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2005

Histórias de Sucesso

Mulheres

Empreendedoras

2005 Histórias de Sucesso Mulheres Empreendedoras
2005 Histórias de Sucesso Mulheres Empreendedoras

COPYRIGHT © 2006, SEBRAE – SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS

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Sebrae – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

Presidente do Conselho Deliberativo Nacional: Armando de Queiroz Monteiro Neto

Diretor-Presidente: Paulo Tarciso Okamotto

Diretor-Técnico: Luiz Carlos Barboza

Diretor de Administração e Finanças: César Acosta Rech

Gerente da Unidade de Gestão Estratégica: Gustavo Henrique de Faria Morelli

Gerente da Unidade de Atendimento Individual: Ênio Duarte Pinto

Coordenação do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso: Renata Barbosa de Araújo Duarte

Coordenação do Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora: Clarice Veras

Comitê Gestor do Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso: Rosana Carla de Figueiredo Lima – Sebrae Nacional, Eligeneth Resplande Pimentel – Sebrae/TO, Fabrícia Carneiro Fernandes – Sebrae/AL, Renata Maurício Macedo Cabral – Sebrae/RJ, Tânia Aparecida Silva – Sebrae/GO

Colaboração: Romilda Torres de Sousa, Adriano Dias Batista, Dulcileide O. Gonçalves, Lucy Vaz da Silva, Beatriz Bello Rossetto.

Tutoria Nacional: Daniela Abrantes Serpa – M.Sc., Sandra Regina H. Mariano – D.Sc., Verônica Feder Mayer – M.Sc.

Diagramação: Adesign

Produção Editorial: Buscato Informação Corporativa

D812hf

Histórias de Sucesso: mulheres empreendedoras/Organizado por Renata Barbosa de Araújo Duarte, Clarice Veras – Brasília:

Sebrae 2006.

224 p. : il.

Publicação originada do Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora

2005.

ISBN 85-7333-405-3

1. Empreendedorismo 2. Estudo de caso 3. Mulher I. Duarte, Renata Barbosa de Araújo II. Veras, Clarice

CDU 65.016:001.87

BRASÍLIA SEPN – Quadra 515, Bloco C, Loja 32 – Asa Norte 70.770-900 – Brasília Tel.: (61) 3348-7100 – Fax: (61) 3347-4120 www.sebrae.com.br

PROJETO DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO

OBJETIVO

O Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso foi iniciado em 2002

como um direcionamento estratégico do Sistema Sebrae para atender aos seguintes objetivos:

1) gerar um processo de produção de conhecimento dentro do Sistema Sebrae, visando utilizá-lo como uma das ferramentas para obtenção de resultados no âmbito de atuação do Sebrae; 2) sensibilizar os colaboradores sobre a importância da produção de ca- sos, contribuindo para o processo de Gestão do Conhecimento Institucional; 3) replicar os casos no âmbito do Sebrae e junto aos parceiros e instituições de ensino superior, visando à capacitação de empresários, empreendedores e alunos, por meio da análise de situações reais vividas por pequenos empreendimentos brasileiros. 4) divulgar para a sociedade as experiências bem-sucedidas na geração de emprego e renda, por meio da publicação do material em livro e no site do Sebrae – www.sebrae.com.br.

METODOLOGIA DESENVOLVENDO CASOS DE SUCESSO

A metodologia Desenvolvendo Casos de Sucesso foi criada com o

objetivo de garantir a qualidade do conteúdo e nivelar a formação didática dos escritores, responsáveis pela descrição dos estudos de casos em todo País, e de seus orientadores acadêmicos. A metodologia do Sebrae é uma adaptação do consagrado método de ensino adotado na Harvard Business School.

O LIVRO HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS

Este livro conta as 15 histórias de sucesso das finalistas do Prêmio Mulher Empreendedora 2005, promovido em todo o Brasil pelo Sebrae, BPW (Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissio- nais do Brasil) e Secretaria Especial de Políticas para Mulheres.

As histórias aqui apresentadas mostram a trajetória de mulheres que

acreditaram em seus sonhos e criaram as condições para a realização dos seus objetivos, alcançando resultados significativos. São exemplos

de um Brasil vibrante, criativo e inovador.

