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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a
um novo nível."

Sumário
Capa
Folha de rosta
Nota à edição brasileira
A Máquina Diferencial
Primeira Iteração
O Anjo de Goliad
Segunda Iteração
Dia de Derby
Terceira Iteração
Lanternas Furta-fogo
Quarta Iteração
Sete Pragas
Quinta Iteração
O olho que tudo vê
Modus
As Imagens Tabuladas
Extras
Posfácio
Guia de personagens
Glossário
Fontes
Mapa - O mundo de A Máquina Diferencial (1855)
Créditos e copyright
Notas de rodapé

Nota à edição brasileira

Em meados dos anos 1980, William Gibson e Bruce Sterling – dois dos
maiores nomes da ficção científica contemporânea – uniram história, tecnologia,
imaginação e muito talento para criar o inusitado universo de A máquina
diferencial. A obra se tornaria um marco da literatura steampunk – um subgênero
da ficção científica que mescla elementos clássicos da estética vitoriana e
engenhos a vapor.
Publicada pela Aleph em 2012, a obra volta com capa inédita. Esta nova
edição, especialmente preparada não apenas para os fãs do gênero, mas para
todos que apreciam a boa literatura, também passou por uma nova revisão.
A tradução meticulosa exigiu extensa pesquisa histórica e linguística, com o
intuito de adaptar com maestria todos os aspectos desta complexa obra.
Expressões idiomáticas, trocadilhos e referências literárias foram esmiuçados e
adaptados para o português, buscando sempre manter a aura do século XIX
presente nos diálogos e descrições. Também foi incorporado o posfácio escrito
pelos autores à época da edição comemorativa de vinte anos da obra, no qual
Gibson e Sterling fazem uma releitura e uma reavaliação do trabalho.
A edição também conta com material exclusivo, elaborado pela equipe
editorial da Aleph, que busca auxiliar o leitor na travessia do mar de referências
históricas e peculiaridades do livro. Há um guia de personagens, tanto históricos
como ficcionais, e um glossário dos termos pouco comuns – específicos,
arcaicos ou simplesmente inventados pelos autores –, além das fontes
consultadas para a construção de ambos.
Esqueça o hoje. Esqueça o ontem. Retorne até 1855. Bem-vindo a uma
Inglaterra como nunca concebida...

flertam. dona da casa. É dia 15 de janeiro de 1855. Essas mãos consistem de tendões. . Sua atenção está fixada no céu. um jardim. repousa as mãos artríticas sobre o tecido feito em tear Jacquard. aeroplanos minúsculos não tripulados mergulham e sibilam contra o horizonte vermelho ao fundo. a música de Londres: os passageiros desfilam. uma corrente de ar quente agita os cabelos brancos soltos no pescoço. Seu nome é Sybil Gerard. Uma casa de campo.. junto às muralhas de Newgate. Por meio de processos silenciosos de tempo e informação. Como estorninhos. Um quarto no Grand’s Hotel. trepadeiras sem folhas entrançam treliças de madeira nos muros cuja camada de cal está descascando.. num jardim formal abandonado. tecido. bebem. a mente vai formando perspectivas. Os pensamentos vêm de modo espontâneo. Abaixo dela.. há tanto tempo. para revelar a cadeira de rodas e sua ocupante. ela imagina uma música distante lá. num desvio ágil como a luz. abrindo caminho na multidão em Temple Bar. a cidade da Memória insinuando-se ao seu redor. jasmim e ópio. uma sacada. pensa Sybil. Elimine as linhas curvas em aço fundido da sacada. aprendera a voar sozinho. com a graça incomparável da função orgânica. CODIFICADA OPTICAMENTE pela embarcação de escolta da aeronave transcanal Lorde Brunel: vista aérea das cercanias de Cherbourg. E a Memória faz a curva.. À frente desse esplendor. para outra estrada deserta – na qual é sempre noite.. Ela recorda sua vida em Londres. Lembra-se de si mesma. articulações. Das janelas abertas do quarto da enferma. na silhueta de imensa e fascinante graça – o metal.. Sem esforço algum. A ocupante. Piccadilly. Segue em frente. trazendo odores de fumaça de carvão. caminhando pelo Strand. que no intervalo de tempo da vida dela. acumulando significado a partir de emoções e lembranças. 14 de outubro de 1905. O reflexo do pôr do sol cintila nos raios niquelados da cadeira. talvez dancem. fibras no interior das células humanas entrelaçaram-se para formar uma mulher. Até que. surge a sombra do enforcamento de seu pai.FOTOMONTAGEM. As luzes dos aeroplanos – janelas quadradas da cor do ouro – sugerem calor humano.

Sybil estremeceu. parecia-lhe mais um habitué do Kellner. Uma de suas manifestações. farta de bife com batata e chocolate quente. Um hotel novo e reluzente com aquecimento central a vapor. o rosto meio oculto pela ponta aquecida do cobertor. pois tivera um bocado de sorte até ali. Outra estava coberta de roupas: um mantelete feminino debruado. Assim era ele. resmungando sobre algo que tivesse em mente. – Você sabe que só cortejo cavalheiros. Mick Dândi Radley. a respiração de Londres abastecida pelo carvão. na Windmill Street. Os dedos do pé roçaram a canela dele. Isso a preocupava. ao passo que não atribuía nenhuma às suas meninas. Sybil deu-lhe um sorriso afetado. sob a opressão do inverno. O toque pareceu despertá-lo bruscamente de um estado de reflexão profundo. Sabe que não me importo com os lordes do Rad. maquinando. – Chega dessa vida de rameira amadora. mas não de infelicidade. presa com segurança sob a maçaneta de vidro lapidado. Havia uma cadeira escorada para trás. Ela havia conhecido Mick Radley na Academia de Dança de Laurent. pois o trato com “cavalheiros políticos” exigia sutileza e discrição. Sybil – disse Mick. estaria aqui com você agora? – Basta de fazer-se de meretriz. Muito sagaz. divertindo-se. Duas formas encontravam-se sob os lençóis na cama de bordo laminado com baldaquino e. O sorriso de garota má. Sybil deslizou os pés entre as alvas roupas de cama até sentir o calor da bolsa térmica de cerâmica envolta em flanela. uma conclusão a que sua mente hábil chegara. Sabia que ele gostava do sorriso. Eu os desprezo. Winterhalter não o teria aprovado. E a sra. – Mas se eu não fosse uma rameira devassa. o Big Ben anunciou as dez. – Dos mais vistosos. distante. saia de estamenha com crosta de lama. Mick. bajulando-o. Responda com uma piada. Agora que o conhecia bem. pensou. num hotel elegante. Mick torceu o nariz. na Leicester Square. então? – Um cavalheiro muito bem-apessoado – disse Sybil. Estava sempre pensando. ou mesmo do Portland Rooms. – Considera-me um cavalheiro. qualidades que a sra. na cama entre lençóis limpos. em forte e rouco som aerofônico. Winterhalter acreditava ter ela mesma em abundância. embora ela pudesse ter trocado com muito gosto o gorgolejo e o sacolejo . uma calça masculina xadrez e fraque. Não deve estar falando a sério.

Sabe que viajo com o general. Sentiu na boca um gosto que lembrava ferro frio. uma vez que Mick era um cavalheiro que gostava de viajar. sei tudo sobre você. – Tenho meus motivos. Sentou-se na cama. Camisão de seda todo bufante. Um olhar ávido. – Você deixa sua cédula na bolsa – ele disse. querida. era sempre política. Ela tinha consciência de que não duraria muito. depois medo. Os homens geralmente tinham vontade de conversar. tinha cobre e era generoso. – Há quanto tempo sabe a meu respeito? – Desde nossa segunda noite. Consegui sua identidade. mantinham viva a história. na maioria das vezes. esse Mick Radley. com renda na frente – Mick só usava do melhor. E era um sujeito bonito. – O que quis dizer com isso. na academia de Laurent. – Portanto. Mick observava seu rosto. Sybil? – Por que não odiaria? – disse Sybil. Sei quem você é.inquietos do radiador com arabescos dourados pelo calor de uma lareira bem abastecida. sr.. e logo partiria. Assim como . ra-tá-tá-tá. e talvez ainda mais depois que a deixasse. usava roupas muito vistosas. Radley? – Não é Sybil Jones. e o olhar de superioridade distante que ele lançou em seguida causou nela um arrepio. a filha de Walter Gerard. e nunca exigira nada esquisito ou bestial. parecia querer conversar um pouco. quando ele a espiou pela primeira vez. caso conseguisse fazê-lo sentir-se triste – e generoso – na hora da partida. e ela reconheceu o olhar que já vira dantes. – Levei o número a um magistrado excêntrico que conheço. – Eu diria que tem – Mick disse devagar. sorrindo diante do que via. zumbindo em algum lugar. Ela foi tomada por surpresa. no meio da multidão. A voz dela ficou trêmula. Passou-o por uma Máquina do governo para mim e imprimiu o seu arquivo da Bow Street. Mas via benefícios nele. – Deu um sorriso malicioso. então. como brincadeira. Você é Sybil Gerard. após algum tempo – sobre as esposas. Ele invadira seu passado oculto. Mick? – Conheço seus motivos para odiar o governo. Mick recostou-se nos travesseiros altos de plumas e deslizou os dedos de unhas feitas para trás da cabeça com a mecha de cabelo sobre a testa. ela tinha de admitir. garota. – Quer dizer que você odeia os lordes. Mas com Mick Dândi. Agora. Sybil tentou um tom atrevido: – E quem sou.. Máquinas. o agitador ludita.

qual juiz ou lorde. Está frio . Mick franziu o cenho. Era uma questão de negócios.. – Volte para a cama – disse Mick. – Espiando uma garota indefesa – disse.. não me arrisco muito com estranhos. – Já ouviu falar dos Hell-Cats. Estava manipulando-a. Enfiou-se rápido. mas uso o maquinário do governo para servir aos meus propósitos particulares. Na couraça tiritante do espartilho branco.qualquer homem importante. fazendo dela sua criatura. Todos gritamos com entusiasmo até doer a garganta! Os bons e velhos Hell-Cats. Ele era fascinante. no casaco. Mick balançou a cabeça. esse era Walter Gerard. – Posso até espiar. finalmente. – Meu herói.. – Quando fiquei sabendo que o julgaram e enforcaram. Ela entendeu agora – a generosidade de Mick e sua fala amável. – Desordeiros de Manchester. Isso foi obra de Ned Ludd. – Tocou com delicadeza a frente do camisão. – É mesmo um tratante! Mas as palavras repulsivas não pareceram chegar a afetá-lo – era frio e rígido. pisando as tábuas geladas do assoalho. impaciente... Seu pai foi um herói. com leve sotaque manchesteriano. Sybil teve um sobressalto. em silêncio. garota. Sybil? Dos velhos tempos? – Uma gangue de rua – disse Sybil.. As Máquinas do governo têm memórias extensas. garota! Anos atrás. – Mick pôs a mãozinha ligeira e cruel no ombro dela. – Não fique nervosa. Como seu secretário e conselheiro. A filha de Walter Gerard. Não importa como os lordes do Rad o chamem agora. um prêmio especial para um homem como Mick. ele tem inimigos. ficamos furiosos e desvairados. Ouvi-o falar sobre os Direitos do Trabalho. na grande gaiola desconjuntada da saia de crinolina.. pode-se dizer. – Não é uma história que conto a muitos. preguiçoso. – A voz suave de Mick tornara-se aguda e penetrante. estranhos sinais que indicavam a ela planos secretos e prosperidade. No mantelete debruado. sr... – Éramos uma irmandade! Uma associação de jovens amigos! Seu pai nos conhecia bem. cartas marcadas e ases escondidos. no amontoado de roupas. Sybil afastou-se da cama.. Era nosso benfeitor político. Radley. – Preferiria que não falasse de meu pai. Ele mudou de posição no travesseiro. em Manchester. Não sou nenhum informante da polícia para menosprezar um revolucionário como Walter Gerard. – palavras qual gelo nas costelas de Sybil – eu e os rapazes pegamos em tochas e bestas. – Você poderia ser agente de alguém. de pantalettes e chemise.

– Lançou um olhar malicioso de triunfo. o próximo destino do general quando terminar seu roteiro de palestras em Londres. – Sybil Jones pode compartilhar sua cama. não? . srta. – Que propósitos são esses. Ninguém jamais disse que Mick Radley é indiscreto. a ópera havia terminado – a gentry com suas capas e cartolas. confusa. a alegre e glamorosa. – Não voltarei – disse Sybil. E não a denunciarei. nem mesmo a meu amigo. – Sim – ele disse –. observando-a –. – Vista sua saia e as botas boneca com salto de metal. seu desavergonhado – disse Sybil. Ela podia sentir. Pensou na questão. Vestígios brancos da neve limpa dos bairros residenciais ainda presos à carroceria cintilante do gurney a vapor de algum lorde. E o governo da França tem certas dificuldades que exigem o auxílio de peritos. Gerard. – Mick Dândi puxou os punhos de renda do camisão. Difícil mesmo encontrar um rosto amável entre as camisas plissadas e abotoaduras de diamante numa noite tão fria. é só até certo ponto. Ela recusou-se a olhá-lo. então. coçando o queixo estreito. Então. – Triste perda a minha. volte para a cama. – Mas percebo que a estou aborrecendo. Ele abriu um sorriso. Mas o general é um homem de estratagemas complexos. Prostitutas buscavam trabalho na multidão.lá fora. Cingiu com força os cordões do espartilho nas costas com um movimento rápido e hábil dos pulsos. Os cavalos dos cabriolés. o general. Do outro lado da rua. mas a filha de Walter Gerard é uma pessoa de princípios! Mick olhou-a com surpresa.. Sybil? – Paris? – A respiração dela formou uma névoa no ar. mas hesitou. onde o vidro coberto de gelo cortava o clarão refratado da luz a gás da rua. – A quem contou a meu respeito? – Não contei a vivalma – disse Mick –. Gerard. Ele tinha outra carta na manga. os olhos semicerrados. – Eu diria que sim. Pobres almas desditosas. lutando para entrar no espartilho. com um gesto dramático. e permaneceu ereta. irritada e muito apreensiva. pelo aspecto de sua expressão. – Mas se for – refletiu Mick. Mas seria grande lástima se partisse. ao lado da janela. vá. Uma garota sagaz serviria a meus propósitos. os pés descalços congelando no assoalho.. depois assentiu com um movimento de cabeça. que mencionei. e leve consigo todos os seus princípios. – Não é como está pensando. – Balançou a cabeça. não devo revelar por ora. tremiam e batiam as patas no macadame preto. – Sentou-se na cama e apontou para a porta. Sybil. com cobertores sobre o dorso. srta. Sybil voltou-se para Mick. – Já esteve em Paris.

No outro bolso. – Jamais estive com um homem que soubesse estar com Sybil Gerard. sem trapaças dissimuladas? – Honestidade absoluta. Posso telegrafar um pedido de passagens. num movimento suave. com sua esposa respeitável e indiferente. Comece a pensar com elegância. E uma tira de pergaminho impresso. – Seja uma boa menina e guarde-a de volta.. Mick riu dela. – Vai me levar a Paris. Sybil ficou irrequieta. – Veja no bolso direito da frente – Mick disse a ela. o homem que a arruinara. Esteve com Egremont. Mas Egremont não importava mais. vivia num mundo diferente agora.. com partida em Dover. – Estava divertindo-se.. Sybil foi até a poltrona de brocado no canto do quarto e puxou o sobretudo de Mick. tenho uma passagem no casaco. fala a sério. Dentro havia cartões de visita. Fundos. É a garota do Mick agora. – O porta-cartões. concordando com o argumento. Charles Egremont sabia muito bem quem era ela. passagem de primeira classe no Newcomen. – Vai precisar de duas passagens. Ainda está pensando como uma rameira amadora. encontrou o porta-cartões de couro marroquino vermelho. como se achasse graça da desconfiança dela. e vestiu o casaco. caso contrário não será de proveito algum para mim.. – Não faça essa cara de azedume. Ela falou devagar. Nada mais simples. Retirou uma pequena e indecente pistola Derringer de canos múltiplos. porém rápido. Sybil estremeceu novamente. franzindo o cenho. hesitante. então – ela hesitou –. de cor creme e rígido. com forro felpudo. Se não acredita em mim. claro. e apertou mais o casaco em torno de si. Sybil enfiou as mãos geladas nos dois bolsos. Lã escura de excelente qualidade – era como estar aquecida pelo dinheiro. se de fato pretende levar-me. A mão esquerda apanhou um bloco de metal frio e duro. – Que indelicado – disse Mick. Cabo de marfim. cartes-de-visite com o retrato dele pontilhado por Máquina e uma tabela com horários de trens de Londres. pare. seguro. na recepção. Mick – disse devagar –. Sybil recolocou o objeto no bolso. pequena como sua mão. Tremia incontrolavelmente. um alto investimento. a cintilação intricada de cães de aço e cartuchos de latão. – Era mentira. mas pesada. seus . tal qual segurasse um caranguejo vivo. – E outra para o trem de Cherbourg. lá embaixo. para a balsa de Dover. Mick assentiu.

. Pôde ver que Mick ficara satisfeito com a mentira. Sybil? Mais do que terras ou dinheiro. Ela e o pai haviam fugido de cidade em cidade. Havia graus de variação. Ela o odiava. abraçava-a e prometia-lhe sobriamente o mundo. Ele abriu uma caixa de charutos. envolta no casaco de Mick. – Então sente-se um pouco tímida comigo agora? – ele disse. retirou um cherrot e acendeu-o na chama oleosa de um fósforo de repetição. sótãos. poder-se-ia dizer. O ódio cedeu. – O que um sujeito sabe é o que conta. escondendo-se da Polícia Radical e dos punhais de conspiradores.. Sybil era capaz de lembrar-se de pessoas da estirpe de Radley. Um luxo. quando seus próprios discursos inflamados enchiam-no de ardente entusiasmo. e Sybil Gerard embaixo. Sabia a dimensão da queda de Sybil Gerard. com afetações e decoro. quando o Rei Vapor fosse destruído. E agora Mick Radley estava no topo desse mundo. Arrancar trilhos de trem. Sabia a espécie de menino que havia sido. Forçou-se a pensar em abandonar sua vida em Londres. Pura mágoa.. da infância. Dos dias de fama do pai. foi perdendo a pureza. não é mesmo. Os Radicais seguiam governando sem interrupção. não é? Mais do que o mero cobre? – Estreitou os olhos. mas apenas porque ele a conhecia de verdade. tornou-se vergonha. sim.filhos respeitáveis e sua posição respeitável no Parlamento. que se aglomeravam em volta de seu pai depois dos discursos à luz de tochas e faziam o que ele mandava. por sua tranquilidade e segurança. E. Sybil sentiu por ele um momento de ódio. sórdida. tão digna quanto qualquer garota da gentry. A promessa era tentadora. Ela viveria como uma moça da nobreza progressista numa Inglaterra verde e tranquila. Mas esmagou o sentimento. que fora um dia garota instruída. aguda e primitiva. Não exatamente. fosse o que fosse. – Bom.. desordenando o mundo como a um baralho de cartas. Paris. quartos alugados de anônimos. chutar a tampa das máquinas hidráulicas de fiar.. vendedores ambulantes. Quando Byron e seus Radicais Industriais fossem aniquilados por completo. finalmente. mas não totalmente desesperada. mais do que sua origem. Aquilo que sei dá-me um pouco mais de controle sobre você. Mas uma corda de cânhamo havia estrangulado seu pai. ela sabia. e quando se deixou acreditar nele. Era uma vida ruim. muitas vezes à noite. E Sybil não havia agido como uma iniciante com Egremont. houve um tremor ao fundo. morado em celeiros.. silenciando-o. Garotos das fábricas. Sentiu-se lisonjeado. Ela permaneceu em silêncio. Ainda . enchendo o quarto com o cheiro adocicado de tabaco de cereja. de vitória em vitória. às vezes. prefiro assim. colocar aos pés dele capacetes de policiais. como um raio. inferior. Informação.

Sabia que ele suspeitava dela. o sr. Chadwick e o sr. com as mãos cruzadas diante de si. enfie e ajeite. Whitechapel era uma alcoviteira. não precisa enganar a si mesma. Debaixo da saia. um dos vendedores da Aaron olhou para Sybil com indiferença. apenas apanhe. estava o xale que furtara enquanto Radley experimentava cartolas. Do outro lado do balcão com tampo de vidro. Sybil havia aprendido como furtar coisas – ensinara a si mesma. hein? – Puxou o espartilho dela com determinação. mas refinada e firme. – Deus – ele disse –. Não olhe para a direita nem para a esquerda. – Você é peculiar. no entanto. enfiado na armação da crinolina. Era preciso determinação. reservada. qual um anjo. com ares de garota da . com seu casaco preto e botas lustrosas. Winterhalter. – Você é uma moça sagaz – admitiu. Mick soprou a fumaça. e. Era preciso coragem simplesmente. como quem entoa um salmo. Sybil esperou Mick pagar. Sabe que me controla a rédeas curtas. seu gato. que a mantinha fora das ruas. O cobre constante. E nenhum dos dois homens tinha tanta liberdade com seu dinheiro quanto Mick Radley. isto sim. Volte para a cama. cada um. Ela forçou-se a sorrir para ele. mas não sou tão estúpida a ponto de não reconhecer um cavalheiro peculiar. Por que não usa chinelinhos. num momento de insensatez. sobre a saia.tinha coisas a perder. levante a saia. Seu quarto alugado em Whitechapel. Sybil lhe roubara as melhores abotoaduras. e pessoas da sua natureza eram difíceis de encontrar. Ela fez conforme ele ordenou. Havia a sra. Ele sabia que estava havendo algo fora do normal. Depois fique bem ereta. mas observando disfarçadamente sob a renda azul da touca. – Chinelos e meias de seda pretas. E perderia seus dois cavalheiros constantes. com meias de seda pretas. Mas Chadwick tinha uma esposa ciumenta em Fulham. que se encontravam com ela duas vezes ao mês. esse era o segredo. – Lisonjeadora. A sra. e o querido Toby. alto e arrogante. que providenciava encontros entre garotas fogosas e cavalheiros da política. seus benditos pés são duas pedras de gelo. Kingsley. do modo mais amável possível. Garotas ficam muito vistosas na cama. Ainda assim. Mick Radley. Talvez eu tenha ficado irritada com você no início. Não pode me ludibriar. é exatamente a garota que procuro. podia sentir no ar.

um milhão de espelhos – salões e mais salões dourados. não era um estabelecimento da gentry. Mas não era possível fazer qualquer coisa com dinheiro na Inglaterra. Aaron. que surgiu com uma farda afrancesada. feito todo de pequenos pedaços de madeira pintada que viravam um de cada vez. Aaron não fosse cristão. clique. A Aaron & Son jamais notaria a falta de um xale de caxemira. o pacote debaixo do braço. O ascensorista. Deram o título de lorde a Charles Darwin. puxou a grade de metal ruidosa para ela. Entregou a Mick o cupom-de- compra e fez a embalagem com barbante e papel fino verde. ao fazerem o fechamento. Talvez suas máquinas-de-cálculo notassem. FAÇA A CONVERSÃO DO SEU PIANO MANUAL. bengalas. Saíram da Aaron para o tumulto de Whitechapel. candelabros de cristal. E aquela era apenas uma dentre uma dezena de lojas da cadeia. e logo depois desceram. Aquilo que não estava sendo demolido para dar lugar ao novo – essa era a impressão – passava por uma reconstrução da imagem. atrás de folhas chumbadas de vidro chanfrado. oriundo de Whitechapel. sugeriam as letras abalroadas. teria título de lorde. um velho comerciante judeu de costeletas. Um friso mecânico. ela sabia: a Aaron não tinha uma elegância genuína. Nenhuma protuberância. talheres. com um gurney a vapor aguardando no meio-fio e seu próprio brasão na carroçaria. pôs o número de Mick numa máquina-de-crédito de balcão. se o sujeito fosse inteligente? Algum dia. rígidos esqueletos de aço pintados de mínio contra a umidade. Enquanto Mick verificava um mapa de ruas que retirara do casaco. ela olhava para as letras móveis que corriam por toda a extensão da fachada da Aaron. observava agora um homem gordo que manuseava suspensórios de seda ondulada. Mas. Mick seguiu-a. seu palácio de compras era grande e rico demais.. o sr. um cinétropo do tipo lento para anúncios da Aaron.. e lindas caixinhas de música de corda douradas.gentry. um puxão na alavanca com cabo de ébano e pronto. O horizonte a oeste de Whitechapel estava marcado pelas pontas de guindastes de obras. PARA UMA PIANOLA DA KASTNER. Zum. Prédios mais antigos estavam incrustados de andaimes. com polegares manchados de tinta. cristaleiras trancadas cheias de broches banhados a prata e de marfim. Um jovem balconista de rosto sardento. O gerente havia perdido o interesse nela. abarrotados de botas de montaria de borracha e sabonetes fabricados na França. O Parlamento Radical não se importaria se o sr. Sybil verificou rapidamente a saia. e . e ele disse que Adão e Eva foram macacos. Ouvia-se o lamento distante das escavações. apesar de tudo isso. Todas aquelas colunas gregas. mas a perda não deveria trazer-lhes prejuízo. guarda-chuvas.

e homens grosseiros. embora. sem dizer palavra. Ela sorriu ao notar o prazer que ele parecia extrair do conhecimento de tais coisas. uma vez que todos tinham um pedaço de papel azul colado. as calças xadrez cintilando sob a bainha do longo sobretudo. – E o que seria isto. com a imagem indistinta de um índio selvagem de pele vermelha. Cada qual com um distintivo numerado. Mick atirou-lhe uma moeda sem reduzir o ritmo da passada.era possível sentir o tremor abaixo do solo. segundo Mick. dona? – Mick indagou. – Olá. Havia cobertores e cestos espalhados sobre quadrados riscados nitidamente com giz no pavimento. enquanto mascates gritavam. onde vendedores ambulantes berravam. sinos e cordas de aço. sabões e velas. . e entrelaçar enguias mortas. cestas de vime no braço. e saiu andando. com aventais manchados. Mulheres londrinas afluíam para lá em multidões. – Óleo de pedra. tão falsa quanto os pesos e as medidas dos ambulantes. metade dos números fosse falsa. a haste de um cachimbo de barro projetando-se dos lábios finos. dama bonita. carne de vaca. de carneiro e vitela. esposas respeitáveis com homens em casa. a manivela de sua máquina sinfônica. apregoando seus produtos aos gritos. com as duas mãos. permaneceu próximo a uma viúva estrábica. Um açougueiro de rosto vermelho surgiu de repente diante de Sybil com as duas mãos transbordando de carne azul. Carrinhos de mão parados amontoavam-se no meio-fio. de vastos mecanismos cortando uma nova linha de trem subterrâneo. Dispostos diante dela havia inúmeros frascos com alguma substância de aparência viscosa que Sybil tomou por medicamentos de eficácia duvidosa. enchendo a rua com um clamor constante de molas. senhor – ela disse. abandonando a ponta do cachimbo –. o chapéu levantado na lateral. Mas Mick virou-se para a esquerda. cozinheiras. Ela alcançou-o e segurou seu braço. seus casacos de belbute destacando-se com botões de latão ou pérola. batendo de leve o dedo enluvado numa rolha coberta de cera vermelha. seguindo pela alameda chamada Butcher Row. passando por carcaças vermelhas e brancas que pendiam de ganchos pretos de ferro. Ela teve de se apressar para acompanhar seu passo. e um tocador de realejo com o cenho franzido virava. Mick parou ao lado de uma mesa de cavalete. vestida de bombazina. Compra esses belos rins pra fazer uma torta pro cavalheiro! Sybil desviou a cabeça e passou por ele. Criadas. dando-lhes vida. e Mick contava a ela as maneiras que os vendedores tinham para tornar roliça a fruta murcha. anunciando suas vassouras. Um garoto andrajoso com um distintivo de latão numerado varria a neve imunda da passagem.

como se talvez recordasse o rosto dele. – Diz o general que o óleo borbulha do solo. senhor. – Sério? – Mick perguntou. e a conversa acaba aqui. e cura garantida para todos os males. Extraído nas proximidades da Seneca selvagem. no Texas. – É mesmo uma panaceia. Tão distante devia estar a mulher de qual fosse o lugar remoto a que um dia chamou de pátria. com um sorriso que de algum modo a fez lembrar-se de um detetive da divisão de crimes contra os costumes que conheceu. – Fitou a rua com brilho nos olhos. apenas dois pence. Estava com os braços dobrados. segurando o braço de Mick quando ele se virou para sair. e você sabe o que fazer. Trilhos são fixados em cadeias de amor. com maçãs do rosto fundas. Era um vendedor de canções. “da fonte secreta da Natureza. – “Estrada de Ferro para o Céu”. cabelos longos e oleosos sob uma cartola envolta em tecido brilhante de bolinhas. – Tem “O Corvo de San Jacinto”? – perguntou Sybil. então. um improvisador tarimbado. – O que ela vende? – Óleo de pedra – disse Mick. como as garotas o chamavam. Três pennies o frasco. então? – Deixe estar – ele disse –. – “De sublime verdade os trilhos são feitos. posso encontrá-la – disse o vendedor. – Não seria texano? – “O bálsamo salubre” – disse a viúva –. as mãos entrelaçadas como em prece. pois? – Sobre a grande batalha no Texas. – Do que ela fala. senhorita. – Tenha um bom dia. – O que é aquilo? – ela perguntou. firmes qual o trono do Deus supremo. o grande General? O vendedor de canções arqueou as sobrancelhas. um homenzinho ruivo responsável pelas operações na Leicester Square e no Soho. – Estou vendo alguém. Sybil ficou curiosa. magro.” Bela cantiga. a flor da saúde e da vida para o homem será revelada”.embora também chamem de alcatrão de Barbados. das águas do grande Oil Creek. e ela notou o olhar penetrante que ele lançou para o vulto negro e encurvado. Sybil assentiu com um movimento de cabeça e começou a atravessar a multidão do mercado na direção do homem que Mick avistara. as mangas do casaco amarrotado cedendo ao peso de longas e farfalhantes folhas de partitura. Os olhos eram azuis e . – A mulher passou a fitar Mick com uma expressão esquisita. – Posso conseguir essa. os olhos claros apertados em ninhos de ruga. na Pensilvânia. – O sotaque arrastado ofendia os ouvidos. mas Sybil sentiu uma pontada de compaixão. Sybil estremeceu. e na Rocha das Eras são dispostos.. dona – disse Mick.. O Texugo. senhoras e senhores – entoou o vendedor de canções.

– O vendedor tocou a aba da cartola. mas aliviada. Sentou-se ao lado dele. Já estava feito. Lá. mas ele estivera observando. pois havia pensado em parar e esconder-se para retirar o xale roubado. moça – ele disse e deslizou a pequena caneca na direção dela. – Um dos generais da Crimeia. envolto em papel engordurado. imundas lamparinas a óleo. Sentiu que poderia se acostumar àquilo. então. segura dentro da cabine malcheirosa. ou fé religiosa. Sybil afastou-se. irlandeses. mas ela deleitou Mick. – Devo querer pelo menos cinco cópias para meus amigos – disse Sybil. senhorita. Talvez fosse até uma boa canção.loucamente brilhantes. – Que sejam seis. Jacinto? – Não. de fome talvez. como num passe de mágica. ludibriando mais três vendedores de canções. Caminharam. e agora via que Mick não havia tirado os olhos dela em momento algum. com . encarecidamente. ora juntos. Mick aproximou-se de repente. entrando no meio da multidão. ainda quente. – Nada mal – admitiu. – O general Houston. colocando a mão no bolso do sobretudo e fazendo surgir. sim? Meio francês. – Obrigada – ela disse num sobressalto. Sybil pediu licença e encontrou o mictório feminino. ora separados. saiu para retomar a companhia de seu protetor e encontrou-o sentado a uma mesa. Dobrou a peça com esmero e empurrou-a pela parte de cima do espartilho. O rebuliço era ensurdecedor ali. O local estava cheio de soldados da Crimeia de licença. de paredes revestidas com papel de ouro resplandecente. iluminado como se a noite fosse chegando com uma multidão de luzes. um brilho de lampiões a gás. Não foi tão ruim. Sam Houston do Texas. um folhado de maçã. neste exato local. por toda a extensão de Somerset. Ela não esqueceria mais. Num grande e luminoso bar em Whitechapel. e de adorável cor violeta – colorido com uma das novas tinturas estranhas que a gente sabida obtinha a partir do carvão. Havia comprado para ela uma caneca de gim com mel. dirigindo-lhe um sorriso condolente. de modo a ficar guardada em segurança. – Faço seis por dez pence. soltando açúcar. Tão macio era. e hoje à tarde. Ela não o vira. roçando o cotovelo dela. velas de sebo cintilando entre os víveres oferecidos nas bancas. retirou o xale. não – disse Sybil. o clarão branco do carbureto. ou gim. iluminado por candeeiros de lâmpadas a gás em formato de rabo de peixe. – Saiu-se bem. – Compro minhas publicações logo hoje à tarde e procurarei sua canção com certeza. – A senhorita é quem manda. que as pessoas apreciariam quando o vendedor fosse obrigado a vender as cópias. esse sr. assim era ele. Quero mesmo essa canção. depois atravessaram o vasto mercado da Petticoat Lane. Em seguida.

. Aprenda os macetes. de acordo com o espírito humilde apropriado. Mick. então. – Pressionou a mão dela contra sua manga. é o que sou.. Não é ninguém hoje. – Pois com que outros nomes refere-se a mim? – Está com Mick Dândi agora – ele disse. E um dia entrará para a liga. Saíram. vincando com os ombros magros o tecido pesado do sobretudo. num aperto forte. e com bastões para apartar brigas atrás do balcão. Ela pendurou-se no braço dele. – Ele era antiquado. quem eu sou? – Não – disse Mick.. – Gim é bebida de prostituta. – Deu um gole do drinque de gim. São capazes de conformar o mundo às suas vontades. – Aventureira? – Exatamente. aprisionador. Mick? – Trata-se de uma guilda de conhecimento – disse em tom solene. ou sou judeu. fortes. Inclinou a cadeira para trás. Sybil.. ahn? Para a guilda. – Mas jamais podem tirar-lhe o que sabe. a família e até o trabalho que exerce. Com suas malditas leis. – Levantou-se. com ares de valentia. podem tomar-lhe o lar. Portanto faça o que digo. tribunais. Ou misturaram aguarrás nisto. tentando diminuir-lhe o ritmo. apenas garçons grandes. podem tirar-nos toda espécie de coisas. – Garotas malvadas como nós podem entrar nessa sua guilda especial.meretrizes à sua volta.. deixou-o rolar pela língua com uma expressão infeliz e engoliu. – Rameira. ahn? Quer brincar com isso. – E você não é nenhuma prostituta. ahn. não é assim. – “Aventureiro”. é assim que se define. Mick Radley? – Sim. – Aprumou-se. – Como meu pai. – E até mesmo roubar a virtude da filha de um herói. de avental branco. Sybil? Jamais poderão. querida. meretriz de segunda – ela lançou-lhe um olhar penetrante. fábricas. e o ruído . – Os chefes. o nariz cada vez mais vermelho e a voz cada vez mais estridente por conta do gim. Mick? Quem ele foi. De dentro do quarto. categórico. se não for ousadia demais da minha parte afirmar tal coisa. Sybil – disse suavemente –. – É uma aventureira. nervoso. Sybil ouviu os passos de Hetty no corredor. enfiando os polegares enluvados nas cavas do colete. – Todo mundo gosta de gim – disse ele. bancos.. os grandes. Nenhuma garçonete ali. sr. Sybil sorriu com afetação. – Um brinde a você. – Não faça caso. e você será minha aprendiza. – Mick deu de ombros.

Era também uma das garotas da sra. – Minha nossa! – disse e sorriu. Gostaria de ir a uma apresentação de cinétropo. Winterhalter tinha uma regra rígida que proibia companhia masculina no quarto de qualquer garota. Hetty piscou para ela. Cairns e a esposa jamais haviam denunciado Hetty. ossos grandes. – Dançarei nesse dia – disse Hetty. Não a incomodaria. A sra. não? – Esse é o México. Sybil recolheu a manivela com cabo de porcelana e baixou a tampa arranhada do instrumento barato. de cabelos escuros. – Quando? – Sábado. A sra. pois o quarto de Hetty ficava ao lado do deles. como se desafiasse o senhorio a delatá-la. – Pensei que fosse sua noite de sair com o sr. ahn? Sybil balançou a cabeça e sorriu. Sybil raramente tinha motivos para falar com ele. uma mulher de tornozelos grossos com predileção para chapéus horrendos. Sybil Jones! – Talvez – Sybil deu um gole do cordial de limão. Sybil deixou a serineta aquietar-se. a bagunça de sapatos e caixas de chapéu da Aaron & Son. Winterhalter quer que eu cante na próxima quinta. e ela fazia uma algazarra desavergonhada quando levava homens para casa – . embora Sybil não tivesse certeza do porquê. livrando-se da capa azul com movimentos de ombro. Hetty não contaria. Excedia-se na bebida. Cairns. é? Tem tanta sorte.metálico da chave dela à porta.? – Hetty aqueceu os pés diante da pequena lareira estreita e notou. o sr. vinda de Devon. e menos ainda com a esposa taciturna. Winterhalter. Uma vez que a sra. – Galanteador novo. e sempre gentil com Toby. com um zumbido agudo. a boca larga levemente contraída de inveja. inclinando a cabeça para trás para relaxar a garganta. Hetty? O ex-presidente do Texas fará uma palestra. Ou seria o sr. Winterhalter decidiu pagar o aluguel diretamente ao senhorio. Hetty arrancou da cabeça o gorro de lã. – Aqueceu os dedos com um sopro. – Sabe alguma coisa sobre o Texas. Hetty? – Um país na América – Hetty disse de pronto. mas era doce à sua maneira. sim? – Não – disse Sybil. – Como é maçante a velha marafona – disse Hetty. – Estava praticando. – Winterhalter não sabe deste. à luz da lamparina. – Talvez Mandy queira. Uma regra que Hetty ignorava com frequência. – Um amigo meu vem tarde da noite hoje. C. Tenho como conseguir ingressos facilmente. – Pertence à França. K.

Sybil. – Em sua vida instável e desordenada com Hetty. Um frio terrível pareceu entrar no quarto então. todos observando atentamente algum objeto indeterminado. Lá estava a gravura de um grupo de sete homens. – Tem uma bela voz. – Pode seguir cantando. Aprenda a falar. liderado por Lorde Darwin. – “Os répteis dominavam a totalidade da terra”. Os Rads eram loucos por esses dinossauros. É o que o clero diz. embora a cabecinha perversa mal chegasse a ser maior que a de um cão. Aprenda a falar. Não deve deixar seus dons se perderem. Uma sensação inconfundível de estar sendo observada por olhos de outra dimensão fixos sobre ela. Parecia ser do tamanho de um elefante pelo menos. – Começou a alimentar o fogo com um pedaço de carvão por vez. Isso nos últimos dias antes da prisão. uma monstruosidade com duas fileiras iguais de furiosos dentes triangulares ao longo da espinha dorsal curva. – Por que não? – São ossos de malditos gigantes. ele lhe dissera. tremendo. Encontre a voz. ahn? – citou e passou a linha pela agulha. a magnitude absoluta da derrota do pai. Sybil. Dizia respeito a dinossauros. com uma clareza que lhe esmagava o coração. não? . deparou com a visão artística de como seria a criatura em vida. e por um momento estranho e passageiro Sybil sentiu uma presença distinta no ar. – Não acredito numa única palavra disso. Pensou no falecido pai. mostrou a imagem a Hetty. Sybil leu o cabeçalho em voz alta. Ela vira naquele instante. ler em voz alta era um dos pequenos rituais que poderiam dar ao ambiente um caráter doméstico. É tudo o que temos. Sybil pegou o Diário Ilustrado de Londres da mesa de pinheiro. através do batente rachado de uma das janelas fechadas com pregos.. na maioria. parecia. Os ideais dele estariam perdidos – não apenas fora de lugar. embutido numa superfície de carvão na Turíngia. a julgar pelo barulho. do Gênesis. talvez. e ajoelhou-se diante do fogo cobertos de cinzas. – Muito bem. com hábitos medonhos. mas totalmente apagados da história. Ela estremeceu.. arrumou a crinolina à sua volta. É tudo o que temos para combatê-los. quando estava claro que os Rads tinham vencido mais uma vez – claro para todos. homens com sotaques esquisitos e. e apertou os olhos para ler um artigo na primeira página. menos para Walter Gerard. Ao virar a página. se quiser – disse Hetty. Um osso.diplomatas estrangeiros. para serem aniquilados repetidas vezes. fazendo ranger a poltrona com cheiro de mofo. qual a carcaça de um cão vira-lata sob as rodas barulhentas de um trem expresso. Hetty serviu o chá. A coisa no carvão era um gigantesco osso cujo comprimento equivalia à altura de um homem. – Farei chá. – Leia para mim? – pediu Hetty.

o balcão e as ruínas de assentos surrados. A arma em si. a ÁGUA DE LITINA DO DR. França. Sybil se recolheu. VIN MARIANI. de Limoges. – Leia alguns anúncios. como uma espécie de papel de parede fabulosamente barroco. Havia ali uma gravura da pequena caldeira ornamentada com requinte. nunca desgasta. com depoimento de Alexandre Dumas e livro descritivo. Voltou a atenção para uma segunda matéria. Charles Egremont havia comprado uma dessas para a esposa. onde Mick Radley encontrava-se. na Oxford Street. mas não devido à promessa de fazer funcionar uma máquina ao dobro da velocidade antiga a um custo de uma moeda de meio penny por hora. então – aconselhou Hetty. o sino de bicicleta “NOVA PARTIDA”. nunca arranha. O Teatro Garrick estava sombrio. Esse último prendeu a atenção de Sybil. A atenção de Sybil. A voz de Mick ecoou abaixo dos pés dela: . tem um timbre todo próprio. é diferente dos outros. esta em louvor à Artilharia de Sua Majestade na Crimeia. parecia apropriada para terminar rapidamente com todos os dinossauros do Lorde Darwin. o breu era total debaixo do palco. obrigada. Ao terminar a leitura do jornal. para uso em máquinas de costura domésticas. – Odeio essa enganação de guerra. Sybil não disse nada. – Não. o tônico francês. voltava-se para a imagem da Máquina de artilharia que ilustrava a matéria. no entanto. O ninho intricado de engrenagens interligadas possuía uma beleza estranha. Foi despertada por volta da meia-noite por uma trituração rítmica e selvagem das molas da cama de Hetty. retratos e autógrafos de celebridades mediante solicitação no local. ELETROPOLIMENTO DE PRATA COM SILICONE. – Tem alguma coisa precisando de remendo? – perguntou Hetty. Nenhuma das duas suposições lhe pareceu a mais fantástica. com o poço da orquestra. e Sybil havia se deleitado ao saber que a sala de visitas da madame transformara-se num banho turco. a MÁQUINA A VAPOR DE BOLSO “REGENTE” de GURNEY. empoeirado e frio. Viu uma gravura de dois vistosos subalternos a admirar a operação de uma arma de longo alcance. cura a doença de Bright e a diátese úrica. Havia a PORCELANA HAVILLAND. de aquecimento a gás ou parafina. e cheirava a cal e umidade. BAILEY. robusto cano qual chaminé de fundição. Vinha equipada com um tubo de borracha destinado a dar saída ao vapor residual quando comprimido sob uma prática janela corrediça.

Semanas de trabalho dos melhores cinetropistas de Manchester. É uma coisa adorável. Sybil notou. o sujeito nunca pensará em roubá-los. uma grande folha cintilante de vidro prateado. Mick estendeu a mão e tateou atrás de um espelho de palco. Ele manuseou os cartões com delicadeza. Sybil gritou quando um clarão desagradável encobriu sua visão. um brilho de madeira polida. fungou um pouco. O vidro partiu-se com um estalo hermético – havia um bloco de cal fresca no tubo. passou o polegar pela borda. Depois virou uma torneira. – Desça aqui – ele ordenou. Exclusivamente destinadas ao meu propósito. engrenagens oleosas e manivelas gastas de madeira. Retirou uma valise preta e barata de lona impermeável. Mick fez com que se soltasse. virou outra torneira e ali colocou a vela. com um pedestal sobre rodas. Sybil? – Vi um uma vez. Dois e Três”. cantarolando consigo. Mas pagavam mal. – Sybil ergueu a crinolina com as duas mãos e desceu com cuidado e embaraço os degraus íngremes da escada úmida. Tirou uma pilha de cartões perfurados. – Num teatro. – Já viu as vísceras de um cinétropo. Socou a cal delicadamente para dentro da cavidade do bico de gás de um refletor. Soprou a poeira do tubo e depois prendeu uma extremidade com um alicate especial. colocou-a cuidadosamente no chão diante de si e agachou-se para abrir os frágeis fechos de estanho. Em seguida. Mick riu dela. Passou o monte de cartões com cautela para dentro do bolso do casaco.. Desse modo. exibindo os tornozelos. enquanto pontos de brilho quente e azul . feita de ferro fuliginoso e estanho cintilante. – Não fique aí parada feito tola. – Não – Sybil respondeu rapidamente –. devo ressaltar. e mais uma coisa. – Tão seguros quanto um cofre – ele disse. – Um namorado? – perguntou Mick.. garota. como se fossem uma bíblia. Logo verá. fazendo um som claro e agudo. Ela ouviu o clique agudo do fósforo de repetição dele. Eu conhecia o sujeito que o operava. acenou positivamente com a cabeça. como o de um jogador embaralhando cartas novas. presos por uma fita de papel vermelho. ou sequer carregá-los para ver. Teve sucesso na terceira tentativa e acendeu um toco de vela. – Basta disfarçá-los. ele levantou-se. curvou-se sobre um caixote e puxou um espesso tubo de vidro. como “Preleção sobre a Temperança – Partes Um. em Bethnal Green. Escrever algo tolo no invólucro. atrás do palco – ela disse. acima do silvo do gás e das chamas. Deveras artística. eu cantava num número. um clacker. à sua maneira.. – Avaliando o peso do bloco espesso. Sua voz ecoante era nítida. Após fechar a valise. Havia também outros fardos na maleta.. sabe. uma coisa em forma de tigela. – Investi um tanto de capital nestes aqui.

de verdade? Uma garota pode ter essa função? Mick riu. Lentamente. quase. depois começou a ajustar as manivelas. sim? A voz extasiada assustou-a. dezenas de colunas de latão repletas de saliências reluziram. por trás. temperamentais. é. Deixou o olhar seguir os tubos de vapor e fios esticados até a cintilante Máquina de Babbage. se era para não cuidar bem delas.. – Realmente senti. Estava abafado. Faremos de você uma clacker. olhando fixamente para o seu rosto. – Melhor – ele comentou.flutuavam diante dela. apertado e cheio de ratos embaixo do palco do Garrick. Apontou a luz de cálcio flamejante com cautela para o espelho de palco. por meio de placas lustrosas. mil rodas dentadas de aço com refinado acabamento.. .. pestanejando. algo. mais baixo que Sybil. montada sobre quatro blocos de mogno. está. Sybil? Não com Mick Dândi aqui. abraçando-a. – Adorável. – Posso fazer isso mesmo. deixando-a pender no pescoço. ou ávida de um modo estranho. pôs a outra mão enluvada contra o rosto dela. – Sim. – Provoca uma sensação. Ele afrouxou a touca. Então ergueu seu queixo com o polegar. obediente. foi o que ela ouvira dizer. Sybil fazia alguma ideia de como aquilo havia parado ali. Vai aprender a gostar da sensação. No fulgor errante da luz oxídrica de Mick. o tipo de lugar em que um cão ou um indigente morreria. o Tratante e Velhacos de Londres. Queria. Cheirava a óleo de linhaça. O chão e o teto acima e abaixo dela tinham sido cuidadosamente limpos e caiados.. assim como o olhar obscuro e penetrante. a Máquina parecia estar em muito bom estado de conservação. com alavancas cintilantes. eixos de engrenagem. Devido ao seu curto e infeliz período como cantora de palco. sobre cartazes rotos e amarelados que anunciavam farsas maliciosas. Olhar para o artefato de tão perto e por tanto tempo fez com que Sybil se sentisse realmente esquisita. mas possuí-lo de alguma forma. adorável. um pequeno modelo cinetrópico. não que ele fosse seu propriamente. Ela teve um sobressalto. não? – Sim. melhor não as possuir... Mick segurou-a pelo cotovelo de súbito. um belo e gracioso cavalo. Mick – ela disse rápido. por dentro da touca.. Sybil olhou à sua volta. Calculadoras a vapor eram coisas delicadas.. Ansiosa. Havia uma roupa de baixo feminina enrolada num canto.. no alto e embaixo. encaixadas em cavidades. do modo que poderia sentir-se diante de. Você sente um leve frisson especial. Mick ainda segurava seu braço.. digamos. – Não está com medo dela. Ao contrário de todas as outras coisas no Garrick. como Jack.

– Inseriu os cartões numa bandeja prateada na lateral da máquina. Belos discursos. – Que importam as moscas para qualquer pessoa? – indagou Sybil. Conheço clackers da Sociedade do Intelecto a Vapor que fazem até mesmo Lady Ada parecer um pouco lenta. – Os homens de Byron. não as companhias para o chá. Mick balançou a cabeça. – Seu pai está morto. olhando uma mosca no teto. depois girou e segurou Sybil pelo pulso. – Mas Ada Byron é uma lady! – Ficaria surpresa ao saber quem Lady Ada conhece – declarou Mick. O divertimento de Mick estava dando nos nervos dela. Sybil? Um dom? – O quê? – disse Sybil. odiando a segurança leviana da voz dele. em sua própria linha de raciocínio matemática. Um milhão de sujeitos antes dele havia observado moscas no teto. ainda estaríamos cegos para isso. – Nunca ouviu falar de Lady Ada Byron. É o que chamam de matemática pura. – Ada teve certa vez uma percepção à altura da descoberta de Descartes. o esquadrão diamante de suas festas ao ar livre. já marchamos e discursamos pelos direitos trabalhistas e outras questões relacionadas. amiga de confiança e discípula do próprio Babbage! Lorde Charles Babbage. um gesto de homem-espetáculo. então? A filha do primeiro-ministro. – Mas Lady Ada confia no poder da matéria cinzenta. mas os luditas estão mais mortos que cinzas frias. – Ada Byron. – Pura. Ninguém encontrou ainda uma aplicação para ela. Sybil? Significa que não conseguem colocá-la para funcionar. – Mick riu. e não em seu sangue azul. os homens de Babbage. – Ninguém consegue encontrar uma função para ela. – Fez uma pausa. Sabe o que isso significa. Poderíamos dizer que Ada é rápida. mas se não fosse por ele. – Esfregou as mãos. sabe. garota! Não é que eu queira magoá-la ao dizer isso. – Isso não quer dizer que ela seja a melhor. – Achei que você odiasse os nobres! – De fato odeio os privilégios da nobreza. o pai da Máquina Diferencial e o Newton de nossa era moderna! Sybil olhou para ele boquiaberta. Sabe o que isso significa. Mas ela possui um dom.. e a verdadeira Rainha das Máquinas! – Soltou-a e estendeu os braços num movimento amplo que lhe abriu o casaco. com um sorriso largo. apanhando um bloco de cartas do bolso e descascando o invólucro de papel. os . Oh. Agora os engenheiros usam todos os dias o que ele descobriu. garota! Mas Lorde Charles Babbage desenhou projetos enquanto fazíamos panfletos. E os projetos dele construíram este mundo. aquilo que não é obtido de modo justo e franco – ele disse... mas foi preciso René Descartes para fazer disso uma ciência. – Ah.. – Sabe como nasceu a geometria analítica? Sujeito chamado Descartes.

nós dos dedos erguidos diante do rosto. e o seu arquivo não passa de uma simples pilha de cartões.. Sybil mordeu o nó do dedo. Mick bateu o polegar no peito. ou limpo o suficiente para que mantenham o controle..Radicais Industriais. e o medo. franzindo o cenho para ela. se for esperto! Não se encontram homens espertos dispostos a combater tal sistema. sabe por quê? Porque o jogo dos Radicais é limpo. Mas as mulheres desonradas estão arruinadas. Significa apenas que temos de pensar mais rápido. Era a fumaça acre da luz de cálcio.. com os olhos abertos e os ouvidos atentos. – Pode fazer como quiser. – É sério? Poderia mudar meu número? – Posso comprar-lhe um novo em Paris. – Cruzou os braços elegantes. – Fez uma pose de pugilista: cotovelos dobrados.. A ideia inesperada de tal liberdade aterrorizou-a. havia tantos. aqui em Londres. Mick endireitou-se. Europa. Não tanto pelo que significava em si. eles são os donos da Grã-Bretanha! São os nossos donos. bem. O globo inteiro está aos pés deles. América.. – Riu com escárnio e viu a reação de surpresa. Dentro do limite de informação deles. Um novo número nas máquinas do governo – isso significaria vida nova. garota. porque eu . – Porque. Os olhos arderam de súbito. A Rainha Vitória não mexe um dedo sem um aceno dos sábios e dos capitalistas. – E não adianta mais lutar contra isso. E você pode se tornar um deles.. do chão ao teto. punhos suspensos.. ainda que isso já fosse estranho e deslumbrante o suficiente. Fazê-la passar por francesa. Mas as questões se desenvolvem de forma diferente na Paris de Luís Napoleão! As questões seguem de modo rápido e livre na Paris reluzente.. uma vez que é tudo coerente demais para eles. – Não pretende me ludibriar. Uma vida sem passado. existem maneiras de se mudar um número. todos os lugares. isso é exatamente o que tenciono dizer. – Está tudo muito bem para você – ela protestou. entende? Arruinadas. Você era um dos seguidores de meu pai. mas pensando como uma prostituta! Ninguém sabe quem você é em Paris! Os policiais e os patrões daqui têm o seu número.. – Não prometo nada. admito. ou por uma refugiada argelina ou americana. Você está na companhia de figurões agora. e assim permanecem. Terá que fazer por merecer. e alguns estão no Parlamento agora. A Câmara dos Lordes está apinhada de Radicais. – Apontou para ela. Então jogou os cabelos para trás e abriu-lhe um sorriso. Mick? – ela disse devagar. em especial para uma aventureira de boa lábia e lindos tornozelos. – Mas não significa que você e eu estejamos desprotegidos e solitários. é verdade! Mas são apenas números. veja bem. – Não é fácil fazê-lo.. – Ora. numa troca justa. Mas pelo que Mick Radley poderia exigir por tal coisa.

dominações e tronos.. por potestades. – Façamos um pacto. Você será leal. – Poderia... mais forte desta vez. algo que ela mal sabia estar ali. O que quero dizer é. – Preciso mesmo? – Sim.poderia ser mesmo especialmente doce com o sujeito que me fizesse tão formidável favor.. seu mestre. se você me tratasse de forma justa e igual. – Mas não é um grande pecado fazer tal juramento para um homem que. por serafins. Um ardor lascivo. mas posso consegui-lo onde quiser. Mick enfiou as mãos no bolso. como sua aprendiza de aventureiro. – Então se ajoelhe aqui e junte as mãos. olhando para ela. e que Deus a ajude! Você jura? Ela o encarou com desânimo. garota. sem subterfúgios ou impertinências. então? – Sim. Sybil Gerard. Pestanejou. – Sybil sentiu as lágrimas chegando. mas trata-se . ensinar-lhe-ei a arte e cuidarei para que fique bem. jura pelos santos e anjos. – Pare de choramingar. honesta comigo.. – Não alimentaria minhas esperanças para depois despedaçá- las. eu pularia da Tower Bridge! Ele a olhou nos olhos. – ele juntou as mãos em oração – e faça o seguinte juramento. ela pôde ver em seus olhos.. Em troca. e eu.. Walter Gerard. obedecer Mick Radley e servi-lo lealmente. Entenda isto: você não é apenas a bela mulher-dama de Mick. E verá que serei tão gentil e generoso quanto você será leal e verdadeira. – Isso se fosse um voto de matrimônio – ele disse. – Poderia agora? – ele disse com voz suave. sem precisar de você apenas com tal propósito. Não somos unidos por matrimônio sagrado. Será minha aprendiza. pensando que talvez pudessem fazer algum bem... e não como uma patética mulher da vida a ser ludibriada e jogada de lado. uma necessidade que ele tinha de. – Muito bem – ele disse. querubins e pelo olho que tudo vê. impaciente –. Que você. e deixe que assim sejam as coisas entre nós. obediente. inclinando-se para trás sobre os calcanhares.. Sybil. – Ela sorriu para ele.. deste modo. eu. Mick. Isso posso apreciar do mesmo modo que qualquer homem. sim? Isso seria grosseiro e cruel! Se fizesse isso.. Estou sendo claro? – Sim. Preciso da lábia astuta e da determinação ousada que era característica do sr.. As palavras trêmulas dela haviam atiçado algo dentro dele. ávido.. colocar seus anzóis mais fundo dentro dela. olhou para cima com audácia e deixou-as fluir. Mick. e ouça-me com tino.

No meio da refeição de carne de carneiro. Ele havia retornado ao carneiro e enchia a colher de molho de hortelã da vasilha de estanho. – Olá. – Um ator importante – disse Mick. Mick. sobre a pedra fria e arenosa. tampouco convidou o homem a se sentar. e encontre aquele contrarregra beberrão e diga a ele que quero as caldeiras acesas. Puxando a saia para trás. – Disseram que precisava de mim. – Colocou-a de pé. – Disseram corretamente. durante o discurso de Houston. – Não fique tão taciturna – ele disse. Agora pegue isto – entregou-lhe a vela gotejante –. o garçom deixou entrar um pequeno e atarracado cavalheiro de cabelos vermelhos besuntados e uma corrente de ouro sobre o colete de veludo apertado.de um voto de aprendiza! Ela não viu alternativa. Mick? – perguntou Sybil. – Suas falas. e que Deus me ajude. – Boa noite. uma casa noturna de Haymarket não muito distante da Academia de Dança de Laurent. . – Mick retirou do casaco um envelope em branco e entregou-o ao homem. – Piscou para Sybil e retirou-se sem qualquer formalidade. qual a boneca de uma criança. – Mick não apresentou Sybil. – Você jura? – Juro. Mick certamente não sentia vergonha de ser visto com ela em público. – Quem é esse. Eles jantaram aquela noite no Argyll Rooms. ou de provincianos há muito trabalhando para a gentry da cidade. – Contracenará com você no Garrick. caso venha a ter dúvidas ou pensamentos desleais. sábado à noite. Corny – disse Mick. Ela começou a se sentir bastante desconfortável. Era rechonchudo e pomposo. O homem sorriu melancólico ao aceitar o envelope. ajoelhou-se diante dele. No Garrick. O Argyll possuía salas privadas para a ceia nas quais os indiscretos poderiam ficar a noite inteira. sem se incomodar em baixar o garfo e a faca. – Encare-o como um apoio. – Há muito tempo não me apresento no Garrick. – É um papel pequeno. portanto não deverá ter muita dificuldade para lembrar suas falas. Mick – disse o homem. com o curioso sotaque irreconhecível dos atores. sua deixa e seu adiantamento. no entanto. Sybil estava perplexa com a escolha de uma sala privada. Corny. ajudando-a a levantar-se –. o juramento que fez é suave e feminil se comparado a alguns.

Haveria ele trazido- lhe um presente? Algum símbolo de seu novo status? Algo para distingui-la secretamente como sua aprendiza de aventureiro? Mick ergueu a tampa de pau-rosa com ponteiras de metal agudas. nada nas mangas. Mick manuseou-a com uma cautela que por pouco não chegava a ser cômica. Quase esperou que ele puxasse os punhos da camisa: nada nas mangas. e depois até o Argyll Rooms. – Açucarado? – Deixe estar. Com os polegares. embora muito remendada. ergueu a valise de lona impermeável do carpete ao lado de sua cadeira e colocou-o diante dela. Mick abriu os fechos de latão. quando poderia adquirir algum item vistoso na Aaron’s. Pode esperar ser chamada para fazer muitos papéis. porque esses ele havia embrulhado cuidadosamente em páginas do The Times e escondido atrás do espelho de palco. mas porque era de material tão barato. – Afastou-se da mesa. Sybil imaginou que poderia conter um telescópio. vinte . como a de um papista convocado a remover a poeira de um papa morto. ao depositar a caixa reluzente de pau-rosa sobre a toalha de mesa. Sybil ficou atônita. para examinar os panfletos do discurso de Houston. Tomada por repentina ansiedade infantil. observem. ela esqueceu-se do homem chamado Corny e da conversa preocupante de Mick a respeito de contracenar com ele no Garrick. com fechos de níquel e seda tecida no padrão xadrez de Ada? E ela sabia que a mala preta não continha mais os cartões de cine para a preleção. Estava repleta de cartas de baralho. Sybil. Não porque ele a carregara do fosso do Garrick. Um discurso político certamente pode se beneficiar de algo um pouco mais açucarado. nem um pouco semelhante aos pertences dos quais demonstrava orgulho evidente. Por que Mick Dândi haveria decidido carregar uma bolsa daquele tipo. – Há tempo de sobra para o ensaio amanhã. foi até a porta e trancou-a com segurança. do Argyll. pois vira caixas semelhantes na vitrine de uma firma de fabricantes de instrumentos na Oxford Street. – Contracenar? Comigo? – Você é uma aprendiza de aventureiro. Ela estivera curiosa a respeito da valise. primeiro. sobre a toalha de linho limpa. Abarrotada delas. não esqueça. Sybil deu-se conta de que estava prendendo a respiração. abriu a bolsa e retirou uma caixa longa e estreita de pau-rosa polido. Tenho algo para mostrar-lhe agora. Ao voltar. Havia algo do mágico em Mick agora. Fez uma pausa de efeito. – Pareceu perder interesse no carneiro e empurrou o prato para o lado. de lado a lado. ele virou pequenos ganchos de metal de dois minúsculos orifícios. até os impressores. com os cantos adornados de metal brilhante.

muito fina e lustrosa. a mais poderosa Máquina da Academia Francesa? As máquinas da polícia londrina são meros brinquedos se comparadas a ela. mas voltou à forma rígida quando ele a soltou. estes não maiores do que os de um bom botão de pérola. Era perfurada com cerca de três dezenas de fileiras pouco espaçadas de orifícios. – Quando chegar a hora. baixou a tampa. ainda que quase do mesmo tamanho. Parecia a ela que ele estava bêbado agora. demonstraria determinada série encaixada de hipóteses matemáticas.. – É uma espécie de carta de cine. – Posso garantir-lhe. talvez algumas centenas. uma coisa dos demônios. curvou-se de repente e beijou-lhe a boca. A Sociedade Jacquardina. mas somente ela serve às refinadas práticas do Napoléon. Era feita de estranha substância leitosa que não era papel nem vidro. faria o nome Mick Radley brilhar como os céus na confraternidade de clacking. E. – Os clackers franceses têm suas próprias irmandades.. Dobrava-se fácil. O melhor palpite de Mick Dândi é que ninguém sabe exatamente o que significaria operar este pequeno monte. parecendo muito satisfeito. embora soubesse que havia bebido apenas as duas garrafas de cerveja.baralhos. O coração de Sybil sofreu um golpe. feita com bastante esmero. – Conte-me do que se trata. alguém havia escrito “no 1” em tinta lilás-clara. pelo menos. Perto do canto enviesado. sabe. – Toda irmandade tem seus mistérios. Sybil fingiu examinar o conteúdo da caixa. Não. Mick puxou a carta mais próxima da mão direita e mostrou-a a ela. fechou os ganchos de metal. Ele riu. Mas era uma simples caixa de madeira. a propósito. Mick? Ele sorriu radiante para ela. A ela pareceu ter dito a coisa certa. satisfeito. forrada com a baeta verde usada para cobrir mesas de bilhar. não era uma carta de jogo. Três dos cantos eram sutilmente arredondados. Mick vergou-a levemente entre o polegar e o indicador. – Endireitou-se. Napoléon? Sybil estava perdida. Continha uma quantidade enorme das cartas lisas e leitosas. – Nunca ouviu falar no ordinateur Grande Napoléon. Les Fils de Vaucanson. chamam-se. – Deu uma piscadela. Mick. o que quer que fossem elas. querida Sybil. todas questões bastante arcanas. Provaria certa questão. – Você nunca viu algo assim antes – ele disse. Vamos mostrar umas coisinhas para esses comedores de cebola. Não. – Celulose canforada – declarou Mick –. caso seja tocada por fogo. ao passo que o quarto era aparado obliquamente. ele estava embriagado com a ideia das cartas na caixa. – Esta caixa e seu conteúdo são deveras extraordinários. reinseriu a carta. sabendo que isso agradaria Mick. – .

