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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

Componente Curricular: EDC248- Educação e Identidade Cultural - 2017.2


Prof. Ana Katia Alves dos Santos
Aluno: Lucas Gesteira Ramos da Silva

Resenha do livro “A Identidade Cultural na Pós-Modernidade” de Stuart Hall

Em seu livro, Stuart Hall aborda questões pertinentes à noção de identidade e as


transformações que a mesma sofreu desde o iluminismo, atravessando a modernidade até chegar
na pós-modernidade. Ele afirma, desse modo, a influência do contexto histórico-social nisso que
nós chamamos de identidade, como também traz exemplos de que formas as identidades são
usadas como um dispositivo político para influenciar o contexto em que ela se encontra. Assim,
Hall traz três noções distintas de identidade que ele identificou em sua análise:

O primeiro é o sujeito do iluminismo, que se propõe a ser “singular, distintivo, único” e


indivisível. Também nesse contexto há um grande “descentramento”, por assim dizer. Não um
descentramento do sujeito, mas um descentramento daquilo que se acreditava estar no centro do
universo que outrora era Deus, na Idade Média, e que agora passava a ser o homem. O
iluminismo foi esse momento em que o homem acreditou que era possível decifrar os mistérios
do universo apenas através da razão e dessa forma decidiu colocar a si mesmo no centro, para
observar melhor. Essa valorização excessiva do sujeito configura o que se tornou de fato uma
ideologia individualista, na qual são apenas os interesses desse individuo-centro-do-universo
que importam. Indivíduo esse que tem gênero, classe e raça bem definidos: homem, branco e
burguês. Todos os demais, diferentes deles, não ocupam o lugar de sujeitos, como se
simplesmente estivessem aí para serem dominados por ele, assim como a natureza e os animais.
Segundo o pensamento de Descartes o universo seria composto por essas duas substâncias
distintas – a substância espacial (matéria) e a substância pensante (mente), no centro da qual ele
colocou o sujeito. Esse dualismo esteve presente de forma marcante na filosofia moderna como
a divisão através da qual pretendia-se explicar o universo e que está presente ainda hoje no
conhecimento academicista que se produz hoje em boa parte do meio acadêmico.

Entretanto, uma ideia que o próprio Hall afirma em seu texto é que nós tendemos a
olhar pra nós no presente e acharmos que é isso o que sempre fomos, embora continuemos em
eterna transformação. O homem, sujeito essencial e indivisível do iluminismo olha pra si
mesmo sem considerar que ele próprio não era assim até pouco tempo atrás, e cai na ilusão de
crer nesses rígidos moldes que ele mesmo decretou. Esquece-se que o tempo é rei e tudo há de
chegar o momento de ser devorado por ele.

Conforme avançamos no tempo no século XVIII ainda é possível ver o rastro deixado
pelo sujeito do iluminismo, mas as transformações que aconteciam na própria modernidade
requisitava que se desse conta do novo contexto histórico, fazendo com que surja uma outra
noção de sujeito. Segundo Hall:

“À medida que as sociedades modernas se tornavam mais complexas, elas


adquiriam uma forma mais coletiva e social. As teorias clássicas liberais de
governo, baseadas nos direitos e consentimento individuais, foram obrigadas a
dar conta das estruturas do estado-nação e das grandes massas que fazem uma
democracia moderna” (HALL, Stuart, 1992)

O individuo não mais é entendido como indivisível e imutável, mas passa a ser visto em
relação à sociedade na qual está inserido. Foi necessário dar conta dessa relação entre o sujeito e
a sociedade em que ele se encontra, passando-se a admitir a influência de um no outro - a
“internalização” do exterior e a “externalização” do interior do sujeito. O dualismo cartesiano
sofre, portanto, uma nova adaptação passando a ter de um lado o sujeito e do outro a sociedade.
Em nível epistemológico esse entendimento acarretou na divisão das ciências sociais entre a
psicologia, destinada ao estudo do individuo, e as demais ciências, responsáveis pelo estudo da
sociedade. Entretanto, o discurso continua com uma perspectiva individualista que perpetua a
ideia de um sujeito que é o centro do mundo e cujas vontades, necessidades e interesses são
prioridade.

