Eduardo Moura Tronconi

ÉTHOS & CARTOGRAFIA DE UM CORPO:
Filosofia & Feitiçaria na obra de Deleuze/Guattari e Austin Osman Spare:
Intersecções para uma resposta sobre “O Que Pode Um Corpo?”

Uberlândia
2016

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ÉTHOS & CARTOGRAFIA DE UM CORPO - Eduardo Moura Tronconi

- Preâmbulo:
Nada é mais forte que o
impacto da carne sobre a carne!
Austin Osman Spare

Na busca por compreender “o que pode um corpo?” extraviamo-nos além
da Ética de Baruch Espinosa e a leitura de Gilles Deleuze em Espinosa –
Filosofia Prática, acercando-nos de platôs mais distantes, o mais distante o
possível, onde nos encontramos nas paragens da feitiçaria, junto à Austin
Osman Spare, para enfim desses confins trazermos, não uma resposta à
questão proposta que já temos de antemão, mas para mostrarmos, como quem
aponta em um mapa, o que pode o corpo!
Austin Osman Spare, feiticeiro e filósofo louco da velha Londres dizia que
só através da cessação de qualquer dualidade a mente & o corpo seriam livres
para dar vazão à todas suas potências, e não seria com a inteligência que
conseguiríamos isso, mas sim por algo diferente, que ele chamou de AutoAmor.
Assim, rebuscando um mapa intuitivo, de palavras e imagens, traçamos
este trabalho, o qual o corpo que tomamos como modelo, é o próprio corpo
humano, exemplo em primazia de tudo que é experimentar.

- Introdução:
Todas as viagens ditas iniciáticas comportam esses
limiares e essas portas onde há um devir do próprio
devir, e onde muda-se de devir, segundo as "horas"
do mundo, os círculos de um inferno ou as etapas de
uma viagem que fazem variar as escalas, as formas
e os gritos. Dos uivos animais até os vagidos dos
elementos e das partículas.
Deleuze e Guattari (2007, p.27)

Respondendo a questão proposta por Gilles Deleuze em Espinosa –
Filosofia Prática (original de 1981): “O que pode um corpo?”, para o que
lançamos mão de intersecções práticas sobre essas potências, aproximamonos da obra do artista plástico e escritor ocultista Austin Osman Spare,
principalmente sua obra O Livro do Prazer (Auto-Amor) – A Psicologia do
1

Êxtase (original de 1913), onde encontramos vários paralelismos em
retrospecto que podem exemplificar e expandir os conceitos de usados por
Deleuze, não só em Espinosa, mas também com Guattari em Mil Platôs vol. 4
(1997) principalmente.
Enquanto Austin Osman Spare não tem seus livros publicados em
língua portuguesa (onde a rede mundial de computadores é fonte de várias
traduções e sites dedicados à obra escrita e gráfica do artista, ao qual faremos
citações), a obra de Gilles Deuleuze e Felix Guattari é conhecida do grande
publico, traduzida e publicada no Brasil. Austin Osmans Spare por seu lado
esbarra em certas complicações, a começar pelo fato de ter passado para seus
escritos suas singularidades como autista, o que dificulta o entendimento de
certas passagens, e como não tem publicações de traduções por um corpo
editorial formal, interpretações de passagens de sua obra podem ser dúbias,
somando-se ainda que muitas vezes o escritor está expressando experiências
tão pessoais (e místicas) que provavelmente o sentido final de certas
passagens obscuras poderem ser entendidas apenas como sentimentos e
nunca por um viés racional e intelectual, ainda mais por se tratando de um
artista esotérico.
Esses detalhes não se tornam para nós um problema em si, pois com
isso aceitamos a convocação de Deleuze e Guattari de praticamente “subirmos
na vassoura da feiticeira” quando adentramos na obra de Spare em busca de
seu éthos mágico e expansivo, que possa finalmente acrescentar, mesmo
tendo de reverter a linha temporal de pensamento, pois Spare precede Deleuze
e Guattari, rumo à entender e expandir nossa compreensão do que um corpo é
capaz. Em Spare encontramos essas potencialidades expandidas como em
nenhum outro pensador, e ler o artista do passado a partir dos filósofos mais
próximos assim se torna também um ato de magia, desafiando a seta do tempo
como em um looping de eterno retorno.
Então ao rumarmos para a intersecção entre Deleuze e Spare, o fruto
dessa leitura comparativa será sempre a práxis evidenciada artista e feiticeiro,
em sua obra e vida. Desse vórtice entre filosofia e feitiçaria retiraremos a ética
particular de um indivíduo que procedeu com a criação de seu Corpo Sem
Órgão.

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Ainda. Observando os requeridos espaços para expormos tais ideias
nesse trabalho de final de curso, visando avaliação, ousamos ser pouco técnico
na empreitada, a fim de facilitar o diálogo entre filósofo e feiticeiro, mas
também porque cremos que quando dois campos que na visão da academia
são distintos e irreconciliáveis, fazemos da liberdade literária a prova de que
não o são.
Concebemos assim essa pesquisa de forma quase poética, na medida em
que o ímpeto por uma cartografia possa ser assim poetizada, pois é visando
mais a exemplificação imagética do corpo humano, onde está o entendimento
para além do escrito, que usamos como parte dialogante não apenas um
feiticeiro, mas um artista.
Tratamos de dividir esses campos sobrepostos, o da filosofia e da
feitiçaria em ética e cartografia, pois ao longo da execução do trabalho fomos
observando que o corpo da filosofia e o corpo da feitiçaria confluíam cada um
ao seu modo como  (ação, prática, caráter) e mapa (em escala 1:1).
Essas metáforas ajudaram a dar um “corpo” para o trabalho agora
apresentado, e contornando muita e desnecessária, para o momento,
fundamentação teórica, além de deixar pontas soltas para um rizoma com
outros conceitos de Deleuze e Guattari.
Subamos então na vassoura da bruxa, sem não antes lançarmos nosso
“caveat emptor” à todos que possam crer que acharão aqui simples
paralelismos. Não! Quando Deleuze e Guattari perguntaram em Mil Platôs 4
“em direção de que nada” (p.27) a vassoura das feiticeiras nos arrastaria, eles
já sabiam por si que esse “nada” de certa forma refletia (o que Spare tinha dito
antes) que qualquer tipo de sabedoria ou conhecimento, era o excremento da
experiência, mas é só esse nada que temos como prêmio por nossa audácia e
prudência, sendo esse “nada” tudo, a pura simplicidade na raiz das coisas.
Spare diria que essa simplicidade é “não importa, nada precisa ser”, a
afirmação do feiticeiro que busca a neutralidade da intermediaridade onde se
localiza o paraíso para o corpo.
O desconcertante encontro com o corpo & o espírito, ou mente, e suas
potências, é o que achamos ao final do voo na vassoura. De tal forma então,
que filosofia e feitiçaria assim unidas vão desvendar o que pode um corpo,

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como os alquimistas, partem dos refugos para fazerem ouro, e da existência
parca no mundo a chave para se alcançar o Éden de novo.

Qual professor pode mostrar a fonte da sabedoria? É porque eu
sei sem aprender; eu conheço a fonte e posso transmitir lições
sem ensinar. O conhecimento não é senão o excremento da
experiência: experimentar sua própria repetição. O verdadeiro
professor não implanta nenhum conhecimento, mas mostra a
ele sua própria extrema abundância. Mantendo a sua visão
clara, ele o dirige ou o conduz como uma criança para o
essencial. Tendo lhe mostrado a fonte da sabedoria, ele se
retira antes que a gratidão ou o sentimento se instale, deixandoo fertilizar-se como ele desejar. Não é este o caminha para o
Céu?
Austin Osman Spare – O Livro do Prazer, p. 25

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ÉTHOS & CARTOGRAFIA DE UM CORPO:
Filosofia & Feitiçaria na obra de Deleuze/Guattari e Austin Osman Spare:
Intersecções para uma resposta sobre “O Que Pode Um Corpo?”

