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Editoria de texto
Lafayette Megale
Assessoria editorial
Célia Maria Delmont de Andrade
Preparação de original
Reny Hernandes
o sucessode nossa expedição deu-se graças ao
Revisão apoio de poucas mas importantes pessoas e empresas
Alexandre Gomes Camarú que, desde o início, acreditaram nas possibilidades de
Rita de Cássia dos Santos Silva
Uilson Martins de Oliveira nosso projeto. São elas:
Edição de arte e projeto gráfico
Wilson Teodoro Garcia
- Confecções Mara (bandeiras);
Fotos - FAB - Correio Aéreo Nacional;
Eduardo Agostinho Arruda Augusto
Edson Sorrentino Séspede - Nutrimental (comida desidratada);
Aloisio Sabadin de Moura
- Pantogravura (placa);
Capa
Wilson Teodoro Garcia - STC- Construtora;
Coordenação de editoração eletrônica
Carlos Rizzi - Tenente Coronel Edson Faroro (PMESP);
Reginaldo Soares Damasceno
- Tenente Hildomar Jaime Regis (PMAM);
- Tenente Edílson Matias Barbosa in memoriam
(PMAM);
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Cârnara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
- Udo Krumer, da gráfica Eventos;
- Paulo Sérgio Varella, fotógrafo e amigo.
Augusto, Eduardo, 1966-
Expedição ao Pico da Neblina / Eduardo Augusto. Um agradecimento especial a quem sempre
- São Paulo: FTD, 1993. - (Coleção diário de bordo) acreditou em mim e me apoiou durante todos os
ISBN 85-322-0800-2 momentos, dando-me a força necessária para
1. Arnazonas - Descrição de viagens 2. Neblina, Pico prosseguir sempre confiante - minha querida esposa,
da - Descrição I. Título. 11. Série. Suzana Vieira Arruda Augusto.
93-0054 CDD-918.113

índices para catálogo sisternático:


1. Neblina: Pico: Arnazonas: Descrição de viagens
918.113
Lutando contra a civilização 11
2 O mundo dos ianomãmis 25

3 O encontro com a selva 39

4 O platô da serra da Neblina 54

5 O preço da riqueza 73

6 Aos pés do gigante nebuloso 82


7 Derrotados pela natureza 94
8 A cartada final 100
"... os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lem-
brando que as grandes proezas da História foram conquis-
tadas do que parecia impossível. "
(Char1es Chaplin)

É animador e gratificante perceber que, neste nosso mundo


mesquinho e egoísta, ainda há pessoas que apresentam seu caráter
moldado na dignidade, honestidade, honra e, principalmente, brio.
O tenente Eduardo Agostinho Arruda Augusto é, sem dúvida
alguma, uma dessas pessoas, e mostra-nos, através de Expedição ao
Pico da Neblina, a importância da audácia bem conduzida,
conseguindo provar que os "obstáculos existem porque todos têm
medo de ultrapassá-los".
Dificilmente alguém começará a ler este livro e interromperá sua
leitura sem que chegue ao seu término. O estilo ágil, fluente e simples
que o tenente Eduardo Augusto apresenta cativa o leitor, transforman-
do-o em co-participante da grande aventura, e obriga-o a devorar o
conteúdo para, nele, aprender uma lição de vida: "Desistir jamais!"
Enfrentando todos os obstáculos que se lhe colocaram à frente
("Infelizmente, em nosso país, quem procura andar corretamente sofre
mais"), o autor demonstra-nos que "o importante é o caráter do
indivíduo e sua real vontade de fazer algo".
Leitor, inicie a leitura de Expedição ao Pico da Neblina e
prepare-se para uma aventura repleta de desafios e decisões.

À memória do capitão Edilson Matias Barbosa, Prof. Oswaldo Beltramini Júnior


da Polícia Militar do Amazonas, que, poucos meses após Academia de Polícia Militar do Barro Branco
nossa aventura, na qual teve papel importante, tombou
heroicamente no cumprimento de sua árdua e perigosa
missão.
Localizado no extremo norte do país, em meio à imensa floresta
amazônica, que o protege da aproximação de intrusos, o pico da
Neblina, com 3014 metros de altitude, é o ponto culminante do Brasil.
Está totalmente em solo brasileiro, no estado do Amazonas, a 687 metros
da divisa com a Venezuela.
Meu desejo de atingir o pico da Neblina surgiu em agosto de
1985, quando o Brasil inteiro acompanhou pela TV a tentativa frustrada
do Exército de chegar a seu cume. A expedição foi liderada pelo Batalhão
de Forças Especiais, tropa de elite formada por verdadeiros "Rambos",
preparados para o cumprimento das missões mais complexas. Entretanto,
mesmo com o apoio de helicópteros (que foram até a base do pico) e uma
infra-estrutura própria, não conseguiram cumprir a missão, vencidos pelo
frio e por ventos de mais de 100 quilômetros horários. Nessas tentativas,
além de uns poucos estrangeiros, apenas uma equipe brasileira possuía
o mérito de ter atingido o ápice do pico da Neblina, em fevereiro de
1979. Esses pioneiros pertencem ao Clube Alpino Paulista. São eles:
Adalbert KoIpatzik, Galba Athayde e Michel Bogdanovicz.
O "Projeto Neblina" começou a maturar em 1987. A idéia era
conseguir montar uma equipe para realizar uma expedição em dezembro
do mesmo ano. Foram meses de preparação e muito estudo, pesquisando
tudo sobre a região, estudando a fundo sobrevivência na selva e tudo que
trouxesse informações sobre os índ ias, em especia Ios da nação ianomâm i,
que vivem na região próxima à base do pico da Neblina.
Foi muito difícil escolher a equipe perfeita para compor a expedi-
ção. No início procurei especialistas no assunto, pessoas de excelente
porte físico e saúde de ferro. Achava muito importante um currículo
extenso, repleto de cursos de sobrevivência e operações especiais. Tudo
bobagem! Foi preciso quebrar a cara para chegar à conclusão de que o
que realmente importa é que a pessoa, antes de mais nada, esteja muito
disposta a assumir os riscos e prazeres de uma aventura desse porte.
Apesar do esforço, faltou patrocínio, faltou entrosamento da
equipe, e o projeto não aconteceu.
Em fevereiro de 1988, quando no serviço de ronda do policiamen-
to na área central de São Paulo, passei pelo Quartel do Comando do
Corpo de Bombeiros para rever um colega, o tenente Del Rey. Ao chegar
e~!
em sua sala, ele foi logo perguntando se eu já tinha conseguido escalar
o pico da Neblina. Respondi que o projeto não havia dado certo e ele,
então, começou a rir e a debochar, pois toda a divulgação que eu tinha
feito não dera em nada.
Sei que ele não fez por maldade, mas aquilo me deixou furioso. LUTANDO CONTRA A CIVILIZAÇÃO
Saí dali bufando de raiva e um sargento recém-formado, que trabalhava
comigo havia apenas uma semana, perguntou-me se estava tubo bem.
Olhei para ele fixamente e perguntei sem mais rodeios:
- Edson, vamos escalar o pico da Neblina? [;1icw.a ~ na hrna do-~. O saguão da Base
- Vamos embora - respondeu ele entusiasmado. - Estou pronto Aérea de Cumbica estava a cada minuto mais cheio. Eram
para o que der e vier. militares e parentes que esperavam uma vaga no pequenino
A partir daí os preparativos do "Projeto Neblina" recomeçaram, Bandeirante do Correio Aéreo Nacional. Apesar de nossas
com a assessoria do Sargento Edson Sorrentino Séspede, uma pessoa vagas já terem sido confirmadas na data anterior, nós estáva-
simples, humilde, mas dotada de uma invejável força de vontade e mos nervosos, pois era mais que evidente que não cabia tanta
vibração. Baixinho, com 29 anos de idade, de porte compatível à sua
gente no avião.
altura, não se destacava nas atividades físicas, sendo inclusive fraco em
corrida. Para piorar era fumante. Não tinha a experiência desejável nem O cabo da Aeronáutica, responsável pela triagem dos
aptidões especiais de alpinista, mas ao longo do planejamento ele foi se passageiros, iniciou a chamada. Pesava cada bagagem,
revelando o companheiro ideal.
anotava numa prancheta, colava uma etiqueta e a colocava no
Aloísio Sabadin de Moura, chegou bem depois, quando eu e carrinho, chamando em seguida outro passageiro.
Edson já estávamos pondo em prática as solicitações para o CAN, IBDF
e Funai. Era o mais forte e brincalhão da equipe. Era o único que sabia Logo fomos chamados. Nossa bagagem: quatro mochilas
nadar, embora também não fosse muito experiente. Era cabo da Polícia grandes, uma média, uma pequena, duas bolsas médias, a bolsa
Militar e tinha 24 anos. com o equipamento fotográfico e dois sacos enormes, todos
Com 22 anos e um currículo que continha apenas uma formação abarrotados: 180 quilos, exatamente o triplo permitido para nós
de cinco anos na academia militar, cabia a mim aproveitar o que esses três. Nossa bagagem foi etiquetada, mas posta de lado. Ficamos
dois possuíam de melhor para, juntos, atingirmos com eficácia nosso
preocupados. Não podíamos deixar nada para trás. Tentamos
objetivo. Sabíamos que não seria fácil e era exatamente por isso que
explicar a situação ao cabo, que nos aconselhou:
estávamos ali - tínhamos uma grande determinação. Chegar ao cume
do pico da Neblina, custasse o que custasse. -Conversem com ocomandante, eleéo único que pode
autorizar o embarque da bagagem.

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Após mais espera e muito nervosismo, obtivemos finalmente Amazonas as águas vindas de Rondônia, onde fizemos a última
a permissão para embarcar com todo o nosso equipamento. escala. Contemplei maravilhado o encontro das águas do rio
O avião, um Bandeirante, era pequeno e apertado. Por Negro, de coloração escura mas cristalina, com as do rio
Solimões, de cor clara e barrenta, formando o rio mais cauda-
ser de carga, os passageiros sentavam-se numa espécie de
loso e cheio de vida do planeta: o Amazonas, que permanece
banco feito de fitas entrelaçadas, algo bastante rústico e pouco
bicolor por muitos quilômetros, visto que as águas não se
confortável. O comandante ligou o motor e, durante aqueles
misturam facilmente.
poucos minutos até levantar vôo, disputamos as janelas para as
últimas despedidas. "Adeus, Suzana. Eu sei que voltarei a vê-Ia. Eram quase seis da tarde quando aterrissamos na Base
Nós vamos conseguir ... " Aérea de Manaus. Fomos recebidos por Malveira, Edílson ejosé
Carlos, todos ex-colegas de academia. Foi muito bom revê-los.
Era primavera. A intensa umidade do ar me sufocava. Foi
Manaus, uma escala perigosa muito difícil acostumar-me com aquilo. A ternperofuro era alta e
o sol imperava a maior parte do tempo. E típico da região. No
A viagem não foi lá muito agradável, mas me distraí fim da tarde cai uma chuva forte, mas logo o sol volta impiedoso
fotografando. Edson cochilava, acordava, fumava um cigarro, até o final do dia.
fazia algum comentário e voltava a cochilar. Sabadin permane-
Colocamos a bagagem no carro do Edílson. Meus
ceu a viagem inteira escrevendo o que houve na base aérea e
companheiros ficaram no 4º Batalhão, e eu fui para a casa do
descrevendo os primeiros passos de nossa aventura.
Edílson, onde permaneceria até nosso embarque para São
Fizemos escala 'em Campo Grande, Cuiabá, Vilhena (um Gabriel da Cachoeira no dia 14 de dezembro, dali a 3 dias.
pequeno campo de pouso cercado de nada) e Porto Velho. Em Aproveitamos para conhecer Manaus.
Vilhena, atrasamos duas horas os ponteiros de nossos relógios,
O povo de Manaus é muito hospitaleiro e alegre.
tendo em vista a diferença de fuso horário. Lá conversei com o
Formado por uma mistura de raças, na qual predomina o
comandante e seu co-piloto. Eles riram quando lhes contei sobre
sangue indígena, são pessoas bem morenas, de olhos um
nosso objetivo de escalar o pico da Neblina. Duvidavam que
pouco puxados e de cabelos bem lisos. Possuem sotaque
retornássemos vivos, dizendo que isso era coisa de louco.
parecido com o do carioca e utilizam muitas gírias e costumes
Era sempre assim. Ou nos chamavam de loucos ou nordesti nos.
pensavam que era mentira. Praticamente ninguém acreditava e Na manhã seguinte fomos ao quartel do Comando
os poucos que diziam acreditar provavelmente faziam isso só Geral. O capitão Bonates nos recebeu muito bem, levando-nos
para nos agradar. à presença do chefe do Estado-Maior, coronel Osório.
Algumas vezes isso me punha medo. E quando o coman- Quando relatamos nosso objetivo, o coronel se assustou.
dante riu de nós, confesso ter suado um pouco ... de medo. Disse que era uma grande loucura e que seria impossível realizar
Após treze horas de vôo, estávamos sobre a imensa a escalada porque na região do pico da Neblina estava
floresta amazônica, bem próximos de Manaus. A vista era havendo um sério conflito entre garimpeiros e a Polícia Federal,
magnífica. A floresta era um tapete verde sem fim, recortado por e poderíamos acabar morrendo no meio dessa batalha.
inúmeros e tortuosos cursos d'água de tamanhos e formatos Pacientemente, expliquei-lhe estar ciente de tudo isso e
variados. Pude identificar o rio Madeira, que despeja no que nossa aventura fora minuciosamente preparada, fruto de

12 13
anos de estudos e ensaios: muitos estágios, palestras, leituras e vocês exigiu o retorno imediato para São Paulo. E mais ... Ele
entrevistas com pessoas que conheciam a região e seus proble- entrou em contato com o comandante do VII COMAR e mandou
mas. Ele, rindo zombeteiramente, perguntou que experiência de cancelar as vagas de vocês no avião.
mata possuíamos. Ao responder que fazíamos treinamento na Era só o que faltava. E agora? O que fazer?
mata atlântica, seu deboche aumentou:
- Capitão, pelo amor de Deus, o senhor não viu a gente.
- Sua experiência em uma pequenina mata não se Deixe-nos desaparecer do mapa. Mas desistir de nosso objeti-
equipara às dificuldades de nossa floresta. Conheço-a muito vo, nunca! Ninguém vai nos fazer desistir agora. Ninguém!
bem, pois fui do C1GS (Centro de Instrução e Guerra na Selva)
- Tudo bem. Eu não vi vocês. Tratem de sumir - disse
e sei que vocês não são páreo para ela. Além disso, como vocês
o capitão apertando minha mão. - E boa sorte.
já sabem, o Exército já tentou duas vezes atingir o pico da
Neblina e não conseguiu nem chegar perto. Saímos rapidamente dali. Estávamos arrasados. Nem a
Apesar de não acreditar em nossaspossibilidades, ele prometeu nossa corporação acreditava em nós. Tudo era obstáculo. E eu
ajudar fazendo contato com o VII COMAR, para conhrrnor nossas que sempre pensei que a maior dificuldade para escalar o pico
passagens no vôo para São Gabriel da Cachoeira. da Neblina fosse apenas a selva com seus perigos naturais. Mas
não. As dificuldades estão na burocracia, no descrédito e na
Nas bancas de jornal as manchetes eram sempre as
inveja, existentes aqui mesmo na cidade. Na selva, certamente
mesmas: "Invasão da serra da Neblina por garimpeiros",
isso não aconteceria. Lá estaríamos distantes de todos esses
"Ianomâmis exigem providências da Funci". "Garimpeiros X
defeitos da civilização.
Polícia", "Tensão em área ianomâmi"
De um orelhão, liguei para o 1 º Batalhão e chamei o
Na manhã do segundo dia em Manaus, pude finalmente
tenente Edílson. "Por favor, venha rápido!" Em menos de 30
confirmar nossos nomes no livro de passageiros do vôo para
minutos ele chegou. Explicamos a situação para ele, que, de
São Gabriel da Cachoeira. Havendo o vôo, embarcaríamos.
imediato, resolveu nos esconder em sua casa até o embarque
Pronto. Estava tudo resolvido.
na manhã seguinte. No caminho, passamos pelo 4º Batalhão
Resolvemos passar no quartel do Comando Geral e para pegar a maior parte da bagagem, coisa que fizemos de
verificar com o capitão Bonates o que o chefe do Estado-Maior maneira bem discreta.
havia acertado para nós. Lá chegando, encontramos o capitão
Da casa de Edílson, na primeira oportunidade, liguei
logo na entrada e este, meio nervoso, nos conduziu rapidamen-.
para o VII COMAR.
te para um canto dizendo:
, - Tenente, eu já lhe falei. Amanhã às 7. Suas vagas
- O comandante de vocês, lá de São Paulo, exige o
estão garantidas. Saindo o avião, os senhores irão com certeza.
retorno da equipe imediatamente. O coronel Osório está atrás
de vocês. Agradeci e desliguei o telefone bem depressa, antes que
Quase caí duro no chão. ele mudasse de idéia. Eu tremia inteiro.

- Mas por quê? O que fizemos? - Será que o capitão não inventou aquela história? -
supôs Edson.
- O negócio é o seguinte: ele telefonou para São Paulo
e contou sobre os problemas da região. Disse que vocês - Só pode ter acontecido uma coisa. O coronel entrou em
estavam loucos e que morreriam aqui. Aí o comandante de contato diretamente com o brigadeiro. Só que ele não sabe que

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nosso pedido foi feito há mais de 2 meses, via documentação em quase'todos os pontos do alto rio Negro, começando por São
oficial. Isso porque meu comandante, o tenente-coronel Edson Gabriel da Cachoeira e passando depois pela Missão Salesiana
Faroro, destinou o pedido ao chefe do Estado-Maior do COMAR de Maturacá, ponto final do nosso contato com a civilização.
e não ao brigadeiro, que é o comandante. Portanto há uma Pelas informações obtidas, pernoitaríamos em São Gabriel
solução. Amanhã cedo nós embarcaremos discretamente, esperan- e na manhã seguinte iríamos para Maturacá. Isso melhorava
do o avião escondidos num canto, sem nem passar perto do muito nossa situação, pois um contato anterior na cidade
COMAR. Com um pouco de sorte, logo estaremos longe daqui. poderia ser muito útil. Lá eu deveria procurar o tenente Hiltomar,
Aproveitei o telefone e liguei para a diocese salesiana de delegado da cidade e amigo de Edílson e Malveira.
São Gabriel da Cachoeira para conversar com o bispo Dom Já eram quase duas horas da tarde, quando um soldado
Walter Ivan de Azevedo, que conheci em São Paulo, muito do CAN avisou-nos que o võo fora cancelado e que deveríamos
simpático e educado. Mas nossa maré de azar estava em oltc. voltar no dia seguinte.
Não sei por que motivo, ele me tratou friamente, negou
O que mais faltava acontecer? Tudo estava dando
alojamento dizendo que nós deveríamos procurar os quartéis do
errado. Pegamos nossa bagagem e tomamos um táxi até a casa
Exército e apenas nos desejou boa sorte, secamente.
de Edílson. Ele não estava.
Aquela noite foi terrível. Ninguém conseguiu dormir.
Aproveitei para ligar ao COMAR. Falei com o cabo
Paulo, que me garantiu: "Tudo bem, vou anotar aqui e amanhã
o difícil embarque os senhores não terão problemas". Até que enfim algo começou
a funcionar.
Às cinco e meia nos levantamos, vestimos nossos unifor- Quase à noite, Edílson chegou e lhe contamos nossa
mes e preparamos o material que carregaríamos. Deixamos o situação. Na manhã seguinte pegaríamos um táxi e tentaríamos
resto para apanhar na volta da expedição. outra vez.
Fomos até a calçada e ficamos esperando Edílson, que' Acordamos cedo e rumamos para o aeroporto. Fomos
nos levaria ao aeroporto. chamados para o saguão de embarque. Entramos na pista do
Edílson chegou logo e nos levou no tático móvel da PMAM. aeroporto e caminhamos em direção ao Búfalo, que estava a
Em menos de 15 minutos já estávamos em frente ao aeroporto e, uns 100 metros de distância. Só faltavam poucos metros para
muito agradecidos, nos despedimos de Edílson, que nos disse: nos livrar daquela agonia.

- Eu boto fé em vocês! Sei que vão conseguir! Fomos os últimos a embarcar, mas finalmente decolamos.
Expedição, avante!
Escolhemos um canto para colocar nossa bagagem, que
novamente nos traria problemas pelo peso, e ficamos esperando.
Do lado de fora do saguão, colada numa parede, uma relação
continha nossos nomes, relaxando um pouco nossa tensão. Problemas em São Gabriel da Cachoeira
Já eram 7 horas e nada da chamada para o embarque. O vôo para São Gabriel foi magnífico. A rampa de
O tempo ia passando e nada de o avião chegar. Nós acesso possuía um vão de pouco mais de 6 milímetros, que me
iríamos num Búfalo do Correio Aéreo Nacional, que faria escala proporcionou um ótimo observatório. Vi a mudança da floresta,

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da alagada para a de terra firme; observei as várias elevações Fui cumprimentar Dom Walter, que me recebeu com
isoladas que se encontram perdidas no meio daquele tapete educação mas frieza. Ofereceu-me de má vontade uma carona
verde e seus vários rios, todos desembocando no majestoso rio que, por instinto ou orgulho, recusei. Dirigi-me a um tenente de
Negro. Este, de águas escuras mas transparentes, não esconde comunicações do Exército, que estava sentado num banco, e
seu fundo arenoso e desenhado pela correnteza. Pena que dali perguntei-lhe como iria para a cidade. Ele me informou que um
não dava para fotog rafar. caminhão [ó estava para chegar e que poderíamos aproveitar
a carona.
Foram duas horas e meia de viagem. Aterrissamos no
pequenino aeroporto de Uaupés (antiga denominação da O caminhão chegou cheio de índios recrutas, de calções
cidade), de pista já asfaltada e com uma infra-estrutura aceitável verdes e camisetas camufladas, que em poucos minutos carre-
para a região. O avião partiria para Maturacá no dia seguinte, garam todo o material trazido no Búfalo para o quartel local.
às 7 horas.- Subimos na caçamba junto com aquele tenente e os recrutas e
seguimos por uma estrada de terra batida muito bem-feita até
Conversamos com o piloto do Búfalo e seu co-piloto. Não
São Gabriel da Cachoeira.
zombaram de nossa aventura mas reconheceram ser muito difícil
nosso sucesso. O município de São Gabriel da Cachoeira, antiga
Uaupés, está situado no alto rio Negro. Seus limites cercam uma
Juntei-me à minha
área de grande potencial aurífero que atrai garimpeiros de
equipe no saguão do
todos os pontos do Brasil. Possui mais de 20 mil habitantes, na
aeroporto e fomos procu-
maioria índios, garimpeiros e militares.
rar carona, pois o aero-
porto de São Gabriel da
Cachoeira ficava a mais
de 10 quilômetros da ci-
dade. Sabadin observa-
va tudo e narrava para
seu gravador.
Naquele instante
chegou uma pick-up e,
dentro dela, pude identifi-
car o bispo Dom Walter.
Ele desceu rapidamente e
começou a ajudar as frei-
ras que vieram conosco a
coloca rsacos e encomen-
das na caçamba.

o desembarque em São Gabriel. São Gabriel da Cachoeira.

