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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

Saul Mago1
Resumo do livro Rules for Radicals, de Saul Alinsky2

“Para que não esqueçamos pelo menos [de an over-the-sholder] uma rápida
lembrança ao primeiro verdadeiro radical: de todas as nossas lendas,
mitologia e história (e quem sabe onde termina a mitologia e começa a
história – ou qual é qual), o primeiro revolucionário conhecido do
homem, que se rebelou contra o establishment e fê-lo tão efetivamente que,
quando menos, ganhou seu próprio reino: Lúcifer.”
--- Saul Alinsky, Rules for radicals.

“Um lugar, outro mundo [...] deve agora existir, próspera estância de
novos entes nomeados “Homens”, semelhantes a nós... / A ele
sustentemos os tentames todos / Saibamos que habitantes o possuem,
Seus dotes, seu poder, substância, fórmula / Qual é o seu fraco, se melhor
contra eles guerra aberta utilize ou trama oculta”.
--- John Milton, 1667. O Paraíso Perdido. Canto II (Belzebu, incitando os
revoltosos, no Inferno, contra os homens).

“Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser
as mãos receba o Espírito Santo.
--- Simão Mago tentando comprar de Paulo os poderes do apóstolo. Atos
dos Apóstolos 8:19.

“Aqueles que os deuses querem destruir, a estes primeiro os iludem”.


--- Saul Alinsky, p. 194.

1 “Saul Mago” faz referência a “Simão Mago”, que viu no poder apostólico o efeito de uma arte, e ao tipo
“conjurador” feiticeiro da revolta gnóstica em “Maquiavel ou a confusão demoníaca” do Professor Olavo de
Carvalho.
2 Resumo de Rules for Radical – A pragmatic primer for realistic radical (1971), de Saul Alinsky (Vintage Books:
New York, 1989), para os Seminários do Núcleo de Estudos Estratégicos do Curso On-line de Filosofia, 10 de
Janeiro de 2011.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

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NOTAS BIOGRÁFICAS

“As técnicas e ensinamentos de Alinsky influenciaram gerações de


organizações comunitárias e sindicatos, incluindo grupos religiosos
que contrataram um certo [Barack] Obama para trabalhar no Lado Sul
de Chicago em 1980... Alinsky impressionou a jovem [Hillary]
Clinton, que cresceu em Park Ridge no tempo em que Alinsky era o
diretor da Fundação das Áreas Industriais em Chicago” --- Chicago
Sun-Times (na contracapa).
Saul David Alinsky nasceu em Chicago em 1909 e consta que sua “educação” começou
nas ruas. Pós-graduou-se em criminologia com bolsa pela Universidade de Chigaco,
confessadamente sem ter qualquer tipo de conhecimento na área. Mais tarde estudou a vida na
prisão na Joliet State Prision. Aceitou um emprego como criminologista no estado de Illinoys,
sendo reconhecido pelo governador liberal Adlai Stevenson (1900-1965) como “aquele que
representa mais fielmente nossos ideais de irmandade, tolerância, caridade e dignidade individual”.
Em meados dos anos '30 junta-se ao “Congress of Industrial Organizations” (C.I.O.) onde
trabalha como sindicalista e se torna assistente e amigo de John L. Lewis. Em 1939 encerra
suas atividades como sindicalista e no movimento trabalhista e inicia seu próprio ativismo nos
bairros pobres de Chicago. Nos anos '50 volta sua atenção para os bairros negros, o que lhe
rendeu a inimizade do prefeito Richard J. Daley. Deixa seu trabalho de campo para seus
amigos no final dos anos '60 e passa a se dedicar a treinar “comunity organizers” --- agentes
capazes de organizar movimentos de minorias (s.l.) --- através do Instituto de Treinamento da
Fundação das Áreas Industriais, que Alinsky chamava de “escola para ativistas profissionais”.
Sobre Alinsky, um jornal conservador ligado à igreja escreveu ser "impossível seguir ambos, a
Jesus Cristo e Sauls Alinsky” ao mesmo tempo; e um alto-economista do Escritório para
Oportunidade Econômica, Hyman Bookbinder, caracterizou os ataques de Alinsky ao
programa anti-pobreza (acusando-o de “colonialismo assistencialista”) como “ultrajantemente falso,
ignorante, polemizador excessivo”. O The New York Times chegou a descrevê-lo como “odiado e
temido pelos poderosos de costa a costa”, por ser “a maior força na revolução dos despossuídos --- de fato,
ele emerge de um movimento em torno de si mesmo”. A Time reconheceu que Alinsky modificou o
entendimento da democracia americana.
Apesar de ter sido um pertinaz opositor da moral religiosa, a qual atribuía o símbolo vazio
que não atendia aos fins práticos dos valores americanos de igualdade, justiça e liberdade
individual, declarava de qualquer forma --- o que fará sempre --- sua origem judia como sua
religião. O filósofo Jacques Maritain o chamou “um dos grandes homens do século”.

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Sua influência se tornou forte sobre a geração de Barack Obama e Hillary Clinton, esta
última diretamente influenciada pelas ideias de Alinsky. Em 1969 Hillary pós-graduou-se com
honra Bacharel em Artes em ciência política com a tese “There is only the fight... An Analysis of
the Saul Alinsky Model”. Outro rebento gerado pelas ideias de Alinsky deu na Association of
Community Organizations for Reform Now (ACORN), uma organização de comunidades de base
associadas que pleiteia pelas famílias de baixa renda demandando entre outras coisas
segurança nos bairros, registro de eleitores (ilegais, prisioneiros, etc.), sistema de saúde,
moradia e hipotecas ou qualquer outra demanda da mesma natureza que faça surgir a
“oportunidade” pela atividade de piquete. Conta hoje com 400 mil membros e mais de 1200
ramificações em vários países. Fundada por Wade Rathke em 1970, carrega a herança do
“radical” de Chicago e talvez seja o melhor símbolo das atividades de Alinsky e no que elas
resultam por fim.

Membros da ACORN com o candidato a Senador Barack Obama em Illinois.


Fotografia de 2004 publicada no artigo na revista “Social Policy”.
O seu clímax parece ter chegado com a eleição de Barack Obama à Casa Branca, agora
com a chance de agir, favorecido pela situação real, desde dentro do poder, ainda no mesmo
sentido do ativismo que recorre a toda sorte de demandas fragmentadas, induzindo a
polarização política e (numa inversão da tática) no grande esforço por fazer parecer
(“comunicar-se”) um dever moral premente ao consenso para mover a opinião pública
americana naquela proporção eficiente de 100% a 0% (da ditadura da maioria simples), para a
reforma de toda a sociedade e do próprio homem.
*
INTRODUÇÃO
A Saul Alinsky se refere não raramente como o homem que dedicou um livro a Lúcifer;
pois esse livro é Rules for Radicals – A Pragmatic Primer for Realistic Radicals. O primeiro a atribuí-
lo parece ter sido o apresentador e comentarista político conservador Glenn Beck, para em
seguida ser acusado de abuso ao intencionalmente atribuí-lo por uma citação inicial a Lúcifer
que ocorre entre outras duas, de Thomas Paine (1737-1809) e do Rabbi Hillel (110aC-10dC).
De fato, Rules for Radicals está dedicado nominalmente a “Irene”, que não aparece mais ao
longo do livro; não dá para dizer o mesmo de Lúcifer, que seria algo equivalente a negar o mal
em todos os casos em que este não se parece com O Exorcista de William Friedkin (1973).
Se a relação de Glenn Beck não é exata, está longe de ser um abuso de interpretação
reconhecer Rules for Radicals uma apologia do espírito de rebelião. E aqui o rito do exorcismo
tem valor de hermenêutica. O espírito em Rules for Radicals é o da dissimulação, do logro, da
tentação, da blasfêmia e o de Legião.
Tornar-se muitos, disseminar o engano, imitar com ironia ou desfaçatez a verdade, parece

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ser sempre o efeito de Alinsky, o que se pode ver já pelos desmentidos. A indicação do livro
pela Associação Nacional de Educação (NEA), que o teria recomendado a professores e alunos,
é incontrovertida ao indicá-lo às pessoas envolvidas na organização de “movimentos sociais”.
Omite-se o nome da divindade no ritual ocultista que, como se verá ao longo do resumo, é um
guia tático que conduz à mentalidade de Alinsky e que a reproduz naquele que o pratica. Ato
contínuo, atribuiu-se a conservadores como Glenn Beck fazer uso de Rules for Radicals o que, ao
voltar a acusação contra quem o denuncia --- xingue-o do você é, acuse-o do que você faz ---, encarna
já o disfarce3 tático no desmentido4.
As escolhas de Alinsky em epígrafe parecem reveladoras de todo o espírito de Rules for
Radicals; se equivalem, cada uma, a um ponto específico na composição do livro e ao que o
ativismo se destina:

 Thomas Paine ao Ato II da Revolução Americana da tradição “profética”


da teologia deísta (pp. ix e 190);
 Rabbi Hillel, num paralelo (não explícito) com as Golden Rules do judaísmo
(p. ix), com a tradição rabínica e destas a uma simbiose com a moral
puritana ativista de Thomas Paine;
 Lúcifer, com o espírito mesmo de rebelião (de Legião) num culto à “grande
lei da mudança” --- da qual pretende que suas regras sejam derivadas e, de
volta, catalizadoras das mesmas num movimento sem um fim claro além
da revolução metódica de toda a ordem social dada.
Há subjacente em Rules for radicals uma lógica interna que é uma mentalidade --- uma
personalidade eficiente --- que cristaliza regras que refletem um objetivo moral abstrato de bem
comum enquanto oculta as premissas que fundamentam essa mentalidade e seus fins; de certo
modo, seus fins são os seus fundamentos.
As três citações do livro são três pilares do argumento de Alinsky: o pensamento
revolucionário “racionalista” de Thomas Paine (luz de uma outra Revelação), seu “ceticismo
crítico” e sua moral eficiente a um pragmatismo radical; as regras morais para um bem comum
da tradição judaica, que invocam um amor à humanidade abstrato como é abstrato o Ser
Supremo do deísmo de Paine; e a revolta luciferina contra a condição opressora atual
encarnada no “César” macaqueado do status quo --- que perfazem, de fato, um eixo único.
A macaquice dos diabos também aparece na “filantropia” humanista de Thomas Paine e
que tem um paralelo --- “ajustado” à teologia moral da qual se deriva --- com as Regras de Ouro
do judaísmo e com a tradição rabínica: o ideal do bem comum abstrato universal e de amor à
humanidade como um todo:
[...] ame a paz e persiga a paz
ame a humanidade.
3 Realmente, o que eu queria escrever aqui é “a possessão pela mentalidade” ou, “a mentalidade que é uma
possessão”, que fala pela boca do ativista, que de si mesmo não diz nada.
4 Outras formas dessa desconversa tática assumem a cantilena da “tolerância” e/ou da inversão ultrajada ou odiosa: (p.
ex.) Steve Backus, “The Rhetoric of Violence” (29.09,04); Oliver Willis, “Beck misreads Alinsky to link teachers to
Satan” (20.09.10); Paulo Henrique Amorim, “Tucson e Cerra: a retórica da violência gera violência” (11.01.11). A
fórmula é a da racionalização apelativa que opõe à “tolerância” deixando implicado o seu oposto; segue-se o ultraje
pela violência retórica --- e enquanto se acusa de ódio se o faz de modo odioso. Recentemente (12.01.11), Sarah
Palin chamou atenção para essa tática em vídeo nas seguintes palavras: “Não é lícito, ao denunciar o ódio, usar o
mesmo discurso de ódio que pretendem combater”. Os noticiosos dão Palin como “ultra-conservadora
[hesitam] ...extremista”. No entanto, nunca se trata, de fato, de denuciar o ódio, mas de simulá-o: apontar o
adversário fazendo parecer a reação equiparável ao que se denuncia. (V. comentário de Olavo em COF 85, 27.11.10:
113'30” e “A técnica da rotulagem inversa”)

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--- Pirkei Avoth 1:12.


Todo o problema da derivação das máximas morais do judaísmo até a sua aplicação aos
casos práticos é reduzido e sintetizado a regras sistemáticas de ação de modo a auferir perante
um poder estabelecido concessões táticas. O amor ao próximo se transforma em Alinsky numa
caricatura das Regras de Ouro à fórmula egoísta: “Não causa o mal ao teu irmão o que não gostarias
que te causasse ele”. É o mesmo quando diz que o maior ato de amor, quando alguém dá a vida
por um amigo, só é verdadeiro porque a lei cega do mundo é o egoísmo. Adaptada por
Alinsky, a exortação ao perdão e ao amor ao próximo se tornam uma reflexão moral de
precaução5 do mal que o outro poderia causar a nós se nos sentíssemos livres para o que bem
entendêssemos (por ser esta a nossa natureza).
Nesse sentido, Alinsky liga e acomoda a tradição judaica ao deísmo de Thomas Paine, que
resulta na “filantropia” do abstrato humanismo. O scholar Sacvan Bercovitch reconhece como
traço do sermonário de Thomas Paine coisa igual ao da tradição puritana, para a qual a
teologia está devotada à política e a política ao progresso do Reino de Deus [W, G].
Não é nada diferente o que se verá em Saul Alinsky, também no caso da tradição do
ceticismo radical e do racionalismo salmodiado contra o irracionalismo do egoísmo, ao
mesmo tempo em que convoca ao voluntarismo a cada um para formar a consciência ao ideal
de uma sociedade engajada na reforma completa da sociedade e do próprio homem 6.
Lúcifer tem apenas uma vaga referência em Rules for radicals, e é isto só o que ele
compartilha com Irene, a quem Alinsky dedica o livro: ambos jamais aparecem explicitamente
de novo.
Seguem os 10 capítulos de Rules for radicals no resumo:
0. Prólogo...........................................................................................O fundamento niilista, 05
1. Proposta....................................................................Abstrações táticas a serviço da vontade, 08
A ideologia da mudança................................................................................A idolatria da mudança, 09
Distinções de classe: a Trindade....................................................................Três principados de classe, 12
2. De meios e fins........................................................................................Ética eficiente, 13
3. Sobre palavras.................................................................................... Anti-Orwell, 14
Poder....................................................................................................................................14
Interesse (próprio)...................................................................................................................14
Comprometimento..................................................................................................................15
Ego......................................................................................................................................15
Conflito.................................................................................................................................15
4. A educação de um ativista7................................................O ativista é uma mentalidade, 15
5. Comunicação.............................................................................Comunicação é persuasão, 19
6. No início...........................................................................................No início, Rebelião, 20
Do poder à política..................................................................................................................21
Racionalizações......................................................................................................................22
O processo do poder................................................................................................................22
7. Táticas..................................................................................... A cristalização da mentalidade, 24
Competição.............................................................................................Ameaçar com o concorrente, 27
Sua própria artilharia .....................................................................................A antinomia do poder, 28
Tempo na prisão...................................................................................Aperfeiçoamento no isolamento, 28
A sincronia da ação tática..............................................................................................Sincronia, 29

5 A justificativa eficiente da “filantropia”.


6 Em Irish impressions (IX), G.K. Chesterton escreve a respeito do traço voluntarista da cultura moderna que levou a
duas guerras mundiais: “Modern mentality, or great masses of it, has seriously advanced the view that it is a
weakness to disarm criticism by self-criticism, and a strength to disdain criticism through self-confidence”.
7 Foi alterada a tradução “organizer” e “radical” indistintamente por “ativista”, exceto em alguns casos.