O livro é resultado dos projetos Desenvolvendo Casos de Sucesso e

Prêmio Sebrae Mulher Empreendedora, uma realização das unidades de Gestão Estratégica e de Atendimento Individual.

HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS

EDIÇÃO 2005

DISSEMINAÇÃO DOS CASOS DE SUCESSO DO SEBRAE O site Casos de Sucesso do Sebrae (www.sebrae.com.br, link Casos de Sucessos) apresenta todos os estudos de casos das edições Histórias de Sucesso, organizados por área de conhecimento, região, municípios e palavras-chave. Contêm, ainda, vídeos, fotos, artigos de jornal, que ajudam a compreender o cenário onde os casos se passam, colocando-os ao alcance dos meios empresariais e acadêmicos. Oferece também um manual de orientação para instrutores, professores e alunos sobre como utilizar o estudo de caso para fins didáticos. As experiências relatadas ilustram iniciativas criativas e empre- endedoras voltadas ao enfrentamento de problemas tipicamente brasileiros, podendo inspirar a disseminação e aplicação dessas soluções em contextos similares. Esses estudos estão em sintonia com a crescente importância que os pequenos negócios vêm adquirindo como promotores do desenvolvimento e da geração de emprego e renda no Brasil.

Boa leitura e bom aprendizado!

Gustavo Morelli

Gerente da Unidade de Gestão Estratégica

Renata Barbosa de Araújo Duarte

Coordenadora Nacional - Projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso

EDIÇÃO 2005

HISTÓRIAS DE SUCESSO – MULHERES EMPREENDEDORAS

MULHER DE FIBRA: A DETERMINAÇÃO EMPREENDEDORA COMO SENHA PARA O SUCESSO

INTRODUÇÃO

PARANÁ MUNICÍPIO: FOZ DO IGUAÇU

N ascida numa família em que ganhar a vida por conta própria era praticamente uma regra, a empresária Joice Maria Nervis Roncáglio,

de Foz do Iguaçu (PR), iniciou, ainda menina, seu primeiro negócio na área de confecções. Algumas decisões erradas levaram o negócio à falên- cia. Joice passou então a fazer e vender pães e salgadinhos caseiros. Reerguer-se passou a ser uma questão de sobrevivência e, principal- mente, de honra. “Coloquei na cabeça que iria me recuperar”, relatou a empresária, que, determinada, afirmava: “Não só iria me levantar, mas jamais voltaria a quebrar”. Uma dúvida martelava sua cabeça todos os dias: o que fazer, como proceder para não conhecer outro fracasso no mundo dos negócios? O desafio de Joice contou ainda com mais um elemento complicador provocado, talvez, por sua última decisão tomada no calor das emoções de uma falência total e absoluta: “Eu havia decidido que, fizesse o que fos- se, jamais voltaria a empreender na área de confecções”. Ou seja, ela começaria do zero novamente e num terreno totalmente desconhecido:

produzir e comercializar pães e salgadinhos caseiros.

Adolfo Burnett

JOICE RONCÁGLIO – DONA DA PADARIA QUEIJO & CIA.

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O TRAUMA: “VENDI ATÉ A TESOURA QUE TINHA EM CASA”

P or determinação de sua mãe, Joice, aos 14 anos, mudou-se para casa de parentes em Santa Catarina, para aprender uma profissão: corte e