Um segundo amigo de Mick chegara. Tive uma ideia para conseguir obter dos clackers mais engenhosos suas mais recentes técnicas de compressão. disse? Tenho minhas ideias. um rolo de barbante verde forte. Fez um trabalho malfeito e demorou-se. Viajar com o general expõe um homem a certos perigos. – Ao terminar o embrulho. pegou um bastão de cera escarlate num bolso da calça. – Mas o que é isso. numa visita de negócios com o general. Enquanto falava. – Você enviará nosso pacote a Paris. veio uma batida de bengala à porta. Mick assentiu. O rapaz saiu com sorriso de escárnio. como se esperasse gorjeta. não tenho? Mick Dândi sempre tem suas ideias. e ficou olhando calmamente para o vazio. Este era um homem corpulento de feiura realmente espantosa. Gotículas escarlates respingaram no nó verde. – Sim. considerando-se o que tudo aquilo significava para ela. ele passou barbante em torno do papel. Seguiremos a Paris depois da preleção. mas amanhã pela manhã você levará este conjunto ao correio da Great Portland Street. Sabe o que significa? – Significa que o pacote é retido para o destinatário. Mick? Como pode saber seu valor se não tem ideia do que faz? – Ora. Finalmente. retirou sua caneta-tinteiro e começou a endereçar o embrulho. – Corte isto para mim com a tesoura. Poste restante. uma tesoura comum. Bateram à porta. retido lá em Paris para nós. Tive uma ideia que foi suficiente para levar o original até Manchester comigo. com ares de poucos amigos e cabelo curto. – Agora coloque o dedo aqui. com o máximo de segurança. mas Mick ignorou-o. olhos esbugalhados e barba por fazer. entrou com um carrinho e recolheu os pratos. O fósforo acendeu na primeira tentativa. – A cera escureceu e deslizou na chama oleosa. sorrindo para si de vez em quando. Largou a tesoura e o rolo de barbante de volta na valise. colocou a cera e o fósforo no bolso. a testa curta e caída orlada por oleosa paródia da . e o suficiente do capital do general para encomendar o resultado em celulose do calibrador napoleônico! Poderia ter sido grego. – Muito preciosa. no papel marrom. Um empregado jovem. Dela saiu uma folha dobrada de papel marrom resistente.Sentou-se novamente e remexeu na mala preta barata. o fósforo de repetição noutro. – Ele executou um nó perfeito. Mick abriu o papel e começou a embrulhar nele a caixa. – Ela fez conforme pediu. qual um gato. eu não disse isso.

o tal oddsmaker? – Não tive o prazer – disse Mick.. – Entretê-lo. Seus olhos salientes lançaram então um olhar especulativo para Sybil. – Por acaso – observou Mick –. se for do seu agrado. – Lady Ada teve a delicadeza de apoiar-me em meus esforços iniciais. O estranho usava uma casaca nova e bem cortada. Mas Rudwick desviou o olhar para Mick. que tudo havia sido um logro e ela estava prestes a se tornar parte de alguma temível transação entre eles. como seixos na enorme clareira que era a boca. com súbita risada repulsiva. – Costuma recolher-se tarde. uma pérola extravagante no plastrom e um anel maçônico de ouro no dedo. e por um momento ínfimo ela temeu o pior. senhor? Lorde Babbage é um homem extremamente. Rudwick pareceu irritado com a notícia. irascível. Rudwick grunhiu: – Perfeitamente.. – O presidente Houston concederá uma audiência ao senhor amanhã às duas. Radley – disse o estranho. . – Apoiá-lo? – disse Rudwick.. então? Melhor que seja.. senhor. – A teoria da pseudo- dinâmica. sucinto. com um olhar demorado para Mick. apertou a mão do anel. – Trata-se de algum sistema de apostas. convidou-o a sentar-se. – Este negócio de fazer o papel de celebridade londrina é um enfado abominável. cinzentos. capa. – Não ocultarei do senhor minha ansiedade em retomar as atividades no Texas.elegante franja de cachos ao gosto do primeiro-ministro. Mick assentiu com um movimento de cabeça. se quiser atrair a atenção dela. sr. Mick levantou da cadeira no mesmo instante. Os dentes eram pequenos. encontro-me com a posse de uma sequência de clacking que pode entreter Sua Senhoria. – Conhece um homem chamado Collins.. O rosto e o pescoço estavam fortemente queimados de sol. – Fazemos o possível para atender suas necessidades particulares. Soube que o próprio Lorde Babbage está interessado. – Fez beicinho. – Trabalhamos juntos no Instituto em Cambridge – admitiu Rudwick. professor Rudwick. – O sujeito está colado nela qual piolho em orelha de cadela – disse Rudwick. bengala e cartola. O repulsivo cavalheiro acomodou-se na cadeira com um rangido agudo da madeira. – De modo algum – disse Mick. – Sua Senhoria escolhe amigos esquisitos – opinou Rudwick. – A fama de sua descoberta texana parece aumentar a cada dia. incapaz de esconder o afetado sorriso de satisfação..

o rosto queimado de sol ruborizado. depois da França? Ela nunca havia considerado a questão. o semblante carregado. Rudwick inclinou-se para a frente. com delicadeza. Ela aproximou-se um pouco dele.. – Imaginei mesmo que você o conhecesse. que julgo andar espreitando meus movimentos ultimamente? Seria ele. Mick? . – Aonde iremos. ao lado dele na cama. parece muito bem o tipo que frequentaria os seus círculos. Mick levantou-se também. lá embaixo. Ela não sabia que ele era tão ardente antes. abriu-a e fechou-a nas costas largas e bem vestidas de Rudwick. – O general vai gostar dele. fechando os dedos ao redor do monte de sua feminilidade. piscou para Sybil. Mick. – Andou até a porta. de membros muito longilíneos e olhos muito frios. embora a terceira a tivesse deixado dolorida.. Rudwick levantou-se.. – E quanto a outro determinado cavalheiro importante. – Meu presidente é afortunado pela qualidade de seus agentes.. professor. – E? – disse Mick. sr.. não é mesmo? – Fez uma pausa. – Foi para a cova de ratos! Cavalheiro muito indecoroso... Horas depois. Mas lamento estar interrompendo as diversões de sua noite. de solicitar que o desgraçado cesse e desista. talvez. senhor. – Decerto transmitirei seus sentimentos a meu patrão. – O camarada me fez a proposta mais assombrosa. – Não.. – Com você. Mas não tem papas na língua. ao som do fósforo e ao doce odor do charuto. ela acordou no Grand’s. – Fará a gentileza. Sybil. exceto pela luz a gás que derramava entre as cortinas. Pareceu- lhe animador. – Aonde gostaria de ir. Ele deu uma risada contida e deslizou a mão sob as roupas de cama. tenho certeza. Ele a possuíra duas vezes no Argyll Rooms e mais uma vez no Grand’s. Rudwick franziu o cenho. com um sorriso gentil. Mick virou-se. nosso erudito professor Rudwick. um agente de seu presidente Houston? Parecia ter um ar texano. então. O quarto estava escuro. Radley.

não? – Entendo – disse Sybil. não o apoiaram com tanta força quanto deveriam. – Bem. Mick? – Ela achou difícil imaginar Mick Dândi liderando um ataque da cavalaria. – Deveria ter acontecido anos atrás. Sybil! Equilíbrio de poder. mais provavelmente – assegurou-lhe. Funcionou para a Grã- Bretanha na Europa durante quinhentos anos. irá primeiro ao México.. construir um solar às margens de algum rio. até se tornarem ousadas demais.. e terem de baixar a crista. – A ponta em brasa do charuto de Mick brilhava na escuridão. São abertamente hostis aos interesses britânicos! Estão com os dias contados. O mundo todo é esquisito. O general teve de esperar um pouco no exílio aqui na Inglaterra. – Deixariam que fizéssemos isso. para a libertação do Texas. um pouco independentes demais.. – É muito arguto. pelo que é seu por direito. quer dizer? A Pérfida Álbion? – Mick deu uma risadinha. – Não fosse pela diplomacia britânica. e funciona ainda melhor na América. todas se revezam para favorecer a Grã-Bretanha. Depois para o norte. Confederação. Nosso problema é que o Governo de Sua Majestade não se decide! Há dissensões entre eles. Dividir e governar. – Mas. não é o Texas lugar assustadoramente esquisito? – Pare de pensar como uma meretriz de Whitechapel. Mas a junta texana que o substituiu é muito pior. ele era o grande aliado da Grã-Bretanha no oeste americano. de verdade. – Golpe de estado. Sam Houston possuía um palácio no Texas. mas agora está a caminho do Texas novamente. – Deu de ombros. visto de Piccadilly.. com um exército franco-mexicano sob o comando do general Houston. as Repúblicas do Texas e da Califórnia. o general? Vai ajudar-nos de verdade? – Essa é a melhor parte! – declarou Mick. querida. Mick. isso depende amplamente da opinião pública britânica em relação ao general Houston! Estamos fazendo todo o possível para adoçar a reputação dele na Grã-Bretanha. não deram atenção a algumas de suas ações e políticas. então. – Questões profundas. a América poderia ser toda uma única imensa nação. Alguns não confiam em Sam Houston. É por isso que ele está fazendo seu roteiro de palestras. Mick? – O Governo de Sua Majestade. Antes de os texanos o terem atirado no exílio. – Não teremos muito . Mas os franceses hão de ajudar-nos a qualquer preço! Seus clientes mexicanos estão numa guerra de fronteira com os texanos. pelo poder britânico. Ora. você e eu poderíamos viver como os grandes no Texas. Precisam do general! – Você vai para a guerra. – Os diplomatas pensaram que Sam Houston fosse um tanto teimoso. União. – E quanto a seu amigo. – Se for comigo.

ensaboados e prósperos em suas roupas aconchegantes. sonhando com o Texas. uma mulher magra de nariz aquilino e olhos lacrimosos.. porque ela logo estava adormecida e sonhando. As pessoas entravam lentamente.. bengala e suíças. – E sou eu quem consegue o que há de melhor e mais recente através do cine para ele. um trio de oficiais de licença da Crimeia. Mas ele não poderia ter sentido vontade de fazer novamente. – Mas isso poderia mesmo ser verdade?. . Um sujeito com ares de estudioso tomou o assento ao lado de Sybil. e ela o ouviu soprar grande e satisfeita nuvem de fumo de cereja.. Uma família acomodava-se na fileira diante dela: dois garotos. e então o garoto mais velho. Havia outros soldados espalhados pela multidão. ovelhas satisfeitas.derramamento de sangue. prontos para ouvirem alguém falar sobre uma guerra obsoleta no Texas. Sou o homem político de Houston. com camisas de gola. com expressão maliciosa. não naquele momento. e continuarei ao lado dele. quem amansa a imprensa e a opinião pública britânica. de ar respeitável. vistosos em seus casacos vermelhos. grande chapéu repugnante e três anéis de ouro nos dedos macios e rechonchudos. todos estavam sentados em meio ao roçar de casacos e xales e à mastigação ruidosa de casca de laranja cristalizada.. sabe. Finalmente. entrando e saracoteando. serrava e buzinava. Mais adiante. – Deu um trago no charuto. que o general Houston. imaginou Sybil. fungando num lenço. pois fui quem providenciou esse roteiro de palestras em Londres e na França em seguida. onde ele raspara o cabelo para sugerir inteligência. contrata pessoas para colar cartazes. um Texas de colinas. mais duas garotinhas. uma garotinha de xale e vestido ornado com galões. não estava atraindo uma multidão. Estava lendo o programa de Mick e chupando uma pastilha azeda de limão. feitas à máquina. Sybil estava num assento do corredor. de paletó azul e calças. e mamãe gorda com longos cachos. Limpos. papai de casaca. com tristeza. uma faixa escura de dois centímetros de largura podia ser vista no alto da testa. Depois. e fui quem fez certas aproximações que resultaram na concessão para a audiência dele com o imperador francês. os dedos massageando-a lá. pensando. bem comportados de modo bastante manifesto e esperando as coisas melhorarem. terceira fileira nos fundos do Garrick. cheios de si. em seguida. com janelas de solares cinzas cintilando à luz do entardecer. vindo do Texas. enquanto a orquestra de cinco homens rangia. travada de modo obsoleto. conduzidas pela governanta.

Ficou submerso na escuridão por um momento. balconistas e boticários. Mas sob o domínio dos Rads os tempos eram outros. que liam o Dicionário de Conhecimento Útil e o Diário do Aperfeiçoamento Moral. magras e maltrapilhas. Vermelha. um vulto corpulento e maltrapilho. mas aceitavam o pagamento da rainha e aprendiam a aritmética da artilharia para depois voltarem ao trabalho nas estradas de ferro e nos estaleiros. na verdade: donos de loja. tais pessoas – gente de Whitechapel – eram mal-humoradas. a luz de cálcio chamejou. mais de um metro e oitenta sobre botas pesadas. e buscavam prosperar. e aperfeiçoarem-se. Então as luzes a gás baixaram em seus anéis de cobre e a orquestra passou a tocar uma versão insípida de “Come to the Bower”. pretas em fundo branco: Edições Panóptico Apresentam E abaixo do cinétropo. alerta – o primeiro vislumbre que tinha do chefe de Mick. . mancando na direção do estrado no centro do palco. ela varreu o palco do Garrick como a toga de um ator de tragédias. Houston entrou pelo lado esquerdo do palco. e seus homens engomados. preta e marrom-alaranjado. Tinha uma grossa bengala de mogno na mão direita e balançou-a levemente. O lugar estava cheio de homens em ascensão. com esposa e prole bem arrumadas. Ele era grande. mas listrada de modo bárbaro. Ressentida. Tinha visto número suficiente de refugiados americanos em Londres para nutrir ideias a seu respeito. e a franja dourada vibrou nas costuras ornadas das calças. muito semelhante a uma mantilha. Sybil observou-o atentamente. mas as pernas tremeram.que não apreciavam meretrizes ou gim. com porretes nas mãos e punhais no cinto. Babados e falbalás rasgados cresceram feito geada negra nos cantos da tela. abaixo do clarão cru e focado do refletor de Mick. ao passo que os confederados tendiam a se vestir de modo um tanto afetado e ostentoso. a cortina recuou diante da tela do cinétropo enquanto a música encobria os cliques de cine-bits girando para entrar em posição. e agora até mesmo Whitechapel tinha suas mulheres de rosto limpo e espartilho justo. os ombros largos envoltos por uma longa manta de tecido grosseiro. Os unionistas vestiam-se de modo muito semelhante aos bretões normais. Sybil viu. sempre olhando o relógio. como se não precisasse dela. os texanos eram ainda mais esquisitos e loucos. de rosto vermelho e robusto. Emolduravam letras altas. curiosa. A julgar por Houston. quando tinham dinheiro para isso. num alfabeto pomposo de Gótica de Máquina com pontas afiadas. mas excêntrico. No tempo do pai dela. pouco adequado.

A imagem de um busto surgiu em linhas denteadas e matizadas: testa calva e alongada. comprometida por um sotaque estrangeiro. Logo depois. – Seu interesse profissional é muito gratificante. com a voz esganiçada. – Qual é o seu nome. Tinha a voz estrondosa e grave de um orador experiente. esfregou o nariz. depois se inclinou sobre o púlpito. filho? O garoto travesso endireitou-se no assento no mesmo instante. Subiu no estrado sombrio. as densas sobrancelhas unindo-se com charme de avô. Um pequeno espelho de palco. Houston ajustava algo atrás do púlpito. – Diga-me. senhores. senhoras e senhores de Londres – disse Houston. mestre Greenacre. – Billy. Foi a última a parar. não. como dominós caindo. Uma garotinha gritou de dor quando um dos irmãos deu-lhe um soco. fileira por fileira. senhor! – A plateia riu mais uma vez. senhor. Um segundo refletor fulgurou. e a luz de cálcio cintilou cruamente nas medalhas presas ao casaco. lançando- o num súbito realce luminoso perante a plateia. o leão da Grã-Bretanha e uma espécie de touro de chifres longos. abaixo da figura. – Billy. o cinétropo embaralhou-se. ambas radiantes em vermelho. as palavras GENERAL SAM HOUSTON. gostaria de fugir de casa e ir morar com peles vermelhas? – Ah. a Union Jack e a bandeira do Texas com sua única estrela. – Vejo que temos muitos cavalheiros da força militar de Sua Majestade na plateia esta noite.. Houston verificou o espelho rapidamente. – Meus mais cordiais agradecimentos. Sybil bateu palmas com força. O cinétropo voltou ao preto e branco. a fenda do queixo erguida. nariz largo entre as suíças eriçadas que escondiam as orelhas. Na fileira à frente de Sybil. sobrancelhas espessas. . deu um gole de algo num copo que claramente não era água. senhor – o garoto deixou escapar. Acima da cabeça. Sybil supôs. formando uma imagem colorida. William Greenacre.. sem se perder. – Houston olhou para os assentos do Garrick. para que pudesse verificar o cinétropo atrás de si enquanto falava. – E vejo que temos um futuro combatente britânico aqui também! – Houve uma onda de risos surpresos. as partículas da tela tremeluzindo. Houston acenou solenemente com a cabeça. as crianças estavam inquietas. – Puxou a manta um pouco para trás dos ombros. incidindo sobre Houston no estrado. E em seguida: – Ah. senhor – disse. branco e azul. Os animais confraternizavam sob estandartes cruzados. – Concedem grande honra a um estrangeiro. sim. A boca fina era firme.

eu era um rapazinho cheio de entusiasmo. ávidas por dólares. embora tenhamos passado por dificuldades em nossa pequena fazenda na fronteira. ainda que não tão entusiasmado como ele parecia esperar. produzindo a imagem de uma urna grega. embora. um guerreiro com um capacete emplumado. – Como filho da fronteira americana – ele disse –. Quando jovem. com suas narrativas de uma intrepidez capaz de desafiar os próprios deuses e de imaculada honra marcial que perdura.. como você. pensou Sybil. mais tarde. a lança erguida. – O cinétropo apresentou o retrato de um selvagem americano. – Ergueu a lapela coberta de medalhas do casaco. – O cinétropo embaralhou-se de baixo a cima. Portava um escudo redondo com o emblema de um corvo.. – O coração dentro deste peito cicatrizado – disse e bateu no tórax – ainda se anima com a mais esplêndida história. um povo simples de natural grandeza. como se fosse dirigido a ele. e um mapa colorido surgiu. Finalmente veio. asas estendidas. do lado esquerdo. – O cine embaralhou-se atrás da cabeça do general. E ainda que eu tenha nascido americano. meu devotamento para com o distante governo ianque em Washington era insignificante. Que infelicidade. senhoras e senhores. Houston verificou seu espelho e falou rapidamente. da azagaia do grego brotaram as penas pendentes de uma lança de caça e a pintura de guerra cobriu o seu rosto. a face riscada por cineblocos de pintura cerimonial de guerra. – Não vi contradição alguma entre a vida dos heróis de Homero e a dos meus amados cherokees – persistiu Houston. Decorei cada verso do livro do bardo cego. vivia a poderosa tribo dos cherokees. – Do outro lado do rio – disse Houston –. aflito em sua própria alusão à fraqueza nacional americana. eu tenha sido aprovado para exercer a advocacia e conduzido uma nação. Houve um leve tamborilo de aplauso comovido. no entanto. – Os cherokees conquistaram meu coração – prosseguiu Houston –. o qual foi aceito por Houston com um aceno modesto de cabeça. Minha família era da gentry escocesa. sem nada. até a morte! – Aguardou o aplauso. O público estava solidário com ele. – Nasci no estado americano do Tennessee. contornos dos diversos estados da América. – Quando eu tinha mais ou menos a sua idade. além do casaco de couro de gamo nas costas e a esplêndida narrativa da Ilíada de Homero no bolso. uma criatura de olhar louco e fixo. e eu fugi de casa para me juntar a eles. . suas almas estavam atormentadas. procurei obter minha educação numa escola antiga. Descobri que isso me agradava muito mais do que a vida com meus vizinhos americanos. Atrás dele. pequeno William. E esse foi exatamente o caminho que segui. províncias de formatos estranhos e nomes confusos. com penas penduradas em si. Houston balançou um pouco a cabeça diante da plateia britânica. não posso afirmar que tive uma instrução muito admirável.

pois os três veteranos da Crimeia na fileira de Sybil ainda murmuravam com raiva a respeito de Jackson Hickory. o peito coberto por um escudo listrado. De repente o refletor lançou um clarão vermelho-sangue. Houston espiou suas anotações. Ao redor da fogueira. a céu aberto. Sybil reconheceu-o. uma vez que duas partículas do cinétropo no canto superior esquerdo da tela emperraram no eixo.o grito agudo da corneta de guerra no campo dos voluntários do Tennessee. Uma falha minúscula. O grego dissolveu-se.. que valorizava o legítimo valor interno de um homem além das falsidades da riqueza ou da ostentação”.. algo como um rústico forte de fronteira. Mas ele pareceu ter perdido seus espectadores naturais. segundo eles. sem afeição. Outra cena surgiu. Por isso. Era a águia americana. o estrondo repentino do timbale enquanto pequenos canhões de cine estouravam o branco da pólvora ao redor do forte. De acordo com a narrativa de Houston.. e até foi presidente da América por algum tempo. O elaborado clacking de Mick exigia muito do cine do Garrick. relutante. mas que prejudicava a proporção geral. deram-me o nome pele-vermelha de corvo. Jackson também lutara bravamente contra os índios. do início de sua carreira militar. Sybil perdeu o fio do discurso de Houston. símbolo da União dividida. identificado por legenda como GENERAL ANDREW JACKSON. Distraída. iniciado pelos soldados. mas o aplauso para tal sentimento foi. os soldados. mas tudo isso significava pouco aqui. Houston elogiou Jackson enquanto seu protetor e mentor. pescamos em riachos límpidos e cultivamos o milho amarelo. “um honesto soldado do povo. deixando aparecer sobras de azul. talvez. gamos e javalis. Alguns britânicos ainda se lembravam de Jackson “Hickory”. – Outro retrato de cine surgiu: um homem que se parecia muito com Houston. – A maldita guerra havia acabado antes que Nova Orleans. as asas firmemente abertas na tela. contei a meus irmãos selvagens as lições de moral que meu coração juvenil havia reunido a partir das palavras de Homero. na melhor das hipóteses. mas o pássaro ianque de cabeça branca havia se transformado no corvo negro de Houston. – . é o mais sábio dos pássaros. dando lugar a um corvo mais grandioso. – Juntos caçamos ursos. Mick estava assoberbado abaixo do palco: um filtro de vidro tingido. em referência ao espírito emplumado que. mas com um topete alto e o rosto fundo. talvez mais engenhoso do que deveria. Um detalhe engenhoso. ela concluiu. e bruxuleios de uma partícula formaram rapidamente um arco de . qual partícula de poeira no olho de alguém. Ouviu-se um zumbido de sussurros aqui e ali.. e a multidão agitou-se. quando lutou numa campanha liderada por Jackson contra os índios chamados creek. Houston narrou uma história de sítio.

Estava falando sobre uma mulher. mas demorou-se ao esfregar aquela área. enquanto o general seguia aos brados. Os jovens biscateiros no alto da galeria do Garrick soltaram assobios estridentes. Muito de repente. duas balas no braço. mas eu não era um Voluntário do Tennessee à toa. ouvindo. . uma estrela de cinco pontas apareceu lentamente no meio da escuridão fúnebre da tela à medida que Houston narrava sua demorada salvação do túmulo. não mais que alguns pontos pretos. Ele começou a vangloriar-se de seus ferimentos. gritou Houston. Ouviu-se um aplauso surpreso no breu repentino. como se estivesse com dispepsia. A luz de cálcio voltou então a enquadrar Houston. Isso era bastante exótico. ouvimos os fanáticos creeks entoando suas lúgubres canções de morte –. uma cadência melíflua conduzida por seu sotaque arrastado.balas de canhão pela tela. as pontas ramificando-se de forma elaborada.. uma facada na perna. e o palco inteiro escureceu. Nesse momento. e durante todo o tempo a estrela foi crescendo aos poucos. Um pequeno vulto correu na direção do forte. sangrando. Havia passado a noite toda caído no campo de batalha.. entrementes. As pálpebras de Sybil pesaram. com armas brancas! Dizia-se que avançar para aquele portão era morte certa. O sujeito com ar de estudioso ao lado de Sybil pegou outra pastilha de limão e olhou o relógio de bolso. pensou Sybil. com febre dos pântanos.. diversos cargos obscuros no governo provincial. A estrela iluminou-se aos poucos enquanto Houston falava sobre seu ingresso na política americana. Em vez disso. transformando-se no símbolo do governo do Tennessee. – A situação exigia um ataque direto. sentimental. Teriam gostado de ver mais combate ou talvez mais falas poéticas sobre a vida com os cherokees. mas na essência encontrava-se o mesmo embuste sorrateiro da fala de todos os políticos. numa carroça. o tom de Houston mudou. apresentando como motivo o desejo de ajudar seus perseguidos e estimados cherokees. trêmulas. tornando-se vagaroso.. uma flecha na barriga – Houston não disse o termo vulgar. uma coluna de luz abaixo da tela. Houston havia iniciado uma ladainha sobre sua eleição para um equivalente rústico do Parlamento. Sybil endireitou-se no assento. e a plateia estava cada vez mais impaciente. delirando. – Noite após noite. e em seguida foi carregado por dias pelo ermo. um bloco tortuoso de cine-bits. Sybil conteve um bocejo. afirmou. mas.. Um dos cine-bits emperrados havia se soltado novamente. outro travou na parte de baixo à direita..

É claro que perdera o posto no governo. O general Houston era um estrangeiro. Mas ao falar da esposa. metade selvagem. Aguçara a curiosidade dos espectadores – e a própria Sybil estava morrendo de vontade de saber.. e casaram-se. – As vozes difamatórias destilaram seu veneno sobre mim – lamentou-se Houston. aparentemente conseguira ganhar algum dinheiro. O governador e a sra. o de um amor verdadeiro. Era como se esperasse que a plateia londrina desse aprovação moral a um homem divorciado. havia jornais no Tennessee) atacaram-no. disse Houston. Houston havia sido eleito governador. e havia jurado levar para o túmulo. Houston. Era provável que sua castidade tivesse sido violada por algum galanteador mal-intencionado do Tennessee. talvez. e Sybil perguntou-se por que Houston ousara mencionar um escândalo tão repulsivo. pois ele mesmo introduzira o assunto: o escândalo do divórcio e a carta secreta da sra. Na realidade. Era provável que essa moça da gentry não fosse tão angélica quanto parecia. Secou um pouco a testa com um lenço elegante do bolso do colete de pele de leopardo. a sociedade ultrajada tirou-o do cargo. Os homens tinham regras severas para suas noivas. mas também não revelava o segredo. Houston mal haviam se acomodado quando a esposa perdeu o controle e fugiu de volta para sua família. nem um pouco tão profundo e misterioso como aparentava. Ameaçavam o brasão do estado. as senhoras pareciam intrigadas. Sua voz clamorosa falhou com franca emoção. Um segredo que ele nunca revelara. supôs Sybil – começaram a maculá-lo. No entanto. divorciara-se da esposa. Mais de sessenta. não era um sujeito feio. muito antes da chegada de Houston Corvo. um amor destruído por uma verdade misteriosa e cruel. que continha um segredo terrível. Na verdade. E esses eram os mais gentis com as garotas. porque provavelmente se tratava de algo simples e desinteressante. Não parava de falar sobre o assunto. ainda que nunca para . As revelações de Houston tornaram-se chocantes. Sua confissão parecia ousada e viril. Repreendeu a si mesma por ser tão tola. – Uma questão privada. afinal. Um infortúnio tenebroso aconteceu-me. quando o escudo grego com o corvo apareceu. e não totalmente desprovidas de compaixão. Enamorara-se de uma garota da gentry do Tennessee. e estava animado com a situação. Mas na tela do cine. fazia-o com afeto. da qual um cavalheiro de honra não pode e não deve falar.. a coisa mais improvável e horrível. Até mesmo a mamãe gorda mostrava-se alvoroçada ao abanar o queixo duplo com o leque. de acordo com seu próprio relato. e bolhas pretas de cine – lama. – Os jornais (então. o fato fora consumado. Deixara para ele uma carta. prolongamentos de escuridão rastejavam dos cantos feito cobras. ela percebeu.

e transmitira à própria esposa um tipo de lues. sem nenhuma estrada maior que as trilhas de grama dos índios. em vez disso. Nunca antes ela vira algo semelhante. Alguns casos eram horríveis.si mesmos. Talvez Mick soubesse. Talvez fora a doença do mundo. Então. sua reserva quebrada pelos olhos esbugalhados e pelo pescoço texano de veias saltadas. – Imaginem uma nação muito maior que suas ilhas natais – disse Houston –. era quase assustador de se ver. se não fosse governador. fora de fato tomado pela excitação. quando embriagado. Ou talvez tenha espancado a esposa – pois Sybil imaginava que ele seria um verdadeiro fanfarrão. amontoando-se na tela em preto e vermelho diabólicos. À medida que a tela rotava com zumbido uniforme.. tendo vivido com selvagens. Houston insistiu em voz alta. eles contorciam os cascos fendidos. destinadas a simbolizar os difamadores de Houston. sendo os americanos os mais famosos duelistas. Houston arengava a respeito de desafios e honra. Como comandante supremo das forças nacionais texanas. Bichos curvados. uma extensão de terra no meio do continente. O cine encheu-se de harpias mitológicas. Muito provável que Mick estivesse a par de tudo.. fazendo referência a duelos.. Estava cheio de entusiasmo agora.. e. Sem. seu caminho . surgiu um mapa. Talvez tivesse ideias abominavelmente perversas quanto à vida de casado. esfregando as mãos dentro do regalo de pele de coelho.. Sybil perguntou as horas ao sujeito com ar de estudioso. A plateia estava entretida. naquela época. com certeza. O primeiro terço do discurso acabara. com a palavra. minhas ordens não tinham mensageiro mais veloz ou mais confiável que o rapaz a cavalo. qualquer tipo de recurso das Máquinas. efeito do gim num artista do cartão perfurado de Manchester. Teria matado alguns daqueles tratantes dos jornais. cega ou aleijada. Talvez fora algo realmente terrível que ele tenha feito. Afirmou que tinha ido para lá em busca de terras para seus pobres sofredores índios cherokees. mas ninguém muito longe da aversão. e poderiam deixar a vítima louca. e não fosse por sua dignidade. repugnantes. O momento dela estava chegando. um único quilômetro de estrada de ferro britânica e desprovida de telégrafo ou. desistira de tudo para voltar a viver com seus amados cherokees. Houston explicou que havia deixado os Estados Unidos com desgosto e partido para o Texas. pensou Sybil. que amavam armas e atiravam uns nos outros ao cair um chapéu. Quiçá fosse esse o segredo. naturalmente.. Apenas uma hora havia se passado. mas tudo ficou um tanto confuso. os que haviam manchado sua preciosa honra com a tinta da imprensa sensacionalista. Era provável que Houston tivesse sido o causador de tudo.

general Houston! – Sybil gritou com a voz estridente. muito consciente de que a segunda seria o resultado decretado pelo destino. Os defensores do Álamo sucumbiram todos. meu exército de seiscentos cercara as margens arborizadas da baía pantanosa de Buffalo. Catorze oficiais. – Os quadrados e losangos azuis do cinétropo perseguiram lentamente os deformados regimentos mexicanos através dos verdes e brancos enxadrezados das florestas e pântanos. que ainda não estava engatada. Nesse instante. Agora podemos testemunhar o movimento da cavalaria ligeira do Texas. tentando aliviar o atrito da anquinha. num estado de completa desordem. os rostos estranhamente quadrados sob efeito da escala restrita dos retratos –. Tentou mais uma vez. conforme a representação. ele se afastou do palanque e apontou para o cine com a pesada bengala lustrosa. Bowie e Crockett ocupavam. essa era a sua deixa. O momento dela chegara. balançando o braço – Vingue-nos. por grupos de invasores mexicanos e pelos milhares de riscos inomináveis da selva. Sybil remexeu-se no assento. Não era surpresa. com a captura de catorze oficiais e vinte canhões. vinte canhões – sim. sem o conhecimento da inteligência inimiga. levantando-se. Mais conversa de soldado. o destemido coronel Bowie e David Crockett. então. – As forças de López de Santa Anna encontravam-se em formação conforme podem vê-las aqui. ganharam tempo precioso para minha estratégia fabiana. – A contagem final dos mortos era de dois texanos e seiscentos e trinta invasores. Cercado por uma força inimiga cinquenta vezes maior que a sua. Por meio de uma marcha forçada através do vau de Burnham. o coronel Travis declarou que seu objetivo era a Vitória ou a Morte. com plataformas de artilharia em madeira afiada. Os massacres de Álamo e Goliad foram vingados com sangue santanista! Dois exércitos mexicanos totalmente derrotados. deixando sua artilharia. com a floresta ao flanco esquerdo e os pântanos fluviais às costas. O grande Travis.ameaçado pelos comanches e pelos karankawa. A jactância sanguinária de Houston estava finalmente atingindo o clímax. O choque do ataque da infantaria fez com que o inimigo hesitasse. um terço da tela do cine. uma verdadeira lenda entre os homens da fronteira – os senhores Travis. que o coronel Travis recebesse meus comandos tarde demais e depositasse sua confiança. general Houston! . no grupo de apoio liderado pelo coronel Fannin. no entanto... cada um. a garganta apertada de nervosismo. de modo trágico... – Vingue-nos. em estado de confusão. Seus engenheiros táticos haviam cavado trincheiras em torno do trem cargueiro. O ataque começou com um rápido fogo de canhão do centro texano.

o cinétropo girou para baixo lentamente. foi a junta. construída para o Texas. reprovaria seu desempenho. o desonesto regime texano. De algum modo. Abriu os olhos. Era como se ela e o general estivessem. com sua touca e elegante xale. minha cara jovem? O que a aflige? Conte-me. senhor. com os olhares surpresos do público silenciosamente fixos neles. a voz aguda. por um ataque de nervos. Sybil gritou para ele. – Sim. mas faça com que sintam pena de você. – A voz falhou. um tremor proposital apoderando-se da voz. tudo estava muito diferente. tremulando e zumbindo com seu truque de dominó até parar. a manta listrada abrindo-se atrás dele tal uma capa. mas simplesmente porque meu querido irmão é um homem de Houston! Ele votou no senhor quando o senhor tornou-se presidente do Texas. Mick não iria gostar disso. sem crime algum. involuntariamente. O pensamento causou- lhe um ímpeto de vitalidade. Uma jovem londrina. roubou a estrada de ferro britânica! Roubaram os trabalhadores no Texas e os acionistas aqui na Grã-Bretanha. meu irmão está numa prisão texana! Somos britânicos. afirmando o comando. minha cara dama? – perguntou Houston. – Esse regime. senhor! E votaria no senhor hoje. Houston lançou um olhar fixo para Sybil. muito pior. olhares chocados que costumam ser direcionados aos loucos. e não nos pagaram um centavo sequer! Com a perda do jogo de imagens coloridas do cinétropo. Não esperava que fosse tão assustador. Não os assuste.. enquadrados. dois vultos num daguerreótipo prateado. senhor! Vingue a honra britânica! – Um murmúrio alarmado tornou-se audível... De súbito. dois atores juntos agora. senhor! – gritou Sybil. perplexo. mas foi tomada pelo medo. embora eu tema de verdade que eles o matem! – Qual é o nome do seu irmão. – Sim. a atmosfera do teatro havia mudado. Isto era pior que cantar no palco. senhor. Houston parou. . Sybil sentiu os olhos do público do teatro sobre ela. Houston ergueu os braços. Mick havia dito. – Vingue nossa honra. estranhamente íntimo e deslocado. uma estrada de ferro britânica. senhor! Confiscaram sua fazenda e seu gado! Roubaram até mesmo a estrada de ferro em que ele trabalhava. de algum modo. mas os texanos aprisionaram-no. – Sofreu por causa da junta? – disse Houston. Sybil segurou firme as costas do assento à frente. dirige-se com eloquente aflição ao velho herói estrangeiro.. Jogaram meu irmão em sua prisão abominável. – Meu irmão – ela gritou. deixando San Jacinto congelada em meio à vitória. conseguiu acalmar a multidão com o gesto. – O que foi. fechou os olhos com força e disse em voz alta: – Senhor. Acima de sua cabeça. com um misto de austeridade e resignação.

céus. – A moça vai desmaiar! – Sybil observou por entre pálpebras semicerradas os vultos indistintos aglomerando-se imóveis à sua volta. virou-se para olhar. entregando-se com lisonjeiro conforto à ternura da preocupação da meia dúzia de intrometidos resmungando ao seu redor numa pretensa . que trabalhava para a Empresa Ferroviária de Hedgecoxe. afundando-se no assento. – Aqueles tratantes da junta apropriaram-se da Ferrovia de Hedgecoxe! Belo serviço esse. inúteis. vindo de um suposto aliado! É esta a gratidão que demonstram por anos de orientação e proteção britânica? – Voltou a sentar-se. pensou Sybil. aqui e ali. um homem importante! Não pode haver justiça para o Texas. – Sam Houston sempre foi um verdadeiro amigo da Grã-Bretanha! – Sybil deu um grito estridente para os rostos erguidos. Sentiu uma breve palpitação de vergonha e asco. retomando a sequência. Mick não lhe dera mais falas. – Não passam de ladrões desprezíveis! – Sybil berrou. a surpresa evidente no tom. Jones está precisando de ar! – disse Houston. Vaias espalhafatosas e pueris partiram da galeria mais elevada. Um pouco de diversão londrina. e ela levou o pulso à testa úmida. com um ruído de reprovação. de Nacogdoches. pensou Sybil. senhor – Sybil gritou rapidamente. As palavras ficaram um tanto perdidas. mas o senhor é um homem destinado à grandeza. sobressaíram-se aos murmúrios discretos de surpresa e aprovação. encolhendo-se. senhor? Alguma reparação para essas afrontas? Meu pobre irmão tem de morrer na penúria. Sam! – veio uma voz repentina e grave. num sobressalto. Apertou a bengala com raiva. – General Houston! Sou uma mulher indefesa. com seu cabelo vermelho e colete de veludo escovado. os olhos tremulantes. em resumo. – Jones. ela deixou as forças abandonarem as pernas e caiu para trás. e as sobrancelhas grossas uniram-se. Talvez. perfume de gardênia e um cheiro masculino de tabaco – um homem segurou-a pelo pulso e comprimiu-o com três dedos para verificar sua pulsação. Sybil. animada ao ver inesperada agitação. Gritos da plateia. – Acredito agora que eu conheça o jovem Edward! – declarou Houston. alerta. Por um momento. – Ouça o que ela está dizendo. Casacos escuros. – A srta. enquanto traidores e tiranos roubam nossa propriedade britânica? Mas a bela retórica de Mick foi abafada. Era o homem do Argyll Rooms – o ator gordo. ela tivesse feito alguns deles acreditarem em sua história e sentirem piedade. um roçar de crinolina. a mamãe gorda da fileira em frente. num grito nervoso. então. com o intolerável ar melífluo de boa mulher cumprindo seu dever moral. A maioria simplesmente gritou e brincou um pouco. Uma mulher abanou o rosto de Sybil. sentiu-se genuinamente debilitada. Oh. – Edwin Jones. Puxou rapidamente pela memória.

Vestiu uma capa de ópera. fico grata ao senhor. e paredes de mármore falso com marcas de umidade. rouco de indignação. Sybil permitiu que a colocassem de pé. Estavam ouvindo Houston como homem.. mas lamento que não tenhamos sido apresentados. Desperdicei todo o meu tempo versificando. Seu salvador assentiu com a cabeça. Sentiu-se abatida. – Keats – ele disse –. senhor – Sybil olhou para ele de viés. alerta. Devo dizer que parece estar bem-disposta agora. – Dificilmente. Sinto muito por seu desafortunado irmão. balançou a cabeça e desejou que estivesse invisível. senhor. – Ainda me mata. apenas para preencher o silêncio. dois pontos vermelhos de calor. quero dizer. Sorriu languidamente. pôs na cabeça uma cartola de pele de castor e ofereceu-lhe o braço. – Tossiu de modo explosivo num lenço enrolado e limpou a boca. Seus longos cabelos grisalhos estavam divididos ao meio. encolhendo os ombros. – Retirou do colete um cronômetro de prata que tiquetaqueava. – Muito gentil de sua parte. – Dá ao homem certo ar de distinção – disse Sybil. ajudar-me assim – comentou Sybil.. sem nenhum propósito em particular. – Senhor.demonstração de competência. A multidão estava entusiasmada agora. por favor – sussurrou. e ouviu- se leve dispersão de aplauso cortês para ela. Sybil apoiando-se nele. um sujeito baixo com sagazes olhos azuis. do tamanho de uma batata . não compartilho inteiramente seu entusiasmo. enfraquecida. este ar londrino. Houston hesitou ao ver isso. Andaram juntos pelo corredor. – O senhor é um homem da medicina? – Já fui estudante – ele disse. As maçãs do rosto coraram. Recostou a cabeça no ombro acolchoado do homem que havia lhe tomado o pulso. – Com toda honestidade – ele disse –. – Receio que tenha sido muito precipitado de minha parte. Ele lançou-lhe um olhar obscuro. sr. notando que seu acompanhante parecia ter dinheiro. quiçá pela primeira vez. e não mais como parte de uma estranha apresentação americana. mas a eloquência do general Houston arrebatou-me. enquanto Houston trovejava acima de todos. decorado com cupidos dourados. – Entretanto. madame. – Grata. – Levarei a dama a sua casa – ele avisou aos outros. sem vontade de encontrar o olhar de ninguém. indigna. o olhar de um homem desconfiado de que uma mulher o esteja enganando. – Esse tipo de estudo. Keats. se eu puder ir embora. uma coisa cheia de indicadores. descascando. O pequeno cavalheiro de Sybil afastou o veludo desbotado para ela ao saírem no salão frio do Garrick.

– Guardou o cronômetro. sr. Nesse momento. pensou Sybil. algo que um pescador usaria. Keats. As mangas balançavam.. Keats. catou o chapéu. Algo escuro caiu de dentro do casaco e rolou para dentro da sarjeta. como se o garoto estivesse abraçando a si mesmo. mas a esta hora. vazias. Ele arregalou os olhos brilhantes. O garoto parou e olhou com cautela para eles. – Não. – Mas ainda não me disse qual a sua profissão. e consultou-o... não. com aversão –. Algo singular para ser usado numa palestra. um garoto macilento aproximou-se rápida e furtivamente por trás deles. – As técnicas empregadas aqui esta noite são de especial interesse! Ainda que a resolução da tela seja um tanto modesta. mas receio que isso tudo seja um pouco técnico demais. mas tomarei o trem subterrâneo. uma cartola. – Não conheço bem o bairro – disse. os olhos ainda fixos neles. o alívio evidente ao abrir e segurar uma das portas de vidro para a rua. Ele deixara cair um chapéu. como se estivesse bêbado ou doente. enfiou-o debaixo do casaco e partiu novamente. o tom levemente marcado pela desconfiança. ele disparou. – Ah. sabe.. – Pensei em chamar um cabriolé para a senhorita. o rosto pálido com as cavidades marcadas pela iluminação a gás. Sua gentileza foi excepcional.pequena. – Disponha sempre – ele disse. – Uma . Voltou depressa. pode-se presumir por meio de compressão algorítmica. Nenhuma mulher respeitável tomava o trem subterrâneo desacompanhada. senhor. Keats pegara uma moeda. aquele sujeito é um ladrão! Aquele impermeável está abarrotado de chapéus da plateia! Sybil não conseguiu pensar em nada para dizer. efeitos notáveis foram obtidos. srta. Jones? Eu poderia acompanhá-la até a parada de ônibus local... é um vagão sem trilho. De repente. sr. costas curvadas. – Cinetropia – disse Keats. ainda que fossem comuns vestimentas ainda mais esquisitas entre os pobres. com ar distante. Seu andar era estranho. e a taxa de restauração definitivamente lenta. – Tem total certeza de que não preferiria que eu tentasse chamar um cabriolé? Conhece bem Londres. Keats – ela disse. – Imagino que o tratante tenha se aproveitado da comoção que a senhorita causou – Keats disse a ela. protegendo-se do frio. e Sybil entendeu que ele desejava que o rapaz chamasse um cabriolé para ela. talvez.. na esperança de distraí-lo. Estava envolto num longo casaco sujo de lona.. mas os olhos úmidos brilharam para eles com alarme. penetrando as sombras. obrigada. obrigada. embora não tão rápido desta vez. – Palavra de honra – disse o sr. esbarrou neles e saiu do teatro sem uma palavra. – Espere aí! Rapaz! – O sr.

Trabalhavam sem cessar. dizia o Daily Telegraph.. o dândi bêbado com o casaco aberto. e dentes de elefante com mil anos de idade. E a escavação prosseguia. embora o próprio Lorde Babbage tenha afirmado que um verdadeiro trem subterrâneo moderno devesse operar exclusivamente conforme os princípios pneumáticos. onde os operários haviam encontrado canos de água de chumbo dos romanos. pois ela ouvira o bufar da grande máquina quando estava ao lado de Mick. contratados pela ferrovia. As lamparinas resplandeceram todas de uma vez. nesta e em todas as noites. o velho clérigo quacre de rosto redondo. Sentada num vagão de segunda classe. sobre a calçada em Whitechapel. o fluxo de gás perturbado por um tranco particularmente intenso. o colete amarelo-vivo com a frente toda manchada de clarete. ou pelo menos a parte da melhoria.. abaixo do emaranhado de esgotos. sem envolver qualquer tipo de combustão.. pois quem saberia que maravilhas os Rads não poderiam produzir? Mas os jornais dos Rads também não haviam publicado o testemunho de médicos. Sybil sabia que era tudo enganação. de modo semelhante ao da transmissão de correspondências em Paris. ainda que ela considerasse a ideia um tanto impura. A instalação de exaustores. de que vapores sulfurosos eram terapêuticos para a asma? E não se tratava apenas dos vapores das Máquinas.. resultara em melhoria perceptível na atmosfera do metropolitano. Era coisa estranha. mas das abomináveis infiltrações também. os rostos de outros passageiros parecendo saltar na direção dela: o cavalheiro pálido com ares de publicano bem-sucedido. quando se parava para pensar. As novas linhas eram reforçadas com aço. respirando da forma mais superficial possível. e dos vazamentos gasosos das bolsas flexíveis de goma da Índia.. – Senhor. acredito estar ouvindo a Máquina acumulando vapor para o cinétropo. moedas. mosaicos e arcadas. as escavadoras abrindo caminho para linhas mais novas e profundas agora. E isso bastou para ele. o trem subterrâneo. silenciosos feito enguias. tubos de gás e rios revestidos de tijolos. . que iluminavam os tubos de vagões em suas redomas de vidro protegidas por telas de arame. estrepitando a tais velocidades. e logo os trens sem fumaça de Lorde Babbage deslizariam por elas. pela escuridão abaixo de Londres..pena! Nunca se sabe em quem confiar hoje em dia.

por ter escolhido o elegante xale novo em lugar do mantelete.. Um sujeito atrevido passou por ela depressa. Realmente fazia um frio horrível no caminho entre a estação e seu quarto na Flower-and-Dean Street. e a boca soltava o ar de forma explosiva no frio. Não havia nenhuma outra mulher no vagão. Fora a sra. e oferecia. encontrando-se os mais pobres e loucos reunidos em praças públicas para apresentarem seus projetos e modelos. seguindo veloz. os sapatos estavam presos às manivelas em rodopios. Atendia jovens escriturários e caixeiros. Passando da via pública para as antigas pedras arredondadas da Renton Passage. Sobejavam inventores em Londres. Estava sem chapéu. e discursar para a multidão a passeio. pavimentados por um material negro que era derramado. antes do avanço do rolo compressor. rumo a Paris. Os paralelepípedos de Londres desapareciam a cada mês. que não admitia mulheres. Batia os dentes. para encrespar cabelos por meio de eletricidade. uma aposta na máquina de jogos acionada por moedas. Sybil supôs que fosse um inventor. quente e fétido. Quase deitado dentro da armação rangente de um velocípede de quatro rodas. Chegava-se aos quartos superiores por meio de uma escada escura e íngreme que se encontrava abaixo de uma claraboia coberta de fuligem. um casaco grosso de jérsei listrado e um longo cachecol de tricô tremulando para trás. um pião mecânico para crianças que tocava Beethoven e um projeto para a galvanoplastia dos mortos. era um local tranquilo. ela avistou a placa do Hart e ouviu o ruído dissonante de uma pianola. ela se imaginou gritando. com óculos de proteção. pois ela era uma aprendiza de aventureira agora. embora o primeiro trecho da jornada consistisse necessariamente na miserável viagem de dois pence de volta a Whitechapel. nas vistas de qualquer um. ela se deparara com um aparelho. Ela lamentou a vaidade. tirando total vantagem da nova superfície arenosa. Winterhalter quem arranjara um aposento para ela acima do Hart. de aspecto perverso. No período de uma semana. e que ia dar . adeus a sua Londres. Adeus aos senhores.. A taverna. Mas o clérigo a havia notado. saído das mandíbulas de grandes carroças para os operários espalharem e alisarem com rastelos. como atrativo mais excitante. seu desprezo muito claro. em si. A geada intensa brilhava em poças de luz a gás no novo macadame da rua. declarada e legítima.

o senhorio. que de quando em vez parecia- lhe insuportável. Toby estava lá para recebê-la. uma vez que luz alguma era visível pelo vão debaixo da porta fechada. querido? Ele soltou um gemido suave e bateu nas fitas da touca dela. O sr. Girou a . Mesmo assim. Não trancara. cuja porta estava entreaberta. O quarto de Sybil tinha duas janelas. tão próximo que ela poderia tocá-lo se alguém não tivesse cravado pregos nos caixilhos. e ela imaginou que as horas que marcava. a cena de uma cidade toda em chamas. Sybil pôs Toby no chão. Hetty deixara uma lamparina com luz fraca sobre a mesa de cavalete que ficava no corredor. mas as flores estampadas haviam adquirido uma tonalidade pálida. O corredor de entrada não via a luz do sol em todos os anos de existência do Hart. tinha apenas uma janela. Se Hetty estivesse aqui. Ela balançou o fósforo para apagá-lo. tinha quartos atrás da porta à esquerda. aproximando-se em silêncio pelo assoalho descoberto para enroscar-se em torno dos tornozelos dela. então. O padrão do papel de parede dançou quando ela ergueu a lamparina. considerou o que deveria fazer. Era bom ter seu próprio quarto. Cairns. onze e quinze. Fumegava. num dia claro. – Hetty deu-lhe de comer. na esperança de que Hetty não tivesse trancado a porta por dentro. Cheirava a arenque. com Toby rondando em volta de seus tornozelos como se esperasse descobrir mais arenque. agora. O tique-taque do volumoso relógio de metal. ronronando com afinco. estavam corretas. ainda que dessem para um muro falso de tijolos amarelos e encardidos. um pouco de luz chegava a entrar. era reconfortante agora. dormindo. mas Sybil sentiu-se grata por não ter encontrado o quarto na escuridão. Sybil subiu a escada. e levou a lamparina para o seu quarto. com uma gravura da Crimeia na capa. E o quarto de Hetty. e a chave de Sybil virou suavemente na fechadura. encontrou tudo tal qual deixara. com privacidade. Colocou a lamparina sobre o tampo de mármore rachado da cômoda e. por mais modesto que fosse. indicando que a mecha necessitava de aparo. Uma imprudência tê-la deixado queimando onde Toby poderia tê-la derrubado. embora maior. mas viu que Hetty havia deixado o último número da Illustrated London News sobre o travesseiro. encontrou em seu regalo uma caixa de moedas cheia de fósforos de fricção e acendeu um. Pelo menos estava funcionando.numa alcova com um par de portas idênticas. O cadeado brilhante de latão reluziu ao clarão da chama. devia estar sozinha. ainda que sob protesto. com o sol incidindo diretamente. Dentro. Pegou Toby nos braços. Cairns havia acorrentado uma bicicleta à grade de ferro acima da escada.

Então pegou uma minúscula lapiseira de prata e acomodou-se na beira da cama para escrever um bilhete para Hetty. – Ele virá – sussurrou furiosamente. Com esse pensamento vieram outros a respeito de Radley. A lapiseira foi-lhe presenteada pelo sr. um conjunto de escovas com imitação de ébano na parte de trás. pela metade. Acrescentou uma escova de dentes com cabo de osso e uma lata de dentifrício canforado. Foi tomada por súbita e profunda convicção da falsidade dele. com as palavras COMPANHIA METROPOLITANA DE ESTRADAS DE FERRO gravadas ao longo do tubo. e falsa. Um dos cavalheiros mais jovens de Hetty. por precaução. Respeitosamente. Para papel. Retirou o aparador de pavio da cômoda da gaveta. revelando o metal por baixo. Mas depois de separar duas trocas de roupa. Sybil. E se isso não fosse pensar como uma aprendiza de aventureira. Na cornija havia uma lata rasa. A luz melhorou um pouco. Não se assuste. Colocou a lamparina e o bilhete dobrado sobre a cornija estreita. mas então parou. Ainda assim. com o nome de uma tabacaria da Strand litografado em cores vivas. estudante de medicina. substituindo-as por Fugi com um Cavalheiro. uma prensa de flores em miniatura com uma imagem do Palácio de Kensington e um ferro de encrespar o cabelo de patente alemã que ela furtara num salão. ela começou. e por favor Cuide do querido Toby e dê-lhe Arenque. descobriu que só tinha o verso de um folheto de anúncio de chocolate instantâneo. A placa externa começava a descascar. Minha querida Harriet. Mick viria buscá-la à meia-noite. Estou Bem. Vestiu o mantelete para se proteger do frio. fui Embora para Paris.corda algumas vezes. e quando olhou para Toby. sentiu-se triste. insistira certa vez que . tirou a tampa da lapiseira e usou a borracha para apagar as quatro últimas palavras. Esteja à vontade para usar qualquer Ropa que deixo. Havia o adorável frasco de colônia de Portland com perfume de rosas. Chadwick. Kingsley. abriu a tampa de um baú de ferro laqueado e começou a fazer um inventário de suas melhores posses. uma vez que ele a aconselhara a viajar com muito pouca bagagem. mais Mick Dândi teria de comprar para ela em Paris. Sentiu-se estranha ao escrever o bilhete. e havia decisões a serem tomadas. ergueu a manga da lamparina e cortou o pedaço escurecido. deu-se conta de que quanto menos levasse. tinha de fato algumas coisas pelas quais nutria especial afeto. um broche verde de pasta vítrea do sr. ela não sabia o que seria. e essas foram colocadas junto às vestimentas na valise de brocado com a costura desfeita que ela pretendia consertar. por deixá-lo. Sabia que ela continha cigarros turcos.

sem obter resposta. Tê-la-ia ludibriado. Ela tomou uma consciência dolorosa do tique-taque do relógio. riscou uma das hastes e lembrou-se de deixar a massa de enxofre queimar antes de levar a chama à ponta do cigarro. quase atirou a coisa longe. ido embora sem ela? Não. a face do relógio pareceu nadar ao clarão do enxofre. onde ele ardeu em chamas e foi consumido pelo fogo de imediato. acreditando em suas promessas? Um tipo estranho de calma invadiu-a. Stanley. Os carvões estavam frios. Ela tragou o cigarro aceso. Tossindo ruidosamente. conhecido entre os membros da turba desordeira. e onde estava o efeito desejado? Sentiu-se mal bruscamente. Teria ele vindo enquanto ela dormia. Stanley comentara com frequência que o cigarro era a melhor coisa para fortalecer os nervos de um jogador. ela abriu a lata. retirou um dos cilindros de papel fino e sentiu seu perfume ardente. não Mick. Sybil buscou os fósforos e. Era quase intolerável. Lembrou-se da data . onde o minúsculo tique-taque do relógio guiou-a até a cômoda. tragando em intervalos regulares e batendo a cinza pálida e delicada sobre o carvão. colocando o cigarro entre os lábios. Quando acendeu um fósforo. Um tal sr. Com os olhos lacrimejando. Orgulhavam-se de estudar bestialidades. uma lucidez cruel. Era uma e meia. se quisesse. O Big Ben começou a soar meia-noite. pegou a caixa de fósforos. hesitante. Mas ali. largou o cigarro sobre os carvões. sob o domínio de intenso impulso nervoso. Ficou parada diante da lareira e forçou-se a continuar. Levantou-se com dificuldade.ela adquirisse o hábito. tomada por um medo que não sabia nomear. e foi recompensada por uma porção acre da fumaça abominável que a fez esmorecer como uma tuberculosa. o estômago revirando de náusea. Sybil geralmente evitava estudantes de medicina. Onde estava Mick? Ela acordou no escuro. com o gesto que Stanley usava. fumara cigarros incessantemente. a mão fria como gelo. concluiu. Ele teria encontrado uma maneira. A lamparina apagara. batido à porta e. como vira Stanley fazer. depois seguiu tateando até o seu quarto. pois certamente fora a garota patética de sempre. Durante suas relações pessoais com Sybil. advogado.

Ela iria até o Grand. chantagear. uma mulher desacompanhada. Mas ela poderia pensar numa história para ludibriá-lo. se imaginasse uma mentira convincente. Ou poderia encontrar um garoto da rua para atirar uma pedra para ela. Cartazes de anúncios assomavam-se acima dela. Estava no meio do caminho entre a Minories e a Goodman’s Yard quando se lembrou da valise. o que fosse necessário..de partida na passagem do navio a vapor. com grandes impressos dilacerados e exclamativos: DAILY NEWS Circulação Mundial. ESTRADA DE FERRO SUDESTE Ramsgate &Margate 7/6. então. e encontraria Mick. manco. à luz do dia. mas ele era coxo e lento. LLOYD’S NEWS Apenas um Penny. depois do cabriolé. à espreita nos degraus de mármore da entrada. Ela arranhou feio a canela no escuro. Ou poderia tentar suborná-lo. Toby miou uma vez. distraí-lo. Poderia. para defrontá-lo. em caso de emergência. na bicicleta de Cairns. estaria no regalo. próximo à Goodman’s Yard. enquanto descia do cabriolé – um grande bicho-papão num uniforme com galões dourados. e se ele fosse burro ou desatento. e implorar. de olhos frios e suíças. talvez. e parecia improvável que ele e o general Houston deixassem Londres. na calada da noite. Havia um posto de cabriolés em Minories. Ela iria até lá e acordaria um taxista para levá-la a Piccadilly. Mas chegar com ousadia na madrugada. embora tivesse muito pouco dinheiro. ameaçar expô-lo. ao lado dos tapumes de madeira de uma construção. e o porteiro não permitia a entrada de prostitutas. Ela o havia notado a uma quadra de distância. O porteiro noturno do Grand era corpulento. Sybil retirou a mão do regalo e roeu . Sybil ficou parada na escuridão. sob enormes lampiões adornados por golfinhos. após uma apresentação importante. comiserativo. e com toda certeza não permitiria a entrada de Sybil em seu hotel. era outro caso. E estava vestida de maneira adequada. Partiria de Dove apenas no dia seguinte. Era difícil correr de crinolina. Apenas as prostitutas faziam isso. quando Sybil saiu e fechou a porta. Se ela tivesse algum dinheiro.. Ela conhecia porteiros muito bem. tinham um papel importante em sua vida. maiores que lençóis. se pudesse impedi-la. Despedaçar uma janela com paralelepípedo e passar correndo por ele quando saísse para olhar. Uma coisa era entrar no Grand de braço dado com Mick Dândi. ou se estivesse cansado. não com as roupas chamativas de uma meretriz. mas não havia como voltar. tarde.

e juntou- se ao grupo com ousadia. ali. para ninguém em particular. salvou-a então. Sibyl ergueu a saia no mesmo instante e apressou-se.. Perdoe-me. deixando Sybil para trás. ou. – Nossa sala de charutos não é para as damas.. Em seguida. mas parece um tanto aflita. O recepcionista. e tremia muito. passando pelas grandes rodas com travas de madeira e faces de rolamento de borracha.. Dela saiu uma multidão galhofeira de franceses bêbados com capas de forro vermelho. – O recepcionista acenou com a cabeça na direção de uma porta enorme no canto do saguão. e não pareciam notá-la nem se importar. e ficou bem perto de um homem alto. pois um gurney reluzente e ruidoso veio parar em frente ao Grand. seria maravilhoso. e o francês alto deixou uma nota de uma libra na mão do porteiro. que falava francês. Vi o general Houston esta noite mesmo. pareceu. Quem sabe a senhorita poderia deixar um recado? – Sala de charutos? – Sim. que cheirava a tabaco turco. Subiram. melhor dizendo. quem sabe eu possa enviar um mensageiro. O general Houston ainda está hospedado aqui? – Sim.. continha o riso diante de algo que ouvira. pela amplidão de mármore lustroso até a recepção. quase gaguejos. Ela deu um sorriso bondoso. rabiscou SR. é claro. O porteiro ficou surpreso e tocou o chapéu de galões dourados. acariciavam o bigode e davam risadinhas. Aproximou-se de lado. atrás do acanto. Ela escreveu apressadamente. ou o gesto de um anjo compadecido. vacilantes. – Sim – disse Sybil –.fervorosamente a unha.. por favor. e dois deles estavam com mulheres. a escada curva. Caminhou com os franceses.. simplesmente contornou-o. Pura sorte.. diante do balcão. pegou uma folha de papel timbrado do hotel e ofereceu sua caneta-tinteiro com pena de ouro. ao longo do lintel de mogno. com um sorriso para Sybil. – Poderia me dizer. prestativo. está em nossa sala de charutos agora. MICHAEL . Sentiu melancólica surpresa ao notar que a mão estava branco-azulada de frio. de cabeça baixa. coletes de brocado e bengalas de luxo. Caso a questão seja de importância vital. Ao atravessar a rua. ficou escondida do porteiro pela barricada da carroceria brilhante do gurney... que parecia o mais bêbado. – O recepcionista. dobrou a mensagem. a escadaria de mármore. madame? As palavras saíram com dificuldade. em meio ao falatório. – Em que posso servi-la. bocejando e sorrindo. Michael. onde pegaram suas chaves com o funcionário do hotel e subiram. madame. Contudo. E Sybil entrou com segurança. no início. com a tranquilidade de um homem que não sabia o que era dinheiro de verdade. e o fornalheiro de casaco azul saltou para baixar o degrau articulado. cambaleantes.. Os franceses parlevousavam uns com os outros. madame. algum sr.

.. Não façamos caso dele. Ansiosa. ao lado de um decantador de vidro lapidado. Então o mensageiro surgiu. eu o conheço. o calor penetrando os sapatos úmidos e encardidos. Enquanto a porta fechava devagar. Sybil viu-o raspando um faiscador de aço. garota? – O que foi? – ela perguntou. perturbando outra pessoa. os dedos dos pés começaram a doer.. pois o chão ao redor da cadeira de couro estava coberto de raspas de madeira. De imediato. – O que deu errado? Quem é o sujeito com ares de gentleman e o braço imobilizado? – Maldito diplomata britânico que não se importa com o plano do general de formar um exército no México. Um inglês alto e barbado murmurou algo para Houston. Mas sua presença aqui pode mudar as coisas.RADLEY atrás. que sorria na direção da sala e esboçava uma jovial saudação escoteira. Seria engraçado se não fosse extremamente difícil. – Pelo amor de Deus – sussurrou –. Acontece que o general estragou tudo. furando algo – talhando. bocejando. curvando-se à cintura para acender o cheroot do homem. e ele estará aqui em Londres. Segurava um canivete grande e ameaçador. Sybil levantou-se da cadeira. tinha olhos tristes e parecia honrado e importante. rosto reluzente. senhorita. O estranho estava com o braço preso numa tipoia de seda branca. Sybil sentou-se numa espreguiçadeira no saguão de mármore ecoante. Amanhã estaremos na França. era isso. na ponta de um tubo de gás de borracha pendente. – Tudo bem. O funcionário tocou um sino de modo enérgico e conciso. Sybil seguiu os passos arrastados do mensageiro até a sala de charutos.. um pequeno mensageiro carrancudo apareceu. Pelo menos é o que espero. A raposa mordeu o próprio rabo. infelizmente.. Quando ela abriu. – Empurrou a porta da sala de charutos com a mão. fez uma reverência ao agradecimento dela e prosseguiu com seus afazeres. Mick estava ao seu lado. e colocou o recado dela numa salva com tampa de cortiça. verdade seja . Vendo-a ali. pôde olhar bem para Houston. Aproximou-se dela rapidamente. que recado tolo era aquele? Perdeu a razão. o rosto estreito de Mick foi tomado por expressão de desânimo. e dava baforadas. – Por que não foi me buscar? – Pequeno contratempo. e aprontou uma de suas gracinhas. Bêbado feito um porco.. segurou-a pelo cotovelo. e Sybil espiou o interior. com o suor decorrente da bebida e um pé calçado com bota apoiado sobre a mesa. seguido por Mick. Fica detestável quando bebe. e então a porta fechou-se. o mensageiro passou. sem chapéu. – É para o secretário pessoal do general – ela disse.

levá-las comigo. Dessa forma. Mick interrompeu-a. – Não sei roubar! – Sua tolinha. Mick – disse Sybil. você também poderia perguntar como consegui que fizessem aquele singular programa francês. Está dizendo que não precisará de mim na França afinal. então! – Levantou-a da espreguiçadeira. Ele a estava provocando? – Mas isso não é roubo. não perco nada. sobre a cadeira.. Pelo menos é o que diz.. – Mas isso é roubo! – “Empréstimo”. Você e Corny Simms fizeram-no sentir que estava saindo-se muito bem. – Quanto a isso. Você vai encontrá-las para mim e furtá-las de volta.dita. roubou-o com destreza e fê-lo até os ossos! – Mas você é o braço direito dele! Não pode deixar que roube de você. – Exatamente conforme pediu. – Mick. Diz que me devolverá as cartas assim que alguém as copiar para ele. tola. juntos. – Não é a primeira vez que tentamos tal manobra um no outro.. percebe? Portanto. Começa a esquecer-se dos amigos. Deus – disse Sybil. E eu voltarei lá para dentro. – Coragem. não vê? O camarada tem de ter todo tipo de qualificação para viajar com o general Houston. . desabando dentro da crinolina. – Não essas. – Tenho medo. Contratará um cretino qualquer que saiba operar um cine por uma miséria. exercendo sua influência! Mas ainda vamos fazê-lo de trouxa. Não deixa de ser um teste. – Mas enviei-as a Paris. as cartas de cine do discurso! – Suas cartas de teatro? Ele as roubou? – Ele sabia que eu tinha de pô-las na bagagem... você e eu. – Oh.. – O desgraçado poderia não ter tentado isso. – Mostrou os dentes num largo sorriso. como se nada tivesse acontecido. segundo ele. – Riu. – Quer livrar-se de você. frio como gelo. de alguma forma? – Tente convencer o maldito Samuel Houston! Já roubou um país inteiro.. se você soubesse o que eu estava pensando... não fosse por meus truques na apresentação dele. desde que tenha minhas informações. – Preciso daquelas cartas. e elas estão no quarto dele. vigiou-me de alguma forma e agora as afanou de minha mala. Poder-se-ia dizer que pedi emprestado dinheiro do general para tanto. por assim dizer. como poste restante – disse Sybil. entende? Sybil sentiu-se tonta. é isso? – Surrupiou minhas cartas de cine – disse Mick. é claro que sabe – disse Mick. – Ele enganou-o de algum modo – Sybil deu-se conta..