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Novas e velhas táticas...................................................................................Causar “bugs” no sistema, 29


8. A gênese da tática por procuração (Tactic proxy)...............................Tática por procuração, 29
9. O caminho à frente.....................................................................Tentar a alma do homem, 31

Não há sinais da influência direta de Antônio Gramsci sobre Alinsky que não possam ser
encontradas na política soviética de subversão 8. Alinsky tem muito de sua técnica aprimorada
por indução da sua experiência prática, mas não é verossímil que seja sua única fonte; sua
técnica tem pontos demais em comum com os meios de subversão descritos por Yuri
Bezmenov em Love Letter to America. Bezmenov, “Tomas Schuman”, descreve o esforço de
Alinsky, onde ele então parece ter sentido, em seu esforço sem metas claras e oportunista de
tudo que possa “cooperar com a grande lei da mudança”.
Alinsky escreve um livro para os “radicais” de sua geração que se perderam em ações
afoitas e degradantes. O subtítulo diz mais do livro: “Um Guia Pragmático para Ativistas
Realistas”; ou ainda, um guia realista para o ativismo prático, sua lógica interna e motivação. Rules
não é apenas um guia prático, como se percebe ao longo do livro, mas uma “mentalidade” em
funcionamento que treina mentes para a mesma finalidade e que cristaliza regras para pôr a
sua revolução em movimento desde baixo.

O
O FUNDAMENTO NIILISTA
“As forças revolucionárias hoje tem duas metas, moral e material ” [desmoralização e
desestabilização], diz Alinsky. Mas não se verá uma definição do que sejam as tais “forças
revolucionárias” para além do reconhecimento de sua persecução coletiva organizada. Alinsky
escreve em “desespero”, diz ele, pela geração que o antecede. Vê (é um dos fundamentos de
suas demandas) uma lacuna existencial entre os jovens e os pais, uma recusa dos velhos valores,
já sem poder disfarçar o fingimento hipócrita que são, que então move os jovens a se voltarem
contra a ordem das coisas afoitamente, brandindo clichês surrados: “Abaixo o Sistema!”.
A sociedade inteira é, para as novas gerações, materialista, decadente, burguesa nos seus
valores, falida e violenta. O grosso da população que sustenta essa ideologia é a classe média,
que a juventude, no entanto, não mais reconhece como modelo para suas próprias vidas. Estes
inconformados se negaram a aceitar o status pequeno-burguês, a segurança, os automóveis, os
clubes nos finais de semana, ou, quando menos, uma vida pacata em casas suburbanas. Eles
viram a geração de seus pais ser levada aos tranquilizantes, ao álcool, a casamentos longos e
tediosos ou ao divórcio; os viram adquirir pressão alta, úlceras, frustrações e a desilusão para
com “a boa vida” que buscavam segundo os valores que adotaram.
Vivemos numa sociedade na qual a mídia mostra todos os dias os sintomas de uma
doença, a hipocrisia, suas contradições e fracassos; aos jovens ainda coube ver seu “ativismo”
se tornar no oposto niilista: bombardeios e morte. As panaceias revolucionárias do passado, na
Rússia e na China, redundaram na mesma decadência, apenas com outro nome.
“A busca pela liberdade não parece ter qualquer estrada ou destino certo”. O mundo tumultuado
faz o homem se voltar para o que sempre buscou, um modo de vida que tenha algum
significado ou sentido. Essa busca tem um ponto de partida nas aspirações dos jovens, em seus
desejos mais vivos e pessoais, que se manifestam fazendo proliferar nas descrições de Alinsky o
“eu” aos montes:
8 Algo mais próximo da estratégias gramsciana talvez se tenha no esforço por alterar o senso comum e na ação desde
dentro da sociedade civil, particularmente sobre a classe média, adquirir a ela a representatividade necessária, para
formar “base” aos apelos revolucionários, criando as demandas de baixo para cima.

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“Eu não quero perder a minha vida como minha família e


amigos o fizeram. Eu quero fazer algo, criar, ser eu mesmo,
fazer o que [eu] quero, viver”. [grifei]9
É o que Alinsky chama a “lapso entre gerações”; e por esta crise “a chance de alcançar alguma
ordem” em suas vidas. Mas este “eu” é uma força desgovernada, está como um esforço sem
sentido, e se arrisca logo a cair na amargura, na decepção e na morbidez. Os movimentos de
protesto como o dos hippies ou a luta nas ruas acabaram se tornando também uma mera
válvula de escape pouco eficiente ou desandou para o radicalismo precário dos Weathermen (os
“Homens do Tempo”, grupo ao qual fazia parte Bill Ayers). Para Alinsky, não mais que dignos
de piedade.
Não há regras para uma revolução mais que as há para o amor, mas há regras para radicais
que queiram mudar seu mundo (p. xvii). O que há são “certos conceitos centrais” para a ação
humana que precisam ser conhecidos para um “ataque sistemático ao sistema”. Bordões tais
como “porco fascista”, “branco racista” e iguais não funcionam, senão para marcar o ativista 10
com a pecha de fanático. É o que não deve acontecer: o rompimento do fluxo da comunicação
com as populações de base na classe média.
As esperanças e o sonho americanos foram traídos pelo establishment --- por isso deve-se
falar contra este, mas não contra a bandeira ou os lemas tradicionais. Mas a verdadeira
tradição americana está ao lado de Thomas Paine. Tem havido uma falha dos ativistas para
compreender pontos essenciais na “arte da comunicação”11.
O apelo que Alinsky encontrou na universidade pela adesão livre a uma causa para lutar
arrisca-se, para Alinsky, a se tornar uma adesão afoita que põe logo tudo a perder. Fazer as
“suas coisas” é fazer socialmente, por e com outras pessoas. Uma revolução não se faz sem real
“comunicação”, e isso significa entrar em contato eficientemente como quem se fala e para o que
se quer. É preciso senso de humor, porque muito do que pode ser rejeitado de pronto se
apresentado seriamente pode-se ter acesso com humor. Se um ativista percebe que seu cabelo
comprido cria barreiras para a comunicação e a organização, ele corta o cabelo.
Uma falha da comunicação aqui levaria à adaptação do movimento ativista organizado
pelo sistema. Um verdadeiro ativista que quer organizar um movimento de massa não discute
com a situação, ele age e organiza sua estratégia com o que tem e desde onde está. Não se
trata de Revelação, mas de Revolução, diz Alinsky. Para uma revolução efetiva é preciso tempo.
O movimento se perverte quando quer mudanças muito rápidas (p. xx).
O objetivo é trabalhar dentro do sistema, mas não é este o momento onde estão Alinsky e
seus ativistas. É necessário antes de tudo, realistamente, preparar o caminho:
“Qualquer mudança revolucionária deve ser precedida por uma atitude passiva,
afirmativa, de não-desafio a favor da mudança entre as pessoas. Elas precisam se
sentir tão frustradas, tão derrotadas e perdidas, sem futuro nesse sistema, que se
produza nelas uma vontade de deixar o passado e tentar o futuro 12. Essa

9 O fundamento “científico” das táticas de Alinsky, o egoísmo na sociedade, ele o estimula nos jovens ao mesmo
tempo que o lamenta.
10 Substituí amiúde o termo “radical” e “organizer”, em inglês, por “ativista” indistintamente, salvo algumas
exceções.
11 “Comunicação” tem o sentido aqui de eficiência, uma qualidade da virtù em Maquiavel. Tem duas nuances: o
sentido que a comunicação terá num determinado meio (para ter acesso às pessoas desse meio) e o efeito que se quer
provocar, ou dentro do grupo ou célula de “organização” do ativista para manter a coesão e a eficiência das ações. O
funcionamento desse tipo de eficiência da comunicação, de que fala Alinsky, é da esfera da psicologia e da dinâmica
de grupos.
12 A fase de “Desmoralização” de que fala Yuri Bezmenov; e a produção de ansiedade, são essenciais para que a

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aceitação é uma reforma essencial para qualquer revolução13. Para levar adiante
essa reforma se requer que o ativista trabalhe dentro do sistema...” (pp. xix-xx).
Quando Alinsky diz que é necessário trabalhar “dentro do sistema” está se referindo a não
quebrar as regras (v.g., não guerra aberta, mas trama oculta), pelo menos desde que seja esta, de
início, a situação real inelutável. Para isto, é preciso mobilizar a classe média; desde o seu
ponto de partida realista, obter a adesão da classe média é o front crítico --- senão isto, pelo
menos aquele estado de prontidão, de inquietação passiva, não-conflitiva, de aceitação dos
apelos por mudança. Não há alternativas, diz Alinsky, num mundo computadorizado,
altamente tecnológico, na era da cibernética e de armas nucleares, a revolução é metódica. É
claro que estas táticas, que querem agir dentro da sociedade civil só funcionam com o tipo de
liberdade de expressão que as sociedades abertas têm 14.
Alinsky parte do “sistema” (de dentro dele) como ele é porque não encontra como fazer de
outro modo. A perspectiva de Alinsky é pragmática e prática. A observação teórica aparece em
Alinsky no sentido de que a ação revolucionária é o efeito de longo prazo e que precisa ser
antecedida por reformas, de outro modo ela não perdura (p. xxi): “Uma revolução sem reformas
prévias colapsará ou se transformará em tirania”. É preciso de base popular (de pressão) para as
reformas. Esse método é o descrito port Tomas Schuman (Yuri Bezmenov) em Love letter to
America na fase de “Subversão”:
“Um ativista deve perturbar os padrões [de vida] preexistentes --- agitar, criar
desencantamento e inquietação com os valores, para produzir, se não uma paixão
pela mudança, pelo menos um clima de passividade, afirmação e não-conflito
[antagonico aos apelos lançados]” (Rules..., p. xxii). [grifado]
Alinsky reporta-se aos pais da revolução americana para justificar que uma revolução
começa antes nos corações e nas mentes das pessoas. Essa é a fonte da ação desde a sociedade
civil da qual se alimenta Alinsky. Mas só passa a agir, desde esta constatação, na admissão de
uma petição de princípio a favor da “revolução” necessária e sentida como necessária ao
mesmo tempo que, para este fim, sejam também necessárias medidas ativas de “guiamento” da
opinião pública.
Opor-se às reformas é se aproximar politicamente à extrema-direita15. As ações de radicais
catalizam a reação do establishment em nome da “lei e da ordem”. Alinsky desaconselha a
aceitação e o radicalismo: “Aprenda a lição”, diz: “Vá para casa, organizem-se, construam [um
caminho ao] poder e na próxima convenção [Primárias], sejam vocês os delegados”. Mas isso não
basta, é preciso manter pressão constante.
Alguns trechos são curiosos esforços de torcer os lemas caros ao povo americano com
filigranas heréticas16:

mudanças seja percebida como uma necessidade, ou, senão isto, que se torne um apelo reconhecido por todos que já
não se discuta do que se trata.
13 É um traço reconhecível tanto nos futuristas de antes da Revolução Russa de 1917, no século XIX, quanto nos
socialistas utopianos, quando se propunham uma modificação desde os hábitos para tranformar a sociedade --- como
o dirá Alinsky por fim “nós o veremos [um mundo melhor] quando acreditarmos nele”.
14 Ao trabalhar dentro da sociedade civil, ao buscar a modificação do senso comum e ao trabalhar para formar uma
base popular para movimentos organziados a favor de seus apelos, Alinsky está mais próximo da estratégia
comunista descrita no livro Love letter to America (1984), de Tomas Schuman, do que de Antônio Gramsci.
15 A conclusão lógica dessa sequência de argumentos de Alinsky parece ser a de que Rússia, China e Cuba, citadas por
ele, são o efeito da revolução sem reformas, levando a qualquer coisa tirânica mais próxima à extrema-direita: a
reação à revolução.
16 De tudo que Alinsky diz, a confrontação e a dedução podem derivar as consequências que ele não tirará em
momento nenhum, mesmo quando o que defende nos aproxima daquilo que o autor de Rules for radicals mais
parece querer evitar, como a lealdade ao estado (acima de tudo), a escolha livre antes à adesão voluntarista, a

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

“O ideal democrático se ergue das idéias de liberdade, igualdade, prioridade da


maioria através de eleições livres, proteção dos direitos das minorias e liberdade
para testemunhar lealdade à pluralidade em matéria de religião, economia e
política antes que uma total lealdade ao estado. O espírito da democracia está na
ideia da importância e do valor do indivíduo e de sua fé no tipo de mundo onde
ele pode chegar a alcançar seu potencial tanto mais quanto possível” (p. xxiv).
[grifei]
Com a sutileza de uma heresia, coloca-se, coerente com a orientação de não atacar os
valores democráticos americanos, em posição de representante mais legítimo destes mesmos
valores: “A participação dos cidadãos é o espírito vivo e a força em uma sociedade baseada no
voluntarismo”17.

