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AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO PRODUTIVO DO PIRARUCU, Arapaima gigas, ALIMENTADO COM DIFERENTES DIETAS EM SISTEMA INTENSIVO DE TANQUES-REDE

1

Rondon Tatsuta Yamane Baptista de Souza 2 , Sarah Ragonha de Oliveira 2 , Edinael Alves de

Sousa Júnior 2 , Eduardo Akifumi Ono 2 , Rodrigo Roubach

3

, Elizabeth Gusmão Affonso 4 .

1. Parte dos trabalhos do primeiro autor, Bolsista PCI/MCT/INPA: rondon@inpa.gov.br

2. Colaboradores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Manaus-AM

3. Gerente de Projetos da SEAP/PR

4. Pesquisador do INPA/CPAQ – Manaus- AM : pgusmao@inpa.gov.br

Resumo: O presente estudo teve como objetivo avaliar o desempenho produtivo do pirarucu, Arapaima gigas, alimentado com diferentes dietas em sistema de criação intensiva em

tanques-rede. Utilizando um esquema fatorial 4 x 2 (quatro relações energia:proteína – 11, 10, 9 e 8 kcal/g de proteína – e duas fontes de energia não-protéica – óleo de soja ou gordura animal) em triplicatas, foram distribuídos aleatoriamente 432 peixes (2.132,8 ± 42,4 g) em 24

tanques-rede de 6 m

210 dias com as 8 rações experimentais. Foram feitas biometrias mensais e análise dos seguintes parâmetros de desempenho dos peixes: ganho de peso diário (GPD); taxa de eficiência protéica (TEP); consumo médio de ração individual (CMRI); conversão alimentar aparente (CAA); e taxa de crescimento específico (TCE). Os resultados dos parâmetros zootécnicos demonstraram que os peixes alimentados com a relação mais alta de energia:proteína (11 kcal/g proteína) apresentaram o menor peso final e menor ganho de peso (p<0,05). A relação energia:proteína de 9,0 kcal/g proteína resultou em melhor desempenho zootécnico, apresentando melhor GPD, CAA e maior TCE, quando comparadas às rações com maior relação energia:proteína. A fonte de energia não protéica não influenciou nos parâmetros zootécnicos. Os resultados sugerem que a relação energia:proteína de 9 kcal/g de proteína proporciona ao animal melhor desempenho no sistema intensivo em tanques-rede.

Palavras-chave: nutrição, piscicultura, relação energia:proteína

de volume cada. Os peixes foram alimentados duas vezes ao dia durante

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Abstract: The present study evaluated the productive performance of pirarucu, Arapaima gigas, fed with different diets and raised in cages. Using a 4 x 2 design (four energy:protein ratios – 11, 10, 9 and 8 kcal/ g of protein – and two non proteic energy sources – soybean oil and animal fat), in triplicates, 432 fish (2,132.8 ± 42.4 g) were randomly distributed in twenty four 6m 3 -cages. Fish were fed twice a day during 210 days with the 8 different experimental diets. Mensal biometry was made to determine the following parameters: diary weight gain (GPD); proteic efficiency ratio (TEP); individual feed consumption mean (CMRI); apparent feed conversion (CAA); and specific growth rate (TCE). The results showed that fish fed diets containing the higher energy:protein ratio (11 kcal/g of protein) presented the lower final weight and the lower weight gain (p<0,05). Fish fed with the diets containing 9,0 kcal/g of protein presented the best performance, showing higher GPD, CAA and TCE, when compared to the fish fed the diets with higher energy:protein ratio. The different non proteic energy source had no influence on the analyzed parameters. The results suggest that diets containing 9 kcal/g of protein provided a better performance of pirarucu raised in cages. Keywords: energy:protein ratio, fish culture, nutrition

