Você está na página 1de 61

Todos os direitos de edição reservados à EDITORAFTD

Matriz Rua Rui Barbosa 156 São Paulo SP CEP 01326-01 O tel. 253-5011 Caixa Postal 8242 Telex 1130129 Fax 288-0132

Editoria de texto Lafayette Megale

Assessoria editorial Célia Maria Delmont de Andrade

Preparação de original Reny Hernandes

Revisão Alexandre Gomes Camarú Rita de Cássia dos Santos Silva Uilson Martins de Oliveira

Edição de arte e projeto gráfico Wilson Teodoro Garcia

Fotos Eduardo Agostinho Arruda Augusto Edson Sorrentino Séspede Aloisio Sabadin de Moura

Capa Wilson Teodoro Garcia

Coordenação de editoração eletrônica Carlos Rizzi Reginaldo Soares Damasceno

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cârnara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Augusto, Eduardo, 1966- Expedição ao Pico da Neblina / Eduardo Augusto.

- São Paulo: FTD, 1993. - (Coleção diário de bordo)

ISBN 85-322-0800-2

1 . Arnazonas - Descrição de viagens 2. Neblina, Pico da - Descrição I. Título. 11. Série.

93-0054

CDD-918.113

índices para catálogo sisternático:

1 . Neblina: Pico: Arnazonas: Descrição de viagens

918.113

o sucessode nossa expedição deu-se graças ao apoio de poucas mas importantes pessoas e empresas que, desde o início, acreditaram nas possibilidades de nosso projeto. São elas:

-

Confecções Mara (bandeiras);

-

FAB - Correio Aéreo Nacional;

-

Nutrimental (comida desidratada);

-

Pantogravura (placa);

-

STC- Construtora;

-

Tenente Coronel Edson Faroro (PMESP);

-

Tenente Hildomar Jaime Regis (PMAM);

-

Tenente

Edílson Matias Barbosa in memoriam

(PMAM);

-

Udo Krumer, da gráfica Eventos;

-

Paulo Sérgio Varella, fotógrafo e amigo.

Um agradecimento especial a quem sempre acreditou em mim e me apoiou durante todos os momentos, dando-me a força necessária para prosseguir sempre confiante - minha querida esposa, Suzana Vieira Arruda Augusto.

Lutando contra a civilização 11

2

O mundo dos ianomãmis 25

3

O

encontro com a selva 39

4

O

platô da serra da Neblina

54

5

O preço da riqueza 73

6

Aos pés do gigante nebuloso 82

7

Derrotados pela natureza 94

8 A cartada final 100

À memória do capitão Edilson Matias Barbosa, da Polícia Militar do Amazonas, que, poucos meses após nossa aventura, na qual teve papel importante, tombou heroicamente no cumprimento de sua árdua e perigosa missão.

"

os nossos esforços desafiem as impossibilidades. Lem-

brando que as grandes proezas da História foram conquis-

tadas do que parecia impossível. "

(Char1es Chaplin)

É animador e gratificante perceber que, neste nosso mundo mesquinho e egoísta, ainda há pessoas que apresentam seu caráter moldado na dignidade, honestidade, honra e, principalmente, brio.

O tenente Eduardo Agostinho Arruda Augusto é, sem dúvida

alguma, uma dessas pessoas, e mostra-nos, através de Expedição ao Pico da Neblina, a importância da audácia bem conduzida,

conseguindo provar que os "obstáculos existem porque todos medo de ultrapassá-los".

têm

Dificilmente alguém começará a ler este livro e interromperá

sua

leitura sem que chegue ao seu término. O estilo ágil, fluente e simples que o tenente Eduardo Augusto apresenta cativa o leitor, transforman- do-o em co-participante da grande aventura, e obriga-o a devorar o conteúdo para, nele, aprender uma lição de vida: "Desistir jamais!"

Enfrentando todos os obstáculos que se lhe colocaram à frente

("Infelizmente, em nosso país, quem procura andar corretamente sofre mais"), o autor demonstra-nos que "o importante é o caráter do

indivíduo

e

prepare-se para uma aventura repleta de desafios e decisões.

e sua real vontade

de fazer algo".

Leitor, inicie a leitura de Expedição

ao Pico da Neblina

Prof. Oswaldo Beltramini Júnior

Academia de Polícia Militar do Barro Branco

Localizado no extremo norte do país, em meio à imensa floresta amazônica, que o protege da aproximação de intrusos, o pico da Neblina, com 3014 metros de altitude, é o ponto culminante do Brasil. Está totalmente em solo brasileiro, no estado do Amazonas, a 687 metros da divisa com a Venezuela.

Meu desejo de atingir o pico da Neblina surgiu em agosto de 1985, quando o Brasil inteiro acompanhou pela TV a tentativa frustrada

do Exército de chegar a seu cume. A expedição foi liderada pelo Batalhão de Forças Especiais, tropa de elite formada por verdadeiros "Rambos",

preparados para o cumprimento das missões mais complexas.

Entretanto,

mesmo com o apoio de helicópteros (que foram até a base do pico) e uma infra-estrutura própria, não conseguiram cumprir a missão, vencidos pelo

frio e por ventos de mais de 100 quilômetros horários. Nessas tentativas, além de uns poucos estrangeiros, apenas uma equipe brasileira possuía

o mérito

Alpino Paulista. São eles:

Adalbert KoIpatzik, Galba Athayde e Michel

"Projeto Neblina" começou a maturar em 1987. A idéia era

conseguir montar uma equipe para realizar uma expedição em dezembro do mesmo ano. Foram meses de preparação e muito estudo, pesquisando tudo sobre a região, estudando a fundo sobrevivência na selva e tudo que trouxesse i nformações sobre os í nd ias, em especia I os da nação ianomâm i, que vivem na região próxima à base do pico da Neblina.

Foi muito difícil escolher a equipe perfeita para compor a expedi- ção. No início procurei especialistas no assunto, pessoas de excelente porte físico e saúde de ferro. Achava muito importante um currículo extenso, repleto de cursos de sobrevivência e operações especiais. Tudo bobagem! Foi preciso quebrar a cara para chegar à conclusão de que o que realmente importa é que a pessoa, antes de mais nada, esteja muito disposta a assumir os riscos e prazeres de uma aventura desse porte.

Apesar do esforço, faltou patrocínio, faltou entrosamento da equipe, e o projeto não aconteceu.

de ter atingido o ápice do pico da Neblina, em fevereiro de

1979. Esses pioneiros pertencem ao Clube

O

Bogdanovicz.

Em fevereiro de 1988, quando no serviço de ronda do policiamen-

to na área central de São Paulo, passei pelo Quartel do Comando do Corpo de Bombeiros para rever um colega, o tenente Del Rey. Ao chegar em sua sala, ele foi logo perguntando se eu já tinha conseguido escalar

o pico

então, começou a rir e a debochar, pois toda a divulgação que eu tinha feito não dera em nada.

Sei que ele não fez por maldade, mas aquilo me deixou furioso. Saí dali bufando de raiva e um sargento recém-formado, que trabalhava comigo havia apenas uma semana, perguntou-me se estava tubo bem. Olhei para ele fixamente e perguntei sem mais rodeios:

da Neblina. Respondi que o projeto não havia dado certo e ele,

- Edson, vamos escalar o pico da Neblina?

- Vamos embora - respondeu ele entusiasmado. - Estou pronto para o que der e vier.

A partir daí os preparativos do "Projeto Neblina" recomeçaram, com a assessoria do Sargento Edson Sorrentino Séspede, uma pessoa simples, humilde, mas dotada de uma invejável força de vontade e vibração. Baixinho, com 29 anos de idade, de porte compatível à sua altura, não se destacava nas atividades físicas, sendo inclusive fraco em corrida. Para piorar era fumante. Não tinha a experiência desejável nem aptidões especiais de alpinista, mas ao longo do planejamento ele foi se revelando o companheiro ideal.

eu e

Edson já estávamos pondo em prática as solicitações para o CAN, IBDF

Aloísio Sabadin de Moura, chegou bem depois, quando

e Funai. Era o mais forte e brincalhão da equipe. Era o único que sabia nadar, embora também não fosse muito experiente. Era cabo da Polícia Militar e tinha 24 anos.

Com 22 anos e um currículo que continha apenas uma formação de cinco anos na academia militar, cabia a mim aproveitar o que esses dois possuíam de melhor para, juntos, atingirmos com eficácia nosso objetivo. Sabíamos que não seria fácil e era exatamente por isso que estávamos ali - tínhamos uma grande determinação. Chegar ao cume do pico da Neblina, custasse o que custasse.

e~!

LUTANDO CONTRA A CIVILIZAÇÃO

[;1icw.a ~

na hrna do-~.

O saguão da Base

Aérea de Cumbica estava a cada

militares e parentes que esperavam uma vaga no pequenino Bandeirante do Correio Aéreo Nacional. Apesar de nossas vagas já terem sido confirmadas na data anterior, nós estáva- mos nervosos, pois era mais que evidente que não cabia tanta

gente no avião.

O cabo da Aeronáutica, responsável pela triagem dos passageiros, iniciou a chamada. Pesava cada bagagem, anotava numa prancheta, colava uma etiqueta e a colocava no carrinho, chamando em seguida outro passageiro.

Logo fomos chamados. Nossa bagagem: quatro mochilas grandes, uma média, uma pequena, duas bolsas médias, a bolsa com o equipamento fotográfico e dois sacos enormes, todos abarrotados: 1 80 quilos, exatamente o triplo permitido para nós três. Nossa bagagem foi etiquetada, mas posta de lado. Ficamos preocupados. Não podíamos deixar nada para trás. Tentamos explicar a situação ao cabo, que nos aconselhou:

minuto mais cheio. Eram

-Conversem

com ocomandante, eleéo único que pode

autorizar o embarque da bagagem.

Após mais espera e muito nervosismo, obtivemos finalmente a permissão para embarcar com todo o nosso equipamento.

O avião, um Bandeirante, era pequeno e apertado. Por

ser de carga, os passageiros sentavam-se numa espécie de banco feito de fitas entrelaçadas, algo bastante rústico e pouco confortável. O comandante ligou o motor e, durante aqueles poucos minutos até levantar vôo, disputamos as janelas para as

últimas despedidas. "Adeus, Suzana. Eu sei que "

Nós vamos conseguir

voltarei a vê-Ia.

Manaus, uma escala perigosa

não foi lá muito agradável,

fotografando. Edson cochilava, acordava, fumava um cigarro, fazia algum comentário e voltava a cochilar. Sabadin permane- ceu a viagem inteira escrevendo o que houve na base aérea e descrevendo os primeiros passos de nossa aventura.

Fizemos escala 'em Campo Grande, Cuiabá, Vilhena (um pequeno campo de pouso cercado de nada) e Porto Velho. Em Vilhena, atrasamos duas horas os ponteiros de nossos relógios,

tendo em vista a diferença de fuso horário. Lá conversei com o

comandante e seu co-piloto. Eles riram quando

nosso objetivo de escalar o pico da Neblina. Duvidavam que retornássemos vivos, dizendo que isso era coisa de louco.

Era sempre assim. Ou nos chamavam de loucos ou pensavam que era mentira. Praticamente ninguém acreditava e os poucos que diziam acreditar provavelmente faziam isso só para nos agradar.

A viagem

mas me distraí

lhes contei sobre

Algumas vezes isso me punha medo. E quando o coman-

dante riu de nós, confesso ter suado um pouco

sobre a imensa

floresta amazônica, bem próximos de Manaus. A vista era

magnífica. A floresta era um tapete verde sem fim, recortado

por

inúmeros e tortuosos cursos d'água de tamanhos e formatos

no

variados.

de medo.

Após treze horas de vôo, estávamos

Pude identificar

o rio Madeira,

que despeja

12

Amazonas as águas vindas de Rondônia, onde fizemos a última escala. Contemplei maravilhado o encontro das águas do rio

com as do rio

Solimões, de cor clara e barrenta, formando o rio mais cauda-

Negro, de coloração escura mas cristalina,

loso e cheio de vida do planeta: o Amazonas, que permanece

bicolor por muitos quilômetros, misturam facilmente.

visto que as águas

não se

Eram quase seis da tarde quando aterrissamos na Base Aérea de Manaus. Fomos recebidos por Malveira, Edílson ejosé Carlos, todos ex-colegas de academia. Foi muito bom revê-los.

Era primavera. A intensa umidade do ar me sufocava. Foi

muito difícil acostumar-me com aquilo. A ternperofuro era alta e

o sol imperava a maior parte do

fim da tarde cai uma chuva forte, mas logo o sol volta impiedoso

até o final do dia.

tempo. E típico da região. No

Edílson. Meus

ficaram no 4º Batalhão, e eu fui para a casa do

Edílson, onde permaneceria até nosso embarque para São

companheiros

Colocamos a bagagem

no carro

do

Gabriel da Cachoeira

Aproveitamos para conhecer Manaus.

no dia 14 de dezembro,

dali a 3 dias.

O povo

de Manaus

é muito hospitaleiro

e alegre.

Formado por uma mistura de raças,

na qual predomina

o

sangue indígena,

são pessoas bem morenas,

de olhos um

pouco puxados

e de cabelos

bem

lisos. Possuem sotaque

parecido com o do carioca e utilizam muitas gírias e costumes nordesti nos.

Na

manhã

seguinte fomos ao quartel

do Comando

Geral. O capitão Bonates nos recebeu muito bem, levando-nos

à presença do chefe do Estado-Maior, coronel Osório.

Quando relatamos nosso objetivo, o coronel se assustou.

Disse que era uma grande loucura e que seria impossível realizar a escalada porque na região do pico da Neblina estava havendo um sério conflito entre garimpeiros e a Polícia Federal,

e poderíamos acabar morrendo no meio dessa batalha.

Pacientemente, expliquei-lhe estar ciente de tudo isso e que nossa aventura fora minuciosamente preparada, fruto de

13

anos de estudos e ensaios: muitos estágios, palestras, leituras e entrevistas com pessoas que conheciam a região e seus proble- mas. Ele, rindo zombeteiramente, perguntou que experiência de mata possuíamos. Ao responder que fazíamos treinamento na mata atlântica, seu deboche aumentou:

mata não se

equipara às dificuldades de nossa floresta. Conheço-a muito bem, pois fui do C1GS (Centro de Instrução e Guerra na Selva) e sei que vocês não são páreo para ela. Além disso, como vocês já sabem, o Exército já tentou duas vezes atingir o pico da Neblina e não conseguiu nem chegar perto.

Apesar de não acreditar em nossas possibilidades, ele prometeu ajudar fazendo contato com o VII COMAR, para conhrrnor nossas passagens no vôo para São Gabriel da Cachoeira.

Nas bancas de jornal as manchetes eram sempre as mesmas: "Invasão da serra da Neblina por garimpeiros", "Ianomâmis exigem providências da Funci". "Garimpeiros X Polícia", "Tensão em área ianomâmi"

- Sua experiência

em uma pequenina

Na manhã do segundo dia em Manaus,

pude finalmente

confirmar nossos nomes no livro de passageiros do vôo para

São Gabriel da Cachoeira. Havendo o vôo, embarcaríamos. Pronto. Estava tudo resolvido.

e

verificar com o capitão Bonates o que o chefe do Estado-Maior havia acertado para nós. Lá chegando, encontramos o capitão

logo na entrada e este, meio nervoso, nos conduziu rapidamen-.

te para um canto dizendo:

de vocês, lá de São Paulo, exige o

retorno da equipe imediatamente. O coronel Osório está atrás de vocês.

Resolvemos passar no quartel do Comando

Geral

- O comandante

Quase caí duro no chão.

- Mas por quê? O que fizemos?

- O negócio é o seguinte: ele telefonou para São Paulo

e contou sobre os problemas

estavam loucos e que morreriam aqui. Aí o comandante

da região.