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ABSTRAÇÕES TÁTICAS A SERVIÇO DA VONTADE
Rules for radicals é um livro escrito para organizar movimentos de massa para tomar o poder
dos que tem e dá-lo ao povo (p. 3). Alinsky mostra que tem O príncipe de Maquiavel sempre em
vista, quer que suas regras sejam um contraponto às de Maquiavel.
Alinsky não irá falar sobre seus fins últimos em nenhum momento, o mais próximo que
ele chega disso é quando diz que o que faz é
“para realizar o sonho democrático de igualdade, justiça, paz, cooperação,
oportunidades plenas de educação, pleno emprego, saúde e a criação daquelas
circunstâncias pelas quais o homem pode ter a chance de viver por valores capazes
de dar sentido à sua vida.” (p. 3)
Mudar o mundo, assim tão geral como está dito. Estes valores, no entanto, não têm meios

sujeição do indivíduo quando alienado de suas crenças mais íntima e nas quais ele professa sua fé, etc..
17 O voluntarismo é um dos principais apelos de Alinsky, que o faz de dever de engajamento e, então, de participação
democrática para mover as pessoas ao ativismo. O voluntarismo é vendido por Alinsky como panacéia às frustração
das pessaos e feito revelação de “suas” próprias aspirações. Essa função tem paralelo em Antônio Gramsci, na
“adesão ativa, livre e espontânea” para formar consenso. Em tudo que diz Alinsky há certo paralelo com a “New
Left” e com a Escola de Frankfurt. Há semelhanças com Herbet Marcuse, especialmente na visão do futuro
enquanto abertura da potencialidade humana para realizar, por aproximação, uma sociedade através de reformas
constantes: das “operações da razão” à “dialética da negatividade” que se vê refletida na exploração tática de
demandas; e no seu aparente anarquismo, que é o que o distingue do tipo de pensamento socialista ortodoxo (cf.
Kolakowski, Main currents of Marxism; p. 1106).
É possível dizer que Alinsky é na prática, no trabalho de um ativista (“radical”), a experiência da dialética
negativa da Escola de Frankfurt para a organização de movimentos de massa. O “radicalismo” em Rules for radicals
é uma gnose na ação. Que esse voluntarismo se forme de uma paradoxal “gnose cética” progressista --- um
agnosticismo ativista da classe dos “místicos ativistas” de Voegelin (v. nota 18) ---, parece apenas para facilitar, ao
mesmo tempo em que adota um pragmatismo radical, a realização da “grande lei [cega] da mudança”. A psicologia
no fundamento desse voluntarismo está “Celebrando Theodore Adorno” (2003):
“O universo sendo inteiramente mau, o dever do espírito é lutar pela destruição de tudo o que existe. A "teoria
crítica" segue essa receita à risca, enxergando horror por toda parte e afirmando mesmo que uma sociedade mais
justa não pode existir ou sequer ser imaginada, mas acreditando ver nisso um motivo a mais para odiar as injustiças
do presente. Abominar o mal sem crer no bem parece coisa de herói trágico, e aí reside o “glamour” peculiar dos
frankfurtianos. Mas, no fundo, é de um comodismo atroz. Moralmente, permitiu a Max Horkheimer proclamar,
com Maquiavel, que todo poder e riqueza vêm da opressão e da mentira, e ao mesmo tempo encarnar pessoalmente
essa teoria...” [grifei].
“Não havendo critério de justiça, a denúncia das injustiças estava autorizada, sem pecado, a ser ela própria injusta,
arbitrária e louca”. [Isto descreve igualmente o puritanismo de Thomas Paine.] “Assim, embora reconhecendo que o
comunismo soviético era “o mal absoluto”, Adorno e Horkheimer preferiram deixá-lo em paz, concentrando suas
baterias no ataque à sociedade americana e fornecendo ao movimento comunista o simulacro de autoridade moral
que o ajudou a sobreviver à queda da URSS”.

9
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

claros; estes encontra, no ativismo rumo a um progresso sempre um passo à frente pelo esforço
de sua realização18. Estes valores, pelos quais vale a pena viver, são os fins prontos aos quais se
quer realizar, todo o caminho até os fins se torna um caminho cujo método é “alcançá-lo”.
Como dirá mais adinate Alinsky: o propósito [o quid] e os meios [o como] se confundem.
Repetindo a tradição marxista, todas as mudanças significativas na história só vem pelas
revoluções. Para catalizar o processo de revolução Alinsky quer conhecer e descrever princípios
derivados da “grande lei da mudança” (p. 4), na qual reside toda a esperança humana
“a compreensão geral dos princípios da mudança fornecerá pistas para a ação
racional e a consciência das relações realistas entre meios e fins e como um
determina o outro”19.
Com inspiração na física contemporânea, naquilo que ela inspira superficialmente ao
relativismo, Alinsky tira seu modelo virulentamente antidogmático: nada se fecha, mas cada
momento abre a uma nova questão dada numa nova situação. O espírito deve estar preparado
para agir conforme a situação, adaptar-se rapidamente, o que não ocorre sem senso de humor,
alegria e criatividade.
Pouco se tem, na tradição, que oriente a como “fertilizar as mudanças sociais”; é nas já
havidas que Alinsky busca, pondo de lado a situação concreta, a abstração dos princípios de
seu desencadeamento. Para isto Alinsky quer extrair de certos fatos conceitos gerais20 mirando
a tentativa de qualquer coisa como uma “ciência da revolução”.
Alinsky quer separar definitivamente a noção geral de que a revolução tem a ver com o
comunismo; mas tampouco isto quer significar que a revolução em si é um objetivo, quando
ela for evitável. É da preparação para a tomada de poder que ele trata, “para uma mais
igualitária distribuição dos meios” (p. 11). Fracassar nisso é ter entrado na contrarrevolução e no
restabelecimento do status quo.
A revolução não tem um caminho, mas tem regras gerais que valem para qualquer
situação. Uma revolução é sempre ideológica, desde que haja uma ideologia do outro lado (e
então é sempre uma cega oposição que há). Tudo na vida é tomada de posição e adesão21:
“não há objetividade22 desapaixonada”.
*
A IDOLATRIA DA MUDANÇA
A primeira coisa que Alinsky diz para falar sobre “sua” ideologia, é que “o pré-requisito
para uma ideologia é possuir uma verdade básica”. O marxismo, assim como o cristianismo (!), tem
uma verdade para oferecer e de onde deduzir um sistema e produzir um apelo. A ideologia de
Alinsky já está na definição que ele dá de uma ideologia. É talvez o que mais aparece, muitas
vezes explicitamente, em Rules for radicals: o relativismo, a dualidade, o voluntarismo (adesão),
18 Cf. o tipo “místico ativista” em Eric Voegelin, Science, Politics and Gnosticism, Ersatz Religion, III.
19 Maquiavel quer o oposto, controlar a lei da mudança que gera o caos através de uma ordem secular firmada na virtù,
e até mesmo com a negação da Providência e da mera “Fortuna” pela ideia “profética” (eixo axiológico do progresso
ideal) de uma terceira Roma, como está no estudo de Olavo sobre Maquiavel.
20 O mesmo é observado a respeito de Maquiavel por Otto Maria Carpeaux, quando de uma “história ideal” se chega a
pensar poder extrair normas de comportamento político para todos os tempos. História da Literatura Ocidental, vol.
I-A. Edições Cruzeiro: Rio de Janeiro, 1961; pp. 484ss. Mas também aquilo que é um abuso que se quer fazer passar
por rigor científico em Maquiavel, no estudo de Olavo.
21 Há certa semelhança com o conceito em Laclau, com a teoria, derivada de Habermas, de que para a “universalidade”
de consenso vale o jogo das forças antagônicas, necessariamente.
22 A “objetividade” é refutada pelo “pragmatismo”, a realidade mais real por baixo das relações sociais. Curioso que
isto não evita que Alinsky tente justamente uma objetividade desapaixonada para levar adiante um processo quase
mecânico de reforma para um não sei onde através de princípios de mudança.

10
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

o culto à mudança, os fundamentos do argumento que esposa a alta finalidade da igualdade,


da justiça, da paz e da cooperação entre os homens.
Um ativista não tem uma verdade fixa, “tudo para ele é relativo e mutante”. A marca de um
homem livre é a essa incerteza interior que pergunta se ele está ou não certo. A curiosidade
compulsiva que o leva ao questionamento é como um arado invertido que rompe o solo
endurecido das velhas crenças para preparar para o surgimento do novo.
É preciso reconhecer o mundo como ele se mostra, e não como ele “deveria ser”, como já
o indicara Maquiavel (pretendendo assim fazer), entre outros. É o interesse próprio que vigora,
sendo a moralidade apenas o expediente à ação interessada. Os valores e o bem são
racionalizações --- é o que, de modo mais direto, diz Alinsky. O poder é que dá as cartas; toda
moralidade é estratégica e apelativa; termos como “reconciliação” são armas dos em
desvantagem. A Igreja e a cultura Judaico-Cristã legitimaram as guerras, a escravidão e toda
sorte de exploração humana que o status quo propiciou.
A morte é o termo da sucessão do bem e do sofrimentos perenes, “jamais se alcança o
horizonte; eles está sempre um pouco além, sempre indicando mais para frente; é a perseguição da própria
vida” (p. 14). A renovação da insatisfação, da angústia e da inquietude na forma de um
questionamento radical de tudo, cria o fluxo da própria vida.
A ideologia de Alinsky está apoiada no sofrimento humano, contra ele, na busca de um
sentido para vida, sem jamais se negar a esse combate constante.
“A vida parece sem ritmo ou razão, ou mesmo nem sombra de ordem a menos
que nós a conduzamos pela chave dos seus contrários. Vendo tudo em sua
dualidade23 podemos ter vagas pistas para uma direção e do que se trata. É nestas
contradições e em sua incessante interação tensional que a criatividade começa. A
medida que aceitamos o conceito das contradições podemos ver cada problema no
seu sentido total, inter-relacionado. Reconhecemos então que para cada positivo
há seu negativo, e que não há nada positivo sem seu concomitante negativo, nem
qualquer paraíso político sem seu lado negativo” (p. 15).
A este trecho, bastante importante para entender a mentalidade sistemática de rebelião em
Alinsky (i.e., a mudança induzida por princípios), segue-se uma nota sobre a filosofia chinesa
do yin/yang transformada em uma ativa dialética sistemática dos contrários voltada para a
ação.
Se o homem pode agir para facilitar a mudança (para onde, exatamente, fica sempre
vagamente indicado), é pelo seu poder criativo quando explora os aspectos virtualizados do
mundo como este se encontra e num ato criador o expõe e confronta. Na dialética marxista, o
real compõe sistema; portanto, é um todo (cujo limite nunca está bem claro); cada “sobra”
quantitativa no sistema carrega o gérmen da transformação 24. A imagem está também em
Maquiavel, quando ele diz que “qualquer mudança deixa sempre pedras de espera para a realização de

23 Muito do que Alinsky diz se parece com o que Olavo descreve como sendo um traço marcante do pensamento
revolucionário (“espontâneo” e delirante); mas não só deste, também semelhante à estratégia descrita como
subversão intencional, e me refiro especialmente à que está em Yuri Bezmenov. Recentemente essa “tática”
sistemática --- ou mentalidade, que já se confunde com e abrange a própria consciência de quem fala --- foi descrita
por Olavo em “A boa e velha língua dupla” (28/11/10). Se ali Olavo fala da ambiguidade que permite duas linhas de
defesa não apenas opostas, mas contraditórias (tomadas como se fossem opostas), em Alinsky somos exortados
justamente a explora ativamente estas contradições. Em Laclau e Mouffe esta pluralidade é reconhecida como coisa
“fora” do marxismo ortodoxo (“pós-marxista”), mas já como o esforço teórico de adaptação da teoria marxista a
estes elementos externos, que vão dar num pós-modernismo político.
24 “Merely quantitative differences, beyond a certain point, pass into qualitative changes.” -- Capital, Vol. 1 (p. 96).

