Eduardo Moura Tronconi

@ Romã

Um livro analógico de ditos de amor

Uberlândia / Nov. de 2016
A Textura desse Abismo chamado Consciência
www.texturadoabismo.blogspot.com.br

À Ela
Luz Bela
na minha escuridão.

A Romã.
Essa misteriosa fruta é o ponto fundante desses “ditos de amor”,
que evidentemente só veio à tona depois...
Certa manhã acordei, depois de uma noite de sonhos, e o que eu
trouxe à rebor foram esses ditos. No inicio, ao ir materializando-os
pensei serem ‘aforismos de amor’, mas logo vi que nem tanto.
Eram na verdade uma arquitextura digital ocasionada por
lancinantes visões sexuais que eu deixei que me obsecionassem ao
longo de todo um fim de semana, e que então meu subconsciente teve
que dar vazão para que eu não enlouquecesse de verdade.
Depois de terminado o corpo dessas composições
bilineares, e ao ficar procurando algum sentido latente
não percebido, fui conduzido ao Mito de Perséphone
& Hades por sincronias que por sua vez me
dilaceraram novamente.
Vi tomar forma diante de mim imagens
arquetípicas dessa paixão que convalescia e da qual
com certeza nunca me curarei, na imagem da estória
do rapto de Perséphone pelo Senhor do Submundo,
seu estupro e depois consequente ascensão à Rainha
do Reino dos Mortos.
Todos sabem do mito que a bela Perséphone é
raptada por seu tio e levada ao Inferno, o mundo
inferior, subterrâneo, e lá deve então passar ¼ do ano na companhia
de Hades como esposa porque havia, em grande fome que estava,
comido seis favos de romã.
Esse mito mesmo, apesar de toda sua significância psicológica que
fui refletindo de acordo com a situação que eu mesmo passava então
foi fazendo grande sentido. Mas eu sabia mais, há nele uma leitura

pouca conhecida e Gnóstica, onde Perséphone é a manifestação da
própria Sophia, havendo cultos na Antiguidade que remetiam à essa
função divina do mito que sobreviveu ao ocaso da religião comum
grega e adentrou no sincretismo gnóstico e expansivo dos cultos de
Elêusis também.
Essas referências arquetípicas profundas estão disponíveis à quem
tem a coragem de ultrapassar o limiar da simples religião e penetrar
nas profundezas da espiritualidade. Basta dizer que a estória de
Perséphone e Hades carrega todo o peso de um Amor infernal, que à
certa altura se cruza com o caso de Orfeu.
Deixo aos interessados a tarefa de se aprofundarem nessas questões.
Para além da mitologia dos arquétipos há o próprio significado da
Romã. No Oriente todos os povos tem um significado correlato a
respeito desse fruto, o Pomogranate.
Reza a lenda que a romã tem 613 sementes, referência judaica ao
número dos mandamentos conhecidos do Mitzvolts, onde se consome
os grãos da fruta no Ano Novo como símbolo da fartura e renovação,
o sentido sempre encontrado dado ao fruto.
Desde a antiguidade a Romã é cantada pelos poetas como símbolo
do Amor. Ela é o Pomo chamado “pomogranate” que significa “maça
com sementes”, donde sua confusão mitológica significante como o
fruto do Éden que causou a transformação em Adão e Eva, e todo o
mitologema gnóstico que gira em torno dos significados desta fruta.
Essa fruta, um poema frutífero em si, tem
então a conotação de todo o mistério do amor
profundo, urdido à fogo e sensualidade, que
nem os deuses podem desfazer.
A Romã na Grécia era o fruto de Hera, deusa
das mulheres, e Afrodite, deusa da beleza e da

sexualidade. É símbolo da fertilidade e da fecundidade, graças ao seu
grande numero de sementes, assim também como do
rejuvenescimento que o verdadeiro amor proporciona. Na Pérsia era
tida como uma relíquia sagrada da natureza, sendo símbolo também
do Amor, da união, da paixão imortal.
Encontrado assim os sentidos inconscientes emergidos pela minha
inspiração, nessa louca estória de amor que cultivo dentro do peito,
ao terminar a obra, dando vazão à esses ditos, sinto que fica aberto no
peito um espaço enorme, do tamanho do Tártaro, e frio como ele, ali
dentro, neste espaço infinito, que só pode ser preenchido por uma
mulher.

