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Libertação

e

Sexualidade

Instinto, Cultura e Revelação

Robinson Cavalcanti

Libertação e Sexualidade

Libertação

e

Sexualidade

Instinto, Cultura e Revelação

Robinson Cavalcanti

CEBEP – Centro Evangélico Brasileiro de Estudos Pastorais Campinas – SP

e

TEMÁTICA Publicações São Paulo – SP

Maceió, 2004

3ª Edição

Libertação e Sexualidade

À minha filha Carla Alessandra

“É melhor arriscar-se a provocar um escândalo do que calar a verdade”.

São Gregório, o Grande

Libertação e Sexualidade

Em boa hora é lançado em nosso meio essa obra do colega Robinson Cavalcanti, que somente pelo trabalho de pesquisa já valeria para ser recomendado para estudo e debates Parabéns Robinson Cavalcanti pela produção do pequeno, mas grande em conteúdo, livro que todos devemos ter com a máxima atenção, para levarmos os seus principais capítulos a um debate imediato em nossas comunidades”. Rev. Egon Feldens, Anglicano, Porto Alegre-RS, in Estandarte Cristão, nº1706, ano 1998.

“Acolhendo contribuições dos mais diversos campos do conhecimento (teologia, as diversas ciências sociais etc.) o autor traça em Libertação e Sexualidade um itinerário estimulante e desafiador com o qual conduz o leitor pelos labirintos da sexualidade humana e lança um raio de luz dirigida em cada um dos principais cantos obscuros ou ofuscados dela. Não deveria

surpreender que ele surpreenda e às vezes muito

o autor mostra, ponto por ponto, a

limitação histórica de muitas concepções dadas como “naturais” ou até “reveladas”, e o grande leque de possibilidades a serem exploradas e sempre de novo recriadas”.

Emil A. Sobottka, Luterano, São Leopoldo- RS, in Boletim Teológico da FTL-B, nº12, ano 04.

“Há muito que as verdades explícitas no livro Libertação e Sexualidade precisavam ser proclamadas. Graças a Deus por tua coragem e também por tua capacidade e espiritualidade, pelo uso correto como trata a Bíblia, a Palavra de Deus Parabéns! Bravo!” Pr. Jorge Catizano da Paixão, Batista Renovado, Rio de Janeiro-RJ.

“Li recentemente seu livro Libertação e Sexualidade Gostei, já era tempo de alguém tratar o assunto poligamia e celibato de maneira séria

seu

livro vai irritar muita gente importante, e isto é pena, porque assim o povo evangélico continua sendo forçado a engolir conceitos sem pensar”.

Rev. Glauber Meyer Pinto Ribeiro, Presbiteriano, São Paulo-SP.

“Venho a público registrar a minha satisfação com o conteúdo de seu mais recente trabalho

a ponto de fortalecer a minha fé

literário/pedagógico intitulado Libertação e Sexualidade

pela libertação de culpas e má interpretação das Escrituras remanescentes do autentico ministério profético tais como você

Louvado seja Deus por

e outros, cujo ousado espírito

de vanguarda lança luzes difusas sobre temáticas tão evitadas em nosso meio Adauto da Costa Santos, Batista, Brasília- DF.

”.

Libertação e Sexualidade

ÍNDICE

Prefácio à Terceira Edição (Internet)

07

Prefácio à Segunda Edição

09

Prefácio à Primeira Edição

11

Introdução: Por Uma Sexualidade Libertadora

1. Natureza, Cultura, Revelação

14

2. Religião e Repressão Sexual

18

Capítulo Primeiro: Santidade e Sanidade

1. Sexualidade: Bíblica ou Pagã?

23

2. Óticas à Sexualidade

24

3. Sexo, Culpa e Graça

24

4. Distorções na Sexualidade

26

5. O Aborto

27

6. O Homossexualismo

29

7. A Masturbação

33

8. Santidade e Sexualidade

36

Capítulo Segundo: Família – Permanência e Mudança

1. Transição Permanente

38

2. As Mudanças Constitucionais

41

3. Os Cristãos e as Mudanças

43

4. Famílias e Classes Sociais

44

5. Marxismo e Monogamia: Divergências

45

6. Família: Alienação ou Engajamento?

48

7. Divórcio: Ameaça ou Solução?

50

8. Uma Sociedade Pós-Conjugal?

53

Capítulo Terceiro: Monogamia – Desafios e Possibilidades

1. Conceitos de Casamento

56

2. Matrimônio e Pré-Matrimônio

58

3. Um Juramento Acrescido

63

Libertação e Sexualidade

4. Sexo e Casamento

65

5. As Uniões Mistas

68

6. Os Efeitos da Queda

70

7. Monogamia Quando Para Todos

72

8. Modalidades de Monogamia

72

9. A Monogamia e as Outras Opções

75

Capítulo Quarto: Poligamia Como Alternativa Histórica

1. A Prática entre os Judeus

77

2. Poligamia e Cristandade

79

3. A Poligamia Africana

81

4. África: os Anglicanos

84

5. Modalidades de Poligamia

90

Capítulo Quinto: Poligamia – Licitude e Atualidade

1. Poligamia: Simultânea vs. Sucessiva

93

2. Poligamia Simultânea não é Adultério

95

3. Ideal, Aberração ou Imperfeição?

101

4. Opção Atual no Ocidente?

103

Capítulo Sexto: Celibato – Danação ou Opção?

1. O Celibato

109

2. O Celibato na Cristandade

109

3. As Dificuldades do Celibato

114

4. As Possibilidades do Celibato

116

5. O Celibato como Alternativa

120

6. Modalidades de Celibato

121

Conclusão: Por Uma Pluralidade De Alternativas

1. Criando e Recriando

124

2. Recriando na Sexualidade

125

3. Cristãos Recriadores

127

Bibliografia

130

Artigos e Reportagens

133

Libertação e Sexualidade

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO – NA INTERNET

Decidimos colocar os nossos livros de vendagem esgotada e não reeditados à disposição do público leitor em nossa página na Internet: www.ieabrecife.com.br. A consulta e a cópia são livres, bastando citar a fonte.

Por insistentes pedidos de leitores de várias regiões do País, decidimos iniciar por Libertação e Sexualidade. A proposta é, de agora em diante, pormos na página um livro por mês.

Vivendo na periferia do sistema (Nordeste), e sem a cobertura de uma denominação ou agência missionária, não foi fácil publicar 11 livros, apesar da alegria de ver suas edições sempre esgotadas.

Libertação e Sexualidade, um trabalho conciso e interdisciplinar (com duas edições vendidas – Temática Publicações, SP), veio à luz como forma de comemoração do trabalho pioneiro (em breve também aqui disponibilizado) Uma Benção Chamada Sexo (ABU Editora, várias edições, a partir de 1976). O livro não levanta bandeiras, nem faz apologias, mas é um intento sério e honesto de compreensão dos textos bíblicos sobre o assunto, e suas diversas percepções ao longo da História, em diversos segmentos e países. Tentamos abrir os olhos para além do aprisionamento cultural ocidental contemporâneo: liberal, para a homossexualidade; conservador, para a heterossexualidade, e trazer subsídios diante da complexidade do fenômeno, do silêncio ou unilateralismo da Igreja, e das rápidas, amplas e profundas mudanças, que se agravam, como crise da Civilização.

Com

sinceridade

e

humildade

procuramos

dar

a

nossa

contribuição

(nem

sempre

compreendida). Temos a consciência do dever cumprido diante de Deus, da Igreja, da História.

Agradeço à Secretária Diocesana, Magna Barbosa, pelo dedicado trabalho de redigitação, revisões e editorações, sem cujo empenho esse projeto não seria possível.

Boa leitura!

Grato pelos comentários e sugestões.

Libertação e Sexualidade

As idéias voam, mas a escrita fica”.

Maceió (AL), 09 de março de 2004.

+Dom Robinson Cavalcanti, OSE — Bispo da Diocese Anglicana do Recife —

Libertação e Sexualidade

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

Em julho de 1990, Temática Publicações, por meio de ampla divulgação na imprensa evangélica nacional, fazia chegar ao público leitor a primeira edição de Libertação e Sexualidade. Um ano depois a edição estava esgotada. Durante esse período o autor compareceu a mais de 40 cerimônias de lançamento e autógrafo em 24 cidades de 16 Estados da Federação, sob o patrocínio dos mais diversos grupos e organizações. Uma estafante maratona envolvendo palestras, debates e entrevistas à imprensa religiosa e secular.

O livro foi usado como texto básico para grupos de estudo e lição para Escola Dominical em

Igrejas de várias denominações. São inúmeras as cartas recebidas pelo autor com palavras de apoio, estímulo e gratidão. São experiências pastorais, depoimentos existenciais ou uso do material em pesquisas e palestras.

Atitudes e comentários negativos aqui e acolá já eram esperados em uma comunidade onde o tema da sexualidade ainda é um tabu. O mais grave é o fato de que alguns irmãos conseguem emitir uma opinião sem ler o texto, o que constitui, no mínimo, uma demonstração de desonestidade intelectual.

São pessoas que se sentem ameaçadas quando descobrem que a sua maneira de ver as coisas não é a única, e muito menos tem o respaldo do céu. O pecado também se manifesta na ignorância, no preconceito, na intolerância, na agressão aos que discordam. Nossas reações emocionais podem decorrer de nossos traumas, recalques e frustrações, ou do temor do controle social e suas conseqüências.

O boicote à divulgação do pensamento é um empreendimento inglório, pois tem fracassado

ao longo dos séculos as tentativas de calar a verdade e deter o curso da História.

Enquanto isso a diversidade ética nas igrejas cristãs do Brasil atingem um pluralismo que parece ilimitado: umas permitem namorar, outras proíbem namorar; umas casam divorciados, outras não admitem tais casamentos; umas admitem o celibato vocacionado; outras somente ordenam ministros casados; umas permitem o controle da natalidade. Outras proíbem o controle. Igrejas que só permitem a leitura de livros sobre sexo se a pessoa já tiver noivado. A lista de diferenças seria enfadonha, não fossem as normas pitorescas, bizarras e hilariantes.

Libertação e Sexualidade

O debate sobre o tema, como se vê, precisa ser aprofundado, na busca da sanidade. Libertação e Sexualidade se apresenta como uma contribuição a essa construção ética do possível, tarefa inadiável para a comunidade cristã.

Mais e mais cristãos se dão conta – como adverte Rubem Alves – de que “É sintomático que, até agora, tanto teólogos conservadores os revolucionários não tenham sido capazes de elaborar um discurso prazeroso e muito menos um discurso sobre o prazer. A ética e a política me parecem ser a continuação moderna do ascetismo que faz silêncio sobre as vozes do corpo”.

Continuo a crer que os sistemas legais, religiosos e morais devem concorrer para o adequado usufruto da sexualidade por parte de todos e não a sua privação por parte de tantos.

Continuo a anunciar um Deus libertador, que ama seus filhos e filhas, e não um Deus policial, desmancha-prazeres, guardião das tradições repressivas.

À crescente demanda de exemplares vinda de todas as regiões do País respondemos com esta segunda edição.

Uma palavra de gratidão a quantos se manifestaram sobre o livro, alguns dos quais reproduzimos o pensamento, e, em particular, ao meu editor Carlos Siepierski, que tem tornado possível a veiculação deste trabalho.

Recife (PE), 09 de julho de 1991.

Robinson Cavalcanti

Libertação e Sexualidade

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO

Em 1976 lançamos Uma Benção Chamada Sexo, como uma contribuição à reflexão cristã sobre o tema. O trabalho fora motivado por estudantes secundaristas e universitários, quando atuávamos na assessoria da Aliança Bíblica Universitária. Os jovens estavam sempre reclamando da falta de literatura cristã sobre a sexualidade. Dez anos depois o livro havia vendido cinco edições, sido usado como texto de educação sexual em colégios seculares e servido de base para o estudo de ética em Seminários Teológicos em vários países de língua portuguesa.

Uma Benção Chamada Sexo continua a ser reeditado, atendendo, principalmente, ao público jovem, por seu caráter didático e propedêutico. O livro causou tensões e reações aqui e ali, o que é inevitável em qualquer trabalho pioneiro.

Treze anos depois temos que constatar as rápidas e profundas mudanças passadas pelo mundo, pelo país e pela Igreja. Uma coisa, porém, é certa: para nosso desapontamento pouca coisa foi escrita sobre sexualidade por cristãos brasileiros nesse período. Presenciamos uma verdadeira inundação de traduções de autores estrangeiros, principalmente de norte- americanos conservadores. Alguns inclusive por aqui aportaram para Cursos e Conferências, fazendo escola.

Diante de um mundo em mudança e um país em abertura, a instituição eclesiástica se fecha, imóvel, estática, em uma atitude tradicionalista e reacionária, tornando sagrado o passado, demoníaco o presente e aterrador o futuro. Há um medo do novo. Um medo da diferença. Um medo das mudanças. Uniformiza-se, unifica-se, enquadra-se, reprime-se. Um mundo cinzento, tenso, triste, estéril.

Em relação à sexualidade, desinformação e silêncio, preconceitos e tabus. Os cursos, publicações, movimentos e pastorais na área partem de um principio só: o modelo de família conjugal ocidental contemporânea é a única forma de vida sexual lícita, em sua monogamia e indissolubilidade, e tudo o mais é pecaminoso. Esse modelo é identificado com o ideal edênico, e tido como de inspiração celestial.

Libertação e Sexualidade

Enquanto isso essa família conjugal entra em crise em todas as partes, concorrendo com uma pluralidade de alternativas que vão surgindo ou ressurgindo.

Carl R. Rogers capta bem esse momento histórico e suas tendências quando lança Novas Formas de Amor – O Casamento e suas Alternativas.

Com libertação e Sexualidade estamos tentando uma abordagem interdisciplinar mexendo um pouco com teologia, um pouco com antropologia, um pouco com psicologia etc. Procuramos sistematizar e compartilhar com o leitor cristão abordagens alternativas à que ele habitualmente tem sido exposto. Cremos que o simplismo dos manuais, o dogmatismo e as respostas prontas, acabadas e repetitivas não contribuem para a maturidade cristã.

No aspecto histórico-teológico, tentamos a descoberta de fatos e textos que desmistifiquem meras tradições, carentes de bases históricas e bíblicas, ou que são passíveis de outras interpretações; no aspecto antropológico e ético, procuramos relacionar Palavra de Deus, Cultura e Moral, o que nos leva a uma preocupação também psicológica, quando Wilhelm Reich nos aponta para a tensão entre instinto e cultura; no aspecto pastoral, creio que todos estamos sendo desafiados a tratarmos da pessoa em sua situação de vida, cada vez mais diversificada, e, finalmente, em um aspecto existencial, procuramos abrir pistas e esclarecimentos para os que vivem a construção do novo e do diferente ou a prisão da mesmice imutável.

Cremos que há uma dinâmica, uma interação dialética, entre os fatos e as idéias. Se os fatos e as buscas de alternativas que descrevemos e sugerimos não estão por aí, presentes na vida, este trabalho será uma mera divagação intelectual. Mas se, ao contrário, esses fatos estiverem por aí – inclusive no Povo de Deus – então dialogaremos com eles e construiremos, juntos, alternativas, enquanto procuramos tornar o Evangelho relevante para essa geração.

Escrevemos pensando em uma emergente e crescente liderança cristã – ministros e leigos – honesta, sincera e aberta a uma reflexão que conduza à verdade e à felicidade do rebanho de Cristo. Se todos nós escrevermos e publicarmos, trocarmos idéias, sob a direção do Senhor, cresceremos juntos.

Cremos que o nosso desafio é o mesmo confrontado por São Francisco: coragem para mudar o que deve ser mudado e não mudar o que não deve ser mudado, e entendimento para discernir uma coisa da outra.

Libertação e Sexualidade

A todos os amigos que colaboraram com suas idéias, sugestões bibliográficas, críticas e observações ao presente trabalho, nossa sincera gratidão. Toda teologia é um trabalho de equipe.

Recife (PE), 25 de janeiro de 1989(*) Robinson Cavalcanti (*) Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo

Libertação e Sexualidade

Introdução

Por Uma Sexualidade Libertadora

Natureza, Cultura, Revelação

A sexualidade é, primariamente, um dado da natureza, um dado fundamental da constituição

do ser humano. Essa dimensão instintiva tem que ser levada em conta acima de qualquer outra. É por sua sexualidade que o ser humano sobrevive e se reproduz. É por essa razão que

a humanidade existe e continua a existir. Em um sentido básico, tem razão Lindsey quando

afirma “

como

o apetite pelo alimento, o desejo sexual não é nem legal nem ilegal, moral nem

imoral”.