Esse sujeito, entretanto, vai ser descentrado através de uma série de rupturas nos
discursos da ciência ao longo da modernidade. Ou seja, o sujeito começa a ser entendido sobre
outras perspectivas que negam e desafiam a que estava em vigor na época. Stuart Hall nos
enumera cinco grandes avanços que ajudaram no descentramento do sujeito durante a
modernidade. O primeiro é a releitura do pensamento de Marx à luz do seguinte trecho de seu
discurso “os homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhes são dadas”. Assim

“ao colocar as relações sociais (modos de produção, exploração da força de


trabalho, os circuitos do capital) e não uma uma noção abstrata de homem no
centro de seu sistema teórico, Marx deslocou duas proposições-chave da
filosofia moderna: que há uma essência universal do homem; que essa essência
é o atributo de ‘cada indivíduo singular’ o qual é seu sujeito real”. (HALL,
Stuart, feat ALTHUSSER, Louis, 1966)

O segundo momento que, para Hall, contribuiu para o descentramento do sujeito foi a
descoberta do inconsciente por Freud. Ele nos diz:

“A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de


nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do
inconsciente, que funciona de acordo com uma “lógica” muito diferente daquela
da Razão arraza com o conceito do sujeito cognoscente e racional provido de
uma identidade fixa e unificada.”

Segundo o pensamento psicanalítico, portanto, o sujeito é formado através do contato


com o outro. Entretanto esse não é um processo consciente, como pensavam as teorias do
sujeito sociológico, e sim inconsciente. Lacan, outro pensador psicanalítico afirma que a
formação do “eu” se dá no olhar do outro, ou seja, através das formas que nós imaginamos ser
vistos por outros. Assim, a identidade, permanece sempre incompleta e em constante formação,
de tal forma que sob essa lógica seria mais correto falar em identificação enquanto um processo
em vez de identidade.

O terceiro momento que Hall nos coloca foram os trabalhos de Ferdinand de Saussure
no campo da linguística que trouxeram um olhar inovador para o assunto, e que mais tarde
culminaria no nascimento de uma nova ciência, a semiologia. Ele afirma que a língua preexiste
a qualquer falante, que nós estamos situados dentro dela, e só é possível se expressar fazendo
uso das regras que a organizam: “A língua é um sistema social, e não individual... Não podemos
em qualquer sentido simples ser seus autores. Falar uma língua não significa apenas expressar
nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de
significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais”.

Além disso, a língua é como um organismo vivo, que não pode jamais ser fixado. O
significado das palavras muda através do tempo, umas entram em desuso e outras surgem de
maneira espontânea. Nenhum sujeito tem o poder de fixar o significado de nada, pois as
palavras vivem num constante vir-a-ser, e a mesma coisa ocorre com sujeito. “Como diria
Lacan, a identidade, como o inconsciente, ‘está estruturada como a língua’”.

O quarto descentramento que Hall cita é o que ocorre no trabalho do filósofo e


historiador Michel Foucault. Esse ocorre quando Foucault fala no seu discurso sobre aquilo que
ele chama de “o poder disciplinar”, que tem como preocupação a vigilância e o governo da
espécie e populações humanas, do indíviduo e do seu corpo. Dreyfus e Rabinow afirmam,
citando Foucault:

“O objetivo do ‘poder disciplinar’ consiste em manter ‘as vidas, as atividades, o


trabalho, as infelicidades e os prazeres do indivíduo’, assim como sua saúde
física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e
disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento
especializado dos profissionais e no conhecimento fornecido pelas “disciplinas”
das Ciências Sociais”.

O pensamento de Foucalt, portanto, lança luz sobre esse poder que influencia e
regulamenta com grande rigidez a sociedade moderna na qual ele se encontra, num processo que
leva à individualização do sujeito, alienando-o da vida conjunta com outros seres humanos. No
momento em que ele tece sua crítica sobre esse modelo contribui, de alguma forma, para o
descentramento desse modelo em um nível epistêmico.