- Abertura: Deslizando entre... (a titulo de um feitiço est-ético):
O grande ritornelo ergue-se à medida
que nos afastamos de casa, mesmo
que seja para ali voltar, uma vez que
ninguém nos reconhecerá mais
quando voltarmos.
G. Deleuze & F. Guattari

O Éthos, enquanto caráter é a própria ética pessoal, a filosofia prática de
alguém ou de um povo. Enxergamos a ética na tríade espacial que procura um
lugar, parte rumo à ele e depois volta...1
A Cartografia, arte de conceber mapas, é enquanto arte, uma forma de
feitiçaria, pois planifica um território, o maior de todos os mapas é o corpo,
nossa zona de experiência, que desenrolado segue as rotas do tarô, p.ex., das
cartas dispostas para a adivinhação, os feitiços inscritos na carne. Ela é o
esforço da busca do além onde se conjura o caos e lá se controla tal anomalia,
fazendo do além o cosmo a partir desse caos...2
A filosofia não advinha, mas intui. A feitiçaria não é real, mas virtual.
Um mapa traçado com éthos traria as formas do corpo, a eterna
reverberância da novidade que somos. Tatuagens de serpentes que comem o
próprio rabo, redes demoníacas, anel do meio-dia, moinhos de Dom Quixote...
Olhe de novo! Tudo mudou! Nem a memória permanece. Tudo é
novidade.
A filosofia pode afirmar porque não teme a mudança e novidade, a
primeira coisa que um filósofo compreendeu foi que tudo flui, como água e
fogo. A feitiçaria pode negar porque ama a permanência e repetição, a primeira
coisa que os feiticeiros compreenderam foi que tudo está interligado, como
sangue e semêm.

1

Vide conceito de Ritornello, ZOURABICHVILI, F. 2004, p.50.
Idem.
3
Ver SCHÜLER, D. Heráclito e seu (dis)curso, L&PM, 2000, p. 101.
4
Vide ZOURABICHVILI (2004, p. 50 e ss.)
5
2
Idem.
O termo “enteógeno” é um neo-logismo com conceitos da língua grega cunhado por Carl A. P. Buck,
(vide El Camino a Eleusis, Fondo de Cultura Economica, México, 1985, p.8.) e quer dizer “Deus dentro de
2

5

Dentro desta fluência inter-relacionada, o corpo é o vórtice de todo esse
amor que flui em eterno retorno, de toda a velha novidade mal reparada que a
racionalidade eclipsou, as rotas escondidas para o paraíso perdido.
Um atlas de rizomas se abre aos pés dos amantes do saber, no caos
intuído da diferença o Pleroma é vislumbrado, um corpo sem órgãos sem lança
no abraço aos órgãos sem corpo, e filosofia & feitiçaria se deitam juntas e
cometem adultério contra a lógica: Devires! E assim se salvam uma a outra.
A longitude e a latitude disposta pela filosofia e a feitiçaria se caracteriza
pela velocidade e lentidão de sua cópula e o conjunto de afetos que preenchem
assim esse conluio, onde o nome dessa força anônima é justamente “estar
entre”, transar, entremear, ir além do um e do dois...
Não é por outro motivo que a Magia é a Grande Arte, onde se busca a
Pedra Filosofal a partir de excrementos. Não foi por outro motivo que se deu o
nome de Filosofia à busca pelo que está além da compreensão, Amor, Beleza,
Bem...
“Über” é “Além”, mas também... feiticeiro.

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Parte I – O Artista & Feiticeiro
- Austin Osman Spare - Breve Apresentação:
Eu sou a causa - Tu, o efeito.
Eu sou aquilo que eu concebo
- não todo o tempo, mas em alguns momentos.
“Eu multiplicado ao Eu” é a criação:
o infinito sexual.
Não há fim para os detalhes
de minha semelhança extrema.
Quanto mais caótico sou - mais completo sou.
A alma são os animais ancestrais.
O corpo é sua sabedoria.
A. O. Spare – in ReliKia de Zos

O britânico Austin Osman Spare (1888 – 1956) foi um
artista plástico, escritor e feiticeiro, criador do Culto de Zos Kia
e impulsionador da corrente mágica contemporânea chamada
Magia do Caos.
Quando

criança

teve

seus

dons

mediúnicos

desenvolvidos graças ao contato com uma velha bruxa,
conhecida como Srª. Paterson, que foi sua baba. Mais tarde
participou de grupos ocultistas de Londres, como a famosa
Astrum Argentum, comandada pelo mago Aleister Crowley.
Auto-retrato de
Austin Osman Spare

Desenvolvendo seu próprio sistema de magia, Austin

Osman Spare (AOS), foi gradativamente abandonando a vida social,
dedicando-se apenas ao desenvolvimento de suas técnicas ocultistas e à sua
arte como exímio desenhista e pintor, até o final da vida, solitário na companhia
de seus gatos. Com sua arte AOS acreditava poder materializar sentimentos, e
muito de seu sistema de feitiçaria, chamado Culto de Zos Kia, gira em torno da
corporificação de potências latentes e adormecidas no ser humano.
De tal forma, o artista e feiticeiro que foi AOS se dedicou à tarefa de
materializar em nosso mundo uma realidade paralela, chamada por ele de
Intermediaria,

habitada

por

alteridades

que

compõem

uma

parcela

desconhecida ou não acessada das próprias potências psíquicas. Tais
potencialidades dizem que cada homem e mulher é a encarnação de um deus,
cabendo assim a cada um buscar contato com esse deus interior ou
intermediário e o deixar fluir para o mundo através de sua arte particular.
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O meio como AOS efetivou isso foi através de sua arte, seus escritos e
sua própria vida, de corpo presente.

- Priapo
Da carne de nossa mãe surgem
sonhos e memórias dos deuses.
A. O. Spare – in Automatic Drawing

AOS foi reconhecido como o redescobridor do culto de Priapo, deus
grego em torno do qual gira o arquétipo do seu pensamento mágico e posterior
influência na tradição mágica contemporânea da Magia do Caos.
Entender o que significa o arquétipo de Priapo é entender a proposta da
feitiçaria de AOS. Priapo, o deus de falo métrico, cujo símbolo é o ancinho, filho
de Dionísio e Vênus, e tutor de Marte, a quem ensinou a dançar e guerrear,
traz consigo a personificação da fartura da natureza e das colheitas, que não
podem ser desfrutadas, entretanto, se não houver a ceifa. Assim rege os
pomares e os jardins.
De tal forma que em Priapo gira os dois principais conceitos psicológicos
trabalhados por AOS em sua feitiçaria, Thanathos e Eros, Morte e Amor; pois
Priapo ao mesmo tempo em que indica fartura, com seu enorme pênis, ele é
também infértil, ou ao menos inviável sexualmente. Assim como toda a fartura
de um pomar só pode ser aproveitada depois da ceifa, Priapo concerne a
fartura da fertilidade, porém ao final, tudo deve perecer. O excesso peniano
deste deus implica sua própria neutralidade...
Toda a abundância da vida se dirige para isso, uma grande conservação
para um imediato extravasamento e declínio. É com isso que lida as forças que
giram em torno de sua feitiçaria. E para evitar o esvanecimento, logo AOS viu
que o bruxo devia se comprometer com o vazio ou a neutralidade pósconsumação. É do vazio que fica após o prazer sexual, p. ex., onde AOS vê o
caminho para que os desejos realmente se materializem, assim como é o vazio
do útero é que dá sua utilidade ou como o esvanecimento do membro denuncia
seu uso.
Tal lógica, digamos de passagem, é puramente dionisíaca e subversiva.
Sendo que muitas vezes, no passado e no ocultismo contemporâneo, o