costura. Joice ficou em Santa Catarina durante pouco mais de seis meses e voltou para sua cidade, Chopinzinho, no sudoeste do Paraná. Para exer- citar seu aprendizado, resolveu fazer uma camisa. Providenciou o material necessário e debruçou-se sobre o modesto projeto. Decidiu que não que- ria algo convencional e fez uma camisa que classificou como “diferente”. Garota propaganda de seu produto, Joice alardeou entre os grupos de amigos e conhecidos seu novo talento. Em apenas um mês a partir dessa experiência, a jovem passou a receber várias encomendas. “Era maravi- lhoso”, resumiu a empresária. Recebendo cada vez mais encomendas, Joice começou a dar vazão para sua criatividade e logo se atreveu a confeccionar vestidos para festas, produtos bem mais elaborados e que davam um bom retorno financeiro. Não demorou muito tempo e Joice ganhou fama de estilista de “mão cheia”, aumentando sua carteira de clientes. Ousada nas peças, Joice passou a ousar também no comportamento para a época e para as jovens de sua idade. Reservava parte de sua receita para visitar feiras, pesquisar tendências nos grandes centros a fim de sempre trazer novidades para seu público. Ainda antes de sua emancipação legal aos 21 anos, Joice foi além e decidiu investir todas as suas economias numa pequena fábrica de con- fecções. Comprou máquinas, estoque de tecidos, providenciou instalações e abriu suas portas. De início, trabalhavam 12 costureiras na Nervis Confecções, que fabricava e comercializava produtos com a marca fanta- sia De La Marie. Em pouco tempo voltou a empreender. Dessa vez ela associou-se com sua irmã e abriu uma loja de fábrica na cidade de Jaraguá do Sul, um dos principais pólos comerciais de confecções do Estado de Santa Catarina. A loja existiu durante uns dois anos e serviu de palco para a mais importante experiência empresarial de Joice Roncáglio: a loja, que puxou seus negó- cios para o alto. “A loja foi uma iniciativa e tanto: em pouco tempo as vendas subiram muito, exigindo cada vez mais produtividade da fábrica, que ia de vento em popa”, lembrou a empresária. Joice perdeu o chão de tanta alegria num dia em que um cliente entrou na loja em Jaraguá, inspecionou detalhadamente as peças em exposição

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e, depois de algumas horas, praticamente arrematou todo o estoque. E pagou à vista. “Nós ficamos absolutamente eufóricas com o negócio. Além de todos os elogios, ele pagou à vista. Foi uma loucura e precisamos mudar todo o esquema de trabalho na fábrica para repor os produtos na loja. Ficamos quase sem nada até para expor”, contou a empresária. Joice se esforça e lembra de mais detalhes: “Quando recebi o telefonema de minha irmã falando da grande venda fiquei muito feliz. Uma venda dessas mostra- va que a produção estava no caminho certo para o mercado”, avaliou. Passado o episódio, o negócio retomou a rotina, ainda com as vendas em alta. Cerca de um mês depois, o cliente voltou à loja e fez outra com- pra de esvaziar os estoques. Pagamento em dinheiro. Euforia sem limites. E não é que pouco tempo depois o tal cliente reapareceu na loja! “Nossos estoques iam baixar novamente”, era a certeza. Mas nesse terceiro episódio, o cliente pediu prazo de 30 dias para um pagamento com cheque. Negócio fechado e mais uma correria na fábrica em Chopinzinho para repor os estoques. Joice lembra que poucos dias antes do vencimento do cheque o cliente ligou para a loja pedindo para segurá-lo por mais uns dias para que pudesse trocá-lo. Voltou à loja, trocou o cheque e fez uma nova compra, com novo prazo para paga- mento em cheque. Esses dois cheques jamais foram descontados. Joice caíra num golpe. “Nossa loja foi fechada. Nossa fábrica quebrou. Não tinha dinheiro, não tinha produto. Não tinha mais nada”, resume a empresária, que se diz traumatizada com a experiência. “Tudo que a fábrica representava em minha vida foi destruído. Era meu sonho, meu capital, minha alegria, minha credibilidade. Acabou tudo”. Já casada, Joice amparou-se na família “para não deixar a peteca cair”. Além da família, a empresária diz que não sabe muito bem onde buscou forças para continuar. Mas continuou. “Assim que me recuperei do choque pelo fracasso absoluto na fábrica, comecei a vender as máquinas de costura, de corte, cada pedaço de tecido restante, para fazer dinheiro e pagar as dívidas”. Quase dois anos depois Joice acabava de pagar os últimos credores. “Passei mais de 18 meses só pagando os juros. Foi um período muito doloroso”, relembra. “Cheguei a vender até a tesoura que tinha em casa para fazer dinheiro e também para me livrar de qualquer coisa que lembrasse a experiência de confecções”. Foi assim que Joice tomou as duas decisões que mudaram sua vida, ao mesmo tempo em que encontrava um caminho que a traria de volta para