Se eu ficar muito tempo conversando. – Dê-me a chave do quarto dele. que furava um maço de papel em dobras sanfonadas. Número do quarto? Sybil hesitou o quanto sua ousadia permitiu.. certo? Disse a ele que você era uma amiga do jornal. em verdade. – Está bem – disse Sybil. madame. Uma onda de alívio atravessou-a.. Apresentou a caneta-tinteiro que Sybil usara antes. uma agulha dourada balançando. – Sim. fixou o pincenê sobre o nariz e foi até ela. senão revelará a todos no Grand. A cada contração da agulha. – Pestanejou para o recepcionista e começou a morder a junta do dedo. O recepcionista reuniu com destreza uma pequena caixa de cartões perfurados. madame? – Preciso enviar um telegrama. madame. – Penso.. mas estava louco e impertinente. não sei. um perfurador articulado de latão e um formulário pautado com esmero. com nítidas perfurações. Número de identidade? – Ah. – Pois. – Bem. – Deu- lhe um meio empurrão. e agora estava embriagado. Agora. Mantenha-o ocupado. madame. – Pegarei uma chave para você. – Olhou-a fixamente. – Vá! Aterrorizada. apontando para letras num alfabeto concêntrico. que pagarei em dinheiro. pode vir comigo e ajudar. vencida. Mick grunhiu. Vá até o homem do balcão. E não olhe para mim. número de identidade do destinatário? – Infelizmente. não sou nenhuma arrombadora! – Fale baixo. Sybil percebeu. – Certamente. fazendo sair dela mais um quarto de polegada de fita de papel amarelo.. Estava bêbado. – Sim. algo se chocava metodicamente contra a base de mármore. . uma máquina de latão tiquetaqueante num baixo pedestal de mármore ornado com frondosas videiras douradas. Seria o meu número ou o dele? – Isso depende. O recepcionista. É bastante urgente. ela retornou ao balcão. em verdade. Nunca vira Mick realmente bêbado antes. Pretende pagar com crédito nacional? – Posso deixar na conta do meu quarto? – Sybil resguardou-se. – Seus olhos cintilaram de raiva. em choque. então? – É claro que não! Ele descobriria. O telégrafo do Grand estava na outra ponta. deixou o trabalho de lado. com certeza. Não era aparente na voz ou no andar. – Muito bem. bajule-o. vai pressentir a tramoia. Dentro de uma espécie de campânula de vidro. – Chave? Não tenho a maldita chave.

anote o seguinte – disse Sybil. – Por favor. apinhado de chaves penduradas. madame. madame. – Charles. – Está relacionado ao modo como a Máquina manipula as mensagens – explicava o recepcionista. prometeste-me salvar meu pobre pai. – Sybil não estava procurando Mick. por favor. Londres. e ao recepcionista era preciso apenas olhar à direita para descobrir um ladrão sorrateiro rastejando-se em sua direção. – Imagino que não devo começar por meu endereço e data? Digo. Mick devia estar arrastando-se até o quadro de mogno do hotel. – Sim. Avançou com ímpeto rumo ao balcão de mogno à altura da cintura. Charles Egremont. causaste a pior desonra que uma mulher pode sofrer. madame. Egremont . – O recepcionista pôs-se a escrever às pressas. Não fez absolutamente som algum. tampouco? – A concisão é a essência da telegrafia. rapidamente. Seria inútil. – Sr. Hei de pagar o acréscimo. na companhia de amigos poderosos. Espero que tu e a sra. Ela não podia vê-lo. – É um tanto mais custoso enviar um telegrama apenas com o endereço. portanto. Ele era muito paciente. corrompeste- me. – Mas não tenho seu número de identidade. Tivera medo de olhar. sim? Trata-se de algo importante. os cadarços amarrados no pescoço. Em vez disso. – Nem pelo endereço dele. quase dobrado. Neste momento. O recepcionista olhou horrorizado para a caneta. e tomarei o ditado. Mick estava curvado. O funcionário anotou os dados. o telegrama não é como a carta. – Querido Charles. pelo canto dos olhos. madame. agarrou-se à margem dianteira com as duas mãos. Estou certo de que sim. Não tentes encontrar-me. saltou por cima dele numa fração de segundo e desapareceu. “The Beeches”. sim – disse Sybil. na verdade. – Nove anos atrás. quase sentir-lhe o cheiro. – De fato – disse Sybil. membro do Parlamento. é? – Não. com a voz trêmula. Prossiga. Sabem muito bem o traidor que foste de Walter Gerard e de mim. Hoje estou partindo de Londres. viu um vulto escuro correr pelo saguão. Charles. sem sapatos. É mais eficiente encaminhá-lo direto pela Agência Central de Estatística. mas agora imaginava poder ouvi-lo mover-se. impetuoso rubor emergindo colarinho acima. o corpo e a alma. Belgravia. – Mas tem nome e endereço? – Ah. de olhar desvairado e agachado feito um macaco.

Doíam-lhe os pés. para recolher-se ao andar de cima. Ao caminhar com dificuldade pelo corredor silencioso iluminado a gás. endireitou-se. implorava. Ela bocejou. ajeitou a gravata. Num instante. Sem se preocupar sequer em ver se ela estava olhando. depois saiu rastejando de cócoras. totalmente incapaz de fitar-lhe os olhos. fátuo e próspero. chorava e pecava. com o número “24” estampado no latão oval. Mick abaixou-se. sentiu assombro repentino pelo ataque a Charles Egremont. – Sim. e lamentava-se. de modo quase involuntário. sairia do Grand Hotel. que sempre predicava para ela. Abaixou-se calmamente. Ao necessitar de uma mensagem dramática que distraísse o funcionário. com a ponta dos dedos da mão direita.durmam um sono profundo esta noite. rolara para trás de um par de cadeiras estofadas. Sybil sentou-se por um momento na cadeira. e levantou-se. na direção da suíte de Houston. deixara escapar ameaças e fúria. ao passo que Mick emergia em silêncio acima do balcão em pés de meias. bamboleando-se pelo chão de mármore. amarrou os sapatos. – Quanto devo? – Sybil perguntou educadamente ao recepcionista. – Sybil estremeceu. Fez uma pausa ao lado de um cavalete cheio de jornais passados a ferro com esmero. pescou atrás de si a chave. alisou as mangas e caminhou a passos largos direto para a sala de charutos. – Assine “Sybil Gerard”. – Dois xelins e seis pence – gaguejou o recepcionista. com todo o ar de quem tivesse um quarto ali. Mick veio desfilando como um cavalheiro pelo saguão. Lembrava-se bem do semblante dele. e até assustou-a. com o que esperava ser o modo de uma dama. Mas agora ela permitira que Mick Radley a predispusesse a roubar. por obséquio. As palavras transbordaram. Era um tolo. Podia imaginar o medo no rosto de Egremont quando lesse o telegrama. que sempre se desculpava. alguém que sempre dava a impressão de ter boas intenções. e ela viu o brilho do metal em sua mão. desapareceria nas profundezas de Londres . escondido pelo anteparo do balcão. madame – murmurou o recepcionista. fingindo ler um mensário com lombada de ouro. Ela entregou o dinheiro contado da bolsinha porta-moeda que tirou do regalo e deixou o recepcionista ruborizado em seu posto. Desconcertou-a o fato. olhar cabisbaixo. Se fosse mais esperta. qual pato monstruoso. Cautelosa. Transações da Sociedade Real. Depois se levantou rapidamente. enfiou a chave atrás de uma almofada de veludo jacquard sobre uma espreguiçadeira. perfurando os cartões de telegrama de sua caixa. Lá estava. após ter acreditado já ter quase esquecido o homem.

Talvez de fato o amasse. Os dedos. Entre as cortinas. não pareciam estar funcionando bem. Pôde sentir o cheiro. Agora. de algum modo. surgia o contorno de uma janela quadrada. Estava no escuro. mas lentamente. E se amasse Radley. Notou roupas espalhadas sobre a cama. de viver por impulso. Podia sentir o cheiro da mecha queimada. balançou-o. Suas mãos tremiam intensamente quando ergueu a manga e aplicou a chama à mecha. Ele levantou-se então. na verdade. Por alguma razão. Nervosa. Havia uma lamparina em algum lugar do quarto. uma faca enorme na mão. enchendo o quarto com o cheiro detestável de enxofre. já estavam abertas. Tinha óleo. ela precisava de fósforo. Material de escritório. depois duplicado nos espelhos chanfrados das portas de um guarda-roupa. mãos estendidas. com cortinas. Quebrar um juramento era assustador. poderia responder-lhe suas questões de forma quase tranquilizadora. e distinguiu o vago reflexo da manga de um candeeiro ali. Por que estava fazendo isso? Porque Mick era forte. o olhar fixo e arisco no espelho móvel inclinado. Seus dedos roçaram uma caixa de fósforo. Não deveria deixar que o juramento de aprendiza a impedisse. de alguma estranha maneira. farfalhando. Ergueu o lampião.para nunca mais ver Radley. curvado como um grande corvo sombreado. O segundo mostrou-lhe a lamparina. Se estivesse apaixonada. Estava envolto por longo casaco cinza e disforme. fechou-a e apoiou nela as costas. lá estava ela. a qual reconheceu menos pelo tato do que pelo familiar ruído seco. Tateou as gavetas da escrivaninha. O nariz e a mandíbula cobertos por um lenço . Parou diante da porta. recusando-se a acender. finalmente havia algo que ela sabia. Viu seu próprio reflexo iluminado pelo candeeiro. no chão. uma tênue lâmina derramava luz a gás. Deixara que ele fizesse com ela o que queria. Na parede em frente. ocorreu-lhe que poderia estar apaixonada por ele. O primeiro palito de fósforo estalou e falhou. tinha o direito de trilhar um caminho sem volta. Um homem estava sentado no braço de uma cadeira. Sybil destrancou rapidamente a porta... porém não mais abominável que seus outros pecados. Remexeu-as. e alguém derramara tinta numa das gavetas. que dava para a rua. de estar nas nuvens. Ainda assim. e se fosse isso verdade. Um segredo só dela. Inúteis. Passou para dentro. com um ranger de couro. e ele não. e ela fraca? Porque ele sabia de segredos que ela desconhecia? Pela primeira vez. olhou para um lado e para outro do corredor deserto e apalpou a chave roubada. qual imenso títere de madeira que estivesse há anos deitado na poeira. Andou vacilante pelo quarto. até sentir o volume sólido e liso de uma escrivaninha.

Os dedos dele. – É a favorita dele? – Não! – disse Sybil. Sybil mal conseguia compreender suas palavras. . mocinha – ele disse. essa é a verdade! Houve um silêncio medonho.. mas era claro que estava intrigado. Tenho a consciência tranquila. – Melhor ficar quieta agora. garota? – Está lá embaixo – disse Sybil. juro! Meu homem mandou-me vir aqui. eu vim aqui para roubá-lo. – Não roubei as cartas! Não as toquei! – Cartas? – Ele riu. – As cartas não pertencem a Houston. Ele avançou. mostrando a lâmina ponderosa. sem pensar. – Deixe-me ir – implorou. – Onde está ele. e não estava contente com isso. juro! Eu. a voz sufocada. Sybil fê-lo. Estalou a língua. – Dê uma olhadela à sua volta. é? – A lenta voz texana deslizava feito melado. Sua voz mascarada era ininteligível. – Não sou. – Como a chamam? – Sybil Jones. – Respirou. desesperada para evitar outro silêncio. – Nada aqui a ser roubado – disse o homem. – Já perguntou se ele é solitário? – Não o conheço – ela insistiu. Ele as roubou! – Houston roubou muito – disse o homem. eram secos e duros como madeira. – Por favor. tremendo. e a isso se chama justiça. e é só! Eu não queria fazer isso! Ele forçou-me! – Agora. som seco do fundo da garganta.. No escuro. – Está bêbado! Mas não o conheço. Uma aba de chapéu repousara ali. – Não machucaria uma mulher branca. Sybil notou. ao roçarem sua mão. O quarto fora vasculhado. Estava pensando nela. Apague o lampião.. – Sam está vindo? Sybil encontrou a própria voz. – O mal que houver é para Houston. O suor cintilou numa faixa de pele lisa e clara no alto da testa. – Vou-me de imediato! Não tive má intenção! – Má intenção? – A voz lenta estava carregada de certeza matreira. restaram apenas a batida do seu coração e a terrível presença do texano. para protegê-lo do sol texano. não me mate! – O velho travesso ainda vai atrás de meretrizes. a menos que tivesse de fazê-lo. o aço sombrio que lembrava um cutelo. – Talvez Houston esteja só. silêncio – disse ele. – Deve ficar solitário aqui em Londres – disse Sybil. – A voz do texano era incisiva.escuro. tomou dela a lamparina e dobrou a mecha. – Sou súdita britânica! – Nossa – disse o homem..

Feijões-pretos. Não é a primeira que vejo. o que há de mais parecido com diabos na terra. Ela ouviu-o tossir por trás do lenço. marcharam conosco para fora da cidade. Sem água.. um pesadelo de rochas retorcidas. No dia seguinte. – Eu estava em Goliad. desesperada. Começar de novo. Queimaram todos os corpos. – Vim pegar as cartas de cine. – Mas os texanos são heróis – disse Sybil. com toda delicadeza. juro! – Nenhuma resposta. – Ouvi falar de. Feijões. A cabeça dela era uma Babel. O coronel Fannin rendeu-se. De algum lugar na noite veio o guincho agudo de um grande freio de atrito. – Estou certa de que seria maravilhoso – disse Sybil. cheirava a cavalos e suor. – Não minta para mim – disse ele. Massacraram-nos. – Ergueu o lenço e cuspiu no assoalho.. Passando pela Neal Street. aborrecido. com um resfolegar úmido.. Pequena loteria num vaso de barro. – Os comanches são piores. – Combati-os por dois dias. – Você está aqui. ela pagara um dia dois pence para ver um diorama de vastas terras na América. – É uma prostituta. Atiraram em nós a sangue frio. O texano pigarreou e cuspiu mais uma vez. – Goliad – a voz era um sussurro seco. E os mexicanos. em vez de cafetão. muito corteses. quatrocentos deles. Simplesmente nos enfileiraram. Uma mulher que veio sozinha aos aposentos dele. finalmente.. – Ouvi falar disso também – Sybil disse rápido. Fedia como um estivador. – Mas não é feia – ele disse. Sybil não disse nada. tentando. batidas distantes e imprecisas. O texano parecia nascido em tal lugar. – Nunca há mulher branca suficiente no país. Goliad. Outro silêncio. e depois. Assim são os mexicanos. lembrar-se de um nome do discurso de Houston. Pode conseguir homem decente. Cartas de papel. só isso. trezentos. – Deve ter sido magnífico. com furos. com seus rifles de corda. Peles-vermelhas mexicanos franceses com armas.. massacre e esse homem cuja pele era como couro. de Álamo. todos os locais com nomes tão . Fizeram-nos escolher feijões. – No Texas. Fizeram- nos prisioneiros. Peles-vermelhas mexicanos. Só isso. Montados em cavalos. Massacraram a Expedição Meir. – Odeio cafetões – ele anunciou num tom apático. – Mexicanos – ela repetiu. e ela deu-se conta de que todas as regiões despovoadas do discurso de Houston. poderia casar-se. – Sabe o que é um cinétropo? – Mais uma maldita máquina – disse o texano.. – Odeio-os como odeio os peles-vermelhas. Era só retirar um feijão-preto que o matavam. – Massacraram Álamo.

. – O quê? – Houston.. O texano saltou da cadeira. habitados por criaturas como essa... E Mick disse que Houston roubara um país uma vez. Ela deve ter batido a cabeça contra a parede quando o texano jogou-a de lado. – Será a última vez. Não o conheço. ela viu chanfros e cortes ao longo do metal. Mick passando abaixado. ele ergueu o grande punhal diante dela. então.estranhamente improváveis. Com a palma da mão comprimindo com força a boca de Sybil. Sim. os saltos dos sapatos de Mick tatuando freneticamente os lambris – até a lâmina golpeá- lo. ela vislumbrou as facetas brilhantes da maçaneta de vidro lapidado começando a virar. um anjo vingador. e agora vinha esse. Sybil teve um sobressalto terrível. a vendedora de óleo de pedra em Whitechapel. golpeá-lo novamente. – Tem barba? Braço quebrado? – Eu. com a lâmina a centímetros dos olhos. Sozinho? – Ele. Ele fez um som de sucção entre os dentes. mesmo em Londres. Algo chocalhou à esquerda de Sybil. O dorso todo era de latão. enchendo o quarto com o cheiro forte e quente da Butcher Row. e o estranho olhar que lançara a Mick quando ele a questionara. Ao brilho tênue da janela cortinada. mas em seguida estava de joelhos. E então a porta foi-se abrindo. como um cutelo alongado. eram de fato reais. – Mick. girar.. – Está com um homem alto. afilado até a ponta. Sim. Ela lutou contra um insano desejo de rir. depois um ranger de couro quando deu de ombros. coisa medonha. Muito bêbado. uma única e enorme mão sobre a garganta. Lembrou-se da velha mulher então. – Ah. vendo o homem erguer Mick contra a parede. mesmo entre as hordas maltrapilhas de refugiados americanos? – Disse que está bêbado? – perguntou o texano. Na sala de charutos. sobre a crinolina amassada. Havia outros agindo de comum acordo com o anjo de Goliad? Como um tipo tão esquisito conseguira entrar no Grand’s esta noite. num quarto trancado? Onde um tal homem poderia esconder-se. a cabeça e os ombros contornados como que por mimeógrafo pela luz do corredor.

naquele quarto. ou uma apresentação de cine formada por fragmentos de pau- de-balsa tão numerosos. os canos múltiplos cintilando ao gesto de pontaria. no escuro em que se moviam gigantes. rolando.. – É Wallace? Tire o lenço. escancarando a porta. Houston atarantou-se diante da visão. Ela vacilou onde ajoelhara. – Aproximara-se da escrivaninha. iluminando o lenço do texano e os olhos repugnantes acima. fechou e trancou de novo a porta.. Pois o texano baixou Mick em silêncio ao chão. girando no piso de madeira. um tinido de moedas e o som de uma delas caindo. Onde está? Onde está aquele dinheiro público? – Ranger – disse Houston. tão minúsculos e tão bem trabalhados. sem pressa. estremecidas. entrou aos trancos com o apoio da bengala pesada. – Os Texas Rangers me enviaram. general. ali com o cheiro da morte. depois cedeu contra a parede atrás da escrivaninha. Você nos roubou. O texano fechou a porta. rasgou-as. com medo do peso das botas do homem.. metal raspando metal – o som de um homem bêbado tentando encaixar a chave na fechadura. todo vestígio de embriaguez tendo desaparecido bruscamente da voz grave. Mick foi arrastado. garoto insolente. O quarto dela acima do Hart parecia tão distante quanto uma memória de infância. olhos distantes e impiedosos qual estrelas invernais. E tudo o que ocorreu depois. a voz era um caldo denso de paciência e . Soltou um arroto estrondoso e esfregou o local da velha ferida. com movimentos metódicos. – Radley? Aparece. raspando os calcanhares. O texano ajoelhou-se sobre ele – houve um farfalhar de roupas e o estalo do estojo de cartas arremessado para fora do caminho. a ponto de obscurecer a realidade. e Sybil afastou os dedos em silêncio. Sam. – Quem é você. filho? – perguntou Houston. E da porta veio um ruído de algo arranhando. fazendo com que a luz a gás incidisse sobre o padrão da geada que cobria o vidro em cada um dos painéis. Houston. fazendo a bengala bater com intenso estrépito a cada passo. e a manta listrada deslizou-lhe dos ombros. Sam. Encare-me de homem para homem. Sam. Não deveria ter aceitado o que fez. Houston cambaleou de súbito e acertou as cortinas com a bengala. – A pequena pistola pepperbox de Mick parecia brinquedo na mão do texano. – O senhor não dá mais ordem alguma. para a escuridão mais profunda ao lado do guarda-roupa. – Filhos da puta – disse. – Radley! – Noite. inclinando-se violentamente. As medalhas cintilaram. uma peça a que assistia. foi um sonho para Sybil. rouco da bebida..

Estamos passando fome. As barras dos painéis cederam e então ele saiu com dificuldade. – Precisamos desse dinheiro para armas e alimento. depois outro. Mas juro a você que não roubei nada. – Maldito seja – bradou Houston. O vidro estilhaçou-se e despencou no piso abaixo. mas não pode haver paz até que eu retome o comando. mas o cabo. – Bateu no peito. mire o coração. muito a esmo e cruelmente dificultada pela crinolina. escancarando o casaco com as duas mãos – seu assassino covarde. e já estava longe. – Pelo Texas. Ela começou a arrastar-se. não é? – disse o Ranger. É um ladrão. preparando-se agora para voar. imóvel. O texano jogou a arma de Mick para o lado. Sei quem o enviou. houvesse quebrado um encanto.sinceridade –. – A pepperbox emitiu um clarão de chama laranja cercada de azul. arremessando Houston contra a parede. – E sua intenção é ajudá-los nisso. Houston bateu no chão. A bengala pesada encontrava-se no chão.. Se acha que tem coragem de matar o pai de seu país. o estalo sonoro do gatilho delicado quebrando no punho do Ranger. bebida e extravagantes espetáculos em teatros para os estrangeiros.. em seguida. mas era como se os membros se movimentassem por vontade própria. havia se soltado . e conheço as mentiras e difamações contra mim. lembrou-se da primeira visão que teve dele: um enorme corvo sombrio. você foi iludido. E agora quer voltar com um exército mexicano. e Sybil. Ele pulou para fora do campo de visão. com prostitutas. seu filho da puta obsceno. – Procurei. o anjo de Goliad.. deixando-a com o silêncio e o terror cada vez mais intensos. o exterminador de Houston. Aqueles fundos são meus por direito. o sagrado depósito em custódia do governo do Texas no exílio. o vento gelado puxando-lhe o longo casaco. – Você vendeu o Texas pelo ouro britânico – disse o Ranger. como se. para o outro lado do peitoril. curvando-se para empurrar as bocas da arma contra o pomposo colete de leopardo. enquanto o vingador avançava. Ranger. com faíscas vermelhas deslizando sobre a pele de leopardo do colete. e estão nos matando. em seu transe. Um tiro explodiu no peito de Houston. um corvo de latão dourado. Vendeu sua elegante propriedade no interior. Paralisou ali por um instante. e não está aqui. – Pausa. Sei que as coisas vão mal por lá. Jogou tudo fora. um bêbado e um traidor. – A República do Texas não pode desafiar os grandes poderes do mundo. Gritos sonolentos de sobressalto soaram de outro quarto. O texano apanhou a bengala de Houston e começou a martelar a janela. Sam. ao desaparecer. Houston esparramou-se.. e meu coração sofre a falta de meu país. – Não tem mais dinheiro.

O chão estava repleto de cacos de vidro. e ela observou com fascinação uma mancha de sangue espalhar-se ao longo das costelas. Brilhantes. mas ela foi até a porta. – Quem é você? – ele disse.. do Grand’s Hotel. Não. Como cristais de rocha. com duas passagens presas por forte grampo niquelado. O pé chapinhou nas úmidas sombras manchadas de vermelho perto do guarda-roupa. de olhos vermelhos do gim da noite. doces presentes exóticos das docas de Londres. Ela abaixou e pegou-o. E sangue.do corpo. fique em silêncio – ela disse. a Estação Final da Companhia de Estradas de Ferro Sudeste. – Por favor. afiados sob as palmas dela. A bengala. a voz mais forte agora. com traços de urgência e irritação. Houston gemeu. – Ajude-me – grunhiu ele.. – Onde está minha bengala? Onde está Radley? O quarto parecia balançar sob ela. Sybil levantou-se e andou de modo vertiginoso na direção da porta. Ela recolheu-os com as duas mãos juntas. Voltou-se para Houston em seguida. era um salão amplo e frio. Mesmo as pequenas atrizes . – Puxou os botões do colete. Ainda estava deitado de costas. as intricadas perfurações certamente arruinadas pelo impacto furioso das balas. e seguiu como uma garota da gentry pelos corredores absolutamente respeitáveis. London Bridge. de marroquino vermelho. ela viu. e entornara algodão em rama comprimido onde havia mais cristais de rocha aninhados. saiu e fechou-a. Diamantes. iluminados a gás. qual navio em alto-mar. Os passageiros franceses todos pareciam estar voltando para casa com abacaxis. revelando belos bolsos internos de seda preta. enchendo o maço de algodão. Quakers circulavam entre avenidas de bancos oferecendo panfletos aos viajantes sentados. embrulhados em papel marrom fechado com cola. – Não consigo respirar. entre os seios. que se abriu. Soldados irlandeses de casaco vermelho. pois ao menos um projétil acertara-o de fato. recheados de pacotes compactos de papel: espessos pacotes de cartões perfurados. era oca. diamantes reluzentes. passavam com olhares furiosos para os missionários de barba feita. – Ponha-me de pé – pediu Houston. e jogou a porção deles dentro do corpete. abriu-a. Ela olhou para baixo e viu um estojo de cartas aberto. e tossiu. de ferro e vidro coberto de fuligem. – Você está morto.

sentada sozinha. os brincos. hortas. a touca elaborada. parece pensativo. as verdes folhas pontudas projetavam-se das cestas cobertas a seus pés. A escuridão em torno dela fedia a pólvora. O rosto. ermo. uma embarcação desenhada por franceses para o comércio colonial transatlântico. Ela é Sybil Gerard. apoiando-se com força numa bengala. os escritórios da Compagnie Sud Atlantique Transport Maritimes. novo e de excelente qualidade. O trem voou por Bermondsey e saiu em ruazinhas de tijolos novos e telhas vermelhas. que parece ser feita de ratã barato. viu corvos adejando acima de uma colina infecunda. parece absorto na contemplação do barco. Esta imagem. e os fios do telégrafo elétrico todos ativos. O ajuste da imagem revela certos detalhes da vestimenta: fitas. sujeito evidentemente acidental. A mulher. seu xale de caxemira. A vitrine do escritório contém um grande modelo de barco a vapor com três chaminés.rechonchudas sentadas na frente de Sybil tinham seu abacaxi. Sybil cerrou os olhos. tem um bule de chá de porcelana e uma xícara diante de si. perdido em pensamentos. levemente indistinto devido à longa exposição da câmera. O traje da mulher é de origem francesa. O ajuste dos detalhes de fundo revela o número 3 do Boulevard Malesherbes. Seus caminhos divergem para sempre. . Seu vulto solitário emerge. por conseguinte. ombros caídos. as luvas. daguerreotipada de modo sub-reptício por um membro da Seção de Condutas Públicas do Sûreté Générale. apresenta uma jovem mulher sentada à mesa no terraço do Café Madeleine. assim como ela não percebe a presença dele. tornando-se borrões nos intervalos entre postes. dos borrões em movimento da multidão parisiense nas ruas. Um senhor de idade sem rosto definido. movendo-se acima e abaixo. Não está consciente da proximidade da jovem mulher. Ele é Samuel Houston. Um túnel. a 30 de janeiro de 1885. Quando os abriu. no 4 Boulevard Malesherbes. dançando ao vento da passagem dela rumo à França. Está sem chapéu. babados. Monturos.

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As bainhas justas das calças escuras. O ângulo de abertura capturou uma fração do rosto: proeminências malares altas. ornadas por contas. Com as mãos examinou o conteúdo de diversos bolsos. Um lenço. meramente contraindo as orelhas em assombro diante do estampido . porta- cartões. O bisão. tão civilizada e tão inglesa quanto uma vaca leiteira. era isso. um toco de lápis. entre odores de infância como os do arreio. o dr. O olhar de Mallory ainda estava acostumado a um gênero mais selvagem. O espesso cabo de chifre de veado de seu canivete Sheffield de múltiplas lâminas. com maçãs do rosto vermelhas e salientes. Tinham uma maneira de cair na grama alta. revelando pinos sólidos e reluzentes de latão. Chaves. Esposa de fazendeiro. um monte peludo de carne. mecha de cabelo solta visível entre a gola do casaco de veludo cotelê e a boina listrada. todo de aço e barbatana de baleia. trata-se de um risco. Qualquer um ali poderia ser um ladrão. nenhum deles vestido de acordo com sua categoria. quando o grande rifle os abatia. exatamente aquela mesma silhueta da saia-balão. as pequenas mulheres-lobo morenas de Cheyenne. cigarreira. Seu nome é Edward Mallory. subitamente desprovidos do apoio das pernas. As saias- balão à sua volta pareciam-lhe uma regressão aberrante no processo evolutivo. As lapelas abrem-se no calor. com suas tranças negras untadas e calças de couro ajustadas. alguns xelins soltos. barba densa e escura aparada rente. Homem prático. carteira. Seguia a passos firmes entre o brilho envernizado das carruagens e os cavalos com antolhos que aparavam ruidosamente a grama. As mãos estão enterradas nos bolsos do casaco. ela puxou a saia com um rangido da crinolina quando Mallory tocou a boina. orelha direita. estão salpicadas até as canelas com a lama calcária de Surrey.ELE ESTÁ CONGELADO NO meio de um passo. Os grandes rebanhos de Wyoming permaneciam totalmente imóveis ao morrer. nas profundezas da multidão festiva. Trata-se de um fato. Uma mulher cometeu o erro de cruzar o caminho de Mallory. criatura atrapalhada. em sentido diagonal. O bisão americano. e as tachas do sapato dele rasgaram o babado da saia. Virando-se e franzindo o cenho. abotoadas sob polainas de couro acima das botas de passeio com tachas no salto. A dragona esquerda do surrado casaco impermeável abotoa-se com firmeza acima da alça de um estojo de binóculos de modelo militar. do suor e do estrume repleto de grama. ao infiltrar-se. Bloco de anotações – o item mais precioso de todos. e seguiu marchando rápido adiante. As filhas de Álbion tinham agora um andaime comum lá embaixo. Mallory sabia que em toda aglomeração em eventos esportivos havia ladrões.

O garçom sorriu. – O garçom retirou um cheroot torto de uma caixa de madeira. – Preparo-lhe um excelente bumbo.. conhecia demais os segredos completamente banais de sua manufatura. – Não há muita demanda para elas fora de Sussex. O pai. senhor? – perguntou o garçom da barraca. – Não ficará aborrecido? É um homem de Sussex. onde homens aglomeravam-se na frente do balcão. senhor. Não? Um bom charuto. Um huckle-buff ou nada. mergulhando o feltro em banhos de mercúrio. Fique com este excelente charuto grátis. – Há quase dois anos não tomo um huckle-buff – disse Mallory. embora seu olhar interno se recusasse a considerar exótico qualquer chapéu. – Muito decente de sua parte – disse Mallory. Ajudara o pai no pequeno armarinho em Lewes: perfurando. Conhecia muito sobre chapéus. sou um homem teimoso. Acendeu o fósforo na bota. claro! Também sou do interior. retirando um palito de fósforo da cigarrilha. entre suas damas. alcançou ao balcão e nele bateu de leve com um xelim.longínquo do rifle. Mallory balançou a cabeça. Desviando de um trio de cavalheiros esportivos. feita à Máquina. Era capaz de ver com um breve olhar que a maioria dos chapéus à sua volta era muitíssimo barata. talvez. senhor? – Sou. Saiu caminhando. Foi tomado pela sede diante da visão. com chicotes de montaria debaixo do braço. tragou o . parecia não se incomodar com o mau cheiro. – Um huckle-buff.. dando pontos. e pela metade do preço ou menos. então? Apenas dois pence! Ótimo fumo de Virgínia. uma vez que não tenho bebidas à base de cevada – explicou o sujeito. com corte prévio em fábricas. limpando espuma da boca. – Homem de Sussex. nada havendo neles de tão exagerado – exceto. pareciam espécie diversa. Mallory não estava nostálgico quanto ao fim natural do comércio do pai. – Que deseja. senhor. que discutiam as chances das apostas do dia. Os homens. – Quando tenho predileção por alguma coisa. impressionado com o fato de que algo simples como a moda pudesse fazer ir tão longe seu misterioso ímpeto. Por quê? – Não posso lhe fazer um huckle-buff apropriado. ainda que parecesse quase tão boa quanto o trabalho artesanal de um chapeleiro. Mallory abriu caminho em meio a esse outro rebanho. com minhas saudações. surpreso. Afastou o pensamento ao ver que se vendiam bebidas numa barraca de lona listrada. moldando e costurando. pelas cartolas brilhantes.

tropeçando um pouco nos sulcos deixados na trilha gramada pelas rodas espessas da carruagem. o lorde e suas duas mulheres passaram por Mallory a caminho da tribuna. Ele posicionou-se atrás dela. e as pessoas dispersaram com amuo antes do avanço do veículo. na lateral de uma carruagem cigana. catou-o rapidamente. O charuto tinha gosto de pólvora úmida. Avançou lentamente até o meio-fio de uma via de acesso pavimentada. um gurney a vapor novo em folha adentrou a multidão com ruídos explosivos. Retirou o caderno do bolso. com a rigidez das linhas amenizada aqui e ali por flâmulas coloridas e exaustores com acabamento de latão. faixas e o lema: VICTORY BRAND. filhas ou amantes. Acima delas. arremessou-o longe. o escudo antifaíscas dobradiço recuado para que a luz do sol entrasse. Um emblema de Rad que Mallory desconhecia. . A máquina dirigia-se para o leste. Ele seguiu o veículo. os lordes prezavam muitíssimo suas carruagens a vapor. o motorista ereto em seu posto. uma vez que novos lordes eram nobilitados a cada semana. e folheou com o polegar as páginas coloridas de seu guia do observador. fazendo-o bater. em andrajos. Uma faixa de papel barato cercava as folhas repugnantes de cor preta esverdeada. Uma pena. um sino de bronze soou na proa castanha. uma longa estrutura sinuosa ao estilo moderno. na direção das garagens do Derby. A máquina iniciou o trajeto até os jorros de vapor cinzento que se elevavam atrás das tribunas sustentadas por pilares do Epsom. mas não significava muito. Um velho grã-fino e sorridente com luvas de criança bebericava champanhe com duas moças jovens. Era a edição do ano anterior. Tirou-o da boca de modo abrupto. onde uma criança de cabelos negros. Um brasão reluzia na porta do gurney – azul-celeste na roda dentada e argênteo nos martelos cruzados. acompanhando seu ritmo e sorrindo. faiscando. À esquerda de Mallory. enquanto os carreteiros tentavam controlar cavalos assustados.cheroot para acendê-lo e enfiou garbosamente os polegares nas cavas do colete. O motorista fez estalarem as válvulas com um jato de vapor. que bufou e diminuiu a velocidade até parar. cingida por estrutura de ferro e coberta por lâminas de folhas de flandres aparafusadas. Bobagens de guerra ianque. Membros da nova elite britânica. Não conseguiu encontrar o brasão. uma bandeirinha estrangeira com estrelas. Os mecânicos do estábulo partiram para o trabalho de lubrificar engrenagens enquanto os passageiros desciam pela prancha dobradiça de desembarque. passageiros relaxavam em poltronas de veludo. Estava familiarizado com o brasão de todos os lordes sábios. deixando que abrisse o caminho. Mallory pôde ver a garagem. Enquanto classe. porém os capitalistas não eram o seu forte. Quando o homem puxou a alavanca de freio.

Mallory duvidou que o jovem policial de rosto viçoso tivesse qualquer noção do que uma Cutts-Maudslay poderia fazer caso fosse disparada numa aglomeração de ingleses. o magnata do sabonete. Colgate. mas o homem não deu resposta alguma. Esforçou-se para tirar da cabeça o pensamento sombrio. E imprecisa a ponto de tornar- se inútil também. Mallory localizou no guia os carros a vapor. já que a expedição de Wyoming fora equipada com seis delas. quando tais títulos existiam. Brunel. o guarda conferiu-o com um espesso caderno abarrotado de folhas de papel carbono. cujos pais foram duques e condes. Por fim. Muito poucas máquinas tinham brasões de família antigos. marcando cada novo achado com o toco de lápis e uma leve palpitação de alegria. Mallory sabia que ela era temperamental a ponto de não merecer confiança. o motorista arrastava um imenso cesto. Aqui estava Faraday. idêntica à do motorista. era patrulhada por uma esquadra uniformizada da infantaria. proprietários de terras. lá. Esta seção. Dois policiais pararam-no de modo brusco diante do portão. grande físico e sábio da Royal Society. e aqui. um bom partido de fato. Do outro lado da barricada. e faziam o possível para manter as aparências. cada baia individual estava cuidadosamente protegida de espiões e oddsmakers por altas divisórias de lona. Atrás deles. e piscou. cheirando a piche. espremendo os olhos de maneira abominável e segurando firme uma longa chave inglesa de . Embora os cheyennes tivessem considerado a carabina atarracada. Ele exibiu seu cartão com o número de identidade e o convite impresso da Irmandade da Mecânica a Vapor. Anotando o número com atenção. com conveniente admiração. advertindo-o para não perambular. a Irmandade designara seu próprio vigia. a menos que a pessoa estivesse disparando todos os trinta tiros num bando de perseguidores – algo que o próprio Mallory fizera de seu posto na retaguarda da fortaleza a vapor da expedição. Mallory encontrou-a cercada por uma barricada de cavaletes de madeira limpos e novos. Alguns tinham mais iniciativa que outros. apontou a localização de seus anfitriões. Mallory tocou sua boina listrada.confiavam que ele os estivesse observando e ignoraram-no com serenidade. o construtor visionário. O homem estava sentado num banco dobrável do lado de fora da lona. Mallory abriu caminho em meio a uma ávida multidão de leigos e entusiastas do vapor como hobby. reservada para os carros de corrida a vapor. esticadas com firmeza por cabos cruzados que passavam por mastros. feita em Birmingham. Um deles levava uma Cutts-Maudslay semiautomática de um modelo familiar a Mallory. Por precaução adicional. Ao chegar à ala sul. Passeando pelas garagens. Parte da velha nobreza decaída tinha recursos para o vapor.

um tanto confuso. – Construído com base em princípios. mudou de ideia. que a coisa seria um barco. Mallory estendeu a mão para o amigo. um estranho contorno refletindo pontos luminosos nas curvas de latão esmaltado. suíças no rosto com marcas de varíola. aparas metálicas e fuligem de carvão. Ele decifrou o nome pintado em preto e dourado ao longo da proa bulbosa. acenando. Mallory mostrou o convite. examinavam um projeto à luz dura de um lampião de carbureto. Tom. princípios recém-descobertos. tocou suavemente as costas de Mallory e apresentou seus companheiros. Mallory? – Um grande contraste com nossa fortaleza a vapor.ferro. Godwin ensaiou uma reverência. Rodas motrizes. de chapéu listrado e avental de couro. dezenove anos. – Venha. – O que achou dele. Ned. Uma terceira roda. senhores – declarou Mallory. Ele concluiu. A luz do dia se dissipava na confusão de graxa. Mallory! – disse Godwin. dr. o mestre de Tom. e isso se deve a certa falta de armas e couraças. lembrava uma gota d’água. Não era um barco. . Pequeno e robusto. artífice. A forma surge da função. ele notou ao se aproximar. de olhos astutos e pálpebras caídas. como o senhor disse- nos tantas vezes. abaixo de uma extensão curva de vidro delicadamente moldada por chumbo: Zéfiro. algo que parecia capaz de desaparecer com a lambida de um gato. não? – arriscou Mallory. apresentava um bigode incipiente. – Esperava coisas admiráveis de vocês. mas isto é uma revelação. – Um privilégio. ou um enorme girino. e Henry Chesterton. Seu irmãozinho. Michael Godwin! – disse Mallory. seu casco escarlate absurdamente suspenso entre um par de rodas enormes. atrás deles. – Conduziu Mallory para dentro. – Pequeno para um gurney de corrida. O vigia passou a cabeça por uma aba estreita da lona e gritou: – Seu irmão está aqui. um engenheiro de quarenta anos e cabelos claros. junte-se a nós! – chamou o irmão. – Dr. num primeiro instante de surpresa. – Formas peculiares. o latão polido dos pistões desaparecia nas aberturas suavemente alargadas da estrutura ou casco de aparência insubstancial. antes. eu diria! – Ele não foi concebido para a sua Wyoming – disse Godwin –. Quatro mecânicos da Irmandade. senhor. Tom. – Sr. estava fixada num suporte giratório na ponta da longa cauda afunilada. as tachas das botas arranhando o chão. mestre de segundo grau. muito pequena e vagamente cômica. Eram Elijah Douglas. – Não fique acanhado! – Os outros riram da insolência de Tom enquanto Mallory seguia em frente com passos largos.

– Rudwick publicou um trabalho sobre o tema.de fato. mas o sujeito julgava-se gentry de alguma forma. Mas a “pneumodinâmica” não é minha área. – Rudwick tinha seus amigos. os mais hábeis matemáticos da Grã-Bretanha estavam lá. Uma bela história por trás de sua invenção. se é que me entende. se chamou a atenção do grande Babbage! Aperfeiçoar a arte do balonismo. trata-se de uma área de interesse militar. – O próprio Lorde Babbage participou da análise. sim. refiro-me ao desenvolvimento prático de maquinaria. Recorda-se do finado professor Rudwick. Os dois mecânicos pareceram incertos. então. – Grandes aplicações práticas. – Não está tentando dizer-me que esse seu veículo pode voar. descontente com o rumo que a conversa estava tomando. Parece-me um tanto. hesitando em seguida. girando suas grandes peças de bronze. em minha opinião. – Estudaram seus vestígios arqueológicos em Cambridge – disse Godwin –. – Estava longe de ser um homem de novos conceitos. sobre o brontossauro – disse Mallory. e é só.. tenho certeza. – Não sou de falar mal dos mortos – assegurou-lhes Mallory. – Quetzalcoatlus – disse Mallory. Mallory pensou na questão.. foi bem-sucedido nisso. não estou certo de que tenha relevância. subitamente desconfortável –. – Planejo realizar alguns trabalhos lá. senhor. eu tinha os meus. – Ah. Francamente. Fanfarreava-se e nutria teorias obsoletas.. Douglas e Chesterton observavam-no com inequívoca curiosidade. – Éramos paleontólogos – disse Mallory.. ilusório. possivelmente – disse Godwin. enquanto eu e você congelávamos na lama de Wyoming.. relacionada a um colega seu.. não há como negar. – Não. – Uma máquina voadora. – Conheço o projeto – disse Mallory. – Veja – continuou Godwin –. Bastante desnorteado no modo de pensar. – Certamente lembra-se do grande réptil voador do professor Rudwick? – persistiu Godwin. Sempre há vastos recursos destinados à ciência da guerra. – Sorriu. Rudwick – murmurou Mallory. Rudwick. em termos científicos. no Instituto de Analítica Maquinal. quer dizer? – Mallory fez uma pausa. – Não – disse Godwin –. – De fato. bem. e não posso afirmar que todo aquele girar de . fazendo furos em seus cartões para averiguar como uma criatura daquele tamanho poderia voar. bem agasalhados. – Admito ser provável que a pneumática tenha alguma relevância. talvez? Voo em balão. está? Os mecânicos riram com educação.

ergueu o punho à boca.Máquinas tenha dado em muita coisa. Godwin pôs a mão em concha atrás da orelha. rápido e aos berros. com o polegar para cima. na forma de nosso Zéfiro. Caos e turbulência! Está tudo nos cálculos. ãh? Por isso se parece tanto com. percebe? Água. – Então vocês “processaram de modo contínuo” esse gurney. – Então. por cima dos projetos. – São os italianos – gritou Godwin. – Trouxeram um monstro este ano! – Deixa um vestígio de fedor que é mortal! – reclamou Tom. Ned. Um barulho violento e repentino estourou de um compartimento vizinho. aos princípios da resistência atmosférica. do lado de fora. para a luz do sol. – Posso dispensar apenas alguns minutos – desculpou-se Godwin. Godwin empertigou a cabeça. como se diz.. Mas entendemos agora certas questões relacionadas à ação do ar em movimento. demos a eles um uso prático. – Permitam-me comprar-lhes uma bebida! – gritou. curvando-se. – Exatamente – disse Godwin. de forma direta. – Queria uma palavrinha . senhor. É um prazer revê-lo. Mas não se preocupem com isso. com Chesterton.. com orgulho –. com presunção.. – Não tomarei muito do seu tempo – disse Mallory. Seja bem-vindo de volta à Inglaterra.. Deixaram o recinto da corrida. – O quê? Mallory fez o gesto. A cabeça de Mallory estava zunindo. mecânicos – disse o sr. hum. – Com um peixe – disse Tom. – “Processamento contínuo”. – Notável – disse Mallory. – Estão ouvindo as bielas estalando na descida do êmbolo? Péssima tolerância. Godwin abriu um sorriso. – Um peixe! Tudo tem relação com a ação dos fluidos. – Mas nós. – “É o olho do Mestre que derrete o metal”. Trabalho estrangeiro desleixado! – Tirou a boina e bateu-a no joelho para tirar a fuligem. Princípios novos. Então Godwin e Mallory saíram. – Prendeu os óculos fumê sobre as orelhas.. – Péssimas bielas – disse o guarda. presumo que esses princípios de turbulência. é como o chamamos – disse Tom.. pouco conhecidos até agora. Trocou palavras. Godwin concordou com aceno de cabeça e entregou-lhe o avental de couro. Ar. – Alguns dos entusiastas aqui me conhecem e podem tentar seguir-nos. As paredes tremeram e um pó fino de fuligem caiu do teto. Pegou um casaco todo preto e trocou a boina de engenheiro por um chapéu wideawake de palha. Chesterton.

aproveitando ao máximo isto aqui. – Espero que consiga progredir. – Está aprendendo. de verdade.em particular. – Foi admirável de sua parte aceitar nosso convite – disse Godwin. Godwin acenou com a cabeça. Os proprietários não tinham o huckle-buff. Não é má a cerveja que esses rapazes vendem. Desceram uma rampa suave até um carrinho cercado de gente. – Sei que o senhor é um homem ocupado. e tudo mais. Quer ver todas as filhas casadas. ele o admira imensamente. – Deve sentir grande conforto em ter um filho como você – disse Godwin. Invejo isso. Ter ficado ele tão doente. Vamos lá. agora que está de volta ao lar? – A anticlinal da Bacia de Londres – disse Mallory. Acabo de voltar de Toronto. – Não mais ocupado que você – disse Mallory. – O que achou do lugar. concordando. pelos campos dos terrenos erodidos de Wyoming. meu pobre pai.... cheio de pequenos barris de cerveja. não – disse Godwin. um pouco de argila pedregosa moderna. – Lamento o que soube por meio de Tom a respeito de seu pai. citou Mallory. – Fazemos todo o possível – disse Godwin. – E então. – Aquele seu irmão. – Jazidas de calcário do Terciário e do Eoceno. – Não. Godwin riu. Mallory comprou duas canecas. com todos os nossos caixotes de ossos engessados. enquanto vocês ficaram neste lugar durante meses. Tom é um ótimo rapaz – disse Godwin. que não se vai até que tenha concedido a mão de sua última filha” –. – É o que nosso pai sempre nos diz. Coisas sobre o garoto.. – Ah. depois caminhei. Seu futuro será . ainda mais com suas famosas controvérsias geológicas. – Veio andando para o Derby desde Leatherhead? São quinze quilômetros ou mais! Mallory sorriu. – Sólido trabalho em engenharia. então. – Fez um gesto com o braço. à caça de fósseis. Estava em Lewes. Tomei o trem matinal de lá até Leatherhead. com a família. – Todos nós somos argila pedregosa moderna. Apreciei novamente a visão do interior inglês. É bem- intencionado. É um sujeito resoluto. Como todos nós o admiramos! És o homem do amanhã. Londres corresponde às suas expectativas? Pegou o trem turístico? – Não estive em Londres. Ned. com o sotaque mais forte e arrastado de Sussex. Com aplicação prática direta e útil. então. – “O velho Mallory. – Já me viste caminhar por vinte.

certamente – disse Mallory. ele disse. ele se dirigiu a mim exatamente como você o fez agora: fatos e evidências. – Prossiga. – É esta minha posição. – Os palpiteiros estão cotando probabilidade de dez para um contra nosso Zéfiro. por favor – disse Mallory. – Bem – disse Godwin –. – Não sou um jogador. Verificou o redor com cautela. depois tirou os óculos e olhou Mallory nos olhos. levou Mallory para fora do alcance dos ouvidos dos outros bebedores. homem muito astuto. – Exatamente! – disse Godwin. da expedição. “Mestre de primeiro grau. – Fizemos uma grande descoberta. – Mas aquilo dependia de minhas próprias habilidades e das de meus colegas. Deixe-me contar-lhe a respeito de nossa Irmandade da Mecânica a Vapor..” – O estimável ponto de vista pede mais cerveja – disse Mallory. Quando fui a Lorde Scowcroft com meus planos para o Zéfiro. Mas sem você e sua fortaleza a vapor. preto no branco. ao pé da letra! Ouça por um instante. Godwin”. mas fez as pazes com os Rads. Ned? Mallory afagou a barba. “Teoria e prática devem ser como osso e tendão. sr. – Arriscou em Wyoming. Mas não sou nenhum bobo alegre para alimentar a esperança de riquezas incertas.. a menos que consiga mostrar-me. Godwin! Dê-me fatos concretos e evidências. Mallory riu à socapa. Godwin baixou a voz.” . cerveja na mão. Godwin. Agora é rico. como isso poderá beneficiar-nos. “não posso financiá-lo com as reservas de nossos Irmãos. aqueles peles-vermelhas teriam acabado conosco em pouco tempo. – O chefe de nosso sindicato. – Permita-me.brilhante. – Os selvagens respeitam o aço da Grã-Bretanha – disse Mallory. Era apenas Jim Scowcroft nos tempos ruins. – Tivemos excelente sorte em Wyoming. conheceu o Parlamento e coisas assim. – Confia em sua boa sorte. – Teorias sobre ossos velhos não os impressionam muito. e estou com Lorde Babbage. – Ainda estou gastando meu abono. um desses agitadores populares. uma vez que se aproximavam amistosamente e provavam uísque. Lorde Scowcroft. – Não eram tão ruins. sou um bom homem do Partido. Arriscou a própria vida. para que eu possa tomar uma posição. Godwin quis pagar.

e fico sem dinheiro. É tudo ou nada. a gentry formará filas à procura do notável trabalho da Mecânica a Vapor”. – Então. não podem tomar-me o que sei. Lady Ada Byron está aqui. embora não possa dizer que aprovo. diga-me o que acontece em caso de infortúnio. – Bem. podem? Ainda terei minhas habilidades. Sou engenheiro. – Dr. O primeiro-ministro está presente hoje. E assim será. – Nesse caso. de acordo com seus próprios padrões. enferrujar e explodir. Fico feliz por você. Você decerto também o sabe. Pagam o suficiente. sua situação de vida permite tal risco. enfim. – Agora. é? Godwin deu um gole da cerveja. o torque do eixo de manivela e os diâmetros das rodas. Investi tudo em minha máquina: meu abono da expedição da Royal Society. contei-lhe: “Milorde. Não é um homem casado. se os rumores forem verdadeiros. nosso pequeno Zéfiro passará a toda velocidade por seus rivais como se estivessem imóveis. – Se você ganhar a corrida – disse Mallory. Godwin. Conheço os diferenciais de pressão. até mesmo uma pequena herança que recebi de uma tia solteira. Mallory ficou surpreso. sei perfeitamente bem que o ferro pode curvar-se. Lorde Scowcroft era liberal. Ned. – Assusta-me assim. Quando formos a Epsom Downs. a construção de gurneys a vapor é um dos melhores mercados de luxo do país. que Deus a tenha. Sempre me pareceu um homem tão prático. Ned. Mallory. sr. Quando terei outra chance assim? – Sim. Mas estou arriscando tudo o que tenho na Inglaterra. e esta nossa máquina derrotar os adversários. Mallory afagou a barba. Godwin concordou com melancólico aceno de cabeça.. – Não faço nenhuma promessa rigorosa. Ned. Na ausência de infortúnios. pois me viu fazer reparos na maldita fortaleza a vapor até quase enlouquecer.. – Tudo? Godwin deu um riso contido e sarcástico. mas sempre há custos extras num projeto assim. . perco. Ned. – Você também não. meu público hoje é nada menos que a nata da Grã-Bretanha. Godwin sorriu. sem meio-termo. – Parece-me esplêndido. o rendimento efetivo do motor. quebrar. e apostando prodigamente. quiçá realize outra expedição da Royal Society. Mas. Mas domino as condições e as variáveis. estou acompanhando sua lógica – disse Mallory –. – Mallory deu um gole da cerveja.

– Quem sabe uma quantia modesta – arriscou Mallory. – Não para Londres. O homem havia dado a Tom um lugar na vida. Godwin. Uma grande vitória.. enquanto a história natural está em voga. – Modesto Ned Mallory – Godwin acenou afirmativamente –. estrelas e medalhas de todas as escolas eruditas.. percebe? Queria. Estou precisando. Pois é o homem que desenterrou o grande Leviatã Terrestre e decifrou de modo extraordinário um amontoado confuso de ossos duros. uma vitória admirável! E eu mesmo não posso fazê-lo. – Não acho que gastaria bom dinheiro com vaidades. mas gastei minha última libra no Zéfiro. e admiro-o. sr. Terá um belo terno de seda e uma fita na lapela. – A probabilidade é de dez para um.. Ned. Mas atente para minhas palavras: será Lorde Mallory um dia.. como um empréstimo. Se perder. Ned. – Confio que tenha. mas tenho oito irmãos e irmãs mais novos. então não vejo por que não . bebendo. – Não é vaidade vestir-se de acordo com sua posição social. Godwin suspirou. Não posso jogar com o sustento de minha família. – É uma pena. – Godwin observou-o. Sei por que fez isso. Um inventor triunfante. Para satisfazê-lo. – Tenho condições de devolvê-la. dividimos cem libras hoje à noite. – Pela amizade. – Cinquenta libras. Probabilidade falsa! Deveria ser cinco para três a favor do Zéfiro. e isso é tão certo quanto o fato de estarmos aqui. – É seu velho casaco ordinário de Wyoming. – Não. – Não se arrependerá – disse Godwin. Ned. Não para dar palestras especiais para elegantes damas londrinas. no auge da vida. e Mallory sentia-se em dívida. com olhar penetrante. – Dez libras. minha mãe consumida pelo reumatismo. não? – Uma peça bastante prática – disse Mallory. – Mallory viu que era difícil recusar. O que me diz? Fará isso por mim? – Dez libras! Uma importância considerável. pago-lhe tudo de alguma forma. Passou pesarosamente a mão nas mangas puídas da sobrecasaca. É o que você é agora. – Aposte dez libras por mim – disse Godwin de súbito. Se ganhar. – Não me envergonho do que sou – disse Mallory. – Muito bem. a doença mortal de meu pai. Acalentava o desejo de ver um bom amigo ganhar essa aposta. nos próximos dias. não deveria ter que se vestir como um pároco. vindo ao Epsom com uma boina de engenheiro para que os rapazes não se aflijam ao conhecerem um famoso cientista. resoluto. Mallory não disse nada. meio a meio.

” “Os mais bem adaptados sobrevivem. Junta-se a nós depois da corrida? Para dividir os ganhos? – Certamente – disse Mallory. – Sinto muito. – Tenho que voltar aos meus rapazes. senhor. Podem parecer esquisitas no começo. Que eu jamais seja tão anticientífico a ponto de fechar os olhos para a verdade honesta. – Não conhece a política da Royal Society. as pessoas começaram a movimentar-se. migrando na direção das tribunas qual vasta manada de ruminantes. Perdoe meu temperamento estouvado. esteja eu com fitas na lapela ou não. Mallory entregou a caneca e saiu andando. e o iguanodonte dele é insignificante perto do seu brontossauro. Gideon Mantell é lorde. Estamos longe da selvagem Wyoming. – Deixe-me pegar essa caneca vazia – ofereceu Godwin.” As formas novas lideram o caminho. Godwin. e foi muito gentil comigo. Rudwick. – Estendeu-lhe a mão. – Não é tão simples quanto pensa – protestou Mallory. e se forem eficientes em essência. no que se refere à concessão de cargos e honrarias. mas a natureza as testa de modo justo em comparação com as velhas. – Estou indo fazer a aposta que discutimos – disse Mallory. – Não fale mal de Gideon Mantell! É o mais admirável homem de ciência que Sussex já teve. . Fui um pouco franco demais. – Colocou os óculos fumê. Os uniformitaristas dominam. entendo. Godwin olhou para a caneca vazia. – Charles Darwin é lorde. – Godwin ergueu a cabeça. Mallory retirou a boina. onde sentávamos perto da fogueira como simples irmãos ingleses. Uma fanfarra soou do outro lado da pista. o mundo será delas. “A forma segue a função. ao que a multidão respondeu com brados e sussurros. não é o homem que considero ser.encarar o fato. Espero que possa sempre falar comigo francamente. – Mas me recordo das conversas teóricas que tinha conosco. Godwin apertou-a. Sou um catastrofista. – Se não consegue ver que sua teoria é o osso do meu tendão. sr. explicando do que se tratavam aqueles ossos. Por todos os lados. – Sou eu quem deveria desculpar-me. Os homens gostam de Lyell e daquele maldito imbecil. fazendo o que desse vontade.

envenenado por mercúrio. Não quis fazer tal aposta com nenhum dos vários bookmakers individuais elevados acima do povaréu em seus altos bancos. mas suportável para ele. Mallory tinha algo bem próximo de cinquenta libras depositado num banco da Cidade. Ao deixar o amigo. Dez libras era quantia deveras alta. mas passou a suspeitar que o recluso Lorde. saindo da área cercada por grades. e um homem escrupulosamente honesto. que comparou o ocorrido com a aglomeração de corvos. e um dos primeiros. refletiu. Sob a fachada de benevolência da multidão impetuosa havia uma ferocidade primitiva. cumprindo seu acordo com Godwin. buscando a aba abotoada do cinto de lona.. e a perseguição contra um homem de boina preta que foi atirado ao chão e chutado brutalmente. Ele discutira o incidente com Lorde Darwin. Ainda lembrava-se do grito horrível de “caloteiro!”.. Martin’s Lane. no entanto. Parte do dinheiro de Mallory já estava destinada ao carvão da lareira. Pensou no pobre pai debilitado pela síndrome do chapeleiro louco. julgando-o uma das grandes mentes da época. Passara muitas vezes em frente ao estabelecimento intensamente iluminado da Dwyer na St. O próprio Mallory testemunhara o quase linchamento de um oddsmaker delinquente em Chester. embora claramente grato pelo apoio de Mallory. em Surrey. contorcendo-se e murmurando em sua cadeira ao lado da lareira. Mallory arrependeu-se imediatamente da promessa.. Estava com doze adicionais na cinta porta-dinheiro de lona manchada.. Se esse homem apostasse trinta libras.. embora fossem quase tão confiáveis quanto qualquer uma das firmas maiores.. . Passou os dedos da mão direita entre os botões do colete. Godwin era um técnico extremamente minucioso. emitido como um alerta de “fogo!”. era possível sair com quatrocentas libras. a maior parte de seu abono da expedição. Ele mesmo havia sobrevivido com pouco mais que isso por ano. ou quarenta. nos tempos de estudante. vagueando na direção geral das bancas toldadas dos bookmakers. e um homem que apostasse generosamente no Zéfiro poderia deixar Epsom aquela noite com uma importância equivalente à renda de alguns anos. Decidiu fazer a aposta com a totalmente modernizada Dwyer & Company. E. Mas não. ele seria sensato e apostaria apenas as dez. Mallory fora um defensor apaixonado do homem. em vez da venerável e talvez minimamente mais respeitável firma Tattersall. a multidão mantinha-os assim. Não tinha qualquer razão para duvidar de suas estimativas quanto ao resultado da corrida. Dez libras seria uma perda considerável. ouvindo o grave zunido metálico das três Máquinas que utilizavam. apertada com firmeza sob o colete. Seus pensamentos voltaram-se para Darwin enquanto entrava na fila para o guichê da corrida a vapor. Ainda assim.

Enquanto o atendente emitia o bilhete da aposta. sendo o condutor um tal M. aguardava um janota vestindo traje elegante no estilo discreto da Cidade. assustado pela temeridade da aposta feita. o Sporting Life do dia sob o cotovelo imaculado. – Nesse caso – disse Mallory. pela monstruosidade do resultado caso perdesse. senhor. como se notasse a boina e o casaco de Mallory pela primeira vez –. fazendo distinções em meio ao caos aparente. – Já estava olhando para o próximo apostador. farei uma aposta adicional de quarenta libras no Zéfiro. grande teórico da sociedade. Mallory considerava a si mesmo um observador muito perspicaz de seus colegas. Mallory não encontrava conforto .. ele viu. senhor – respondeu o atendente. para ganhar – disse Mallory ao atendente do guichê do vapor. Darwin pouco ajudava. – Para ganhar. o olhar preciso dos naturalistas. Notou que o participante italiano estava em posição um pouco melhor que a do Zéfiro de Godwin. Rumores a respeito das bielas? O atendente passou a Mallory uma cópia em papel delgado do cartão que emitira. Gideon Mantell há muito lhe asseverara. Os franceses eram tidos como grandes favoritos. assim como cientista e orador talentoso. senhor? – Para ganhar. à direita de Mallory. Thomas Henry Huxley era o homem para tal. com o Vulcão da Compagnie Générale de Traction. atrás de Mallory.. Raynal. Enquanto Mallory observava. Mallory disse em voz alta: – Aceitam cheque de um banco da Cidade? – Certamente. Na fila mais próxima. devia sua atual posição na hierarquia científica ao fato de ter usado tal olhar ao longo de monótono trecho da margem rochosa de Wyoming. – Muito bem. obrigado. Possuía. apresentando uma nota de cinco libras e cinco de um. De fato. – Dez libras no Zéfiro. para o seu próprio espanto –. desde que esteja impresso com seu número de identidade. No que dizia respeito a questões de avanço profissional. no entanto. o homem dirigiu-se ao guichê e fez uma aposta de cem libras num cavalo chamado “Orgulho de Alexandra”. Mallory examinou as probabilidades expostas em cine-bits acima e atrás do marmorizado lustroso do balcão de papel machê.considerava-o um tanto impertinente. erguendo uma sobrancelha. Agora.

Ocorreu-lhe de repente que teria perdido uma das papeletas de aposta.algum na presença e na diversidade da multidão do Derby. exceto a dele e a de Mallory. gritando com entusiasmo à medida que os cavalos passavam em nuvens de poeira. de modo que ele parecia estar olhando para todos os lados ao mesmo tempo. vestindo terno de um azul extremamente artificial.. que ainda atraía a atenção de todos. com um enorme rubi falso reluzindo no plastrom de seda lívida. algo como o estojo de um instrumento. Entre a gente mais pobre. onde pudesse retomar o fôlego. batedores de carteira. ela levantou-se sem firmeza. Mallory agarrou o arreio do cavalo mais próximo. Sujeito esquisito. Uma delas usava véu e um vestido quase masculino. Um chicote estalou perto de sua cabeça. Densa massa de veículos e pessoas reunira-se às grades da pista. Mallory viu a prostituta ruiva desferir um golpe na dama velada. Mas a outra mulher agarrou violentamente a companheira. Mallory. ciganos. empurrando a dama de volta para o assento. acertando as costelas da mulher com os nós dos dedos e com calejada agressividade. O condutor tentava livrar-se do emaranhado da multidão. as mãos obstruídas por uma longa caixa de madeira. seus bilhetes para o desastre. os brilhantes olhos fundos moviam-se constantemente. A mulher velada curvou-se para a frente e desabou . As belas feições pintadas eram marcadas por um ar de determinação absoluta e inflexível. A segunda mulher era uma prostituta ruiva. seguindo para o perímetro da aglomeração. Sob a palidez da testa inchada. em traje apropriado para um cabaré ou pior. na esperança de que desaparecesse das pernas o sinal de nervosismo. Afastou-se das bancas. Tentou descer. a maioria era composta por aqueles relutantes em pagar a taxa de um xelim para a entrada nas bancas. tateando em busca da porta. Foi um soco preciso e dissimulado.. Não... olhava tudo aquilo com perplexidade. e o restante entretinha ou buscava vítimas na multidão: trapaceiros. quase correndo. Ele começou a abrir passagem na turba. Os papeizinhos azuis ainda estavam lá. O pensamento quase o paralisou. pois a carruagem tinha duas mulheres como passageiras.. menos para a pista de corrida. num cambaleio bêbado. O sujeito era um dândi das pistas de corrida.. O estrondo vivo de avidez da aglomeração agitada enquanto os cavalos seguiam seu curso era mais do que ele poderia suportar. Por pouco não foi esmagado por um par de cavalos que passou aos solavancos. e quando a carruagem parou. e parte de um trio ainda mais estranho. ainda com o arreio de couro em punho. Parou de súbito e afundou as mãos nos bolsos. retomou o equilíbrio e gritou uma advertência. de pé sobre o assento de uma carruagem aberta. Chocado e enfurecido. acentuada pelas madeixas escuras e desalinhadas.