Em segundo lugar, o homem é um ser social, apenas existe e sobrevive em sociedade. Se a sexualidade lhe é algo intrínseco, o seu exercício pressupõe interações com outros seres igualmente sexuados. Isso ocorre de forma concreta na História, em espaços e tempos específicos. A vivência da sexualidade não paira nos ares, nem é algo desconectado de um dado fundamental: a cultura. A cultura se caracteriza por sua diversidade e sua dinamicidade. Cada povo se organiza de um modo peculiar que o distingue dos demais. Essa maneira de ser cada povo vai se modificando com o tempo, em razão da própria criatividade do ser humano, de intercâmbios e em resposta às suas necessidades. Vive-se a sexualidade culturalmente, ou seja, segundo os costumes do seu povo. Costumes diferentes de outros povos do presente

e do passado. Nas comunidades primitivas e nas comunidades rurais esses costumes são mais uniformes, enquanto tende a uma diversificação nos centros metropolitanos.

Em todas as épocas uma tensão básica ocorre entre a dimensão instintiva da sexualidade e sua dimensão cultural, o seu disciplinamento pelo grupo social, que visa, em principio, o que o grupo entende que seja o melhor para o conjunto dos seus componentes. Sempre houve e sempre haverá uma tensão entre a natureza e a cultura, instintos e normas. Ou seja, a sexualidade é vivida moralmente.

Isócrates de Oliveira, em uma perspectiva naturalista, afirma que “a natureza é a grande

norma da moralidade. A lei eterna contida na natureza das coisas, manifesta-se à razão, que a

aplica ao caso concreto

a natureza é a grande fonte do bom e do mau. O que concorda com

a natureza do ser é bom; o que discorda dela é mau. Cada ser deve agir de acordo com sua

natureza

pecaminoso”.

tudo quanto segue o impulso natural é honesto; tudo quanto o contraria é

www.ieabrecife.com.br

14

Libertação e Sexualidade

Semelhante é a concepção de Reich, para quem “moral é para nós aquilo que, sob as condições dadas, de acordo com o nosso melhor entendimento, é útil para o desenvolvimento da personalidade do indivíduo e para o encaminhamento da coletividade a formas mais aperfeiçoadas de existência”.

No relacionamento entre sexualidade e moral, Reich faz uma advertência: “Não queremos que a atração sexual seja rotulada de pecado, combatida como algo baixo ou animalesco, e a ‘privação’ da ‘carne’ seja elevada a princípio de moral. Para nós, o homem é antes um ser unitário, sensorial e mental, cujas necessidades psíquicas e físicas têm o mesmo direito a cuidados positivos”. Para Oliveira, “O pecado nada mais é do que o abuso ou a inversão da ordem natural”.

Para os cristãos a questão se torna mais complexa, pois além da tensão entre instinto e cultura, natureza e moral, deve ser levada em conta, também, o fato da Revelação: a crença em um Deus que se comunica, propõe e demanda um projeto moral, para os indivíduos e as coletividades: o próprio Reino de Deus. Um Reino totalmente presente no passado (Éden), totalmente presente no futuro (Nova Jerusalém) e com amplas possibilidades de presença hoje (na História). Há um projeto geral para as nações, e um de caráter especial para uma parcela do povo que Ele convoca para ser o ensaio da Nova Humanidade: a Igreja.

A partir da Revelação os cristãos não encaram a natureza humana nem como “neutra” nem como “intrinsecamente boa”. Ao contrário, a natureza caiu. O pecado é o distanciamento da proposta original de Deus. Os cristãos, todavia, discordam entre si sobre o quanto da perfeição original permanece no ser humano pós-queda, e qual a extensão da negatividade adquirida.

Deus é absoluto e a Sua Palavra normativa, mas, apesar da iluminação do Espírito Santo, os leitores, intérpretes e expositores dessa Palavra não são infalíveis, não têm um fio ligado ao céu. Antes, são seres humanos (mesmo regenerados e aceitos pela Graça) integrantes da mesma natureza caída, falíveis, limitados. Todos se aproximam da Palavra usando lentes culturais, com um tempo e um espaço condicionantes, com uma herança e uma história de vida, com conceitos e pré-conceitos. A Ética cristã, como toda Teologia, é também Ideologia:

uma representação do real (as vezes invertida), materialmente determinada.

Em decorrência dessas limitações e condicionamentos, temos tido, ao longo dos séculos, uma profusão de divergentes e contraditórias escolas de pensamento, correntes teológicas,

Libertação e Sexualidade

movimentos e propostas. Correntes que enfatizam ou não enfatizam esse ou aquele aspecto da Revelação, que entendem essa passagem dessa ou daquela maneira. A capacidade de aglutinar seguidores, o apoio do poder político e econômico, a conjuntura, têm levado à hegemonia dessa ou daquela interpretação.

A Igreja tem aprendido o suficiente da Revelação (o Plano de Salvação), mas nunca

entendido – nem aplicado – a totalidade do revelado. Limitações no entender e limitações nas possibilidades de implementação. Entender o texto e o contexto do autor bíblico, o núcleo da mensagem; entender o contexto do leitor da Bíblia e como contextualizar, tornando vivo e atual aquele núcleo da mensagem: eis o desafio da tarefa hermenêutica.

Não há outro caminho, outra atitude, para o leitor bíblico e o teólogo, do que o caminho da humildade. O fanatismo, a intolerância e a repressão têm sido o resultado da pretensão de se ter “o verdadeiro conhecimento” até para detalhes da existência, por auto-identificadas “revelações”. Cristãos que se pretendem “médiuns” de Deus.

Para alguns, ainda, a Teologia é algo estático, e o que tal ou qual estudioso escreveu em tal ou qual época é tido como a interpretação, uma vez e para sempre, a nós cabendo apenas memorizar e repetir.

O fundamentalismo contemporâneo pretende tomar os textos ao pé da letra, negar os

condicionamentos culturais e achar que a sua leitura revela o óbvio, “o que está alí”. As outras

leituras seriam interpretações, “teologias” (pejorativamente), a deles não. Uma certa expressão do pentecostalismo tem concorrido para uma atitude antiintelectualista, pois no lugar da pesquisa temos oráculos. Enquanto isso o liberalismo tem concorrido para uma relativização da descoberta teológica, para uma atitude racionalista, muitas vezes minimizando o conteúdo e as possibilidades da Revelação.

O grande dado novo da Idade Contemporânea é o desenvolvimento científico, como

expressão do amor de Deus e como instrumento de compreensão, tanto da revelação natural quando da Revelação Especial (as Escrituras). O lançar mão do instrumental científico torna o resultado do estudo da Revelação mais acurado e mais verdadeiro, permite uma maior fidelidade ao sentido original e uma melhor aplicação à nossa realidade. A preocupação do cristão deve ser sempre com o sentido autêntico e não com as tradições, cada vez mais de difícil sustentação. Em vez de se sentir inseguro com esses questionamentos, o cristão deveria se sentir feliz por seu compromisso com a verdade.

Libertação e Sexualidade

Os cristãos acreditam na Revelação e em Absolutos, e estão conscientes de suas limitações na apreensão e na aplicação dessa Revelação e desses absolutos. Esses absolutos, pela natureza do ser caído, apenas podem ser apreendidos e vivenciados plenamente na Ordem da Criação e na Ordem da Restauração, e se constituem em alvos fáceis a serem constantemente buscados e promovidos na História. Mas os cristãos sabem também que nem todos os absolutos de Deus estão sendo ensinados (os da área sócio-político-econômica, p.ex.), e que nem tudo o que se ensina como absolutos de Deus são absolutos ou são de Deus, e que tradições históricas são elevadas ao status de revelação eterna, e que experiências culturais localizadas são elevadas ao status de moral universal.

No relacionamento Instinto-Cultura-Revelação, e, em particular no tocante à sexualidade, não se está advogando um relativismo, uma ética de situação, uma ética do “depende”, ou uma ética “revolucionária” ou naturalista, reduzindo-se a autoridade das Escrituras, mas não se pode construir uma ética cristã dissociada desses fatores. Uma ética cristã tem que levar em conta a natureza e a situação das pessoas, não pode ser algo legalista, rígido, frio, atemporal, acultural, enfiando os seres humanos, até à força, na letra da lei. Defendemos, como Charles Kraft, uma “equivalência dinâmica” entre o núcleo da revelação dada em uma cultura e a sua aplicação hoje em outras culturas. Há que se ver o que está o que não está nas Escrituras, o que é universal e o que é circunstancial, o que pensou o autor e o que se aplica à nossa situação.

Não propomos um relativismo ético, mas um pluralismo, uma diversidade histórica possível e necessária de alternativas, e um gradualismo, porque nem sempre se pode viver todos os valores ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, em todas as circunstâncias, e que nem todos correm a carreira da santidade com a mesma velocidade.

Propomos uma sintonia entre a compreensão teológica dos princípios éticos e as descobertas científicas sobre a natureza das coisas, pois, se a criação é uma só, qualquer choque ou divergência entre essas duas abordagens apenas indica limitações metodológicas em uma delas ou em ambas. Propomos uma ética de sanidade, pois a moral cristã não pode ser promotora de enfermidades. Uma ética que não seja negativa, opressiva ou repressora, mas que promova a realização do ser e sua busca da felicidade.

Em relação aos costumes, normas e práticas das diversas culturas, advogamos o esquema de Stephen Neil: combater as aberrações (o que se choca com a Revelação e é lesivo ao

Libertação e Sexualidade

bem); as imperfeições (o que está aquém do proposto pela Revelação) podem ser circunstancialmente necessárias, inclusive para evitar que outras coisas fiquem mais aquém do revelado e as adiáforas: o que seja indiferente à moral da revelação (comer de garfo ou de palitos, p.ex.) devem ser respeitados.

No estabelecimento do relacionamento ideal entre Instinto e Cultura, a ironia é que o tão temível Freud (que incomodou os cristãos conservadores por sua valorização da sexualidade) termina por se transformar em um inesperado aliado, quando advoga a necessidade de sublimar a energia sexual para se promover a cultura. Seria incompatível a livre satisfação da libido com a civilização. A libido seria sacrificada, subordinada à disciplina do trabalho, sujeita às atividades úteis à cultura. Interpretação contestada por Reich, por considerá-la sem base histórica, e que defende uma cultura feita por homens sexualmente satisfeitos.

Marcuse, por sua vez, conclui que essa visão freudiana (aqui aplaudida pela ética burguesa e pela ética protestante) gerou uma civilização tecnicamente avançada ao lado de ditaduras, desigualdades e campos de concentração. “Contudo, o progresso intensificado parece estar vinculado a uma igualmente intensificada ausência de liberdade”. Ele contesta a tese freudiana da inevitabilidade do conflito entre o princípio do prazer e o princípio da liberdade, e advoga uma civilização não-repressiva, que restaure a dimensão lúdica do ser humano. Poderão os cristãos concorrer para o estabelecimento dessa civilização libertária, quando liberdade é uma palavra desconhecida e que causa pavor ao homem cristão, associada a “chance para pecar” (e ser condenado)? Uma Teologia da Sexualidade, cremos, não deve ser elaborada à base de preceitos ou preconceitos, mas de conceitos.

Religião e Repressão Sexual

Preocupado com o que considera uma “religião de eunucos” no protestantismo brasileiro, Lysânias Maciel denuncia uma formação moralista que “os leva na direção de uma fiscalização do comportamento menor do homem ao invés de lutar pelos grandes temas da libertação da opressão, em qualquer de suas manifestações”, o que de certa forma vem corroborar com as observações feitas sobre o cristianismo do século passado pelo cientista político francês Maurice Duverger: “Para sustentar o capitalismo, um sistema social fundado sobre o egoísmo do lucro pessoal, o cristianismo do século XIX inverteu as prioridades, colocando no primeiro plano a virgindade das moças, a continência dos rapazes, a fidelidade conjugal e relegando ao segundo a fraternidade e a comunhão. O anátema sobre o sexo

Libertação e Sexualidade

substitui o anátema sobre o dinheiro. Fazer amor fora do casamento torna-se mil vezes mais grave do que explorar seu próximo, operário ou cliente”.

Reich já advogava a teoria segundo a qual, ao longo da História, e em seu processo de institucionalização, o cristianismo, que, originalmente, era um movimento socialmente revolucionário, uma força impulsionadora, afirmativa da vida, foi invertida, com a negação do sexual e a promoção do ascético e do sobrenatural.

Maciel aponta para uma pregação limitada à condenação de áreas do comportamento como

geradora de hipócritas e fariseus (“

ser o que não é”), e que aqueles que se dedicam à fiscalização do comportamento “terminam sendo vítimas de sua obsessão”.

no sentido bíblico, isto é, aquele que acredita

hipócritas

José Lima Jr. chama a atenção para a dificuldade do protestante integrar sua corporidade e vivenciar sua sexualidade, uma sexualidade atrofiada, “Essa quase castração é decorrente, também, de um desuso sistemático dos inúmeros sentidos do corpo – portas e janelas do

erótico

disponível em toda a materialidade corpórea. A sensibilidade capaz de saborear o imediato, de se embriagar com o pictórico, capaz de se eriçar com o sugerido, capaz de êxtase ante o

dessa sensibilidade com que o corpo

protestante se sente reprimido, e, muitas vezes, sem o saber porque já é insensível”. A ética

sexual protestante é tida como uma oportuna aliada na formação da moral burguesa, pois o capitalismo intensificou a repressão sexual por causa da dimensão lúdica da sexualidade, “a inutilidade do prazer ‘roubava’ ao capital muito da energia que seria vendida como força de trabalho”.

plástico, capaz de se emocionar com o toque

restringe a emoção

A Ética protestante, obcecada pela palavra, pelo logos

inibições e debilidades sexuais, que constituem as mais

importantes bases essenciais da formação da estrutura do pequeno burguês, são obtidas com a ajuda do medo religioso, que desse modo é preenchido pelo sentimento de culpa sexual, o qual se enraíza emocionalmente em níveis bastante profundos. É aqui que se origina o problema entre religião e negação do prazer sexual”. Essa debilidade sexual provoca a formação de caracteres rígidos, sempre procurando dominar a própria sexualidade, a defender a própria honra sexual, a resistir com coragem às tentações. “A imposição do autocontrole sexual, da manutenção da remoção sexual, leva ao desenvolvimento de idéias enrijecidas, caracterizadas por acentos emotivos de honra e de dever, de coragem e autocontrole”. Aponta- se, porém, para a contradição entre essa rigidez e a realidade do comportamento pessoal.

Para uma corrente psicanalista “

as

Libertação e Sexualidade

Pode-se perceber a semelhança entre a descrição do homem burguês e de muitos dos nossos cristãos, ou burgueses-cristãos, ou cristãos-burgueses.

O problema se torna concreto em nossas Igrejas com a sacralização de formas, modos, usos

e costumes. É uma tarefa inglória de querer parar a roda do tempo, em vez de procurar direcioná-la. Mais sério do que a cristianização de formas culturais é a criação, e o uso, de

mecanismos de controle para enquadrar os cristãos nesses moldes, uniformizando-os. Gasta- se todas as energias para enquadrar as pessoas e para combater o novo. Nisso parece se resumir a missão das igrejas.

O cristianismo evangélico, antes que um posicionamento teológico, tem-se constituído em

uma subcultura isolada, rígida, defensiva e exótica, que sacraliza modas e modelos – inclusive sociais, econômicos e políticos – perdendo o senso crítico de in-conformação e inovação. O enquadramento dos fiéis na mesmice é feito por meio do mecanismo denominado de “disciplina eclesiástica”.

Na história do protestantismo se desenvolveram duas concepções quanto à chamada “disciplina eclesiástica”. Uma a partir do modelo calvinista implantado em Genebra, com um rígido controle sobre a vida das pessoas, em cada detalhe, institucionalizando o “santo dedodurismo”. As pessoas eram controladas por área residencial ou de trabalho. Ou seja, a Igreja terminava por determinar todos os aspectos “corretos” para a vida, espionava, julgava e excomungava. Sendo a Igreja e o Estado ligados, a excomunhão tinha uma ampla implicação sobre a existência dos indivíduos.

Uma outra abordagem, de uma tradição luterana, com ênfase mais na Graça do que na Lei, mantendo o pecador exposto às Escrituras e aos Sacramentos, seguindo o seguinte raciocínio:

Se ele não está agindo bem em nosso meio, onde a Palavra é exposta, como se recuperará quando ausente desse ambiente e desse alimento?”. Sendo a Ceia do Senhor considerada um sacramento, um meio de graça, um alimento espiritual, ela ajudará o pecador a se emendar. Sua proibição – salvo para os empedernidos – apenas dificultaria a recuperação. Além disso, o padrão bíblico é: “Examine-se o homem a si mesmo”. Se ele comer e beber os elementos indignamente trará sobre si condenação. O próprio Jesus comeu e bebeu com Judas, mesmo conhecendo os seus malignos desígnios.

Libertação e Sexualidade

Entre nós predomina o modelo de herança calvinista e puritana da época das missões estrangeiras. Esse modelo segue, de certo modo, a tradição da Igreja romana medieval, sua civilização cristã” e seus “Estados cristãos”.

A excomunhão sempre esteve ligada ao poder político e eclesiástico. Quem tem o poder excomungar quem e por que? Não são passíveis de excomunhão os pecados dos que detêm o poder de excomungar: a glutonaria, a avareza, a maledicência, a desonestidade, a falta de amor etc. Os que pecam por omissão e por pensamento não levariam vantagem sobre os que pecam por palavras e atos? Podemos ter nossas listas, oficiais ou oficiosas, de pecados “mortais” e pecados “veniais”?