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Só se pode chegar a essa cidade de avião ou de barco, A cidode era linda e a visão daquela praia era uma tentação
após dias de navegação, para ultrapassar 1 037 quilômetros para um banho nas águas negras daquele imponente rio.
do rio Negro contra a correnteza. - Dá vontade de pôr um calção e cair na água - disse
Fomos deixados em frente à delegacia da cidade, de frente Sabadin.
para uma extensa praia, às margens do rio Negro. Nessa altura - Tem carandiru aí,ah, ah! - brincou Edson.
o rio encontra inúmeras pedras, formando corredeiras (para a
- Carandiru? - perguntei. - Não é candiru, não?
região, verdadeiras cachoeiras), e daí o nome da cidade.
Candiru é um pequeno peixe carnívoro, fino como
Na delegacia encontramos apenas um cabo que nos
agulha, que penetra nos orifícios naturais do corpo, principal-
tratou muito bem e logo nos alojou num dos cômodos. Não
mente ânus e uretra.
havia camas. Aliás, na Amazônia, cama é algo raro. "Dormir
é em rede, que é muito mais fresco e confortável."CoIocamos O pessoal do quiosque era bastante divertido e perguntou
nossas coisas num canto e atravessamos a rua, onde, bem se estávamos fazendo turismo ou algum serviço especial. Nova-
defronte à delegacia, havia um bar em forma de quiosque. mente fornos alvo de risadas quando contamos nosso projeto.

O calor estava intenso e nos afundamos em refrigerantes. O - O quê? Pico da Neblina? Impossível, nem mesmo as
visual era magnífico. Bem distante, do outro lado do rio, à nossa Forças Especiais conseguiram. Ninguém chega lá.
esquerda, estava a serra Contamos-lhes das expedições anteriores, mas eles con-
de Curicuriari, a famosa tinuavam dizendo:
serrada Bela Adormeci-
- Não é brincadeira, não. Vocês vão é pegar uma
da, assim chamada por
malária, lá, isso sim. Quando vocês chegarem lá para os 3000
seu contorno ser semelhan-
metros, vão olhar e dizer assim: O quê, meu amigo? Toda
te ao desenho de uma
aquela cerração, aquela nuvem assim, debaixo de vocês. Se
mulher deitada.
olharem por címa, só vão ver aqueles colchões de nuvens e o
vento forte soprando ... vuschhhhhh ... vuschhhhh ...
Há muito misticismo criado em torno do pico da Neblina.
Muitos dizem que o lugar é sagrado e que ir até lá significa
desafiar os deuses.
As negras águas das - Não estamos querendo abater o moral de vocês, não ...
...-::l!l ••• __ ••.•.•. ..I . corredeiras do rio Negro.
- Nós estamos escutando isso desde São Paulo -
observou Edson. - Se vocês fossem os primeiros ...
Ali ficamos ouvindo muitas histórias da região. Um deles
nos informou que em Maturacá, onde ficava a missão do padre
Galli - um mito vivo do lugar -, havia "voadeiras", ou seja,
barcos de alumínio movidos a motor de popa. Calculamos que
precisaríamos de mais de 300 litros de gasolina para a subida
Serra de Curicuriari, a
Bela Adormecida. do rio Cauaburi. O pessoal do quiosque nos contou, ainda, que

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vários garimpeiros estavam na base do pico da Neblina, pois garimpeiros estavam. Engraçado, ele achava mais fácil a fase
haviam conseguido fugir do cerco da Polícia Federal. que nossa equipe considerava de maior dificuldade: a travessia
da selva amazônica.
Após o almoço, retornamos à delegacia e encontramos
o delegado jogando dominó com seus subordinados. O tenente Saindo da loja, Hiltomar encontrou o chefe da Funai da
Hiltomar Jaime Regis, pessoa simples e educada, recebeu-nos cidade e, após contar-lhe nossa missão, principalmente após
muito bem e quis saber detalhes de nossa expedição. Por mostrar-lhe a autorização concedida pela Funai em Brasília, ele
coincidência, o sargento Ferreira, que era delegado antes de escreveu uma carta endereçada ao funcionário Chico e ao
Hiltomar, estava de licença e andava garimpando na serra da índio Júlio Góes, irmão dos tuxauas de Maturacá, solicitando
Neblina. Ele seria um contato muito importante, se o encontrás- que fôssemos bem recebidos e auxiliados para que pudéssemos
semos naquele inferno verde. reclizcr nosso objetivo. Dali retornamos ao quiosque.
- Aventura ousada, hein? Vocês vão precisar de muita - Daqui a pouco o capitão Siqueira passa aqui e
sorte. acertaremos o problema da gasolina.
- E de muita gasolina também - disse eu. - Onde fica Meia hora depois, o capitão João Marcos de Siqueira
o posto? chegou, cumprimentou-nos, pediu logo uma cerveja e sentou-se
O tenente Hiltomar fez uma careta e disse: à nossa mesa.

-Xii! Vocês estão com um sério problema: o único posto da Apesar de achar a idéia meio maluca, ele ficou de·
cidade faliu e fechou. Ouern tem carro por aqui mantém uma arrumar o combustível. Era só passar no quartel, na manhã
reserva de gasolina em casa. E que, de vez em quando, uma balsa seguinte, e retirar com ele o vale para pagar à tesouraria.
chega com vários tambores e vende para o pessoal. Podemos - Mas o avião decola amanhã às 7 horas! - disse eu
tentar comprçlr gasolina do BEC - Batalhão de Engenharia e desesperado.
Construção. Esó conversar com o capitão Siqueira. Eleé muito meu
- Tenho quase certeza de que ele fará mais de uma
amigo e sempre está aqui no quiosque, tomando uma cervejinha.
perna para Maturacá, pois tem uma quantidade enorme de
Hiltomar chamou um táxi (incrível imaginar um táxi material e muitos soldados que virão para cá amanhã, e, numa
naquela cidade, mas havia). Era um Corcel II vermelho, todo única viagem, não dá. Só não sei se ele vai querer transportar
arrebentado e enferrujado. O taxista era um tal de De Castro, o combustível.
um garimpeiro da região que estava meio parado. Ele possuía,
Às 8 da noite fomos a um bar dançante, onde encontra-
amarrada num cordão no pescoço, uma pequena pepita que
mos o comandante. Hiltomar e eu nos apresentamos e explica-
ele mesmo havia extraído.
mos a situação.
Fomos até o centro comercial da cidade. Hiltomar me
- Tudo bem. Amanhã faremos duas pernas para
levou até uma loja de artesanato indígena, onde funcionava,
Maturacá. A segunda será ao meio-dia. Esteja lá no horário e
nos fundos, um comércio de ouro. Lá conversamos com Eduardo
eu levarei o combustível.
Cristo, o Grego, conhecedor da região através de cartas
detalhadas e vôos de helicóptero. - E quanto aos meus amigos? - perguntei. - Poderão
ir na primeira perna com todo o equipamento?
Ele achou impossível a idéia de escalar o pico, dizendo
entretanto não ser muito difícil chegar até suo base, onde muitos Ele respondeu que sim.

22 23
Próxima parada: Maturacá

Acordamos antes das 6 horas e vestimos nossas fardas.


Tomamos café e, pouco depois, Hiltomar chegou com um
Corcel emprestado, e fomos todos naquela lata barulhenta que
andava movida a muita reza, rumo ao aeroporto.
No aeroporto troquei as últimas palavras com o comandante
do avião, que confirmou todo o combinado e levou meus compa-
nheiros a Maturacá. De lá fomos rapidinho para o BEC. Procurei
o capitão Siqueira, mas ele chegou quase às 9 horas.
Providenciados todos os papéis, paguei na tesouraria os
400 litros de gasolina e algumas latas de óleo para motor dois
I I
tempos. Isso deveria ser o suficiente para o nosso gasto. Depois
acertei com ele em qual caminhão levaria e onde pegaria o
o MUNDO DOS IANOMÂMIS
combustível. Antes das 1 1 horas já estávamos a caminho do
aeroporto de Uaupés.
A essa altura Edson e Sabadin já deveriam estar conver-
4~fU1.#1.a..pUtack/.elvzakdda. Muitos índios, na
maioria crianças, rodearam o avião. Ao descer, localizei Edson
sando com o padre e os tuxauas. Espero que estejam se saindo
e Sabadin ao lado de um índio falante.
bem - pensei cruzando os dedos.
-Júlio, este é o tenente Eduardo Augusto, o comandante
A espera no saguão do aeroporto foi breve. Logo o Búfalo
da expedição - disse Edson quando me aproximei.
aterrissou. Embarcamos o combustível. O Búfalo estava vazio;
- Muito prazer, tenente. Seja bem-vindo à nossa terra.
de passageiros apenas eu e um garoto, possivelmente índio.
- Este é Júlio Góes - Edson explicou. - Ele é o
Por volta de uma da tarde, avistamos a missão, uma clareira
representante da nação ianomâmi.
incrustada na floresta. Às margens do ca na I de Matu racá, afl uente
- Ah, sim - lembrei-me. - Tenho uma carta do chefe
do rio Cauaburi, encontramos duas aldeias ianomâmis da tribo
da Funai de São Gabriel endereçada a você.
kohoroxitari, abrigando cerca de 620 indígenas semi-aculturados.
Situam-se uma de cedo lado da missão, a uma distância aproxima- Depois fui apresentado ao tuxaua Daniel, líder da aldeia
da de 300 metros. A nossa frente erguia-se bastante imponente a de Maturacá. Ali também estavaJosé Lima, funcionário da Funai
serra do Imeri, um enorme maciço, onde, em algum ponto dentro destacado em Maturacá, para quem fiquei de mostrar as
daquela espessa neblina, escondia-se nosso objetivo. autorizações expedidas pelo governo federal.
- Alguma novidade, Edson? - Perguntei.
A serra do Imeri é uma fronteira natural entre o Brasil e a
Venezuela. É dividida em três serras: Pirapucu, Baruri e Neblina. - O pessoal aqui é bacana, sabe? Você precisa ver só o
A serra da Neblina é a que possui as maiores altitudes, estando padre Carlos. Ele é o máximo! Você vai conhece-Io lá na missão.
ali, além do ponto mais alto do Brasil, os picos 31 de Março e Fundada em junho de 1954 pelo padre sergipano
do Cardona, respectivamente o segundo e o nono na escala Antônio Góes, que desde 1949 já mantinha contato com os
altimétrica do país. ianomâmis, a Missão Salesiana de Maturacá tem como objeti-

24 25
vo a aculturação do índio, preparando-o para a integração de baile, marcas do aproximação com o civilizado. A palhoça
com a sociedade moderna. Instalada em um enorme galpão de do tuxaua e as de seus parentes possuem telha de zinco. Lá
quase 1 000 metros quadrados, de estrutura de ferro e coberto dentro, um gerador, uma vitrola e uma geladeira, utilidades que
com telhas de zinco. Possui uma modesto enfermaria, um apenas os tuxauas podem dar-se ao luxo de possuir.
barracão com maquinário, barcos e motores de popa, um
campo de pouso para o Búfalo da FAB (que mensalmente
abastece a missão com produtos de sua necessidade), uma
capela e uma escola, onde, além do ensino básico, proporci-
ona um aprendizado técnico, como os métodos do preparo do
solo para o cultivo e noções de nivelamento para a construção
de palhoças. Hoje a missão é liderada pelo padre italiano
Carlos Galli, que chegou em janeiro de 1979, vindo de lçana,
outro município da região do alto rio Negro.
Fomos recebidos por ele.
- Como vai você? Tudo bem? - perguntou o padre num
tom engraçado e com forte sotaque italiano. - Vamos arrumar
um lugar para vocês se acomodarem. André! - O padre
chamou um índio. - Leve-os até a enfermaria e depois traga-
os para comer alguma coisa.
A aldeia de Ariabu.
Seu André era um índio tucano de meia-idade, emprega-
do da missão. Era o auxiliar direto do padre.
Na missão não víamos muitos índios. Eles ficavam nas Tuxaua é O líder, o chefe supremo, dono, de todas as
aldeias, que dali também não conseguíamos avistar. Na mulheres da tribo e das vontades de seu povo. E realmente a
primeira oportunidade meu objetivo seria, além de batalhar pessoa mais respeitada de toda a aldeia; sua vontade é uma
atrás de um guia, fotografar as aldeias, registrando os usos e ordem e os ianomâmis a cumprem espontaneamente, sem
costumes de um povo a respeito do qual pouco se conhece. reclamações. Joaquim é o tuxouo mais temido e respeitado de
toda a nação ianomâmi. Descendente de uma linhagem de
A meu pedido, o padre determinou a seu André que nos
grandes líderes guerreiros, ele é constantemente procurado por
levasse até Ariabu. A aldeia fica ao norte da missão, no rumo
lideranças de outras tribos, que via iam dias no meio da floresta
da cadeia de montanhas. Lá conhecemos o temido tuxaua
em busca de seus conselhos.
Joaquim, que falava muito pouco nossa língua. Após pedir-lhe
autorização, comecei a fotografar a aldeia. Ela tem um formato Após as fotos e um pequeno passeio pela á1deia, seu André
meio retangular, com as palhoças dispostas lado a lado, de nos levou até o rio Ariabu, um afluente do canal de Maturacá.
frente para o centro da aldeia, fechando um enorme pátio que Lá encontramos indiozinhos brincando na água escura e
serve para reuniões e danças tribais. transparente. Segundo seu André e a minha leitura da carta
As palhoças são feitas de troncos e barro, e cobertas de topográfica da região, aquele rio nasce exatamente no pico da
sapé. No centro da aldeia há uma cantina (bazar) e um salão· Neblina.

26 27
_ Ah riozinho! Quero conhecer sua nascente - pedia o padrinho dos ianomâmis
Edson àquel'as águas escuras e frias, que pareciam desprezar
qualquer um. . Após o jantar e um pequeno descanso na enfermaria,
Voltamos à aldeia, agradecemos e nos despedimos do fomos até o pátio de terra batida na parte interna da missão.
grande chefe, retornando logo à missão. Sabadin estava sentado na cadeira de balanço e nós nos
Da porta pudemos avistar algo que a neblina nã.o nos sentamos em banquetas. Uma chuva de perguntas invadiu a
havia deixado ver antes. As serras de Pirapucu e Barurl que; noite, e o padre, sem pressa, respondia a todas, a seu modo,
imponentes, davam um visual magnífico para aquela paisagem incluindo piadas ou fazendo um pouco de suspense.
no final de tarde. Da [onelo do lodo oposto, contemplamos a
Nascido em novembro de 1910, na Itália, Carlos Galli
serra do Padre, uma elevação cuio per:il lembra um padre
é o padrinho das crianças ianomômis que, carinhosamente,
orando, com os braços abertos para o ceu.
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! .1
rodeiam o missionário e pedem-lhe a bênção. Seu nome é
_ Meus filhos, hora de comer. Se não comerem ficam venerado em toda a Amazônia e o Nordeste, visto ter sido
fracos e não escalam pico nenhum. companheiro do maior líder espiritual que o país conheceu, o
Era padre Carlos nos chamando para o jantar. Ele era padre Cícero Romôo Batista. Ele afirmou que, antes da morte de
realmente uma figurinha rara. Fomos até a mesa, feita ~e pa~te padre Cícero, recebera das mãos dele os quatro livros secretos
da fuselagem de um avião, e lá enc~n_tramos uma refelçao muito que contêm profecias muito importantes e interessantes para o
saborosa e diversificada: arroz, fellao, arara a~s?da, mutum, Brasil. Ele não revelou tais segredos, alegando que o país ainda
banana-prata, tapioca, peixe e cucura, a deliciosa uva da não estava preparado para isso, mas adiantou que passaría-
Amazônia. mos por uma grande transformação política, que seria inflama-
da em Sôo Paulo pela classe operária.

Apesar de italiano, ele empunha a bandeira brasileira


com muito patriotismo, inclusive espalhando cuidadosamente
várias delas pela missão.

Ele falou sobre os índios e seus costumes. Explicou-nos o


porquê da divisão em duas aldeias ali: Maturacá e Ariabu.
Simples disputa de poder entre irmãos. Um mais velho, temido
e semi-aculturado, e outro mais jovem, com algum estudo.

A tribo Kohoroxitari engloba três aldeias: as duas de


Maturacá e a aldeia de Maiá, localizada a mais de 40
quilômetros dali. Por ser distante e incrustada na floresta, essa
aldeia não mantém contato nenhum com a civilização, vivendo
praticamente em estado primitivo. Para chegar lá, são necessá-
rios dias de caminhada pela selva e, segundo o padre, de
tempos em tempos, sua população é dizimada pela fome.
A cucura, saboroso uva da- região amazônica.

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Perguntamos ao padre o porquê do nome Kohoroxitari, e Comentando com ele sobre o Parque Nacional do Pico
ele respondeu: da Neblina e o que ele achava da região, padre Carlos disse:

- Kohoroxitari ... - pronunciava cada sílaba pausada- - A região é encantadora, insuperável e, certamente, a
mente. - Kohoro minhocaçu, um verme muito abu~da~te mais bonita do Brasil.
aqui na região; xii estrume; tari .... fedid? Kohoro-xi-tori ... Entretanto, a situação no parque estava bastante crítica. A
estrume fedido do minhocaçu - explicou divertido. região é o maior conjunto ecológico do planeta sob proteção
- Esse nome - continuou - foi dado pelos antigos ambiental. São 2,2 milhões de hectares do Parque Nacional do
inimigos, quando a tribo vivia às margens do i~,a~apé Tucano, Pico da Neblina no lado brasileiro, somados a 1,3 milhão de
onde há abundância desse anelídeo. Mas eles la tiveram outros hectares do lado venezuelano. Por ser um parque nacional, ~ uma
nomes. Como Araribóia ... que significa habitante da terra das região restrita, onde caça, pesca e coleta são proibidas. E uma
araras. E arara é o que não falta aqui. E Inhewaitere, que área indígena, controlada pela Funai, onde o ingresso de qualquer
considero bem mais apropriado, e que significa: os grandes pessoa depende de autorização do órgão. E é uma área de
derramadores de sangue. fronteira, sob o rigoroso controle do Exército. Portanto é bastante
visada e controlada, não sendo fácil a penetração ali, pelo menos
Padre Carlos explicou o porquê da fama de serem eles
legalmente.
sanguinários.
Por causa de tudo isso, tivemos grande dificuldade em
- Simplesmente porque eles possuem <:sse instinto.
conseguir as autorizações para entrar na região. O Departamento
Matam sem a mínima piedade. Numa hora estao calmos e
Nacional de Parques recusava nosso pedido.
amistosos, de repente estão nervosos e são inimigos de tudo e
de todos. Mudam de temperamento facilmente. As solicitações foram remetidas com mais de 3 meses de
antecedência e, após muita briga, só fui receber a autorização do
- Uma tribo normalmente não se dá com a outra -
IBDF dois dias antes da data marcada para a viagem, e a
contou ele -, sendo inclusive costume ianomâmi atacar outras
autorização da Funai, apenas na véspera da partida.
tribos, matando os homens e raptando todas as mulheres.
O desespero que esses papéis me causaram até me revolta
-No início não foi fácil o relacionamento com os ianomâmis,
quando penso que sem papel nenhum eu estaria ali da mesma
cuja língua é por demais complexa e de 9ifícil entendimento. Há
forma. Meu objetivo era apenas escalar o pico da Neblina, só isso.
muitos conflitos de idéias e interpretaçoes mal-elaboradas -
Por que então nos impedir? Estávamos fazendo tudo dentro da lei
explicou o missionário. - Eu não imponho n?~a aos índi~s -
e não prejudicaríamos ninguém. Infelizmente, em nosso país, quem
continuou - eu lanço a idéia católica, sem eXlgenClas, e deixo a
procura andar corretamente sofre mais. Muitos garimpeiros esta-
semente qermínor por si só; aos poucos vão surgindo as opiniões
vam por lá sem autorização, devastando a mata, extraindo metais
e uma certa credibilidade e convicção.
preciosos sem pagar impostos, mudando o curso de igarapés,
Num dado instante, um indiozinho de uns 5 anos, filho de pondo fogo na flora e,em alguns lugares, poluindo as águas com
seu André, aproximou-se do padre: o mercúrio.
- Padinho , me dá uma lantéina? Isso nos revoltava, mas tudo bem. Estávamos em Maturacá
O padre emprestou-lhe a lanterna que segurava, e o em condições de realizar nossa missão. E isso era o mais
indiozinho saiu feliz, correndo para a cozinha. importante.