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arquétipo de Priapo é fundido ao de Dionísio, Pan e Prometheus, símbolos da
liberalidade, da loucura, da orgia, do extravasamento e da sabedoria.
De tal forma que AOS, com sua “religião particular”, o Culto de Zos Kia, e
a Magia do Caos, são a atualização dessas imemoráveis pulsões de energias
latentes na psique, muitas das vezes temidas pela humanidade, mas que ainda
a comanda a partir de uma parte do inconsciente. Esse “sistema operacional”
tornado feitiçaria por AOS é apenas uma forma de fazer com que se tenha uma
radicalização a partir do corpo e não de espectros além deste, e que assim não
possa destruir a humanidade com paixões inalcançáveis, mas leva-la um passo
além de onde se encontra.
A figura de Priapo, e sua contraparte feminina, Priapéia, e o que eles
personificam definem na psique então toda a significância e potencial corpo,
lançado na intermediabilidade entre o tudo & o nada das possibilidades
interditas do excesso e da passividade, paradigma final da feitiçaria de AOS.
Não importando nela o final, mas o meio.
Não é por outro motivo que a feitiçaria é a religião da fertilidade, e Priapo
(e Priapéia) seus eternos e corrosivos tutores, com sua “varinha mágica” e o
seu “caldeirão”.

- O Culto de Zos Kia

Todas as religiões são a mesma coisa para mim...
Na verdade, elaborei uma religião que encarna
aquilo que fomos, o que somos e o que seremos
no futuro...
Sonhei com esta religião...
Tenho minhas próprias ideias sobre o que somos
e o que podemos nos tornar e todos os meus
esboços estão vivos com a minha religião.
A. O. Spare – in ReliKia de Zos

Cada termo que AOS cunhou servem para expressar uma verdade
pessoal, que assim definida a desvencilha de qualquer outra terminologia que
possa ser confundida e criar ideias erradas na mente, aprisionando-a.
Creio que na feitiçaria pessoal de AOS cabe exatamente o conceito de
“ritornelo” de Deleuze e Guattari, ou pelo menos um ritornelo-mágico.

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“Zos Kia” se define então na concepção de AOS como “Mão & Olho”, e
carrega a ideia de “Corpo & Espírito”.
Zos é o “corpo como um todo”, a carne viva, é representado pela Mão, mas
alguns intérpretes que conheceram AOS dizem que a representação correta do
símbolo é o Pé, tendo o artista usado a mão como caracterização por ser mais
interessante esteticamente. Faz sentido, pois o pé que é a base de todo o
corpo, e é com o pé que se caminha, se atravessa o espaço e se salta no
abismo proposto pela feitiçaria. Costuma-se dizer em feitiçaria que se deve
“pensar com o pé”, ou seja, partir, andar. Ambos, mão e pé não deixam de ter
sua conotação fálica agregada ao símbolo.
Observamos aqui que com essas redefinições AOS começa a construir
um Corpo sem Órgão (CsO) para si mesmo, pelo critério erigido por Deleuze e
Guattari, se livrando das concepções morais que limitam a mente a respeito do
que pode um órgão.
“Kia”, é o olho, é também representação da vagina. AOS concebe o Kia
como o “Eu atmosférico”, ou seja, a consciência livre dos ditames morais das
crenças, como veremos mais adiante. Kia seria precisamente o estado de
pensamento de intermedialidade (nem-nem) da mente operando magicamente.
Em uma grafia especial que AOS concebeu para seus intentos mágicos, o
“Alfabeto do Desejo”, ali o Kia é representado com asas, ou ainda as pernas
abertas de uma mulher ao ar, e sempre que o representou pictoricamente, ele
o fez com forma de uma ave, comumente um abutre ou uma águia, animal
devorador de carniça e que digere seus banquetes nas alturas, expressando a
proximidade vista por Deleuze da feitiçaria com o devir-animal.
Assim o Culto de Zos Kia é o culto de devoção à união, não a soma das
dualidades, mas sim o intermediário. O Zos Kia supera, nas palavras de AOS,
o masculino e o feminino pelo hermafrodita na concepção sexual de corpo.
Desta forma desassociando a mente das concepções rígidas impostas
principalmente pela sexualidade, AOS logra alcançar a libertação do
corpo/mente a respeito de outros tipos de aprisionamentos, e concebe seu
próprio CsO antes mesmo de Deleuze e Guattari publicarem suas ideias.

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- A arte de Austin Osman Spare: uma Cartografia dos Corpos em Êxtase:
Oculto no labirinto do Alfabeto está o
meu nome sagrado, o Sigilo de todas as
coisas desconhecidas.
Sobre a Terra o meu Reino é eternidade
de desejo.
Meu desejo encarna na crença e torna-se
carne, já que Eu Sou a Verdade Viva.
A. O. Spare – in ReliKia de Zos

Usamos a cartografia como metáfora para a feitiçaria neste texto tendo em
vista justamente a arte de Austin Osman Spare, e deste modo elegemos o
corpo humano como des-território da feitiçaria, cujos desenhos de AOS são os
mapas, e seu culto, como já dissemos, um ritornelo estético e ético.
Uma descrição do Culto de Zos Kia de AOS pode ser encontrado em uma
passagem que o feiticeiro organiza um “credo de afirmação” de seu culto, com
suas especificações, ele diz:
Nosso Livro Sagrado: O Livro do Prazer.
Nossa Senda: A Senda Eclética entre Êxtases.
O caminho precariamente funambulatório.
Nossa Deidade: A Mulher Escarlate Predominante &Triunfante
“E eu me perdi com ela, rumo ao caminho direto”
Nosso Credo: Zos: A Carne Viva.
“Novamente eu digo: Este é o seu grande momento de
realidade – a carne viva”.
Nosso Sacramento: Os Sagrados Conceitos Intermediários
Os Conceitos de Neutralidade
Nossa Palavra: “Não Importa, Não Precisa Ser”
Nossa Morada Eterna: Kia: O estado místico de Nem Isto, Nem
Aquilo. O “Eu” Atmosférico.
Nossa Lei: Transgredir todas as Leis. (SPARE, 2008, p.23)

Muito de seus escritos e desenhos, feitos de forma automática, sem o
intermédio do pensamento racional, comporta a materialização dos planos de
imanência de Deleuze e Gattari, já que AOS dizia que sua arte podia
materializar sentimentos, e o faz isso pelo caos do não-racional. Acrescido a
isso o fato de AOS ser autista, sua obra, tanto pictográfica como escrita, se
reveste então de uma obscuridade que muitas vezes trunca o entendimento.
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Porém para além de seu caráter particular, toda a obra e arte de AOS são um
grande mapa intuitivamente disposto para conceder a quem leia e veja sua
obra de um estado alterado de consciência, e assim cobri latitudes e longitudes
com um olhar.

