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A construção social de uma nova agricultura

Tecnologia agrícola e movimentos sociais no sul do Brasil

l Editora

Jda Universidade

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Jalcione Almeida

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Capítulo 3

Ações coletivas e a constituição do social

A "DESSOCIALIZAÇÂO" DO SOCIAL

Vivemos um momento da vida social em que os atores sociais parecem perder a capacidade de se perceber em um sistema de relações sociais. O "caráter global" da sociedade parece secristali- zar, o mesmo acontecendo com os conflitos que serviam para de- senhar sua unidade. O movimento operário e sindical encontra- se em sérias dificuldades para imprimir uma direção e definir um quadro de significações, um modelo de compreensão graças ao qual o modelo cultural possa aproximar-se do modo de conheci- mento (Touraine, 1973; Martuccelli, 1991). Sem pontos de refe- rência quanto à ação, o social torna-se opaco e submisso ao movi- mento de sinais, no qual os atores têm dificuldades para recons- truir o sentido de suas ações. Seguidamente, inclusive, mesmo que não manifeste um conflito, o social parece a expressão de uma agonia na sua aspiração em reencontrar sua integração, uma ex- plosão de manifestações de minorias que mais ninguém segura e que a tudo parece se opor. Do ponto de vista sociológico, para alguns teóricos essa frag- mentação configura o esgotamento de uma certa concepção do social. Para outros, no entanto, o que se assiste é nada menos, nada mais, que um fenómeno de "dessocialização".Já do ponto de vista cultural, esse período é visto, preferencialmente, através da ima- gem do vazio (Barel, 1984; Baudrillard, 1982). ,:

A hipótese de natureza histórica da "dessocialização" encon- tra-se associada à incapacidade dos atores em criar um espaço para

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as suas relações. Essa concepção é próxima daquela de Polanyi

(1983), guardando relação com as ideias que fizeram surgir o li-

do início do século 20, através

do fenómeno marcante que é o "mercado regulador". Até então secundário e subordinado à sociedade, o mercado adquire pro- gressivamente sua autonomia; os fenómenos económicos distan- ciam-se do social, constituindo um sistema próprio: é um proces-

so que Polanyi chama de "dessocialização da economia". Essa distorção da economia situa-se na base da crise do libe- ralismo. A ideia central do "sistema de mercado auto-regulador",

que pensa todos os fundamentos da civilização, foi estendidaa todas

as esferas da vida social. Conseqúentemente, vai se constituir uma "sociedade de mercado" em que a economia se tornará dela de- pendente e não mais do social.

O surgimento da ideia de mercado conduziu à mercantilização

da vida, tentando dotar o mundo social de uma ordem intelectual.

O mercado passa a ocupar o lugar deixado vago pela tradição, assu-

mindo a função de guia da ação dos homens. E mais,o mercado, além de seu caráter impessoal, passa a estimular a igualdade democrática graças à instauração da suposta e propalada "igualdade de oportu- nidades". Mas, antes de tudo, a ideia de mercado contrapõe-se a toda autoridade central planificadora e, pela influência decrescente da tra-

dição, vai reintroduzir, através da ideia de auto-regulação do social, a harmonia lá onde parecia existir somente a desordem e o perigo de desagregação social. Essa nova ordem que impôs o mercado tem a seguinte significação: o económico é o espaço no qual serealiza a har- monia social, e em que o mercado é a compreensão económica da vida social e política (Martuccelli, 1991). Ó mercado toma-se um verdadeiro sistema de representação que comanda a ação e a visão dos fatos sociais (Rosanvallon, 1989); ele assume a autonomia dos indivíduos através da despersonalização das relações sociais.

A "dessocialização" supõe a dissolução da ideia de projeto

social, ou seja, suprime toda a vontade de orientação mais ou menos consciente dos fenómenos económicos, visto que todaintervenção, por mais local que possa ser, traduz-se por uma desregulação do conjunto. As tentativas de socialização exprimem uma grande

utopia das ações coletivas e uma vontade de produção de novas relações sociais, anunciando, de maneira mais ou menos explíci- ta, a possibilidade de constituição de uma sociedade munida de um projeto social global e opondo-se à ideia de "dessocialização".

beralismo económico na Inglaterra

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Quando se encontram confrontados com o fenómeno da deso- cialização, certos atores tendem a produzir, pelo viés de suas ações e em situações determinadas, novos referenciais suscetíveis de dar um (novo) sentido ao social. É dessa maneira, por exemplo, que se cons- tituiu historicamente o movimento operário. Desde o início da Revo- lução Industrial os trabalhadores, centrados na comunidade e nos valores tradicionais, encontraram a força espiritual para se opor à industrialização, transformando, pouco a pouco, um protesto de dimensões morais em uma cultura política de classe baseada na eco- nomia política da exploração. Assim, o movimentooperário acabou por afirmar um novo modelo de conceitualizaçãodo social: este, no lugar de ser o resultado de relações de submissão pessoal e de equilí- brios instáveis e impessoais, toma-se um espaço de regulação, uma forma de "conceitualização" das relações sociais pelo conflito. Com o tempo, o movimento operário vai perdendo pouco a pouco sua vitalidade,deixando, então, se instalai' uma crise: a utopia pregada se enfraquece e as formas de solidariedade se estiolam.As expressões e manifestaçõessociais atuais parecem, de novo, indicar a entrada no mundo da anomia (Durkheim, 1982), da desintegração social, da fragilidade das relações entre indivíduose coletividades. O mercado, por sua vez, retoma seu lugar com força e significação re- novadas. Nessestempos difíceis, as ideias neoliberais parecem querer progredir e ganhar espaços anteriormente inimagináveis, em parti- cular em certos países periféricos. A ausência de compreensão social da sociedade por parte dos atores encontra-se reforçada pela diferen- ça/distância que se estabelece entre as organizações sociais, o econó- mico e o Estado e, de maneira mais específica, entre as formas insti- tucionais e as expressões autónomas do social. Se se pudesse generalizar o que precede, parafraseando Mar- tuccelli (1991), diríamos que, hoje, o social seria uma distorção e um obstáculo à expressão real dos atores. Ele parece assumir sua autonomia em relação ao político e mesmo, às vezes, romper com o económico, sem, no entanto, encontrar uma forma de expres- são adequada.54 Offe (1988), por exemplo, diz que, nesse contexto, a diferenciação funcional entre "habitantes" e "cidadãos" foi mui- to longe e essa é a razão pela qual os movimentos sociais se esfor-

54 A crise de representatividade dos partidos políticos e de certas organizações políticas institucionalizadasparece constituir o exemplo mais perceptível dessa manifestação nos dias atuais.

121

I

çam para restabelecer uma relação entre atividade social e a mani- festação da vontade política. Para esse autor, da mesma forma que para Habermas (1987), os movimentossociais, e especialmenteos "novos", são, antes de tudo, respostas às provocações externas, como no caso da invasão do Estado e da economia nas esferas privadas.

