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Organizações criminosas e Poder

Judiciário
Fábio Oliveira Lucas

Criminalidade organizada nas prisões


e os ataques do PCC
Sérgio Adorno e Fernanda Salla

Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais


Disciplina: Sociologia do Crime e da Violência
Professor: Edmilson Lopes Jr.
Apresentação: Francisco Augusto C. de Araújo
O medo é reconhecidamente o mais sinistro dos demônios
que se aninham nas sociedades abertas de nossa época.
Mas é a insegurança do presente e a incerteza do futuro
que produzem e alimentam o medo mais apavorante e
menos tolerável. Essa insegurança e essa incerteza, por
sua vez, nascem de um sentimento de impotência:
parecemos não estar mais no controle, seja individual,
separada ou coletivamente, e, para piorar ainda mais as
coisas, faltam-nos as ferramentas que possibilitariam alçar
a política a um nível em que o poder já se estabeleceu(...)

Tempos Líquidos, Zygmunt BAUMAN


Organizações criminosas e Poder
Judiciário
• Enfrentamento à criminalidade organizada é tema que
compõe a ordem do dia;

• Objetivo do estudo: identificar as espécies de organizações


criminosas conhecidas, o setor em que operam e suas
principais características, além dos problemas enfrentados
pelas agências de repressão, em especial o poder
judiciário;

• O cenário de medo e insegurança propicia o surgimento de


“especialistas” em Segurança Pública;
Organizações criminosas e Poder
Judiciário
• Espécies de Organizações Criminosas:
– Organizações Criminosas Ideológicas
– Organizações Criminosas Empresariais

• Organizações criminosas ≠ Máfia

Oscar Maroni, preso por tráfico


Ministério Público Federal investiga a Eliana Tranchesi é condenada a 94 anos
de seres humanos, favorecimento
com a prostituição e formação de participação de menores de idade no de prisão por formação de quadrilha,
quadrilha. tráfico de drogas e de armas. fraude em importações e falsificação de
documentos.
Organizações criminosas e Poder
Judiciário
• Conceituação delicada (LUCAS, 2007)
Winfried Hassemer afirma que dentre as características de atuação das organizações
criminosas estão a corrupção do Judiciário e do aparelho político [Ziegler, 2003, p.63].

Tokatlian (2000: p. 58 a 65) constata que na Colômbia as organizações criminosas atuam de modo
empresarial, procuram construir redes de influência, inclusive com as instituições do Estado, e,
conseqüentemente, estão sempre em busca de poder econômico e político.

Mingardin (1996: p. 69) aponta quinze características do crime organizado. São


elas: 1) práticas de atividades ilícitas; 2) atividade clandestina; 3) hierarquia organizacional;
4) previsão de lucros; 5) divisão do trabalho; 6) uso da violência; 7)
simbiose com o Estado; 8) mercadorias ilícitas; 9) planejamento empresarial;
10) uso da intimidação; 11) venda de serviços ilícitos; 12) relações clientelistas;
13) presença da lei do silêncio; 14) monopólio da violência; 15) controle territorial...
Organizações criminosas e Poder
Judiciário
• Principais características • Medidas de combate ao
1. Conexão com o poder Crime Organizado
público  Afastamento dos
2. Criminalidade difusa órgãos públicos das
3. Mutação Organizações
Criminosas
 Observar o
enriquecimento ilícito do
funcionário público
 Código de Ética do
Funcionário Público
 Contra-inteligência:
impedir infiltrações e
combater o corporativismo
Câmara Legislativa do DF tem ponto
de jogo do bicho há mais de15 anos
"Estou aqui todo dia. Tô aqui há 15 anos, 20 anos. Tô aqui sentado no quarto mandato", disse o homem
identificado como Chicão, sem saber da gravação. O presidente da Câmara, Wilson Lima (PR) se disse
"surpreso" com a denúncia e afirmou que vai apurar o caso. O jogo do bicho é uma contravenção de jogo
de azar.
(...)
O local escolhido pelo apontador do jogo –que só aceita apostas em dinheiro– fica ao lado de agências
bancárias e em frente a uma banca de revistas. O dono da banca disse nunca ter visto nada. “Aqui? Vou
falar pra vocês: se tivesse visto, eu realmente ia falar”, afirmou.
A Câmara Legislativa tem aproximadamente 80 seguranças. A coordenadoria de polícia não quis informar
quantos trabalham a cada turno, mas pelo menos dois deles ficam em uma entrada a poucos metros de
onde são feitas as apostas do jogo do bicho. “Eu nunca vi”, afirmou um segurança. “Eu desconheço, não
tenho conhecimento, não”, completou outro.
FONTE: http://g1.globo.com/politica/noticia/2010/05/camara-legislativa-do-df-tem-ponto-de-jogo-do-bicho-ha-15-anos.html
Criminalidade organizada nas prisões
e os ataques do PCC
Maio de 2006 - 100 horas de Julho e agosto de 2006
terror
826 ataques na capital e interior
373 ataques na capital e interior 9 policiais foram assassinados
82 ônibus queimados pelo PCC
17 agências bancárias 102 integrantes do PCC mortos
queimadas e depredadas pela polícia
48 mortos pelo PCC (policiais 187 suspeitos presos
civis, militares, carcereiros e três
civis que acompanhavam os Por SOUZA, Fátima¹
policiais na hora dos ataques)
50 feridos
304 bandidos mortos pela polícia