Aqui podemos ver exemplos da expressividade plástica de AOS, o que lhe
rendeu diversas pechas, como um artista sensualista, sideralista, surrealista e
até mesmo satanista, ou diabolista, como certos críticos mais afetados lhe
acusaram de ser na sua época.
O corpo e todas as suas possibilidades é sempre o alvo das
representações de AOS. O corpo feminino principalmente, que carrega o
símbolo poderoso da feiticeira, a “mulher primordial”, relembrando o sentido
original de feitiçaria como religião da fertilidade, como foi cultuada no passado.
Seus trabalhos exigem por parte do apreciador de uma iniciação, ou seja,

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devemos aprender a olhar suas pinturas e desenhos, assim como a ler seus
escritos, sendo isso mais um detalhe de sua obra mágica legada à posteridade,
e que vem se desenvolvendo junto à Magia do Caos. Caos esse cujo Priapo é
a representação mais uma vez.
Cada gravura de AOS é um mapa mágico que deve ser lido para se ir
acumulando saber, conhecimento esse que visa desprogramar o corpo/mente
de suas amarras.
A feitiçaria, como arte de modificar as coisas e manifestar os desejos se
torna assim o meio alternante para libertação, onde o principal instrumento são
justamente os órgãos sexuais, agora despidos de sua prerrogativa reprodutora
ou pudica, se tornam fonte do saber do feiticeiro, como um livro.
De tal forma, a arte e os escritos de AOS se inscrevem no rol dos saberes
que são um guia pictórico para a superação dos limites do corpo, que em
Spare é a soma das potências físicas e energéticas, canalizadas para o
sendero do êxtase.
Na obra de AOS mais do que em qualquer outro lugar, vemos que o corpo
é um livro aberto, um atlas com mapas de escala 1:1 que permitem
adentrarmos paragens pouco visitadas, onde o corpo é tudo, basta
aprendermos a ler, e por o pé na estrada.

Ao lado a gravura do prefácio da obra The Focus of Life
(1921) de AOS. No livro, a imagem vem com a legenda
“Now for reality”, “Agora para a realidade!”, como se o
feiticeiro despertasse, trazendo dos sonhos sua
sabedoria e o fim da alienação. A realidade aqui é o
corpo e todos seus atavismos.

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Parte II – Filosofia & Feitiçaria
- Éthos - Filosofia: Deleuze & Spare

Uma mente e outra mente não são duas mentes,
mas formam uma terceira mente.
W. Burroughs e B. Gysin – The Third Mind
A filosofia, não mais como juízo sintético, mas
como sintetizador de pensamentos, para levar o
pensamento a viajar, torná-lo móvel, fazer dele
uma força do Cosmo (do mesmo modo se leva o
som a viajar...).
G. Deleuze e F. Guattari – Mil Platôs 4
Mas não devo me entristecer, não, não agora!
Pois enquanto cuspia em suas doutrinas,
gravadas nas tábuas da Lei, ao menos não
perdi a capacidade de sonhar.
E voltando-se para a luz do poente, Zos disse:
Ouça o meu desejo, Ó Glorioso Sol. Estou
farto de que as serpentes de minha sabedoria
escorram e derretam, inúteis.
Fora com as antíteses. Eu sofri. Paguei o preço.
Deixe-me dormir... e me divertir sonhando.
A. O. Spare – O Anátema de Zos

Ao lermos Gilles Deleuze estamos lendo diversos escritores, diversos
pensadores. Seu pensamento é a confluência de diversas mentes, aqui
somaremos mais uma, ou duas...
A filosofia pensada e praticada por Deleuze e Guattari se caracteriza
justamente por uma prática de permutas entre a filosofia e os demais saberes
humanos.
Desde o seu fundamento sapiencial vemos um paralelo com o que Austin
Osman Spare pensava sobre a realidade quando dizia que “todas as coisas
copulam entre si”, os corpos, as coisas, os saberes...
Segundo Nelson JOB (2013, p.19), nos primórdios do pensamento
humano a magia se mescla à filosofia e à ciência nascente para explicar a
realidade. Esse modus operandi que contagiou a filosofia desde sua criação,
saída dos estertores do Xamanismo, como vista nos Pré-Socráticos,
Pitagóricos e em Platão, onde a Arché e a Teoria das Ideias são
reverberâncias de uma mais antiga e velada forma natural de iniciação mágica
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que o Xamanismo e suas técnicas de êxtase representam, como a saída de
uma caverna, a escalada da árvore do mundo, a descida ao inferno ou acensão
ao paraíso, etc., e que se aprendia só por iniciação secreta, com uso de rituais
e drogas, e a partir da mente expandida podia se “ver” o sentido interligado de
todas as coisas...
Do mesmo modo, vemos a Filosofia da Diferença de Deleuze e Guattari
então vir de encontro com os saberes de vanguarda de nossa época, como a
Mecânica Quântica, a Psicologia, etc., para com o incremento desses saberes
especular sobre o que é o mundo e o ser humano dentro dele de uma forma
mais complexa e poética.
Para a conceptualização desta Filosofia da Diferença, Deleuze, junto com
Guattari, buscarão colocar em movimento o sentido de diferença para além da
simples dualidade ou oposição e assim alcançar a diferença pura. Deleuze
pretende “tirar a diferença de seu estado de maldição” (JOB, 2012, p. 45 apud
DELEUZE, 2006a).
Descreve-nos ainda Job em seu livro Ontologia Onírica de 2013:
“A diferença é afirmação. A Filosofia da Diferença não tem
pressupostos, é um pensamento sem imagem. Não é uma
questão de dado. O processual é uma tônica extremamente
relevante, assim como o conceito de devir...” (JOB, 2012, p. 45)

Austin Osman Spare como criador da corrente da Magia do Caos, tipo de
xamanismo cibernético desenvolvido a partir das premissas expostas pelo
feiticeiro britânico, onde o arquétipo de Priapo reverbera como o próprio criador
do mundo a partir do caos de onde emerge pela dança entre o amor e a morte
todas as coisas, também ousou despir a própria feitiçaria de seu véu de
obscuridade, instalando em seu seio princípios científicos seguindo os
ensinamentos de Sigmund Freud e Carl Jung a respeito da psique humana,
além de observâncias das descobertas da ciência de sua época.
Assim, como Deleuze e Guattari fundiram filosofia aos outros saberes,
inclusive o saber mágico, AOS também fundiu feitiçaria à filosofia e psicologia.
A filosofia da diferença busca “identificar a influência do pensamento para
libertar a mente, observar que inventamos nossa realidade (e a dos outros) e
ampliar nossa sensibilidade ao devir (simultaneamente verbo e conceito)”
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(JOB, 2013, p.42). Ora, tal definição poderia ser dada exatamente ao que AOS
defendia, se provando assim que ele foi um filósofo da diferença antes mesmo
de Deleuze e Guattari fundamentarem seus conceitos.
AOS declara no Livro do Prazer:
O que é há mais para se acreditar que no EU? E o EU é a
negação da totalidade como realidade. Nenhum homem viu o
EU em nenhum tempo. Nós somos aquilo no que acreditamos e
o que isso implica por processo de tempo na concepção; a
criação é causada por esta escravidão à fórmula.

