Você está na página 1de 182

LUIZ EDUARDO GUERRA VELOSO

DIRETRIZES PARA ELABORAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE PPRA EM UNIDADE DE

DESPARAFINAÇÃO A SOLVENTE

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Profissionalizante em Sistemas Integrados de Gestão da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: Segurança do Trabalho

Orientador: Prof o Dr. UBIRAJARA ALUÍZIO DE OLIVEIRA MATTOS

Niterói

2004

LUIZ EDUARDO GUERRA VELOSO

DIRETRIZES PARA ELABORAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE PPRA EM UNIDADE DE

DESPARAFINAÇÃO A SOLVENTE

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado Profissionalizante em Sistemas Integrados de Gestão da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Área de Concentração: Segurança do Trabalho

Aprovada em 15 de abril de 2004

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Ubirajara Aluízio de Oliveira. Mattos – Orientador Universidade Federal Fluminense

Prof. Dr. Gilson Brito Alves Lima Universidade Federal Fluminense

Prof. Dr. Júlio Domingos Nunes Fortes Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Niterói

2004

DEDICATÓRIA

Este trabalho é dedicado aos profissionais de segurança e higiene que lutam para a melhoria

das condições laborais e, nem sempre, contam com o apoio de empregadores, superiores,

trabalhadores e sindicatos, no desenvolvimento de suas atividades.

AGRADECIMENTOS

À minha esposa e familiares pela compreensão nas ausências do convívio durante o esforço

e a dedicação a esse trabalho.

Aos meus companheiros de trabalho, em especial ao colega Vilmar Miranda pelo incentivo e

orientação, Ronaldo Torres pelo apoio na defesa e Simone Cabral pelo parecer deste estudo.

Aos colegas Roberto Novaes, Marco Antônio Ribeiro e Jair dos Santos pelas informações

fornecidas.

Aos professores da UFF, em especial ao Professor Ubirajara Mattos, pela sua orientação e

aos demais membros da banca Professores Gilson Brito e Júlio Fortes, que muito contribuíram e

enriqueceram para este trabalho.

RESUMO

As estatísticas de acidentes de trabalho, apesar de não representarem a real situação, indicam que o trabalho totalmente seguro está longe de ser alcançado. No caso de uma refinaria de petróleo, a prevenção do aparecimento de doenças ocupacionais é uma tarefa difícil de ser conseguida. Uma das maneiras de proporcionar maior segurança aos trabalhadores é eliminar ou controlar os agentes de riscos ambientais. No Brasil, a legislação obriga as empresas a elaborar e manter um Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA), para a preservar a saúde dos seus trabalhadores. Este trabalho propõe diretrizes para elaboração e implementação de um PPRA em unidade de desparafinação, que é uma das unidades de produção de lubrificante e parafina de uma refinaria de petróleo, considerando o Sistema de Gestão Integrada (SGI). A partir destas diretrizes, é realizado um estudo de caso nos PPRA existentes em duas unidades de desparafinação a Metil Isobutil Cetona (MIBC). Neste sentido, este trabalho obtém como resultado a identificação de pontos de melhoria nos PPRA analisados, proporcionado o efetivo controle dos riscos ambientais e estabelecer um caminho a ser seguido para novos programas.

ABSTRACT

The work accidents statistics, in spite of not representing the real situation, indicate that the totally safe work is far being reached. In case of a petroleum refinery, the prevention of the appearance of occupational diseases is a difficult task to of being gotten. One of the ways to provide larger safety to the workers is to eliminate or to control the work environmental risks. In Brazil, the legislation obliges the companies elaborate and keep a Prevention Program of Environmental Risks (PPRA), for to preserve their workers' health. This work proposes guidelines for elaboration and implementation of a PPRA in deswaxing units, which is one of the lubricant and paraffin production units of a petroleum refinery, considering the Management System (SGI). From these guidelines, it is accomplished a case study in PPRA existing in two deswaxing units for Methyl Isobutyl Ketone (MIBK). For this purpose, his work obtains as result the improvement points identification in PPRA analyzed, provided the effective control of the environmental risks and to establish a way the being followed to new programs.

.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Quadro 1

Evolução da higiene ocupacional no mundo.

 

p.27

Quadro 2

Comparação

das

estruturas

das

ISO

9001:1994,

ISO

14001:1996 e OSHAS 18001:1999

 

p.57

Figura 1

Ciclo do PDCA da NBR 9001.

p.59

Figura 2

Ciclo da NBR 14000.

 

p.63

Figura 3

Ciclo do HS (G) 65.

p.64

Figura 4

Composição dos tipos de petróleo.

 

p.70

Quadro 3

Classificação API dos tipos de petróleo.

p.71

Figura 5

Composição do petróleo por temperatura de destilação.

 

p.72

Quadro 4

Os efeitos no organismo da exposição aguda ao MIBC

p.84

Quadro 5

Categorias de risco para priorização das ações de controle

p.101

Quadro 6

Estratégia de amostragem para aprimoramento do GHE

p.105

Quadro 7

Número de amostras no GHE para determinar o EMR

p.107

Quadro 8

Métodos de avaliação por substância

 

p.109

Figura 6

Esquema

de

refino

para

produção

de

combustíveis

e

aromáticos da REFINARIA A.

 

p.117

Figura 7

Esquema

de

refino

para

produção

de

lubrificantes

e

parafinas da REFINARIA A.

 

p.118

Figura 8

Esquema

de

refino

para

produção

de

combustíveis

e

aromáticos da REFINARIA B.

 

p.118

Figura 9

Esquema

de

refino

para

produção

de

lubrificantes

e

parafinas da REFINARIA B.

 

p.119

Figura 10

Missão e visão da Petrobras.

p.120

Figura 11

Ciclo do PDCA das diretrizes de SMS da PETROBRAS

p.123

Quadro 9

Periodicidade de manutenção de dados

p.144

LISTA DE TABELAS

Tabela 1

Total de acidentes registrados no Brasil de 2000 a 2002

p.16

Tabela 2

Total de acidentes registrados no Brasil em refinarias de petróleo de 2000 a 2002.

p.16

Tabela 3

Taxa anual de mortalidade por acidente no trabalho por 100.000 trabalhadores.