Correu para a lateral da carruagem e puxou a porta laqueada. Sacou do bolso óculos rosados quadrados e ajustou-os nas orelhas. Não conseguiu se equilibrar.. . Quase riu alto. o rosto arredondado e delicado estava frouxo e entorpecido. segurando firme a desajeitada caixa com as duas mãos. – Eu a vi golpear esta dama. tremendo de raiva. O condutor. Ela tentou descer mais uma vez. – Vá embora – sugeriu a prostituta. Mallory encarou o homenzinho com superioridade. Ele recuperou-se com agilidade. como que sob efeito do láudano. – O que está acontecendo aqui? – Mallory revidou. Sob o véu negro. Mallory teve o impulso para agir de imediato. Como ousa? A carruagem retomou o movimento com um tranco. – Dê-me agora. por obséquio. Foi possível ver um lampejo fino de aço em sua mão. empurrando os curiosos no caminho. e o teria feito. ou será pior para você. – Devolva a caixa imediatamente – ordenou. lançou-se para a frente e pegou no braço da dama. quase derrubando Mallory ao chão.. endireitou os ombros caídos e estendeu a mão vestida em luva amarelo-canário num gesto peremptório. O oportunista pôs rapidamente a mão dentro do espalhafatoso casaco azul e deu o bote. – O que significa isso? – gritou ele. – Pare já! A dama levantou-se novamente. Essas pessoas não têm o direito de forçá-la. com os cavalos bufando e começando a arriar. Mallory cambaleou. entregou a Mallory a caixa de madeira alongada. desça da carruagem. e sentiu o golpe pungente rasgar-lhe a perna esquerda. Mallory colocou a caixa entre as botas enlameadas. Ouviram-se gritos da multidão desordenada.no assento. Refletidamente. não fosse o brilho insano lançado pelos olhos agitados por trás dos óculos quadrados. – Madame – chamou –. pois o modo temerário com que o oportunista conduzia a carruagem enfureceu quem estava por perto. ignorando o movimento da carruagem. O veículo fez mais uma parada ruidosa. Com um gesto muito natural e refinado. atirou o chicote para o lado e saltou. O oportunista cambaleou um pouco. empurrando-o com as mãos abertas. tal qual boneco que salta de uma caixa de surpresa. bastante surpreso com a ousadia da ameaça. rosnando. Ao parar diante de Mallory. em cima do cabelo cheio de vaselina. Mallory defendeu-se. firmou-se e atacou novamente. Seguiu na direção de Mallory.

cambaleando no meio do povo. caído na grama pisada: uma lâmina de fio duplo. cruelmente afiada. com a seda salmão do plastrom salpicada de sangue. – Cuidado! – gritou alguém. Em Londres. fora despedaçado brutalmente. O almofadinha desabou. agitando o punho. Mallory apanhou a caixa. Quando Mallory acertou seu oponente em cheio no queixo com um de seus melhores golpes. chamando-o de covarde e arrogante leviano. dados a vaiar e gritar insultos. A multidão zombou dele. Um dente. direto para o próximo soco. Seguiu-se um momento tenso de impasse. o canino. A mulher ruiva estava atrás dele. olhar demoníaco. O olhar do oportunista encontrou o seu com fúria vil. O ataque era desprovido de qualquer método. A mulher ajudou-o a levantar-se. Em seguida. algo reluzente na mão. jubilosos ao verem um pouco de sangue derramado em circunstâncias inesperadas. com cabo de guta-percha preta. mas Mallory colocou-se prudentemente entre ela e a caixa longa de madeira. Shillingford. Agora. Mallory assumiu a Primeira Postura de Shillingford e acertou a cabeça do miserável. – Tente – sugeriu Mallory. com um círculo interno de trabalhadores e os tipos característicos das pistas de corrida que deles tentavam tirar proveito. e os meses que passara nos ermos da América do Norte serviram como uma introdução ao tipo mais agressivo de combate. Mallory virou-se com o alerta. triunfante. Ela olhou para baixo. parecia ser um frasco de vidro. Ela então correu para o lado do oportunista ferido. virou-se e . Percebeu de relance o punhal. em que a prostituta pareceu avaliar suas alternativas. fechou o cerco em torno dos dois. enquanto o homem apoiava-se pesadamente na mulher. – Hei de destruí-lo! – gritou do chão. Mallory era praticante do sistema de pugilismo científico do sr. por mais estranho que parecesse. sangrando na boca. que recuara diante dos golpes iniciais e do brilho do aço. pelo visto. Então o homem foi para cima dele. – Hei de destruí-lo completamente! – o oportunista repetiu entre lábios ensanguentados. deram vivas. Era um bando de homens robustos. apanharam o homem caído entre eles e lançaram-no de volta. Aparou o braço armado do homem com o canto do próprio braço esquerdo e lançou o punho direito contra a boca do sujeito. os dois foram-se dali. lutava semanalmente num dos ginásios privados mantidos pela Royal Society. a multidão.

um pouco atordoado. Mallory levou-a na direção das tribunas. Então. como se o instante estivesse congelado. Paleontólogo. leve como uma teia. pelo cerco dos homens aos risos. pressionando a palma da mão contra o ferimento e espiando sob o véu da mulher. – Posso acompanhá-la? – sugeriu. – Tem amigos adequados no Derby. – Seguiremos imediatamente para o Royal Enclosure. Faça a gentileza de acompanhar-me. aos empurrões. mancando um pouco. – Onde está minha aia? – perguntou a mulher. O barulho da massa diminuiu aos poucos. – Deseja ir ao Royal Enclosure? – A ideia de perturbar a Família Real com uma mulher louca e atordoado era muito mais do que Mallory estava disposto a tolerar. ela pareceu recuperar-se levemente. madame? Alguém que possa cuidar da senhora? – O Royal Enclosure – ela murmurou. passando pelo mar de pessoas. Mallory olhou rapidamente à sua volta. à procura de possíveis agressores. Não houve resposta. – Não diria que seus amigos eram acompanhantes adequados para uma dama. Então subiu o degrau e entrou no recinto de veludo e couro gastos. em tom calmo. madame? – perguntou Mallory. – E quem seria a sua aia. distraído. Mas o rosto parecia sugerir estranha familiaridade. mas viu apenas a multidão. Mallory aguardou uma abertura para atravessar a multidão. madame? – disse Mallory. A corrida terminara. A mão enluvada apoiava-se no antebraço dele. Finalmente encontrou-a abaixo dos pilares alvorejados das tribunas. daguerreotipado por algum processo fabuloso que captasse cada nuance mínima do espectro. claros e com aparentes fios grisalhos. À medida que andavam. por favor.. alguém vencera. Estava sentado com todo o peso do corpo sobre o assento de veludo roto. a cabeça velada . e a respiração movia-lhe o véu. e aquilo se enquadrava em questões policiais de alguma forma. Colocou a caixa de madeira debaixo do braço e ofereceu-lhe o outro cotovelo. madame – ele disse. ocorreu-lhe que seria algo bastante simples encontrar policiais ali. indicavam as atenções constantes de uma dedicada dama de companhia. Os cachos esmerados. Ele partiu para a carruagem abandonada. A ferida na coxa esquerda de Mallory sangrava. – Muito bem. Viu a tudo de modo deveras curioso. sem dúvida. – Poderia apresentar-me. Ceder à vontade da mulher infeliz seria um plano mais rápido e prático. O sangue vazava pela perna da calça.abriu caminho. – Conheço-a.. distraída. madame? Meu nome é Edward Mallory. Sou membro da Royal Society. Um deles bateu animadamente em suas costas. – Da Royal Society – murmurou para a mulher. A dama estava sentada com a postura curva no banco surrado.

que quando vir certas produções minhas. enorme cansaço e completa serenidade – são suscetíveis à expressão mecânica. – Perdão? – A Royal Society! Sugamos a força vital dos mistérios do universo. – Penso. não perderá as esperanças! Ao seu próprio modo.. meus regimentos servirão habilmente aos governantes da terra. Estava mais atordoado do que achava que deveria estar em razão de um ferimento tão pequeno.balançando afirmativamente. A longa tampa estava fechada por um par de pequeninos ganchos de latão. – Não é muito misterioso? Minhas tropas certamente consistirão de números. ao som da música. mas era austera demais. por quanto tempo a senhora desejar. na direção da escadaria acarpetada que levava ao Royal Enclosure. na esperança de despertar um retorno à razão. cavalheiro – sussurrou a mulher –. a voz serena tremendo com um apelo estranho e comovente. Ela olhou para a caixa. madame? – disse Mallory. o que são tais números? Há um enigma. como se confirmasse assim sua existência física. permitindo a composição de peças musicais científicas e elaboradas. Acariciou-a com o dedo indicador enluvado. com involuntário enternecimento. de qualquer grau de complexidade ou extensão. Subiram as tribunas com cautela. – Esta caixa é sua. e as calças estavam grudentas de sangue. Era algo vistoso. Entretanto.. sem reconhecimento aparente. Ou quiçá – veio o . caso contrário não terão existência alguma. como uma flor no pedúnculo. E de que consistirão meus regimentos. com estranha e vivaz gravidade. Ela apertara o braço de Mallory com fervorosa intensidade. – Voltou a face velada para ele. – De fato – Mallory tranquilizou-se. com os cantos revestidos de latão. – Poderia segurá-la para mim. – Marcharemos com força irresistível... de pau-rosa polido. algo na estranha fala da mulher e na conduta mais estranha ainda lhe havia revirado a cabeça. Pareceu balbuciar algo mais.. – É claro que posso zelar por ela. – As relações fundamentais na ciência da harmonia – prosseguiu a mulher. – Poderia ela ficar sob sua guarda? – É claro! – disse Mallory. e faltava-lhe elegância. Algo no objeto parecia provocar-lhe um gradual reconhecimento do próprio infortúnio. num tom de voz de profunda nobreza. Poderia ter sido uma caixa de luvas femininas.. senhor? – perguntou finalmente a Mallory. A perna de Mallory doía de forma aguda. Mallory fitou-a.? Vastos números. oferecendo-lhe o objeto.

pareciam. lançando névoa sobre as tribunas como um gêiser. . provável que ele tivesse frustrado um plano sombrio de sequestro.pensamento sombrio – houvesse algum tipo de veneno encobrindo o punhal do oportunista. – Milady! – Só um momento. Mallory. sr. O policial fitou-o com uma mistura explosiva de desdém e desconfiança. Ela entrou rapidamente pela porta. Lady Ada Byron. com a habilidade de um gesto habitual. – Edward. Abaixo deles.. a pista fora desobstruída para a iminente corrida de gurneys. Ela parou por um momento ao lado de dois guardas à porta – policiais à paisana. Talvez a louca também tivesse sido narcotizada de alguma forma.. Mallory. muito cortês. Receio que esteja um tanto aflita. Miller? – disse o primeiro policial. mancando. – Espere! – gritou.. A mulher aproveitou o momento para soltar seu braço e apressar-se na direção das paredes caiadas do Royal Enclosure. Os policiais. Lamentava não ter apanhado a arma para análise posterior. A boca sob o bigode entortou. Ergueu a mão musculosa e olhou Mallory de cima a baixo. sem uma olhadela sequer para trás ou uma única palavra de agradecimento. Era Ada Byron. hesitante. muito altos e robustos. senhor? – Não – disse Mallory. surpreso.. correu atrás dela. A mulher afastou o véu. sem pensar. – Seu nome. senhor! – disse o policial maior. foi atrás dela de imediato. – Mas deve ter visto Lady Ada passar por aqui há um instante. Consegui prestar-lhe auxílio.. Miller – disse Mallory. preocupados talvez com a segurança de seu posto. por obséquio? Mallory afastou a caixa e deu um passo para trás. a filha do primeiro-ministro. Cinco imensos gurneys – e o minúsculo Zéfiro com ares de bugiganga – tomavam seus lugares. notando o estojo de madeira e a perna das calças umedecida. Algo muito horrível aconteceu-lhe. Mallory aproveitou o ensejo para sair mancando. – O que há na caixa que leva consigo? Posso ver seu interior. O vapor zuniu de uma emenda rompida no gurney italiano. e Mallory avistou seu rosto com clareza pela primeira vez. Mallory parou por um momento. senhor? – vociferou o segundo policial.. carregando a caixa de pau-rosa. decidiram não segui-lo. a Rainha das Máquinas. – Posso ver seu cartão de identidade. Ouviu-se um alto estampido da pista abaixo. Houve breve pânico ali. contemplando o frágil veículo do qual suas riquezas tão absurdamente dependiam. – É convidado no Royal Enclosure. tomado por um súbito arrepio de desconfiança defensiva no último instante. passando pelos guardas.

senhor. E apequenavam por completo o escapamento delgado e de peculiar delicadeza do Zéfiro de Godwin. – Que situação horrenda! – opinou o homem mais jovem. O interior. pressionando a palma da mão contra o ferimento dolorido. os dedos movimentando-se sobre os pequenos fechos de latão como que por vontade própria. coxeando. – Creio mesmo que a explosão tenha arrancado a cabeça do pobre estrangeiro. – Veremos uma grande competição agora! – disse o homem mais velho. a vários metros do Royal Enclosure.. seu filho talvez. As crenas de latão polido que coroavam o escapamento do Golias eram especialmente imponentes. – É o Golias. não têm o que fazer aqui – disse em tom severo o mais velho. forrado de baeta verde. Um sentido qualquer de autopreservação fez com que tirasse a boina listrada de engenheiro e enfiasse-a no bolso do casaco. Embora fosse um pequeno rasgo na perna das calças. Equilibrou sobre os joelhos a caixa debruada de latão. Mallory ficou sentado com uma expressão confusa. Ele apressou-se. viu-se abrindo a caixa de pau-rosa. – E qual deles é. – Essa falsa largada vai diminuir a pressão. por completo. Grandes colunas de vapor branco saíam de modo brusco dos canos de escapamento dos outros competidores. então? – disse o companheiro do homem. Mallory olhou de cima a pista batida por cascos de animais. Uma simples questão de calor específico. Encontrou um lugar nas tribunas. cercado de correntes que repetiam em seções cruzadas o padrão de gota das linhas aerodinâmicas. Mallory. continha uma longa pilha de . O corredor do veículo italiano estava sendo carregado em maca após ter sido desvencilhado com alguma dificuldade do interior da cabine de piloto. Seu modelo anterior venceu ano passado. O carro de Lorde Hansell. – Não está se movendo. – Maldição – disse um homem no banco atrás dele. descendo as tribunas. – O sujeito estava com um capacete especial. – Nem um pouco – disse o mais velho. Um estrondo de aprovação partiu da multidão quando a caldeira foi retirada pelos cavalos laboriosos. Uma coluna de vapor sujo ainda saía da fenda na caldeira italiana. Significa que a caldeira maior ganhará com certeza.. a voz cheia de autoconfiança e bebida. O homem remexeu uma folha de palpites. a ferida ainda sangrava por baixo. Os assistentes de corrida puxavam um grupo de cavalos até a carroceria inutilizada. misturando-se o mais rápido possível com a multidão. aguardando em estado de tensão. – Se os italianos não puderem competir de forma apropriada na esfera técnica.

Nem um pio foi emitido pelo povo quando o Zéfiro atravessou. Mallory recolocou a carta no lugar e fechou a caixa.cartas de um branco leitoso. Um dos cantos trazia uma observação manuscrita. Quatro segundos inteiros passaram-se antes que o encarregado da pista conseguisse agitar a bandeira. O Zéfiro seguiu atrás das máquinas maiores. tal escorregadia semente de abóbora espremida entre um indicador e um polegar. zunindo. chacoalhando de maneira meio cômica nos sulcos profundos que eram deixados. oscilou visivelmente sobre duas rodas. atingiu sutil elevação. O atraso imprevisto – o atraso fatal. os espectadores começaram a gritar – não de alegria. levando-o de forma indubitável a uma perda crucial de impulso. de modo um tanto absurdo. cortado em medida padrão de especialidade francesa e feito de algum material artificial desconcertantemente macio. A bandeira foi agitada. Era um cartão perfurado de Máquina. em tinta lilás-clara. Mallory não se viu surpreso. Os outros três gurneys enfileiraram-se atrás deles. mas de profunda incredulidade. Os outros gurneys ainda faziam uma curva distante a nada menos de cem metros atrás. Vulcano e Golias começaram a se chocar na luta pela vantagem na primeira curva. Henry Chesterton desceu do Zéfiro. com o coração oprimido – esfriara a caldeira minúscula do Zéfiro. O Golias e o Vulcano francês guinaram de imediato para a liderança. chacoalhando violentamente de um lado ao outro dos sulcos deixados pela disputa. deslizou até parar. Passou deslizando pelos outros gurneys com absurda facilidade. Estava tomado por fatal resignação. apoiou-se tranquilamente na carroceria brilhante de seu veículo e observou com afrontosa insolência os outros gurneys arrastarem-se penosamente para atravessar a linha . Henry Chesterton. na última volta. ficando o veículo como um todo perceptivelmente no ar. e até mesmo de uma estranha espécie de raiva. O Zéfiro. totalmente fora do rasto dos outros competidores. Na curva do primeiro quilômetro. a uma velocidade bastante espantosa. O mestre de segundo grau. “no 154”. Ele não parecia estar conseguindo uma tração adequada. Em seguida. e os gurneys partiram. ao volante do minúsculo veículo. parecia ter de fato enlouquecido. a linha de chegada. De súbito. As grandes rodas motrizes repeliram o solo com discreta nuvem de poeira e guincho metálico. pensou Mallory. foi apenas nesse momento que Mallory percebeu que a enorme multidão nas arquibancadas mergulhara em silêncio mortal. fez a curva mais aberta possível. Mallory assistia com a calma entorpecida de um homem arruinado. O Zéfiro sacudiu numa impossível explosão de velocidade. Jogou o cachecol para trás. Puxou uma delas do meio da pilha.

deposita uma coroa de louros em torno da cabeça do busto esculpido em mármore de Isaac Newton. pareciam ter envelhecido séculos. e seu rosto dá sinais de tensão. de Laplace. havia perdido alta soma de dinheiro . o sr. O fotógrafo pode ter sido Albert. Mallory deu-se conta. a cúpula secreta e braço da propaganda internacional do Partido Radical Industrial. usa também uma faixa de bronze com símbolos astronômicos. da elite Radical britânica. As mulheres retratadas são Lady Ada Byron e sua companheira e pretensa aia. Era a sua própria voz. Pouco tempo antes. as vestimentas de iniciadas da Sociedade da Luz. na verdade. quando este daguerreótipo foi tirado. o príncipe consorte. Lady Somerville apresenta a expressão resignada de uma mulher habituada aos caprichos de sua companheira mais jovem. os braços nus exceto pelo anel de sinete no dedo indicador direito. Ambas usam sandálias douradas e vestes brancas. Esta imagem é um daguerreótipo formal do tipo que é distribuído pela aristocracia britânica. mas fortemente influenciadas pelo neoclassicismo francês. lembrando de algum modo togas gregas. Lady Mary Somerville. Sua natureza material não se havia modificado minimamente. sra. – Estou rico – observou calmamente a voz. Michael Godwin. Uma voz ressoou nos ouvidos de Mallory em meio ao tumulto crescente da multidão. mas agora essas pequenas tiras de papel azul significavam infalivelmente um ganho de quatrocentas libras. Lady Ada.de chegada. de sinceridade aparentemente genuína. Ele estava rico. Os bilhetes azuis das apostas estavam completamente seguros. As dimensões da sala e a rica tapeçaria ao fundo mostravam claramente tratar-se do salão de fotografia que o príncipe Albert preservava no Palácio de Windsor. Lady Ada tinha quarenta e um anos no final de junho de 1855. peças de museu. homem cujo notório interesse em questões científicas fez dele membro íntimo. Eram. quinhentas libras no total – cinquenta das quais a ser dadas ao vencedor absoluto. Não. São. No momento em que chegaram. nos círculos restritos de amizade e relações pessoais. Somerville. Mallory pôs a mão no bolso. a estranha roupagem não favorece Lady Ada. A mais velha. um símbolo secreto do alto posto que esta femme savante ocupa nos conselhos da ciência europeia. Apesar do posicionamento meticuloso da câmera. Autora de Sobre a conexão das ciências físicas e tradutora de Mecânica celeste.

a principal ligação entre seu pai. muito provavelmente extorquidas. e o breve florescimento de seu gênio matemático ficou para trás.no Derby. Ela é a Rainha das Máquinas. . eminência parda do Partido e o mais notável teórico social. o grande Orador do Partido Radical Industrial. pareçam ter ultrapassado a perda de quantias ainda maiores. Ada é a mãe. e Charles Babbage. embora seus prejuízos no jogo. Lorde Babbage chamava-a de “Pequena Da”. Seus pensamentos são imperscrutáveis. Não exerce função formal no governo. de conhecimento comum entre os amigos íntimos. talvez. Mas ela é. a Feiticeira dos Números.

.

isso era afeminado. mas não se podia andar por aí com uma charuteira de prata como se fosse um regalo de mulher. O colete era o arremate perfeito para todo o conjunto. cicadáceas e ginkgos. tirando o chapéu. por favor! – Mallory. diante do espelho do armário. Desabotoou o casaco e enfiou as mãos nos bolsos das calças. Um cilindro de guta-percha . Um gesto refinado. de modo a melhor exibir o colete. pensa Mallory. Puxou a tampa da charuteira e ofereceu um havana para o cavalheiro no espelho. Mallory atravessou o quarto e abriu a tampa de latão revestida de borracha. A voz do recepcionista tornou-se audível. inclinando-se. certamente. Na subida. lado esquerdo. o corrimão maciço de ébano sustentado por estrutura de ferro esmaltada de preto. Digamos que está sendo seguido por um mensageiro de rosto vermelho. os alfaiates chamavam-no. debatendo tranquilamente. lado direito. Os olhos do ilustre anatomista de répteis lembram ostras fora da concha. enquanto o crepúsculo persiste acima dos beemotes de gesso dos jardins de pedra do Palácio. pensou. tendo a Lady criado o padrão programando um tear de Jacquard para tramar álgebra pura. Mallory cumprimenta-o. que representava samambaias antigas. talvez uma bengala. não acostumado a fechar a grade pneumática. Owen murmura algo que poderia ser uma saudação. com um ar rabugento nos olhos reumosos. com o aspecto fantasmagórico conferido pela sonoridade retumbante. descascadas e prontas para a dissecação. sobrecarregado por uma dúzia de pacotes brilhantes. embora ainda precisasse de algo. fruto de compras cuidadosas e metódicas de uma longa tarde. Mallory avista um grupo de estudantes sentados às janelas abertas. Na curva do primeiro largo patamar. atrapalhou-se com o gancho de estanho dourado. Mallory virou o rosto. Mallory! Devo enviar o cartão dele? – Sim. Um leve repenique saiu do tubo acústico instalado na parede ao lado da porta.IMAGINE EDWARD MALLORY subindo a esplêndida escadaria do Palácio de Paleontologia. que era tecido num mosaico vertiginoso de minúsculos quadrados azuis e brancos. – Visita para o senhor. Uma brisa agita as longas cortinas de linho. – Mallory falando! – gritou. Xadrez de Ada. Mallory vê que Lorde Owen arrasta-se pesadamente escada abaixo. dr.

que a parede de gesso coberto de papel já estava com as marcas da pancada. tendo conhecido mais repórteres gim-com-água do que gostaria. a julgar pelo cartão. o crânio estreito do sr. Desatarraxou a tampa do cilindro e balançou-o. Laurence Oliphant. descobrindo a força resistente da mão de dedos alongados do jornalista. papel de seda. Autor e Jornalista.preta projetou-se para fora do tubo. Nome vagamente familiar. como se lançado por uma arma. Oliphant que irei ter com ele no saguão. passando por paredes brancas de calcário fóssil. Grandes olhos castanhos e servis. – Comitê de Exploração. pés cruzados aos tornozelos – a pose relaxada do jornalista transmitia a indolência serena de um cavalheiro direito. Mallory notou. caixas de luvas. A Royal Geographical Society era generosamente . – Por favor. Sr. Mallory. Oliphant parecia tão alongado quanto o de um iguanodonte. alto o suficiente para ser ouvido por um grupo de cientistas que passava por perto. Enchendo rapidamente os bolsos das calças novas. Mallory enfiou o cartão no caderno e olhou para o quarto à sua volta. formas de sapateiro. sentiu tênue pontada de ansiedade. Miudezas compradas por ele estavam espalhadas em desordem sobre a cama: notas de recibo. – Estou a serviço da Geographical Society – anunciou Oliphant. Mallory apresentou-se. emolduradas por úmidas colunas quadradas de mármore escuro. Um jornalista com alguma pretensão. salpicadas e marcadas por cavidades. Mallory. em extravagante papel-cartão. inesperadamente longilíneo e vestido de forma simples e esmerada. O sujeito revelava o polido autocontrole dos extremamente opulentos. Um endereço de Piccadilly e um número de telegrama. – É claro – disse Mallory. trancou a porta e seguiu a passos largos pelo corredor. entende? Gostaria de saber se poderia consultá-lo a respeito de certa questão. dr. saiu. Com a barba e a calvície. com incipiente calvície na frente. Não havia lido algo escrito por um Oliphant no Blackwood’s? Virou o cartão e examinou o retrato pontilhado por Máquina de um cavalheiro de cabelos claros. Oliphant. trampolineiros que buscavam artigos fantasiosos sobre o grande Leviatã. sem surpresa. os sapatos novos rangendo a cada passo. recostava-se no balcão de mármore. Apressando-se para apanhá-lo. deixando cair o conteúdo. indo bater com sólido impacto na parede em frente. diga ao sr. um meio sorriso esquisito. O sr. mas suntuosa. uma sombra de barba abaixo do queixo.

Mallory jogou para trás as abas do casaco e sentou- se numa cadeira. – Ah. onde Oliphant encontrou um canto sossegado e meio sombrio ao lado de um biombo chinês laqueado. trava-se no momento intenso debate a respeito de nosso verdadeiro objeto. pobre sujeito. a trabalho pelo Comitê? – Não com frequência. dr. dr. um tanto abstruso. Dentro da Geographical Society. Oliphant acomodou-se na ponta mais distante de um sofá de seda vermelha. – O sorriso de Oliphant desarmou-o.patrocinada. – Permita-me explicar melhor o propósito da minha visita.. Rudwick. alguns consideram . – Entendo – disse Mallory. mas não surpreso. e Mallory viu que estava verificando a presença de possíveis bisbilhoteiros. Muito provavelmente tinha conexões familiares. por encontrar uma conexão profissional de Rudwick. e seguiu o jornalista até o salão do Palácio. sem cerimônias. e deixei de acompanhar algumas notícias. Com muita impetuosidade. com lisonjeira atenção. Oliphant acenou positivamente a cabeça. – Pessoalmente. ainda que alguns tenham recebido alguma resposta favorável do público. que raramente perdia a oportunidade de conseguir concessões financeiras. dr. senhor? – Certamente – concordou Mallory. – Dentro da Geographical Society. com moderação. achei fraco o argumento de Rudwick – disse Oliphant. – Mallory ficou um tanto melindrado. – Sem dúvida tem estado inteiramente ocupado com sua própria controvérsia científica. de costas para a parede. Sou escritor de livros de viagem. devo dizer. Insignificâncias. na verdade. Mallory – começou Oliphant –. – Posso sugerir que conversemos em particular. Mallory. – Assunto difícil – murmurou Mallory –. Talvez esteja ciente da controvérsia? – Estive no estrangeiro – disse Mallory –. – Catástrofe versus Uniformidade. – Costuma vir aqui. convencido de que agora captara as intenções do homem: rico e desocupado. O jornalista inclinou-se para a frente. embora tenha encontrado um colega seu aqui.. qualquer que fosse a fonte. diletante. Olhou claramente para a extensão da sala. o professor Francis Rudwick. mesmo. Rudwick costumava abordar a questão. para a agradável surpresa de Mallory. sim. A maioria de tais entusiastas amadores era bastante inútil para a ciência. – Parece conhecer bem o Palácio – arriscou Mallory. – Não sou nenhum cientista. Mallory. o poderoso Comitê de Exploração tomava as decisões sobre quem receberia os recursos da Geographical.

Assuntos a que hoje chamamos vagamente de questões de polícia.. e considerou a breve possibilidade de que Oliphant estivesse louco. mas concebidos.. O trabalho da Máquina tem demanda constante. em vez de limitar-se a uma ligação com a África para descobrir as fontes do Nilo: investigar as fontes de nossa própria sociedade.. dos mais obscuros trajetos da moeda que passa de mão em mão. todavia. e até mesmo moral. Por que confinar as explorações à geografia física. – Por que a polícia concordaria com um empréstimo de suas Máquinas? – As Máquinas frequentemente ficam ociosas à noite – disse Oliphant. – Suponha. por meio de um olhar científico. novos princípios. quando há tantos problemas de geografia política. senhor. extremamente objetivas? Não poderíamos examinar a sociedade. senhor. Como questão prática. . – Na teoria – ressalvou Mallory –. a perspectiva parece promissora. A ideia era bastante extraordinária.. – Como eminente explorador – disse Oliphant –. ainda não solucionados? – Interessante – disse Mallory. do Instituto de Cambridge. fazer investigações inteiramente estatísticas. Suponha que fossem as Máquinas da polícia. o que diria a uma proposição da seguinte espécie? – O olhar do homem. questões de saúde. Mallory acenou inexpressivamente com a cabeça. mas um canto específico de nossa própria Londres. como o de um entusiasmo reprimido –.. por que a Geographical Society se interessaria pela questão? Por que tomaria os fundos destinados aos essenciais trabalhos de exploração estrangeiros? Eu diria que uma sindicância parlamentar direta talvez. senhor. senhor. Em todo caso.. digamos. com precisão e intensidade inteiramente inovadoras? Conjeturando. com um leve tremor. então. a partir das incontáveis aglomerações da população ao longo do tempo. – Mas ao governo falta a visão necessária. completamente perdido quanto a onde o visitante estava querendo chegar. senhor – continuou o sujeito. por meio delas.. curiosamente. o senso de aventura intelectual. parecia fixado no meio do caminho. em vez das Máquinas. serviços públicos. todo penetrante e todo minucioso! Havia um excesso de brilho entusiasmado no olhar de Oliphant..que ela deveria ter melhor orientação.. dos fluxos turbulentos do tráfego. um repentino ardor furioso que revelava o impostor através do ar langoroso. Eu mesmo tive de esforçar-me para ordenar uma simples análise de estresse dos ossos que descobri.. a objetividade. O que diria nesse caso? – As Máquinas da polícia? – disse Mallory. que alguém fosse explorar não a vastidão de Wyoming. duvido que as sociedades científicas possam fornecer os recursos de Máquina necessários para um projeto tão amplo e ambicioso. – Não poderíamos.

. duvido que minha voz tenha muito peso em sua Sociedade. o descobridor do Leviatã da Terra. posso prometer-lhe. mais urgentes. – Fico surpreso que um autor de livros de viagem tenha tal interesse. Havia sido manipulado com destreza. junto ao seu nome: Mallory. e uma participação na rica e poderosa Sociedade certamente não era algo a ser desdenhado. F. Não havia forma educada de recusar o favor.. – A honra é toda minha. o senhor concorda? – persistiu Oliphant. Oliphant ergueu os dedos elegantes e levou-os ao longo lábio superior sem bigode..R. – Faço o que posso para ser útil aos verdadeiros estudiosos. – Oliphant abriu as mãos. embora receie que venha a enfrentar problemas demais por minha causa. pois permite que se faça grande quantidade de estranhas perguntas. isso é deveras interessante.S. – Ficam mesmo? – disse Mallory. – Após a questão do pterodáctilo. – Percebi. – Estive no . sou um homem de curiosidade ampla mas tristemente superficial. Mallory ficou sem fala. – Mas. O ar seguro de Oliphant não permitia qualquer hesitação. imagino que outros projetos. – Tenho profundo interesse em paleontologia. Mallory pigarreou. senhor – disse Mallory –.. enlevaria a Geographical com enorme facilidade. e. – Não haverá qualquer dificuldade. – Estou certo de que é válido o. F.S. – Caso os recursos estivessem disponíveis. Ele era capaz de imaginar sua participação. embora duvide que seja totalmente merecedor de minha atual e não solicitada posição no círculo interno da venerável Geographical Society. Seria uma bênção profissional. Não sou membro. francamente. consideraria válido o princípio básico? – Teria de ver uma proposta detalhada antes de apoiar de forma ativa tal projeto. Por natureza. em teoria. calmamente. consumiriam rapidamente os ciclos ociosos.G. – Minha nossa. sr. que “jornalista” é um termo de conveniente imprecisão. Mallory reconheceu o fato consumado. dr. Mallory. percebe? – Subestima sua fama em ascensão – protestou Oliphant. Mas se essas Máquinas fossem colocadas a serviço da ciência. Oliphant.. entende? – Devo confessar que não conheço seus livros – disse Mallory. A fama que nasce do dia para a noite tem repercussões peculiares. – A indicação de Edward Mallory. Uma proposta como a sua precisaria de apoiadores poderosos para ir ao início da fila. – Considerarei uma honra se me deixar cuidar do assunto pessoalmente – disse Oliphant. – Rudwick tornou-se membro – disse Oliphant.R. senhor.

senhor. Um talho de faca. Pelos interesses da nação. alguns menos discretos do que se poderia esperar.. Mallory notou pela primeira vez que dois dedos da mão esquerda de Oliphant estavam dobrados de forma permanente. certamente estava a par de tais complicações.. – Seu cartão. – E como é que o senhor sabe? – Investiguei o assassinato de Rudwick. e ter-me-ia lembrado do senhor de imediato. – Deveria ter colocado isso no cartão. – Um ferimento de espada japonesa é algo tão bizarro para uma carte d’identité. – Uma afronta à nossa embaixada no Japão. está longe de ser hermético – disse Oliphant.. e pronunciou-se de modo franco e severo.estrangeiro e fiquei muito atrasado em minhas leituras. – O professor Rudwick. – Estive envolvido no caso da Legação de Tóquio.. – Mallory alisou a barba. Imagino que o senhor mesmo conheça tal situação muito bem. declara que é um jornalista. divertindo-se com a própria surpresa. receio. senhor. – Às vezes não se pode evitar certas complicações. – Todos os membros de sua expedição a Wyoming sabem a verdade. Os homens de Rudwick sabiam também das atividades secretas dele. pior que isso: um golpe de sabre. – Seus interesses são variados de fato. também sabem. e revelou uma ferida vermelha e enrugada na articulação externa do pulso esquerdo. o herói da Legação de Tóquio! Agora lembro-me do nome. Final do ano passado. Acredito que tenha acertado o alvo em relação aos leitores e. tenha obtido grande sucesso? – Não foram os livros – disse Oliphant. depois flexionou o braço esquerdo. Mallory compreendeu. então! Laurence Oliphant. – Seu segredo. não entendo a que se refere.. com isso. Mallory. – Infelizmente. atividades . então. – É você. estou correto? Um diplomata foi ferido? Eu estava nos Estados Unidos.. a natureza das alusões de Oliphant... com expressão de leve constrangimento. com educado desdém. E essas não são questões a serem discutidas com um jornalista. – Acredita que a morte de Rudwick esteja relacionada às suas. Quinze homens. Não. Oliphant pôs a manga de volta no lugar. Oliphant hesitou. o finado professor Rudwick. Aqueles que organizaram o negócio. puxando a manga do casaco e o punho imaculado. que lhe pediram para levar em frente o plano. dr. No Japão. nos tendões. por assim dizer.

senhor? – Francis Rudwick morreu numa briga num covil de ratos. Oliphant. – Nunca deve ser realizado por autodenominados entusiastas com uma noção ufana de seu papel na política estrangeira. onde armava a tribo comanche em segredo com os rifles fornecidos por sua Comissão. há apenas cinco meses. A Comissão de Livre Comércio não o ajudará mais. senhor. Rudwick voltara do Texas. Seu . Na noite do assassinato de Rudwick. – Prefere profissionais. mas não disse nada. – Ela existe. Mallory. – Refiro-me à organização oficial que persuadiu o senhor a contrabandear rifles de repetição para os selvagens americanos. vai além dessa jurisdição. – Oliphant pareceu aflito. irritado – que o senhor não vê com bons olhos. não se deixe enganar. então? Oliphant encarou Mallory. – E o nome dessa organização? – A Comissão de Livre Comércio da Royal Society – disse Oliphant. devo informar-lhe. – Antes de prosseguirmos. E isso foi meses atrás. E é quase nessa condição. preciso ter certeza do que estamos falando. – Muito bem.. – No âmbito da diplomacia. – Foi em janeiro passado. alguém tentou tirar a vida do ex- presidente do Texas. – E devo concluir – começou Mallory. a que exatamente se refere? Fale com clareza. para estudar as relações internacionais de comércio. Embora tenha lugar específico no mundo. Nem sequer o informaram da ameaça à sua vida. então.americanas? – Sei que está. sr. Oliphant? Homens como o senhor? Oliphant inclinou-se para a frente. apoiando os cotovelos nos joelhos. – A Comissão de Livre Comércio é uma agência legítima do governo. Tarifas. A ambição dela. dr. sr. – Não gosta de amadores no jogo. O presidente Houston escapou por muito pouco. oficialmente. – O contrabando de armas. investimentos e assim por diante. que o senhor encontra-se hoje. Estou enganado. Defina seus termos. suas ações podem ser interpretadas como armamento clandestino dos inimigos das nações contra as quais a Grã- Bretanha não está oficialmente em guerra.. – Oliphant ficou novamente atento para a presença de bisbilhoteiros. dr. não importando a perfeição com que tenha realizado seu trabalho. pacientemente. – Uma agência profissional – afirmou com precisão – não abandonaria seus homens para serem eviscerados por agentes estrangeiros em pleno centro de Londres. Mallory. receio. Quando diz “atividades”.

– Não gosto do modo como pinta as coisas – disse Mallory. – Se não tivéssemos dado a eles as armas.. – Mas. Talvez tivesse real substância a obscura teoria de Oliphant. e agradeço-o por isso. . Fui eu quem falei abertamente demais. foi brutalmente morto a facadas. senhor. seu rival. então. e quanto à Geographical Society. – Não tenho qualquer intenção de falar à imprensa.secretário. Vim aqui para transmitir uma advertência. A morte repentina de Rudwick. Mallory resmungou com irritação. Recostou-se na cadeira. que extraem balas britânicas dos corpos de compatriotas com regularidade. – Compreendo sua preocupação – admitiu Mallory. Mallory deu o bote. cidadão britânico. fui forçado a fazê-lo. duvido que pudesse explicá-la à imprensa popular. mas são bastante óbvias para os infelizes texanos.. dr. então. – Já me advertiu. Havia força no argumento. Usa chapéu de aba larga e longo sobretudo cinza. esse seu assassino texano? – É descrito como um homem alto. – Não os chama de “amadores”. – Duvido que alguém pudesse explicar a questão para um Ranger texano – disse Oliphant. rotas navais.. sempre parecera golpe de sorte por demais conveniente. – Na verdade.. – Refletiu por um momento. é que os amadores da Comissão estão sendo assassinados... então? – Considero quase certo. – Já sei muito mais sobre a Comissão do que gostaria de descobrir. com leve pontada de raiva. não para solicitar informações. As atividades de Rudwick podem ser pouco conhecidas aqui em Londres. Oliphant? Qual o lugar dela nisso? – Um viajante alerta e observador pode servir aos interesses da nação sem prejuízo algum à ciência – disse Oliphant.. – Como é. dr. – São nossos amadores – Oliphant disse secamente. sr. O assassino ainda está totalmente livre. sr. uma vez que é muito óbvio que a sandice da Comissão pôs em risco sua vida. – A Geographical tem sido há muito fonte vital de informações.. senhor. Lamento ter falado com o senhor. – Mas qual é a diferença exata? – A diferença exata. Está claro que não é amigo da Comissão. seu mais formidável inimigo. Mallory. Poderíamos ter labutado por anos. moreno e de poderosa constituição física. Mallory. Elaboração de mapas. não teriam nos ajudado. não fosse pela ajuda dos cheyennes. – Acredita que um texano matou Rudwick. Oliphant? Ainda que também andem à espreita com suas lanternas furta-fogo por onde não deveriam? O silêncio estendeu-se.

dr. Estive presente em sua palestra sobre a matemática das Máquinas. – Senhor – disse Mallory –. que existe grande quantidade de mulheres parecidas com Lady Ada. durante as corridas.. que morreu.. não posso – disse Mallory. Oliphant. – Mallory tocou a têmpora – e punhal no bolso? Oliphant arregalou os olhos. . – Nunca fui apresentado. uma coquete. por favor.. novamente. Algo semelhante foi tramado contra Rudwick. Mallory. calmamente –. – Mas tenho de dizer-lhe. Oliphant retirou um caderno de couro do paletó. Confundir o elegante espião alcançara um ponto profundo de satisfação. de testa saliente. – O senhor é um homem de recursos inesperados.. Um ataque à faca. Oliphant encarou-o fixamente. Oliphant ficou tenso.. senhor – disse Oliphant. Não informou a polícia? – Não – disse Mallory. – Não seria um grã-fino extravagante das pistas de corrida. – A dama em questão era uma pessoa importante. e os dois intimidavam uma dama. – Prossiga.. – Fale-me. – Posso dizer o mesmo do senhor – Mallory fez uma pausa.. no entanto. – Parece-me. no entanto. uma vez que nossa Rainha das Máquinas é também uma rainha da moda. é crime sério. – O que aconteceu? – Derrubei o salafrário – disse Mallory. não creio que o homem estivesse atrás de mim. sr. – A filha do primeiro-ministro? – Não há outra. depois escancarou uma gargalhada. mas a vi em sessões da Royal Society. com súbita e frágil leveza no tom. o senhor bem se recorda. sim – instou Oliphant –. pela dama. percebe? Receei expô-la. – Indubitavelmente – disse Oliphant.. Milhares de mulheres seguem seu estilo. demonstra que é um cavalheiro. De repente. – Infelizmente. planejada para envolvê-lo numa suposta briga de jogo. isso é inusitadamente interessante. – Meu Deus – disse suavemente. deleitando-se com a agitação contida de Oliphant –. Não estou enganado. apoiou-o sobre o joelho e tirou a tampa da caneta-tinteiro. – Dia do Derby. – Sua discrição. Mallory notou que estava se divertindo. sobre o incidente. – Cortou-me com um punhal. esse sujeito – disse Mallory. num covil de ratos. Tratantezinho incomum e odioso. a dama não era ninguém menos que Ada Byron. com o mais carregado sotaque de Sussex. Estava com uma garota. – Talvez – sugeriu Oliphant – seja tudo uma farsa.

– Sem dúvida. senhor. – Muito bem – disse Mallory. Oliphant pediu um pink gin. escondida entre fósseis emboçados num dos armários pessoais de Mallory no Museu de Geologia Prática. reconhecendo Mallory. em nenhuma parte dele. que vive nos redutos da vida estrangeira de Londres. cuidadosamente envoltas em linho especial. Descreveu o casal que importunou Ada e as circunstâncias com o máximo de habilidade. Mas eu avaliaria o caso levando em consideração a força do dinheiro. Considerava o detalhe uma questão privada entre ele e a Lady. – Proteção? – Não de um policial comum. – Não posso estar com um policial seguindo-me a cada passo todo o tempo – disse Mallory. – De modo estritamente confidencial? – Dou-lhe minha palavra. trata-se de assunto de pouca monta. os serviços. Gostaria que tentasse identificar seu agressor e a cúmplice. quando necessários. São muito discretos. mas não fez menção à caixa de madeira com os cartões de Máquina franceses de celulose canforada. – A Agência Central de Estatística mantém extensos arquivos a respeito de tipos criminais. finalmente. e. é claro. – Receberá também proteção policial. com medidas antropométricas. Alguém do Departamento Especial. – Oliphant soltou um suspiro delicado. Mallory apresentou uma versão sucinta dos fatos. Dois proeminentes especialistas em dinossauros. levou-lhe um huckle-buff. Saberemos ao menos isso. Pode tranquilizar-se de que não deve . pedindo bebidas. ela incumbiu-o da guarda de seu estranho objeto. – Gostaria que o senhor conhecesse alguns amigos meus – disse Oliphant. de acordo com os padrões do Império. retratos de Máquina e coisas do gênero. – O que as pessoas diriam? – Preocupo-me muito mais com o que diriam caso o senhor fosse encontrado estripado numa via qualquer. O garçom. a solidariedade secreta de refugiados americanos. e ele considerava sagrado o compromisso. A caixa de madeira com as cartas. ambos misteriosamente assassinados? A imprensa iria à loucura. por parte de tal tipo sombrio de cidadão inglês. – E imagina que Lady Ada tenha se envolvido de alguma forma nesse negócio hediondo? – Não. – Ele pode bem ser insignificante. aqui fugidos das guerras que convulsionam aquele continente. Não tenho medo do pequeno cafetão. guardou a caneta e acenou para o garçom. Oliphant fechou o caderno. – Não preciso de escolta alguma. se o senhor for capaz de identificá-lo. no aguardo de sua atenção adicional.

tais questões não trazem nada além de pesar. Mallory pulou para o meio-fio. Se for sensato. virar-se e sair andando a passos largos pelo rico carpete do Palácio. revelou-se. Seus verdadeiros empregadores. sr. – Considero. – A decisão é totalmente sua. Oliphant. o assunto resolvido – disse Mallory. Certamente. Oliphant. tendo publicado seu As costas russas do mar Negro um ano antes da . então. eu poderia concordar com quase qualquer medida. – Caso me dissesse que os interesses de Lady Ada estavam sob algum risco. correrei meus próprios riscos. no fim. – E lembre-se. Oliphant balançou a longa cabeça sombriamente. Ou talvez tivesse seguido longe demais no veículo correto. Quando o motorista reduziu a velocidade para a passagem de uma imunda asfaltadeira. Oliphant levantou-se. conforme prometi. Mallory avançou aos poucos pelo corredor lotado do ônibus que seguia até a sacolejante plataforma de saída. Mallory. Com sorte.ser esse o caso. enquanto prendia sua atenção o último número da Westminster Review. encaminharei seu nome à Geographical. – E talvez ainda seja cedo para tomar tão severas medidas. – Assim o farei. o caso como um todo simplesmente dará em nada. sem vestígios. Apesar de todo o esforço. Tem meu cartão? Mantenha-me a par dos desdobramentos. é claro – disse Oliphant. era algo como um especialista na região da Crimeia. hoje não discutimos nada além dos assuntos da Geographical Society. Do modo como as coisas encontram-se. A mulher que viu pode não ter sido Ada Byron. Segurando firme a nova valise com uma das mãos e as correias extras com a outra. muito além de seu destino. senhor. com longas pernas movimentando- se como as lâminas de uma tesoura. Mallory observou a eminente personalidade erguer-se. – Tal conhecimento nunca traz benefícios. mordaz necropsia da condução da Guerra da Crimeia. e desaparecerá aos poucos. tomara o ônibus errado. e espero mesmo que considere com seriedade minha proposta quanto ao uso das Máquinas da Bow Street. tal como um pesadelo. caso alguém pergunte. friamente. Mallory comprara a revista porque trazia um artigo de Oliphant. não estará mais envolvido com lanternas furta-fogo. dr. – Ainda não me disse o nome de seus empregadores.

Mallory sabia onde estava agora. Mallory lançou-lhe dois pence. Finalmente. o mais recente artigo de Oliphant estava repleto de insinuações ardilosas. Seguiu a passos firmes pela passarela acima da Pall Mall enquanto. chefe? Mallory percebeu com infeliz sobressalto que estava falando sozinho. o amplo macadame cercado por negras paliçadas de ferro de clubes exclusivos. ele viu. de lenço na cabeça. sem dúvida à gloriosa vitória na Crimeia. logo descobrindo estar na Leicester Square. confuso. Após atravessar a Whitcomb e depois a Oxenden. miserável e cansada de si mesma. oferecendo-lhe um pacote de camisas-de-vênus. Mallory comprou-as e largou o embrulho dentro da valise. deu uma cambalhota para trás. por curiosidade. com suas prostitutas roucas agora ausentes. Percorreu toda a extensão da rua.eclosão das hostilidades. O Grande e Velho Duque de York. e por um momento Mallory imaginou que o miasma emanava da própria multidão. como o de vinagre queimando. viu-se na Haymarket. O garoto. pois nas ruas próximas havia teatros. de Oliphant naquele lugar. proteção certa contra a lues. um cafetão aproximou-se. abaixo dele. as fachadas de mármore bem recuadas da movimentação das ruas. – Perdão. Parecia muito diferente durante o dia. estranha em plena luz do dia. na tentativa de chamar a atenção de Mallory. pantomimas e casas de lanterna mágica. Havia ali potente odor nauseabundo. encontrava-se o memorial do Duque de York. O livro detalhava as férias alegres. no fim da Waterloo Place. Que Tinha Dez Mil Homens. adormecidas. virou-se ao acaso e saiu caminhando. Ao lado da Pall Mall. Havia uma intensidade subterrânea. com seus passeios de cascalho e jardins formais que constituíam excelente local para roubos e emboscadas. ao notar o passo de Mallory. era agora distante efígie enegrecida de fuligem. onde o povaréu emergia sem cessar das saídas de mármore fuliginoso do metropolitano. uma química feroz profundamente enterrada de cinzas . Virou à esquerda e marchou rumo ao clamor das máquinas da movimentada Pall Mall. O garoto ergueu a cabeça. das fissuras pendentes de seus casacos e sapatos. fedor cloacal. em sua abstração extasiada. murmurando algo sobre a sagacidade de Oliphant. Ele deixou-se levar pelos fluxos ligeiros de humanidade. Um moleque das ruas bateu uma vassoura de ramos no pavimento diante dos pés de Mallory. Preparavam a fundação de um novo monumento. Aos olhos recém-alertados de Mallory. com sua coluna rotunda apequenada pelas espirais de aço da sede da Royal Society. porém um tanto extensas. Especialmente à noite. rompiam um cruzamento com uma ruidosa escavadora com garras de aço. operários suados. Subiu a Regent Street até o Circus.

havia uma série de estantes menores. para a Jermyn Street. No piso térreo do museu estavam expostos os vertebrados. e Thomas Henry Huxley levantou-se para cumprimentá-lo. fez uma pausa abaixo das lamparinas de ferro fundido do Hotel Cavendish. enfileiradas diante das paredes. lustrando vidraça após vidraça do que Mallory supôs fazer parte de uma escala de serviços infindável. Trocaram um aperto de mão. protegeu os fechos da valise e partiu para seu destino. uma única voz magistral era audível através da porta fechada do escritório do curador. da classe operária. de algum modo forçado a sair das entranhas ardentes de Londres por meio dos exaustores abaixo. com seus esboços do brontossauro. a voz completar uma sentença particularmente pomposa e retórica. assistidos por guias de jaleco vermelho. e num instante sentia o cheiro inebriante das mercadorias do empório de queijos Paxton & Whitfield. – Entre – ressoou a voz do curador. esquecido o odor. numa galeria entre balaústres e pilastras. O público do dia era satisfatório. ele estava sendo empurrado para fora. O secretário enfiou as anotações a lápis no in-fólio de couro e saiu. depois ouviu. e então ele percebeu que aquilo devia estar sendo trazido por êmbolos. com número surpreendente de mulheres e crianças. sem sinalização. com os . A luz descia de grandes cúpulas de aço e vidro. o Museu de Geologia Prática. junto com diversas ilustrações concernentes das maravilhas da geologia estratigráfica. Reeks entrar. Examinavam as prateleiras com solene atenção. Acima. – Isso é tudo por ora. Ao fim do corredor. Depois de atravessar correndo a Duke Street. – Peça para o sr. Mallory bateu. Era um edifício imponente. incluindo toda uma turma de garotos uniformizados e desarrumados. Huxley estava ditando para seu secretário. Depois de assinar o livro de visitas encadernado em couro com um rasgo de pena. Mallory entrou. alunos de alguma escola do governo. robusto como uma fortaleza. Em seguida. por favor. fazendo uma mesura a Mallory. seguiu a passos firmes até o amplo salão central com estantes de mogno e frentes envidraçadas e lustrosas. e passou por um corredor ladeado por depósitos trancados. contendo os invertebrados. – Como tem passado. Ned? – Huxley mediu Mallory de cima a baixo. Mallory considerou- o muito semelhante à mente de seu curador. Subiu depressa os degraus que iam dar em uma acolhedora frieza impessoal. sorrindo. onde havia um faxineiro solitário às voltas com seus equipamentos presos ao corpo. Mallory esgueirou-se por uma porta alta. Harris – disse Huxley. um jovem de óculos com ares de ambicioso estudante de pós-graduação.quentes e gotejamentos sépticos.

colocando o menino no chão. Thomas – disse. – Meu filho. – Tive um pouco de sorte – disse Mallory. – Sabia que Huxley era doido pelo filho. de cabelos claros.. Mallory viu um garoto pequeno. filho. dr. agora – anunciou Huxley. – Um legado útil para você.olhos impiedosamente observadores e apertados que haviam descoberto a “Camada de Huxley” na raiz dos pelos humanos. – Deve estar feliz com isso. – Esse médico bruxo teve um considerável entendimento do propósito de . veio ajudar o pai hoje. um pequeno e genuíno cavalheiro. – Matéria vegetal desidratada. – Um presente dos cheyennes para você. que continha uma coleção encadernada em marroquim dos originais da obra de Cuvier. jovem Noel – Mallory exclamou com entusiasmo. Mellowy – esganiçou o menino. – Não suporto colares de contas ignóbeis e bugigangas semelhantes. Diga olá para o dr. – Minha nossa. Thomas. – Nasceu enquanto você estava em Wyoming. vindo de um curandeiro cheyenne. abrindo a valise. ao cortar o barbante habilmente com uma espátula. – Olá.. Noel. Diria até esplêndida. segurando à luz um dos rígidos objetos. O embrulho continha seis hóstias marrons e murchas. Para a sua surpresa. Mallory colocou a valise sobre uma estante de livros. do tamanho de uma moeda de meia-coroa. sorrindo. não? – Huxley sorriu. docilmente. – Doutor Mallory – corrigiu Huxley. retirou um embrulho de papel amarrado com barbante e levou-o a Huxley. – Espero que não seja uma daquelas curiosidades etnográficas – disse Huxley. Mallory. – Tenho um item que pode interessá-lo. – Lembrando-se de colocar as camisas- de-vênus sob a Westminster Review. Mellowy? – ficou claro que a ideia alarmou-o. Noel arregalou os olhos. curvando-se para pegar a criança. de terno de gola plana e calções até a altura dos joelhos. Cactos? – Diria que sim. – O senhor é médico. asperamente. – Joseph Hooker. sr. com acautelada educação. – E aqui está hoje. mestre Noel! O garotinho deu um breve sorriso. sair de trás das pilhas de papel da mesa de Huxley. – Muito parecido com nossos bispos anglicanos. – E como vai seu irmãozinho? – Tem uma irmã também. – Está com muito boa aparência. Pulou para a cadeira do pai. vestido com esmero. mal sabia andar até a última vez que nos encontramos. – E quem é esse? – A futuridade – gracejou Huxley. do Kew. poderia dizer-nos.

É o método padrão. como diz o pm à sua maneira eloquente. a seleção foi feita na sexta-feira à noite. de nada adianta negar que a educação.” – Huxley. mais tarde. Ergueu a cabeça.. – Sim. geralmente. Thomas. País de Gales. Renova a alma. para voltar a fazer pesquisa de campo como você faz. – Certas toxinas vegetais têm a propriedade de gerar visões – observou Huxley. para preencher o silêncio. – Mas por que isso o preocuparia tanto? Suas conquistas falam por si próprias! . bate tambores e dança como um dervixe até ter um ataque e cair no chão. aqui na Inglaterra. para trazer de volta a alma da criatura. Imaginou que pretendíamos ressuscitar o monstro morto. os museus da Grã-Bretanha. Reeks. – O público está bom hoje – comentou Mallory. – Não vi a lista. – É um homem determinado. mas a autoridade de Forbes é tal que fiquei. Ned. Infelizmente. penduro-as em um rosário? – Não. entoa cânticos. Thomas. lorde! Não me diga! Que notícia esplêndida. – Tom Huxley. – Fez uma pausa. Thomas. “Bem”. – De fato. sem demonstrar esforço. – Encontrei Lorde Forbes na Royal Society. disse Forbes. que estou um tanto apreensivo. o Forbes! – Não hei de sentir-me inteiramente convicto até receber a confirmação oficial – disse Huxley. – Obrigado. nossas fortalezas do intelecto. seja o único grande trabalho à mão. – Confesso.. Providenciarei a catalogação adequada delas. – Precisam de você aqui. e soube que foi um dos escolhidos. “fico contente em contar-lhe que foi aprovada sua entrada na Câmara dos Lordes. lamentável que esteja doente – disse Mallory. Embora haja dias em que eu abandonaria tudo.nossa expedição. Ned. Ned. Come-as. Ainda assim. – É claro! – entusiasmou-se Mallory. usou os gestos. estando a saúde do primeiro-ministro como está. tento sair uma vez por ano. Ned. de algum modo. as palavras e até o tom de voz de Forbes. você as come. a pressão dos negócios está consternando nosso sr. a educação em massa. maravilhado. convencido. e caminhar pelas montanhas. Huxley pareceu inesperadamente melancólico. – E o que eu faço com elas. – Está sabendo que posso ser nomeado lorde? – Não! – exclamou Mallory. a meu ver – Mallory deu uma risadinha. guardando as hóstias cuidadosamente na gaveta da escrivaninha. O menino de Huxley retirara uma bala de leite do bolso e desembrulhava-a com precisão cirúrgica. – É o que me dizem – disse Huxley. Disse que essas hóstias permitiriam que você viajasse para longe. – Sim – disse Huxley –. Ele costuma ser mais ligeiro.

Mallory ficou inquieto. Os recursos da nação são finitos. Porém. para com o mundo lá fora e para com a Ciência. Ned. – Baixou o tom de voz. no plano mais limpo e superior que a mente de Huxley habitava. perplexo. e enfrentamos numerosas dificuldades que envolvem grandes e inquestionáveis sofrimentos. Partido e governo. num gesto de profunda sinceridade. O título de lorde representa um posto político. Pela primeira vez desde que deixara o Canadá. e amigo de verdade. – Claro que sim! – vociferou Huxley. – Temos de enfrentar a situação de alguma forma. para com nós mesmos. quiçá acordos ignóbeis. – De nada adianta termos qualquer falsa modéstia em assunto tão relevante. não será por intriga minha. tanto pela velocidade das notícias quanto pelo peso repentino da sinceridade de Huxley. expandido! – Huxley deu um sorriso rígido. A alternativa seria permanecermos parados e permitirmos que o diabo faça o que bem entender no futuro. Considero-o um aliado. – O perigo moral. pensou. ainda quando jovem estudante. não. – Trata-se de obscura suspeita – disse Mallory. Assim como o perigo físico. Huxley balançou a cabeça. – Receba eu o título de lorde ou não. última tentativa de lotar a Câmara dos Lordes de sábios da ciência. Nunca pedi favores especiais. – Ainda que não me ouvirá dizê-lo em público. enquanto Byron ainda tem influência. além de sua presença marcante. finalmente. havia sempre um quê de surpresa nele. a competição é acirrada. – O timing não parece acidental. Dinheiro e leis. Huxley começou a andar pelo carpete turco diante da escrivaninha. Ned. Eu. Recebemos elogios. – Que tipo de perigo? – perguntou. por minha parte. O nicho da educação e da ciência tem de ser defendido. Mallory olhou para o menino. Huxley sempre fora assim. Desconfio que seja alguma manobra de Babbage e de seus pares mais íntimos. que chupava sua bala de leite e chutava as pernas da cadeira com os sapatos . Se o título for meu. – Você foi o grande defensor da Evolução no debate! Por que questionar sua boa sina? Parece-me simples questão de justiça! Huxley segurou as lapelas com as duas mãos. uma coisa posso afirmar: deixei que meu caso se apoiasse na própria força. sofrimentos e até perigos.. – Intriga não entra na questão! – disse Mallory. Mallory sentiu-se de volta ao seu verdadeiro mundo. Sempre há riscos na luta pelo poder temporal. – Mas você e eu conhecemo-nos há muitos anos. preferiria explodir em pedaços a ver a ciência prostituída! Assustado pela aspereza de Huxley. Temos certos deveres vitais a cumprir. o que não dá grande prazer. Tentações..

– Uma abominável nódoa de hipocrisia. da Geographical? O homem é um caso perdido. sabe? Meio doido. parece. em dois anos de trabalho duro nos ermos de Wyoming! Ora. – É bom tê-lo de volta entre nós – disse Huxley. proponho uma versão popular. Comprovadamente precisa como o aço. Você tem de escrever um guia de viagem. mas escrever um livro inteiro a sangue frio. Sujeito muito inteligente. Huxley acelerou o passo. retomando o passo. Escreve folhetins. Ned. Ned. Thomas – disse Mallory. – Benjamin Disraeli? Minha irmã Agatha é doida por seus romances. mas que não sonham com nada além de medalhas de ouro e trajes acadêmicos. Não. – Huxley parou de repente. – Trago justamente um livro desses em minha bolsa. Mallory estava perplexo. é vital para o trabalho maior.reluzentes. – Sabe que tem toda e qualquer ajuda que eu possa oferecer. – E melhor ainda. no seu ânimo. Lixo. Aquele tal de Disraeli. um palanque público muito proveitoso. – Oliphant. astuto demais. possibilidade essa que me causa mórbido pavor. um relato completo de suas explorações. Mas é bastante equilibrado quando está sóbrio. Ned. – Estranho que tenha mencionado isso – disse Mallory. na sua obstinada firmeza de propósito. – Jamais – garantiu-lhe Mallory. algo que um mecânico consiga entender. se a questão um dia demandá- la. Tem uma boa foto para a divulgação? . – Falo bem o suficiente quando estou sob pressão. Confio. há homens que vejo toda semana que afirmam ter grande devoção à ciência. estratagema bastante comum.. – Anima-me ouvir isso. Será um evento e tanto. fraude e egoísmo envolve tudo na Inglaterra de hoje. famoso! Temos de tirar proveito dessa vantagem. sim. – Temos de conversar sobre seu simpósio na Royal Society. cujo pai fundou o Trimestral de Disraeli. Ned. seu discurso vindouro sobre o brontossauro. – Encontraremos para você um trampolineiro da Grub Street para lapidar as pontas brutas – disse Huxley –. que por vezes suponho estar eu mesmo contaminado. e mente como político. – Isso quer dizer. A missão para China e Japão. acredite. Ganha-se bom dinheiro com isso também. – Você é o homem certo para a tarefa. de Laurence Oliphant. Algo no aceno de cabeça de Huxley pretendia dizer a Mallory que uma mulher do clã dos Huxley jamais seria vista com um romance popular.. o tipo de sujeito que mobília a sala de estar com mesa Pembroke e um casal de pastores de louça! Digo-lhe.

Thomas! Huxley fez uma pausa. como ele mesmo diz. – Sei que não sou um orador exemplar. escreveu. Não sei se devo mencioná-la. John Keats. – Maull e Polyblank são os homens certos para você. e conheço a pessoa perfeita. – Nossa. caso tenha a menor oportunidade. Huxley parou e. – Tem outra questão. – Geez? – Giz! – repetiu Mallory. não – disse Mallory. Uma semana de aulas com ele faria milagres. – Como se chama isso? – Eu chamo a isso um pedaço de giz – disse Mallory. – Jules D’Alembert. na verdade. – Suas aulas são um pouco caras. escreveu. Virou-se.. Ned. mas fala o inglês mais perfeito que já ouviu. – Espero que não esteja dizendo que preciso de milagres. – O que é? – Não tenho a intenção de ferir seus sentimentos pessoais. – De modo algum! É uma simples questão de educar o ouvido. Ouviram uma batida à porta. – Tomarei nota disso. Huxley apagou o quadro-negro com o feltro empoeirado do apagador de ébano. portanto roubará sua cena com o clacking. Mallory anotou o nome. escreveu Huxley. Tende a trabalhos excessivamente elaborados. Daguerreotipistas da gentry. Ned. Ficaria surpreso em saber quantos oradores em ascensão usaram os serviços desse cavalheiro. em seguida. – Temos de fazer algo a respeito dessas vogais arrastadas de Sussex. . – Precisará de um cinetropista também. mas consegui sair-me bem no passado. em letra cursiva rápida e fluida. então. Maull & Polybank. mas. Mas é um sujeitinho engenhoso. Mallory deu um sorriso artificial. Mallory franziu a testa.. Faz muitos trabalhos para a Royal Society. Huxley foi até a lousa com moldura de mogno atrás da escrivaninha e pegou um porta-giz de prata de lei. – Isso é inestimável. Homenzinho muito discreto. Conheço um sujeito que é locutor. Francês. brincando com ele. ergueu a mão bruscamente. Preenchendo todas as fendas com minério [1].