30 31
Era a entrada da aldeia de Maturacá, que ficava do outro
Na aldeia do luxaua Daniel lado do canal. Aproximamo-nos e fomos até a margem. As águas
eram mais escuras do que as do rio Negro, mas transparentes e
Na manhã seguinte fomos acordados pelo padre, que
cristalinas. Na outra margem, uns 30 metros adiante, índias
deu o toque de alvorada:
lavavam roupas e panelas ao mesmo tempo que se banhavam. As
_ Vamos tomar café. Tá na hora de levantar. mais idosas não usavam camisetas, deixando o busto nu. Crianças
Café, leite (em pó, pois na Amazônia leite de vaca é brincavam na água, pulando de grandes pedras. Acenamos e
raridade), bolachas doce e salgada, tapioca e banana-prata. perguntamos pelo tuxaua. Logo ele apareceu no alto do barranco
Esse era o cardápio, simples mas saboroso, principalmente iunto a uma palhoça, com duas araras nos ombros. Fez um sinal
levando em consideração o lugar em que estávamos. e um indiozinho, remando com as mãos, levou até nós uma
voadeira, atravessando o canal. Subimos na voadeira e ele nos
Após o café fomos dar uma volta ao redor da missão. O
transportou até a outra margem. Ali onde as mulheres cuidavam de
sol estava brilhando num céu praticamente sem nuvens; havia
suas tarefas, centenas de borboletas amarelas desfilavam em volta
apenas umas poucas encobrindo um trecho da serra de Baruri.
pousando quase todas e ao mesmo tempo numa e noutra pedra:
Na direção da cadeia de montanhas, pudemos ver parte Parecia que o local era encantado.
da aldeia de Ariabu por trás das árvores. Seguindo a trilha que
Daniel nos levou para conhecer sua aldeia. Mais nova
leva para a aldeia de Maturacá, atingimos um ponto onde
que Ariabu, a aldeia de Maturacá possui palhoças mais bem
havia um galpão de uns 200 metros quadrados. Parecia mais
construídas. A disposição das mesmas é meio irregular e
um salão de forró inacabado.
confusa, demonstrando uma certa desorganização. Tuxaua
Escutamos algumas risadas vindas de não muito longe. A Daniel explicou que o motivo disso foi o grande crescimento de
trilha agora descia; por entre as folhas de um [ornbeiro, sua população, que forçou o avanço mais para o interior da
identificamos o canal de Maturacá e, do outro lado, índias selva, fazendo com que as antigas palhoças ficassem no interior
lavando roupa e banhando-se. do pátio central.
O tuxaua nos mostrou o cemitério da aldeia. Era muito
As borboletas amarelas de Matucará.
pequeno, com no máximo 12 sepulturas.
- Todo mundo é enterrado aqui? - perguntou Edson
desconfiado.
- É- respondeu o tuxaua.
- Não cremam mais? - perguntei.
- Não. Com a chegada do padre, esse costume mudou.
Agora começaram a enterrar - explicou ele. .
Antes da chegada do padre Carlos, o tratamento dado aos
mortos seguia a regra ianomâmi. Transformados em pó, os ossos
do falecido eram misturados com mingau de banana-comprida e
servidos aos parentes e amigos, que comiam sem hesitaçâo. Era a

33
O pajé ajoelhou-se. Daniel
forma de transferir a força e a sabedoria daqueles que se foram
recolheu com as mãos um pouco
para aqueles que continuavam no dia-a-dia a lutar peja sobrevivên-
de ebena, colocou no tubo e
cia, caçando, pescando e cultivando o solo. E a tradição
encaixou a ponta deste numa das
ianomâmi, retrato de uma cultura milenar ainda presente, que
narinas do pajé. Num forte
mantém intactos muitos de seus usos e costumes.
assopro, só se viu fumaça esca-
Dali fomos até a entrada da casa dele. Conversamos par pelas narinas do velho índio
sobre os costumes da aldeia, sua subsistência, seu artesanato. que quase caiu atordoado. Danie'l
Ele nos mostrou palhoça por palhoça. Mostrou uma índia recarregou o tubo, encaixou na
tecendo rede de algodão e outra preparando a mandioca- outra narina e repetiu a dose. O
brava para fazer o beiju. Mais ao fundo da aldeia encontramos pajé levantou e saiu murmurando
uma das cenas mais interessantes até então: o pajé, completa- frases mágicas que o levam à
mente drogado, dizendo palavras sem sentido. presença dos deuses. Dessa for-
ma ele entra em contato com os
O tuxaua nos explicou que a missão do pajé é espantar 0S
espíritos, parime em ianomâmi, e
maus espíritos e que a tradição deles, neste ponto, ainda é forte.
clama por uma colheita mais ren- o pajé aspira ebena,
- Que droga ele toma para ficar assim e conversar com erva alucinógena.
dosa e pelo afastamento dos males
os espíritos? - perguntou Sabadin. que adoecem o índio.
- Venham comigo - chamou Daniel nos levando até a
Os animais domésticos estavam presentes em toda a aldeia.
porta de uma das palhoças. Eram cães, gatos, galinhas, patos, periquitos, araras e papagaios.
·No chão havia um potinho Uma indiazinha nos trouxe uma paca
cheio de um pó marrom. Ao lado, domesticada, mansinha e bastante
um tubo comprido de madeira. delicada, que logo conquistou nossa
-Isto é ebena, um extrato simpatia. Uma mucura (gambá) desfi-
da planta paricá. É o pó do pajé. lava livremente pelo aldeia, e os cães
Vejam como funciona ... deitavam -se em qualquer lugar.

Ele deu ordens em sua lín- Terminada a visito, otuxaua


gua para o pajé que se aproxi- deixou-nos à margem do canal,
mou rapidamente. Ele vestia ape- próximo à aldeia, e agradecemos
nas uma sunga, tinha na cabeça suo atenção e hospitalidade.
uma cobertura feita de pele de'
macaco e no braço, um arranjo
de penas de arara.

Família ianomâmi à porta de sua palhoça. A paca domesticada da indiazinha ianomâmi.

35
Esperando pelo guia vulcânico e uma das regiões mais belas e hostis do planeta. O
grau de umidade é altíssimo, as chuvas são intensas, a
Na missão perguntamos pelo índio Mílton, que havia temperatura é baixa e os ventos são constantes, proporcionan-
conduzido a tropa do Exército até próximo do pico em 1985. do uma sensação térmica bastante singular.
Descobrimos que ele trabalhava para o padre na missão, mas A selva, que margeia toda a base do pico, com a média
que não se encontrava no momento, pois tinha saído para de 35 graus centígrados à sombra, é superúmida e repleta de
caçar. O ianomãmi, quando vai caçar, costuma passar de dois animais e insetos. O formigão tocandira, os mosquitos piuns e
a três dias no meio da floresta. os mais variados tipos de doenças e males tropicais são apenas
alguns dos guardiães do pico.
Não se sabia quando Mílton voltaria. O padre insistia em
que saíssemos naquele mesmo dia, procurando outro índio para Antes do jantar, Edson veio me chamar, eufórico:
nos acompanhar. - Mílton está aí. Ele acabou de chegar da floresta!
Com o auxílio de seu André, padre Carlos conseguiu um Corremos até o pátio. E lá estava ele. Mílton, o "Grande
guia. Era um índio jovem, de menos de 18 anos. Ele não parecia Mílton", que fizera o maior sucesso na televisão ao participar
confiante e, ao perguntar-lhe se conhecia a região, respondeu como guia da não vitoriosa expedição do Exército.
que nunca tinha ido até lá, mas que poderia achar o caminho. Ele não falava bem o português. Mas mesmo assim
De cara recusamos aquele guia. Decidimos partir somente com confiávamos nele. Seria nosso guia. Seu André nos levaria de
o índio Mílton. voadeira até a foz do igarapé Tucano, numa viagem de 41
Padre Carlos estava um pouco impaciente. Perguntamos quilômetros subindo o rio Cauaburi.
o porquê daquilo, daquela pressa. Ele explicou que os tuxauas Percebemos que o padre ficara mais aliviado. Ele acon-
são desconfiados e, a qualquer momento, poderiam mudar de selhou:
idéia e impedir a nossa viagem. Um frio correu pela minha
- Saiam amanhã bem cedo.
espinha naquele instante. Afinal estávamos nas terras deles. Era
um risco real. Levamos Mílton até o alojamento e lhe passamos sua
mochila.
Almoçamos um pouco tarde. Estávamos nervosos com a
Acertamos o horário da saída e Mílton foi à aldeia
situação, mas não queríamos demonstrar. Após a refeição,
descansar ao lado de sua família.
fomos ao alojamento e iniciamos a arrumação das mochilas,
preparando também a mochila camuflada poro ser usada pelo Mais tarde, padre Carlos chamou-nos para o jantar.
índio Mílton. Muita coisa ficaria na missão. Depois de uma maravilhosa refeição (estávamos muito
Resolvemos passar a tarde ali, imaginando como seria a animados), tivemos a honra de receber a visita do temido tuxaua
viagem pela selva. Será que nosso treinamento havia nos Joaquim e seu filho mais velho, Miguel, que logo o substituiria
proporcionado condição suficiente para desbravar aquele no comando da aldeia.
mundo desconhecido? O tuxaua dirigiu a palavra a mim, enquanto seu filho e o
padre traduziam o que ele tinha a dizer.
De toda a Amazônia, certamente aquela era a área
menos explorada, temida devido à fúria ianomâmi e ao Começou dizendo que não precisa ríamos ma is subi r a serra.
misticismo que envolve o lugar. A serra é um imenso maciço Aquilo soou como um tiro em meu coração e logo uma taquicardia

36 37
invadiu meu peito. Explicou que já havia mandado um mensageiro
até o alto da serra e determinado que todos os garimpeiros
retornassem à aldeia e posteriormente a São Gabriel, sendo
portanto desnecessária nossa viagem montanha acima.
Não era possível. Por incrível que pareça, aquele sábio
guerreiro imaginava que estávamos ali para prender os garim-
peiros que extraíam ouro no parque. Coitados de nós! Seria
mais fácil eles nos assarem numa fogueira do que a gente intimar
um bando de garimpeiros sedentos por ouro a desistir de seus
e~3
negócios.
Até padre Carlos ficou boquiaberto. De imediato, rebateu
as afirmações do tuxaua, explicando nossa verdadeira inten-
ção. Foi muito difícil, mas tudo indicava que ele finalmente havia
compreendido.
o ENCONTRO COM A SELVA
O tuxaua retornou a sua aldeia. Padre Carlos nos encarou
preocupado:
- Eu não disse? Os tuxauas são muito desconfiados.
4~ ~ r:t:u 6~. O céu ainda estava escuro.
Tomamos o café e logo surgiu o nosso guia, vestido apenas com
Criam suas próprias preocupações. Amanhã, tratem de viajar um calção surrado e uma camisa bem velha. Estava descalço
bem cedo. e não trazia nem uma blusa.
- Você não tem sapatos, Mílton? - perguntou-lhe
Sabadin.
- Não. - Sua résposta era direta e de uma humildade
que dava até pena.
- Pode deixar que nós arrumamos roupa para você -
disse Edson.
Fizemos os acertos finais para a viagem. Padre Carlos nos
auxiliava com conselhos e ordens para o índio. Ele parecia
bastante aflito para nos ver partir.
Às 8 horas estávamos prontos. Seu André [ó estava na
voadeira, na margem do canal de Maturacá, preparando o
motor para a viagem. Era um motor de 15 HP num barco de 5
metros de comprimento.
Sabadin ligou seu gravador:
Dezoito de dezembro ... 8,05 h... Estamos saindo daqui da
Missõo Salesiana de Maturacá ... Agora nós vamos seguir uma trilha

38 39
aqui, pegar uma voadeira e ir até o igarapé Tucano, onde
iniciaremos a ;ornada pela floresta.
Ho;e é domingo, dia de missa aqui na missão. Cada um de nós
está levando, aproximadamente, 22 quilos em sua mochila. O
suficiente para a gente passar 10 dias no mato.
As águas do canal de Maturacá eram negros. Suas margens
eram puro floresta, com enormes árvores, cujos copos cobriam o
céu. Predominava o sombra, com umas poucos brechas por onde
o sol conseguia passar. Muitos cipós pendiam pelo cominho,
dando um aspecto sombrio e interessante 00 local.
Após uns 10 minutos chegamos 00 rio Cauaburi, onde
suas águas de cor barrento recebem, sem misturar, os águas
negros daquele canal. Seu leito tem uns 40 metros de largura
e o correnteza é bem forte, o que forçava bastante o motor do
voadeira. O Cauaburi é muito traiçoeiro. Ali, segundo soube-
mos, poderiam ser encontrados jacarés e piranhas, mos não em
abundância.
Seu André conhecia cada ponto do rio e sabia onde
havia pedras submersos, desviando no último instante, impedin-
do que o hélice do motor atingisse alguma e se partisse.
Após 30 minutos de viagem, atingimos o território do
aldeia Maiá" do outro lodo de uma pequeno serro, o muitos
quilômetros. E o terceiro e último aldeia dos Kohoroxitaris.
São 8,31 h. Acabamos de avistar um ciemari ... ciemari ... um
t

tipo de peixe-espada.
Agora são 8,48 h. Estamos ávistando três araras. Araras
amarelas ... Agora são quatro! Estão todas voando ... Mais três, são
sete ... Que beleza, está cheio de araras aqui. Mais duas! Muito
bonito.
Possamos pelo serro de Carriá, à nosso esquerdo, e, do
outro lodo, sempre imponente, estava o serro do imeri, oro
encoberto pelo neblina, oro mostrando parte de suo magnitude.

Subindo o rio Cauaburi.

40
Eu estava curioso para saber qual era a serra da Neblina, mas assim. Se a gente pergunta se ele concorda com alguma coisa,
a resposta de seu André era sempre a mesma: sua resposta sempre é positiva, porque ele quer agradar.

- É por detrás da serra de Baruri, ainda não dá para ver Colocamos as mochilas nas costas e já sentimos que não
daqui. estávamos em boa formà. Ficamos ofegantes só em ficar de pé,
Agora são /0,45 h. Há alguns minutos nós vimos um pássaro, sem dar um único passo. Aquilo significava que iríamos ter
um grande pássaro preto... E copari o nome, e agora estamos problemas e que o sofrimento não seria pequeno.
vendo aqui um... como é que é o nome? ... Coró-coró, pássaro coró- Até Mílton reclamou do peso. O índio trouxe uma
coró.
espingarda emprestada do padre. Na verdade um trambolho
E assim nossa viagem prosseguia Cauaburi acima. O rio desnecessário. Em questão de armamento estávamos razoavel-
é bastante sinuoso, com muitos bancos de areia, e, a cada mente seguros, cada um com seu revólver calibre 38 no coldre,
quilômetro, sua largura vai diminuindo, dificultando ainda mais além de uma reserva considerável de munição. Sinceramente
a navegação.
não acreditava precisar de minha arma. Não considerava os
São //,05 h. Estamos saindo do rio Cauaburi e entrando no garimpeiros uma ameaça.
igarapé Tucano... É um riozinho bem pequeno e raso. Dá para ver
Antes de nossa partida selva adentro, armei a máquina
o fundo, as águas são clarinhas... tipo água de serra mesmo. O
mato aqui chega quase a fechar o rio inteirinho... quase que forma fotográfico no tripé e juntei todos os presentes para uma foto.
um túnel. - O senhor vai ficar por aqui ou já vai embora? -
Foram 3 horas de viagem. Seu André desligou o motor e, perguntou Edson a seu André.
com o auxílio de alguns galhos, conduziu o barco até a margem. - Não, eu vou caçar por aqui.
Era o início do caminho para o alto da serra. Ali havia um
- Quais as caças que tem aqui? - perguntou Sabadin
tapiri parcialmente montado, restos de fogueira e alguns indí-
que, desde São Paulo, dizia querer caçar junto com um índio.
cios da civilização, como latas vazias e sacos plásticos. Era o
lugar conhecido por Boca do Tucano. - Tem mutum, tem cujubim, porquinho, porco, queixada.
Tem macaco, conhece macaco-cotá? Tem macaco-prego, tem
Ponto fjnal das mordomias. A partir daquele momento, só
dependeríamos de nossas atitudes e, para conseguir qualquer anta, paca.
coisa, teríamos que batalhar ainda mais. - Tem onça?
- É, falaram que aqui chove muito, mas até agora não - Também aparece, mas é arisca, né?
vi chuva - comentou Sabadin reclamando do calor.
- Mílton, mais pra frente tem água? - perguntou Edson,
- Aqui é o melhor lugar para acampar, Mílton, ou tem com o cantil na mão.
mais pra frente? - perguntou Edson.
- Tem, tem por aí ... - Esta era a resposta pad rão dele.
- Tem, tem por aí ...
Combinamos o retorno para o dia 28 de dezembro. Seu
- Então, mais pra frente é melhor, não?
André prometeu chegar ali dia 27 à noite e fic~r caçando.
- É- respondeu Mílton. Sabadin preparou um cigarro de palha para o Md.ton e. outro
Edson estava cometendo um dos piores erros na regra de para ele. Estávamos prontos para a jornada. A partir dali seria
conversação com índio: induzi-lo à resposta. Todo índio é tudo ou nada.

42 43
o primeiro dia na mata São 15,56 h. Chegamos aqui no acampamento. Fica ao lado
do rio Tucano ... Está todo mundo cansado, fatigado ... só o índio
que não. Ele nem suou, é incrível!
Na floresta amazônica, não há como sentir-se sozinho.
Cantos de pássaros de toda espécie tomam conta do ambiente, Ali havia um tapiri semimontado. Faltava apenas cobri-lo
transmitindo-nos alegria e a sensação de vida. com folhas de palmeira. Era o local ideal para Mílton armar sua
rede. Tapiri é uma espécie de abrigo feito de galhos, cipós e
Nossa jornada pela selva começou às onze e meia da folhas, aproveitando tudo que a natureza possa oferecer.
manhã. Realmente não estávamos em boa forma, realizando a
Abrimos as mochilas, escolhemos um ponto adequado e
primeira parada depois de apenas 10 minutos de caminhada.
montamos nossa barraca modelo iglu.
O caminho era por demais tortuoso e repleto de grandes raízes
que, freqüentemente, derrubavam um de nós no chão. Mílton Havia ali um enorme tronco caído, um verdadeiro bal-
disparava na frente. Muitas vezes ele desaparecia no meio da cão, ponto excelente para cozinhar, e comecei logo a preparar
mata e nós perdíamos a trilha, ficando completamente desori- nossa primeira refeição. Essa seria a rotina, fazia parte do
entados e alarmados. Mílton nos ensinara um modo de chamar planejamento. Eu cozinhava e eles se revezavam na lavagem
o co~panheiro no meio do mato. Era um grito curto e agudo, das panelas.
I

I parecido com o pio de uma coruja. "Uuh!" O cardápio seria arroz com passas, creme de ervilhas
Por mais que chamássemos a atenção dele, não adian- com bacon e primavera de legumes. Para refrescar, suco
tava; mais alguns minutos de caminhada juntos e ele começava artificial de laranja e, de sobremesa, um delicioso curau.
a se distanciar até sumir de vez. Enquanto preparava a comida, Sabadin tentava acender
Fazíamos uma parada a cada 15 minutos de caminha- uma fogueira. Mílton havia saído para pescar, levando consigo
da ..Era uma média péssima e nós não estávamos progredindo um pedaço de linha de náilon e um anzol.
~ratlcamente nada. Para piorar, o relevo ali era plano, não Antes do anoitecer, Mílton retornou com três aracus, que
tínhornos começado a subir ainda. Estávamos a uns 350 metros foram colocados na fogueira para assar, enquanto íamos
em relação ao nível do mar e pretendíamos chegar até os 3014 jantando. Sabadin ficou bravo com o índio por não tê-lo
metros de altitude! convidado para pescar.
A trilha não era ruim. Era a estafa que mexia com nossos Com o estômago cheio, nosso ânimo melhorou. Sabadin
reflexos, deixando-nos lentos, e fazendo com que um ou outro pegou uma lanterna e saiu decidido a pegar um peixe. Comecei
tropeçasse numa raiz. Eu já estava aloprado com tudo aquilo. a me sentir um pouco melhor. Como estava calor e o céu
Nos pontos mais baixos e úmidos, havia inúmeras saliências de absolutamente limpo e estrelado, retiramos a parte impermeável
barro, d~menos de 10 centímetros de altura. Pareciam peque- da barraca, deixando exposto o mosquiteiro. Dessa forma,
nos vulcoes. deitados, pudemos contemplar aquele céu maravilhoso e até
pedir-lhe forças para levar adiante nosso objetivo.
Após muita trilha, raízes, buracos, troncos e piuns, atraves-
samos o igarapé Tucano, que, naquele ponto, tinha uns 20 metros Mal cochilamos, fomos atacados por um exército de
de largura e uma profundidade não superior a 1 metro. Do outro mosquitos piuns. Os desgraçados eram tão pequeninos que
lado havia uma área descampada, que seria nosso primeiro passavam facilmente pelo mosquiteiro da boneco. a qual, sem
acampamento na selva amazônica. a parte superior, ficou completamente exposta. Levantamo-nos

44 45
p:z

rápido, recolocamos o impermeável na barraca e nos lambuza- Aqui os cipós são bem mais grossos do que os que tínhamos visto
mos de repelente. Mas o repelente não adiantou. Fomos antes e parece que as árvores também são maiores. E nós só
~brigados a nos cobrir por completo numa noite quente, que estamos subindo ...
tinha tudo para proporcionar um descanso fabuloso. Mas Mais algumas horas de sofrimento, atravessamos nova-
apesar disso, dormimos bem. Ou melhor, caímos num sono mente o Tucaninho e chegamos ao acampamento de mesmo
profundo, dominados pelo cansaço.
nome.
Bem, chegamos aqui no acampamento por volta de 15,30 h. O
acampamento fica às margens do, Tucaninho e, pelo ieilo, ele se
Segundo dia: caminho errado! encontra habitado. Vamos ver... E, realmente há três garimpeiros
aqui e uma grande fogueira.
Dia 19 de dezembro. São exatamente 8,05 h. Já levantamos o
acampamento aqui e vamos seguir em frente, em nosso segundo dia Estávamos receosos. Era o nosso primeiro contato com
de viagem. O azimute é de 320 graus. garimpeiros no meio da selva e não sabíamos qual seria a
reação deles. Aproximamo-nos com certa precaução.
Seguimos a trilha, que não diferia em nada da anterior
Muitas r?í~es,. buracos e troncos caídos. A floresta possuía urno A área do acampamento era pequena. Havia ali um
corocteristico Interessante. As árvores eram extremamente altas abrigo, com cobertura de plástico, de uns 15 metros quadra-
e es~~çadas, deixando a mata bastante transponível, ao dos. As redes estavam estendidas e no chão, por cima de
contrario da mata atlântica, onde a gente se enrosca a todo troncos cuidadosamente colocados, ficavam os mantimentos e
momento em cipós e espinhos. os diversos materiais. de trabalho.
Estavam todos deitados, descansando e escutando a Rádio
Logo à frente, encontramos a cachoeira onde Mílton
Nacional de São Gabriel da Cachoeira. Cumprimentaram-nos e
havia pescado os aracus. Tivemos que atravessá-Ia. Não foi
começamos a conversar. Elesestavam voltando da grota da Pepita,
muito fácil, pois, além do peso das mochilas, a correnteza ali
que, segundo eles, ficava na base do pico da Neblina.
era bastante forte e, naquele ponto, o rio era um pouco mais
fundo. Tivemos que fazer uma corrente com as mãos e atravessar A alguns metros do abrigo, eles montaram uma fogueira
com todo o cuidado. enorme, onde havia um quarto de veado moqueando. Foi o
garimpeiro Davi que caçou o animal com um tiro de espingarda,
Nem caminhamos 50 metros e atravessamos outro rio o
no dia anterior. Experimentamos a carne, já com bastante fome,
Tucaninho, mais raso e de extensão menor. Ali paramos poro
descansar. pois nossa última refeição tinha sido um ralo café da manhã.
O líder do grupo era Guilherme, um gari mpeí ro experien-
Caminhamos mais um longo percurso. Agora começa-
te, que já passara por muitos garimpos pelo Brasil. Fomos muito
mos realmente a subir. A inclinação era bem baixa mas [ó era
bom sinal. ' bem recebidos por eles.
Montamos nossa barraca num plano mais elevado, a uns
São 13,24 h... Estamos mortos. Aqui está muito difícil. Muito
5 metros do abrigo deles, onde Mílton conseguiu um espaço
mato, muito cipó. Acabei desenvolvendo minha parte selvagem
~quJ. InclUSiveeu me perdi do índio e fui seguindo o rumo por. para montar sua rede.
mstmto... e estamos chegando. Esta viagem está sendo uma Ali ficamos conhecendo a situação do garimpo da região.
loucura! Desde que o projeto Radam-Brasil detectou a presença de metais

46 47
paz

preciosos - em particular o ouro - na área do Parque Nacional de mais de 35 quilômetros, em região de selva e montanha,
do Pico da Neblina, em 1975, algumas pessoas passaram a demorando mais de 10 dias para que todo o "rancho" seja
estudar a fundo o relevo da região e toda a sua geologia, abrindo tombado montanha acima.
trilhas mata adentro e pesquisando pontos realmente longínquos.
- Vocês querem ir até o pico da Neblina? Mas vocês
Com isso, São Gabriel da Cachoeira, a capital do alto estão no caminho errado! - declarou Guilherme.
rio Negro, passou a viver momentos de fartura. Sendo a cidade
- Como?! - Fiquei paralisado.
mais próxima da serra da Neblina, grupos de pessoas ali se
reuniam, abastecendo-se com centenas de quilos de suprimen- - O caminho correto sai da Cachoeira para lá. Vocês
tos para desbravar aquele mundo perdido com um único estão na trilha do garimpo, que dá a volta por trás do pico. A
objetivo na mente: o ouro. outra é bem mais rápida.

