Série Sala de Aula – nº 50

DIALÉTICA
uma introdução

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DIALÉTICA - uma introdução

JOSÉ FRANCISCO DE MELO NETO

DIALÉTICA
uma introdução
(Aprovado para a Série pelo Departamento de Habilitações
Pedagógicas – Centro de Educação)

Editora Universitária
João Pessoa
2001

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Série Sala de Aula – nº 50

APRESENTAÇÃO
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Daí o título: Dialética . A dialética tem sido compreendida como um método de divisão. em particular. nas metodologias da produção do conhecimento. previamente. Para percorrer o caminho aqui traçado. Para tornar mais acessível. colocou-se como ponto de partida uma questão: que dialética pode ser utilizada como constituinte metodológico-analítico de questões sociais? O autor 4 . O caminho do texto conduz. talvez. de forma simples. privilegiando a natureza (a realidade) mesma. ainda. todavia. envolvendo suas diferenciadas formulações. trata-se de um texto de fácil acesso aos estudantes e interessados na compreensão desse método. É um ‘olhar’ para o movimento em torno do debate sobre a questão. dando-lhe anterioridade em suas possibilidades de análise. e mais.uma introdução E ste trabalho pretende apresentar. a uma reflexão mais pormenorizada da perspectiva da dialética como um método. uma lógica simplesmente ou.DIALÉTICA . Este texto dá ênfase. o debate a respeito deste tema importante e necessário. como um método que se coloca ao debate. como uma síntese dos opostos.uma introdução. a perspectiva presente nas formulações de Hegel/Marx. uma lógica do provável. o movimento teórico que tem girado em torno de uma discussão antiga e muito presente – a dialética. sobretudo na teoria do conhecimento ou.

integrando o Programa de Pós-Graduação em Educação – Educação Popular.Série Sala de Aula – nº 50 INTRODUÇÃO1 Para a análise de uma realidade concreta. os desafios contemporâneos do fazer ciência. 5 . têm-se muito presente. João Pessoa. como 1 O autor é professor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. onde coordena o Grupo de Pesquisa em Extensão Popular. Campus I.

nessa área. perdendo-se em modelos universais abstratos.analítico de questões sociais? Elementos teóricos da dialética 6 . do particular e do sentido”. determinada e sem abertura para as tantas possibilidades novas que surgem. Como escapar das críticas à Ciência Moderna. esta se fechou numa perspectiva instrumental. Carvalho (1995: 25). Nesse sentido. Não pode ser uma metodologia fixa. na busca de constituintes que possam contribuir para a superação de concepções que não atendam às necessidades políticas de liberdade de setores sociais subalternos? Como analisar a realidade na “sua essência contraditória e em permanente transformação”? (Melo Neto. quanto à metodologia. necessariamente. 1996: 12). novos encontros com outros tantos desafios. na procura de se produzir conhecimento. faz-se necessária uma maior exigência metodológica. definidos a priori. consideradas pertinentes e fecundas? Segundo Fausto (1987: 15). Em que bases fundamenta-se a análise de práticas educativas que busquem as suas dimensões voltadas para processos de construção de hegemonia de setores sociais não burgueses? Que elementos compartilhar. na busca de caminhos/descaminhos para a razão. acrescentando que “desconsiderou a riqueza e multiplicidade da experiência humana e mais: vulgarizou a dialética”. como contribuinte à realização de pesquisas. procura estar atento aos caminhos que se descortinam quando perscruta as trilhas do “fragmento. Ao se estudar uma realidade. os constituintes da análise dialética. É nessa perspectiva que se colocam. a cada momento.uma introdução também. através de um ‘olhar’ crítico. uma busca para novos caminhos e. a questão a ser respondida é: Que dialética pode ser utilizada como constituinte metodológico.DIALÉTICA .

Com isso. 7 . podem ser consideradas. a dialética como lógica. vista por Platão. Um conceito que tem recebido diferenciados conceitos que têm sido formulados. para o autor. a dialética como síntese dos opostos. 1983: 153). Há. Parece que cada procedimento nessa direção se apresenta como insatisfatório. será mantida a sua generalidade. mesmo que diferentes. a dialética como lógica do provável. apresenta-se. Para vários autores e intérpretes. por exemplo. considerando-se que os autores a definem e a interpretam de várias maneiras. presente em Aristóteles. nada passível de ser determinada ou explicada de uma vez por todas. pelo menos. com nuanças que abrem outros tipos de questões fundamentais. Entretanto. apresentam pontos de identificação entre si. respectivamente: a doutrina platônica. A resposta à questão acerca do conceito de dialética apresenta grande dificuldade. algumas fases dos quatro conceitos principais da dialética: a dialética como um método de divisão. uma certeza. que parece elucidativa. surge a dificuldade de uma compreensão em um único significado. como a discussão sobre o sentido do diálogo. dessa forma. De forma sintética. a partir das formulações de Hegel/Marx. ou uma clareza. a doutrina estóica e a doutrina hegeliana. porém. onde se pode encontrar a utilização da noção de dialética de várias maneiras e. no decorrer do tempo. São quatro conceitos pautados em quatro doutrinas que exerceram ‘forte’ influência na história da dialética. segundo Kant. a dialética “é a arte do diálogo. com base em considerações etimológicas. de base de que a dialética.Série Sala de Aula – nº 50 Para se iniciar a tentativa de apresentação dos constituintes da dialética. em virtude da impossibilidade de se englobarem todas essas formulações em um só conceito. ou que ela é uma lei” (Bornheim. A discussão será conduzida na tentativa de chegar-se a uma síntese conceitual. Esta definição. é necessário buscar-se a resposta à questão: O que é dialética? Essa resposta exige um debruçar-se sobre a história da filosofia. a doutrina aristotélica.

causais. Mostra. “diagonizomai” “luto com”. O autor encontra. segundo esse intérprete. Aponta também o verbo “légein”. a vivacidade do real que a dialética expressa.uma introdução em seu ser. “selecionar”. e a sua forma derivada “dialesgesthai” com a significação de “conversar com”. o vocábulo abriga um grande número de significados que vêm sendo mantidos ao longo da história. Como prefixo verbal. por fim. a dialética metafísica não só se justifica como foi necessária.: 3). ou de certos setores do real. “a tradição homérica já toma o verbo.temporais (através. Do ponto de vista filológico.: 154): “Nada prova que diversas determinações não possam corresponder de algum modo à índole interna da dialética. que a dialética é uma das expressões filosóficas muito usadas e que a sua universalidade tem sido. a expressão “dialégein“‘ que significa “desenvolver (de forma completa) um discurso”. Para Azevedo (ibid. Talvez a dialética seja ainda outras coisas”. no sentido de tomar uma deliberação/discussão e 8 . pode-se ver. assume valores espaço . “contendo com”. não tem sentido a defesa de uma determinação ou uma definição como mecanismo de exclusão das demais. o autor destaca que “dia” também adquire uma variedade de significados. entre outras coisas. Assim também. “escolher”. muitos convergindo para a concepção de dialética. ou a lei do real. é a arte do diálogo. “muito estudada. Muito importante ainda é o advérbio “dia” que. “raciocinar com”. segundo Azevedo (l996: 2). acrescentando (ibid. contudo. que é rico de significados. é lei. entre os quais “divisão” e “separação”. do ponto de vista histórico. a expressão dialegein para significar. como exemplo: “escolher cuidadosamente. Vimos que. durante).DIALÉTICA . no seu estudo etimológico. modais (com). no sentido de individuar na gênese da palavra o seu significado profundo”. o termo. entre outras. demonstrando. contar”. bem como de estado ou condição. ele apresenta “diápempo” “estou em desarmonia”. Ainda. Mesmo diante dessas dificuldades. talvez. Como exemplo. a dialética pode ser a arte do diálogo. entre.