p.18

LISTA DE ABREVEATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS

ABNT

Associação Brasileira de Normas Técnicas

ACGIH

American Conference of Governmental Industrial Hygienists

AIHA

American Industrial Hygiene Association

API

American Petroleun Institute

APP

Análise Preliminar de Perigo

APR

Analise Preliminar de Risco

AR

Análise de Risco

BSI

British Standard Institute

CAT

Comunicação de Acidente do Trabalho

CIPA

Comissão Interna de Prevenção de Acidente

CNAE

Classificação Nacional de Atividades Econômicas

dB

decibel

DDSMS

Diálogo Diário de Segurança, Meio Ambiente e Saúde

DORT

Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho

EMR

Exposto de Maior Risco

EPA

Environmental Protection Agency

EPI

Equipamento de Proteção Individual

FISPQ

Ficha de Segurança de Produto Químico

GFIP

Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência

GHE

Grupo Homogêneo de Exposição

HAZOP

Hazard and Operability Study

HO

Higiene Ocupacional

HSE

Health and Safety Executive

IBUTG

Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo

IDLH

Immediately Dangerous to Life or Health

IN

Instruções Normativas

ISO

International Organization for Standardization

LER

Lesões por Esforços Repetitivos

LOPS

Lei Orgânica da Previdência Social

LPR

Lista Preliminar de Riscos

LT

Limites de Tolerância

MEK

Metil-Etil-Cetona

MIBC

Metil Isobutil Cetona

NIOSH

National Institute for Occupational Safety and Health

NMAM®

NIOSH Manual of Analytical Methods

NR

Norma Regulamentadora

OHSAS

Occupational Health and Safety Assessment Series

OIT

Organização Internacional do Trabalho

OMS

Organização Mundial da Saúde

PCA

Programa de Conservação Auditiva

PCMAT

Programa de Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção

PCMSO

Programa de Controle Médico e Saúde Ocupacional

PDCA

Plan-Do-Check-Act

PGR

Programa de Gerenciamento de Riscos

PPEOB

Programa de Prevenção da Exposição Ocupacional ao Benzeno

PPP

Perfil Profissiográfico Previdenciário

PPR

Programa de Proteção Respiratória

PPRA

Programa de Prevenção de Riscos Ambientais

PSP

Programa de Segurança de Processo

RPS

Regulamento da Previdência Social

SESMT

Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho

SGI

Sistema de Gestão Integrada

SIPAT

Semana Interna de Prevenção de Acidentes

SMS

Segurança, Saúde e Meio Ambiente

SSO

Segurança e Saúde Ocupacional

TLVs ®

Term Threshold Limit Values

UN

Unidade de Negócio

VOC

Volatile Organic Compounds

VRT

Valor de Referência Tecnológica

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO, p.15

1.1 DADOS DE OCORRÊNCIA DE DOENÇAS OCUPACIONAIS, p. 15

1.2 O OBJETIVO, p 19

1.3 IMPORTÂNCIA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO, p. 19

1.4 QUESTÕES E HIPOTESES, p 20

1.5 METODOLOGIA DO ESTUDO, p. 21

1.5.1 DELINEAMENTO DA PESQUISA, p. 21

1.6 TRAJETÓRIA PROFISSIONAL, p. 21

1.7 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO, p. 22

2 PREVENÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS, p. 24

2.1 EVOLUÇÃO DA HIGIENE OCUPACIONAL, p. 24

2.1.1. RECONHECIMENTO E ANTECIPAÇÃO, p. 29

2.1.2 AVALIAÇÃO, p. 30

2.1.3 CONTROLE, p. 21

2.2 A EVOLUÇÃO DA HIGIENE OCUPACIONAL NO BRASIL, p. 33

2.2.1 EVOLUÇÃO DAS INSTITUIÇÕES E ASSOCIAÇÕES DE HIGIENE NO

BRASIL, p.34

2.2.2 EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA LIGADA À HIGIENE NO

BRASIL, p.40

2.2.3 EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA LIGADA À HIGIENE NO

BRASIL, p.49

2.3 O PPRA NO SISTEMA DE GESTÃO INTEGRADA, p. 56

3 UNIDADES DE PROCESSO DE REFINO DE PETRÓLEO, p. 68

3.1 O PETRÓLEO, p. 68

3.2 PROCESSO DE REFINO, p. 72

3.2.1 TIPOS DE PROCESSO, p 73

3.3 PRODUÇAO DE LUBRIFICANTE, p. 76

3.3.1 UNIDADES DE PROCESSAMENTO DE LUBRIFICANTE, p. 77

3.4 UNIDADE DE DESPARAFINAÇÃO A MIBC, p. 79

3.4.1 DESCRIÇÃO DO PROCESSO DE DESPARAFINAÇÃO A MIBC, p. 80

3.4.1.1 Seção de resfriamento e filtração, p. 80

3.4.1.2 Operação filtros rotativos, p. 81

3.4.1.3 Recuperação de solvente de filtrado, p. 82

3.5 RISCOS AMBIENTAIS ENVOLVIDOS NA OPERAÇÃO, p. 83

4 – DIRETRIZES PARA ELABORAÇÃO DE PPRA PARA UNIDADES DE

DESPARAFINAÇÃO, p. 86

4.1 PRINCÍPIOS GERAIS DE GESTÃO DA HIGIENE OCUPACIONAL EM

SEGURANÇA, MEIO AMBIENTE E SAÚDE (SMS), p.86

4.2 PROGRAMAS DE HO COMPLEMENTARES, p. 87

4.3 RESPONSABILIDADE E AUTORIDADE, p. 87

4.4.1

MODELO DE DOCUMENTO-BASE, p. 90

4.5 DESENVOLVIMENTO DO PROGRAMA DE HIGIENE OCUPACIONAL, p. 95

4.5.1 ANTECIPAÇÃO DOS RISCOS AMBIENTAIS, p. 95

4.5.1.1 Tipos de antecipação dos riscos ambientais, p. 96

4.5.2 RECONHECIMENTO DE RISCOS AMBIENTAIS, p.97

4.5.2.1 Metodologia para reconhecimento, p. 97

4.5.3 ESTABELECIMENTO DE PRIORIDADES, p. 101

4.5.4 AVALIAÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS E MONITORAMENTO, p. 101

4.5.4.1 Definição de um Grupo Homogêneo de Exposição (GHE), p. 102

4.5.4.2 Aprimoramento do GHE, p. 104

4.5.4.3 Definição do Exposto de Maior Risco (EMR), p. 106

4.5.4.4 Critérios de tolerabilidade, p. 107

4.5.4.5 Método de amostragem de agentes de risco ambiental, p. 109

4.5.5 IMPLANTAÇÃO DE MEDIDAS DE CONTROLE DE RISCOS AMBIENTAIS, p.109

4.6 DIVULGAÇÃO DO PPRA E DOS SEUS DADOS, p. 110

4.7 PLANO DE AÇÃO DO PPRA, p. 111

4.8 REGISTRO E MANUTENÇÃO DOS DADOS, p. 111

4.9 AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO, p. 112

4.10 FORMAÇÃO E TREINAMENTO, p. 112

4.11 PRESTADORES DE SERVIÇOS, p. 113

4.12 DIREITO DE RECUSA, p. 113

5 UNIDADES DE PROCESSO DAS REFINARIAS ESTUDADAS, p. 114

5.1 HISTÓRICO DAS REFINARIAS ESTUDADAS, p. 114

5.2 O PROCESSO DE DESPARAFINAÇÃO, p. 116

5.3 RISCOS AMBIENTAIS NAS UNIDADES DE DESPARAFINAÇÃO DAS

REFINARIAS ESTUDADAS, p. 119

5.4 O PPRA E A GESTÃO DE SMS NA PETROBRAS, p. 120

5.5 SISTEMA DE GESTÃO NAS REFINARIAS ESTUDADAS, p. 124

5.6 AVALIAÇÃO DOS PPRA DAS UNIDADES DE DESPARAFINAÇÃO A

SOLVENTE DAS REFINARIAS ESTUDADAS, p. 128

5.6.1 AVALIACÃO DO PPRA DA REFINARIA A, p. 128

5.6.2 AVALIACÃO DO PPRA DA REFINARIA B, p. 136

6 CONCLUSÃO, p 146

6.1 ASPECTOS GERAIS, p. 146

6.2 ASPECTOS ESPECÍFICOS, p. 149

6.3 PROPOSTAS PARA NOS ESTUDOS, p.150

6.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS, p. 151

7 REFERÊNCIAS, p. 153

8 APÊNDICES, p. 159

9 ANEXOS, p.166

1 INTRODUÇÃO

1.1 DADOS DE OCORRÊNCIA DE DOENÇAS OCUPACIONAIS E ACIDENTES DO TRABALHO

Conforme dados das estatísticas nacionais oficiais do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), o número de registro da Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT) para o ano de 2002, ocasionados por afastamentos de trabalhadores de suas atividades laborais devido à incidência doença do trabalho, foi de 20.886 de casos, para um número total de acidentes de trabalho de 387.902 de registros, o que representa 5,38% do total de registros. O número de ocorrências de doenças do trabalho pode parecer baixo em relação aos casos de acidentes de trabalho típico, sendo inferior inclusive ao do acidentes de trajeto, porém este número oficial é muito inferior ao da realidade, pois de um modo geral os acidentes de trabalho no Brasil são sub-notificados e no caso da doença do trabalho, a situação é ainda pior, devido à dificuldade de caracterização da doença e do seu nexo de casualidade com atividade laboral e ao longo tempo para o surgimento dos primeiros sintomas da doença profissional, em alguns casos mais de vinte anos. Outro fator, que deve ser considerado, é que o registro de acidente de trabalho contempla apenas do segurado como empregado, trabalhador avulso, especial e médico residente (BRASIL, 1999), deixando de fora categorias importantes como os autônomos e os empregados domésticos, além dos trabalhadores informais e os não registrados, que segundo estimativas representa mais da metade dos trabalhadores do país .

16

TABELA 1: Total de acidentes registrados no Brasil de 2000 a 2002

Quantidade de acidentes do trabalho registrados, por motivo, segundo a

Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), no Brasil - 2000/2002

   

QUANTIDADE DE ACIDENTES DO TRABALHO REGISTRADOS

 

CNAE

 

Total

   

Motivo

 
 

Típico

 

Trajeto

Doença do Trabalho

 

2000

2001

2002

2000

2001

2002

2000

2001

2002

2000

2001

2002

TOTAL

363.868

340.251

387.905

304.963

282.965

320.398

39.300

38.799

46.621

19.605

18.487

20.886

FONTE: INSS, 2004

Na comparação entre os anos de 2000, 2001 e 2002, pode-se concluir que houve um pequeno crescimento tanto no número de acidentes totais, mais 6,6% de 2000 a 2002, quanto no número de doenças ocupacionais, mais 6,5% de 2000 a 2002.

Considerando a atividade econômica principal das instalações que são escopo desta dissertação, os dados de registro de acidente de trabalho do INSS relativos ao número 23.20 da Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE), que correspondem ao refino de petróleo (MPAS, 2003), para o ano 2002 são de 558 de total de registros de CAT para 27 casos de doença do trabalho registrados, que representa 4,84% do total. Ao comparar os dados relativos a atividade de refino de petróleo, com os números das demais atividades econômicas, conclui-se que as notificações de doenças do trabalho, nestas empresas, não são muito diferenciados em relação às demais empresas.

TABELA 2: Total de acidentes registrados no Brasil em refinarias de petróleo de 2000 a 2002

Quantidade de acidentes do trabalho registrados, por motivo, segundo a

Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE), no Brasil - 2000/2002

   

QUANTIDADE DE ACIDENTES DO TRABALHO REGISTRADOS

CNAE

 

Total

   

Motivo

 
 

Típico

 

Trajeto

Doença do Trabalho

2000

2001

2002

2000

2001

2002

2000

2001

2002

2000

2001

2002

23.30

366

509

558

316

384

469

24

72

62

26

53

27

FONTE: INSS, 2004

Estas estatísticas representam dados relativos a doenças do trabalho e doenças profissionais, que pelas definições do INSS são diferentes, porém nas estatísticas estão somadas. O INSS considera que doença profissional é a produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade, constante da relação de que trata o Anexo II do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de

17

6.5.1999 e entende que a doença do trabalho é adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, desde que constante da relação de que trata o Anexo II do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 6.5.1999. Não são consideradas, como doença do trabalho, a doença degenerativa; a inerente a grupo etário; a que não produz incapacidade laborativa; a doença endêmica adquirida por segurados habitantes de região onde ela se desenvolva, salvo se comprovado que resultou de exposição ou contato direto determinado pela natureza do trabalho (BRASIL, 1999). A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) define doença do trabalho como a decorrente do exercício continuado ou intermitente de atividade laborativa capaz de provocar lesão por ação mediata e doença profissional é a doença do trabalho causada pelo exercício de atividade específica, constante de relação oficial (ABNT, 2001), que para sua comprovação basta que o empregado exerça a atividade correspondente à doença listada, sem a comprovação de nexo causal. Analisando as definições, para o INSS as doenças do trabalho são causadas pelas condições dos ambientes onde as atividades são desenvolvidas, independente do tipo de função do trabalhador e a doença profissional é a que está relacionada com a atividade realizada e não com ambiente laboral, já para ABNT a doença profissional é um subgrupo das doenças do trabalho, desde de que relacionada na relação do INSS. Apesar das diferenças sobre as definições para efeitos estatísticos a doença do trabalho e a profissional são computadas juntas.

O um dos caminhos para prevenir o surgimento de doenças profissionais é através do controle dos agentes de risco no ambiente trabalho, para tanto se deve implantar um programa de higiene ocupacional eficiente e eficaz. Estes programas têm uma possibilidade de sucesso

muito maior do que programas tenham a finalidade de prevenir a ocorrência de acidentes do trabalho, pois para que o trabalhador adoeça em virtude da sua ocupação, são necessários anos de exposição continuada a agentes nocivos, além do fato de que os programas de prevenção

de acidentes terem um forte componente na mudança comportamental

Embora os riscos não

sejam necessariamente menores, a conscientização para a necessidade de higiene é nessa área bem menor do que a de controle de acidente.

Em termos internacionais, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) é a responsável pela consolidação dos dados dos paises membros. Porém a comparação dos dados é difícil, porque a legislação, que classifica os acidentes do trabalho, varia de um país para o outro.

18

A tabela abaixo apresenta a comparação de um indicador relativo a acidente de trabalho de alguns países. O indicador escolhido foi a taxa do número de acidentes de trabalho com morte por grupo de 100.000 trabalhadores. Esta taxa de mortalidade foi escolhida, porque envolve dados mais precisos, que uma taxa que tenha como base dados relativos registros de acidentes do trabalho sem morte, que tem uma subnotificação muito maior.

TABELA 3: Taxa anual de mortalidade por acidente no trabalho por 100.000 trabalhadores.

País

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

Alemanha

5,03

4,63

4,24

3,96

3,68

3,42

3,42

3,05

Austrália

7

7

6

5

4

4

3

3

Brasil

16,2

13,6

16,7

18,7

14,1

19,7

18,5

11,5

Canadá

6,9

6,4

6,5

6,1

7,1

6,7

6,7

7,1

Costa Rica

8,6

9,4

8,5

10,5

8,5

6,1

11,6

9,6

Dinamarca

2

3

3

3

3

3

3

2

Egito

11

12

11

9

11

9

8

7

Estados Unidos

5

5

5

5

5

5

4

4

Federação Russa

13,9

13,3

13,8

15,5

14,8

14,2

14,4

14,9

Finlândia

3,2

3,2

2,6

2,7

3,1

3,2

2,1

2,3

Índia

32

44

40

32

34

31

32

31

Malásia

-

7,7

11,2

13,4

17,8

15,1

10,6

11,3

Nicarágua

18

15

12

5

9

10

15

9

Reino Unido

1,2

1,0

1,1

0,9

0,9

0,8

0,7

0,9

Suécia

2,6

6,2

2,3

2,3

2,3

1,7

1,7

1,5

Ucrânia

11,6

12,0

11,6

10,9

9,9

10,2

9,2

9,5

FONTE: OIT, 2004

Na comparação entre os países, pode-se verificar que os países mais desenvolvidos têm taxas menores que paises em desenvolvimento, como era de se esperar, enquanto o Reino Unido tem menos de uma morte para 100.000 trabalhadores, a Índia tem 31, considerando dados de 2000. Pode-se constatar, também, que ao longo dos anos, a variação do indicador de cada pais é pouca e que em países em desenvolvimento pouco industrializados a taxa não é muito elevada. Estes dados são enviados para OIT pelos órgãos responsáveis pelas estatísticas de acidentes de cada país, de acordo com o enquadramento da legislação local, que pode diferir quando a definição do que seria uma morte causada por acidente do trabalho. No Brasil, o acidente de trajeto é considerado como de trabalho, o que em outros países não entra na estatística.

19

1.2 O OBJETIVO

Um dos objetivos a ser alcançado por este estudo é elaborar diretrizes de programa de higiene ocupacional para unidades de processo de desparafinação a solvente, sendo que neste caso o solvente utilizado é o Metil Isobutil Cetona (MIBC), que atenda à legislação vigente sobre segurança do trabalho, no caso a NR-9, e siga os preceitos atuais de higiene ocupacional, propiciará o efetivo controle dos agentes de risco ambientais (físicos, químicos e biológicos).

e

desenvolvimento do PPRA, dentro do sistema de gestão integrada. Os padrões de procedimento instituirão os seguintes itens:

As

diretrizes

estabelecerão

padrões

de

procedimento

para

a

implantação

Modelo de estrutura e um planejamento para a implantação de PPRA;

Estrutura de documento-base;

Roteiro para antecipação de riscos ambientais;

Matriz para indicação de ações prioritárias

Metodologia de avaliação de riscos através de uma estratégia de amostragem

Critérios para controle de riscos;

Proposta para plano de ação;

Formas de divulgação, registro e manutenção de dados;

Gerenciamento de PPRA de empregados terceirizados.

O segundo objetivo do estudo é comparar as diretrizes propostas com programas existentes nas unidades, indicando os pontos para melhoria.

1.3 IMPORTÂNCIA E RELEVÂNCIA DO ESTUDO

A legislação brasileira referente à segurança e medicina do trabalho determina, na NR- 9 da Portaria nº 3214/78 do Ministério do Trabalho, a partir da modificação introduzida pela Portaria nº 25 em 29/12/1994, a elaboração e implementação de um Programa de Prevenção

20

de Riscos Ambientais por parte de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como empregados visando a preservação da saúde e da integridade dos mesmos (MINISTÉRIO DO TRABALHO, 1978). Esta norma indica que os programas de prevenção alcançarão os seus objetivos através da antecipação, reconhecimento, avaliação e controle dos riscos ambientais, porém só estabelece parâmetros e requisitos básicos que o programa deve seguir, não sendo determinado um modelo de estrutura e de ações para implementação e desenvolvimento do programa. Apesar do tempo da sua entrada em vigor da nova versão da NR-9, esta ainda suscita muitas dúvidas nos profissionais de segurança e higiene ocupacional, como a classificação dos riscos ambientais, a periodicidade das avaliações ambientais, a abrangência do programa numa empresa com várias unidades, os limites de exposição aos agentes ambientais a serem adotados, entre outras dúvidas.