Disse que vocês

de

vocês exigiu o retorno imediato para São Paulo. E mais

entrou em contato com o comandante do VII COMAR e mandou cancelar as vagas de vocês no avião.

Ele

Era só o que faltava. E agora? O que fazer?

- Capitão, pelo amor de Deus, o senhor não viu a gente.

Deixe-nos desaparecer do mapa. Mas desistir de nosso objeti- vo, nunca! Ninguém vai nos fazer desistir agora. Ninguém!

disse

- Tudo bem. Eu não vi vocês. Tratem de sumir -

o capitão apertando

Saímos rapidamente dali. Estávamos arrasados. Nem a nossa corporação acreditava em nós. Tudo era obstáculo. E eu que sempre pensei que a maior dificuldade para escalar o pico da Neblina fosse apenas a selva com seus perigos naturais. Mas não. As dificuldades estão na burocracia, no descrédito e na inveja, existentes aqui mesmo na cidade. Na selva, certamente isso não aconteceria. Lá estaríamos distantes de todos esses defeitos da civilização.

minha mão. -

E boa sorte.

liguei para o 1 º Batalhão e chamei o

tenente Edílson. "Por favor, venha rápido!" Em menos de 30

minutos ele chegou. Explicamos a situação para ele, que, de imediato, resolveu nos esconder em sua casa até o embarque na manhã seguinte. No caminho, passamos pelo 4º Batalhão

coisa que fizemos de

para pegar a maior parte da bagagem, maneira bem discreta.

Da casa de Edílson, na primeira oportunidade, para o VII COMAR.

De um orelhão,

liguei

- Tenente, eu já lhe falei. Amanhã

às 7. Suas vagas

,

estão garantidas.

Agradeci e desliguei o telefone bem depressa, antes que ele mudasse de idéia. Eu tremia inteiro.

- Será que o capitão não inventou aquela história? - supôs Edson.

- Só pode ter acontecido uma coisa. O coronel entrou em

contato diretamente com o brigadeiro. Só que ele não sabe que

Saindo o avião, os senhores irão com certeza.

nosso pedido foi feito há mais de 2 meses, via documentação oficial. Isso porque meu comandante, o tenente-coronel Edson Faroro, destinou o pedido ao chefe do Estado-Maior do COMAR e não ao brigadeiro, que é o comandante. Portanto há uma solução. Amanhã cedo nós embarcaremos discretamente, esperan- do o avião escondidos num canto, sem nem passar perto do COMAR. Com um pouco de sorte, logo estaremos longe daqui.

Aproveitei o telefone e liguei para a diocese salesiana de São Gabriel da Cachoeira para conversar com o bispo Dom Walter Ivan de Azevedo, que conheci em São Paulo, muito simpático e educado. Mas nossa maré de azar estava em oltc.

Não

alojamento dizendo que nós deveríamos procurar os quartéis do

Exército e apenas nos desejou boa sorte, secamente.

sei por que motivo,

ele me tratou friamente,

negou

Aquela noite foi terrível. Ninguém conseguiu dormir.

o difícil embarque

Às cinco e meia nos levantamos, vestimos nossos unifor- mes e preparamos o material que carregaríamos. Deixamos o resto para apanhar na volta da expedição.

Fomos até a calçada e ficamos esperando Edílson, que' nos levaria ao aeroporto.

Edílson chegou logo e nos levou no tático móvel da PMAM. Em menos de 15 minutos já estávamos em frente ao aeroporto e, muito agradecidos, nos despedimos de Edílson, que nos disse:

- Eu boto fé em vocês! Sei que vão conseguir!

Escolhemos um canto para colocar nossa bagagem, que novamente nos traria problemas pelo peso, e ficamos esperando. Do lado de fora do saguão, colada numa parede, uma relação continha nossos nomes, relaxando um pouco nossa tensão.

eram 7 horas e nada da chamada para o embarque.

O

tempo ia passando e nada de o avião chegar. Nós

iríamos num Búfalo do Correio Aéreo Nacional, que faria escala

em quase'todos os pontos do alto rio Negro, começando por São Gabriel da Cachoeira e passando depois pela Missão Salesiana de Maturacá, ponto final do nosso contato com a civilização.

Pelas informações obtidas, pernoitaríamos em São Gabriel

e na manhã seguinte iríamos para Maturacá. Isso melhorava

muito nossa situação, pois um contato anterior na cidade poderia ser muito útil. Lá eu deveria procurar o tenente Hiltomar, delegado da cidade e amigo de Edílson e Malveira.

Já eram quase duas horas da tarde, quando um soldado

do CAN avisou-nos que o võo fora cancelado e que deveríamos voltar no dia seguinte.

Tudo estava dando

errado. Pegamos nossa bagagem e tomamos um táxi até a casa de Edílson. Ele não estava.

O que mais faltava

acontecer?

Aproveitei

para ligar ao COMAR.

Falei com o cabo

Paulo, que me garantiu: "Tudo bem, vou anotar aqui e amanhã

os senhores não terão problemas". Até que enfim algo começou

a funcionar.

e lhe contamos nossa

situação. Na manhã seguinte pegaríamos um táxi e tentaríamos outra vez.

Acordamos cedo e rumamos para o aeroporto. Fomos chamados para o saguão de embarque. Entramos na pista do aeroporto e caminhamos em direção ao Búfalo, que estava a uns 100 metros de distância. Só faltavam poucos metros para nos livrar daquela agonia.

Fomos os últimos a embarcar, mas finalmente decolamos. Expedição, avante!

Quase à noite, Edílson chegou

Problemas em São Gabriel da Cachoeira

O vôo para São Gabriel

foi magnífico.

A rampa de

acesso possuía um vão de pouco mais de 6 milímetros, que me proporcionou um ótimo observatório. Vi a mudança da floresta,

da alagada para a de terra firme; observei as várias elevações isoladas que se encontram perdidas no meio daquele tapete verde e seus vários rios, todos desembocando no majestoso rio Negro. Este, de águas escuras mas transparentes, não esconde seu fundo arenoso e desenhado pela correnteza. Pena que dali não dava para fotog rafar.

Aterrissamos no

pequenino aeroporto de Uaupés (antiga denominação da cidade), de pista já asfaltada e com uma infra-estrutura aceitável para a região. O avião partiria para Maturacá no dia seguinte, às 7 horas.-

Conversamos com o piloto do Búfalo e seu co-piloto. Não zombaram de nossa aventura mas reconheceram ser muito difícil nosso sucesso.

Foram duas horas e meia de viagem.

Juntei-me à minha equipe no saguão do aeroporto e fomos procu- rar carona, pois o aero- porto de São Gabriel da Cachoeira ficava a mais de 10 quilômetros da ci- dade. Sabadin observa- va tudo e narrava para seu gravador.

Naquele instante chegou uma pick-up e, dentro dela, pude identifi- car o bispo Dom Walter. Ele desceu rapidamente e começou a ajudar as frei- ras que vieram conosco a coloca r sacos e encomen- das na caçamba.

o desembarque em São Gabriel.

Fui cumprimentar Dom Walter,

que me recebeu

com

educação mas frieza. Ofereceu-me de má vontade uma carona que, por instinto ou orgulho, recusei. Dirigi-me a um tenente de

comunicações do Exército, que estava sentado num banco, e perguntei-lhe como iria para a cidade. Ele me informou que um caminhão estava para chegar e que poderíamos aproveitar a carona.

O caminhão chegou cheio de índios recrutas, de calções verdes e camisetas camufladas, que em poucos minutos carre- garam todo o material trazido no Búfalo para o quartel local. Subimos na caçamba junto com aquele tenente e os recrutas e seguimos por uma estrada de terra batida muito bem-feita até São Gabriel da Cachoeira.

O município

de São Gabriel

da Cachoeira,

antiga

Uaupés, está situado no alto rio Negro. Seus limites cercam uma área de grande potencial aurífero que atrai garimpeiros de todos os pontos do Brasil. Possui mais de 20 mil habitantes, na maioria índios, garimpeiros e militares.

São Gabriel da Cachoeira.

Só se pode chegar a essa cidade de

avião ou de barco,

após dias de navegação, para ultrapassar 1 037 quilômetros

do rio Negro contra a correnteza.

da cidade, de frente

para uma extensa praia, às margens do rio Negro. Nessa altura o rio encontra inúmeras pedras, formando corredeiras (para a região, verdadeiras cachoeiras), e daí o nome da cidade.

Na delegacia encontramos apenas um cabo que nos

tratou muito bem e logo nos alojou num dos cômodos. Não

havia

é em rede, que é muito mais fresco e confortável."CoIocamos

nossas coisas num canto e atravessamos a rua, onde, bem defronte à delegacia, havia um bar em forma de quiosque.

Fomos deixados em frente à delegacia

camas. Aliás, na Amazônia,

cama é algo raro. "Dormir

O calor estava intenso e nos afundamos em refrigerantes. O

visual era magnífico. Bem distante, do outro lado do rio, à nossa esquerda, estava a serra de Curicuriari, a famosa serrada Bela Adormeci-

da, assim chamada por seu contorno ser semelhan- te ao desenho de uma mulher deitada.

-::l!l

•••

I

As negras águas das corredeiras do rio Negro.

Serra de Curicuriari, a Bela Adormecida.

20

A cidode era linda e a visão daquela praia era uma tentação para um banho nas águas negras daquele imponente rio.

-

Dá vontade de pôr um calção e cair na água -

disse

Sabadin.

-

Tem carandiru aí,ah,

ah! -

brincou Edson.

-

Carandiru? -

perguntei. -

Não é candiru,

não?

Candiru

é um pequeno

peixe carnívoro,

fino como

agulha, que penetra nos orifícios naturais do corpo, principal- mente ânus e uretra.

O pessoal do quiosque era bastante divertido e perguntou

se estávamos fazendo turismo ou algum serviço especial. Nova-

mente fornos alvo de risadas quando contamos nosso projeto.

- O quê? Pico da Neblina? Impossível, nem mesmo as Forças Especiais conseguiram. Ninguém chega lá.

Contamos-lhes das expedições anteriores, mas eles con- tinuavam dizendo:

não. Vocês vão é pegar uma

- Não é brincadeira,

malária, lá, isso sim. Quando vocês chegarem lá para os 3000 metros, vão olhar e dizer assim: O quê, meu amigo? Toda aquela cerração, aquela nuvem assim, debaixo de vocês. Se olharem por címa, só vão ver aqueles colchões de nuvens e o

vento forte soprando

vuschhhhhh

vuschhhhh

Há muito misticismo criado em torno do pico da Neblina.

Muitos dizem que o lugar é sagrado desafiar os deuses.

e que ir até lá significa

- Não estamos querendo abater o moral de vocês, não

- observou Edson. - Se vocês fossem os primeiros

Ali ficamos ouvindo muitas histórias da região. Um deles

nos informou que em Maturacá, onde ficava a missão do padre Galli - um mito vivo do lugar -, havia "voadeiras", ou seja, barcos de alumínio movidos a motor de popa. Calculamos que precisaríamos de mais de 300 litros de gasolina para a subida do rio Cauaburi. O pessoal do quiosque nos contou, ainda, que

Nós estamos escutando

isso desde São Paulo -

21

vários garimpeiros estavam na base do pico da Neblina, pois haviam conseguido fugir do cerco da Polícia Federal.

Após o almoço, retornamos à delegacia e encontramos

o delegado jogando dominó com seus subordinados. O tenente

Hiltomar Jaime Regis, pessoa simples e educada, recebeu-nos muito bem e quis saber detalhes de nossa expedição. Por coincidência, o sargento Ferreira, que era delegado antes de Hiltomar, estava de licença e andava garimpando na serra da Neblina. Ele seria um contato muito importante, se o encontrás- semos naquele inferno verde.

- Aventura ousada, hein? Vocês vão precisar de muita

sorte.

- E de muita gasolina também -

o posto?

disse eu. -

Onde fica

O tenente Hiltomar fez uma careta e disse:

- Xii! Vocês estão com um sério problema: o único posto da

cidade faliu e fechou. Ouern tem carro por aqui mantém uma reserva de gasolina em casa. E que, de vez em quando, uma balsa chega com vários tambores e vende para o pessoal. Podemos tentar comprçlr gasolina do BEC - Batalhão de Engenharia e Construção. E só conversar com o capitão Siqueira. Eleé muito meu amigo e sempre está aqui no quiosque, tomando uma cervejinha.

Hiltomar chamou

um táxi (incrível imaginar

um táxi

Era um Corcel II vermelho, todo

naquela cidade, mas havia).

arrebentado e enferrujado. O taxista era um tal de De Castro, um garimpeiro da região que estava meio parado. Ele possuía,

amarrada num cordão no pescoço, uma pequena pepita que ele mesmo havia extraído.

Hiltomar me

levou até uma loja de artesanato indígena, onde funcionava, nos fundos, um comércio de ouro. Lá conversamos com Eduardo

Cristo, o Grego, conhecedor da região através de cartas detalhadas e vôos de helicóptero.

Ele achou impossível a idéia de escalar o pico, dizendo entretanto não ser muito difícil chegar até suo base, onde muitos

Fomos até o centro comercial da cidade.

garimpeiros estavam. Engraçado, ele achava mais fácil a fase que nossa equipe considerava de maior dificuldade: a travessia da selva amazônica.

Saindo da loja, Hiltomar encontrou o chefe da Funai da cidade e, após contar-lhe nossa missão, principalmente após mostrar-lhe a autorização concedida pela Funai em Brasília, ele escreveu uma carta endereçada ao funcionário Chico e ao índio Júlio Góes, irmão dos tuxauas de Maturacá, solicitando que fôssemos bem recebidos e auxiliados para que pudéssemos reclizcr nosso objetivo. Dali retornamos ao quiosque.

Siqueira passa aqui e

acertaremos o problema da gasolina.

- Daqui a pouco

o capitão

Meia

hora depois, o capitão João Marcos de Siqueira

chegou, cumprimentou-nos, pediu logo uma cerveja e sentou-se

à nossa mesa.

Apesar

de achar a idéia

meio maluca,

ele ficou de· na manhã

arrumar o combustível.

seguinte, e retirar com ele o vale para pagar à tesouraria.

- Mas o avião decola amanhã às 7 horas! - desesperado.

- Tenho quase certeza de que ele fará mais de uma

perna para Maturacá,

material e muitos soldados que virão para cá amanhã, e, numa

única viagem,

o combustível.

Às 8 da noite fomos a um bar dançante, onde encontra- mos o comandante. Hiltomar e eu nos apresentamos e explica- mos a situação.

para

Maturacá.

eu levarei o combustível.

perguntei. - Poderão

A segunda será ao meio-dia. Esteja lá no horário e

disse eu

Era só passar no quartel,

pois tem uma quantidade enorme de

não dá. Só não sei se ele vai querer transportar

- Tudo bem. Amanhã

faremos

duas pernas

- E quanto aos meus amigos? -

ir na primeira perna com todo o equipamento?

Ele respondeu que sim.

I

I

Próxima parada: Maturacá

Acordamos antes das 6 horas e vestimos nossas fardas. Tomamos café e, pouco depois, Hiltomar chegou com um Corcel emprestado, e fomos todos naquela lata barulhenta que andava movida a muita reza, rumo ao aeroporto.

No aeroporto troquei as últimas palavras com o comandante do avião, que confirmou todo o combinado e levou meus compa- nheiros a Maturacá. De lá fomos rapidinho para o BEC. Procurei

o capitão Siqueira, mas ele chegou quase às 9 horas.