A esfera política cessa de institucionalizar os conflitos sociais exis-

tentes e chega mesmo, algumas vezes, a lhes abafar ou a lhes ex- cluir do debate social. Ao mesmo tempo, e em razão disso, come- çam a surgir outras organizações de representação de interesses que buscam, com maior ou menor sucesso, se situar fora do siste- ma político institucionalizado. O neocorporativismo, as ONGs e

os novos movimentos sociais são exemplos significativos. Um fenómeno similar produz-se, então, na economia: uma

zona escura económica se estende sobre o mercado controlado pela ação do Estado e pelas grandes e médias empresas públicas ou pri-

(ainda que fracas) de pro-

teção contra as desigualdades económicas e sociais, observa-se o aparecimento de novas formas de desocialização. À crise dos meca- nismos de regulação política e organizacional, devido em particu- lar à tecnoburocracia, acrescentam-se os automatismos do merca- do, a ascensão do neoliberalismo, o recurso à pequena empresa, o

alargamento da economia subterrânea, etc. Do ponto de vista soci- al, essa recomposição reforça um certo dualismo, ou seja, a divisão da sociedade em dois setores bem demarcados, com limites de se- gurança económica e de estabilidade política muito diferentes. Uma fratura acontece, por exemplo, entre os detentores de um empre- go e aqueles que dele são privados; entre os que possuem terras e aqueles que não a possuem em área suficiente para alimentar a si e a sua família; em suma, entre aqueles que são integrados e os que foram socialmente marginalizados. Esse dualismo na realidade de- fine uma divisão bem clara, um limite que determina a concepção de cidadania e a participação/integração social. Se levada às últimas consequências, nessa abordagem pode-se

encontrar as explicações para as ações de

de pi~otesto, as quais podem variar—quanto à sua operacionalidade —

do paroxismo à ineficiência.Por outro lado, assiste-se ao surgimento

de manifestações de renúncia, de apatia, de abandono da esfera pú- blica e de enclausuramento no espaço privado; ao individualismo seguido de perda da compreensão relacional da situaçãosocial na qual

se encontra certos grupos e indivíduos. Para aqueles atores que vêem

vadas. Paralelamente às tentativas estatais

violência, de indignação c

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ainda na sociedade moderna dual um campo de disputas reais, pelas quais devem lutar, para estes configura-se o espaço conflitual, de pro- testo e de reivindicação, em uma tentativa de "ressocialização" do social em geral e do económico em particular.Éesse amálgamaentre aqueles que são mais ou menos conscientes de sua situação social e os que se encontram alienados dessa mesma situação de exclusão que vai se constituir a condição primeira - e mais evidente - de caracterização de novas formas de conflitualidade; a inexpressividade do social de- vendo ser combatida pela busca de uma ou mais disputas reais e co- muns entre aqueles socialmente não-integrados. O mecanismo da dualidade é reforçado, de fato, por duas maneiras: de um lado, pelas diversas instituições encarregadas em introduzir a racionalidade no sistema económico, quer sejam aque- las ligadas diretamente ao Estado, as diferentes organizações para- estatais ou privadas, etc. Essas instituiçõessó fazem é reforçar a liga- ção/relação entre elas, deixando crescer a distância em relação ao mundo dos excluídos e dos marginalizados; de outro lado, pelas numerosas classes, categorias ou "subclasses" sociais,privadas de um engajamento social mais definido, que se enclausuram em um mundo privado, específico e restrito, paralelo àquele da sociedade "oficial". Nesse contexto, o dualismo toma-se um obstáculo a mais para a expressão do social, no qual os atores perdem todapossibili- dade de compreensão relacional de sua situação social (ou de to- mada de consciência de sua situação social, como preferem alguns). Existem, entretanto, os excluídos que tentam sair do enclau- suramento, ou, pelo menos, romper com as amarras que lhes con- finam na apatia, no marasmo e no determinismo.- Esses atores aca- bam por criar uma certa conflituosidade através de seu protesto e da contestação de sua situação social e economicamente marginal. Seu veredicto associa-se, invariavelmente, a uma constatação glo- bal idêntica: é preciso "alargar" a autonomia e o princípio de ci- dadania, considerar os excluídos como dotados de direitos civis, políticos e sociais, dar-lhes uma certa independência e a liberda- de de oportunidades. É assim que, à luz desse princípio, algumas das ações e reações estudadas parecem se orientar contra o mun- do dos números, da produção a qualquer preço, da dependência quase que total em relação ao mercado, de obsessão em um cresci- mento inexorável, do progresso não-crítico. Esses atores vão na direção de sua subjetivação e de suas práticas; em direção de uma sensibilidade em relação ao "melhor ser e viver".

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De uma maneira amplificada, dir-se-ia que a "dessocializaçao" estaria na base das lutas sociais associadas à modernidade e aosseus processos sociais e materiais. Essa ideia acaba por inscrever o social no político e no económico. Nesse espaço, o social é apreendido através dos reflexos do político e como resíduo do económico.

ATORES E AÇÕES COLETIVAS: A (RE)CONSTITUIÇÃO DO SOCIAL

Durante muito tempo no âmbito das ciências sociais a ação coletiva foi estudada dentro dos limites das concepções herdadas das filosofias da história. Desde então, fundou-se um dualismo

analítico de compreensão segundo o qual a ação coletivaéfrequen- temente tratada como sendo um efeito direto de crises e das con- tradições estruturais (funcionalismo), ou como a expressão de crenças e orientações comuns (marxismo). A importância é colo- cada em primeiro lugar no contexto socioeconômico e, em segun- do lugar, no papel da ideologia e dos valores. De acordo com essas perspectivas, os atores encontram-se, seguidamente, destituídos de significações concernentes às suas ações. Essas teorias não levam em consideração "todas" as dimensões do conflito na ação coleti- va, ou reduzem-nas facilmente a reações patológicas ou marginais.

O que nos interessa aqui é romper com esse dualismo a par-

tir de uma análise que leva em consideração as expressões (confli-

tuais ou não) manifestadas no próprio movimento de contestação na sociedade brasileira em geral e na agricultura em particular. Daí a intenção de colocar sob a lupa algumas expressões de con-

testação - seguidamente confundidas ou ignoradas -, tentando ressaltar suas nuances particulares, suas ambiguidades, suas leitu- ras do social. Essa perspectiva não se coloca numa ótica histórica de mudança ou de transformação, mas sim como linha de condu-

ta principal,

ções sociais que buscam "configurar" o social, no espaço mais ou

permitindo identificar as expressões e as manifesta-

menos restrito que constitui a agricultura no Brasil meridional.

O que aparece mais claramente no conjunto das (ré) ações e

lutas analisadas é que, nelas, os atores são temporários, revestindo de interesses mais ou menos específicos a sua participação, anun- ciando à sociedade que problemas fundamentais existem, que é preciso atacá-los e resolvê-los. Essas ações têm um certo caráter profético e se apresentam nesse sentido, como afirma Melluci

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(1980; 1985), como um veículo de comunicação. Os atores enga- jados nessas ações não lutam simplesmente só por objetivos mate- riais, económicos, ou, ainda, para ampliar sua paiticipação políti- ca no sistema social. Lutam, também, em busca de interesses e re- compensas simbólicas e culturais,por diferentes significações e ori- entações da ação social. Eles combatem por coisas suscetíveis de mudar a vida no cotidiano, hoje, no imediato, assim como por modificações mais gerais concernentes à sociedade.

OS MODOS DE LEITURA DO SOCIAL

A "leitura" constitui um elemento importante da ação coleti- va. É o momento em que os atores sociais tomam consciência (sim- bolicamente) da relação desigual e conflitual que estabelecem com um outro ator (ou um outro bem), que seja possível - ou não

de uma concepção social dessas tensões. A leitura é,

por conseguinte, uma constituição simbólico-cultural dosconflitos. Assim concebido, o social pode revestir diferentes modos de leitura: "de agregados", "essencialista" e o "relacional". Todos es- ses modos se inserem em uma trama interativa constitutiva da re- alidade humana, mesmo apresentando concepções fundamental- mente diferentes. Essasformas de leitura misturam-se entre si, po- dendo os atores passar de uma lógica à outra ou, ainda, incorpo- rar elementos de uma em outra para formar um quadro compó- sito. Não existem, portanto, paredes intransponíveis, nem recipi- entes herméticos nessa compreensão.

- a elaboração

A leitura social "de agregados" gira em torno da ideia geral de mercado, este apreendido como representação de aconteci- mentos humanos. Essa leitura do social está intimamente ligada à ideia (ou â tendência) de subordinar o trabalho individual ou coletivo à circulação de dinheiro, portanto, ao económico (a valo- rização social passa quase que exclusivamente pela realização e con- cretização dos espaços mercantis, da produção e do consumo). Nesse contexto, o mundo da produção, do consumo - o sistema económico - e o sistema político encontram-se separados, sob a forma de agregados, "dissociados" do ponto de vista social. O co- letivo foi quebrado. A partir daí, o mercado assume toda sua im- portância e aparece como o agente unificador do social, através da visão económica das coisas (disso advém, por conseguinte, a relação íntima entre as ações e a crise económica).