Atualmente existem vários modelos de PPRA dentro da empresa que será estudada, seguindo padrões de elaboração e de implantação diferentes, criando dificuldades para os profissionais responsáveis por sua execução. Em algumas unidades, o PPRA é elaborado por empresas contratadas, em outras somente é contratada a avaliação ambiental e em outras, ainda, todo o processo é realizado por empregados próprios, sendo que apenas as análises de agentes químicos são executadas por laboratórios externos.

A relevância deste trabalho reside no fato de que a padronização dos PPRA é um

importante elemento do sistema de gestão de segurança. Sua implantação propiciará o efetivo cumprimento da NR-9 e da Política de Segurança, Saúde e Meio Ambiente por parte da empresa, dirimindo as dúvidas e facilitando o trabalho dos profissionais responsáveis pelos programas, tanto na contratação das avaliações ambientais, quanto na implementação dos mesmos, possibilitando uma economia de tempo e de recursos materiais.

1.4 QUESTÕES E HIPOTESES

Este estudo pretende responder se os programas de higiene ocupacional existentes na empresa estão adequados para reconhecer, avaliar e controlar os riscos ambientais nos locais de trabalho e se estão de acordo com os princípios do sistema de gestão.

A fim de restringir o escopo do estudo, foram analisados os PPRA de unidades de

desparafinação de duas refinarias, no Capítulo 5, baseado nas hipóteses formuladas nas diretrizes propostas para sua elaboração e implementação descritas no Capítulo 4 desta dissertação.

21

1.5 METODOLOGIA DO ESTUDO

Em virtude da natureza do problema formulado e do objetivo desta pesquisa a mesma pode ser classificada como:

Aplicada;

Quantitativa;

Explorativa;

Bibliográfica.

1.5.1 DELINEAMENTO DA PESQUISA

Foram realizadas pesquisas em publicações e na legislação sobre segurança do trabalho, higiene ocupacional e sistema de gestão integrado, assim como na legislação brasileira, tanto trabalhista quanto previdenciária, para estruturar o trabalho.

Foram realizadas entrevistas com os engenheiros e técnicos de segurança, responsáveis pela elaboração e implementação dos PPRA em suas respectivas unidades, com o objetivo de identificar as dúvidas e dificuldades encontradas sobre o assunto por esses profissionais.

Foram feitas análises documentais nos PPRA, já implementados na empresa em estudo, para que sejam verificados quais estão cumprindo os requisitos básicos da legislação, os tipos de estrutura de documento-base, a periodicidade das avaliações do programa, métodos e periodicidades usados nas avaliações ambientais e os limites de exposição aos riscos ambientais adotados.

Foram realizadas visitas em duas unidades da empresa, em existe este tipo de processo, a fim de verificar as condições em que os programas estão sendo implementados e constatar quais as medidas de controle que foram adotadas.

1.6 TRAJETÓRIA PROFISSIONAL

O mestrando é graduado em engenharia mecânica, curso concluído em 1987, e pós- graduado em engenharia de segurança do trabalho em 1989, ambos os cursos realizados no CEFET – “CSF”.

22

Iniciei minha trajetória profissional como engenheiro de segurança em 1990, onde, dentro de minhas atribuições profissionais, realizava atividades de higiene ocupacional, emissão de laudo pericial de insalubridade, avaliação de agentes de risco ambiental e controle dos riscos, através de adoção de medidas de caráter coletivo e individual.

Antes de trabalhar na Petrobras, atuei em outras empresas, como CET-RIO e COMLURB, sempre como engenheiro de segurança, além de elaborar diversos PPRA, através de empresa de consultoria.

Na Petrobras, estou lotado na gerência corporativa de segurança, meio ambiente e saúde (SMS) na gerência de segurança (SG), na qual desenvolvo atividades de segurança do trabalho com ênfase em assuntos de higiene ocupacional.

Atualmente, sou membro do grupo de trabalho de higiene ocupacional e comitê central de aposentadoria especial, ambos da Petrobras, da subcomissão de saúde ocupacional do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) e da Comissão de Estudo Especial Temporária (CEET) de Saúde e Segurança Ocupacional da ABNT.

1.7 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO

A dissertação está estruturada, em seis capítulos, de forma a desenvolver o assunto, propondo diretrizes para implementação e elaboração de PPRA em unidades de desparafinação e comparado-as com os PPRA existentes.

No capítulo 1 é feita uma apresentação das estatísticas de acidentes e doenças ocupacionais no país e no mundo, contextualizando o problema dos objetivos, da importância, relevância e metodologia deste trabalho, bem como a sua estrutura, e da trajetória profissional do mestrando.

No capítulo 2 é descrita a evolução da higiene ocupacional no mundo e no Brasil, sendo esta última baseada na evolução da legislação brasileira trabalhista e previdenciária, os fundamentos do sistema de gestão integrada de segurança, meio ambiente, saúde e qualidade, contextualizando o PPRA dentro deste sistema.

refino de petróleo, a partir de suas

propriedades químicas, até unidade de desparafinação a MIBC, dentro do processo de produção de lubrificante, a qual é o objeto deste estudo.

No capitulo 3 é detalhado o processo

de

23

No capitulo 4 são propostas as diretrizes para elaboração e implantação de PPRA para unidade de desparafinação, as quais servirão de parâmetros para comparação com os PPRA, já existentes destas unidades.

No capitulo 5 é feita a avaliação dos PPRA das duas refinarias a partir das diretrizes, anteriormente, propostas.

higiene

ocupacional, para PPRA e para melhoria dos PPRA existentes nas duas unidades de desparafinação e sugestão para novos estudos sobre o assunto.

No

capítulo

6

é

concluída

a

dissertação,

com

propostas

gerais

para

2 PREVENÇÃO DE RISCOS AMBIENTAIS

2.1 EVOLUÇÃO DA HIGIENE OCUPACIONAL

Como a maioria de profissões, identificar a origem da prática de higiene ocupacional é

difícil, se não impossível. Podem-se identificar como fundadores da profissão os primeiros estudiosos que descreveram os riscos profissionais e as medidas de controle, como Agricola, que em 1556, descreveu a ocorrência de doenças e acidentes em mineiros e fundidores e refinadores de metal, e medidas de prevenção inclusive ventilação. Neste caso, as contribuições de Plinius Secundus (Pliny, o velho) também devem ser consideradas, que no

século I , escreveu “no mínimo os refinadores [

que os possibilitam enxergar, sem inalar o pó fatal.” (PATTY, 1977). Mas se for considerado apenas daqueles que simplesmente identificaram problemas, surge em local de honra no campo da medicina profissional, o nome de Hipócrates (460–370 AC). Seus escritos incluem o primeiro registro de doenças profissionais, como por exemplo, o envenenamento em mineiros e metalúrgicos, por chumbo, e citava outras classes de doenças freqüentes, muito antes de Ramazzini (GOLDWATER, 1985).

envolvem seus rostos com bexigas frouxas,

]

Em 1713, Bernardino Ramazzini publicou o primeiro livro que pode ser considerado um tratado completo sobre doenças profissionais, De Morbis Artificum Diatriba. Em suas observações, ele descreveu com precisão os detalhes das ocupações, seus riscos e as doenças resultantes. Embora ele tenha recomendado algumas medidas preventivas, tanto específicas como também gerais como, por exemplo “os trabalhadores deviam cobrir seus rostos para evitar respirar pó”, a maior parte de suas recomendações eram de controle, de caráter terapêutico e curativo. Embora Ramazzini tivesse um vasto conhecimento da literatura científica no seu tempo, teve muitos dos seus trabalhos questionados na sua validade científica, porém outros o consideravam um mito da ciência e devia ter sido reconhecido como tal. Por causa de seu prestígio estes “conceitos fantásticos foram recebidos com ampla

25

aceitação [

reprimido o progresso em seu campo durante um período quando grandes avanços estavam

e por causa da admiração ao seu livro, a influencia de Ramazzini pode ter

]

sendo feitos outros ramos de medicina” (GOLDWATER, 1985).

Não obstante, suas precauções para proteger trabalhadores e sua recomendação para qualquer médico, que venha a tratar de pacientes da classe operária, formular a seguinte pergunta “Qual a sua ocupação?”, a partir do qual ganhou o de título de “Pai de Medicina Ocupacional” (ROSE, 1997).

Mais de 100 anos depois do trabalho do Ramazzini, nenhuma adição significante para a literatura de medicina ocupacional foi publicada. No século XIX, dois médicos, Charles T. Thackrah, na Inglaterra, e Benjamin W. McCready, nos Estados Unidos, começaram a literatura moderna no reconhecimento de doenças profissionais. O livro de McCready, “On the Influence of Trades, Professions, and Occupations in the United States, in the Production of Disease”, geralmente reconhecido como o primeiro trabalho em profissional medicina publicada nos Estados Unidos (MCREADY, 1837).

O reconhecimento de um nexo causal entre os riscos do ambiente de trabalho e doença profissional era a chave do desenvolvimento da prática de higiene industrial. As observações médicas, de Hipocrates até Ramazzini e estendendo-se ao século XX, da relação entre o trabalho e doença são os fundamentos da profissão. Mas reconhecimento dos riscos sem intervenção e controle, isto é, sem prevenção de doenças, não deveria qualificar um estudioso como higienista ocupacional (ROSE, 1997).

Em 1802, na Inglaterra, foram promulgadas as primeiras legislações que controlavam as condições de trabalho, porém eram consideradas totalmente ineficazes, pois não existiam sistemas adequados de inspeção que obrigassem ao cumprimento (LUXON, 1984).

O real divisor de águas na medicina e higiene ocupacional veio com o British Factories Act de 1901, que proveu a criação de regulamentos para controlar as ocupações perigosas. O desenvolvimento de regulamentos deu um impulso na investigação dos riscos no ambiente de trabalho e na execução de medidas de controle. Nos Estados Unidos, em 1905, o Massachusetts Health Department designou inspetores de saúde para avaliar os riscos das ocupações, deste modo estabelecendo papel do governo nascente no campo da saúde profissional (ROSE, 1997).

26

Em 1910, Dra. Alice Hamilton, pioneira no campo da doença ocupacional nos Estados Unidos, constatou que as exposições de trabalhadores a muitos agentes de riscos, por

exemplo, chumbo e sílica, eram tão excessivos e doenças resultantes tão agudas e óbvias, que

a etapa da avaliação de higiene ocupacional, na prática, só exigiu senso de visão e uma

compreensão do conceito de causa e efeito. No campo de responsabilidade social para saúde e

o bem-estar de trabalhador, seu estudos apresentaram, não só a evidência de significativa a

relação entre exposição às toxinas e a saúde dos doentes, mas também propunha soluções concretas para os problemas que encontrou (CLAYTON, 1991). O seu trabalho individual, que compreendia não só o reconhecimento da doença, mas a avaliação e o controle dos agentes causadores, deve ser considerado como o início da prática da higiene industrial, pelo menos nos Estados Unidos (ROSE, 1997).

Deve ser considerado que muitos dos praticantes iniciais da higiene ocupacional eram médicos, como Hamilton, que não estavam interessados apenas na diagnose e tratamento da doença, mas também no controle dos riscos, para prevenir casos futuros. Esses médicos do trabalho trabalhavam com engenheiros e outros cientistas interessados em saúde pública e riscos ambientais. Dessa forma, iniciaram um processo incubado desde Hipócrates, visando deliberadamente modificar os ambientes de trabalho com o objetivo de prevenir doenças ocupacionais (ROSE, 1997).

Se for entendida a filosofia básica da profissão, ou seja, a proteção da saúde e do bem estar dos trabalhadores e do público através da antecipação, reconhecimento, avaliação e controle dos riscos provenientes do ambiente de trabalho, pode-se imaginar como sua história ocorreu ao longo dos anos. Começou quando uma pessoa reconheceu um risco e tomou providências não só para si, mas também para os companheiros. Esta é a origem e a essência do profissional de higiene ocupacional (ROSE, 1997).

27

QUADRO 1: Evolução da higiene ocupacional no mundo

DATA

CONDIÇÃO OU EVENTO

 

1.000.000 AC

Australopitecus usavam pedras como ferramentas e armas. Havia cortes e lesões oculares. Os caçadores de Bisões contraíam antrax

10.000 AC

O homem neolítico iniciou a produção de alimentos e a revolução urbana na Mesopotâmia. Ao final da idade da pedra, havia a confecção de ferramentas de pedra, chifre, ossos e marfim; fabricação de cerâmicas e tecidos. Inicia-se a história das ocupações

5.000 AC

Idade do bronze e do cobre. Os artesãos de metais são libertados da produção de alimentos. Há uma especialidade que surge: a metalurgia.