2 Utilizou-se a tradução de Jorge Paleikat e João Cruz Costa (Fédon. Sofista. isto é. 9 . mediante divisão de gêneros.Série Sala de Aula – nº 50 pensamento sobre uma situação em que se apresenta a negatividade do risco e do perigo da morte”. Abril Cultural. relacionada com a busca da verdade. Essa multiplicidade e ambigüidade lingüística repercutem nas concepções filosóficas fundamentais da dialética. Entretanto.. às vezes.. quer como suprema ciência da realidade e como arte do debate. como instrumento da busca associada que se efetiva através da colaboração de duas ou mais pessoas. Para Sichirolo (1980: 20). dialética e persuasão . 1979.. 1980: 49). de uma visão. tem se apresentado como arte entre os sofistas. Um procedimento que se realiza em duplo movimento: “O primeiro. a diarética. 253c-d). por seu lado. por meio de uma instituição. São Paulo. a dialética terá significado de método da divisão.uma das poucas razões válidas a operar dentro da chamada civilização ocidental”. a obra da ciência dialética? (. diremos nós. necessariamente. de uma idéia. mediante uma divisão dela segundo as suas articulações naturais. em Sócrates e. como diríamos. e não tomar por outra. A dialética como técnica/arte.) Sim. quer como lei. espécies e sua conexão: “Dividir assim por gêneros. o que é diverso e múltiplo. Sofista. reconhecer quais as formas que dependem da natureza daquela unidade. procura. a sinóptica. “. as suas espécies” (Sichirollo. assim diríamos” (Platão. Político) da coleção Os Pensadores. não é essa. em Platão 2. por meio do procedimento socrático da pergunta e da resposta . isto é. Assim é que a dialética. o segundo. consiste em conduzir à unidade de uma forma. Historicamente. de uma compreensão da totalidade. Este é o conceito que estabeleceu para a dialética.. sem ser. uma forma que é a mesma. nem pela mesma uma forma que é outra. foi entendida. de busca de uma definição verdadeira. em Platão.um procedimento processual. especificar a unidade precedentemente definida.

b) a existência de uma única idéia que englobe.e por isso pode dar tanto razão a si como aos outros (ibid. Pode ainda “. é entendida como o procedimento racional sem 3 Utilizou-se a tradução de Jorge Paleikat. sendo esta a sua lei. juntos. d) a existência de muitas idéias diferenciadas. designados por Platão de ascendente e descendente.. Finalmente. ao tratar a dialética. só Deus o sabe . É neste livro que o filósofo vai elaborar a sua concepção de dialética como a lógica do provável... se condicionam e constituem toda a dialética. Fedro. Dois momentos que fazem coincidir.: 534. as quatro possibilidades que se apresentam nesses dois momentos indicados na passagem do Sofista (253. A dialética. 516. b-c).d) são: a) a existência de uma idéia única e que dela surjam outras tantas idéias. começar-se pela parte final do Órganon. Dois momentos que constituem tanto uma unicidade como uma totalidade. Aqueles que sabem fazer isto .: 534. em relação aos seus predecessores. outras idéias distintas entre si. 10 .DIALÉTICA . 266 b-c). O dialético é aquele que vai ao fundamento da essência . dedicar sobretudo àquele tipo de educação que confira capacidade de interrogar e responder o mais cientificamente possível” (ibid. entre si. desde o exterior. divididas. ao explicitar 3: “Amo. s/d.uma introdução São dois processos que. seguí-lo-ei. para fins de estudo dessa temática. que deve descer à caverna buscando a justiça do Estado (Fedro. Platão deixará mais claro esse movimento sinóptico e diarético.. tanto o especulativo da inteligência como o ciclo da educação do filósofo. c) a união da totalidade dessa multiplicidade de idéias para se chegar a uma única idéia. existindo cada uma separadamente. d-e). Já Aristóteles apresenta uma diferenciação. assim concebida.” (Fedro. estas operações de dividir e unificar a fim de se ser possível falar e pensar. Se descortinar alguém capaz de lançar o seu olhar sobre o uno e sobre a unidade natural de um múltiplo.dou-lhes o nome de dialécticos. da Ediouro.se é justo ou não. c). não largarei as suas pegadas como se fossem as de um deus. É comum.

“dar” alguma resposta. Entretanto. um dos eventos importantes da história da dialética se dá com o advento da obra de Kant. 1. ou a maioria.a dialética . as mais prováveis possíveis. 1980: 65). . ao invés de partir de premissas verdadeiras. ou a maioria das pessoas. como a arte da discussão ou disputa retórica e da disputa e do exercício da lógica. Assim. “mas também na capacidade de responder e de defender a própria tese. ao interpretar a razão.Série Sala de Aula – nº 50 necessidade de demonstração. Premissas sempre colocadas de forma genérica e geralmente admitidas. parte de premissas prováveis/plausíveis. a historia e a dialética de Kant até Hegel. ou os filósofos . 11 . enquanto o dialeta desenvolve a crítica por meio da arte silogística. E isto em virtude de sua proximidade com a sofística” (Sichirollo. 5. o idealismo 4 Ver Aristóteles. independentemente dos resultados e interpretações de cada um dos historiadores da filosofia. a sua discussão. como se se conhecesse o objeto da discussão. Sichirollo (l980: 139). Essa prática não deverá guiar-se apenas pela exercício socrático de sempre perguntar sem.100b. num esforço para sustentar a própria tese. aquelas que todo mundo admite. I.em outras palavras: todos. uma relação da crítica com a dialética. ou os mais notáveis e eminentes” (Tópicos. sobretudo a partir de 4. 20 ). É uma arte que se serve de premissas prováveis. por outro lado. A capacidade de colocar as premissas.precisa apoiar-se em duas dimensões principais. 166 a. associa. nem a crítica nem a dialética são ciências de um objeto determinado. contudo. no seu Órganon. mas não se confundem. “São. Dos Argumentos Sofísticos. por Aristóteles. a dialética é entendida. opiniões ‘geralmente aceitas’. normalmente. conclui que. Aristóteles. pois este o faz de forma apenas aparente. Mas. A argumentação ou o raciocínio crítico se objetivam na interrogação. Ambas se interessam por tudo e se aproximam da arte do sofista. É também um instrumento com o qual se pode chegar aos princípios das ciências possibilitando. além disso. O silogismo é dialético em Aristóteles4 que.

à mera avaliaçção do entendimento puro e sua proteção contra ilusões sofísticas” (ibid. ao comentar a Metafísica dos Costumes e escrevendo uma Vida de Jesus. Neste caso. segundo ele. contudo. inspirado na moral de Kant. afirmar e decidir sinteticamente sobre objetos em geral. vai mostrar a necessidade de uma segunda parte de sua lógica transcendental que deverá. Kant. Coleção os Pensadores. “as teses são apresentadas como resultantes da imposição de uma situação humana: a razão exposta ao erro da ilusão” (ibid.: / 4. julgar. a partir de uma desvalorização da dialética enquanto instrumento cognitivo. Abril Cultura. /4. apenas com o entendimento puro.uma introdução alemão. Abril Cultural. 5 6 Ver Fischte. contudo. segundo seus antecessores. Nesse aspecto. São Paulo. para que se possa descobrir a falsa aparência de tais presunções infundadas e reduzir as suas pretensões de descoberta e ampliação. em particular o item B) exposição da filosofia mesma (porém “não tanto dela mesma. Schelling6. O ponto de partida de seus estudos. portanto os seus representantes mais “ilustres”. Ver Schelling. Mas. Mesmo Hegel. Jacobi . expressado por Fichte5. Coleção os Pensadores. ser crítica dessa ilusão dialética . A doutrina da ciência e o saber absoluto.. ressalta que na dialética kantiana. 1980. São Paulo. quanto do solo e fundamento sobre o qual ela tem de ser construída”). ao contrário de se pautar pelas dimensões positivas da dialética.não como arte de alimentar tal ilusão “mas como uma crítica do entendimento e da razão no tocante ao seu uso hiperfísico. o uso do entendimento puro seria dialético” (Crítica da Razão Pura.DIALÉTICA . “escreveram as suas obras mais significativas como resposta aos problemas que a filosofia de Kant pôs ao seu tempo”. segundo o autor. & 88). Para ele. se impõe. 1984. Bruno ou do princípio divino e natural das coisas. e até Schopenhauer.: 140). a lógica vem sendo mal utilizada ao se deixar valer como organon ”de uso geral e ilimitado e se ousa. em A analítica transcendental e dialética transcendental.. Reinhold. & 88). Kant mostra que a lógica transcendental deveria tornar-se apenas um cânone para a avaliação do uso empírico. iniciara seus estudos como kantiano. 12 .. que ela supõe alcançar unicamente através de princípios transcendentais. em que consiste essa dimensão negativa da dialética? Ao discorrer sobre a divisão da lógica transcendental.