125

II

O mercado seconstitui, portanto, no "componente central"desse modo de leitura; uma leitura que visa antes de tudo ao resultado to- tal das ações e seu encadeamento, resultado esse que é o equivalente formal (no plano da ação coletiva) ao mercado como princípio de representação das atividades económicas. Enfim, no social a compo- sição das ações e seus efeitos não reguláveis/regulados anulam toda referência a um projeto de domínio dos acontecimentos. Quanto à leitura "essencialista" do social, elajá está ocorrendo em todos os lugares onde as identidades se definem pela influência da exclusão social e onde os atores se abrigam em torno de sua pró- pria autodefmição; onde os grupos, as comunidades ou "tribos" de- terminadas encontram-se no limite da ruptura e/ou da violência. A leitura essencialista está na origem da impotência de cer- tos atores em conceber perfeitamente os conflitos, o que os leva a escorregar para a tentação da ruptura ou do isolamento. Os con- flitos perdem, então, sua centralidade conceituai para entrar na lógica da gestão; dito de outra forma, os conflitos deslocam-se em direção aos "problemas". Essa é uma forma de leitura que, como será visto logo a seguir, ganha uma presença importante em uma série de condutas sociais. As ações decorrentes dessa interpretação do social tendem a "essencializar" os atores. Elas tendem a fazer apelo, na sua forma mais extrema, à identidade, à essência, a um inimigo ou à utopia total. Na maioria dos casos, a incapacidade em "conflitualizar" o social conduz os atores sociais à ruptura, à marginalidade e ao iso- lamento, circunscrevendo-os em um sistema de que recusam a acei- tar os princípios gerais e diretores. O individualismo e o comunitarismo constituem as expressões mais claras da leitura essencialista,"dessocializando" os atores sociais. É o "eu" que toma o lugar do social imperceptível, e os atores se diri- gem a identificações definidas através de formas múltiplas de engaja- mento social, a diferentes culturas, microssociedades, diferentes esti- los, modos e condições de vida, procurando, assim, dotarem-se de identidades mais estáveis, regulares e mais ou menos imutáveis. Inca- pazes de recriar uma imagem relacional do social, os atores se fecham em si mesmos, a fim de procurar (neles mesmos) o que não conse- guem obter externamente: uma identidade. Trata-se, seguidamente, para esses atores, de uma afirmação a partir de definiçõesou de con- cepções pré ou metassociais: a moral, as condições de trabalho e de existência e os princípios essencialistas, entre outros.

ii r>

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Quanto à leitura "relacional" do social, esta se apoia fortemen- te em três princípios fundamentais. Em primeiro lugar, há sem- pre uma causa e um efeito nas ações sociais, com as particularida- des próprias a cada domínio, mesmo considerando que a causali- dade é própria à racionalidade instrumental e científica. Nas ci- ências sociais, entretanto, são os atores e suas intencionalidades a causa, e o "quem" responde de uma certa maneira ao "porquê". O problema reside na concepção da intencionalidade. O segundo princípio de base desse tipo de leitura se resu- me na ideia de que a realidade social nunca é transparente; ao contrário, está, de uma certa forma, um pouco escondida aos olhos dos atores. Enfim, esse modo de leitura das práticas sociais surge com o enfraquecimento da sociedade tradicional; não se cansa de se in- terrogar sobre a maneira de conciliar o passado e a modernidade, o antigo e o novo, de integrar o social e de construir um "nós" coletivo. É assim que se constitui o terceiro pilar da leitura relaci- onal, graças à vontade de reconstrução de um centro de referên- cia no meio do desencantamento.55 De fato, o desencantamento está na origem da leitura relaci- onal na medida em que somente as relações racionais, e não as relações primárias, primitivas ou naturais, que são suscetíveis de obedecer a uma estruturação nos sistemasde relações sociais. Dito de outra forma, é preciso que os fatos sociais sejam concebidos como a expressão de uma vontade e que, por trás dos aconteci- mentos sociais, apareça a responsabilidade do Outro. Para Mar- tuccelli (1991), por exemplo, é preciso que se leve em conta a sobrecarga simbólica própria ao social, a denúncia das definições que o antagonismo impõe; em resumo, a certeza de que o social, por mais opaco que seja, se apresente à nossa visão sempre como o resultado de uma ação humana. Eis, portanto, de maneira resumida e um pouco esquemática, como o social, como conceitualização relacional de um complexo organizado de ações, encontra-se configurado por esses três modos distintos de leitura, ainda que apresentem diferenças consideráveis.

'• Na expressão de Weber

(1971).

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A LEITURA SOCIAL DE AGREGADOS E AS REAÇÕES DE ADAPTAÇÃO/INTEGRAÇÃO

Entre os atores sociaisque fazem uma leitura de agregados, são os argumentos económicos que dominam as cenas de reivindicação,

de protesto e de crítica. A condição social de marginalidade - e mesmo de exclusão —é vista, seguidamente, como consequência direta de uma desregulação do mercado e dos mecanismos e ins-

(in)viabilidade económi-

trumentos de controle estatais.A ideia de

ca (com todas as repercussões que pode ter) está, aliás, muito pre- sente nos discursos, e os atores que buscam centralizar as iniciativas

c

aspressões acabam por

exprimi-la muitoclaramente. Oargumento

e

a própria ideia de viabilidade - ou de inviabilidade - económica

tornam-se então princípios motores das reivindicações. O Estado, ao mesmo tempo em que aparece como um interlo- cutor privilegiado, é visto, também, como o principal alvo das pres- sões e críticas. É verdade que este, no caso brasileiro, não respon- deu aos interesses de certas categorias de agricultores como promo- tor da modernização na agricultura, em particular da pequena agricultura familiar. Essa posição do Estado conduziu os atores a assumir duas atitudes principais: uma, que condena o aparelho es- tatal assim como sua tecnocracia, acusando-os de sereminsensíveis,

discriminadores e elitistas; outra, que faz a crítica da sua lógica cen- tralizadora, chegando mesmo a descrevê-la como um vasto complô dirigido contra determinadas classes e categorias sociais. Tais tomadas de posição levam, de fato, os atores a defende- rem uma lógica dúbia de enfrentamento: ora centram-se na críti-

ca pura e simples, ora buscam reivindicar semjamais romper com

o ponto de tensão, o que os levaria a uma ruptura ou à desintegra-

ção total das formas e canais de reivindicação/manifestação. A pres- são política passa, quase sempre, pelos sistemas institucionalizados (assembleias, prefeituras, partidos, etc.). As alianças buscadas tendem a se constituir em torno de rei- vindicações gerais concernentes a preços, crédito e mecanismos de comercialização, reunindo, por vezes, um contingente social mui- to heterogéneo que se agrupa na categoria genérica de "produto- res agrícolas". Estando dadas as dificuldades que encontra o Estado para responder às reivindicações na sua totalidade, como também o fosso que não cessa de aumentar entre aqueles que se encontram

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em dificuldades e os que ainda conseguem - mesmo que parcial- mente - modernizar osseus meios de produção, a ação tomauma nova direção, experimentando novos processos de trabalho susce- tíveis de corresponder às necessidades e aos obstáculos que encon- tram os produtores em questão. E assim que começam a surgir as ideias de diversificação agrícola, a marca (label) orgânica e ecoló- gica e a cooperação agrícola entre pequenos agricultores e os as- sentados. Essas iniciativas referem-se especificamente ao domínio da produção propriamente dita e à organização social, não fechan- do a porta às negociações e às reivindicações junto ao Estado. A leitura que fazem esses atores de sua condição social leva à

restituição de uma visão global que alia ciência, técnica, economia, ideologia e moral em um todo mais ou menos coerente segundo a