Voltamos, então, para o âmago da questão: costumes elaborados por seres humanos falíveis são sacralizados, exigidos dos fiéis, e acionada a disciplina eclesiástica para os pecadores (ou questionadores) recalcitrantes. Possuem as Igrejas ferramentas teológicas e antropológicas para “separar o joio do trigo”: a ética da cultura da ética da revelação? Estará apta para julgar? Poderá “atirar a primeira pedra”?

Podemos, pela adesão a usos e costumes, determinar quem é cristão e quem não é? “Ah – poderão contestar – a questão não é ser ou não ser cristão, mas estar ou não estar em pecado”. Todos pecamos, por pensamentos, palavras, ações e omissões, contra Deus, contra nós mesmos, contra nosso próximo e contra a criação. Pecado é ato ou condição humana (dos regenerados inclusive)?

Estamos absolutamente convencidos de que muitos cristãos verdadeiros estão fora das Igrejas (mas não da salvação) por não se submeterem aos costumes, enquanto que pseudocristãos estão na Igreja por bem se enquadrarem e obedecerem aos costumes e

tradições. “A maior Igreja – já afirmou alguém – é a Igreja dos ‘desviados’

”.

Escreve Caio Fábio d’Araújo Filho: “Uma Igreja que diz ‘só a Escritura é referencial absoluto da aferição de todas as realidades da vida e da salvação’, sendo ela própria Palavra de Deus, não pode disciplinar pessoas em função da ‘tradição dos anciãos’, ou de um ‘Tamulde denominacional regionalizante’, ou de uma ‘Misná evangélica’ interpretativa da Palavra de Deus. Quem diz ‘só a Escritura é a Palavra de Deus’ não admite que estatutos internos de Igrejas, se quebrados, possam dar base à disciplina de crentes. Disciplina-se mais na Igreja do Brasil por quebra de estatutos internos do que por desobediência cínica à Palavra de Deus”.

Libertação e Sexualidade

O que é ainda pior é que alguns cristãos, em virtude de fortes mecanismos de aculturação/

internalização terminam duvidando se são mesmo cristãos ou não. Muitos estão afastados, fora do convívio dos irmãos, privados de contribuir com seus dons e talentos, esfriados, amargurados, revoltados, sem encontrar o caminho da volta ou a porta aberta para a graça (quando todas as Igrejas de sua região ou cidade exigem a mesma coisa).

Outros rejeitam a graça porque internalizaram a culpa, consideram as outras Igrejas “mundanas” e somente voltarão quando atingirem “aquele” modelo de comportamento, o que provavelmente nunca acontecerá. Quantas vidas não foram destruídas, e quanto a causa do Evangelho não tem perdido, por causa de uma pintura, uma roupa, um namoro ou um divórcio?

Como, pois, se pode construir uma personalidade madura em um contexto onde a condição para a santidade é a perda da liberdade? Abdica-se da capacidade de escolha em favor da instituição eclesiástica, que passa a ditar as normas, dogmaticamente, sobre o que vestir, o que beber, o que comer, o que usar, o que fazer ou como se divertir. Em troca é dada a segurança de um ventre materno de onde não se quis sair ou da casa paterna onde se quer permanecer para sempre.

Como comunidades, e não como sociedades, com seu relacionamento primário, íntimo, de apoio e controle, as Igrejas se esquecem que o pluralismo (apesar da Inquisição) tem existido ao longo da História do Cristianismo, particularmente do cristianismo protestante. Evangélicos têm bebido e não bebido, fumado ou não fumado, dançado ou não dançado, usado e não usado determinadas roupas e adereços, casado e não casado. A falta de uma missão “para fora” (criar um mundo melhor) é compensada pelas “manobras de pátio” (atividades, querelas e controles).

A luta cristã por uma sexualidade libertadora é um desafio para os teólogos progressistas.

Muitos pensadores e líderes “liberais” praticam um fundamentalismo setorial: são liberais em

tudo e tradicionalistas no tocante à sexualidade. Os teólogos e líderes holísticos (Missão Integral da Igreja) têm ensaiado passos tímidos, por temor de reações. A Teologia da Libertação – desenvolvida principalmente no espaço católico-romano – tem sido silente, sob o peso de uma tradição ascética. Enquanto isso, psicoterapeutas cristãos (e também não- cristãos), carentes de uma formação em Ciências Sociais, não têm concorrido para a fomentação de inovações e diversidades de vivência de uma sexualidade libertadora, antes, têm se dedicado a “ajustar” as pessoas a condutas “normais”, o que não deixa de ser algo profundamente reacionário.

Libertação e Sexualidade

Capítulo Primeiro

Santidade e Sanidade

Sexualidade: Bíblica ou Pagã?

Na Antiguidade dois povos representaram dois protótipos em sua visão de sexualidade: os hebreus, o povo do Antigo Testamento, com sua visão positiva, encarando-a com naturalidade, e os indianos, bramanistas, com uma visão negativa, depreciando-a, reprimindo- a. O pensamento grego, com seu dualismo matéria má vs. alma boa, se aproxima das pressuposições indianas, especialmente depois dos contatos estabelecidos com a expansão do império macedônico.

O cristianismo nasce entre os hebreus, mas se desenvolve no ambiente greco-romano. A

glorificação da virgindade, o celibato clerical, o monasticismo, o isolamento dos eremitas, e

autocastração de Orígenes, a depreciação corporal dos anacoretas, são sinais e sintomas do afastamento da visão hebraica.

A Reforma protestante reagiu contra esse negativismo corporal-sexual (especialmente a

luterana), mas não conseguiu uma revisão mais profunda em virtude do peso das tradições. O

puritanismo vitoriano foi uma recaída, com o protestantismo repetindo os preconceitos anteriores, justamente em plena era de expansão missionária, com funestas conseqüências para a formação da mentalidade das jovens Igrejas.

Em nossos dias, em se tratando de sexualidade, a posição das igrejas, no geral, é baseada no paganismo, no medievalismo e na moral pequeno-burguesa, com uma roupagem e uma linguagem pretensamente bíblicas. A Bíblia aqui – como quase sempre – é “lida” por uma ótica cultural, e cujo resultado ideológico, tornado posição oficial ou oficiosa, é imposta coercitivamente aos fiéis pelos mecanismos institucionais. Uma ótica particular apresenta-se colada ao próprio texto bíblico, como se fosse uma mensagem revelada natural e direta.

Como o antigo é elevado ao status de eterno, criam-se situações paradoxais, em busca do real sentido bíblico, a recuperação de sua mensagem e relevância, são tidas como “heresia”, enquanto o que é tido como “ortodoxia” nada mais é do que um desvio histórico conjuntural localizável.

Libertação e Sexualidade

Sabemos que discutir ou questionar a Dogmática é menos arriscado do que fazê-lo em relação à Ética. A Escatologia ou o “estado intermediário” podem ser alvos de meras tertúlias acadêmicas, com implicações menores para quem opta por essa ou aquela posição. Fica-se no terreno do transcendente, do metafísico. Já em se tratando de questões como o divórcio, monogamia, poligamia ou celibato, a práxis resultante pode acarretar uma crise para os indivíduos ou para os sistemas, com os mecanismos repressivos agindo implacavelmente para manter ou restaurar “a ordem pública e os bons costumes”.

Óticas à Sexualidade

Sendo o ser humano um ser sexuado, todos os seus relacionamentos, suas interações, incluem, necessariamente, um componente de sexualidade. Esse componente pode ser visto a partir de quatro óticas que, dependendo do momento/ pessoa/ tipo de relacionamento, terá um de seus fatores preponderantes:

a) Ótica estética: quando se destaca a beleza (“Ele/Ela é bonito(a), é belo(a)”);

b) Ótica afetiva: quando se destaca o sentimento (“Gosto dele(a)”);

c) Ótica ética: quando se destaca o valor (“Ele/Ela é bom(boa)”);

d) Ótica erótica: quando se destaca a atração (“Sinto desejo de possuí-lo(a)”)

A contemplação do belo, o sentir das emoções, a admiração das qualidades, as afinidades de

gostos e aspirações, o desejo de um contato íntimo. Às vezes o sentir apenas uma dessas dimensões (ou algumas) põe em ação conflitos interiores, sentimentos de culpa, sintomas neuróticos. Discernir – aceitar – louvar – alegrar – viver – libertar. O mistério do ser. O mistério da vida. O mistério da comunicação. O mistério do amor.

O que prevalece? O

dom de

Deus, a tentação do Mal, o manto

pesado da Cultura?

Experiências libertadoras para a construção do Reino?

Sexo, Culpa e Graça

O que pode o ser humano fazer com a sua sexualidade:

Realizá-la:

a.1 – de forma estável, comprometida e heterossexual (ideal) – o que nem sempre é possível, por fatores interiores ou alheios à vontade (falta de condições, falta de parceiros etc.);

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a.2 – de forma instável, não comprometida ou mecânica com relacionamentos heterossexuais sucessivos e superficiais; a.3 – de forma homossexual, instável ou estável, o que não é recomendável; a.4 – de forma isolada pela masturbação.

b) Reprimi-la: violentando a natureza, o que traz conseqüências negativas;

c) Sublimá-la: canalizando a libido para atividades alternativas e compensatórias, de forma temporária ou permanente, quando possível.

A culpa é um ponto de encontro entre a Teologia e a Psicologia. A Graça pode ser outro ponto de encontro, que substitui o anterior. A culpa, quanto a sexualidade, tem afetado a saúde mental de milhares de pessoas, inclusive cristãs. De onde, então, pode ser originar o sentimento de culpa?

a) do Espírito Santo, quando nos procura convencer “do pecado, da justiça do juízo”, sintonizando com a Palavra impelindo à Graça, ao perdão e à restauração;

b) do maligno, quando, até usando a Palavra, procura manter as pessoas derrotadas, presas, autodestruídas;

c) da cultura, das tradições, dos ambientes, que alimentam negativamente o nosso superego.

Devemos, também, procurar distinguir o pecado da mera tentação, pois a tentação é parte do dia-a-dia da humanidade, e o próprio Senhor foi tentado.

A Igreja, como comunidade terapêutica, deve ser ministradora da Graça, visando o perdão e a restauração, visando a construção e a maturidade, visando a santidade e a sanidade, o que implica na aceitação do outro e no exercício do amor. O amor é o maior canal da Graça.

Deve-se enfatizar que o sexo não é pecado em si, e que os pecados sexuais não são nem mais nem menos importantes que os demais pecados, individuais ou sociais. Há, por sua vez, pecados sexuais e “pecados” atribuídos pela cultura ou pela subcultura religiosa. Não se deve ir, em se tratando de normas, nem aquém nem além do prescrito pelas Escrituras, como faziam os fariseus.

As práticas sexuais tidas como antinaturais são consideradas pecaminosas, condutas patológicas, enfermidades do ser nessa área, que podem ser saradas pela conversão e santificação = reconstrução do ser à imagem de Cristo-homem, pelo poder do Espírito Santo. O

Libertação e Sexualidade

que inclui, sempre que necessário e possível, uma ajuda psicoterapêutica, em um processo cujo ritmo não nos cabe fixar.

Distorções na Sexualidade

Os seres humanos, em sua natureza, estão aquém do ideal divino, em todos os seus aspectos: sentem ódio e dor, adoecem e morrem. Os regenerados, os revestidos pela Graça de uma nova natureza, ainda possuem em si a natureza antiga, com a qual lutam. São cometidos tanto de infecções quanto de neuroses. Se, em suas fragilidades, podem infringir os ideais divinos, o mesmo Deus poderá conduzir à superação, à vitória, ao crescimento.

Os padrões de Deus quanto à sexualidade (assim entendidos pela revelação escriturística) são como sinais de trânsito, de advertência de perigos, para a própria segurança, para o próprio bem dos que trafegam. É preciso estar atentos para eles.

É preciso ressaltar que Deus criou o ser humano com um corpo, indissociado de sua mente

e de seu espírito. Para Deus o corpo humano, obra das suas mãos, é bom. E para os cristãos

também, como morada do Espírito Santo. Somos seres integrais com diversas dimensões. Devemos, biblicamente, valorizar a nossa existência como seres corpóreos.

Deus, igualmente, criou o ser humano com um corpo sexuado (“e os fez macho e fêmea”). A sexualidade não veio com a Queda (pecado original), e, muito menos foi a própria. Ao contrário, a sexualidade estava nos planos originais de Deus.

A leitura das Sagradas Escrituras nos leva a afirmar certos parâmetros básicos, alvos éticos

construtivos, quanto à sexualidade. Diferentemente de meros costumes ou tradições, esses

padrões, quando rompidos, possuem uma dimensão patológica, de riscos, de danos, de negatividade, em si mesmos. Como tudo na vida, há uma permanente tensão entre os alvos éticos de Deus na Ordem da Criação e antiética representada pelo pecado na Desordem da Queda. Há um certo consenso na ética cristã de que:

a) por certo Deus destinou o ser humano a buscar a realização sexual com outros seres vivos. A necrofilia, ou atração sexual por cadáveres, fere esse padrão; b) Deus destinou o ser humano à realização sexual com outro ser da mesma espécie. A zoofilia, ou atração sexual por irracionais fere esse padrão;

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c) Deus destinou o ser humano à realização com o sexo oposto. O homossexualismo, ou atração pelo mesmo sexo, fere esse padrão;

d) Deus destinou o ser humano a se realizar sexualmente por livre manifestação de

vontade. O estupro, ou relações sexuais à força, fere esse padrão;

e) Deus destinou o ser humano à realização sexual por amor. A prostituição, ou relação sexual mediante remuneração ou recompensa, fere esse padrão;

f) Deus destinou o ser humano a relacionamentos estáveis, que crescem e se aprofundam. A fornicação, ou relacionamentos sexuais efêmeros e sucessivos, fere esse padrão;

g) Deus destinou o ser humano a relacionamentos na amplitude da espécie. O incesto, ou relacionamento sexual com parentes próximos, fere esse padrão;

h) Deus concebeu a atividade sexual como um ato de comunicação interpessoal. A

masturbação, ou auto-realização sexual solitária, quando opção permanente de um egoísmo sexual, fere esse padrão:

i) Deus deixou ao ser humano a incumbência e a capacidade de reprodução da espécie. Ele é a fonte da vida e condena a morte. O aborto, ou destruição do ser enquanto ainda

no útero, fere esse padrão;

j) Destinou Deus o ser humano a fazer da atividade sexual um ato construtivo de afeto. O sadismo, ou prazer em fazer sofrer, e o masoquismo, ou prazer no sofrer, com suas agressões e mutilações, fere esse padrão.

k) Destinou Deus o ser humano à integração de sua sexualidade com equilíbrio, dentro de uma pluralidade de atividades e interesses. A lascívia, sexocentrismo, sexomania ou obsessão sexual, fere esse padrão.

Alguns desses padrões, pelo distanciamento do comportamento contemporâneo em relação a eles, ou por dificuldades de compreender o seu significado ou implicações, merecem maiores considerações. Referimo-nos ao aborto, ao homossexualismo e à masturbação.

O Aborto

Segundo John Powell, SJ, em seu trabalho Aborto: o Holocausto Silencioso, 25 a 30 milhões de abortos foram provocados em todo o mundo no ano de 1968. Não há guerra que mate tanto. E isso em uma época com tantos, e acessíveis, meios de controle da natalidade.

Madre Tereza de Calcutá comenta: “Eles desejam tomar o poder de Deus em suas mãos.

Eles desejam dizer: ‘Eu posso fazer sem Deus. Eu posso decidir’. Isso é a coisa mais diabólica

que as mãos humanas podem fazer

”.

Libertação e Sexualidade

O extremo feminismo liberacionista tem lutado pela discriminalização do aborto em todo o

mundo, alegando o direito da mulher em dispor livremente do seu corpo, e que a garantia legal

para o ser humano somente deveria ocorrer depois do seu nascimento.

Para a Primeira Conferência Internacional sobre o Aborto, realizada em Washington, em 1967, “Não encontramos nenhum ponto entre o tempo da união do esperma com o óvulo e o nascimento da criança no qual possamos dizer que ainda não é uma vida humana”.

Para Paul Ramsey o feto está em “Processo de tomar-se o que já é”. Para o Papa Pio XII O bebê ainda não nascido, é um ser humano no mesmo grau e pelas mesmas razões que a mãe”. Para conhecido teólogo “O feto não é apenas parte do corpo da mãe, é parte da vida e da criação, começa com o ‘sopro da vida”’.

Em todos os países em que o aborto não é livre, há concessões legais. No caso da Inglaterra, pela Lei do Aborto, de 1967, as exceções são: 01. o risco à vida da mulher; 02. riscos de lesão para a mãe ou o filho, maior do que a gravidez interrompida; 03. riscos de nascimento com grave deficiência física ou mental. A Constituição Federal do Brasil, de 1988 representou uma solução de compromisso, pela ausência de maioria de um dos lados: o aborto não foi expressamente proibido ou a vida garantida desde a concepção, nem expressamente permitido.