11
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

outra”25.
São os pontos dialéticos latentes que aparecem sempre como “contradições” que devem
ser explorados. Devem ser não apenas encontradas estas “contradições”, mas induzidas a
crescer, ampliadas na atenção das pessoas ou elas mesmas --- ativamente criadas (p. xxii). Cada
“falha”, cada “imperfeição” (do sistema), que nunca deixam de haver, é um espaço para
encaixar uma alavanca. Pôr as velhas engrenagens em movimento, e mantê-las assim. (E virar
o mundo de pernas para o ar.)
Na ciclicidade das “crises” se presta culto à deusa Mudança, uma deusa da fertilidade 26.
Mas não se trata realmente apenas de culto, mas de uma indução ritual da mudança 27, de
celebrar um festival na primavera perene do ativista. É ao que se presta as leis de Alinsky, à
indução da mudança28.
A técnica de Alinsky é, no entanto, uma técnica de efeito difuso, que mira o resultado
estatístico, probabilístico, estocástico. O máximo que se pode querer controlar é certa
influência probabilística de certas ações. Nesse sentido, um ativista não pode confiar
cegamente em regras táticas, mas deve ser “resiliente” e criar as condições dialéticas de
resposta mais ou menos previsíveis, estando sempre pronto a perceber como ela será atualizada
para reagir.
A dedução de Alinsky desse quadro de aspectos positivos atualizados e negativos
virtualizados atualizáveis é que há sempre aspectos negativos e positivos de qualquer lado em
disputa, especialmente em política; portanto, não há qualquer moralidade objetiva. Alinsky
entende que é necessário atenuar essa dialética, que vai dar em momentos encadeados de
revolução e contrarrevolução e ou reforma. A reação do que está dado, atualizado como está,
deve ser dissolvida e assimilada num movimento de mudança progressivo.
*
TRÊS PRINCIPADOS DE CLASSE
Se em Maquiavel os “Principados” são os lugares de poder, em Alinsky o jogo político se
desenvolve dentro da sociedade aberta, que equivale às repúblicas e aos principados livres,
onde, diz Maquiavel, “há mais vida, mais ódio, mais desejo de vingança” (V). Alinsky vê a situação
do jogo político no mundo como um drama que não varia nas suas categorias básicas: os
“Que-Têm”, os “Que-Não-Têm”, e os (que) “Têm-Pouco, Querem Mais”.
Esta é a “Trindade” de Alinsky, a estrutura da realidade política. Os que têm querem
manter o que têm, os que não têm, querem-no para si, e os que têm pouco, querem sempre um
pouco mais, sendo uma fonte de adesão aos apelos de mudanças essencial junto à base feita
dos mais necessitados. Estes e aqueles são fatalistas e acomodados, reproduzindo aquilo que
Maquiavel descreve sem dar nome explícito ser o “conservadorismo” natural do povo
ordinário --- o conservadorismo maquiavélico29. Ao apelo a classe dos que não têm só pode

25 Maquiavel, O príncipe. Jardim dos Livros: São Paulo, 2007; p. 35. O que em Maquiavel é a ansiedade na iminência
da desordem, que deve ser combatida com a ordem eficiente, em Alinsky é esperança, que deve ser buscada no
sentido oposto ao de Maquiavel.
26 A exortação à criatividade e ao questionamento compulsivo: “an inverted plow, breaking up the hard soil of old
beliefs and preparing for the new growth”, p. 11; para “fertilize social change”, p. 7.
27 V. Rules..., p. 23: “to cooperate with the great law of change”; e no texto, p. 5.
28 Está no mesmo sentido da dialética marxista, como a definiu Engels: “a ciência das leis gerais do movimento, tanto
do mundo exterior como do pensamento humano” (citado por Mário Ferreira dos Santos em Lógica e dialética. IV,
1, “Dialética materialista e histórica”).
29 V. O Príncipe, cap. II; passim: o povo aquiesce perante a ordem estabelecida (preferencialmente) e mesmo perante
alguma ordem (que luta contra algum valor); adere a ordens semelhantes as quais está acostumado a viver (uma vez
que aquela tenha sido extinta e não tenha quem a represente); deixa-se governar por quem mantém a ordem ou a

12
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

tender para “cima” (i.e., sublevar-se). Mas então a mudança é mal vista, o que para os que não
têm trata-se apenas do legalismo das leis dos que têm, seus rituais opulentos, sua polícia, cortes,
igrejas, etc., que lhes garante o status quo.
A perspectiva de Alinsky se fixa (mas ele é radicalmente contra o pensamento dogmático)
na diferença simples entre as classes mais alta e mais baixa. Estes, inermes, são uma fonte
natural de adesão a demandas; os intermediários são uma meta: mobilizar a classe média. O
“conservadorismo” da classe média age pelos menores risco e esforço. São naturalmente
inertes. Mas é também pelas contradições e tensões dentro da classe média que está o mais
prolífico potencial de criatividade: de Moisés a Mao, de Thomas Jefferson a Fidel Castro, de
Gandhi a Lênin, entre outros dali saídos. Enquanto isto os (que) Fazem-Nada professam
justiça, igualdade, oportunidade, mas nunca a ação por estes valores. Aderem aos fins, mas
negam-se geralmente aos meios para alcançar estes fins. Essa classe média que não faz nada é
vista publicamente como boa, humanitária, preocupada com a justiça e a dignidade, cujo efeito
é a desmobilização.
Há uma dinâmica curiosa a qual Alinsky descreve, pela qual a indulgência gratificada dos
que têm se torna alienação desacautelada. O conforto permanente dos Que-Têm “faz a cama”
anestesiando as vítimas enquanto a grande lei da mudança “prepara” as transformações sociais
que virão30.
Perante um mundo de conflitos e disputas, diz Alinsky:
“Uma palavra sobre a minha filosofia pessoal. Está ancorada no otimismo. E,
porque o otimismo traz consigo a esperança, deve haver um futuro com um
propósito, e então o desejo de lutar por um mundo melhor” (p. 21).
A filosofia de Alinsky é uma visão ancorada em nuvens, nas quais ele vê figuras que se
modificam, e pelas quais, pela completa impermanência de suas formas, vê ele a possibilidade
de um mundo melhor pelo qual vale a pena lutar.

2
ÉTICA EFICIENTE
Muito da tática e do ativismo de Alinsky se mescla organicamente com sua ideologia
nenúfar, do modo como a vimos acima. Muito, portanto, do que ele vai repetir pode ser
resumido colocando em perspectiva o espírito que atravessa as duas primeiras partes de Rules
for radicals (0-1).
Alinsky repete aquilo que está em Maquiavel de um modo que nem Maquiavel o
demonstra tão piamente convicto. Nesse sentido, Alinsky é sem dúvida mais maquiavélico que
Maquiavel31.
A pergunta não é se os fins justificam os meios, mas se “este” fim particular justifica “este”
meio particular. A posição de um ativista é pragmática --- a virtù maquiavélica.
A gnose de Alinsky deriva para sua moral da ação e para sua mentalidade típica: se a

modifique menos; etc.. Muito dessa psicologia é reconhecida por Alinsky para as classes média e baixa.
30 Essa observação de Alinsky tem paralelo no que Olavo descreve entre os americanos tanto pelo lado dos que estão
em melhores condições, beneficiados por “um país que é bom demais” com eles, quanto pela indolência preguiçosa
dos assistidos, que neste caso podem se tornar (levados a isto), para Alinsky, os mais suscetíveis aos apelos de algo
mais.
31 Se Olavo escreve que o imoralismo em Maquiavel está amortecido por uma “camada de exortações aparentemente
moralizantes” (op. cit., #2), Alinsky abertamente (p. 43) vê esse disfarce, mesmo na sua palidez de fingimento, uma
fraqueza do autor d'O Príncipe.

13
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

consciência é a virtude do observador e não do homem de ação (Goethe), “para a ação, nem
sempre é possível permitir-se o luxo de uma decisão que seja consistente ao mesmo tempo com a consciência
individual e com a humanidade” (p. 25).
As discussões éticas são estéreis, e não vêm da experiência, que é a vida real na sua
constante (necessidade de) mudança. Disto se tem apenas desvios da responsabilidade que vem
da pressão da necessidade de tomar decisões. Contra isto levantam-se objeções de uma
“mística objetividade” perante a qual a paixão que leva à ação é tida como suspeita. A
moralidade com a qual se objeta a respeito dos meios é de mão única: o que é a nosso favor.
Faltar com a ética é abdicar de quaisquer meios.
Alinsky apresenta uma lista de regras reguladoras da “ética” na ação real que é a ética
eficiente dos fins e dos meios, como está abaixo:
1ª – As preocupações de alguém com a ética dos fins e dos meios varia inversamente com o
interesse pessoal em questão;
2ª – Depende da posição política em que assentam-se para o julgamento;
3ª – Na guerra, de fato o que ocorre é que o fim justifica quase todos os meios;
4ª – Os julgamentos [morais] devem ser feitos no contexto do tempo no qual transcorreram as
ações e não por qualquer outra perspectiva cronológico “mais favorável”;
5ª – As preocupações com a ética aumentam diretamente com o aumento dos meios
disponíveis e vice-versa;
6ª – É menos importante o fim desejado e mais o que alguém pode fornecer para que seja
admitido numa avaliação ética dos meios;
7ª – Geralmente o sucesso ou o fracasso é o maior determinante da ética (--- esta é a
bifurcação na qual um herói fundador ou um traidor da pátria são definidos);
8ª – A moralidade dos meios e dos fins depende diretamente de se os meios estão sendo usado
em momentos de derrota ou vitória iminentes;
9ª – Qualquer meio efetivo, de sucesso, é automaticamente julgado como não-ético pelos
adversários;
10ª – É relativa a ética dos fins e dos meios ao que você faz com o que tem e com o que você o
veste [embelezando] moralmente;
11ª – As metas podem ser ditas em termos gerais tais como “Liberdade, igualdade,
Fraternidade”, “Do Bem-Comum”, “Perseguir a Felicidade”, ou “Pão e Paz”.

3
ANTI-ORWELL
A definição de Alinsky para algumas palavras indica o rumo da ação possível. “Política” é
a mera disputa pelo poder e como exercê-lo. A leitura de Rules for radicals esclarece que para
Alinsky “discrição” é ocultação ou disfarce; “previdência” é defesa estratégica ou ação
diversificatória; “diplomacia”, o fingimento por alguma vantagem; e “sabedoria”, sagacidade
eficiente.
PODER. Uma palavra das mais significativas, no sentido que Alinsky a toma. As palavras
não devem ser atenuadas por expressões analíticas para não fugir de seu sentido forte. É
preciso optar pela simplicidade. Alinsky dá o exemplo da fórmula de Einstein “E=mc2” para
dizer que a mais perfeita expressão filosófica e científica é dada em expressões breves e

14
Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

condensadas32. Isto para não se deslocar da realidade. Chega-se a um ponto crítico quando
nossa língua põe armadilhas à nossa mente (p. 50). Os bons modos não podem ter-se a
expensas da verdade (!). Mas o que é a verdade para Alinsky, ou sobre o que ela reside?
“Quando buscamos evitar a força, o vigor e a simplicidade da palavra 'poder', logo
nos tornamos avessos a pensar por termos vigorosos, simples e honestos”.
A palavra poder, que quer dizer habilidade física, mental, moral “para agir” --- tal qual a
virtù --- está estigmatizada desde Maquiavel. Ao hipócrita, “poder” significa o inaceitável
“conflito”. Mas é sempre o uso eficiente do poder que define entre a ordem e o caos.
INTERESSE (PRÓPRIO). Aqui Alinsky faz a apologia da realidade como ela é e não
como deveria ser. Os homens agem em interesse próprio: a hipocrisia do altruísmo puritano é
nada mais que um modo de desejar o bem do próximo pela vantagem que se tira do benefício
comum. A realidade é este equilíbrio, onde o bem está absorvido pelo interesse próprio desde
que cada homem seja impotente para garantir-se sozinho. O altruísmo é, assim, um fator de
equilíbrio entre o próprio interesse e como consegui-lo eficientemente na sociedade. Como diz
Alinsky em outro lugar: como pode dormir quem nega um pedaço de pão ao irmão, se aquele
então ameaça-o com a morte?
Se o ato mais alto de amor é dar a vida pelos amigos, é apenas porque a lei que rege a
realidade e o modo eficiente desse amor é a força cega do interesse próprio.
Os nossos interesses podem ser nuançados racionalizado-os pelo guarda-chuvas moral.
Apesar do comunismo ter se tornado uma tirania como qualquer outra, pelo sistema político
que ele construiu de fato, o papel da aversão ao ateísmo não é outra coisa que essa
racionalização moralista, que essa peça de propaganda poderosa.
COMPROMETIMENTO. Tem-se por este o entendimento de um tipo de acordo abjeto,
de adesão cega. Alguém estar “comprometido com...” é depreciativo. Não para um ativista. A
ação precisa de algum comprometimento. É como a sociedade respira, para agir. O
comprometimento é uma concessão de poder numa sociedade em conflito constante: é o que
forma os polos em conflito, mas também o compromisso maior que estabiliza o conflito 33.
Uma sociedade onde o comprometimento falta, é tirania. Comprometimento é a própria
definição de uma sociedade livre.
EGO. Uma liderança conduz, a personalidade de um ativista coalesce em torno do
compromisso. Ou, um pouco mais misterioso que isto: “Um líder é conduzido pelo desejo de poder;
um ativista, por sua vez, é conduzido pelo desejo de criar”. Não se trata de egoísmo, mas de uma
força de personalidade penetrante, que --- é o modo pessoal de Alinsky ser o Príncipe de
Maquiavel --- transforma as pessoas do desespero ao enfrentamento, sendo capaz de criar um
ego de massa.
CONFLITO. A palavra está associada para Alinsky à rejeição moralista do puritanismo
protestante, numa simplificação (de quem?) da frase “dar a outra face”. Mas também à força
conservadora que defende o status quo. Trata-se do caráter pernicioso da polidez higiênica do
moralismo que se ultraja com a mera possibilidade de “ofender” o próximo. O consenso é um
taboo para o qual ser “controverso” é sustentar uma temeridade.
Da nossa experiência, somos “polêmicos” quando, afastando-nos do consenso da polidez
32 É notável como as regras de Alinsky muitas vezes se parecem mais com as simplificações dos slogans que com
conceitos filosóficos ou com “leis” científicas, e mesmo a verdade é uma função dessa simplicidade (eficiente)
reconhecida como “realismo” por Maquiavel.
33 O conceito e a função de “comprometimento” em Alinsky têm uma afinidade evidente com o conceito de
“hegemonia” em Ernesto Laclau, através do papel central do “antagonismo” na política.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

antes de tudo, produzimos o mesmo tipo de desacordo já pelo simples fato de afirmar algo que
não depende de opinião.
O conflito é a essência de uma sociedade livre para Alinsky34, sua harmonia é a
dissonância.