Mallory examinou-a. muito bem – disse Huxley. . com o avental manchado de gesso. – Tem a vista lateral? Reeks destacou-a do feixe de esboços. modelando os vertebrados. – Deve lembrar-se do sr. Reeks ficou surpreso. Trenham Reeks. – Teremos de retirar diversos armários. senhor – disse Reeks. para suportar a massa em si. – Mas uma criatura de dimensões tão vastas. um de seus mais íntimos aliados. – Onde está o crânio? – O pescoço todo estende-se pelo saguão de entrada – disse Reeks. Reeks – disse Mallory. nosso curador assistente. – Foulke é uniformitarista! Era conselheiro de Rudwick. – Foulke deturpou completamente a natureza do espécime. Abriu o fichário e apoiou no nariz um pincenê adornado com fita. – Desculpe-me o atraso.. uma planta baixa do salão central do museu com o esqueleto do Leviatã sobreposto. – Ah. – Estamos assoberbados na oficina. Uma estrutura extraordinária. O homem era um funcionário da instituição. Noel puxou a manga do pai e sussurrou algo. – Deem-nos licença por um momento. – Meus parabéns pela promoção. Huxley abriu um espaço na escrivaninha. Mallory. Embora eu deva dizer que ela desafia a própria escala de nossa instituição! – Bateu numa folha de papel almaço milimetrada.. – Entre! – Apareceu um homem baixo e robusto.. senhor – disse Reeks. – A reputação do dr. – E saiu do escritório com Noel. Afirma que a fera tinha sangue frio e era semiaquática! Que se alimentava de tenras plantas aquáticas e movimentava-se lentamente. que saiu na Transactions do mês passado. cavalheiros.. Reeks enfiou uma longa pasta de arquivo sob o braço e apertou a mão de Mallory. franzindo a testa. – Que fonte usou para este arranjo anatômico? – Há muito poucos trabalhos publicados sobre a criatura até hoje – disse Reeks. Esforçou-se para retomar a calma. De nada adiantaria perturbar o pobre Reeks. Foulke. Reeks perdera cabelo e engordara desde a última vez em que o vira. A própria escala apresenta problemas terríveis. O trabalho de Foulke é um emaranhado de absurdos. Foulke. dr. sr. – Obrigado. – Entendo – interrompeu Mallory. Mallory examinou o esboço.. – E obrigado por esta grande descoberta. magoado. – Como pode ver.. desse peso enorme! Parece que uma vida na água. – Retirou a revista da pasta e ofereceu-a. com orgulho. – O mais longo e mais completo é do dr. Mallory empurrou-a para o lado.

. e também esclarece as juntas das pernas como as de um lagarto. mudando a própria paisagem com seu apetite devastador. Atente para este engrossamento nas vértebras da cauda. raramente tendo que mover o grande corpo para muito longe. entende. mas bem-intencionado. – A criatura não poderia ter ficado um instante sequer sobre a terra seca com as pernas naquela posição absurda. para atingir grandes alturas. porém numa escala muito maior. Reeks. levando o filho pela mão. não. Como um guindaste! Reeks retirou o pincenê. retirou um bloco de papéis intercalados com papel carbono e jogou-o sobre a mesa. ouso dizer. O brontossauro tinha postura ereta.não muito esperto. – Sr. sr.. E veja as extremidades da coluna espinhal. Exceto talvez para escapar de predadores. calmamente. Evoluiu e passou a arrancar e devorar a copa das árvores.. Fizeram-no vítima de grave e errônea concepção. – São grossos feito pedras angulares. Reeks. Tampouco aos colegas dele. Huxley retornou ao escritório. com a cabeça muito acima do chão. se é que existia algum com fome suficiente para atacar tal monstro. quase no nível do chão. Começou a limpá-lo com um lenço de linho que tirou do bolso da calça. – Ainda não comecei com esses – disse Mallory. – Bateu na folha do projeto e prosseguiu. Elas migraram. Esta criatura erguia-se na altura da articulação da bacia.. – Sim. – Modelei a postura com base no crocodilo – protestou Reeks. Sinal certo de enorme pressão. não são os pés palmados de um nadador. anfíbio. Nada dessa história de semelhança com a rã. Mallory pegou um lápis na escrivaninha e começou a desenhar com rapidez e habilidade. de postura bípede. esta criatura não era uma grande salamandra de corpo mole. – Sim. pernas bastante colunares e verticais para dar passadas velozes com joelhos estendidos. peito estreito. como as do elefante. – Imagina-se que colhia plantas aquáticas com o longo pescoço. senhor – disse Reeks. – Ele passava muito tempo sobre as patas traseiras. ou muito rápido. escorado na cauda. senhor – disse Reeks. como uma girafa. – Olhe para os dedos dos pés! – disse Mallory. – Isso explica por que o deixou com o pescoço esticado e frouxo. Foulke. – Isso explica a hipótese aquática. Olhou para Reeks e depois para Mallory. – Isso não agradará ao dr. . – Uma manada dessas criaturas poderia ter destruído uma floresta inteira rapidamente. percorrendo vastas distâncias. Esta criatura era como um elefante moderno. como fazem os elefantes. e depressa. – O Instituto de Analítica Maquinal de Cambridge realizou o cálculo de análise de forças que solicitei – disse Mallory. Foi até a valise.

– Deixe de lado a teoria. admite-se um estado muito maior de aptidão darwiniana para essas magníficas criaturas. O que pode concluir das evidências aqui presentes? – Posso fazer delas um bom exemplo. Todos admitem que o dinossauro de Rudwick sabia voar. não?! – ele disse. por mais prejudicial que isso possa parecer para a futilidade dos minúsculos mamíferos modernos. se for concebido o papel de Catástrofe. Mallory. sr. enquadrariam-se na curva de desenvolvimento gradual. – É esse absurdo do Foulke – disse Mallory. Natura non facit saltum. E fá-lo-ei. – Oh. ainda não publicou sobre o tema. existe um pensamento revisionista sobre essa questão – disse Huxley. – Discorda do arranjo do exemplar? – Parece que o dr.. Huxley sentou-se. Thomas. Ao passo que.. – Pronto para jantar uma copa de árvore. segundo a norma de Foulke e de seus camaradas. – Embora eu questione as consequências para os nervos alvoroçados da paleontologia. – A facção uniformitarista deseja que essa criatura pareça indolente e vagarosa! Os dinossauros. – Tem de concordar que a criatura não tinha muito cérebro – disse Huxley. Caso o montássemos sob a claraboia e o fixássemos nas vigas mestras. agora que Rudwick não está mais entre nós. Ainda não li o artigo de Foulke. Mallory prefere que fique de pé – disse Reeks. Poderíamos voltar a cabeça para a público! Teria mesmo um efeito dramático. – Na verdade. Sistemas complexos podem realizar transformações repentinas. – As simulações de Máquina provam- no. Mallory conteve-se para não dizer um palavrão. em minha apresentação . – Bem. – Uma manobra para melhorar sua popularidade – disse Huxley. Apoiou a mão no rosto com suíças. – Há quem diga que seu réptil voador somente planava. tudo nos leva de volta à teoria básica. É possível que tenha de dobrar o pescoço um pouco. – Acho que talvez possamos. Enfiou o pincenê num bolso por detrás do avental. então. – Mas a Natureza salta – disse Mallory. e você. – Não se pode concluir que era inerte. devido à presença da criança. Depois coçou a cabeça. Confesso que não estou nem um pouco à vontade com tal argumento. – Parece determinado a provar que os dinossauros eram inaptos para viver! Retratou meu Leviatã como uma lesma flutuante sugando ervas-d’água. Já profundamente envolvidos na discussão. – Podemos arranjar tal posição. senhor. Reeks? Reeks pareceu espantado. E eu não desejaria aumentar o calor do debate catastrofista. Essas criaturas eram ágeis e ativas. não. numa lenta progressão até os dias atuais.

É uma simples questão de relação entre superfície e volume. – Mallory sorriu. – Por que um réptil precisaria dessa quantidade de alimento? – Ele não tinha sangue quente propriamente dito. sr. como um tópico elementar. Ele nos pegou. Reeks. – Mais uma pequena questão – disse Mallory. Gostaria de juntar-me a vocês na oficina para tratar da questão do crânio. e certa quantidade de conjecturas. Uma massa corporal desse tamanho retém o calor até no tempo frio. mas tinha alto metabolismo. com leve sinal de dúvida. o crânio do espécime está bastante fragmentário e exigirá um estudo cuidadoso. fielmente. Infelizmente.pública. sr. revestida de rebolos. – Os rapazes da oficina adoram desafios. Será um grande prazer observar os últimos avanços na técnica. – Mas não tão inteiramente errado quanto eles estão. – Espero mesmo que sejamos capazes de satisfazê-lo. – E se eu perguntar. – As equações são calculadas de forma simples. com uma demonstração de nostalgia. mas melhor que o da oposição. Cinquenta quilos de moela têm mais poder muscular que as mandíbulas de quatro elefantes machos. de que maneira essa criatura poderia ter comido folhagem lenhosa? A cabeça mal chega a ser maior que a de um cavalo. dr. senhor – disse Reeks. – A condição do crânio. A julgar pelo tamanho da caixa torácica. – Ela não mastigava com os dentes – disse Mallory. não exigindo mais do que uma hora numa das menores Máquinas da Sociedade. Huxley. num ambiente tão exemplar. – Isso resultará em um enorme problema – murmurou Huxley. . Reeks. – Deixaremos que a política se interponha à verdade? – Touché. – Lorde Gideon Mantell ensinou-me tudo o que eu sabia sobre a modelagem de gesso – declarou Mallory. – Tinha uma moela.. – Certamente. todas as objeções? – Eu poderia estar errado – disse Mallory. Huxley bateu de leve na mesa com a caneta-tinteiro. Ned. Huxley sorriu. senhor. e os dentes são notavelmente ordinários. – Apostaria nisso sua reputação de especialista? Já considerou todos os questionamentos. Não um exemplo perfeito. sinto que terá de alterar seus planos minuciosos. Providenciarei para que receba uma chave. – E se me permite dizê-lo. esse órgão devia ter um metro de comprimento e talvez pesasse cem libras. uma controvérsia faz maravilhas para o nosso número de visitações. rapidamente. – Faz muito tempo que eu não me envolvo com essa meritória arte..

Com a falta de carvão. O Egito Antigo estava morto há vinte e cinco séculos. lido com admiração a respeito dos feitos de engenharia de Suez. tomando cuidado com os excrementos dos pombos apinhados na trama de cabos acima. estereógrafos melodramáticos de obeliscos inclinados e miniaturas em mármore falso da esfinge sem nariz. a seção inferior do prédio fora aumentada de modo impreciso. como se correntes individuais de informação do Império tivessem aberto caminho através da sólida pedra. de modo que todas as coisas egípcias haviam se tornado moda parisiense. A fiação adensava-se numa descida. Fabricantes bordavam à Máquina toda uma enxurrada de pequenos deuses pagãos com cabeça de fera em cortinas. bules de chá com asas de falcão. mas Mallory viera a conhecê-lo bem o suficiente para não gostar dele. chegavam a cerca de seis metros . lembrando um grande nabo de pedra. muito para o desgosto de Mallory. As paredes. que deixou a nação inundada por broches de camafeu com imagem de escaravelho. ruínas que inspiraram exatamente o tipo de assombro estúpido que mais revoltava sua sensibilidade. A Grã-Bretanha também tinha sido tomada pela mania. Mallory atravessou o macadame quente e pegajoso da Horseferry Road. empilhadas feito lenha e vendidas às toneladas. As portas fortificadas da Agência. e ele havia desenvolvido especial aversão pelas conversinhas tolas sobre as pirâmides. A Agência Central de Estatística. e com os andares superiores formando um ápice enviesado de calcário. os franceses haviam abastecido suas escavadoras gigantes com múmias encharcadas de betume. A escavação francesa do Canal de Suez fora um trabalho heroico. vagamente piramidal na forma e excessivamente egíptica nos detalhes ornamentais. Mallory contemplava com tristeza a sede da Agência Central de Estatística. emolduradas por colunas com flores de lótus no alto e esfinges de bronze britanizadas. é claro. Todo o vasto edifício era dominado de cima a baixo por espessos fios negros de telégrafo. sustentavam uma floresta dispersa de exaustores giratórios com pás de hélice em irritante formato de asa de falcão. situava-se solidamente atarracada no centro administrativo de Westminster. Com a finalidade de ampliar espaços. ele ressentia-se do espaço usurpado pela egiptologia nos jornais geográficos. Ainda assim. Secando a nuca com um lenço. até postes telegráficos abarrotados como cordames num porto movimentado. partindo de canos e suportes. trespassadas por chaminés altaneiras. carpetes e mantas de carruagem. Ele tinha.

Lampiões ao estilo egípcio iluminavam a escuridão. Edward Mallory – “Mallory Leviatã”. ainda aborrecido pela reunião matinal com o Comitê de Indicações da Geographical Society. Mallory. de aspecto estranhamente militar – fez cuidadosa anotação do destino de Mallory. tomou a hipótese arborívora de Mallory como ataque pessoal e. Mallory conseguira o título de membro. O atendente – que talvez fosse uma espécie de policial. Foulke.de altura. Ele sentia o prejuízo à sua reputação. pois usava um moderno uniforme da Agência. já que Oliphant havia descrito em minúcias o plano de Foulke para que tal armadilha fosse bem-sucedida. Mallory notou com espanto que o homem usava botas . Portas menores. Os acasos da guerra entre eruditos. Ao virar a primeira esquina. descobriu um baixo-relevo de mármore que retratava a Praga das Rãs de Moisés. Foulke conseguira abrir caminho no Comitê de Indicações da Geographical. até mesmo mesquinho. como os jornais de um penny insistiam em chamá-lo – tinha sido feito passar por fanático. mas o maldito lugar não tinha janelas. de lixívia e óleo de linhaça. De algum modo – ele não sabia que manobras tortuosas tinham sido armadas nos bastidores. resmungando consigo mesmo. A efervescente agitação londrina ficara para trás agora. Mallory. usando roupa de sarja com botões de latão e um boné de mensageiro. – Passagem! – gritou o carroceiro. com isso. por fim. Ele mostrou seu cartão de identidade no balcão de visitantes. fez uma pausa e quase foi atropelado por um carrinho de aço com baralhos de cartões perfurados empilhados nas amuradas. prosaicas. adentrou a fria penumbra entre odores fracos. pensou Mallory. Admirado. estavam localizadas nos cantos. agradeceu ao homem muito bruscamente. a qual ele sempre incluíra entre suas histórias bíblicas favoritas. nunca pareceu favorecê-lo como faziam a Thomas Huxley. onde esperava identificar um desprezível alcoviteiro das pistas de corrida. As rixas de Huxley com as autoridades apenas fizeram distingui-lo como um mago dos debates. Pegou uma planta baixa do prédio sob o balcão e assinalou a rota sinuosa de Mallory em tinta vermelha. homens como Burton de Meca e Elliot do Congo. uma formalidade normalmente agradável havia se transformado em mais uma acusação pública para o catastrofismo radical. Mallory seguiu o mapa. sua chama bruxuleando alegremente em refletores de estanho polido em forma de leques. mas o complô estava bastante claro –. E isso na frente de dignos geógrafos de primeiro escalão. mas a questão ainda o irritava. com semblante carregado. cuja teoria aquática do brontossauro fora desprezada pelo museu de Huxley. Dr. mas penetrantes. enquanto Mallory foi reduzido a percorrer aquele mausoléu iluminado a gás.

na penumbra da iluminação a gás. Emitia um leve guincho sobre uma corrente de transmissão a óleo acionada por um motor que não podia ser visto. filhos e casa elegante. Até mesmo o ar do local molestava-o. arrastavam- se com lentidão. Enquanto ele observava. De longe. em suma. a coluna era uma chaminé. ele entrou num corredor com escritórios à esquerda e à direita. Mallory olhou para trás. Ele segurou-se atrás de uma coluna decorativa de ferro fundido. Ele conseguia ouvi-la emitindo o estrondo abafado e o murmúrio de um cano mal ajustado. mas vibravam com a corrente de vento constante. As rastejadoras eram mulheres rechonchudas. ali. e desapareceu ao virar a esquina. uma delas levantou-se com dificuldade e começou a limpar o teto cautelosamente com um esfregão esponjoso encaixado numa haste extensível. seco. Havia outros policiais de estranha aparência misturados a cavalheiros de aspecto grave da capital: advogados talvez. de gatinhas. vestidas do pescoço aos pés com roupas brancas imaculadas.. Eram faxineiras. O metal queimou-lhe as mãos. Homens políticos. Apesar da ornamentação profusa – flores de lótus –.com rodinhas. as roupas tinham o ar lúgubre de sudários. os pisos e paredes lustrosos e cintilantes. e os corredores mais movimentados. que lidavam apenas com o intangível. Mallory foi forçado a desviar de repente de um segundo mensageiro sobre rodas. guiando com destreza o carrinho pesado. Era provável que tudo aquilo fosse um grave erro. Ele nunca vira antes um . Escriturários de casaco branco passavam abaixados de porta em porta. desviando de jovens mensageiros deslizando de um lado para o outro com carrinhos de mão carregados de cartões. nas entranhas da pirâmide. Mallory passou por um corredor bloqueado por cavaletes listrados. homens cujo trabalho era adquirir e revender o conhecimento a respeito das atitudes e da influência do público.. No fim do corredor havia um gigantesco ventilador com armação de aço. Mallory começou a sentir-se um tanto confuso. Mallory ficou olhando. Após consultar seu mapa mais uma vez. robustos sapatos de amarrar encaixados em pequenos eixos e rodas de borracha sem raios. ele foi conduzido para dentro por um atendente uniformizado e levado a outro piso. Alguns metros adiante. impregnado de sabão e sem vida. procuradores ou agentes legislativos de grandes capitalistas. onde duas figuras aparentemente lunáticas. de meia-idade. Decerto havia meios melhores de desvendar o mistério do Dia do Derby do que sair à caça de cafetões com algum amigo burocrata de Oliphant. E embora fosse possível supor que tivessem esposa. O sujeito disparou de modo abrupto pelo corredor. os cabelos presos por toucados elásticos apertados. pareciam a Mallory vagamente fantasmagóricos ou eclesiásticos. O ar ali era seco e estático. As luzes a gás eram mais claras ali. Seguindo o mapa até um elevador.

Bruscamente. as paredes à altura do pescoço permeadas por cubículos revestidos de amianto. meros meses talvez. lenços de papel lubrificados e delicadas pinças com ponta de borracha. Ainda pior. – O funcionário apontou para uma tabuleta pendurada acima da porta de um escritório próximo. todos os monumentos de eras mais antigas afundariam. o mapa esquecido em suas mãos. cq-50. encarando-o com desconfiança por trás dos óculos. codificadores de cores de mica.. – A cq fica logo depois da Análise Não Linear. e o instante passou. fazendo-o borbulhar como uma poção de bruxa. As minhocas. diante de mesas inclinadas. Mallory cofiou a barba com força. metódico e pródigo em detalhes – sobre minhocas.. sempre invisivelmente ocupadas abaixo do chão.. naufragando ao leito de rocha primitivo. virando à sua direita – disse o funcionário. ficou suspenso. de modo que até os monolitos de sarsen afundavam aos poucos para dentro da argila. Mallory observou o trabalho familiar com a feliz sensação de ter a autoconfiança restabelecida. supôs. – É na Criminologia Quantitativa. suportes de pino.lugar tão completamente isento de sujeira ordinária. Mallory acenou com a cabeça.. até perturbarem o solo. – Senhor? Posso lhe ser útil? Mallory voltou a si com um sobressalto. de outra viagem labiríntica. Pôde sentir o olhar descrente do homem às suas costas. assépticos. – Estou procurando o Nível 5. A seção de cq era um favo com minúsculas divisões. entorpecido. na iminência da revelação. Aquelas paredes faziam-no lembrar-se de algo. Dali a anos. à sombra das folhagens. Mallory deu-se conta de que estivera murmurando novamente. ladeadas por cercas vivas.. Mallory seguiu em frente. Aqui é a Pesquisa de Deterrência. A cq-50 era o escritório do Subsecretário de Criminologia Quantitativa da . Darwin avaliara o processo em Stonehenge. examinando e manipulando cartões perfurados com uma variedade de aparelhos especializados de clacker: embaralhadores. inglório e frustrado como um espirro que não saiu. ofereceu o mapa. com Darwin cutucando o solo negro e úmido com a bengala. Mallory fitou-o também. Por um instante sublime.. numa tentativa de datar o antigo monumento. Lorde Darwin. Funcionários de luvas e avental encontravam-se sentados. senhor. lupas de joalheiro. Um funcionário de casaco branco estava diante dele. confuso. Veio-lhe uma visão de minhocas mexendo-se num frenesi catastrófico. Mallory e o grande sábio haviam caminhado pelas alamedas de Kent. Darwin falava sem parar – a seu modo interminável. Sobre minhocas.

ou melhor.Agência. mas tenho um pequeno conhecimento a respeito de clacking. Em seguida. Fiquei um tanto perdido em seus corredores. poderíamos muito bem dizer – disse Wakefield. mas extremamente inconstante. como uma poderosa locomotiva da mente. como a maioria dos clackers bem-sucedidos. – De fato? Tanta potência assim? – Tanto trabalho assim.. Mallory. Mallory guardou a charuteira. abriu a charuteira com um floreio. cujo nome. guias de clackers. manuais de códigos. Wakefield não tinha mesa. aborrecido. era Wakefield. Mallory balançou a cabeça. sua mesa abarcava e engolia a totalidade de seu escritório. Escrivaninhas brotavam de aberturas nas paredes num engenhoso sistema de articulações. com . hoje exaltada relíquia. estritamente contra os regulamentos. O sr. E para limpar as Máquinas da Agência. talvez apenas quarenta anos. abridores de carta. ainda tinha menos de trinta anos.. senhor. Quantos metros de engrenagem giram aqui? – Metros? Medimos nossas engrenagens em quilômetros. três mostradores de telégrafo cujos ponteiros dourados indicavam o alfabeto e tipógrafos perfurando fitas sem cessar. Pareceu a Mallory muito jovem para um homem em seu cargo. sujam o óleo das rodas dentadas. corrompem as engrenagens. – Fuma? – Não! Não. certo? – As cinzas! – disse Wakefield com firmeza. – Entendo. Mallory apresentou-se. sou paleontólogo. – Aceita um chá? Temos um excelente pão de ló. Wakefield crescera junto com o negócio das Máquinas. mas o progresso veloz das Máquinas abarcara toda uma geração em sua passagem. não preciso dizer-lhe que se trata de uma tarefa de Sísifo. Havia prateleiras de jornais. obrigado. Oliphant informara. – E as partículas pneumáticas! Flutuam pelo ar. – Certamente – murmurou Mallory. Mas não vejo nenhum perigo real num charuto. depois voltavam a desaparecer numa estrutura enigmática de armários especializados. Wakefield era um escocês pálido de cabelos claros e ralos. – Lamento minha demora. bem. Risco de incêndio. um elaborado relógio com múltiplos mostradores. catálogos. Os dentes superiores pronunciados comprimiam o lábio inferior. – Como deve saber.. A primeira Máquina de Babbage. dr.. Sem dúvida. Isso não era novidade para Wakefield. Não se podia afirmar com certeza que o olhar era evasivo. Tentou mudar o assunto. e ele trabalhava ali dentro. amplos arquivos embutidos de cartões.

dr. a Agência não passa de um recurso. à umidade. Até mesmo o bolo do nosso chá é preparado especialmente para a Agência. . Quilômetros de engrenagens! Quando imagino o que se poderia realizar com isso. ao calor. deixando claro que não havia intenção de pilhéria. que se agarra aos dentes da roda.. entende? Não conseguem compreender nossas necessidades. É como se fosse uma lei da natureza! – Talvez seja uma lei – disse Mallory – de algum reino da natureza que ainda não compreendemos. – Ah. sabe? Sempre dependendo de sua demanda. que estivera no Instituto recentemente.. mas a Câmara dos Comuns não sabe a diferença entre o verdadeiro clacking e uma simples manivela de fogão de corda.. O tempo úmido engrossa o óleo da engrenagem. – Wakefield suspirou. senhor! A mesma velha história. os cartões perfurados aderem nos carregadores.um estalo comedido da mão em luva branca. Mallory – disse Wakefield. estava atualizado e determinado a mostrá-lo. que atrai todo tipo de sujeira! As engrenagens colam e entopem. sendo também um homem da ciência. – Parece realmente lamentável. sim – disse Wakefield. Não é minha intenção ser desrespeitoso. com sua fala arrastada –.. – Ouviu falar dos novos compiladores de Cambridge? Distribuem o desgaste da engrenagem muito mais uniformemente. Mallory puxou a barba. mas mantida em rédeas curtas para tudo. – Já experimentaram o Purificador de Vinagre da Colgate? – perguntou Mallory. que expande a placa de bronze. Queria eu que nós tivéssemos o ritmo sossegado dos acadêmicos! Mimam os altos funcionários em Cambridge. temos de realizar e repetir as práticas mais exaustivas até empenarmos as alavancas decimais. – Para o Parlamento e para a polícia. Mallory. estou certo de que retomaria o fôlego bem rápido. Financiamentos. uma Máquina em rotação pode até mesmo criar uma pequena carga de Leyden. a perspectiva é de tirar o fôlego. – Ah.. – Em clacking. – O calor é acumulado com o atrito da rotação. que com certeza não lhe é estranha. Wakefield ignorou-o. a demanda sempre se expande para superar a capacidade. mas aqui.. para reduzir o risco de migalhas! Algo nas palavras “risco de migalhas” soou cômico a Mallory. – Descobrimos que compensa todas as precauções no que concerne à limpeza. no serviço público. mas a expressão de Wakefield era muito sóbria. E no tempo seco. – Confiam muito nele em Cambridge. o bom e velho Instituto de Analítica Maquinal.

é claro. – Mas um assunto um tanto trivial para atrair os interesses tão especializados de Oliphant. senhor. posso garantir-lhe o mais estrito sigilo. é inteiramente possível. O elemento humano é nosso único impedimento real. entende? Uma vez que somente um analista capacitado pode transformar dados brutos de Máquina em conhecimento aproveitável. Oliphant de fato sugeriu que o senhor poderia ajudar-me a identificar um criminoso solto e sua cúmplice. – Semana passada. o sr. Não é a primeira vez que o sr. despachei-os por meio de um mensageiro especial. Oliphant. Oliphant ou seus superiores apelam para os nossos recursos. O que pode contar-me. – Parece-me que seus projetos em.. sim – Wakefield acenou positivamente com a cabeça. hmmm.. – Não precisa ter receio de falar francamente. – Uma pena que as mais altas aspirações de alguém sejam subjugadas por questões práticas do cotidiano. estudos sociais. quando comparada à dimensão modesta do atual financiamento da Agência para pessoal. não? Mallory não disse nada. e assim por diante. Wakefield sorriu educadamente e olhou para o relógio. Uma agressão e uma ameaça de morte contra um sábio notável são questões graves. Ele teria lhe contado seus planos visionários para nossas Máquinas? – Apenas muito brevemente – disse Mallory. Ficamos sempre satisfeitos em obsequiar cavalheiros tão peculiarmente distintos quanto o senhor Oliphant e o senhor. E a ambiciosa dimensão de tal esforço. senhor? Mallory pensou bem e rápido. Naturalmente dedicamos uma atenção fraternal ao telégrafo. claro. – Com certeza não quero aumentar a carga já premente de suas obrigações – interrompeu Mallory –. para ser franco. – E fizemos tudo o que podíamos pelo senhor. – Wakefield sacou um lápis afiado como uma agulha e um bloco de papel quadriculado. Após completar dois de seus formulários de requerimento em triplicata. – Inclinou-se para a frente. Soou-me como uma fantasia utópica. Qualquer que fosse a estupidez cometida por Lady Ada – não importando o ato de desespero ou temeridade que a tivesse levado às garras do trapaceiro e sua prostituta – ele não imaginava que pudesse ser remediada com o nome “Ada Byron” indo parar naquele bloco de notas .. é claro. como funcionário juramentado da Coroa. mas o sr. – Em teoria. ao registro de créditos e coisas assim. Não costumo ter a oportunidade de discutir a filosofia das Máquinas. Para monitorar todas as operações em Piccadilly. Nada do que disser deixará os limites destas paredes. – Então. Exceto com meu autoproclamado amigo.. Wakefield estava sério. exigiriam mais potência de Máquina do que dispomos na Grã-Bretanha. E. senhor – respondeu Wakefield –.

Wakefield virou uma rolha de borracha articulada e gritou ao tubo acústico. – Wakefield bateu nos dentes com a borracha do lápis. – Claro. Se é tudo o que precisa de nossa parte. – Exatamente o meu sentimento. Mas o sr. e perdoe-me a insinuação. Pedirei a um funcionário que o leve até a biblioteca e às Máquinas. estaremos pisando em solo mais firme. Os olhos de Wakefield já estavam vidrados diante da premência de outros assuntos. claro. é muito prudente de sua parte identificar o tratante. Oliphant sugeriu que eu estivesse correndo perigo real. – Conhece o caso? – Morto a facadas. estou certo de que podemos ser úteis. – O senhor é muito gentil – disse Mallory. mas o sr. – Foi-um-prazer-conhecê-lo. – O sr. Nada que de fato mereça o privilégio de sua atenção! Conforme lhe disse em minha nota ao senhor. Mal conhecia o homem. Mallory concordou. – Não vejo motivo. – Está à sua disposição. pois acredito que não haja muito a dizer sobre o assunto. deparei-me com um apostador bêbado no Derby. garanto-lhe. – Jogadores espreitando e matando cientistas? – disse Wakefield. o cientista de dinossauros? – Rudwick – disse Mallory. talvez? – De modo algum. – Professor Fenwick. passou uma impressão bastante negativa dos cientistas. Pensei muito pouco a respeito. – Este é o sr. não aprovaria. Portanto Mallory simulou uma confissão relutante. E não tenho nenhuma dívida do tipo. O senhor e Rudwick eram amigos íntimos? Companheiros de apostas. – Estou numa posição desvantajosa. que uma grande dívida de jogo esteja envolvida.. Fez uma reverência mecânica. apareceu. um cockney. talvez. A menos. em estranhas circunstâncias. Oliphant pareceu ver uma conexão entre os incidentes. E o caso ainda não foi solucionado. Wakefield. Num covil de ratos. elevando-a para obter aparência elegantemente intelectual.. francamente. Uma vez que tivermos o número do agressor. pois estava claramente perdendo o interesse. Oliphant não acredita em acidentes – disse Wakefield. Por favor. de luvas e avental. O rapaz havia raspado três centímetros de couro cabeludo acima da testa. sr. senhor. E Oliphant. – A entrevista terminara.quadriculado. Teve-se a sensação de que Rudwick desonrou seus colegas. – Saiu em todos os jornais. Parecia ter sido convencido pelo subterfúgio de Mallory. e o oportunista deu um show com a faca. mas algum tempo se . Lembrou-me que um de meus colegas foi assassinado recentemente. Tobias – disse Wakefield. Um jovem funcionário. avise-se-pudermos-ser-de-mais-alguma-serventia.

fazendo com que o elevador descesse às entranhas da Agência. é o que chamamos de gorjeta – disse Mallory. Tobias. . Mallory pôs a mão no bolso da calça. Mallory saiu do elevador depois de Tobias. onde um engenhoso mostrador indicava que estava em outro andar. pegando a moeda.passara desde que o funcionário barbeara-se. Ele deu de ombros. – Para onde estamos indo. Os saltos dos sapatos do funcionário estavam tão gastos que era possível ver as unhas. Tobias? – Máquinas. A porta do elevador abriu-se. Retirou um guinéu. Mais do que a moeda. com afetada jovialidade. – E o que há de errado com o patrão? – Esperava que você me dissesse. essa ficha. Se estivesse no lugar dele. em tom suave. – Você parece estar precisando – disse Mallory. Mallory. Mallory seguiu-o para fora do labirinto de cubículos. forçando um sorriso. – Tome. Eu certamente gostaria de dar uma olhada. Contanto que o senhor seja correto e sutil. – Este lugar é território estranho. – Não tenho más intenções – disse Mallory. – Isso. cujas extremidades eram revestidas de feltro grosso. – Devia saber que não é uma boa ideia oferecer gratificações a funcionários públicos. – O equivalente a dez dias de trabalho? Posso até estar. notando o estranho bamboleio no seu andar. e as meias baratas de algodão pendiam sobre os tornozelos. Tobias escondeu a moeda no avental. Em tais circunstâncias. pois tinha agora uma faixa espinhosa de pelos nascendo na fronte. passou por um suporte de calhas de transporte de correspondências e atravessou portas de vaivém. Mas ele fez uma busca do seu número hoje. – Wakey não é tão ruim. – Para garantir a presteza. meu garoto. Dirigiu-lhe um olhar taciturno e penetrante por trás dos óculos. eu não agiria de outro modo. – É mesmo? – disse Mallory. No andar de baixo. sentiu o canivete e as chaves. – Deve ser uma leitura interessante. e o atendente empurrou a alavanca. entende? Tobias examinou a moeda como se nunca tivesse visto o perfil de Albert. Tem amigos bastante tagarelas. até o corredor. Ele e Mallory entraram no meio de uma pequena multidão. chefe. o comentário em si pareceu persuadir Tobias. – Suponho que a informação possa chegar a mãos indevidas – admitiu o rapaz. sr. de fato. considero sensato ter um guia nativo. sr. senhor. – E o que é isso? – perguntou Tobias. e tirou uma pilha com vinte centímetros de altura. Pararam diante do elevador.

Clackers de jalecos brancos. Mas vejo que passou tudo para configuração de Máquina. Estes cartões que está vendo. Dois homens. Tinham o cabelo envolto por toucas brancas franzidas.. parecidas com relógios. a boca e o nariz escondidos sob quadrados de gaze branca. Mallory pensou que as paredes certamente deveriam ser revestidas de espelhos. – Gosta do seu trabalho. cada qual sobre blocos acolchoados de trinta centímetros de espessura. já passaram por um trabalho de classificação. estavam com a atenção voltada para o trabalho na biblioteca.. Era como um truque num parque de diversões. – Eram esses seus pedidos. Tobias? – O salário não é muito. Tobias observou os majestosos painéis de engrenagens com absoluta indiferença. numa cadeira giratória de bordo sobre rodas de borracha. – Bem. bem vestidos e calados. sr. do tamanho de vagões ferroviários postos de pé. pausando para passar o dedo enluvado num pequeno recipiente de cera de abelha. Retirou um par deles. tantas que. Mas tem suas vantagens. senhor? – Preenchi questionários em papel. A luz a gás acaba com a vista. Estavam debruçados sobre um grande álbum quadrado de placas coloridas. destinado a iludir a visão – as gigantescas Máquinas idênticas. por favor – disse Tobias. enquanto o jovem funcionário selecionava um arquivo de cartões. E sem cometer erros! Puxe uma alavanca errada e surge toda a diferença entre um clérigo e um incendiário. estava repleto de correias de polias giratórias. – Mas tivemos que encaminhá-los para a Antropometria Criminal... e a quarta de vidro esmaltado. Tobias sentou-se diante de Mallory e folheou os cartões. as engrenagens menores extraindo energia de imensos volantes raiados sobre colunas de ferro soqueteadas. Muitos foram os pobres inocentes que se arruinaram assim. como um elegante salão de baile.– Claro que poderia custar o emprego do sujeito. construções de latão intricadamente interligado. caminhavam pelas galerias imaculadas. – Levantou-se de . O teto caiado.. apequenados diante de suas máquinas. Mallory sentou-se diante de uma mesa da biblioteca. a princípio. caso fosse pego. espremendo os olhos. entrando numa antessala barulhenta com três das paredes tomadas por prateleiras e arquivos de cartões. Atrás do vidro via-se um vasto corredor de Máquinas altíssimas. O tique-taque e o chiado do mecanismo monstruoso abafaram suas palavras. – O dia todo olhando para pequenos buracos. – Deu de ombros novamente e empurrou mais uma porta. – Sente-se. a cq recebeu os pedidos – disse Tobias. de dez metros de altura..

. – Tobias arrancou os cartões. – Por que só o lado esquerdo. – Acha que estou brincando – disse Tobias num tom sombrio. pé esquerdo. Louco feito um roedor dançarino. Precisam de muitos de nós. e poderia ser útil. centenas. colocou-os numa fenda e puxou um cordão de campainha. marcas de nascença. Mallory acenou com a cabeça. Comprimento e largura da orelha esquerda. cabelos. se odeia tanto? – Todos odeiam. recostando- se na cadeira. distância. sim. senhor? – Penso que sim – Mallory limitou-se a dizer. Deformidades. coloração da pele. – Idade. antebraço esquerdo e dedo indicador esquerdo. com um olhar distraído de desprezo. ao ver-nos. um clacker chegou para retirá-los. posso perguntar? – Menos afetado por trabalho físico – disse Tobias distraidamente. Mas deve ser útil. acabam com as vistas e os nervos. funcionários vestidos como um monte de pombos brancos. – Quanto tempo? – Sempre demora o dobro do tempo que imagina – disse o jovem. um guia para clackers. Comparou um dos cartões de Mallory a algum modelo contido no caderno. – O homem tinha uma protuberância na lateral da testa – disse Mallory. Ouviu-se um tinido agudo. – Apontou o polegar discretamente para o teto. O pessoal da Antropometria criminal é apaixonado por crânios.súbito e buscou um caderno de folhas removíveis. – Mesmo que dobre sua estimativa. – Preencheu os formulários de forma completa. – Aposto que o senhor pensa. senhor Tobias? – Não o suficiente para enlouquecer. talvez três. que somos por dentro todos . agora. – Claro que é bom trabalhar aqui. – Tobias enfiou as mãos nos bolsos do avental. – Forneci minhas melhores estimativas – disse Mallory. porque entramos e saímos. – Esperamos que girem completamente – disse o rapaz. claro.. ah. Mas a maior parte do trabalho demanda pouca gente. verificando seu caderno. – Altura do suspeito – murmurou o rapaz –. – Raro. – Trabalha aqui há muito tempo. Pode-se ficar totalmente louco de olhar para esses buraquinhos.. dezenas. olhos. – E agora? – perguntou Mallory.. os que têm o mínimo de juízo – disse Tobias. Cicatrizes. A demora era inevitável. se trabalha nos andares de cima e é importante. – Coisa que não sou. Alguma lei natural. Dois anos deste trabalho. – Por que trabalha aqui. Num instante. Mallory deu uma risadinha. – Plagiocefalia frontal – disse o rapaz. e por isso chamou-me a atenção.

A maioria que sabe fazer isso consegue trabalhos muito melhores. – Já até contrataram mulheres algumas vezes. os tipos desajustados. senhor. Sabe.. – Pressão da circunstância – disse Tobias. um elefante réptil. com melhores parâmetros da antropometria – disse Tobias. tinham números de identidade abaixo. de modo que todos os homens pareciam ter uma baba preta na boca e sujeira nos cantos dos olhos. um cordial aperto de mão. Eu lhe disse que a questão do crânio ajudaria. o famoso cientista! – Mallory ficou muito vermelho. – É da natureza dos negócios. Tinha os dentes na ponta da tromba. Uma audiência privada com Lorde Galton.. – Já viu o chamado Leviatã Terrestre? – Num museu – disse Tobias.iguais! Mas não somos. Tobias ficou de pé num pulo. a Agência fica com os... – Parece-me uma estranha política – disse Mallory. Já trabalhou para o governo de Sua Majestade. – Está com sorte. Todos pareciam irmãos... alguma estranha subespécie humana dos desencaminhados e desiludidos. A fera comia árvores. – Tobias deu um pequeno sorriso. soletrar e somar tão bem quanto é preciso aqui. – Poderíamos ter reduzidos as opções. Tobias. Suspeito encontrado. Costureiras que perderam o emprego para máquinas fiadeiras. senhor. Muito boas para trabalhos detalhados. Ingleses de cabelos escuros e ares de velhacos. Sequer um pedaço de papel assinado. da Comissão. – Mas não tenha pressa. e abandonaram-no para se defender sozinho quando não precisavam mais dele. as ex- costureiras. sr. de modo algum. Mallory? – De certo modo – disse Mallory. – O senhor é o Mallory do Leviatã – disse Tobias –. Os retratos não tinham nome. Acreditou em seu discurso patriótico. – Rapaz esperto. e examine com . suas promessas de prestígio nos bastidores.. bem. se está disposta a procurar. Era uma coleção de retratos de Máquina impressos em pontilhismo. Trabalhara para a Comissão de Livre Comércio da Royal Society. como dizem..” E foi isso. uma expressão de “profundo lamento” por não poder haver “manifesto reconhecimento de seus nobres préstimos. Pegou um panfleto de papel sanfonado numa bandeja da parede. O governo as emprega para ler e perfurar cartões. – Não esperava por dezenas deles – disse Mallory. – O brontossauro. – Que tipo de trabalho do governo? – disse Tobias. – Tobias estendeu o papel sobre a mesa diante de Mallory. senhor. não há muitos na Grã- Bretanha que sabem ler e escrever. Então. Uma campainha tocou. As unidades de imagem de pequenos quadrados das impressões de Máquina estavam num tamanho que distorcia apenas levemente os rostos.

pagaram impostos ou foram presas. Chumaços de algodão no nariz e truques semelhantes. Lembrava-se do rosto do oportunista com grande clareza. talvez? – Tenho certeza de que era britânico. como sabe. Tenho certeza de que ele está aqui. a saliva ensanguentada no dente fendido.atenção. senhor. muitos com a cabeça inquietantemente deformada.. Mas nenhum dos retratos turvos e taciturnos combinava com a lembrança. por que tanto tempo? – Dr. senhor. senhor. um desafio letal que poderia transformar sua vida. – Houve um silêncio pesado. – Existe alguma razão para que não tenham o registro desse homem? – Talvez seu homem não tenha ficha criminal – disse Tobias. e um salafrário. tão vívida quanto as formas articuladas da espinha da fera. – Isso seria adulteração de arquivo oficial. Mas não o vejo aqui. Lembrava-se da face desfigurada pela fúria homicida. – Diga-me. – Não acredito. senhor. senhor. para verificar na população em geral. arduamente ansioso por ajudar. Todas as pessoas que já se ofereceram para um trabalho. Existe outra possibilidade? Tobias sentou-se. – Tobias procurava justificar-se.. Gente criminosa costuma inchar as bochechas em fotografias criminais. Um delito grave que leva à expatriação. Mallory enxergara através das protuberâncias monótonas da rocha e distinguiu o brilho imanente de sua própria glória. Dessa mesma maneira ele vira. Estava armado e era perigoso. e exigiria uma autorização especial dos homens lá de cima. está aqui. os arquivos são invioláveis. na face do oportunista. Mas isso levaria semanas com as Máquinas girando. Se é que entende a que . Mallory. de fora da Agência. – No entanto? – insistiu Mallory. – Bem. É o que mais nos preocupa aqui. derrotado. Mallory olhou para as fileiras carrancudas de vigaristas numerados. Tenho certeza de que nenhum dos funcionários faria algo assim. – É estrangeiro. – É tudo o que tenho. quando viu seu grande prêmio sobressair do xisto em Wyoming. temos todas as pessoas da Grã-Bretanha em nossos registros. então. Num longo momento de revelação. Se ele estiver em nossos arquivos. A menos que queira mudar sua descrição. homens que trabalham pela segurança confidencial da área. Mas há oficiais de altos cargos. – Talvez seja um retrato ruim. sua fama vindoura. – Poderíamos passar o cartão novamente. A visão estava gravada para sempre na mente. – Alguém pode ter removido o retrato dele? Tobias pareceu chocado.

– É velho – disse o rapaz. – Por que não está na escola. Somos servidores da Coroa aqui.. é claro... assim como alguns desatinos de iniciantes. Mallory fingiu sossegada indiferença. – Ouvi dizer que..? – Bem.? – Mais alguém. – Acredito que não – disse Mallory.. Talvez tenhamos mais sorte. Enquanto aguardavam os giros da Máquina. – Devia ver . sim. a iluminação aqui não é tão boa quanto poderia ser. Quando um assunto me interessa. – Gasto cada xelim extra com exibições – disse o rapaz. às vezes. sr. senhor. demonstrando muita atenção. sem piedade. Sua expressão era de aborrecimento. – Deixe-me ligar o gás – disse o rapaz. – Uma pergunta inútil – disse Mallory.. ãh.. A família não aprova.. até mesmo ao limite do pedantismo. – Não sou nenhum cientista mesmo. encolhendo os ombros. – Bem poucos cavalheiros. – Talvez tenha ouvido falar do que chamam de “o Gabinete Especial”? Ou a Agência Especial da polícia da Bow Street. – Tentou o Exame Nacional de Mérito? – Não ganhei a bolsa.. mas as mais inteligentes e estéticas. é? Dizem que está no sangue. O Palladium aluga-nos seu cinétropo durante as primeiras horas da manhã. Cinetropia! – Trabalho de teatro. – Realmente amo Máquinas – disse Tobias. Se Albert em pessoa fosse comandar nosso Ministro de Estatística.. Tobias? Um rapaz com sua inteligência deve ansiar por desafios maiores. a Família Real. – Teve de esforçar-se para lembrar-se do nome. É para a arte que vivo. Olhou de relance para os outros homens na sala e baixou a voz. – Não – disse Mallory. É hábito de estudiosos. exploro os aspectos específicos. – Mallory observou as imagens mais uma vez. – E quanto ao primeiro-ministro? Lorde Byron? Tobias não respondeu. – Deixe-me voltar minha atenção à mulher. – Fascinante – disse Mallory. – Trabalho moroso. Tobias afundou-se no assento. então? – Não posso pagar. entende. Queria aprender clacking. Não passei em cálculo. Podem-se ver coisas bastante surpreendentes.. em cargos de grande confiança e discrição – disse Tobias. afinal. – Tobias estava aborrecido. Mas não tem nenhuma relevância agora.cavalheiros estou me referindo. levantando-se. – Ouvi dizer que John Keats é muito bom. – Sem dúvida a falha é minha.. – Temos um pequeno clube de entusiastas. – Esqueça que a fiz... – Não esses monstros desajeitados.

estritamente falando. De um lado. cujo maxilar protuberante certamente amargurara-lhe a vida. o palestrante era um político ianque desonesto. Perfurou um cartão novo com o número de identidade usando uma pequena prensa de mogno. uma prostituta de cabelos emaranhados como um ninho de rato e olhos turvos de gim. Michael Radley. Ainda. no inverno passado. Aqui. os rostos femininos. – Tobias baixou a voz. e a campainha tocou. Examinou as mulheres com muita atenção. uma criatura cockney. De uma turnê de palestras. poderiam jogar o palestrante fora e passar as imagens em silêncio. uma garota irlandesa de olhar meigo. insolência taciturna. Trata-se de um truque comum entre clackers. – Ruivas – disse. com o apelo calculado de inocência ferida. Mallory bateu no papel e ergueu a cabeça. ler os . – Palestras com cinétropos são muito edificantes.Sandys. Um resumo impresso. senhor. Mallory interrompeu a conversa. E o olhar paralisado e enganador de uma inglesa com a nuca comprimida por tempo excessivo no suporte do daguerreótipo. Vi uma apresentação dele aqui em Londres. Por mim. Ou Hughes.. senhor. Tobias demonstrou um pouco de desconforto.. ou até mesmo a seu secretário. senhor.. mas não ousou tomar a liberdade. Voltou com outro papel sanfonado. Ali. prenderam-no com o choque do reconhecimento. e tirou do casaco o caderno. Mallory grunhiu. com o olhar mais selvagem que o de uma mulher cheyenne. O rapaz levantou-se como um raio. Limpou cuidadosamente as partículas de papel dos furos e jogou-as num cesto de tampa articulada. o resto é bastante simples. – Quase tudo. Do outro. de rosto redondo. provocação. – Aqui está ela! Tobias arregalou os olhos.. – Isso me dirá tudo sobre ela? – disse Mallory. com um americano. poderia pagar a um magistrado comum. ganharam vida para Mallory. – Para dizer-lhe a verdade. para ter esta informação por alguns xelins. e deu um sorriso encabulado. derrapando com um ranger dos sapatos baratos. de algum modo. Os olhos. depois recolocou o cartão na bandeja da parede. acabadas. – E eu poderia levar esses documentos comigo para exame posterior? – Não. senhor! Deixe-me pegar o número. confidencialmente. Ou Etty! E há um clacker de Manchester cujo trabalho é esplêndido. – Ah. querendo voltar a falar. uma vez que não é funcionário da área de. Eram mulheres abatidas. Diferentemente dos homens. Uma vez que tenha o número da pessoa. – Essa é peculiar. com o olhar apático do abatimento e da ruína marcado de modo indelével nas pequenas unidades pretas de sua feminilidade estampada.

O que fizemos hoje foi feito no nome do sr. Era uma quantia considerável. senhor – aquiesceu Tobias. Havia um endereço de Whitechapel. antes de entregá-lo. Mallory considerou de singular interesse a notícia. e é punida da mesma maneira quando descoberta. senhor. e sempre estamos abaixo do esperado para ambos. Tobias remexeu o espaço sob o avental. em letra gótica de Máquina grotescamente rebuscada. portanto não haverá problemas. e um pouco reservado.. – Ah. – Tive de parar de pagar o aluguel. encontrou uma carteira de couro besuntada. – Não. sim? – disse Mallory. .. Chamam-no de “mexer os pauzinhos” ou “ter a faca e o queijo nas mãos”. CINETROPIA E OBJETOS DE COLECIONADOR PARA TEATRO. senhor. Deixe-me dar- lhe meu cartão. Ilmo.. Tobias pareceu relutante. – Alguém que me admirasse por minha generosidade. – Digamos que eu tenha um bom amigo aqui na Agência – disse Mallory. j. o senhor é um cavalheiro. não é lei alguma que nos impede. j. Um investimento propositado. Trata-se de fraude. – Digamos que eu pedisse meu próprio arquivo. senhor. nela enfiou o cartão e o dinheiro de Mallory e retirou um pedaço de cartolina brilhante com uma dobra na ponta. ou um lorde. e toda solicitação precisa ter um fiador. Tobias? – disse Mallory.. Mallory retirou um de seus cartes-de-visite Maull & Polyblank da carteira. sim.. como roubo de crédito ou fraude de ações e investimentos. Mas seu amigo teria de forjar o nome de algum fiador e correr o risco por tal impostura. TOBIAS. Sr. – Não é questão simples. secretários de tribunal e funcionários assemelhados teriam de preencher formulários e apresentar boas justificativas para a busca. Wakefield. – Há excelente material vindo de Montmartre hoje em dia. Os magistrados. sr. – Ignore o número de telégrafo abaixo – disse Tobias. – Muito esclarecedor – disse Mallory. eram os dizeres do cartão. Tal busca consome tempo de Máquina e dinheiro. mas o simples trabalho de realizá-la.. que não concedemos facilmente. – Tem algum interesse em cinetropia francesa. Mas se um membro do parlamento fizesse tal solicitação. Dobrou uma nota de cinco libras e prendeu-a atrás do cartão. Não está nos arquivos policiais comuns. – Bem.arquivos de Máquinas de pessoas do mundo do crime. Fraude de Máquina. Cada giro é registrado. não um criminoso. – Vejo que sempre há vantagens em conversar com um homem técnico que conhece de fato o assunto. – Protocolos legais.

– Aguardo o recebimento de alguns dados de um colega francês. – Soube que os melhores ordinateurs franceses utilizam novo padrão de cartão. A campainha tocou mais uma vez. senhor! É de conhecimento comum que o Grande Napoléon sofreu um infortúnio terrível no começo deste ano – garantiu-lhe Tobias –. – Cartões menores de matéria artificial. mediante pagamento. O rapaz levantou-se lentamente. senhor. mas ainda questão de sigilo entre estudiosos. – Acredito que as pessoas pensem agora. São capazes de chutar metade de uma Máquina para fora das bases! – Tobias abriu grande sorriso diante da possibilidade. com uma alegria que deixou Mallory deveras inquieto. Mas as opiniões voltaram-se contra ele. e a grande Máquina nunca mais girou adequadamente desde então. igualmente zeloso. Ano passado houve grande tendência para o padrão francês nos círculos de clacking londrinos. que passa com muita agilidade pelos compiladores. – De modo algum. sim. conheço. reverberando pelo teto caiado. – Os franceses têm alguns problemas com luditas. Os dois zelosos cavalheiros. – Sim. fecharam os álbuns e saíram. – Isso não seria a inveja profissional britânica falando mais alto. – Há quem alegue sabotagem! Conhece o termo francês sabotage? Vem de sabots. prontamente. Prefiro examiná-los em particular. como os que tivemos anos atrás! Duas notas curtas soaram num apito a vapor. envolvendo uma controvérsia científica. senhor – disse Tobias. Tobias acenou positivamente com a cabeça. . senhor. – Verdade? – disse Mallory. – Sabe onde um sujeito pode alugar um desses compiladores franceses aqui em Londres? – Para traduzir dados de cartões franceses. arrumou uma cadeira. – O padrão do Napoléon – disse Tobias. Tal velocidade é bastante conveniente para o trabalho com cines. principalmente com os percalços do Grande Napoléon. entende. – Baixou a voz. aos quais juntara-se um terceiro. chamando Tobias à bandeja da parede. encantado em poder mostrar seu conhecimento. senhor? – Sim – disse Mallory. espero. seguiu até o fim da mesa. que os franceses precipitaram-se com seu vasto projeto napoleônico e deram um passo técnico errado! Mallory cofiou a barba. Um tanto abstrusa. um sujeito que tem um compilador francês. os sapatos de madeira usados por trabalhadores franceses. – Em outras palavras. e que deixaria o senhor fazer o que quisesse com ele. em momento conveniente. fingindo interesse apenas casual.

que dava conta principalmente do assassinato do marido. molhando novamente a toalha. o Fortificante Hidropático do Dr. a geada espessa na pradaria marrom e batida. proeminente comerciante de algodão de Liverpool. um afrodisíaco . – Acho que nossa resposta nos aguarda – disse Mallory. Fedia a tabaco amanhecido também. Mallory agachara-se ao lado da tépida caldeira da fortaleza a vapor da expedição. a barba coberta com o gelo da respiração e os dedos com bolhas da pá queimados pelo frio. – Obrigado. senhor.examinou os álbuns. senhor. residiu em Liverpool. atiçando a escassa fogueira de esterco de búfalo.. o qual a sra. nossa suspeita é uma tal de Florence Bartlett. Aqueles dois toques da buzina. verificando a poeira inexistente e colocou-os na prateleira. – Bem. Mallory fizera o juramento solene de nunca mais maldizer o calor do verão. Bartlett extraíra de papel mata-moscas e administrara durante período de semanas em medicamento patenteado. Gove. decerto! Quem ficará sabendo? – A Antropometria Criminal ficará sabendo! Esta sala é deles. Dormira sobre os lençóis com uma toalha turca molhada. Mallory levantou-se impaciente e foi até a bandeja. Gove era. deixe-me fazê-lo! – Luvas. e não há nada que odeiem mais do que manchas de dedos desnudos! – Tobias virou-se com um feixe de documentos. dobrando o feixe de papel sanfonado. A noite passou sem uma única brisa. de suas noites no Haymarket. que os homens comiam no café da manhã. na verdade. Numa manhã ártica de Wyoming.. nascida Russel. na primavera de 1853. dura como uma barra de ferro. estendida sobre o corpo nu. não sem luvas! Por favor. sabia que o Dr. Agora o colchão estava encharcado e todo o quarto parecia quente e abafado como uma estufa. Nesse momento de profundo sofrimento. Tobias deu um curto aceno com a cabeça. e sua cama parecia um fétido ensopado. pois Mallory fumara meia dúzia de seus melhores charutos cubanos enquanto lia a ficha criminal de Florence Russel Bartlett. O modus operandi fora envenenamento por arsênico. Mas nunca esperou um calor tão opressivo e abominável em Londres. de modo a colocá-lo com mais facilidade no colete tecido em padrão xadrez de Ada. – Muito grato pelo seu auxílio.. tentando degelar uma tira de charque. de costas para Mallory. almoço e jantar. e lavara-se de hora em hora. não – gritou Tobias –. – Não.. mas já excedi o meu horário. – Muito provavelmente. Tobias – disse Mallory. sabe. Mallory.

. a sra. o que não era surpresa. Estava novamente suando em bicas. Murphy” desaparecera da prisão. supôs Mallory. . como ácido misturado ao fedor gorduroso de um matadouro. As doenças alegadas apresentaram sintomas muito semelhantes aos do envenenamento por arsênico. Mallory sabia que sentira tal cheiro antes. Mallory passou uma esponja com água da torneira no rosto. atacar alguém com ácido sulfúrico com a intenção de desfigurar ou mutilar.. A vítima.. também estavam registradas. abortadeira. A umidade obstinada fervia sobre os pisos de mármore tal pântano invisível. alguns tomates grelhados. foi detida e julgada por crime de vitriolage. O desolado recepcionista saudou-o com grande demonstração de cortesia. um pedaço de presunto e um melão gélido ajudaram-no a restabelecer-se um pouco. Era penetrante. A comida ali era muito boa.. Uma certa “Florence Murphy”. um arenque defumado. As doenças fatais da mãe de Bartlett.. com os respectivos atestados de óbito citando úlcera perfurada e cólera-morbo. Mas não conseguia identificar a lembrança. mas o ar estava carregado do cheiro forte. Por um momento. Mallory assinou o vale e saiu para buscar suas correspondências. descobriu que o estranho verão da cidade dominara o Palácio de Paleontologia. A Agência Central de Estatística suspeitou que ela teria fugido para a França. Nunca tendo sido formalmente acusada por tais mortes. em 1851. deixado pela faxina da manhã. Aproximou-se do balcão para pedir as correspondências. Bartlett escapara da prisão ao dominar o carcereiro com uma pistola Derringer escondida. Até mesmo as palmeiras ao pé da escadaria pareciam jurássicas. Marie Lemoine. esposa de proeminente comerciante de seda de Lyon. num calor daqueles. era uma suposta rival. o mau cheiro desaparecera. embora o arenque cheirasse um pouco a estragado. durante a primeira semana de seu julgamento como vitrioleuse. porque alguém havia anexado traduções de relatórios policiais franceses de 1854 a respeito de um julgamento por crime passionel em tribunais parisienses. Caminhou penosamente até a sala de jantar. o próprio Palácio fedia: peixe podre ou algo muito parecido. Ele havia sido injusto com o arenque. supostamente refugiada americana. Do lado de fora da sala de jantar. enquanto amarrava os sapatos. Ao sair do quarto. pescoço e axilas. Havia perfume de sabonete no saguão da frente. mas a ficha não fazia menção ao fato.. Mas a “sra. Mallory conquistara a lealdade dos funcionários com generosas gorjetas. em 1852. pensando sombriamente em vitríolos. onde quatro ovos cozidos frios.patenteado. úmido e distante de algo terrível e aparentemente morto. e do irmão do marido. café gelado. e de todos os seguintes registros policiais da França.

Mallory estava estupefato. para uma abastada família de Sussex. as revistas: as de lombada dourada. geralmente caracterizadas por caligrafia temperamental com triplos sublinhados (!!!) e mechas de cabelo presas em fitas. paleontólogos e geólogos catastrofistas oferecendo coautoria em trabalhos eruditos e contas de lojistas. camareiras. – Pequena demais. senhor. O fato amargurava-o. pedidos de entrevistas. demonstrando conhecimento da situação. isso em termos tão . expressavam afetuosa admiração feminina. Transações da Sociedade Real. surpreso. revistas e pacotes. e agora os velhacos maquinadores enxameavam-se sobre ele feito piolhos. Convites para fazer apresentações. um carte-de-visite assinado. Tinha aversão a secretários. – Se eu puder tomar a liberdade. Outras enviavam esboços tímidos de lagartos comuns. Levou a cesta pesada até um canto sossegado da biblioteca e começou a separar-lhe o conteúdo. as cartas com pedidos. Escreviam aos montes. Em seguida. E algumas poucas. Annales Scientifiques de l’École dês Ordinateurs. Sua própria mãe trabalhara uma vez na área de serviços. senhor. dr. que pareciam especialmente chorosas e sinceras. Essa história de assinar uma série de revistas acadêmicas tinha ido longe demais. Cometera o erro de responder a algumas. e convidavam-no para um chá caso estivesse algum dia em Sheffield ou Nottingham. as cartas. diria que talvez fosse bom contratar um secretário particular. Jornal de Sistemática Dinâmica. Depois as cartas em caligrafia feminina. como Huxley chamava as remetentes. Mallory soltou um grunhido. criados. As incubadoras da história natural – as “colhedoras de flores”. requisitando seu conhecimento em taxonomia de répteis. a todo o maldito trabalho de servir.. se ele pudesse fazer o favor. e editores felizes era meio caminho andado para se publicar um artigo.. Herpetologia de Todas as Nações. – Suponho que terei de ler tudo isso. embora ele achasse que deixava os editores felizes. A segunda pilha era de cartas de trabalho. a maioria das vezes apenas para solicitar seu autógrafo e. – É o preço da fama. porventura acompanhada de versos.. – Decerto! – disse Mallory.. – Piora a cada dia! O funcionário deu um aceno de cabeça. mordomos. – Nada em minha caixa? – disse Mallory. – O recepcionista curvou-se para erguer uma grande cesta de arame abarrotada até a borda de envelopes. Primeiro. Outras expressavam delicada admiração. nos velhos tempos antes dos Rads. ou Brighton. Mallory separou-as em pilhas. com o que parecia ser um interessante artigo sobre os percalços mecânicos do Grande Napoléon. Primeiro. Mallory.

Escrevo para você as palavras ditadas por nossa Mãe. Mallory esfregou a barba suada. que pediu a nossa Madeline que esperasse por ele. Mallory parou de súbito. Madeline passara por mais dificuldades na vida que Ernestina. bem. Ruth Mallory (senhorita) Então. Um presente de casamento que comprovasse que ela havia colocado um ponto final nos tempos desditosos.ousados a ponto de ser quase desconcertante. e saiu do Palácio. “Tancredo”! Mas nossa ótima notícia é que nosso querido Brian voltou de Bombaim. Deveria ter algo de bom para si.. E quando Ruthie se casasse.. Disraeli pois seu romance favorito é dele. Cantavam monotonamente uma de suas intoleráveis cantilenas homiléticas que dizia algo a respeito de uma “estrada de ferro para os céus”. mas numa serimônia civil com o Juíz de Paz sr. encontrava-se na calçada diante do Palácio. o tenente Jerry Rawlings. A querida Ruthie. Agatha pede se pode fazer o favor de pedir um autógrafo do sr. e nossa Mãe quer que você saiba particularmente que não será na Igreja. e Mallory notara em sua última visita que a provação afiara a língua e o temperamento de Madeline. também da Artilharia de Sussex.. Logo não haveria mais ninguém para cuidar dos velhos a não ser a pequena Ruthie. Querido Ned. Ela recebera o anel de compromisso quando tinha dezoito anos. ao lado da escrivaninha abarrotada. Abriu a carta de imediato. e agora estava com mais de vinte e dois. blasfêmia ou fósseis. mais preocupante ainda quando apalavrado com um soldado num país tropical e infestado como a Índia. ele pensaria na questão no momento devido. Agora vão se casar. Mas é claro que a caçula da família já estava com dezessete anos. Disraeli na Museu de Família. A canção não parecia ter muito a ver com Evolução. neste dia 17 de junho! E trouxe com ele nosso querido futuro cunhado. finalmente com seu homem. mas a Mãe me obrigou. Agatha e Dorothy. pelo que Mallory pôde ouvir. Um grupo de quakers. em segurança conosco. Quase jogara para o lado uma carta de sua irmã.. Houvera notável torrente de tais missivas depois que seu glamoroso retrato apareceu no Semanário Doméstico da Mulher Inglesa.. pois suas mãos estão muito ruins hoje. mas talvez a mera insipidez de seus protestos inúteis parecia cansar até mesmo os próprios quakers. Mallory passou por eles . O Pai agradece-lhe muito a esplêndida manta de Londres. e é claro que ela esperou. homens e mulheres. quatro anos foi um longo noivado. deixando o cesto no balcão da recepção. Ruth. Pobre criatura. O linimento francês tem ajudado minhas mãos (da Mãe) muito bem.. empilhou as correspondências no chão. Witherspoon na Prefeitura de Lewes. decidiu Mallory. Com todo nosso carinho. Todos sentimos muito a sua falta em Lewes. Um longo noivado é algo cruel a se pedir a uma garota jovem e vivaz. a pequena Madeline. Mallory levou o cesto de cartas para o quarto. não obistante sabemos que está ocupado c/ seus importantes afazeres da Royal Society! Lemos em voz alta todas as suas aventuras americanas escritas pelo sr. não obistante mais os joelhos que as mãos. Você estará presente no dia 29 quando o Pai entregará uma de suas últimas filhas – eu não queria escrever isso. tornando-a quase um motivo de sofrimento para todos na casa.

Em vez disso. Mallory desceu a Gloucester Road até a esquina da Cromwell. próximo à esquina da Ashburn Mews. o estranho. – Piccadilly – ordenou. Nenhuma menção à real natureza do problema. Química. Não havia um raio de sol.. pressionou um lenço contra o rosto e afundou abaixo do nível da janela. por seu auxílio à ciência. Uma vez a caminho. Em seus vastos planos de reconstrução. Começou a tossir. mas eram inegáveis a percepção e a justiça para com os estudiosos envolvidos nos trabalhos mais nobres da humanidade. Economia.rapidamente.. ou tivesse acabado de sair do metropolitano e não retomado ainda a respiração. mas aquele fedor era claramente de outra ordem. mas notou então um cabriolé aguardando bem próximo. Brompton Road. aparentemente desocupado. Mallory virou-se. mas trazia um odor funéreo. Fazia calor. O condutor bateu no velho cavalo suado e seguiram para o leste pela Cromwell Road. Thurloe Place. Ninguém queria caminhar sob aquela temperatura. Comparado ao calor funesto das ruas. o governo reservara essas áreas de Kesington e Brompton a uma vasta convergência de museus e palácios da Royal Society. Ainda havia um passageiro lá dentro. uma pequena multidão subiu quase correndo. o calor tornou-se menos opressivo. seis a cada hora. no meio-fio. o ar estava frio. com um cartaz que dizia PEDIMOS DESCULPAS PELO INCONVENIENTE. carrancuda. Acenou para o condutor e foi até a porta. Mallory esperou educadamente o homem desembarcar. Cromwell era o favorito dos Rads. Os londrinos estavam habituados a cheiros estranhos nos metropolitanos. com leve brisa à janela. como algo que tivesse apodrecido num pote de vidro fechado. ignorando os panfletos oferecidos. e Mallory animou-se.. Mallory atravessou a rua e tomou um cabriolé no Bailey’s. Mallory foi à bilheteria. Alguns poderiam reclamar das inovações dos Radicais. esquivando-se de um mau cheiro de tal virulência que o deteve onde estava. E havia ônibus também. Cromwell Road. como se quisesse chover mas tivesse perdido o jeito. os edifícios passaram pela janela com a sóbria majestade das cúpulas e colunatas. Talvez estivesse doente. Quando se preparava para descer a escada.. mas o ar estava mortalmente parado e o céu de nuvens altas tinha uma aparência plúmbea. estava fechada. ímpar. Irritado. Um por um. mas estavam todos lotados até as amuradas. Física. Havia uma nova e bela estátua equestre de Cromwell no cruzamento. refletiu Mallory. Havia cabriolés puxados a cavalo no hotel Bailey. Mallory tentou o metropolitano da Gloucester Road. Certamente. parecendo ofendido com o olhar atento de Mallory. um calor incomum e brutal. Preparou-se para atravessar a rua. os . do outro lado da Courtfield Road.