(SPARE,

1913, p.2)

De tal forma as antigas concepções que dizem ser a mente a causadora
da realidade adentram na filosofia assim como na feitiçaria, para dali, junto aos
conceitos exibidos pela própria física quântica, p. ex., decretar o poder do
corpo & mente de fundar o real, Devir enquanto “núpcias entre dois reinos”
(ZOURABICHVILI, 2004, p. 25).
Para isso, o esforço de Deleuze e Guattari na busca da efetivação de um
Corpo sem Órgão, um agente, poderíamos dizer, puramente mágico, pois
limiar, da busca pela liberdade contra qualquer moral, e coloca a questão do
corpo humano no centro da filosofia, como já era na feitiçaria desde sempre,
notadamente observado no frenesi que descreve o sabá das feiticeiras, nas
orgias, nas possessões, o corpo sempre foi o canal da magia, que em todos os
tempos se ergueu contra as convenções sociais e religiosas.
Enquanto éthos então, a filosofia só pode ser ação, prática, porque sua
origem está no corpo/mente, e em mais nada, enquanto parte da substância
que é Deus, mais do que um estudo das relações de velocidade e lentidões
das coisas que afetam um corpo (etologia), o éthos/ética é a experimentação
dessas acelerações e desacelerações e estagnações e saltos.
Se em Espinosa – Filosfia Prática (2002), Deleuze mira um viés quase
“místico” do pensador holandês, porque esse remete ultimamente à Deus,
buscando naturalizar o homem e seu corpo mediante a relação criador e
criatura,

via

natureza,

concebendo-O

como

imanência

em

vez

de

transcendência, legando assim também o mesmo estatuto derivado ao ser

16

humano. Isso leva-nos a pensar Deus no ser humano como ética, como ação
correta, como ocorrência de bons encontros...
É Espinosa nosso ponto de partida/chegada, com questão sobre o que
pode um corpo. Na Ética (SPINOZA, 2016), o filósofo afirma a unicidade
corpo/mente, como aquilo que Spare chamaria depois dele de “o corpo como
um todo”, onde nem corpo e nem mente dizem um ao outro o que devem ou
podem fazer somente através das ideias (interiores) e dos encontros
(exteriores). Porém há ideias alheias a um corpo e encontros interiores se dão.
Ali só Deus pode determinar a mente a pensar e o corpo se movimentar
(SPINOZA, 2016, p.39), o Spare spinozista é o que faz então de seu éthos sua
forma de ser, de viver.
Rompendo a dualidade cartesiana, Espinosa chega ao tudo, Pan, da
mesma forma como Spare conceberá depois em sua “filo-feitiçaria”, para além
das morais que são escravidão, onde, porém não há outra divindade a não ser
o próprio ser humano, nele, deus está dentro enquanto encarnação.
AOS alcança o parâmetro ético, a grande ética do corpo também, que
ele chama de Auto-Amor, sua doutrina moral, filosofia de virtude:
O critério de ação é liberdade de movimento, oportunidade de
expressão, satisfação. O valor de uma doutrina moral está na
sua liberdade para transgressão. A simplicidade que eu celebro
como mais preciosa. Não são as coisas mais simples no mundo
as mais perfeitas, puras, inocentes, e suas propriedades as
mais maravilhosas? Consequentemente, é a fonte da sabedoria.
Sabedoria é exatamente felicidade. No amor me satisfaço
necessariamente sem nenhum porém. Não é isto perfeição? As
ações pareceriam insondáveis e incompreensíveis se exibissem
conformidade com o grande propósito. Há poucos que podem
atingi-la! (SPARE, 1913, p. 27)

De tal forma vemos a convergência inevitável da filosofia como éthos,
ação, prática, enfim, uma ética. Que a feitiçaria comporte esse mesmo éthos se
dá porque é o Corpo que está no centro de toda sua interpelação. É com o
corpo que se age, que se filósofa, que se enfeitiça, que se afeta e é afetado.
Para Spare, enquanto os vícios são o “medo, crença, fé, controle, ciência, e

17

semelhantes”, a Virtude é “Pura Arte” (SPARE, 1913, p. 1), arte corporal e nada
mais.
Por isso em Espinosa Deleuze observa a ligação que há entre Potência e
Virtude, via conatus, onde todo ato é potência, passando de Deus ou da
Natureza ao ser humano pelo jogo de afetos e afecções que sentimos no
corpo/mente (cf. DELEUZE, 2002, pp.104 e ss.).
Filosofia é assim atitude, processo. O sábio (feiticeiro?) Heráclito é o que
deu melhor definição para esse “amor pelo saber”, quando chamou a atitude
filosófica de “anquibasia”3, “andar em torno” e nunca penetrar, daí suas
ramificações rizomáticas com a cibernética, o sexo e a feitiçaria, e que guarda
em si proximidade intima como o “ritornelo” de Deleuze e Gattari4.
- Cartografia - Feitiçaria: Spare & Deleuze
A magia, a redução de propriedades à
simplicidade, fazendo-as transmutáveis para
utilizá-las novamente através de um
direcionamento, sem capitalizar, frutificando
muitas vezes... Seja para o seu próprio prazer
ou poder, o preenchimento do desejo é o seu
propósito, ele exterminaria isto através da
magia.
A. O. Spare – O Livro do Prazer
Se o escritor é um feiticeiro é porque escrever
é um devir, escrever é atravessado por
estranhos devires que não são devires-escritor,
mas devires-rato, devires-inseto, devires-lobo,
etc. Será preciso dizer por quê.
Muitos suicídios de escritores se explicam
por essas participações anti-natureza, essas
núpcias anti-natureza. O escritor é um feiticeiro
porque vive o animal como a única população
perante a qual ele é responsável de direito.
G. Deleuze – Mil Platôs 4

Para Austin Osman Spare a magia, ou feitiçaria, seria uma forma
operacional de libertar a mente de ideias inadequadas que aprisionam o
pensamento, e por consequência as potências do corpo, e assim atingir
objetivos relativos ao próprio querer do indivíduo.

3
4

Ver SCHÜLER, D. Heráclito e seu (dis)curso, L&PM, 2000, p. 101.
Vide ZOURABICHVILI (2004, p. 50 e ss.)

18

Spare fez feitiçaria com o próprio corpo/mente, sua potência como artista e
escritor. Suas obras plásticas possuem o ímpeto de uma cartografia dos corpos
em êxtase, enquanto seus escritos visaram compor de forma sintética o que
girava em seu pensamento. A convergência dessas duas manifestações é o
que compõe sua filo-feitiçaria então.
Enquanto cartografia, o corpo estará em relação à Longitude e Latitude.
Essas relações de velocidade e lentidão, movimento e repouso, como lemos
em Deleuze (2002, p.128 e ss.), e conjunto de afetos que preenchem o corpo a
cada momento são dispostos em instantâneos na parte gráfica da obra de
AOS, porém, para se penetrar nessa parte, ter olhos para ver, é preciso a
feitiçaria.
Para ele, como encontramos n’O Livro do Prazer (Auto-Amor), sua
feitiçaria se compunha de cinco elementos: 1)Vontade, 2)Nostalgia Atávica,
3)Possessão e Êxtase, 4)Postura de Morte e 5)a Nova Sexualidade. Todos
esses elementos são cambiáveis em Deleuze, quando ele trata de DevirIntenso, Devir-Animal e Devir Imperceptível, em Mil Platôs 4. (1997, pp. 8 e
ss.), mas também tem relação com Espinosa, justamente sobre a questão do
corpo.
Sigamos cada elemento compositor da feitiçaria de Spare junto à
argumentação de Deleuze sobre esses devires e a cartografia, cinética e
dinâmica:
1) Vontade: Spare define vontade como o imodificável impulso, a
emanação perceptível do Kia (da mente livre das crenças), ou seja, a vontade
mágica é um veículo que permite concretizar os desejos, e se chegar ao
prazer. A vontade é Verdade, a abertura que permite que o desejo, o que seria
para Spare uma ideia adequada, chegar a ser, e faz com que a crença, um
ideia inadequada, distancie-se, sendo elas, vontade e crença, parte de uma
coisa só.
No Livro do Prazer Spare designa a contraparte de Vontade, as crenças
e vícios do pensamento (o que Deleuze em Espinosa chama paixões):
As palavras Deus, religiões, fé, morais, mulher, etc. (sendo elas
formas de crença) são usadas para expressar diferentes
"meios" de controle e expressão de desejo: uma ideia de
unidade através do medo que de uma maneira ou outra deve
19

implicar em escravidão - os limites imaginados; estendidos pela
ciência que acrescenta um centímetro, afetuosamente dado, a
nossa altura: nada mais. (SPARE, 1913, p.1)