4
O ATIVISTA É UMA MENTALIDADE35
A experiência de Alinsky vem das greves organizadas do tempo em que fora tutelado por
John L. Lewis, na década de 30 nos Estados Unidos36. A atividade de formação de um ativista
organizador de massas requer longas conferências sobre problemas de organização para a ação
eficiente, análise de modos de poder, comunicação, táticas de conflito e métodos de introdução
de nossos temas.
Toda e qualquer tipo de experiência pode ensinar algo a um ativista atento. A experiência
deve ser dissecada, analisada e digerida. Não se recorre a manuais durante a ação; as regras,
sendo gerais, precisam estar digeridas e fazer parte da personalidade do ativista. Através de
um corpo de conceitos assim constituído, a experiência se esclarece para o ativista e torna-se
intuitiva.
O tempo de um organizador (é relativo porque) se mede pela atividade; qualquer coisa
semelhante a um casamento e a uma família constituída é a morte de um ativista. Uma vida
pacata, sem o inesperado e sem a oportunidade, não é pensável para o trabalho de um ativista.
O papel do ativista é o de organização, mas também manter o grupo ativo, motivado, com
metas, mas flexível tudo de uma só vez.
Diferente dos sindicalistas, o ativista não se prende a objetivos fixos ou padrões de ação,
nem tem períodos de aquiescência. Os objetivos dos sindicalistas estão bem claros; os de uma
organização ativista não tem uma agenda com nexos cronológicos fixos ou objetivos
rigidamente definidos. A demanda está sempre mudando, a situação não tem um contexto
concreto de ação, mas mais psicológico; trata-se de uma situação fluida, variando
constantemente.
Alinsky se recente da queda na educação americana, excessivamente técnica. O que o faz
lamentar a diferença de hoje para com os antigos sindicalistas, cuja atividades ia bem além da
mera reivindicação repetida. Sem mais aquela flexibilidade e agilidade que se podia então
encontrar em um sindicalista, eram muito diferente aqueles dos que hoje tentam decorar as
exposições de Alinsky, sendo capazes apenas de uma organização muito elementar. Há uma
falha de comunicação para entender que cada situação só pode ser pensada sob conceitos

34 Essa regra do conflito e da dissonância vira do avesso quando o moralismo conservador pode ser substituído pelo
“consenso” gramsciano como o descreve Sérgio A. de A. Coutinho n'A revolução gramscista no Ocidente. A
necessidade do consenso substitui a moralidade reacionária mas junto a disputa “pluralista” por atos de polidez, pela
exegese da tolerância, da “civilidade” superior, moldando o padrão de comportamento para o consenso e o expurgo
de quem foge a esse padrão, sem receber de volta a pecha de (um tipo de) “moralismo”. A tolerância é máxima para
dizer a “adesão ativa, espontânea e livre” (!) para com as reivindicações consensuais esposadas pelos radicais
ativistas.
35 O “ativista”, na sua atividade de “organizador” de movimentos de massa, mobilizador de “minorias”, faz o papel de
um personagem ardiloso que tem de persuadir (“comunicação”) e agir no palco das negociações como um Coringa
(Joker), o Trikster ou Malandro, etc.; é também o tipo de personalidade que Alinsky pretende formar, que se pode
perceber logo que se trata, em alguns aspectos, de símiles do diabo.
36 Na “A. F. of L.” -- American Federation of Labor e no “C.I.O.” -- Congress of Industrial Organizations, ou “AFL-
CIO”, fundada em 1886, é o maior centro sindical nos Estados Unidos, com estrutura ligada a dezenas de outros
sindicatos, nacionais e internacionais.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

gerais e não como vem sendo entendida, como ações mapeadas com desdobramentos
previsíveis37.
A área de experiência e a comunicação são essenciais ao trabalho de um ativista. Um
ativista organizador deve sempre se comunicar dentro da esfera de experiência de sua
audiência, fora da qual não há comunicação efetiva (p. 70).
“Um ativista [organizador de massas], na sua busca constante por padrões,
generalidades e sentido está sempre constituindo para si um corpo de
experiências”.
Ele aprende lendas e anedotas locais, trata de entrar na esfera da experiência local, seus
valores, idiomas, ouve a conversa das ruas, procurando por padrões peculiares. Evita os termos
surrados do ativismo, tais como “porco fascista”, que só fazem identificar o ativista com outro
daqueles aloprados. Em qualquer situação, um ativista deve ser mais ele mesmo, com humor,
franqueza e personalidade. É preciso fazer uma avaliação ágil da situação, e o momento de
ação é sempre mais sujeito ao imprevisto, porque ele deve partir da situação real. Começar
com uma boa discussão é sempre o ideal, ouvir os problemas e o que aflige as pessoas.
Algumas das qualidades que não podem faltar, cada uma delas em algum grau, a um
organizador ativista são as seguintes:
Curiosidade. Um ativista organizador de grupos (por demandas) deve ser dotado de uma
curiosidade que não conheça limites. “Por quê” deve ser entoado como um mantra, o
questionamento de tudo que é aceito deve ser sistemático. Sócrates (!) --- numa das citações
“realistas” de Alinsky --- era um “ativista” que não deixou de questionar o sentido da vida
quando pôde, a examinar e rejeitar os valores convencionais primeiro nele mesmo. É sempre o
primeiro passo para que logo uma revolução tome a arena política.
Irreverência. Para um ativista, nada é sagrado, nada pode deter o impulso ao
questionamento. Ele desafia definições de moralidade, não tolera embaraços que obstaculizem
a busca livre e aberta, pouco importa aonde elas possam lavar. Esse é o paradoxo, que sua
irreverência esteja fundada numa profunda reverência pelo enigma da vida e na busca
incessante por sentido.
Imaginação. Alinsky inicia com a definição dicionarizada: “[A imaginação é a] síntese
mental de novas ideias a partir de elementos da experiência separados, ampliados por imagens não
sugeridas pela experiência...”. Mas para um ativista é mais profundo que isto, é uma força, um
dinamismo interior que inicia e sustenta a vida de um ativista. A capacidade imaginativa do
ativista deve poder antecipar as reações sabendo como, criativamente, induzi-las.
Noutros tempos, Alinsky pensara que era necessário uma profunda raiva contra a injustiça
para manter-se na ativa; mas é mais que isto:
“esta imaginação anormal que o leva [ao ativista] a uma identificação mais estreita
com a espécie humana e o transporta para sua miséria. Ele sofre com eles e tem
raiva pela injustiça; então põe-se a organizar uma rebelião. Clarence Darrow o
disse melhor: 'Tenho uma imaginação vívida. Não apenas me ponho no lugar das outras
pessoas, mas já não posso evitá-lo. Minha simpatia sempre foi pelos fracos, pelos que sofrem,

37 Alguns destes exemplos podem ser conhecidos por exemplos brasileiros, onde a maior parte do que diz Alinsky
simplesmente não parece estar à disposição do ativismo organizado brasileiro. Quando o MST invade e destrói bens
de particulares, a única coisa que se observa igual ao que Alinsky ensina é a pressão constante. A Via Campesina
promover um quebra-quebra na frente do Supermercado BIG para “expulsar o capital estrangeiro”, tentando em
seguida avançar para a casa do governo do estado, igualmente foge à experiência narrada por Alinsky, que orienta a
não atacar entidades abstratas.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

pelos pobres. Experimentando sua aflição, tento confortá-los, para que eu mesma possa
assim encontrar algum conforto'” (p. 74)38.
Senso de humor. A capacidade de descobrir, expressar e articular o ridículo e o absurdo em
ideias, acontecimentos, situações que exigem “um estado mental cambiante e incerto...”. É preciso
tudo que mantenha a mente aberta, evitando a certeza e encontrando no riso a manutenção da
sanidade, que é também a chave para o sentido da vida. Este não é apenas flexibilidade e
sanidade, mas uma arma poderosa. Um ativista não pode ser absorvido ele próprio, em sua
atividade de organizador por disciplinas de grupos ou organizações.
Ser capaz do vislumbre de um mundo melhor. Evitar a monotonia é uma questão estrutural
interna de um ativista. Ele está como um artista que da obra total é responsável apenas por
uma pequena parte, porém essencial.
Uma personalidade organizada. Um ativista precisa ser um agente de ordem na
irracionalidade, precisa ser capaz de se manter numa posição segura no meio de uma situação
desorganizada. É vital ser capaz de trabalhar com a irracionalidade para alcançar a mudança.
“Com raras exceções, as coisas certas são feitas pelas razões erradas”. Ele deve ser capaz de usar a
irracionalidade e as razões erradas para as suas metas.
Razões variadas servem para desenvolver um número ilimitado de apelos e demandas. A
ação de um grupo organizado de ativistas só se mantém com o mais amplo espectro de
demandas. É fundamental também notar que todas as pessoas vivem sob uma hierarquia de
valores. É preciso conhecê-la e barganhar com elas. As classes sociais tem necessidades
diferentes e elas se guiarão por estas necessidades. A relação entre um ativista e estes grupos é
uma relação de troca mútua; com isto temos um programa comum.
Um elemento político esquizóide39 bem integrado. Há de se manter precavido quanto a se
tornar um fanático utópico ou ideológico. O relativismo político está associado à polarização;
os homens apenas agem tomando posição. Tomar decisão em grupo para agir é sempre tudo
ou nada, é quando todos vão pela maioria simples. Mas no momento em que é necessário
negociar, então o ativista tem que saber que a diferença é de apenas 10%. Ele tem que saber
dividir, mantendo todos juntos [v.g., as minorias todas, unidas].
Ego. Um ego forte é imprescindível com uma confiança sem reservas na sua habilidade
para fazer o que você sabe que deve fazer. O receio é um momento: vida é ação.
Uma mente livre e aberta e politicamente relativista. A irracionalidade no comportamento
humano requer flexibilidade para a ação [v.g., a confusão interiorizada de Lula que por aqui
chamaram “talento comunicativo”]. A única certeza é a incerteza, e um ativista pode conviver
com isso. O novo vem amiúde do velho por meio do conflito. A relatividade dos valores sob as
38 Não há comentário melhor a este trecho que o que se encontra em Eric Hoffer, The true believer (p. 133), seguido de
uma nota em C.S. Lewis, The problem of pain (p. 75):
“É fácil perceber como o homem de palavra perfeccionista, pelo ridículo e denúncia persistente, abala as
crenças e lealdades existentes e familiariza as massas com a ideia de reforma. O que não é tão evidente, é o
processo pelo qual a desmoralização das crenças e instituições vigentes torna possível a eclosão de uma nova
fé fanática. Pois um fato marcante é que o homem de palavra militante, que 'sonda a ordem estabelecida até
suas raízes para marcar sua falta de autoridade e de justiça', muitas vezes prepara o terreno não para uma
sociedade de livres-pensadores, mas para uma sociedade coletiva que venera a absoluta unidade e a fé cega.”
“Todo vício leva à crueldade. Até mesmo uma emoção boa como a piedade, se não for controlada pela
caridade e pela justiça, passa pela raiva e tranforma-se em crueldade. […] E a piedade pelas classes
oprimidas, quando separada da lei moral como um todo, leva, por meio de um processo muito natural, às
brutalidades incessantes de um reinado de terror”.
39 Free Dictionary by Farlex: “2. Informal.: caracterizado por ou que mostra atitudes, ideias, etc. conflitantes ou
contraditórias”.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

qualidades aqui elencadas e a incerteza da vida fundem-se pela personalidade do ativista no


ato criador do novo.

5
COMUNICAÇÃO É PERSUASÃO
Comunicação é algo que ocorre na esfera da experiência de cada um. Perceber essa esfera
de ação não é um opção para um ativista, pois fracassar nisto é estar condenado previamente
ao insucesso. Alinsky compreendeu que as palavras não dizem nada sem que elas possam se
integrar de alguma forma à experiência individual. Este é o maior obstáculo à comunicação e é
absolutamente necessário conseguir penetrar na esfera de experiência das pessoas para poder
transmitir a elas o que elas querem e devem fazer.
O uso de imagens ou descrições de casos reais podem mediar a experiência pessoal com o
que se quer comunicar. Uma vez que você não possa encontrar um ponto de experiência no
outro para a comunicação, então você deve criá-la. Alinsky narra alguns casos, como quando
pede a um garçom que lhe dê um omelete com fígado, mas que para o garçom era um “nº 6”,
assim como as palavras juntas “ovos e bacon” significavam “nº 1”. Alinsky pede ovos e fígado
separados, mas o garçom, condicionado pela sua experiência a reagir instintivamente pelo “nº
6”, traz-lhe omelete de fígado. Após esclarecido que se tratava de ovos e figado “separados”, o
garçom, um tanto pasmo, pede desculpas e volta com o pedido certo. No entanto, a conta vem
também duplicada, como se fossem dois pedidos, triplicando o preço.
Alinsky dá exemplo de que toda a confusão produzida ocorreu por ele ter “saído” do
campo habitual de experiência do garçom.
Outro exemplo dado por Alinsky foi ter ido a um bairro com notas de dez dólares e
inadvertidamente oferecido às pessoas, que ao vê-lo assumiam uma postura desconfiada, às
vezes recuando e mudando de direção, algumas simplesmente insultadas: “A maioria das pessoas
reagiam com espanto, confusão e silêncio” (p. 87).
Em outro exemplo --- já um pouco abusando --- narra o caso de um homem que, após
converter-se ao catolicismo, vai ao banco e retira algumas centenas de dólares e na rua passa a
distribuir o dinheiro às pessoas que passam. O homem foi recolhido pela político e
diagnosticado “fora de suas faculdades normais” por psiquiatras. Alinsky diz que a
comunidade católica local, a qual “professa o hábito, mas não o pratica”, não tinha de fato a
experiência [de sua caridade], que fazia de sua religião apenas uma “decoração ritual”.
“A comunicação para persuasão, como nas negociações, é mais que entrar na esfera de experiência de
outra pessoa”. É preciso ter em mente os valores e metas dos outros e ter eles por objetivo. Falar
com padres ou ministros protestantes ou com um rabbi não requer uma alta conduta moral,
que os termos de sua própria moralidade, sendo estranhos às suas práticas diárias, escapam-
lhes à experiência. Mas o exemplo nesse sentido mais notável que Alinsky dá é o de Moisés,
no momento em que Deus estava desagradado do culto que o povo prestava ao bezerro de
ouro. “Um grande ativista, como foi Moisés...” (p. 89), não perdeu a calma. Concedeu a Deus o
que Deus queria, trabalhando na perspectiva de Deus, atento à Sua hierarquia própria de
valores; isto é, Ele próprio (acima de todas as coisas). Moisés poderia ter dado mil explicações,
mas manteve a calma e intercedeu por seu povo para conseguir a proteção de todos. Moisés foi
hábil em lidar (taticamente) com Deus --- é como vê Alinsky.
É importante que nas negociações e nos debates internos você dê voz às pessoas e que elas
cheguem por elas mesmas às conclusões (que você quer que elas cheguem). Por isso um
ativista não ordena, ele conduz o questionamento como aquele outro grande ativista, Sócrates.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

Perguntar “O que você acha?” é um contraquestionamento que não tem a força imediata de
conduzir (nem o parece fazer, mas discretamente). Manipulação? É claro que é; e é o que faz
qualquer professor, é o que fazia Sócrates.
Um ativista organizador não age como um general; ele sabe que a ajuda produz nas
pessoas hostilidade por quem a ajuda. Não pode, assim, ser um coordenador explícito, nem
permitir-se a vanglória. Ele tem que ser um indutor, um discreto agente de “organização”.
As relações que um ativista deve manter com as pessoas com quem precisa negociar deve
ser mais próxima e menos impessoal, deve estabelecer relações de proximidade. Alinsky parece
referir-se à receptividade produzida por essa relação de proximidade, desejável e mesmo
necessária, que permite melhor que alguma concessão se torne em pontos discretos a
concessões (para a mudança) que devem então ser trabalhados.
A comunicação que se dá sob termos gerais, sem descer à experiência específica de cada
um, torna-se mera retórica e tem efeito muito limitado. A comunicação efetiva só ocorre
concretamente na experiência específica de cada um.