370 AC

Hipócrates cuida da saúde de cidadãos, mas não de trabalhadores; todavia, identifica o envenenamento por chumbo de mineiros e metalúrgicos.

50

Plínio, o Velho, identifica o uso de bexigas de animais para evitar a inalação de poeiras e fumos.

200

Galen visita uma mina de cobre, mas suas discussões sobre saúde pública não incluem doenças de trabalhadores.

Idade Média

Não

existe

nenhuma

discussão

documentada

sobre

doenças

ocupacionais.

 

1473

Ellenborg reconhece que os vapores de alguns metais eram perigosos e descreve os sintomas de envenenamento ocupacional por mercúrio e chumbo, com sugestões de medidas preventivas.

1500

No livro De Re Metallica, Georgius Agrícola descreve a mineração, fusão e refino de metais, com doenças e acidentes correntes e meios de prevenção, incluindo a necessidade de ventilação.

28

1567

Paracelso descreve as doenças respiratórias entre os mineiros com uma precisa descrição do envenenamento pelo mercúrio. Lembrado como o pai da toxicologia, diz: “Todas as substâncias são venenos é a dose que os diferencia entre venenos e remédios”

1665

Em Ídria, a jornada dos mineiros de mercúrio é reduzida.

1700

Bernardino Ramazzini, pai da medicina ocupacional, publica De Morbis Artificum Diatriba (Doenças dos Artífices) e descreve as doenças (com excelente precisão) e “precauções”. Introduz na anamnese médica a pergunta: “Qual é a sua ocupação?”.

1775

Percival Lott descreve o câncer ocupacional entre os limpadores de chaminé na Inglaterra, identificando a fuligem e a falta de higiene como causa do câncer escrotal. O resultado foi a Lei dos Limpadores de Chaminé de 1788.

Os trabalhadores de chaminés alemães não apresentavam casos de câncer escrotal. Suas roupas eram mais bem ajustadas ao corpo do que os colegas ingleses, e tinham escopo de EPI.

1830

Charles Thackrah é autor do primeiro livro sobre doenças ocupacionais na Inglaterra. Suas observações sobre doenças e prevenção ajudam na criação de legislação ocupacional. A inspeção médica e a compensação assistencial do Estado foram estabelecidas em 1897.

1900

Alice Hamilton investiga várias ocupações perigosas e causa tremenda influência nas primeiras leis ocupacionais nos Estados Unidos. Em 1919 ela se torna a primeira mulher em Harvard e escreve “Explorando as Ocupações Perigosas”.

1902- 1911

Início de legislação compensatória federal dos EUA e no estado de Washington.

29

1911

Primeira conferência nacional sobre doenças industriais nos EUA.

1913

Organiza-se o National Safety Council. New York e Ohio estabelecem os primeiros grupos (agências) de Higiene estaduais dos EUA.

1914

O serviço nacional de saúde pública dos EUA (USPHS) organiza a divisão de Higiene Industrial

1922

Harvard estabelece graduação em higiene industrial

1938

Forma-se a ACGIH, então chamada National Conference of Governmental Industrial Hygienists.

1939

Forma-se a AIHA (American Industrial Hygiene Association). A ASA (American Standards Asssociation, hoje ANSI) e a ACGIH preparam a primeira lista de “Concentrações Máximas Permissíveis” (MACs) para substâncias químicas na indústria.

1960

O American Board of Industrial Hygiene (ABIH) é organizado pela AIHA e pela ACGIH.

1970

OSHA - Occupational Safety and Health Act - é promulgada.

FONTE: ROSE, 1997

2.1.1. RECONHECIMENTO E ANTECIPAÇÃO

O reconhecimento, como também antecipação, de um potencial problema de saúde

ocupacional é uma condição prévia para a implementação de atividades de higiene ocupacional. Então, primeiras tentativas em definir o escopo e a magnitude dos problemas de

saúde ocupacional eram muito mais importantes que os esforços subseqüentes para avaliação e controle.

A pesquisa da Comissão de Doença de Profissional de Illinois da extensão dos

problemas de saúde ocupacional em Illinois, em 1910, foi a primeira pesquisa empreendida

nos Estados Unidos (CORN, 1978). Apesar de outros estados formarem comissões para identificar os problemas, muitos anos antes, já existia um esforço organizado para

30

desenvolver informações sobre os problemas de saúde dos trabalhadores das indústrias nos Estados Unidos.

A Division of Industrial Hygiene of United States Public Health Service (USPHS), que mais tarde se tornou o National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH), na década de 60, desenvolveu pesquisas com o propósito de identificar a extensão da exposição dos trabalhadores e os riscos à saúde. Os resultados destes estudos eram usados para determinar a necessidade para os especialistas de saúde nas agências governamentais e para fixar as prioridades na inspeção e nos programas governamentais (ROSE, 1988). Um estudo, subseqüente ao da NIOSH, do National Occupational Exposure Survey verificou a exposição dos trabalhadores aos riscos ambientais, possibilitando a NIOSH estabelecer prioridade nas pesquisas e no desenvolvimento de padrões (GRIEFE, 1995).

Hoje em dia, os esforços da Higiene Ocupacional nos EUA são guiados pela consideração dos riscos, mais do que pelas doenças. Conseqüentemente, a ênfase na antecipação e no reconhecimento de problemas de saúde ocupacional envolve a prática da higiene industrial na determinação do risco, onde o risco combina a toxicidade inerente do agente e a probabilidade de exposição (ROSE, 1997).

2.1.2 AVALIAÇÃO

Embora o uso dos sentidos, inclusive visão, cheiro, e às vezes gosto, era importantes no início da prática de higiene industrial, a transição para um conceito cientifico exigiu o desenvolvimento de métodos de amostragem mais sofisticados para ajudar na avaliação de problemas. Um dos primeiro métodos de amostragem foi desenvolvido por pesquisadores na Universidade de Harvard em 1917, era o tubo de detector colorimétrico (dispositivo de indicação colorimétrica) para a avaliação ambiental de monóxido de carbono. (LAMB, 1919)

Em 1922, Greenber e Smith desenvolveram o impinger. Em 1938, Littlefield e Schrenk modificaram o projeto e desenvolveram o impinger miniaturizado (midget impinger) (BROWN, 1965). Subseqüentemente com uso de bombas manuais, os impingers criaram as primeiras avaliações ambientais de zona respiratória.

O método analítico de contar partículas com um microscópio e avaliar as concentrações de milhões de partículas por pé cúbico, era o método normal caracterizando

31

exposições a particulados, até a aplicação do filtro de membrana em 1953, que permitiu avaliar a exposições em massa por base de volume (GOETZ, 1953).

Em 1970, uma importante inovação na metodologia de amostragem aconteceu, quando NIOSH desenvolveu o tubo de carvão ativo para amostragem e proveu o desenvolvimento da bomba de amostragem pessoal (WHITE, 1970).

Simultaneamente com o desenvolvimento destes dispositivos de amostragem ativos, em 1973, Palme desenvolveu um monitor passivo para dióxido de nitrogênio.Estes desenvolvimentos tecnológicos facilitaram a amostragem pessoal e permitiu ao higienista maior flexibilidade na caracterização da exposição do trabalhador em condições arriscadas (ROSE, 1982).

Hoje, os higienistas usam absorção atômica, plasma, cromatografia líquida e outras sofisticadas instrumentações e técnicas (ROSE, 1997).

Com o desenvolvimento dos instrumentos de avaliação ambiental, houve a necessidade de serem estabelecidos parâmetros, que indicassem a superexposição dos trabalhadores aos agentes de risco. Em 1929, alguns higienistas do USPHS recomendaram limites superiores para exposição à poeira de quartzo, baseados em estudos na indústria de granito de Vermont (NIOSH, 1975).

Em 1939, a primeira lista de valores permissíveis (MACs) é desenvolvida pela ACGIH em conjunto com a ASA (ANSI). Essa lista foi publicada em obras médicas chegando a ter 140 substâncias e também indicava as razões dos valores adotados.

Em 1947, ACGIH começou publicação de sua lista de MAC, que foi transformado em Term Threshold Limit Values (TLVs ®) em 1948 (BEATZER, 1980). Estes parâmetros são atualizados anualmente e são, inclusive, referenciados na atual legislação brasileira, tanto trabalhista, NR – 9, quanto previdenciária.

2.1.3 CONTROLE

Simultaneamente com o desenvolvimento dos dispositivos de amostragem, o controle dos riscos, pelos profissionais de higiene, necessitava de uma abordagem tecnológica, ou seja, medidas de engenharia, como substituição com substâncias menos arriscadas ou o uso de

32

ventilação local exaustora. Onde estas medidas não fossem suficientes para eliminar os riscos, deveriam ser adotadas medidas administrativas ou de proteção individual.(ROSE, 1997)

Estes conceitos, de controle na fonte, no ambiente e no trabalhador foi introduzido pela primeira vez, de forma abrangente, em 1473, por Ulrich Ellenborg. Ele sugeriu três métodos de controle usados até hoje, o uso de carvão seco em vez do molhado para evitar a produção de fumo tóxico, que se trabalhe com janelas abertas, e que se cubram a boca prevenir inalação de fumo nocivo (BROWN, 1965).

A

história

de

dois

métodos

de

controle,

a

ventilação

industrial

e

a

proteção

respiratória, são de particular interesse para os higienistas.

Agricola, em 1561 na publicação De Ré Metallica, enfatizava a necessidade para ventilação de minas e incluía muitas ilustrações de dispositivos para forçar ar no subsolo (FELTON, 1994).

O primeiro projeto de ventilação exaustora registrado foi o de D’Arcet no início dos

1800. Para controlar fumo nocivo, ele colocou um tubo captor em uma fornalha, ligado a uma chaminé alta que tinha uma forte vazão de ar, levando o fumo para longe da fonte. (ROSE,

1997)

O British window tax de 1696, que foi revogado somente em 1851, resultou em

fabricas escuras e não ventiladas. A primeira legislação regulamentando as condições das fábricas foi a British Factory and Workshops Act de 1802, que exigia ventilação em locais de trabalho. (ROSE, 1997)

A lei inglesa das fábricas de 1864 exigia ventilação suficiente para neutralizar os

efeitos nocivos dos gases e poeiras, mas só em 1867 os inspetores tiveram poder de exigir ventiladores e outros meios mecânicos para controlar as poeiras (ROSE, 1997).

Apesar das exigências de ventilação na legislação, a evolução tecnológica só permitiu o efetivo controle a partir dos anos 1930.

Em 1951, a ACGIH publica a primeira edição do Industrial Ventilation: A Manual of Recommended Practice. Este manual, após diversas revisões, é, atualmente, a mais completa publicação sobre sistemas de ventilação e exaustão, sendo usado como guia e referencia pelos higienistas (ROSE, 1997).

33

Quanto ao uso de respiradores, existem registros da utilização, desde 50 DC, de bexigas de animais para proteção respiratória, porém provavelmente não tiveram boa aceitação pelos trabalhadores, além da pouca eficiência na redução à exposição (ROSE,

1997).

Leonardo da Vinci (1452-1519), considerando os problemas respiratórios, recomendava o uso de tecidos umedecidos contra os agentes químicos de guerra. Ele também criou dois dispositivos de respiração subaquática, sendo que era um snorkel, com o elemento flutuante de bloqueio (NIOSH, 1976).

Ramazzini escreveu estudo sobre a ineficiência dos protetores respiratórios de sua

época.

Nos anos 1800, a compreensão das separações entre partículas e gases permitiu avanços nos respiradores. Em 1814 desenvolveu-se o precursor do filtro de partículas dentro de um invólucro rígido. A propriedade de adsorção de vapores do carvão ativo foi descoberta em 1854 e quase imediatamente utilizada em respiradores (ROSE, 1997).

O maior avanço nos respiradores foi, claro, conseguido na área bélica, devido ao uso

de agentes químicos da 1ª Guerra. A pesquisa de máscaras militares foi intensa, não só de gases, como também sobre poeiras tóxicas usadas nos campos de batalha (ROSE, 1997).

Desde dos anos de 1920s, a maioria dos avanços no campo dos respiradores, incluíam filtro de poeiras com resina impregnante, uso de força eletrostática para retirada de poeira do ar e filtros de alta eficiência de papel com fibra de vidro (NIOSH, 1976). Outros avanços incluíam a aplicação de material flexível e durável, como plástico, nas mascaras faciais e equipamento autônomo de ar mandado (ROSE, 1997).