“as ilusões e aparências transcendentais permanecem”. que são da razão pura e igualmente aparentes. no mundo. /144. nada é necessário. “na natureza da razão humana. por conseguinte. sendo. mas tudo é composto. assim. Antítese .Série Sala de Aula – nº 50 A dimensão negativa da dialética em Kant é vista por DURANT.Não há liberdade. constituem a dialética das aparências. Tese 3 . exatamente.Há no mundo causas através da liberdade. como uma função considerada ‘cruel’ para a ‘dialética transcendental’. Esses erros. tem um começo (limite). segundo o tempo e o espaço. Tese 4 . tudo isto é dialética. São as seguintes suas teses 7 : “Tese 1 . que a cada uma delas se opõe também um princípio contraditório. é infinito. trazida por Kant.Nesta série. essas ilusões da razão. Contudo. que é o exame da “validade das tentativas da razão de se evadir do círculo de sensações e aparências para o mundo. é constituído pelo simples. contudo. segundo o filósofo. bem como o seu estudo crítico. Kant exemplifica com algumas espécies de afirmações dialéticas da razão pura que demonstram. existe um ser necessário. Para Kant. mas tudo é natureza. inevitável e jamais tendo um fim”. mesmo desmascarando os sofismas erístico-dialéticos e as aparências sofístico-dialéticas e. segundo o tempo e o espaço. que não se pode conhecer. Esta é uma busca constante do filósofo para se evitar não só as sensações como as aparências.Nada é simples. em seu estudo sobre a Filosofia de Kant (p.Na série das causas do mundo. & 51). mas tudo é aí contingente” (Prolegómenos.Tudo. para Reale (1990: 695). eliminando-as. por seu caráter dialético. Antítese . libertou o espírito do controle exercido sobre ele pelas coisas ou pela realidade extramental. foi substituído por um universo de fenômenos 7 Os grifos das teses aparecem no texto de Kant. 13 . A revolução.O mundo. das ‘coisas em si’ “.O mundo. Antítese . essas antinomias estão radicadas. A ilusão permanece. E mais. Esse controle ou regulação. por se tratar de uma ilusão que é natural. Antítese . Tese 2 . segundo Maritain (1964:143). 56).

para Kant. Hegel destaca a impossibilidade do conhecimento formulado por Kant. Porém. sob as formas a priori da estrutura cognoscitiva do sujeito. na sua conceituação mesma. entre o sujeito e o objeto. tem-se o dualismo dos fenômenos e da coisa em si. agora. não por possuir uma existência fora do pensamento. pensamento ou espírito.DIALÉTICA . ultrapassaram o dualismo kantiano dos fenômenos e da coisa em si. uma separação da coisa em si. libertando-o da regulação das coisas extramentais exercida sobre ele. seja como meio com o qual seria possível a sua contemplação. A filosofia identifica-se. continuava a pertencer ao mundo do ser extramental. foram os idealistas alemães que. conseguiram destruir toda e qualquer barreira que limitasse as ambições da razão e do saber filosófico. Se. gerador de suas diferenciações.: l45). inaugurada por Kant no campo da filosofia. o universo real que é apreendido. a partir desse intento. existia. com o próprio absoluto e suas automanifestações. o entendimento. Ainda para o autor. seja através de um instrumento com o qual dominaria o absoluto. o que é em si é. mas no sentido de que o real passa a ser uma manifestação do pensamento no seio de si próprio. em Kant. o traço genial de Hegel foi o de fazer dessa idéia de absoluto. Conseqüentemente. e se. Ainda para Maritain (ibid. o real é 14 . abraçando-o em sua e por sua unidade.: 144). Na introdução da Fenomenologia do Espírito. o objetivo de Kant era limitar o campo do nosso saber e restringir as ambições da razão. mesmo em sua incognoscibilidade. Segundo Maritain (ibid. um contra-senso. por meio do conhecimento. coisa essa que.uma introdução unificados. partindo da ‘revolução copernicana’. Assim é que a filosofia idealista caminhou no seu intento de levar o universo a conhecer a suprema unidade. Hegel (1974: 47) explicita sua crítica com o seguinte raciocínio: “Essa precaução deve até transformar-se na convicção de que toda a tarefa de conquistar para a consciência. e de que o conhecimento e o absoluto sejam separados por uma nítida linha de fronteira”. no intuito de levá-la a termo. já que o espírito era esse mesmo princípio da unidade absoluta.

o Absoluto não pode utilizar-se de qualquer ‘astúcia’ para se chegar ao conhecimento. uma diferença entre nós mesmos e esse conhecimento. para si e separado do absoluto”.: 48) continua: “As representações do conhecimento entendido como instrumento e meio e. Isso é algo inadmissível para ele. bem como as suas autodiferenciações. senão o que já está conhecido em nós mesmos. como científico. que o Absoluto esteja de uma parte e o conhecimento. É como se a consciência precisasse de algo para “cientificizar” o seu conhecimento e tê-lo como verdadeiro. para ter essa certeza de que esse conhecimento é verdadeiro. Pode-se perguntar. E mais. a coisa em si está superada. Os opostos de que fala o autor são o “eu” e o “não eu”. na 15 . não se conhece nada. O pensamento. agora: Como é que se apresenta o movimento dialético de Hegel na Fenomenologia do Espírito? Ou como o absoluto faz sua odisséia na história. bem assim. por sua vez.Série Sala de Aula – nº 50 manifestação do pensamento no seio de si próprio. produzindo nela a representação.: 48). mesmo sendo algo de real. Não só não há separação. sobretudo. tornando-se saber absoluto? Na busca do conhecimento verdadeiro ou saber absoluto. A crítica de Hegel (ibid. como também o seu fazer história “é a história do pensamento que a si próprio se encontra” (Hegel. e a conciliação se dá pela oposição do “eu“ ao “não eu” e pela determinação que. Para Hegel. pois no seu sistema não há separação entre o sujeito e objeto. desenvolve uma crítica à ciência. passa a encerrar sobre si mesmo tudo enquanto de si surge. esteja de outra parte. & 4e). como “síntese dos opostos por meio da determinação recíproca”. “não eu” reflete no “eu”. Um movimento dialético se instala como a síntese dos opostos. já que Ele está e quer estar “em nós tal como é em si mesmo e para si mesmo” (ibid. sendo o absoluto em movimento. já posta por Fichte (Doutrina da Ciência. l974: 329). pressupõe. Hegel. a consciência. precisa de “ferramenta” para parametrá-lo. na Fenomenologia do Espírito. Trata-se de uma síntese.