Em decorrência disso, foram surgindo as áreas de garim- Não era possível. Um dia inteiro de caminhada e tudo por
po, sendo as principais: igarapé Aliança, na serra do Padre; água abaixo. Teríamos que voltar tudo e seguir a outra trilha.
cabeceiras dos igarapés Anta e Tucano, no alto Cauaburi, e a Uma enorme raiva apoderou-se de mim e uma vontade de
mais recente e de grande potencial aurífero, o alto Ariabu, na estrangular Mílton quase me fez perder a cabeça. Edson e
base do pico da Neblina. Sabadin me acalmaram.

Imaginar que a vida de garimpeiro é fácil é pura ilusão. - Mílton, você não sabia que era por lá? - perguntou
As dificuldades começam pela formação do grupo, onde os Guilherme a ele.
fatores confiança, vigor físico e seriedade são fundamentais.
-Caramba! -gritei. -Não foi por lá que você conduziu
Muito dinheiro é gasto (ou promissórias assinadas) na compra
o Exército? Por que nos trouxe aqui, pelo caminho errado?
de suprimentos suficientes para passar cerca de 3 meses
isolados naquele mundo inóspito. Com o grupo formado, deve- Mílton tentava explicar com as poucas palavras que
se pedir permissão aos tuxauas, que controlam toda a área. "A sabia. O problema foi que o filho do tuxaua Joaquim, Miguel,
região é dos ianomãmis e, sem a nossa permissão, ninguém lhe disse para fazer aquele caminho. E o pior foi que ele resolveu
entra!", afirmava tuxaua Daniel. seguir tal conselho sem nos consultar. Nós estávamos no
caminho errado e teríamos de retornar. Ou seja, dois dias de
Para conseguir tal concessão, o preço não é nada baixo,
viagem jogados fora e energia preciosa desperdiçada.
atingindo porcentagens muito altas de todo o serviço do garimpei-
ro, quando não é exigido algum tipo de adiantamento. Eles Apesar de tudo, sabíamos que Mílton não tinha culpa.
também utilizam outros meios para conseguir a permissão. Dênis, Peguei a carta da região e passei a estudá-Ia. Guilherme,
um dos garimpeiros, ali presente, de apenas 19 anos, casou-se apesar de não saber ler bem um mapa, ajudou-me com
com a filha do tuxaua Daniel, tendo portanto livre acesso à área sem informaçôes sobre o relevo e as denominaçôes dadas por eles.
dever porcentagem alguma pelo produto extraído. A partir daquele momento eu estava reossurnlndo a posição de
Conseguida a permissão dos tuxauas, inicia-se a fase líder e guia da expedição. Mílton passaria a andar atrás,
dura do trabalho: o transporte de centenas de quilos de cuidando de nossa segurança, de olho nos perigos da selva, e
ferramentas e alimentos selva adentro. Esse transporte segue o servindo de mensageiro, ficando encarregado de voltar corren-
mesmo caminho que fazíamos. Vêm de voadeiras até a Boca do do à missão para pedir socorro, no caso de algum acidente
Tucano e, dali, tudo é carregado nas costas, numa trilha tortuosa grave conosco.

48 49
>

A ajuda do garimpeiro foi muito valiosa. Nós não parar para cor;ner. Desviando do Vento, à direita, está a grota
estávamos tão errados. A trilha era mais longa mas chegava até do Homero. E pertinho dali. Daí você chega na s~rra da
o pico, e isso é que interessava. Montilla. A serra da Montilla é a mais falada por aqui. E que os
Preparei o jantar: arroz, creme de champignon ao leite e índios foram para o garimpo, levaram um litro de Montilla e
passas, farinha grossa de mandioca e veado moqueado. Um beberam tudo lá em cima. Por isso colocaram esse nome ...
semi-estrogonofe. Fui consagrado como cozinheiro, pois o - Esses índios são gozadores mesmo - comentou
jantar agradou a todos. Sabadin. - Esses índios são fogo!
Guilherme preparou um mapa para nós com a trilha e os - ... e deram o nome mais bonito da região: serra da
pontos de acampamento e garimpo. A partir dali nosso trojeto Montilla. Ela fica de frente para o pico. A serra de um lado e o
seria mais ou menos este: subiríamos a serra do Barro, que pico de outro. De lá você avista todo o pico. Mas 031 de Março
iniciava ali mesmo no acampamento, desceríamos um pouco vocês não vão conseguir ver, não. Por essa trilha, só se pode
pela crista, atingindo a grota do Açúcar ... Continuando a trilha, avistar o 31 de Março da base do pico da Neblina.
atravessaríamos umas três grotas (talvegues pequenos com
Segundo ele, após subir a Pica do Baiano, atinge-se o
curso d'água) e subiríamos uma delas, atingindo o acampamen-
platô da serra, onde a vegetação é completamente diferente. da
to da Pica do Baiano.
selva. Mais alguns quilômetros adiante dali, se o tempo estiver
- Pica do Baiano? Por que esse nome? - perguntou bom, pode-se avistar o pico da Neblina, nosso tão sonhado
Sabadin ligando o gravador. objetivo.
Guilherme ficou sem graça. Enrolou, enrolou, mas aca- Fomos dormir um pouco mais esperoncosos. Precisáva-
bou contcndo..
mos descansar bastante, pois no dia seguinte começaríamos a
- Tem um garimpeiro aqui, o Baiano, que estava subir. Até ali era só plano e já estávamos bem desgastados. O
acampado lá. E aí colocaram ... os índios colocaram o nomede dia seguinte não seria brincadeira.
Pica do Baiano.
- Mas por que os índios colocaram esse nome? -
insistiu Sabadin. Serra do Barro, um martírio
Dênis ajudou: São 8,05 h do dia 20 de dezembro. Agora nós vamos sair daqui
- É que viram ele tomando banho. Viram ele tomando do acampamento onde se encontram os garimpeiros e vamos subir a
banho e se assustaram com o tamanho ... serra do Barro. Vai ser uma caminhada e tanto. A previsão é chegar
daqui a 5 horas na grata do Açúcar.
Todos rimos. Sabadin brincou com Mílton:
Despedimo-nos de Guilherme, Davi e Dênis, e atravessa-
. - É que de índio deve ser pequenininho. Quero ver você
tomar banho, Mílton. mos novamente o Tucaninho, encontrando na outra margem o
início da subida da serra do Barro, uma vertente bastante
Mílton riu.
íngreme e escorregadia, apesar de não chover há dias na
- Esse Mílton só ri ... E depois da Pica do Baiano vemo região.
quê? - perguntou Sabadin, retomando o assunto.
As mochilas pesavam mais ainda. Dávamos alguns passos
- Depois vem o acampamento do Vento, mas antes e parávamos escorando o corpo numa árvore. A respiração estava
vocês passam pela grota da Merenda, onde a gente costuma ofegante e o coração batia forte e rapidamente.

50 51
Continuamos a dura jornada. O topo da serra não
chegava. Muitas vezes tivemos a falsa impressão de que sacrifício, enquanto Mílton ia retirando as penas do gavião e
faltavam apenas poucos metros para chegar no alto. Mas guardava uma por uma num saco plástico que lhe havia dado.
quando chegávamos àquele ponto, víamos que faltava mais - É para usar na festa da pupunha - ele dizia contente.
uma rampa, outra, e mais outra. Era uma subida sem fim, que
Todo mês de janeiro, época em que tal fruta abarrota a
estava acabando conosco. Pelo meu altímetro, estávamos a
região de Maturacá, realiza-se a festa da pupunha, uma
1100 metros, após 3 horas de marcha.
tradição que o padre não soube dizer quando começou, mas
Depois de muita subida atingimos finalmente o alto da . é considerada uma das melhores festas da tribo.
serra. A trilha continuava seguindo sua crista, que era um leve
Descobrimos ali o porquê daquele nome: grota do Açúcar.
declive. Ali a vegetação rasteira começou a aparecer com mais
As evidências nos faziam pensar assim. O local estava repleto de
freqüência, atrapalhando a passagem de nossas mochilas em
determinados pontos. abelhas, tendo uma, inclusive, picado a mão de Edson.

Mílton de repente parou e ficou atento. Pensávamos que Nosso jantar foi novamente engrossado com farinha de
fosse uma onça ou outra fera e sacamos, todos, nossas armas. mandioca, o xibé, que Mílton conseguira com os garimpeiros.
O índio apontou sua arma para cima e disparou. A farinha era simplesmente horrível, parecendo serragem com
algumas pedrinhas no meio. Mas na situação em que nos
- O que era, Mílton? - perguntou Edson assustado.
encontrávamos e com a escassez de nossa comida, aquilo
- Gavião. Gavião.
desceu como um maravilhoso banquete.
- Você gastou seu único cartucho num gavião e nem ao
O gavião só ficou pronto horas depois do jantar. Sua
menos acertou? - reclamou Edson.
carne era bastante escassa e dura. Era arrancar um pedaço e
Por incrível que pareça, Mílton trouxe uma espingarda e ficar mascando. Mílton não quis comer. Ele matou a ave
apenas um cartucho. Era o primeiro e último tiro daquela arma, somente para retirar suas penas.
durante toda a expedição ..
Mílton armou sua rede entre duas órvores de frente para a -I
De repente um barulho de algo caindo próximo. Eu não entrada de nossa barraca, e fomos dormir bastante cansados, mas
podia acreditar ... ele acertou o gavião.
com o estômago satisfeito. No meio da noite caiu uma chuva
Caramba, Mílton é bom de tiro. Acabou de buscar um gavião, repentina e Edson, preocupado com o índio, jogou-lhe um plástico
num tiro só. O gavião demorou mais ou menos um minuto e caiu grande. Era a primeira chuva que pegávamos na selva e, por sorte,
próximo de nossa posição. Eh, lasqueira! Esse índio é bom mesmo. estávamos bem protegidos dentro de nossa barraca.
Vamos ter gavião assado hoie

O tiro acertou na cabeça da ave. Era um gavião branco


de porte médio. Seria realmente bem-vindo em nosso jantar.
Após uma forte descida, alcançamos a grota do Açúcar por
volta das 5 horas. Estávamos atrasados quase 4 horas em relação
à previsão feita no Tucaninho. Acamparíamos ali mesmo.
Armamos a barraca num ponto elevado e fui cuidar do
jantar. Sabadin e Edson montaram uma fogueira com grande

52
53
I I

Cipó é aqui, inclusive nosso grande tenente está agora bebendo sua
I
água cristalina.
Não poderíamos parar ali por muito tempo. Nossa
I
I1
I I cadência era muito lenta e eu estava preocupado em chegar

I I logo ao acampamento do Vento. Eu já tinha decorado o mapa


feito pelo garimpeiro, tentando adequá-lo à carta da região e
estimar melhor as distãncias a percorrer.

I Iniciamos a subida da Pica do Baiano. Estávamos deixan-


do para trás a floresta latifoliada e nos aproximando dos
I campos de altitude da serra da Neblina. A inclinação da
vertente era bem superior à da serra do Barro e, para complicar,

I uma forte tempestade [errou do céu, encharcando nossas

o PLATÔ DA SERRA DA NEBLINA roupas pela primeira vez nessa expedição.


A trilha transformou-se num lamaçal que logo foi lambu-
zando nossas roupas. Em alguns trechos, sua inclinação era tão

/lia ~~, ao levantar, vi Mílton todo encolhido


acentuada que os garimpeiros tinham fincado troncos para
servir de degraus. Nosso ritmo diminuiu muito e, molhadas, as
dentro da rede, totalmente encharcado. Sabadin também não mochilas passaram a pesar mais.
acred.itava .no que via: o índio havia guardado o plóstico na
mochila e ficara a noite inteira debaixo de chuva. Olhando para trás, quando a neblina permitia, dava
para ver a floresta, que ia ficando para baixo. Dava a
. Tomamos o café da manhã, que se resumia em pouco impressão de que lá não chovia, parecendo até que o tempo
rnois de dOIS copos de café com leite para cada um, com estava bom. Mas ali no alto, a intempérie aumentava a cada
algumas colheres de aveia. metro que subíamos.
São 8, 1~ h do dia 21 de dezembro. Estamos saindo agora da Encontramos um paredão de puro barro, de uns 15
grota do Açucar, a caminho da Pica do Baiano. Vamos ver se dá metros de altura. A chuva forte não permitia olhar para cima.
para fazer a caminhada ho;e. Bom, nós reclamamos da chuva né Havia alguns galhos e pequenos troncos ancorados nele e
Eduardo? E ela veio. Sabe a que horas?Ouas e mei; d~ muitas bromélias revestiam sua superfície.
madrugada
Agarrando raízes, apoiando os pés em galhos e troncos
Nosso objetivo era caminhar até o acampamento do e, principalmente, sendo empurrados pelo companheiro de trás,
Vento, passand? dir.eto pela Pica do Baiano. A previsão, vencemos aquele obstáculo, atingindo o alto bem fatigados.
segundo os garimpeiros, seria de uma jornada de 7 horas, Ventava muito e, num determinado instante, parte da neblina ali
chegando ao Vento, portanto, lá pelas 4 horas da tarde. dissipou-se, mostrando que nada mais havia a subir. Estávamos
Onze e dez. Chegamos ao acampamento da Pica do Baiano. no platô da serra da Neblina, em seus campos de altitude, onde
o ~stamos a 1540 metros de altitude, temperatura de 21 graus. Aqui a visão perdia-se em infinitos horizontes.
e uma enorme clareira aberta na floresta. Muitas árvores caídas e São 14,05 h. Altitude: 1850 metros. Temperatura: 25 graus.
há um enorme tapiri coberto com plástico A nascente da grota do o Acabamos de atingir o cume da Pica do Baiano. Muito difícil

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55
mesmo, dificílimo. Tivemos que agarrar nas raízes, o peso da
mochila iogando a gente para trás... Muito perigoso.
Ali no chão havia alguns troncos de palmeira, postos lado
a lado, formando um tipo de assoalho. Aquilo era usado pelos
garimpeiros para colocar o rancho, protegendo-o do solo
lamacento. Sabadin, Mílton e Edson sentaram-se ali.

Ali pude ver como o coitado do Mílton sofria. Como


civilizado, sempre vi o índio como um Tarzan na floresta. A
imagem dos livros e filmes nem sempre é real. Eles são humanos
e, como nós, sentem dor, frio e fome. Mílton estava descalço,
de calção e camisa. A chuva e os ventos eram intensos e
gelados, contrastando terrivelmente com a temperatura do ar.
Parecia que estávamos debaixo de um forte sol recebendo um
jato de água fria. A sensação era esquisita e desagradável.

1I Mílton entrou por debaixo do poncho de Sabadin e ficou


ali, duro como um picolé, tremendo dos pés à cabeça. Fiquei
com muita pena dele. Mas não adiantava preocupar-me com
isso. Os pontos de vista do índio são bastante estranhos. Edson,
~I que era do tamanho dele, deu-lhe um uniforme camuflado
11 1I completo para a viagem, entretanto ele resolveu guardar na
mochila para não estragar.

- Vamos embora, vamos embora. A hora está passando.


:1
I Não sei o que se passava comigo. Estava exausto, mas
I não queria parar.

Reiniciamos a jornada caminhando pela primeira vez


naqueles campos. O solo era esponjoso, encharcado, repleto
de pedras, liquens e bromélias gigantes. Caminhar ali era um
martírio. Atolávamos a cada passo dado, e o perigo de quebrar
uma perna ali era grande.

No platô da serra
da Neblina, o solo
esponjoso e encharcado
mais a chuva constante
dificultavam a caminhada.
ill/
I11 56
I
l _
••

. São /5,30 h. Parou de chover aqui em cima. Estamos avistando o platô parecia um enorme vale ondulado, cercado por
dois pICOSbem altos. Acreditamos ser um deles o pico da Neblina.
pequenos e grandes montes nas bordas. Toda a água da região
De vez em quando a nuvem sai da frente e dá para enxergá-los.
desembocava no pequeno rio Ariabu, que ia aumentando de
Agora estamos em dúvida.
volume até atingir o canal de Maturacá, lá embaixo. Olhando
- É ele, sim - disse Mílton. de longe, o platô parecia um enorme gramado macio, de fácil
progressão. Mas na verdade era uma esponja gigante,
encharcada, cheia de pedras pontudas. Aqueles garimpeiros
deviam retirar muito ouro dali. Somente muita ambição podia
levar um homem a ficar meses instalado num lugar assim.
Às cinco da tarde, atingimos com muito sacrifício a grota
da Merenda, numa altitude de 1 740 metros. Era uma pequena
grota de água gelada, onde, 20 metros adiante, havia espaço
para montar acampamento.
Havia uns galhos já cortados no meio da lama. Monta-
mos uma espécie de palafita, cobrimos com folhagem de
palmeira e bromélias, disfarçando um pouco aquela superfície
retorcida. Armamos a barraca em cima e verificamos seu
interior. Uma droga! O chão da barraca estava todo cheio de
saliências e em alguns pontos cedia ao nosso peso. Com
certeza aquela seria a pior noite de nossa expedição.
Enquanto todos trocavam a roupa molhada, fui preparar
o jantar, que só foi servido às nove e meia da noite, devido à
dificuldade de se fazer qualquer coisa naquela lama.
Eu ainda não tinha trocado de roupa. O uniforme
molhado congelou meus ossos.
Edson me ajudou a desamarrar as botas e tirar as roupas
lambuzadas daquela lama preta e fedida. Vesti toda a roupa
seca que tinha. Entrei em meu saco de dormir, me acomodei o
A alewia invadiu nossas almas. Começamos a brincar e
melhor que pude, mas continuava a tremer sem parar.
a ~os,c~mprlmentar. ~st?vamos vendo o ponto mais alto do país,
p~,vdeg'o que pouqurssirnos pessoas tiveram. Até fotos em livros Sabadin abriu seu diário e começou a escrever os fatos
sao raras, sendo freqüente a utilização da imagem da serra do do dia. Aos poucos minha tremedeira ia passando.
P~dre para !epresentar o pico da Neblina. Preparei minha ... A escada feita de uma árvore, foi o maior 'sacrifício para subir
camera e nao economizei ~ilme. Cada nuvem que passava nela ... aliás foi o maior sacrifício fazer tudo ... Aqui em cima, um
dava um ?:p~cto novo ao pico e era motivo para registro. Eu mundo de barro ... Barro para tudo quanto é lado ... e hoie ninguém
estava lelicissirno. Mas tínhamos de continuar a caminhada tomou banho.
. .
58 59
Sentindo-me melhor, retirei da bolsa de equipamento Nós estávamos contornando uma pequena elevação que
fotográfico as anotações e mapas da região e comecei a impedia a visualização do pico. Faltava pouco para atingirmos
estudá-los, tentando localizar nossa posição. uma linha de cumeada que dividia o rumo das águas do platô,
as bacias do alto Ariabu e alto Cauaburi.
- Se tivéssemos uma carta precisa, tudo estaria resolvi-
do. Mas confiar num mapa manuscrito de um garimpeiro e em Atingimos a linha de cumeada. À nossa frente, uma
outro feito por um integrante do Batalhão de Forças Especiais baixada de uns 100 metros de desnível, por onde a trilha
coloca a gente numa situação incerta - desabafei. continuava e, mais à frente, desviava para a esquerda. Paramos
para um descanso. Fiquei observando o terreno, pois queria
, - ~e~, se o pico está ao norte, como foi conferido pela
bussola, e so seguir a direção e pronto - disse Sabadin. entender o porquê de a trilha descer por ali e não continuar pela
crista da elevação, na direção exata do pico. A resposta veio
. - O problema, Sabadin, não é saber onde é o pico da
com a saída da neblina, que descobriu uma elevação de pura
Nebll,na. O que eu realmente quero saber é a via certa para
rocha, não muito alta, mas bem íngreme, impedindo a progres-
escal.a-Io. Lembrem-se de que estamos com equipamento de
são por ali.
alpinismo reduzido e que o vento e as chuvas não estão a nosso
favor. O lado correto - continuei - é por onde o Exército havia Uma espessa camada de neblina chegou repentinamente,
tentado em 1985. com um vento fortíssimo, cobrindo toda aquela baixada e trazendo
consigo uma chuva forte e gelada. A chuva, apesar de forte, não
- Mas não seria melhor escalar por outro lugar? -
durou mais do que 2 minutos; foi-se com o vento e a neblina,
perguntou Edson. - Assim marcaríamos pioneirismo.
deixando novamente limpa a paisagem que contemplávamos.
- Tudo bem. Mas nossa comida está no fim e, nessa
I marcha, logo estaremos sem nada para comer. Preciso desco- - Vamos embora, senão não chegamos a tempo na
I
brir como alcançar a trilha original. Assim nosso retorno poderá grota do Gelo. Na grota do Homero só vamos pegar informa-
ser reduzido para, no máximo, 3 dias. ções. De lá teremos que partir rapidamente - eu disse, sem
acreditar que faríamos tanto. .
Enquanto discutíamos, recomeçou a chover. As saliências
do piso não deixaram ninguém dormir direito. Descemos a vertente com muita dificuldade. Era muito
íngreme e de puro barro, o que me fez escorregar alguns metros,
Hoie é 22 de dezembro. São exatamente 9, 40 h. Já desmon-
tamos o acampamento e pretendemos avançar mais um pouquinho. lambuzando ainda mais a mochila. Chegamos embaixo. Uma
floresta de pequenas árvores, palmeiras, cipós e todo o tipo de
. Aq uela noite foi horrível. Todos os ossos do corpo doía m.
plantas rasteiras formava um exército que procurava nos barrar
O pior de tu.do foi tirar o agasalho e recolocar as roupas
de toda maneira.
molhadas e frias. Com o corpo ainda frio, meio duro, recome-
çamos a caminhada, já atolando o pé na lama nos primeiros Mais à frente, a trilha subia uma vertente. Era o desvio à
passos. Uma brisa forte e gélida nos acompanhava. esquerda que tínhamos visto de lá de cima. Fomos deixando
para trás e para baixo aquela floresta e, após alguns minutos,
Por vezes, um buraco mais fundo fazia um de nós afundar
já estávamos num plano razoável. Olhei para a esquerda e ,<i
atéo joelhoecair, lambuzando toda a roupa. Devido às chuvas
a elevação escarpada, responsável pelo desvio da trilha. A
constantes, Sabadin utilizava um poncho impermeável; Edson
direita, o terreno ia perdendo altitude aos poucos e a cobertura
e eu, capas de chuva amarelas, daquelas usadas por funcioná-
rios de limpeza urbana. vegetal ia mudando de bromélias para floresta. A neblina