2.2 A EVOLUÇÃO DA HIGIENE OCUPACIONAL NO BRASIL

Ao analisar a evolução da higiene ocupacional no Brasil deve-se considerar tanto a legislação trabalhista quanto a previdenciária, assim como a criação de instituições e associações direta ou indiretamente ligadas ao assunto.

A higiene ocupacional tem as suas origens ligadas à atividade industrial, como o Brasil

começou a se industrializar no começo do século XX, as ações de higiene iniciam-se a partir desde século.

34

2.2.1 EVOLUÇÃO DAS INSTITUIÇÕES E ASSOCIAÇÕES DE HIGIENE OCUPACIONAL NO BRASIL

A primeira instituição no Brasil de ensino e pesquisa em higiene ocupacional está

ligada à atual Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

A origem da Escola de Saúde Pública de São Paulo prende-se ao "Laboratório de

Higiene", criado em 1918, pelo convênio firmado entre o Governo do Estado de São Paulo e a "International Health Board", da Fundação Rockefeller e que funcionou como Cadeira da Faculdade de Medicina. O primeiro titular da cadeira foi o Professor Samuel Taylor Darling, que lançou as bases do ensino de Higiene no Brasil (FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP, 2004).

Em 1924, o Governo do Estado assumiu todos os encargos do Departamento de Higiene, oficializando-o. A partir de 1925, o Departamento adquiriu autonomia, deixando de ser dependência direta da Faculdade de Medicina e passando a denominar-se "Instituto de Higiene de São Paulo" (FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP, 2004).

Ainda em 1925, foi instalado o primeiro Centro de Saúde do país, anexo ao Instituto de Higiene, como centro modelo de aprendizado para pessoal da saúde pública. Nesse mesmo ano, iniciou-se o primeiro Curso de Educadores Sanitários, destinado a professores primários. Em 1929, teve início o curso de especialização em Higiene e Saúde Pública para Médicos, diplomando-se nesse ano a primeira turma de médicos sanitaristas. Em 1931, foi o Instituto de Higiene reconhecido oficialmente, como "Escola de Higiene e Saúde Pública" e, em 1938, foi incorporado à Universidade de São Paulo, como uma de suas instituições complementares, responsável pela área de Higiene da Faculdade de Medicina. Em 1945, passou o Instituto de Higiene a constituir uma das Unidades autônomas de ensino superior da Universidade de São Paulo, sob a denominação de Faculdade de Higiene e Saúde Pública - (Decreto-Lei 14.857 de 10 de julho de 1945). Em 1947, foi criado no município de Araraquara, no Estado de São Paulo, o "Serviço Especial de Saúde", que se constituiu no centro rural de aprendizado da Faculdade. Em 1949, foi instalado o Curso de Saúde Pública para Engenheiros, destinado à formação de engenheiros sanitaristas (FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP,

2004).

Em 1969, a Faculdade passou a ter a sua nova denominação, ou seja, "Faculdade de Saúde Pública" (FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP, 2004).

35

A Associação Brasileira para Prevenção de Acidentes (ABPA) , fundada em 21 de

maio de 1941 é uma entidade civil, não governamental e sem fins lucrativos detentora de

credibilidade na área prevencionista do Brasil, do Exterior e com enorme destaque no Mercosul e América Latina (ABPA, 2004).

Em 1962 foi declarada de Utilidade Pública pelo Decreto nº 1328, de 30 de agosto, que ensejou, também, o seu reconhecimento como Entidade de Fins Filantrópicos pelo Conselho Nacional de Serviço Social em 21 de agosto de 1974 (ABPA, 2004).

Desde 1941, sua missão é promover educação e informação. Aglutinar pessoas e empresas com senso de responsabilidade social, através de, cursos de formação e requalificação, congressos, seminários, estudos estatísticos, levantamentos ambientais, legislações e normas do trabalho, visando o bem do homem, sua inserção no meio produtivo de forma segura, objetivando produtividade e qualidade com qualidade de vida (ABPA,

2004).

Em 25 de junho de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assina o decreto-Lei n. 9 403, que atribui à Confederação Nacional da Indústria (CNI) o encargo de criar, organizar e dirigir o Serviço Social da Indústria (SESI). Em 1 de julho, durante reunião do Conselho de Representantes da CNI, o SESI é efetivamente criado como entidade de direito privado. Na mesma ocasião, é apreciada redação do Regulamento da entidade, aprovada em portaria de 20 de julho pelo Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio (SESI, 2004).

Atualmente com o programa SESI Saúde e Segurança no Trabalho para a Indústria são realizadas ações nas áreas de higiene e segurança, educação e capacitação, meio ambiente e promoção e proteção da saúde no trabalho. O objetivo é conciliar saúde e bem-estar do industriário com a segurança no ambiente de trabalho e o desenvolvimento empresarial. As empresas são orientadas na adoção de medidas que preservem a integridade física e psicológica de seus empregados, reduzindo custos decorrentes de acidentes e de doenças ocupacionais (SESI, 2004).

A 03 de setembro de 1954, o Presidente da República sancionou a Lei 2.312 que

estabeleceu normas gerais sobre defesa e proteção à Saúde, a qual, em seu artigo 5º, dispõe:

Para a formação de pessoal técnico especializado, a União manterá uma Escola Nacional de Saúde Pública, à qual poderão ser equiparadas outras existentes ou que venham a ser criadas pelo Estado ou pela iniciativa privada (BRASIL, 1954).

36

Embora a ENSP tenha sido oficializada em 1954, suas origens remontam ao ano de 1925, quando foi criado, pelo Decreto 16.682-A de 13 de janeiro, o Curso Especial de Higiene e Saúde Pública, anexo à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, com a finalidade de preparar médicos que pretendessem desempenhar funções sanitárias. Ao Instituto Oswaldo Cruz, foi atribuída a responsabilidade administrativa, técnica e didática desse curso (SOUZA,

2004).

Hoje a ENSP é Unidade Técnica da Fundação Oswaldo Cruz e tem por finalidades atuar como centro nacional de estudos e pesquisas, participar da formação de pessoal para a área da Saúde e oferecer cooperação e assessoria técnica especializada aos serviços de Saúde. Suas atividades se integram ao sistema formador de profissionais, de prestação de serviços e de desenvolvimento científico e tecnológico de nosso país (SOUZA, 2004).

Como instituição de âmbito nacional, a ENSP atua também além dos limites de sua sede, desenvolvendo atividades de cooperação com inúmeros outros países, quer na formação de profissionais, no desenvolvimento de pesquisas e na cooperação técnica (SOUZA, 2004).

Criada oficialmente em 1966, a FUNDACENTRO teve os primeiros passos de sua história dados no início da década, quando a preocupação com os altos índices de acidentes e doenças do trabalho crescia no Governo e entre a sociedade. Já em 1960, o Governo brasileiro iniciou gestões com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com a finalidade de promover estudos e avaliações do problema e apontar soluções que pudessem alterar esse quadro (FUNDACENTRO, 2004).

A idéia de criar uma instituição voltada para o estudo e pesquisa das condições dos ambientes de trabalho, com a participação de todos os agentes sociais envolvidos na questão, começou a ganhar corpo. Proposta nesse sentido foi apresentada em março de 1964, durante o Congresso Americano de Medicina do Trabalho, realizado em São Paulo (FUNDACENTRO,

2004).

Em 1965, após a visita ao País de especialistas da OIT, e de novos estudos sobre as condições necessárias para a implantação da iniciativa, o Governo Federal decidiu pela criação de um centro especializado, tendo a cidade de São Paulo como sede da nova instituição, em função do porte de seu parque industrial (FUNDACENTRO, 2004).

37

Durante o Congresso Nacional de Prevenção de Acidentes, realizado em São Paulo, em 1966, foi oficializada a criação da FUNDACENTRO, que teve sua primeira sede instalada no bairro de Perdizes. Datam dessa fase inicial da entidade os primeiros estudos e pesquisas no País sobre os efeitos de inseticidas organoclorados na saúde; da bissinose (doença ocupacional respiratória que atinge trabalhadores do setor de fiação, expostos a poeira de algodão e juta); sobre as conseqüências das vibrações e ruídos em trabalhadores que operam marteletes; sobre o teor da sílica nos ambientes de trabalho na indústria cerâmica e ainda sobre os riscos da exposição ocupacional ao chumbo (FUNDACENTRO, 2004).

No decorrer de sua história, a FUNDACENTRO viria ainda afirmar sua vocação pioneira na área, com as pesquisas sobre as Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho - DORT (à época chamada de Lesões por Esforços Repetitivos - LER). Também foi graças a um laudo emitido pela FUNDACENTRO que, pela primeira vez, um caso de câncer ocupacional (por exposição ao benzeno) foi reconhecido no País, pela Previdência Social (FUNDACENTRO, 2004).

Com a vinculação, em 1974, da FUNDACENTRO ao Ministério do Trabalho - MTb, cresceram as atribuições e atividades da instituição, exigindo um novo salto da entidade: a implantação do Centro Técnico Nacional, cuja construção teve início em 1981, sendo concluído em 1983, no bairro de Pinheiros, em São Paulo (FUNDACENTRO, 2004).

Hoje, a FUNDACENTRO está presente em todo País, por meio de suas unidades descentralizadas, distribuídas em 11 Estados e no Distrito Federal. Atuando de acordo com os princípios do tripartismo, a FUNDACENTRO tem no Conselho Curador sua instância máxima. Nele estão representados, além do governo, os trabalhadores e empresários, por meio de suas organizações de classe (FUNDACENTRO, 2004).

O ineditismo e a importância de seus estudos deram à FUNDACENTRO a liderança na América Latina no campo da pesquisa na área de segurança e saúde no trabalho. A FUNDACENTRO é designada como centro colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS), além de ser colaboradora da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Ainda no plano internacional, a FUNDACENTRO mantém intercâmbio com países das três Américas, da Europa, além do Japão e da Austrália. São ações que envolvem desde trabalhos na área de educação até o desenvolvimento de projetos de sistemas de gestão ambiental (FUNDACENTRO, 2004).

38

A Sociedade Brasileira de Engenharia de Segurança (SOBES) é uma entidade civil, sem fins lucrativos, que se dedica ao desenvolvimento da engenharia de segurança e à melhoria da qualidade do ambiente de trabalho, fundada em 1971, sendo a fonte inspiradora do texto da Portaria 3237/72, do Ministério do Trabalho, base da legislação que regulamenta o exercício da engenharia de segurança do trabalho (SOBES, 2004).

Destacando-se no cenário nacional na área ensino, nos trabalhos técnicos e também pelo intercâmbio com outras instituições, hoje, a SOBES vive uma reformulação, agregando cada vez mais participação no mercado de trabalho (SOBES, 2004).

Em 1980, juntamente com o ressurgimento do movimento sindical, nasce o Departamento Inter Sindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (DIESAT), em São Paulo. O período é marcado por movimentos sindicais jamais vistos, organização de trabalhadores e fundação de partidos trabalhistas. No entanto, a ânsia das empresas pelo lucro impõe um novo ritmo ao trabalho, dando margem a novas doenças ocupacionais e ao aumento do número de acidentados e mutilados (DIESAT, 2004).

Diante dessa nova realidade, a fundação do DIESAT torna-se um importante complemente nas lutas sindicais. Desde o início, a entidade marca presença nas campanhas contra os acidentes de trabalho, por melhores condições de trabalho e saúde e por melhores salários. De lá para cá, denúncias de exploração da mão-de-obra, de contaminações por produtos químicos e de ataques aos direitos são levadas ao conhecimento da população, fazendo do departamento uma ferramenta para a conquista da verdadeira cidadania (DIESAT,

2004).

Em 1981, o DIESAT lança o "Boletim DIESAT". Os primeiros números levantam os impactos do ruído e de outros agentes sobre a saúde dos trabalhadores - efeitos das horas extras, turnos e ritmos de trabalho. No mesmo ano, a entidade implanta o Serviço Médico- Pericial, cujo objetivo é estabelecer a relação de agravos à saúde com o trabalho. Três anos depois, a entidade substitui o Boletim DIESAT pela revista Trabalho & Saúde. A publicação traz denúncias sobre manipulações de notificações de acidentes de trabalho, orientações para reabilitação profissional e análises sobre salário-mínimo, intensificação do trabalho e transferência de riscos do primeiro para o terceiro mundo (DIESAT, 2004).

39

O Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH), pertencente à ENSP, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), foi implantado em 10 de dezembro de 1985, tendo por objetivos básicos:

Formar recursos humanos para a área, sejam técnicos para atuação nos programas de saúde do trabalhador no âmbito do SUS (Sistema único de Saúde) e outras instituições, sejam novos pesquisadores, através de cursos de Especialização, Mestrado e Doutorado;

Desenvolver estudos e pesquisas sobre a relação trabalho, saúde e ambiente, propiciando o desenvolvimento de novas metodologias, diagnóstico e a intervenção sobre situações relevantes, bem como a proposição e avaliação de políticas públicas;

Desenvolver atividades de cooperação técnica, principalmente junto às Secretarias de Saúde dos Estados e Municípios, instituições técnico-científicas, sindicatos e Ministérios Públicos (ENSP, 2004).