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o mundo dos negócios. “Decidi então que nunca mais iria me meter com

a indústria de confecções e também coloquei na cabeça que nunca mais

iria fracassar novamente no mundo empresarial”. Foi na época em que precisava fazer dinheiro para pagar as dívidas da falência que Joice co- meçou a fabricar pães, cucas e salgadinhos caseiros, um embrião do que viria a ser seu novo negócio, anos mais tarde. Para melhorar as vendas, fez um acordo com a mãe, com a irmã e com seu irmão, e passou a colocar seus produtos à venda no supermercado da família. Logo quando conseguiu quitar suas dívidas, o marido de Joice, Almir, funcionário da Caixa Econômica Federal, foi transferido para uma outra cidade no sudoeste, Santo Antônio do Sudoeste. Empreendedora, Joice logo tratou de buscar alternativas de ganhar seu próprio dinheiro. Ainda ajeitando a casa após a mudança, Joice vislumbrou uma possibilidade: dos oito aparelhos de TV que tinha em casa, desfez-se de dois e comprou um console de videogame. Também pegou os dois consoles de videogame

que pertenciam aos filhos e passou a alugá-los por hora, para as crianças vizinhas. “Fiquei com esse negócio por uns seis meses, ocasião em que voltei

a ganhar algum dinheiro novamente, uma vez que já havia pago minhas

dívidas”. Enquanto isto, Joice continuava fabricando pães e cucas para acumular algum capital para investimentos futuros. Era 1996 e Joice mudava de cidade mais uma vez. Chegava a Foz do Iguaçu, na fronteira paranaense com Paraguai e Argentina. Para Joice, era mais do que uma fronteira territorial.

O RECOMEÇO EMPRESARIAL:ATENÇÃO REDOBRADA

E nquanto o marido retomava a rotina de bancário, a empreendedora voltou à carga com seus pães e cucas caseiros. Estava determinada a

acumular capital novamente e voltar a ser empresária. Sonhava inicial- mente em abrir uma casa de massas. A alternativa atendia a uma nova regra de negócio que Joice estabeleceu: “Eu queria abrir um negócio que rendesse pouco, mas com pagamento à vista”. Acabou optando por refor- çar sua produção de pães e salgadinhos. Adquiriu um forno e o instalou na garagem da casa. Vendia os pães nas vizinhanças e na época decidiu que já era hora de os filhos começarem a aprender. Fundamentava-se na experiência que ela

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mesma tivera em casa, nos seus tempos de criança. Embora vivessem em condições financeiras bem equilibradas, o pai não admitia que os filhos não trabalhassem. Mesmo não precisando, fazia as crianças venderem verduras em cestas pelas ruas da cidade. “Por isso coloquei meu filho para ajudar nas vendas”, contou. Ela enchia o carro de pães e parava num local estratégico. As vendas eram feitas em carrinhos de feira nas imediações. Na hora da saída das crianças dos colégios, Joice colocava o carro próximo ao portão e abria o porta-malas para vender seus pães e cucas para os pais de alunos e professores. Foi assim que acabou fazendo contato com a cantina do colégio para tentar comercializar ali seus salgadinhos. Foram vários dias de nego- ciações até efetuar a primeira entrega de uma pequena quantidade para experiência. A determinação de Joice em não voltar a fracassar em um negócio a livrou de situações críticas. Ela passou a fazer entregas para a cantina do colégio e, logo nos primeiros sinais de problemas, interrompeu o fornecimento. Poucos dias depois a cantina fechou. “Minha preocu- pação em não cometer erros evitou que eu tivesse prejuízo naquele negócio”, destacou. Em meados de 1997, após as vendas na porta do colégio, Joice voltava para casa sem um pão sequer. Teve que passar numa padaria para comprar pãezinhos franceses para o lanche das crianças. A padaria estava sem pães naquele dia e Joice quis saber o motivo. O dono contou que seu padeiro não havia aparecido para trabalhar e passou a reclamar dos constantes pro- blemas com esses profissionais. Joice percebeu uma oportunidade e ofereceu-se para trabalhar de graça por um período, enquanto aprendia novas técnicas de produção de pães para incrementar seu negócio no futuro. Joice trabalhou na padaria durante cerca de dois meses. Ela trabalhava de manhã na padaria, voltava para casa e fazia seus pães, cucas, pães de queijo e salgadinhos a tempo de ainda conseguir “pegar” o movimento de saída dos colégios à tarde para fazer suas vendas. Depois voltava para a padaria para mais uma jornada de trabalho. Na convivência do trabalho na padaria, acabou descobrindo que o dono, que havia se separado há pouco tempo, estava desestimulado e falava em vender o negócio. “Ele queria vender a padaria por R$ 27 mil. Eu só tinha conseguido juntar uns R$ 4 mil até então”, diz a empresária. Mas o empresário chegou a dizer numa ocasião que se alguém oferecesse perto de uns R$ 13 mil reais ele fecharia o negócio.