Providenciados todos os papéis, paguei na tesouraria os

400 litros de gasolina e algumas latas de óleo para motor dois

tempos. Isso deveria ser o suficiente para o nosso gasto. Depois

acertei com ele em qual caminhão combustível. Antes das 1 1 horas já aeroporto de Uaupés.

levaria e onde pegaria o estávamos a caminho do

A essa altura Edson e Sabadin já deveriam estar conver-

sando com o padre e os tuxauas. Espero que estejam se saindo

bem -

pensei

cruzando os dedos.

A espera no saguão do aeroporto foi breve. Logo o Búfalo

aterrissou. Embarcamos o combustível. O Búfalo estava vazio; de passageiros apenas eu e um garoto, possivelmente índio.

Por volta de uma da tarde, avistamos a missão, uma clareira i ncrustada na floresta. Às margens do ca na I de Matu racá, afl uente do rio Cauaburi, encontramos duas aldeias ianomâmis da tribo kohoroxitari, abrigando cerca de 620 indígenas semi-aculturados. Situam-se uma de cedo lado da missão, a uma distância aproxima- da de 300 metros. A nossa frente erguia-se bastante imponente a serra do Imeri, um enorme maciço, onde, em algum ponto dentro daquela espessa neblina, escondia-se nosso objetivo.

entre o Brasil e a Baruri e Neblina.

Venezuela. É dividida em três serras: Pirapucu,

A serra da Neblina é a que possui as maiores altitudes, estando

ali, além do ponto mais alto do Brasil, os picos 31 de Março e

do Cardona, respectivamente o segundo e o nono na escala altimétrica do país.

A serra do Imeri é uma fronteira natural

24

o MUNDO DOS IANOMÂMIS

4 ~fU1.#1.a

Muitos índios, na

maioria crianças, rodearam o avião. Ao descer, localizei Edson e Sabadin ao lado de um índio falante.

-Júlio, este é o tenente Eduardo Augusto, o comandante da expedição - disse Edson quando me aproximei.

pUtack/.elvzakdda.

- Muito prazer, tenente. Seja bem-vindo à nossa terra.

- representante da nação ianomâmi.

Este é Júlio Góes -

Edson explicou.

-

Ele é o

- Ah, sim -

lembrei-me. - Tenho uma carta do chefe

da Funai de São Gabriel endereçada

Depois fui apresentado ao tuxaua Daniel, líder da aldeia de Maturacá. Ali também estavaJosé Lima, funcionário da Funai destacado em Maturacá, para quem fiquei de mostrar as autorizações expedidas pelo governo federal.

a você.

- Alguma novidade, Edson? - Perguntei.

- O pessoal aqui é bacana, sabe? Você precisa ver só o

padre Carlos. Ele é o máximo! Você vai conhece-Io lá na missão.

Fundada

em junho de

Antônio Góes, que desde 1949

1954

pelo padre sergipano

já mantinha contato com os

ianomâmis, a Missão Salesiana de Maturacá tem como objeti-

25

vo a aculturação do índio, preparando-o

com a sociedade moderna. Instalada em um enorme galpão de

quase 1 000 metros quadrados, de estrutura de ferro e coberto

com telhas de zinco. Possui uma barracão com maquinário, barcos campo de pouso para o Búfalo

abastece a missão com produtos de sua necessidade), uma capela e uma escola, onde, além do ensino básico, proporci- ona um aprendizado técnico, como os métodos do preparo do solo para o cultivo e noções de nivelamento para a construção de palhoças. Hoje a missão é liderada pelo padre italiano Carlos Galli, que chegou em janeiro de 1979, vindo de lçana, outro município da região do alto rio Negro.

modesto enfermaria, um

um

para a integração

e motores de popa,

da FAB (que mensalmente

Fomos recebidos por ele.

perguntou o padre num

tom engraçado e com forte sotaque italiano. - Vamos arrumar um lugar para vocês se acomodarem. André! - O padre

chamou um índio. -

os para comer alguma coisa.

Seu André era um índio tucano de meia-idade, emprega- do da missão. Era o auxiliar direto do padre.

Na missão não víamos muitos índios. Eles ficavam nas aldeias, que dali também não conseguíamos avistar. Na

primeira oportunidade meu objetivo seria, além de batalhar

registrando os usos e

atrás de um guia, fotografar as aldeias,

costumes de um povo a respeito do qual pouco se conhece.

-

Como

vai você? Tudo bem? -

Leve-os até a enfermaria e depois traga-

A meu pedido, o padre determinou a seu André que nos levasse até Ariabu. A aldeia fica ao norte da missão, no rumo

temido tuxaua

Joaquim, que falava muito pouco nossa língua. Após pedir-lhe autorização, comecei a fotografar a aldeia. Ela tem um formato meio retangular, com as palhoças dispostas lado a lado, de frente para o centro da aldeia, fechando um enorme pátio que serve para reuniões e danças tribais.

As palhoças são feitas de troncos e barro, e cobertas de sapé. No centro da aldeia há uma cantina (bazar) e um salão·

da cadeia de montanhas. Lá conhecemos o

de baile, marcas do aproximação com o civilizado. A palhoça do tuxaua e as de seus parentes possuem telha de zinco. Lá dentro, um gerador, uma vitrola e uma geladeira, utilidades que apenas os tuxauas podem dar-se ao luxo de possuir.

A aldeia de Ariabu.

T uxaua é O líder, o chefe supremo, dono, de todas as

vontades de seu povo. E realmente a

pessoa mais respeitada de toda a aldeia; sua vontade é uma ordem e os ianomâmis a cumprem espontaneamente, sem reclamações. Joaquim é o tuxouo mais temido e respeitado de toda a nação ianomâmi. Descendente de uma linhagem de grandes líderes guerreiros, ele é constantemente procurado por lideranças de outras tribos, que via iam dias no meio da floresta em busca de seus conselhos.

mulheres da tribo e das

Após as fotos e um pequeno passeio

pela á1deia, seu André

nos levou até o rio Ariabu, um afluente do canal de Maturacá.

Lá encontramos indiozinhos brincando na água escura e

transparente.

topográfica da região, aquele rio nasce exatamente no pico da Neblina.

Segundo seu André e a minha leitura da carta

_ Ah riozinho! Quero conhecer sua nascente - pedia

Edson àquel'as águas escuras e frias, que pareciam desprezar

qualquer um.

. Voltamos à aldeia, agradecemos e nos despedimos do

grande chefe, retornando logo à missão.

avistar algo que a neblina nã.o nos

havia deixado ver antes. As serras de Pirapucu e Barurl que;

imponentes, davam um visual magnífico para aquela paisagem no final de tarde. Da [onelo do lodo oposto, contemplamos a serra do Padre, uma elevação cuio per:il lembra um padre

Da porta pudemos

I

orando, com os braços abertos para o ceu.

I orando, com os braços abertos para o ceu.
I orando, com os braços abertos para o ceu.

!

.1

_

Meus filhos, hora de comer. Se não comerem ficam

fracos e não escalam pico nenhum.

Era padre Carlos nos chamando

para o jantar. Ele era

realmente uma figurinha rara. Fomos até a mesa, feita ~e pa~te da fuselagem de um avião, e lá enc~n_tramos uma refelçao muito saborosa e diversificada: arroz, fellao, arara a~s?da, mutum, banana-prata, tapioca, peixe e cucura, a deliciosa uva da

Amazônia.

A cucura, saboroso uva da- região amazônica.

28

o padrinho dos ianomâmis

Após o jantar e um pequeno descanso na enfermaria,

fomos até o pátio de terra batida na parte interna

da missão.

Sabadin estava sentado na cadeira de balanço e nós nos sentamos em banquetas. Uma chuva de perguntas invadiu a noite, e o padre, sem pressa, respondia a todas, a seu modo, incluindo piadas ou fazendo um pouco de suspense.

Nascido em novembro de 1910, na Itália, Carlos Galli

é o padrinho das crianças ianomômis que, carinhosamente, rodeiam o missionário e pedem-lhe a bênção. Seu nome é

venerado em toda a Amazônia e o Nordeste, visto

companheiro do maior líder espiritual que o país conheceu, o

Ele afirmou que, antes da morte de

padre Cícero, recebera das mãos dele os quatro livros secretos que contêm profecias muito importantes e interessantes para o Brasil. Ele não revelou tais segredos, alegando que o país ainda não estava preparado para isso, mas adiantou que passaría- mos por uma grande transformação política, que seria inflama- da em Sôo Paulo pela classe operária.

padre

ter sido

Cícero Romôo Batista.

Apesar de italiano, ele empunha a bandeira brasileira com muito patriotismo, inclusive espalhando cuidadosamente várias delas pela missão.

Ele falou sobre os índios e seus costumes. Explicou-nos o porquê da divisão em duas aldeias ali: Maturacá e Ariabu.

Simples disputa de poder entre irmãos. Um mais velho, temido

e semi-aculturado, e outro mais jovem, com algum estudo.

as duas de

Maturacá e a aldeia de Maiá, localizada a mais de 40 quilômetros dali. Por ser distante e incrustada na floresta, essa

engloba

A tribo Kohoroxitari

três aldeias:

aldeia não mantém contato nenhum com a civilização, vivendo praticamente em estado primitivo. Para chegar lá, são necessá-

rios dias de caminhada

tempos em tempos, sua população é dizimada pela fome.

pela selva e, segundo o padre, de

29

Perguntamos ao padre o porquê do nome Kohoroxitari, e

ele respondeu:

- Kohoroxitari

- pronunciava cada sílaba pausada-

mente. -

aqui na região;

estrume fedido do minhocaçu - explicou divertido.

Kohoro

xii

minhocaçu, um verme muito abu~da~te

estrume; tari

fedid?

Kohoro-xi-tori

-

Esse nome -

continuou -

foi dado pelos antigos

inimigos, quando a tribo vivia às margens do i~,a~apé Tucano, onde há abundância desse anelídeo. Mas eles la tiveram outros

que significa habitante da terra das

araras. E arara é o que não falta aqui. E Inhewaitere, que

considero bem mais apropriado, e que significa: os grandes derramadores de sangue.

nomes. Como Araribóia

Padre Carlos explicou o porquê da fama de serem eles sanguinários.

- Simplesmente porque eles possuem <:sse instinto.

Matam sem a mínima piedade. Numa hora estao calmos e amistosos, de repente estão nervosos e são inimigos de tudo e de todos. Mudam de temperamento facilmente.

- Uma tribo normalmente

não se dá com a outra -

contou ele -, sendo inclusive costume ianomâmi atacar outras

tribos, matando os homens e raptando todas as mulheres.

-No início não foi fácil o relacionamento com os ianomâmis, cuja língua é por demais complexa e de 9ifícil entendimento. Há muitos conflitos de idéias e interpretaçoes mal-elaboradas -

explicou o missionário. - Eu não imponho n?~a aos índi~s - continuou - eu lanço a idéia católica, sem eXlgenClas, e deixo a semente qermínor por si só; aos poucos vão surgindo as opiniões e uma certa credibilidade e convicção.

Num dado instante, um indiozinho de uns 5 anos, filho de seu André, aproximou-se do padre:

- Padinho , me dá uma lantéina?

O padre emprestou-lhe a lanterna que segurava, indiozinho saiu feliz, correndo para a cozinha.

30

e o

Comentando com ele sobre o Parque Nacional do Pico

da Neblina

- A região é encantadora, insuperável e, certamente, a mais bonita do Brasil.

e o que ele achava da região, padre Carlos disse:

Entretanto, a situação no parque estava bastante crítica. A região é o maior conjunto ecológico do planeta sob proteção

ambiental. São 2,2 milhões de hectares do Parque Nacional do Pico da Neblina no lado brasileiro, somados a 1,3 milhão de

venezuelano. Por ser um parque nacional, ~ uma

região restrita, onde caça, pesca e coleta são proibidas. E uma área indígena, controlada pela Funai, onde o ingresso de qualquer pessoa depende de autorização do órgão. E é uma área de fronteira, sob o rigoroso controle do Exército. Portanto é bastante visada e controlada, não sendo fácil a penetração ali, pelo menos legalmente.

hectares do lado

Por causa de tudo isso, tivemos grande dificuldade em conseguir as autorizações para entrar na região. O Departamento Nacional de Parques recusava nosso pedido.

As solicitações foram remetidas com mais de 3 meses de

antecedência e, após muita briga, só fui receber a autorização do

IBDF dois dias

antes da data marcada para a viagem, e a

autorização da Funai, apenas na véspera da partida.

que esses papéis me causaram até me revolta

quando penso que sem papel nenhum eu estaria ali da mesma

forma. Meu objetivo era apenas escalar o pico da Neblina, só isso. Por que então nos impedir? Estávamos fazendo tudo dentro da lei

e não prejudicaríamos ninguém. Infelizmente, em nosso país, quem

procura andar corretamente sofre mais. Muitos garimpeiros esta- vam por lá sem autorização, devastando a mata, extraindo metais preciosos sem pagar impostos, mudando o curso de igarapés, pondo fogo na flora e,em alguns lugares, poluindo as águas com

o mercúrio.

O desespero

Isso nos revoltava, mas tudo bem. Estávamos em Maturacá

em condições

de realizar

nossa missão. E isso era o mais

importante.

31

Na aldeia do luxaua Daniel

Na manhã seguinte fomos acordados pelo padre, que

deu o toque de alvorada:

Vamos tomar café. Tá na hora de levantar.

_

Café,

leite (em pó, pois na Amazônia

leite de vaca é

raridade), bolachas doce e salgada, tapioca e banana-prata. Esse era o cardápio, simples mas saboroso, principalmente

levando em consideração o lugar em que estávamos.

Após o café fomos dar uma volta ao redor da missão. O sol estava brilhando num céu praticamente sem nuvens; havia apenas umas poucas encobrindo um trecho da serra de Baruri.

Na direção da cadeia de montanhas, pudemos ver parte da aldeia de Ariabu por trás das árvores. Seguindo a trilha que leva para a aldeia de Maturacá, atingimos um ponto onde havia um galpão de uns 200 metros quadrados. Parecia mais

um salão de forró inacabado.

Escutamos algumas risadas vindas de não muito longe. A

trilha agora descia;

por entre as folhas

de um [ornbeiro,

identificamos o canal de Maturacá

lavando roupa e banhando-se.

e, do outro lado, índias

As borboletas amarelas de Matucará.

Era a entrada da aldeia de Maturacá, que ficava do outro lado do canal. Aproximamo-nos e fomos até a margem. As águas eram mais escuras do que as do rio Negro, mas transparentes e cristalinas. Na outra margem, uns 30 metros adiante, índias lavavam roupas e panelas ao mesmo tempo que se banhavam. As mais idosas não usavam camisetas, deixando o busto nu. Crianças brincavam na água, pulando de grandes pedras. Acenamos e perguntamos pelo tuxaua. Logo ele apareceu no alto do barranco iunto a uma palhoça, com duas araras nos ombros. Fez um sinal e um indiozinho, remando com as mãos, levou até nós uma voadeira, atravessando o canal. Subimos na voadeira e ele nos transportou até a outra margem. Ali onde as mulheres cuidavam de suas tarefas, centenas de borboletas amarelas desfilavam em volta pousando quase todas e ao mesmo tempo numa e noutra pedra:

Parecia que o local era encantado.

Daniel nos levou para conhecer sua aldeia. Mais nova que Ariabu, a aldeia de Maturacá possui palhoças mais bem construídas. A disposição das mesmas é meio irregular e confusa, demonstrando uma certa desorganização. T uxaua Daniel explicou que o motivo disso foi o grande crescimento de sua população, que forçou o avanço mais para o interior da selva, fazendo com que as antigas palhoças ficassem no interior do pátio central.

O tuxaua nos mostrou o cemitério da aldeia. Era muito

pequeno, com no máximo 12 sepulturas.

- Todo mundo é enterrado aqui? - desconfiado.

perguntou Edson

- É -

respondeu o tuxaua.