Introdução

O pirarucu, Arapaima gigas, é um dos maiores peixes de água doce do mundo. Apesar do grande potencial para a piscicultura, a criação desta espécie apresenta entraves comuns a criação de peixes carnívoros, como a inabilidade de aceitar de imediato as rações secas e a baixa disponibilidade de alimentos adequadamente balanceados. Segundo Robinson & Li (1997), a proteína é responsável pela maior parte do custo de uma ração, o que torna a nutrição das espécies carnívoras muito cara. Além disso, estudos mostram que os peixes se alimentam para satisfazer suas necessidades em energia, e que excessos podem acarretar em menor consumo e menor ganho de peso (Page & Andrews, 1973). Assim, uma alimentação balanceada, com níveis de proteínas e energia adequados, é essencial para o sucesso de uma criação. Se o teor de energia de uma dieta não for suficiente,

ou se a proteína for de baixa qualidade, esta será deaminada para servir como fonte de energia para o metabolismo, acarretando em menor ganho de peso e maior deposição de gordura. Os estudos sobre nutrição do pirarucu ainda são escassos e pouco se sabe a respeito das exigências nutricionais básicas desta espécie. Desta maneira, este trabalho teve como objetivo avaliar o desempenho produtivo do pirarucu em condições reais de criação, alimentado com dietas contendo diferentes relações energia:proteína e duas fontes de energia não protéica, em sistema de criação intensiva.

Material e Métodos

Juvenis de pirarucu, com peso médio de 2,5 g e 3,0 cm de comprimento, foram adquiridos de produtores locais e conduzidos até a Coordenação de Pesquisas em Aquicultura (CPAQ) do INPA em Manaus, AM. Com cerca de 5,0 cm de comprimento e 5 g de peso, os

peixes foram transferidos para um tanque-rede (TR) de 1 m 3 , instalados em um viveiro de 50

m

Após o período de condicionamento alimentar, os peixes foram transferidos para 24 TR de 6 m 3 , instalados numa barragem com aproximadamente 3 ha. Com peso médio de 2.132,8 ± 42,4 g (média ± DP), 432 peixes foram distribuídos, aleatoriamente, em 24 tanques-rede. Durante o período experimental, os peixes foram alimentados durante 210 dias, duas vezes ao dia (08:00 e 16:00 h) com as rações experimentais, produzidas na CPAQ, utilizando uma Extrusora Inbramaq, modelo MX-80. Foram utilizados oito tratamentos, em tréplicas, em um esquema fatorial 4 x 2, testando quatro relações energia:proteína: 11, 10, 9 e 8 kcal/g de proteína; e duas fontes de energia não-protéica: óleo de soja ou gordura animal (Tabela 1).

2

, para o condicionamento alimentar, segundo descrito por Ono et al. (2003).

Tabela 1. Composição das dietas experimentais para avaliação da relação entre proteína e energia com duas fontes de energia na dieta (OV=óleo vegetal; GA=gordura animal) de juvenis de pirarucu, A. gigas, mantidos em tanques-rede.

Proteína bruta na dieta (%)

Ingredientes (%)

36

40

44

48

 

GA

OV

GA

OV

GA

OV

GA

OV

Farelo de soja

15,0

15,0

15,0

15,0

15,0

15,0

15,0

15,0

Farinha de trigo

25,2

25,2

21,0

21,0

20,0

20,0

20,0

20,0

Farinha de peixe

30,0

30,0

36,0

36,0

45,0

45,0

55,0

55,0

Farinha de carne e ossos

15,0

15,0

15,0

15,0

9,8

9,8

3,5

3,5

Óleo de soja

0,0

14,0

0,0

12,2

0,0

9,4

0,0

5,7

Gordura animal

14,0

0,0

12,2

0,0

9,4

0,0

5,7

0,0

Premix

0,8

0,8

0,8

0,8

0,8

0,8

0,8

0,8

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Proteína bruta (PB) calculada (%)

Energia digestível (ED) (kcal/kg)

ED:PB (kcal/g)

