do Brasil, um ponto extremamente sensível nessa peça, em
cujo núcleo está a seguinte questão: Gerald Thomas, embora tenha carreira
internacional, tem nome e destaque principalmente no Brasil e nem tanto no
exterior, mas não entende e nem tem uma teoria sobre o Brasil, atendo-se a
atacar a conciliação de classes e o oportunismo promovido por Dilma e Lula,
observando a realidade nacional apenas superficialmente: “corrupção, sujeira,
favelas, etc”.
Um pouco à maneira de Paulo Francis e Olavo de Carvalho, Thomas
vive no exterior, sempre exprimindo posições críticas em relação ao Brasil e
protagonizando episódios polêmicos, como o recente ataque à modelo e
repórter Nicole Bahls, que provocou protestos de feministas.
Se de início estava profundamente rompido com Lula, governo em que
polemizou estrepitosamente com o ministro Gilberto Gil, Gerald Thomas adotou
uma posição mais conciliadora em relação a Dilma. Ela é citada de forma muito
vaga e dúbia em Entredentes. A crítica é feita “entredentes” mesmo, ou seja,
nas entrelinhas. Diz-se algo como “é todo mundo com Dilma...né?”. Maria de
Lima afirma sobre a peça, na página da London Dry Opera no facebook:

É quase como se as personagens não existissem. Todos nós representamos
fragmentos do Gerald [Thomas] e fragmentos de nós próprios, inseridos numa
atualidade. Há referências ao que se passa no mundo, ao que contribuiu para os
acontecimentos que vivemos neste momento, com um aglomerado de fatores
históricos e políticos (LIMA, 2014).

Essa aparição, a partir da qual a peça passa a abordar problemas
políticos, mencionando também a Ucrânia e Stálin. É forte a presença da
problemática da tortura dos militantes de esquerda durante a militar, um
assunto muito recorrente, já tendo sido tratado em Circo de Rins e Fígados e
que atualmente voltou à voga devido ao passado guerrilheiro de Dilma e a
criação da Comissão da Verdade. O convívio com o Brasil traz intranquilidade.
Já ao final, Ney comenta-se que, ao ir ao psicanalista, ele fala sobre Cuba,
guerrilha, ou seja, de forma alguma o convívio com a realidade do terceiro
mundo é tranquilizadora. Ainda mais que ela é vista de um ponto de vista que
se pode dizer que é “de dentro da boca do leão”, ou seja, do ponto de vista de
artistas (Ney e Thomas) articulados numa indústria cultural que muito deve ao
capital estrangeiro (Rede Globo, monopólios de imprensa), o que limita o raio
de sua crítica e os obriga a “arranhar a superfície”. A postura prática sobre o
país é extremamente ambígua: embora o diretor critique Zé Celso Martinez
Correa por “depender do crack do estado”, o próprio Gerald Thomas
supostamente entrou com um pedido de patrocínio do MINC para o seu livro
“Arranhando a Superfície”, no valor de trezentos mil reais.
A temática da Ucrânia tem levantado novamente a discussão sobre
Stálin e, em geral, os assuntos russos, uma vez que, na prática, o Ocidente
(USA e União Europeia) apoiam um governo que tem, entre seus
componentes, forças neonazistas que têm se mostrado muito ativas, inclusive
atacando judeus e pessoas de etnia russa. Entredentes não consegue articular
um discurso a respeito, apenas pontua a questão de Stálin: “O que Stálin
pensaria disso? E Hitler...Stálin tinha uma mulher georgiana...E tinha
bigodes...” A atenção dada à figura de Stálin, à qual tem estado em evidência
depois dos acontecimentos na Ucrânia, quando estátuas de Lênin foram
derrubadas e neonazistas tomaram o poder, tendo sido combatidos por
comunistas que usavam bandeiras de Stálin. Igualmente, um professor de New
Jersey, Grover Furr, publicou recentemente Kruschev Mentiu, livro em que
verifica que famoso relatório de Kruschev sobre os abusos de Stálin é carente
de fundamento histórico. No entanto, Stálin, em Entredentes, é esvaziado de
seu conteúdo histórico; é apenas um símbolo que é mencionado, em meio a
um delírio alucinado. É apenas mais uma referência aleatória, se bem que essa
sim, significativa. Ao citar Stálin, Thomas acertou, se sua intenção era falar do
espírito do tempo.
A esta altura, uma figura puxa a outra e passa a tanto fazer a ditadura da
burguesia quanto a ditadura do proletariado. Sob essa ótica liberal, os
ditadores são como jogadores de futebol, são uma mesma pessoa, apenas
trocam de time. A questão do futebol também é enfocada numa provocação na
primeira parte da cena, dita por Ney Latorraca em diálogo com Edi, quando se
fala na “torcida gay fundamentalista do Flamengo. A linguagem a que o diretor
recorre é transgressora, violenta, agressiva, escatológica por vezes, mas, no
fundo, como quando fala das novas mídias sociais e tecnologias, ela se mostra
conservadora. A nostalgia surge em canções como Chão de Estrelas. Ao
mesmo tempo em que mistura valores e transgride hierarquias, sonha em volta
atrás, com o tempo em que havia hierarquias e valores eram para ser
respeitados; isso é o mesmo que lamentar que no Brasil não houve
derramamento de sangue ou revolução, mas negar os black blocks por serem
demasiado violentos ou “vândalos”.