e conduta das práticas e das ações. Essa leitura permi-

te a muitos agricultores reencontrar, recompor e mesmo assumir suas práticas agrícolas. É o ideal que os leva a produzir alimentos sadios e de grande qualidade biológica; é a aspiração à reintegra- ção social e económica e a resistência em suas terras que levam os agricultores a adotar práticas e teorias que lhes parecem as mais justas e adequadas, as mais autênticas, igualitárias e completas, e que se apresentam, em níveis variados, como alternativas às prati- cas da agricultura intensiva, produtivista, que julgam insatisfató- rias e que, seguidamente, lhes exclui ou marginaliza. Essas formas de manifestação e de atividades podem parecer, para muitos, marginais e até mesmo aberrantes. Não é menos ver- dade que elas constituem tentativas de resolver certos problemas mais ou menos imediatos, graças às quais cada grupo experimen- ta, à sua maneira, responder às diferentes questões colocadas no cotidiano de um grande número de agricultores. Mesmo restando muito apegadas a uma perspectiva econó- mica, que vê no mercado o regulador de todas as anomalias e dis- funções, esses atores buscam através de suas lutas e reivindicações, na maioria dos casos, afirmar uma nova ética de produção agríco-

la, especialmente aqueles agricultores alternativos, os orgânicos e os assentados. Uma ética capaz de valorizar seu trabalho e garan- tir a reprodução, ao mesmo tempo em que se guardam preocu- pações em conciliar os crescentes imperativos económicos de pro- dutividade e de competitividade com certas preocupações de or- dem ecológico-ambientais, o que supõe um aumento da sensibili- dade ecológica entre esses agricultores - mesmo que isso ainda não

proposição

129

É

i

apareça de maneira evidente entre alguns, como por exemplo os assentados -, com repercussões imediatas nos sistemas de produ- ção (controle de doenças e pragas, na preparação e conservação dos solos, na proteção do meio ambiente, etc.). Evocando certas disfunções da sociedade e das formas de produção e de vida no meio agrícola em particular, essas ações cristalizam, à sua maneira, um descontentamento, um mal-estar que, aliás, não é encontrado somente nesse setor. Essas ações, por- tanto, não podem (e não devem) ser apreendidas nelasmesmas, assim como o económico e o mercado não são suficientes em si mesmos para explicar a realidade social. Na verdade, essas ações servem apenas como um simples revelador das dificuldades e das incertezas que assolam a agricultura atual. Entretanto, quando se aborda essas ações e reações na pers- pectiva analítica proposta, elas não chegam a estabelecer verdadei- ramente um conflito social, evidenciando uma incapacidade em "integrar" os elementos dissociados que compõem suas lutas e rei- vindicações, escorregando na direção de uma institucionalização (ou seja, em direção de uma integração total ao político) e per- dendo, com isso, muito de sua dimensão (e poder) de contesta- ção e crítica. O agir (não-conflitual) dessas lutas não permite, portanto, uma operacionalização do "sentido" do social; quando muito, conduzem a uma simples reinterpretação político-cultu- ral da realidade. Mesmo quando os atores se colocam dentro da problemática da integração, esta não é apreendida em verdadei- ros termos de conflito. Para não serem inteiramente absorvidas pelo sistema políti- co, essas reivindicações deverão incorporar, ao mesmo tempo, ele- mentos negociáveis e não-negociáveis. Isso poderia conduzir as mobilizações a um certo sucesso, ao mesmo tempo em que a con- testação restaria dentro de seu princípio negociável e resistiria à integração total ao sistema político. No entanto, isso não parece ser o caso na maioria das ações e lutas que se ligam à forma de lei- tura dita de agregados e que constituem a maioria das manifesta- ções que se inserem no quadro das ações contestatárias levadas a efeito na agricultura do sul do Brasil. Seu caráter de não-negocia- bilidade é, de fato, muito reduzido, conduzindo-as a uma quase to- tal absorção pelo sistema institucionalizado, através do conjunto de aparelhos e órgãos de enquadramento e normalização oficiais (pesquisa, extensão rural, políticas públicas, etc.).

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Está-se longe de admitir, porém, que essas ações e atores são incapazes de influenciar o social, visto que se situam nos limites dos espaços sociais constituídos. Em certos casos, especialmente nas ex- periências de cooperação entre os assentados e em certas ideias do movimento ecológico que inspiram as ações em favor de uma agri- cultura alternativa e orgânica, as ações situam-se na origem de uma renovação do político - por mais passageira queseja - e de mudan- ças significativas no plano cultural. Mas, constata-se, essas ações e atores não se mostraram, ainda, capazes de introduzir uma nova conceitualização do social. No futuro, porém, essas lutas poderão encontrar outras motivações que virão se acrescentai- às atuais, alar- gando o espaço social e político, articulando e relançando certas dessas lutas em direção de uma outra dimensão, conflitual desta vez, características de um movimento social. Uma grande ambiguidade, fonte de inúmeros erros de in- teipretação, resiste, ainda, nas ações centradas na leitura social de agregados. Observa-se que uma das "armas" prediletas dos atores em luta é seu discurso ético e moral, ou seja, uma repre- sentação da sociedade que tende a recusar a dicotomia existen- te entre as diversas práticas sociais dos indivíduos e que se ca- racteriza pela vontade de coerência e de sistematização nas suas práticas. A busca de uma harmonia universal nas relações que o homem mantém com a natureza, tão pregada pelo movimen-

to

ar sua ação. Sob essa ótica, não haveria de um lado a moral, a ética e as práticas culturais e, de outro, mais ou menos separa- damente, as práticas produtivas que se situariam em um outro sistema de referência. Isso quer dizer que a técnica e a econo- mia são instâncias, agregadas, que devem se submeter as nor- mas e regras a um conjunto de práticas com caracteres distin-

tos. É aqui, precisamente, que reside a ambiguidade: mesmo condenando a superioridade das instâncias do económico, es- ses atores não conseguem superar os limites de seu combate, de suas lutas, subordinando regularmente suas reivindicações em relação a essas mesmas instâncias (do económico). Eles fazem uma crítica da racionalização sem conseguir sair do quadro dessa racionalidade, ficando evidente sua confiança na todo-poderosa ideia de mercado e das relações económicas que lhes são pró- prias. Por outro lado, ainda, fundar as práticas económicas e técnicas não nas exigências técnicas e económicas, mas sobre

ecologista, começa a impregnar esse discurso e já influenci-

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2L

as condições e situações exteriores aos próprios produtores, conduz não somente às ambiguidades como também alimenta as críticas de alguns que consideram tais princípios um verda- deiro absurdo, consequência de uma ilusão. Mesmo parecendo paradoxal, é essa ambiguidade que per- mite à maioria dos atores pensar suas práticas como não sendo de resistência ou de simples sobrevivência física. A perspectiva econó- mica, da disputa de mercados, da necessidade de competição para sobreviver na atividade agrícola, sempre presente no interior das ações, lhes permite estabelecer uma ligação com o mundo da in- tegração e da viabilidadeeconómica e social. A ambiguidade em questão faz com que esses atores per- maneçam ligados à perspectiva da predominância económica nas práticas produtivas (a integração torna-se um caso estrita- mente económico), mesmo condenando essa influência e bus- cando estabelecer outras instâncias para serem privilegiadas. Quando alguns conseguem se desprender dessa lógica econó- mica, que é resultante, seguidamente, de uma reação de medo e incerteza (de inadaptação, de condenação à exclusão total), apegam-se a estratégias identitárias, de resistência, de proteção contra técnicas e práticas económicas próprias à produção moderna e que eles confessam, na maior parte dos casos de maneira indireta ou implícita, não estando em condições de dominá-las plenamente. Essa reação de fechamento sobre si mesmo, de busca de uma identidade e de resistência permite que os grupos em questão se reaproximem e se sintam mais solidários em rela- ção a outros grupos que fazem uma leitura diferente do soci- al. E portanto, nesse ponto que parece se dar a passagem da leitura de agregados àquela dita essencialista, examinada a seguir. Essa racionalização a posteriori resta ainda minoritária entre aqueles atores engajados nas ações que privilegiam a ideia de agregados. Enfim, não se poderia dizer (ou, pelo menos, admitir) que

essa ambiguidade indica uma

da ideia fundamental de que somente seriam racionais as condu- tas que melhor se inscrevem dentro da racionalidade (instrumen- tal) económica?