A teologia evangélica tem unanimemente reafirmado a santidade da vida e do corpo e

condenado o aborto, enquanto apóia o planejamento familiar por meio de métodos não- abortivos de controle da natalidade. É bem verdade, contudo, que, a nível pastoral, temos que levar em conta fatores como a pobreza, a ignorância, as enfermidades mentais e físicas, a adolescência, o incesto, o alcoolismo, a gravidez não desejada (fruto da violência sexual, p.ex.) e a ilegitimidade cultural com suas pressões e discriminações. Não levando a uma auto- indulgência, mas ao arrependimento, ao perdão e um novo começo. Devemos exercitar compreensão, o amor e a capacidade de apoiar.

Lembremo-nos do grande compositor clássico Bethoven: o seu pai era sifilítico e sua mãe tuberculosa. Seu primeiro irmão era cego, o segundo irmão morreu pequeno, o terceiro era surdo-mudo e o quarto era tuberculoso. Ele foi o quinto irmão. Tecnicamente era um forte candidato a aborto. Quanto o mundo não teria perdido com isso?

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O Homossexualismo

No famoso “Relatório Kinsey” sobre a sexualidade do homem norte-americano, constata-se 4% de exclusivamente homossexuais, 10% de homossexuais por 3 anos e 37% de homossexuais ocasionais. 4% das mulheres entre 20 e 35 anos eram homossexuais. Dados do passado, de uma época ainda conservadora. Os dados atuais são muito mais altos. A propagação e a publicidade das experiências homossexuais são um dos mais espetaculares fenômenos mundiais ao nível do comportamento humano na segunda metade de nosso século.

Na Grã-Bretanha, clérigos e leigos militam no Movimento as Lésbicas e Gay Cristãos e no Movimento pelos Direitos dos Homossexuais. Nos Estados Unidos os homossexuais fundaram uma denominação protestante, a Igreja Comunitária Metropolitana, com congregações por todo o país. Grupos de pressão pró-homo proliferam nas denominações religiosas históricas no Velho e no Novo Mundos. Homossexuais assumidos são ordenados pastores. No Brasil o homossexualismo cresce nos arraiais cristãos, em geral reprimido ou encubado.

Os teólogos conservadores partem para o contra-ataque. Tony Heigton é peremptório: “A atitude das Escrituras a respeito dos atos homossexuais é, portanto, clara e consistente: eles são sempre errados e atraem o julgamento divino”. Gordon Wenham lembra a unânime condenação dos Pais da Igreja. O Sínodo da Igreja da Inglaterra, de 1987, estatuiu: “os atos homossexuais não preenchem o ideal divino”.

John Stott trata da questão com os seguintes princípios:

a) Somos seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, caídos, com potencialidades sexuais e problemas sexuais, como tal não devemos ter tratamento desumano com ninguém;

b) Somos seres sexuais: e isso é algo básico à nossa humanidade, é parte de nossa identidade;

c) Temos uma orientação sexual, existindo uma escala de tendências de homo e hétero;

d) Somos pecadores, inclusive sexuais, o que não é pior do que o orgulho e a hipocrisia;

e) Somos cristãos, devemos buscar padrões morais, dependentes da Graça de Deus. A Bíblia advoga a igualdade e complementaridade entre os sexos, e o heterossexualismo é o padrão.

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Ele faz uma distinção entre inversão, ou inclinação natural e perversão, ou opção moral

praticante. Não se é culpado da primeira, mas da segunda. É contra o amoralismo permissivo e

a discriminação, bem como a “homofobia” (raiva dos gays). Crê na possibilidade de libertação, em se adquirindo uma nova identidade em Cristo. Defende a aceitação das pessoas pelas igrejas, o estabelecimento de famílias alternativas e o papel das amizades de apoio.

Em termos de solução, Heighton defende que não se deve minimizar nem a força de vontade, nem a ação do Espírito Santo, qualquer que seja a origem do homossexualismo, e faz

um chamamento à autodisciplina e ao autocontrole, o que também se aplica a heterossexuais e

a celibatários, por opção ou por circunstância.

O Sínodo da Igreja da Inglaterra diz que a questão deve ser tratada com um chamado ao arrependimento e a um exercício de compaixão, e “que todos os cristãos são chamados a ser exemplos em todos os aspectos da moralidade, e que a santidade de vida é particularmente requerida dos líderes cristãos”.

Um amplo debate internacional vem sendo travado por pesquisadores no tocante às causas do homossexualismo. Os drs. John Green e David Miller, do St. Mary’s Hospital, de Londres, afirmam que “Não há evidência em favor de uma explicação genética para homossexualismo”, e “No momento a causa da homossexualidade permanece um mistério”. Apontam, dentre outros fatores, a desestrutura familiar, a excessiva ou escassa ligação com pai e mãe, condicionamentos e corrupção de menores. Para Masters e Johnson não há explicações monocausais, “a orientação homossexual é uma preferência aprendida”. Para o Gloucester

Report, de 1974, “

as

evidências médicas são inconclusivas”.

Para o psicólogo brasileiro Carlos Tadeu Grzybowski, uma das maiores autoridades evangélicas no assunto, encontramos três abordagens nos meios cristãos:

a) possessão demoníaca, defendida pelos setores conservadores e pentecostais, com terapias espirituais, tipo ritos de expulsão ou libertação (exorcismo), implicando na crença em curas instantâneas; b) o estilo de vida alternativo, defendido pelos liberais, que afirmam a impossibilidade de se mudar a orientação sexual, e que, em decorrência, não se é responsável ou condenável por tal orientação, que deve ser vivida em uniões estáveis. Pode-se ser cristão e homossexual. Textos como os de Gn.19 e Lv.18 devem ser reestudados em seu contexto, e as condenações ali incluídas não se resumam ao homossexualismo;

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c) o desvio de personalidade e comportamento, defendida por psicólogos cristãos, que consideram o homossexualismo um comportamento aprendido, desviante e pecaminoso. Distinguem o homossexualismo latente, em que há a atração sem a prática, não sendo pecado, do homossexualismo manifesto, onde há a prática de atos. O foco da condenação, então, não é sobre a pessoa, mas sobre os seus atos, sobre os quais ela exerce domínio.

Não haveria, para essa corrente, uma causa única, mas várias:

a) medo ou repressão: de se ter contato com o sexo oposto, de ver no sexo algo “sujo” ou pecaminoso”, de se ser vítima de situações traumáticas, como o estupro e as tentativas de violência sexual;

b) curiosidade: ver como é que é, aventura, mostrar que se é “liberado”, frustrações em relacionamentos heterossexuais;

c) relacionamentos familiares, mães que ensinam às filhas desconfiarem dos homens, ou aos filhos de desconfiarem das mulheres, crianças que convivem só com mulheres, expectativas frustradas em relação ao sexo do bebê, pais que transmitem aos filhos bloqueios em relação ao tema “sexo”, supermães e superpais, relacionamentos inadequados pais-filhos.

Para a Psicologia Profunda o homossexualismo seria um desvio da sexualidade normal, uma inversão. O invertido é aquele que tem sentimentos sexuais contrários, e podem ser divididos em:

a) absolutos: exclusiva atração pelo próprio sexo; aversão pelo sexo oposto;

b) anfigênicos: atração por um ou outro sexo;

c) ocasionais: dependendo de condições exteriores.

Procura-se demonstrar as impressões psíquicas que levam ao homossexualismo. A inversão pode ser eliminada. Ninguém é 100% de um só sexo, tanto biológica quanto psicologicamente.

Para a Teoria do Hermafroditismo Psíquico, o objeto sexual dos invertidos não é alguém do mesmo sexo, mas alguém que combine caracteres dos dois sexos; existe nele uma combinação entre um impulso que aspira por uma mulher e um que aspira por um homem, ao mesmo tempo em que permanece a condição primordial que o corpo do objeto (órgãos

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genitais) seja masculino; o objeto sexual dos invertidos é uma espécie de reflexo da própria natureza bissexual do indivíduo.

Como se dá a formação da personalidade desviante? Os invertidos, nos primeiros anos de infância atravessam uma fase de fixação curta e inversa em uma mulher (geralmente a mãe); a ausência de uma figura masculina forte (pai) favorece a inversão; passada a fase de fixação, na ausência do pai para a definição de papéis, irá ocorrer uma identificação com a mãe. Ou seja: a mãe é a mulher do pai; se a criança quiser alguém como mãe deverá agir como o pai para obter tal conquista. Dá-se a identidade do papel sexual correto.

O problema com a ausência do pai (papel) é que as crianças se identificam com a mãe e se

consideram eles próprios seu objeto de amor/sexual, vão a procura de alguém como eles próprios, a quem eles agora passam a amar como eram amados pela mãe (com quem estão identificados). A base do amor é narcísica/egóica/autocentrada. Não são imunes aos encantos das mulheres, mas continuamente transpuseram a excitação provocada pelas mulheres para

um objeto masculino (condição básica do narcisismo). Seu objeto de desejo compulsivo dos homens acabou sendo determinado por sua incessante fuga das mulheres.

Por sua vez, a libido – que não pode ser plenamente descarregada na união sexual – se converte em criatividade/energia criativa: como não pode “criar seres”, “cria coisas”, daí sua excelente performance nas artes, nas ciências e nos esportes.

O lesbianismo crescente é menos pesquisado, tendo pontos semelhantes e outros não com

o homossexualismo masculino, favorecido pela cultura que admite mulheres vivendo juntas e

se expressarem carinhosamente como algo “normal”, e pelo menor preconceito ao relacionamento genital que não implique em penetração.

Grzybowski não discorda da ênfase de alguns no pecado, arrependimento e exorcismo, mas tem poucas expectativas em transformações mágicas. A psicoterapia busca as causas, a aceitação das pessoas, o alívio da culpa, treina papéis diferentes e procura dinamizar a personalidade. A recuperação necessita de ambientes maduros, de amor e liberdade. Os homossexuais, como os heterossexuais (que inclui, também, condutas patológicas e pecaminosas) “são criaturas atingidas pelo sacrifício da cruz, alvos da graça e da misericórdia de Deus em seu amor pela miséria humana”.

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A Masturbação

A masturbação – ou polução voluntária – tem sido definida como “a procura solitária do

prazer, por meio de excitações realizadas com as mãos ou de qualquer outra maneira

origina, terminologicamente, dos vocábulos latinos mas (aparelho genital masculino) e turbatio

(excitação). Tem sido impropriamente chamada de onanismo, visto que o chamado “pecado de Onã” não foi a masturbação, mas o coito interrompido, e a desobediência em suscitar descendência dentro da instituição da levirato.

e se

Deve-se distinguir a masturbação infantil, da adolescente e da adulta. A masturbação infantil, com o reconhecimento e a integração do corpo pelas crianças, é um estágio normal do desenvolvimento da sexualidade. Os problemas que porventura possam surgir dessa fase não resultam da masturbação em si, mas da reação ignorante e culposa dos pais. Sem essas desastradas interferências paternas essa prática é superada tranqüilamente com o crescimento da criança.

A masturbação do adulto, particularmente do casado, ao contrário da infantil, é preocupante e pode carecer de cuidados clínicos. Pode significar uma prolongada adolescência, uma fixação ou um desajustamento ou insatisfação conjugal (salvo, obviamente, por ausência ou enfermidade do cônjuge). No solteiro, porém, tende a funcionar como mecanismo de compensação à atividade sexual normal.

Para o Dr. Hirschfeld 23% dos indivíduos praticam a masturbação antes dos 12 anos; 44% entre os 12 e os 14 anos e 32,7% depois dos 14 anos. A masturbação é uma prática generalizada na adolescência. Para um estudioso, referindo-se a essa fase: “A masturbação não é em si mesmo um comportamento anormal; pelo contrário, é uma etapa passageira na evolução da sexualidade, desde que entendida como substituição ou compensação das relações sexuais, e cuja prática será abandonada com a maturidade sexual ou com o estabelecimento de condições sexuais normais”.

Deve-se diferenciar a masturbação em seu aspecto mecânico da chamada “masturbação cerebral” ou “sonhar acordado”. Para Kinsey a primeira é mais encontrada entre os rapazes que as moças em uma proporção de 05 para 01; a segunda é mais encontrada entre as moças.

Libertação e Sexualidade

Ambos os tipos devem ser diferenciados, ainda, dos sonhos eróticos, também denominados de “polução noturna” ou “polução involuntária”, que se constitui em uma natural válvula de escape do instinto sexual.

A masturbação tem sido alvo de posicionamentos os mais contraditórios. Pensadores conservadores a tem denominado de “miséria” ou “o corpo do pecado da carne” (da expressão apostólica). Os Trobisch chegam a por a polução noturna e a excitação mútua dos namorados debaixo do rótulo de “auto-erotismo”. Eles fazem concessões à masturbação ocasional, para o alívio de tensões, admitindo, por exemplo, para viúvas, que a praticariam pensando nas experiências anteriores com seus maridos, mas condenam a prática habitual, como uma dependência, uma espécie de vício, inclusive para enfraquecer a vontade e se associar com fantasias eróticas. Que a masturbação não seria uma doença, mas sintoma de problemas mais profundos, como o relacionamento com os pais. Acham que o masturbador habitual tende uma fixação na fase auto-erótica, amando a si mesmo.

Afirmam aqueles autores que: “Lá no fundo, há um sentimento de insatisfação consigo mesmo e com a vida, que se tenta superar num curto momento de prazer. Mas não se

consegue ter sucesso. A satisfação desejada não é alcançada

satisfação desejada não é alcançada, a pessoa é tentada a repeti-la. Dessa maneira, um círculo vicioso é criado. Quanto maior a insatisfação, maior a tentação; quanto mais cede, mais fica insatisfeita. Quanto mais tentamos sacudir os grilhões, para que se afrouxem, mais apertados ficam. No final, fica-se girando em volta de si mesmo”.

É precisamente porque a

Advogam uma “renúncia” no lugar da repressão, e que os cristãos podem receber a graça de “esfriar”, limpando a mente e mudando de hábitos, “liberando-se” da masturbação.

A maioria dos cientistas rejeita tal posicionamento, afirmando normalidade e a inevitabilidade de prática, seja em uma etapa da evolução sexual, seja como mecanismo compensatório. Para Ellis tais teorias “não têm base científica e constituem uma máscara que velhos moralistas anti- sexuais ainda usam”.

Adler adverte para os riscos da masturbação imoderada e habitual, por condicionar um orgasmo mais cedo no homem e mais tardio na mulher, dificultando o ajustamento conjugal. No caso da mulher, não estimularia o coito normal pela ausência de uma “conecção psíquica” com o homem.

Libertação e Sexualidade

Reich condena a Igreja por aumentar a miséria do sentimento de culpa, acha que com exceção dos casos patológicos a masturbação é exclusivamente um substituto das relações sexuais. Ele diz que a maioria dos jovens vive uma “pseudoabstinência”, e que mecanismos como as carícias dos namorados, as bicicletas e roçar das coxas (para as moças) demonstram que “sob a aparência de abstinência é realizada toda a sorte de práticas sexuais”.

Para aquele autor os jovens têm apenas três possibilidades: abstinência, masturbação e relações sexuais. A abstinência pode ser parcialmente ajudada pelo trabalho e os esportes, mas, em geral, funciona como repressão da excitação sexual, com o medo da concupiscência e a inibição. A masturbação menos freqüente por parte das moças, significando uma repressão mais vigorosa, concorre para uma maior perturbação sexual feminina, e tem relação com o choro freqüente e os ataque histéricos.

Para Reich a masturbação mitiga até certo ponto os malefícios da abstinência sexual, mas que é uma prática insatisfatória e perturbadora em virtude da falta do objeto amado, e que isso enfraquece as relações com a realidade, dificultando a luta por um parceiro adequado. Ele discorda de outros terapeutas tidos como “liberais”: “Dizer que é inofensivo e natural é para reforçar uma abstinência que não pode ser realizada”. O grande conflito da puberdade seria a tensão entre a necessidade fisiológica e a incapacidade econômica e as condições legais para satisfazê-la. A sua opinião é que no lugar da masturbação houvesse condições de relacionamento sexual entre namorados.

Cremos que há uma relação entre excesso de auto-erotismo, problemas de relacionamento, solidão e ociosidade. Defendemos, na medida do possível, uma “terapia ocupacional”, com o trabalho, estudo, lazer, esportes etc. Ou seja, sublimação mais do que repressão. A masturbação não encontra condenação formal nas Escrituras e é algo biologicamente inevitável na evolução sexual das pessoas normais. A espiritualização pelo “esfriamento sexual” dos santificados corre o risco de acarretar problemas posteriores.

Concordamos com a recomendação do teólogo inglês Leslie D. Weatherhead, para quem não se deve encetar uma “batalha” de autodisciplina, vinculada ao excesso de sentimento de culpa. O cristão deve pensar na Graça de Deus, pensar em suas vitórias morais em todas as áreas da existência, e descansar, entregando todo o seu ser, nas mãos do Senhor.