Assim, livre, ou ciente de tudo que é pernicioso, a vontade tem sua
capacidade de escolha estabelecida magicamente e se compromete com
aquilo que Spare chama de Auto-Amor, e nada mais.
O sábio buscador de prazer, tendo percebido que eles são
"níveis diferentes de desejo" e nunca desejáveis, abandona
tanto Virtude quanto Vício e se torna um Kiaista. Cavalgando o
Tubarão indomável do seu desejo, ele cruza o oceano do
princípio dual e engaja a si mesmo em auto-amor. (SPARE,
1913, p.4)

De tal forma que o “Auto-Amor”, uma espécie de sentimento cuja
apreensão se efetua antes da concepção da ideia, ou livre dela, é a expressão
na feitiçaria de Spare para essa Vontade Mágica. Ser “Kiaista” é estar investido
de Kia, a “liberdade suprema” (SPARE, 1913, p.1), é saber a velocidade certa e
onde se chegar com Devir-Animal do feiticeiro, que coincide com o que escreve
Deleuze sobre a feitiçaria no platô 4, e é de certa forma involutivo, daí o
segundo elemento da feitiçaria de Spare.
2) Nostalgia Atávica: ao final, o intuito da feitiçaria é retroceder o
corpo/mente à um estado ancestral de simplicidade onde está a vontade e a
liberdade em estado puro, uma latitude primordial, para isso se usa o recurso
mágico da nostalgia atávica, um invocação de tudo que o corpo já foi, é e será.
Spare escreve em um capitulo do Livro do Prazer onde descreve o
subconsciente, local onde habitam ainda todas nossas potencias passadas
como “O Armazém de Recordações com uma Porta Sempre Aberta”:
Saiba que o subconsciente é um epítome de toda a experiência
e sabedoria, encarnações passadas como homens, animais,
pássaros, vida vegetal, etc., etc., tudo o que existe, existiu e
existirá. Cada um sendo uma camada na ordem da evolução.
Naturalmente então, tanto mais baixo provemos destas
camadas, mais cedo serão as formas de vida que chegamos; a
última é a Simplicidade Todo-Poderosa. (SPARE, 1913, p. 41)
20

Sendo então a feitiçaria a arte que capacita fazer ressurgir toda essa
potencialidade ou sabedoria submersa no corpo/mente, onde ter consciência
dessas coisas, manifestá-las, não imputa que tenhamos que ter seus corpos,
mas que devemos através da nostalgia manipular para que nosso corpo
comporte em uma região intermediariamente mágica todas as coisas que
fomos e ainda seremos.
Deleuze ratificaria isso dizendo que
Não se deve atribuir aos devires-animais uma importância
exclusiva. Seriam antes segmentos ocupando uma região
mediana. Aquém deles encontramos devires-mulher, devirescriança (talvez o devir-mulher possua sobre todos os outros um
particular poder de introdução, e é menos a mulher que é
feiticeira e mais a feitiçaria é que passa por esse devir-mulher).
Para além deles, ainda, encontramos devires-elementares,
celulares,

moleculares,

e

até

devires-imperceptíveis.

(DELEUZE, 1997, p.27)

A

nostalgia

atávica

seria

então

esse

ato

de

instalar-se

na

intermediariedade (região mediana) do corpo as nossas ancestralidades, os
“limiares” intercambiantes apontados por Deleuze (2002, p.130). Esse “entre” é
a incorporação de potências que só a feitiçaria permite, a ressurgência desta
sabedoria alterada, anti-natural, pois faz parte da objetiva neutralidade que só a
magia pode fazer o corpo alcançar, enquanto devires-mil.
3) Possessão e Êxtase: a possessão se dá quando finalmente o corpo
deixa de separar desejo de carne através da vontade, e se alcança o êxtase, o
prazer. A dualidade cessa e enfim o corpo é uno com todas suas potências.
Pode-se dizer que o corpo se torna um com a divindade (devirdade) na
feitiçaria. Como na física relativista que diz que um corpo acelerado até a
velocidade da luz se torna luz...
A feitiçaria, desde sua concepção, ainda como Xamanismo, que buscava
através de substâncias expansoras da consciência, até as técnicas corporais
da yoga sexual que Spare usa, sempre foi o caminho até o prazer, seja ele

21

orgasmo, sabedoria, felicidade, gnose, filosofia... Uma forma de transmutação
que a Magia do Caos vê na propriedade vibracional dos elementos.
Um ato mágico é um ato carregado de realização da vontade, não o inicio
ou fim, mas o meio em si, que é o devir-intenso, ou seja, uma manipulação das
latitudes (do corpo) no caso da possessão e êxtase, que é o anômalo de toda a
questão do feitiço, um êxtase desviante. Por isso Spare denota naquele credo
que a união final é com “a Mulher Escarlate e Predominante”, a alternância de
si mesmo, a feiticeira de cabelos ruivos arquetípica. Similitude encontrada
quando Deleuze cita Dumas e o processo de transformação do feiticeiro em
lobo de cabelos vermelhos que vai se descamando, “o homem das fronteiras”:
Evidentemente, a feitiçaria não pára de codificar certas
transformações de devires...
Os feiticeiros sempre tiveram a posição anômala, na fronteira
dos campos ou dos bosques. Eles assombram as fronteiras.
Eles se encontram na borda do vilarejo, ou entre dois vilarejos.
O importante é sua afinidade com a aliança, com o pacto, que
lhes dá um estatuto oposto ao da filiação. Com o anômalo, a
relação é de aliança. O feiticeiro está numa relação de aliança
com o demônio como potência do anômalo. (DELEUZE, 1997,
p.28)

Assim com a possessão e o êxtase a feitiçaria ganha conotações
geográficas, sempre através do corpo, que marca a presença intermediaria do
feiticeiro, ao que Spare inscreve suas representações gráficas do êxtase, onde
a posição corporal é uma forma de passagem também.
4)

Postura

de

Morte:

chegamos

assim

aos

conformes

geo-

métricos/gráficos da própria feitiçaria, cinéticos e dinâmicos. Spare descreve a
Postura de Morte, quarto elemento de sua feitiçaria, como uma posição física
onde é possível então “parir” o desejo. Enganando o corpo/mente, fazendo-o
passar por morto, pode-se deixar fluir o inascido.
Interessante que a “postura de morte” seja um posição de neutralidade
corporal. Tal yoga compõe todo o ritual da feitiçaria de Spare:

Deitado

de

costas

preguiçosamente,

o

corpo
22

expressando a condição de bocejo, suspirando enquanto
esboça um sorriso, esta é a ideia da postura.
Esquecendo o tempo com essas coisas que eram
essenciais - refletindo sua falta de significado, o
momento está além do tempo e sua virtude já aconteceu.
Ficando na ponta dos pés, com os braços rígidos, preso
atrás pelas mãos, apertado e tensionado ao extremo, o
pescoço

esticado

-

respirando

profunda

e

espasmodicamente, até a vertigem e a sensação
entrarem em rajadas, dá esgotamento e capacidade para
o primeiro. (SPARE, 1913, p.18)

Assim se silencia o ego, dando passagem para o Eu superior manifestarse no corpo, de encontro àquilo que é sua natureza própria, a neutralidade,
como encontrada fisicamente na postura de morte. Com a postura de morte, o
corpo como um todo deitado em um estado de intermedialidade, dá passagem
ao desejo para se tornar carne também, como um tubo permite o vento passar.
Com esse feitiço Spare produzia suas obras de arte, encarnava a força de
animais e dava vazão ao seu conhecimento. (Um parêntese para além do
êxtase da yoga: interessante notar também que a física nos ensina que os
estado vibracionais mais elevados são os congelados, muito abaixo de zero, ali
as leis do tempo e espaço se desfazem e só quem experimentou o êxtase de
substâncias enteógenas5 sabem de que frio falamos nos êxtases do corpo.)
Essa postura tem intima ligação com a yoga sexual oriental e o kundaline,
a serpente que escala a coluna vertebral até o fulcro do terceiro olho na altura
do cérebro, órgão sexual verdadeiro do ser humano. A postura assim lega ao
corpo a propriedade de manifestação de suas possibilidades sobre a mente
onde se baseia o ego e o Eu, podendo assim serem convocados pelo próprio
corpo esses “poderes” alterados.
Nessas observâncias físicas e geográficas da feitiçaria Deleuzes conclui:
Você é longitude e latitude, um conjunto de velocidades e

5

O termo “enteógeno” é um neo-logismo com conceitos da língua grega cunhado por Carl A. P. Buck,
(vide El Camino a Eleusis, Fondo de Cultura Economica, México, 1985, p.8.) e quer dizer “Deus dentro de
nós” referente justamente à substâncias vegetais que quando ingeridas proporcionam uma experiência
espiritual.