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Determinada a reunir o maior número possível de informações, Joice fez uma relação dos equipamentos da padaria. De posse disso foi ao mercado sondar sobre a qualidade dos equipamentos e os preços de mercado. “Eu queria saber primeiro se os equipamentos eram de boa qualidade e depois queria descobrir se os preços pedidos eram reais. Também precisava descobrir o que precisaria comprar depois, caso acabasse fazendo negócio”, relembra. Como já era final de ano, Joice viajou com sua família para ver os pais, em Chopinzinho. Ainda no dia em que chegou, numa conversa, contou ao pai a história da padaria. “Na mesma hora meu pai deu a chave da cami- nhonete e mandou eu voltar a Foz para conversar com o dono da padaria”. Joice voltou a Foz com seu irmão, combinando que o apresentaria como um potencial comprador. Combinaram que, se desse certo, ela seria sua sócia por uns dois anos. Como o irmão não tinha dinheiro, resolveram fazer uma proposta de R$ 13 mil parcelados. Pagariam R$ 4 mil à vista, dariam um cheque de R$ 5 mil para 30 dias e o restante seria dividido em outros cheques de menor valor. Naquela noite o dono acabou aceitando a proposta e Joice transportou os equipamentos ainda durante a madrugada. Colocou tudo na garagem de sua casa, cobriu com uma lona e voltou para a casa dos pais para as festas de fim de ano. Naquele momento ela só queria refazer todos os seus planos e voltar preparada para um novo desafio em Foz. A empresária só retornou a Foz do Iguaçu alguns dias depois, no início de 1998. Encaminhou todos os documentos necessários e conseguiu arru- mar um local, próximo de sua casa, no Jardim Karla. No dia 7 de fevereiro de 1998, abriu a padaria com apenas uma funcionária, uma padeira. “No primeiro dia, apesar de toda a expectativa, foram vendidos apenas 26 pãezinhos”, recordou-se a empresária, que até hoje guarda seus primeiros livros-caixa. Por falar em caixa, Joice Roncáglio lembra mais um detalhe de sua empresa naqueles primeiros dias de portas abertas: “O caixa da padaria era literalmente uma caixa. De sapatos, colocada sobre uma mesinha de plástico”. Naquele momento Joice fez de tudo para que a padaria ficasse perto de sua casa. Por isso escolheu um local no Jardim Karla. Mas sabia que o local não era bom. Ficava em frente a um campo de futebol e cercada de terrenos baldios, numa rua sem ligação com nenhum bairro ou ponto importantes da cidade. “Mas naquele momento era importante ficar perto dos três filhos”, justificou-se.

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Logo nos primeiros dias, Joice passou a usar um salão de beleza próximo de sua casa, bem freqüentado, para mostrar seus produtos e fazer contatos. Deu resultados e logo começou a aumentar o movimento na padaria. “A

principal dificuldade no início foi a carga horária muito extensa. Eu acordava às quatro horas e parava de trabalhar só por volta das 23 horas”. Ainda nos primeiros dias, Joice percebeu que precisava urgentemente arrumar um bom padeiro. Ela dava prioridade a um produto de qualidade, por isso precisava de um profissional capaz. Pouco tempo depois, a carga horária acabou reduzida na marra. Um assalto fez Joice mudar os horários de funcionamento. Ela levou a irmã para ajudar na padaria, contratou um profissional de reconhecido talento na fabricação de pães e percebeu que as dificuldades iam além disso: seu desafio era administrar adequadamente o empreen- dimento. A irmã de Joice revelou-se uma talentosa confeiteira e em poucos meses a padaria tinha as vendas em franco crescimento. Cerca de dois anos depois da inauguração, o marido de Joice, Almir, desligou-se do seu emprego como bancário e passou a trabalhar no empreendimento. Em 2000 Joice procurou o Sebrae em Foz do Iguaçu determinada a buscar novas ferramentas para alavancar o negócio. No ano seguinte cursou o Empretec 1 , um programa do Sebrae voltado à formação de empreendedores. “E a partir dali não havia mais o que nos segurasse. A padaria realmente fazia sucesso”, conta a empresária, que pouco tempo depois estimulou o marido a cursar o Empretec e encaminhou, sistema- ticamente, os funcionários para cursos e palestras. Quando a padaria já operava há uns cinco anos, Joice vivia um dos momentos marcantes de sua vida empresarial. Todos os dias, pela manhã e