Libertação e Sexualidade

Santidade e Sexualidade

Reconhece-se que as comunidades cristãs brasileiras não são exatamente um primor de sanidade mental. Que o digam os clínicos e as clínicas. Estamos bem distantes do ideal da Igreja como comunidade terapêutica, tão preconizado por teólogos do nosso século.

São problemas diversos, em geral resultantes de uma educação familiar e eclesial censora e deformadora, quando a desinformação ou a informação inadequada (e vivência idem) resultam em manifestações patológicas de variadas formas. Patologias que realimentam e são realimentadas por aqueles grupos sociais, se reproduzem nas novas gerações ou nos novos convertidos, desservindo a causa do Evangelho e atestando negativamente “o novo homem em Cristo”.

A questão pode ser psicológica, mas não deixa de ser teológica: vive-se como se pensa. Vive-se segundo uma cosmovisão: uma visão coerente do mundo, da vida, da história, de Deus. Aí estão as conseqüências. Busca-se trabalhar as causas. Cremos que a informação é importante, mas não é suficiente. É necessário uma mudança na forma de pensar, de encarar até as próprias informações.

Nenhuma geração tem, como esta, tantas informações disponíveis sobre o conhecimento da sexualidade, em seus diversos aspectos. Há, porém, uma grande distância entre os dados disponíveis e o conhecimento real. Aos níveis individual e coletivo, o peso das tradições segue valendo mais do que o conhecimento científico.

Enquanto isso a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a felicidade sexual como um dos requisitos para uma pessoa sadia. Felicidade sexual entendida – para OMS – como o conhecimento, a aceitação, a opção e a realização satisfatória da sexualidade.

Apesar da importância dessa dimensão do ser humano, costumes, preconceitos e instituições jogam um imenso papel em sua negação ou minimização, tanto ao nível teórico como na prática cotidiana.

Como construir pessoas sem a liberdade e o seu preço? Como ser Igreja sem o medo da liberdade? Como ser sadio sem integrar a sexualidade?

Libertação e Sexualidade

Cristo salva e o Espírito santifica? Sim. A Igreja deve ensinar todo o conselho de Deus? Sim. A Igreja deve padronizar, detalhar e uniformizar a vida dos cristãos? Não. Deus nos fez para a felicidade ou para a infelicidade? A Igreja apóia a busca da felicidade ou concorre para a infelicidade?

Não há compromisso com o Evangelho sem compromisso com a sanidade. Só o “adversáriose alegra com a insanidade. Não há sanidade excluindo-se a sexualidade.

Poderão os cristãos construir comunidades terapêuticas, comunidades de amor, comunidades da construção do ser, de aceitação, apoio e promoção, enquanto a Palavra e o Espírito fazem a sua obra? Comunidades centradas n’Aquele que chama a si todos os cansados e oprimidos para encontrar descanso, pois seu jugo é suave e seu fardo é leve?

Estarão os cristãos prontos para reconhecer que depois da salvação, como defende um psicanalista, “O cerne da felicidade da vida é a felicidade sexual”?

Libertação e Sexualidade

Capítulo Segundo

Família: Permanência e Mudança

Transição Permanente

A organização social se caracteriza por um contínuo processo de mudança. Embora haja uma tendência nas pessoas de achar que as instituições e valores em que vivem foram sempre assim e serão sempre assim, que em todos os lugares é a mesma coisa, e, se houvesse mudanças, os costumes do seu lugar seriam os melhores e os mais corretos. A essa visão de mundo condicionada por uma cultura e uma época em particular se denomina etnocentrismo.

Famílias amplas, clânicas, patriarcais ou matriarcais, patrilineares ou matrilineares, monogâmicas ou poligâmicas, cônjuges que se escolhem ou são escolhidos pela parentela, casamentos em idades diferentes, rituais diversificados, dão o colorido mutante dessa instituição social na diversidade do tempo e do espaço. A família já foi vista mais como uma unidade produtiva. A vida conjugal visava primordialmente a procriação. O controle da natalidade praticamente inexistia. O conhecimento da sexualidade era mínimo e distorcido. O prazer sexual não era esperado do matrimônio.

Na linha de estudos de Gilberto Freyre, um comentarista relata que “No Brasil, predominou, no passado, a família patriarcal, formada por pai, mulher, filhos, escravos, agregados (entre os quais se incluíam as numerosas amantes do senhor e seus filhos ilegítimos), e a autoridade paterna era absoluta e vitalícia sobre todo o grupo; num padrão que o historiador Capistrano de Abreu registrou como ‘pai taciturno; mulher submissa e filhos aterrorizados’. Esse tipo de família englobava apenas a elite, contudo. Para enorme maioria do povo predominava as uniões livres e pouco estáveis e formas de organização divergentes do padrão dominante da elite”. Tito Lívio de Castro nos mostra que no final do Império apenas um quarto dos brasileiros vivia em famílias estáveis.

Para José Carlos Ruy, “As transformações atuais indicam que a família como organização para proteger, dar afeto, perpetuar a espécie e educar os filhos, não é uma instituição estática, que possa ser apreendida através de um único modelo abstrato como sendo o melhor ou superior aos demais. Quando se desvia os olhos para as condições reais de sua existência, resulta a multiplicidade de aspectos que ela assume, refletindo a enorme variedade de soluções possíveis para as questões humanas. Além dos modelos de família conhecidos no Ocidente – como a família nuclear, formada por pai-mãe-filhos, noras, netos, outros parentes e

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dependentes – os antropólogos mostram que outros modelos existem e atendem igualmente às necessidades que levam os homens a viver em família”.

O atual modelo monogâmico nuclear, como bem lembra Carl Rogers, é uma instituição recente, uma instituição ocidental deste século: “A maioria das pessoas considera a família conjugal – pai, mãe e vários filhos – como a unidade de toda a civilização, visto que persistiu desde a aurora da história. Ora, nada pode estar mais longe da verdade. Não faz mais de cinqüenta ou sessenta anos que a família conjugal começou a existir como que à força, em decorrência da mobilidade cada vez maior da população. Antes disso, os parentes, a ‘família extensa’, a vizinhança, o clã, o grupo étnico constituíram outras tantas unidades de carinho e apoio para o indivíduo, com sua mãe e seu pai. A família conjugal é um desenvolvimento recentíssimo – e está funcionando cada vez menos. Nasceu de mudanças não planejadas e está se desintegrando em circunstâncias igualmente não planejadas – tudo isso no transcurso de muito menos de um século”.

Segundo Lia Fukui, da USP, no século XVIII 70% das famílias de São Paulo eram dirigidas por mulheres, enquanto os maridos estavam nas bandeiras em busca de índios e minas de ouro. Esse padrão vai mudando no século XIX e primeiras décadas do século XX, com uma maior presença masculina. Até a década dos 50, como demonstra o estudo de Emílio Williams em São Paulo, predominou a família ampla. Na década dos 80 já predominava a família nuclear, além da redução do número de filhos.

Os estudos do professor Louis Roussel, da Universidade de Paris, demonstram a predominância da família monogâmica nuclear no Ocidente até a década dos 60. A partir de 1965 crescem os divórcios, as uniões informais e as relações pré-matrimoniais.

Quanto à família norte-americana, o U. S. Census Bureau afirma que, em 1970, 30% dos filhos eram gerados fora do casamento, enquanto em 1980 esse número se elevava pra 48%. Em 1970, 21,7 milhões de famílias eram dirigidas por mulheres; em 1980 subia para 35 milhões, ou seja, 11%, do total. Em 1980 o censo demonstrou que o sexo era comum entre adolescentes.

Segundo o Internacional Center for Research, 25 a 33% das famílias do mundo inteiro são dirigidas por mulheres. No Brasil, em 1970, 13% das famílias eram dirigidas por mulheres, conforme pesquisa de Lia Fufui e Maria Christina A. Bruschini. Em 1986, segundo o PNAD, esse número havia aumentado para 18%. Entre 1970 e 1980, 30% das famílias rurais estavam

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sem pai, em virtude de abandono e migração em busca de trabalho. A CNBB aponta motivos profissionais: marinheiros, caminhoneiros etc. Fukui ressalta as grandes obras de engenharia e o garimpo de Serra Pelada.

podem-se “

encontrar arranjos diversificados de organização familiar que fogem ao padrão

tradicionalmente aceito. Esses arranjos, que os números frios do censo ocultam, podem indicar

tendência de evolução de família

”,

afirma a professora Bruschini em sua tese.

No que se refere às famílias pobres, Fukui conclui que “Para o povo, não existe família irregular. Ele se vira como pode em uniões, enfrentando uma situação de pobreza histórica e que impõe sua própria dinâmica”.

No Brasil urbano-industrial, que substituiu o Brasil rural-agrário, sente-se a transição do modelo de família. Isso gera insegurança e saudosismo. Alguns se sentem uma “geração cobaia”: o antigo se foi e o novo ainda não se estabeleceu. Diríamos mais: poucas gerações foram o suficiente para presenciar a mudança do modelo familiar patriarcal para o modelo familiar restrito semipatriarcal, e estamos experimentando alterações desse mesmo modelo.

As rápidas mudanças tecnológicas e de costumes tornam ainda maiores as distâncias entre as gerações e obsoleto o modelo familiar de ontem e de antes de ontem. A violência dos grandes centros urbanos, a corrupção de menores, as drogas, o alcoolismo e o desemprego afetam a vida familiar. Toda a questão da autoridade foi revista quando a mulher e os filhos têm os próprios meios de subsistência e até colaboram para o orçamento doméstico. O clássico controle sobre os jovens se torna inviável quando os mesmos freqüentam escolas mistas distantes. Não funciona nos grandes centros o enquadramento coletivo das pequenas cidades, onde se desempenha os diversos papéis sociais na mesma comunidade.

Trabalho, estudo, amplas alternativas de lazer, televisão, diminuem o diálogo e distanciam os integrantes da unidade familiar. O homossexualismo e o bissexualismo parecem abalar fundamentos solidamente estabelecidos. O machismo tem sido responsável pelo feminismo. Os anticoncepcionais afetam os costumes, disciplinam a reprodução e liberam as exigências da sexualidade. É a civilização pílula-motel.

Os conservadores respondem com campanhas “em defesa da família”, reforçando os controles do Estado ou aumentando a censura sobre os veículos de comunicação social.

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Talvez seja preciso um apelo à serenidade, ao bom senso, olhando o horizonte com os pés no chão. A necessidade, todos sabem, é a mãe das invenções. Deus não perdeu o controle da História, nem os homens de hoje possuem uma natureza mais pecadora do que os do passado.

A grande novidade de nossa civilização ocidental é que temos, progressivamente, substituído o monolitismo ideológico e institucional por um pluralismo de propostas e práticas. Uma sociedade pluralista demanda respostas inteligentes e criativas, demanda sensibilidade e abertura, demanda equilíbrio e maturidade.

O pluralismo da sociedade industrial e pós-industrial, portanto, está conduzindo para um

pluralismo de formas de organização familiar. Além do que, na diversidade das individualidades, cada família é uma família diferente, cada caso é um caso. A sociedade poderia – pergunta Rogers – estar madura para, mantendo exigências mínimas, reduzir sua pressão de enquadramento e permitir uma criatividade na área dos relacionamentos, como

permite e apóia na área das invenções tecnológicas? Embora a Antropologia ateste, as mudanças tecnológicas são mais facilmente aceitas do que as mudanças culturais, especialmente costumes.

As Mudanças Constitucionais

A nova Constituição Federal, resultado de amplo debate nacional, inclusive de emendas

populares, é bastante inovadora nessa área:

a) Reconhece a família como base da sociedade e a ela se destina a proteção do Estado;

b) Mantém o valor jurídico do casamento celebrado em cerimônia civil ou religiosa;

c) Reconhece a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, também sob a proteção do Estado;

d) Entende, semelhantemente, como entidade familiar, a comunidade formada por qualquer dos pais (casados, separados, divorciados, viúvos ou solteiros) e seus descendentes;

e) Atribui direitos e deveres iguais para os homens e as mulheres;

f) Reduz os prazos para o divórcio;

g) Extingue o limite de vezes para o divórcio.

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Isso está consentâneo com o dispositivo que afirma que “Todos são iguais perante a lei, sem

distinção de qualquer natureza

”.

O reflexo maior, porém, das mudanças constitucionais, incidirá sobre as crianças, até então não titulares de direitos próprios, na dependência do pátrio poder ou da tutela e divididos em diversas classificações, status e direitos. Agora são titulares de direitos e, reza o texto constitucional: “Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”.

Naturais” vs. “artificiais”, “legítimos” vs. “ilegítimos” ou “adulterinos” são invenções humanas. Diante de Deus e da Lei todas as crianças são apenas filhos, quaisquer que sejam os vínculos entre os seus genitores, ou como já definia o Direito Escandinavo; “Uma família é um filho com os seus pais”. Com a nova Constituição, unidos no papel ou não, filhos no papel ou não, todos são iguais. A Lei se adequa ao fato social e a vida e o amor triunfam sobre as tradições e os preconceitos.

Comentando o realismo, a atualidade e a relevância das mudanças constitucionais, o Jornal do Brasil (11/09/1988) aponta para as alterações familiares no país, particularmente entre a classe média urbana, e destaca algumas práticas não convencionais crescentemente encontradas em nossos dias:

a) as entidades familiares, uniões estáveis, casais que vivem juntos à margem do papel; b) as entidades familiares formadas por um dos pais e seus descendentes, destacando- se:

1. As “Produções Independentes”: moças de classe média que decidem ter filhos sem se casar com o pai da criança. Varia o compromisso do pai: total, algum ou nenhum, em termos de nome e assistência financeira ou emocional; 2. As “Produções Alternativas”: filhos gerados fora dos padrões da estrutura familiar tradicional, por acordo, mas dependentes tanto da figura materna quanto da paterna; c) poligamias (inclusive unidomiciliares): dando o exemplo das compositoras X e Y, que vivem a 15 anos na mesma casa com o fotógrafo Z. Cada uma tem dois filhos com ele. X é casada legalmente e sua amiga Y forma uma entidade familiar por união de fato, com o consentimento da primeira.

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Os Cristãos e as Mudanças

Constatamos, então, a impossibilidade de sacralização ou “congelamento” do atual modelo familiar, atribuindo-o caráter de perenidade ou de uma antiguidade que o mesmo não possui. A família é tanto uma instituição divina como é uma instituição social, encontrada em uma diversidade de culturas, variando sua conceituação e sua forma constitutiva.

As instituições sociais dão estabilidade aos sistemas, regulam a vida em sociedade, inibem os irresponsáveis, mas, como criações humanas relativas, não podem ser sacralizadas pela Teologia nem pelas Igrejas cristãs.

Os ideais cristãos devem ser vividos dentro do possível de cada época e lugar. É preciso viver o possível de hoje. Não se pode, por outro lado, colar a missão da Igreja a determinado modelo ou modelos históricos, nem a Igreja deve entrar na contra-mão da História, em uma atitude reacionária, desgastante e inglória.

Referindo-se ao catolicismo-romano e sua atual sacralização da família conjugal, escreve José Carlos Ruy: “Nada indica, porém, que a Igreja terá sucesso aqui – mesmo no passado, sua habilidade em impor um modelo de organização familiar foi muito limitado. Embora dominante nas sociedades modernas, o modelo que sua doutrina indica está longe de ser o único existente nas sociedades humanas, passadas ou atuais. Os estudos da antropologia têm demonstrado que ele é resultado de uma evolução lenta, multilinear, e que ainda está em curso”.

Em relação ao protestantismo, que tende a identificar o conteúdo da revelação com a proposta econômica, política e cultural norte-americana, as dificuldades para tratar com uma situação de mudança e pluralismo é destacada por José Lima Jr.: “De fato, de um modo moderno, a ética protestante não refere o equívoco patrístico-medieval de se reduzir a sexualidade à procriação, mas o protestantismo acaba limitando a sexualidade ao sexo circunscrito no casamento, no matrimônio legalmente estabelecido. A ética protestante acata eclesiasticamente aquilo que se declara juridicamente nos espaços do poder legislado pelas classes dominantes.”

Se, sem negarmos os nossos princípios, como cristãos, não estamos preparados para dialogar com o novo ou criar o novo, pior para nós, pois as mudanças se fazem e a História se

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constrói conosco, sem nós ou contra nós. Talvez nós é quem mais estejamos a carecer de mudanças, a partir das atitudes.

Famílias e Classes Sociais

Nunca é demasiado frisar que em uma sociedade de classes não se pode falar em família, como uma generalidade, mas em famílias, tantas sejam quanto classes existam. Rose Marie Muraro analisando a composição da sociedade brasileira faz uma diferenciação entre a família burguesa, a família camponesa e a família operária – particularmente o papel do corpo – dando também um papel diferenciado à família de classe média.

Para ela a família burguesa recebe toda a mais valia econômica e erótica da sociedade e sua função é reproduzir as condições de reprodução do capital”. Em sendo assim “o corpo da burguesia é formado por corpos de homens e mulheres altamente montados e produzidos para

o prazer e o consumo. Ainda mais: para o exercício do poder”.