O quinto descentramento de que Hall nos fala é o que ocorre devido ao impacto do
feminismo na sociedade, enquanto crítica teórica e enquanto movimento social. Ele ganhou
força durante os anos sessenta, que segundo Hall foram um marco da modernidade tardia. Esse
movimento tem alguns aspectos diferentes em comparação com os descentramentos anteriores,
dos quais podemos destacar o fato de ser um movimento que afirmava-se tanto nas dimensões
subjetivas e epistémicas quanto nas dimensões objetivas, da prática política de fato. Assim, esse
movimento juntava e junta ainda hoje multidões a partir do seu discurso, que tem um caráter
contrahegemonico e leva também ao descentramento do sujeito (que até então era sempre tido
como do sexo masculino). Para além do feminismo, um processo semelhante aconteceu também
com o movimento negro, homossexuais, pacifistas, etc. Configou-se de fato movimentos que se
baseavam na “política de identidade”, nos quais cada movimento apelava para aqueles que
pertenciam a esses grupos sociais e assim se organizava. O movimento feminista se destaca não
só por ser muito forte, como pelas importantes contribuições entre as quais é preciso citar: o
questionamento da tradicional distinção entre o público e o privado; a politização da identidade
e do processo de identificação; e o questionamento à proposta de tratar homens e mulheres
como tendo a mesma identidade como “humanidade”, substituindo-a pela diferença sexual.

Após nos fazer percorrer esse trajeto através do qual a noção de identidade sofre
transformações desde o sujeito do iluminismo, Hall vai concentrar a sua análise em um tipo de
identidade específico, que é o das identidades nacionais.
Novamente, desde o momento que a ideia de identidade nacional ela parece que sempre
esteve aí, e que não é possível ser ninguém sem ela. Essa ideia é inventada no momento em que
as fronteiras políticas e territoriais passam por reconfigurações, quando se criam os estados-
nações, e tem como objetivo dar um sentimento de pertencimento àquela terra para os que
viviam nela. Hall nos diz que “uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir
sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós
mesmos”. Esse discurso se significa na medida em que avança e retrocede no tempo, e é
portanto também uma narrativa, que tem como objetivo nos situar de onde viemos (através de
mitos fundacionais) como também pretende nos orientar em qual horizonte miramos o nosso
próprio futuro, que deve ser entendido como parte do futuro da nação. Desse modo, o que o
movimento nacionalista busca fazer é unificar os povos que viviam ali onde definiu-se como
território do estado-nação para ter melhor controle sobre eles, sendo para isso necessária a
subordinação das identidades regionais e étnicas que já existiam diante da identidade nacional,
supostamente mais importante que as outras.

Em seguida Hall questiona o quão bem sucedido realmente foi esse processo,
analisando o cenário global. Hall faz uma citação à Ernest Renan na qual ele diz que “três coisas
constituem o princípio espiritual da unidade de uma nação: ‘a posse em comum de um rico
legado de memórias..., o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar, de forma
indivisiva, a herança que se recebeu’”. Por outro lado, as identidades nacionais tem uma origem
extremamente artificial, que na maioria dos casos aconteceu através de conquistas violentas e da
supressão de identidades étnicas ou regionais específicas em favor da identidade nacional. Ao
mesmo tempo, em muitos casos essas identidades étnicas ou regionais se mantiveram, o que faz
com que uma nação tenha seja composta de maneira plural e atravessada pela diferença. Temos
exemplos claros disso no mundo, vide países onde há forte sentimento separatista de um ou
mais de seus estados, e grupos étnicos que vivem em guerra, disputando territórios. Isso tudo
vai sofrer a influência de mais um fator marcante na pós-modernidade: a globalização.

Segundo Hall a globalização é esse processo que o mundo vem vivendo de compressão
do espaço-tempo, em que é possível ter acesso a coisas que acontecem do outro lado do mundo
em tempo real, e conhecer culturas completamente diferentes daquela que vivemos com uma
facilidade maior do que em qualquer outro tempo vivido no planeta terra. Assim, o espaço
diminuiu de tamanho e o tempo também encolheu. As representações simbólicas e culturais que
nós produzimos enquanto seres humanos transitam nesse espaço-tempo encolhido, e passam a
influenciar e sofrer influência em/de vários lugares ao mesmo tempo. A identidade, como parte
fundamental desse sistema simbólico e cultural acompanha esse movimento, e influencia como
também é influenciada seguindo também essa lógica. O que ocorre, portanto, é que nós
passamos a ser formados também de muitos “eus”, cada um decorrente a um dos lugares que
nos interconectamos, o que faz com que a nossa identidade seja então fragmentada. Hall nos diz
que nós “somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo
apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece ser possível
fazer uma escolha”.