36,3

4.021,4

11,1

40,0

4.022,6

10,1

43,9

3.965,8

9,0

48,0

3.858,6

8,0

Biometrias mensais foram feitas até o final do experimento, com a análise dos seguintes parâmetros de desempenho dos peixes: ganho de peso diário (GPD); taxa de eficiência protéica (TEP); consumo médio de ração individual (CMRI); conversão alimentar aparente (CAA); taxa de crescimento específico (TCE) e taxa de sobrevivência (TS). O monitoramento dos parâmetros físicos e químicos da água da barragem foi realizado quinzenalmente, sendo feitas as seguintes análises: oxigênio dissolvido (O 2 ), temperatura (ºC),

e condutividade elétrica (CE) determinados por meio de um medidor multiparamétrico de

oxigênio digital marca YSI modelo 85 e o pH usado um pH-metro digital da marca YSI modelo 60. As concentrações de amônia total (NH 3 + NH 4 + ), nitrito (NO 2 - ), alcalinidade total (AT) e dureza total (DT), foram determinadas por métodos colorimétricos. Os resultados de todos os parâmetros medidos foram analisados através da análise de variância (Two-way ANOVA), usando como fatores as quatro relações entre energia e proteína

e as duas fontes de energia não protéica (P <0,05), e para a separação das médias foi usado o teste “Tukey” (P <0,05) com o auxílio do programa Statsoft Statistica 6.0.

Resultados e Discussão Os parâmetros da qualidade da água da barragem durante o período experimental estiveram dentro dos valores considerados normais para a Região Amazônica, sendo considerados adequados para o desempenho produtivo e a manutenção da saúde de peixes amazônicos, como é o caso do pirarucu. Durante todo o período experimental não houve mortalidade de peixes nos diferentes tratamentos. Ao final do experimento, os peixes alimentados com a relação mais alta de energia:proteína (11 kcal/g proteína) apresentaram o menor peso final e, consequentemente, menor ganho de peso (p<0,05) quando comparados com aqueles dos demais tratamentos. As dietas com as relações energia:proteína de 9,0 e 8,0 kcal/g proteína resultaram em melhor desempenho zootécnico dos peixes, apresentando melhor ganho de peso diário, melhor conversão alimentar aparente e maior taxa de crescimento específico (Tabela 2). Na dieta dos peixes, as concentrações de energia e proteína devem estar balanceadas

a fim de se obter um ótimo crescimento com elevadas taxas de eficiência alimentar e retenção

de proteína na carcaça (Ellis e Reigh, 1994). Segundo Page e Andrews (1973), a alta relação

de energia:proteína na dieta, isto é, pouca proteína para muita energia, resulta na diminuição do consumo voluntário de alimento. Isto ocorre porque a ingestão de proteína e de outros nutrientes essenciais pode ser menor, além de excessiva deposição de gordura visceral e diminuição do rendimento de carcaça (Sá e Fracalossi, 2002), como o que foi observado nos peixes alimentados com a relação de 11 kcal/g de proteína. Trabalhos realizados com outras espécies de peixes carnívoros mostram resultados semelhantes. Rojas e Verdegem (1994) mostraram que a melhor relação energia:proteína para

o Cicchlasoma managuense está entre 8 e 9 kcal/g de proteína e que relações mais altas não

alteram a taxa de crescimento. Sampaio et al. (2000) observaram que a melhor relação energia:proteína para o tucunaré Cichla sp. Foi de 8 kcal/g de proteína. Fatores como a temperatura da água, a taxa de arraçoamento, o tamanho do peixe e, principalmente, a qualidade da proteína e as fontes energéticas não protéicas, influenciam na exigência protéica e crescimento dos peixes. No entanto, nesse experimento, não foram

verificadas diferenças estatísticas na comparação entre as fontes de energia não protéica e os parâmetros zootécnicos avaliados, indicando que o pirarucu tem a capacidade de utilizar tanto

a gordura de origem animal quanto o óleo vegetal como fonte de energia e que esses

ingredientes não interferem na utilização da proteína. Também não houve interação entre as

relações de energia:proteína e as fontes de energia (óleo vegetal e gordura animal).