No tocante às normas de comportamento “os burgueses normalizam a transgressão das normas que eles próprios criam. Isto é, exportam-nas para as outras classes sociais. Em outras palavras: o legalismo burguês, isto é, as normas oficialmente tidas como boas são apenas uma ideologia que não recobre tudo o que acontece na realidade. Existe toda uma franja de experiências, valores que admitem transgressões que não são a ideologia oficial, mas são um ilegalismo legalizado. Os padrões legais e legalizados são apenas padrões e exemplos para os outros”.

Enquanto isso a família camponesa produz e reproduz a sua força de trabalho. Sua reprodução biológica se faz por leis diferentes da burguesia. “O corpo é voltado para a força e

a produção. Os homens são muito genitalizados

uma sexualidade anestesiada, mas erotizando a reprodução, e isto de uma maneira muito ambígua”. Do ponto de vista moral são muito normatizados, colocados diante do problema das transgressões, das sanções morais e religiosas.

As mulheres mostram viver tendencialmente

A família operária é tida como o locus da reprodução da força de trabalho. Dela se retira a

mais-valia para as outras classes (a burguesia, a classe média) o que deve incluir uma mais-

valia erótica

distorcida pela cultura de massas; os operários com corpos dóceis e normalizados”.

operárias interiormente divididas e com uma percepção de seu corpo

as

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Moralmente se acham divididos entre os padrões tradicionais e os padrões urbanos, embora mais próximos da cultura criada pela classe hegemônica.

Por fim a classe média moderna, não diretamente ligada à produção. “Seu comportamento aparece mais liberto das normas tradicionais, muito mais do que a própria burguesia. Por não terem patrimônio nem poder para defender, e por terem acesso ao saber e dinheiro para viver, podem dispor de seu comportamento com mais liberdade do que as outras três classes sociais”. Esta seria a família que mais se distancia das normas impostas pela burguesia “aproximando-se antes dos segmentos médios dos países mais avançados”.

Para Muraro o papel dos homens e das mulheres é diferente em cada um desses tipos de família, suas percepções, desejos, realizações, valores, temores. Ao mesmo tempo, deve-se ressaltar que a dominação sexual (discriminação da mulher, o seu papel no mercado de trabalho, as diferenças de salário) é a base da dominação de classes no Brasil. O movimento feminista se equivoca quando não questiona o modelo de Estado, pois “a infra-estrutura econômica bloqueia as transformações comportamentais”.

Marxismo e Monogamia: Divergências

A questão dos modelos de vida sexual é tratada pelo marxismo clássico principalmente por Engels em sua obra. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, e por Marx em A Ideologia Alemã. Os então jovens autores estavam procurando combater a ideologia a- histórica da eternidade desses modelos. Eles negam o uso de um conceito abstrato de “família” e afirmam que a família burguesa se mantém unida “pelo tédio e pelo dinheiro”.

Engels é profundamente influenciado pela obra de Lewis H. Morgan (Ancient Society) e procura mostrar a diversidade dos modelos de família em sua evolução histórica:

promiscuidade, matrimônio por grupos, poligamia, monogamia. Família consangüínea (que inclui incesto), família punualuana (exclui incesto), família sindiásmica (uniões por grupos), considerada em parte uma evolução e em parte uma forma de opressão de um sexo sobre o outro, a supremacia do homem. A família burguesa se fundamenta na defesa da propriedade privada e da herança. A família operária seria mais autêntica, por não depender de bens para a sua estabilidade.

Enquanto critica a monogamia existente, propõe uma monogamia ideal para a futura sociedade socialista. Para Engels a monogamia nasceu da concentração de grandes riquezas

Libertação e Sexualidade

nas mãos de um homem e do desejo de transmitir essas riquezas, por herança aos filhos deste homem, excluídos os de quaisquer outros”.

A questão é o vínculo de origem propriedade privada-monogamia. O que acontecerá com a monogamia após a revolução e propriedade social? Desaparecerá quando desaparecerem as

de desaparecer, antes há de se realizar

plenamente”. O amor sexual originário da Idade Média que vinha sendo usufruído apenas por alguns, serão então socializados. Todos os homens serão absolutamente monógamos, porque a mulher será livre.

suas causas? Engels responde que

longe

Em seu pensamento o matrimônio só se realizará com toda a liberdade quando “supridas a produção capitalista e as condições de propriedade criadas por ela, forem removidas todas as considerações econômicas acessórias que ainda exercem uma influência tão poderosa na escolha dos esposos. Então o matrimônio já não terá outra causa determinante que não a inclinação recíproca”.

Continua afirmando: “E desde que o amor sexual é, por sua própria natureza exclusivista – embora em nossos dias esse exclusivismo só se realize plenamente sobre a mulher – o matrimônio baseado no amor sexual, será por sua própria natureza, monogâmico”.

E prossegue: “Mas o que, sem sombra de dúvida, vai desaparecer da monogamia é o conjunto dos caracteres que lhe foram impressos pelas relações de propriedade, a que deve sua origem. Esses caracteres são, em primeiro lugar, a preponderância do homem e, depois, a indissolubilidade do matrimônio”.

Conclui citando Morgan: “A família é produto do sistema social e refletirá o estado de cultura desse sistema. Tendo a família monogâmica melhorado a partir dos começos da civilização e, de uma maneira muito notável, nos tempos modernos, é lícito pelo menos supor que seja capaz de continuar seu aperfeiçoamento até que chegue à igualdade entre os dois sexos, se num futuro remoto, a família monogâmica não mais atender às exigências sociais, é impossível predizer a natureza da família que sucederá”.

Lênin, enquanto crítico da moral burguesa pré-revolucionária, termina por defender a estabilidade dos “valores morais históricos” para a família pós-revolucionária. Desagregar a família burguesa para fazer a revolução e usar a família monogâmica para manter o socialismo. Afirma: “Esse respeito velado pela moral burguesa me repugna tanto quanto essa paixão pelas

Libertação e Sexualidade

questões sexuais. Essa pode até se revestir de formas subversivas e revolucionárias: essa preocupação é, no final de contas, puramente burguesa. Dedicam-se a ela, de preferência, os intelectuais e os outros estratos que lhe são mais próximos. Não há lugar no partido, no proletariado, para esse tipo de preocupação”.

Daí o preconceito marxista em relação à psicanálise, como individualista e pequeno- burguesa, e sua crítica a Reich, considerando utópico por ligar a libertação sexual às transformações gerais profundas.

È Juliet Mitchell quem nos lembra que a Revolução Soviética, no início tinha uma legislação avançada, com divórcio livre e automático, fim do conceito de ilegitimidade etc. O stalinismo restaurou ferreamente a tradição, dificultando o divórcio e recolocando o conceito de ilegitimidade.

Publicava, em 1939, o Diário Oficial do Comissariado da Justiça os seguintes conceitos:

O Estado não pode existir sem família. O casamento é valor positivo para o Estado Socialista Soviético somente se o casal o considera uma união para toda a vida. O chamado amor livre é uma invenção burguesa, e não tem nada a ver com os princípios da conduta de um cidadão soviético. Ademais, o casamento tem seu pleno valor para o Estado somente se houver prole e seus cônjuges experimentarem a profunda felicidade de serem pais”.

Os países do socialismo reais têm-se caracterizado por seu puritanismo e por sua absolutização da monogamia. Um viajante à China de Mao comentava: “O marxismo conseguiu o que o cristianismo tentou em vão por séculos: transformar um país em um mosteiro”.

O posicionamento dos clássicos do marxismo, e do socialismo real, é rebatido pelos pensadores do marxismo posterior. Massimo Conevacci critica a dependência de Morgan por parte de Engels, pois Morgan defendia um “evolucionismo ingênuo já demolido pela antropologia moderna” contraposto por Levy-Strauss em sua obra: As Estruturas Elementares do Parentesco. Acusa a sociedade socialista de “herdeira da racionalidade autoritária burguesa” e de “realizadora de sua utopia”, não entendo afirmativas como as do sociólogo soviético A. Kharchev, para quem “a monogamia socialista deriva diretamente da espiritualidade e não da propriedade”. Engels é acusado de puritanismo, embora o autor não faça referência à origem dele de uma família pietista.

Libertação e Sexualidade

R. Riche, por ele citado, chama a atenção para o fato de que “O amor e a fidelidade foram considerados em união com a sexualidade tão-somente numa época bastante tardia de nossa cultura ocidental, e sob formas muito diversificadas em ‘outras’ culturas. As restrições sociais foram impostas e interiorizadas com uma crueldade terrorista inimagináveis, a partir do casamento monogâmico-patriarcal inspirado pelo direito romano e aperfeiçoado pela moral cristã”. Finalmente, “a burguesia uniu, num férreo triângulo, amor, casamento e sexualidade; e, no interior desse triângulo, no capitalismo avançado, a família tornou-se realmente a célula do Estado”.

Para os neomarxistas, “manter essa herança burguesa é manter as mesmas contradições e cisões históricas”. E que “toda sociedade requer e requererá um certo grau de reconhecimento social institucionalizado. Porém, não há nenhuma razão pela qual deve existir uma única forma válida de experiência legítima e uma multidão de experiências não legitimadas”.

Família: Alienação ou Engajamento

O casamento tem representado, para muita gente, uma oportunidade, ou uma tentativa, de

escapar de algo desagradável em sua experiência existencial: a pobreza, a falta de perspectivas, os relacionamentos negativos com os pais ou familiares, uma “nova chancediante das opções frustrantes anteriores. É uma “tábua de salvação”, a qualquer preço.

A família nuclear ocidental contemporânea tem sido relacionada a símbolos tais como

ninho”, “oásis”, “abrigo”, “castelo” etc. Ou seja, um lugar seguro onde se pode refugiar de um

mundo adverso. Há toda uma ideologia alienante envolvida: a busca do conforto e da segurança, o evitar dos riscos, pensando no futuro das crianças etc. Os próprios meios de comunicação nos passam a mensagem do “não se comprometa”.

Epitácio Fragoso Vieira colocou na boca de um dos seus personagens a expressão:

Casamento é o túmulo dos revolucionários”. À mulher, particularmente, se apela para que desempenhe esse papel de “domadora”, de domesticadora, de agente de alienação: “meu filho, não se meta nessas coisas”.

Um conhecido líder religioso brasileiro chegou a propor, para os cristãos, um “triângulo de felicidade“: Lar – Trabalho – Igreja. Ou seja, o indivíduo deve passar a vida indo de casa para o trabalho e de casa para a igreja. Não participando de nenhuma organização ou movimento fora do “triângulo”, como os partidos políticos, os clubes de serviço, os sindicatos, as associações

Libertação e Sexualidade

de moradores etc. É o que poderíamos chamar de esquema conservador e alienante de felicidade familiar.

Constatamos, também, o caráter ideologicamente conservador e pequeno-burguês das pastorais familiares cristãs, induzindo sentimento de culpa, mecanismos de alívio (catarse) e “reenquadramento” na “normalidade” da moral tradicional.

Em uma pastoral familiar não se pode buscar a construção de uma felicidade “intra muros”, pessoal ou grupal, sem conectá-la com o macro sistema sócio-econômico iníquo que rodeia essas famílias. A felicidade requer, além da “paz doméstica”, a paz com Deus e a paz entre os homens (que, para a Bíblia, é fruto da Justiça).

Na diversidade de situações, devemos ter tantas pastorais quanto sejam as famílias: dos milionários, dos favelados, dos bóias-frias, com suas peculiaridades e especificidades.

Se não se trabalha em proposta de pastorais pluriclassistas, pode-se estar alimentando a realidade das classes como “natural e inevitável”, e se realimentando o próprio sistema de classes.

Seria justo, por parte das pastorais familiares cristãs, menosprezar os não-casados legal e monogamicamente? Seria válido concorrer para alienar a família de seus deveres de cidadania e dos riscos do santo inconformismo (Rm.12:2)?

Na crítica marxista à família na sociedade capitalista aponta-se para a sua instrumentalização na transmissão ideológica, na alienação e na sustentação do sistema: “devemos trabalhar, sermos honestos, enriquecer e não nos meter em política (ou se se meter, que seja sempre a favor)”. Ora, com famílias assim não há mudança possível, não há a “revolução” (deles). Pois bem, depois de implantada a “revolução”, a família volta a ser instrumentalizada, agora pelo novo regime.

Como o compromisso básico dos cristãos é com os valores do Reino e não com as utopias humanas, com os modelos históricos, a família cristã deveria ser uma preocupação para todos os poderosos, por fomentar personalidades independentes e críticas, sacrificiais, lutadoras pela paz, pela justiça, pela liberdade, enfim, pelo bem do próximo, profética, questionando e procurando mudar as instituições opressoras, manipuladoras, provadoras dos direitos humanos.

Libertação e Sexualidade

Se a felicidade se liga à capacidade de doação e a relacionamentos terapêuticos, não deveríamos propor um novo “triângulo de felicidade”: Evangelização – Orgasmo – Revolução? Lares que se constituam em comunidades de adoração e proclamação do Evangelho e onde os cônjuges se relacionem sexualmente do modo melhor possível e onde se aprenda a servir e, inconformadamente, mudar o mundo para melhor. Isso vai desde a militância partidária,

sindical ou estudantil ao apoio concreto a obras filantrópicas, a projetos de desenvolvimento ou

à adoção de órfãos, passando pelo tratamento digno aos servidores domésticos.

Uma família cristã poderia, então, ser definida como: uma estável e afetiva comunidade evangelizadora, onde os seus membros se realizam sexualmente e se engajam nos processos de mudança social que visam o bem-comum.

Divórcio: Ameaça ou Solução?

O divórcio é um dos maiores fenômenos sociais do Ocidente no século XX. Um em cada três casamentos na Grã-Bretanha e um em cada dois nos Estados Unidos termina em divórcio. 35% dos casamentos britânicos são recasamentos. Naquele país a taxa de uniões legalmente desfeitas cresceu em 600% em 25 anos. Comparando as estatísticas, verificamos incidências maiores nos países protestantes do que nos países católicos-romanos, devido a uma secularização mais crescente ali, bem como a ausência de uma visão sacramentalista do matrimônio.

A emancipação da mulher, os novos padrões de emprego (com ambos os cônjuges

trabalhando fora), o desemprego, a ansiedade financeira e as leis civis mais fáceis são apontadas como causas concorrentes para o fenômeno divorcista. Por outro lado, os teólogos

e eclesiásticos chamam a atenção para a perda da compreensão da santidade do casamento

como um contrato permanente. Em 1850 apenas 4% dos ingleses se casavam só no civil; em 1979 já 51% optavam por essa modalidade secular.

O divórcio era encontrado nas culturas antigas, séculos antes de Cristo, e, embora não

encorajado, era permitido no Antigo Testamento (Dt.24:1-4) como concessão à imperfeição humana. As escolas rabínicas de Hillel e Shammai tinham abordagens diferentes, em liberalidade ou restrições às causas que o justificariam. De qualquer modo, o divórcio implicava no direito a um novo casamento.

Libertação e Sexualidade

A atitude de Jesus (Mt.5:32) era de endossar permanência do casamento, reconhecer a lei

mosaica como uma concessão e considerar a sua licitude tendo por base razões morais.

Paulo inclui o direito ao cônjuge cristão abandonado pelo não-cristão de se divorciar (I Co.7:10; Rm.7:1-3).

A maioria dos Pais da Igreja era pela indissolubilidade. Posição que seria posteriormente

assumida pela Igreja Romana, embora na Europa medieval o casamento não fosse nem monogâmico nem indissolúvel (podia ser rompido por esterilidade, incesto, ruptura de alianças etc.).

Os Reformadores Protestantes tendiam a aceitar o divórcio por razões morais, concedendo apenas à parte tida como “inocente” o direito a um novo casamento. Essa é a posição dos teólogos conservadores em nosso tempo.

A cláusula de licitude moral esbarra na controvérsia sobre a redução da palavra original

grega pornéia. Para uns era um pecado particular, único, como a prostituição ou o adultério. O que parece mais consentâneo com o sentido da palavra é uma interpretação abrangente –

imoralidade sexual – como o listado em Levítico, bem como toda sorte de crueldade e perversão. Tudo isso implicaria em uma “quebra” do pacto matrimonial.

John Stott, por exemplo, só admite o divórcio em alguns casos e condena o recasamento. Sua posição é contestada por David Atkinson, que contra-argumenta: “A dificuldade do seu ponto de vista é que na prática pastoral isso pode levar a um tipo de legalismo que pode tornar- se negativamente casuístico”. Para o professor Oliver O’Donovan a Igreja necessita criar tipos de arranjos institucionais que equilibrem a crença na permanência do matrimônio com a crença no perdão do pecador arrependido. Há, no caso, uma tensão entre Lei e Graça.

Sabemos que o ideal divino são as uniões permanentes, vitalícias. A Bíblia está cheia de referências defensoras da estabilidade matrimonial e contrárias às separações. A permanência conduz ao aperfeiçoamento, à maturidade. As rupturas, em geral, são traumáticas e dolorosas.