Ao mesmo tempo existe uma parte da nossa identidade que é comum a grande parte do
mundo, que é a identidade do consumidor, visto o sistema capitalista em que estamos inseridos.
Mesmo nos países mais distantes, o capitalismo transforma todos em consumidores, e busca
difundir a ideologia de que, quanto mais você consumir, melhor será tanto pra você quanto pro
seu país – pensamento que vem sendo aceito e internalizado por um número imenso de pessoas
em todo o mundo. Ou seja, sob essa lógica estamos caminhando para uma identidade global e
homogeneizada.

Em contrapartida, vemos diversos movimentos com posicionamentos políticos


extremamente diferentes que buscam a reafirmação da cultura local. Um deles é o que entende
que, no processo de globalização, a identidade que conseguir manter mais características
próprias será mais atrativa para o mercado internacional, que estará sempre em busca do
diferente, do “exótico”, sujeitando-se a lógica da mercantilização. Também temos que
considerar que a globalização acontece de maneira desigual ao redor do globo, o que significa
que nem em todo o lugar há um fluxo tão rápido de informação, e nesses lugares mantém-se em
maior ou menor grau a cultura característica daquela região. Além disso existem os
movimentos fundamentalistas, que valem-se das particularidades culturais daquela região
(frequentemente vinculadas à religião) para construir um certo discurso ou uma narrativa que se
aproxima um pouco do modelo de estado-nação, mas que não necessariamente tem limite nas
fronteiras demarcadas entre os países. E temos, é claro, as pessoas que já nasceram ou que
viveram o processo de diáspora, que atingiu diversos povos e etnias, como os judeus, os
africanos e os refugiados de guerras... Povos que afirmam e enaltecem a sua identidade para se
sentirem pertencentes a algum lugar e estarem conectados a outras pessoas em que se
reconhecem.

Podemos observar, portanto, algumas diferentes influências que permeiam a questão das
identidades na pós-modernidade: A fragmentação da identidade em diversas identidades; o
movimento que tende à homogeneização das identidades; movimentos que tendem a
perpetuação das diferenças culturais e identitárias por motivos diversos; e podemos acrescentar
também a criação de novas identidades híbridas.

No contexto da pós-modernidade podemos perceber que há, de forma crescente, a


necessidade pela criação de identidades que nos contemplem da maneira que melhor se adeque à
realidade em que vivemos. Um exemplo interessante disso é a identidade “negra” que se criou
em decorrência do processo de colonização e da escravidão. Antes disso, não existiam pessoas
que se reconhecessem como negros: existiam apenas os povos e as etnias extremamente
diversas e que tinham, como traço com comum, a cor da pele ser negra. Isso não fazia que elas
reconhecessem uma proximidade, pelo menos até a chegada do colonizador. Ele determinou que
todos aqueles eram negros, escravizou-os, colocou-os todos num navio e o transportou para um
continente novo. Ali, as diferenças entre os povos e as etnias também diminuíram: todos
passavam a partilhar a mesma condição de escravos, e partilharam entre si os conhecimentos de
onde vieram. Seus filhos já nascem num continente novo, sem terem pisado jamais os pés na
África, e assim a noção de identidade e de pertencimento vai também se alterando.

Esse é apenas um exemplo entre muitos que poderiam ser citados de que forma foram
criadas novas identidades para dar significado a um contexto que é, também, diferente daquele
em que se encontrava antes. Embora fragmentadas, as identidades parecem percorrer, de alguma
forma um caminho que busca uma certa estabilidade, que já não é mais a mesma do sujeito do
iluminismo “singular, distintivo e único”. Afinal, é fundamental sentir-se parte de algo, mesmo
que seja impossível nos reconhecermos como pertencentes a apenas um lugar, no contexto em
que vivemos.