6
NO INÍCIO, REBELIÃO
De início, é preciso formar a identidade da organização de modo a esta se tornar
reconhecida por razões aceitáveis às pessoas. Todo estranho é sempre suspeito! A suspeita
generalizada entre ativistas é o resultado da experiência deles. Se um ativista chegar e começa
falando de “amor universal” ele terá todos contra ele. Se ele começar falando de burgueses
exploradores, capitalistas desonestos e interesses espúrios, isto está na esfera de experiência
daqueles; portanto, é como fica mais fácil a um recém-chegado ser aceito: “As pessoas só podem
julgar desde a sua própria base de experiência” (p. 99).
Um ativista precisa ter a atenção e a confiança das pessoas, elas precisam vê-lo ao seu
lado, estar por elas como um líder. A polarização da situação com a identificação concreta de
um “inimigo” faz isso. Mas é preciso mais, é preciso perceber que é o poder e o medo que são
essenciais para o desenvolvimento da fé. A fragilidade na constância do julgamento dos
pobres, na sua falta de fé em si mesmos, tem que ser anulada. Poder é resistência; o amor, uma
fraqueza humana:
“É um fato lamentável da vida que o poder e o medo sejam
as verdadeiras origens da fé” (p. 99).
E está aí também a certidão de nascimento de um ativista e de sua organização, quando, p.
ex., o poder instituído o rotula de “perigoso”. Os jornais terem sempre apresentado Alinsky
como “perigoso” ou “o radical dos radicais” lhe deu uma autoridade sempre renovada. É na
polarização contra um poder que nasce o poder de uma organização, e por efeito, os meios
que inspiram fé na organização.
Quando intimidado pela Ku-Klux-Klan em um aeroporto, manifestação que veio
acompanhada por uma reação de rejeição a ele pelas autoridades --- fazendo a manutenção
daquele “ego” de que fala Alinsky ---, colocaram-no perante os negros locais numa posição de
símbolo destes. Assim, quanto mais forte era a tentativa de intimidação, maior era a
capacidade de Alinsky de influenciar as massas. “A vantagem --- tão cara a Alinsky para a ação
induzida no outro --- é o dividendo da reputação” (p. 103).
O trabalho de um ativista começa, quando ele ainda não tem a autoridade e a atenção para
ser um organizador, ao receber um “convite” a isto. Essa condição é alcançada na agitação, ao

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

induzir as pessoas à esperança e fazendo-as querer a mudança, lançando ideias que as


disponham à ação e reconhecer o ativista como alguém qualificado para o trabalho. A forma
de trazer à tona isto é como o velho Sócrates fazia, pelo questionamento que conduz.
*
DO PODER À POLÍTICA
O começo de uma organização passa pela tomada de consciência por parte das pessoas do
que elas querem. Mudanças todos sabem que são necessárias, mas insistir no assunto sem mais
é atrair desconfiança e retração. Se as pessoas sentem que não tem poder para a mudança, não
pensam nisso.
As pessoas precisam acreditar em si mesmas. O primeiro requisito para a comunicação e
para a educação é as pessoas terem uma razão para isso. É preciso então favorecer essa razão,
criar as circunstâncias ou o instrumento para o poder. Mas uma vez que se tenha organizado
as pessoas, e aberta a possibilidade do poder de agir, é preciso estar atento que uma vez feito
isso outros problemas irão surgir. Uma vez construído os meios do poder para um programa de
ação particular, o programa muda. Experiências com a organização de comunidades que
viviam em áreas urbanas degradadas mostraram que uma vez alcançado algum poder, a
mudança das políticas oficiais conduziam a que os programas de ação fossem reformulados.
A atualização destes problemas não deve ser algo trazido às pessoas, que devem ser
levadas a acreditar apenas no problema imediato contra o qual se trabalha. Nesse momento
ainda, as derrotas serão do ativista e as vitórias, das pessoas. Essa situação só se estabiliza com
o tempo, e quando afastada as sombras iniciais. A dificuldade das pessoas para acreditar e
ainda mais a aderir a uma nova ideia, é o que as faz temer a mudança. A ligação da
experiência do poder deve ser mediada por uma linguagem compreensível.
*
RACIONALIZAÇÕES
Outra sombra sobre uma organização de ativistas é a “racionalização”. O processo de
racionalização é geralmente a causa da aquiescência das pessoas antes que o ativista chegasse.
Como na psicanálise, onde o psicanalista media ao conflito que então se encontrava sob um
esquema de “defesa”.
Alinsky dá o exemplo dos índios canadenses, que sofriam de discriminação e isolamento.
Propôs-lhes então que quebrassem as regras, cruzassem as linhas que os separavam, para
conseguir aliados simpáticos a causa deles. Ao ser convidado por um dos líderes locais,
questiona-os sobre os motivos que os mantiveram quietos até então. Ouviu dos índios que não
poderiam. Não queriam corromper seus valores. 'Que raios de valore são estes?', pergunta-lhes
Alinsky. Com alguma reticência, o índio fala-lhe da “pesca criativa” sem satisfazer Alinsky
sobre do que se tratava. Quando o homem branco vai à pesca, é apenas isto, diz ele. E daí?
Nós, índios, diferente de vocês, nós percebemos a água batendo no barco, os pássaros nas
árvores e o farfalhar das folhas... --- a descrição do índio dá concretamente o que é “pescar”,
mas para Alinsky se trata de sentimentalismo sem objetividade.
Alinsky quebra a conversa de forma rude, dizendo-lhe: “É um monte de besteira isso
tudo!” Nesse momento se fez um silêncio constrangedor. Alinsky descreve o estilo de vida dos
índios, narrado por um deles, como um processo de racionalização que os mantém avessos à
ideia da mudança. Um dos líderes diz que pela primeira vez alguém de fora os tratou como
iguais, em vez de como crianças, como selvagens.
É preciso, para Alinsky, romper com esse processo de racionalização, investigá-lo, como

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

ele ocorre, e superá-lo.


*
O PROCESSO DO PODER
Aqui Alinsky descreve com mais clareza o trabalho amoral de sedução de uma comunidade
de modo a sublevar seus membros ao ponto da persuasão. Alinsky sugere que na ausência de
uma real oportunidade para obter poder e lutar, os meios para isso devem ser adquiridos de
qualquer forma ao alcance, seja lá isto feito junto a grupos religiosos ou gangues, ou se com
pequenas trapaças (p. 113).
A atividade de um ativista é conduzir simultaneamente a análise, o ataque e o
desmantelamento dos padrões prévio de poder. As próprias comunidades locais tem uma
ordem estabelecida; o termo “comunidades organizadas” é redundante, as comunidades
sempre são constituídas por padrões habituais. Muitas vezes, padrões de apatia. O início do
trabalho, portanto, pode ser o de atacar os padrões de organização locais que levam a uma vida
quieta.
“A primeira passo para a organização de uma comunidade [para a ação] é a desorganização dessa
comunidade”. A participação dos cidadãos depende de que novas oportunidades sejam abertas
pela alteração de seus padrões habituais. Mudança significa desorganizar o velho para urdir o
novo. É preciso criar controvérsia para demandar ao invés de evitá-la, sem a qual as pessoas
não se moverão. Quando há acordo, não há controvérsia e nenhuma demanda 40. Um ativista
precisa induzir a insatisfação e o descontentamento, e fornecer um canal para que as pessoas
inquietas possam manifestar suas frustrações.
O trabalho do ativista é mover as pessoas a agir contra os padrões de poder existentes.
Trata-se, sim, de ser um “agitador”, é esta a sua função --- “agitar ao ponto do conflito”:
“Um ativista dedicado a mudar a vida de uma comunidade particular deve
primeiro expor os ressentimentos das pessoas da comunidade; atiçar as hostilidades
latentes da maioria das pessoas até o ponto da manifestação pública” (p. 116)41.
“[Um ativista] começa sua 'confusão' atiçando [as] raivas, frustrações,
ressentimentos e sublinhando demandas ou queixas específicas que fazem
aumentar a controvérsia [e dramatiza as injustiças]” (p. 118)
“[Então o ativista] precisa criar um mecanismo que possa drenar a culpa
subjacente por se ter aceito a situação havida por tanto tempo”.
A indução à insatisfação pode ser feita não apenas pelas carências, mas também motivada
pela condição comparativa para com aqueles que estão em condições melhores (p. 118). Esta
como outras demandas precisam ser criadas, mostrando que é possível fazer algo. O ativista
precisa transformar o desconforto em uma questão. As demandas precisam ter possibilidade
real de ação imediata.
Uma organização precisa ter muitas demandas; a inatividade torna uma organização
facciosa e ociosa, levando a conferências e diálogos intermináveis à senilidade. Uma demanda
única é fatal. O apelo para uma organização de massas não pode ter objetivos claros e rígidos
(como os sindicatos). Nos centros urbanos agitados a palavra “comunidade” quer dizer

40 Notar que essa regra é oposta ao valor do conceito de “comprometimento”, que Alinsky trata como necessária para
mover as pessoas a agir pela mudança. A ordem social deve ser quebrada para que as pessoas possam comprometer-
se com uma nova ordem.
41 O uso por Alinsky do ressentimento, do rancor, etc., a ponto de induzi-lo nas pessoas, de acirrar posições, foi o foco
da crítica do The Chicago Tribune quando do lançamento do livro Rules for Radicals.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

“comunidade de interesses”42, não uma comunidade física. Uma comunidade organizada por
um ativista é uma comunidade de interesses.
Alinsky destaca a busca das pessoas por aventura, por sair da rotina, e lhes oferece um
apelo que faz as vezes de uma boa trilha sonora. Essa ansiedade move pela incompletude da
própria personalidade e pela angústia de viver em um mundo que não sabe que se vive. Mesmo
uma rápida aparição na TV após uma atividade tem o poder trazer à vida qualquer
desconhecido.
“Deixe-nos olhar o que chamamos processo. O Processo nos diz como [sedução]. O
Propósito nos diz por quê”. Mas trata-se de um continuum, difícil saber onde
começa um e termina o outro [itálico no original].
“O verdadeiro processo da participação democrática é pelo propósito da organização
mais que simplesmente para deixar as trilhas empoeiradas. Processo é realmente
propósito” [grifei].
Disso tudo tiramos que o que guia as ações de uma organização é a perspectiva da
dignidade do indivíduo na forma da sua hierarquia própria de valores e interesses, salvo apenas se
estes violam os mais altos valores de uma sociedade livre e aberta 43.
A comoção de uma demanda atendida é proporcional à atividade da qual se participa, da
qual se fez parte, que é a pedra de toque da democracia e da cidadania. Alinsky dá o exemplo
da Libéria, para dizer que mesmo quando as coisas são dadas por onde não se esperaria que
viessem, p. ex., o colonialismo, recebê-lo passivamente se torna algo danoso. “Mesmo a
liberdade, quando dada, é deficiente em dignidade” (p. 124).
A dignidade da pessoa humana está ligada, para Alinsky, diretamente à participação ativa
das pessoas através da adesão a uma organização de massa --- isto é, de participação
democrática. Mas que curiosa advertência vem então: “'Direitos dados, tornam-se não raro no seu
contrário, quando não se luta por eles”44. Essa atividade é uma atividade sistemática, sobre o maior

42 Essa noção tem equivalência rigorosa em Ernesto Laclau; o ativista ou o partido criam “classe” ou “comunidade” de
interesses que atendem a demandas (cuja necessidade ou apelo passam a existir) retroativamente. (Olavo comenta o
tema no Curso On-line de 27.11.10: >82'20”.)
43 Isto é, salvo se estes valores e interesses vão contra a os valores mais altos que permitem a uma sociedade livre que
seus membros se organizem para pleitear por suas demandas livremente. Não coincidentemente, parece exatamente
o que descreve Bezmenov quando fala do processo segundo as etapas de DESMORALIZAÇÃO, DESESTABILIZAÇÃO,
CRISE e NORMALIZAÇÃO. A desmoralização feita sobre uma comunidade estabelecida (organizada), para movê-la
induzindo à crise (desestabilizando-a). O trabalho de Alinsky não é o de desmoralização, que é sua premissa de
trabalho e o que ele trata sempre como coisa dada que qualquer um, na sociedade livre onde ele age, reconheceria.
Com estas premissas de fundo, Alinsky constrói a base de apelo por demandas, produzindo inquietação, insatisfação,
desencanto, acirrando ressentimentos, etc., fazendo surgir as relações que desestabilizam uma comunidade (de
interesse) local e a faz buscar por uma nova condição, oferecendo a oportunidade de algum ganho a mais (qualquer
ganho). Alinsky não chega nunca ao que levaria a sua revolução constante, mas apenas aponta para frente fazendo a
apologia da mudança na visão imperfeita de uma sociedade mais justa futura. Numa comparação com Laclau e
Mouffe, a realização de uma democracia pluralista plena leva à sua “autorrefutação”. A solução ao que parece é
conduzir a sociedade a um estado de demandas constante (o que faz e diz Alinsky) --- (e) o que mais uma vez parece
que tende a formar um establishment (que não se diz, mas subentende sem maiores explicações ser) capaz de manter
a pluralidade sem permitir mais que qualquer demanda “conservadora” (s.l.) se estabeleça.
44 Não é difícil perceber que esse processo de formação do poder por parte de um ativista é mutatis mudandis ainda o
mesmo quando as forças que ele representa tomam o poder. As mesmas demandas continuam indo à carga, quase
com as mesmas técnicas, pois o ativista no poder permanece um criador de demandas, de tal sorte a ampliar cada
vez mais esse poder, aproxima-se perigosamente da advertência (fingida?) que faz Alinsky contra as forças facciosas
dentro do movimento revolucionário como ocorreram na Rússia e na China. Tomando o governo Obama como
exemplo, a concentração de poder e a “contenção” da oposição sistemáticas mostra que as táticas de Alinsky
negligenciam o ponto cego do arranjo final futuro para onde convergem (na teoria) o trabalho dos ativistas tomados
como um todo. Em Laclau e Mouffe, esse futuro com fundamento na teoria marxista aparece ainda como o antigo

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

número de demandas possível, e de modo constante.