- Não cremam mais? - perguntei.

- Não.

Com a chegada do padre, esse costume mudou.

Agora começaram a enterrar -

Antes da chegada do padre Carlos, o tratamento dado aos mortos seguia a regra ianomâmi. Transformados em pó, os ossos do falecido eram misturados com mingau de banana-comprida e servidos aos parentes e amigos, que comiam sem hesitaçâo. Era a

explicou ele.

.

forma de transferir a força e a sabedoria daqueles que se foram para aqueles que continuavam no dia-a-dia a lutar peja sobrevivên- cia, caçando, pescando e cultivando o solo. E a tradição ianomâmi, retrato de uma cultura milenar ainda presente, que mantém intactos muitos de seus usos e costumes.

Dali fomos até a entrada da casa dele.

Conversamos

sobre os costumes da aldeia, sua subsistência, seu artesanato.

palhoça por palhoça. Mostrou uma índia

tecendo rede de algodão e outra preparando a mandioca- brava para fazer o beiju. Mais ao fundo da aldeia encontramos uma das cenas mais interessantes até então: o pajé, completa- mente drogado, dizendo palavras sem sentido.

Ele nos mostrou

O tuxaua nos explicou que a missão do pajé é espantar 0S maus espíritos e que a tradição deles, neste ponto, ainda é forte.

- Que droga ele toma para ficar assim e conversar com

os espíritos? - perguntou Sabadin.

- Venham comigo -

porta de uma das palhoças.

chamou Daniel nos levando até a

· No chão havia um potinho cheio de um pó marrom. Ao lado, um tubo comprido de madeira.

-Isto é ebena, um extrato da planta paricá. É o pó do pajé. Vejam como funciona

Ele deu ordens em sua lín- gua para o pajé que se aproxi- mou rapidamente. Ele vestia ape- nas uma sunga, tinha na cabeça uma cobertura feita de pele de' macaco e no braço, um arranjo de penas de arara.

Família ianomâmi à porta de sua palhoça.

O pajé ajoelhou-se. Daniel recolheu com as mãos um pouco de ebena, colocou no tubo e encaixou a ponta deste numa das narinas do pajé. Num forte assopro, só se viu fumaça esca- par pelas narinas do velho índio que quase caiu atordoado. Danie'l recarregou o tubo, encaixou na outra narina e repetiu a dose. O pajé levantou e saiu murmurando frases mágicas que o levam à presença dos deuses. Dessa for- ma ele entra em contato com os espíritos, parime em ianomâmi, e clama por uma colheita mais ren- dosa e pelo afastamento dos males que adoecem o índio.

o pajé aspira ebena, erva alucinógena.

Os animais domésticos estavam presentes em toda a aldeia. Eram cães, gatos, galinhas, patos, periquitos, araras e papagaios.

Uma indiazinha nos trouxe uma paca domesticada, mansinha e bastante delicada, que logo conquistou nossa simpatia. Uma mucura (gambá) desfi- lava livremente pelo aldeia, e os cães deitavam -se em qualquer lugar.

Terminada a visito, otuxaua deixou-nos à margem do canal, próximo à aldeia, e agradecemos suo atenção e hospitalidade.

A paca domesticada da indiazinha ianomâmi.

Esperando pelo guia

Na missão perguntamos

pelo índio Mílton,

que havia

conduzido a tropa do Exército até próximo do pico em 1985.

Descobrimos que ele trabalhava para o padre na missão, mas que não se encontrava no momento, pois tinha saído para caçar. O ianomãmi, quando vai caçar, costuma passar de dois

a três dias no meio da floresta.

quando Mílton voltaria. O padre insistia em

que saíssemos naquele mesmo dia, procurando outro índio para

nos acompanhar.

Com o auxílio de seu André, padre Carlos conseguiu um

guia. Era um índio jovem, de menos de 18 anos. Ele não parecia confiante e, ao perguntar-lhe se conhecia a região, respondeu que nunca tinha ido até lá, mas que poderia achar o caminho. De cara recusamos aquele guia. Decidimos partir somente com

Não se sabia

o

índio Mílton.

Padre Carlos estava um pouco impaciente. Perguntamos

o

porquê daquilo, daquela pressa. Ele explicou que os tuxauas

são desconfiados e, a qualquer momento, poderiam mudar de idéia e impedir a nossa viagem. Um frio correu pela minha espinha naquele instante. Afinal estávamos nas terras deles. Era um risco real.

Almoçamos um pouco tarde. Estávamos nervosos com a situação, mas não queríamos demonstrar. Após a refeição, fomos ao alojamento e iniciamos a arrumação das mochilas, preparando também a mochila camuflada poro ser usada pelo índio Mílton. Muita coisa ficaria na missão.

Resolvemos passar a tarde ali, imaginando como seria a

viagem pela selva. Será que nosso treinamento havia nos

proporcionado

mundo desconhecido?

condição suficiente para desbravar aquele

De toda a Amazônia,

certamente aquela

era a área

menos explorada,

misticismo que envolve o lugar. A serra é um imenso maciço

temida devido

à fúria ianomâmi

e ao

vulcânico e uma das regiões mais belas e hostis do planeta. O grau de umidade é altíssimo, as chuvas são intensas, a temperatura é baixa e os ventos são constantes, proporcionan- do uma sensação térmica bastante singular.

A selva, que margeia toda a base do pico, com a média

de 35 graus centígrados à sombra, é superúmida e repleta de animais e insetos. O formigão tocandira, os mosquitos piuns e os mais variados tipos de doenças e males tropicais são apenas alguns dos guardiães do pico.

Antes do jantar, Edson veio me chamar, eufórico:

-

Mílton

está aí. Ele acabou de chegar da floresta!

até o pátio. E lá estava ele. Mílton, o "Grande

Mílton", que fizera o maior sucesso na televisão ao participar como guia da não vitoriosa expedição do Exército.

Corremos

Mas mesmo assim

confiávamos nele. Seria nosso guia. Seu André nos levaria de

voadeira até a foz do igarapé Tucano, numa viagem de 41 quilômetros subindo o rio Cauaburi.

Ele não falava

bem o português.

Percebemos que o padre ficara mais aliviado. Ele acon-

selhou:

- Saiam amanhã bem cedo.

Levamos Mílton até o alojamento mochila.

e lhe passamos sua

Acertamos

o horário

da saída e Mílton

descansar ao lado de sua família.

foi à aldeia

Mais tarde, padre Carlos chamou-nos para o jantar.

Depois de uma maravilhosa refeição (estávamos muito animados), tivemos a honra de receber a visita do temido tuxaua Joaquim e seu filho mais velho, Miguel, que logo o substituiria no comando da aldeia.

seu filho e o

O tuxaua dirigiu a palavra a mim, enquanto

padre traduziam o que ele tinha a dizer.

Começou dizendo

que não precisa ría mos ma is subi r a serra.

Aquilo soou como um tiro em meu coração e logo uma taquicardia

invadiu meu peito. Explicou que já havia mandado um mensageiro

até o alto da

retornassem à aldeia e posteriormente a São Gabriel, sendo portanto desnecessária nossa viagem montanha acima.

Não era possível. Por incrível que pareça, aquele sábio guerreiro imaginava que estávamos ali para prender os garim- peiros que extraíam ouro no parque. Coitados de nós! Seria mais fácil eles nos assarem numa fogueira do que a gente intimar um bando de garimpeiros sedentos por ouro a desistir de seus negócios.

Até padre Carlos ficou boquiaberto. De imediato, rebateu as afirmações do tuxaua, explicando nossa verdadeira inten- ção. Foi muito difícil, mas tudo indicava que ele finalmente havia compreendido.

O tuxaua retornou a sua aldeia. Padre Carlos nos encarou preocupado:

serra e determinado que todos os garimpeiros

- Eu não disse? Os tuxauas são muito desconfiados.

Criam suas próprias preocupações. Amanhã, tratem de viajar bem cedo.

38

e~3

o ENCONTRO COM A SELVA

4~

~

r:t:u 6~.

O céu ainda estava escuro.

Tomamos o café e logo surgiu o nosso guia, vestido apenas com um calção surrado e uma camisa bem velha. Estava descalço e não trazia nem uma blusa.

-

Você

não tem sapatos,

Mílton?

-

perguntou-lhe

Sabadin.

-

Não. -

Sua rés posta era direta e de uma humildade

que dava até pena.

- Pode deixar que nós arrumamos roupa para você - disse Edson.

Fizemos os acertos finais para a viagem. Padre Carlos nos

auxiliava

bastante aflito para nos ver partir.

com conselhos e ordens para o índio.

Ele parecia

Às 8 horas estávamos prontos.

Seu André estava na

o

voadeira, na margem do canal de Maturacá, preparando

motor para a viagem. Era um motor de 15 HP num metros de comprimento.

barco de 5

Sabadin ligou seu gravador:

Dezoito de dezembro Missõo Salesiana de Maturacá

8,05 h

Estamos saindo daqui da

Agora nós vamos seguir uma trilha

39

aqui, pegar uma voadeira e ir até o igarapé Tucano, onde iniciaremos a ;ornada pela floresta. Ho;e é domingo, dia de missa aqui na missão. Cada um de nós está levando, aproximadamente, 22 quilos em sua mochila. O suficiente para a gente passar 10 dias no mato.

As águas do canal de Maturacá eram negros. Suas margens eram puro floresta, com enormes árvores, cujos copos cobriam o céu. Predominava o sombra, com umas poucos brechas por onde

o sol conseguia passar. Muitos cipós pendiam pelo cominho, dando um aspecto sombrio e interessante 00 local.

Após uns 10 minutos chegamos 00 rio Cauaburi, onde suas águas de cor barrento recebem, sem misturar, os águas

negros daquele canal. Seu leito tem uns 40 metros de largura

e o correnteza é bem forte, o que forçava bastante o motor do

voadeira. O Cauaburi é muito traiçoeiro. Ali, segundo soube-

mos, poderiam ser encontrados jacarés e piranhas, mos não em abundância.

ponto do rio e sabia onde

havia pedras submersos, desviando no último instante, impedin- do que o hélice do motor atingisse alguma e se partisse.

Seu André conhecia

cada

Após 30 minutos de viagem,

atingimos o território do

aldeia Maiá" do outro lodo de uma pequeno serro, o muitos quilômetros. E o terceiro e último aldeia dos Kohoroxitaris.

São 8,31 h. Acabamos de avistar um ciemari

ciemari t um

tipo de peixe-espada. Agora são 8,48 h. Estamos ávistando três araras. Araras

amarelas

sete

bonito.

Mais três, são

Que beleza, está cheio de araras aqui. Mais duas! Muito

Agora são quatro! Estão todas voando

Possamos pelo serro de Carriá, à nosso esquerdo, e, do outro lodo, sempre imponente, estava o serro do imeri, oro encoberto pelo neblina, oro mostrando parte de suo magnitude.

Subindo o rio Cauaburi.

Eu estava curioso para saber

qual era a serra da Neblina,

mas

a resposta de seu André era sempre a mesma:

- É por detrás da serra de Baruri,

daqui.

ainda não dá para ver

Agora são /0,45 h. Há alguns minutos nós vimos um pássaro,

um grande pássaro preto

vendo aqui um como é que é o nome? coró.

E copari o nome, e agora estamos

Coró-coró, pássaro coró-

E assim nossa viagem prosseguia Cauaburi acima. O rio

é bastante sinuoso, com muitos bancos de areia, e, a cada

quilômetro, sua largura vai diminuindo, dificultando ainda mais

a navegação.

São //,05 h. Estamos saindo do rio Cauaburi e entrando no

igarapé Tucano

É um riozinho bem pequeno e raso. Dá para ver

de serra mesmo. O

mato aqui chega quase a fechar o rio inteirinho quase que forma um túnel.

o fundo, as águas são

clarinhas tipo água

Foram 3 horas de viagem. Seu André desligou o motor e, com o auxílio de alguns galhos, conduziu o barco até a margem.

Era o início do caminho para o alto da serra. Ali havia um tapiri parcialmente montado, restos de fogueira e alguns indí- cios da civilização, como latas vazias e sacos plásticos. Era o lugar conhecido por Boca do Tucano.

Ponto fjnal das mordomias. A partir daquele momento, só dependeríamos de nossas atitudes e, para conseguir qualquer coisa, teríamos que batalhar ainda mais.

- É, falaram que aqui chove muito,

mas até agora não

vi chuva -

- Aqui é o melhor lugar

mais pra frente? - perguntou Edson.

comentou Sabadin reclamando do calor.

para acampar, Mílton, ou tem

- Tem, tem por aí

- Então, mais pra frente é melhor, não?

-

É -

respondeu Mílton.

Edson estava cometendo um dos piores erros na regra de conversação com índio: induzi-lo à resposta. Todo índio é

assim. Se a gente pergunta se ele concorda com alguma coisa, sua resposta sempre é positiva, porque ele quer agradar.

Colocamos as mochilas nas costas e já sentimos que não estávamos em boa formà. Ficamos ofegantes só em ficar de pé, sem dar um único passo. Aquilo significava que iríamos ter problemas e que o sofrimento não seria pequeno.

Até Mílton

reclamou

do

peso.

O

índio

trouxe uma

espingarda emprestada do padre. Na verdade um trambolho desnecessário. Em questão de armamento estávamos razoavel-

mente seguros, cada um com seu revólver calibre

além de uma reserva considerável de munição. Sinceramente

não acreditava precisar de minha arma. Não considerava os

garimpeiros uma ameaça.

Antes de nossa partida selva adentro, armei a máquina fotográfico no tripé e juntei todos os presentes para uma foto.

38 no coldre,

- O senhor vai ficar por aqui ou já vai embora? -

perguntou Edson a seu André.

- Não, eu vou caçar por aqui.

- Quais as caças que tem aqui? - perguntou Sabadin

que, desde São Paulo, dizia querer caçar junto com um índio.

- Tem mutum, tem cujubim, porquinho, porco, queixada.

Tem macaco, conhece macaco-cotá? Tem macaco-prego, tem

anta, paca.

- Tem onça?

- Também aparece, mas é arisca, né?

- Mílton, mais pra frente tem água? - perguntou Edson,

com o cantil na mão.

- Tem, tem por aí

- Esta era a resposta pad rão dele.

Combinamos o retorno para o dia 28 de dezembro. Seu André prometeu chegar ali dia 27 à noite e fic~r caçando. Sabadin preparou um cigarro de palha para o Md.ton e. outro para ele. Estávamos prontos para a jornada. A partir dali seria

tudo ou nada.

I

o primeiro dia na mata

Na floresta amazônica, não há como sentir-se sozinho. Cantos de pássaros de toda espécie tomam conta do ambiente, transmitindo-nos alegria e a sensação de vida.

Nossa jornada pela selva começou às onze e meia da manhã. Realmente não estávamos em boa forma, realizando a primeira parada depois de apenas 10 minutos de caminhada. O caminho era por demais tortuoso e repleto de grandes raízes que, freqüentemente, derrubavam um de nós no chão. Mílton disparava na frente. Muitas vezes ele desaparecia no meio da mata e nós perdíamos a trilha, ficando completamente desori- entados e alarmados. Mílton nos ensinara um modo de chamar

o co~panheiro

no meio do mato. Era um grito curto e agudo,

I parecido

com o pio de uma coruja. "Uuh!"

Por mais que chamássemos a atenção dele, não adian-

tava; mais alguns minutos de caminhada juntos e ele começava

a

se distanciar até sumir de vez.

da

Fazíamos uma parada a cada 15 minutos de caminha- Era uma média péssima e nós não estávamos progredindo

~ratlcamente nada. Para piorar, o relevo ali era plano, não tínhornos começado a subir ainda. Estávamos a uns 350 metros em relação ao nível do mar e pretendíamos chegar até os 3014 metros de altitude!

