matéria escura

o amor como transparência

microbra
ATDACC/c
Introdução:

O amor só pode ser transparente...

Pela natureza inerente do Universo, somente a matéria escura sustém tudo que há,
inclusive a distância necessária para o amor acontecer entre dois corpos.
Das três concepções clássicas de “Amor” dos gregos, Éros, Ágape e Philia,
somamos mais algumas ao longo da grande aventura dos amantes neste mundo,
primeiro o amor Dionisíaco, depois o amor de Hades, recentemente fomos iniciados no Amor-fati,
e agora propomos o amor como Transparência.

Esse “Transpamor” o definiremos poeticamente em um conto ao fim dessa micro-obra,
porém vale o conceitualizar agora:
‘Amor como Transparência’: ato ou efeito de fundir os opostos em um só instantâneo paradoxal.
Transparentemente então, buscamos amar a partir de agora!

e. m. tronconi

Uberlândia – Brasil / Outono de 2017
“O amor é a compensação da morte.”
Schopenhauer
Transparência

Ela o acordou antes do sol raiar, jurava que em seus ouvidos repercutira o som de uma explosão de estrelas a
bilhões de anos-luz de distância.
Na penumbra do quarto tocou o corpo dele com uma força carinhosa.
Se debruçando sobre ele, sussurrou perto do ouvido, perguntando se já havia despertado:
- Tá acordado? Abre os olhos... quero te falar uma coisa...
Ele espreguiçou, cedendo, espantando o resto de sono que ainda permanecia na face, e se virou totalmente
para ela, acariciando sua nuca por entre as mechas cor de canela.
Olhando-o nos olhos, o azul no castanho, ela disse:
- Ontem... quando fizemos amor... foi a melhor vez da minha vida. Nunca vou esquecer, obrigada!
E libertou um sorriso singelo, enquanto os olhos dos dois se enchiam de lágrimas que eram reivindicadas pelo
nó em suas gargantas e a explosão suave em seus corações, que expandiam além do bater, espremendo algo
na alma para aquele pranto de felicidade.
Ele a puxou mais para si, abraçando-a como se abraçam os que estão deitados, dizendo entrecortado pelo
nó que apertava e o laço que expandia:
- Oooo... branca! Eu que não tenho palavras para agradecer tudo que você me dá!
E as lágrimas, gotas do humor erótico que permanecia desde as altas horas daquela madrugada escorreram
ainda mais. Eles as haviam chorado depois daquele citado amor, e foram dormir logo, sem dizer nada, para
acertarem essa conta pela manhã, na qual ela não esqueceu e não deixou vencer ou passar.
Pensando sobre seu prazer daquela vez, e sobre o prazer dela, ele disse:
- Eu só imagino, não alcanço, o que para você, é sentir prazer. Você me abraça com carne e calor, abraça
esse mínimo segredo do sexo, deixa-se ser penetrada, e dessa invasão colhe o gozo. Isso, assim, para um
homem não é lá muito agradável! – disse, e riram juntos, baixinho, pensando sobre a condição de um homem
ser penetrado, esquecendo das implicações e dos detalhes que outros poderiam discordar... Ele continuou:
- Nós, homens, eu, tiramos nosso prazer do violar, mas isso para mim, quando te amo, já não basta. Eu quero
te penetrar não como quem invade, viola, fere... Eu busco desesperadamente entrar em você como se
sobrepõem duas transparências, ou como uma tinta que tinge a água limpa...
Ele falava dos carinhos dispensados a ela, sementes de todo aquele prazer que ela agradecia. Quando a
amava, invariavelmente ele sempre chegava a uma barreira intransponível, aquela que separa os corpos, a lei
física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço e no tempo.
Naquela noite... daquela vez, ele partiu para o amor já com essa angustia no espírito, e procurou entrar nela
não como matéria, mas com energia, entrou não somente pela porta que diferencia macho de fêmea, tentou
desesperadamente penetrar nela pelos olhos, pelos poros, pelos cabelos, pela pele, pelos ouvidos, por cada
dobra do corpo dela, com beijos, inspirações, mordidas, apertos tenros, e enfim, quando ela implorou, com
beijos na boca.
E ela, passiva, entendera, se abriu, o recebeu, sorveu seus toques, cantava a cantiga do gemido para guiá-lo
e tranquiliza-lo em sua desesperada busca, acolhendo-o, absorvendo a tensão de ambos na busca do repouso.
E fora por tudo isso, por saberem se amar, por saber dar e receber e ir além, que aquela tinha sido “a melhor
vez” de ambos; eles copularam, se amaram, gozaram, não como se fossem dois corpos, cada um com seu
prazer, mas como se fossem um.
Em só... êxtase! E o êxtase, é o único infinito que um homem e uma mulher podem conhecer...
Aqui
se encerra
esse livro.
Eduardo Moura Tronconi

*blog:
A Textura desse Abismo chamado Consciência
www.texturadoabismo.blogspot.com.br
*cont@ato:
emtronconi@hotmail.com
= Matéria Escura – O Amor como Transparência=
textos e ilustrações de autoria de e. m. tronconi

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