como nas ciências.uma introdução medida em que esta se reivindica verdadeira. a que as ciências não respondem. Surge a necessidade de uma medida. ser ciência da totalidade. deve partir de deduções. fora do absoluto? Sua resposta. A exigência colocada é que da ciência precisam ser examinados. uma crítica sobre sua desconfiança. Hegel parte da consciência natural. Essa desconfiança é um temor de errar.DIALÉTICA . a ciência. Este entrar em cena é pôrse a caminho da crítica. os seus próprios pressupostos. No entanto. Este temor é eregido sobre a própria verdade que busca. Hegel pergunta. O que se deseja é que a ciência. Hegel busca o absoluto único. em verdade. ‘ousadamente’. Exige-se. não atingindo o que em verdade é. É o nível da formação de um discurso que não se pretende científico. de sabedoria 16 . e esta não pode vir do exterior da consciência. mostra o percurso da consciência e a sua dialética. As ciências. Cada momento histórico tem uma forma de discurso. O caminho da dúvida é entendido como procedimento da ciência com a consciência (saber surgente). deve dar a medida à consciência surgente (de algo). os ditos populares. que entra em cena. dessa forma. No desenvolvimento dessa crítica. na Fenomenologia do Espírito: Como algo pode ser verdadeiro se está. Ora. Nesse sentido é que a filosofia torna-se ciência porque ela quer o querer do absoluto. aquela que tem por base a sabedoria popular. quando a ciência vai em busca do conhecimento. Para mostrar esse movimento de busca do saber absoluto. à ‘exaustão’. leve isto à crítica. Ora. Além do mais. O saber surgente é saber de algo. apontam para diferentes absolutos e. se assumem enquanto conhecimento verdadeiro. pressuposições e até de precauções. Um percurso em que o indeterminado determina-se como determinado fora dessa determinação. para esta questão. do saber natural. o senso comum. ela vai com desconfiança. a ciência faz uma divisão entre o conhecimento e o absoluto (essência). vem após formular a crítica ao saber da consciência surgente (de algo). o critério de verdade. que entra em cena. Busca um absoluto que está em nós e sem nós não pode ser.

chegando ao ‘conceito’ . É o campo da aparência que não está em oposição ao supra-sensível. esse processo de negação pode ser tomado como o 17 . o em si do objeto tornando-se para si. uma exigência do saber que conduz imediatamente à descoberta da estrutura da própria coisa como uma dupla aparência. se põe a caminho da crítica. que é a verdade ou a consciência do para si. agora como ciência que entra em cena. pois ambas são um só mundo. O ser em si é objeto (essência). gerando o saber surgente ou ciência surgente que. modos de vida que formarão os tipos de saberes. É o próprio processo. agora. que contém também o saber das determinações (momentos).a ciência verdadeira. A verdade e o saber estão na consciência e são os parâmetros de chegada de Hegel ao absoluto.Série Sala de Aula – nº 50 popular. o saber verdadeiro. contendo a exigência de saber algo. Não há oposição entre a aparência e a idéia. a consciência submete a consciência natural ou o saber natural para dirimir a dupla aparência. A aparência desse saber que se arvora em ser ciência e a aparência enquanto pretensa totalidade de um processo de conhecimento. quando a crítica é levada à exaustão e a conexão de tipos de saber são vistos como conexão. O objeto não é material e está na consciência. Ainda para o citado intérprete de Hegel. E na busca da coisa como em verdade é. o outro critério. É a passagem da ciência que entra em cena. o saber. O conhecimento da ciência não passa de uma aparência e não conduz à busca da verdade ou conhecimento verdadeiro. que é o caminho do algo para a consciência. O para sí é o movimento da essência para a consciência. isto é. O saber está na consciência. O saber é então saber em e para si”. assim. A consciência tem. o desejo de exame desse saber. Entrar em cena é por-se a caminho da crítica que descobre o ser em si. A aparência envolve o saber verdadeiro. É nessa direção a afirmativa de Cezarino (l996: 3): “A ciência verdadeira é o sistema de conhecimentos em razão da crítica levada a cabo. Mas existe. Hegel descobre. o qual é somente acessível. dentro de si.

2 . Só assim se chega à totalidade e a totalidade é todo esse processo. implica que a natureza do pensamento seja a mesma natureza da realidade. respectivamente. Weber (l993: 41) coloca que “em cada síntese. principalmente em seu resultado positivo e em sua realidade substancial. síntese que conserva o que há de afirmativo em sua solução e em sua transferência”. no seu próprio tempo. É como se tratasse de um processo de progresso.DIALÉTICA . dialeticamente em movimento. momento dialético e momento especulativo ou positivo racional. o qual a consciência natural percorre como uma necessidade. Todavia. isto é. tanto de uma como de outra. a dialética não é apenas o segundo momento. 3 . Ao analisar esse movimento triádico da dialética. como uma categoria afirmativa que se há de converter na base de uma nova tríade”. Assim é que a partir de qualquer momento. Um processo que não é a soma dos distintos momentos. esta se põe a si mesma como uma nova tese. pode-se iniciar esse movimento da dialética. A filosofia hegeliana vê. como: momento intelectual. mas ‘pensamento concreto’.na síntese das duas determinações anteriores.na colocação. a dialética em Hegel consiste: “1 . mas o conjunto do movimento. Thadeu Weber. presente em Hegel. a dialética não é apenas a lei do pensamento. no propor de um conceito “abstrato e limitado”. Dialética como a essência mesma da coisa. que penetra no verdadeiro saber” (ibid. Para Llanos (1988: 94). O princípio da identidade do racional com o real. Bornheim. os momentos anteriores estão suprimidos 18 . Os seus resultados não são meros conceitos puros ou conceitos abstratos. pois não existe oposição entre esses momentos.: 3). A síntese constitui a unidade. “uma vez alcançada a síntese. está em permanente devir. com uma direção de finalidade para o saber absoluto. Para Azevedo (1996: 7). segundo intérpretes. antítese e síntese. em que a síntese representa a ‘negação’ ou o ‘oposto’. mas é a lei da realidade.uma introdução “caminho da consciência natural. A realidade. tríades do tipo: tese. Assim. a verificação. como Azevedo. em todos os lugares.na supressão deste conceito como algo “finito” e no passar a seu oposto. Hegel denomina esses três momentos. Lima Vaz. ou o ‘ser outro’ da tese. Llanos.

a primazia dos conteúdos materiais ou históricos . Na evolução do pensamento de Marx. portanto. embora esse materialismo fosse limitado. tanto doadora como reveladora de sentido. necessariamente. pela ciência do real e de seu desenvolvimento histórico.mas abstraído e separado do homem”. segundo Llanos (1988: 109). não via a passagem do homem abstrato para um homem que atuasse. integrados numa forma superior”. 19 .: 110) se constituía num materialismo. Ideologia Alemã (1845-46) e Sagrada Família (1845). o natural imediato antes da consciência. em suas obras: Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito Público (1844). É esta lição primordial da dialética hegeliana. segundo o autor. em Hegel. Toda a crítica formulada (ibid.as formas finitas da consciência . ao mesmo tempo. na história.humano . metafísico e antropológico. centro da formulação feurbachiana. A condição de possibilidade da dialética. Assegura. manifestada pela negatividade. ao método hegeliano e a um 8 Ver Karl Marx. a crítica às formulações idealistas de seu tempo. Isto confere à filosofia o papel de instância. combinando-se com uma concepção idealista de sociedade”. ao contrapor-se à idéia da transcendência sobre o dado no pensamento de Hegel. o confronto definitivo com Hegel é exposto em várias obras8.Série Sala de Aula – nº 50 (negados). Marx incorpora o postulado materialista feuerbachiano e o método dialético. Feuerbach. ostentando um “caráter contemplativo. Coube a Feuerbach. mas.sobre as formas infinitas da mesma consciência. de Hegel. Teses contra Feuerbach (1845). que mostrara ser o espírito absoluto hegeliano “ o espírito finito . tanto na forma como no conteúdo. Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844). Marx vai realizar a inversão da dialética. A inversão vai se constituir na adequação do método dialético a um conteúdo material inicial. colocando o objeto ou ‘dado’ como primeiro. A passagem do culto desse homem abstrato. seria possível ser efetivada por Marx. se revela como sendo a transcendência da consciência sobre o dado. da crítica ao idealismo.