60 61
I
I

impedia de ver mais adiante, mas sabíamos que lá embaixo


estava o rio Cauaburi e, à frente, do outro lado do pico da
1I
Neblina, a trilha que deveríamos ter tomado.
São 12,00 h. Chegamos a um acampamento. Talvez seia o
acampamento do Vento.
- Não dá nem para sentar para descansar - reclamou
Edson.
- Aqui não dá para ficar de jeito nenhum - observei.
- O que vocês acham de esperar aqui, enquanto eu e o Mílton
descemos aquela trilha, para ver se encontramos a grota do
Homero e os índios garimpeiros?
Colocamos nossas mochilas em cima de uma pedra cheia
de líquens. e então Mílton e eu prosseguimos por uma trilha que
descia na direção do Cauaburi. Uns 20 metros à frente já A destruição da grata da Mucura.
estávamos dentro de uma mata fechada, igual à que havíamos
passado minutos antes.
Boquiaberto, fui avançando naquele terreno "lunar".
Mílton estava mais à frente e, de repente, começou a dar seus
gritos, isto é, a usar seu código de comunicação ianomãmi, que
Stanislau, O índio garimpeiro
logo foi respondido por alguém. Logo um outro índio veio em
A trilha ia avançando mata adentro, cada vez mais nossa direção. Mílton ficou muito feliz em vê-lo. Sua cara de
fechada. Era cipó para todo lado e iolhcqorn de toda espécie. contentamento era até um pouco infantil.
I Não se via nada além de 5 metros. A medida que progredía- - Boa tarde. - Cumprimentei o índio, meio preocupado.
I [ mos, a trilha ia se transformando num riacho e logo já estávamos
- Boa tarde, tenente - respondeu ele. - Meu nome é
com água acima da cintura. A chuva engrossava mais e a
Stanislau.
correnteza ia aumentando, o que dificultava ficarmos em pé.
Mas, logo adiante, a trilha desviou do riacho e pisamos terra Como esse índio sabe que sou tenente? Lá em São Paulo
firme. Continuamos seguindo o riacho pela margem esquerda muitos me confundem com sargento, capitão, sei lá. Eaqui nesse
e, mais à frente, encontramos uma clareira. fim de mundo, um índio ianomãmi reconhece minha patente?
Essa é boa!
A trilha foi se tornando mais aberta e a vegetação, mais
rala. Havia muitas árvores e galhos cortados. Mas aquilo não Stanislaú era um índio culto. Estudou em São Gabriel da
podia ser chamado de devastação, comparado ao que se via Cachoeira, sendo um dos poucos que sabiam escrever. Tinha
adiante: a floresta que margeava o riacho estava totalmente 19 anos de idade e havia servido o Exército, em Manaus, no
devastada, reduzida praticamente a zero. O leito do riacho fora Centro de Instrução e Guerra na Selva (C1GS), o que facilitou
totalmente revolvido e peneirado, sendo jogado às suas mar- ainda mais o nosso relacionamento. Ele estava liderando um
gens todo o cascalho retirado. Era uma cena de total destruição. grupo de índios, em busca de ouro.

62 63
I

- Vamos tomar um café, tenente - convidou Stanislau. Tudo arrumado, fomos tomar banho. Na outra margem,
de frente para a nossa bancada, havia uma grande bica,
Fomos até um tapiri feito de madeira e coberto por um
jorrando água da altura de um metro e meio. Foi o local ideal
enorme plástico azul. Lá fui apresentado a outros três índios.
para um banho completo e a lavagem de nossas sofridas
todos adolescentes. Apesar de muito forte e com pouco açucar,
roupas. A água estava geladíssima, mas a sensaç-ão de estar
aquele café quente desceu gostoso. Mílton gostou tanto que
limpo compensava aquele sacrifício.
repetiu duas vezes a dose, o que lhe custou uma bronca em
ianomâmi dada por um dos índios. Depois de tomar banho e trocar de roupa, fomos conhe-
cer melhor a vida no garimpo. Stanislau e seus companheiros
Já eram duas e meia da tarde. Segundo Stanislau, nâo
nos levaram para ver toda a área revolvida com enxadões e
seria muito fácil alcançar a grota do Gelo antes do anoitecer.
picaretas e entender um pouco como aquilo funcionava.
O ideal seria pernoitar ali mesmo. Ele e outro índio voltaram
conosco ao acampamento do Vento para nos ajudar a trazer o Com o acampamento montado às margens de um dos
material. A chuva havia parado e a trilha estava um pouco mais riachos da região, vem a primeira fase do trabalho propriamen-
transitável. te dito: o teste aurífero com a cuia. Esseteste consiste em escolher
pontos aleatórios do terreno, numa distância aproximad?de 1O
Com a mochila nas costas e toda a equipe unida,
metros um do outro, encher uma cuia de cascalho e verificar se
retornamos à grota do Homero. Segundo Stanislau, o nome
há ouro misturado ali.
correto era grota da Mucura, devido à quantidade desses
animais existente ali. Encontrados alguns grãos, vem a segunda fas.e, que
consiste na quebra do cascalho do ponto em que o ouro foi
Na margem contrária ao tapiri dos índios, havia uma
detectado. Esse cascalho é jogado às margens do riacho, onde
bancada de cascalho, local ideal para montar nossa barraca.
é montada uma bancada, com armação de troncos e galhos.
Nunca montamos a barraca com tanto carinho. Também Nessa bancada eles espalham o cascalho moído e aí vem a
pudera, depois de tanto desconforto, encontrar um lugar plano fase final e de maior expectativa para o garimpeiro: "a hora da
e perfeito como aquele, junto a uma água pura e gelada, era cobra fumar". Consiste numa caixa, em forma de cocho,
um privilégio digno de comemoração. montada junto à bancada. Sobre ela é jogado todo o cascalho
o confortável acampamento em Mucura.
que escorre com o auxílio de água jogada por baldes. Esse
cocho é forrado com saco de estopa preso por algumas ripas
transversais, cuja função é reter a parte mais pesada do
cascalho, ou seja, o esmeril e o ouro.
É aí que o garimpeiro vê se todo o seu sacrifício valeu ou
não a pena. Não encontrando o ouro, ou ele tenta outro ponto
do terreno, ou muda para outra grota. Via de regra nunca
desistem, pois a febre do ouro é contagiosa e incurável.
. A chuva já tinha parado há mais de uma hora e surgiram
sinais de sol naquele final de tarde. Já estávamos começando
a cuidar da comida quando Stanislau gritou de longe:
- Venham aqui! O pico está visível agora!

65
I Corremos em disparada até o outro lado da margem, de
I onde contemplamos um dos ângulos mais impressionantes do
pico da Neblina.
Comecei a fotografá-lo de todas as formas que pude
imaginar. Eu estava maravilhado. Lá estava nosso objetivo, todo
imponente, sozinho naquele ponto elevado, mas ainda muito
distante de nós. Em linha reta, devia estar a uns 8 quilômetros.
Desse ângulo, parecia realmente impossível escalá-lo. E
era exatamente isso que Stanislau repetia constantemente.
- É impossível chegar lá em cima. Eu lembro quando o
Exército foi até lá perto. Não dá, não.
Realmente dava medo só de olhar. Estava escurecendo e
sua imagem ficava a cada minuto mais misteriosa. Sentia um frio
na espinha só de pensar em estar pendurado naquele enorme
paredão, debaixo de chuva e à mercê dos ventos fortíssimos que
assolam a região. Um simples descuido e tudo acabado. Eu
sentia que o fantasma da morte rondava o pico.
Stanislau colaborou com o jantar oferecendo alguns
gêneros. Depois conversamos longamente com o índio, que nos
contou sobre os costumes de sua tribo e a tradição guerreira dos
I ianomâmis.
I I
Segundo ele, os kohoroxitaris viviam às margens do

I I
igarapé Tucano. Por volta de 1949, tiveram contato com padre
Antônio Góes, que, após muita insistência, conseguiu conven-
cer toda a tribo a se mudar para as margens do canal de
Maturacá e do rio Ariabu, onde vivem até hoje. Entretanto, por
motivos políticos, em meados de 1975, os irmãos Joaquim e
Daniel brigaram, dividindo a aldeia em duas partes: Ariabu e
Maturacá, que permanecem até hoje separadas dessa forma,
mas [ó sem conflitos.

Stanislau contou também que os índios se interessam por


quase tudo que o homem branco traz da cidade, desde que não
sejam ferramentas e máquinas para trabalhar.

"É impossível chegar lá em cima."

66
- o que eles querem mesmo é conforto e muitas armas pretendiam retornar da Merenda naquele mesmo dia, fazendo
e munições. - Ele falava como se também não fosse um índio. na metade do tempo o dobro do percurso que fizemos em quase
Stanislau e Mílton foram dormir no tapiri; nós ainda dois dias de penosa viagem. Chamavam-se Lourival e Ivo, e seus
ficamos mais umas duas horas discutindo nossas possibilidades trojes resumiam-se a um calção grosso, botas impermeáveis e
e estudando o velho mapa manuscrito. Tinha que haver uma camiseta, levando à mão o facão para abrir caminho.
forma de contornar o pico e encontrar a trilha original. Essa era - O sargento Ferreira? Está lá conosco, sim - respon-
a nossa esperança. Senão estaríamos numa fria, pois nossa deu Lourival. Aquela notícia foi estimulante para nós. Eles
comida já estava acabando. seguiram viagem rumo à Merenda, e nós continuamos a dura
Com a altiva visão do pico da Neblina em nossas mentes, caminhada, atolando a cada passo naquela esponja nojenta.
caímos no sono. Aquela imagem impressionante penetrou em A trilha aos poucos foi ficando mais inclinada, até se
meu subconsciente e encheu minha noite de sonhos estranhos e tornar uma subida íngreme e interminável. A chuva e o vento
sem nexo, onde ele era sempre o protagonista. voltaram a castigar, deixando o caminho ainda mais escorrega-
dio. A fadiga era tanta que parávamos a cada 100 metros, com
a respiração ofegante e os ombros amortecidos pelo peso da
o desafio da serra da Montilla mochila. Não víamos nada além de neblina.
Lourival tinha dito que, mais à frente, encontraríamos uma
Mucura. O melhor acampamento de toda a expedição,
formação de pedras que nos protegeria da chuva.
apesar de ter sido a noite mais fria da viagem. Desarmamos
rapidamente a barraca sob os olhares curiosos dos índios, Andamos muito tempo ainda até atingir uma enorme
impressionados com o seu formato. pedra. Em um de seus lados, uma pequena área seca, bem
estreita, nos aguardava. Deitamos ali de mochila e tudo. A
Dia 23 de dezembro, 8,25 h. Vamos sair daqui da grata da
Mucura em direção à grata do Gelo, subindo a serra da Montilla. garoa foi ficando ainda mais forte e logo virou tempestade, com
Será que conseguiremos? Não percam a próxima gravação! um vento forte e gelado.
Estamos com I Ó graus agora. Eu estava congelando. Estava ficando impaciente de
Reiniciamos a caminhada voltando até o acampamento novo. Minha preocupação com o horário era uma constante,
do Vento para retomar a trilha, rumo à tão comentada serra da pois não queria passar novamente pela experiência de pernoi-
Montilla, nosso próximo desafio. tar em local impróprio, como a grota da Merenda.

Não havíamos caminhado nem 20 minutos quando dois Com a chuva forte, inúmeros filetes de água escorriam
garimpeiros passaram por nós, cada um com uma cesta de pela pedra molhando aquele pequeno espaço que nos abriga-
bambu nas costas e um facão na mão. ~ va. Os filetes foram aumentando em número e volume, impedin-
do que continuássemos deitados. Em pouco tempo ficou tudo
- Bom dia! Como vai, tenente? - cumprimentou um
debaixo de chuva.
deles, acertando em cheio minha patente. Eu era mais reconhe-
cido ali do que em meu próprio bairro. O desespero foi geral. Nossa situação estava crítica. Ali
realmente não dava mais para ficar. Mesmo debaixo de forte
Perguntamos como é que eles conseguiam andar tão bem
chuva, levantamos e prosseguimos. Nossas capas estavam bastan-
naquela lama e ficamos assustados quando eles disseram que
te iudiadas. Muitos rasgos e furos, que iam molhando aos poucos

'68 69

·1
a gandola e nosso corpo. A única vantagem era que mantinha um A inclinação aumentou tanto que só nos restou à frente
pouco aquecida a água ali dentro. Caminhando, o frio não
i uma rampa de menos de 200 metros para atingir o topo. A visão
,
incomodava muito, mas havia o cansaço, as dores nas costas, nos era magnífica. Ao longe, alguns trechos do platô estavam
ombros e pés, e os passos atolados até quase o joelho. ensolarados. Um bando de araras vermelhas cruzava os céus
Contudo, caminhar ainda era a melhor opção, pois naquele instante, dando um pouco mais de vida à paisagem até
diminuía a distância entre nós e o pico. Na trilha, eu procurava então sombria e misteriosa.
pisar exatamente nas marcas deixadas pelos passos dos garim- Os últimos 30 metros foram os piores, com muita lama e
peiros. Deveria ser o melhor lugar, pois caminhavam ali numa pedras, inclinação quase máxima. Tive de me agarrar em raízes
velocidade incrível e com grande performance. e bromélias para subir. Parecia que meu coração ia sair pela
Num trecho do cominho encontramos enormes pedras boca. Edson, Sabadin e Mílton estavam todos em pé, olhando
sobrepostas que formavam um longo corredor, uma autêntica para o outro lado da serra, e nem me viram chegar. Levantei-me
caverna. Esse era o lugar que Lourival indicou e não aquele que e, ao olhar em frente, fiquei paralisado com o que vi. Era
quase nos matou de frio. Mas não era o caso de parar simplesmente tenebroso. Daquele lado, a serra era um enorme
novamente para descansar. Tínhamos que continuar, pois já abismo de mais de 300 metros de altura. Lá embaixo, um
estava ficando tarde. enorme vale, repleto de bromélias e outras plantas típicas dos
A chuva foi diminuindo até parar. A inclinação do campos de altitude. Do outro lado, alguns quilômetros adiante,
caminho aumentava e, com a dissipação da neblina, pudemos uma enorme montanha se elevava bem alto, muito acima do
avistar o cume da serra da Montilla. Embaixo ainda não se via nível em que estávamos; seu cume estava totalmente coberto por
nada, mas olhando a oeste e a noroeste voltamos a contemplar uma camada espessa de neblina.
a imensidão do platô da serra da Neblina. Era uma visão medonha. Apesar da distância, sua
Olhei para trás e não pude acreditar no que via. Os dois imponência era incrivelmente assustadora. Aquele era o pico da
garimpeiros que haviam passado por nós há menos de 3 horas , Neblina, o ponto mais alto e misterioso do país. .
já estavam nos alcançando. Nós demoramos quase dois dias São 12,53 h. Conseguimos atingir o topo da serra da Monti//a.
para realizar o percurso e eles menos de 3 horas! Muito sacrifício! Cheio de pedras! Foi praticamente uma escalada
Lourival nos alcançou antes de Ivo, carregando a mochila o que fizemos.
lotada de suprimentos. Ele parecia bastante disposto. Dá para ver quase que a região inteirinha. O pico está
- Quantos quilos você está carregando nas costas?- totalmente encoberto. Altitude: 2500 metros. Temperatura: 20
perguntou Sabadin ao outro garimpeiro. graus.
- Uns 30 quilos - respondeu Ivo. - Os caras desceram por aqui - disse-me Sabadin,
- Como vocês conseguem caminhar tão rápido com apontando para a continuação da crista da serra, que descia a
todo esse peso? noroeste. - Quando cheguei deu para vê-los bem lá embaixo.

Os garimpeiros foram aos poucos desaparecendo pela Peguei os mapas para estudar a região. Tudo indicava
trilha, apesar de continuarmos caminhando na mesma direção. que uma pequena serra à esquerda do pico era a serra do Ouro.
"Esses caras são uns touros. Nem se cansam. Para tanta Olhando com bastante atenção dava para ver o local onde
dedicação, deve haver muito ouro aqui em cima!" garimpava a turma do Guilherme. Uma enorme lona azul

70 71

I
II
I

cobrindo o tapiri, contrastando com as cores da vegetaçãO,


identificava o ponto exato da grota da Pepita.
A grota do Gelo não era visível dali; só conseguiríamos
avistá-Ia quando estivéssemos bem próximos. Essa era a infor-
mação dada por Guilherme e confirmada por Lourival.
Muitos pontos do platô estavam queimados. Eram.enor-
mes áreas, em forma de círculo, onde a vegetação apresentava
cor amarelada e negra. Tudo indicava ser obra dos garimpeiros
e~5
para facilitar a abertura de trilhas e a remoção do cascalho das
grotas.
Pensávamos que a partir dali seria mais fácil e rápida a
progressão, pois era apenas descida. Decepção novamente. A
lama era tanta e tão mais funda, que o perigo de cair montanha o PREÇO DA RIQUEZA
abaixo não era pequeno. A nossa passada era irregular.
Descíamos devagar, pisando em tufos de bromélias e de um tipo
diferente de capim. Escorregávamos, ou caíamos de vez na - Po.a:a/ Va.cêd. ~ ~ - disse Lourival, que
lama, ou descíamos quase que correndo montanha abaixo, estava sentado em cima de uma lata.
procurando segurar em qualquer coisa que aparecesse. - Que caminho mais desgraçado é esse! - desabafei.
Às 4 horas da tarde, finalmente, alcançamos a grota do - Não sei como vocês conseguem caminhar aqui.
Gelo. Menos de 50 metros por ali e atingimos o acampamento, - A gente está acostumado - respondeu ele.
onde alguns garimpeiros descansavam após um dia inteiro de Ali estavam seis garimpeiros: Lourival, Ivo, Goiano,
trabalho. Ferreira, Jacinto e Manoel, um índio tucano. Goiano era o líder
do grupo e também o mais experiente. Seu nome era Sebastião,
tinha 32 anos de idade e já havia passado por inúmeros
garimpos pelo Brasil.
- Eu garimpo desde 1980. Sul do Pará foi onde primeiro
garimpei. No alto Tapajós, em Itaituba, Mato Grosso, Macapá,
Rondônia. Já estive em Rondônia uns tempos, entende?
- Então vocês vivem disso aí, não? - perguntou
Sabadin.
- Vivo disso. Vivo de garimpo. De uns tempos pro cá minha
profissão é garimpo, mesmo; e todo o tempo dentro do garimpo.
- Vocês passam quanto tempo no mato, assim?
- Às vezes passamos 90 dias, passamos 60, ós vezes
passamos mais, passamos menos. Conforme a sorte. As vezes

72 73

I
a gente vem com Sl sorte boa, arruma logo o produto e vai Montamos nossa barraca perto do tapiri deles, bem na
embora, entende? As vezes chega meio ruim e a gente tem que beira da grota do Gelo. Antes de colocar a roupa limpa e seca,
ficar muito mais dias, entende? resolvemos lavar a roupa sujo e tomar banho nas águas geladas
- Essacaminhada que nós fizemos - começou Sabadin -, doAriabu. Depois improvisamos um varal para estendera roupa
vocês fazem com quantos quilos? molhada e fomos para junto da fogueira tomar um café bem
quente.
- O normal é 30 quilos, entende? Agora tem uns que
carregam 35, outros 40, entende? A média é 30, é a base de Sabadin aproveitou o resto da tarde para gravar uma
vir de lá e chegar aqui no garimpo. entrevista com Goiano, o garimpeiro mais experiente de todo o
alto rio Negro e responsável pela abertura de todas as trilhas
Isso é que é vida sofrida. É muita luta. Dormem em rede, embaixo
de uma tenda esticado sobre um tapiri de troncos de palmeiras. Uma existentes ali nas proximidades do pico da Neblina.
fogueira para fazer a comido e esquentar as noites frias. Muita - Goiano, como é que faz mesmo o processo lá? Vocês
dedicação e sofrimento por um único obietivo: a riqueza! [oqorn o cascalho em cima da bancada e depois ...
O acampamento ficava na margem direita da grota do - Depois a gente vai lavar tudo. Ou seja, fazer a "cobra
Gelo, desembocando num riacho maior, que, segundo Goiano, fumar" - disse ele.
era o rio Ariabu. "Olá, Ariabu. Lembra-se de nós, lá perto da
- Fazer a cobra fumar?
aldeia? Logo estaremos na sua nascente, bebendo de sua água
límpida e cristalina, que jorra do ponto mais alto do país." - Sim, primeiro a gente tira o barro que tem o ouro. Às
vezes tem até um pouquinho de ouro, mas não compensa a
Com Goiano e seus amigos pudemos entender o que era
gente ficar procurando manualmente. Aí a gente quebra o
a vida de garimpeiro. José Ferreira da Silva, o ex-delegado de
cascalho com as marretas, joga o ccscolho em cima da
São Gabriel e sargento da Polícia Militar do Amazonas, estava
bancada e depois a gente faz a cobra fumar. E um cocho e uma
licenciado e, em vez de procurar lazer e descanso, estava ali,
caixa. Enquanto um vai jogando o cascalho em cima do cocho,
naquele mundo cruel e inóspito, longe da família e dos amigos,
outro vai [oqondo água, com um balde. Aí você pega o produto
com um único objetivo na mente: o ouro.
que ficou retido pelas ripas do cocho, leva para a bateia, vai
Entretanto, todos ali foram unãnimes em dizer: "Escalar o batear ele, vai limpar o ouro e depois leva co fogo.
pico é impossível. Aquilo é só paredão!" Nem por isso procu-
- Para que queimar?
ravam nos desanimar, mostrando muita boa vontade em passar
as informações sobre a região. - Queimar para enxugar. É porque ele está molhado e
só seca no fogo ou com sol muito quente.
- O melhor que vocês fazem é retornar até a Mucura e
pegar um desvio até a trilha tradicional. Por lá pode até ser que - Então nesse processo da cobra fumar o lance é [oqor
dê para escalar. Mas, poraqui ... nãosei, não-disseGoiano. o cascalho dentro do caixote?

Por causa dos problemas com nosso material, como botas - É só jogar dentro do caixote e passar pela cobra
e mochilas arrebentadas, resolvemos passar o dia seguinte ali, fumando.
colocando tudo em ordem e recuperando um pouco as energias - Tirando o cascalho daqui e jogando lá dentro, tudo o,
despendidas. Assim, enquanto arrumássemos o material, pode- que pára dentro do cocho nas ripas transversais, de pequenini-
ríamos decidir que rumo tomaríamos. nho assim, é ouro?