à tarde, naquele mesmo ponto no Jardim Karla, dezenas de pessoas faziam

fila para comprar pãezinhos. “E é claro, as filas sempre geram reclamações”. Joice, que fazia de cada situação um novo aprendizado – aprender,

para ela, havia se transformado quase que numa obsessão –, resolveu ouvir as reclamações dos clientes. Elaborou um questionário e seus filhos passaram a fazer uma pesquisa com os clientes na fila do pãozinho. Entre outras questões, descobriu que a maioria de seus clientes era de

outros bairros, alguns até distantes do Jardim Karla. Havia gente da Vila A

e da Vila B, bairros de classe média e média alta, de Foz.

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“O resultado daquela pesquisa caseira me causou surpresa. Sempre

achei que os clientes fossem do bairro onde estávamos instalados. Isso fez consolidar a idéia de mudar a padaria de endereço, para um local mais espaçoso. Aquele, de 96 m 2 , era muito acanhado e, embora tivéssemos feito reformas internas e na fachada, já estava no limite”, comentou Joice. Nesse período ela conheceu uma empresária da área de telemarketing

e juntas desenvolveram uma pesquisa com o objetivo de identificar clien- tes potenciais e o ponto ideal para abrir um nova padaria. Joice orientou

a pesquisa de um jeito peculiar: percorreu os bairros em seus pontos mais

nobres, identificou as casas de classe média e média alta e entrevistou os seus proprietários. Na verdade ela havia até descoberto um local espa- çoso, ao lado de um supermercado, na Vila A. Na pesquisa, os entre- vistados reprovaram categoricamente esse novo local devido ao grande movimento e à dificuldade para estacionar. Porém, na mesma pesquisa, um outro local foi indicado. Era no Jardim Lancaster 1, na Avenida Sílvio Sasdelli, a antiga Avenida 3 da Vila A. Joice mudou para esse novo endereço, com modernas instalações, numa área de 450 m 2 . A essa altura, Joice já tinha a Queijo & Cia entre as melhores padarias da cidade e um quadro de funcionários formado por 32 colaboradores.

Além de pães, doces, salgados, tortas e toda uma gama de serviços de encomendas, a Queijo & Cia atendia festas, buffets, coffee breaks e diver- sos outros eventos. “Nada mal para quem quebrou um negócio promissor e teve que vender pão caseiro nas ruas para reerguer-se”, resumiu a empresária, que em 2004 ficou em quarto lugar no Prêmio Sucesso Empresarial, do Sebrae, Grupo Gerdau e Instituto Brasileiro de Qualidade

e Produtividade (IBQP). Diariamente Joice promovia ações para garantir o pique de seus colaboradores e o comprometimento social de sua empresa diante da sociedade. Ela promovia ginástica laboral com os funcionários, elegia funcionário destaque a cada dois meses, comemorava os aniversários e até adquiriu um terreno próximo onde construiu uma piscina e churrasqueira para usufruto dos funcionários. Cursos, palestras e treinamentos já se transformaram numa rotina na empresa, envolvendo todos, inclusive a direção. Todos os dias, pela manhã, uma associação de portadores de deficiên- cia, a Associação Cristã do Doente e Deficiente Físico (ACDD), recolhia todos os pães, folhados e salgados que sobraram da noite anterior. Diariamente ocorriam outras doações: a Queijo & Cia tinha a política de

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doar para entidades e famílias carentes todos os produtos que não haviam sido comercializados dentro de um prazo de seis horas. Todo o lixo da empresa era separado para a reciclagem. O lixo

comercializável era estocado e vendido para as empresas de reciclagem

e a receita dessa venda era sorteada mensalmente a um dos funcioná-

rios. Todas as latinhas de alumínio eram separadas desse lixo e a cada três meses repassadas para um funcionário que faria a venda e ficaria com a receita. A cada quatro meses Joice promovia na sala de descanso da padaria uma feira de usados, com roupas e calçados que ela mesma juntava com a família e amigos.