Tabela 2. Índices de desempenho zootécnico de juvenis de pirarucu, A. gigas, mantidos em tanques-rede e alimentados com dietas experimentais com quatro relações entre energia e proteína e duas fontes de energia não protéica (OV=óleo vegetal; GA=gordura animal).

Relação energia:proteína (kcal/g)

Parâmetros

11,0

(36 % PB)

10,1

(40 % PB)

9,0

(44 % PB)

8,0

(48 % PB)

OV

GA

OV

GA

OV

GA

OV

GA

22,06 b

20,00 b

24,97 a

26,06 a

24,12 a

27,41 a

24,31 a

27,17 a

1,92

a

1,72a

1,73

a

1,84

a

1,64a

1,82

a

1,50

a

1,67

a

1,44

b

1,61b

1,43

b

1,36

b

1,38

a

1,24

a

1,38

a

1,27

a

0,54

b

0,51b

0,59a

0,60

a

0,57

a

0,62

a

0,58

a

0,61ª

6680 b

6792b

7534a

7409 a

7000 a

7180 a

7056 a

7100 a

GPD (g/dia)

TEP

CAA

TCE (%PV/dia)

CMRI (kg)

GPD = ganho de peso diário; TEP = taxa de eficiência protéica; CMRI = consumo médio de ração individual; CAA = conversão alimentar aparente; TCE = taxa de crescimento específico; e TS = taxa de sobrevivência.

Conclusões Com os resultados obtidos é possível concluir que as dietas com a relação energia:proteína de 9 kcal/g de proteína resultaram no melhor desempenho zootécnico para o pirarucus mantidos em tanques-rede, durante 210 dias de produção, não havendo influência das fontes de energia não-protéica testadas. A partir desses resultados, recomenda-se outros estudos com o objetivo de avaliar a real exigência protéica do pirarucu em sistemas intensivos utilizando as relações de energia:proteína mais eficientes neste estudo.

Agradecimentos Este trabalho foi financiado pela FAPEAM (Proc. n o . 1339/04) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (MCT/INPA PPI 2-3980 e 2-3905). Rondon Tatsuta Yamane B. de Souza agradece ao INPA/MCT pela bolsa concedida (Processo Individual: 382695/2005-4), aos proprietários do Sítio Okey pela viabilização deste projeto e aos colegas do Laboratório de Fisiologia Aplicada à Piscicultura (LAFAP/INPA) pela colaboração na condução deste experimento.

Literatura citada

Ellis, S.C.; Reigh, R.C. 1994. Effects of dietary lipid and carbohydrate levels on growth and body composition of juvenile red drum (Sciaenops ocellatus). Aquaculture, 97: 383-394.

Ono, E.A.; Roubach, R.; Pereira-Filho, M. 2003. Pirarucu production - Advances in Central Amazon, Brazil. Global Aquaculture Advocate, St. Louis, MO, USA, v. 6, n. 4, p. 44-46.

Page, J.W.; Andrews, J.W.1973. Interaction of dietary levels of protein and energy on Channel catfish (Ictalurus punctatus). Journal of Nutrition, 103: 1339-1346.

Robinson, E.H.; Li, M.H. 1997. Low protein diets for channel catfish Ictalurus puntactus raised in earthen ponds at high density. Journal of the World Aquaculture Society, 28: 224-229.

Rojas, J.B.U.; Verdegem, M.C.J. 1994. Effects of protein:energy ratio in isocaloric diets on the growth of Cichlasoma managuese (Gunther 1869). Aquaculture, 25: 631-637.

Sampaio, A.M.B.M.; Kubitza, F.; Cyrino, J.E.P. 2000. Relação energia:proteína na nutrição do tucunaré. Scientia Agrícola, 57(2): 213-219.