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TÁTICAS: A CRISTALIZAÇÃO DA MENTALIDADE
Táticas são os meios pelos quais você pode fazer com o que você tem frente a uma
situação dada45. A finalidade é tomar aos que não tem o poder dos que tem (conforme o que se
disse acima).
As regras de Alinsky tem impacto relacionado e proporcional aos sentidos. Olhos: se você
tem uma base popular organizada numerosa, “mostre” o seu poder. Ouvidos: se você tem
poucas pessoas, oculte o número delas e se faça ouvir como muitos mais. Nariz: se sua
organização é muito pequena, “suje” o lugar.
Alinsky nomeia as suas 13 regras táticas gerais para induzir a “mudança”:
Regra 1 Poder não é o que você tem, mas o que o seu inimigo pensa que você tem. Em
outras palavras, o poder é exercido derivando do poder real, perante o qual
se obtém algo para manejar.

Regra 2 Nunca saia da experiência do seu pessoal [para se comunicar bem com eles].

Regra 3 Sempre que possível leve seu adversário a experimentar ações que o desloquem de
sua experiência normal.

Regra 4 Faça seu adversário seguir sua próprio manual de regras. Ele será tão capaz de
fazer isso quanto um cristão é capaz de não pecar. (Acuse-o de ter
falhado!)

Regra 5 O ridículo é a arma mais poderosa do homem. Enfurecer o adversário é o ideal


para agir com vantagem.

Regra 6 Uma boa tática é aquela da qual o seu pessoal se agrada (na ação).

Regra 7 Uma tática que se arrasta [sem efeitos] por muito tempo torna-se enfadonha e
causa constrangimento ao seu pessoal.

Regra 8 Mantenha a pressão sempre --- utilize todos os eventos do período para seu
propósito com ações e táticas diferentes. A pressão é um elemento de
dissolução de padrões estabelecidos, pode agir quebrando padrões

resquício teleológico que prevê a simplificação progressiva da sociedade capitalista a uma sociedade sem classes.
Laclau, no entanto, defende a possibilidade de que a dialética materialista, uma vez tendo se mostrado falsa, pudesse
ser reinterpretada como o efeito do esforço pela “hegemonia”, sem que com isso se devesse esperar alcançar uma
unidade completa onde os antagonismos já não existissem --- o que, em Alinsky, tende a formar um establishment
revolucionário. Quer dizer que o silêncio no esforço pelas mudanças e pela reforma, em Alinsky, e pela hegemonia
em Laclau, encaminham-se exatamente para aquele quadrado redondo de que fala Olavo quando se trata de observar
no que dá a passagem do socialismo como teoria para o socialismo como poder de fato.
45 Há uma nota em Laclau e Moufee que faz uma distinção importante sobre a diferença entre “estratégia” e “tática”
que parece adequada a Alinsky. Enquanto o termo “estratégia” na definição citada por Laclau, de Michel de Certeau
(1980), indica “escolhas racionais”, uma vez que os interesses são claro e evidentes em um “ambiente” de escolha
(empresas, cidades, instituições científicas) com identidade formada, o termo “tática”, por sua vez, refere-se a um
“cálculo que não pode ser feito sobre alguma coisa de si mesmo, nem portanto sobre uma fronteira distinguindo o
outro como uma totalidade visível” (p. 4422). O sentido de tática, dado por Certeau, não é outro em Alinsky,
enquanto reconhece na situação algo dinâmico e fora de uma cálculo preciso.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

habituais, racionalizações ou mesmo com a burocracia.

Regra 9 A ameaça é normalmente mais terrível que a coisa em si.

Regra 10 A premissa maior das táticas é o desenvolvimento de operações que manterão


pressão constante sobre a oposição. É fundamental perceber que a ação sobre a
reação da oposição é essencial para o sucesso de uma operação. E não
esquecer que não é apenas isto, mas que a ação é em si a consequência da
reação e da reação sobre a reação ad infinitum. A pressão cria a reação que
é explorada pela ação e a mantém.

Regra 11 Uma situação muito negativa pode se tornar no seu contrário. Cada positivo tem
seu aspecto negativo que pode ser explorado. Não é raro se observar uma
situação negativa sugerir uma ação positiva, como ocorreu no
desenvolvimento da tática da “resistência passiva” de Gandhi sob o jugo
inglês, ou o racismo em relação ao apelo tático que ele forneceu na luta
pelos direitos civis.

Regra 12 O preço de um ataque que obtém sucesso é uma alternativa construtiva. Um


ativista não pode ser surpreendido aceitarem suas demanda de repente e
ouvir “E então, é com você agora”.

Regra 13 Escolha o seu alvo, fixe, personalize e polarize. Evite demandas muito genéricas.
Numa sociedade complexa, em ambientes urbanos fica cada vez mais
difícil encontrar o inimigo. As responsabilidades dos que detém o poder
estão divididas de modo que as desculpas são diversas e dispersam a ação e
impedem a fixação de alvos claros.

Quando você não tem poder para começar um conflito, um dos critérios para marcar seu
alvo decorre da vulnerabilidade do alvo: “onde” você tem poder suficiente para começar?
Alinsky descreve alguns casos, bem resumidos ao que interessa:
O ridículo, a experiência desconcertante e o fator inesperado estão num exemplo
hipotético, que visava chamar atenção e constranger. Tomemos cem assentos de um teatro
onde haveria uma apresentação de música clássica, com cem negros de bairros pobres bem
alimentados horas antes apenas com feijões cozidos. Num momento mais calmo da música, o
inesperado: uma massa flatulenta produziria o ruído ridículo, odorizando o ar para pasmo
espanto de todos. O temor após uma destas experiência, de reincidência, seria uma arma,
criaria margem de manobra pelo receio, pelo ridículo incrível e constrangedor.
No aeroporto, certa vez, demandas ganharam atenção quando em momento de
desembarque uma equipe preparadamente próxima aos banheiros ocupou todos os assentos e,
com isso interditara uma massa de pessoas mais necessitada, criando uma enorme confusão. A
gerência do aeroporto tornou-se mais sensível a ouvi-los depois disso, e com repercussão
nacional.
Os alunos de uma universidade estavam impedidos de qualquer tipo de festa, bebidas,
cigarros e outras limitações em uma universidade, isto é, estavam quase sem poder fazer nada
além dos estudos em grupos e, mascar chicletes. Eis o que eles tinham! Alinsky sugere que
uma duas caixas de chicletes seriam o suficiente; mascá-los em grupo e aos poucos ir

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

espalhando-os sobre as escadarias e principais passeios internos da universidade. Coisa que


não se deve subestimar, aparentemente o tráfego de pedestres sofreu um grave revés e gerou o
apatetamento dos responsáveis. O resultado foi uma liberação um tanto cômica para todas as
reivindicações dos estudantes, exceto, é claro, mascar chicletes.
A lei universal de que o negativo pode se tornar positivo está melhor em outro exemplo.
Quando moradores de um local mau cuidado são colocados dentro de um ônibus e deslocados
até a vizinhança do dono dos apartamentos, onde eles levam cartazes dizendo: “Você sabe que
seu vizinho, o Sr. João é dono de um cortiço?” os vizinhos, pensando apenas em si mesmos e
no incômodo que estão passando logo tratam de ligar ao Sr. João e adverti-lo que se aquelas
pessoas não saíssem da frente de suas casas, ele é que teria de mudar-se.
A pressão exercida pela massa, o que lhes deu um poder positivo, foi o aspecto negativo do
racismo que exclui em uma sociedade de brancos.
O establishment deve saber não apenas que você tem poder para fazer o que ameaça, mas
ter a certeza de que o irá fazê-lo, se necessário. É necessário que essa comunicação seja feita
por fontes confiáveis ao establishment. Uma organização deve dispor destas fontes.
As táticas em Alinsky são produto da cristalização da sua mentalidade, reflexos da
dinâmica interna dessa mentalidade e de seu conjunto de premissas que se cristaliza como um
modus operandi. São, ou querem ser, essencialmente regras gerais para a aplicação na situação
concreta em sua dinâmica e imprevisibilidade naturais. “Uma vez que estas regras e princípios
tenham infectado sua imaginação”, diz Alinsky, “esta crescerá à síntese [quando confrontado com a
necessidade concreta da situação real dinâmica]”.
*
AMEAÇAR COM O CONCORRENTE
É possível usar táticas indiretas, como usar a competição entre duas empresas, vizinhos ou
quem quer que esteja sob certa competição para adquirir algum poder no entremeio dessa
relação. Alinsky conta que no uso desses interesses, chegou a dizer, certa vez, confiar poder
persuadir um milionário na Sexta a subsidiar uma revolução no Sábado, quando ele teria
grande lucro, mesmo que ele pudesse estar certo de que seria executado no Domingo 46.
As tentativas que ignoram estas regras de poder geralmente falham. Certa vez um grupo
que lutava pelos direitos civis tentou fazer um boicote ao comércio no período de natal,
46 A respeito disso Alinsky parece mostrar que sabe que está diante de um “poder” identificado com a eficiência para o
lucro que Olavo comentou no True Outspeak de 15 de dezembro de 2010 (41:50):
“No século 19, entrou nas discussões morais um modo de raciocínio que é característico da economia, o
raciocínio “custo-benefício”, a partir da escola utilitarista, Jeremy Bentham, etc.. [A partir daí tornou-se
comum] essa ideia, de que a moral tem que render, tem que simplificar a sociedade, sobretudo, simplificar a
administração estatal. Então aquilo que facilita a administração estatal passa a ser considerado moral. O que é
conveniente para a administração, aquilo que aplana o caminho, é moral; e o que atrapalha é imoral. Então a
partir do momento em que entrou o cálculo econômico, a moral passa a ser um setor da economia. Ela perde
toda a autonomia; a moral não é mais nada. Esse processo, um sociólogo americano, Ralph Fevre, denominou
de “a desmoralização da sociedade”.
O contraponto socialista a esse tipo de liberal, que é Jeremy Bentham (1748-1832), é Thomas Davidson (1840-
1900), co-fundador da The Fellowship of the New Life, de onde desmembrou-se a Fabian Society, o qual assumia
que a economia era um ramo da ética e não uma ciência; mas o socialismo ético-espiritual de Davidson também
ligava sua ideia de ética às reformas sociais como dever sob o qual estava subordinada a economia. Bentham era
ainda publicamente um radical adicto das ideias que resultam nas políticas assistencialistas. É conhecido por sua
defesa do utilitarismo e do tratamento ético para os animais e da ideia do panopticon; defendia também a liberdade
econômica, a usura, a separação entre igreja e estado, o fim das punições físicas, inclusive às crianças, a liberdade de
expressão, o fim da pena de morte, direitos iguais para homens e mulheres, o divórcio e a descriminalização dos atos
homossexuais; acrediatava nos direitos civis individuais, mas chamou os direitos naturais “nonsense sobre pernas de
pau”.

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querendo atingir todas as lojas de departamento, e foi um retumbante fracasso. Todo ataque
contra o status quo precisa usar o poder do adversário contra ele mesmo. Tivessem os ativistas
se limitado a alguns setores do comércio, teria mexido com os brios deles que veriam seus
clientes repentinamente cruzarem a rua para ir comprar em outra loja. (Mais uma vez é
importante observar que se esta tática variasse de loja de um dia para outro, criaria o mais
eficiente: o medo dos ataques).
Mesmo quando há uma pequena afinidade das pessoas para com estes movimentos,
mesmo a menor parte pode ser explorada. A manobra calculada do poder de uma parte dos
Que-Têm contra outra parte dos mesmos é central à estratégia. Em certo sentido, diz Alinsky, é
similar às nações pobres alinhadas com os Estados Unidos contra a URSS.
*
A ANTINOMIA DO PODER47
A tática básica dos pobres contra os ricos é um jujitsu político, no qual os pobres não tem
que resistir ao poder dos ricos, mas calcular para ganhar de modo planejado e hábil para fazer a
força superior dos ricos uma arma contra eles mesmos. Táticas terminais como boicotes, sem
que provoquem a reação dos que detém o poder, fará apenas uma ondulação que se extinguirá
em seguida. Sem provocar reação, uma tática não consegue sustentar o conflito.
Um dos pontos fracos que surge exatamente da contradição da estrutura do poder é a força
mesma desse poder enquanto se constitui em um conjunto de regras próprias aos que detém o
poder. Assim, a primeira coisa é fazê-lo viver sob as suas regras, especialmente naqueles pontos
onde eles fazem proselitismo.
Podem surgir contradições para quem detém o poder entre mantê-lo e exercê-lo quando
este tem que agir. As perdas políticas de exercê-lo podem por em risco à manutenção ou à
legitimidade do poder. Quando certa vez o boicote de ativistas e líderes locais pelos direitos
civis dos negros arriscou causar a prisão de um número grande de pessoas, e muitos dos
próprios líderes, o custo político de cumprir a lei fez as autoridades hesitaram, pois a uma
ordem que impedia os protestos criara a necessidade de ser cumprida caso os protestos
ocorressem. Ao relaxarem cumpri-la, ouviram dos ativistas todo tipo de bazófia e desafio
porque eles próprios agora descumpriam a lei e deveriam ser, eles mesmos, presos.
As autoridades ficaram apatetadas, recuaram confusas, no que foi um tremendo aumento
das forças da organização no caso.
*
APERFEIÇOAMENTO NO ISOLAMENTO
A prisão tem uma função essencial a um movimento revolucionário. É o equivalente para
um ativista a “retirar-se para deserto”. São tempos prolíficos. Acumula-se e organiza-se força
retirada do poder dos poderosos: 1) [ser preso] é a marca que determina uma linha divisória
entre quem tem o poder e os quem não o tem; 2) cria uma aura de martírio às pessoas em
torno de seus líderes; 3) produz comoção e fé no líder que se sacrifica. O risco maior são
prisões muito demoradas e o esquecimento decorrente. Mas a detenção eventual é, sem
dúvida, mais benéfica do que gostariam as autoridades.
É essencial também no momento em que a ação do trabalho realizado por um ativista
arrisca se tornar sua escravidão; é então quando se tem tempo para meditar sobre as reações
47 Quando você diz algo e “se” nega (em parte) pelo que deixa implicado ao dizê-lo, ou que aparente contradizê-lo em
qualquer ponto de vista que se possa exporar nesse sentido, o que na ação humana pode ser a mera opção que se
deixou de tomar justamente porque se exerceu algum poder de escolha: como ocorre em relação ao poder: possuir o
poder deixa implicado a “fraqueza” de ter de exercê-lo, e uma fraqueza, nestes casos, torna-se a força do outro.