74 75
,I
- Não. Nem tudo é ouro! Tem outros materiais, fica o
esmeril, fica o ferro ...
- Ferro? Aqui tem ferro?
- Tem, sim.
- Ferro vem junto com o ouro?
! I - Vem junto com o ouro.
'I - Esse esmeril é igual ao ferro?
- Não, o esmeril é um material que não vale nada e sempre
acompanha o ouro, entende?
'I
- Então os três mais pesados são o ouro, o esmeril e o ferro?
.- É, sendo que o ouro é o mais pesado de todos.
- Ecomo vocês fazem para separar oourodoesmeril e do ferro?
- A gente tem ieito. A gente usa a bateia para separar os três. Um garimpeiro mostro como achar ouro.

Para descobrir em que local existe ouro, Goiano utiliza Ficamos sabendo também que as cantinas que havia nas
uma cuia para o teste aurífero. aldeias foram montadas por Goiano, em troca da permissão
-Agente vai vendo um ponto, outro, de metro em metro. para garimpar na área. Ele gastou uma fortuna com elas e, por
A gente vai testando. A gente vai vendo o que tem, se compensa isso, era bastante respeitado pelos tuxauas.
jogar para cima, na bancada, ou se é melhor abandonar e ir
Naquela noite, jantamos arroz com jabá, feijão e muito
para outro lugar.
xibé, refeição que nos foi oferecida pelos garimpeiros.
- Qual é o número de pessoas necessário para fazer
Fomos dormir tarde, por volta de 1 1 horas da noite,
esse processo?
depois de muita conversa com os garimpeiros. Estávamos bem
- No mínimo três. Mas a equipe boa mesmo é de seis. alimentados e já recuperados da fadiga. Nosso único problema
Assim trabalha bem, sem parar. era a dúvida que nos atormentava: continuar por ali ou retornar
O garimpeiro pegou uma cuia e um enxadão. Levou-nos até a trilha tradicional?
até a beira do rio Ariabu; escolhemos um ponto qualquer, ele
cavocou, colocando um pouco de areia dentro da cuia. Aí ele
começou a mexer a cuia mergulhando-a nas águas do Ariabu, Véspera de Natal
fazendo com que o material mais leve fosse levado pela
correnteza. Após uns 4 minutos de operação ele nos mostrou a Acordamos tarde no dia seguinte, 24 de dezembro,
cuia e, dentro dela, pudemos observar algumas fagulhas de véspera de Natal. Já eram quase 10 horas e o sol dominava um
ouro junto com areia fina, esmeril e ferro. céu azul, quase sem nuvens.
Goiano conseguiu tirar algumas fagulhas de ouro h Ele nos - Bom dia! - cumprimentou Ferreira, enquanto prepa-
disse que deve ter uns três pontos, que não chega nem a um décimo rava o café junto do fogo.
de grama ... mas é sinàl que tem. .
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76
Os outros já estavam trabalhando no Ariabu, jogando Ferreira chamou para o almoço. Depois do almoço,
ccscclho sobre uma bancada que havia na margem oposta. Lourival e Ivo foram à grota da Pepita buscar alguns materiais
lá deixados.
Ferreira preparou café com leite e nos ofereceu um
saquinho de milharina (flocos de milho pré-cozido) para engros- Com O mapa aberto, estudamos nosso percurso. O pico
sar o leite. Eu nunca havia provado aquilo, mas era uma delícia. estava logo à frente e isso era um ponto positivo: não havia
Colocava um punhado dentro do copo, punha um pouco mais como se perder ali. Era seguir o azimute ou, se a neblina
de açúcar e parecia que eu estava comendo um delicioso bolo permitisse, seguir aquela imponente elevação. O problema era
de fubá feito pela minha mãe. Foi o café mais gostoso desde que descobrir por onde escalar. Outra preocupação era encontrar
saímos de São Paulo. Superou até o de Manaus! a trilha tradicional e voltar por ela.

Sentamos com nossas mochilas sobre os troncos de Resolvemos seguir até a Pepita e de lá rumar até o alto de
palmeira. Cada um começou a consertar suas coisas. Sabadin uma linha de cumeada que une o pico da Neblina a um outro,
tinha dois grandes problemas: a alça da mochila e suas botas possivelmente o do Cardona. Atingindo essa cumeada, iríamos
com as solas totalmente descosturadas. Edson se ocupava com por ela até a base do pico e lá escolheríamos o melhor ponto
algumas costuras de sua mochila, e eu estava ficando maluco para escalá-lo.
tentando costurar a sola da minha bota. Quanto à volta, encontrando a trilha tradicional, voltarí-
Eu estava usando a única agulha grossa que tínhamos e amos para o Cauaburi por lá. Nossa grande preocupação,
empurrando-a com minha faca. A sola era tão grossa que a realmente, era a escassez de suprimentos.
agulha logo quebrou. Fiquei uma fera e comecei a gritar de Depois de discutir nosso trajeto, fomos para perto dos
raiva. Naquele instante aconteceu algo que me deixou perple- garimpeiros, que trabalhavam duro. Não tinham um minuto de
xo. Mílton, que até então não tomava parte em nada do que folga.
I I fazíamos, chegou perto de mim e disse: "Calma! Calma!"; foi Observamos algo curioso. Desde cedo o sol castigava
até o outro lado do abrigo, junto à fogueira, pegou uma lata de toda a região. O solo continuava encharcado como sempre,
quitute do lixo, arrancou seu abridor e me trouxe: mas tudo que se encontrava a mais de 10 centímetros dele já
- Agulha! Boa agulha! estava seco e quebradiço. Era só acender um fósforo e pronto:
toda a folhagem poderia incendiar-se rapidamente. Era por isso
Eu mal podia acreditar. Aquele índio, em questão de
que vimos do alto da Montilla áreas queimadas. O garimpeiro,
segundos, improvisou uma superagulha para costurar bota que,
para abrir uma clareira, apenas espera o sol sair e, algumas
além de inquebrável, tinha olhai!
horas depois, com um único palito de fósforo, provoca grande
- Edson! Sabadin! Olhem isto! Foi o Mílton que fez. destruição.
- Poxa! Depois vê se me empresta para costurara minha, . Às 4 da tarde, um vento forte, repentino, trouxe uma
hein? - Sabadin virou para o índio: - Grande Mílton! camada de nuvens negras. Nem um minuto decorreu e uma forte
Durante toda a manhã, ficamos discutindo nossa situação tempestade começou a cair. Parecia que o mundo ia desabar.
e, após muita conversa, decidimos continuar por ali mesmo. Na Todos os garimpeiros abandonaram o trabalho e buscaram
manhã seguinte iríamos até a grota da Pepita e de lá seguiría- abrigo no tapiri. Montaram suas redes e deitaram-se rapidamen-
mos o azimute até a base do pico. te, aproveitando a folga imposta pelo temporal.

78 79

I
Meia hora depois a chuva parou e saímos da barraca. Acabamos rindo da situação. Ficamos imaginando o que
! '
O rio Ariabu estava incrivelmente cheio, com uma correnteza passou pela cabeça do Guilherme e sua turma ao nos ver ~ I
I
tão forte que, se um de nós caísse ali, chegaria em menos de chegar. Deviam estar esperando um pelotão armado até os I

uma hora ao canal de Maturacá. A grota do Gelo estava . dentes e depararam com três famintos, quase mortos de :::ansa-
invadindo aos poucos o chão do abrigo dos garimpeiros e a ço, e mais um índio inocente com uma espingarda enlerrujodo
frente de nossa barraca. Aos poucos a água foi alagando tudo, e um único cartucho. Fomos dormir rindo.
chegando a atingir 5 centímetros acima das folhas de palmeira,
O alarme de meu relógio disparou um pouquinho antes
que eram nosso colchão improvisado.
da meia-noite. Edson e Sabadin acordaram espantados com
Mas isso não foi o pior. A força da correnteza destruiu o minha contagem regressiva:
trabalho de semanas dos garimpeiros. Ela levou todo o cascalho
- Três ... dois ... um ... Feliz Natal pra nós!
jogado às margens e, com ele, o ouro que procuravam extrair.

I, - É, vamos ter que começar tudo de novo - disse


I
Goiano meio chateado.
Aos poucos o nível da água foi descendo e, em menos de
uma hora, voltou ao normal.
No jantar, contamos aos garimpeiros nossa decisão de
prosseguir por ali mesmo.
I
- E aí, Mílton? - perguntei. - Vamos subir a montanha,
então?
- Devagar, bem devagar - disse ele.
Não compreendi o que ele quis dizer. Devagar por quê?
Estaria ele cansado? Não, esse realmente não seria o motivo.
Mas como entender o que se passa na cabeça de um índio?
Após o jantar, Goiano contou que todos os garimpeiros
da região sabiam que estávamos subindo a serra. Tuxaua
Joaquim havia escrito uma carta a todos, determinando retorno
imediato à aldeia, pois a Polícia Militar e a Federal estavam
subindo a serra para prender todos os garimpeiros. Ele até nos
mostrou a carta, trazida por um índio mensageiro.
Aquilo era incrível. Fiz questão de fotografar a carta. Era por
isso que todos me chamavam de tenente e nem se assustavam com
nossa chegada. Estava tudo explicado. Mas também tivemos muita
sorte. A carta podia ter surtido efeito contrário. Muita riqueza estava
em jogo e, se nos matassem ali no meio da selva, dificilmente
alguém acharia nossos corpos. Foi muita sorte.

80 81
paredão que apontava para o rumo certo. Já não havia como
perder o caminho. Nem 15 minutos tinham passado quando
avistamos o pico da Neblina, enorme, magnífico, mas com uma
pequena camada de neblina exatamente no seu ponto culmi-
nante. Não era à toa que tinha esse nome.
São 9, 10 h. Novamente avistamos o pico. Desta vez temos
certeza de que é ele. É dividido em duas partes, s~ndo que seu
eapiiuk 6 cume, daqui de nosso posição, fico mais à direito. A esquerdo há
uma depressão em formo de corcunda. O pico mesmo está
encoberto pelo neblina. Parece uma elevação vulcânico.

AOS PÉS DO GIGANTE NEBULOSO

IV atai. $ão- 8.36 k. Já tomamos cafezão iunto com Ferreiro


um
e suo turma e agora vamos prosseguir. Talvez hoie chegaremos o
um marco próximo 00 pico.
Uma de minhas suposições, ao ler a carta da região, era
que, ali no alto, havia um marco da divisa Brasil-Venezuela.
Era certa a existência de um entre nosso objetivo e o pico 31 de
Março, que vimos pela televisão quando da tentativa do
Exército. Não sabíamos ao certo se, por aquele caminho,
atingiríamos o mesmo marco, mas torcíamos por isso.
Os garimpeiros foram muito bacanas conosco. O que
parecia ser o maior perigo transformou-se em nossa salvação.
Ferreira, sabendo de nossos problemas com suprimentos, nos
deu dois saquinhos de milharina, uma lata de leite em pó e mais
Outro ângulo do pico da Neblina.
um pouco de xibé.
Ivo e Lourival vão nos levar até o grato do Pepita, no boca do
cominho poro o base do' pico. O dia está bonito. Está um sol Olhando para aquela montanha eu sentia, ao mesmo
maravilhoso. A previsão de chegado lá é por volto dos 10, 15 h. tempo, satisfação e medo. Ela parecia tão grande e intocável
Ivo e Lourival caminhavam ali com extrema facilidade. que me fazia tremer. Como escalar seus paredões de pedra nas
Parecia que eles adivinhavam onde se podia pisar. condições em que estávamos? Nem material técnico suficiente
A trilho era praticamente plana e acompanhava o curso para isso a gente tinha. Alpinismo não é um esporte simples que
do Ariabu. A nossa esquerda a serra do Ouro, um enorme requer apenas disposição; também implica responsabilidade.

82 83
É precisoconhecer os limites e respeitá-los, fazendo tudo dentro
das regras fundamentais de segurança.
Para a escalada, dispúnhamos de uma corda de perlon
T A chuva começou a cair e todos corremos para debaixo
de um abrigo. Ali eles eram mais bem montados que em
qualquer outro lugar. Eram verdadeiras palafitas, com piso
de 45 metros, 6 mosquetões, 4 entaladores de tamanhos suspenso do solo uns 50 centímetros. Cobertura de lona azul,
variados, 6 fitas tubulares, 3 pitons, 2 baudriers e um cordirn de a mesma que tínhamos avistado do alto da Montilla.
16 metros de comprimento.
A linha de cumeada, nosso próximo objetivo, poderia ser
O tempo estava esquisito. Uma brisa um pouco mais forte descrita como um muro que une o pico da Neblina com outro
trouxe de repente nuvens que, em poucos minutos, encobriram à esquerda, que suspeitávamos sero do Cardona. Através dela,
todo o céu. Parecia que ia chover. atingiríamos facilmente um ponto mais próximo do cume e,
- Só faltava outro temporal igual ao de ontem! - possivelmente, de fácil ascensão. Se fôssemos direto para o
reclamou Ivo. pico dali, enfrentaríamos um paredão de mais de 200 metros
de altura, praticamente intransponível.
Chegamos na grata da Pepita às 10,50 h. A grata, que é o
próprio rio Ariabu, é bastante larga aqui, devido às escavações A chuva havia passado; Ivo e Lourival despediram-se
feitas pelos garimpeiros. Há um buraco enorme na grata. Eles retornando ao Gelo. Antes, porém, nos mostraram o início de
devem ter tirado bastante ouro daqui. Estamos no sopé do pico da uma trilha que possivelmente nos levaria até próximo do pico.
Neblina. Seguimos porela. Era bem aberta e de solo firme. Naquele ritmo
poderíamos chegar ao alto antes das 3 horas e talvez até fazer
um reconhecimento na base do pico.

Enquanto caminhávamos, o sol oporecio por uns momentos


e tornava a desaparecer atrás das nuvens. As vezes uma rajada de
vento mais forte trazia uma camada grossa de neblina, limitando
a visibilidade. O clima ali era totalmente imprevisível.

A certa altura a trilha se dividiu em 3 variantes' uma


seguia em frente e as outras iam para a' direita e poro a
esquerda. Pelo azimute a direção correta era a que seguia em
frente, mas, por precaução, experimentamos um trecho das
laterais, que apresentavam sinais de maior uso.

Mas o caminho certo era mesmo aquele que obedecia ao


rumo indicado pela bússola, apesar de parecer pouco freqüen-
tado. Prosseguimos por ali; só que, 50 metros depois, a trilha
desapareceu, transformou-se em puro mato, com galhos retorci-
dos, pedras enormes e muito espinho.

Nosso ritmo diminuiu muito. As mochilas se enroscavam


a todo momento. Era uma vegetação esquisita, formada por
A grata da Pepita.
pequenas árvores, arbustos e bromélias. O solo era o mesmo de

84
85

·1
toda a região, uma esponja lamacenta e malcheirosa; e agora, ensolarada, quase sem nuvens. O pico da Neblina estava ali
além das pequenas pedras submersas, apareciam outras, tão à nossa frente, completamente descoberto e brilhando à luz do
grandes que, às vezes, passávamos por baixo, como se sol. Sua imagem era magnífica e assim, completamente livre da
formassem cavernas. Num trecho fomos seguindo por cima neblina, não tinha nada de assustador.
delas dezenas de metros, até chegar a um ponto de onde não
havia como descer. Tivemos que voltar e contorná-Ias por baixo.
Aquela tarde foi horrível. Sem trilha para seguir, tínhamos de
consultar a bússola a cada minuto e corrigir o rumo. Caímos várias
vezes, atolando na lama ou escorregando de cima de uma pedra.
Os espinhos machucavam nossas mãos. O nervosismo foi tomando
conta de todos, e tudo era motivo para xingar e gritar.
Olhávamos à frente e parecia que não tínhamos progre-
dido quase nada. Já estava entardecendo e a neblina colabo-
rava para a escuridão cair mais cedo. Edson encontrou um lugar
razoável para acampar e montamos ali a barraca, no alto de
umas pedras enormes junto a algumas árvores. Desde que não
ventasse muito forte, ali estaríamos protegidos.
Seis da tarde. Temperatura: 17 graus. Faz mais ou menos uma
hora que chegamos aqui no alto, nas proximidades do pico da
Mais um ângulo do pico da Neblina.
Neblina.
Aquele era o primeiro acampamento sem água. Sabadin Hoje é 26 de dezembro. Acordamos às 7 horas. Estamos nos
e Mílton pegaram os cantis vazios e as canecas e foram procurar preparando para mais uma caminhada em direçõo ao pico.
água. Retornaram uns 20 minutos depois, com uma água Estamos com 16 graus. Altitude de 2300 metros, mas nõo estamos
escura, um pouco suja. "Tivemos que catar do chão." Mas foi confiando muito no aparelho. Está duro de vestir a roupa molhada
o suficiente para fazer a comida e o refresco de laranja, que nem por causa do frio. Deveremos estar prontos lá pelas 9 horas para
por isso sobrou.
iniciar a caminhada. Esperamos que seja definitiva até a base do
pico, para acamparmos e, amanhõ, tentar escalá-lo.
A noite estava bem fria e uma garoa fina caía o tempo
Reiniciamos nossa jornada. Uma garoa fina começou a
todo. Antes de dormir, Sabadin colocou em ordem seu diário.
cair. Rajadas de vento deslocavam camadas de neblina que
Aproveitei a luz da lanterna e, fiquei tirando os espinhos da
traziam chuva forte e encobriam a visão. Mas durou pouco, e
mão. Aquele foi o Natal mais cansativo de nossas vidas.
logo estávamos avistando grande parte da região que ia
ficando para trás.

Primeiro contato com o pico Faltava pouco mais de 100 metros para atingirmos a
linha de cumeada. A inclinação da vertente ia diminuindo aos
Acordei com uma forte claridade que ultrapassava a poucos e também a dificuldade de locomoção. À direita, cada
cobertura amarela da barraca. Lá fora estava uma manhã linda, vez mais perto, aquele enorme maciço vulcânico, coberto por

86 87
uma camada de neblina, voltou a ter uma aparência assustado- - Q,ue paredão! - exclamou Sabadin. - Como subir
ra, mas sabíamos que era só fachada para espantar os isso aqui? E praticamente impossível!
invasores. - Vamos descer à direita e ver se alcançamos aquela
Fomos atingindo o alto. Ali havia uma pequena elevação brecha por onde desce a nascente do Ariabu. Quem sabe por
rochosa. Contornamos pela direita e, alguns passos adiante, lá dá para subir.
contemplamos uma paisagem fria, assustadora, bastante dife- Seguimos o paredão descendo pela direita. Não sabia
rente da que esperávamos. A neblina impedia que víssemos precisar quantos metros à frente, mas tinha absoluta certeza de
muito. Estávamos sobre o enorme colo que une o pico da que logo alcançaríamos o talvegue. No chão, um piso rochoso
Neblina ao do Cardona. Do lado de lá um precipício cojo fim e repleto de liquens nos forçava a redobrar o cuidado para não
não dava para ver. escorregar. Muitas pedras e galhos barravam o caminho,
O pico da Neblina estava logo ali à frente. Não resisti. diminuindo nosso ritmo e aumentando nossa aversão pelo lugar.
Tinha que alcançar sua base naquele instante, não podia mais Escutamos barulho de água correndo. Estávamos chegando à
esperar. Sabadin concordou em vir comigo. nascente do Ariabu.

A base do pico estava a uns 150 metros de distância. Era Ali estava ela, uma modesta grota de um metro de largura
só seguir a crista e logo alcançaríamos o paredão da majestosa e de profundidade desprezível em sua maior parte. Dali não
montanha. podia ver o talvegue, pois eu estava ao lado do paredão.
Precisava avançar mais alguns metros para observar melhor,
- O lado que o Exército tentou escalar deve ser um pouco
mas não estava fácil. Eu estava a mais de um metro e meio de
atrás daquele - observei, apontando para o canto esquerdo
altura em relação à água e, naquele momento, pular ali seria a
do maciço.
última opção. Sabadin tentava dar a volta, mas a vegetação era
- Será que teremos de ir até lá para escalar opico?- mais fechada e embaraçada ainda. Tivemos que derrubar no
perguntou Sabadin. peito.
- Vai depender do que veremos ali à frente. Tomara que Atingimos o leito do Ariabu e olhamos para o interior da
dê para escalar por aqui. Será uma conquista nova. Um enorme fenda da montanha. Grande decepção! A neblina não
pioneirismo que levará nosso nome. nos permitia ver muito. Tentamos avançar pelo leito da grota,
Ventava muito, e a neblina ia ficando cada vez mais mas as pedras estavam tão escorregadias e nossos reflexos tão
amortecidos que não foi possível continuar. Eu estava sentindo
espessa, aumentando nossa ansiedade. Será que conseguiría-
uma estranha ojeriza por tudo aquilo. O jeito era voltar.
mos ver o local onde o helicóptero pousara em 1985? Eo marco
da divisa Brasil-Venezuela? Era o que faltava para comple- Contamos o que tínhamos visto. O cansaço nos venceu,
mentar meu mapa e desvendar a trilha que nos conduziria de e a decisão surgiu rápida e sem maiores considerações.
volta, quem sabe, com menos sacrifício. - Vamos contornar o pico pela esquerda e temor
Estávamos bem próximos do paredão. Um tipo de capim encontrar o local por onde o Exército tentou escalar e por onde
alto, de hastes duras como taquaras finas, forçou-nos a fazer um a equipe do Clube Alpino Paulista conseguiu chegar. E a nossa
pequeno desvio. "Estamos chegando. Poucos metros ... Atingi-
tt única chance.
mos a base do pico. Era um paredão liso, por onde escorriam Montamos a barraca bem atrás da pequena elevação
filetes de água, formando um chuveiro gelado. que tínhamos contornado.

88 89

- Bem, o cardápio de ho]e é arroz tradição com passas, Aquela depressão deveria ter mais de 1000 metros de
estrogonofe de queijo com primavera de legumes, muito xibe e desnível. Era impressionante e até um pouco assustador. Bem à
suco de abacaxi - declarei a todos. nossa frente, uma montanha se projetava em direção ao centro
Depois de comer, as fisionomias eram sempre as mesmas. do cânion. Mais à direita, uma outra, de cume ovalado e bem
"Estou quase satisfeito!" Mas não podíamos comer mais, pois alto. Não havia dúvida, era o pico 31 de Março.
nosso estoque estava no fim. Do pico da Neblina só se via aquele paredão. Do alto
Por volta das 5 da tarde, a chuva parou de vez. Saímos dele descia uma forte cachoeira. Parecia impossível aquilo. A
da barraca e deparamos com uma das visões mais belas e parede terminava num cume ovalado e, alguns metros abaixo,
impressionantes que eu já registrei. Lá embaixo estava o cânion como que por mágica, jorrava toda aquela água, formando
venezuelano, uma enorme depressão em plena serra do Imeri, uma grande cachoeira de mais de 50 metros de altura.
cercada por uma grande barreira de montanhas. Ela era magnífica. Nada tem a ver com o rio Ariabu, quê
corre do ápice do pico da Neblina e desce a montanha mais
à direita, abaixo da linha de crista em que estávamos, correndo
portanto para o lado brasileiro da serra do Imeri. A cachoeira
cai exatamente em cima da linha de crista, só que suas águas
encontram passagem para o outro lado, escorrendo para o
norte, bem ao fundo do cânion venezuelano. Se aquela
cachoeira estivesse alguns metros mais à direita, toma'ria um
rumo completamente diferente.

o cânion
venezuelano.