23

lentidões entre partículas não formadas, um conjunto de afectos
não subjetivados. Você tem a individuação de um dia, de uma
estação, de um ano, de uma vida (independentemente da
duração); de um clima, de um vento, de uma neblina, de um
enxame, de uma matilha (independentemente da regularidade).
Ou pelo menos você pode tê-la, pode consegui-la. (DELEUZE,
1997, p. 42)

Spare conseguiu através da Postura de Morte! E assim demonstrou com
a feitiçaria que os limites do corpo estão além do que a moral pode lhe impor,
mas detém também a potência da ubiquidade entre espaços e tempo, tudo isso
rumo à ética do Auto-Amor baseada em uma novidade que Spare produz com
sua feitiçaria.
5) A Nova Sexualidade: como a feitiçaria é ação corporal para Spare, e a
ação sexual é o movimento sublime em primazia, seja ele acelerando ou
desacelerando, pois em todos os tempos os feiticeiros retiraram seu poder do
sangue e do semêm, conjurado magicamente, ou seja, carregado de intensão
dentro de um ritual, seria de se esperar que o resultado final da magia só
poderia desembocar na novidade eterna do devir-sexual.
Elemento final compositor de sua feitiçaria, a Nova Sexualidade é o
impulso primordial do desejo, sempre vital e sem idade, é a busca da união
com todas as coisas, sem inibições e sem se identificar com essas mesmas
coisas, é o conluio sexual onde se presentifica finalmente o estado
intermediário de “nem isto, nem aquilo” (cf. SPARE, 1913, p. 19), a sagrada
fornicação vista nos bacanais.
Spare trata isso de novidade, pois ele descaracteriza o impulso sexual de
seus critérios normais, buscando efetivar o que chama de “êxtase feio”, ou
seja, cai o padrão de beleza que dá “tesão” ao homem comum, e torna ativo o
desejo por tudo que é feio também. Só assim se vence a insatisfação ou a
fome eterna pelo sexo que também escraviza.
Só aquele que atingiu a postura de morte pode apreender esta
nova sexualidade, e seu todo-poderoso amor ser satisfeito.
Aquele que é sempre servil a crença, entupido pelo desejo, se
identifica com tal e pode ver apenas suas ramificações infinitas
24

na insatisfação. (SPARE, 1913, p. 9)

Assim a Nova Sexualidade é a expressão final, ética e estética, do êxtase
que se move através da Vontade, alcançando a Possessão e consequente
Êxtase, usando da Postura de Morte para corporificar toda sua vitalidade no
corpo, vencendo a dualidade das ideias de bem e mal, belo e feio, racional e
irracional, etc., planificando assim o campo intenso da feitiçaria, não ligando o
conjunto de afetos que preenchem ou atingem o corpo/mente com objetos
desagradáveis. Com a feitiçaria consegue-se desejar tudo e aceitar
principalmente.
A feitiçaria assim se afirma pela sua cartografia dissonante, para além dos
mapas que limitam, mas que contorna o corpo dispondo de meios para suas
inauditas possibilidade. Ela é realmente um pacto com o demônio, pois, como
já antevia Freud e Jung, o demônio é o Self, o Si-Mesmo, e não é por outro
motivo que em sua Psicologia do Êxtase, Spare traça o caminho para o “Selflove”, o amor-de-si-mesmo, o auto-amor, para, como diz Deuleuze (1997,
p.24), permitir ao corpo o desfrute do pecado original que a feitiçaria
proporciona.
A prudência aqui seria então, apenas uma forma de ir, ver e fazer, mas
tornar a subir na vassoura da feiticeira e voltar para contar, como Austin
Osman Spare o fez.

25

Parte Final: Ética & Estética
- Conclusão - Est-Ética: O que pode um corpo?
A conclusão da loucura é o começo da
infância, mas para conhecimento, não
há nenhum fim. Foi o desgarrado que
achou o caminho direto. Desde a infância,
eu nunca neguei meu propósito invencível.
A. O. Spare – O Livro do Prazer

A este desenho ao lado, Austin
Osman Spare deu o nome de “Novo
Éden”. O artista o fez para sua obra
“Logomachy”, e acima pode se ler:
“nada

está

acima

ou

abaixo

‘sexuado’, porém há ajustamentos”.
As

palavras

enigmáticas

podem se referir apenas à um
lembrete para se refazer o desenho
quando fosse realmente publicado,
porém o tema remete a um termo
muitas vezes usado Spare ao longo
de sua obra gráfica, onde ele
retratou outros “novos édens” de
devires-mulheres. O conceito se
refere

justamente

à

nova

sexualidade idealizada por ele como
tramite final de sua feitiçaria.
O Novo Éden é o Corpo (humano, animal, vegetal, mineral, coisa
qualquer...), do qual através da carne está sempre em devir o renascimento de
tudo que foi. Por isso Spare acreditava na carne “como agora”, pois nossos
corpos sempre serão assim, de carne e não de órgãos, por isso ainda nos
convoca a nos des-hipnotizarmos da pobre realidade em que vivemos e das
coisas que acreditamos, para além do organismo, desfrutarmos o banquete
super-sensualista que só o corpo como um todo pode aproveitar, pois sua
doutrina ou filosofia é a do auto-amor fati eterno, pois “servidão à lei é o ódio do
Céu” (SPARE, 1913, p. 28).
26

O conceito de Novo Éden comporta o fato de que o começo de toda
memória e eternidade é o próprio corpo, no caso o meu, o seu, pois toda
realidade que temos é o corpo, assim, não é difícil pensar porque o corpo nos é
e sempre será caro, seja para o prazer, seja para o desgosto, próprio ou alheio.
Tal visão é próxima à de Espinosa lida por Deleuze sobre o porquê que o
filósofo holandês escolheu o corpo como modelo para o paralelismo que
desbanca qualquer moral como elemento capaz de se dominar as paixões a
partir da consciência: “trata-se de mostrar que o corpo ultrapassa o
conhecimento que dele temos, e o pensamento não ultrapassa menos a
consciência que dele temos” (DELEUZE, 1997, p. 24).
O corpo humano como paraíso, “novo Éden”, é em si a completude do
saber

humano,

cada

individuo

com

o

seu.

