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Módulo 11 - Literatura Afro-brasileira – Professor: Antônio Fausto

Atividade 2 - Faça um texto dialogando com o conceito de literatura negra conforme o concebe o escritor e intelectual Cuti.

De acordo com vários autores, entre eles Antônio Fausto, Cuti, Eduardo de Assis Duarte e Maria Nazaré Souza Fonseca, a literatura negra passa pela incorporação de alguns elementos, tais como: a existência de um autor negro, a orientação para um leitor negro, uma consciência da linguagem e uma temática voltada para a negrura. A ideia de um eu interlocutor negro exige um receptor que também compartilhe os ideais morais e culturais da negrura. O autor/escritor querer-se negro implica em um interlocutor negro, e nisso Cuti concorda completamente com Zilá Bernd, que exige que a enunciação do texto seja realizada por um eu negro. O querer ser negro faz com que o conto/texto se oriente para um leitor negro ideal. Chamam a atenção que isso não é uma posição racista “as avessas”, mas sim uma posição de firmar a humanidade negra. Assim, Cuti ainda oferece a ideia de uma inconsciência negra como locus de onde parte todo o debate, pois para ele não é apenas a consciência sobre a questão do negro que é importante, mas também um estar-no-mundo, uma imersão na cultura da negrura que orienta toda a visão de mundo sobre o tema. Dessa forma fica salientado que o importante não é tematizar (tocar no tema), mas sim uma essencialização que perpassa um despojamento da brancura como locus ideal do ser social. Muitos autores brancos que inserem personagens negros em seus textos, ainda que sejam protagonistas, não podem ser enquadrados na literatura negra porque a marca do universo branco se dá de forma marcante. Cuti enfatiza que se o autor se quer negro ele verá a cultura negra de dentro, como uma realidade vivida, e não como folclore (p. 50-51). A literatura negra, dessa forma, corre um risco terminológico, mas segundo os autores esse é um risco necessário, visto que ao romper “a domesticação ideológica costumeira” dada aos negros assume um caráter de “comprometimento ideológico” e estético (p. 46). Cuti observa que muitas vezes mesmo existindo um personagem negro central na trama, a cultura negra apenas entra de modo folclorizado, visto que a cultura branca e sua política de branquitude se impõe. Dessa forma é de essencial importância a quebra do ponto de vista branco. Neste aspecto cabe salientar que este ponto de vista direciona o branqueamento, modos-de-ser corporais, que faz com que um país negro seja formado por mulheres loiras e lisas, gênero onde mais recai o imperativo do ideal de branquitude. Dessa forma a necessidade de um interlocutor negro se impõe, é a vivência do mundo negro que os escritores brancos não têm e acabam não alcançando essa vivência em suas escritas. Essa é a importância da cor do escritor. Só não seria importante se ocorresse um desvestimento da brancura como ocorreu em alguns países africanos de língua portuguesa no período de resistência pós colonial, em que alguns escritores brancos (Luandino Vieira, Mia Couto, António Jacinto) falavam do lugar da negrura, porque se assumiam como africanos e negros, se pensavam do lugar no negro e faziam literatura como posicionamento político. Para Eduardo Duarte, isso foi possível lá porque o ideal era uma nação negra, o que não ocorre no Brasil que tem um padrão ou ideal estético, não negro. Como bem salientou Mª Fonseca, no Brasil o projeto de nação deixou de fora o índio e o negro. Outro aspecto importante levantado por Cuti remete a autocensura que o negro autoconsciente tem em seu processo de criação por não partilhar de todos os valores de nação. Observa que tal autocensura aparece fortemente na MPB e no Samba, onde a questão racial não é tematizada. Em contraponto, encontramos hoje o movimento hip-hop que assume essa postura de um discurso de negrura, muitas vezes visto nas críticas como violento e provocador. Mas conforme coloca Cuti sobre a literatura negra, é necessário esse destravamento que ocorre com uma imersão no universo subjetivo negro.