Toda uma geração passara desde a morte de Wellington. Em sua avaliação amadurecida. sustentava uma grande população de cupidos alados e damas com drapejados e tochas. os “mal-entendidos” das Guerras Napoleônicas poderiam ter sido causados pelo tirano Wellington. Um monumento vistoso. o assassino de seu próprio povo inquieto. Embora Londres não tivesse monumentos do Duque de Wellington. Mas na Inglaterra moderna foi aviltado como um estúpido gabola. Mallory vira o duque de Wellington: passara pela rua em sua carruagem dourada. a França Imperial. E o menino Mallory ficara deveras impressionado. Os Rads jamais esqueceram seu ódio pelo antigo e pavoroso inimigo. mas pela mistura apavorada de medo e prazer que o próprio pai sentiu com a passagem do duque. em meio ao ploc-ploc de cascos e ao tinido da escolta de cavalaria armada. Mantinha em particular sua própria opinião sobre o tirano há muito falecido. Mas Mallory chorara em segredo. Certa vez. o Duque de Wellington foi a vítima antiquada e ignorante de uma revolta que estava além de sua própria compreensão. Mallory. um segundo rei João. Estava . com seu profuso esqueleto de escoras e cavilhas. o último do antigo regime da Inglaterra – ainda era sentido por Mallory sempre que ele via a capital. seu pai comemorara com intensa alegria a notícia da morte de Wellington numa atrocidade envolvendo uma bomba. o grande conquistador de Waterloo fora exaltado ali como um verdadeiro salvador da nação britânica. quando tinha seis anos. pensou Mallory. Quiçá. Continuou seguindo pela Knightsbridge e passando pela Hyde Park Corner até o Arco de Napoleão. elegante. um presente de Luís Napoleão para celebrar a Entente Anglo-Francesa. em Lewes. Em sua primeira viagem a Londres. mas o primeiro-ministro Byron ainda difamava com frequência a memória do duque com a temível acidez de sua eloquência. e de acordo com a tendência mais recente. o primeiro ano dos Tempos Tumultuosos. um fantasma não esconjurado. não se convencia por mera injúria retórica. atingido por uma tristeza dolorosa por uma razão da qual não podia mais se lembrar. ainda que fosse homem fiel do Partido Radical. por vezes parecia a Mallory que memórias tácitas do homem ainda assombravam a cidade. O grande arco de ferro. Alguns meses depois. pensou Mallory ironicamente. Sua elegante solidez parecia negar a existência de qualquer traço de discórdia entre a Grã-Bretanha e sua aliada mais leal. Wellington fora enobrecido e ocupara o cargo mais alto do país. Um leve travo daquela visita a Londres na infância – em 1831. austero e silencioso. Não apenas pelo famoso rosto de nariz aquilino entre golas altas e suíças.palácios recompensavam o pródigo custo de sua construção pelo menos uma dezena de vezes.

lei marcial. passara por greves. abertas lutas de classe e anarquia quase total. Caso. ainda assim. Mallory pensou em parar o cabriolé e ver se Oliphant estava em casa.. de modo vulgar. como soldado. E a Inglaterra que Wellington conhecera e administrara mal. Parecia que os condutores estavam se aproveitando de todos.mais para Carlos i do que para rei João. tumultos. diferentemente da maioria dos elegantes cortesãos. que Wellington se equivocara completamente ao interpretar o teor revolucionário da era vindoura na indústria e na ciência. quem sabe surpreendendo-o em alguma intriga secreta. Mallory não encontrara nada que se igualasse a fazer compras. As máquinas de crédito de Londres processavam os rendimentos extravagantes de apostadores com a mesma prontidão com que recebiam os trocados das . Ademais. Fora apenas como político civil. um dia fora simplesmente Arthur Wellesley. de origem irlandesa um tanto modesta. Mallory folheou a agenda de endereços e encontrou o carte- de-visite de Laurence Oliphant. e primeiro- ministro reacionário. Whitehorse Street e Half-Moon Street. com o chofer. passando pelas Down Street. manifestos e manifestações. Mas o próprio Wellington não tinha sangue azul.. em meio a uma sequência de joalherias e lojas exclusivas. seu poder e com a própria vida. O gigantesco zigurate com estrutura de ferro do Fortnum & Mason espreitava do outro lado da rua. uma agradável demonstração de poder de sua recém-adquirida riqueza. Ele morava na Half-Moon Street. Wellington nesciamente patrocinara os interesses dos decadentes de sangue azul do Tory. A ideia de interromper de modo ousado o dia de Oliphant. um grupo destinado a ser varrido do poder pela ascendente classe média e pelos sábios meritocratas. Talvez tentasse encontrar Oliphant depois de cumprir sua tarefa. Mallory parou o carro na entrada da Galeria Burlington. O cabriolé subiu a Piccadilly. mas o segredo de sua origem estava seguro com ele. Wellington exibia muito louvável maestria de sua arte. Oliphant levantasse da cama antes das dez. deveria haver um monumento em algum lugar. a Inglaterra da infância de Mallory. com sua ousada visão racional de uma nova ordem abrangente. poderia ter um balde de gelo em casa e quiçá uma gota de algo para abrir os poros. massacres. O chofer cobrou um valor incrivelmente excessivo. pensou Mallory. Ganhara o dinheiro numa bravata quase insana. mas Mallory não tomou conhecimento por estar excepcionalmente bem-humorado. era agradável a Mallory. Mas ainda assim. Apenas o Partido Industrial Radical. outro homem saltara do cabriolé e discutia. Mas havia coisas mais importantes a fazer. Pagara tal falta de visão com sua honra. parecia a Mallory que. salvara a Inglaterra do abismo. Um pouco adiante. na Piccadilly.

Então. Uma situação incômoda. a parte externa causasse mais admiração aos desentendidos em mecânica. acompanhado de uma colher de sal de prata ornada por trifólios. O louvável tema era igualmente ilustrado por uma série de sete cenas esculpidas que giravam a cada semana no mecanismo oculto dentro da base do relógio. Mallory descobriu um presente que pareceu-lhe perfeitamente apropriado. destinado à montagem de um termômetro em vidro veneziano? Este saleiro de mesa em ébano. entre as lojas com janelas salientes da famosa galeria. naturalmente. Walker & Co. O preço era nada menos que catorze guinéus. embora. o que seria desta vez? Este imenso vaso de ferro com base octogonal e oito telas de treliça pendendo diante do pedestal canelado. suando a gola alta engomada estilo regência.viúvas. O balconista. protegendo-as em caso de viagens. era adornado por um grupo de grandes figuras douradas com mantos muito leves. Mallory pagou o relógio em dinheiro. o dia da semana e as fases da lua. como sempre acontecia quando se é jovem. conferindo singular leveza e elegância ao objeto como um todo? Este suporte entalhado em madeira de buxo com dossel esculpido. Um belo relógio como esse poderia adornar um lar ao longo de gerações. Mallory sabia que nunca poderia fazer seu galardão entrar num ônibus a vapor lotado. admirando o progresso feito pelo Tempo e pela Ciência na civilização e na felicidade do povo britânico. O suporte. que também mostrava a data. velhacos que saltavam como macacos nos tetos . Parecia que um item de tal raridade artística não poderia ser determinado em simples libra-xelins-e-pence. um senhor de idade sobranceiro. O pensamento grosseiramente pragmático trouxe a Mallory a ideia de que o casal estaria mais bem servido por vibrante punhado de catorze guinéus. Mas o dinheiro logo desapareceria. folhas de carvalho. sob veludo bordô.. Era um relógio de corda para oito dias que batia os quartos e as horas em belos tons de sino de catedral. adornado por colunas e painéis em baixo-relevo. recusando a oferta de crédito com prazo de um ano para pagar. O carrilhão. estando Londres assombrada por jovens ladrões conhecidos como “rebocadores”. do papier-mâché mais refinado com vidro azul-turquesa embutido. que representavam uma Bretanha jovem e decididamente encantadora. demonstrou o sistema de cunhas de cortiça que firmavam as engrenagens. haste envolta em espiral e o monograma à sua escolha? Dentro da J. mas de extremo bom gosto. era notável amostra da arte de precisão britânica. forrado com cortiça no contorno da peça. O relógio era acompanhado de tranqueta e estojo com alça. Teria de tomar outro cabriolé e amarrar o estojo do relógio na capota. estabelecimento pequeno.

que estivera sentado aparentemente muito à vontade na beira de um vaso de cimento. – Senhor não é pedir esmola minha intenção pois fui criado pela melhor das mães e mendigar não é minha ocupação eu não saberia como seguir tal ocupação mesmo se tal fosse meu vergonhoso desejo pois logo morreria de pobreza mas senhor imploro-lhe em nome da caridade que me permita a honra de agir como seu carregador para levar essa caixa que lhe pesa por qualquer preço que sua benevolência possa determinar para meus serviços. lentamente. Então girou sobre os calcanhares agitados. pois prosseguia. sem mancar. Em seguida. onde passavam a pilhagem de mão em mão até os pertences da mala da vítima irem parar em dezenas de lojas de objetos usados. munidos de punhais com lâminas serrilhadas para cortar as tiras de couro que seguravam bagagens. Havia detrás dele um homem alto. e afastou-se ligeiro. O homem maltrapilho interrompeu a fala bruscamente. Arregalou os olhos. Mallory virou-se no mesmo instante e olhou para trás. com um fraque estilo Albert curto e calças lisas. depois limpou de leve os olhos. passando pelo último portão da Galeria Burlington. no mesmo tom insinuante e invariável. os ombros caídos em teatral desespero.. recheados de jornal. como a de uma costureira cortando a linha com os dentes. O homem maltrapilho deu três cautelosos passos para trás. Tocou a aba do chapéu. No exato momento em que Mallory olhou para ele. Tossiu. onde o policial de guarda saudou-o com alegria. ensaiou um sorriso patético e começou a falar a Mallory num só fôlego. impetuoso. Do lado de fora. nos jardins de Burlington. – Peço desculpas senhor mas se perdoa o abuso de ser abordado assim em via pública por alguém quase reduzido a trapos embora não tenha sido sempre assim e sem nenhuma culpa de minha parte mas por problemas de saúde na família e muitos sofrimentos não merecidos seria grande obséquio saber a hora. os ladrões já teriam sumido completamente impunes nas profundezas de algum antro miserável. mantendo Mallory entre ele e o que quer que tenha visto. levantou-se de súbito. A hora? Poderia esse homem. olhando acima do ombro de Mallory.. num gesto súbito e teatral. comprimida. à maneira de um cavalheiro. rumo ao passeio abarrotado da Cork Street. o homem levou um lenço ao rosto. Quando a carruagem parasse. de alguma forma. saber que Mallory acabara de adquirir um grande relógio? Mas o homem maltrapilho não prestou atenção alguma à confusão de Mallory. delgado. a boca assumindo uma expressão de contenção repentina.de carruagens em movimento. O rapaz maltrapilho saiu mancando na direção de Mallory. um jovem de chapéu amassado e casaco roto e seboso. Mallory carregou a compra. deu a impressão . de nariz de batata e longas suíças.

pensou Mallory. o cavalheiro da tosse era também o homem descortês que discutira com o chofer a respeito do preço da passagem. apenas caminhou a passos lentos.de ter se lembrado de algo que havia esquecido. Mallory começou a andar mais rápido. Fora insensato ao virar-se e olhar de imediato. Virou-se e seguiu na direção da Galeria Burlington. a mente excitada pela súbita compreensão. Virou à direita na Old Bond Street. O homem permaneceu bem distante por um momento. com o instinto de perseguição. Seu rosto era como o de qualquer pessoa da Inglaterra. um assassino com uma Derringer no bolso daquela sobrecasaca ao estilo príncipe Albert. um pequeno guindaste a vapor movia-se resoluto entre dois plátanos fendidos. prevendo o súbito impacto da bala do assassino. O Cavalheiro da Tosse ainda estava com ele. que não parecia ter nada de extraordinário. em Piccadilly. o cavalheiro da tosse. com a mente dando voltas e um frio na espinha. e observou a rua atrás de si. na Bruton Street à esquerda. Um bandido contratado. Mallory apanhou o estojo do relógio com aperto firme e andou discretamente pelos Jardins de Burlington. o estojo batendo dolorosamente contra a perna. conduzindo sua grande bola de ferro fundido na direção de um frontispício georgiano alquebrado. Na Berkeley Square. com as costeletas um pouco grisalhas e uma sobrecasaca escura. Mallory reconhecera-o. um pouco mais frio no olhar. Talvez tivesse trinta e cinco anos. Não se virou para olhar de novo. Os pelos da nuca de Mallory eriçaram-se. Colocou a caixa no chão. talvez um pouco mais pesado. Viu o Cavalheiro da Tosse reaparecer quase ao mesmo tempo em que olhou. que não quis deixar o cabriolé. Estava no seu rasto. O próprio Mallory demonstrou súbito e falso interesse nos fechos do estojo do relógio. Seguira Mallory por todo o caminho desde Kensington. Além disso. Ergueu o chapéu para uma bela dama e fingiu olhar para seus tornozelos depois que passou. costurada à Máquina. Uma multidão de espectadores . o estojo do relógio tornando-se mais desairoso a cada passo. Mallory virou mais uma esquina. o esguicho úmido e ardente da corrosão. o homem que vira diante da estação do metropolitano em Kensington. braceletes e tiaras de gala para damas. Sentia nervosismo. curvou-se e olhou os pedaços de metal brilhante. na melhor simulação de ócio que conseguia. O lenço do tratante denunciara-o. Fez uma pausa diante das prateleiras de veludo de uma joalheria com camafeus. Ou um frasco de vitríolo. Não olhara diretamente para Mallory sequer uma vez. cuidando para manter grupos de consumidores londrinos entre si e Mallory. Talvez o homem fosse um aliado do oportunista e de sua mulher. As lojas ali não tinham vidros em ângulo conveniente. com uma boca mais rígida sob o nariz de batata. no vidro brilhante com barras de ferro. Talvez tenha-se entregado ao perseguidor.

O Cavalheiro da Tosse estava poucos metros atrás. Ou talvez pudesse saltar. haviam montado. Seu artifício falhara. e ansioso. Ocorreu a Mallory voltar e entrar no Único Lacaio. Mulheres de lenço na cabeça e vendedores de frutas cuspindo tabaco. virar e examinar a rua. tijolos esfacelados do outro. procurando o estojo do relógio. O sujeito tinha a firme vantagem do terreno e todos os ardis sorrateiros do criminoso londrino. Mallory passou pela fileira de ostras malcheirosas e legumes murchos. A mão doía-lhe. tábuas empoeiradas de um lado. ergueu-se. Passou por ele sem dizer palavra. Espiou o Cavalheiro da Tosse com um olhar enviesado. Casas altivas com brasões modernos suspensos em ornamentos de ferro.. talvez. Ao fim do tabique.. em um ônibus de saída. Mallory espiou o lado de dentro. Mas não parecia louco de ódio. nem pronto para matar. Mallory tocou o chapéu. um pouco esbaforido. e com o rosto vermelho do forte calor. Aguardava o próximo movimento de Mallory. num esforço desesperado. com o pedaço de um pilar . Apoiou-o de pé. Atrás dele surgiu um gurney suntuoso. desceu a Charles Street. carregando o pesado relógio. e sentiu um instante de segurança. Mas Mallory viu pouca esperança em tais expedientes. estava ficando fatigado. atrás da barricada de cavaletes. saindo da cocheira. Ergueu o estojo acima da cabeça e colocou-o delicadamente sobre o muro de tijolos musguentos. com segurança. Viçosas ervas daninhas brotavam entre pedras antigas umedecidas de urina.. Mallory escapou agilmente pela extensão da praça. entre as fileiras de casas do século XVIII à esquerda e à direita. um acidente no planejamento deixara uma passagem estreita. Seguiu caminhando com dificuldade. ajustando as saias. no último instante. uma loja de usados em frente à cerca. um reboque e duas dragas devastavam progressivamente as ruínas do Mercado de Shepherd. por ora. olhava com aparente interesse para a entrada de uma taverna chamada “Sou o Único Lacaio em Serviço”. com as tábuas rachadas e perfuradas por espectadores ávidos. olhava entre as pernas dos espectadores. dando a Mallory a chance de parar. tomando o cuidado de não olhar para ele.apreciava o espetáculo. Ele juntou-se ao povo. aproveitando-se da cobertura das árvores. tendo perdido Mallory de vista no meio da multidão. Tapumes cercavam o local. mas não ludibriado. Em vez disso. Ali estava a chance de despistar o velhaco. antes de cócoras. quando uma mulher encarquilhada. deslocados de suas posições costumeiras. se conseguisse fazer entrar consigo o precioso estojo. Na entrada de Queens Way. Mallory sentiu-se como um pesado bisão de Wyoming. O sujeito parecia bastante sinistro. Do outro lado da praça.. em meio ao cheiro acre de gesso antigo. onde poderia despistar o Cavalheiro da Tosse na multidão.

Encostou as costas rentes na parede de tábuas. como a de uma calçadeira. Sentiu que poderia desmaiar a qualquer momento. – Quem é você? – Socorro – o homem grasnou debilmente. Não era uma arma. O sangue escorreu pelo pescoço de Mallory junto a uma onda de tontura nauseante. como se tivesse sido feita em torno de uma espiral de ferro. Mallory deu-lhe um bote e socou-o na boca do estômago com toda a sua força. Mallory brandiu o repulsivo artefato. que dava a impressão de poder quebrar ossos com facilidade. com as costeletas cobertas de sujeira. dissonante. sentiu que estava caindo. O que veio em sua mão era algo como uma longa cobra lubrificada. Mallory agarrou a parte de trás do fraque do miserável e atirou-o com força contra os tijolos. arrastando-se até ficar agachado. Um porrete com cabo de couro trançado e grossa haste de borracha indiana achatada na extremidade até a ponta inchada.. com um cassetete de couro em formato de salsicha. e ele tombou de joelhos. – Assassino! Mallory arrastou o homem por três metros ao longo da passagem. – Não se faça de tolo comigo. afundado até quase as sobrancelhas. O homem ricocheteou. – O fraque estava aberto. Tinha a flexibilidade de molas de aço. – Responda às minhas perguntas! Um raio molhado estourou na parte de trás da cabeça de Mallory.deteriorado. pelo pescoço e pela lapela. um ruído grave. O chapéu do homem voou. Veio um segundo golpe. – Me solta. Ele quase perdeu os sentidos. depois colocou o chapéu do lado. e Mallory acertou-o com um golpe curto de esquerda na lateral do maxilar.. xingando. um grito que nunca ouvira da própria garganta. O Cavalheiro da Tosse curvou-se diante dele.. Usava um chapéu-coco redondo. O segundo homem era forte e pequeno. mas segurou-se nas pedras imundas com os braços frouxos e pesados. salafrário! Por que está me seguindo? Quem o pagou? Qual o seu nome? O homem agarrou-se desesperadamente ao pulso de Mallory. conseguiu atingir-lhe a canela. Mallory avistou o couro marrom de um coldre de ombro e foi de imediato pegar a arma que estava ali. Mallory ergueu-o com as duas mãos. O Cavalheiro da Tosse apareceu.. e o instinto animal . O homem dobrou-se com um cuspe e um chiado. Ele rolou para trás e rosnou. Chutou seu agressor. Estava diante das pernas estendidas do Cavalheiro da Tosse e fez um talho ameaçador em Mallory. mas resvalou em seu ombro. O homem pulou para trás. Ergueu-se com um tranco. sem firmeza. desabou abruptamente e ficou arfando. sem controle. Mallory perdera o porrete.

– Em que posso ajudá-lo. Oliphant vivia em uma mansão georgiana. ergueu a voz e gritou: – Sr. Cambaleou por um pequeno trecho da rua e virou uma esquina. Uma bacia com água. vendo a placa esmaltada de ferro fundido no canto. conduziu-o ao salão.. Mallory buscou no bolso sua caderneta de campo.dizia que. – Virou-se. O piso térreo tinha elaborado corrimão de ferro e janela de sacada com cortinas.. considerando estar ele bêbado ou doente. E toalhas limpas. Oliphant! Mallory entrou cambaleando no saguão repleto de ladrilhos elegantes e rodapés encerados. O tempo passou. vestia trajes formais. o criado. Mallory espiou através das lágrimas o prédio do outro lado da rua. encarou-os com débil provocação. Uma névoa vermelha redemoinhou feito óleo diante de sua vista. Quando chegou ao endereço. Com dedos trêmulos. Apesar da hora. a boca obstruída pela náusea. Segurando o braço de Mallory. A cabeça parecia chacoalhar e ranger. . com pequeníssima gravata borboleta e crisântemo na lapela. inteiramente inapropriado para um homem com dores. atordoado. Ainda estava lá. pingando sangue. minha nossa. desapareceu. olhou cautelosamente para os dois lados da rua. dividida para inquilinos modernos. encontrou o cartão de Oliphant. ofegante. não mais trançava os pés. A terrível vertigem no crânio mudara para doloroso latejo. Virou-se e saiu do beco com pernas bambas. acabariam com ele. como se as junções do crânio tivessem sido rompidas. De algum modo pressentiu que se os bastardos sentissem o cheiro de seu sangue. como uma bênção. onde este sentou-se com cuidado num banco de piano. Oliphant foi até a porta aberta.? Oh. as mãos apoiadas nos joelhos. Half-Moon Street. então a fechou e trancou com segurança. Mallory bateu violentamente com o batetor em forma de cabeça de elefante. se caísse ali. Um criado abriu a porta. o toque familiar da capa de couro resistente. peça conhaque ao cozinheiro. – Bligh! Vá agora mesmo para a cozinha. Oliphant apareceu quase de imediato. Outros londrinos passaram por ele com olhar de indiferença. Era mesmo um lugar agradavelmente civilizado. Um homem e uma mulher respeitáveis passaram por ele. olhando-o com vago desgosto. Half-Moon Street. Oliphant pareceu compreender a situação com um único olhar aguçado. curiosidade. certamente seria espancado até a morte. Com o nariz escorrendo. Olhou Mallory de cima a baixo. que oferecia uma serena vista do Green Park. onde Oliphant morava. leve reprovação. na outra extremidade da Half-Moon. Bligh. Escorou-se contra um muro.

– Bligh. – O tom de Oliphant era ironicamente animado. Deixei-o num beco perto do Shepherd Market. – E quanto aos hóspedes. por favor. se necessário. – Está muito ruim? Não posso ver. com toalhas e uma bacia. e saiu. Ele e Oliphant compartilhavam um ar de respeito afável. Mas diga-lhes que não devem matar ninguém. Oliphant umedeceu a ponta de uma toalha na bacia e colocou-se atrás de Mallory. – O que devo dizer-lhes. senhor – disse Bligh. A pele está rompida. . Emboscada covarde. como se o homem fosse empregado de confiança da família. não devem considerar isso um reflexo de suas habilidades. Bligh? Tenho certeza de que apreciariam o passeio. Os pulsos peludos eram espessos como os de um carvoeiro. – É grave? – Já vi pior. sem barba. presente de casamento. senhor – disse Bligh. E se não encontrarem o relógio do dr. – Bobagem. mas está coagulando agora. – Oliphant ofereceu a Mallory dois dedos de excelente conhaque num copo de cristal. Faça piada a respeito. – Entendo. – Sim. Tente não criar excessivo espetáculo público. Os cafajestes já devem tê-lo roubado! Bligh reapareceu. Era mais baixo e mais velho que seu patrão. – Só vi o segundo quando já era tarde demais. – Então. senhor? Oliphant pareceu considerar a situação. – Sinto muito por dar trabalho – murmurou Mallory. é claro. tocando de leve a base do crânio de Mallory. – Por que não leva consigo os convidados. e você está com um hematoma considerável. – Mas estragou muito seu casaco. Oliphant suspirou. – Endireitou-se de repente. – Droga! Meu relógio! Um relógio. pescoço grosso e olhos castanhos protuberantes. – Espreitaram-me por toda a Piccadilly – disse Mallory. impassível. – Meu relógio – repetiu Mallory. acha que poderia localizar a propriedade perdida deste cavalheiro? Existe um grau de perigo. Sangrou copiosamente. É para isso que estamos aqui. Mallory. pelo que vejo. – Um golpe com instrumento sem corte. foi agredido – disse Oliphant. senhor? – Diga-lhes a verdade. é claro! Conte que um amigo da família foi agredido por agentes estrangeiros. infelizmente. mas não permita que pensem ter perdido o prestígio. – Fique totalmente parado. – Atacado pelas costas. Saia com eles pelos fundos.

claro – disse Oliphant –. cerrou a mandíbula e ficou olhando para o papel de parede floral azul durante o tempo em que Oliphant perfurava com destreza a pele rasgada. – E agora? Devo ir à polícia? – É sua prerrogativa. – Entendo. indiscrição muito grave.. nada mal – disse Oliphant. pelos interesses da nação britânica. deixando-o com a dor. – Certas questões como Lady Ada Byron? Oliphant franziu o cenho.. – Londres inteira é uma exalação hoje. – Estavam espreitando-me como a um animal! Não eram bandidos comuns. O que exatamente me resta dizer à polícia. Com o conhaque. acho eu. embora eu confie que seus instintos patrióticos levem-no a não mencionar certas questões. então? Oliphant sorriu levemente. ver as asneiras de sua Comissão expostas publicamente. sinto dizer. Em seguida. – Entendo. Mallory pegou o casaco do banco de piano. – Por favor. – Assim como eu – disse Mallory. – Você estava certo e eu estava errado – declarou. Não confio em médicos. caso considere necessário. satisfeito.. – Especular imoderadamente a respeito da filha do primeiro-ministro seria. Este calor bestial. – Texanos? – Londrinos. vá em frente. tirou o casaco. e é bem provável que escape sem uma febre. Deu mais um trago do conhaque de Oliphant enquanto o homem foi buscar agulha e linha. – Mercenários – Oliphant tocou com a toalha o conteúdo da bacia. estou certo disso. a sensação de garganta seca provocada pelo choque esvaiu- se de Mallory. – Por mais agradável que me fosse. – Você precisa de um ou dois pontos. . sinto dizer que o assunto como um todo deve permanecer confidencial. – Basta permanecer longe de exalações insalubres. – Bem – disse Oliphant. mas muito menos atordoado e desolado. nos ermos do interior. e você? Não sabem o que dizem. suturando-a. E quanto a meu contrabando de armas para a Comissão de Livre Comércio da Royal Society? Minha suposição infundada é a de que os escândalos da Comissão diferem dos de Ada Byron.. – Ao contrário dos diplomatas ou dos catastrofistas? – O gracioso sorriso de Oliphant impossibilitou Mallory de ofender-se. Devo chamar um médico? Ou confia em mim para fazê-lo? Já trabalhei um pouco com cirurgia. tinham a intenção de ferir-me. pessoalmente. Um sujeito alto de costeletas e um gordinho de chapéu-coco. A gola estava opaca com as manchas de sangue. – Hmmm.

Agora. não? Imagino que ele tenha observado toda a minha atividade na Agência de Estatística e correu de imediato a contar-lhe tudo. – Graças a Deus! – Encontramo-lo em cima de um muro. mas verá que o inspetor Fraser. – Dissera-lhe que deveria fazer uso de proteção especial. observar as atividades de suas próprias Máquinas todo santo dia – disse Oliphant. – Que diabo – murmurou Mallory. e não faz ideia do quanto ficarei aliviado. senhor – disse Bligh. ou senhor Fraser. O Departamento Especial de fato. – Bligh mostrou uma cartola pisada. por razões desconhecidas. por obséquio... – Meu relógio! – exclamou Mallory. é extremamente capaz. Então Bligh reapareceu. como prefere ser chamado em público. – Florence Bartlett – disse Oliphant. erguendo uma sobrancelha para Mallory. portanto não pode dizê-lo alto demais. – E também havia isto. Suponho que os bandidos o tenham ocultado ali para levarem-no posteriormente. escorado num pedaço de tijolo. – Como você. – Quase sem um arranhão.. – Que levou um golpe na cabeça de um bandido anônimo. algo raspando. – Isso é ridículo – Mallory não se conteve. Sei que estará a salvo nas mãos dele. calmamente. Mas não parece ávido para compartilhar suas informações. – Belo trabalho. por mais tedioso que seja. – É provável . – E. O chapéu moído do Cavalheiro da Tosse fora deliberadamente molhado numa poça de urina de cavalo. do Departamento Especial da Bow Street. Ouviram-se passos. – É do tratante – declarou Mallory. – Sinto por não ter encontrado seu chapéu. estalos.. Wakefield. senhor.? – Mallory parou. vozes estranhas. Oliphant acenou com a cabeça. um tanto escondido – disse Bligh..... o sr. senhor. Bligh.. – Foi seu amigo. sinto que devo insistir. – Vocês da elite do governo não servem para nada? Não se trata de um concurso de piadas de salão! Já identifiquei a facínora que ajudou a manter Lady Ada cativa! Seu nome é. na verdade. Mallory grunhiu. não fale muito alto. – Não se trata de um assunto para a polícia comum – disse Oliphant. agora que sabe ter sido engodado por uma autêntica femme fatale. colocando o estojo no chão. Uma porta foi fechada nos fundos da casa. compreensivo e muito discreto. embora ninguém tenha considerado apropriado comentar o espantoso fato. – Tenho o homem certo para a tarefa. – É o trabalho de Wakefield. – Eu esperava que você me contasse. O inspetor Ebenezer Fraser.

um de cada vez. Mori Arinori. da Savile Row. Bligh. certamente. ajoelhada ao pé da mesa. Tinha uma expressão de compostura que lembrava uma máscara e cabelos negros fartos e sedosos. Matsuki Koan. mas que possui suficiente capacidade craniana para demonstrar alguma astúcia. Os homens levantaram-se com graça peculiar. pernas cruzadas. Os cabelos eram muito curtos e muito escuros. e a grande superfície polida fora colocada sobre as extremidades de um ornamento esculpido. Mallory afagou o estojo do relógio com profunda satisfação. como se fossem bailarinos. – Feita à Máquina. Mallory percebeu a gafe.que tenha sido roubado por algum moleque. Todos estavam com cartola alta de seda afundada nas cabeças aparadas. – Sem marca do fabricante. – Bem – Oliphant ficou surpreso. E também havia uma mulher com eles. – Doutor Edward Mallory san o goshokai shimasu – disse Oliphant. – São o sr. o Mikado do Japão – disse Oliphant. o sr. usando trajes a rigor feitos sob medida. Um veterano londrino. – Por que não? Levou Mallory até a sala de jantar. – Bligh retirou-se. inclinando o dorso. o sr. com a mais sutil indicação de aversão involuntária. que usa óleo de macassar barato. Jogue no lixo. Oliphant. – Estes cavalheiros estão a serviço de Sua Majestade Imperial. colorida por gaivotas e folhas de bordo. Hisanobu Sameshima. senhor. Estava envolta em volumosa roupagem nativa. – Sim. Cinco homens asiáticos estavam sentados ao redor da mesa. o sr. Rangeu os dentes. Oliphant não fez nenhuma indicação de que apresentaria a mulher. – Os homens fizeram reverência. eu diria. Da Moses & Son. com leve balanço para trás. ficando numa postura de pernas flexíveis. que permaneceu sentada com inexpressiva rigidez. virando-a do avesso e invertendo o forro. Acha que se oporia a uma gratificação? – Decididamente – disse Oliphant. poucos centímetros acima do chão. como se ressentida com o olhar . Mallory olhou-a de relance. Kanaye Nagasawa e o sr. As pernas de mogno tinham sido retiradas da mesa de jantar de Oliphant. – E quanto a seus hóspedes? Poderia ter a permissão para agradecê-los? Oliphant sorriu despreocupado. – Presumo que tal indício elimine qualquer estrangeiro. deslizando um pé sob o corpo e erguendo-se um tanto de repente. – Bligh prestou-me grande serviço. examinou a cartola arruinada. com estranha dignidade: cinco homens sóbrios de meias. Há cerca de dois anos. Fusukawa Yukichi.

mas agradeço muito sua sinceridade. – Japoneses. Mallory esquecera de imediato seus impossíveis nomes. – Não vimos seu inimigo. A mulher não havia movido sequer um centímetro. dr. nem prestar muita atenção nela. mas o brilho dos olhos deixou Mallory em dúvida quanto ao que ele e seus amigos teriam feito caso tivessem encontrado tal pessoa. Mallory sentou-se também. – Obrigado por suas educadas palavras. – Não – disse Mallory. Yukichi. hein? Nani o onomi ni narimasu ka? Os japoneses conferenciaram. a quem nosso soberano expressou compromisso. Os japoneses conferenciaram entre si. agradecê-los por tão corajosamente trazerem meu relógio. as rótulas estalaram alto. nem qualquer pessoa rude ou violenta. mas achou que aquele poderia chamar-se Yukichi. – Uisuki. Yukichi curvou-se novamente. – Uísque. Raurence Oriphant. – Nas atuais circunstâncias – refletiu Oliphant –. excelente escolha – disse Oliphant. – Esperamos que não esteja seriamente ferido pelo bárbaro ataque sobre sua pessoa britânica por estrangeiros – disse o sr. hábeis e vigorosos. colocando-se rapidamente na mesma posição de árida dignidade. e suas cartolas eram usadas como capacetes vikings. – Então. Marori – disse um dos japoneses.do inglês. As longas pernas de Oliphant dobraram-se de repente. Muito gentil da parte de todos vocês. Os japoneses seguiram Oliphant. outro tinha um monóculo guarnecido com fita e afeminadas luvas amarelas. então? – Nós o entendemos. virou-se para Oliphant. . – Poderia. – Ergueu um sino de latão da mesa e tocou-o.. cansativa incursão atrás dos inimigos na região. arregalando os olhos. devo dizer. uma pequena libação está de acordo com os procedimentos adequados. por favor. É um cavalheiro muito cortês. Não sou diplomata. Em vez disso. – É honra para nós ajudar amigo britânico de sr. vamos nos confraternizar. certo? Você fala a língua deles. para fins diplomáticos.... Yukichi era suave. dois usavam óculos sem aro. com animados acenos de cabeça e grunhidos acentuados de aprovação. O sr. Como grupo. e ele sentou-se à cabeceira da mesa com um sorriso. Mas eram todos jovens.. sim? – Tenho uma noção. dia de terrível calor.. – O tom do sr. senhor. Mallory considerou prudente não mencionar a questão. Mallory estava completamente desnorteado. os cinco japoneses tinham um ar refinado e culto.

– Entendo! Como aqueles brinquedos Jacquot-Droz. Havia uma dobradiça dentro do cotovelo coberto pelo robe e outra no pulso. dr. ela é inteiramente nativa – disse Oliphant. Satsuma daimyo. madeira esculpida e pintada. com um carrinho de garrafas. na verdade – disse Oliphant. Matsuki passava . o gelo não caberia na garrafa da boneca mesmo – disse Oliphant alegremente. O preço triplicou desde a semana passada! – Bem. à mão direita da mulher japonesa. O autômato começou a servir a bebida. Matsuki Koan. Bligh – disse Oliphant. – Nosso senhor. – Creio que o sr. Matsuki encaixou a pequena jarra na mão direita dela. creio eu. – Ela se movimenta de modo muito semelhante ao do torno de Maudsley guiado por Máquina – observou Mallory. inexpressivo. Um som agudo e espiralado saiu das vísceras da mulher. – Trata-se mais de uma marionete. sr. – Agora. tal uma máscara.. o sr. estava há pouco dando-nos demonstração de uma das maravilhas da arte japonesa. que maravilha! – Cada fio de cabelo da peruca é colocado à mão – disse Oliphant. Matsuki. Bligh apareceu instantaneamente. Embora eu imagine que o príncipe consorte. – Foi lá que adquiriram os sistemas? – Não. O sr. Em seguida. sem pensar. senhor. Matsuki fará as honras. que por acaso mora na muito avançada província de Satsuma. – O termo apropriado é “autômato”. certo? – Riu. Matsuki? – Ela é feita por filhos de família Hosokawa – disse o sr. Prendeu o dispositivo na região lombar da mulher e começou a girá-lo. – Ela é um presente real. e especialmente o jovem Alfred. – O que foi. com um estalo preciso de madeira. Céus. era.. Ele levantou-se e buscou um cabo de manivela dourado. Mallory. olhando de relance. que começou a decantar a bebida em um elegante jarro de cerâmica. Bligh? – O homem do gelo não quis vender ao cozinheiro senão uma pequena quantidade. para Sua Majestade a Rainha da Grã-Bretanha. O sr. – Temos pouco gelo. meio encoberto pelo elegante cabelo negro. – É uma boneca! – disse Mallory. é patrocinador. ela serviu o uísque com um suave deslizar de cabos e leves estalidos de madeira. Mallory respirou fundo. de fato. que o rosto. como se o comentário fizesse algum sentido. – O golpe deve ter aturdido meus miolos. ou o famoso pato de Vaucanson. Bligh entregou uma garrafa de uísque ao sr. Quem era mesmo o artesão. ouça com muita atenção. Matsuki. possam gostar muito dela também. Mallory começou a pensar que ela estivesse doente ou paralisada. Ela não apresentou reação alguma. curvando-se do seu lugar. Era óbvio agora.

. com os olhos cintilantes. Mallory sentiu os olhares dos japoneses fixos nele. Queriam saber se ele estava impressionado. – Vamos aprender – disse outro japonês. de verdade – insistiu Mallory... São necessários alguns séculos. – Especialmente. Agora.. falando pela primeira vez. – Sabemos que não é muito se comparada às suas grandes máquinas britânicas. – É muito louvável de sua parte – disse Mallory. Os estrangeiros esquisitos pareciam tão jovens. – Mas com ambas as mãos. É como disse o sr. crina de cavalo trançada e molas de osso de baleia. vocês poderiam cobrar para mostrá-la. – Mas é trabalho um tanto árduo. – Seremos aliados de vocês – disse o sr. somos seus irmãos mais novos neste mundo. é uma maravilha. Mallory tomou um gole do uísque. um bretão. construir um império. talvez? Ou alguma coisa dessas? – Não.. – Ela é muito impressionante – ele disse sem pensar.. Queriam saber o que ele.. Arinori. Os japoneses sabem como fazer tais bonecas há muitos anos. só bambu. Despertamos. karakuri é como são chamadas. sabe. . como vocês. na nova grande era do progresso. temos uma Máquina! Compraremos mais Máquinas.. e aprendemos grande lição que vocês nos ensinaram. – Sabemos que ela não é muita coisa – disse o sr. Construiremos nossas próprias Máquinas! Mallory conteve uma risada. – Temos grande dívida com a Grã- Bretanha! A Grã-Bretanha abriu nossos portos com a esquadra de ferro. – Aprendemos tudo com vocês agora – disse o sr. Oriphant. Yukichi. – Ela anda? – perguntou. considerando-se a natureza primitiva da Ásia! – O Japão é a Grã-Bretanha da Ásia – disse Oliphant. – A Grã- Bretanha da Ásia levará civilização e esclarecimento a todos os povos da Ásia. Em Choshu.. a visão da boneca fazia-o sentir como se tivesse topado com uma pantomima de natal. – Nossa. achava dela. o uísque e o calor pareciam ter acendido um fogo nele. a civilização. Yukichi.pequenos copos de cerâmica com o uísque pela mesa. Provavelmente era o que se chamava Arinori. Puro malte escocês. – Construímos grandes escolas e armadas. Ficou claro que a boneca não era nenhuma maravilha em particular para eles. – Toca flauta. Destruímos nosso shogun e seu atrasado bakufu.. simplesmente serve bebidas – disse Oliphant. generosamente. – Nem um pedaço de metal nela. Seu rosto estava vermelho. Mikado nos comanda agora. Ele já estava um pouco embriagado do conhaque de Oliphant. – Não.

A noite de Mallory foi de úmida fadiga. e ele não se sentia febril. Provavelmente fora o efeito terapêutico da excelente bebida de Oliphant. pode-se até dizer que são o objetivo central de nossa nação! Nossos estudiosos trabalham com Maquinaria há décadas. nós da Grã-Bretanha devotamos grande esforço a essas Máquinas. Oliphant ergueu a voz. O concierge do Palácio de Paleontologia. Yukichi. no qual discutia catastrofismo com o Cavalheiro da Tosse. – Faremos qualquer sacrifício que seja necessário – disse o sr. a cabeça martelando. Para vocês. – Existem outras maneiras de modernizar a pátria de sua raça – disse Mallory. estava no corredor... e motivo de honra! Mas não é questão tão simples. Sentiu muita pena deles. é claro. Muito agradável aqui. observando a garota de corda preencher os copos de cerâmica.. – Sim... mas a urgência dos negócios. envolveu-se num roupão e abriu a porta.. deu um bocejo grogue e balançou cuidadosamente a base do crânio. Talvez o leve abatimento no ar fosse apenas a imaginação de Mallory. alcançarem o que fizemos. sinceros. Mas não posso ficar. – Bligh! Mande o ajudante da cozinha chamar um cabriolé para o dr. – Bem! É um belo sonho. acompanhado de duas camareiras taciturnas munidas de esfregão. Despertou após um sonho confuso. que permanecia com um sorriso fixo. – Mas o que propõe é simplesmente impossível! – Faremos qualquer sacrifício que seja necessário. sobretudo. – Tem certeza? – Oliphant perguntou cordialmente. mas o inchaço diminuíra. A contusão sangrara um pouco durante a noite. calmamente.tão idealistas. sentiu que havia feito alguma asneira. O silêncio era quebrado apenas pelo tique-taque do autômato. em poucos anos.. inteligentes e. Ainda assim. E a ajuda de seus hóspedes. Sabe. – Agradeço sua gentileza. Oliphant. funis pretos de borracha e um carrinho . Mallory. ao ouvir batidas insistentes à porta. Mallory olhou para Oliphant. Mallory levantou-se. balde galvanizado. sr.. deixando uma mancha rosada na fronha. um irlandês chamado Kelly. jovem senhor. Cobriu sua nudez suada com o camisão de dormir. – Um momento! – Jogou as pernas pesadas para fora da cama.

espirrando. Não posso dizer que os culpo. Belshaw olhou novamente para ele. Constrangia-o ficar com os pés e os tornozelos nus diante das camareiras. O desinfetante exalou um odor forte e penetrante de amoníaco. senhor. Então saíram. e Mallory vestiu-se. senhor. As mulheres despejaram por um funil a decocção. para cuidar do encanamento do Palácio. As mulheres seguiram-no com o carrinho. Rótulos de papel espalhafatosos denunciavam que o conteúdo de cada garrafa de cerâmica era “Desinfetante Oxigenador Patenteado de Condy. Mallory ficou confuso.abarrotado de garrafões de vinho arrolhados. chamado Belshaw. Mallory acenou cortesmente com a cabeça. Belshaw olhou quando Mallory entrou no salão. Até o Tâmisa está fedendo. mas seria possível que o homem se ofendesse com um simples aceno de cabeça? . Mallory passou pelos dois homens e tomou seu lugar de costume abaixo do candelabro dourado a gás. ou ir a um barbeiro para limpar os coágulos do cabelo. Quando chegou à sala de jantar. Esta é a Londres metropolitana num verão cruelmente quente. Desobstruir os canos do Palácio até as valas principais. mal conseguindo esconder o assombro. sugando os dentes amarelos. Mallory não conseguia lembrar com precisão. que era de um roxo reluzente. Esfregaram exaustivamente a peça de porcelana. Os horários da tarde estavam todos ocupados. havia duas outras pessoas que também tomavam um café da manhã tardio. na privada do banheiro de Mallory. – Que horas são. Planejamos enxaguar todos os sanitários. Belshaw e Sydenham passaram a conversar em tom baixo e urgente. com a lerdeza de Disraeli. e conversavam. não adiantará absolutamente nada. poderia encontrar tempo para levar o casaco para uma lavagem a seco. Mallory já aprendera que. ainda que lave os canos até o inferno. Um Galão Imp”. senhor – disse Kelly. mas a manhã tinha apenas um único compromisso. era melhor reservar-lhe metade do dia. Kelly? – Nove horas. Mallory arrumou o robe. Verificou seu caderno. – O que é tudo isso? – Manganato de sódio. Nunca fora apresentado formalmente a Belshaw. Um era membro do gabinete governamental. com veemência. o outro. – Kelly entrou. – Nossos hóspedes estão reclamando. Com sorte. até Kelly puxar a corrente da cisterna num gesto magistral. senhor. – Kelly. um empregado do museu cujo nome talvez fosse Sydenham. – Tenho que fazer alguma coisa. muito mais repulsivo do que o ar pestilento em seu quarto. tomando chá.

O funcionário de costume não estava presente. e começou a ensaiar uma fala curta.. Mas também poderia pesquisar uns poucos dados sobre Peter Foulke: um tratante sinistro cuja rede de intrigas dissimuladas era ainda mais evidente. deixando o chá. carregado de medalhas. Conseguiria tudo isso de alguma forma. Mallory pensou em dirigir-se a Belshaw para esclarecer o problema. Mallory perguntou-se se o jovem Tobias da Agência Central de Estatística não seria a pessoa certa para o posto. Havia uma carga tediosa de epístolas profissionais necessárias e o habitual fardo cansativo de missivas de admiração e cartas de pedidos. Mas Belshaw e Sydenham levantaram-se de repente. Mas os homens arregalavam os olhos. Todas as questões ocultas emergiriam aos poucos. disse seu substituto. o rosto rechonchudo agora pálido. o cientista chefe. uma leve dor de cabeça. Ou sobre o evasivo sr. Não estava. Ele vislumbrara os esqueletos no armário da elite dos Rad. e saíram da sala de jantar. Mallory tomou o café da manhã em severa ponderação. Sua ferida abrira. acometido de catarro nos pulmões. O arquivo sobre Lady Ada. Mallory entregou o pedido de café da manhã ao garçom. Mallory retirou-se com a cesta e dirigiu-se para o assento de costume na biblioteca. lançava-lhe olhares enviesados. onde conversavam ansiosamente. como se a escolha de arenque e ovos fosse grave indiscrição. mas isso era tolice. Agora. Talvez a contratação de um secretário fosse realmente inevitável. Havia cinco de seus colegas do Palácio presentes. Mallory sentiu total certeza disso enquanto vasculhava a cesta de correspondência. caso existisse tal item fabuloso. determinado a não deixar que o incidente o perturbasse. Ou sobre Lorde Charles Lyell. com tempo e uma oportunidade . e a mente já vagueando.. tal ossos escavados do leito de xisto. dando a impressão de um alarme genuíno. o sangue escorria-lhe pelos cabelos até o pescoço? Não parecia ser o caso. por exemplo. Tomado de estranha inspiração. Foi até a recepção para apanhar sua cesta de correspondências..Sydenham. Quiçá uma oferta de empregos alternados aumentaria a intrepidez do rapaz no escritório. pois havia muitas coisas na Agência que Mallory desejava examinar. Oliphant. Ao erguer a cabeça. reunidos num canto da sala. As três sumidades provavelmente estavam muito além de seu alcance. a expressão do funcionário também era canhestra. pensou Mallory. Mallory pensou que sua braguilha poderia estar aberta. Mallory achou ter visto um deles olhando para ele. da facção uniformitarista. com seus sorrisos prontos e suas vagas declarações. Cada vez mais confuso.. Mallory selecionou a correspondência com inconstante interesse.

Estava umedecido por uma substância química. toda em caixa alta. Mallory. Chamou sua atenção um pacote muito incomum. O cartão. pois o interior liso do envelope estava estranhamente úmido. sem furos.de agir. algo como cola de peixe. desvendaria todo o mistério como se fosse garimpar uma pedra preciosa de seu leito rochoso. e trazia um conjunto colorido de selos express franceses. um tanto atarracado e quadrado. Fê-lo com alguma dificuldade. cada vez mais alarmado. Mallory pegou seu canivete Sheffield. espantosamente lustroso e rijo. O envelope amarelo-marfim. selecionou a menor dentre as diversas lâminas e lacerou o envelope. Suas dimensões eram fora do padrão. trazia um bloco perfeito de impressão miúda e negra. exalando um mau cheiro cada vez mais virulento ao entrar em contato com o ar. balançou o envelope até o cartão cair sobre a mesa. . do padrão do Napoléon. era da mais incomum substância à prova d’água. O interior continha um único cartão de Máquina francês. incompleto.

A OBEDIÊNCIA IMEDIATA E COMPLETA É SUA ÚNICA ESPERANÇA. e esmagou rapidamente o cartão. Lá estava a súbita comprovação escamosa. CAPITÃO SWING.. Mallory? Mallory olhou para cima. a memória assaltando-o de forma intensa. SEGUINDO AS ORDENS DADAS NA COLUNA DE NOTAS PESSOAIS DO LONDON DAILY EXPRESS. – Conservado em cânfora! Péssima técnica! – Dobrou o envelope e enfiou-o no bolso. SUA IDENTIDADE. a manhã em que se levantara da cama de campanha e encontrara uma cascavel adormecida no calor de seu corpo. EM SUA INTEIRA E ABSOLUTA DESTRUIÇÃO. tornando-se uma mistura fibrosa e retorcida. o estranho ofereceu um carte-de-visite. DEVOLVER-NOS-Á TAL BEM. SUA HISTÓRIA E SUAS AMBIÇÕES. Sentira a serpente contorcendo-se sob suas costas durante o sono pesado. depois começou a escamar em camadas mais finas que a mais delgada casca de cebola. AO DR. CASO NECESSÁRIO. Wyoming mais uma vez. examinando-o minuciosamente. CULMINANDO. mas a ignorara na sonolência. reprimindo um grito de surpresa. enquanto as extremidades tornavam-se desagradavelmente marrons. Ele pegou o cartão. – Um espécime muito insatisfatório – disse Mallory. O homem. Mallory abriu com um corte uma carta de pedido de favores. improvisando súbito arrebatamento de decepção. EDWARD MALLORY: SABEMOS SEU NÚMERO. com papéis e um caderno em uma das mãos. permaneceu do outro lado da mesa da biblioteca. RESISTIR É INÚTIL. PALÁCIO DE PALEONTOLOGIA. – Dr. O cartão flexível ficara quente entre seus dedos. Uma espécie de fumaça amarelada começou a subir. Celulose canforada. Largou-o de imediato. umedecida com algo corrosivo – e as minúsculas letras pretas começavam a desaparecer. vestido de modo muito simples. Mallory permaneceu perplexo. e Mallory percebeu que a coisa estava prestes a irromper em chamas. O cartão arqueou-se sobre a mesa. ATÉ RECEBERMOS TAL BEM. apanhando o número mais recente. com expressão desolada e sem sorrir. .. espesso e cinzento do Periódico Trimestral da Sociedade Geológica. O SENHOR SOFRERÁ UMA VARIEDADE DE PUNIÇÕES DELIBERADAS. EDWARD MALLORY. A mesa não parecia muito danificada. na direção de um rosto desconhecido. que se desfez após dois golpes precisos. mesclada ao acabamento empolado do tampo da mesa. arrancou o conteúdo ainda por ler e varreu as cinzas para dentro do envelope com a extremidade afiada do periódico geológico. LONDRES: O SENHOR ESTÁ DE POSSE CRIMINOSA DE UM BEM ROUBADO EM EPSOM. num sobressalto. TEMOS TOTAL CONHECIMENTO DE CADA UMA DE SUAS FRAQUEZAS. um londrino alto e sem barba. Silenciosamente. Ele buscou às pressas alguma coisa dentro da cesta. COMPLETO E INTATO. tomado de culpa.

Os outros clientes ainda estavam agrupados no outro extremo da sala. – Testemunhei algo bastante curioso lá fora. Mallory levantou-se para oferecer-lhe a mão. – Espero que esteja bem. senhor. – Pode ver por si mesmo. – Nenhuma preocupação. sr. – Não entendo. sentou-se de imediato e limpou as mãos furtivamente atrás da perna das calças. senhor. – Lamento que meu infortúnio tenha-lhe causado preocupação. um número de telegrama e um pequeno emblema de Estado em relevo. Um jovem jornaleiro gritando ao mundo que Mallory Leviatã foi preso por assassinato. – Eu mesmo comprei um. Fraser ergueu levemente uma sobrancelha negra. Em vez disso. ao estilo quaker. – Eu? Edward Mallory? Fraser assentiu com a cabeça. com a garganta seca. – Recuperado do ataque de ontem? Mallory olhou para a extensão da biblioteca. O verso apresentava um retrato em pontilhismo com a expressão de gravidade impassível que parecia ser- lhe natural. – Pode acontecer a qualquer um em Londres. – Largou um jornal dobrado sobre a mesa: um Daily Express londrino. secamente. – Fraser abriu um caderno com capa de couro e retirou uma caneta-tinteiro do casaco simples. – Uma bobagem – acautelou-se Mallory. O cartão de Ebenezer Fraser trazia seu nome. senhor. então percebeu que seus dedos estavam manchados de ácido. – Alguma brincadeira perversa – sugeriu. fez uma reverência. tenho pressa no momento.. – Estou aqui há três horas. Fraser. Por que um jornaleiro gritaria uma mentira tão abominável? – Vendeu boa parte dos jornais – disse Fraser.. sentando-se do outro lado da mesa. – Os moleques . – Que diabos esse jornal tinha a dizer sobre mim? – Nem uma palavra sobre qualquer Mallory nas notícias – disse Fraser. e pareciam deveras curiosos quanto à sua atrapalhação e à chegada repentina de Fraser. como se mergulhada em formaldeído. às seis horas da manhã. Nada mais. aguardando a oportunidade. senhor – murmurou Fraser. Mallory começou a balbuciar um pedido de desculpas. – Algumas perguntas? – Para dizer a verdade. Mallory colocou o jornal cuidadosamente sobre a cesta. Fraser silenciou-o com um olhar de indiferença. Fraser ignorou-o. A pele do polegar e do indicador parecia ressecada.

– Fraser virou páginas de seu caderno. entende. O sujeito “batráquio” foi morto ao ter a medula extraída e foi aberto numa dissecação catastrófica. – Santo Deus! – disse Mallory. Um daguerreótipo impresso por Máquina. Havia uma legenda abaixo da imagem. bem! – Limpou a garganta. Fraser observava-o impassivelmente. em sinistro contraste com as mãos profundamente queimadas de sol. um pedaço de pano cobrindo a genitália. – Registro oficial da polícia do necrotério – disse Fraser.. – Batrachos. – Nosso sangue fervia. – Esforçou-se para encontrar as palavras. senhor.. – Parece que o senhor levou muito a sério tal comentário. não é. – Mas alguns de seus colegas ouviram o jornaleiro anunciar a mentira. – Rudwick afirmou que o senhor era louco como um chapeleiro – refletiu Fraser. – Entendo – disse Mallory.. Parece ser bem conhecida entre seus colegas. senhor.. lentamente. Era Francis Rudwick.. das pernas e da barriga protuberante era pálida tal mármore.. Mallory ficou olhando para a imagem.. – Fez uma pausa. senhor? – Do grego – disse Mallory. com o rosto corado. dizia. anfíbio. o corpo todo sobre uma laje. eu disse que as teorias dele. num debate.de rua são capazes de qualquer coisa. – Ouvi a história esta manhã. Rudwick: “O curso da Evolução não está em conformidade com a lentidão batráquia do seu intelecto”. sem pensar. – Parece ter caído nas mãos de algum encrenqueiro.... A primeira de uma série. as teorias geológicas de Rudwick. aturdido pelo pânico. Uma Autópsia Científica. senhor? – Foi num debate público em Cambridge – disse Mallory. o maroto havia fugido – disse Fraser. – O que isso pode significar? Fraser aprontou a caneta. Tem sido a conversa do lugar a manhã toda.. anos atrás. – Isso explica um certo. – O que é “batráquio”. – O senhor disse ao sr. Um homem morto.. O cadáver fora aberto à faca da barriga ao esterno com um único e tremendo corte.. . Rãs e sapos. – Pegou um documento dobrado no caderno.. abriu-o e deslizou-o sobre o mogno polido. – Quando saí novamente. – Certa vez... na maioria. – É melhor que veja isto agora. A pele do peito. – O sujeito lembrava mesmo uma rã. A imagem fora captada num necrotério.

. pense na sua pobre família! Fraser fez uma anotação. para seus colegas da Royal Society.. Meu Deus. com ar de ponderação. – Eu não era – disse Mallory –. Fraser não disse nada. com uma sensação de arrepio. afligido por uma sinceridade furiosa. Anonimamente.. tenho certeza – disse Fraser. sim? – A inveja dá margem a falatório. não naquela época. – Ele não tinha nenhum direito de dizer isso.. E falam de mim pelas minhas costas. Fraser folheou o caderno. – Mas eu estava em Wyoming quando Rudwick foi assassinado. De súbito. Tenho de investigar isso. Mallory ficou pasmo.. foi tomado pela simples compaixão humana da visão que o chocara. senhor. . – Ganhei o dinheiro no jogo. Mallory enrubesceu. – Era um de nós! – Mallory deixou escapar.. – Não sou um homem rico. Fraser demonstrou moderado interesse. – Sim. – Pobre coitado do Rudwick! Olha o que fizeram a ele! Fraser observou-o com educação. – Grande número delas? – Enviadas para toda parte. – Não pode acreditar que eu tenha qualquer coisa a ver com isto! – Não por sua própria intenção. mas. com força terrível. – E perguntam-se de onde vem o dinheiro.. querem me destruir! Fraser não disse nada. Muito provável que lhes tenham dito que o senhor assassinou-o. – Meus colegas vêm reparando em meus gastos – concluiu Mallory. – Não era um teórico. – Por Deus – disse Mallory –. certo? De uma cidade chamada Lewes? – Sim? – Parece que um grande número dessas imagens foi enviado pelo correio de Lewes. Todos sabem disso! – Um homem rico pode pagar para que o trabalho seja feito. Mallory ficou olhando para a imagem do necrotério. – Mallory limpou a testa. mas um excelente escavador de ossos. senhor. – Mas acredito que seja um homem de Sussex. – Eram inimigos.. – Família. com seu ar de gentry.

Mallory. Mas se trata de uma história sombria e escandalosa. Após um momento.” Isto se refere à nossa discussão científica. calmamente. – Isso ajudará. Pretendemos apanhar todos esses conspiradores. – “Primeira de uma série”. – Mas tal divulgação não poderia levantar mais desconfiança contra mim? Fraser remexeu-se um pouco na cadeira.. Como se ele tivesse morrido por causa disso! – Cientistas levam suas discussões muito a sério – disse Fraser. Inclinou-se para a frente franzindo a sobrancelha e examinou a imagem furiosamente. enviaremos uma declaração pública aos jornais diários também. firmou o maxilar.. e fá-lo-emos mais rápido se for franco comigo e me disser tudo o que sabe. – Dr. Fraser. em tom formal. o senhor acredita? – Se necessário. – É de minha natureza ser franco. Mallory esfregou a barba. dr. Isto é uma ameaça. Mallory. . – Meu Deus – disse Mallory. – Pretende afirmar que meus colegas acreditam que eu enviei isto? Que contrato assassinos como um Maquiavel? Que sou um maníaco perigoso que se jacta de assassinar rivais? Fraser não disse nada. “Uma dissecação catastrófica. Mallory encostou-se na cadeira. sr. Havia evidências à mão. Não nos faltam recursos. Balançou a cabeça devagar. – Mas o que devo fazer quanto aos danos à minha reputação? Devo dirigir-me a cada homem neste prédio e implorar seu perdão. Não somos inexperientes. – Tenho de pedir que confie em minha discrição. e que é inocente de todas as suspeitas no caso Rudwick. sr. – Amanhã. e dizer-lhe. Não seremos vencidos por uma roda miserável de furta-foguistas. no silêncio diplomático de Fraser. o comissário de polícia emitirá uma declaração à Royal Society afirmando que o senhor é vítima de calúnia maliciosa. na Bow Street. até a raiz. está escrito. Ameaças pesavam o ar tal nuvem de vespas. meu departamento existe para destruir conspirações. Fraser. dizer-lhe que não sou um ghoul dos infernos? – O governo não permitirá que um cientista proeminente seja assediado de tal maneira – Fraser garantiu-lhe. Não ficaria confuso ou constrangido.. Havia trabalho a ser feito. Sugere que assassinatos semelhantes ocorrerão. senhor. Mallory retomou as forças. Mallory sentiu súbito pavor vertiginoso. – O que devo fazer? – Meus superiores colocaram este caso sob minha competência – disse Fraser..

hein? Sim. – Vamos seguir em frente. parece-me. senhor – concordou Fraser. Mallory examinou a rua à sua volta. – Sr. o senhor é um homem de Londres. Oliphant informou-me sobre tal assunto. Pelo menos. Fraser também se levantou. senhor? Do lado de fora do Palácio de Paleontologia. como sempre o fez. para então chapinhar contra um teto encoberto por nuvens arrebatadas. – Não é. Mallory olhou para as prateleiras de mogno à sua volta. eu diria que é o melhor. – Ele minimizou a pior parte. Levantou-se de imediato. – Não pensaria assim. como uma ameaça de contaminação. tal tempestuosa água-viva gelatinosa. A desconfiança pairava no ar. Seus tentáculos. O sol invisível lançava uma luz rala e insípida. – Mas deveria cuidar de seus assuntos científicos. Após o ataque do dia anterior. mas agora era como o esconderijo de um texugo. Confio que daremos um rápido fim aos seus problemas. – Este não é o lugar para falar – murmurou Mallory. a sujeira que ascendia das chaminés. Bastante apropriado. os textos com capa de couro e os atlas enormes. – Alguma vez já viu um tempo como este? . Fraser. Trate de suas questões com confiança. era uma iniciativa. o céu de Londres era uma cobertura de neblina amarela pairando sobre a cidade em sombrio esplendor. – Duvido – murmurou Mallory. O conselho pareceu sensato a Mallory. – Sim. o Palácio pareceu-lhe uma fortaleza bem-vinda. com sua permissão. – Não sou um político desgraçado – observou Fraser. se soubesse da questão como um todo – resmungou Mallory. uma manhã londrina de verão agora estranha devido à sinistra opulência da luz âmbar e fuliginosa. retorciam-se e franziam-se tal fumaça de vela em total tranquilidade. – Acompanharei o senhor. e é provável que seus inimigos considerem que os estratagemas usados por eles fracassaram. em seu tom moderado. nascido e criado. – O sr. – Cuidar de meus assuntos diários. – Não precisa temer por minhas suscetibilidades. os periódicos encadernados. senhor.

Fraser refletiu, olhando para o céu com olhos semicerrados.
– Não desde que era garoto, senhor, quando as brumas de carvão eram
intensas. Mas os Rads construíram chaminés mais altas. Hoje, a névoa é soprada
para os condados. – Fez uma pausa. – A maior parte.
Mallory observou as nuvens rasas, fascinado. Desejou que tivesse dedicado
mais tempo às doutrinas da pneumodinâmica. Essa tampa de panela de nuvens
estáticas apresentava uma insalubre falta de turbulência natural, como se a
sistemática dinâmica da atmosfera houvesse estagnado de alguma forma. O
metropolitano fétido, a estiagem do Tâmisa turvo de esgoto, e agora isso.
– Não parece estar tão quente quanto ontem – murmurou.
– É a escuridão, senhor.
As ruas recebiam uma aglomeração que somente Londres era capaz de
originar. Os ônibus e cabriolés estavam todos tomados, cada cruzamento
congestionado por latas-velhas e charretes puxadas por cães, com condutores
praguejando e cavalos arfando por narinas negras. Gurneys a vapor passavam
ruidosa e lentamente, muitos deles rebocando vagões de mantimentos sobre
pneumáticos de borracha. Parecia que o êxodo de verão da gentry estava
tornando-se uma debandada. Mallory era capaz de compreender a razão.
A caminhada era longa até a Fleet Street, para seu compromisso com Disraeli.
Parecia melhor pegar o trem e enfrentar o Fedor.
Mas a Irmandade Britânica de Sapadores e Mineiros fazia greve na entrada da
Gloucester Road Station. Formaram piquetes e colocaram cartazes na calçada, e
empilhavam sacos de areia como um exército de ocupação. Uma grande
multidão assistia a tudo, mantendo a ordem; não parecia incomodada com a
ousadia dos grevistas, mas sim curiosa, ou intimidada. Talvez as pessoas
estivessem felizes em ver o metropolitano fechado; mais provável que
estivessem simplesmente com medo dos escavadores da areia. Os grevistas,
todos de capacete, deixaram seus trabalhos subterrâneos, agitados, como uma
multidão de gnomos musculosos.
– Não estou gostando disso, sr. Fraser.
– Não, senhor.
– Vamos dar uma palavra com esses sujeitos – Mallory atravessou a rua.
Aproximou-se de um dos escavadores, atarracado e de nariz venoso, que gritava
para a multidão e empurrava panfletos às pessoas.
– Qual o problema aqui, irmão sapador?
O escavador olhou Mallory de cima a baixo e abriu um sorriso ao redor de um
palito de dentes de marfim. Havia uma grande argola banhada a ouro na orelha
dele... ou talvez de ouro maciço, uma vez que a Irmandade era uma associação
endinheirada, detentora de muitas patentes engenhosas.