certa aceitação por parte dos atores

132

A LEITURA ESSENCIALISTADO

SOCIAL E A BUSCA.DE IDENTIDADE

Como já visto, esse tipo de leitura do social pode ser uma consequência, uma derivação das interpretações de agregados. Por outro lado, pode ser também uma derivação da leitura relacional. Ou seja, fruto da incapacidade em tornar conflitual o social, os atores são conduzidos ao isolamento ou à ruptura. Mas o modo de leitura essencialista entre os atores sociais pode ir além disso: por exemplo, até mesmo negar uma relação (trama) social ou, como mostram algumas das reações estudadas, definir

um social restrito, fechado em si mesmo: a "identidade e/ou a comunidade".56 Na impossibilidade de articular as diversasdeman- das e necessidades, e na falta de respostas efetivas às suas reivindi- cações, os atores tendem a fugir em direção ao cultural. A perda de um posicionamento social natural, devido à ruptura de certas formas tradicionais de vida e trabalho, encoraja alguns atores a constituir novas comunidades ou subculturas, nelas reencontran- do a segurança identitária e a moral perdidas. Na maior parte do tempo, esses atores manifestam seus temo- res a respeito dos perigos da ciência e da técnica modernas, bem como de seus procedimentos e mecanismos, do mercado e de suas leis e normas rígidas, temores esses que os levam a elaborar uma microcultura, um microssocial ou ainda uma microssociedade - a comunidade - fortemente marcada, em todos os casos, por princí- pios ecológico-conservacioriistas, por uma agricultura componesa e pela influência da tradição. Trata-se, geralmente, de reações con- tra um processo de modernização que tende a tomar autónomas as

esferas sociais, e que promove a erosão

são ditados pela comunidade. Por conseguinte, os atores buscam reintroduzir a unidade 110 seio de uma sociedade cada vez mais frag- mentada e de dramatizar a desagregação do tecido social. É por isso que se faz seguidamente apelo às formas de vida e trabalho "de an-

tigamente", consideradas como mais agregadoras, aquelas ditas de

de compromissos sociais que

56 Utiliza-se a noção de "identidade social" - grupai, coletiva ou comunitária, real ou simbólica - como "forma de solidariedade" e como uma "tentativa de constru- ção de consciência social e cultural entre os atores"; uma identidade que será de- fensiva ou ofensiva segundo a capacidade de definição ou de identificação de um. "campo de conflito" (social). Nessa concepção, uma coisa parece fica bem clara:

a noção de identidade como "grupo socialmente e/ou culturalmente construído".

133

II

subsistência. Nesse contexto, o saber popular ou camponês encon- tra-se revalorizado e mesmosobrevalorizado, frequentemente se afir- mando contra a ciência e seus processos técnicos modernos. A afirmação de uma identidade (mais defensiva) conduz regularmente a ações de tipo comunitário, que se propõem mais ou menos autónomas. A comunidade torna-se o lugar onde todas as demandas e necessidades podem ser satisfeitas, o escudo que permite afrontar as dificuldades, em particular as materiais. A comunidade é, geralmente, concebida em torno de uma identi- dade definida como tendo forte influência camponesa, na qual os valores éticos e morais exercem um papel de primeira ordem. Uma tal afirmação identitária não acontece sem um recuo das identidades propriamente sociais e em detrimento daquelas que se inscrevem na natureza, na ética, no meio ambiente, etc. Essa ideia camponesa se constrói, portanto, em torno de al- guns princípios ecológico-conservacionistas, de garantia das tra- dições do campo, da manutenção do homem sobre a terra e da autonomia (sobretudo no plano produtivo). Assim, se caracteriza um tipo de estratégia cultural de sobrevivência, acompanhada da recriação de um espaço de autarquia, de enclausuramento e de fechamento em torno da identidade. É importante salientar, no entanto, que as estratégias económicas estão presentes na maior parte do tempo, mesmo que por vezes de forma subordinada en- tre os objetivos socioculturais perseguidos: a reprodução da famí- lia, da comunidade e da categoria socioprofissional dos agriculto- res. E frequente, pois, a passagem à lógica social de agregados. Em vistade tudo isso, pode-se avançar na ideia de que essa for- ma de leitura do social e de suas representações constituiriam uma resposta "cultural" aos problemas existentes nos planos económico e social. Mas isso será visto mais detalhadamente logo a seguir. Os atores e grupos submetidos à influência de uma leitura essencialista na agricultura do sul do Brasil mostram, também, a exemplo da leitura de agregados, uma propensão a identificar o Estado como o centro do poder, ao qual deve-se opor uma estru- tura de resistênciaem face da sua influência generalizada. É claro que essa postura não impede que os grupos estabeleçam trocas e negociem com o Estado. Pode-se, portanto, ser surpreendido, em tal contexto, com muitas manifestações de grupos e indivíduos que aspiram a um retorno global ao passado, fazendo uma imagem totalmente regressiva do progresso.

134

Aqueles que reivindicam a defesa de uma identidade, de um género de produção material e de um modo de vida específico próximo daqueles apresentados, são entidades e associações que se dizem representantes (e, às vezes, porta-vozes) de uma certa coletividade. Este parece ser bem o caso de algumas iniciativasle- vadas a efeito por segmentos das igrejas católica e luterana no sul do Brasil.Já combalidos por uma crise social e económica crescen- te, essesgrupos tentam reunir os indivíduos em tomo de uma ideia de integração e coesão internas (a fé cristã), capazes de multipli- car as forças de enfrentamento aos inimigos externos, ou seja, o Estado e suas políticas, o mercado e determinadas classes e cate- gorias socioprofissionais na agricultura. E essas forças coletivas ins- piram-se, geralmente, no modelo de vida das comunidades cam- ponesas, exemplo de coesão, de autonomia, de solidariedade e de proteção da natureza. O que está emjogo, aqui, é uma idealiza- ção de um tipo de agricultor (o camponês), ou seja, a busca de uma identificação cultural. Esse ideal tem a tendência a gerar uma certa atitude de reação frente a tudo que pode ser identificado como agressão a uma estabi-

lidade do mundo

mundo" foi rompida pelo uso abusivo e descontrolado da tecnologia

e pela opressão e dependência dos indivíduos ao mercado e às suas

regras pouco flexíveis. Isso incita certos atores e grupos a assumirem uma atitude claramente reacionária frente, por exemplo, à tecnolo-

gia ou ao progresso técnico-científico. Por vezes, alguns grupos, em particular aqueles influenciados e coordenados pelas igrejas, chegam

a

de

camponês. Ele advoga que a "harmonia natural do

ver nas tecnologias tidas como modernas alguma coisa de "mau" e "destrutivo" em si (Almeida, 1989). Pregam o retorno a um passa-

do idealizado, como, por exemplo, evidenciam algumas das proposi- ções do CAPA, através da ideia de uma agricultura idêntica àquela praticada pelas antigas colónias de agricultoresalemães no sul do País, um passado em que se possa reencontrar os fundamentos de uma sociedade "auto-suficiente, independente e autónoma". Essesgrupos

exprimem uma espécie de

gresso e o desenvolvimento económico que não conseguem compre-

ender nem tão pouco seguir. Uma grande ambiguidade aparece outra veznasproposições, evidenciada quando os agricultoresse vêem empurrados para uma competição, mesmo que com o único objetivo da sobrevivência, em um mercado no qual não se reconhecem nem dominam as