Não procure quem te ame,
procura alguém a quem amar.
A. Jodorowsky

@ Romã
Um livro analógico de ditos de Amor

Trago nas mãos
Apenas seis favos de romã para te embriagar...

O preço do mais impossível dos amores
Custa seis favos de romã...

Do que nada se sabe
Tudo pode se esperar...

Toda dor é finda
& o amor compensa...

Há quem tem a sorte de encontrar uma pessoa
Há quem tem a certeza de encontrar a pessoa
certa...

As fantasias fluem
É energia para a realização...

A única tarefa de um apaixonado
É vencer a morte de seus sonhos...

Não te traiu mil vezes
O coração com aquela com quem aprendeu
a amar...

Amor é fogo que não se apaga,
Portal para a consumação...

Existe uma sina com uma cor
Geralmente ela se revela no início &

Eis que o fogo
Queima de baixo para cima...
no escopo...

Todo amor quer reinar no inferno
& incendiar o mundo com o fogo do sol...

No coração frio do distante planeta
Brilham átomos da estrela que o aprisiona...

Na boca de Perséphone
O gosto mínimo de uma fome que

Quando ela está ausente
Nada cresce, acima ou abaixo...
não se sacia...

No pomar de Hades
Nasce o amor espelhado...

No amor a mulher deve deixar a mãe & a morte,
& ser os dois ao mesmo tempo para o homem...

Para se descobrir o que é realmente o amor
Deve-se devorar o frio do Tártaro...

Sina dos infernos
No coração dos homens habita & não habita
a totalidade...

O beijo da morte não alcança a raça
Graças ao sacrifício das mulheres...

Orfeu homem!
Perséphone intercedeu foi pela mulher...

Para aprender a ser mulher
Assuma seu trono Ctônico...

Nem a dádiva de Perséphone
Enche de confiança o coração
de um homem apaixonado...

Orfeu desceu ao Inferno
Para redimir Perséphone...

Tolo Orfeu
Ofendeste a própria ofensa...

Perdido tudo, por sua causa
Orfeu vingou-se com a castidade...

O maior desejo de Orfeu
Era então morrer & ficar congelado ao lado
de Eurídice...

Ouve o inferno como quem ouve o céu
Se não queres o destino de Orfeu...

Para Hades
O inferno é o Paraíso, com ela...

Quem vai em busca do passado
Encontra o que já sabia, o que se perdeu...

Para Perséphone
O Paraíso é o Inferno, com ele...

Amor de romã
Delicado tremor que se causa com a boca...

O passado não te persegue
Ele te precede...

O singelo prazer da romã
É como saciar-se nunca se saciando...

Pensava que quando transbordasse pararia
de doer
Transbordou, & eis que agora isso jorra
caudalosamente...

Há um lugar quente
No meio do frio...

O fogo foi aceso
& o Tártaro se tornou Infernos...

Quem habita o inferno
É o masculino...

Perséphone trouxe para Hades
A dor que ele não conhecia...

Quem sofre é Thanatos
Desde que Proserpina comeu da romã...

O Amor é só um passatempo dentro de
meia eternidade
Para quem não tem escolha...

Quando violou Perséphone
Hades viu quão profundo era sua caverna...

Rios de suco de romã
Escorrem do Hades...

Parado, olhando a flor
A luz inunda a consciência...

Quando emerge uma certeza
Ela vem como afogado que volta à superfície...

Longe é a distância do possível
Em um mundo redondo...

As lembranças são distorcidas
Porque só o momento atualiza...

O que não está na mente
É o que o inconsciente vem gerando...

Não se preocupe com a correnteza
O que tiver que ser, entra pelas margens...

O que nasce no meio é mediano
O que é imortal sempre esteve em plenitude...

Quando se cruzam
Os destinos se reconhecem...

Um desejo profundo
Afoga decepções...

Eis ali um encontro
Ele foi urdido pelo ocaso...

Estamos tentando
Não sabemos o que...

Não são estranhos entre si
Aqueles que foram motivos
de um sorriso mútuo...

O carinho é sempre mais do que pode parecer
Na apreciação há um respeito para além
das aparências...

Zelar para que continue sendo
É uma tarefa para dias & noites que virão...