– Vou trocar em miúdos, senhor, já que perguntou de modo tão educado. São
esses malditos, desgraçados trens pneumáticos imbecis! Falamos a Lorde
Babbage, em petição, que os malditos túneis nunca iam ventilar direito. Mas um
porra dum cientista desgraçado veio com uma merda de discurso sem pé nem
cabeça, e agora a porcaria azedou feito mijo velho.
– Trata-se de um sério problema, senhor.
– Pode estar certo disso, meu camarada.
– Sabe o nome do cientista consultado?
O escavador discutiu a questão com dois de seus amigos de capacete.
– Nome do lorde é Jefferies.
– Conheço Jefferies! – disse Mallory, surpreso. – Afirmou que o pterodáctilo
de Rudwick não podia voar. Afirmou ter comprovado tratar-se de um “réptil
planador apático”, incapaz de bater as próprias asas. O biltre é um incompetente!
Deveria ser condenado por fraude!
– É cientista também, não é, senhor?
– Não desse tipo – disse Mallory.
– E quanto a seu companheiro, esse polícia aí? – O escavador puxou com
agitação a argola da orelha. – Por acaso não está anotando tudo isso nos malditos
caderninhos, está?
– De modo algum – disse Mallory, com dignidade. – Simplesmente queria
saber toda a verdade da questão.
– Quer saber a maldita verdade, seu cientista, é só se arrastar lá pra dentro e
raspar o senhor mesmo um monte daquela merda bolorenta dos tijolos. Até
bueristas com vinte anos de reputação estão colocando as tripas para fora por
causa do Fedor.
O escavador virou-se para confrontar uma mulher vestindo crinolina com
laços.
– Não pode ir lá embaixo, querida, não há um só trem circulando em
Londres...
Mallory seguiu adiante.
– Este assunto não está encerrado! – resmungou Mallory em voz alta,
vagamente na direção de Fraser. – Quando um cientista é consultado para
questões industriais, tem de ter certeza do que fala!
– São as condições do tempo – disse Fraser.
– De modo algum! É questão de ética científica! Eu mesmo recebi um pedido
do tipo... sujeito de Yorkshire, quer construir uma estufa de vidro em formato de
espinha e costelas de brontossauro. A abóbada é boa e eficiente, eu disse a ele,
mas as vedações de vidro certamente terão vazamentos. Portanto, não aceitei o
trabalho e não cobrei pela consultoria... mas minha reputação de estudioso está

preservada! – Mallory bufou no ar oleoso, limpou a garganta e cuspiu na sarjeta.
– Não acredito que o imbecil do Jefferies tenha dado um conselho tão ordinário a
Lorde Babbage.
– Nunca vi um cientista falar direto com um escavador...
– Então não conhece Ned Mallory! Honro qualquer homem honesto que
conheça de verdade seu trabalho.
Fraser refletiu a respeito. Pareceu um pouco duvidoso, se é que era possível
julgar a partir da expressão inerte.
– Amotinadores perigosos da classe operária, esses seus escavadores.
– Ótimo sindicato dos Rads. Apoiou o partido com bravura no início. E ainda
o faz.
– Mataram muitos da polícia, nos Tempos Tumultuosos.
– Mas eram policiais de Wellington – disse Mallory.
Fraser concordou sombriamente com um aceno de cabeça.
Não parecia haver muito a fazer senão caminhar até a casa de Disraeli. Fraser,
cujos passos largos e rápidos equiparavam-se aos de Mallory com facilidade,
seguiu de bom grado. Reduzindo o ritmo, entraram no Hyde Park, onde Mallory
esperava encontrar uma brisa de ar puro. Mas ali as folhagens de verão pareciam
murchar na estagnação oleosa, e a luz esverdeada abaixo dos ramos era rara,
maligna e soturna.
O céu transformara-se num vaso de fumaça, turvo e cada vez mais espesso. A
visão desgraciosa parecia apavorar os estorninhos de Londres, pois um grande
bando de passarinhos erguera-se acima do parque. Mallory observou a cena com
admiração enquanto caminhava. A movimentação das revoadas resultava em
muito elegante aula de física. Bastante extraordinária a interação sistemática que
fazia com que tantos passarinhos formassem figuras vastas e harmoniosas no ar:
um trapezoide, depois uma pirâmide cortada, transformando-se num crescente
plano e então se curvando para cima no centro, como o balanço de uma onda no
mar. Era provável que houvesse um bom trabalho sobre o fenômeno.
Mallory tropeçou na raiz de uma árvore. Fraser segurou-lhe o braço.
– Senhor...
– Sim, sr. Fraser?
– Mantenha-se atento, por favor. Talvez estejamos sendo seguidos.
Mallory olhou de relance à sua volta. Não adiantou muito; o parque estava
lotado e ele não conseguia avistar sinal algum do Cavalheiro da Tosse nem do
cúmplice de chapéu-coco.
Na Rotten Row, um pequeno destacamento da cavalaria feminina – “belas
adestradoras de cavalos”, como eram chamadas nos jornais, sendo esse um
eufemismo para cortesãs afortunadas – estava reunido ao redor de uma de suas

integrantes, lançada da sela por seu alazão castrado. Mallory e Fraser, ao
aproximarem-se, viram que o animal caíra e espumava, ofegante, sobre a grama
úmida ao lado da trilha. A amazona estava enlameada, mas ilesa. Maldizia
Londres, o ar imundo, as mulheres que insistiram para que galopasse e o homem
que lhe havia comprado o cavalo.
Fraser ignorou educadamente o inoportuno espetáculo.
– Senhor, em minha área de trabalho aprendemos a usar os espaços ao ar livre.
Não há portas entreabertas ou buracos de fechaduras perto de nós no momento.
Poderia relatar-me seus problemas, com suas próprias e claras palavras, como se
tivesse sido uma testemunha dos eventos?
Mallory caminhou em silêncio por alguns instantes, organizando os
pensamentos na cabeça. Estava inclinado a confiar em Fraser; de todas as
autoridades as quais poderia recorrer nesse momento difícil, o resoluto policial,
sozinho, parecia preparado para agarrar com coragem os problemas pela raiz.
Mesmo que houvesse muitos riscos em tal confiança, e que os perigos não
afetassem apenas a ele.
– Sr. Fraser, a reputação de uma grande lady está envolvida neste caso. Antes
de falar, tenho de ter sua palavra de cavalheiro de que não prejudicará os
interesses de tal dama.
Fraser continuou andando, com ar meditativo, mãos apertadas às costas.
– Ada Byron? – perguntou, finalmente.
– Ora, sim! Oliphant contou-lhe a verdade, não é?
Fraser balançou a cabeça devagar.
– O sr. Oliphant é muito discreto. Mas nós da Bow Street com frequência
somos chamados a silenciar questões difíceis para a família Byron. Poder-se-ia
dizer até que somos especializados em tal esforço.
– Mas pareceu entender a menção quase de imediato, sr. Fraser! Como seria
possível?
– Triste experiência, senhor. Conheço as palavras que usou, conheço o tom de
reverência... “os interesses de uma grande lady”. – Fraser olhou para o parque
sombrio à sua volta, observando os bancos curvos de teca e ferro, cheio de
homens com a gola da camisa aberta, mulheres de rosto ruborizado abanando-se,
bandos esmaecidos de crianças da cidade, de olhos vermelhos e irritadiças com o
calor malcheiroso. – As duquesas, as condessas, todas tiveram suas mansões
incendiadas nos Tempos Tumultuosos. As ladies do Rad podem fazer pose, mas
ninguém as chama de “grandes ladies” dessa maneira um tanto ultrapassada, a
menos que se esteja referindo à própria rainha, ou à nossa chamada Rainha das
Máquinas.
No caminho de cascalhos, Fraser passou com cautela por cima do pequeno

corpo emplumado de um estorninho, completamente sem vida, com as asas
abertas e as pequenas garras enrugadas para cima. Alguns metros adiante, ele e
Mallory reduziram o passo para passar entre um grande número deles.
– Talvez seja melhor começar pelo início, senhor. Comece com o finado sr.
Rudwick e tal questão.
– Muito bem. – Mallory limpou o suor do rosto. O lenço ficou marcado por
partículas de fuligem. – Sou doutor em paleontologia. Logo, sou um bom
homem do Partido. Minha família é um tanto humilde, mas graças aos Rads
concluí o doutorado, com honras. Apoio lealmente o governo.
– Prossiga – disse Fraser.
– Passei dois anos na América do Sul, fazendo escavações com Lorde
Loudon, mas eu não era o cientista principal, agindo por conta própria. Quando
me ofereceram a chance de liderar minha própria expedição, com generoso
financiamento, aceitei-a. E assim fez, soube mais tarde, o pobre Francis
Rudwick, por razões semelhantes.
– Os dois receberam dinheiro da Comissão de Livre Comércio da Royal
Society.
– Não meramente seu financiamento, mas suas disposições, sr. Fraser.
Atravessei a fronteira americana com quinze homens. Desenterramos ossos,
contrabandeamos armas para os peles-vermelhas a fim de ajudá-los a manter os
ianques a distância. Mapeamos rotas desde o Canadá, detalhando a configuração
do terreno. Se houver uma guerra entre Grã-Bretanha e América algum dia... –
Mallory fez uma pausa. – Bem, já existe uma tremenda guerra na América, não
existe? Estamos com os confederados do sul, de modo não oficial.
– Não fazia ideia de que Rudwick pudesse estar correndo perigo devido a tais
atividades secretas?
– Perigo? É claro que havia perigo. Mas não em casa, na Inglaterra... Eu
estava em Wyoming quando Rudwick foi morto aqui; eu não sabia nada a
respeito até ler a notícia no Canadá. Foi um choque para mim... Briguei
amargamente com Rudwick a respeito de teorias, e sabia que ele fora fazer
escavações no México, mas não sabia que compartilhávamos o mesmo segredo.
Não sabia que Rudwick era um furta-foguista da Comissão; só sabia que se
destacava em nossa profissão. – Mallory suspirou no ar pútrido. Suas próprias
palavras surpreenderam-no; nunca admitira tais questões até para si mesmo. – Eu
até invejava Rudwick, creio. Ele era um tanto superior a mim, e pupilo de
Buckland.
– Buckland?
– Um dos maiores nomes de nossa área. Também já se foi. Mas, verdade seja
dita, eu não conhecia bem Rudwick. Era um homem desagradável, arrogante e

frio em suas relações. Estava melhor quando fazia explorações no estrangeiro, a
uma considerável distância da sociedade decente. – Mallory limpou a nuca. –
Quando li sobre sua morte numa rixa vulgar, não fiquei inteiramente surpreso.
– Sabe se Rudwick chegou a conhecer Ada Byron?
– Não – disse Mallory, surpreso. – Não sei. Eu e ele não tínhamos uma
posição tão alta nos círculos eruditos... não no nível de Lady Ada, certamente!
Talvez tenham sido apresentados, mas acho que eu saberia, caso ela o tivesse
protegido.
– Ele era brilhante, o senhor disse.
– Mas não galante.
Fraser trocou de assunto.
– Oliphant parece crer que Rudwick foi morto pelos texanos.
– Não sei de nenhum texano – disse Mallory, irritado. – Quem sabe alguma
coisa sobre o Texas? Um ermo desgraçado, a mares e continentes de distância!
Se os texanos mataram o pobre Rudwick, suponho que a Armada Real deva
bombardear seus portos em represália, ou algo do tipo. – Balançou a cabeça.
Toda a podridão do assunto, que um dia pareceu-lhe tão ousado e engenhoso,
parecia agora algo inglório e vil, pouco mais que uma trapaça barata. – Fomos
tolos em envolver-nos com o trabalho da Comissão, Rudwick e eu. Alguns
lordes ricos, conspirando entre quatro paredes para atormentar os ianques. As
repúblicas ianques já estão cortando as gargantas umas das outras, por causa da
escravidão, direitos civis ou alguma maldita insensatez! Rudwick morreu por
causa disso, e poderia estar vivo agora, escavando maravilhas. Isso me
envergonha!
– Há quem possa dizer que era seu dever patriótico. Que o senhor o fez pelos
interesses da Inglaterra.
– Suponho que sim – disse Mallory, tremendo –, mas é grande alívio
manifestar-me sobre o assunto, após um silêncio tão longo.
Fraser não pareceu muito impressionado com a história. Mallory imaginou
que fosse uma velha e enfadonha narrativa para o inspetor Fraser da Agência
Especial, ou talvez um mero fragmento de maldades maiores e mais obscuras.
Mas Fraser não estava interessado em política; limitava-se aos fatos do crime.
– Fale-me sobre o primeiro ataque à sua pessoa.
– Isso ocorreu no dia da corrida. Vi uma dama velada dentro de um cabriolé
alugado, tratada de forma terrível por um homem e uma mulher, os quais julguei
serem criminosos... sendo que a mulher era uma tal de Florence Russell Bartlett,
como presumo que saiba, sim?
– Sim. Estamos procurando pela sra. Bartlett com o maior empenho.
– Não consegui identificar seu companheiro. Mas pode ser que tenha ouvido o

nome “Swing”. Ou “Capitão Swing”.
Fraser pareceu demonstrar alguma surpresa.
– Contou esse fato ao sr. Oliphant?
– Não. – Mallory, sentindo-se vulnerável, não disse nada mais.
– Talvez isso não faça tanta diferença – disse Fraser, após uma pausa
reflexiva. – O sr. Oliphant é um pouco imaginativo às vezes; e “Capitão Swing”
é um nome bem conhecido em conspirações; um personagem mítico, muito
semelhante a “Ned Ludd” ou “General Ludd”. Os bandos de Swing eram
formados por luditas do interior, anos atrás. Incendiários, em sua maioria,
queimavam montes de feno. Mas, nos Tempos Tumultuosos, tornaram-se
selvagens, mataram muitos proprietários de terra da gentry e incendiaram suas
belas mansões.
– Ah – disse Mallory. – Crê que esse sujeito seja ludita, então?
– Não existem mais luditas – disse Fraser, calmamente. – Estão tão extintos
quanto seus dinossauros. Suspeito, antes, de algum antiquário pernicioso. Temos
a descrição do sujeito, temos nossos métodos... Quando o apanharmos,
extrairemos à força informações sobre sua inclinação para identidades falsas.
– Bem, o sujeito certamente não é um trabalhador rural... É uma espécie de
dândi afrancesado das corridas. Quando defendi a Lady, ele veio para cima de
mim com um punhal! Cortou-me a perna. Imagino que tive sorte de não estar a
lâmina envenenada.
– Talvez estivesse – disse Fraser. – A maioria dos venenos é muito menos
potente do que se supõe...
– Bem, derrubei o velhaco, e afastei-os da vítima. O oportunista jurou duas
vezes que me mataria. “Destruir-me” foi o verbo usado... Então me dei conta de
que a dama só poderia ser Lady Ada Byron. Ela começou a falar de modo
deveras estranho, como se estivesse drogada, ou desnorteada pelo medo...
Implorou-me que a acompanhasse até o Royal Enclosure, mas ao nos
aproximarmos do Royal Box escapou de mim como em um truque, sem uma
palavra de agradecimento por meu sofrimento.
Mallory fez uma pausa, apalpando o conteúdo do bolso. – Suponho que seja
esse o ponto principal da questão, senhor. Logo em seguida, ganhei grande
quantia em dinheiro, apostada num gurney a vapor construído por um amigo.
Deu-me ele informações muito úteis, as quais me transformaram, num instante,
de modesto estudioso a homem de recursos. – Mallory puxou a barba. – Por
maior que tenha sido a mudança, pareceu a menor das surpresas então.
– Entendo – Fraser seguiu andando em silêncio. Aproximaram-se da Hyde
Park Corner, onde havia homens sobre caixotes de sabão, tossindo e fazendo
discursos para a multidão. Fraser e Mallory ficaram em silêncio enquanto

senhor. Todo clacker desonesto quer um Modus. Diante do alto portão do Green Park.. talvez Lady Ada Byron possa consegui-lo.. um truque secreto de Maquinaria matemática. talvez ela tenha um Modus. – Um Modus. para derrotar os oddsmakers. Fraser virou-se e observou as ruas atrás deles por um momento demorado. No Palácio de Buckingham. senhor. – A amiga de Babbage – disse Mallory. finalmente. A família real.. a guarda estava sendo trocada. senhor. – Não vê? – Não. – Sim. – Sim. As tropas do palácio marchavam com orgulho trajando o que havia de mais novo e eficiente em fardamento militar. – Conheço um caminho por trás. O tecido inteligente confundira por completo os russos. dr. não pôde aguardar mais. – Fraser soltou um grunhido de desgosto. cientificamente manchado para iludir o olhar inimigo. Mallory assentiu. Creio ver a raiz da questão de modo bastante claro. Mallory. mas o policial não disse nada.andavam entre os céticos ouvintes aglomerados. mas não vejo nele muita estranheza. Por fim. e transitou entre muitas más companhias: . O Modus é um sistema de jogo. estava passando o verão na Escócia. Atravessaram o alvoroço frenético e crepitante da Knightsbridge. uniforme pardo de batalha da Crimeia. como era seu hábito. Fraser? Fraser limpou a garganta e cuspiu discretamente. O que é isso? – É uma lenda entre os círculos esportivos. – Acredita que estive com Ada Byron. Lady Ada tem um Modus. sua alegre melodia e estrondoso zumbido soavam estranhamente lúgubres e sinistros no ar parado e putrefato. grandes cavalos de artilharia rebocavam um calíope militar. O assunto não me agrada muito. Mallory esperava que Fraser chegasse a uma conclusão. senhor. E seguiu Fraser. É sua pedra filosofal. É o problema do jogo. Posso de fato! – Bem.. sr. – Ela persegue esse fantasma dos clackers há anos. mas a elite da Brigada de Guardas conduzia o ritual diário na ausência da rainha. Mallory esperando que Fraser falasse. Acredito. posso acreditar. um modo de transformar ar em ouro! – Isso é possível? Tal análise pode ser feita? – Se for possível. Atrás dos soldados. talvez apenas pense tê-lo – disse Fraser. mas acredito que nunca existiu um sistema de apostas que prestasse. – Podemos tomar um atalho através de Whitehall – disse. – Não sou nenhum matemático. de acordo com todos os relatos.

trapaceiros. Fraser! Muito talentosa. – É o plano de Deus para as relações entre homens e mulheres. mas Mallory considerou muito mais provável que Fraser conhecesse a reputação de Disraeli e não confiasse na discrição do jornalista. não terá dívidas por muito tempo! Fraser dirigiu a Mallory um olhar de compaixão por tamanha ingenuidade. ainda. Mallory assentiu lentamente com a cabeça. usurários e coisa pior. – Bem! Se Ada de fato encontrou um Modus. – Trata-se da adaptação evolutiva da espécie humana – corrigiu-se.. Fraser? – Eu. Mallory sorriu.. O que não era de admirar. a Rainha das Máquinas” – disse Fraser em tom extremamente fastidioso. Ela acumulou dívidas de jogo. As mulheres nunca sabem quando parar.. clackers corrompidos. sr.. – Toda mulher precisa de um homem para segurar-lhe as rédeas – disse Fraser. ao ponto de virarem escândalos notórios! Distraído. Ada pode ser grande literata. e a esplêndida matemática. Deseja desordenar o universo e jogar dados com os hemisférios. Já viu uma multidão numa corrida brigando por causa de um trapaceiro? É o tipo de revolta que um Modus causaria. E Lady Ada Byron nunca se casou... – Nem eu. Fraser pareceu notadamente relutante em encontrar Benjamin Disraeli ao forjar uma breve desculpa sobre ver se havia espiões na rua. mas . Fraser viu sua expressão e repensou a questão. não – disse Fraser. mas não possui mais juízo que uma mosca! – É uma grande cientista. – Um verdadeiro Modus destruiria a instituição do Turfe! Acabaria com o sustento de todos os envolvidos com o esporte. sr.. mas “Dizzy” Disraeli era o mais londrino dos londrinos. – É casado. Mallory conhecera muitos homens de negócios em Londres. – Mulher determinada! Muito parecida com a mãe. certo? Usa óculos verdes e escreve livros eruditos.. Mallory firmou os polegares no porta-dinheiro preso à cintura. Mallory não o respeitava muito. Li seus trabalhos. Foi uma noiva da ciência. – “Lady Ada Byron. que denotava mais aborrecimento que desprezo. Mallory franziu a testa.

todas as soirées e terças-feiras literárias de Lady Fulana de Tal e de Lady Beltrana de Tal. – Faço a pequena agulha mover as letras que quero. passou com destreza a fita perfurada pelas bobinas da engrenagem. Um pouco clacker.o considerava alegre companhia. você é exatamente a pessoa que preciso ver hoje. – Disraeli seguiu na frente até seu escritório. Mallory abriu a lateral da caixa. Mallory. – Sim. ainda que em escala muito menos ambiciosa e cheia de restos de fumo de cachimbo. diante de uma cadeira de escritório de couro envernizado. Abominável. Ele tinha uma maneira dissimulada de aludir a esse conhecimento que era quase mágica. ou fingia saber. deixavam a insuperável impressão de que qualquer londrino que não conhecesse “Dizzy” era um imbecil. comprei na quarta-feira passada. Vestia chinelos. Mas não sai nada. muito. e por vezes o próprio Mallory não conseguia deixar de acreditar nisso. na Agência Central de Estatística. – Na verdade. conseguira arrastar a coisa para fora da caixa de embalagem e colocara-a de pé sobre as pernas curvas de ferro. depois verificou o papel sanfonado na calha de . Era como uma aura mística. O vendedor jurou que facilitaria a minha vida. O chão estava repleto de blocos de cortiça esculpidos e montes de aparas de papel picotado. tivesse ascendência judaica. consigo acionar o pedal e manusear as manivelas razoavelmente bem – disse Disraeli. por alguma razão. – Dia. – Parece que está tudo certo – disse Mallory. Mallory viu que Disraeli comprara uma Máquina de Datilografar Colt & Maxwell. talvez porque. Wakefield. um roupão turco e um fez de veludo com borla. Disraeli estava acordado. uma sala que lembrava a do sr. Uma criada de touca com babados e avental conduziu Mallory para dentro. Disraeli encheu a boca com o restante da cavala e começou a pitar o primeiro cachimbo do dia. Acontece que Mallory sabia que Disraeli fora banido de três ou quatro clubes de cavalheiros. – Qual o problema? – Bem. um miasma que cercava o sujeito. revistas extravagantes e sanduíches pela metade. Mallory. Disraeli sabia. Horrível dia. embora agnóstico declarado e respeitado. todas as rixas entre editores e sociedades eruditas. ou moribundo. todas as intrigas dos bastidores da Câmara dos Comuns. Mas os modos e costumes do homem. especialista técnico? – Ah! – Tem uma porcaria nova aqui. Estava sobre tábuas de carvalho manchadas. tomando o café da manhã: café preto forte e uma travessa malcheirosa de cavala frita no gim.

ou novo impulso de conduta. entregando a página ao jornalista. Mas como me concentrar na eloquência enquanto empurro e viro manivelas tal uma lavadeira? – Ora. Nela estava escrito CONHECIMENTOO É PPODER. de longe! – Sim – disse Mallory. – Disraeli balançou o cachimbo ardente.. – “Conhecimento é poder” – disse Disraeli. Disraeli não encaixara as rodas dentadas corretamente. com frequência. regula e leva a uma harmoniosa consequência. – Profissionais nunca revisam – disse Disraeli. Algo como. – “Há tumultos da mente em que. A fita perfurada saiu aos poucos. pode reimprimir uma página nova em folha a partir da fita. acelerou com o pedal a máquina de datilografar e segurou os cabos de manivela. como que na discórdia da própria natureza. e a roda de impressão giratória soltou um suave e ruidoso estalido. Mallory sentou-se na cadeira. – E digamos que eu queira escrever algo elegante e de fôlego. pode prender a fita perfurada. tudo parece anarquia e caos em regresso. – Imagino que não tenha saída. e a máquina cospe página por página. aborrecido. Mallory deixou o pêndulo parar e retirou lentamente da fenda a primeira folha de papel. um novo princípio de ordem. – Posso escrevinhar mais depressa que isso! – reclamou Disraeli. – E. desde que acione o pedal. – Isso é muito bom – disse Mallory. Uma simples questão de cortar e colar a fita. se cometer algum erro. Quantas cópias quiser. enrolando-se perfeitamente numa bobina movimentada por um sistema de mola espiral. de pronto. – Encantador – disse Disraeli. como as grandes convulsões da natureza. – É uma questão de prática – disse Mallory. – O que escrevo? Dite algo. – Afirmaram que o aparelho me faria economizar papel! – Pode contratar um secretário e ditar.. no entanto. mas não pode recarregar a fita. pode revisar o que escreveu. e controla. – E com letra melhor. em tais momentos de vasta perturbação. – Gostou? Do seu novo capítulo. a paixões e a elementos que parecem ameaçar tão somente o desespero e a subversão”. Os . Mallory manivelou a agulha para a frente e para trás. passando pelo alfabeto do mostrador de vidro. desenvolve-se. – Mas pegará o macete. com um pouco de tesoura e cola. – Disseram que economizaria dinheiro também! – Disraeli tragou a ponta de âmbar do longo cachimbo de meerschaum. com paciência –. é claro.abastecimento.

desligamento de chaminés e iluminação a gás. – Tempo muito agourento. – Pode-se dizer o que quiser sobre a nomeação de lordes por mérito. Um alvoroço e tanto a esse respeito no governo. – Folheou as notas. incêndios. e os tribunais de justiça para Oxford! – Quê. das fábricas de gás. – Há quem tenha adoração por planejar desastres. Algum acantonamento no alto dos Alpes onde alguns escritores contentes possam respirar um pouco de ar puro. mas chamam a este de “O Grande Fedor”. Planos de evacuação. Disraeli espalhou as anotações sobre a mesa. Disraeli abriu um sorriso perverso. As confrarias de tipógrafos. – Disraeli virou-se na cadeira e deu uma piscadela. sabe? Invasões. com um grupo de amigos – disse Disraeli.. Mas ao menos está garantido que a liderança de nosso país não é obtusa. lambendo o polegar. entende? Mas já chega de assuntos técnicos.editores forçar-nos-ão a aceitar a novidade. – Se sentisse o cheiro do Tâmisa defronte ao Parlamento. verdade? – Ah. não estranharia que nossos estadistas estejam dispostos a arrepiar carreira. – Por quê? – Partirei de Londres para o Continente. – Decerto não está insinuando que o governo pretende evacuar Londres. Dizzy? – Racionamento de água. é claro. para evitar o pânico das massas. Gostaria de fazer anotações para ao menos dois capítulos hoje. Medidas horrendas estão sendo preparadas. – Londres sempre fede no verão. é? – O Tâmisa é um esgoto pútrido com marés de enfermidades! – proclamou Disraeli. – Tão ruim assim.. – Que tipo de medidas. sim? Receio que tenhamos de apressar-nos. Mallory. Todos da gentry estão de viagem planejada ou já partiram! Não há de restar uma alma de bom gosto nesta cidade. – O governo tem planos de contingência altamente científicos. sentando-se à mesa. Tudo em sigilo. Começou a vasculhar escaninhos à procura de suas anotações. secas e pestes. para Hampton Court. – Abarrotado de ingredientes das cervejarias. essa espécie de coisa – disse Disraeli. – Suíça. – É o assunto em todos os salões – disse-lhe Disraeli. sim. de . Mallory considerou o mexerico difícil de acreditar. – Mas as medidas serão tomadas. – E o ar está muito ruim lá fora – disse Mallory. suponho. pode contar com isso. Dizem que o próprio Parlamento fugirá rio acima. – O que exatamente contêm tais “planos de contingência”? – Todo tipo de coisa. O Evening Telegraph já está sendo todo feito com Máquinas. estamos pensando. Ao trabalho. com afetação.

partiria de imediato para juntar-me a eles. obstinado. dando uma baforada. – As classes mais humildes não têm condições de deixar Londres. um pouco mais deste tempo esdrúxulo e os idosos ou fracos dos pulmões poderão sofrer imensamente. – Haverá operários – disse Mallory. Mas quem há de duvidar dela nas atuais circunstâncias? Num verão tão abjeto. Se fosse você. pelo menos. Deverá ser uma grande ocasião. Mallory sentiu um arrepio de pavor. – Escreveu um editorial a respeito. Daqui a dois dias. Mas é um verão esquisito dos infernos. e esta é a verdade. e todo navio a vapor que passa agita um turbilhão fétido que quase subjuga sua tripulação com o cheiro nauseabundo! Mallory sorriu. – Disraeli esvaziou o cachimbo e começou a recarregá-lo com o forte tabaco preto turco do estojo vedado com borracha. não? – Para o Morning Clarion. – Isso será esplêndido. mas há tempos em que a prudência deve superar a devoção. tentando acender um fósforo de repetição. Ninguém que importa.. Com acompanhamento de cinétropo! – Cancele a palestra – disse Disraeli. Estará desperdiçando seu fôlego. Todavia. – Dizem que o cólera está à solta mais uma vez em Limehouse. – Admito que minha retórica está um tanto espalhafatosa. Mallory. um evento popular e profissional grandioso! – Mallory. para renovar o Tâmisa e desfazer essas estranhas nuvens sufocantes. não haverá ninguém para vê-la. Disraeli suspirou. resoluto. – Disraeli deu de ombros. – Ah – Disraeli assentiu. Você tem família em Sussex. é por demais provável que eflúvios e maus cheiros espalhem uma epidemia mortal. e tudo ficará bem conosco. Alguns dias de boa e farta chuva. O tipo de gente que lê o lixo dos periódicos baratos. – Quem disse isso? – A dona Boataria. – Adie-a. Mallory cerrou os dentes. Sobre o brontossauro. – Mas tenho uma palestra a proferir.produtos químicos e minerais! Matérias decompostas flutuam como algas marinhas nocivas nas estacas da ponte de Westminster. de verdade? Disraeli baixou a voz.. . – Não posso. Não se esqueça de elogiar-me para a sua plateia. – Pensa assim. – Tenho um terno amor por esta cidade. sei disso.

– Não quer admitir nenhuma namorada inglesa. – Ninguém é capaz de explicar nem mesmo como o sol pôde arder por dez milhões de anos. Verdade seja dita.. distraído –. – O que achou do episódio da semana passada? – Ótimo. – O que há de errado com a teoria. Muito dramático. e assim por diante. Dá um ótimo clímax. Mallory. Nenhuma combustão poderia durar tanto tempo. – Muita teoria científica execrável – disse Disraeli. Nossos leitores querem saber de Mallory Leviatã. com paciência. – Pensei termos concordado em deixar isso para o fim. quer ler sobre as pressões nas juntas do maxilar de um réptil. Tedioso e maçante. veemente. – Já explicamos que vocês não se casaram – disse Disraeli. A Catástrofe causa melhor impressão que a lengalenga da Uniformidade sobre a Terra ter milhões de anos. – Não era uma “garota”. – A evidência está a meu favor! Olhe para a lua. algumas insinuações. o homem. Temos muito a fazer. maçante até não poder mais! – Um apelo à emoção vulgar não tem relevância! – disse Mallory. Você não precisa ser obsceno nem indelicado sobre a questão. Apenas algumas palavras amáveis sobre ela. – É preciso mais interesse sentimental. só há uma coisa que as pessoas realmente querem saber sobre os dinossauros: por que os malditos estão todos mortos. sim.. Mallory soltou um grunhido. tanto melhor. ciência rigorosa. além do especialista. – Vamos ao trabalho. muito catastrófico. mas é preciso jogar ao cachorro um osso de vez em quando... a coisa do enorme cometa esmagador e a grande tempestade negra de areia eliminando toda a vida réptil. O melhor até agora. Era uma mulher nativa. As mulheres são loucas por tal espécie de coisa. Estou de pleno acordo com seu amigo Huxley. um ou outro galanteio. se for boa? – Ninguém. absolutamente coberta por crateras de cometas! – Sim – disse Disraeli. – Puxou da prateleira o último número do Museu da Família.. . E leem muito mais que os homens. É disso que o público gosta no catastrofismo.. Mallory. Era isso o que vinha temendo. – Por isso temos de voltar à questão da garota índia.. Mallory.. Isso viola as leis elementares da física! – Deixe isso de lado por um momento. Chegou a hora de trazer à tona o assunto da donzela índia. – Ah. quando diz que devemos iluminar a ignorância pública. – Não me disse sequer o nome dela. – Disraeli pegou a caneta-tinteiro. Mallory balançou a cabeça.

Mallory sentou-se numa cadeira. é claro. ou algo muito parecido. Mallory. A verdade não poderia ser escrita em papel civilizado. – Nunca falou diretamente com ela. Mas não posso dar minha palavra a respeito de nenhum desses nomes. – Está bem. às vezes era chamada de Viúva-do-Cobertor-Vermelho. Pavoneavam-se e cambaleavam feito doidos. escrevendo. Especialmente as mulheres. Faltavam-lhe alguns dentes e era magra como um lobo. – Era boa costureira. prosseguiam por horas. Não era nada próximo da verdade. Disraeli suspirou. ela era viúva. Disraeli ficou decepcionado. no lugar de lascas de osso de bisão. Todos eles querem contas de vidro. bêbado. Enquanto Disraeli rascunhava seu melodrama açucarado. Agulhas de aço. – Ela devia ser chamada de alguma coisa. dando-lhe agulhas. – Os cheyennes não têm nomes como nós. para eles. Lutara contra a tentação por muitos dias. mas por fim chegara o momento em que percebeu que faria menos . O nome dela era Wak-see-nee-ha-wah ou Wak-nee-see-wah-ha. Flor da Pradaria foi conquistada por seu amor inato aos apetrechos femininos” – disse Disraeli. Mallory havia conseguido deixar todo o negócio sujo fora de seus pensamentos. a verdade voltou à lembrança de Mallory com selvagem clareza. então? – Não sei. mostrando somente o branco dos olhos. e os cheyennes estavam bêbados. amizade. – Que tal se eu a chamar de “Donzela da Pradaria”? – Dizzie. Insistiu o máximo sobre os detalhes da questão. porque os infelizes não tinham ideia real do que era o álcool. era um veneno e um íncubo. Mallory não quisera se envolver com a viúva. não de fato. e às vezes era chamada de Mãe-da-Cobra-Pintada ou Mãe-do-Cavalo-Coxo. que era nosso intérprete. Tinha dois filhos crescidos. – Bem. – Não está cooperando. Uma vez que começavam. disparando seus rifles para os vazios céus americanos. hmmm. – Mallory puxou a barba. aos poucos. enquanto Mallory contorcia-se na cadeira. Conquistamos sua. e caíam no solo regelado sob o domínio de visões. e ele mentia feito um velhaco. Era um pandemônio de gritaria e uivos embriagados. na verdade. Contávamos com um francês místico. Nevava sobre as tendas cônicas. Fui até onde conseguia sair-me razoavelmente bem com gestos. Mas não o esquecera. E contas de vidro. – “Tímida no começo. pode-se dizer isso.

deitando-se de costas com as pernas estendidas e braços erguidos. Não fora a prosa floreada de Disraeli que despertou o caos dentro dele. e puxou-lhe o pelo da barba com curiosidade.. Não havia sinal de Fraser na multidão agitada. havia grandes chances de que não fosse dele. Ele precisava de uma mulher. Mas Mallory deixou a sala cheio de amarga confusão. Paul estava encoberto de névoa suja. uma boa moça do interior. ejaculou dentro dela. tanto os homens como as mulheres apertavam lenços aos olhos e nariz. O coito prosseguiu por bastante tempo. em desolação. e voltou para seu ninho de peles. depois. Mallory subiu sobre ela. Grandes chumaços ondulantes de cerração oleosa ocultavam os pináculos e os gigantescos cartazes de anúncios da Ludgate Hill. os rostos redondos e morenos encarando o vento com olhos semicerrados. A viúva assentiu com a agitação exagerada de uma pessoa para a qual um aceno de cabeça era idioma estrangeiro. A Fleet Street era uma desordem amontoada e ruidosa. puxou o membro teso e dolorido para fora das calças e forçou-o entre as pernas da mulher. e perdeu o próprio controle. e finalmente ela começou a olhar para ele com uma espécie de timidez queixosa. de firmes e brancas pernas. o calor. e ele ejaculou longa e intensamente. diante da fogueira de esterco. A escuridão do dia era realmente extraordinária. começaram a arder- lhe os olhos quase de imediato. e as coisas tornaram-se mais fáceis. No entanto. bufos de vapor e gritos. Ao ar livre. Sentia muito tê-lo feito uma vez sequer. Mallory caminhou de volta até a Fleet Street. mas o domo da St. Enfim. a suave fricção e o cheiro rançoso e animal dela derreteram algo dentro dele. Por fim. Entrou na tenda onde a viúva encontrava-se agachada em mantas e penas. ele retirou.mal à sua alma se simplesmente resolvesse o assunto. Mallory mostrou a ela uma nova agulha. embora não tivesse a intenção de fazê-lo. As duas crianças saíram. e belos braços carnudos e sardentos. Assim. Homens . Ele pensou que acabaria rápido. mas de um dos outros homens. As mulheres na calçada encolhiam-se sob sombrinhas manchadas de fuligem e andavam meio curvadas. As três outras vezes em que foi ter com ela. e a francesa em Toronto não parecera totalmente asseada. Disraeli passou para outros assuntos. e talvez sem muita vergonha.. Ainda não era meio-dia. bebeu dois dedos de uma das garrafas de uísque e dois dedos de uma bebida barata de Birmingham. mas o violento poder de suas próprias lembranças. e fez o gesto lascivo com as mãos. Não estivera com mulher alguma desde o Canadá. Ele estava luxuriosamente rígido e irrequieto. e não arriscou engravidar a pobre criatura. Uma inglesa. muito. se ela estava grávida. mas era estranho e desconcertante demais para ele. enviada por navio com os rifles. repleta de estalos de chicotes. A energia vital voltara com ímpeto.

um grande rebanho de ovelhas aos balidos e chiados. – Pedi demissão! – declarou Tate. – Doido de pedra. Mallory lutou e se esquivou de seu caminho para atravessar o tráfego: cabriolés. notadamente animada. Edward Mallory. carroças. Mallory observou o céu. – Creio que os cavalheiros já conheçam o dr. um estranho floco curvo de arenito cristalizado. rapazes – ordenou Fraser. Intitulam-se agentes secretos. formando o que quase seria um sorriso. Mallory percebeu. os dois estranhos puxaram o lenço para baixo do queixo. Tate. – Quanto ao sr. Velasco. pois o tecido. seus alegres chapéus de palha já salpicados de detritos. J. Um trem de passeio superlotado passou ruidosamente sobre o elevado da London. – Fraser retesou os lábios. O esforço deixou-o ofegante. Mallory! – Fraser acenou de maneira que era. que Fraser deveria estar gritando por ele há algum tempo. Taciturnos.e meninos arrastavam bolsas de tecido da família e malas de viagem com alça de borracha. e sabe disso tão bem quanto eu. George Velasco. ambos com a face envolta em lenço branco apertado. ele! Violento como um maluco de Bedlam. – Dr. Dois estranhos estavam embaixo do poste com Fraser. embaixo de um poste. Fraser gritava para Mallory. Ebenezer Fraser. – Até perder o posto. Chatham & Dover. uma vez que não havia como fazer justiça na polícia pública de Londres. o sr. – Permita-me – disse Fraser. ele estourou. com atraso. transformando-se em cinza finíssima. abaixo do nariz. ele é um dos assim chamados furta-foguista – disse Fraser. Tate foi policial de nossa força metropolitana – disse Fraser. Havia uma contusão inchada e roxa na lateral do seu maxilar. C. estava manchado de marrom amarelado. – O pai chegou a Londres como monarquista espanhol . para ele. em tom irônico. sua nuvem de escape incinerado pairando no ar sombrio tal bandeira de lixo. com moderação. O lenço a escondera. Mallory examinou a partícula que brilhava na manga de seu casaco. – Este é o sr. O sujeito mais alto vinha respirando através do lenço por algum tempo. cravando os olhos opressivos em Tate. – Conhecemos – disse Tate. engolida que fora pela avultante neblina opaca. estupefato. A indolente mistura fibrosa de fumaça em elevação não estava mais lá. – Tirem-no. – O Cavalheiro da Tosse! – disse Mallory. flocos cinzentos de algo semelhante à neve baixavam com delicadeza sobre a Fleet Street. do outro lado da rua. Aqui e ali. – O sr. Ao toque. e este é seu parceiro. – Deixei o cargo por princípios. ou algo do gênero.

– Limpou o rosto com o lenço manchado. – Não permitirei que o dr. George possui talento para realizar qualquer tarefa prática. com Londres fedendo uma desgraça e o país nas mãos de intelectuais lunáticos com dinheiro em demasia e coração de pedra! Mallory sentiu o forte impulso de dar ao velhaco insolente mais uma prova da precisão de seu punho. mas num repentino esforço de vontade. Algeme-nos. falsificar passaportes. Tate. não um reles conspirador que se esconde em becos! Tate e Velasco trocaram olhares de pasmo ceticismo. você sabe.refugiado. – Sou um cidadão nativo da Grã-Bretanha – disse o pequeno mestiço trigueiro. sr. . – É Charles Lyell? Tate revirou os olhos vermelhos de fumaça e cutucou a costela de Velasco com o cotovelo. Sem resposta. Tate observou Mallory com atenção. Fraser. Fraser e eu o descobrimos. que droga. Não há com o que se preocupar... – Não posso dedurar um cliente. não deverá ficar muito feliz em saber que o sr. – Não seja tolo – disse Fraser. – Trata-se de intriga da Royal Society. Fraser! Prenda-nos! Faça o seu pior! Tenho meus próprios amigos. – A que belo ponto chegamos. Fraser – disse Tate. – O que há de tão engraçado? – disse Mallory. Mallory. – Eles foram contratados por um de seus colegas – disse Fraser. suprimiu o inútil instinto. Acariciou a barba com ar profissional e sorriu para Tate.. Velasco não foi capaz de controlar o riso. – Quem quer que seja seu patrão – disse Mallory –. bater com cassetetes em cientistas proeminentes na rua. – Você trilhou o mesmo caminho que eu. é só por conseguir abafar escândalos indecorosos para o governo. Velasco pôs as mãos no bolso e pareceu estar pronto para evadir-se a qualquer momento. Tate? – Já lhe disse que não contarei – disse Tate. tal como diz. – Sigilo profissional – protestou Tate. – É a Comissão para o Livre Comércio? – indagou Mallory. de modo frio e ponderado. – Seu cavalheiro aí é um assassino dos infernos! Destripou o rival como se ele fosse um peixe! – Eu não fiz tal coisa – disse Mallory. sem dizer nada. com um olhar repulsivo para Mallory. Mas conte-nos por que o vem seguindo. e se é um dos grandes hoje. Não é assim. Mallory lhe dê outra surra. mas nosso jovem sr.. – Sou um estudioso da Royal Society. espiar pela fechadura. – Tão inocente quanto a neve esse seu dr. – Chega de gabolice.

– Desde que me adiantem informações. – Eu não teria dito isso. – Que vá para o inferno – disse Velasco. – Cada – acrescentou Velasco. – Mais gastos. – Imagino que sejam cafajestes degenerados – concordou Mallory –.. Simples justiça poética. – Ao fim desta semana. Não confia em nossa integridade. Presos entre o lenço e a aba do chapéu-coco. – Vocês dois ainda podem ser de considerável serventia a um certo Ned Mallory. Tate finalmente retornou. haverá cinco guinéus de ouro esperando por vocês em meus aposentos no Palácio de Paleontologia – prometeu Mallory. Quanto lhes está pagando. Mallory – avisou Fraser. esse seu fabuloso patrão? – Acautele-se. – Posso adiantar-lhes parte do dinheiro – consentiu Mallory. o lenço de volta à face. e contem-me tudo o que ele fizer. não é mais útil a seu patrão.. – Cinco xelins por dia – murmurou Tate.. quero que tratem seu ex-patrão exatamente como me trataram. os cachos de cabelo ao lado do rosto estavam para fora. – Os dois detetives particulares afastaram-se por entre a aglomeração do tráfego da calçada e buscaram abrigo na lateral de um obelisco com cerca de ferro. Velasco e Tate entreolharam-se de modo intenso. Estou atrás do que sabem. se nos adiantar essa quantia. Fraser.. nem que tentassem me arrancar à força. mas pouco importa o que são. a voz abafada. Só que o tipo tem o rei na barriga e vive a dar-nos ordens como um maldito lorde. não? – Mais ou menos – admitiu Tate. – Aqueles dois não valem cinco guinéus por ano – disse Fraser. Não confia que agimos pelos interesses dele. feito asas gordurosas. aonde quer que vá. . – Podemos ter chegado às vias de fato anteriormente – disse Mallory –. cavalheiro. Não é assim? – E se for? – perguntou Tate. – Velasco e Tate não contrariam os Agentes Especiais por causa de um maldito Peter Foulke. – Sujeito de nome Peter Foulke – disse ele. – Estão mentindo – disse Fraser. Para isso foram contratados. – Se de fato espiaram-me com atenção.. digamos assim! Sigam-no em segredo. Parece achar que não sabemos como fazer nosso próprio trabalho. – Dê-nos um momento para discutir a questão. mas me orgulho de poder superar naturais ressentimentos e ver nossa situação com objetividade! Agora que está sem o disfarce enganoso sob o qual me vinha espreitando. devem saber que sou um homem generoso – insistiu Mallory.. – Podemos pensar nisso. – Em troca dessa quantia.

e ela é ambiciosa. entende? – Mandem-me a conta – disse Mallory. – Mais uma dessas para o meu amigo aqui. – Por que não o fazem enquanto seguem Foulke? – disse Mallory. – Creio que viram você e fugiram. aí vai algo que não sabe. – Não dissemos. para fechar o acordo? – Desconfiava todo o tempo que fosse Foulke – disse Mallory. – Encantado em servir aos interesses da nação. – O que eles disseram sobre si mesmos? – disse Fraser. – Sabe onde encontrá-los? – perguntou Fraser. E se tivermos de ir a Brighton. cavalheiro – disse Tate. – É uma assassina! – disse Mallory. cavalheiro – disse Tate. Fraser pronunciou-se com firmeza: – Mas não hoje. no entanto. sem eu perguntar. certo? Tate deu uma risada contida por trás do lenço. Fraser. – Sabem que vocês os viram? – disse Fraser. – Não aguentou o Fedor. Enquanto anda por aí. – Não são burros. Ele é das corridas. Ariscos feito gatos. A boneca tentou convencer Velasco a contar-lhe quem nos havia contratado. se não estiver enganado. – Ela não se parece nem um pouco com Rudwick. – Sou da opinião de que estão todos associados de alguma forma. falando sozinho. discreto como um elefante.. Disse isso diretamente.. – Podemos procurar – ofereceu Velasco. numa saudação policial. – Não somos os únicos a segui-lo. – Com os recibos. isso em três dos últimos cinco dias. Essa tua cara de azedume decerto os faria se resguardar. São gastos. aqueles dois. há um sujeito disfarçado e a rapariga dele nos seus calcanhares. – Ela disse que era irmã de Francis Rudwick – disse Velasco. – Então. Rosto gracioso. em tom ríspido. – Tate fez uma pausa. – O dr. Mallory quer essa conta especificada por completo – disse Fraser. num surto de inspiração. dobrou-a entre os dedos com a destreza de um trapaceiro nas cartas e fê-la desaparecer. – Engraçado. . mais provável que fosse amásia de Rudwick. – Que investigava o assassinato do irmão. Tate balançou a cabeça. São rápidos e sagazes. Velasco e eu precisaríamos do dinheiro para a passagem de trem. Uma beleza de rapariga. Mallory ofereceu a Tate viçosa nota de uma libra que retirou do livro. Tocou a aba do chapéu. sensibilidade delicada. Tate examinou-a de modo superficial. cabelos ruivos. – Foulke está em Brighton – disse Tate. é exatamente o que ela diz do senhor. Deu uma nota de uma libra a Velasco.. cavalheiro. – É claro que não acreditamos nessa conversa tola – disse Tate. Fraser. – Certo e justo..

Tate. o cinetropista da Royal Society. Fraser e Mallory viram-nos partir. como se desejassem quebrar-lhe os ossos enormes e sugar- lhe o tutano. Mallory . e a exclusiva companhia masculina permitiria alguma pilhéria descomposta. Não havia o que fazer senão caminhar de volta ao Palácio de Paleontologia e preparar-se para o jantar da Associação Agnóstica de Moços. reunidos para discutir sobre a emergência. senhor. E de Mallory. como celebridade da noite. usar um cabriolé. pois o sr. Mallory não foi capaz sequer de cancelar a palestra. As estações do metropolitano estavam todas fechadas. Mallory e Fraser comeram sanduíches secos de peru e bacon de um carrinho com laterais de vidro. seriam esperados alguns comentários após o jantar. Fora ao Museu para discutir sua apresentação. apropriada a jovens solteiros. mais uma vez. Trenham Reeks declarou-se incapaz de tomar tal decisão sem a autorização de Huxley. Não se via nenhum na rua. – Ao menos não serei mais atacado com porrete pelas costas. o Museu de Geologia Prática estava quase deserto. Keats. e o próprio Huxley não deixara endereço ou número de telegrama. – Ficou barato o preço. na Jermyn Street. e Huxley fora obrigado a participar de algum comitê de lordes eruditos. claramente atraídos pelo ar ali mais limpo e para fugir do calor. Para tornar piores as coisas. Andavam de cabeça baixa e demoravam-se sob o altíssimo esqueleto do Leviatã. cavalheiro. – Nunca mais verá aqueles dois. talvez – disse Mallory. Ele esperara ansiosamente pelo evento. de modo algum pomposo como seu respeitável nome poderia sugerir. uma vez que a AAM era um grupo divertido. mas o sr. – Terá notícias nossas. uma entidade que reunia estudantes eruditos. com piquetes de escavadores furiosos gritando insultos sórdidos aos transeuntes. enviara um telegrama declarando-se muito enfermo. O segundo compromisso do dia. – Não. – E mantenha a compostura. Não puderam. Há maneiras muito mais baratas. não por eles. os grupos animados de alunos e entusiastas da história natural reduzidos a poucos infelizes taciturnos. conforme sugerira Disraeli. Tate ignorou-o e olhou de soslaio para Mallory. foi uma grave decepção para Mallory. – Suponho que tenha perdido duas libras – disse Fraser. senhor. – Não ficou.

Usavam lenço no rosto agora. As ruas esvaziavam-se a olhos vistos. Dois anos atrás essas coisas infernais estavam longe de ser tão populares. Nenhum argumento é transmitido. devo dar vivas à autoridade da Câmara dos Lordes. ou como os moços conseguiriam se reunir. Os cidadãos de Londres se haviam debandado ou buscado refúgio atrás de janelas bem fechadas. ubíqua sopa de ervilha que dificultava a visão no alcance de meia quadra. nenhuma evidência considerada. Fraser seguiu à frente. Essas breves cinefrases são como cédulas impressas sem lastro.ouvira algumas piadas de Disraeli “Dizzy”. mesmo se estivesse de olhos vendados. se ainda tinham tal inclinação e. Mas tal coisa não ocorreu de fato! É mero slogan. acima da multidão! “Metropolitano Fechado com Greve dos Escavadores”. – Há falsa impressão de que a pessoa está sendo informada de algo. “Parlamento Desaprova Condições do Tâmisa”. Os raros pedestres surgiam na obscuridade tal fantasmas bem trajados. apenas fonte de distração para desocupados. – Os cinétropos são a raiz do problema – opinou Mallory enquanto subiam a Brompton Road. Mas agora se perguntava quantos de seus anfitriões anteriores estariam em Londres. – Fiquei chocado ao ver o longo painel lá na Fleet Street. – O que há de errado com isso? – Não diz nada – disse Mallory. – Não era assim quando saí da Inglaterra. montado diante do Evening Telegraph. dizia a coisa. ou cheques sem fundo. Se deve ser esse o nível de discurso racional para a gente comum. que considerou de fato muito boas. – Tossiu. pior ainda. os pináculos de seus palácios científicos obscurecidos pelo mau cheiro. então. embora incomodasse Mallory que Fraser parecesse amordaçado além de taciturno. que ficava perto da Blackfriars Bridge na direção do vento que passava pelo Tâmisa. Lojas e mais lojas apresentavam placas de FECHADO. A fumaça instalara-se ao nível do solo misturada à névoa fétida. – Há quem seja um verdadeiro cretino. . Não se trata de notícia de modo algum. e Mallory supôs que o policial veterano poderia guiá-los facilmente pelas ruas de Londres. mas não teve sorte. – Quem no Parlamento? Que condições do Tâmisa. Mallory esperava encontrar um barbeiro para aparar cabelo e barba. conformado e imperturbável. – Há quem diga que aos desocupados é melhor saber um pouco do que nada. ladainha vazia. Fraser. Agora não me permitem fazer um discurso público sem um deles. como seria o jantar no salão superior do pub Black Friar. com seu clacking ininterrupto e acelerado. especificamente? O que o Parlamento disse a respeito? Coisas sensatas ou coisas estúpidas? Fraser soltou um grunhido. Pareceu precaução sensata.

quando saiu hoje. – Sim. Mallory estava ansioso para aliviar a garganta seca com um huckle-buff. senhor. ou quiçá do próprio ar de Londres. Mallory? – Sim. A porta do quarto de Mallory fora derrubada a machadadas. – Sua porta estava trancada. pois num tempo como aquele. Bombeiros tiveram de arrombar. – Não me lembro exatamente. como o de tecido queimado. e o chão empenado estava inundado de areia e água. Um gurney de bombeiros passou por eles devagar. senhor.. A Mallory pareceu coisa estranhamente irônica que um gurney de bombeiros devesse ser impelido pela ação de carvão em chamas. entre biombos laqueados e tapeçarias de seda vermelha. – Dr. ou ainda da fuligem malcheirosa fluindo das chaminés do próprio gurney. – Um incêndio grave? – Os hóspedes consideraram-no assim. As pilhas de revistas e . – Kelly não mencionou o sentimento dos funcionários do Palácio. com bombeiros fatigados nos estribos. pois mal havia uma alma no saguão e nenhum murmúrio vindo da sala de jantar. por acaso. mas o interior do Palácio de Paleontologia parecia mais enfumaçado que o exterior. quando Kelly apareceu. mas o rosto o deixou claro. Um acontecimento infeliz aqui. roupas e rostos enegrecidos do trabalho. Mallory olhou para Fraser. – Senhor. – Queremos olhar – sugeriu Fraser. tal Fedor parecia ter finalmente vencido os hóspedes do Palácio. De todo modo. Um incêndio. Mas talvez houvesse sentido nisso afinal. em tom brando. mas eu sempre desligo o gás.. Talvez os galões imperiais de manganato de sódio de Kelly tivessem corroído o encanamento. Mallory procurava ser atendido no salão. E também os bombeiros. uma junta de cavalos mal conseguiria galopar por uma quadra. senhor – disse o concierge. – Sempre desligo o gás! – Mallory disse sem pensar. o rosto tenso e resoluto. senhor. senhor. roupas perto da chama de gás? Ou um charuto ainda em brasa? – Não está querendo dizer que o incêndio foi no meu quarto! – Infelizmente estou. Havia um mau cheiro pungente. Kelly? – Tenho más notícias para o senhor. deixou.

mas duvido que tenha levado mais de cinco minutos. o senhor aceite como hóspedes apenas cientistas com credenciais. – Eu deveria tê-lo precavido quanto a isso. – Um cientista com seu quarto reduzido às cinzas! Não sei o que dizer! Não vejo crueldade assim desde os tempos de Ludd! É lamentável. Havia um enorme buraco chamuscado na parede entre a escrivaninha e o teto acima dela. – E incendiário. Tenho inimigos terríveis. – É inacreditável – disse Mallory. – Não. – É nossa política rigorosa. Uma vergonha repugnante. Mallory estava fora de si de tanta raiva e uma profunda vergonha apreensiva. Suponho que.. Teve alguma dificuldade. Usou uma chave falsa nessa fechadura. assim como em outros estabelecimentos da Royal Society. – Eu sempre o faço. Kelly parecia à beira das lágrimas. Fraser ajoelhou-se em silêncio ao lado da moldura estilhaçada da porta. inspetor – disse Kelly. sr.. Mallory. senhor. – Nenhum indivíduo suspeito. inspetor! – Mas seus hóspedes têm permissão para receber visitas? – Visitas masculinas. Melhor salteador que incendiário. depois se levantou. senhor! – Um salteador bem vestido – concluiu Fraser. e o guarda-roupa de Mallory. – Posso saber quem é o senhor para indagar? – Inspetor Fraser. com vigas de madeira e esteios expostos transformados em carvão. Sempre! – Posso ver sua chave? Mallory entregou a Fraser o molho de chaves. – Trancou sua porta.. queimado até reduzir-se a trapos cremados e espelho despedaçado. Kelly. Kelly ofendeu-se. dr.. Kelly. repleto de trajes finos de Londres. senhor? – perguntou Fraser. Não de meu conhecimento pessoal! – Manterá tal assunto em sigilo. – Houve relato de algum indivíduo suspeito neste corredor? – Fraser perguntou a Kelly. Damas devidamente acompanhadas. sugando os dentes. consumindo completamente a escrivaninha e um grande pedaço enegrecido do carpete. nada escandaloso. pois foi um tanto desajeitado na maneira com que empilhou os papéis abaixo da escrivaninha e do armário. Mallory balançou a cabeça. sr. . Bow Street.correspondências de Mallory haviam queimado com intensidade. Examinou o buraco da fechadura com atenção.

Kelly. dr. – Temos seguro. – Retirou-se às pressas. – Não sei se nossa apólice cobre exatamente esse tipo de problema. – Fraser. é claro.. Fraser. mas espero que possamos reparar a sua perda! Por favor. – Não conseguirei ir ao jantar com os agnósticos hoje. dr. aceite minhas mais sinceras desculpas! – Isto me causa um grande inconveniente – disse Mallory. Seu incendiário habilidoso usa parafina líquida. – Pelo amor de Deus. preciso de uma bebida. senhor. ele subiu aqui. escarafunchando a sujeira com o varão empenado que tirou do guarda-roupa. onde haja bebida. torpe. Considera-me um idiota. E. – Um lugar alegre para recarregar um pouco as energias. – Sabemos disso. deixe-me verificá-lo de imediato. . tranquilizando-o. senhor – disse Kelly. Kelly engoliu em seco. – Sebo – disse ele. Roubou meu número de identidade. senhor. olhando para os destroços à sua volta. senhor – Fraser atirou o varão para o canto. vamos a algum lugar onde possamos beber de forma autêntica. mas assim que saímos. Fala-se muito a respeito entre os funcionários.. – Fez uma pausa. ouso dizer. – Por assim dizer. – Suponho que o cofre do Palácio esteja ileso. arrombou a porta e acendeu velas entre seus papéis empilhados. Mallory. não ousou segui- lo hoje. Fraser acenou lentamente com a cabeça.. E já estava longe e seguro antes de o alarme disparar. – Seu amigo. – Obrigado – disse Mallory. Houve silêncio. sr. o homem do punhal no Derby – disse Fraser –. – Ou melhor. esperançoso. como um intelectual e um cavalheiro. – Sabe tudo de mim. dança e moças vivazes. – Mas não tão grande quanto eles talvez almejassem! Guardo todos os meus documentos importantes no cofre do Palácio. pobre. Fraser.. que se consome totalmente e a tudo o que atinge. Não tenho o que vestir! Fraser permaneceu imóvel. senhor. – Deve saber muito de meus horários – disse Mallory. nunca deixo dinheiro aqui. – Sei do que precisa – disse Fraser. – Vejo que enfrenta infortúnios com muita bravura. – Sim. Fraser examinava os restos da escrivaninha.. sem o brilho falso de ornamentos espalhado sobre todas as coisas! Vamos nos afastar do elegante Palácio e ir a um lugar onde não se importem com a entrada de um homem sem nada além do casaco nas costas! – Mallory chutou os entulhos do guarda-roupa. com mesuras. – Ele é um amador insidioso. Mallory – disse Kelly..

quiçá cinco. Estou disposto a arrumar encrenca. senhor. próximo à Fábrica de Revestimentos de Piso Patenteados Bennett & Harper. Mallory avistou os agora enegrecidos pinos de latão de seu casaco militar de Wyoming. tanto assim que pararam no pub mais próximo. de modo aconchegante e abarrotado. apropriado para rejuntes e revestimentos em cozinhas e banheiros da classe média. até a sensação de calma do bom tabaco chegar-lhe ao sangue. Tragou com força. Mallory abriu a charuteira de prata – pelo menos esse bem ainda tinha – e acendeu o último Havana de primeira. Algum tipo de problema industrial. O lugar estava cheio da gente de New Brompton. A visão afligiu-o profundamente. Acho que seria um erro. Não havia sossego para ele ali. saídos de meia . Uma vaga sensação de austeridade hospitalar continuou a perturbar a mente de Mallory. Depararam-se com o primeiro sinal de encrenca a algumas quadras da New Brompton Road. patenteado. Mas é que ainda não viu o Cremorne Gardens. que parecia bastante alegre. doses de um uísque surpreendentemente aceitável. – Não estaria tentando me pajear. onde Mallory tomou quatro. A Bennett & Harper produzia elegante material à prova d’água. cortiça em pó e derivados de carvão. suponho que o seu Cremorne Gardens pode servir em caso de apuros. – Não tenho dúvidas sobre suas disposições. Fraser e Mallory levaram algum tempo para descobrir que a multidão consistia quase inteiramente de policiais. senhor. Mallory não pôde evitar o pensamento. ainda que não parassem de depositar moedas numa pianola que tilintava “Come to the Bower”. Fraser? Suponho que Oliphant tenha mandado pajear-me. finalmente –. passando pela grande pilha de tijolos pardos que era o Diseased Chest Hospital: um lugar medonho tal um pesadelo naquela noite. Também produziam grande volume de efluentes. Fraser seguiu à frente. De qualquer forma. não era o Cremorne Gardens. O dia foi muito inclemente. Fraser. – Por outro lado – disse. Tumultuada multidão de homens uniformizados movimentava-se diante do portão da extensa fábrica. descendo toda a Cromwell Lane. uma canção que Mallory odiava. estaria. – A única coisa que quero ver é o homem do punhal na mira de um rifle de caça! – Entendo perfeitamente o sentimento. feito de aniagem.

além da frota de cabriolés da cidade. O pior de tudo é que parecia haver terríveis problemas com o serviço telegráfico da polícia – interrompido. – Burocratas! – Mallory zombou com entusiasmo. Fraser – disse Mallory. sorrindo por detrás do lenço –. se tivessem estudado direito a teoria do Catastrofismo. significa que todas as coisas ficam duas vezes pior. – Perguntei por que não vimos policiais patrulhando as ruas. e a quem caberia dar o aviso oficial para reativar as caldeiras. ansiosos por não perder a produção do dia. seguida pela Brigada Móvel da Polícia Metropolitana da Bow Street. os quais. suspeitou Mallory. era evidente. de acordo com as medidas de contingência destinadas a lidar com as greves de trem. – Por que não dá um jeito nesses broncos? – Muito espirituoso – disse Fraser. supunha-se. Mas os senhores Bennett e Harper. levados pela urgência do dever por causa de um plano de contingência do governo. Também restava saber quem seria responsável por vigiar a propriedade dos srs. o sistema todo está na rota de duplicação de período para o Caos! – O que isso significa. haviam desafiado a autoridade legal dos homens da patente em interromper os trabalhos. – O senhor é do Departamento Especial. por obséquio? – Basicamente – disse Mallory. sr. mas os trabalhadores da fábrica ainda estavam no local. Bennett e Harper. em termos leigos. A guarda local fora atraída pelo rebuliço. pela pirâmide da Agência Central de Estatística em Westminster. pois ninguém mencionara férias remuneradas. Não supõe que tenha alguma relação com as . duas vezes mais rápidas. que alegaram haver precedente. É uma concatenação de interações sinérgicas. até que tudo desmorona por completo! – Isso é conversa de cientista. Devia haver problemas ali por conta do Fedor. A maioria dos ônibus havia sido solicitada pelo governo.dúzia de chaminés. ao menos. que chegou num ônibus a vapor requisitado pela corporação. Os primeiros oficiais na cena – ou que. deveriam ser interrompidos de forma temporária para o bem da cidade. alegavam a distinção – formavam um grupo de inspetores do Gabinete Real de Patentes. – Deveriam saber que isso aconteceria. A polícia desativara as chaminés de imediato. Devem estar enredados em pátios de fábricas por toda a Londres! – Parece-me estar imensamente satisfeito com a situação – disse Fraser. um excelente trabalho e devido crédito às boas intenções do governo. desocupados e muito impacientes. Logo foram confrontados por dois outros inspetores do comitê industrial da Royal Society. embora os trabalhadores sentissem claramente que as mereciam em tais circunstâncias.

ele agora recordava. De lá. – Poderia tornar as coisas piores. lanternas mágicas. onde a vida era vivida em sua inteireza e a morte era rápida e honesta. pode-se dizer. fenacistoscópios. As criaturas diminutas não tinham interesse prático. na verdade. telescópios para amadores. Mallory olhou nessa direção e viu um insólito vulto espectral emergindo da névoa. mas seu estudo poderia levar as mentes juvenis às doutrinas da ciência genuína. Poderia requerer fundos junto à Royal Society ou. – Profundas raízes metafísicas! Se crio um modelo preciso do fenômeno. senhor? – Só um pouco alto – disse Mallory. Mallory parou diante de uma vitrine que expunha tais microscópios. passara à catalogação de ossos e ovos de pássaros e. eu mesmo deposito muita fé nos modelos criados por Máquina. Um estranho zunido partia da calçada adiante. A visão de um horizonte frio. as roupas tremulando rapidamente à sua volta. senhor. da luneta. à Geographical. mais uma vez em expedição. Fraser! A espécie de coisa em que o velho Hume e o bispo Berkeley costumavam sair-se bem! – Não está bêbado. Poderia cancelar todos os compromissos. onde as lojas ofereciam extravagantes produtos ópticos: calótipos. Questão complicada. tendo a sensatez de deixar a polícia com seu tumulto.questões reais aqui de Londres. que lhe dera seu primeiro emprego na arrumação do Museu de Lewes. – Alegre. O velho Lorde fora um tanto ávido com a vara de vidoeiro. Fraser? Estavam atrás do Chelsea Park agora. senhor – disse Fraser. melhor ainda. Desejou estar fora de Londres. Sim. . meio abaixado. Mas a doutrina pode ser questionada. Havia microscópios de brinquedo para o pequeno cientista da casa. não há dúvida. Estimulado pelo sentimento. Sentiu falta do cantil. a uma verdadeira bolsa em Cambridge. limpo e selvagem. sim? – Pergunta muito interessante! – Mallory acenou com a cabeça. – Eu estava falando em voz alta? – Um pouco. – Onde se pode conseguir um rifle de caça de primeira nesta cidade. como simulacionista ardente. Lembravam-no do velho e amável Lorde Mantell. Mallory sentiu subitamente a perda de seu bom e velho casaco militar de Wyoming. Deixaria a Inglaterra! – Não precisa fazer isso. ou um produto artificial da técnica? É claro. pois os garotos sempre têm grande interesse nos animálculos a retorcerem-se na água dos lagos. da dureza confortável de um rifle sobre as costas. num lugar chamado Camera Square. isso significa que o compreendi? Ou poderia ser mera coincidência. mas provavelmente não mais do que Mallory merecia. um par de bengalas enfiado sob os braços. – Seguiram andando. por fim. está.

alegre patota! Bill Pantera ordena! – Bateu repetidas vezes com as bengalas no chão. saltando e gritando em diabólica alegria. Os outros seguiram gritando e fazendo estardalhaço. soltando um uivo. – Doidos e cabeçudos! – zombou o garoto de sapatos com rodas. desabando como lâminas de guilhotina. e de repente o garoto com rodas nos pés lançou-se para fora do grupo tal pedra partindo duma catapulta. quando o garoto passou por ele como um raio. depois pulou alto e gritou: – Bosta! – Os que estavam à sua volta riram e aplaudiram. – Cara de vinagre! – um garoto malcriado escarneceu dele. – Faz de novo. parecendo inconsciente ou morto. Mallory pulou para trás no último instante possível. – Não gosto do que vejo – murmurou Mallory.. garotos! – gritou Fraser – Onde conseguiram as máscaras? Eles o ignoraram. – Acalmem-se.. Ele saiu deslizando com um grito de endiabrada alegria. Nenhum dos outros tinha calçados com rodas. cada elo acumulando impulso. cada criança segurou a outra pelo braço. – Chapéu danado de feio! – O bando inteiro desatou em estridente algazarra. O garoto virou rapidamente. Um pequeno londrino por volta dos treze anos. tripés. Com gritos enlouquecidos. O jovem Bill Pantera estava caído na calçada. parou com destra derrapada e começou a subir na calçada com o apoio das bengalas. – Avancem todos. – Tesouro! – um dos garotos gritou em tom agudo. mas quase todos usavam a máscara de pequeno pano quadrado que os funcionários da Agência vestiam para cuidar de suas Máquinas. – Bem vestidos demais para serem garotos de rua – observou Mallory. Logo um bando de garotos cercava Mallory e Fraser. formando uma cadeia. Rapidamente. Bill! Outro garoto ergueu a perna três vezes num estranho movimento ritual. Cacos de vidro romperam-se na entrada de uma loja. com botas de rodas de borracha. – Digam. bateu em alguma descontinuidade da calçada e tropeçou. o bando avançou com dificuldade até a frente quebrada da loja e começou a catar todos os itens à vista: telescópios. tubos de ensaio. O garoto sobre rodas ficou na ponta da fila. Seguiu-se um momento terrível de choque silencioso. – Isso foi incrível! – gritou um deles. Os meninos tinham corrido por curta distância e preparavam-se para o jogo do estala-chicote. A cadeia de garotos volteou pela Camera Square. caindo de cabeça numa placa de vidro. – Não deveriam estar correndo por aí com este tempo. – Onde estão seus pais? – indagou Fraser. vocês – ordenou Fraser. .