A trilha não era ruim. Era a estafa que mexia com nossos reflexos, deixando-nos lentos, e fazendo com que um ou outro tropeçasse numa raiz. Eu já estava aloprado com tudo aquilo. Nos pontos mais baixos e úmidos, havia inúmeras saliências de barro, d~menos de 10 centímetros de altura. Pareciam peque- nos vulcoes.

Após muita trilha, raízes, buracos, troncos e piuns, atraves- samos o igarapé Tucano, que, naquele ponto, tinha uns 20 metros de largura e uma profundidade não superior a 1 metro. Do outro lado havia uma área descampada, que seria nosso primeiro acampamento na selva amazônica.

44

São 15,56 h. Chegamos aqui no acampamento. Fica ao lado

Está todo mundo cansado, fatigado

o índio

do rio Tucano

que não. Ele nem suou, é incrível!

Ali havia um tapiri semimontado. Faltava apenas cobri-lo

com folhas de palmeira. Era o local ideal para Mílton armar sua rede. Tapiri é uma espécie de abrigo feito de galhos, cipós e folhas, aproveitando tudo que a natureza possa oferecer.

Abrimos as mochilas, escolhemos um ponto adequado e montamos nossa barraca modelo iglu.

bal-

cão, ponto excelente para cozinhar, e comecei logo a preparar nossa primeira refeição. Essa seria a rotina, fazia parte do planejamento. Eu cozinhava e eles se revezavam na lavagem

das panelas.

Havia ali um enorme tronco caído, um verdadeiro

O cardápio seria arroz com passas, creme de ervilhas

com bacon e primavera

artificial de laranja e, de sobremesa, um delicioso curau.

Enquanto preparava a comida, Sabadin tentava acender uma fogueira. Mílton havia saído para pescar, levando consigo um pedaço de linha de náilon e um anzol.

de legumes.

Para refrescar, suco

Antes do anoitecer, Mílton retornou com três aracus, que

na fogueira para assar, enquanto íamos

com o índio

foram colocados

jantando.

convidado para pescar.

Sabadin

ficou bravo

por não tê-lo

Com o estômago cheio, nosso ânimo melhorou. Sabadin

um peixe. Comecei

pegou uma lanterna e saiu decidido a pegar

a me sentir um pouco melhor.

absolutamente limpo e estrelado,

da barraca, deixando exposto o mosquiteiro. Dessa forma, deitados, pudemos contemplar aquele céu maravilhoso e até pedir-lhe forças para levar adiante nosso objetivo.

de

mosquitos piuns. Os desgraçados eram tão pequeninos que

Como estava calor e o céu retiramos a parte impermeável

Mal cochilamos,

fomos atacados

por um exército

passavam facilmente pelo mosquiteiro da boneco. a qual, sem

a parte superior, ficou completamente exposta. Levantamo-nos

45

rápido, recolocamos o impermeável na barraca e nos lambuza-

Fomos

~brigados a nos cobrir por completo numa noite quente, que tinha tudo para proporcionar um descanso fabuloso. Mas

bem. Ou melhor, caímos num sono

profundo, dominados pelo cansaço.

apesar disso, dormimos

mos de repelente. Mas o repelente não adiantou.

Segundo dia: caminho errado!

Dia 19 de dezembro. São exatamente 8,05

h. Já levantamos o

acampamento aqui e vamos seguir em frente, em nosso segundo dia de viagem. O azimute é de 320 graus.

Seguimos a trilha, que não diferia em nada da anterior Muitas r?í~es,. buracos e troncos caídos. A floresta possuía urno corocteristico Interessante. As árvores eram extremamente altas

e es~~çadas,

deixando

a mata bastante transponível,

ao

contrario da mata atlântica, onde a gente se enrosca a todo momento em cipós e espinhos.

Logo à frente, encontramos

a cachoeira onde Mílton

havia pescado os aracus. Tivemos que atravessá-Ia. Não foi

ali

era bastante forte e, naquele ponto, o rio era um pouco mais fundo. Tivemos que fazer uma corrente com as mãos e atravessar com todo o cuidado.

muito fácil, pois, além do peso das mochilas, a correnteza

Nem caminhamos 50 metros e atravessamos outro rio o T ucaninho, mais raso e de extensão menor. Ali paramos poro descansar.

Caminhamos mais um longo percurso. Agora começa-

mos realmente a subir. A inclinação era bem baixa bom sinal.

mas era

'

São 13,24 h

Estamos mortos. Aqui está muito difícil. Muito

mato, muito cipó. Acabei desenvolvendo minha parte selvagem

~quJ. InclUSive eu me perdi do índio e fui seguindo

o rumo por.

mstmto

e estamos chegando.

Esta viagem está

sendo uma

loucura!

p:z

Aqui os cipós são bem mais grossos do que os que tínhamos visto

as árvores também são maiores. E nós só

antes e parece que

estamos subindo

Mais algumas horas de sofrimento, atravessamos nova- mente o T ucaninho e chegamos ao acampamento de mesmo nome.

Bem, chegamos aqui no acampamento por volta de 15,30 h. O acampamento fica às margens do, Tucaninho e, pelo ieilo, ele se encontra habitado. Vamos ver E, realmente há três garimpeiros aqui e uma grande fogueira.

Estávamos receosos. Era o nosso primeiro contato com

garimpeiros

reação deles. Aproximamo-nos com certa precaução.

no meio da selva e não sabíamos qual seria a

Havia ali um

abrigo, com cobertura de plástico, de uns 15 metros quadra- dos. As redes estavam estendidas e no chão, por cima de troncos cuidadosamente colocados, ficavam os mantimentos e

os diversos materiais. de trabalho.

Estavam todos deitados, descansando e escutando a Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira. Cumprimentaram-nos e começamos a conversar. Eles estavam voltando da grota da Pepita, que, segundo eles, ficava na base do pico da Neblina.

A alguns metros do abrigo, eles montaram uma fogueira enorme, onde havia um quarto de veado moqueando. Foi o garimpeiro Davi que caçou o animal com um tiro de espingarda, no dia anterior. Experimentamos a carne, já com bastante fome, pois nossa última refeição tinha sido um ralo café da manhã.

A área do acampamento

era pequena.

O líder do grupo era Guilherme, um gari mpeí ro experien-

te, que já passara por muitos garimpos pelo Brasil. Fomos muito bem recebidos por eles.

Montamos nossa barraca num plano mais elevado, a uns 5 metros do abrigo deles, onde Mílton conseguiu um espaço para montar sua rede.

Ali ficamos conhecendo a situação do garimpo da região.

Desde que o projeto Radam-Brasil detectou a presença de metais

preciosos - em particular o ouro - na área do Parque Nacional

do Pico da Neblina, em

estudar a fundo o relevo da região e toda a sua geologia, abrindo

trilhas mata adentro e pesquisando pontos realmente longínquos.

1975, algumas pessoas passaram a

Com isso, São Gabriel da Cachoeira,

a capital do alto

rio Negro, passou a viver momentos de fartura. Sendo a cidade

mais próxima da serra da Neblina, grupos de pessoas ali se

reuniam, abastecendo-se com centenas de quilos de suprimen-

tos para desbravar aquele mundo perdido objetivo na mente: o ouro.

Em decorrência disso, foram surgindo as áreas de garim- po, sendo as principais: igarapé Aliança, na serra do Padre; cabeceiras dos igarapés Anta e Tucano, no alto Cauaburi, e a mais recente e de grande potencial aurífero, o alto Ariabu, na base do pico da Neblina.

com um único

Imaginar que a vida de garimpeiro

é fácil é pura ilusão.

As dificuldades começam pela formação do grupo, onde os fatores confiança, vigor físico e seriedade são fundamentais. Muito dinheiro é gasto (ou promissórias assinadas) na compra de suprimentos suficientes para passar cerca de 3 meses isolados naquele mundo inóspito. Com o grupo formado, deve- se pedir permissão aos tuxauas, que controlam toda a área. "A região é dos ianomãmis e, sem a nossa permissão, ninguém entra!", afirmava tuxaua Daniel.

Para conseguir tal concessão, o preço não é nada baixo, atingindo porcentagens muito altas de todo o serviço do garimpei- ro, quando não é exigido algum tipo de adiantamento. Eles também utilizam outros meios para conseguir a permissão. Dênis, um dos garimpeiros, ali presente, de apenas 19 anos, casou-se com a filha do tuxaua Daniel, tendo portanto livre acesso à área sem dever porcentagem alguma pelo produto extraído.

Conseguida a permissão dos tuxauas, inicia-se a fase dura do trabalho: o transporte de centenas de quilos de ferramentas e alimentos selva adentro. Esse transporte segue o mesmo caminho que fazíamos. Vêm de voadeiras até a Boca do Tucano e, dali, tudo é carregado nas costas, numa trilha tortuosa

paz

de mais de 35 quilômetros, em região de selva e montanha, demorando mais de 10 dias para que todo o "rancho" seja tombado montanha acima.

Mas vocês

estão no caminho errado! - declarou Guilherme.

- Vocês querem ir até o pico da Neblina?

- Como?! - Fiquei paralisado.

- O caminho correto sai da Cachoeira

para lá. Vocês

estão na trilha do garimpo, outra é bem mais rápida.

Não era possível. Um dia inteiro de caminhada e tudo por

água abaixo. Teríamos que voltar tudo e seguir a outra trilha.

Uma enorme raiva apoderou-se

estrangular Mílton quase me fez perder a cabeça. Edson e Sabadin me acalmaram.

de

que dá a volta por trás do pico. A

de mim e uma vontade

- Mílton, você não sabia que era por lá? - Guilherme a ele.

perguntou

-Caramba!

-gritei.

-Não

foi por lá que você conduziu

o Exército? Por que nos trouxe aqui, pelo caminho errado?

Mílton tentava explicar

com as poucas palavras

que

sabia. O problema foi que o filho do tuxaua Joaquim, Miguel, lhe disse para fazer aquele caminho. E o pior foi que ele resolveu seguir tal conselho sem nos consultar. Nós estávamos no

caminho errado e teríamos de retornar. Ou seja, dois dias de viagem jogados fora e energia preciosa desperdiçada.

Apesar de tudo, sabíamos que Mílton não tinha culpa.

Peguei a carta da região e passei a estudá-Ia. Guilherme, apesar de não saber ler bem um mapa, ajudou-me com

informaçôes sobre o relevo e as denominaçôes dadas por eles.

A partir daquele momento eu estava reossurnlndo a posição de

líder e guia da expedição.

Mílton

passaria a andar atrás,

cuidando de nossa segurança, de olho nos perigos da selva, e servindo de mensageiro, ficando encarregado de voltar corren- do à missão para pedir socorro, no caso de algum acidente

grave conosco.

não

estávamos tão errados. A trilha era mais longa mas chegava até

o pico, e isso é que interessava.

Preparei o jantar: arroz, creme de champignon ao leite e passas, farinha grossa de mandioca e veado moqueado. Um semi-estrogonofe. Fui consagrado como cozinheiro, pois o jantar agradou a todos.

Guilherme preparou um mapa para nós com a trilha e os pontos de acampamento e garimpo. A partir dali nosso trojeto seria mais ou menos este: subiríamos a serra do Barro, que iniciava ali mesmo no acampamento, desceríamos um pouco

pela crista, atingindo a grota do Açúcar

atravessaríamos umas três grotas (talvegues pequenos com

curso d'água) e subiríamos uma delas, atingindo o acampamen-

to da Pica do Baiano.

A ajuda

do garimpeiro

foi muito valiosa.

Nós

Continuando a trilha,

- Pica do Baiano?

Por que esse nome? -

perguntou

Sabadin ligando o gravador.

Guilherme ficou sem graça. Enrolou, enrolou, mas aca- bou contcndo

que estava

- Tem um garimpeiro

aqui,

o Baiano,

acampado lá. E aí colocaram Pica do Baiano.

- Mas por que os índios insistiu Sabadin.

os índios colocaram o nomede

colocaram esse nome? -

Dênis ajudou:

- É que viram ele tomando banho. Viram ele tomando banho e se assustaram com o tamanho

Todos rimos. Sabadin brincou com Mílton:

É que de índio deve ser pequenininho. Quero ver você tomar banho, Mílton.

.

-

Mílton riu.

- Esse Mílton só ri

E depois da Pica do Baiano vemo

quê? - perguntou Sabadin, retomando o assunto.

- Depois vem o acampamento

do Vento, mas antes

vocês passam pela grota da Merenda, onde a gente costuma

50

>

parar para cor;ner. Desviando do Vento, à direita, está a grota

do Homero.

Montilla.

índios foram para o garimpo,

E pertinho dali.

Daí você chega

na s~rra da

A serra da Montilla é a mais falada por aqui. E que os

levaram um litro de Montilla

e

beberam tudo lá em cima. Por isso colocaram esse nome

- Esses índios são gozadores

mesmo -

comentou

Sabadin. -

Esses índios são

fogo!

-

e deram o nome

mais bonito da região: serra da

Montilla.

Ela fica de frente para o pico. A serra de um lado e o

pico de outro. De lá você avista todo o pico. Mas 031 de Março vocês não vão conseguir ver, não. Por essa trilha, só se pode

avistar o 31 de Março da base do pico da Neblina.

após subir a Pica do Baiano, atinge-se o

platô da serra, onde a vegetação é completamente diferente. da selva. Mais alguns quilômetros adiante dali, se o tempo estiver bom, pode-se avistar o pico da Neblina, nosso tão sonhado

objetivo.

Fomos dormir um pouco mais esperoncosos. Precisáva- mos descansar bastante, pois no dia seguinte começaríamos a subir. Até ali era só plano e já estávamos bem desgastados. O dia seguinte não seria brincadeira.

Segundo ele,

Serra do Barro, um martírio

São 8,05 h do dia 20 de dezembro. Agora nós vamos sair daqui do acampamento onde se encontram os garimpeiros e vamos subir a serra do Barro. Vai ser uma caminhada e tanto. A previsão é chegar daqui a 5 horas na grata do Açúcar.

Despedimo-nos de Guilherme, Davi e Dênis, e atravessa-

mos novamente o T ucaninho, encontrando na outra margem o início da subida da serra do Barro, uma vertente bastante

íngreme e escorregadia,

região.

As mochilas pesavam mais ainda. Dávamos alguns passos e parávamos escorando o corpo numa árvore. A respiração estava ofegante e o coração batia forte e rapidamente.

apesar de não chover há dias na

51

Continuamos a dura jornada.

O topo da serra não

chegava.

Muitas

vezes tivemos a falsa impressão

de que

sacrifício,

enquanto Mílton ia retirando as penas do gavião e

faltavam apenas poucos metros para chegar

no alto.

Mas

guardava

uma por uma num saco plástico que lhe havia dado.

quando chegávamos àquele ponto, víamos que faltava mais uma rampa, outra, e mais outra. Era uma subida sem fim, que estava acabando conosco. Pelo meu altímetro, estávamos a 1100 metros, após 3 horas de marcha.

Depois de muita subida atingimos finalmente o alto da . serra. A trilha continuava seguindo sua crista, que era um leve declive. Ali a vegetação rasteira começou a aparecer com mais freqüência, atrapalhando a passagem de nossas mochilas em determinados pontos.

Mílton de repente parou e ficou atento. Pensávamos que fosse uma onça ou outra fera e sacamos, todos, nossas armas. O índio apontou sua arma para cima e disparou.

- O que era, Mílton? -

- Gavião. Gavião.

perguntou Edson assustado.

- Você gastou seu único cartucho num gavião e nem ao menos acertou? - reclamou Edson.

Por incrível que pareça, Mílton trouxe uma espingarda e apenas um cartucho. Era o primeiro e último tiro daquela arma, durante toda a expedição

De repente um barulho de algo caindo próximo. Eu não

podia acreditar

ele acertou o gavião.