revolta intelectualprimitiva contra o pro-

135

II

regras, mas ao qual, apesar de tudo, devem se submeter. Disso re- sulta uma atitude esquizofrênica, na qual os atores ora criticam o mercado e exaltam a agricultura de subsistência, ora aceitam co- modamente a inevitabilidade de sua sujeição às regras de comer- cialização ditas racionais. E, portanto, no modo de organização da produção, na manei- ra como se vive as relações sociais, no trabalho concreto, nas estraté- gias de reprodução e suas reivindicações que os atores que fazem uma interpretação essencialista do social procuram identificar e caracterizar um "saber camponês" ou empírico, reafirmando o agri- cultor como sendo o centro e o ator principal do processo de pro- dução agrícola. Esse saber camponês é composto de conhecimen- tos, aptidões, atitudes e valores adquiridos através das práticas edu- cacionais e das experiências de trabalho de que participam os agri- cultores e que são transmitidas de geração à geração, de pai para filho, mesmo que, por vezes, se mostrem difusas e contraditórias. Evocar um saber camponês induz à constituição de um saber de resistência, um movimento de autodefesa contra todas as agres- sões e ameaças externas. É também uma tentativa de reforçar o espírito de união, de solidariedade destinados a combater esses mesmos perigos. Essas são, em parte, as condições de criação de certos grupos de agricultores quando eles querem aumentar sua capacidade de resistência ou ampliar seu espaço económico - não sem ambiguidades e dificuldades - contra um "saber de moderni- zação", contra a racionalidade instrumental, em suma. Como di- zem Brandão e Reis (1982), trata-se de um saber que garante o equilíbrio de um modo de vida precário, ou seja, um saber de so- brevivência em condições precárias. A recuperação e a exaltação do saber camponês tenta forjar um tipo ideal de agricultura e de agricultor. Essas tentativas, no entanto, não vão todas na mesma direção. Grosso modo, pode-se distinguir duas tendências: uma, mais conservadora, que se apega à conservação do campesinato naquilo que ele tem de primitivo e tradicional; outra, que se esforça em redefini-lo não sob uma óti- ca moderna, tal como prefeririam o Estado e seus organismos e os agentes do mercado, mas tornando-o mais autónomo e mais in- dependente. Mas esse ideal camponês vai se chocar de frente com a ideia de segmentação do camponês ideal que querem imprimir e enco- rajar os poderes públicos e a ideologia agrícola modernizante, em

136

particular via ensino técnico, extensão rural e pesquisa agrícola. Esse ideal camponês se choca, portanto, com a ideia de agricultor moderno, voltado essencialmente para o lucro e totalmente depen- dente do mercado.57 Conforme as duas tendências destacadas e que concernem ao tipo ideal de camponês, os atores e grupos distinguem-se segun- do duas visões ideológicas bem diferenciadas. Os setores ligados às igrejas católica e luterana, certos segmentos do sindicalismo agrí- cola e do movimento ecológico-ambiental defendem, frequente- mente, posições de manutenção do tradicional ou, mais raramen- te, pregam o retorno a um passado mais harmonioso e uma reabi- litação de certas tradições do campesinato. Essa ótica conduz, em muitos casos, à negação de certas práticas agrícolas modernas, do ensino técnico formal e a tudo que se possa identificar como mo- derno., Esses grupos voltam-se para a idealização do mundo cam- ponês e da natureza, bem como para as virtudes do camponês e para a conservação de suas propriedades morais. A outra visão ideológica é representada por setores ligados, em parte, ao sindicalismo agrícola, ao movimento de luta pela terra (MST e assentados) e se aliando a concepções defendidas por cer- tos grupos e organizações que coordenam as ações e proposições em torno de princípios em favor de uma agricultura alternativa. Essa tendência procura redefinir o campesinato não mais através da simples imagem do agricultor (ideal) moderno; mas conser- vando algumas qualidades morais do camponês (e do campesina- to) tradicional, estimulando outras formas de organização políti- ca e social, respeitando suas próprias realidades, seus instrumen- tos de trabalho e reabilitando suas técnicas para adaptá-las às con- dições materiais e sociais atuais. O objetivo é o de manter osmo- dos simples de organização social, de desenvolver tecnologias fi- nanceira e economicamente acessíveis, diretamente utilizáveis pelos agricultores, suscetíveis de provocar melhores resultados, mais imediatos em nível da produtividade do trabalho, da melhoria das suas condições de vida e do ganho de autonomia. É essa via que parece ter tomado bom número de proposi- ções oriundas dos grupos e organizações estudadas. Por exem- plo, aquela que visa a constituir um verdadeiro aparelho de en-

57 Para um melhor entendimento das lógicas do "ideal camponês" e do "campo- nês ideal", ver Almeida (1989; 1993).

137

quadramento técnico-econômico orientado pela atualização/ recuperação de técnicas, de tecnologias e de procedimentos agrícolas tradicionais para adaptá-los às condições dos agricul- tores hoje. Já foi implantado um processo de vulgarização des- sas técnicas e práticas tendo em vista a recuperação e divulga- ção desse saber camponês empírico, mesmo que, por vezes, seja necessário readaptá-lo para torná-lo acessível e convincente aos olhos dos próprios agricultores. Não se poderia dizer, no entanto, que as ações típicas de de- fesa comunitária são menos políticas que aquelas que mais se en- quadram na ótica de agregados. Mesmo que elas não tenham, ain- da, conseguido instaurar verdadeiramente um conflito social, um agir conflitual, essas ações estão em condições de superar o qua- dro político da ação e colocar em questão o padrão dedesenvolvi- mento que ameaça um grupo ou toda uma categoria de agricul- tores com a exclusão ou a marginalização económica e social. E importante salientar, no entanto, que, nas suas manifestações atu- ais, essas ações tendem a se afastar da esfera política, conduzindo os grupos em questão à manifestação de uma rejeição da política e apelando para ações que se situam fundamentalmente nos ní- veis socioeconômico, cultural e nas reivindicações concretas. Além da afirmação de identidades, buscando "conservar" determinados valores da tradição camponesa, essas ações apelam para uma outra noção muito importante: a autonomia, sobretu- do cultural e produtiva. Esse sentimento autónomo nada mais é que a expressão de um sentimento sociocultural,o desejo de fazer parte de um grupo de semelhantes identificados habitualmente como sendo de cultura camponesa, evoluindo em um espaço de autoproduçãõ e preocupado em sentir a autonomia em relação à influência de certos fatores externos de perturbação, como, por exemplo, as políticas públicas inadequadas, insumos modernos caros c poluentes, classes e categorias socioprofissionais concorren- tes, rigidez das regras do mercado, etc. Esse espaço social comunitário assim construído deveria per- mitir, ao mesmo tempo, a preservação e a afirmação de uma iden- tidade, o sentimento de segurança no contexto de uma participa- ção coletiva e suficientemente autónoma para exercer suas pró- prias potencialidades; um sentimento de autonomia que, no fim das contas, possa permitir fundar um espaço em que se possa pen- sai; decidir e agir, de maneira individual ou coletiva.

138

Entretanto, a identidade que se esforçam em afirmar os gru- pos comunitários nas suas ações e demandas está ainda longe de constituir uma identidade social ofensiva, pois essas ações não se inscrevem inteiramente no campo social, em particular naquele dos conflitos sociais. Ao contrário, esses mesmos grupos procuram (ré) construir uma verdadeira identidade cultural comunitária, recorrendo a ações e manifestações cujo primeiro objetivo é o da garantia da sobrevivência e da luta contra a desorganização devi- da a uma situação de crise, dirigidas mais ou menos diretamente contra a opressão que lhes impinge um grupo ou aparelho orga- nizacional determinado (geralmente identificado na figura gené- rica do Estado), que se apresenta como uma ameaça para seus princípios de identidade (cultural) e os valores a esta ligados. Tais manifestações não podem, portanto, serem consideradas como verdadeiros movimentos sociais, nem mesmo como ações co-

letivas ofensivas. Elas são, na verdade - insiste-se nesse ponto -, uma afirmação de identidade frequentemente portadora de críticas e protesto sociais, mas que não chegam a definir precisamente seu adversário nem as disputas conflituais (centrais). Elas confundem

o social, o cultural e também o económico; o social é apreendido

através do espelho que é o cultural e como resíduo do económico. São o que se poderia chamar de manifestações tendendo a "desso- cializar" o social; um contramovimento social com a defesa de uma comunidade contra um inimigo considerado exterior ou estrangei-

ro, de sorte que é difícil constituir uma disputa comum possível entre

os adversários (seguidamente não existe, verdadeiramente, um con-

flito) . Num sentido sociológico mais global, é uma recusa da mo-

dernidade e dos seus processos de modernização. Assim, o enclausuramento em comunidades e na identidade pode ser compreendido como uma estratégia de defecção em vez de protesto. E o enclausuramento individual sob bases coletivas limitadas (a comunidade camponesa), em que a ação coletiva não aparece onde se esperaria que aparecesse. Sob a pressão dos ini- migos externos, os atores em questão geralmente fecham-se em si mesmos e "defeccionam" em vezde protestar efetivamente,levan- do-os a construir uma ação geralmente mais expressiva e menos instrumental (Touraine, 1973; 1988). Mas essas ações de tipo identitário estão no cruzamento de três caminhos: uma via de integração social e económica, man-