O Instituto Nacional de Saúde no Trabalho (INST) foi criado a partir de um convênio de cooperação entre a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Confederazione Generale del Lavoro (CGIL), que através do seu organismo para a cooperação internacional , Progeto Sviluppo, intermediou o financiamento junto ao governo italiano (INST, 2004).

Em atividade desde outubro de 1990, o INST é o órgão de assessoria técnica e política da CUT - Central Única dos Trabalhadores para a área de saúde, condições de trabalho e meio ambiente, com atuação nas áreas de documentação, formação, publicação, estudos e pesquisas. Desenvolve projetos no âmbito nacional e internacional dirigidos às categorias profissionais e ramos de atividade, buscando contribuir para o fortalecimento das ações e da organização dos trabalhadores, desde os locais de trabalho, para intervir nas condições ambientais e na organização dos processos de trabalho, visando à prevenção de acidentes e doenças e a promoção de saúde (INST, 2004).

Criada em agosto de 1994, a Associação Brasileira de Higienistas Ocupacionais (ABHO) congrega pessoas físicas e jurídicas com interesses relacionados à área de higiene ocupacional, tendo sido constituída para fins de estudos e ações relativas à higiene

40

ocupacional e representação de interesses individuais ou coletivos dos higienistas. Tem como objetivos:

Promover e valorizar a higiene e os higienistas ocupacionais no Brasil;

Promover a troca de informações e de experiências;

Promover a formação, qualificação e aperfeiçoamento profissional (ABHO, 2004).

2.2.2 – EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA LIGADA À HIGIENE NO BRASIL

A primeira legislação de proteção ao trabalhador foi o Decreto nº 3724 de 1919, onde surge primeira definição de doença ocupacional, que era “a moléstia contraída exclusivamente pelo exercício do trabalho, quando este for de natureza a só por si causá-la, e desde que determine a morte do operário, ou perda total, ou parcial, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho” (Brasil, 1919). Este decreto criava uma indenização por acidente de trabalho, porém não incluía todos os trabalhadores, somente os operários conforme o Artigo 3, transcrito a seguir.

São considerados operários, para o efeito da indenização, todos os indivíduos, de qualquer sexo, maiores ou menores, uma vez que trabalhem por conta de outrem nos seguintes serviços: construções, reparações e demolições de qualquer natureza, como de prédios, pontes, estradas de ferro e de rodagem, linhas de tramways elétricos, redes de esgotos, de iluminação, telegráfica e telefônicas, bem como na conservação de todas essas construções; de transporte carga e descarga; e nos estabelecimentos industriais e nos trabalhos agrícolas em que se empreguem motores inanimados (BRASIL, 1919).

Ao analisar este Decreto, verifica-se que a definição de operários se restringia aos trabalhadores da construção civil, deixando de fora ocupações antigas como as ligadas à extração mineral, que teve um importante papel na evolução da higiene nos países industrializados, já que esta atividade gera uma exposição muito agressiva para os trabalhadores aos agentes de riscos ambientais. Vale lembrar que o Brasil, nesta época, era um país agrário que começava a se industrializar. Antes deste Decreto não há registro de legislação de proteção à saúde do trabalhador, pois trabalho escravo oficializado no Brasil durou quase até final do século XIX.

41

Em 1940, o Decreto-Lei nº 2.162, que institui o salário mínimo, estabelece o pagamento de adicional de insalubridade no seu Artigo 6, transcrito a seguir.

Para os trabalhadores ocupados em operações consideradas insalubres, conforme se trate dos graus máximo, médio ou mínimo, o acréscimo de remuneração, respeitada a proporcionalidade com o salário mínimo que vigorar para o trabalhador adulto local, será de 40 %, 20 % ou 10 %, respectivamente (BRASIL, 1940)

Estes percentuais são os mesmos até hoje. A legislação não determinava quais eram os agentes de riscos ambientais que geravam a condição de insalubridade.

Com a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, surgiu a primeira regulamentação referente à higiene e segurança do trabalho. O Capitulo V do Titulo II, tratava, em secções separadas, as questões de higiene e segurança do trabalho. Na Secção sobre higiene são citados alguns agentes de risco ambiental como iluminação, determinando que “todos os locais de trabalho deverão ter iluminação suficiente para que o trabalho possa ser executado sem perigo de acidente para o trabalhador e sem que haja prejuízo para o seu organismo”. Inclusive, são estabelecidos limites de tolerância, como no Artigo 159, que determina, de uma maneira geral, valores mínimos de iluminamento, para trabalhos delicados de 150 a 400 luxes, trabalhos que exigem menos riqueza de detalhes de 50 a 150 luxes e rústicos de 20 a 30 luxes (BRASIL, 1943).

Do mesmo modo, o conforto térmico, que no Artigo 165 recomenda, que seja por meio de uma orientação conveniente, de paredes de menor transmissibilidade térmica, da proteção das paredes externas e das janelas, seja por meio da vegetação, seja por outros processos, e pela disposição adequada das aberturas, deveria ser garantido nos locais de trabalho um grau do conforto térmico compatível com o gênero de trabalho realizado, propiciando um índice de conforto térmico exigível variável, conforme a região do país e a época do ano, devendo em geral ser inferior a 28ºC no verão e superior a 12ºC no inverno, sem teores especificados de umidade (BRASIL, 1943).

O controle era priorizado através de medidas de proteção de caráter coletivo, que no caso do calor era a ventilação artificial, realizada por meio de ventiladores, exaustores, insufladores e outros recursos, caso a ventilação natural não atendesse aos índices de conforto térmico, prevendo ainda o uso de capelas, anteparos, paredes duplas e isolamento térmico e recursos similares (BRASIL, 1943).

42

Existia, ainda, a alusão da necessidade de proteção contra agentes químicos, que na legislação eram chamados de “gases, vapores e poeiras, cuja aspiração possa prejudicar a saúde dos trabalhadores” (BRASIL, 1943), através de processos que os desviem ou por meio de dispositivos que defendam contra eles as vias respiratórias dos trabalhadores.

A insalubridade do ambiente poderia ser eliminada pelo tempo limitado da exposição

aos agentes químicos, pela utilização de processos, métodos ou disposições especiais que neutralizassem ou removessem as condições de insalubridade, ou ainda pela adoção de medidas, gerais ou individuais, capazes de defender a proteger a saúde do trabalhador, exigindo do empregador o fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI), tais como: óculos, luvas, mascaras, aventais, calçados, capuzes e agasalhos, equipamentos esses, de uso obrigatório pelos empregados,que deveriam ser aprovados pelas autoridades competentes de Higiene do Trabalho da época.

Criou o exame médico admissional para os empregados, renovado periodicamente, pelo menos uma vez por ano, nas atividades insalubres ou perigosas. Tornou obrigatória a notificação das doenças profissionais produzidas pelo trabalho ou em conseqüência do trabalho, nas atividades insalubres.

A grande modificação da CLT, em termos de legislação sobre segurança e medicina

do trabalho, veio com a publicação da Lei nº 6.514, de 22 de dezembro de 1977, que altera o Capítulo V do Titulo II da Consolidação das Leis do Trabalho, relativo a segurança e medicina do trabalho e dá outras providências.

Esta modificação da CLT em relação à higiene ocupacional trouxe mudanças nas Seções VII (da iluminação), VIII (do conforto térmico), XII (das atividades insalubres ou perigosas), XV (das outras medidas especiais de proteção) e XVI (das penalidades).

Para iluminação não são estipulados valores mínimos de iluminamento, ficando a cargo do Ministério do Trabalho estabelecer estes parâmetros, no entanto, determina que a iluminação deve ser adequada à natureza da atividade, sendo uniformemente distribuída, geral e difusa, a fim de evitar ofuscamento, reflexos incômodos, sombras e contrastes excessivos.

Quanto ao conforto térmico, também não eram estabelecidos índices de conforto, ficando a cargo do Ministério do Trabalho estabelecer estes limites, devendo a ventilação natural ou artificial tornar a temperatura compatível com o serviço realizado. Se as condições

43

de ambiente se tornassem desconfortáveis, em virtude da instalação de fontes geradoras de frio ou de calor, seria obrigatório o uso de vestimenta adequada para o trabalho em tais condições ou de capelas, anteparos, paredes duplas, isolamento térmico e recursos similares, de forma que os empregados fiquem protegidos contra as radiações térmicas, o que caracteriza a preocupação a proteção tanto individual como também coletiva do trabalhador.

Esta legislação vinculava a caracterização das atividades ou operações insalubres, com aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos. O Ministério do Trabalho seria responsável pelo quadro das atividades e operações insalubres e critérios de caracterização da insalubridade, limites de tolerância aos agentes agressivos, meios de proteção, o tempo máximo de exposição do empregado a esses agentes e medidas de proteção do organismo do trabalhador. A eliminação ou a neutralização da insalubridade ocorreria somente quando houvesse a adoção de medidas que conservassem o ambiente de trabalho dentro dos limites de tolerância ou com a utilização de equipamentos de proteção individual ao trabalhador, que diminuam a intensidade do agente agressivo a limites de tolerância.

A legislação previa que os ambientes insalubres fossem temporários, pois determinava que as Delegacias Regionais do Trabalho, comprovada a insalubridade, notificariam as empresas, estipulando prazos para sua eliminação ou neutralização. Esta obrigação se mostrou inócua a longo dos anos, pois até hoje existem ambientes de trabalho insalubres.

O exercício de trabalho em condições insalubres, acima dos limites de tolerância estabelecidos pelo Ministério do Trabalho, assegurava a percepção de adicional respectivamente de 40% (quarenta por cento), 20% (vinte por cento) e 10% (dez por cento) do salário-mínimo da região, segundo se classifiquem nos graus máximo, médio e mínimo. Na legislação anterior eram os mesmos adicionais, porém sobre o salário-mínimo nacional.

Surgem o adicional de periculosidade para atividades ou operações perigosas, na forma da regulamentação do Ministério do Trabalho, que por sua natureza ou métodos de trabalho, impliquem o contato permanente com inflamáveis ou explosivos em condições de risco acentuado. O adicional era de 30% (trinta por cento) sobre o salário sem os acréscimos resultantes de gratificações, prêmios ou participações nos lucros da empresa, podendo o emprega optar pelo adicional de insalubridade que tivesse direito. Estes adicionais são os

44

mesmos até hoje, o que indica que não contribuíram em nada para melhoria das condições do trabalho.

O direito do empregado ao adicional de insalubridade ou de periculosidade cessaria

com a eliminação do risco à sua saúde ou integridade física, que na maioria dos casos tem um custo mais elevado do que o pagamento do adicional.

A caracterização e a classificação da insalubridade e da periculosidade, segundo as

normas do Ministério do Trabalho, seriam através de perícia a cargo de médico do trabalho ou engenheiro do trabalho, registrados no Ministério do Trabalho. Hoje, o registro destes profissionais é feito nos respectivos conselhos de classe.

Os materiais e substâncias empregados, manipulados ou transportados nos locais de trabalho, quando perigosos ou nocivos à saúde, deveriam conter, no rótulo, sua composição, recomendações de socorro imediato e o símbolo de perigo correspondente, segundo a padronização internacional. Os estabelecimentos que mantenham estas atividades deveriam afixar, nos setores de trabalho atingidas, avisos ou cartazes, com advertência quanto aos materiais e substâncias perigosos ou nocivos à saúde.

A grande inovação do texto da Lei nº 6514 foi permitir, através do seu Artigo 200, que

o Mistério do Trabalho regule a legislação de segurança e medicina do trabalho através de portarias.

SEÇÃO XV

Das Outras Medidas Especiais de Proteção

Art 200 - Cabe ao Ministério do Trabalho estabelecer disposições complementares

às normas de que trata este Capítulo, tendo em vista as peculiaridades de cada atividade ou setor de trabalho, especialmente sobre:

V - proteção contra insolação, calor, frio, umidade e ventos, sobretudo no trabalho a

céu aberto, com provisão, quanto a este, de água potável, alojamento profilaxia de

endemias;

VI - proteção do trabalhador exposto a substâncias químicas nocivas, radiações

ionizantes e não ionizantes, ruídos, vibrações e trepidações ou pressões anormais ao

ambiente de trabalho, com especificação das medidas cabíveis para eliminação ou atenuação desses efeitos limites máximos quanto ao tempo de exposição, à intensidade da ação ou de seus efeitos sobre o organismo do trabalhador, exames

médicos obrigatórios, limites de idade controle permanente dos locais de trabalho e

das demais exigências que se façam necessárias; (BRASIL, 1977)

O Artigo 200 propiciou a regulamentação pelo Ministério do Trabalho, que veio com a

Portaria nº 3214, de 08 de Junho de 1978, que aprovou as Normas Regulamentadoras - NR -

45

do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho, relativas à Segurança e Medicina do Trabalho.