e o poder do seu dinheiro diminui em relação inversa à massa da produção” (Marx. É justamente do pensamento abstrato que estes objetos se alienam.. precisa cada vez mais do dinheiro para apossar-se do seu inimigo. abstrato. o ponto de partida das análises filosóficas de Marx. assume teses. durante sua evolução precedente”. sobretudo a análise de que a filosofia não passa de religião transportada para o pensamento e desenvolvida em pensamento. quando Marx mostra a pobreza crescente do operário.: 36). de modo que a disjunção se faça entre o objeto como ser ideal e o sujeito como autoconsciência”. Assim. concreta. uma situação histórica. na Fenomenologia do Espírito. revolucionário e pensador. Deste. Marx continua a sua análise sobre o pensamento de Hegel. por Marx. encontrando. cujo alcance decisivo sobre sua época foi esclarecido. Esta situação empírica. Todo movimento termina assim como o saber Absoluto. e é justamente ao pensamento abstrato que se opõem com sua pretensão à efetividade” (ibid.. sobretudo aquela que concebe a riqueza. além disso. Define. a fonte originária de sua filosofia. Descobre erros nas formulações hegelianas. Impossibilita também qualquer transcendência do sujeito sobre o mundo. o poder estatal.). etapa por etapa. segundo Dantas (1996: 11).DIALÉTICA . 20 . 1978: 16).. “o homem torna-se cada vez mais pobre enquanto homem. Sua crítica ao idealismo ”consiste na denúncia do processo dialético no âmbito da consciência. Para Markus (1974: 81). como relação fundamental a relação econômica da produção. como “essências alienadas para o ser humano. Será cada vez mercadoria de pouco valor quanto mais criar mercadorias.uma introdução reconhecimento da contribuição de Feuerbach. etc. está presente em várias passagens nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos. à medida que maior for sua produção de riqueza. Essa crítica exige de Marx uma adequação rigorosa entre o sujeito e sua esfera objetiva ou o mundo material. é “uma situação de fato empírica e concreta. isto só acontece na sua forma de pensamento (. freqüentemente omitido. São seres de pensamento e por isso simplesmente uma alienação do pensamento filosófico puro. isto é.

“A pesquisa deve captar com todas as minúcias o material. Marx descobre que esse método inicia sempre pelo real e pelo concreto... 21 . No estudo de um país. analisar as suas diversas formas de desenvolvimento e descobrir a sua ligação interna. ao se propor a tarefa de analisar e explicar a organização econômica capitalista. a grandeza do pensamento hegeliano na obra referida e. parecendo esta a forma correta. no seu resultado final: “A dialética da negatividade na qualidade de princípio motor e gerador . a existência. apud Haguete.Série Sala de Aula – nº 50 Marx reconhece. Ao estudar o método de análise da economia política. 1990: 163). Marx não faz senão formular de um modo rigorosamente científico e objetivo que deve ser perseguido por toda investigação exata da vida econômica.: 15). Mostra o processo de exposição que deve diferenciar-se pela forma do processo de pesquisa. Marx prefere aceitar como suas as palavras de comentador: “Assim. O valor científico de semelhante pesquisa consiste em esclarecer as leis especiais que regem o surgimento. uma observação mais atenta. 15. após a explicitação de sua crítica ao movimento dialético no campo das idéias. a objetivação como desobjetivação. Mas. pois esse é o homem efetivo como o resultado de seu próprio trabalho” (ibid.: 37). Só depois de cumprida esta tarefa pode-se expor adequadamente o movimento geral” (ibid. Prefácio. contudo. em que compreenda então a essência do trabalho e conceba o homem objetivado. verdadeiro. Em lugar de explicitar o seu método dialético. em Hegel.consistindo de uma parte que Hegel compreenda a autogeração do homem como processo. parece ser correto iniciar-se pela população que se constitui na base e no sujeito social da produção. Porém. Marx passa a concordar com o comentário e também se perguntar se não é esta a definição do método dialético. o desenvolvimento e a morte de um organismo social dada a sua substituição por outro organismo mais elevado. alienação e superação dessa alienação. particularmente. pode-se perguntar qual é a dialética ou o método de Marx. E esse é o valor que tem realmente a obra de Marx” (Marx.

até dar de novo com a população.. “o sistema de formas permanece sempre inscrito na matéria. Por seu lado. passa a ter o sentido de mundo material. Para Marx. através de uma análise. não mais mas não menos do que isto”. por exemplo: o trabalho assalariado. Assim. a matéria é em Marx o lugar da inscrição das formas. na verdade. mas desta vez não com uma representação caótica de um todo. esse método é falso. mesmo sendo tão concreta. O capital. “. etc. Assim. teríamos que voltar a fazer a viagem de modo inverso.DIALÉTICA . Fausto (l993: 49). aproveitando-se das comportas abertas por Hegel e do terreno desembaraçado que se estendia à sua frente. teríamos uma representação caótica do todo. estas classes são uma palavra vazia de sentido se ignorarmos os elementos em que repousam. Chegados a este ponto.. sem o preço. O mundo das idéias. Essa formulação viabiliza uma visão de que o universo vai se tornando possível revelar-se tal qual é. sem o dinheiro. passando-se totalmente no 22 . se começássemos pela população. do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações as mais simples. não é nada. os preços. é em Limoeiro Cardoso (1990: 19) que se verifica um acompanhamento mais explícito sobre o desenvolvimento do método de Marx. porém com uma rica totalidade de determinações e relações diversas” (Marx. etc. sem o trabalho assalariado. O pensamento pode mover-se por dentro de suas partes. este é o método cientificamente exato. Este é o seu método dialético. por exemplo. l978: 116). “transposto e traduzido no espírito humano”. é. Marx. empurra o pensamento filosófico para fora do seu isolamento idealista e introspectivo”. mostra que a população. etc. entendendo-o subdividido em seis partes: “A primeira trata do método em geral e indica um movimento que é exclusivamente teórico.uma introdução segundo ele. uma abstração. chegaríamos a conceitos cada vez mais simples. apreender as suas interconexões e o conjunto no qual elas se fundem. Para Prado Junior (1980: 513). as classes que a compõem. Estes supõem a troca. e através de uma determinação mais precisa. Contudo. por exemplo. o capital. a divisão do trabalho.. Por conseguinte. se desprezarmos. sem o valor. “A população é uma abstração. observa que em Marx. ao estudar o lugar da forma e o do conteúdo na dialética. agora.

seria possível apenas o estudo de suas descrições e. em função da sua importância correlativa dentro da sociedade mais complexa.: 21). de que partem os economistas clássicos. Na crítica ao método da economia clássica. na abstração” (ibid. jamais. considera-se que esta inicia sua análise a partir do ‘concreto’ A autora citada vai entender que tal ‘concreto’ só tem sentido à medida que se vão descobrindo as suas determinações. respondendo a uma certa causalidade. as explicações precisarão melhor o próprio fenômeno e a sua completude nas relações (de superfície) que mantêm uns com os outros. A quarta precisa a condição da produção das abstrações mais gerais a partir do desenvolvimento concreto mais rico. A realidade social é determinada. como também de todas as sociedades anteriores. estabelecendo que a ordem das categorias deve seguir uma hierarquia teórica. apresenta um sentido que não é já dado. A segunda afirma a anterioridade do concreto. e não em função do seu aparecimento histórico”. 23 . desdobrando as relações entre as categorias mais simples e as mais concretas. e não pode sequer procurar condições para re-encontrar o concreto.Série Sala de Aula – nº 50 abstrato. O concreto real. de suas explicações. Esta divisão vai possibilitar. a realidade social é determinada e só é possível a sua explicação. uma segunda apreensão do método. Não existindo as relações entre os fenômenos. enganosamente. que está assim exposta: 1 . Este concreto real é uma abstração. A quinta indica que é no último modo de produção já estabelecido. A terceira propõe e resolve uma relação específica entre o real e o teórico. rico e variado. e sim da abstração. para a autora. porque supõe. e assim é não por obra natural. Há relações específicas que a determinam.: 21). que já o incorpora à analise desde o início” (ibid.Do abstrato para o concreto pensado. como se supõe. Na não existência das determinações. porque o mais complexo. quando também se apreender a sua determinação. Na verdade. o mundo seria fenômenos completos em si mesmos. que se torna possível a inteligibilidade não só dele mesmo. base das abstrações mais gerais e categorias mais simples. mas sim “adquirido pela ação do pensamento. A sexta retorna ao método. Neste sentido. um procedimento como este não parte do concreto. “Assim.