Caramba, Mílton é bom de tiro. Acabou de buscar um gavião, num tiro só. O gavião demorou mais ou menos um minuto e caiu próximo de nossa posição. Eh, lasqueira! Esse índio é bom mesmo. Vamos ter gavião assado hoie

O tiro acertou na cabeça da ave. Era um gavião branco de porte médio. Seria realmente bem-vindo em nosso jantar.

Após uma forte descida, alcançamos a grota do Açúcar por volta das 5 horas. Estávamos atrasados quase 4 horas em relação à previsão feita no Tucaninho. Acamparíamos ali mesmo.

Armamos a barraca

num ponto elevado e fui cuidar do

jantar. Sabadin e Edson montaram uma fogueira com grande

52

- É para usar na festa da pupunha - ele dizia contente.

Todo mês de janeiro, época em que tal fruta abarrota a

uma

tradição que o padre não soube dizer quando começou, mas é considerada uma das melhores festas da tribo.

região de Maturacá,

realiza-se

a festa da pupunha,

Descobrimos ali o porquê daquele nome: grota do Açúcar. As evidências nos faziam pensar assim. O local estava repleto de abelhas, tendo uma, inclusive, picado a mão de Edson.

Nosso jantar foi novamente engrossado com farinha de mandioca, o xibé, que Mílton conseguira com os garimpeiros. A farinha era simplesmente horrível, parecendo serragem com algumas pedrinhas no meio. Mas na situação em que nos encontrávamos e com a escassez de nossa comida, aquilo desceu como um maravilhoso banquete.

só ficou pronto horas depois do jantar. Sua

carne era bastante escassa e dura. Era arrancar um pedaço e

ficar mascando.

somente para retirar suas penas.

O gavião

Mílton

não quis comer.

Ele matou a ave

Mílton armou sua rede entre duas órvores de frente para a entrada de nossa barraca, e fomos dormir bastante cansados, mas com o estômago satisfeito. No meio da noite caiu uma chuva repentina e Edson, preocupado com o índio, jogou-lhe um plástico grande. Era a primeira chuva que pegávamos na selva e, por sorte, estávamos bem protegidos dentro de nossa barraca.

53

-I

I

I

I

I

I1

I

I

I

I

I

I

I

o PLATÔ DA SERRA DA NEBLINA

/lia ~~,

ao levantar, vi Mílton todo encolhido

dentro da rede, totalmente encharcado. Sabadin também não

acred.itava .no que via: o índio havia guardado

mochila e ficara a noite inteira debaixo

o plóstico na

de chuva.

. Tomamos o café da manhã,

rnois de dOIS copos de café com algumas colheres de aveia.

que se resumia em pouco

leite para cada

um, com

São 8, 1~ h do dia 21 de dezembro. Estamos saindo agora

grota do Açucar, a caminho da Pica do Baiano. Vamos ver se

da

para fazer a caminhada ho;e. Bom, nós reclamamos da chuva né

Eduardo? E ela veio. Sabe a que horas?Ouas madrugada

e mei; d~

Nosso objetivo era caminhar até o acampamento

do

Vento, passand?

segundo os garimpeiros,

chegando

dir.eto pela Pica do Baiano.

seria de uma jornada

A previsão, de 7 horas,

ao Vento, portanto, lá pelas 4 horas da tarde.

Onze e dez. Chegamos ao acampamento da Pica do Baiano. o ~stamos a 1540 metros de altitude, temperatura de 21 graus. Aqui e uma enorme clareira aberta na floresta. Muitas árvores caídas e há um enorme tapiri coberto com plástico A nascente da grota do

54

Cipó é aqui, inclusive nosso grande tenente está agora bebendo sua água cristalina.

Não poderíamos

parar

ali por muito tempo.

Nossa

cadência era muito lenta e eu estava preocupado em chegar logo ao acampamento do Vento. Eu já tinha decorado o mapa feito pelo garimpeiro, tentando adequá-lo à carta da região e estimar melhor as distãncias a percorrer.

Iniciamos a subida da Pica do Baiano. Estávamos deixan-

do para trás a floresta latifoliada e nos aproximando

campos de altitude da serra da Neblina. A inclinação da

dos

vertente era bem superior à da serra do Barro e, para complicar,

uma forte tempestade [errou do céu, encharcando roupas pela primeira vez nessa expedição.

nossas

A trilha transformou-se num lamaçal que logo foi lambu- zando nossas roupas. Em alguns trechos, sua inclinação era tão acentuada que os garimpeiros tinham fincado troncos para servir de degraus. Nosso ritmo diminuiu muito e, molhadas, as mochilas passaram a pesar mais.

Olhando para trás, quando

a neblina permitia, dava

para ver a floresta, que ia ficando para baixo. Dava a

impressão de que lá não chovia, parecendo

estava bom. Mas ali metro que subíamos.

até que o tempo

no alto, a intempérie aumentava a cada

Encontramos um paredão

de puro barro,

de uns 15

metros de altura. A chuva forte não permitia olhar para cima.

Havia alguns galhos e pequenos troncos ancorados nele e muitas bromélias revestiam sua superfície.

Agarrando raízes, apoiando os pés em galhos e troncos e, principalmente, sendo empurrados pelo companheiro de trás, vencemos aquele obstáculo, atingindo o alto bem fatigados. Ventava muito e, num determinado instante, parte da neblina ali dissipou-se, mostrando que nada mais havia a subir. Estávamos no platô da serra da Neblina, em seus campos de altitude, onde a visão perdia-se em infinitos horizontes.

São 14,05 h. Altitude: 1850 metros. Temperatura: 25 graus. o Acabamos de atingir o cume da Pica do Baiano. Muito difícil

55

mesmo, dificílimo. Tivemos que agarrar nas raízes, o peso da mochila iogando a gente para trás Muito perigoso.

Ali no chão havia alguns troncos de palmeira, postos lado

a lado, formando um tipo de assoalho. Aquilo era usado pelos garimpeiros para colocar o rancho, protegendo-o do solo lamacento. Sabadin, Mílton e Edson sentaram-se ali.

1I

~I

11

1I

:1

I

I

Ali pude ver como o coitado

do Mílton sofria. Como

sempre vi o índio como um Tarzan na floresta. A

imagem dos livros e filmes nem sempre é real. Eles são humanos

e, como nós, sentem dor, frio e fome. Mílton estava descalço,

de calção e camisa.

gelados, contrastando terrivelmente com a temperatura do ar.

Parecia que estávamos debaixo de um forte sol recebendo um jato de água fria. A sensação era esquisita e desagradável.

A chuva e os ventos eram intensos e

civilizado,

Mílton entrou por debaixo do poncho de Sabadin e ficou ali, duro como um picolé, tremendo dos pés à cabeça. Fiquei com muita pena dele. Mas não adiantava preocupar-me com

isso. Os pontos de vista do índio são bastante estranhos. Edson,

que era do tamanho dele, deu-lhe

completo para a viagem, entretanto ele resolveu guardar na mochila para não estragar.

um uniforme camuflado

- Vamos embora, vamos embora. A hora está passando.

Não sei o que se passava comigo. Estava exausto, mas

não queria parar.

Reiniciamos a jornada caminhando pela primeira vez naqueles campos. O solo era esponjoso, encharcado, repleto de pedras, liquens e bromélias gigantes. Caminhar ali era um martírio. Atolávamos a cada passo dado, e o perigo de quebrar uma perna ali era grande.

ill/

I11

I

l

56

_

No platô da serra da Neblina, o solo esponjoso e encharcado mais a chuva constante dificultavam a caminhada.

. São /5,30 h. Parou de chover aqui em cima. Estamos avistando dois pICOSbem altos. Acreditamos ser um deles o pico da Neblina. De vez em quando a nuvem sai da frente e dá para enxergá-los. Agora estamos em dúvida.

-

É ele, sim -

disse Mílton.

A alewia invadiu nossas almas. Começamos a brincar e

a ~os,c~mprlmentar. ~st?vamos vendo o ponto mais alto do país, p~,vdeg'o que pouqurssirnos pessoas tiveram. Até fotos em livros sao raras, sendo freqüente a utilização da imagem da serra do P~dre para !epresentar o pico da Neblina. Preparei minha camera e nao economizei ~ilme. Cada nuvem que passava

dava um ?:p~cto novo

ao pico e era motivo para registro. Eu

estava lelicissirno. Mas tínhamos de continuar a caminhada

58

.

.

••

o platô parecia um enorme vale ondulado, cercado por pequenos e grandes montes nas bordas. Toda a água da região desembocava no pequeno rio Ariabu, que ia aumentando de volume até atingir o canal de Maturacá, lá embaixo. Olhando de longe, o platô parecia um enorme gramado macio, de fácil progressão. Mas na verdade era uma esponja gigante, encharcada, cheia de pedras pontudas. Aqueles garimpeiros deviam retirar muito ouro dali. Somente muita ambição podia levar um homem a ficar meses instalado num lugar assim.

Às cinco da tarde, atingimos com muito sacrifício a grota da Merenda, numa altitude de 1 740 metros. Era uma pequena grota de água gelada, onde, 20 metros adiante, havia espaço

para montar acampamento.

Havia uns galhos já cortados no meio da

lama. Monta-

mos uma espécie de palafita,

palmeira e bromélias, disfarçando um pouco aquela superfície

retorcida.

interior. Uma droga! O chão da barraca estava todo cheio de saliências e em alguns pontos cedia ao nosso peso. Com certeza aquela seria a pior noite de nossa expedição.

seu

cobrimos com folhagem de

em cima e verificamos

Armamos a barraca

Enquanto todos trocavam a roupa molhada, fui preparar o jantar, que só foi servido às nove e meia da noite, devido à dificuldade de se fazer qualquer coisa naquela lama.

Eu ainda

não tinha trocado

de roupa.

O uniforme

molhado congelou meus ossos.

Edson me ajudou a desamarrar as botas e tirar as roupas lambuzadas daquela lama preta e fedida. Vesti toda a roupa seca que tinha. Entrei em meu saco de dormir, me acomodei o melhor que pude, mas continuava a tremer sem parar.

Sabadin abriu seu diário e começou a escrever os fatos

do dia. Aos poucos minha tremedeira ia passando.

A escada feita de uma árvore, foi o maior 'sacrifício para subir

nela

aliás foi o maior sacrifício fazer tudo

Aqui em cima, um

mundo de barro

Barro para tudo quanto é lado

e hoie ninguém

tomou banho.

59

Sentindo-me melhor, retirei da bolsa de equipamento

a

estudá-los, tentando localizar nossa posição.

- Se tivéssemos uma carta precisa, tudo estaria resolvi-

do. Mas confiar num mapa manuscrito de um garimpeiro e em outro feito por um integrante do Batalhão de Forças Especiais coloca a gente numa situação incerta - desabafei.

fotográfico

as anotações

e mapas da região

e comecei

, -

~e~,

se o pico está ao norte, como foi conferido pela

bussola, e so seguir a direção e pronto -

disse Sabadin.

O problema, Sabadin, não é saber onde é o pico da

Nebll,na. O que eu realmente quero saber é a via certa para escal.a-Io. Lembrem-se de que estamos com equipamento de

alpinismo reduzido e que o vento e as chuvas não estão a nosso

favor. O lado correto - tentado em 1985.

. -

continuei - é por onde o Exército havia

- Mas não seria melhor escalar por outro lugar? -

perguntou Edson. - Assim marcaríamos pioneirismo.

I

- Tudo bem.

Mas nossa comida

está no fim e, nessa

I marcha, logo estaremos sem nada para comer. Preciso desco- brir como alcançar a trilha original. Assim nosso retorno poderá ser reduzido para, no máximo, 3 dias.

Enquanto discutíamos, recomeçou a chover. As saliências

do

piso não deixaram ninguém dormir direito.

 

Hoie é 22 de dezembro. São exatamente 9, 40 h. desmon- tamos o acampamento e pretendemos avançar mais um pouquinho.

. Aq uela noite foi horrível. Todos os ossos do corpo doía m.

O

pior de tu.do foi tirar o agasalho

e recolocar

as roupas

molhadas e frias. Com o corpo ainda frio, meio duro, recome-

çamos a caminhada,

passos. Uma brisa forte e gélida nos acompanhava.

já atolando

o pé na lama nos primeiros

Por vezes, um buraco mais fundo fazia um de nós afundar atéo joelhoecair, lambuzando toda a roupa. Devido às chuvas constantes, Sabadin utilizava um poncho impermeável; Edson

e eu, capas de chuva amarelas, daquelas rios de limpeza urbana.

60

usadas por funcioná-

Nós estávamos contornando uma pequena elevação que

impedia a visualização

uma linha de cumeada que dividia o rumo das águas do platô,

as bacias do alto Ariabu

de cumeada. À nossa frente, uma

baixada de uns 100 metros de desnível, por onde a trilha continuava e, mais à frente, desviava para a esquerda. Paramos para um descanso. Fiquei observando o terreno, pois queria entender o porquê de a trilha descer por ali e não continuar pela

veio

crista da elevação, na direção exata do pico. A resposta

com a saída da neblina, que descobriu uma elevação de pura rocha, não muito alta, mas bem íngreme, impedindo a progres-

são por ali.

do pico. Faltava pouco para atingirmos

e alto Cauaburi.

Atingimos a linha

Uma espessa camada de neblina chegou repentinamente,

com um vento fortíssimo, cobrindo

consigo uma chuva forte e gelada. A chuva, apesar de forte, não durou mais do que 2 minutos; foi-se com o vento e a neblina,

deixando novamente limpa a paisagem que contemplávamos.

a tempo na

grota do Gelo. Na grota do Homero só vamos pegar informa-

eu disse, sem

acreditar que faríamos tanto.

Descemos a vertente com muita dificuldade. Era muito íngreme e de puro barro, o que me fez escorregar alguns metros, lambuzando ainda mais a mochila. Chegamos embaixo. Uma floresta de pequenas árvores, palmeiras, cipós e todo o tipo de plantas rasteiras formava um exército que procurava nos barrar de toda maneira.

Mais à frente, a trilha subia uma vertente. Era o desvio à

esquerda que tínhamos visto de lá de cima. Fomos deixando para trás e para baixo aquela floresta e, após alguns minutos,

já estávamos num plano razoável. Olhei para a esquerda e ,<i

a elevação escarpada, responsável pelo desvio da trilha. A

direita, o terreno ia perdendo altitude aos poucos e a cobertura vegetal ia mudando de bromélias para floresta. A neblina

toda aquela baixada e trazendo

- Vamos embora,

senão não chegamos

-

ções. De lá teremos que partir rapidamente

.

61

I

1I

impedia de ver mais adiante, mas sabíamos que lá embaixo

estava o rio Cauaburi

Neblina, a trilha que deveríamos ter tomado.

e, à frente, do outro lado do pico da

São 12,00 h. Chegamos a um acampamento. Talvez seia o acampamento do Vento.

- Não dá nem para sentar para descansar -

Edson.

- Aqui não dá para ficar de jeito nenhum -

reclamou

observei.

- O que vocês acham de esperar aqui, enquanto eu e o Mílton

descemos aquela trilha, para ver se encontramos a grota do Homero e os índios garimpeiros?

Colocamos nossas mochilas em cima de uma pedra cheia de líquens. e então Mílton e eu prosseguimos por uma trilha que descia na direção do Cauaburi. Uns 20 metros à frente já estávamos dentro de uma mata fechada, igual à que havíamos passado minutos antes.

Stanislau, O índio garimpeiro

A trilha ia avançando

mata adentro,

cada

vez mais

fechada. Era cipó para todo lado e iolhcqorn de toda espécie.