•O que possibilitou esta onda de ataques?

•Quais as condições sociais, políticas e


institucionais que favorecem o crescimento
da criminalidade organizada a partir do
interior das prisões brasileiras?
Criminalidade organizada nas prisões
e os ataques do PCC
• O discurso das autoridades sobre os
ataques por todo o Brasil e o
surgimento de “especialistas” em
Segurança Pública.
• Constatou-se uma forte rede de
atuação e estratégias de ação muito
bem planejadas e executadas por
“funcionários” fiéis e obedientes.
• Um forte sistema de comunicação
entre os grupos que espalhavam-se
por São Paulo e por outros estados
do Brasil.
– Celulares, centrais telefônicas e até
pombos-correio.
• A evidente funcionalidade das
relações intra e extramuros das
prisões.
Criminalidade organizada nas prisões
e os ataques do PCC
• Mudanças no perfil da criminalidade e da violência no Brasil:
– A partir de 1970 o crime no Brasil pôde acompanhar as mudanças
neoliberais que inauguraram a chamada era da globalização
econômica e da diluição dos Estados-nação;
– Desenvolvimento tecnológico (informática e telecomunicações);
– O surgimento acelerado das megacidades e conseqüentemente as
zonas de exclusões sociais e espaciais;

• Emergência da criminalidade organizada à cena pública:


– Décadas de 1960 a 1970 ocorre o “pontapé inicial” do crescimento da
criminalidade no Brasil, que acompanha tendências internacionais e
demonstra que faz parte dos circuitos: drogas, contrabando, armas,
etc.;
Criminalidade organizada nas prisões
e os ataques do PCC
• Mudanças substantivas nos padrões de delinqüência
e criminalidade urbanas;
– Até meados dos anos 1960 os crimes que prevaleciam eram ações
individualizadas, maior parte eram crimes contra o patrimônio;
– Na década de 1970 o tráfico de drogas dá oportunidades de ocupação
a cidadãos de baixa-renda, de bairros populares;
• Gênese das Organizações Criminosas
– Confusão da idéia de máfia e o crime organizado no Brasil;
– Os assaltos a bancos e o tráfico de drogas eram atividades criminosas
que exigiam cada vez mais uma “ação organizada como requisito de
eficiência”;
– Os grupos que formavam-se nas prisões construíram identidade
própria no mundo do crime.
Criminalidade organizada nas prisões
e os ataques do PCC
É sempre bom lembrar, como apontam os poucos estudos disponíveis,
que, no Brasil, a massa carcerária é, em sua grande maioria, composta por presos
pobres, com poucos recursos pessoais, suscetíveis às influências do momento e
vulneráveis às ações arbitrárias e violentas de quem quer que seja. Embora pouco
agressivos, acabam sendo cooptados pelas lideranças da criminalidade organizada. Três
parecem ser os elementos que explicam a sujeição dos presos a essas lideranças
emergentes: o medo, o cálculo e a resignação (Paixão, 1987 apud ADORNO, 2007).

• O medo, o cálculo e a resignação criou uma identidade, uma sensação de


pertencimento, revelada na forma de tratamento entre os membros que chamam-se
de “irmãos”.
13- (...) Porque nós do Comando
vamos sacudir o sistema e fazer
essas autoridades mudarem a prática
1 - Lealdade, respeito e solidariedade
acima de tudo ao “Partido”.
carcerária desumana, cheia de
injustiça, opressão, torturas,
2 - A luta pela liberdade, justiça e paz. massacres nas prisões.