2. Alguns fios soltos entredentes: a vida é devoração

Em Entredentes, é grande a tensão entre os diversos gêneros teatrais que a
peça conjura (musical, drama político, comédia), que fragmentam e não
permitem que o espectador consiga discernir uma narrativa. Outro elemento
problemático é que, embora o cenário, a iluminação e os nomes dos
personagens variem bastante numa mesma peça, alguns estilemas, temáticas
e influências são extremamente persistentes e repetitivos no teatro de Gerald
Thomas. A extrema fragmentação e variação busca esconder a insistente
obsessão com Esperando Godot. Didi, Estragon e Pozzo tornam-se, então,
Maria, Edi (“Didi”), Ney. Edi e Ney conversam entre roupas de astronauta num
lugar que ninguém sabe onde é, esperando algo que não chega, dizendo
piadas numa espera interminável. Tal prólogo sem fim incitou a crítica de
Nelson de Sá na Folha, respondida com antipatia pelo próprio diretor em seu
blog:

Os dois jogam conversa fora por uma hora e meia _sobre a saúde de Latorraca, o
Oriente Médio, qualquer coisa. Ao longo da peça, até o final, Didi cobra repetidamente
que ela não sai do prólogo. Embora seja o que permite desenvolver sua comédia
sobre o nada, como se dizia da série, aos poucos o espectador passa a se perguntar
também: Quando vai começar? Quando é que vai parar de arranhar a superfície? Não
é só questão de duração, embora “Entredentes” se estenda muito além dos curtas e
até dos longas de “O Gordo e o Magro” _ou da meia hora das séries cômicas de
televisão. É que Thomas, como autor, não parece mais ter as certezas que já
demonstrou um dia. De todo modo, perto do que se viu em produções recentes em
São Paulo, é um renascimento, em parte inspirado pelos talentos cômicos de
Latorraca, Botelho e da atriz portuguesa Maria de Lima _cuja personagem, Maria, para
insistir no paralelo com “Seinfeld”, parece uma mistura de Elaine e Kramer, ou ainda
de Pozzo e Lucky, de “Godot”. Maria faz, expressamente, a voz do autor-diretor no
palco, uma intervenção enriquecedora na rotina da dupla cômica. Mas seus discursos
afetadamente geopolíticos, apesar do humor na interpretação, vão da ligeireza à
obviedade, com efeito frustrante (SÁ, 2014).