Essa também deve ser a posição das Igrejas: tudo fazer para a manutenção; tudo evitar para separação. Não de modo legalista, mas de modo pastoral. As Igrejas devem ter a humildade, porém, para reconhecer que não podem exigir o que não deram. Se elas não concorreram para

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a preparação dos cônjuges, não podem fazer exigências legalistas, inclusive de cunho disciplinar.

Todos se preocupam com a facilidade com que as pessoas se “descasam” hoje em dia. São os casamentos “descartáveis”, formais ou informais. Não são, contudo, os mecanismos exteriores da lei civil e eclesiástica que mantêm as pessoas juntas.

Há de se ver que, não ser nos casos de perturbação mental ou notória irresponsabilidade, ninguém se divorcia por brincadeira. Ninguém, em sã consciência, se casa pensando em se divorciar. Há sempre um ânimo de permanência. O divórcio é uma experiência dolorosa que se procura evitar. É em si mesmo um sofrimento e uma sansão.

O divórcio, todavia, é um remédio para a imperfeição do gênero humano em alcançar o ideal

divino. Remédios são para os enfermos e não para os sadios. A ruptura da união conjugal não

se constitui em pecado imperdoável. O matrimônio não exige o exercício da infalibilidade.

O divórcio pode tanto ser amparado por regulamentação normativa escriturística: abandono

do cônjuge e do lar e imoralidade (pornéia) quanto por ato restaurador da Graça de Deus: um novo recomeçar na estrada da vida. Devemos nos lembrar que, a despeito das aparências,

nunca uma das partes é “culpada” sozinha.

Quando o permanecer é impossível ou reconhecidamente pior que a ruptura, devem os cônjuges, de forma equilibrada, se esquecer das coisas que para trás ficam e buscar as que diante de si estão (Fl.3:13). Os filhos da Graça não adoram a um Deus sádico.

Cremos que há matrimônios que Deus uniu, e que assim mesmo podem fracassar, não por causa de Deus, mas pela natureza dos cônjuges. Há matrimônios que o homem uniu em virtude do dinheiro, do status, da atração física etc. E, também cremos, há matrimônios que o demônio uniu, e quanto mais cedo cair fora dele melhor. Embora saibamos que os matrimônios de uniões humanas e satânicas também podem ser salvos pelo poder transformador do Evangelho.

Todos concordamos com a necessidade se reafirmar os princípios bíblicos ideais, de melhor preparar os jovens cristãos para o casamento e de se desenvolver um ministério de reconciliação e restauração.

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No Brasil o divórcio foi tardiamente introduzido, em virtude da ingerência indevida da Igreja Romana, que obrigava, a partir da Constituição Federal, os membros das outras igrejas e os sem-igrejas a se submeter ao seu ponto de vista. A nossa legislação atual é moderada, não encoraja separações, mas trata de situações de fato pré-existentes. A lei do divórcio não concorreu para o aumento de separações. A Constituição de 1988 fez bem em reduzir os prazos para as separações de fato (dois anos) e de direito (um ano) para se ter direito a um novo casamento, bem como a eliminação da cláusula restritiva a uma só vez.

No passado, as Igrejas protestantes brasileiras ora aderiam cegamente à lei civil, discriminado e penalizando os separados, ora estabeleciam uma “benção matrimonialalternativa para os seus membros. A mudança de legislação tem levado as Igrejas a uma surpreendentemente rápida mudança de atitude, embora muitas delas ainda mantenham uma abordagem legalista e casuística.

Uma Sociedade Pós-Conjugal?

O aumento da taxa de divórcio no Ocidente faz soar um sinal de alarme. O divórcio é como

febre: sintoma da enfermidade do modelo matrimonial. O divórcio, e outros problemas não são uma ameaça à continuidade da instituição familiar, mas parte do processo de mudança no modelo de família. Estará a solução na tentativa de se manter, a todo custo, esse modelo, ou em se apoiar as pessoas na busca de novos modelos satisfatórios em nosso tempo e em nossa cultura?

O processo de mudanças de costumes deste século se acelera após a Segunda Guerra

Mundial e tem o seu momento mais crítico na conturbada década dos anos 60. Os anos 70, por sua vez, se caracterizaram por uma consolidação de conquistas, uma “digestão” das novidades e uma continuidade mais lenta e menos ruidosa. Os anos 80 são marcados pelo surgimento de

uma nova onda conservadora, inclusive nas idéias política e econômica. É a década do presidente Ronald Reagan, da primeira-ministra Margareth Tatcher e do Papa João Paulo II. No mundo socialista, ao contrário, é um período de mudanças maiores, com o surgimento da era Gorbatchev e sua Perestroika.

Crescentemente, se ouviu no Ocidente um novo (velho) discurso moralista. Muito se falou em um “retorno aos valores familiares”. Em 1982, com a propagação do herpes, a revista Time, em uma reportagem de capa, falava que estava “novamente em voga (hesitante) a castidade”. Na segunda metade da década os conservadores conseguiram um novo aliado microbiano: a

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AIDS, provocando, para alguns, um fenômeno de abstenção em massa. O recado de alguns veículos de comunicação parecia ser: por a libido no congelador.

O sexo foi novamente associado ao pecado, ao perigo e à consciência da morte. “É o retorno a uma atitude pré-moderna”, afirmou Richard Goldstein, colunista do Voice. Passou-se a associar a heterodoxia sexual com a patologia e a violência, como no filme Atração Fatal. Verificou-se, ao mesmo tempo, um ressurgimento do fetichismo (como a valorização das roupas íntimas), das casas de strip-tease e das revistas, filmes e vídeos pornográficos. O fazer, por medo, é substituído pelo ver.

Por um lado, diminuíram as orgias e os relacionamentos fortuitos, os homossexuais buscaram maior estabilidade com os parceiros e as atividades heterossexuais parecem tender para um maior recato, menos irresponsabilidade, maior preocupação com o envolvimento e com o afeto. Uma espécie de “freio de arrumação”. Por outro lado, não há nenhum indicador de um retrocesso ou de uma parada ao processo de mudanças de comportamento.

Os motéis não foram à falência em massa. A década dos 80 termina com metade das moças norte-americanas tendo sua primeira relação sexual antes dos 15 anos, e 65% das mulheres britânicas entre 16 e 24 anos perdendo a virgindade antes dos 16 anos. Continua a expansão do repertório sexual: 90% das mulheres ouvidas por uma pesquisa da Universidade da Califórnia praticavam o sexo oral como preâmbulo. Nos Estados Unidos, verifica-se um aumento do número de mães solteiras, e uma maior aceitação do fato. 2,4 milhões de famílias são de uniões estáveis, com seus cônjuges não casados legalmente, um terço delas com filhos. Diminui o número de divorciados que voltam a se casar. Em 1970, 205 em cada mil se casam novamente; em 1985, essa taxa tinha decrescido para 122 em cada mil.

Pensando na década dos 90, afirma o psicólogo Eli Colema, presidente da Sociedade para o Estudo Científico do Sexo: ”Estamos avançando para uma variedade de formas de relacionamento familiar”, o que incluiria na família “imediata”, até os cônjuges de casamentos anteriores.

Em relação ao quadro brasileiro, comenta um analista: “Nada indica que a família esteja falida como instituição. Ao contrário, as pesquisas mostram que seu prestígio permanece

é que a família está em transformação, e ninguém sabe qual é o rumo que vai tomar;

esta é uma questão em aberto”.

sólido

Libertação e Sexualidade

Para Curt Suplee, do The Washington Post, “…a família nuclear simplesmente explodiu”. Novos estudos de dados do recenseamento mostram que estamos evoluindo para uma “sociedade pós-conjugal” caracterizada por maior número de solteiros, mais coabitações e mais nascimentos sem casamento e mais famílias chefiadas por mulheres. “O casamento”, escreve um pesquisador, “tornou-se um estilo opcional de vida”.

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Capítulo Terceiro

Monogamia: Desafios e Possibilidades

Conceitos de Casamento

Poderíamos entender o casamento como uma união estável entre pessoas de sexos diferentes, na forma da Lei ou à sua margem. Poderíamos destacar quatro conceitos de casamento:

a) Conceito Teológico: como união espontânea de sexos diferentes, em afeto, diante de Deus e com ânimo de Permanência; b) Conceito Cultural: como realização de ritos de passagem prescritos pela tradição da comunidade, com seus componentes simbólicos e de legitimidade (música, roupa, lua- de-mel etc.); c) Conceito Eclesiástico: como realização específica dos rituais litúrgicos de cada culto (proclamas, celebrantes, juramentos, orações etc.); d) Conceito Jurídico: como o que prescreve a legislação civil de cada país (papéis, cartório, taxas, juiz etc.).

Adão e Eva realizaram apenas o casamento em seu sentido teológico. Entre os hebreus do Antigo Testamento, e entre os cristãos dos primeiros séculos realizava-se, também, o casamento em seu sentido cultural (festa das bodas).

O casamento eclesiástico é uma criação muito posterior, oficializada primeiro pela Igreja

Católica Romana ao apogeu da Idade Média. Segundo Alzon, o casamento era consensual e só no final do século XII se torna solene. Para Chauí, o casamento é transferido da casa paterna para a Igreja (primeiro à porta; depois para dentro) “garantindo o controle eclesiástico sobre a sociedade”.

O casamento jurídico, especificamente, tem ou não existido na história dos povos. Para

Chauí Somente com a consolidação das revoluções burguesas, com aquilo que alguns designam como o ‘desencantamento do mundo’ (isto é, a perda do poderio religioso católico- romano sobre a sociedade) e com o advento do Estado moderno, o casamento passou a ser cerimônia civil, sob o controle do Estado”.

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O chamado casamento civil é bem recente em alguns países. No Brasil é dos fins do século

passado. Até então, entre nós, o casamento na Igreja Romana (apenas nela) tinha efeitos legais e os das diversas outras religiões não eram reconhecidos, sendo seus cônjuges considerados “amancebados”.

O conceito teológico do casamento traduz o seu núcleo central. Os demais conceitos são

adjetivos, conjunturalmente importantes e necessários, mas não essenciais. A prática religiosa contemporânea, contudo, e infelizmente, parece ter invertido essa escala de importância. O formal, o cerimonial, o “papel passado” se tornam centrais e não o amor, a responsabilidade e a qualidade dos relacionamentos. Foi preciso a criação de outros “papéis passados” (desquite,

primeiro; divórcio, depois) para se encontrar uma saída, também formal, para o não funcionamento do primeiro “papel”.

Vai-se na onda do Estado e da Cultura e não se faz uma reflexão bíblico-teológica apropriada. É a civilização das aparências, a civilização da forma, a civilização cartorial.

Comentando o sentido da cerimônia matrimonial em nossa cultura, escreve uma psicoterapeuta que “o ato de casar, de assinar um papel perante a sociedade satisfaz basicamente a moral, as tradições. Do lado emocional procura-se tornar concreto o sentimento do amor, dá segurança, exalta o sentimento de posse. É a idéia de pertencer a alguém, de perder um pouco da individualidade. A origem é a segurança de pertencer à mãe no ventre. O amor é o sentimento que dá segurança. Como as pessoas ainda não amadureceram o suficiente para confiar apenas nele, precisam de uma garantia. O casamento é visto como uma garantia”.

Para Reich, “A certidão de casamento em si não constitui o casamento. A certidão de casamento para o inconsciente do homem sexualmente tímido nada mais é do que uma permissão para manter relações sexuais”.

Para que serve – e tem servido ou deve servir – o casamento e a família?

a) Em uma dimensão social, para o companheirismo e a complementação (não é bom se estar só);

b) Em uma dimensão lúdica, a realização sexual, que mais do que um intercurso físico, deve incluir uma dimensão de prazer e de mútua recreação;

c) Em uma dimensão afetiva, o apoio mútuo, a expressão dos sentimentos;

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d) Em uma dimensão cultural, a transmissão de valores, usos e costumes; e) Em uma dimensão econômica, o suprimento mútuo das necessidades materiais básicas; f) Em uma dimensão biológico-demográfica, a procriação, criação e educação dos filhos, o exercício da paternidade e da maternidade responsáveis. O que inclui o planejamento familiar e o controle da natalidade com sensatez e realismo. A infecundidade e a não procriação em razão de extremos riscos à saúde ou impossibilidade de provisão à prole, por miserabilidade absoluta, não descaracterizam o objetivo familiar. Os casais sem filhos podem desempenhar tarefas específicas, enquanto a adoção é sempre uma possibilidade de inestimável valor. A não procriação, porém, por motivos fúteis ou egoísticos (“para não perder a forma”; “não gosto de crianças”) é, porém, uma deformação.

Ao Estado cabe normatizar o fato social. Ao Estado Democrático cabe estabelecer uma legislação que atenda ao conjunto dos cidadãos, respeitados os direitos das minorias. À Igreja cabe alimentar o fato social com uma dimensão ética, que parta da Revelação e não das tradições do próprio Estado.

Uma legislação que tente “amarrar” os fatos sociais apenas concorre para afastar o Estado da Sociedade e desgastar a Lei, por sua ineficácia. O Direito de Família deve ser dinâmico, amplo e genérico, ajustável ao processo de mudança cultural e à diversidade de situações. As Igrejas, por seu turno, devem evitar o desgaste de fazer cavalo-de-batalha em torno de expressões conjunturais do casamento e da vida familiar, como se fossem “ditados do céu”. Somente sairá desgastada com as mudanças que inevitavelmente vão ocorrendo.

Matrimônio e Pré-Matrimônio

O relacionamento que é conhecido em nossa cultura como “namoro” nada mais é do que

uma forma cultural de conhecimento mútuo, tendo como possibilidade posterior o vínculo conjugal. Em algumas culturas do passado ou atuais, não existe o “namoro”, permanecendo formas de arranjos familiares. No Brasil, passamos de tímidos bilhetes ao “expediente” na casa da moça para formas cada vez mais amplas de interação.

Já o noivado era um compromisso seriíssimo entre os judeus. Equivalia ao casamento sem a

posse física (o que acontecia após as bodas). No passado ocidental, segundo Alzon, o noivado era um contrato contraído entre duas famílias, com pagamento de arras e penalidades

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em caso de ruptura, e havia casos em que não mais poderia se casar quem os rompesse. Quer dizer que o noivado era mais do que uma simples promessa de casamento, mas um verdadeiro casamento por antecipação”. No Brasil, já figurou como contrato perante a Lei. Hoje perdeu muito de sua solenidade, constituindo uma espécie de “estado intermediário” de direitos e deveres a caminho do casamento, rompido com cada vez maior facilidade e menor trauma.

Uma preocupação é com os níveis “lícitos” de intimidades no namoro e no noivado. Não creio que hajam regras fixas. O que parece ser uma “liberalidade” dos tempos presentes nada mais é do que uma volta a situações passadas. Para o historiador norte-americano Jack Larkin, na era vitoriana dos Estados Unidos era comum as relações pré-maritais durante o namoro: “Para muitos casais as relações sexuais eram parte de um namoro sério”. A gravidez freqüente era um prelúdio para o casamento. Quase um terço dos noivos da zona rural da Nova Inglaterra já estava com seu filho no dia do casamento, e isso era aceito pela comunidade. “Nos idos de 1820, quase todos os norte-americanos teriam subscrito a noção comum de que sexo, dentro de adequados limites sociais, era apreciável e saudável, e que a prolongada abstinência sexual poderia atingir a saúde. Eles teriam assumido também que as mulheres possuíam poderosos impulsos sexuais”. Havia, na época o costume do “Bunding”: os casais de namorados, ou noivos, compartilhavam a mesma cama sem se despir (muitas vezes usando roupas especiais), com o apoio das mães, para expressão e conhecimento mútuo.

Somente nos meados do século XIX – descreve Larkin – chega o vitorianismo, vendo o sexo como “prazer animal”, encorajando as mulheres a abrir mão da “paixão carnal”, como algo inapropriado ao seu papel de mães e donas-de-casa. A atividade sexual passou a ser moralmente suspeita e psicologicamente arriscada, provocadora de debilidade e irritabilidade, segundo um livro da época que recomendava aos rapazes “dieta, exercícios e uma rotina regular, que fazia a mente esquecer esses prazeres animais”. A forma de namoro passou a ser reprimida, redefinido o desejo sexual masculino e feminino, reduziu-se o tamanho da família e, obviamente, o número de noivas grávidas.

Para Reich, o final do século XIX e o início do século XX, com uma maior ênfase na virgindade feminina há um aumento da prostituição pela falta de objetos sexuais femininos, dissemina-se uma dupla moral (moral para os rapazes vs. moral para as moças) e as relações sexuais vão deixando a esfera privada para se tornar questão de Estado.

Ao contrário, nas últimas décadas ocorre um declínio da prostituição pela reintrodução (e introdução em alguns países) da juventude feminina na vida sexual. A posição de Lindsey,

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entre outros, é que a substituição do bordel por moças da mesma classe é melhor e também mais moral. Para ele, “Os novos padrões morais se modificam, e estou convencido de que sairão vitoriosos, se não conosco, então sem nós”.