Após a publicação das NR, estas se tornaram a referência para toda a atividade de segurança ,higiene e medicina do trabalho no País.

A higiene ocupacional é tratada basicamente nas NR - 9 - Riscos Ambientais e NR -

15- Atividades e Operações Insalubres, das 28 NR aprovadas inicialmente.

A NR - 9 definia como riscos ambientais os agentes de risco físicos, químicos, biológicos e mecânicos capazes de provocar lesões ao trabalhador. Para esta norma eram considerados como agentes físicos: ruído, vibração, temperaturas anormais, pressões anormais, radiações ionizante e não ionizante, iluminação e umidade; como agentes químicos:

névoas, neblinas, poeiras, fumos, gases e vapores; como agentes biológicos: bactérias, fungos, rickettsia, helmintos, protozoários e vírus. Ao empregador cabia apenas controlar periodicamente os riscos constantes na NR - 15, sem estabelecer nenhuma sistemática para realização deste controle.

A NR - 15 trata das atividades e operações insalubres em 14 anexos. Nesta Norma são

estabelecidos metodologias parâmetros e limites de tolerância para o pagamento de adicional salarial correspondente ao grau de insalubridade. A norma considerava como atividades insalubres, as acima dos limites de tolerância previstos para ruído, calor, radiações ionizantes, substâncias químicas contidas no Anexo 11 e poeiras minerais, as abaixo dos níveis de iluminamento fixados, as sob pressões hiperbáricas e qualitativamente as constantes nos Anexos 13 e 14 referentes respectivamente agentes químicos e biológicos. As atividades sob radiações não ionizantes, vibração, frio e umidade dependem de laudo de inspeção do local de trabalho para a sua caracterização. A correlação da NR – 15 com a NR – 9 indica que o adicional de insalubridade passou a ser uma punição para os empregadores que não controlam os riscos nos parâmetros estabelecidos e compensar os trabalhadores pela perda da sua saúde, porém em muitos casos controle é mais custoso que o pagamento do adicional, no caso de ser valorado custo da perda da saúde humana em relação indenização trabalhista e civil ou gasto com a saúde.

Outra portaria importante para higiene ocupacional é a Portaria Interministerial dos Ministérios da Saúde e do Trabalho de nº 3, de 28 de abril de1982, considerando a alta toxidez do benzeno e a possibilidade de substituição por outro produto, proibiu a fabricação

46

de produtos que contenham benzeno em sua composição, admitindo-se 1% em volume de contaminação residual.

O Decreto nº 93.413, de 15 de outubro de 1986 ratificou a Convenção nº 148 da OIT,

estabelecendo normas sobre a proteção dos trabalhadores contra os riscos profissionais devidos à contaminação do ar, ao ruído e às vibrações no local de trabalho.

A Portaria nº 3.751, de 23 de novembro de 1990, revogou o Anexo 4 da NR- 15, que

estabelecia adicional de insalubridade para atividades executadas com níveis de iluminamento abaixo do estabelecido neste anexo. Alterou, ainda, a NR - 17 referente à ergonomia, enquadrando os problemas de iluminação com risco ergonômico e que os níveis de iluminamento devem ser os da NBR 5413. A retirada das questões de iluminação da NR- 15, não implica que, no PPRA, os níveis de iluminamento não sejam avaliados, pois a iluminação não deixou de ser um risco físico.

A Portaria n.º1, de 28 de maio de 1991, que regulamentou a Convenção n.º 162, da

Organização Internacional do Trabalho que trata da utilização do asbesto em condições de segurança - 1986, ratificada pelo Brasil através do Decreto Executivo n.º 126, de 22/05/91, alterou o Anexo 12 da NR- 15 e estabeleceu limite de tolerância e condições de segurança para utilização de asbesto.

Após outras portarias do Ministério do Trabalho, que introduziram novas recomendações e modificaram limites de tolerância para determinados agentes de risco e a ratificação pelo Brasil da Convenção nº 155 da OIT, através do Decreto nº 1254 de 29/09/94, que dispõe sobre a segurança e saúde dos trabalhadores e o meio ambiente, foi publicada a Portaria n.º 25, de 29 de dezembro de 1994, modificando a NR-9 e tornando obrigatória a elaboração e implementação do PPRA, por parte de todos os empregadores e instituições que admitam trabalhadores como empregados.

Esta obrigatoriedade propiciou um grande impulso nas atividades de higiene no Brasil, pois além de criar uma sistematização para as ações de higiene e valorizar os profissionais da área, forçou empresas desobrigadas a manter SESMT, a ter contacto com as atividades de higiene. Muitas destas empresas, na verdade, não necessitariam de um programa de controle de riscos ambientais, pois pela natureza de suas atividades, os agentes nocivos não estariam presentes no ambiente acima do nível de ação previsto na legislação. Porém a necessidade da presença destes profissionais nas instalações, para avaliação dos agentes e elaboração do

47

programa, que neste caso seria muito simples, propiciou a proposição de recomendações em outras áreas da segurança do trabalho, como combate a incêndio e prevenção de acidentes.

A NR – 4 instituída pela Portaria nº 3214, prevê a criação do Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) nas empresas, visando cuidar da segurança e saúde dos trabalhadores. O SESMT é um departamento da empresa formado por técnicos e engenheiros de segurança e técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos do trabalho, em número definido nos Quadros I e II da NR – 4, que estabelecem os profissionais da empresa que comporão o SESMT, de acordo com o número de empregados e o grau de risco da atividade principal, correspondente ao número do CNAE do estabelecimento.

Entre as atribuições do SESMT estão as atividades de higiene ocupacional, conforme o descrito na NR – 4, transcritas a seguir:

Aplicar os conhecimentos de Engenharia de Segurança e de Medicina do Trabalho ao ambiente de trabalho e a todos os seus componentes, inclusive máquinas e equipamentos, de modo a reduzir até eliminar os riscos ali existentes à saúde do trabalhador;

Determinar, quando esgotados todos os meios conhecidos para a eliminação do risco e este persistir, mesmo reduzido, a utilização, pelo trabalhador, de equipamentos de proteção individual (EPI), de acordo com o que determina a NR- 6, desde que a concentração, a intensidade ou característica do agente assim o exija;

Promover a realização de atividades de conscientização, educação e orientação dos trabalhadores para a prevenção de acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, tanto através de campanhas quanto de programas de duração permanente;

Esclarecer e conscientizar os empregados sobre acidentes do trabalho e doenças ocupacionais, estimulando-os em favor da prevenção;

Registrar mensalmente os dados atualizados de acidentes do trabalho, doenças ocupacionais e agentes de insalubridade preenchendo, no mínimo, os quesitos descritos nos modelos de mapas constantes nos Quadros III, IV, V e VI, devendo a empresa encaminhar um mapa contendo avaliação anual dos mesmos dados à

48

Secretaria de Segurança e Medicina do Trabalho até o dia 31 de janeiro, através do órgão regional do MTb; (MISTÉRIO DO TRABALHO, 1978)

O SESMT será o gestor e o executor das atividades de higiene, apoiados pela alta

direção das empresas. Normalmente, mesmo em empresas que tem SESMT, as avaliações dos agentes de risco são realizadas por empresas especializadas, devido ao custo dos equipamentos de avaliação, porém a coordenação do PPRA é sempre do SESMT.

Conforme a NR – 5, as empresa devem constituir uma Comissão Interna de Prevenção de Acidente (CIPA) como objetivo a prevenir acidentes e doenças ocupacionais.

A CIPA é uma comissão bipartite e paritária, com representantes dos empregados,

eleitos por estes, e do empregador.

A NR – 5 prevê algumas atribuições da CIPA ligadas à higiene ocupacional, como:

Identificar os riscos do processo de trabalho, e elaborar o mapa de riscos, com a participação do maior número de trabalhadores, com assessoria do SESMT, onde houver;

Participar da implementação e do controle da qualidade das medidas de prevenção necessárias, bem como da avaliação das prioridades de ação nos locais de trabalho;

Realizar, periodicamente, verificações nos ambientes e condições de trabalho visando a identificação de situações que venham a trazer riscos para a segurança e saúde dos trabalhadores;

Realizar, a cada reunião, avaliação do cumprimento das metas fixadas em seu plano de trabalho e discutir as situações de risco que foram identificadas;

Divulgar aos trabalhadores informações relativas à segurança e saúde no trabalho;

Participar, com o SESMT, onde houver, das discussões promovidas pelo empregador, para avaliar os impactos de alterações no ambiente e processo de trabalho relacionados à segurança e saúde dos trabalhadores;

Colaborar no desenvolvimento e implementação do PCMSO e PPRA e de outros programas relacionados à segurança e saúde no trabalho;

49

Participar, em conjunto com o SESMT, onde houver, ou com o empregador da análise das causas das doenças e acidentes de trabalho e propor medidas de solução dos problemas identificados; (MISTÉRIO DO TRABALHO, 1978)

As empresas que possuem SESMT e CIPA, estes devem trabalhar em conjunto para o sucesso das ações de segurança e saúde ocupacional. As empresas que constituem apenas a CIPA, esta devem executar, também, as funções do SESMT, em conjunto com a direção da empresa.

2.2.3 EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO PREVIDENCIÁRIA LIGADA À HIGIENE NO BRASIL

Em termos de legislação previdenciária a Lei nº 3807 de 1960, Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS), surgiu oficialmente , o IAPFESP, que unificou os vários institutos e legislação de previdência e criou a aposentadoria especial para trabalhadores que realizam atividades consideradas penosas, insalubres e perigosas, no intuito de reduzir o tempo de exposição aos agentes ou condições nocivas, cujo Artigo 31 é transcrito a seguir.

Art 31. A aposentadoria especial será concedida ao segurado que, contando no mínimo 50 (cinqüenta ) anos de idade e 15 (quinze) anos de contribuições tenha trabalhado durante 15 (quinze), 20 (vinte) ou 25 (vinte e cinco) anos pelo menos, conforme a atividade profissional, em serviços, que, para êsse efeito, forem considerados penosos, insalubres ou perigosos, por Decreto do Poder Executivo.

Reger-se-á pela respectiva legislação especial a aposentadoria dos aeronautas e a dos jornalistas profissionais. (BRASIL, 1960)

Esta legislação incluía categoriais profissionais, independente da exposição ao agente de risco, como atividade sob condições especiais. Isto descaracteriza o espírito da lei, pois o exercício continuado destas atividades não proporciona riscos à saúde do profissional. Este tipo de enquadramento não segue nenhum critério de higiene ocupacional e nivela na mesmo situação os trabalhadores expostos a agentes nocivos com outros não sujeitos a estes riscos de origem ocupacional.

A aposentadoria especial somente entrou em vigor após a publicação do Decreto nº 48.959 de 1960 que regulamentou o assunto. A aposentadoria especial era concedida ao segurado que, contando no mínimo 50 anos de idade e 180 contribuições mensais, tenha trabalhado durante 15, 20 ou 25 anos, pelo menos, conforme a atividade profissional, em serviços penosos, insalubres ou perigosos, assim considerados os constantes do quadro do

50

regulamento, sendo considerado como tempo de trabalho, o período ou períodos correspondentes a serviço efetivamente prestado nas atividades relacionadas.

As atividades consideradas como penosos, insalubres ou perigosos, nos termos da lei eram entre outras: mineração em subsolo, que demandam excessivo esforço físico ou que exigem posição viciosa do organismo, com exposição às intempéries, com substâncias alergizantes ou incômodas (pruriginosas ou nauseantes) e em ambientes desconfortáveis pela existência anormal de condições de luz, temperatura, umidade, ruído, vibração mecânica ou radiação ionizante. Estas atividades podiam enquadrar diversas profissões com exposição a agentes químicos e físicos, porém não estabelece nenhum limite de tolerância, indicando como referência apenas o desconforto gerado pela presença destes agentes no ambiente. Também são considerados os agentes ergonômicos, sem qualquer tipo de parâmetro para enquadramento da atividade como especial.

Na continuação do quadro são listadas as atividades consideradas com grau de insalubridade máxima, como as que envolviam a utilização de chumbo no seu processo.