O pico
31 de março. Uma cachoeira de mais de cinqüenta metros de altura.

91

I
Voltando à barraca, peguei o mapa da região, que
copiei de uma revista do Batalhão de Forças Especiais do
Exército, num artigo que citava a tentativa de escalada do pico
T - O marco fica exatamente no ponto em que as duas
linhas se unem. Isto é, dali partem duas linhas formando um
ângulo agudo, uma em direção ao cume do Cardona e outra
em 1985. Era o único mapa em que constava com mais clareza em direção àquela outra montanha, que vimos aqui à frente.
o pico da Neblina, mas tudo indicava ter sido desenhado a Tanto o pico da Neblina como o 31 de Março ficam totalmente
olho, desconsiderando detalhes, o que me impedia de identifi- em solo brasileiro. E aqui onde estamos, podem conferir,
car com exatidão o ponto onde estávamos. também é o Brasil. A linha divisória deve passar a mais ou menos
Não estava mencionada no mapa, por exemplo, a 1 quilômetro à frente, bem por cima dessa enorme depressão.
direção exata do norte magnético. As curvas de nível descre- Mas o mapa desenhado só fazia aumentar nossas
viam uma montanha bastante regular, em nada parecida com dúvidas. O pico do Cardona não era citado, e toda a região
o pico, que praticamente se divide em duas montanhas, cortado por onde tínhamos passado nem constava no mapa, que
pelo talvegue nascente do rio Ariabu. Isso nos colocava em descrevia apenas o outro lado do igarapé Tucano, por onde
eterna dúvida quanto à localização da outra trilha por onde passa a trilha tradicional. Fazendo a triangulação do terreno
precisaríamos voltar.
com a bússola, aproveitando que o 31 de Março era visível e
Eu supunha que, contornando a montanha à esquerda, constava no mapa, eu chegava à conclusão de que ele tinha
alcançaríamos a face tradicional e o marco da divisa Brasil- sido feito apenas para uma noção geral. Baseando-se nele
Venezuela, situada a 687 metros do pico, entre este e o 31 de nossa posição estaria bem no meio do cânion.
Março. E minha suposição fazia sentido, pois o 31 de Março
No dia seguinte, porém, tudo ficaria esclarecido. Contor-
estava logo ali à frente. Restava saber se o trajeto era possível.
naríamos o pico pela esquerda, encontraríamos sua face
- Afinal, nós estamos na Venezuela ou no Brasil? - tradicional de escalada e lá armaríamos acampamento. Na
perguntou Sabadin. manhã do outro dia, com o mínimo necessário para executar a
- Estamos no Brasil. Lembram-se daquela montanha que ascensão do cume, partiríamos para a batalha final. Não havia
não sabíamos dizer se era o 31 de Março ou o Cardona ou como errar. Contornando o pico, encontraríamos o marco da
outra qualquer? - Agora tenho certeza de que aquele é o pico divisa e de lá só teríamos de seguiros mesmos passos da equipe
do Cardona. Bem no ápice dele há um marco da divisa Brasil- do CAP e da tropa do Exército. Tudo parecia ter ficado mais
Venezuela, sendo portanto um pico binacional. Aquela outra fácil e a esperança de chegar embalou nosso sono.
montanha que vimos bem aqui à frente, que se projeta pelo
cânion adentro, deve ter também um marco de divisa interna-
cional. Portanto, se unirmos os marcos com uma linha reta
veremos que a Venezuela fica mais à esquerda, dorninondo
todo o cânion. Só uma pequena faixa, em forma de bico, que
invade a sudoeste até um ponto entre o pico da Neblina e 031
de Março é território venezuelano.

- Não entendi - disse Edson. - Então o marco que


vimos na televisão não fica sobre uma linha reta, como eles
disseram?

92
93
Iniciamos o contorno do paredão. Nos primeiros metros
tudo parecia fácil, mas logo as dificuldades foram aparecendo.
O relevo nos forçava a subir, não havendo como contorná-lo
num mesmo nível. A neblina estava ainda muito forte e desloca-
va-se ao sabor do vento. De repente não podíamos ver um
palmo diante do nariz. E a chuva caía. Foram muitos tombos e
tropeços em pedras e raízes. Nosso ritmo de progressão foi

e~7 diminuindo muito, chegando ao extremo de ficarmos mais


tempo parados do que andando. O desespero começou a
invadir nossa equipe, eram os primeiros sintomas.
Descansamos um pouco, sentados no chão encharcado.
- Vamos continuar, gente, é nossa única chance. Vocês
vão ver, nós vamos conseguir - disse, sem acreditar em minhas
DERROTADOS PELA NATUREZA próprias palavras.
Levantamo-nos. Sabadin me ajudou a escalar outra
dlGje é 27 de~, 8,40 h. O pico continua encoberto.
pedra. Minha bota estava com a sola totalmente solta, causan-
do um grande incômodo. As mãos doloridas e o excesso de
Nós vamos tentar contorná-lo, iunto ao paredão. Está muito frio e
daqui dá para ver o grande cânion venezuelano. Vamos ver se umidade dificultavam a escalada. Mas o principal estorvo era
conseguimos uma vitória hoie. mesmo a mochila, que desequilibrava o corpo aumentando o
risco de queda. Quanto mais subíamos, menores eram as
Estava chuviscando. Colocamos as roupas molhadas e
possibilidades de desvios, e o espaço ia ficando mais estreito.
geladas, socamos todo o material na mochila e saímos.
A inclinação da encosta do cãnion aumentava à medida que
Como choveu pouco durante a noite, a cachoeira voltou continuávamos, e o medo se agravava na mesma proporção.
a ser uns poucos filetes de água escorrendo do alto da Escalando uma pedra, escorreguei batendo o queixo.
montanha. Não parecia ser muito difícil contornar aquela Gritei amaldiçoando tudo.
elevação.
- Calma, calma! - disse Mílton, surpreendendo a
- Vejamos ... Eu calculo meia hora de caminhada. Pico gente. - Vamos devagar. Bem devagar ...
da Neblina, aí vamos nós!
Mílton nunca nos dirigia a palavra. Ele apenas respondia
Uma espessa camada de neblina chegou encobrindo às nossas perguntas. Era a segunda vez que ele interferia.
tudo. Mal dava para ver o companheiro da frente. Com muito Estávamos com os nervos à flor da pele. Nosso amigo índio nos
sacrifício atingimos a cachoeira. Nossos cantis estavam vazios acalmou:
e, no chão, a água escorria por baixo de líquens. não sendo
- Calma. Vamos bem devagar. Ninguém deve se
recomendável pegá-Ia dali. Sabadin foi para debaixo da
machucar.
cachoeira e, com as mãos por dentro do poncho, improvisou
uma canaleta, por onde a água caía como numa bica. Edson - Então eu vou subir sem a mochila. Depois vocês
pegou sua caneca e com ela encheu todos os cantis. passam todas para mim - sugeri.

94 95
- Vamos lá. - Sabadin tomou a iniciativa. - Vou - Eduardo! Aconteceu alguma coisa?
ajudó-Io a subir. Olhei pela última vez para aquele precipício e para o
Eu estava convicto de que, subindo por ali, atingiria a paredão do pico. Fiz meia-volta, despedindo-me friamente do
linha de crista do outro colo, que unia o pico da Neblina ao 31 ponto final da expedição. Na beirada da pedra onde meus
de Março. Apesar de toda a tensão, a esperança de confirmar amigos me esperavam, parei e fiquei olhando para eles, mudo.
minha suposição e visualizar o tão desejado objetivo me - Vamos voltar para São Paulo - murmurei a custo. -
empurrava para cima. Vamos voltar. Falhamos.
Não havia em que segurar além de umas frágeis bromélias. Impossível descrever a fisionomia de cada um ao ouvir a
Mas, sem o peso da mochila e utilizando as técnicas de notícia. Só Mílton não se alterou muito, apesar de um certo ar
alpinismo, alcancei o alto. A neblina estava bastante forte e caía de compaixão. Edson se sentou de novo no chão e enrolou mais
uma garoa fina e irritante. Fiquei em pé e avancei alguns metros; um cigarro. O silêncio durou um momento eterno. Até o vento
O paredão à minha direita continuava enorme e invencível. A silenciou.
esquerda, o perigoso precipício do cânion e por todo lado o
Meus pensamentos continuavam a perambular pelo pas-
cinzento da neblina. Mais alguns metros, mais outra pedra. No
sado, trazendo-me à mente todos os fatos relacionados com a
alto, vi algo em que não queria crer. Aquele era o ponto final.
expedição. A Funai não queria autorizar nossa passagem pela
Eu estava sobre uma pedra em forma de mirante. Um passo a
área ianomâmi, o IBDF não permitia nossa entrada no Parque
mais e eu despencaria num abismo. O paredão do pico descia
Nacional, meu comandante fez de tudo para me dissuadir da
por ele, em pura pedra, totalmente lisa. Não havia como
aventura. Lembrei-me em detalhes da última reunião de oficiais
prosseguir. Estava tudo perdido. A missão fracassara. Q
do 2 Batalhão de Polícia de Choque, onde fizeram a minha
Eu estava arrasado. Admitir que todos estavam certos em despedida. Meu comandante desejondo-me boa sorte, apesar
duvidar de nossas possibilidades era por demais doloroso. Mas de dizer que, se eu fosse seu filho, não me deixaria ir por nada
era verdade. Nós fracassamos e teríamos que carregar essa deste mundo. Outros oficiais diziam que eu não retornaria.
frustração para sempre. Tanta gente nos aconselhou a abando- Naquele dia, só uma pessoa me encorajou e me fez sentir
nar o projeto. Era loucura. Tinham razão, nós não éramos páreo orgulhoso: o major Getúlio Gracelli. Meu comandante pergun-
para tanto. Subestimamos a natureza e, por isso, recebíamos o tou-lhe se ele me deixaria seguir adiante, se eu fosse seu filho.
castigo. O major surpreendeu a todos levantando-se da poltrona e
Meus pensamentos viajavam para longe, na velocidade dizendo, entusiasmado: "Se fosse meu filho, não só deixaria,
da luz. Vi toda a retrospectiva do Projeto Neblina, imagem por como faria questão de ir junto! Augusto, boa sorte! Sei que
imagem, situação por situação, sofrimento por sofrimento. conseg uirão!"
Foram muitos estudos, pesquisas, dias e noites de dedicação. É bem verdade que, durante todo o planejamento e
Também foram muitas as pessoas que riram de nós, chamando preparação, houve muitos momentos de alegria. Nem todos
a gente de malucos, desmiolados. Que droga! Estava mesmo procuravam nos ridicularizar. Muitos nos ajudaram com bastan-
tudo perdido. te satisfação. O Dr. João Luiz, diretor do Hospital Vital Brasil, e
Eu não devia satisfações a ninguém. Ao inferno todos! o Dr. Álvaro, venezuelano que estagiava naquele hospital,
Riam quanto quiserem, mas saibam que nós tentamos até o foram alguns dos que se dedicaram de boa vontade à nossa
último minuto. causa. O tenente Edílson, nosso grande amigo, também não

96 97
poupou esforços. Lembro-me exatamente das suas palavras mo, na Pepita. Chegaremos tarde e supercansados. E, no
quando nos deixou no aeroporto: "Eu boto fé em vocês! Sei que próximo dia, teremos que parar obrigatoriamente no Gelo, pois
vão conseguir!" da Pepita até a Mucura é impossível ir direto, por causa da serra
-Nãodá mesmo para continuar?-perguntou Sabadin. da Montilla, que é terrível.

Expliquei-lhes o que havia visto. Sentei-me num canto e - É verdade, Sabadin - disse Edson. - Continuar hoje
calei-me. não vai adiantar nada. De qualquer maneira estaremos no Gelo
amanhã à tarde. O ideal é ficar aqui e descansar bastante.
- Vamos voltar - disse Edson. - Vamos voltar até São
Gabriel da Cachoeira, comprar mais mantimentos e retornar Sabadin concordou meio a contragosto. Mílton parecia
para cá pelo caminho correto. Voltar para São Paulo, sem ter ficado mais contente. O coitado também devia estar
escalar o pico, nunca! bastante cansado e com muito frio, tremendo sem parar com os
braços cruzados e as pernas bem juntas.
Eu estava abatido demais. Tudo de novo? Só de imaginar
sentia o corpo todo doer. Eu estava me sentindo muito mal. É, não conseguimos ... No final do paredão, tinha uma subido
enorme em puro rocha. Conseguimos escolar até um certo ponto
O retorno foi ainda mais penoso.
dela. Lá em cimo, Eduardo verificou que não era possível continuar
- Vamos voltar até a grota da Pepita - disse Edson. por ali. Voltamos poro o mesmo acampamento em que estávamos.
Grota da Pepita. Lá embaixo, bem lá embaixo. Amanhã, o gente verá o que vai fazer.
- Não seria melhor acampar no mesmo lugar de ontem? Armamos a barraca no mesmo local. Como era cedo,
- perguntei. - Acho que não dá tempo de chegar à Pepita. preparamos melhor o chão com folhas de bromélias. Precisáva-
Dessa forma amanhã podemos seguir direto para o Gelo, se mos do máximo conforto naquela noite. Toda a região estava
sairmos bem cedo daqui. coberta pela neblina, não dava para ver nem a cachoeira do
- Negativo. Vamos embora daqui - disse Sabadin pico, que continuava a jorrar incessantemente. Ventava um
nervoso. - Vamos até a Pepita, custe o que custar. pouco e a ga roa voltava a ca ir.

O nervosismo impunha aspereza em todas as falas. Mal terminamos de ojeitor as coisas dentro da barraca e,
Qualquer coisa era motivo para discutirmos. Mílton estava por volta de meio-dia, caímos num sono profundo, de puro
preocupado conosco: cansaço.
- Calma! Calma! Vamos bem devagar ...
O trajeto junto ao paredão estava bem mais difícil,
devido ao nosso baixo moral.
Atingimos a pequena elevação, local de nosso último
acampamento.
- Sabadin, vamos raciocinar juntos - disse-lhe impon-
do uma falsa calma. - Se acamparmos aqui, teremos hoje a
tarde inteira para descansar e recuperar as energias. Assim,
amanhã podemos ir diretamente para a grota do Gelo. - Fiz
uma pausa. - Se prosseguirmos hoje. chegaremos, no máxi-

98 99
preparar nossa refeição. Caprichei, pois começava a ver um
pontinho de luz no fundo do túnel.
. Após o jantar, combinamos de levantar às 5,30 da
manhã seguinte, para, antes das 7, começar a última tentativa
de escalar o pico.
Durante a noite, acordei várias vezes, preocupado com

e~8 o tempo. Como eu dormia no fundo da barraca, não havia


como abrir o zíper da entrada e olhar para fora. Mas o barulho
do teto continuava. Chovia ainda bastante.
Piimmmmmm, piimmmmm, piimmmmm ... Acordei num
sobressalto. Era o alarme do relógio. Cinco e meia. Desliguei-
o e percebi que ainda estava escuro e que chovia. Olhei para
A CARTADA FINAL o lado: todos dormindo. Acertei o alarme para 5,50 h e voltei
a dormir.
Cinco e cinqüenta: mesma situação. Seis horas: mesma
:J)~~epteatvu1eioda. Tive pesadelos horríveis. situação. Seis e dez: o dia clareava aos f?oucos, mas o som da
Acordei agitado, com o coração batendo rápido. Os outros chuva continuava. Seis e meia: chega! E agora ou nunca!
ainda dormiam. Voltei a fechar os olhos e fiquei pensando na Acordei um por um. Era incrível a cara de desânimo de
possibilidade de uma última tentativa de salvar a expedição. todos. Ao abrir a barraca percebi meu engano em relação ao
Lembrei-me da manhã do dia anterior, quando fotografei o pico, tempo. Não estava chovendo. A umidade da elevação, junto
completamente limpo da neblina, debaixo de um sol maravilho-
de onde montamos a barraca, escorria e pingava bem em cima
so. Daquele ângulo, o talvegue por onde corriam as primeiras
do teto, dando a impressão de que chovia. E o barulho que eu
águas do Ariabu parecia ser de pouca inclinação e sem
ouvia era da cachoeira do pico, que continuava jorrando. A
obstáculos maiores. Será que não conseguiríamos escalar por
neblina ainda dominava, mas já dava para ver a cachoeira e
aquele caminho?
o paredão que nos derrotara no dia anterior.
Não parecia má idéia. No dia anterior, quando fui com
Preparei o café. Já passava das 7 horas. O primeiro furo
Sabadin até o início do talvegue, podíamos ter avaliado mal
do dia, sair com atraso. Sorte que não precisaríamos desmontar
aquela área, devido ao nosso estado emocional.
a barraca nem preparar as mochilas. Faríamos a escalada com
- O que vocês acham da minha idéia? - comecei. -
o mínimo necessário: material de alpinismo e equipamento
Já estamos aqui mesmo, junto do pico da Neblina, após 9 dias
fotográfico.
de sofrimento. Vocês não acham que, antes de voltar, a gente
podia dar uma cartada final? Vamos tentar escalar o pico - Hoje é 28 de dezembro. Seu André deve estar lá n~
através da nascente do rio Ariabu. Lembram-se de ontem de Boca do Tucano esperando a gente - disse eu. - Que sera
manhã? Não parecia tão difícil. que ele está pensando que aconteceu com a gente?

Embora sem muita esperança, eles concordaram. Dormi- Separei o material que iríamos levar: uma placa comemo-
mos mais um pouco e, por volta das 4 horas, acordei e fui rativa dos 157 anos de existência da Polícia Militar do Estado

100 101
de São Paulo, a Bandeira Nacio- De repente me lembrei das palavras de uma amiga da
nal e os Estandartes do 2º Bata- família de minha noiva, dona Francisca, uma senhora muito
lhão de Polícia de Choque (minha alegre, da Igreja Seicho-No-Ie. Ao contar-lhe sobre a expedi-
unidade) e do 7º Batalhão Poli- ção, na festa de despedida, ela me disse: "Ao chegar perto da
ciai Militar Metropolitano (unida- montanha, peça licença a Deus. Peça licença também a Poré,
de de Edson e Sabadin). Separei o deus dos índios. Peça licença à natureza e também à própria
também o material de alpinismo montanha. Assim eu sei que vocês conseguirão passar".
que eu considerava mais impor-
Nunca fui muito religioso nem ligava para crendices ou
tante: uma corda de perlon, o
superstições. Mas, por tudo que tínhamos passado, senti que
cordim de 16 metros, 2
devia fazer aquilo e, olhando diretamente para o cume,
mosquetões e uma fita tubular para murmurei várias vezes:
cada um, um freio 8 e 2
- Com licença, Deus, com licença, Poré ... Deixem-nos
entaladores. Eu e Edson iríamos
subir, por favor ...
com nossos baudriers e Sabadin
usaria uma cadeirinha improvisa- Progredimos pelo leito do Ariabu, cuja largura variava de
da com fita. 1 a 2 metros. Deparamos com uma cachoeira de 2 metros de
altura, que não apresentou muita dificuldade para ser transpos-
Mílton não Iria conosco.
ta. Eu subi primeiro, depois ajudei Sabadin estendendo-lhe a
Muitos dizem que os ianomãmis
mão. Edson subiu por último, com grande performance.
têm medo da montanha, pois acre-
ditam que lá é a morada do deus Poré. À medida que subíamos, os paredões que nos rodeavam
iam diminuindo de altura. Passamos por outras cachoeiras. Uma
Às 9,30 h nos despedimos de Mílton e tomamos nosso
delas deu bastante trabalho pois, além de alta, estava toda
rumo. Atingimos a cachoeira. Paramos para encher os cantis.
coberta de lodo, e escorregava muito. Quando consegui subir,
1I Foi mais fácil do que no dia anterior. Contemplamos a imponência joguei o cordirn para que Edson e Sabadin subissem sem perder
do paredão - o que me fez sentir um arrepio profundo - e mais tempo, pois não sabíamos precisar a duração daquela
viramos à direita, acompanhando a base da montanha. Era o escalada.
mesmo caminho que eu e Sabadin havíamos feito dois dias
Por incrível que pareça, o tempo começou a melhorar.
antes. Algumas pedras no caminho, muitos cipós, taquaras e um
Olhando para trás, por entre os dois paredões, víamos a serra
desvio à direita, por dentro do capim. Atingimos a nascente do
do Ouro inteira. A neblina estava se dissipando e dando lugar
Ariabu.
a um tempo bonito e ensolarado. A ansiedade e a emoção
. Desta vez, deixei de lado as frescuras e já pisei direto dentro começaram a transformar nossas fisionomias. Será que final-
d'água. Avançamos um pouco mais e olhamos para dentro mente estaríamos chegando? Parecia que sim. Olhando para
daquela enorme fenda. A neblina estava fraca e podíamos ver bem cima, víamos o cume, ou algo próximo dele. Não parecia difícil
adiante. Eram duas elevações separadas por um talvegue não chegar lá.
muito pronunciado. Somente ali no início havia aqueles enormes - Nós vamos conseguir! Nós vamos conseguir!
paredões, tanto à esquerda como à direita do talvegue, formando
Uma força interior me fazia subir aquela montanha numa
um enorme portal, barreira contra invasores.
velocidade incrível. Eu disparava na frente e parava para
102
103
fotografar a paisagem que, a. cada metro que subíamos, - Se descobri rmos que é o outro, a gente va i até lá e pronto.
tornava-se mais ampla. Eu esperava Edson e Sabadin me
Recomeçamos a escalada. As dificuldades começaram a
alcançarem e novamente disparava na frente, parando deze-
surgir. Tivemos que abandonar o talvegue e subir por uma
nas de metros adiante. .
encosta de pura pedra de inclinação superior a.45 graus.
Uma brisa suave trazia e levava pequenas camadas de Retiramos a corda de perlon da mochila, encordamo-nos e fui
neblina. Com isso, o sol surgia e sumia em questão de segundos. guiando a cordada. A encosta não apresentava muita dificulda-
Olhando para o alto, surgia uma dúvida: o pico da Neblina de técnica, mas, se algum de nós caísse, sem estar devidamente
seria o da esquerda ou o da direita? Tentei me lembrar do pico encordado, sem observar as regras básicas de segurança,
visto do penúltimo acampamento. De lá parecia ser o da direita. encontraria a morte com certeza.
Mas eu não tinha muita certeza.
Em alguns trechos, nossa progressão foi muito rápida. De
Edson e Sabadin me alcançaram e sentaram nas pedras. tudo que fizemos durante a expedição, aquele estava sendo o
Estavam bastante cansados, por causa do ritmo que eu estava dia mais fácil e emocionante de todos. A paisagem vista dali era
impondo. Focalizei-os com minha câmera e registrei, na mesma magnífica. A serra da Montilla, a serra do Ouro, o pico do
foto, a grota da Pepita, bem pequenina no canto direito. Cardona, o cânion venezuelano e a nossa própria barraca, um
- Vamos mais devagar - pediu Edson. - Para que minúsculo ponto amarelo, perdido naqueles imensos campos de
altitude. Do outro lado do cânion, em solo venezuelano,
correrf Vamos chegar todos juntos! - advertiu Edson.
enormes elevações e cachoeiras altíssimas, de centenas de
Discutimos sobre qual dos dois cumes seria o pico da metros. Por trás dessas elevações era possível visualizar a
Neblina. Fomos unânimes em dizer que eroo da direita, mas floresta latifoliada do vale do Orenoco, a floresta amazônica da
todos com uma pontinha de dúvida. ·Venezuela. Um panorama lindíssimo, privilégio de poucos.