Para Gerald Thomas, em resposta a essa crítica de Nelson de Sá
publicada em seu blog, “a expressão desse nada é justamente é a essência
buscada por um autor vivo sobre tempos tão efêmeros quanto os de hoje”.
(THOMAS, 2014).
Outros problemas, além dos apontados por Nelson de Sá, são os
seguintes: os personagens da dramaturgia de Thomas são rasos, em geral
sem nome. Ele não chega a fazer tipos, para evitar estereótipos muito óbvios,
mas mesmo assim são traços muito vagos que definem seus personagens,
definidos em geral por suas falas e ações, quase sempre amalucadas. Pode-se
dizer que Thomas é bom diretor, no sentido em que bom diretor é aquele que
sabe que, se tal personagem ficar com a mão erguida, será melhor, mais belo.
Como dramaturgo, no entanto, ele não cria personagens típicos, ou seja,
personagens que sintetizem elementos de pessoas reais, iluminando-os e,
assim, podendo ser reconhecidos. Um exemplo é um banqueiro honesto,
altruísta e gastador. Ele pode ser um personagem interessante, mas não pode
jamais ser um personagem típico. Os personagens de Thomas parecem ser
apenas veículos das obsessões do diretor. Parecem como jogadores de
futebol: são sempre os mesmos, apenas mudam de time (os times seriam as
peças).
Em geral, os personagens de Thomas não são normais: a voz do ator é
esganiçada, diz palavras sem sentido, o diálogo não se completa ou é
desnecessário ou absurdo para aquela cena. A peça, enfim, é sempre um
diálogo às escuras com as obsessões e neuroses do diretor: seu recalque de
infância no Rio, onde sofria por ser maltratado na escola, uma vez que era um
estrangeiro; suas ambivalências sexuais que também não passaram impunes,
fazendo com que ele tenha sempre o desejo da crueldade e da vingança nos
“recalques brasileiros”; o desrecalque pela via do palavrão, que é “enobrecido”
pela associação com filósofos como Wittgenstein e Deleuze.
De certa forma, ele faz análise expondo seu inconsciente para o público,
que faz as vezes de analista. Uma boa ideia seria uma peça autobiográfica,
mas o fato de escrever para um ator de visibilidade, levando em conta o que
está vivendo, dificulta esse intento, além do que, uma peça sobre si mesmo
seria expor demasiado o narcisismo que percorre até mesmo as montagens de
outros autores que Thomas fez e representaria um risco.
Entredentes repete All Stage Away, de Beckett, montada por Gerald
Thomas e seu maior sucesso nos Estados Unidos até agora, daí a
compulsão/repetição com que Thomas volta a esse tema, agora com Ney
Latorraca em situação análoga. A publicidade da peça aproveita-se da doença
do ator, o que sempre é notícia na mídia (o que também tem turbinado o
sucesso de Entredentes). A peça contava com Julian Beck, do Living Theatre,
já doente de um câncer que, em breve, o mataria. A peça tinha, como
Entredentes, uma voz em off que falava ao personagem de Julian Beck e que
era, inclusive, sua própria voz.
O espiritismo tem em comum com o teatro de Gerald Thomas a disjunção
entre corpo e “alma” – no caso dos espíritas propriamente ditos, a alma é
representada principalmente pela energia psíquica presente na voz.
Thomas não se diz um diretor, mas sim um encenador e autor teatral. De
fato, há alguns anos ele tem redigido os próprios textos, criando sua própria
dramaturgia. Quando ele dirigia trabalhos de outros autores, ele na prática
encontrava brechas para sua própria voz em muitos momentos. Sua visão era
sempre muito parecida com a dos poetas concretos paulistas, que
praticamente relêem toda a tradição ocidental a partir da poesia concreta. Ao
traduzirem Maiakósvski, “esquecem” que no poema Lênin o velho Maiakóvski
citou Stálin e adotam a versão de Trotsky de que ele se suicidou por motivos
políticos, embora o próprio Trotsky admitisse que, quando de seu suicídio, ele
estava participando da Associação dos Escritores Proletários. Os concretos
deixam claro que, para eles, Maiakóvski só sobrevive devido a seu poema para
o poeta simbolista Iessiênin e não devido ao poema Lênin. E ainda iam mais
além: os concretos colocavam frases de Caetano Veloso e Roberto Carlos em
suas traduções de Maiakóvski, a título de avacalhação criativa com a esquerda.
Algo semelhante aconteceu quando os concretos traduziram parte da Bíblia do
hebreu. A Bíblia mostrou-se um insuspeitado texto de poesia concreta que
começava com a frase: “Dia um” (!).
Se em montagens nos Estados Unidos e na Inglaterra estranha-se
quando, numa peça de Beckett, além de latas de lixo onde estão o pai e a mãe,
há mais algumas latas de lixo que possivelmente são uma liberdade que o
diretor tomou, a crítica questiona se essas latas de lixo seriam para o resto da
família. Esse tipo de detalhe é anotado e cobrado. Já Thomas encenou Luar
Trovado, de Schonberg, misturando esse compositor alemão, de forma
expressionista, com a funqueira carioca Tati Quebra-Barraco –e a peça não é
recusada pela crítica e nem pelo público, que aqui são tolerantes com esse tipo
de mistura, realizada a propósito da estética tropicalista de misturar o mau
gosto e o bom gosto, o elemento da indústria cultural e o elemento erudito, etc.
Assim, por não termos uma tradição de arte clássica tão enraizada, a margem
para a experimentação, no Brasil, é mais larga. Pelo contrário: há, desde o
tropicalismo, uma forte valorização do grotesco, do kitsch, sempre ao lado do
refinado, da alta cultura. O escândalo e o deboche de Caetano Veloso, Ney
Mattogrosso e Zé Celso abriram espaço para o teatro de Gerald Thomas, que
passa a ser, ainda por vias tortas, um herdeiro e continuador da tropicália.
Sendo assim, Entredentes reafirma alguns elementos recorrentes nas
peças anteriores de Gerald Thomas, principalmente as redigidas por ele
próprio. Nessa peça, Thomas evitou a fumaça, estilema muito recorrente em
peças anteriores. No entanto, ele centrou a peça no texto e mesmo nele, aboliu
a linearidade, fazendo uma narrativa fragmentada, onde se discutem vários
assuntos, construídas por jogos de luz que, ao contrário das falas, que
parecem por vezes serem orientadas apenas pela musicalidade das palavras,
pelas repetições e trocadilhos, são bastante rigorosos e sempre dialogam com
a música e buscam um clima certo para aquela cena. A voz off de um
personagem que está em cena aparece como uma voz de um espírito,
fantasmagórica, assim como buscou colocar Ney Latorraca representando um
drama semelhante ao vivido por Julian Beck em All Stage Away.