Um cronista social brasileiro chama a atenção para o número crescente de noivas que se casam grávidas, com a festa dentro do figurino (sem falar nas não-grávidas, mas não-virgens). Casamentos um tanto apressados, mas já com uma expressão carinhosa por parte dos parentes e amigos: “A noiva está gordinha”. São comentários compreensivos sobre algo que já vai se tornando lugar comum: “Ah, essa juventude atual é assim mesmo”.

Segundo Roberto Freire, “Uma vez livres das repressões sexuais e políticas através do sexo, os jovens descobrem que a sensualidade é a mais clara e intensa, a mais verdadeira e real sensação de estar vivo”.

Como mudança na apreciação sobre os fatos, um cronista brasileiro usa a expressão “mãe celibatária” para aquela que assume e curte o seu próprio filho “numa opção heróica”: “A mãe solteira, assumida, consciente de suas responsabilidades é a mãe coragem”. Isso se relaciona com a irresponsabilidade nas paternidades, da falta de compromisso e seriedade de muitos pais apenas biológicos.

Para o bispo Spong, “o sexo fora do matrimônio pode ser santo e altruísta em certas

circunstâncias”, e que a igreja relações sexuais comprometidas”.

deve

encorajar as pessoas não casadas a estabelecer

Creio que os cristãos devem buscar uma “via média” entre o mero platonismo e o ato sexual propriamente dito. Supõe-se que a intimidade cresça à medida que crescem: a) os sentimentos; b) o conhecimento mútuo; c) o compromisso; d) a aproximação do vínculo matrimonial, formal ou informal. Sendo o bom relacionamento sexual uma das condições para o sucesso conjugal, algum indicador deve ser inferido ainda nesse período preparatório. Se a virgindade de ambos os sexos é um alvo ético cristão, a socialização dos custos sexuais (todo o mundo assumindo o ônus) é um mal menor do que a dicotomia virgindade de algumas vs. prostituição de outras, com umas “pagando a conta” das outras.

A preocupação cristã com a pureza deve equivaler à sua preocupação com a santidade:

crescimento no caráter à estatura do homem Jesus, atestando o fruto do Espírito, e deve ter um sentido amplo, abrangente, construtivo, positivo, na promoção do Reino de Deus, e não

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uma compreensão reducionista pagã: puro é o que não se expressa sexualmente. Namoro ou noivado puros seriam os assexuados, reprimidos. O noivado puro é o noivado maduro, comprometido, ajustado, sadio.

Os namorados ou noivos que chegam ao pleno ato sexual podem estar caracterizando uma das seguintes situações:

a) Fornicação, pela superficialidade, irresponsabilidade e ausência suficiente de sentimento-conhecimento-compromisso (os “programas” ou “amizades coloridas”); b) Uma antecipação matrimonial parcial, com apenas o casamento teológico, sem casamento jurídico, cultural e/ou eclesiástico, como ensinava Lutero, que o considerava escandaloso (possível impacto negativo na sociedade), mas não pecaminoso, especialmente em se tratando de noivos com autêntico compromisso cristão. Na verdade eles estariam se casando, e se, depois, “acabassem” o namoro ou noivado, após o ato conjugal, estariam realmente se divorciando.

Teólogos e eclesiásticos contemporâneos – tanto protestantes quanto católicos-romanos – têm estabelecido uma distinção entre:

a) Relações pré-conjugais: fornicação, prostituição etc.; b) Relações pré-cerimoniais: entre noivos ou namorados comprometidos.

No caso, deve-se atentar para as diferenças de conteúdo e não de forma. Não se pode equiparar as duas situações. A esse respeito afirma o Sínodo Nacional da Suíça: “Existem situações em que dois indivíduos percebem claramente, e em pleno clima de responsabilidade mútua, que um adiamento prolongado de qualquer relação íntima poderia diminuir ou por em perigo o seu amor”.

E, ainda: “Se por um lado não se pode aprovar a opinião que considera as relações sexuais completas antes do casamento como a coisa mais natural do mundo, por outro lado, uma condenação indiscriminada de relações pré-matrimoniais existentes, seria uma injustiça em relação àquilo que existe entre as pessoas. É evidente que as relações sexuais ocasionais com um parceiro qualquer devem ser avaliadas diferentemente de relações íntimas entre noivos que se amam e já se decidiram por um compromisso definitivo, mas ainda se vêem impossibilitados de contrair matrimônio por motivos de força maior”.

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A crise financeira e a pressão social para a aquisição de símbolos de status (decoração,

imóvel, eletrodomésticos, automóvel etc.) concorrem para uma crescente incidência das relações pré-matrimoniais entre jovens cristãos. Como esse é um dado recente em nossa cultura (e não-ostensivo), ainda não tem sido tratado sincera e adequadamente ao nível ético, teológico e pastoral.

Depõe um noivo cristão de nível universitário: “Os jovens estão experimentando, com base ou à margem dos ensinos bíblicos, uma nova concepção/prática da sexualidade. O sexo dessacralizou-se. Não invoca mais ritos de fertilidade, nem é causa do pecado. É, sim, o resultado de um processo de aprofundamento de uma relação entre duas pessoas. O problema é que nem sempre se pretende que essa relação seja duradoura/definitiva. Entre os cristãos encontramos uma tríplice interação: Koinônica (como irmãos em Cristo), de amizade e de prazer mútuo”. E prossegue: “Nessa evolução de consciência pode-se estar recuperando o verdadeiro sentido bíblico do casamento: uma nova revolução sexual (nos domínios social e eclesiástico) por inanição dos casamentos jurídicos e cerimoniais tradicionais, rompendo, isto sim, com a orientação capitalista do controle da propriedade por meio do registro civil do casamento”. O que nos parece estar acontecendo é a manutenção das cerimônias como tradição, mas esvaziadas da sua essencialidade original.

É Snoeck quem nos chama a atenção para a prática européia antes do Concílio de Trento

(século XVI) de que a norma era a solenização e a valorização do noivado e não necessária publicidade do casamento, que seguia, em geral, as seguintes etapas: consenso – relação sexual – cerimônia. É apenas com aquele Concílio que, de modo absoluto, ocorreu uma inversão das etapas: consenso – cerimônia – relações sexuais. E Chauí nos lembra o costume de ter relações antes era para verificar a fecundidade da noiva, em uma época de alta taxa de mortalidade.

Para um melhor equilíbrio da sexualidade de namorados e noivos, é cada vez mais necessário um sólido conhecimento científico e teológico da questão, uma sadia convivência social com os de sua idade de ambos os sexos, um ambiente familiar estável (difícil de se encontrar na sociedade industrial brasileira de hoje) e permanentes mecanismos de sublimação, como o lazer, os esportes, o trabalho, a leitura, os hobbies, as atividades filantrópicas e religiosas, que têm o seu próprio valor.

Seria positivo que os jovens evitassem os ambientes e as companhias notoriamente lascivas, e o se expor de formas várias à pornografia, que são cientificamente incorretas, moralmente

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deturpadas e psicologicamente danosas. O ideal seria nem a repressão nem a hiperexitação artificial.

As relações pré-conjugais e pré-cerimoniais tendem a se tornar conduta legitimada no Ocidente, representando uma revolução quanto ao mito histórico do hímen e da virgindade feminina (virgindade física vs. virgindade moral) e um desafio para deslocarmos nossa ênfase do casamento como instituição sócio-jurídica-eclesiástica para entendê-lo como um relacionamento interpessoal, desburocratizando-o, encarando-o de modo menos farisaico e mais humano e cristão. Um desafio, igualmente, para um repensar e uma revalorização do noivado como compromisso livre e maduro.

Deve-se encorajar as famílias para que compreendam as tensões sexuais porque passam os namorados e os noivos desta geração, que devem ser apoiados, mesmo a um casamento financiado pelos pais, indo provisoriamente morar com um deles (opção extrema) ou montar uma habitação simples, com o mínimo necessário ou, até, com cada um dos cônjuges ficando ainda um tempo nas casas dos respectivos pais e se encontrando conjugalmente em algum “território neutro” apropriado.

O que não se pode exigir das pessoas realmente comprometidas e que se amam, sob constrangedora tensão sexual, que simplesmente “deixem para depois”, quando uma vez formados e com um bom emprego, montarem um belo apartamento, comparem um carro etc. Enquanto isso

Um Juramento Acrescido

Já vimos que a compreensão do que seja um “casamento cristão” é uma questão de conteúdo, e não de forma. Não é a cerimônia eclesiástica que torna um casamento cristão. Além do que os evangélicos não consideram o casamento um sacramento – um particular meio de graça – mas uma instituição divina. Isso ficou bem claro para os calvinistas britânicos, nos séculos XVII e XVIII, quando o normal para os seus seguidores casados era o não usar aliança no dedo, por ser a mesma associada com uma visão sacramentalista, por eles rejeitada.

As cerimônias de casamento das diversas religiões foram ficando cada vez mais parecidas. Não são apenas os costumes como a roupa, a decoração, a música, a festa, mas a própria liturgia, um tanto padronizada, de palavras e gestos rotineiros.

Libertação e Sexualidade

As cerimônias eclesiásticas cristãs (não necessárias, nem imprescindíveis) devem ser estimuladas em forma de cultos de ação de graças, algo mais informal, mais criativo, participativo, que funcione como testemunho de fé para os assistentes, muitos dos quais desconhecem o Evangelho e não são freqüentadores de Igreja.

Uma prática que pode ser questionada, contudo, é a dos famosos juramentos. Parece que há uma surda competição entre as denominações para ver quem elabora um “juramento” mais longo, mais abrangente, mais meloso. Esses juramentos são uma invencionice posterior da Igreja Romana, copiada pelos protestantes. Não deixa de causar um quê de constrangedor, ou de demagógico, pois todos, na hora, são em princípio bem intencionados, e estão prontos para demonstrar as suas boas intenções, mas, de certo modo, se “força a barra” do ponto de vista emocional, para algo tão profundo que só os anjos (se fossem sexuados) poderiam garantir o seu futuro cumprimento.

Com a legislação do divórcio já em vigor, alguém jocosamente até já sugeriu uma alteração

nas palavras de solenização: “

até

que a morte

ou o divórcio

os

separe”.

Esses “juramentos” são exigidos de cristãos piedosos, nominais ou de uniões mistas. Como medir, a priori, o grau de sinceridade? Deverão pessoas pecadoras, mortais, falíveis, se atreverem a tamanha temeridade de um compromisso para os quase-perfeitos? E a advertência bíblica acerca dos juramentos?

Um pensador vivendo em um contexto onde um em cada dois casamentos termina em divórcio, afirmou que a manutenção de tais juramentos (algumas pessoas já “juraram” duas ou três vezes) é, no mínimo, uma deslavada hipocrisia.

Ele ora permanece porque as pessoas pensam que sempre foi assim, ora pela lei da inércia, pela força da tradição, ora como um “reforço” para os noivos em quem não se confia tanto.

Muito mais correto seria substituir tais “juramentos” por um compromisso mais simples e mais sincero, do tipo “recebo você como marido (mulher), procurando, com a ajuda de Deus, viver contigo o matrimônio da melhor forma possível, segundo os preceitos das Sagradas Escrituras”.

No

momento

não

resta

pra

os

noivos

outra

saída:

ou

a

cerimônia

secular,

civil,

excessivamente

simples,

diante

do

juiz,

ou

a

união

eclesiástica

com

o

juramento

Libertação e Sexualidade

necessariamente incluído na conta. O “juramento” tem nele embutido uma posição teológica e se transforma em instrumento de enquadramento e disciplina eclesiástica. Cristãos são acusados de “quebrar os votos solenes do matrimônio”, e disciplinados por isso. Acontece que nem a cerimônia nem os votos são instituições divinas, e o sujeito não tinha, no momento de casar, outra alternativa.

Caberia aos ministros sensíveis e criativos, renovar a revitalizar a rotina das cerimônias de casamento (mais participativas, como Culto de Ação de Graças etc.) e omitir ou dar novas

redações aos tais “juramentos” da perfeição, do enquadramento

ou da hipocrisia.

Sexo e Casamento

Marilena Chauí sublinha o anti-corporatismo e o anti-sexualismo do pensamento cristão antigo e medieval, o anti-matrimonialismo do monasticismo e o matrimônio-solução posterior:

Essa transformação será muito lenta e só se completará no século XIII”. Os remédios

medievais contra as paixões sensuais eram: o casamento, a oração, a abstinência e o trabalho.

O ideário medieval era: a virgindade/castidade, o casamento-remédio, o casamento casto – só

para procriar, já que o prazer no casamento era considerado adultério, e, como tal, um pecado.

Um Pai da Igreja afirmou: “Aquele que se inflama com a própria esposa, comete adultério”.

Para aquela autora, a teologia cristã termina por valorizar o casamento como ”remédio”, um “freio”, uma “segurança”, principalmente para a mulher, tida como mais culpada pelo pecado original, em virtude de ser mais sensual e sexuada do que o homem e mais fraca às tentações.

E para que o homem não procure a mulher e a fornicação e adultério, a solução é casar todos.

Nos lembra Alzon, na Patrística só os laxistas, como Helvídio e Joviniano afirmavam a superioridade do casamento sobre a virgindade, e foram acusados de corrupção. São Jerônimo os atacou violentamente.

Com visões assim implementadas por séculos não é de se surpreender que ainda hoje, com todo o avanço científico, com todas as informações disponíveis, a ignorância sexual seja generalizada, particularmente em nosso país, em todas as classes sociais e níveis de escolaridade, que se perpetua pela falta de educação sexual das crianças e jovens.

Constata-se, pelas pesquisas realizadas (como a de Rose-Marie Muraro) o alto grau de insatisfação sexual entre as mulheres brasileiras: a instrumentalidade corporal das

Libertação e Sexualidade

camponesas; o desgaste e as fantasias das operárias; a insegurança e os bloqueios da classe média.

Os reformadores da sexualidade – afirma um psicanalista – constatam que a maioria dos casamentos são infelizes porque a satisfação sexual é incompleta, dado os homens serem inábeis e as mulheres frígidas”. A aptidão sexual estável requereria:

a) Potência orgástica total, ou seja, que não haja dissociação entre a sexualidade terna e a sensualidade; b) Superação da fixação incestuosa e da ansiedade sexual infantil; c) Ausência de repressão de quaisquer impulsos não sublimados, quer sejam homossexuais ou não genitais; d) Reconhecimento incondicional da sexualidade e do gosto de viver; e) Superação de todos os elementos do moralismo autoritário; f) Capacidade de harmonização espiritual do parceiro.

No Brasil, subsiste o machismo com os condicionamentos negativos adquiridos nos prostíbulos, e ambigüidade simbólica entre as “Marias” e as “Evas”, as “esposas” e as amantes”, com as próprias mulheres assumindo o dualismo desses papéis de forma excludente, incapazes de uma síntese, mascaradas pela subvalorização da sexualidade ou a descrença do científico.

Não se encontra ainda, de modo mais generalizado, entre os cristãos, a consciência do pecado da privação sexual do cônjuge sem justo motivo. O apóstolo Paulo ensina que esse distanciamento entre relações sexuais deve ser por pouco tempo e “para as orações” (atividades religiosas específicas ocasionais), caso contrário se está contribuindo para a tentação do outro.

Em nossos tempos, “justos motivos” poderiam ser: viagens profissionais, enfermidades, crises emocionais (perda de um ente querido, desemprego etc.). Deve-se verificar a sinceridade dos “justos motivos” e lutar por sua superação, inclusive espiritual e clinicamente. Essa é uma questão altamente responsável pela desestabilização do matrimônio.

E o que dizer de casais cristãos “modelares” (inclusive líderes) que vivem no pecado da permanente abstinência sexual sob o mesmo teto, sem se darem conta da gravidade da situação, e sem buscar remédio, acomodados, resignados, racionalizando?

Libertação e Sexualidade

Sobre esse tipo de gente, nos lembra um pesquisador: “Há indivíduos conformados ao

Querem enfiar toda a

humanidade na sua própria camisa de força por serem incapazes de tolerar nos outros a sexualidade natural. Isso os aborrece e os enche de inveja porque eles próprios gostariam de viver assim e não conseguem”.

matrimônio não por satisfação sexual, mas por inibição moralista

Um aspecto que deve ser ressaltado é o preconceito quanto à atividade sexual do idoso. Nos próprios asilos separam-se casais. Para o endocrinologista e sexologista Arhon Hutz, da UFRS: “O desejo sexual do idoso é tão intenso quanto o do jovem e a qualidade do seu relacionamento sexual é, quase sempre, melhor”. Não existe uma impotência específica do idoso, mas, sim, uma diminuição da capacidade sexual. O idoso acaba absorvendo de que não está mais interessado em sexo, e se reprime, por uma imposição cultural. O preconceito aparece, às vezes, na família. “Os filhos não conseguem imaginar os pais ‘transando’”.

Das sufragistas do começo do século às feministas, com todo o debate sobre a igualdade jurídica, ontológica e social dos sexos, tem-se minimizado as diferenças quanto à sexualidade, que não têm implicações qualitativas. Estudos sobre as diferenças na sexualidade do homem e da mulher foram produzidos, particularmente, na década de 50 por etologistas e sócio-biólogos. Destac