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dos adversários e sobre a sua própria organização. E só o isolamento não voluntário é que pode
dar essa introspecção eficiente. É sempre de onde vem o melhor dos profetas mais prolíficos,
quando retornam do isolamento, quando então alcançam o melhor resultado com a nova
propaganda de sua filosofia.
*
SINCRONIA
Tempo, ou sincronia, é um ponto fundamental de uma organização ativista. Não é
permitido o erro de se delongar na atividade mais tempo do que o estrito necessário. O tempo
é inimigo. A monotonia, a repetição, o cansaço deterioram a ação.
A ação não pode continuar apenas com uma demanda. A organização de uma atividade
deve ter várias demandas as quais possa manter a sua atividade; isso pode significar que a meta
original demandada pode não ser aquela que, uma vez atendida, encerre o ativismo. Essa
evolução durante as ações pode mudar e geralmente muda, para não arrefecer.
*
CAUSAR “BUGS” NO SISTEMA
Os meios de atacar um poderoso poder ser sua associação com outros poderosos, como já
falamos. Os bancos são alvos especialmente interessantes. Imagine uma centena de pessoas ou
mais abrindo contas de $5 e $10 dólares, passando 30 min preenchendo papéis, as atividades
do banco podem ser fortemente abaladas enquanto estão sobrecarregados. É claro que as
contas são apenas uma demanda artificial para um trabalho de desgaste. A polícia não pode
fazer nada nesse caso. Outro desfecho poderia produzir uma grande agitação na frente do
banco, se o banco fizesse que uma massa tão grande de pessoas saíssem, o que poderia ter
resultados publicitários negativos.
As pessoas poderiam voltar em poucos dias e cancelar suas contas, e então voltar a abri-
las. A ocupação de espaços dentro de prédios privados é um dos meio mais eficiente para os fins
de um ativista.
Imagine um grupo grande de negros chegando em uma loja de departamentos --- mesmo
os mais liberais se constrangem quando um movimento tão grande já lhes dá a sensação de
estarem em um mercado em plena áfrica. Um sistema de ocupação que se segue a um artifício
semelhante ao dos bancos. Uma infinidade de compras-embuste que serão em seguida
canceladas, ali mesmo ou no cartão de crédito, causam uma confusão tremenda, perda de
tempo e dinheiro e afastam os clientes verdadeiros.
O maior trabalho de um ativista é ser capaz de desenvolver instantaneamente a
racionalidade da ação, e com isso um sentido e um propósito para a ação.

8
TÁTICA POR PROCURAÇÃO
A maior dificuldade sempre foi fazer entender o conceito de que tática não é um plano de
ações pré-definido48. O acidente e as reações impredizíveis ante nossas ações, necessidade e
improvisação, ditam a natureza e o andamento da tática. Um ativista não pode jamais sentir-se
perdido, porque ele não tem um plano para se desviar dele.
Alinsky passa então a descrever o interesse de alguns grupos de estudantes que aderiram,
para alcançar maior força, à tática por procuração [proxy tactic], reivindicando que as

48 V. nota 45 a definição de Michel de Certeau para “tática” em Laclau.

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administrações de suas escolas deveriam dar procuração a comitês de estudantes para que eles
representassem [com o peso institucional e democraticamente delegado] pela paz, contra a
poluição, inflação, discriminação racial e outros males.
Mas uma das maiores dificuldades era fazê-los perceber que era a efetividade e não a mera
manifestação que tornava as organizações fortes. Alinsky nota que a incapacidade para a
flexibilidade necessária à ação era dificultada pelo modelo existente no sistema de ensino
americano, estruturado muito sobre sistemas lógicos de decisão para produzir uma
racionalização dos procedimentos. Essa racionalização é especialmente problemática quando
ela se transforma em meios dóceis de reivindicação, como cartazes e bandeiras, sem real
efetividade.
É preciso articular a contingência da reação do adversário na situação concreta que não se
pode mudar (i.e., ao ponto de partida realista), ao acidentes, à “imaginação” --- que é
“sensibilidade tática”. As explicações que possam surgir para justificar as táticas no passado
são apenas racionalizações que então, e não antes, dão suporte àquela ação. Esse tipo de
história coerente é apenas o mito cristalizado de um hábito que então se pergunta por sentido.
A demanda em si mesma, portanto, tem valor apenas relativo em função dessa necessidade
de flexibilidade. Quando a tática por procuração surgiu, em Rochester nos anos 60, a
comunidade negra se organizara sob uma comunidade chamada FIGHT, contra a Eastman
Kodak; a demanda pleiteada foi menos importante que o reconhecimento pela Kodak da
organização como representante da comunidade negra em Rochester. Após isto, outras
empresas fizeram o mesmo. Uma vez isto estabelecido, o quadro todo da tática mudou e abria
novas possibilidades a demandar. Mas a situação não se definira ainda nesse momento, porque
o vice-presidente da Kodak foi questionado em sua decisão.
A tática por procuração abre novos espaços de atuação para uma organização, desde que a
insere como interlocutor legítimo perante os acionistas de empresas ou do pessoal do governo.
Não há nada previamente pensado para a ação; o que importa é conseguir que as pessoas
tenham peso como representação, seja de suas comunidades, bairros, grupos civis, religiosos
ou não, e que se alinhem para exercer juntos o poder que têm.
Não existe nenhum plano prévio, nenhuma campanha maquiavélica organizada. São as
possibilidades abertas quando se tem com o que jogar, que dão, sem ser de modo nenhum
previsíveis, a ordem das coisas num dado momento, numa dada situação. O uso de
procurações para exercer poder sobre as grandes corporações, mediado esse poder pela classe
média de acionistas que possam ser sensibilizados pelas causas que Alinsky as apresenta,
mostraram-se capazes de perturbar seriamente o establishment. As possibilidades para o uso da
representação por procuração, uma vez alcançada, eram imprevisíveis e tremendamente
promissoras.
Acusado49 de ver as coisas apenas em termos de poder ao invés do bom senso e da razão,
Alinsky replica estar a espera de que assim, de fato, se comportassem as empresas, ao invés do
modo como impiedosamente observara se tratarem mutuamente.
A questão então voltava a ser como organizar a classe média para exercer esse poder. É aí
que Alinsky, sem ter uma resposta, conjurava50: “Acidente, acidente, onde diabos está você?” (p.
177). Alinsky recebe então várias cartas após aparecer numa entrevista no Los Angeles Times, as
quais fizeram-no perceber que os acionistas eram pessoas da classe média que só raramente
estavam envolvidas com o processo de decisão do qual faziam parte nominalmente. A
possibilidade de mobilizar estas pessoas era uma arma poderosa cheia de possibilidades.
49 O mesmo que Jean Bodin, como descreve Olavo, atribui a Maquiavel: “espírito levissimus et nequíssimus”.
50 “Conjurar”, propositadamente, para lembrando o assunto como está no estudo de Olavo sobre Maquiavel.

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

O consentimento de chegar a representação destas pessoas, as quais poderiam ser


sensibilizadas pelos apelos, através de procurações, era o objetivo imediato. Esta era uma
forma da classe média se organizar. Alinsky entende mesmo que a organização da sociedade
por procuração faz uma ponte sobre o “gap” entre gerações, alinhando-as no esforço contra o
Pentágono e contra as grandes corporações. Uma organização com esse poder, que tiver
alcance nacional, poderia organizar uma representação paralela das demandas das
comunidades suburbanas e encetar tudo mais que possa representar uma atividade contra o
status quo. Podem ser formados grupos de estudo sobre as políticas das corporações; pode ser
feita a indicação de representantes seus para os conselhos regulatórios nacionais que
determinas as metas [comuns] às empresas.
As universidades podem ser áreas especialmente sensíveis ao uso da pressão feita pela
representação por procuração, uma vez que o percentual de ações existentes representadas por
estas aparecem amiúde a favor da administração das empresas que são muito seu sustento,
enquanto o alunado na maioria se opunha a uma adesão destas administrações. Pouco se fala
sobre um “curriculum escolar relevante”, no qual deveria haver pesquisa sobre as políticas das
grandes corporações. Estas são as fontes da miséria espiritual e um risco real para a sociedade
livre.
O sentido final da tática por procuração é o de uma verdadeira revolução. É a
possibilidade que ela abre, por esse tipo de representação paralela poder significar a
democratização das grandes corporações, com efeitos mesmo sobre a política externa americana.
É o passo mais promissor na revolução de nossos tempos [desde baixo], diz Alinsky.

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TENTAR A ALMA DO HOMEM
A organização da classe média “silenciosa” para a ação é o próximo campo de ação.
Demoramos para perceber que mesmo quando todas as classes com renda mais baixa se
reúnem, ainda assim são, em si, pouco capazes de produzir modificações significativas. É
preciso fazer o que todas as organizações menores devem fazer, das pequenas nações aos
sindicatos, partidos políticos, qualquer um pequeno: buscar aliados. E os únicos que podem
fazer isto junto aos mais pobres da América são os movimentos organizados da classe média.
Com raras exceções, ativistas e radicais têm lutado sempre contra a degradação da
sociedade, especialmente encarnada na classe média, a burguesia materialista e brutalizada.
Não importa, é nela que se deve encontrar a aliança mais promissora. A maioria deles luta a
vida inteira para manter seu nível de vida, comprometidos com valores tais como sucesso,
segurança, ter sua própria casa, carro, aparelho de TV, e a maioria sonha sonhos que não se
cumprem. São pessoas temerosas, ameaçadas de vários modos: a espera de suas
aposentadorias, com o Seguro Social degradado pela inflação, à sombra do desemprego,
perturbadas pelo conflito racial, enquanto veem os centros urbanos se degradando aos poucos
em lugares piores, com o custo final de uma doença. Vitimizados pelos comerciais de TV por
comida, remédios, etc., contentam-se com uma vida apequenada e monótona nos subúrbios,
com um pequeno jardim nos fundos de casa. Essa parte da classe média vê os desempregados
como parasitas dependentes, assistidos por uma vasta gama de uma grande massa de serviços
públicos pagos por eles. Veem os pobres indo às universidades com a dispensa dos pré-
requisitos básicos, enquanto permanecem sobrecarregados sem alívio; e ouvem ultrajados os
pobres demandando seus “direitos” (p. 188).
Alinsky vê nesse processo de ressentimento o motor do reacionarismo que leva à defesa da
fé na “América” --- mera racionalização de suas frustrações. Haverá resistência da classe

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Resumos NEE || Rules for Radicals (1972) || Saul Alinsky

média, mas sempre também parte dela será sensível a ouvir e se deixar persuadir a pelo menos
abster-se de uma oposição real enquanto as mudanças tomam forma. Estes tem o seu papel, no
prelúdio da reforma, na aceitação de que o passado já não tem nada a oferecer e que agora
devemos ir em frente, “aonde vamos talvez possa não ser definido ou preciso, mas precisamos ir”.
O povo precisar ser “reformado”, para isso ele não pode tender a escapar da amargura e
do ressentimento para a mera sobrevivência. Estas emoções então podem levar a um ou outro:
ao totalitarismo da extrema-direita, ou então, à IIª Revolução Americana. À apatia ou à pôr-se
em marcha: o tempo é agora. A apatia da classe média a mergulha em um mundo privado, em
uma forma de esquizofrenia social. É uma questão de sanidade. A poluição do mundo
industrial e as políticas externas do Pentágono são equivalentes no que representam como
ameaças ao futuro, pois são indistinguíveis a produção infame de armas químicas, numa
quantidade que não se tem nunca onde dispô-las, e os contratos com a indústria para a guerra.
“A classe média está entorpecida, apatetada, temendo em silêncio”. É preciso reuni-la, identificar
suas demandas, encontrar áreas de interesse comum e excitá-la a imaginação, encontrando as
táticas para apresentá-la a aventura que a tire de sua vidinha monótona. As táticas devem
começar dentro da experiência da classe média, aceitando sua aversão à rudeza, à vulgaridade
e ao conflito.
A associação entre governo e empresas privadas há muito confundiu os limites entre o que
é público e o que é privado; cada americano está envolvido nessa mescla. O esforço por aquela
neutralidade polida tem que ter fim. As corporações não podem mais se evadir do assunto; sua
sobrevivência depende disto. Este problema é do interesse destas corporações agora tanto
quanto o lucro. Se essa força por lucro for dirigida para o “progresso”, então temos uma nova
fase do jogo.
O clamor por uma segunda revolução é uma busca por sentido, por um motivo para viver e
para morrer. É o mais relevante para a segunda parte da revolução americana: literalmente,
uma revolução da alma do homem. Esquecemos de onde viemos, onde estamos e tememos para
onde estaríamos indo. Não podemos, o que seria o pior, perder de vista este sonho.
Alinsky conclui, conjurando:
“Temos que acreditar que isto é a escuridão antes da aurora de um mundo novo mais
belo [a beautiful new world]; nós o veremos quando acreditarmos nele”.

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