3. Conclusão

A peça Entredentes representa um esforço dramatúrgico por parte de
Gerald Thomas, mas que mais uma vez demonstra algumas de suas limitações
enquanto dramaturgo: não constrói personagens, propriamente, revisita temas,
imagens e obsessões. Há uma notória tensão entre as mudanças de ambientes
e as obsessões e repetições que permanecem, subterraneamente, nessa
dramaturgia, uma espécie de andar em círculos. Há uma obsessão em chocar
através da sexualidade, da escatologia. Uma nova peça sempre dialoga com
Beckett e, em especial, com Esperando Godot. Thomas é atraído
principalmente pela disjunção entre corpo do ator e a voz presente no palco,
daí a familiaridade com a temática do espiritismo, religião em que a pessoa é
tomada por uma voz que representa a “alma” do morto, ou seja, sua energia
psíquica que sobrevive a si mesmo, sobrevive à morte de seu corpo.
A grande questão nessa peça foi que ela voltou-se para fornecer texto para
um ator global, um ator de visibilidade, que necessariamente precisaria ter
texto e diálogos, de outra forma se frustraria. Isso foi complexo, uma vez que o
teatro de Thomas é não-dramatúrgico. Para tanto, Gerald parece ter permitido
a Ney Latorraca redigir conjuntamente com ele o texto, inspirando a peça na
experiência do coma que Ney acabava de viver. Possivelmente, os delírios de
Ney na cama e doente é que inspiraram as imagens e falas de Entredentes,
onde tudo é dito nas entrelinhas, pouco claramente, como costuma ser uma
fala entre os dentes.

4. Bibliografia:

LIMA. Maria de. London Dry Opera.
https://www.facebook.com/events/579321005411799/?ref=52&source=1

RIOS, Jefferson. Gerald Thomas busca a síntese de vários impasses.
http://www.estadao.com.br/noticias/arte-e-lazer,gerald-thomas-busca-a-sintese-
dos-muitos-impasses-contemporaneos,1159785,0.htm

SÁ, Nelson de. Pelas frestas, o renascimento de Nei e Didi.
https://www.facebook.com/events/579321005411799/?ref=52&source=1

SUSSEKIND, Flora. A imaginação monológica. Notas sobre o teatro de Bia
Lessa e Gerald Thomas. <<file:///C:/Users/Lucio/Downloads/25638-29642-1-
SM.pdf>>

THOMAS, Gerald. Entredentes
Arrasando.<http://geraldthomasblog.wordpress.com/2014/04/15/programa-
metropolis-otimo-entredentes-arrasando/screen-shot-2014-04-16-at-3-00-34-
am/>>.

ZIZEK, Slajov. Em Defesa das Causas Perdidas. São Paulo: Boitempo, 2011.

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