Apareça por aqui
Em qualquer lugar que estivermos...

Em uma semente
Está todo pomar...

Não sabemos o que é
Até que seja tão certo que possa não-ser...

Cultivado o acesso
O encontro vem como colheita...

O devoto dos Mistérios
Compactua em tudo um ato de Magia...

Tão real como um perfume
É tudo que se aproxima sem vermos...

Feito por amor
Nenhum sonho é em vão...

Posso estar me enganando
Mas nunca estar enganado...

Não se perde o tempo
Passado para o futuro...

Travamos um diálogo mudo
Com aquilo que devemos destravar...

A sinceridade nunca foi tão adequada
Para se falar a quem não te responde...

Quem te domina
Marca em ti um signo de reconhecimento...

Um sim ou um não, não é tão importante
Quando o que se quer, é participar do silêncio
a dois...

O oposto total
É a promessa de compensação...

A obsessão é um espelho
Onde testamos a resistência às ilusões...

Segue o caminho certo
E seguirás no plano...

A tristeza virá
Como desequilíbrio na criação...

É adequado
Tudo que é possível...

O ridículo
É um sabor para aqueles que foram negados
comer...

& tudo é possível
Desde que se adeque...

Dois mundos diferentes
Não existem um sem o outro...

Alegria sem motivo
Semente de macieira...

Beijo
Tempestade...

Todos os momentos
São lugares que só fazem sentido juntos...

O lugar vazio dentro de ti
É o espaço do que será...

O tempo anda para trás
Estamos aqui para confirmar o fim...

O que há de te alcançar hoje
É o que ontem estava parado...

Minha esperança é isso
Por não ter nome melhor...

Um dia inventarei uma palavra
Que irá te fazer calar quando você a repetir...

Não se compartilham sonhos
Eles são sofridos de acordo...

Estás a engendrar uma aurora para ti
Enquanto eu componho nosso luar...

Mas somos todos, um
Querendo a mesma coisa...

Não que tu não tenhas teus quereres
Aceita-los faz parte de meu querer sobre ti...

O nome do que se quer
Está no não-querer, um acontece,
o outro realiza...

Estrelas que somos, deveríamos saber:
Não há solidão entre astros...

Aprender a dançar
É a maior de todas as filosofias...

Findada uma luta
A vitória clama outra luta...

Estou me reinventando para ti
Hei de soprar afastando as folhas secas
de um outono...

Findada uma derrota
A derrota clama outro resultado...

Estou me reinventando para ti
Não peço que espere, logo te alcanço...

Destino é o nome que os desesperados
dão à sorte
Que viram para além do que seria pior
que o azar...

Encontra o tempo perdido
Quem muito tarde encontrou a pessoa certa...

Toda história de uma paixão
Não tem começo, meio & fim, só suspensões...

Não há tempo maior perdido
Do que o gasto com a não preparação para
uma vida a dois...

Geralmente um amor não revelado
Tem um mestre & um aprendiz...

Arrepender-se do tempo perdido não basta
É preciso reinventar o próprio tempo...

Cora, a Virgem
Transubstanciou-se na Força...

Primeiro há de ressuscitar o amor
Para depois matar a morte...

Perséphone, de perfume destruidor
Esfacela toda morte...

Na lágrima de um favo
Tens o que apagará todo pranto do inferno...

Nem a força do eterno retorno
Acenderá o fogo do inferno de novo...

Todo o tesão do Tártaro
Engendra sua consumação...

Cede à sede de um só favo
E conhecerás a substância da saciedade...

Redime em fogo
Sol do Submundo...

Perséphone Persiphal
De Hades, o Graal...

Enxugaremos nossas lágrimas de romã
Sorvendo em beijos todo o sal da vida...

O Útero Tártaro
O Feminino preencheu...

Pois também à Sophia
Capitulou amizade Perséphone & Hades...

Urdir mitologias
É uma vênia ao fado...

Os códigos aqui impressos
Só serão lidos em uma confissão...

O tempo se encarrega
Em rachar os pomos...

Das profundezas emergem
Esse doce sabor da romã...

O peso de toda uma primavera
Faz com que a romã caia na mão

Inexplicável
Mas com sentido...
dos famintos...

Eduardo Moura Tronconi
emtronconi@hotmail.com
Uberlândia – Sol em Júpiter
2016

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