I Não se via nada além de 5 metros. A medida que progredía-

[ mos, a trilha ia se transformando num riacho e logo já estávamos com água acima da cintura. A chuva engrossava mais e a correnteza ia aumentando, o que dificultava ficarmos em pé. Mas, logo adiante, a trilha desviou do riacho e pisamos terra

firme. Continuamos seguindo o riacho pela margem esquerda e, mais à frente, encontramos uma clareira.

A trilha foi se tornando mais aberta e a vegetação, mais rala. Havia muitas árvores e galhos cortados. Mas aquilo não podia ser chamado de devastação, comparado ao que se via adiante: a floresta que margeava o riacho estava totalmente devastada, reduzida praticamente a zero. O leito do riacho fora totalmente revolvido e peneirado, sendo jogado às suas mar- gens todo o cascalho retirado. Era uma cena de total destruição.

62

A destruição da grata da Mucura.

Boquiaberto,

fui avançando

naquele terreno "lunar".

I

Mílton estava mais à frente e, de repente, começou a dar seus gritos, isto é, a usar seu código de comunicação ianomãmi, que logo foi respondido por alguém. Logo um outro índio veio em nossa direção. Mílton ficou muito feliz em vê-lo. Sua cara de contentamento era até um pouco infantil.

- Boa tarde. - Cumprimentei o índio, meio preocupado.

- Boa tarde, tenente -

respondeu ele. -

Meu nome é

Stanislau.

Como esse índio sabe que sou tenente? Lá em São

Paulo

muitos me confundem com sargento, capitão, sei lá. E aqui

nesse

fim de mundo, um índio ianomãmi reconhece minha patente?

Essa é boa!

Stanislaú era um índio culto. Estudou em São Gabriel da Cachoeira, sendo um dos poucos que sabiam escrever. Tinha

Manaus, no

Centro de Instrução e Guerra na Selva (C1GS), o que facilitou ainda mais o nosso relacionamento. Ele estava liderando um

grupo de índios, em busca de ouro.

19 anos de idade e havia servido o Exército, em

63

I

'

- Vamos tomar um café, tenente - convidou Stanislau.

de madeira e coberto por um

enorme plástico azul. Lá fui apresentado a outros três índios.

todos adolescentes. Apesar de muito forte e com pouco açucar, aquele café quente desceu gostoso. Mílton gostou tanto que

repetiu

ianomâmi dada por um dos índios.

duas vezes a dose, o que lhe custou uma bronca em

Fomos até um tapiri feito

Já eram duas e meia da tarde. Segundo Stanislau, nâo seria muito fácil alcançar a grota do Gelo antes do anoitecer. O ideal seria pernoitar ali mesmo. Ele e outro índio voltaram conosco ao acampamento do Vento para nos ajudar a trazer o material. A chuva havia parado e a trilha estava um pouco mais transitável.

Com a mochila

nas costas e toda a equipe

unida,

retornamos à grota do Homero. Segundo Stanislau, o nome correto era grota da Mucura, devido à quantidade desses animais existente ali.

ao tapiri dos índios, havia uma

bancada de cascalho, local ideal para montar nossa barraca.

Na margem contrária

Nunca montamos a barraca com tanto carinho. Também

pudera, depois de tanto desconforto, encontrar um lugar plano

e perfeito como aquele, junto a uma água pura e gelada, um privilégio digno de comemoração.

era

o confortável acampamento em Mucura.

Tudo arrumado, fomos tomar banho. Na outra margem, de frente para a nossa bancada, havia uma grande bica,

jorrando água da altura de um metro e meio. Foi o local ideal

para um banho completo

de nossas sofridas

roupas. A água estava geladíssima, mas a sensaç-ão de estar limpo compensava aquele sacrifício.

Depois de tomar banho e trocar de roupa, fomos conhe- cer melhor a vida no garimpo. Stanislau e seus companheiros

nos levaram para

picaretas e entender um pouco como aquilo funcionava.

ver toda a área revolvida com enxadões e

e a lavagem

Com o acampamento montado às margens de um dos riachos da região, vem a primeira fase do trabalho propriamen-

te dito: o teste aurífero com a cuia. Esse teste consiste em escolher

pontos aleatórios do terreno, numa distância aproximad?de 1O metros um do outro, encher uma cuia de cascalho e verificar se há ouro misturado ali.

Encontrados alguns grãos, vem a segunda fas.e, que consiste na quebra do cascalho do ponto em que o ouro foi

detectado. Esse cascalho é jogado às margens do riacho, onde

é montada uma bancada, com armação de troncos e galhos.

Nessa bancada eles espalham

fase final e de maior expectativa para o garimpeiro: "a hora da

cobra fumar". Consiste numa caixa,

montada junto à bancada. Sobre ela é jogado todo o cascalho

que escorre com o auxílio de água jogada

cocho é forrado com saco de estopa preso por algumas ripas

transversais,

cascalho, ou seja, o esmeril e o ouro.

o cascalho

moído e aí vem a

em forma de cocho,

por baldes. Esse

do

cuja função

é reter a parte mais pesada

o seu sacrifício valeu ou

não a pena. Não encontrando o ouro, ou ele tenta outro ponto do terreno, ou muda para outra grota. Via de regra nunca desistem, pois a febre do ouro é contagiosa e incurável.

É aí que o garimpeiro vê se todo

. A chuva já tinha parado há mais de uma hora e surgiram

sinais de sol naquele final de tarde. Já estávamos começando

a cuidar da comida quando Stanislau gritou de longe:

- Venham aqui! O pico está visível agora!

65

I

Corremos em disparada até o outro lado da margem, de

 

I

onde contemplamos um dos ângulos mais impressionantes do pico da Neblina.

 

Comecei a fotografá-lo de todas as formas que pude imaginar. Eu estava maravilhado. Lá estava nosso objetivo, todo imponente, sozinho naquele ponto elevado, mas ainda muito distante de nós. Em linha reta, devia estar a uns 8 quilômetros.

Desse ângulo, parecia realmente impossível escalá-lo. E era exatamente isso que Stanislau repetia constantemente.

É impossível chegar lá em cima. Eu lembro quando Exército foi até lá perto. Não dá, não.

-

o

 

Realmente dava medo só de olhar. Estava escurecendo

e

 

sua imagem ficava a cada minuto mais misteriosa. Sentia um frio na espinha só de pensar em estar pendurado naquele enorme

paredão, debaixo de chuva e à mercê dos ventos fortíssimos que

assolam a região. Um simples descuido

e tudo acabado. Eu

sentia que o fantasma da morte rondava o pico.

 
 

I

Stanislau colaborou com o jantar oferecendo alguns gêneros. Depois conversamos longamente com o índio, que nos contou sobre os costumes de sua tribo e a tradição guerreira dos ianomâmis.

I

I

 

Segundo ele, os kohoroxitaris

viviam

às margens do

 

I

I

igarapé

Tucano. Por volta de 1949, tiveram contato com padre

Antônio Góes, que, após muita insistência, conseguiu conven- cer toda a tribo a se mudar para as margens do canal de

Maturacá e do rio Ariabu, onde vivem até hoje. Entretanto, por

motivos políticos, em meados de 1975,

Daniel brigaram, dividindo a aldeia em duas partes: Ariabu e

os irmãos Joaquim e

Maturacá, que permanecem até hoje separadas dessa forma, mas sem conflitos.

Stanislau contou também que os índios se interessam por quase tudo que o homem branco traz da cidade, desde que não sejam ferramentas e máquinas para trabalhar.

66

impossível chegar lá em cima."

- o que eles querem mesmo é conforto e muitas armas

e munições. - Ele falava como se também não fosse um índio.

nós ainda

Stanislau e Mílton

foram dormir

no tapiri;

ficamos mais umas duas horas discutindo nossas possibilidades

e estudando o velho mapa manuscrito. Tinha que haver uma

forma de contornar o pico e encontrar a trilha original. Essa era

a nossa esperança. Senão estaríamos numa fria, pois nossa comida já estava acabando.

Com a altiva visão do pico da Neblina em nossas mentes, caímos no sono. Aquela imagem impressionante penetrou em meu subconsciente e encheu minha noite de sonhos estranhos e sem nexo, onde ele era sempre o protagonista.

o desafio da serra da Montilla

Mucura. O melhor acampamento de toda a expedição, apesar de ter sido a noite mais fria da viagem. Desarmamos rapidamente a barraca sob os olhares curiosos dos índios, impressionados com o seu formato.

Dia 23 de dezembro, 8,25 h. Vamos sair daqui da grata da Mucura em direção à grata do Gelo, subindo a serra da Montilla. Será que conseguiremos? Não percam a próxima gravação! Estamos com I Ó graus agora.

Reiniciamos a caminhada voltando até o acampamento do Vento para retomar a trilha, rumo à tão comentada serra da Montilla, nosso próximo desafio.

Não havíamos caminhado nem 20 minutos quando dois

garimpeiros

um com uma cesta de ~

passaram por nós, cada

bambu nas costas e um facão na mão.

- Bom dia! Como vai, tenente? -

cumprimentou um

deles, acertando em cheio minha patente. Eu era mais reconhe-

cido ali do que em meu próprio bairro.

Perguntamos como é que eles conseguiam andar tão bem naquela lama e ficamos assustados quando eles disseram que

'68

pretendiam retornar da Merenda naquele mesmo dia, fazendo na metade do tempo o dobro do percurso que fizemos em quase dois dias de penosa viagem. Chamavam-se Lourival e Ivo, e seus trojes resumiam-se a um calção grosso, botas impermeáveis e camiseta, levando à mão o facão para abrir caminho.

- O sargento Ferreira? Está lá conosco, sim -

respon-

deu Lourival. Aquela notícia foi estimulante para nós. Eles seguiram viagem rumo à Merenda, e nós continuamos a dura caminhada, atolando a cada passo naquela esponja nojenta.

até se

tornar uma subida íngreme e interminável. A chuva e o vento

voltaram a castigar, deixando o caminho ainda mais escorrega- dio. A fadiga era tanta que parávamos a cada 100 metros, com

a respiração ofegante e os ombros amortecidos pelo peso da mochila. Não víamos nada além de neblina.

Lourival tinha dito que, mais à frente, encontraríamos uma formação de pedras que nos protegeria da chuva.

A trilha aos poucos foi ficando

mais inclinada,

Andamos muito tempo ainda até atingir uma enorme

pedra. Em um de seus lados, uma pequena área seca, bem

estreita, nos aguardava. Deitamos

ali de mochila e tudo. A

garoa foi ficando ainda mais forte e logo virou tempestade, com

um vento forte e gelado.

Estava ficando impaciente de

novo. Minha preocupação com o horário era uma constante,

pois não queria passar novamente pela experiência de pernoi-

tar em local impróprio,

Com a chuva forte, inúmeros filetes de água escorriam pela pedra molhando aquele pequeno espaço que nos abriga- va. Os filetes foram aumentando em número e volume, impedin- do que continuássemos deitados. Em pouco tempo ficou tudo debaixo de chuva.

Eu estava congelando.

como a grota da Merenda.

O desespero foi geral. Nossa situação estava crítica. Ali realmente não dava mais para ficar. Mesmo debaixo de forte

chuva, levantamos e prosseguimos. Nossas capas estavam bastan-

te iudiadas. Muitos rasgos e furos, que iam molhando aos poucos

69

a gandola e nosso corpo. A única vantagem era que mantinha um

pouco aquecida a água ali dentro. Caminhando,

o frio não

incomodava muito, mas havia o cansaço, as dores nas costas, nos ombros e pés, e os passos atolados até quase o joelho.

Contudo, caminhar ainda era a melhor opção, pois diminuía a distância entre nós e o pico. Na trilha, eu procurava pisar exatamente nas marcas deixadas pelos passos dos garim- peiros. Deveria ser o melhor lugar, pois caminhavam ali numa velocidade incrível e com grande performance.

Num trecho do cominho encontramos enormes pedras sobrepostas que formavam um longo corredor, uma autêntica

não aquele que

caverna. Esse era o lugar que Lourival indicou e

quase nos matou de frio. Mas não era o caso de parar novamente para descansar. Tínhamos que continuar, pois já

estava ficando tarde.

do

caminho aumentava e, com a dissipação da neblina, pudemos avistar o cume da serra da Montilla. Embaixo ainda não se via nada, mas olhando a oeste e a noroeste voltamos a contemplar a imensidão do platô da serra da Neblina.

Olhei para trás e não pude acreditar no que via. Os dois garimpeiros que haviam passado por nós há menos de 3 horas já estavam nos alcançando. Nós demoramos quase dois dias para realizar o percurso e eles menos de 3 horas!

A chuva foi diminuindo

até parar.

A inclinação

Lourival nos alcançou

antes de Ivo, carregando a mochila

lotada de suprimentos. Ele parecia bastante disposto.

- Quantos quilos você está carregando nas costas?- perguntou Sabadin ao outro garimpeiro.

- Uns 30 quilos - respondeu Ivo.

- Como vocês conseguem caminhar tão rápido com todo esse peso?

Os garimpeiros foram aos poucos desaparecendo pela

trilha, apesar de continuarmos caminhando na mesma direção.

Para tanta

dedicação, deve haver muito ouro aqui em cima!"

"Esses caras são uns touros.

Nem se cansam.

70

i A inclinação aumentou tanto que só nos restou à frente uma rampa de menos de 200 metros para atingir o topo. A visão

, era magnífica. Ao longe, alguns trechos do platô estavam ensolarados. Um bando de araras vermelhas cruzava os céus naquele instante, dando um pouco mais de vida à paisagem até então sombria e misteriosa.

Os últimos 30 metros foram os piores, com muita lama e

pedras, inclinação quase máxima.

e bromélias para subir. Parecia que meu coração ia sair pela boca. Edson, Sabadin e Mílton estavam todos em pé, olhando para o outro lado da serra, e nem me viram chegar. Levantei-me e, ao olhar em frente, fiquei paralisado com o que vi. Era simplesmente tenebroso. Daquele lado, a serra era um enorme abismo de mais de 300 metros de altura. Lá embaixo, um enorme vale, repleto de bromélias e outras plantas típicas dos campos de altitude. Do outro lado, alguns quilômetros adiante, uma enorme montanha se elevava bem alto, muito acima do nível em que estávamos; seu cume estava totalmente coberto por uma camada espessa de neblina.

sua

imponência era incrivelmente assustadora. Aquele era o pico da

, Neblina, o ponto mais alto e misterioso do país.

Tive de me agarrar em raízes

Era uma visão medonha.

Apesar da distância,

.

São 12,53 h. Conseguimos atingir o topo da serra da Monti//a. Muito sacrifício! Cheio de pedras! Foi praticamente uma escalada o que fizemos.

Dá para ver quase que a região inteirinha. O pico está totalmente encoberto. Altitude: 2500 metros. Temperatura: 20 graus.

- Os caras desceram

por aqui -

disse-me Sabadin,

apontando para a continuação da crista da serra, que descia a noroeste. - Quando cheguei deu para vê-los bem lá embaixo.

Peguei os mapas para estudar a região. Tudo indicava

que uma pequena serra à esquerda do pico era a serra do Ouro.

Olhando

com bastante atenção

dava para ver o local onde

garimpava

a turma do Guilherme.

Uma enorme

lona azul

71

II

I

cobrindo o tapiri, contrastando com as cores da vegetaçãO,

identificava

o ponto exato da grota da Pepita.

A grota do Gelo não era visível dali; só conseguiríamos avistá-Ia quando estivéssemos bem próximos. Essa era a infor- mação dada por Guilherme e confirmada por Lourival.