tendo ligações

mais reais e objetivas com o mercado e induzin-

139

do os grupos a manter experiências interativas com ele, ao mesmo tempo em que afirmam sua autonomia e independên- cia; uma outra, com o abandono da idealização de um mundo camponês não-corrompido pelo mercado, de um espaço com- pletamente autónomo e sereno, enfrentando a questão da ren-

da e da viabilidade económica do agricultor; e, por fim, uma terceira via que se apresenta como um enclausuramento, com

o consequente isolamento no cultural, constituindo-se, então,

uma minoria cultural58 e vendo enfraquecer, gradativamente, seu poder de luta social (no conjunto das ações e experiências estudadas, somente um pequeno número de indivíduos e alguns grupos isolados, seguidamente ligados às igrejas, se aproximam

dessa perspectiva. Atualmente, parecem não constituir um movimento expressivo do ponto de vista social).

OS PRINCÍPIOS DA AGROECOLOGIA: RUMO A UMA LÓGICA RELACIONAL DO SOCIAL?

Como já visto, a manifestação predominante nas ações de contestação parece indicar duas tendências principais: ou bem tudo leva a uma integração (sobretudo económica) ao mundo da produção, ou a integração implica uma leitura que conduz

os atores e grupos a afirmarem uma identidade comunitária, com

o risco que isso comporta. Ou seja, ou as ações coletivas e reações

as especificidades

identitárias, ou se esforçam em preservar sua identidade e aca- bam por constituir uma sociedade fragmentada em redes restri- tas de grupos ou de comunidades. Trata-se, de um lado, de uma integração aos sistemas pela participação e, de outro, da aceita- ção (e mesmo da reprodução) de uma fragmentação social atra-

vés de ações que reivindicam uma identidade cultural e um tipo específico de autonomia. São essas as visões do social que pare- cem monopolizar as ações e reações estudadas. Mas, é importante constatar que essas expressões mais signi- ficativas no conjunto das ações de contestação na agricultura do sul do Brasil se inserem no quadro de uma renovação - mesmo

se integram à corrente do progresso, negando

58 Conforme a expressão de De Certeau (1980).

140

que passageira - do político e do sistematécnico-produtivo, e tam- bém que constituem fontes de mudanças culturais. Essas ações, no entanto, não conseguiram, ainda, investircom força no agir de tipo conflitual propriamente dito.

Por mais minoritárias que sejam algumas das ações e atores es- tudados, estes parecem, no entanto, indicar uma outra direção, pen- sando a problemática da agricultura e de alguns aspectos da socie- dade em termos suscetíveis de provocar um transbordamento dos espaços sociais constituídos, mesmo que, por enquanto, denotem características ainda um pouco fluídas, ambíguas às vezes, e até mesmo contraditórias. Diferente de uma simples interpretação cul- tural da realidade social e da incapacidade em integrar no interior de uma mesma luta elementos dissociados, essas ações começam, sob

a coordenação de atores específicos, a buscar outras interpretações

sociais que possam dar um (novo) sentido para o social. Tais posi-

ções se reagrupam em torno dos princípios e ideias que defendem

a agroecologia,59 encontradas, sobretudo, nas proposições avança-

das pela AS-PTA e pelo Cetap. A proposição agroecológica se apresenta como uma aspiração geral a uma outra forma de agricultura e desenvolvimento; se apoia no uso potencial da diversidade social e dos sistemas agrícolas, espe- cialmente aqueles que os atores reconhecem como o mais próximo dos "modelos" camponês e indígena. Aquelesque idealizam esse tipo de agricultura têm razões para pensar que, em se aliando a um pro- jeto de desenvolvimento local, descentralizado, que privilegieadiver- sidade em cada meio, estão exprimindo novas aspirações, novas for- mas de sociabilidade, uma vontade de promover outros padrões de desenvolvimento económico e social que seriam mais controláveis e aceitos porque estão espacialmente circunscritos e cultural e tecnica- mente fundados na "experiência do tempo". Ao mesmo tempo em que surgem e tentam afirmar novas noções, essas ações e atores visam a colocar em prática um novo tipo de movimento coletivo, que vai buscar sair das formas mais ou menos reclusas que assumem a maioria das manifestações de contestação da dominação social como um todo. Masum tal des- locamento de objetivos, mesmo que ainda de ordem "estratégica"

59 Aqui não é feita uma descrição exaustiva dos princípios e ideias agroeco- lógicas. O mesmo pode ser encontrado, em detalhes, em Almeida (1993), AS- PTA (1990) e Altieri (1987; 1988), entre outros.

141

(especialmente no caso da AS-PTA) e em estado embrionário, não poderia ocorrer sem grandes riscos. Uma vez mais, a atual condi- ção de marginalização e exclusão de certos grupos sociais e a ne- cessidade urgente em obter resultados imediatos no plano da re- produção social, constituem fatores quejogam contra a capacida-

de de afirmação dessas novas ideias, pelo menos no curto e médio prazos. É por isso que essas formas de protesto muitas vezes ainda tendem a se aproximar das esferas institucionais, assumindo um caráter ora de defesa identitária, ora de reintegração económica

no

de suas aspirações e utopia. A divulgação/generalização da proposição agroecológica pare- ce encontrar alguma dificuldade para acontecer. Ao que tudo indi- ca, suas aparentes virtudes teóricas e morais não foram ainda sufici- entes para alçá-la a um lugar de maior destaque no interior da agri- cultura brasileira. A crise que balançou as estruturas do padrão do- minante parece não ter sido suficientemente forte para dar a essa posição um espaço e um impacto realmente importante e geral. E se, em um prazo mais curto de tempo, não conseguir constituir um ver- dadeiro projeto económico e social em uma escala técnico-produtiva mais global, em particular no plano da organização social, essa pro- posição corre o risco de ficai' circunscritaà simples condição de con- testadora e de exaltação da diversidade. De acordo com esseponto de vista, a agroecologia se depara com as seguintes questões:como considerar/elevar a diversidadepaiaalém do protesto puro e simples e como adaptá-la às ações de desenvolvi- mento que se dirigem a uma clientela heterogénea quanto aos seus determinantes, suas aptidões e seus meios? Essas dificuldades não es- tariam ligadas a uma tendência ao isolamento, à prioridade dada a certas necessidades de camadas sociais que ainda não conseguiram despeitar a atenção e o interesse do poder político instituído? A proposição e a estratégia agroecológicas restam ainda frágeis, pois se fundam em critérios fortemente culturais e técnico-econô- micos (que leva primeiro à distinção e ao privilégio das agriculturas camponesas) e muito pouco em critérios sociopolíticos.60 Por ora,

mercado. Isso enfraquece sua força contestadora e grande parte

60 Essa questão é tratada com mais detalhe logo a seguir. É bem verdade que entre as duas ONGs que melhor representam a agroecologia dentre as orga- nizações investigadas, é a AS-PTA que está ainda emaranhada em critérios cul- turais. O Cetap, por sua vez, parece caminhar mais rapidamente na direção de uma via sociopolítica,mesmo que ainda de maneira não muito clara.