A difícil escalada. o cânion venezuelano - detalhe do fundo da depressão.

104 105

·1
- Edson! Sabadin! Olhem ali - disse apontando para
o alto. - Aquilo não é um mastro?

Assim como eu, eles ficaram paralisados e tremendo de


euforia e emoção. Os olhos começaram a marejar. A compen-
sação estava chegando, a vitória estava a poucos passos,
vamos vencer ...
São 1223 h do dia 28 de dezembro de 1988. Estamos aqui,
quase que no alto do pico da Neblina, após uma escalada muito
louca mesmo, cheia de pedras, cachoeiras, tudo que podíamos
imaginar à nossa frente. E, agora, estamos aqui, a quase 10 metros
do pico ... Nós vamos agora chegar e cada um vai gritar aquilo que
vier na cabeça ...
Apesar de tudo de ruim que aconteceu, da tensão que,
lá embaixo, a nossa barraca: um minúsculo ponto amarelo.
por vezes, nos fez gritar ~ xingar um ao outro, naquele momento
estava tudo esquecido. Eramos a equipe; a vitória final suplan-
Ao longe, por trás da serra da Montilla, a serra de Baruri
tou tudo.
e a de Pirapucu e, mais à esquerda, bem pequenina, a serra do
Padre, que continuava a rezar pelo nosso destino. Passo a passo, bem lentamente, fomos caminhando em
direção ao ponto culminante de nosso país. Seríamos a
Eu estava maravilhado com tanta beleza. Descrever as
segunda equipe brasileira e a primeira militar a realizar tal
emoções que senti, por mais que tentasse, não denotaria nem
façanha. O mastro foi aumentando de tamanho e, abaixo dele,
parte do estado emocional em que me encontrava.
foi surgindo um amontoado de rochas que o firmavam na
Olhando à esquerda, pude confirmar que o outro cume posição. Cinco metros ... quatro metros ... três... apenas dois
não era o ápice, pois eu já me encontrava acima de seu nível. metros ... um.
"Oba! Estamos no caminho certo! Agora nada mais segura a
Estávamos lá. Ao pisar o pico da Neblina, cada um de
gente!" Olhei para o alto e percebi que o pico ficava a pouco
nós gritou extravasando sua emoção e dedicando a vitória a
mais de 20 metros. Continuamos a progressão, mas, chegando
seus entes mais queridos.
mais perto, vimos que aquilo era apenas uma saliência. O pico
ficava mais adiante .. Conseguiiiimos! luupiiiii! laauuu! O sonho tornou-se realidade!
Braaasil!!! Nossa, que loucura! Isto aqui é super-emocionante,
O sol estava abrasador e o tempo totalmente aberto,
impressionante! Nós estamos no ponto mais alto do Brasil: no pico
proporcionando uma das visões mais amplas que eu já tivera.
da Nebliiina!
O cume do outro lado já estava bem abaixo de nós, derrubando
todas a dúvidas sobre qual seria o verdadeiro pico. Atingi uma Eu ainda não estava acreditando. O pico da Neblina
saliência de pedra bem grande e, ao ultrapassá-Ia, vi, poucos sem neblina alguma, totalmente limpo, proporcionando a plena
metros adiante, uma haste. Ou melhor, era um mastro! Parei e, visão do panorama completo da região. Pela primeira vez
com o coração a mil por hora, sentei-me esperando meus pudemos apreciar o vale do alto Cauaburi e toda a flore~ta que
companheiros. o margeia. Um imenso tapete verde que se perde no horizonte ..

106 107

I
A nordeste, o 31 de Março, quase escondido atrás do cume nem vestígios de que ali fora deixada alguma. A umidade e os
menor do pico da Neblina. Daquele lado estava a outra trilha, ventos constantes se encarregaram de sumir com as provas.
mas já não nos interessava mais. Por baixo das pedras onde estava o mastro, Edson
O pico da Neblina poderia ser descrito como um encontrou um pote de plástico e, em seu interior, um lápis e um
caderno.
pequenino platô, de forma mais ou menos retangular, de uns
200 metros quadrados. No centro, uma formação rochosa de - Olhem o que eu encontrei! - gritou ele.
pouco mais de um metro e meio de altura. Ao redor, outras
Retirou o caderno do pote e abriu. Sentamo-nos juntos
pedras pouco menores, de formatos variados. Seu formato
para ler:
retangular acompanha a linha de crista que o une ao cume
menor, distante pouco mais de 500 metros. A face pela qual "Pico da Neblina, 3014 metros, Amazonas, Brasil. Este
efetuamos a ascensão é a menos íngreme. A face leste e a sul caderno destina-se ao registro dos nomes de pessoas que, como
constituem um enorme precipício de pura rocha, que termina já nós, tiveram o prazer e a glória de atingir o ponto culminante
dentro da floresta equatorial lotifoliodo, centenas de metros do Brasil. Solicitamos ao montanhista que preencher a última
abaixo, sendo portanto de conquista praticamente impossível. folha a restituição deste caderno para o endereço de qualquer
- Caramba! Aqui é um abismo - disse Sabadin. um dos membros da expedição austríaca, relacionados na
primeira folha. Gratos."
Numa pedra havia restos de cimento que fixara por muito
tempo uma placa, que não encontramos. Na formação princi- Aquilo estava escrito na contracapa. Virei o caderno e
pal, ao centro, uma placa de metal comemorativa da Força comecei a ler a primeira página. Ventava forte e o barulho era
Aérea, com os seguintes dizeres: "Pico da Neblina, fevereiro de intenso.
1986. 13º aniversário dos falcões. Voar na Amazônia é uma "Expedição austríaca ao pico da Neblina - 1988, 14 de
opção de coragem e determinação. E aqui estamos nós sempre. janeiro, 15h30. Georg Zens, Alois Indrich, Franz Weiss, Ewald
Força Aérea Brasileira. 1º/8º GAV - Esquadrão Falcão". Rossback. Muito obrigado, capitão Delphino, de Serac 7."
- Então nós não somos os primeiros militares a chegar
Registrei ali a nossa conquista, realizada exatamente às
aqui? - perguntou Sabadin um pouco desapontado.
12 horas e 30 minutos, aos vinte e oito dias do mês de
- Espere um pouco ... - disse eu. dezembro do ano de 1988. Registrei os nomes dos integrantes,
No chão, próximo a uma outra pedra, havia duas batizei a via escalada de Via Garimpo e reservei uma página
enormes latas, bem enferrujadas e, em seu interior, alguns rojões para cada um registrar aquilo que achasse conveniente.
já queimados e bastante destruídos pelo tempo. Sinais de festa. Era tanta a alegria que não me ocorriam as palavras. Só
Era evidente que os responsáveis pela fixação daquela placa consegui escrever, após meu nome e endereço: "Dedico a todos
comemorativa não escalaram o pico, mas sim foram ali deixa- que colaboraram: Suzana, família etc. E também a todos que
dos e depois resgatados por helicópteros. O pioneirismo era não acreditaram. Obrigado". E assinei embaixo.
realmente nosso.
Retiramos a placa e as bandeiras da mochila e posamos
- Soltaram rojões aqui. E ninguém escalaria uma mon-
para inúmeras fotos, junto ao mastro.
tanha com latas tão grandes. Usaram helicópteros, com certeza.
Para garantir que as bandeiras não fossem arrancadas
O mastro era de alumínio, de pouco mais de 1 metro,
facilmente pelo vento, tratei de cortar um pedaço de cordim e
inclinado em relação ao solo. Não havia nele resto de bandeira

108 109

I
efetuei inúmeros nós nos ilhoses, de forma que pelo menos estes
sobrassem fixos ao mastro.

A poucos metros do mastro, havia uma grande pedra que


se encaixava perfeitamente para fixar nossa placa. Uma placa
bastante modesta, mas muito significativa para nós. Ali ela seria
visível até do alto, por helicóptero. Com o cordim, efetuei
amarras em volta da pedra também. Assim prestamos nossa
homenagem à Polícia Militar de São Paulo.

A emoção de um sonho coroado de êxito.

São 13,40 h. Já tiramos muitas fotos. Aqui tá ventando muito, a


neblina está cobrindo tudo temporariamente e nós vamos fazer um
lanche. Vamos ver o que temos aqui.
Sentamo-nos no chão e Sabadin retirou da mochila uma
enorme barra de chocolate, que fora reservada desde o início
para a comemoração da vitória. Balas de caramelo e banana-
da também foram guardadas para aquele momento.

Emocionados no topo. Da esquerda para a direita: Eduardo, Sabadin e Edson. Observando o cume menor da Neblina, uma dúvida me
ocorreu. A equipe do CAP, antecessora nossa na conquista do
pico, ao relatar sua aventura à Revista Geográfica Universal
Camadas de neblina encobriam temporariamente trechos
(páginas 74 a 87 da publicação de agosto de 1979), narrou
da região. Os ventos iam e vinham. Olhei para o mastro e vi as
o seguinte:
bandeiras tremulando, marcando a presença de nossa
corporação num dos lugares mais bonitos e inacessíveis do 110 relógio [ó marcava 15 horas e, segundo o altímetro,
planeta. Contemplamos uma das visões mais belas que o faltavam ainda 150 metros para atingirmos o cume. A neblina
homem pode ter: ver o Brasil de seu ponto mais alto, ver o não nos permitia enxergar além de 30 metros. Apressamos a
horizonte infinito desta grande nação e sentir no peito a emoção subida, nervosos por não encontrar o paredão. De repente,
de um sonho realizado. chegamos a um ponto onde [ó não havia mais o que escalar.
A neblina se abrira e, ao olharmos em torno, fomos tomados de
Nossa barraca era um pontinho amarelo perdido lá embai-
uma alegria irreprimível. Estávamos no topo da mais alta
xo. Mílton deveria estar dormindo. Ou estaria olhando para cima
montanha do Brasil - o pico da Neblina, com seus 3014
para ver nossa vitória? IIMílton! Grande Mílton! Vencemos!"
metros de altitude."

110
111
Subindo pela face tradicional, o alpinista fatalmente mandar Mílton pela trilha que liga o Tucaninho a Maturacá. Ele
atingiria o cume menor da Neblina, necessitando seguir a linha chega lá rapidinho, enquanto a gente continua até a Boca do
de crista até o cume maior, caminhando uns 200 metros em Tucano.
declive e mais uns 400 em aclive bem suave. Eu calculava que
Três da tarde. Preparamos o equipamento, contempla-
o cume menor estava a uns 80 metros de desnível em relação
mos pela última vez aquela belíssima paisagem e nos despedi-
ao pico, ou seja, mais abaixo ainda que o 31 de Março. Além
mos das bandeiras e da placa. Hora de partir. Missão
disso, a foto deles ao lado da bandeira mostrava um chão quase
cumprida.
sem pedra, enquanto no pico verdadeiro havia aquela forma-
ção bem nítida e destacada no terreno. Só para notificar, nós subimos o pico em 3 horas e 20 minutos
e realizamos a descida em 2 horas e 10 minutos. Agora estamos
-Acho que eles se enganaram -supôs Edson. - Tenho quase chegando ao nosso acampamento, onde deixamos Mílton
quase certeza de que eles subiram e atingiram apenas aquele vigiando. Vamos gravar nossa chegada. Agora sôo 17, 45 h.
cume. Estamos nos aproximando do acampamento, vamos ver a
- É possível. Se a história fOi'a que eles contaram mesmo, reaçõo do índio ao contar-lhe que conseguimos ... Pico da Neblina,
com certeza não chegaram aqui. Mas, ainda assim, eles são uma subida bastante interessante. Subimos por uma cachoeira até
vitoriosos. Vieram para cá em 1979, quando aqui era menos metade do caminho. Pedras lisas... No caminho muitas árvores
explorado ainda. pequenininhas, algumas bromélias, lama e alguns lugares muito
perigosos. Droga! Acabei de afundar o pé na lama!
- Lá deve haver algumas placas de outras equipes que se
enganaram - disse Edson. - Será que não daria para ir até lá? - Acorda, Mílton! Nós conseguimos! Vamos comemo-
rar, Mílton. Nós conseguimos! Poré deixou a gente passar -
- Já são duas e dez. Acho que não daria tempo. Não
Sabadin dizia todo contente.
convém arriscar.
Abraçamos o índio, que também demonstrou alegria pelo
Padre Carlos lembrava-se muito bem da equipe do Clube
nosso sucesso. Ele sorria e dizia: "Pois, é".
Alpino Paulista com seus três integrantes. Falava deles com
muito carinho, pois, segundo ele, um dos alpinistas tinha sido Aquele final de tarde foi o mais belo que presenciamos
batizado pelo Papa João Paulo 11. Eles realmente foram uns desde o início da aventura. O pico estava totalmente limpo,
heróis, mesmo que não tivessem atingido o ponto culminante do imponente e nos proporcionou fotos muito bonitas. A noite foi
país. avançando, noite de lua cheia. E como se já não bastasse toda
a maravilha vista durante o dia, a Lua foi postar-se bem atrás do
A visão global dali me permitiu redesenhar o mapa da
ápice de nosso protagonista, criando um contorno luminoso,
região, com uma precisão bem maior, corrigindo as falhas e
que nos oferecia uma imagem de beleza indescritível. Ficamos
adicionando informações complementares.
horas apreciando aquele troféu oferecido pela natureza.
- Gastaremos uns 5 dias para voltar, não? - perguntou
Edson. Durante a madrugada, ao olhar para fora, vi o céu
completamente estrelado, sem luar. Nosso protagonista conti-
- Mais ou menos - respondi. - E seu André? O que nuava em evidência, cercado por inúmeras e brilhantes estrelas.
estará pensando?
Acordei Edson, Sabadin e até Mílton para ver aquilo. Todos
- Sei lá. Precisamos pensar numa forma de avisá-lo Rara ficaram maravilhados com o espetáculo. Foi a nossa despedida
nos apanhar na Boca do Tucano - disse Sabadin. - E só do pico.

112 113
o retorno à aldeia
Ho;e é dia 29, quinta-feira. Acordamos às 7 horas, levantamos
rapidamente o acampamento e descemos a vertente até a grota da
Pepita. O caminho foi muito difícil porque nossa trilha havia sumido.
Muitas pedras, lama, espinhos, galhos, chuva, mas com muito
custo, conseguimos chegar à Pepita. De lá, pegamos a trilha dos
garimpeiros até aqui na grata do Gelo, onde está a turma do
Goiano. Chegamos aqui por volta das /7,45 h.
Eles se encontram por aqui ainda e vieram mais quatro garim-
peiros. Aumentou a família. Jantamos com eles e amanhã seguire-
mos o nosso caminho de volta.
Dia 30 de dezembro. Saímos às 9,40 h da grota do Gelo,
seguimos subindo a serra da Montilla e em duas horas conseguimos
atingir seu cume. Descemos pelo outro lado da serra, e uma chuva
muito forte nos pegou pelo caminho. Alagou tudo. Viemos atolados
até o ;oelho na água, na lama. No caminho, Mílton recuperou sua
espingarda. Agora são 5 horas e estamos aqui na Mucura, grota
da Mucura. Stanislau e sua turma não estão mais aqui. Está tudo
deserto.
Saímos da grota da Mucura às 10,50 h e fomos até a Pica do
Baiano. No caminho a chuva e o sol revezavam-se, castigando-nos
ora um, ora outro. Num determinado ponto a última visão do pico,
que logo foi coberto pela neblina. Do alto da Pica do Baiano,
descemos livrando-nos das bromélias, e atingimos a floresta. Foi a
maior alegria encontrar a mata e estamos agora no acampamento
da Pica do Baiano, onde chegamos às 5 da tarde. O tempo está
bom e ho;e é 3 / de dezembro, último dia do ano.
Primeiro de ;aneiro de /989. Passamos o réveillon acordados
Esperamos a meia-noite e simulamos uma festinha, estourando um
champanhe fictício, fingindo tomar e comer alguma coisa. Foi
divertido. Eu não consegui dormir, chamei Edson para fazer um café
e ficamos batendo papo ao redor da fogueira até por volta das
quatro e meia da madrugada, quando resolvemos descansar.
Cozinhamos também fei;ão numa latinha e coamos o café num
lenço. Não foi um dos melhores réveillons de minha vida, mas foi
gostoso. Pelo menos estávamos tranqüilos, longe das bromélias e
longe das chuvas. Durante a noite quase ocorreu uma tragédia.
Enquanto eu e Edson fazíamos o café, um galho enorme caiu do alto
de uma árvore, atingindo o chão a poucos centímetros da barraca,

115
onde Eduardo estava. Aquilo foi por um triz. Hoje acordamos por
volta das 6,30 h, levantamos acampamento e saímos às 8,30 h.
Caminhamos sem parar um longo trecho, descendo pela grota do
Cipó, com inúmeras pedras lisas. Levei uns três escorregões, mas
tudo bem, não me machuquei. Atingimos a grota do Açúcar e, após
um breve descanso, subimos a crista da serra do Barro. Não foi
muito difícil desta vez, visto que já conhecíamos o caminho e sua
extensão. Logo atingimos o alto da serra e descemos pela outra
vertente, que na ida foi para nós um dos piores martírios. Após horas
de descida, atingimos o acampamento do Tucaninho. Era por volta
das 4 horas. Aqui encontramos sete garimpeiros que estão a
caminho da Pepita. Foram muito gentis conosco e daqui a pouco
vamos bater um papo com eles.
Dois de janeiro. Saímos do Tucaninho às 9,25 h. Estamos
sozinhos, pois Mílton seguiu pela outra trilha até Maturacá. Após
bastante tempa de uma caminhada leve, devido ao relevo plano e
trilha bem aberta, atingimos o acampamento da Cachoeira. Nas
proximidades, encontramos mais alguns garimpeiros com bastante
comida, e Eduardo conseguiu alguns gêneros. Chegamos às 2,30 h.
Fui pescar, peguei seis peixes, quatro lambaris e dois carás, e, com
o mantimento que o Eduardo conseguiu, tivemos um belo almoço.
Três de janeiro. Refeição matinal: cappuccino com bolo de
milho e muita bolacha. E agora, às 8, 15 h, estamos de saída em
direção à Boca do Tucano, onde esperamos encontrar seu André
para que possamos ir até Maturacá, final da expedição. OCEANO
ATLÂNTICO
Depois de sairmos do acampamento da Cachoeira, perdemos
a trilha. Seguimos o azimute por quase uma hora até atingir um
igarapezinho. Descemos pelo igarapé, af/uente do Tucano, e
encontramos mais à frente a trilha novamente. Agora são 13, 15 h.
Chegamos à Boca do Tucano, local onde a voadeira nos deixou 16
dias atrás. AqUi começou nossa jornada a pé e aqui também,
acredito, ela vai terminar. Até o momento seu André ainda não
chegou. Nós mandamos Mílton na frente dar o recado para que
viessem buscar a gente hoje cedo. Estamos descansando. Já
estamos nos sentindo praticamente em casa.
São 14,35 h. Nossa voadeira chegou. Mílton está junto e trouxe
um cacho de bananas, como Eduardo havia pedido. Agora a gente
vai para Maturacá. Terminou nossa caminhada.

Amazonas

116
Eduardo Agostinho Arruda Augusto nasceu em 26 de agosto de 1966. Formado pela
Academia de Polícia Militar do Barro Branca, hoje ele é:
• Oficial da Policio Militar do Estado de São Paulo
• Oficial supervisor do Grupo de Operaçães Especiais do APMBB
• Ostento a láureo de mérito pessoal em Primeira Grau
• Cursos que realizou:
Curso Preparatário de Formação de Oficiais
Curso de Formação de Oficiais
Graduando em Administração de Empresas pelo Instituto Mockenzie
Salvamento em Montanha pelo Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de
Janeira (lo. colocado)
Direção Defensiva (10. colocado)
liderança Politica, pelo Instituto de Estudos Contempôraneos - Espaço liberal
Ofidismo - Herpetologio e Soroteropia pelo Instituto Butontan
Fotografia 35 mm pelo Kodok
Curso básico de Sobrevivência e Orientação em Matas (do qual foi instrutor)
• Integrante do Clube Alpino Paulista
PO'l ""Ell- ::>/00 AcomETia> 'ErA ~rtJ4 ~IJÇA e
Alpinista Guia de Montanha, pelo Clube Alpino Paulista e pelo Corpo de
Bombeiros do Estado do Rio de Joneira
TE"1l (11lí~íP(D DE" COttCEtJVYI9I1D tMS ~ E PEs/Et1."otI
Realizou mais de BOescaladas, tendo superado o 50. grau de dificuldade
• Conhecimentos práticos: tl40 fÔOE TE'JTNl. ~om,~ O ~ FIML /tO CVttIE.
Topografío e Orientação em Matas
Técnicos de Primeiros Socorros RfEMll. PE TVOO,'"AS J9" Il,Mi4 Qt; t:\5:PW\i3 3/ ATin·
Técnicas de Resgate em Matas e Montanhas
Salvamento em Altura
6f o í~D ~ AMÉIZJcAs/ F'''cAna:> Ali •• 6N>Dé/12A
Sobrevivência no Selva
liderança e Chefio
Q:) ~ 1L I PAís no ClvA'- f>1ulV Aa1EOnD.
Está se preparando para, entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, realizar a
escalada do Aconcágua, ponto culminante dos Américas.
1õOAs A5 €>cl'EfVÊttdltt I/lthD4S 1)é5TA AVEnTlL

'lA aeSIJLT1'tlà En1 vm t'1CU? Ltvao E/ lo6lcA - .

m@1Tt;;" 1)" Alf:IAOAçJi:> OE UM WlÓJCIIfIt? ~

ItlflOlt' mRis DOSADo. 1/1:7 I ~

Nota do editor
Recebemos no inicio de janeiro, do Tenente Eduardo Augusto, a carta ao lodo, na qual
ele nos dá noticias de suo escolada 00 Aconcágua.
~ 6
JoI
/lT
118

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