Muitos pontos do platô estavam queimados. Eram.enor- mes áreas, em forma de círculo, onde a vegetação apresentava cor amarelada e negra. Tudo indicava ser obra dos garimpeiros para facilitar a abertura de trilhas e a remoção do cascalho das grotas.

a

progressão, pois era apenas descida. Decepção novamente. A lama era tanta e tão mais funda, que o perigo de cair montanha

abaixo não era pequeno. A nossa passada era irregular. Descíamos devagar, pisando em tufos de bromélias e de um tipo diferente de capim. Escorregávamos, ou caíamos de vez na lama, ou descíamos quase que correndo montanha abaixo, procurando segurar em qualquer coisa que aparecesse.

Às 4 horas da tarde, finalmente, alcançamos a grota do Gelo. Menos de 50 metros por ali e atingimos o acampamento, onde alguns garimpeiros descansavam após um dia inteiro de trabalho.

Pensávamos que a partir dali seria mais fácil e rápida

72

e~5

o PREÇO DA RIQUEZA

- Po.a:a/ Va.cêd. ~

~

-

disse Lourival, que

estava sentado em cima de uma lata.

- Que caminho mais desgraçado é esse! - desabafei.

- Não sei como vocês conseguem caminhar aqui.

- A gente está acostumado - respondeu ele.

Ali estavam seis garimpeiros:

Lourival, Ivo, Goiano,

Ferreira, Jacinto e Manoel, um índio tucano. Goiano era o líder do grupo e também o mais experiente. Seu nome era Sebastião, tinha 32 anos de idade e já havia passado por inúmeros garimpos pelo Brasil.

- Eu garimpo desde 1980. Sul do Pará foi onde primeiro

garimpei. No alto Tapajós, em Itaituba, Mato Grosso, Macapá, Rondônia. Já estive em Rondônia uns tempos, entende?

-

Sabadin.

Então vocês vivem disso aí,

não? -

perguntou

- Vivo disso. Vivo de garimpo. De uns tempos pro cá minha

profissão é garimpo, mesmo; e todo o tempo dentro do garimpo.

- Vocês passam quanto tempo no mato, assim?

- Às vezes passamos 90 dias, passamos 60, ós vezes

passamos mais, passamos menos. Conforme a sorte. As vezes

73

a gente vem com Sl sorte boa, arruma logo o produto e vai embora, entende? As vezes chega meio ruim e a gente tem que ficar muito mais dias, entende?

- Essacaminhada que nós fizemos - começou Sabadin -, vocês fazem com quantos quilos?

- O normal é 30 quilos, entende? Agora tem uns que

carregam 35, outros 40, entende? A média é 30, é a base de vir de lá e chegar aqui no garimpo.

Isso é que

é vida sofrida. É muita luta. Dormem em rede, embaixo

de uma tenda esticado sobre um tapiri de troncos de palmeiras. Uma fogueira para fazer a comido e esquentar as noites frias. Muita dedicação e sofrimento por um único obietivo: a riqueza!

O acampamento ficava na margem direita da grota do

Gelo, desembocando num riacho maior, que, segundo Goiano, era o rio Ariabu. "Olá, Ariabu. Lembra-se de nós, lá perto da

aldeia?

Logo estaremos na sua nascente, bebendo de sua água

límpida

e cristalina, que jorra do ponto mais alto do país."

Com Goiano e seus amigos pudemos entender o que era

a vida de garimpeiro. José Ferreira da Silva, o ex-delegado de

São Gabriel e sargento da Polícia Militar do Amazonas, estava

licenciado e, em vez de procurar lazer e descanso, estava ali, naquele mundo cruel e inóspito, longe da família e dos amigos,

com

um único objetivo na mente: o ouro.

pico

Entretanto, todos ali foram unãnimes em dizer: "Escalar o é impossível. Aquilo é só paredão!" Nem por isso procu-

ravam nos desanimar, mostrando muita boa vontade em passar as informações sobre a região.

- O melhor que vocês fazem é retornar até a Mucura e

pegar um desvio até a trilha tradicional. Por lá pode até ser que

dê para escalar. Mas, poraqui

Por causa dos problemas com nosso material, como botas

e mochilas arrebentadas, resolvemos passar o dia seguinte ali,

colocando tudo em ordem e recuperando um pouco as energias despendidas. Assim, enquanto arrumássemos o material, pode- ríamos decidir que rumo tomaríamos.

nãosei, não-disseGoiano.

74

Montamos nossa barraca perto do tapiri deles, bem na beira da grota do Gelo. Antes de colocar a roupa limpa e seca, resolvemos lavar a roupa sujo e tomar banho nas águas geladas

doAriabu. Depois molhada e fomos quente.

o resto da tarde para gravar uma

entrevista com Goiano, o garimpeiro mais experiente de todo o alto rio Negro e responsável pela abertura de todas as trilhas existentes ali nas proximidades do pico da Neblina.

improvisamos um varal para estendera roupa para junto da fogueira tomar um café bem

Sabadin aproveitou

- Goiano, como é que faz mesmo o processo lá? Vocês

[oqorn o cascalho em cima da bancada

e depois

- Depois a gente vai lavar tudo. Ou seja, fazer a "cobra disse ele.

- Fazer a cobra fumar?

- Sim, primeiro a gente tira o barro que tem o ouro. Às

fumar" -

vezes

tem até um pouquinho de ouro, mas não compensa

a

gente ficar procurando manualmente. Aí a gente quebra

o

cascalho

bancada e depois a gente faz a cobra fumar. E um cocho e uma caixa. Enquanto um vai jogando o cascalho em cima do cocho,

outro vai [oqondo água, com um balde. Aí você pega o produto que ficou retido pelas ripas do cocho, leva para a bateia, vai

batear ele, vai limpar o ouro e depois leva

com as marretas,

joga o ccscolho

em cima da

co fogo.

- Para que queimar?

- Queimar para enxugar. É porque ele está molhado e só seca no fogo ou com sol muito quente.

- Então nesse processo da cobra fumar o lance é [oqor o cascalho dentro do caixote?

- É só jogar dentro

fumando.

do caixote

e passar pela cobra

- Tirando o cascalho daqui e jogando lá dentro, tudo o,

que pára dentro do cocho nas ripas transversais, de pequenini- nho assim, é ouro?

75

,I

!

'I

'I

I

- Não.

Nem tudo é ouro! Tem outros materiais, fica o

esmeril, fica o ferro

- Ferro? Aqui tem ferro?

- Tem, sim.

- Ferro vem junto com o ouro?

- Vem junto com o ouro.

- Esse esmeril é igual ao ferro?

- Não, o esmeril é um material que não vale nada e sempre acompanha o ouro, entende?

 

-

Então os três mais pesados são o ouro, o esmeril e o ferro?

.

-

É, sendo que o ouro é o mais pesado de todos.

-

Ecomo vocês fazem para separar oourodoesmeril e do ferro?

-

A gente tem ieito. A gente usa a bateia para separar os três.

Um garimpeiro mostro como achar ouro.

Para descobrir em que local existe ouro, Goiano utiliza uma cuia para o teste aurífero.

vai vendo um ponto, outro, de metro em metro.

A gente vai testando. A gente vai vendo o que tem, se compensa

jogar para cima, na bancada, ou se é melhor abandonar

para outro lugar.

- Qual é o número de pessoas necessário para fazer esse processo?

boa mesmo é de seis.

-Agente

e ir

- No mínimo

três. Mas a equipe

Assim trabalha bem, sem parar.

O garimpeiro pegou uma cuia e um enxadão. Levou-nos até a beira do rio Ariabu; escolhemos um ponto qualquer, ele cavocou, colocando um pouco de areia dentro da cuia. Aí ele começou a mexer a cuia mergulhando-a nas águas do Ariabu, fazendo com que o material mais leve fosse levado pela correnteza. Após uns 4 minutos de operação ele nos mostrou a cuia e, dentro dela, pudemos observar algumas fagulhas de ouro junto com areia fina, esmeril e ferro.

Goiano conseguiu tirar algumas fagulhas de ouro h Ele nos

76

disse que deve ter uns três pontos, que não chega nem a um décimo

de grama

mas é sinàl que tem.

.

Ficamos sabendo também que as cantinas que havia nas aldeias foram montadas por Goiano, em troca da permissão para garimpar na área. Ele gastou uma fortuna com elas e, por isso, era bastante respeitado pelos tuxauas.

Naquela noite, jantamos arroz com jabá, feijão e muito xibé, refeição que nos foi oferecida pelos garimpeiros.

Fomos dormir tarde,

por volta de 1 1 horas da noite,

depois de muita conversa com os garimpeiros. Estávamos bem alimentados e já recuperados da fadiga. Nosso único problema era a dúvida que nos atormentava: continuar por ali ou retornar até a trilha tradicional?

Véspera de Natal

Acordamos

tarde no dia

seguinte, 24 de dezembro,

véspera de Natal. Já eram quase 10 horas e o sol dominava um céu azul, quase sem nuvens.

- Bom dia! - cumprimentou Ferreira, enquanto prepa-

rava o café junto do

fogo.

77

I

I

Os outros já estavam trabalhando no Ariabu, jogando ccscclho sobre uma bancada que havia na margem oposta.

um

saquinho de milharina (flocos de milho pré-cozido) para engros- sar o leite. Eu nunca havia provado aquilo, mas era uma delícia. Colocava um punhado dentro do copo, punha um pouco mais de açúcar e parecia que eu estava comendo um delicioso bolo de fubá feito pela minha mãe. Foi o café mais gostoso desde que saímos de São Paulo. Superou até o de Manaus!

Sentamos com nossas mochilas sobre os troncos de palmeira. Cada um começou a consertar suas coisas. Sabadin tinha dois grandes problemas: a alça da mochila e suas botas com as solas totalmente descosturadas. Edson se ocupava com algumas costuras de sua mochila, e eu estava ficando maluco tentando costurar a sola da minha bota.

e

empurrando-a com minha faca. A sola era tão grossa que a

agulha logo quebrou.

Fiquei uma fera

raiva. Naquele instante aconteceu algo que me deixou perple- xo. Mílton, que até então não tomava parte em nada do que

fazíamos, chegou perto de mim e disse: "Calma! Calma!";

até o outro lado do abrigo, junto à fogueira, pegou uma lata de quitute do lixo, arrancou seu abridor e me trouxe:

Ferreira preparou

café com leite e nos ofereceu

Eu estava usando a única agulha grossa que tínhamos

e comecei a gritar de

foi

- Agulha! Boa agulha!

Eu mal podia acreditar.

Aquele

índio, em questão de

segundos, improvisou uma superagulha para costurar bota que, além de inquebrável, tinha olhai!

-

Edson! Sabadin!

Olhem isto! Foi o Mílton que fez.

-

Poxa! Depois vê se me empresta para costurara minha,

hein? -

Sabadin virou para o índio: - Grande Mílton!

Durante toda a manhã, ficamos discutindo nossa situação e, após muita conversa, decidimos continuar por ali mesmo. Na manhã seguinte iríamos até a grota da Pepita e de lá seguiría- mos o azimute até a base do pico.

78

Ferreira chamou para o almoço.

Depois do almoço,

Lourival e Ivo foram à grota da Pepita buscar alguns materiais

lá deixados.

Com O mapa aberto, estudamos nosso percurso. O pico estava logo à frente e isso era um ponto positivo: não havia como se perder ali. Era seguir o azimute ou, se a neblina permitisse, seguir aquela imponente elevação. O problema era descobrir por onde escalar. Outra preocupação era encontrar

a trilha tradicional

Resolvemos seguir até a Pepita e de lá rumar até o alto de uma linha de cumeada que une o pico da Neblina a um outro,

possivelmente o do Cardona. Atingindo essa cumeada, iríamos

por ela até a base para escalá-lo.

Quanto à volta, encontrando a trilha tradicional, voltarí-

amos para o Cauaburi

realmente, era a escassez de suprimentos.

Depois de discutir nosso trajeto, fomos para perto dos garimpeiros, que trabalhavam duro. Não tinham um minuto de folga.

e voltar por ela.

do pico e lá escolheríamos o melhor ponto

por lá. Nossa grande preocupação,

Observamos algo curioso. Desde cedo o sol castigava

toda a região. O solo continuava encharcado como sempre,

mas tudo que

estava seco e quebradiço. Era só acender um fósforo e pronto:

toda a folhagem poderia incendiar-se rapidamente. Era por isso

que vimos do alto da Montilla áreas queimadas. O garimpeiro, para abrir uma clareira, apenas espera o sol sair e, algumas horas depois, com um único palito de fósforo, provoca grande destruição.

se encontrava a mais de 10 centímetros dele já

trouxe uma

camada de nuvens negras. Nem um minuto decorreu e uma forte tempestade começou a cair. Parecia que o mundo ia desabar. Todos os garimpeiros abandonaram o trabalho e buscaram

abrigo

te, aproveitando a folga imposta pelo temporal.

. Às 4 da tarde, um vento forte, repentino,

no tapiri. Montaram suas redes e deitaram-se rapidamen-

79

I,

Meia hora depois a chuva parou e saímos da barraca. O rio Ariabu estava incrivelmente cheio, com uma correnteza

tão forte que, se um de nós caísse ali, chegaria em menos de

A grota do Gelo estava

invadindo aos poucos o chão do abrigo dos garimpeiros

uma hora ao canal de Maturacá.

e a

frente de nossa barraca. Aos poucos a água foi alagando tudo, chegando a atingir 5 centímetros acima das folhas de palmeira, que eram nosso colchão improvisado.

Mas isso não foi o pior. A força da correnteza destruiu o trabalho de semanas dos garimpeiros. Ela levou todo o cascalho jogado às margens e, com ele, o ouro que procuravam extrair.

disse

- É, vamos ter que começar

tudo de novo -

I Goiano meio chateado.

Aos poucos o nível da água foi descendo e, em menos de uma hora, voltou ao normal.

No jantar, contamos aos garimpeiros nossa decisão de prosseguir por ali mesmo.

- E aí, Mílton? - perguntei. - Vamos subir a montanha,

então?

- Devagar, bem devagar -

disse ele.

Não compreendi o que ele quis dizer. Devagar por quê? Estaria ele cansado? Não, esse realmente não seria o motivo.

Mas como entender o que se passa

na cabeça de um índio?

Após o jantar, Goiano contou que todos os garimpeiros da região sabiam que estávamos subindo a serra. T uxaua Joaquim havia escrito uma carta a todos, determinando retorno imediato à aldeia, pois a Polícia Militar e a Federal estavam subindo a serra para prender todos os garimpeiros. Ele até nos mostrou a carta, trazida por um índio mensageiro.

Aquilo era incrível. Fiz questão de fotografar a carta. Era por isso que todos me chamavam de tenente e nem se assustavam com nossa chegada. Estava tudo explicado. Mas também tivemos muita sorte. A carta podia ter surtido efeito contrário. Muita riqueza estava em jogo e, se nos matassem ali no meio da selva, dificilmente alguém acharia nossos corpos. Foi muita sorte.

80

Acabamos rindo da situação. Ficamos imaginando o que

passou pela cabeça do Guilherme e sua turma ao nos ver

chegar. Deviam estar esperando

até os

um pelotão armado

. dentes e depararam com três famintos,

quase mortos de :::ansa-

~

!

'

I

I

I

ço, e mais um índio inocente com uma espingarda enlerrujodo e um único cartucho. Fomos dormir rindo.

O alarme de meu relógio disparou um pouquinho antes

da meia-noite. Edson e Sabadin acordaram espantados com

minha contagem regressiva:

-

Três

dois

um

Feliz Natal pra nós!

81

eapiiuk 6

AOS PÉS DO GIGANTE NEBULOSO

IVatai. $ão- 8.36 k. Já tomamos um cafezão iunto com Ferreiro e suo turma e agora vamos prosseguir. Talvez hoie chegaremos o um marco próximo 00 pico.

Uma de minhas suposições, ao ler a carta da região, era que, ali no alto, havia um marco da divisa Brasil-Venezuela.