no caminho de volta. todavia. segundo a autora. conforme sua interpretação. Isto só é possível.“do abstrato (determinações e relações simples e gerais) ao concreto (que então não é mais ‘uma representação caótica de um todo’ e sim ‘uma rica totalidade de determinações e de relações diversas’)”. este concreto é um concreto novo. Ao tempo da produção de Marx. já 24 .: 22). não na sua realidade imediata e sim na sua totalidade real” (ibid. é que se torna possível conhecê-la e explicá-la racionalmente. há uma proposta de procedimento novo .DIALÉTICA .Anterioridade do concreto. Possibilita-se. precisam ser explicitados. A resposta para isto está. valendo-se do estilo daquele método. portanto. essa ordem não está dada e não transparece.uma introdução O real. não terá respostas imediatas dos dados ou contatos do real. informada pela teoria. só podendo ser atingida pelo pensamento que a investiga. em si mesmo. “E isto acontece no mundo dos conceitos.: 23). a compreensão da formulação de Marx. bem como o que constitui esse concreto a que se chega. não se poderia atingir essa totalidade real. A totalidade real se constitui. segundo a autora. na formulação do texto de Marx. Em Marx. O método de Marx vai do abstrato ao concreto. É um concreto produzido no pensamento. Não será a partir de toda uma análise procedente do real. aprofundando-se no mesmo. Abstrato que tem a pretensão de reproduzir o concreto. 2 . para reproduzir o concreto real (‘as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento’)” (ibid. “E o mais importante. nesse sentido. no plano teórico. um impeditivo para tal conhecimento. do conjunto das determinações. vai em busca da realidade externa. ao se atingir os seus determinantes fundamentais. no abstrato. Em havendo uma ordem no real. se apresenta com um caráter caótico. assim. Este traz. em que “o concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações”. onde dominavam as perspectivas empíricas. Em sendo esta realidade determinada. contudo. juntamente com o que elas determinam. porque pensado. O movimento produção/reprodução do concreto. mas será produto da reflexão que. Esta investigação.

isto é. “E se esse processo começa cientificamente no abstrato. em Marx. Está dito. por ser o abstrato o campo próprio do teórico (em que se move o pensamento para produzir conhecimento) para ele. O Pensamento parte do concreto (real). que o verdadeiro ponto de partida do pensamento é o real. O segundo movimento é o início da atividade científica propriamente dita. porém se afastando cada vez mais dessa realidade.: 24). pois unidade do diverso. seu verdadeiro ponto de partida é o real. pois. é uma totalidade: ‘unidade determinante/determinado’ ou unidade de múltiplas determinações. Atinge-se o concreto quando se compreende o real pelas determinações que o fazem ser como é” (ibid. onde se parte do real. O primeiro. assim. o real não existisse senão sob a forma pensada. embora seja o verdadeiro ponto de partida. pensando-o. Uma coisa é afirmar que o concreto só faz parte do teórico como concreto pensado (acentua-se aí o fazer parte de ). em que o concreto é concreto porque ele se constitui como síntese de múltiplas determinações. outra coisa diferente é afirmar que o concreto real não se relaciona com o teórico (abstrato). teórico. O que conta de fato são as determinações. o que tem precisado sobre ele. explicitamente. de que o concreto aparece no pensamento como resultado. O concreto é síntese de muitas determinações e. Esse processo ainda aparece no pensamento como expressão de uma síntese. “O caráter de concreto está estreitamente vinculado ao de determinação. um triplo movimento. Neste momento tem-se. eliminado como se. O papel do real para o pensamento e para o conhecimento não é. Nesse movimento não se parte do real ou de 25 . onde se tem como caótica a representação do real. ainda que só se torne verdadeiramente científico quando retoma o concreto. que é o ponto de partida da percepção e da representação. como resultado e não como ponto de partida. Ele não se constitui de um dado simplesmente. A perspectiva seguida por Marx é a que ele explicita.:25). Esta concepção estabelece que o fato de se ter realidade não garante ser concreto.Série Sala de Aula – nº 50 apresentado. mas é o resultado de um elaborado processo de pensamento. sob a alegação de que o teórico só pode afirmar do concreto o que sabe dele. a partir do abstrato (suas determinações atingidas pelo pensamento originado no concreto” (ibid. através da abstração atingindo conceitos mais simples desse real.

Esclarece ainda a autora que. “não esquece que o concreto produzido pelo pensamento é apenas pensamento. o real está presente e alimentando a percepção e a representação e. o terceiro movimento será de construção teórica de reprodução do concreto. esse ponto de partida do método de Marx é outro ponto diferente daquele de chegada do primeiro método o da economia política de seu tempo. e não concreto. Sendo abstrato. por um lado.: 27). Além do mais. De forma simplificada.DIALÉTICA . se iniciaria o que Marx aponta como ‘método cientificamente correto “(ibid. Esse movimento seria a busca pela especificação das determinações gerais e simples.uma introdução sua representação imediata caótica e abstrata.: 28). os movimentos são colocados. Finalmente. É neste ponto que contesta Hegel. Não significa apenas a troca do ponto de saída pelo de chegada ou o ‘começo pelo resultado’. “com o segundo movimento. É um abstrato reconstruído criticamente a partir deste” (ibid. pode ser entendido que o ‘caminho de volta’ não se torna nada simples. . também. Dessa forma. diferente do abstrato a que o método anterior permitia chegar. configurando um movimento de reconstrução teórica. é outro abstrato. “Não só porque é abstrato. (concreto) 3o) abstrato --------------------- abstrato abstrato concreto (pensado) Para a autora. . através dos seguintes vetores básicos: 1o) real (concreto) -------------------- 2o) abstrato --------------------. por outro. Parte-se dos conceitos mais simples produzidos pelo movimento anterior. ou a relação que este propõe entre abstrato e 26 . não real. Também não pode ser apenas uma troca de sentidos ou inversão de uma rota.

e não ao contrário” (ibid. Contesta dessa forma a possibilidade de um movimento de categorias autônomas e produtoras do real. Supõe também a exposição desses conceitos a partir de uma abordagem que parta do próprio real. vivo.: 30). para ser possível a reprodução do concreto no pensamento” (ibid. que é anterior a ele. como ponto de partida. e.: 29). “Marx argumenta que mesmo o pensamento mais simples só existe como relação unilateral e abstrata de um todo concreto. Na contestação marxista de que o pensamento seja a gênese do concreto. do real.: 32). afirma a existência do real fora do pensamento. Esta produção se dá ao nível do teórico. Nesse sentido. Além disso. ao nível das categorias. ela só se realiza quando da existência de um desenvolvimento teórico ‘razoável e disponível’. na terceira.: 28). abstração das determinações que se expressam naqueles conceitos simples. a afirmativa de Marx de que os conceitos mais simples permitem chegar a uma inteligibilidade do real. ”para produção teórica. É neste sentido que para ele o real é anterior ao pensamento” (ibid. bem como a concepção de que o pensamento se basta a si mesmo e se movimenta por si mesmo. já dado. tem início com a produção crítica das suas determinações. de forma explícita. segundo Limoeiro Cardoso. busca-se a relação existente entre ambos. Acrescenta que esse real. Em Marx. na interpretação de Limoeiro Cardoso. Esta compreensão traduz. “a realidade concreta preexiste. constituindo-se como crítica da produção anterior. presente em Marx. na segunda. salienta a autora.Série Sala de Aula – nº 50 concreto” (ibid. Estabelecido o conceito do método. O conhecimento científico do real. o pressuposto básico é que ela seja comandada pelos conceitos mais simples. na primeira parte da discussão. diz a autora. É este que de algum modo depende dela. 3) .Relação categorias/real. subjaz e subsiste ao pensamento. dessa forma. Dando sustentação a esse 27 . “É daí que o método para produzir este conhecimento se eleva do abstrato ao concreto” (ibid. Foi analisada até agora. Porém. de que o real seja resultado do pensamento.: 32). uma negação. também é uma abstração.

