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Lampião o mata- sete

João da Mata Costa

Lampião – O rei-do-cangaço
Um folhetim amoroso do Cangaço
Final do ano de 2011 foi lançado mais um livro sobre o cangaço.
Trata-se de “Lampião o mata – sete” ( Aracajú 2011), escrito pelo
juiz de direito aposentado, Dr. Pedro de Morais. O livro tenta
mostrar que Lampião era homossexual e covarde. Personagem
controversa ninguém nega a brutalidade dos métodos
empregados pelo facínora lampião. Castrou e matou
impiedosamente. Quanto ao fato de lampião ter sido gay pouco
importa. Dizer que lampião era covarde, é uma tese no mínimo
discutível. O Homem que lutou durante quase duas décadas
contra sete estados nordestinos não pode ser considerado um
frouxo. Tinha estratégias, sim. Lutava quando sabia que ganhava.
Lampião e sua Máquina Singer

Cheguei há pouco tempo de Sergipe, terra de muitos cangaceiros


e estudiosos do cangaço e ninguém é sabedor dessa vertente
boiola na vida do temível Virgulino Ferreira da Silva. Conversei
com o grande Alcino Alves da Costa – um dos maiores
estudiosos do cangaço- e ele acha simplesmente um
invencionice delirante essa tese. Estive na Gruta de Angicos onde
Lampião foi assassinado em 1938 e foram arrancadas as cabeças
dos cangaceiros trazidas e expostas em Piranhas- SE. Quero
dizer com isso que os métodos empregados pelas forças armadas
de república brasileira não eram menos violentos que os
empregados por Lampião. Quero lembrar também que a
matança como no tempo de Lampião ainda hoje ocorre no
nordeste brasileiro, região onde Lampião e seu séquito reinou
numa quadra do século XX.
Em Visita à casa de Alcino. Vendo-se na foto o editor Abimael,
Inácio Sena ( estudioso do cangaço ), Homero Costa, João da
Mata e Alcino Alves Costa

A tese defendida pelo ex-juiz de que Lampião era a homossexual


e Maria Bonita uma adúltera, e os dois, mantinham um triangulo
amoroso com o cangaceiro Luís Pedro, é insustentável e o juiz
apela na sua demonstração sofrível e adjetivada. “Luiz Pedro – o
amante” matou o seu querido irmão. Que Lampião tinha uma
amizade chegada até demais com Tonho da Rosa. A força da tese
do juiz é proporcional ao numero de adjetivos empregados numa
forçada demonstração de uma tese insustentável.
Casa de Maria Bonita – Maria de Déa

Para o juiz Lampião era um moço de fino trato dedicado a


delicadeza. Mestre em arrumar festas. Perfumado, mas o bando
ara conhecido pela sua imundície. Para onde iam eram
acompanhados pelos urubus. Continua o juiz descrevendo a
“choldra maldita” comandada por Lampião, o covarde, o
velhaco, o sicário: Lampião era uma peste moralmente
corrompida, moralmente desequilibrado, insuficientemente
macho para empreender uma vingança, etc. Mas o juiz não se
cansa de adjetivar: Lampião – rei de todos os facínoras
famanazes, frouxo capitão, frousura, etc.

Leio tudo sobre o cangaço e tenho uma boa lampionica, mas


esse livro–folhetim não traz nada se novo na elucidação dessa
grande saga que continua a encantar e inspirar artistas e
estudiosos de todos os rincões. O livro do ex-juíz é apelativo até
na capa. O título de Lampíão Mata-Sete vem emoldurado por um
chapeú cor de rosa cheio de lacinhos e adornos.
Muito distante do chapeú de couro universalmente conhecido
inspirado em Napoleão com abas ornamentadas em alto-relevo
com seis sinos de Salomão, barbicacho de couro de 46
centímetros de comprimento e ornado em ambos os lados com
cinqüentas peças de ouro. Lampião tinha três anéis: um de pedra
verde, outro uma aliança e o terceiro de identidade gravado
“Santinha”. A testeira de ouro de quatro centímetros de largura
e vinte e dois centímetros de comprimento, onde eram afixadas
moedas e medalhas – duas com gravações “Deus te Guie” , duas
libras esterlinas, uma moeda brasileira de ouro, com a efígie de
Petrus II, de 1855 e mais duas outras moedas em ouro.

Ate na anatomia onde as balas atingiram Lampião em combates,


o juiz falha na sua descrição (pp 83, ao descrever a bala que
atingiu Lampião na virilha e o incapacitou para macho ). Em
mais um delírio do juiz ele diz que em um dos combates travados
pelo bando de Lampião, o que mais lamentou o rei dos
cangaceiros foi a perda de sua máquina de costurar Singer. Para
o juiz costurar é sinônimo de gay. Pobre tese e argumentação.
Fosse assim meu pai tinha sido gay, pois costurou durante muito
tempo de sua breve vida.

Em artigo postado na internet, no importante site dedicado ao


cangaço (http://cariricangaco.blogspot.com/2011/11/lampiao-o-
mata-sete-poralcino-alves.html ), escreve o grande estudioso do
cangaço - autor de vários livros sobre o assunto – Alcino Alves
Costa .

“Dizer-se que Lampião era homossexual e Maria Bonita uma


adúltera, e os dois, Lampião e Maria Bonita, coabitavam com Luís
Pedro, vivendo assim, em plena caatinga, um triângulo amoroso,
é algo que em sã consciência ninguém tem o direito de acreditar.
Eu sei muito bem que pessoas descompromissadas com a
verdadeira história do cangaço e de Lampião tiveram o desplante
de dizerem ou registrarem essas verdadeiras aberrações. Porém,
um homem do quilate, da hombridade e da nobreza de caráter
do Dr. Pedro não merecia participar desse pequenino grupo de
pessoas que registraram tão medonhas distorções da história
cangaceira. Lampião jamais foi um gay. Aliás, em toda história do
cangaço, desde os seus primórdios não se registra nenhum
homossexual nos grupos cangaceiros. Luís Pedro tinha a sua
companheira, a cangaceira Neném, morta na fazenda Mocambo,
em Sergipe. A afirmativa de que o grande cangaceiro, do
povoado Retiro, em Triunfo, Pernambuco, era amasiado com
Maria Bonita e o próprio Lampião é uma coisa deplorável, uma
mentira monstruosa que nasceu da mente doentia dos mal
intencionados. Quanto a Lampião ser um estilista, afirmação de
um dos maiores pesquisadores da história cangaceira, eu
contestei essa esdrúxula afirmativa, inclusive em artigo para este
jornal, mostrando que o tão considerado escritor estava usando
apenas o seu ponto de vista, nunca a verdade sobre o viver e a
conduta de Lampião”.

Em nossa opinião; Virgulino Fereira, o Lampião, foi um sertanejo


produto de sua época e região comandada por coronéis onde a
lei que o juiz estudou valia pouco. A desigualdade era a marca
de uma região de escassez e muita miséria. A falta de opção era
gritante e muitos entraram para o mundo do cangaço pelo
fascínio desse mundo de aventuras e crimes hediondos.
Lampião foi um terrível criminoso – ninguém nega- igualmente
corajoso e estrategista. Essa é na nossa tese com base nos
muitos combates defendidos em vinte anos por Lampião. O
homem que desafiou vários estados brasileiros ao mesmo tempo
não pode ser frouxo, como advoga o juiz em seu livro-folhetim-
apelativo. Ser cangaceiro não era necessariamente por vingança.
Podia ser sinal de valentia e poder, numa terra sem lei
comandada por coronéis e foras da lei.

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