Esse

“ultrapassar”

de

Deleuze/Espinosa é o próprio auto-amor de Spare, não-racional, intuitivo,
orgástico. Se o critério de Spare é o prazer conseguido apenas com a carne, é
porque a carne é viva, “cheia de deuses”, ultrapassando também nossa
mor(t)alidade.
Em “ultrapassar” ainda temos mais uma aproximação, aquela que
desbanca os critérios cognitivos, racionais, de se conceber tal saber, que assim
só pela arte pode ser concebida, intuitivamente, com sua desterritorialização na
fuga do sentido que é a feitiçaria, que é o caos de Spare.
E mais, muito mais. Parece-nos que por todo Espinosa – Filosofia Prática
Deleuze fala-nos deste “ultrapassar”, ultrapassar a filosofia, ensinar ao filósofo
“tornar-se não-filósofo” (p.135), ganhar velocidade infinita montado na
vassoura, tornar-se luz então, alcançar o paraíso, e ser um vento bom que
sopra, lá onde termina a diferença entre vida e conceito.
Instalando aqui o corpo como mapa em escala real de nossos prazeres e
o desvencilhando das amarras da moral e dos padrões, acalentamos o Paraíso
sempre presente em cada corpo, estar na velocidade da luz é cessar
tempo/espaço, é estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo agora.
Essa é a grande feitiçaria, o grande truque, a grande farsa que compartilham
filosofia e feitiçaria, mas que na maioria das vezes não é visto, por causa da
cegueira dos olhos e a preguiça das mãos, próprias e alheias também.
O paraíso ainda é um lugar, mas está antes no corpo, que é sua porta, do
que nas alturas inalcançáveis diante tantos pecados que se interpõem.
27

O que pode um corpo? Afetar e ser afetado. Ser um deserto a se cruzar e
um jardim para se deliciar.
Para a Filosofia, assim como para a Feitiçaria, os limiares do corpo são a
prisão e a liberdade, Céu & Inferno! Ou melhor, tudo que há entre isso, um
vórtice Est-Ético da feitiçaria e da filosofia, sempre ativo (consciente ou
inconsciente de suas potências: longitudes e latitudes, velocidades e
intensidades), rastejando pelo mundo, caminhando, lançando-se em abismos,
voando como o vento...

Essa ética/estética do corpo planificada pela filosofia/feitiçaria, de um
Spare que reconhecemos Spinozista, objetiva um paraíso cuja perfeição é
tudo, inclusive o imperfeito, ele é mais bestial que angélico pois os anjos
também podem ser terríveis, é primordial, pois feminino, enfim, o novo Éden
alcançado aqui, seguindo os mapas da filo-feitiçaria é o maior afeto que se
pode nos preencher, é a totalidade, a plenitude, o inefável “além...”.
Nessa perspectiva, a filosofia segue o mesmo movimento que
as outras atividades; enquanto a filosofia romântica invocava
ainda uma identidade sintética formal, que assegurava uma
inteligibilidade contínua da matéria (síntese a priori), a filosofia
moderna tende a elaborar um material de pensamento para
capturar forças não pensáveis em si mesmas. É a filosofiaCosmo, à maneira de Nietzsche. O material molecular é
efetivamente tão desterritorializado que não se pode mais falar
em matérias de expressão, como na territorialidade romântica.
As matérias de expressão dão lugar a um material de captura. A
partir daí, as forças a serem capturadas não são mais as da
terra, que constituem ainda uma grande Forma expressiva, elas
são agora as forças de um Cosmo energético, informal e
imaterial. (DELEUZE, 1997, p. 139)

De minha ousadia para acreditar em religiões, doutrinas,
credos, devo, assim, reter a joia da verdade. Tão cuidadoso eu
sou, simultaneamente eu nego aquilo que eu afirmo, e retenho
rapidamente a "não-necessidade", através de um paradoxo
substituído, sem antecedentes, espontâneo, eu reverto ao
Absoluto, observe minha intoxicação e controle - a reação do
Carma. Quão fácil é o Caminho, pareceria como se nada
devesse ser dito, mas tudo não dito! Possam minhas palavras
ser poucas e fecundantes! Ai de mim, a futilidade da ideia de
Deus ainda não alcançou seu limite, todos os homens são
mentirosos, parecem esforçar-se pela loucura até seu clímax:
enquanto eu sozinho, como um velho prematuro, a razão
cambaleando em seu trono, permaneço são, em castidade
28

positiva, não confessando nenhuma consciência, nenhuma
moral - um virgem em coerência de propósito. (SPARE, 1913, p.
58)

“Êxtase de Um Pássaro Cârmico”
é o último desenho que ilustra o Livro do Prazer de Austin Osman Spare, nele o
desenho automático representa o voo do corpo/mente possesso por um devir-animal
se elevando em estranha intermediariedade de expressão, para subir/descer ao
paraíso, livre de qualquer vício ou virtude...

29

- Bibliografia:
DELEUZE, Gilles. Espinosa – Filosofia Prática. Escuta, São Paulo/SP. 2002.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Fêlix. Mil Platôs – Capitalismo e
Esquizofrenia (Vol.4). Disponível em <http://escolanomade.org/wp-content/
downloads/deleuze-guattari-mil-platos-vol4.pdf>. Acessado em 10 de Outubro
de 2016. Editora 34, São Paulo/SP. 1997.
SPINOZA, Benedictus. Ética demonstrada em ordem geométrica. Disponível
em <http://www.filoczar.com.br/filosoficos/Espinoza/93539070-Baruch-SpinozaEtica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR.pdf>. Acessado em 10
de Outubro de 2016. Roberto Brandão 2016.
JOB, Nelson. A Ontologia Onírica – Confluências entre Magia, Filosofia,
Ciência e Arte. Cassará, Rio de Janeiro/RJ. 2013
SPARE, Austin Osman. O Livro do Prazer (Auto-Amor) – A Psicologia do
Êxtase. Disponível em <https://pt.scribd.com/doc/37651172/Austin-OsmanSpare-O-Livro-Do-Prazer-Completo>. Acessado em 10 de Outubro de 2016.
Edição do Autor. 1913.
___. The Writings of Austin Osman Spare – Anathema of Zos / The Book
of Pleasure / The Focus of Life. Filiquarian Publishing, USA. 2007.
___. ReliKia de Zos – O Pensamento Mágicko de Austin Osman Spare.
Disponível
em
<http://docslide.com.br/documents/relikia-de-zos.html>.
Acessado em 10 de Outubro de 2016. Uberlândia. 2008.
ZOURABICHVILI, François. O Vocabulário de Deleuze. Disponível em <http://
escolanomade.org/wp-contente/downloads/deleuze-vocabulario-francois-zoura
bichvili.pdf>. Acessado em 10 de Outubro de 2016. Versão Eletrônica:
UNICAMP. 2004.

- Bibliografia original de Austin Osman Spare:
Earth: Inferno (1905)
A Book of Satyrs (1907)
The Book of Pleasure (Self-Love) – The Psycology of Ecstasy (1913)
Automatic Drawing - by Austin O. Spare & Frederick Carter (1916)
The Focus of Life – The Muttering of Aaos (1921)
Anathema of Zos – The Sermon to the Hypocrites (1927)
- Lançados postumamente:
The Book of Ugly Ecstasy (1996)
Two tracts on Cartomancy (1997)
The Book of Zos vel Thanatos - The Logomachy of Zos, The Zoetic Grimoire of ZosKia, The
Living Word (1999)
-Espólio de Austin Osman Spare sob os cuidados de Fulgur Limited:
www.fulgur.co.uk

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O texto aqui disponibilizado é um trabalho para avaliação do
curso ‘Seminário IV: Gilles Deleuze – Espinosa – Filosofia
Prática’, da Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal
de Uberlândia (UFU), curso esse ministrado pelos professores
Humberto Guido (IFILO) e Juliana Bom-Tempo (IARTE) entre
Julho e Novembro de 2016.

Eduardo Moura Tronconi
Uberlândia/MG. Primavera de 2016
-Facebook:
facebook.com/eduardo.tronconi9
-Cont@to:
emtronconi@hotmail.com
-Blog: A Textura desse Abismo chamado Consciência
texturadoabismo.blogspot.com.br

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