O Decreto nº 53.831 de 1964 regulamentou a LOPS e estabeleceu relação entre os serviços e as atividades profissionais classificados como insalubres, perigos ou penosos. Este decreto introduziu a necessidade do trabalhador comprovar, perante ao Instituto de Aposentadoria e Pensões a que estivesse filiado, a exposição permanente e habitual aos agentes de risco insalubres, perigosos ou penosos, durante o prazo mínimo fixado.

No quadro anexo ao Decreto são listados, inicialmente, os agentes de risco físicos (calor, frio, umidade, radiação, trepidação, ruído, pressão e eletricidade), químicos (arsênico, berílio, cádmio, chumbo, cromo, compostos orgânicos e poeiras minerais entre outros) e biológicos (carbúnculo, brucela morno, tétano, germes infecciosos ou parasitários humanos e animais) relacionando com o serviço e atividade profissional, a classificação, o tempo de trabalho mínimo e o tipo de jornada.

Na tabela seguinte, a listagem dos agentes de riscos ambientais é substituída por uma de ocupações mantendo-se os demais elementos.

Este Decreto apesar de manter a aposentadoria especial para determinadas categorias profissionais, introduziu conceitos de higiene ocupacional para a concessão do benefício com limites de tolerância para alguns agentes físicos, como calor (temperatura efetiva acima de

51

28° C) e vibração, que no decreto é chamada trepidação (máquinas acionadas por ar comprimido e velocidade acima de 120 golpes por minutos).

Com a Lei nº 5.890 de 1973, o Artigo 31 da LOPS foi revogado e instituiu novos critérios para concessão de aposentadoria especial. A carência para requerer a aposentadoria especial passou de 15 para 5 anos e destingindo-se apenas as atividades profissionais que fossem consideradas penosas, insalubres ou perigosas, eliminando a aposentadoria por categoria profissional, com exceção das categorias dos aeronautas e dos jornalistas. Com redução do tempo de carência mais pessoas passaram a ter direito à aposentadoria com menos tempo de contribuição, o que veio a impactar o sistema previdenciário anos depois.

O Decreto nº 83.080 de 1979 ampliou os quadros de agentes para concessão de

aposentadoria especial e retornou com o quadro para categorias profissionais, sendo que qualquer modificação poderia ser feita por decreto do Poder Executivo. Eventuais dúvidas, sobre o enquadramento eram solucionadas pelo Ministério do Trabalho. A carência para requerimento da aposentadoria passou de cinco anos para 60 meses. Foi mantido o conceito de trabalho permanente e habitualmente prestado em atividades especiais. O decreto foi uma das primeiras tentativas de diminuição de pedidos de aposentadoria.

No quadro de agentes nocivos todos os agendes estão relacionados com atividades profissionais ou um limite de tolerância e no quadro das categorias profissionais, os grupos profissionais estão relacionados com atividades profissionais respectivas. Na tabela de atividade profissional aparece pela primeira vez a atividade de extração de petróleo como atividade com direito a aposentadoria especial.

A Lei nº 6.887 de 1980 modifica o § 4º do artigo 9º da Lei 5.890/73, instituindo a

conversão do tempo de serviço em atividade especial em comum, respeitados os critérios do Ministério da Previdência Social, , para efeito de aposentadoria de qualquer espécie.

A Lei nº 8.213 de 1991 estabeleceu novos critérios para aposentadoria especial, como mudança da carência de 60 para 180 meses, seguindo tabela especifica de transição, incluindo como exigência que o agente de risco prejudique a saúde e a integridade física do trabalhador, sendo que a relação das atividades seria objeto de lei especifica.

A regulamentação da Lei n° 8.213, veio com o Decreto nº 611 de

estabeleceu a tabela de conversão de tempo de serviço em atividade especial para comum.

1992, que

52

A Lei n º 9.032 redefine critérios para aposentadoria especial, alterando os dispositivos

das Leis nº 8.212 e nº 8.213, passando a exigir a comprovação pelo segurado, perante o INSS,

do tempo de trabalho permanente, não ocasional nem intermitente, em condições especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física e proíbe a conversão de tempo de serviço de especial para comum. Para comprovação da exposição e além do tempo de trabalho permanente em condições especiais, era necessária a apresentação ao INSS de específico do formulário do tipo SB-40 emitido pela empresa.

Foi vedado ao segurado aposentado em condição especial continuar no exercício de atividade ou operações que o sujeitem aos agentes nocivos constantes da relação da referida da Lei.

A Medida Provisória n° 1523 de 1996, que se transformou na Lei n° 9528 de 1997,

alterou novamente ao Artigo 58 da Lei nº 8.213, estabelecendo a exigibilidade do laudo técnico de condições ambientais do trabalho, expedido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho, com informações sobre a existência de tecnologia de proteção coletiva (EPC), que diminua a intensidade do agente agressivo para valores abaixo do seu limite de tolerância e recomendações sobre a sua adoção pelo estabelecimento respectivo, e a elaboração e atualização pelas empresas do perfil profissiográfico abrangendo as atividades desenvolvidas pelo trabalhador e fornecer a este, quando da rescisão do contrato de trabalho, cópia autêntica deste documento.

A empresa que não mantivesse laudo técnico atualizado com referência aos agentes

nocivos existentes no ambiente de trabalho de seus trabalhadores ou que emitir documento de comprovação de efetiva exposição em desacordo com o respectivo laudo estaria sujeita à penalidade.

O Decreto n° 2172 de 1997 revogou os anteriores e redefiniu a relação dos agentes

nocivos em seu anexo IV, não contemplando mais categorias profissionais como tendo direito a aposentadoria especial sem a comprovação da efetiva exposição a um dos agentes de riscos físicos, químicos ou biológicos relacionados. O que determinava o benefício era a presença do agente no processo produtivo e no meio ambiente de trabalho.

No quadro, os limites de tolerâncias existem apenas para alguns agentes físicos com ruído e calor, sendo que o enquadramento dos demais agentes, deveria ser feito por avaliação qualitativa, que constatasse a atividade desenvolvida e a presença do agente no ambiente. Para

53

o ruído era indicado apenas o limite de 90 dB, sem estabelecer a escala de compensação utilizada para a avaliação.

A Lei n° 9732 de 1998 alterou, entre outros, os artigos 57 e 58 da Lei n° 8213, instituiu a majoração das alíquotas, pagas pelas empresas para financiar as aposentadorias especiais, em 12, 9 ou 6 % sobre o pagamento dos empregados que trabalham em condições especiais para aposentadoria, com respectivamente quinze, vinte ou vinte e cinco anos de

contribuição. O acréscimo incidia exclusivamente sobre a remuneração do segurado sujeito às

condições especiais. Esta Lei reconheceu que os critérios para elaboração do laudo das condições ambientais devem seguir os critérios da legislação trabalhista e que o equipamento

de proteção individual (EPI) também pode diminuir a intensidade do agente agressivo abaixo limites de tolerância.

Esta legislação criou uma série de dificuldades para os profissionais de higiene ocupacional na interpretação das avaliações das condições do trabalho, pois ao mesmo tempo em que indica a legislação trabalhista como referencia, usa critérios diferentes de limites de tolerância, como o do ruído, e de qualificação de agentes nocivos, como dos agentes químicos.

Atualmente, o Decreto, que regula os benefícios e custeio da previdência social, é o de nº 3.048 e suas alterações, publicado em 1999. Este Decreto transferiu para a perícia médica do INSS a responsabilidade de analisar o formulário e o laudo técnico que comprovam a exposição do segurado e de inspecionar o local de trabalho do segurado para confirmar as informações contidas nos referidos documentos.

O Artigo 68, transcrito a seguir, trata da questão.

Art 68 § 7º O Ministério da Previdência e Assistência Social baixará instruções definindo parâmetros com base na Norma Regulamentadora nº 6 (Equipamento de Proteção Individual), Norma Regulamentadora nº 7 (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional), Norma Regulamentadora nº 9 (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais) e na Norma Regulamentadora nº 15 (Atividades e Operações Insalubres), aprovadas pela Portaria/MTb nº 3.214, de 8 de junho de 1978, para fins de aceitação do laudo técnico de que tratam os §§2º e 3º. (BRASIL,1999)

Este Decreto possibilitou ao INSS, regulamentar os critérios para concessão de aposentadoria especial através de Instruções Normativas (IN). As IN estabeleceram os parâmetros para os profissionais de higiene, na elaboração dos laudos técnicos, como a IN-39

54

de 2000, que esclarece pontos omissos, tanto legislação previdenciária, quando da trabalhista, como no caso do ruído, onde estabelece o circuito de compensação e norma para calculo da atenuação de EPI, entre outras.

Art. 3º Para fins de enquadramento observar a classificação dos agentes nocivos nos Anexos dos Decretos vigentes à época das exposições oferecidas nos períodos

trabalhados

III - Ruído: será caracterizada como especial a efetiva exposição do trabalhador, de

forma habitual e permanente, não ocasional nem intermitente, a níveis de ruído superiores a 80 (oitenta) dB (A) ou 90 (noventa) dB (A), conforme o caso.

a) - Na situação prevista neste parágrafo, o nível de ruído a que o trabalhador esteve

exposto deve ser analisado considerando o Nível de Redução de Ruído - NRR obtido pelo uso de Equipamento de Proteção Individual EPI, observando que a exigência refere-se apenas às aposentadorias em que foram implementadas todas as condições

a partir de 14.12.98, de acordo com a IN/DC nº 07, de 13 .01.00, em decorrência da Lei nº 9.732 de 11.12.98. b) - Apresentando níveis variados de decibéis, somente caberá o enquadramento

como especial quando a média logarítmica obtida por dosimetria para toda a jornada

de trabalho, em cada vínculo trabalhista, for superior a 80 (oitenta) dB (A) ou 90

(noventa) dB (A), conforme o caso, e desde que nenhuma das medições realizadas indique nível de exposição abaixo ou igual aos limites de tolerância previstos nas Normas Previdenciárias.

g) - As médias dos níveis de exposição ao agente ruído, referidas nos itens anteriores

deverão, necessariamente, ser obtidas através de mensurações realizadas por

aparelhos denominados dosímetros/decibelímetros de grupos de qualidade de "zero"

a "dois" da classificação IEC 651 ou ANSI SI.4 de 1983, devendo ser descrita no

Laudo Técnico de Condições Ambientais, a respectiva técnica utilizada para as mensurações e o tipo do equipamento, conforme exigência contida no item 15.6 da NR-15, da Portaria nº 3.214/78, do MTE. (INSS, 2000)

Em 2001,o Decreto nº 4032 alterou o Decreto nº 3048, criou o formulário denominado Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP) para a comprovação da efetiva exposição do trabalhador, com o seu histórico-laboral, devendo conter registros ambientais, resultados de monitoração biológica e dados administrativos. O PPP deve ter como base em laudo técnico de condições ambientais do trabalho expedido por médico do trabalho ou engenheiro de segurança do trabalho.

O laudo técnico devia ser elaborado com observância das Normas Reguladoras editadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego e demais orientações expedidas pelo Ministério da Previdência e Assistência Social. Esta determinação é extremamente conflitante, pois nesta época os dois organismos possuíam regras diferentes para determinação de ambientes insalubres.

55

Em 2003, ocorreram as duas últimas modificações na regulamentação da aposentadoria especial, através dos Decretos nº 4729 e 4882, alteraram o Decreto nº 3048. O Decreto nº 4729 estendeu a aposentadoria especial ao trabalhador cooperado, criando as mesmas obrigações da empresa para a cooperativa e para as empresas prestadoras de serviço e mão-de-obra.

O Decreto nº 4882 estabelece um novo conceito para trabalho permanente, define

critérios para auditoria do INSS na empresa e adapta a legislação previdenciária a trabalhista, quanto a formas de atenuação dos riscos, terminologia, limites de tolerância e metodologia de avaliação. O INSS passou a considerar com trabalho permanente, aquele que é exercido de forma não ocasional nem intermitente, no qual a exposição do trabalhador ao agente nocivo seja indissociável da produção do bem ou da prestação do serviço, contando também, como se

o segurado estivesse exercendo atividade considerada especial, os períodos de descanso

determinados pela legislação trabalhista, inclusive férias, os de afastamento decorrentes de gozo de benefícios de auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez acidentários, bem como

os de percepção de salário-maternidade, desde que, à data do afastamento.

Antes desta legislação, para um trabalhador ter direito à aposentadoria especial, era necessário comprovar, que longo de toda a sua jornada somente realizava atividades enquadradas como especial, caso também realizasse atividade comum, este fato desqualificaria o enquadramento, independentemente das avaliações quantitativas estarem acima do limite de tolerância.

Esta modificação da legislação foi importante marco na mudança na filosofia da previdência social, já que modificou a tendência dos últimos anos de restringir o número de atividades e