3 - A união contra as injustiças e a 15 - Partindo do Comando Central da


opressão dentro da prisão. Capital, o QG do Estado, as diretrizes
de ações organizadas e simultâneas
4 - Contribuição daqueles que estão em
liberdade, com os irmãos dentro da prisão,
em todos os estabelecimentos penais
através de advogados, dinheiro, ajuda aos do Estado numa guerra sem tréguas,
familiares e ação de resgate. sem fronteiras, até a vitória final.

9 - O “Partido” não admite mentiras, 16 - O importante de tudo é que


traição, inveja, cobiça, calúnia, egoísmo, ninguém nos deterá nessa luta
interesse pessoal, mas sim, a verdade, a porque a semente do Comando se
fidelidade, a hombridade, solidariedade ao
interesse comum ao bem de todos, porque
espalhou em todo o Sistema
somos um por todos e todos por um. Penitenciário do Estado e
conseguimos nos estruturar também
10 - Todo integrante terá que respeitar a do lado de fora.
ordem e a disciplina do “Partido”. Cada um
vai receber de acordo com aquilo que fez LIBERDADE! JUSTIÇA! PAZ!
por merecer. A opinião de todos será PCC
ouvida e respeitada, mas a decisão final "UNIDOS VENCEREMOS“
será dos fundadores do “Partido”.
POR: SOUZA, Fátima.
• Políticas penitenciárias e a criminalidade organizada
– Desde o século passado as políticas carcerárias seguem as
mesmas diretrizes, não há atualização;
– Durante a ditadura militar (1964-1985) o sistema
penitenciário foi conpletamente envolvido pela política de
Segurança Nacional (torturas, mortes, impossibilidade de
defesa);
– Dilema do sistema penitenciário:
• Gestão autoritária dos conservadores que visualizam a solução nas
penas mais duras e métodos mais cruéis;
• A necessidade do sistema penal se adequar a uma gestão
democrática, oferecendo direitos, respeitando os Direitos
Humanos, etc.
• Políticas penitenciárias e a criminalidade organizada
– FHC e Lula dão início à remoção do “entulho autoritário” do
Sistema Penitenciário
– 1996 : Plano Nacional de Direitos Humanos
A) Aumentar vagas no sistema penitenciário e diminuir a superlotação;
B) Criar penitenciárias Federais para crimes condenados pela Justiça
Federal;
C) Criar Penitenciárias de Segurança Máxima para conter os chefes do
crime organizado.
Conclusões possíveis...
• Qual o interesse do PCC?
– “Não se espere, contudo, que o PCC e suas demandas por justiça constituam o embrião
da revolução social e da construção de uma nova sociedade baseada na justiça, na
igualdade e na democracia. O que está em jogo são interesses em torno de negócios,
como bem o demonstram os estudos de Zaluar e de Misse. Suas lideranças não têm
pudor punitivo; não hesitam em matar e aplicar justiça sem direito à defesa.”
(ADORNO, 2007; Ipsis litteris)

• A insuficiência administrativa dos presídios somada à falta de educação,


esporte, lazer e atividades culturais dificultam a manutenção da ordem
interna e demonstram que os presídios não são espaços verdadeiros de
recuperação;

• Em um ambiente em que as relações sociais são arranjos precários,


carentes de reciprocidade, marcado por hierarquias, sujeita a rupturas
inesperadas, qualquer mudança na ordem acentua os sentimentos. A
preparação para a guerra nos presídios é permanente.
Referências Bibliográficas
ADORNO, Sérgio e SALLA, Fernanda. “Criminalidade organizada nas prisões e
os ataques do PCC”, Estudos Avançados, vol. 21, nº 61, 2007.

LUCAS, Fábio Oliveira. “Organizações criminosas e Poder Judiciário”. ”, Estudos


Avançados, vol. 21, nº 61, 2007.

SOUZA, Fátima. Como funciona o Primeiro Comando da Capital – PCC.


<http://pessoas.hsw.uol.com.br/pcc.htm> Acessado em 21 de Maio de 2010.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, 119 p.

Nota: As imagens utilizadas nesta apresentação foram coletadas através no Google Imagens. Elas são públicas
e não devem ser reproduzidas com fins comerciais.
Palavras-chave: crime organizado; chacinas; Carandiru; PCC; rebeliões

Autor: Francisco Augusto é graduado em Ciências Sociais (2009) pela Universidade Estadual do
Rio Grande do Norte, e aluno especial do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte no semestre 2010.1.
Contato: fcaugusto@gmail.com