que não são capazes de captá-lo no plano do teórico a não ser parcialmente. tais como: 1) o porquê das determinações do real são formuladas através de conceitos simples. Op. cit. 1990. influenciando tanto na diferenciação como na produção das categorias. pp.DIALÉTICA . assim.uma introdução pressuposto. o primeiro momento desse movimento consiste em que “as relações mais simples sempre pressupõem relações mais concretas . portanto. tem-se o mais geral . 3) as categorias simples terem ou não existência independente e anterior às das mais concretas. Uma análise que convém salientar não se dá apenas no campo de categorias teóricas. unilateralmente” (ibid. O segundo movimento se dá de forma mais complexa a partir da exemplificação de Marx. Acontece que não há posse sem a família. Quanto à discussão do simples originário. e estas não existem antes de relações mais concretas.relações estas expressas em categorias mais concretas. Tais questões são formulações postas e melhor analisadas por Limoeiro Cardoso. A discussão passa por uma análise de que as categorias simples têm ou não existência independente e anterior às categorias mais concretas. A exigência fundamental de sua existência está na admissão do concreto vivo. empreendida por Marx. Para a autora. É importante.: 33).: 34). Aí também se insere. como a família”. então. “É sobre ele que se erigem as categorias. As categorias simples expressam.. 4) a evolução histórica do real. relações simples. entender-se que “a categoria mais simples 9 Salientam-se. algumas questões suscitadas.o da exterioridade e independência da realidade . 2) a da simplicidade originária dessas categorias. As categorias mais simples não se apresentam em Marx com existência independente sem nenhuma característica histórica ou natural. Limoeiro Cardoso vê um movimento em três dimensões. “A posse é uma relação simples. no sentido de que se referem a um grau mais baixo de abstração” (ibid. Mirian. superada apenas quando inicia com a distinção que é feita entre posse e propriedade. 32-44. a questão da evolução histórica real. mesmo categorias as mais simples. expressadas também em categorias mais concretas. que exige uma relação mais concreta. 28 . isto é.a tese materialista fundamental 9. em que a posse se torna a relação jurídica mais simples. para superação dos questionamentos. expressando-se como relação unilateral e abstrata de um todo concreto já dado.

1990. O segundo momento não é pura negação do primeiro.relações mais concretas são anteriores a categorias mais simples.propriedade. A relação proposta é uma relação real.Série Sala de Aula – nº 50 exige um certo grau mínimo de desenvolvimento para que possa seguir a relação mais simples que ela exprime” (ibid.: 37). Ele é outro momento. é parcial no sentido de não impregnar “todas as relações do setor a que se refere”. em que a categoria mais simples se apresenta com maior desenvolvimento. De forma sintética. O mesmo ocorre com os povos eslavos. como o Peru précolombiano. porém. a autora sistematiza esses três momentos da seguinte forma: “1) concreto ------------simples . onde se analisa a categoria simples. Em sociedades com grau de desenvolvimento menor. o concreto é real. é o dado.fundamento: relação concreto/abstrato (abstração simples). Dessa forma. mas que não é produzida por pura negação. no segundo. bem desenvolvidas e não historicamente maduras. uma contradição. No primeiro. a categoria mais simples também existe. pp 38-41. Miriam. Este também se constitui como o terceiro momento. o mais simples se torna anterior ao mais concreto 10. a autora mostra que esta é uma contradição. até agora. Ao colocar e discutir a questão. o concreto pertence ao plano do pensamento. cit. onde não existia qualquer forma de moeda. como o dinheiro. 29 . “As categorias mais simples são as mais abstratas(abstrações simples). 2) simples ------------- 10 concreto Esta aparente aporia é resolvida em Limoeiro Cardoso.posse. A relação dinheiro e capital é uma relação entre categorias pensadas. pode se entender que é numa sociedade mais complexa. . mesmo que haja sociedades.. comunidade de famílias . em que a existência do dinheiro limitavase às atividades comerciais nas suas fronteiras. com sua contrapartida pensada: família . No primeiro momento.: 39). Apresenta-se. o mais concreto é anterior ao mais simples. O real aparece relacionado com cada uma destas categorias através dos diferentes graus do seu desenvolvimento e da sua complexidade” (ibid. Op. No segundo momento. Tais exemplos mostram a sua existência como categoria simples.

uma introdução ( complexo) . que se fará no concreto pensado. o mais simples pode preceder o mais complexo. criticando. isto é.: 44). Então. 30 . retira deste qualquer determinação possível que possa conter. É aí também onde se alcança o elo específico entre o real e o conceito: “O abstrato de que se deve partir para começar a produção do conhecimento. 4) . Ora. enquanto que as categorias mais concretas podem ter seu desenvolvimento completo anteriormente” (ibid. O trabalho é a relação daquele que produz com o produto. já não depende só da produção teórica anterior. entendida como trabalho em geral. uma certa organização social. gerador de riqueza. Estas produções teóricas e o movimento que as produz despontam numa íntima conexão com o real e o seu movimento próprio” (ibid. analisa a autora que a categoria.: 42). contudo.fundamento: relação simples/complexo (concreto) 3) complexo (concreto) -------------- simples - a categoria mais simples só tem seu desenvolvimento completo numa sociedade complexa. indo além da formulação anterior.A Produção das abstrações mais gerais.categorias mais simples são anteriores a relações mais complexas (expressas em categorias mais concretas). Contudo. Agora. Tem-se. desde aí. têm-se as constatações de que o simples não é a origem. um todo vivo. o trabalho em geral. Smith. Pode-se entender como a categoria trabalho é uma categoria simples. . Destes movimentos resultantes da relação categorias e real. também. como categoria econômica. Aqui. é recente. econômica. e neste sentido. que se utilizará. que o processo histórico real vai do mais simples ao mais complexo. a idéia de trabalho é bastante antiga. é no mais complexo (completo) que o simples pode estar mais desenvolvido. Tem-se. O trabalho em geral.DIALÉTICA . segundo o economista. As categorias mais simples exigem um substrato mais concreto. já está presente em A. ele pode ser pensado de forma teórica e mais completa. A autora identifica uma quarta parte no texto e descobre que é na sociedade mais complexa que a categoria mais simples se completa.

mas nas formas de trabalho no seu caráter comum. 5) . Análise feita até agora tem mostrado o método como um caminho. tem-se o trabalho em geral. a categoria mais simples.A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. A sociedade mais complexa possibilita o deslocamento do trabalhador. em última instância. É no atual estágio de sociedade em que se vive com a diversidade de formas de trabalho. onde a categoria simples completa o seu desenvolvimento. pelo alto grau de abstração.: 45). Neste tipo de sociedade. pois são úteis a todas as ‘épocas’ e. simplesmente”.Série Sala de Aula – nº 50 de trabalho manufatureiro. mais abstrata. o trabalho em geral. da totalidade social. Como trabalho em geral. O trabalho é uma categoria simples quando ele é pensado como trabalho em geral. determinação) na reprodução do concreto no pensamento. As categorias mais simples detêm as abstrações mais gerais. São definidas pela simplicidade. A categoria trabalho. para outro ofício. Esta última incorpora. como trabalho sem determinações. a própria história. se torna. a produção teórica deriva de condições reais” (ibid. residindo nela também a determinação. A sociedade que possibilita a existência da categoria mais simples. e isso só é possível em uma sociedade mais complexa. Para Limoeiro Cardoso (ibid. A teoria desenvolvida aponta para a economia numa perspectiva histórica. que é uma totalidade histórica.: 46). deixa-se de pensar nas particularidades da relação entre produtor e produto. a relação da abstração com a realidade e a importância da fase do desenvolvimento da realidade social para a produção das abstrações mais gerais. é aquela em que concretamente existe o trabalho em geral. o papel do abstrato (conceito simples. Em última instância. A análise desta totalidade remete. pela sua generalidade. criada na sociedade mais complexa. Este desenvolvimento teórico “não depende exclusivamente da capacidade e da disponibilidade teórica. mesmo especializado. pela diversidade de formas de realização. em si mesma. no caso. como trabalho. por 31 . portanto. comercial e agrícola. uma sociedade mais complexa. mais geral. “aparece aqui a primeira especificação precisa da categoria simples: a sua generalidade. em sendo mais simples.