OS NOVOS DESAFIOS

E ntre os anos de 1980 e início de 1990, quando conheceu o sucesso e o fracasso, Joice Roncáglio revisou seus comportamentos, reciclou seus conhecimentos e reescreveu sua história.

Joice refez cada passo de seu fracasso para aprender. Estava determi- nada a não voltar a cometer erros e esse comportamento foi decisivo para reerguer-se. Foi essa atitude que a fez buscar qualificação pessoal

e de seus funcionários, a buscar inovações para seu negócio, a garantir

a qualidade e produtividade, a relacionar-se com fornecedores, colabo-

radores e clientes, a gerenciar receitas e despesas, a programar investi- mentos e a calcular criteriosamente os riscos que podia correr. Joice relatou que nunca mais tirou de sua vida empresarial a lem- brança de cada detalhe do erro que a fez falir um negócio promissor. A diferença é que suas lembranças não tinham um tom de lamento. Pelo contrário, impeliam-na a buscar os acertos, o aprendizado, as metas. “Me lembro ainda de que num curso que fiz no Sebrae aprendi que nós temos uma tendência quase natural de sofrer mais pelos fracassos do que festejar as vitórias. Por isso minha lembrança do fracasso não é um lamento, é só um sinal de alerta permanentemente aceso para que eu não me esqueça do aprendizado e não me permita repetir erros. E também passei a comemo- rar intensamente cada vitória e divido esse sentimento com minha equipe de colaboradores e com meus clientes também”, resumiu Joice. Se antes o desafio de Joice era não voltar a quebrar, em 2005 novos desafios se colocavam. “Hoje posso afirmar tranqüilamente que tenho o maior prazer com meu empreendimento. Amo o que faço. Mas em muitos

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dias tive que tomar energéticos para suportar o pique. No entanto, em mo- mento algum me sinto acomodada. Meu desafio hoje é permanecer no mercado, cada vez mais competitiva, atendendo às crescentes exigências de meus clientes e das evoluções tecnológicas. Enfim, o desafio é acom- panhar, com qualidade, o ritmo desse mercado”, define. A sustentabilidade de seu empreendimento depende do aperfei- çoamento das práticas empresariais, sem o que, pode-se perder competitividade. Seus colaboradores, ainda que tenham uma gama de vantagens, como ações sociais, complementos de renda e programas de capacitação, precisam estar motivados e comprometidos com os objetivos da Queijo & Cia., o que também requer um esforço de aper- feiçoamento diário por parte da direção da empresa. Se, por um lado, Joice Roncáglio vem ganhando créditos com os funcionários ao melhorar as relações trabalhistas, implementando ações sociais, por exemplo, por outro lado, corre o risco de criar uma cultura em que a motivação para que o grupo de colaboradores alcance novas metas esteja atrelada à oferta de novas vantagens aos funcionários. Essa relação precisava ser administrada para que não se transformasse num problema para os planos futuros da empresa. Por isso, era importante para a empresária concentrar esforços na capacitação da gerência e da direção da empresa no que tange à gestão de pessoas, visando alcançar resultados sempre melhores. Pelo histórico da empresa, esse era mais um dos desafios da empreendedora da Queijo & Cia., de Foz do Iguaçu.

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QUESTÕES PARA DISCUSSÃO

• Quais foram os fatores decisivos para a virada na história empresarial de Joice Roncáglio?

• Considerando o caso em estudo, enumere as características comportamentais de Joice Roncáglio que foram determinantes para os rumos da história dela e de sua empresa.

• Quais são os pontos fortes e os pontos fracos nesse caso, que podem ajudar na orientação de outros empreendedores?

AGRADECIMENTOS

Presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae/PR: Ágide Meneguette.

Diretoria Executiva do Sebrae/PR: Adílio Marcomin Milanez, André Luiz da Rocha Barbalho, Hélio Cadore.

Colaboração: Emerson Di Domenico Durso, técnico do Sebrae responsável pelo caso na Regional de Cascavel; Beatriz Gentelini Bertoglio, gerente regional do Sebrae em Cascavel e Sulamita Mendes, gerente de Marketing e Comunicação do Sebrae/PR.