142

a agroecologia está longe de adquirir a força do padrão que preten- de substituir. Baseando-se em identidades culturais e práticas pro- dutivas que recusam, antes de tudo, ser qualificadas de "modernas", corre o risco de ficar à margem de um padrão dominante de de- senvolvimento que, mesmo estando em crise, fragilizado e alvo de severas críticas, tem, ainda, uma grande capacidade de recupera- ção (aliás, como já pôde demonstrar em outras ocasiões). Apesarde suas aparentesfraquezas, pode-se constatar,entretanto, que, esta proposição, reforçando a diversidade da base social e pro- dutiva dos "modelos" que se implantam, já impôs certos limites ao desenvolvimento que pregam o Estado e as classes dirigentes. Sua influência vai, também, na direção do encorajamento de modos de desenvolvimento agrícola e rural pouco hierarquizados, escapando da forte influência estatal e de seus aparelhos sobre o social. Pelo menos, a proposição agroecológica é capazde servir eficazmente como instrumento de resistência e de reprodução de sociedades e grupos no respeito de sua diversidade. A diversidade da agricultura poderia, então, tornar-se uma verdadeira "via de salvação" que, através dos processos de diversificação dos modelos que ela supõe e sustenta, poderia ser operacionalizada em face da crise.61 Fica, portanto, o questionamento: pode a agroecologia res- ponder à crise, simplesmente implementando alternativas de subs- tituição ou de adaptação aos modelos técnico-produtivos que mostram seus limites e dão sinais de esgotamento, ou seja, desem- penhar o papel de resistência à crise? Deve se contentar em pro- por diferentes modos de inserção das atividades agrícolas e rurais familiares 110 tecido económico e social local? Não se poderia dela esperar outra coisa em vista das ideias que defende e dos desejos e aspirações dos atores? A agroecologia, e por extensão em um certo sentido a agri- cultura alternativa —na medida em que os princípios agroecológi- cos exercem uma influência crescente sobre suas ideias -, não cons- tituem, ainda, o que se poderia chamar um movimento social stricto sensu, ou seja, uma ação social organizada contra o poder de ad- versários que têm as rédeas do modo de desenvolvimento aarríco- Ia. E, entretanto, portadora, em gestação, de tal movimento. Essa

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61 Ideia, aliás, já elaborada e discutida para o caso francês. Ver, nesse sentido,

Jollivet(1988).

143

luta poderá, por conseguinte, provocar uma autêntica e profun- da transformação no campo político (ela propõe desde já, con- cretamente, uma mutação do domínio técnico-produtivo e das práticas agrícolas através de princípios que se ligam a um para- digma ecológico), desde que saiba costurar as alianças capazes de provocar uma ampliação de seu poder de luta. Essas lutas deverão se encaminhar na direção da convergência (e da complementari- dade) com outras formas de combate e de movimentos sociais, a fim de toma-las as precursoras por excelência de um movimento social mais amplo e dirigido contra a tecnocracia que dita as ne- cessidades de uma população que domina. Em suma, é necessário

que as proposições agroccológicas, se quiserem abrir uma via para um movimento social, transcendam a lógica contestadora domi- nante que visa a exercer uma pressão puramente institucional.62 Para isso, a agroecologia poderá utilizar a ecologia e sua proble- mática de uma maneira transversal, dentro de contextos, como diz Guattari (1989), de desintegração, de multiplicação de antago- nismos e de processos de singularização. A contestação cultural ou puramente económica poderá assim se transformar em um movi- mento de ação propriamente sociopolítica. Esse objetivo parece ainda não ter sido atingido. Por outro lado, a dimensão de "novidade"63 dessa proposi- ção será função da capacidade que as lutas mostrarão para esca- par não somente da lógica de ação contestadora, mas também à institucionalização, ao enclausuramento nos espaços morais e so- cioculturais específicos e, ainda, mostrar uma capacidade renova- da para abrir novas vias de afirmação no domínio das maneiras de

produzir e de viver. Eis o grande desafio que está colocado para a

agroecologia, em um espaço onde se desenvolve urna intensa crise social e económica. Esse desafio, que por instante toma a forma de um ideal estratégico ainda mal definido nas ações e lutas em

curso, vai consistir na construção com outros atores e lutas de

projeto social capaz de orientar a sociedade, de introduzir um novo

quadro de conceitualização social; um projeto que ultrapasse o campo da contestação pura e simples e da oposição à tecnocracia,

um

62 Entretanto, não se pode excluir esse componente social de luta, visto que um movimento social é feito também de pressões políticas institucionais. 63 Conforme a noção consagrada por Morin (1977).

144

ao produtivismo e às políticas agrícolas inadequadas; um projeto, enfim, que ande na direção de um modo propriamente conflitu- al, substituindo na contestação os verdadeiros aspectos e instrumen- tos da dominação social no seu conjunto. Tais ações deverão mos- trar mais claramente que se pode reconstruir uma imagem da tra- ma social a partir da agregação de indivíduos e de grupos que parecem ter perdido, hoje, toda forma de identificação profissio- nal e social. Precisará subverter os antigos sinais de reconhecimento social a fim de construir um outro tipo de unidade. Do ponto de vista técnico-produtivo, a agroecologia parece indicar três cenários possíveis de concretização, três etapas de de- senvolvimento identificáveis no plano analítico, a saber: uma, con- cebida como sendo a institucionalização da marginalização da

agricultura alternativa ou ecológica; outra, que corresponde

a uma

"ecologização" da agricultura moderna ou convencional e a últi-

ma, em que a agricultura ecológica é apreendida como uma ver- dadeira alternativa técnico-científica global. Inicialmente, essas proposições parecem ter sido bem apre- endidas por um certo tipo de agricultores e de agricultura, ou seja, aquele pequeno produtor familiar em dificuldade, situa-

do em regiões onde faltam recursos materiais, físicos e finan-

e produzindo, antes de tudo, para assegurar sua subsis-

tência. A médio e a longo prazos, a segunda etapa aparece de forma muito plausível. De fato, em se tratando de uma agricul- tura convencional de maneira específica e de sua "ecologização", certos fatos já se manifestam de forma visível através de práti- cas mais voltadas para a conservação da natureza, como, por exemplo, o uso do Baculovírus e o recurso à luta biológica inte- grada contra pragas e doenças, bem como os programas ofici- ais voltados para a agricultura sustentável,64 o que implica o abandono de produtos e práticas consideradas como altamen- te nocivas para o homem e a natureza. Enfim, no que se refere à etapa de apreensão da agricultura ecológica como alternativa técnico-produtiva global, parece que a construção desse novo paradigma, a menos que se realizem uma boa parte das condições sociais e políticas esboçadas anteriormen-

ceiros,

64 Por exemplo, certos programas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agrope- cuária (Embrápa). Ver Flores et ai. (1991).

145

te para a agroecologia brasileira, enfrentará sérias dificuldades para se afirmar como um processo realmente revolucionário; po- derá, no entanto, ser interiorizada no plano societal, não afetan- do fundamentalmente a estrutura da sociedade.

146

Capítulo 4

Buscando a autonomia

Na agricultura, hoje, os movimentos reivindicativos e contes- tadores se inscrevem nas políticas mais gerais de autonomia e nos processos de auto-organização. Essas diferentes formas de autono- mia definem uma disputa mais ou menos específica. Em seus diferentes aspectos, é contra uma determinada or- ganização do trabalho que a autonomia é objeto de reivindicações, de proposições ou de aspirações; contra a dominação da raciona- lidade moderna no seio da modernidade; contra uma racionali- zação que concentra o poder de decisão, restringe a democracia e nega a cidadania; contra um processo de modernização que in- duz a um crescimento que destrói os equilíbrios naturais funda- mentais, aumenta as desigualdades e impõe uma corrida acelera- da e esgotante em direção às mudanças. E esse grupo de questões centrais que, com seus desdobramentos, parece constituir o ver- dadeiro elo de ligação entre manifestaçõesconstestadoras o sin- gulares e heterogéneas. Na agricultura, são os processos de heteronomização da vida social e as crises relativas a esses processos que se encontram na base de toda aspiração de autonomia.65 Esse processo acabou por rom- per uma certa coerência da exploração camponesa tradicional,isso

através de

nês; b) da profissionalização da atividade agrícola; e c) da "setori-

três maneiras: a) da artificialização do trabalho campo-

de Ivan Illich o conceito de heteronomização que, na agri-

cultura camponesa, se traduz, em última instância, pela perda de sua capacida- de de auto-regulação. Seu sentido etimológico é aquele "que recebe do exteri- or as leis que regem sua conduta" (ao inverso do que é a autonomia). Esta pala- vra vem do grego "heteros" (outro) + "nomos" (lei).

65 Toma-se emprestado

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