questiona também se o olhar do presente não deformará o passado. Ora.: 48). para o conhecimento da economia. ao se fazer uma análise com categorias geradas na sociedade mais complexa. acrescentando: “A lição dada é no sentido de que se disponha de categorias gerais que na sua generalidade abranjam todo o desenvolvimento desde o ponto em que foram produzidas. Para a autora. mas “o último modo de produção completo. No entanto. Convém destacar que a sociedade. mais complexa. lhes dá validade para todos os momentos anteriores ao da sua produção. é neste tipo de sociedade. Segundo Limoeiro Cardoso. a autora levanta a questão do risco que se corre. que se torna possível a criação de categorias as mais simples e. um do outro. contudo. o modo de produção capitalista” (ibid. não há a possibilidade de ocorrer a perda da especificidade dos distintos momentos históricos. a autora vai mostrar que há em Marx uma concepção de história evolutiva. “a análise da história deve ser conduzida por categorias simples e gerais produzidas no estado mais avançado da própria história” (ibid. Em Marx. assim. inclusive e principalmente para este” (ibid. conseqüentemente. uma vez que cada um deles se define por suas peculiaridades.uma introdução sua vez e necessariamente. Esta é uma preocupação para que não venham se perder as especificidades de cada momento histórico. Com esse cuidado de não perder a própria história.: 50). apoiada numa abstração que é condicionada historicamente. Portanto.: 53). a demarcação das diferenças essenciais de cada momento histórico exige uma definição de onde devem incidir os 32 . possíveis de serem utilizadas em análises de sociedades menos desenvolvidas. é a sociedade burguesa. considerando a história um estudo do determinante da totalidade social. O presente significa não o contemporâneo ou o que está ocorrendo. a análise entre esses diferentes momentos exige que não se perca a diferença essencial entre eles.DIALÉTICA . em estudo. diferenciando-se. mais complexas e mais abrangentes. em que laços orgânicos ligam os diferentes momentos históricos. A sua generalidade.

para um estudo do desenvolvimento social mais complexo na sua especificidade histórica. pp 52-53. A terceira é que “tanto ‘presente’ como ‘passado’ sejam entendidos (argumentos) em termos de ‘organização histórica 11 Um desenvolvimento teórico mais elaborado encontra-se em Limoeiro Cardoso. capaz de assumir sua própria particularidade e especificidade. em que a autora vê várias conseqüências11. ainda que lhe sejam anteriores” (ibid. Miriam. continua seu questionamento. A autocrítica de uma sociedade. por exemplo. A segunda é que se busquem ver. op. Como solução. Esta análise conduz. 33 . outras particularidades e especificidades diferentes da sua.: 51). Mas quando isso se torna possível? “Somente quando uma sociedade deixa de se absolutizar e passa a ser. quando tem condições de relativizar a si próprio. que a sociedade tem dificuldade de se ver criticamente. está na capacidade dessa própria sociedade para se aperceber na sua singularidade no tempo. portanto.. isso também é verdadeiro. cit. reconhecendo-as e conhecendo-as.Série Sala de Aula – nº 50 cortes na história ou a periodização. é capaz de atingir. antes de tudo. Em condições bem determinadas. 1990. ela destaca. A autora levanta novo questionamento: como realizar a periodização? Respondendo. necessariamente. A primeira nega a possibilidade de explicação genética da história. Dizer. contudo. na sua historicidade. Isto supera a possibilidade de uma visão genética que vê o desenvolvimento da história de modo linear. um momento histórico consegue fazer sua crítica. aponta a crítica ou particularmente a autocrítica. É preciso respeitar as especificidades históricas. Ela vê no texto de Marx a condição de possibilidade de relativizar os outros modos de produção. conseguindo se ver como diferente. Limoeiro Cardoso. as diferenças essenciais. “tanto as do presente como as do passado”. contudo. que a produção é histórica é dizer que ela surge num determinado momento da história e se extingue em outro. buscando as conseqüências importantes dessa argumentação. mais complexa. para a sociedade mais desenvolvida socialmente. Isto ocorre quando esta não mais se identifica com o passado. Em sendo assim.

34 . Todas as categorias criadas têm. por sua vez. As categorias não conseguem. Convém destacar que a realidade concreta existe independentemente de estar sendo pensada ou mesmo depois de ser pensada. afirma a autora: “A ordem das categorias. Finalmente. Isto exige organização dessas categorias para que se possa chegar ao conhecimento mais abrangente e mais profundo da realidade.: 54). a renda fundiária e a propriedade vão se constituir como categorias que expressa essas dominâncias. mas destas “não são mais que parciais em relação a ela”. no capitalismo. reativando-se a questão: Qual é o princípio organizador dessas categorias? Limoeiro Cardoso busca resposta para a questão apresentando os diferentes modos de produção. Toda esta discussão é travada no nível teórico do modo de produção” (ibid. 6) . Na sociedade burguesa. responde à ordem de importância relativa das relações que expressam. dar conta do real em toda sua completude.uma introdução da produção’. Tem precedência teórica a categoria que expressa as relações mais determinantes” (ibid. como base. Conseqüentemente. o capital é o ponto de partida e de chegada de tudo. se constitui como principal atividade. como categoria principal diante da renda fundiária. Sua independência a localiza fora do espírito. num determinado modo de produção.A ordem das categorias.DIALÉTICA . tentando mostrar como a agricultura. importância que é relativa à capacidade das relações em determinar a organização da produção. são como montar essa análise e por onde começá-la. agora. Trata-se do momento no qual se estabelece o plano de análise e a ordem das categorias nesse mesmo plano. a não ser de forma unilateral. portanto. o pressuposto da anterioridade da realidade.: 53). Esta é a última parte do texto do método. e se constitui. As questões levantadas. caracterizado por atividades apenas teóricas.

a ordem dos conceitos trabalhados não é a do seu aparecimento histórico. em particular a perspectiva em Marx. João Pessoa. mimeo). as condições de existência que estão sendo definidas para a realização da vida humana. tem início no campo das abstrações (as determinações mais simples). Sob o manto da mutabilidade. presa à exterioridade e anterioridade do real. Uma suposição primeira. (10 p. Diante das considerações apresentadas. e uma outra que é a mutabilidade histórica. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Esta crítica vem sob o confronto destes conceitos com a realidade. continua atualizado e aberto.Série Sala de Aula – nº 50 Conclusão É com este método que Marx busca analisar a sociedade burguesa. Chega às determinações. Edmilson A.aquelas que se quer estudar. teoricamente. Referências ARISTÓTELES. O princípio que rege essa ordem é o da hierarquia teórica. 35 . Para os dias atuais.só são possíveis em sociedades mais complexas . podendo realizar abstrações suficientes e contributivas ao exame das possibilidades prospectivas de trabalhos acadêmicos e para análises de políticas no campo social. conseqüentemente das condições históricas. como um método. Dialética: etimologia e pré-história. AZEVEDO. Conceitos simples . este método. 1996. Seleção de José Américo Peçanha. é que são produzidos determinados conceitos. São Paulo. Além disso. l978. ao realizar a análise crítica de conceitos gerados na empiria da economia clássica. reproduzindo essa sociedade no pensamento. Dos argumentos sofísticos. de forma crítica. pode-se apresentar a dialética. Como método geral.os mais abstratos . em condições ‘razoáveis’ de se poder analisar. mas sim uma ordem significativa para a sociedade em estudo. Abril Cultural. Tópicos.

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