um livro de folhas esquecidas

e. m. tronconi
{www.texturadoabismo.blogspot.com}

“um livro de folhas esquecidas”
eduardo moura tronconi
de

-série naddha – vol.IUberlândia – mg. – brasil outono de 2011 e.v.

a textura desse abismo chamado consciência www.texturadoabismo.blogspot.com emtronconi@hotmail.com

-prologvs à “série naddha – ciclo das inutilidades”:
Ponderar sobre o inútil! Sopesar o descartado, seja ele pela natureza, seja pelos seres humanos & a sociedade, seja pelo sistema ou pelo tempo... Isso é o atrevimento de prolongar na continuidade de uma temporalidade naturalmente excludente coisas que desmerecem continuar a ser, coisas que não precisam mais estar. Nessa série de micro-obras digital o autor e.m.t. compõe uma visão particular, poético-visual & experimental sobre as coisas ditas inúteis, coisas sem valor nenhum, restos de restos abandonados por aí & que não mais terão a atenção de nada nem de ninguém. O ato deliberado de querer “perpetuar” tais insignificâncias para além de sua ultra-banalidade é uma proposição artística na forma de um escárnio retroverso0 à toda essa amarração de seriedade do mundo & suas convenções, toda sua opressiva sobre-valorização de coisas transitórias no impulso de privilegiar & desprivilegiar de acordo com interesses gananciosos. Essa obra, como outras que virão, pretendem ser a expressão de um anarquismo ontológico poético, onde o niilismo não é mais do que o trapézio de onde despenca todos os nossos ditos “valores”, uma insurgência contra a ordem maldita que é usada para a escravidão.
Uberlândia – Agosto de 2011

um livro de folhas esquecidas

“O ser tem capacidades Que o não-ser utiliza.” Lao Tse

... folharal

um livro de folhas encontradas um livro de folhas exiladas

um livro de folhas perdidas um livro de folhas banidas um livro de folhas achadas

um livro de folhas proscritas um livro de folhas largadas um livro de folhas usadas mortas um livro de folhas quedadas um livro de folhas deixadas um livro de folhas tombadas um livro de folhas abandonadas um livro de folhas velhas um livro de folhas caídas

um livro de folhas

um livro de folhas levadas um livro de folhas inúteis

folhasal...

Perdidas de suas plantas-mães vão ao chão para se perderem

na putrefação, na desintegração, no tolhimento, no fogaréu

Exiladas de seus galhos-pais vão ao léu para se desfazerem

ao vento, à sarjeta, ao lixo, à fuligem, ao acaso

Este ocaso de todas as folhas que já serviram ao seu propósito

à sua primavera voraz

ao seu eterno retorno dos outonos

Alternações das estações invariáveis que dançam com a morte a simples valsa da passagem banal...

Vão-se as folhas
ficam as formas enraizadas Vão-se as filhas ficam os frutos degustados Vão-se as falhas ficam os fachos Vão-se as fábulas fica o fato Vai-se a folia fica a fome Vai-se o fosso passageiro & fica a fonte perene...

Restos... ...rastros pueris de agosto... ...arrancadas pelos ventos... & pelos lentos sussurros atmosféricos de uma asfixia necessária. Dispensadas pelas estações, exiladas da seiva pelo tempo Ah! Tempo! Que nos seva de ceifa Ah! Tempo! Esta tua ceia de folhas secas, abandonadas perdidas na extrumação desta extrema-unção ...restias.

Folhas
filhas de uma providência de banimento & exílios

Arrastadas da emanação matemática que és filha também por um caos de alheamentos que as adotam na incerteza da certeza previa da imolação

Eu as achei e as acho por aí até nas noites em que saio por aí procurando me anestesiar Encontro folhas rolando sobre meus pés esmagadas pelo peso de meu esmaecimento Esmigalhadas pelas forças que me levam à meios-desmaios pelas infusões de folhas e chás iluminógenos

Além disto não há nada como folhas por aí Guiando suas vidas por entre ruas e luzes Não vivas elas mais são não há nada como folhas por aí Pequenos cadáveres vegetais Esqueletos orgânicos puídos e finos cruzando nossos caminhos como pseudos-fantasmas sem fogo fátuo Rumando para uma secura que disfarça a nós mesmos nosso próprio destino decompulsório

Missivas perdidas da humusaria
Onde vão parar as folhas que andam perdidas por aí abandonadas ao abano do ébano do húmus Onde vão parar as folhas que caem já inúteis dos galhos elas vão rolando por aí se moendo & mofando Onde vão parar as folhas que sujam tudo nas praças pelas ruas, terrenos & becos, pelas solas dos sapatos dos transeuntes Onde vão findar os fólios de folhas furtadas das árvores caídas esvoaçam como lixo & decantam e somem como o luxo certeiro do húmus Humusaria esse grande lençol retalhado & disperso que cobre toda a cidade & os campos além Para o além, além depois de respirar o ar, ...o ar... o ar...

...decompõem-se tudo no mundo de dentro para fora & de fora para dentro...

...do que se mofa parece-me que as folhas são as coisas mais úteis & inúteis...

Agora elas vêm a mim batem na minha porta com a insistência de um inseto moribundo & me seguem pelas ruas chocando-se com os meus pés sujos & atropelando-me com sua força de poeira pouco condensada Querem entrar nesse fólio & então sobreviverem de uma forma à esmo a mais um inverno sobreviverem figurativamente nos astrais da poesia figurativa Elas vêm & querem me seduzir com suas mínimas exuberâncias pueris suas exuberâncias de inutilidades & esfacelamento Me seguem pelas estradas correndo atrás de mim na velocidade da erma ventania desleixada por debaixo dos viadutos & pelo bueiros elas emergem & gritam um grito de amassamento de sequidões

para então aqui agora estarem perpetualizadas em uma obra banal Um breve poema de rodopios de folhas ao vento...

“viva como uma árvore que caminha!”

aqui se encerra este livro.

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