O vidro trespassara a alça de camurça do coldre de Fraser. meus camaradas! Tesouro! – Cerre os dentes – disse Mallory. – Está ferido. porém robusta. – Socorro! – berrou o menino. – Você tem um corte. e chegaram à frente da loja onde Bill Pantera ainda estava caído. O caco de vidro projetava-se das costas de Fraser de maneira estarrecedora. puxando Fraser pelo braço. – Está machucado. Bill Pantera arrastou-se de gatinhas e ficou de pé num pulo. Ao se aproximarem. Dobrou o lenço para proteger a mãos e arrancou o caco de vidro das costas de Fraser. o fragor musical do vidro. O couro cabeludo estava cortado até o osso e o sangue derramava sobre as orelhas. – Vão matar-nos! – gritou Mallory. Houve um novo estrondo em outra vitrine próxima. Cauteloso. outros cascateando das barras de metal da vitrine. saiu inteiro. Um cintilante caco de vidro triangular saiu girando da neblina. alguns arremessados cegamente até estilhaçarem contra os muros. com os olhos arregalados de choque animal. Mallory puxou o lenço do rosto e tentou sorrir para o menino. vidros estouravam feito bombas. embora não parecesse tão grave quanto poderia ter sido. Estava incrustado nele. Atrás dele. mas o restante agarrou com ferocidade o prêmio e correu como um macaco selvagem. acertando Fraser diretamente nas costas. filho. Fraser foi atrás deles com Mallory em seus calcanhares. – Parem! – gritou Fraser. O grito de Bill Pantera reverberou através da bruma. bandoleiros mascarados! Tardiamente. o garoto ergueu- se pelo cotovelo e meneou a cabeça ensanguentada. Precisa de ajuda. Alguns largaram o objeto da pilhagem. Os garotos fugiram de imediato. inclinou-se sobre o garoto. O policial endireitou-se num espasmo. pepperbox. filho – disse Mallory. sem firmeza. – Tirem as mãos de mim. – murmurou Fraser.. O sangue coagulado manchava a camisa de Fraser até a cintura. Mallory ajudou-o a tirar o casaco. turma! Mallory virou-se para olhar. – Diabos. puxou o lenço e deu três sopros precisos no apito de polícia niquelado. Fraser estremeceu. e gritos de deleite. – Polícia! – Pôs a mão dentro do casaco. – Tesouro. Para seu grande alívio. – Estou é muito bem! – disse Bill Pantera. mas . – Seu coldre segurou a maior parte – disse Mallory. devagar. – Socorro.. – Junto com Fraser. que prendia uma pequena. Talvez um dos outros garotos poderia ser enviado a pedir auxílio.

A situação ficou muito ruim. e seus inimigos são. – Falo a sério. É o mais alto privilégio de minha vida agir como seu paladino. Tal recipiente é o crânio do espécime de brontossauro no Museu de Paleontologia Prática. não atravessou as costelas.. Fraser retraindo-se a cada passo. – Delegacia de polícia – Fraser acenou com a cabeça –. embora estejam muito além de minhas escassas habilidades em Maquinaria. Edward Mallory. – Estava muito pálido. Se isso foi impertinência. Sua provável origem é a delegacia de polícia da Kings Road West. não se alarme por minha segurança.. de qualidade modesta e mal amarelado pelo tempo. – Passe a noite na delegacia.não é profundo. . atrás deles. – Sem dúvida. – Mas não se incomode. é claro. O documento em análise é uma carta holográfica.R. Mallory estava no Cremorne Gardens. não tome medida alguma em meu favor que possa colocá-la em perigo. é provável que seu bem nunca seja recuperado. Não contei a ninguém. Duas horas depois. fi-lo por livre vontade. Seguiram a passo ligeiro. Imploro-lhe. pois não há mais ninguém. Seu pedido é honrado por mim como uma ordem real. O material do papel.S. e a folha dobrada às pressas. é do tipo de uso comum do governo em meados dos anos 1850. Nenhuma alma humana sabe disso. Precisamos estancar o sangue. Kings Road West. diz o seguinte: Madame. Nova cascata de vidro quebrado ecoou ao longe. Por favor.S. Creio ter alguma ideia de seu uso. F. exceto a senhorita. Examinei os cartões. e O mais humilde criado de Sua Senhoria. na Jermyn Street. mas a análise holográfica confirma tratar-se da caligrafia autêntica de Edward Mallory. Caso o pior me aconteça. Quando fiquei com sua propriedade sob minha guarda. – É melhor que fique comigo – disse ele. Mallory. Envolvi os cartões com segurança em linho limpo e selei-os pessoalmente dentro de recipiente hermético de gesso. – Certamente – disse Mallory. escrita rapidamente e em condições que sugerem alguma perda de coordenação muscular. mas há risco de fato. meus próprios. em tinta desbotada de bico de pena gasto por longo uso.G.. Não há data. Todo risco nesta batalha assumo de bom grado. peço perdão. Sua propriedade repousa agora em perfeita segurança cerca de nove metros acima do chão. F. O texto. Mas alguém precisa saber. O cabeçalho foi removido.R. Concluo que a senhorita tem de ser minha confidente.

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instava clemência para com os luditas. Mallory pedira uma folha de papel da delegacia e pôs-se à tarefa de compor uma carta. a delegacia da Kings Road fora aos poucos ocupada por . um leão britânico coroado pousa com exuberância acima das espirais obscuras duma serpente derrotada. arabescos ornamentais e figuras representativas da história inicial do Partido Industrial Radical. Este objeto foi um dia propriedade do Inspetor Ebenezer Fraser.ESTE OBJETO É UMA PLACA FUNERÁRIA patriótica em densa porcelana branca. foi gravada a pontilhismo de Máquina sobre um filme de material transparente.” Embora tal comentário possa ser apócrifo. está inteiramente de acordo com o que se conhece da personalidade do primeiro- ministro. em fevereiro de 1812. As placas em si eram de fabricação padronizada. teria respondido: “Mas havia luditas. senhor. muito provavelmente destinada a representar a causa ludita. rachado e amarelado pelo processo do tempo. o qual foi transferido em seguida à placa. esmaltado e queimado. do tipo produzido para celebrar as mortes da realeza e de chefes de estado. entre arabescos em pontilhismo. observando o trabalho do cirurgião da polícia com chumaço de algodão sujo e bandagem. questionado a esse respeito. tanto durante como depois da chegada de Byron à liderança. Por vezes comentava-se. Mallory ficara com Fraser. A imagem de Byron. Enquanto isso. cercada de grinaldas. À esquerda de Byron. Dezenas de milhares desses objetos foram vendidas por toda Inglaterra durante os meses que se seguiram à morte do primeiro-ministro. mas a ordem que os próprios Rads haviam estabelecido. do Departamento Especial da Bow Street. são visíveis as feições de Lorde Byron. e depois havia luditas. Pois esta foi uma forma de o ludismo atacar não a velha ordem. Abaixo do esmalte originalmente incolor. que seu discurso inaugural na Câmara dos Lordes. Muitos acreditam que o próprio Byron. prontamente mantidas para o caso de falecimento de qualquer personalidade relativamente notável. e pareceria aludir à extraordinária severidade com a qual dominou e suprimiu o movimento popular anti-industrial sediado em Manchester e liderado por Walter Gerard. até ter certeza de que Fraser estava completamente distraído. Para atenuar ainda mais as evidentes suspeitas de Fraser.

pedira informações a um sargento exausto e aborrecido. e prostitutas. é claro. de belas formas. Mallory não era muito de dançar. mesmo nas melhores ocasiões. Dos restantes. anotou-as com cuidado na caderneta de campo e deixou a delegacia com cautela. E o cheiro não era tão ruim ali. O sol se pusera. corrompido pelo Fedor ou adulterado com sal volátil. indiferentes. mas Mallory não estava com ânimo de passar a noite na cama estreita e sem graça de uma cela barulhenta. dançava com um cavalheiro mais velho de barba. mas não totalmente desagradável. o famoso Círculo de Cristal. O sujeito era robusto. Muito interessante como fenômeno social. construções extravagantes de gesso e. O local tinha vívidos canteiros de gerânio. e parecia acometido de . Ninguém no Gardens parecia estar a par dos acontecimentos do outro lado da cidade.bêbados desordeiros que vociferavam e várias espécies de amotinadores. Mallory tomou mais dois uísques no bar da plataforma. e a névoa era moderada pelos grandes ramos frondosos dos elmos antigos do Cremorne. Não teve dificuldades para encontrar o Cremorne Gardens. O Gardens ficava em Chelsea Reach. O uísque era barato e tinha cheiro peculiar. Então. um tanto duvidosa. das ondas de choque de destruição localizada que ainda não penetravam o sistema. a presença de milhares nessa noite. pois a coisa tinha a cor de cerveja de malte ruim. As doses de uísque caíram-lhe no estômago como dois carvões em brasa. E também a “plataforma do monstro”. Uma mulher alta. alguns casais aventurando-se numa valsa constrangida. Observou as mulheres. grande salão de baile com telhado e sem paredes por onde milhares teriam passeado. Era bastante calma. áreas de grama bem aplainada. ou eram casais enamorados enfrentando todos os aborrecimentos para se encontrar. Ou talvez anamirta. Havia pouca gente dançando. Estas cem estavam cansadas do confinamento. potassa ou quássia. Mallory foi capaz de imaginar o charme bucólico dos jardins em tempos mais felizes. turvadas. e um grande panmelódio tocando uma seleção de óperas favoritas. presumiu Mallory. e não mais de cem eram respeitáveis. mais ou menos desavergonhadas. no entanto. cintilavam para a alegria do público. bem acima do pior do Tâmisa. e comida. mais ou menos desesperados. Havia leve brisa noturna vinda do rio. A situação ali era bela indicativa da dinâmica da cidade em crise. agradáveis coretos encobertos por trepadeiras. Havia barracas de bebidas no interior. Talvez trezentas pessoas circulassem. Sua vontade estava teimosamente voltada a outra espécie de coisa. dançado valsa ou polca sobre a plataforma de madeira com marcas de sapatos. e mil luzes a gás. dois terços eram homens. Não havia.

Ele trouxe-lhe uma flûte de champanhe e retirou de Mallory o dinheiro. dê à dama o que ela quer. mas a expressão dele demonstrava relutância e aparente desdém. descendo até as costas. Ele pôde vê-lo enquanto ela caminhou – deslizando. Não havia ali enchimento ou barbatana.gota nos joelhos. como que dando risadas. os maravilhosos quadris e a linha das costas. – Garçom. Ela esboçou algo como uma mesura hesitante. Foi como se tivesse levado um chute daquela perna. choroso. de touca e aparência modesta. e a saia subiu atrás quase até a panturrilha sob a meia vermelha. Não era exatamente um rosto feio. das mulheres. mas não o disse de forma direta. quase flutuando – até o bar. A garota conversava com visível entusiasmo com o estrangeiro. sorriu e olhou para ele entre cílios semicerrados. havia uma expressão impetuosa e arrebatada nos olhos cinzentos e estranho aspecto voluptuoso na fisionomia que o surpreenderam naquele instante. A visão da perna musculosa excitou-o com um choque de intensa lascívia. O balanço das anáguas sugeria a forma e o tamanho dos quadris que estavam por baixo. No entanto. e disse que os amigos pagariam. Tinha estranha maxila alongada. Em seguida. sobrancelhas grossas e uma boca volúvel que parecia vir de soslaio. Mallory foi até o bar. Mallory caminhou lentamente na direção deles. O panmelódio começou a tocar outra melodia. – Sabe do que eu gosto mais. os saltos de metal das botas cintilando. . O par parou e afastou-se na direção de um grupo de amigos: uma mulher mais velha. mas discutindo com ele. duas outras jovens que pareciam meretrizes iniciantes e outro cavalheiro mais velho que parecia estrangeiro e desolado. O garçom não acreditou. depois virou-se de costas para ele. ou de uma das Alemanhas. Mallory não via seu rosto. Ela não estava de pilhéria com o garçom. Tinha belos tornozelos sob meias vermelhas. Mallory viu seu rosto pela primeira vez. da Holanda talvez. e as saias estavam cinco centímetros acima do que permitia o decoro. recuperou-se. Belas e firmes costas femininas e cintura fina. A dançarina conversava com as outras raparigas e jogava a cabeça para trás. mas definitivamente modesto. Ela estava com sede e não tinha dinheiro. mas o cavalheiro corpulento parecia sem fôlego. Mais uma vez. Nicholas? – Disse ao garçom. ao modo meio angustiado. mas a mulher estava ereta como uma flecha e dançava com a graça de uma profissional. Ela olhou-o com ofendida surpresa. Ela se apoiou no balcão para motejar com o garçom. E o corpo era esplêndido. Tinha belos cabelos castanhos e uma touca amarrada no pescoço. Mallory bateu de leve no balcão com um xelim. lábios emoldurados com brilho vermelho.

Foi até ela. Meu nome artístico. com um movimento no canto dos lábios e malicioso sorriso. Mas meus amigos chamam-me Hetty. Ela pegou-lhe o cotovelo e sorriu. – Gosto de você. . – Está bem – disse Mallory. – Adoro champanhe – ela disse a Mallory. não? Mas parece bondoso. – Podemos tomar o barco a vapor no píer de Cremorne. sim? – Não é muito caro. Eu temia ter de dormir no parque! – E quanto a seus amigos? – perguntou Mallory. – Posso ir para casa com você? Ela olhou-o de cima a baixo. mas suas pernas são uma maravilha. é? Cavalheiro em viagem. Mallory não esperou. surpreso com a objetividade da moça. com um “e” no final. – É uma caminhada de oito quilômetros. – Harriet Edwardes. é isso o que quero. Ela riu. Ela firmou-o e.. Ele cambaleava um pouco no passeio de cascalhos. Pode me dar um soberano se eu dormir com você? Mallory. Caminhou lentamente pelo passeio do monstro e olhou para outras mulheres. Ned. em seguida. – Desceram os degraus da plataforma do monstro.. Ofereceu-lhe o braço. – Sim. encarou-o com audácia. – Por que não gostaria? – ele disse. – E voltou a juntar-se aos amigos. – Os trens não estão funcionando. O belo pescoço revelou um pedaço de renda feita à máquina na reentrância da garganta. A garota jogou a cabeça para trás como se quisesse dizer que não se importava com eles. – Descendo o Tâmisa. Não moro aqui em Brompton. moro em Whitechapel. – Está um pouco embriagado. E não podemos mesmo tomar um cabriolé. mas então viu a garota alta de rosto modesto acenar. – Dançamos como uma pluma quando bebemos champanhe. mas pode não gostar – ela disse. Como o chamam? – Edward. na direção da escuridão permeada por luzes a gás cintilantes. – Não me refiro a isso. – Não é de Londres. – É longe. atravessado mas voluptuoso. – Tenho um quarto muito agradável. – É o meu nome também! – ela disse. – Oh – disse Mallory. nem uma moeda de dois pence. – Quero voltar para Whitechapel. Pode me levar? Não tenho dinheiro algum. não disse nada. pois achou que poderia bem ser um engodo. Você dança? – Abominavelmente – disse Mallory. a maioria das vezes. – Responderei daqui a um minuto. – Pode ficar a noite toda – ela disse. – Creio que posso ir com você.

Ela cheirava a suor salgado. e não compensa. pois estou com más intenções para esta noite. Deu à garota um xelim para pagar a tarifa de quatro pence e encontrou uma cadeira de lona próxima à proa. – Tem bebida. Ela deu um gritinho surpreso e depois lhe jogou os braços em torno do pescoço. – Creio que não vai gostar do que verá nesta viagem. as pás laterais jogando água para trás. Por favor? Ela olhou para os dois lados do caminho. – Como você fala. Não me surpreende que seja uma artista. ergueu as anáguas até os joelhos e depois as soltou. Mas policiais não falam assim. achei que fosse policial. – Mas mostre-me suas pernas agora. – Poderia posar para pintores. – Gosto de ver Londres. Eles correram até lá e embarcaram momentos antes da partida. – Gosta de garotas malvadas. – Maldita escuridão na cidade. é mesmo – ela disse. Beijaram-se longamente. colocando-se ao lado dele. abaixo da copa escura de um elmo. Agarrou-a pela cintura afunilada. bêbados ou sóbrios. Ned. – Gosto bastante – disse Mallory. – O governo tem um plano de desligar as luzes a gás . – Temos de chegar em casa. no início. se você ficar comigo – ele disse. – Engraçado. – Por que será. – São uma perfeição – ele disse. Estava mais embriagado do que gostaria. Ela cravou-lhe os olhos cinzentos e atrevidos. apertou a mão contra o seio intumescido e beijou-lhe a boca. Ned? – O quê? – Por que está tão escuro? É a neblina? – Luzes a gás – ele disse. Ela afastou-se um pouco. – Ora. Um barco a vapor ressoou no píer do Cremorne. apertando as pontas dos dedos para recuperar as sensações. Está bem? – Está bem – ele disse. rosa-chá e boceta. Hetty. Ele se perguntou se ela teria muito pêlo ali e de que cor seria. – Um momento – disse Mallory. – Gostarei. Ele sentiu a língua dela nos dentes. – Não gosta de elogios? – Não. Levantou-se. O esforço fez o uísque subir à cabeça de Mallory. andou até o corrimão da proa e segurou-o com força. Ned? Espero que sim. com a respiração intensa. A pequena balsa ganhou velocidade. são encantadores. Mas gosto de champanhe também. e riu. – Vamos entrar no salão – ela disse. parecia tão severo e solene. – Já posei para pintores – ela disse –. Ele desejava ardentemente ver. – Tem o corpo de uma deusa. Ned – ela disse.

Hetty. um dia as luzes se apagam e. E não contam como as sabem. Hetty. – Não é que está rijo! – Retirou a mão e abriu um sorriso triunfal. Quando encontra uma garrafa. Mallory olhou às pressas para o convés à sua volta. E qualquer coisa pode acontecer então. para sempre. Ned – disse Hetty. – Eu gostaria de contar-lhe. Por isso se trata de um sistema dinâmico aberto. ela pôs a mão na frente das calças dele. Havia outras pessoas do lado de fora. mas nunca ultrapassa as fronteiras. Totalmente cego e alheio. . dá voltas e todos os movimentos que faria um patinador. então. – Que inteligente da parte deles. Em seguida sai vagando à procura de outra. – Como sabe disso? Ele deu de ombros. o homem está sempre andando de um lado para outro. totalmente bêbado. – Num movimento suave. Ele anda sem cessar pela sala. Há um demônio que repõe as garrafas de modo constante. mas era difícil saber na escuridão brumosa. muito natural. – Não. sim? – De quê? – Não sei o que significa isso que acabou de dizer. Gosta de pensar a respeito. É como.. pois a treva externa é o Caos. mas deixa-a de lado e esquece-a de imediato. – Agora as pessoas estão correndo pelas ruas escuras. Nunca acaba. repetidas vezes. O uísque está escondido. – Você provoca – ele disse. no mesmo instante. destruindo tudo o que veem. com a voz tão clara quanto tinta descascada. – Londres é um sistema complexo fora de equilíbrio. numa sala com garrafas de uísque.porque soltam muita fumaça.. bebe bastante. – Não gosto de policiais.. ele corre precipitado para fora da sala. – Não é policial? – Não. Estão sempre falando como se soubessem coisas que você não sabe. absolutamente qualquer coisa. mas posso ver que lhe agrada. como um homem embriagado. – E gosta disso. procurando-o. – Depois a bebida acaba e ele tem de comprar mais – disse Hetty. na direção da treva exterior. Parecia que nenhuma delas estava olhando. É o Caos. dez ou mais. – Eu poderia contar-lhe – disse Mallory. sem nunca saber qual poderá ser o próximo passo. Mas você não entenderia. Assim. – É claro que eu entenderia. – Adoro ouvir homens inteligentes. anda em círculos..

Detestava problemas em tais questões. Hetty entrou na saleta com a candeia acesa. Ela notou o tinido da moeda. havia uma pilha desordenada de tabloides ilustrados. e ela fez uma festa. alguma paralisia na perna. então? – Sempre estão – disse Hetty. apesar do Fedor. Hetty acendeu uma candeia no pequeno corredor apertado de seu aposento. com enérgica satisfação por estar livre do pavor da asfixia pela neblina nas ruas afastadas de Whitechapel. Na obscuridade. Em seguida. – Eu poderia comprar um selo aqui? – Lá dentro – disse Hetty –. entregues de alguma forma. Um gato preto saiu correndo. Deixou-o sair pela escada. no andar superior da Flower-and-Dean Street. com tampo em pranchas. – Oh. acariciando-o e chamando-o de Toby. por favor! Estranha curiosidade manteve Mallory no lugar em que estava. passou por ela com algum esforço e entrou na sala de estar. – Ah – disse Mallory. O Tâmisa enegrecido exalou uma torrente abjeta de mau cheiro junto ao som encrespado de borbulhas. Mallory deixou um soberano de ouro sobre a mesa. você – ela disse. – Vi gente desmaiar. – Por que as balsas ainda estão trabalhando. resoluto e infeliz em sua paciência. agora. – Fica ainda pior? Rio abaixo? – Muito pior – disse Hetty. ele conseguiu distinguir encorpadas manchetes impressas à Máquina lamentando o lastimável estado de saúde do primeiro-ministro. e rosas desbotadas floresceram no papel de parede empoeirado. colocando a mão sobre a boca. com um sorriso. – Imagine só. Sobre a mesa quadrada. O velho Byron estava sempre simulando doença. – Ponha para fora e verá como provoco. – São embarcações de correspondência. As pás de roda em movimento mudaram de curso de repente. já se virando. e sempre pagava adiantado. um homem dizer isso – ela disse e riu. Mallory. e pode comprar algo para mim também. a qual abriu com veemência. jogando a cabeça e as tranças castanhas para . oscilando. entre os dedos. – Vamos entrar no salão. é horrendo – gritou Hetty. até a porta. pulmão reumatoide ou fígado cirrótico. – Prefiro esperar a hora e o local apropriados. miando. Mallory observou-a. Ned. chutou as botas enlameadas e caminhou. – Bem.

e que estaria seguro. maravilhado com o corpo firme da mulher através do véu fino e obsceno da combinação. rouco. – Não é daquelas esquisitas – observou ela. Estava ansioso para retirá-lo das calças. A estranha sensação tinha o poder de estimular sua virilidade. e tirou as calças e as roupas de baixo. pensou Mallory. Inclinando-se para fora da cama. sentiu a língua dela se retorcer em seus dentes tal enguia quente e escorregadia. Hetty pulou na cama com a combinação. Mallory sentou-se na beira da cama. Mallory. que parecia um dia ter custado algum dinheiro. Movimentou-se com esforço sobre ela. Retirou os braços das mangas e jogou a peça para o lado. apenas com a combinação de renda. Parecia-lhe mais que sabia o que estava fazendo ali. com evidente alívio. afinal. e também teria o que pagara. querido. mas não desejava desfilar com o pau ereto à luz da lamparina. Mallory tirou o casaco e os sapatos. O quarto era bastante pequeno e deteriorado. animada. depois o passou por cima dos quadris e ficou parada ali. O membro apertava os botões da braguilha. Mallory assentou com cautela o artifício sobre a pele tesa do membro. apoiando-se nos cotovelos. como se a intenção fosse grudar nele a bocarra torta. Entrou debaixo do lençol desbotado. e abriu caminho até estar a peça acima da cintura dela. respirando aliviada. feliz pelo ato de precaução. Hetty colocou a candeia sobre o compensado de uma cômoda de cabeceira em lâminas separadas e começou a abrir os botões de sua blusa. ficando de camisa. ele desabotoou um compartimento da cinta porta-dinheiro e retirou uma camisa de vênus. como se roupas fossem apenas um incômodo para ela. – Não gosto. – Ela puxou o cós da anágua e colocou-a de lado.trás. surpreso. com uma cama de duas colunas em chapa de carvalho e um alto espelho móvel embaçado. Segurou com destreza os ganchos de arame do espartilho e afrouxou os cordões. então. e as molas gastas reclamaram alto. – Usarei armadura. – Não usa crinolina – comentou Mallory. Hetty passou-lhe os fortes braços pela nuca e beijou-o com ímpeto. querida – ele murmurou. – Faça como quiser. Hetty soltou gemidos entusiasmados enquanto Mallory andava às apalpadelas na lã úmida . Livrou-se da saia com habilidade e começou a remover o espartilho e uma anágua rija e amarrotada. – Está bem assim? Hetty ergueu-se. – Deixa-me ver. Mallory mostrou-lhe a membrana de tripa de carneiro. que cheirava fortemente a água de flor de laranjeira barata e a suor de Hetty. Assim era melhor.

Não comia há muitas horas. Mas igualmente faminto. Ned. e a cama rangendo e sacudindo sob eles como um panmelódio desafinado. Ned. Ela parou de chupar-lhe a boca quando começaram o coito. no Hart. vamos comer algo. É a minha senhoria. Cairns. Hetty beijou-lhe o rosto barbado com a expressão meio tímida e com o pestanejo de uma mulher conquistada pelo desejo.entre suas pernas. Agora. ele gozou de modo abrupto. Logo estavam respirando tal gurneys a vapor. que mora aqui ao lado. no entanto. A moça que morava aqui. – Excelente – disse Mallory. Por fim. e dela também. voltando para a cama com o coro de rangidos. mas a breve visão de seu magnífico dorso provocou nele uma onda de gratificante fascinação. Depois de demorado momento. Ela revira o pobre marido toda quarta-feira e mantém o prédio todo acordado. querido! – Hetty abriu largo sorriso à luz da lamparina e coçou-se sob o lençol. – Abrimos a janela? O calor está infernal. – Podemos pedir um belo petit-souper lá embaixo. – Oh. A sra. Puxou a peça. Sentiu-se grato a ela. Hetty estendeu a mão sem cerimônias e enfiou o pinto dele em sua boceta.. De fato sabe como fazê-lo. Mallory removeu com cautela a camisa de vênus. Cairns pode mandar trazer. querido! – ela gritou de repente. num rápido staccato. ouviu-se uma batida em resposta. – Por que não? – Os caixilhos estão todos bem pregados. – Sua amiga fica acordada até esta hora? – disse Mallory. como sempre sentia com qualquer mulher que o obsequiava. – Não. sim? Estou morrendo de fome. como se o sêmen fora arrancado contra a vontade de seu corpo pela irrupção rígida e lasciva dos quadris dela. Abalado por ouvir uma mulher falar de forma direta em meio à cópula carnal. no . – Ótimo – disse Mallory. e um pouco envergonhado de si mesmo. – Está acostumada com este tipo de trabalho – disse-lhe Hetty. – Seja como for. – Que ótimo e grande! Eu vou gozar! – E ela contorceu-se debaixo dele numa semiconvulsão. – Hetty saiu da cama. – Foi muito bom mesmo. as janelas não abrem. fincando oito unhas afiadas nas costas dele.. – Nunca se preocupe com a sra. que se alargara mas não estava rasgada. a combinação enrugada para cima. e jogou-a no urinol. – Terá de pagá-la e dar uma gorjeta. não deixe o Fedor entrar. parecendo impaciente. Após um momento silencioso e ofegante. Ela bateu na parede do quarto com as juntas dos dedos. rolando para fora do ninho suado dos quadris dela.

Após encher duas flûtes de champanhe. Connaissez-vous poses plastiques? – Não. quando mais jovem – disse Hetty. amassada e com rachaduras e exibiu um pão deformado. Sybil alguma coisa. não que eu tenha visto.inverno passado. Hetty terminou as salsichas. ainda assim. mostarda. com muita compostura. os desgraçados. procurando por ela. Bebeu uma taça do champanhe acre e ruim e comeu o presunto esverdeado em famintas bocadas. ela nunca trazia seus homens aqui. E maltrataram-me também. – Donnez-moi quatro xelins – ela disse. mas os policiais acabaram batendo à nossa porta.. – Vamos lavar-nos – ela disse. prendeu-a e esmagou-a entre as unhas dos polegares. Você a viu esta noite em Cremorne. bem. deixando que os cavalheiros admirem-nos. com ar pomposo e refinado da gentry. Num gesto sanguinário. Eu sou uma meretriz que posa. – Voltou com uma tina . e costumava cantar de vez em quando. Então. duvido que queira saber.. Hetty retornou com uma bandeja laqueada.. – O champanhe desce direto pela gente. foi sorte minha que você tenha aparecido. Mallory puxou a barba. de mamilos escuros sob a fina combinação. que desapareceram quase no mesmo instante em que ela retirou-se. Sybil Jones. ela começou a comer a ceia. É minha agente. – O nome do sujeito era. a menos que queira. – Como aconteceu. um pedaço de presunto. então? – perguntou Mallory. Winterhalter. como dizem. levantando a combinação até a cintura. sem falar. Mallory tinha o olhar fixo nos braços e ombros sardentos e no volume dos seios pesados. essa Sybil Jones? – Teve um filho de um membro do Parlamento. e refletiu um pouco sobre a singeleza do rosto. Ouviu-se uma batida à porta do corredor. – Vestimos collants cor da pele e ficamos sem fazer nada. Criaturinha estranha. Fechou todas as janelas com pregos. – Pegarei uma bacia. quatro salsichas fritas e meia garrafa empoeirada de champanhe morno. pobre criatura. com um sorriso torto. saiu da cama e agachou-se ao lado. não? Preciso do penico. e aqueles diplomatas suecos que falavam com a gente estavam apertados tal cu de galinha. se é que sabe de que espécie falo. Hetty levantou-se. O movimento estava um horror esta noite. – E o que ela fazia. Eu nem sequer sabia seu nome verdadeiro. e escutou o estrépito do xixi. como se eu soubesse o que ela fazia ou quem eram seus amigos.. por educação.. agentes especiais. Acabaram levando-a. Não olhe. – Ah. mas terrivelmente amedrontada de seus inimigos. Mallory deu-lhe algumas moedas. A sra.. Então. – Mallory notou sem surpresa que uma pulga pulara sobre seu joelho nu. creio. – Mallory olhou para o lado. Ela era a meretriz de um político.

. desceu ao chão e fez um espacate. sem me mover. por cinco minutos completos de cada vez – ela disse. Por que não me foder sem aquela horrível pele de linguiça e economizar nove pence? . arrastando o calcanhar e o dedo do pé. Passou a esponja nas axilas molhadas. – Tem relógio? Dez xelins e eu o faço! Aposta que consigo? – Tenho certeza de que consegue – disse Mallory. engolindo um pouco as palavras. num gesto suave. curvando-se à cintura. As grandes nádegas firmes eram impecáveis. Depois o molhou na bacia. – Por um xelim? – Está bem. Vamos dar uma olhada no seu pinto. – Trepar pelados é ótimo numa noite de calor brutal como esta. você tem um corpo firme e bonito.esmaltada com água malcheirosa de Londres e esfregou em si uma esponja. mas a harmonia arredondada das panturrilhas e coxas eram maravilhas da anatomia mamífera. afastou-lhe a pele e examinou-o. – A maioria das garotas de Londres é tão acanhada que quebraria ao meio se tentasse fazer isto. querido. Hetty curvou-se com graça. Pareciam a ele estranhamente familiares. Começou a girar lentamente. então. – Gosta? – Maravilhoso – disse Mallory. Eu sempre gosto de trepar nua. o suor acumulado por todo o corpo. e vamos foder nus em pelo. e olhou para ele bêbada e triunfante. Ela livrou-se da combinação com evidente alívio. Ocorreu-lhe ser provável que fossem exatamente as mesmas. ele está ótimo. como as nádegas de mulheres brancas que vira em dezenas de pinturas históricas. não há nada de errado com você. consigo pôr as duas mãos inteiras no chão – ela disse. – Seu rosto de queixo alongado tinha expressão excitada. Nossa. os olhos cinzas salientes. segurou o tornozelo esquerdo e ergueu-o acima da cabeça. Mallory tirou a camisa. – Olhe. – Tire a camisa. – Ela agarrou-o sem rodeios. e gosto de homens peludos. sem dobrar o joelho.. – Eu não vivia até vir a Londres – disse Mallory. – Não está doente. Ela sorriu ao olhar dele. – Suas formas são esplêndidas – disse Mallory. – Gostaria de ver-me nua? – Muito. Ela avançou em sua direção com a tina esmaltada. – Em seguida. A boceta de belos lábios era coberta por pelos castanhos avermelhados. deslumbrado. – Consigo manter-me numa pose. As mãos e os pés dela eram pequenos. Havia bebido quase todo o champanhe.

Um bramido soou em seus ouvidos. Vestiu outra camisa de vênus. ótimo. Era francesa de Marselha. – Hetty envolveu-se num penhoar de seda amarela. gemendo entre dentes cerrados mediante o fluxo ardente em seu pênis. Não. À luz da lamparina. Estava bêbado feito um lorde. parecia. pelo pecado. Casou-se com ele. – Está bem. – Colocou o engradado no . surpreso. Mas tomou um navio para o México francês no mês passado. – É um demônio obsceno. depois montou nela. gritos agudos ao longe. Hetty deu-lhe quinze xelins. Mais refrescante que aquele champanhe. exatamente? – Cigarros turcos. os olhos fechados e a língua aparecendo no canto da boca torta. Penetrou-a despido. meu Ned. Gosta de papirosi? – O que é isso. O peso logo retornaria ao coração. Uns brigões. Ela acompanhou o galope sob ele. – O pescoço e os ombros dela estavam vermelhos do calor pruriginoso. levantando-se. Mallory ficou deitado à vontade. mas a pele grudenta das grandes tetas parecia bastante fresca contra o peito nu dele. da Crimeia. Finalmente. e fincou os calcanhares no traseiro dele. com forte cheiro de champanhe ruim. então. mas por ora o prazer carnal o elevara. pareceu. ele gozou. Vamos tomar uma boa cerveja engarrafada. – Era doce. apesar das barras desfiadas. – Assim como você – disse Mallory. leve como uma pluma. O suor pingava de ambos. meu querido. com um de seus soldados da embaixada. parecia uma vestimenta fina. a sortuda. e infalível. – Gabrielle morou aqui após Sybil sair. cinco. – Nove pence não é muito – disse Mallory. – E papirosi. – Fuma tabaco? – ele perguntou. – Tem troco para uma nota de uma libra? – disse Mallory. Estão na moda. redobrado. estrondos que poderiam ser tiros. sem dúvida. a Gabrielle. Ficou ausente por longo tempo – conversando com a sua Senhoria. com expressão aborrecida. – Aprendi com Gabrielle – ela disse. desde a guerra. e gosto de fazer sexo com um homem que sabe como tratar uma garota. e sentir-se um lorde era extremamente agradável. suando como um ferreiro. Ela deu de ombros. – Demorou – ele disse. Hetty retornou carregando um engradado de arame cheio de garrafas com uma das mãos. – Eu sou. e desapareceu na sala de estar. e ele sentia-se completamente livre. Donnez-moir quatro xelins. ofegante. ouvindo estranhos ecos distantes da grande metrópole: campainhas tocando. e pitando um cigarro com a outra. querido. – Pequeno problema lá embaixo.

errou o alvo. – Estou com uma disposição fora do comum hoje. e bebeu com avidez. que soube de um conceituado serviçal . mas Mallory parou de repente. granulosas. acho. – Tire o robe – disse Mallory. – Você é danado. – Ela tirou o robe. raspando o fósforo num pedaço áspero de gesso. Três. A parte de trás da cabeça latejava. o que parecia fazer séculos. imagino. puxou uma garrafa e lançou-a para ele. Tampouco você. atirou-o no cabide de ferro atrás da porta. Ótimo. Uma cervejaria moderna onde fabricavam a bebida em enormes tonéis de aço quase do tamanho de um couraçado de batalha. estava escrito na garrafa. Hetty soltou o pênis dele e cruzou os braços. dois meses. Hetty pegou em seu pênis mole e começou a acariciá-lo. – Sabia que Lady Byron açoita o marido nua? O pau dele não levanta se ela não bater no traseiro dele com um chicote de montaria alemão. Excelente cerveja feita à máquina. – Não me deu meu xelim.. e bocejou. Gosto de você. Soprou fumaça pelo nariz de estranho formato – uma visão desconcertante. Ned? – Hm. Suas pálpebras ficaram pesadas de repente. Gosto de ouvir isso..chão. – Havia sido uma prostituta no Canadá.. cortiça e alavanca de arame. não? Mallory desprendeu a complexa tampa de porcelana.. Neddie. – Quando foi a última vez em que esteve com uma mulher. – Ouvi coisas que você não imagina. – E quem era ela? – Ela era. então. para Mallory. – Por que pergunta? – Conte-me. são as que ficam na adega. deu o último trago da garrafa e abriu outra. com letras em relevo no vidro.. – Sem dúvida – disse Mallory. isenta de qualquer mácula fraudulenta de jalapa ou anamirta. onde Velasco o acertara. – Veja que fresca. educadamente. – Aqui está. – Num instante – disse Mallory. e ouvi isso direto de um policial que foi um doce comigo. Recostou-se na cabeceira da cama. Terminou sua cerveja.. cerveja de newcastle. Gosto de saber o que os grã-finos fazem. – Não sei nada sobre isso. Hetty entrou debaixo do lençol com seu robe. depois acendeu outro papirosi. Parecia fazer séculos desde que fizera qualquer coisa a não ser beber e copular. aposto. – Pensa que não sei de nada – ela disse. Ela enfiou a moeda debaixo do colchão e sorriu. Vamos de novo.

mas a ideia de que se deixasse possuir por homens. É a maior prostituta de Londres. seus paladinos. – Seu conhecimento é impressionante. – Pegue o pano e dê uma boa lavada neles – sugeriu. – Notável – disse Mallory. Veja o que me fez. e todos eles ficam grudados na barra de sua saia como garotinhos. e não há quem ouse espiar o que faz. como se seu corpo pertencesse a outra pessoa. sim? – A família Byron é terrivelmente obscena e pervertida até a raiz.da casa! – Ah. hein? Sem dizer palavra. mas é adepta do açoite. de que havia esfregações e gozos. Mallory inclinou-se e deu início à tarefa. – De fato. adorando-a tal como os padres católicos fazem com a Madona. – Por que diz isso? – Porque vai para a cama com quem bem entende. como você fala.. Neddie. Hetty observou com olhos semicerrados. que bebia avidamente outra garrafa de cerveja. então? Hetty não disse nada por um momento. – E quanto à filha deles. domina os dados de seu ofício. soltou uma gargalhada explosiva. – Ai. Ela deu-lhe um sorriso zombeteiro e pegou o cigarro aceso na beira da cômoda. A espuma esguichou sobre o peito. Não fornica com outros homens. Ada. Hetty. mas nos tempos de mocidade Lorde Byron comeria uma ovelha. Ele surpreendeu-se com a gravidade de sua expressão. Mallory soltou um grunhido. Tratava-se de conversa de meretriz. Todos se juntam ao redor dela e protegem-na. Ele sabia que Lady Ada tinha seus galanteadores. – É uma sonsa. tragando o cigarro e batendo a cinza no chão. Esteve com metade da Câmara dos Lordes.. Deus – ela disse.. os outros cuidam para que esse tenha muito amargo fim. Foderia uma moita se achasse haver ali uma ovelha! E a esposa não é nada melhor. tossindo. algo inapropriado de se dizer. e se qualquer homem falta com a palavra e ousa pronunciar algo contra ela. Ele está velho demais agora. – Nossa. – Aposto que gostaria. A cabeça revirou como se houvesse bebido uísque. Apanhou a bacia e embebeu a toalha de rosto para então friccionar o tecido molhado cuidadosamente nos seios e na elevação branca e carnuda da barriga ao redor da covinha do umbigo. Após . esfregando os seios. Hetty – murmurou Mallory.. Melhor não pensar a respeito. cacetes e bocetas no leito matemático da Rainha das Máquinas. – Sinto muito – disse Mallory. E denominam-se os favoritos dela.

e assim. pois Mallory acolheria a oportunidade de nunca mais deixar aquele platô de sensibilidade. No meio do caminho. e Hetty. que nada o deteria. quase perdendo a ereção ao fazê-lo. quase dolorosamente tenra dentro de sua armadura de tripa de ovelha. Finalmente. passou-lhe pela cabeça simplesmente parar. e gozar parecia tão difícil e complicado quanto remover um prego enferrujado. ofegando intensamente. e logo recuperou a rigidez em meio à carne acolhedora. e ele suara metade do uísque pela pura agitação. Ele sentia-se disposto a morrer. e avançou obstinadamente na direção do clímax. sobreveio a sensação de clímax e derretimento no púbis que lhe dizia que o gozo estava próximo. mas sempre que a via Mallory se lembrava da expressão de prazer desvirtuado no rosto sardento. Por um momento. um tanto desajeitado. As molas da cama rangiam tal campo repleto de grilos metálicos. – Senhor – comentou Hetty. parecia extasiada. A glande estava bastante sensível. seria de alguma forma bem-vindo. e com um estranho e aflitivo formigamento na base do pênis. simplesmente não estava funcionando. Se o oportunista aparecesse e atirasse nele ali mesmo. Agarrou-se à imagem secreta como um galeote agarrava-se ao remo. e ele era Mallory . conseguiu penetrá-la. para outra mulher. Seus músculos pareciam de borracha. uma mulherzinha respeitável com sua touca respeitável. e ele gritou. extático. ou embriagada. nas pernas e até mesmo nas solas nuas dos pés paralisados pela cãibra. uma prima. Mallory sentiu como se houvesse corrido quilômetros.algum tempo. A prima ruiva casara-se com o homem. nos pulsos e nas costas. que o surpreendeu. dizer a ela que. uma onda de revoltante prazer nos braços. em busca de ovos de cuco. moça ruiva que ele vira copulando atrás de uma cerca viva em Sussex. bêbado e cansado. a sensação desaparecera. por algum motivo. pegou-lhe o pênis em silêncio. e o impulso torturante do gozo subiu-lhe pela espinha tal foguete. Mallory vestiu outra proteção. bestial. um gemido alto. prosseguiu. quiçá apenas aturdida. e filhos criados. quando subira numa árvore ainda garoto. e estava com quarenta anos agora. cujo cigarro apagado queimara a cômoda. e investiu nela com força. a oportunidade de nunca mais voltar a ser Edward Mallory. e arremeteu com novo desespero. enquanto ele passava o pano em suas pernas. interromper. A sensação era profundamente maravilhosa. Mallory desmoronou fora dela e permaneceu bufando como um cetáceo encalhado no ar fétido. mas sequer era capaz de começar a encontrar as palavras que explicassem de maneira satisfatória a situação. Mas após um momento. num incitante movimento para a frente e para trás. A mente vagou. Para seu alívio. mas apenas uma esplêndida criatura submersa em boceta e rosa-chá. com uma dor nos braços.

prazeroso ritual. guiado pelo tato. Depois se levantou e urinou no penico. Alguma crise tácita passara. Repousou. não seja tolo. As paredes pareciam irreais. e sedento. ou talvez fosse outra coisa. Havia cerveja derramada no chão ali. – Está bem. – Velho hábito de acampamento. as palavras enodoadas de álcool e exaustão. Estava ele simplesmente cansado demais para mover-se ainda. Acendeu a vela de cabeceira. os olhos salientes numa expressão que quase o amendrontou. Hetty despertou com um gemido e ficou olhando para ele. – Você não vai embora – ela disse. tal alma platônica suspensa. O quarto da prostituta não lhe parecia mais uma espécie de abrigo.novamente. sinistra. os cabelos emaranhados e suados.. ainda que um tanto desprovido de sentido no que concernia ao uso apropriado do tabaco. exatamente. Fique um pouco mais. Está tarde. acendeu e fumou um dos cigarros de Hetty. de modo deprimente. ainda.. para um muro próximo. – Por quê? Está tão escuro. – Vou. Hetty bufou. Por fim. Esperou que algo semelhante ao amanhecer aparecesse no batente gasto e encardido de Hetty. fronteiras agora incapazes de restringirem-lhe o impulso. ellynge. nem um pouco parecido com decente luz do dia. mas sabia que estava prestes a fazê-lo. Pode pagar. . – Vamos dormir um pouco – disse Hetty. Mallory sentia-se pronto para partir. ele colocou a caixa de fósforos em distância segura. mas descansou por tempo indefinido. Gostaria de ter limpado os pés. – Com sensatez. tenho trabalho. – Ele fez uma pausa. Ainda assim. na verdade. encontrou sua camisa. se não a movesse de forma brusca. – Tarde por quê? – ela bocejou. não? Um bom e farto café da manhã? – Melhor não. Estava sóbrio agora. Quando a mente começou a girar em círculos. Demasiadamente atônito para qualquer refinada demonstração de culpa ou arrependimento. Não era de todo ruim. tenho de ir. mas pareceu não fazer sentido. de olhos abertos. e o episódio chegara ao fim.. – Prefiro sair cedo. – Nem sequer amanheceu ainda. veio um brilho frágil. que dava. apagou a lamparina e ficou deitado na cálida escuridão londrina. Não dormiu. com uma pulga alimentando-se no seu tornozelo com vagarosa precisão. meras abstrações matemáticas. – Volte para a cama. mas cheia de latejos premonitórios. meu bravo soldado. como se a cabeça estivesse recheada de algodão- pólvora. Vamos lavar-nos e tomar o café da manhã. como se dizia em Sussex..

A leve especulação pareceu alarmar Hetty vagamente. – Venha e passe a mão por todo o meu corpo. Mallory. Sentou-se. mas gosto mesmo de você. não levantou. lentamente –. saberia a esta altura. e ficou espantado ao ver-se numa situação em que poderia ser realizado como ato físico. se esperar um pouco. mas o pênis. foi em sua direção. se tivesse ficado com Gabrielle em vez de mim. Tenho certeza disso. – O que diz o Big Ben? – Não ouvi o Big Ben em nenhum momento da noite – disse Mallory. e para você. quanto custaria? – Não faria por dinheiro algum. então.. connaissez-vous la belle gamahuche? – E o que é isso? – Bem – ela disse –. É barato. – Ela ergueu o lençol molhado de suor. então – ela sugeriu –.. – Realmente tenho de ir – ele disse. – Não tenho certeza se entendi. imagino. e dizia que eles eram loucos por isso. embora excitado. é o que chamam de “gamahuchar”. querido. estreitou os olhos. – Está tarde. Isso. ela sempre o fazia com seus homens. Doces. – Não saia. – Café da manhã francês. não disposto a desapontá-la. e puxou os cabelos desordenados. – Não posso ficar mais. Ned. – Sei que gostou de mim. acariciou-lhe os adoráveis quadris e apalpou a maciez sedutora dos seios. – Ficará de pé de novo. – Dez xelins? . – O governo desativou-o. eu o faria. – Quanto? Ela hesitou. O corpo dela deleitou o seu toque. Neddie. embora apenas como a espécie mais indecente de xingamento. – Ficou ali. – Chupar o pau. isso vai fazê-lo ficar de pé. Hetty parou. enviado lá de baixo para cá. mas posso fazê-lo levantar agora mesmo se quiser. Puxou a barba. A recusa pereceu tê-la chocado. – Eu não o faria se não fosse um homem tão amável – disse Hetty. Se não consegue dormir. bule de café. com o lençol levantado. – Creio que não consigo. a cama rangendo. esperando. para certos homens – ela garantiu –. o prazer francês. – Ah. o tempo está horrível. vamos foder. Ele balançou a cabeça. – Ah. surpreso com a constatação. – Ele ouvira o termo.

É um cientista famoso. ele supôs serem quase oito horas. um domo rebaixado. Mas tem de prometê-lo. Tempestades de Cataclismo açoitaram a terra cretácea. e sou muito discreta. transbordando de lixo explosivo. Para os bandos miseráveis. e tem um bocado de dinheiro. – Voltará. Meia libra. – Creio que não – ele disse. Mas ouça. – Vá. não? Mallory nada disse. não estou interessado. cinco xelins se não gozar lá. O céu sobre o Hart não se parecia com nada que Mallory já vira. Ela suspirou. vestindo-se às pressas. Vira tal céu em sua imaginação. Mas está totalmente seguro com Hetty Edwardes. então? Quando virá para me ver? – Em breve. Os leviatãs da terra tinham visto esse mesmo céu. – Começou a vestir-se. se precisa. – Danço às terças e quintas no Teatro Pantascópico. mas sei que vi seu retrato nos jornais. sei que gostou de mim. esse fora o céu do Armagedom. então. após o choque decisivo do Grande Cometa. pois só me encontro com cavalheiros. Pela obscuridade crepuscular do sol totalmente elevado. está certo. – Bem. Ao seguir apressado até a escada. E não me lembro de seu nome exatamente. – Tenho certeza disso – disse Mallory. vastos incêndios arderam e granulações cometárias espalhavam-se pela atmosfera encrespada. As implicações de tal proposta causaram-lhe requintada aversão. e estou falando a sério. arranhou a canela no pedal de uma bicicleta acorrentada. – Não. A manhã viera. Ela apressou-se. mas ele o conhecia. Irá ver- me? – Se estiver em Londres. avançando sem cessar pelas selvas fervilhantes. em Haymarket. Neddie. secando e matando a . mas sem trazer o dia. inundado de poeira obstrutiva – um céu que era o próprio arauto da Catástrofe. impulsionados sempre pela fome poderosa em suas enormes barrigas em fermentação. Deixou-a em seguida e saiu do lugar guiado pelo tato. Estou certa quanto a isso. ele sabia. sabendo que ele mentia. – Um sujeito como você pode ter sérios problemas com o tipo errado de garota londrina.

todos cuidadosamente protegidos por máscaras de pano grosso. normalmente uma exuberante avenida de Whitechapel. Agora deserta. depois mais outra. As áreas em que a farinha espalhara-se acusavam uma debandada de chancas masculinas. entraram em extinção. adaptados a um mundo agora arruinado. lúgubres. desenterradas de ruas secundárias. Moviam-se devagar. pois o beco estava obscurecido por uma névoa amarelada que lhe turvava a visão com seu odor ácido e penetrante. Ao notar a presença dele. todos estavam com a frente destruídas e portas arrancadas das dobradiças. Mallory deu-se conta de que havia sido um insensato. Mais por sorte que por intenção. três homens e uma mulher. deixando a rua com montes sujos de farinha e açúcar até os tornozelos. Armarinhos Peterson e Lavanderia Pneumatique Parisiense LaGrange. Ele desceu a Flower-and-Dean Street a passos arrastados. avançando com dificuldade. pareciam cansados. e os mecanismos dos saltos evolutivos foram desatados para repovoar a Terra com novas e estranhas ordens de existência. embora estivesse claro que não eram vendedores ambulantes.folhagem murcha até que os poderosos dinossauros. Em sua caminhada a esmo reduziram o passo diante de uma sapataria saqueada e cataram calçados dispersos com o parco entusiasmo dos necrófagos. pequenos pés descalços dos meninos de rua. potes despedaçados de pêssego em calda e presuntos defumados inteiros chutados feito bolas de futebol. tossindo. Londres tornara-se um local de anarquia. Homens e garotos. despontaram. As pedras do pavimento. atravessaram a rua deliberadamente. alguns empurrando carrinhos de mão lotados. todos vestidos de modo respeitável. Deveria . Um aparente furacão descera numa mercearia próxima. como se estivessem num funeral. Quatro vultos encobertos pela neblina. Com as máscaras. traços delicados de sapatos femininos e do arrastamento da barra de suas saias. Não era capaz de enxergar dez metros adiante. o liso macadame estava repleto de cacos de vidro caídos das vitrines. Mallory prosseguiu. Andou por uma quadra. tijolos e ovos. com o ruído de lascas de vidro sob a sola dos sapatos. falando em tom baixo. Meyer Mobílias Nobres. sem pressa. haviam sido arremessadas de um lado para o outro. Mallory passou com dificuldade entre repolhos esfacelados e ameixas esmagadas. ele foi sair na Commercial Street. atemorizado. Enquanto chafurdara em negligente devassidão. tal chuva de meteoros. Apareceu então um grupo mais coeso. As fachadas haviam sido completamente bombardeadas por pedras. preocupados.

algum modo de atravessar tal distância. revelando uma camisa listrada e suspensórios escarlates. Atrás dele. Provavelmente. atravessando a garganta. fora de seu alcance. O Palácio ficava a dez quilômetros de Whitechapel. assustado. Num sobressalto. Um coche. estaria fazendo a família naquele momento. por favor. no ar puro do campo.. Perguntou-se o quê. Mallory conseguiu discernir a cabeça calva de um balconista de óculos. Mallory agarrou o ombro da blusa rústica do marinheiro e virou-o.. senhor! – gritou o balconista. com a boa comida caseira e bebida honesta. O adorável e elegante relógio da querida Madeline. Até mesmo o latejo na cabeça estorricada começou a passar à medida que suas faculdades mentais concentraram-se num objetivo. abaixo dos degraus? Acredito que. – O senhor poderia. No entanto. De uma janela do terceiro andar da Jackson Bros. Peleiros & Chapeleiros. esperando que a Catástrofe passasse. e perguntou-se que amálgama caótico de luxúria.estar em casa. Mallory perguntou-se se algum dos trens da cidade estava em funcionamento. projetava-se o cano preto de um rifle. perto dos irmãos e das irmãs. Uma bala atingira-o. com restos de ovos quebrados pingando. e que as pernas marchavam adiante por conta própria. um pé de cabra de ferro forjado próximo à mão. Dez quilômetros de caos perturbador. a voz falhando. e o nariz fora amassado para um lado pelo pavimento. Ele teria de ir a pé. Deve haver algum caminho de volta. – Posso lhe ser útil? – gritou Mallory. conferindo aspecto bizarro ao rosto . com a família. Deveria estar se preparando para o casamento da pequena Madeline. quem sabe? Os cavalos ficariam sufocados nesta névoa imunda. As portas duplas estavam inteiras. logo ao lado. qualquer esforço para atravessar Londres seria insensato. Mallory notou que seus ombros estavam retos. agora. rosto para baixo. Um jovem com blusa de marinheiro listrada e calças boca de sino estava caído ali. Ele ergueu a cabeça. de modo tão grotesco. ou os ônibus. pode haver alguém ferido! Mallory acenou com a mão em resposta e foi até a entrada da loja. lembrou-se do relógio de Madeline. O presente de casamento da irmã estava em seu estojo com fecho de latão no cofre do Palácio de Paleontologia. mas muito danificadas. exatamente. debruçando-se agora na janela aberta. certamente. – Obrigado. na pacata Sussex.. – Alô! Diga lá. senhor! – A voz ecoou acima da cabeça de Mallory como o grito de uma consciência pesada. ambição e incidentes haviam-no deixado em isolamento naquele lugar terrível e cruel. Voltar à sua vida.. Foi tomado por súbita angústia de saudade. Estava deveras morto. e provavelmente o mais ajuizado seria esconder-se em algum porão sossegado. verificar a nossa porta aí. Voltar ao Palácio. tal um rato. a frase saída por reflexo.

– Desculpe-me. branqueando-o com o impacto e não atingindo Mallory por pouco. seu imbecil desastrado! – berrou Mallory. Uma bala do rifle do balconista sibilou ao ricochetear num degrau de cimento.. Mallory recuou. Examinou o revólver do marinheiro e arrancou do tambor uma cápsula enegrecida.. de modo que parecia vindo de uma terra desconhecida de navegadores albinos. – Fizeste bem em. – Pare com isso já! Houve um momento de silêncio. – Deus o castigue. Um revólver de fabricação desconhecida. quando quatro outros canos de rifle apareceram em defesa da Jackson Bros. Conseguiu ler BALLESTER-MOLINA estampado de modo indistinto na lateral do cano octogonal. Os patifes deviam ter-se dispersado quando o marinheiro levou o tiro. Mallory avistou a coronha de madeira de uma pistola enfiada na faixa amarrada com nó intricado. com uma espécie de pistão saliente. embora o mecanismo parecesse ter sido acionado com grau decente de precisão. Resultou numa máscara aproveitável. ele puxou-a. mas não havia qualquer outra marcação. não deu resposta alguma. de um azul desigual. mas mudou de ideia ao ouvir outras janelas chacoalharem em seus caixilhos. . Olhou para a porta danificada da pelaria. Era uma coisa desajeitada. senhor! – Jogar fora uma ova! – bradou Mallory. mostrando as mãos vazias e ensaiando um sorriso.jovem e sem marcas de sangue. uma turba armada. Mallory ergueu-se. estrangeira. Quando a neblina adensou à sua volta. Andou até a rua e acenou com a arma. senhor – gritou o balconista. inclinada à pior espécie de afronta. Encontrou uma camisa de cambraia pisoteada e cortou uma das largas mangas com a pequena lâmina dentada de sua faca Sheffield. Intencionou exigir que o balconista descesse e cobrisse o morto de forma decente. com o tambor entalhado e sulcado de forma curiosa. começou a tossir alto. aparentemente aturdido. Passou a movimentar-se com mais cautela. Ainda tinha cinco tiros. Era evidente que uma turba estivera ali. – Você matou-o! – gritou para o alto. O balconista. mantendo-se no centro da rua. O longo cano octogonal. colocando a pistola na cintura da calça. – Que diabos pensa estar fazendo? – Pedi desculpa! Mas é melhor que jogue fora essa arma. fedia à pólvora. virou-se e correu. – O tratante estava armado! – gritou.

roucos. e ele queimara até restar uma carcaça enegrecida. segurando-se aos estribos do gurney. pois seus olhos lacrimejavam tão dolorosamente que os mantinha estreitos tal pirata caricato. Mallory esperou que não houvesse ninguém lá dentro. Havia pessoas no adro da igreja de St. por algum motivo. Mallory percebeu. causando-lhe náusea. Os destroços fumegantes exalavam cheiro ruim demais para que ele pretendesse olhar mais de perto. à esquerda e à direita. e a Cheapside estava bloqueada por aglomerações difusas de jogadores ávidos e obstinados. Mallory foi dar na Aldgate High Street. se é que poderia chamar assim o Palácio de Paleontologia. usando máscaras de borracha bizarras com oculares brilhantes e tubos de respiração sanfonados. na melhor das hipóteses. vindo da névoa atrás dele. pessoal? – Das rodas espalhadas vinham os gritos de triunfo da vitória. Seguiu um pouco adiante. pois um ar pestilento surgiu. para seu espanto. as laterais pintadas de vermelho quebradas e amassadas. mas seguiu em frente. e ainda estava a quilômetros de seu objetivo. A turba parecia não tê-la tocado ainda. úmido e viscoso. Inexplicavelmente. Deu um passo para o lado e viu um gurney de bombeiro passar a todo vapor. lembrando-se dela quando da caminhada com Hetty. pois o domo era visível e uma multidão de homens e meninos reunira-se entre as árvores. pareciam muitíssimo animados. não chegava a surpreendê-lo. mas ainda assim. Mallory desejou intensamente ter uma máscara daquelas. depois à Lombard e à Poultry Street. que jogavam dados descaradamente nos degraus da obra prima de Wren. Da Aldgate passou à Fenchurch. Círculos de velhacos brotavam do pavimento. ao saírem do píer da ponte de Londres. enquanto Mallory passava. – Um xelim pra começar! Quem vai entrar? Quem vai entrar. no capricho inerente ao Caos. homens ajoelhados. O ar parecia um tanto melhor ali. Um clangor cadenciado de alarme soou. atacara os vigilantes e as máquinas que se mantinham firmes entre a cidade e a conflagração em massa. Sua cabeça pesava e girava sob os efeitos impertinentes do uísque ruim e do ar ainda pior. . um ônibus municipal fora virado e incendiado com os próprios carvões da caldeira. gemidos irritados. Pareceu-lhe o ápice da estupidez perversa. Todas as janelas haviam sido estilhaçadas. Paul. Na Cheapside. vigiando suas pilhas crescentes de moedas e cédulas. cockneys durões de olhos semicerrados que pareciam ter saltado incólumes do Fedor coagulado de Londres gritavam alto. Líderes impetuosos na arte da malícia. tal vendedores de rua. Alguma turba londrina atacara brutalmente os bombeiros. e parecia estar mais próximo do Tâmisa. mais sinistra e horrenda que à noite. ainda que parecesse. Bombeiros exaustos.

De fato. E pela evidente expressão de felicidade nos rostos. nem decência. Uma atração festiva. havia três assistindo com timidez. Esses londrinos eram como um gás. uma série de folhetos fora recentemente colada numa antes inviolável parede de tijolos da Paternoster Row. pensou Mallory. um parque fétido e criminoso. . de modo que os papéis estavam bastante amassados. desnudados pelo Caos. que certamente não aconteceriam.abafados pelas máscaras. dois homens mascarados chutavam um terceiro. jamais vira qualquer evento remotamente parecido com esse. BACALHAU EM TIRAS DE BEARDSLEY. até revelarem o vazio moral. impresso à Máquina. dançando sob o controle do demônio da bebida. com a mão cautelosa na coronha da pistola do marinheiro. Num beco. uma nuvem de diminutos átomos. Haviam-se tornado marionetes do impulso básico. uma visão que perturbou Mallory de uma maneira que ele não conseguia definir. depois lhe tomaram o relógio e a carteira. ainda assim.. de fato. os pais de família da Londres civilizada haviam-se entregado à loucura primitiva. como as esferas gasosas perfeitamente elásticas da Lei da Física de Boyle. A maioria parecia bastante respeitável pelos trajes. Eram anúncios do tipo mais barato e onipresente.. Ao romperem-se os laços da sociedade. nem autoridade. algo do tamanho de uma manta de cavalo. pensou Mallory. eles simplesmente seguiam à deriva.. Mas preso entre tais folhetos banais. A cola fresca pingava por baixo das folhas em vagarosos riachos brancos. e alguns cartazes de teatro: MADAME SCAPIGLIONI na Saville House na Leicester Square. mas. Um grupo de pelo menos dez assistiam com nada além de moderado interesse. SABÃO DENTAL DE ARNICA. uma farra londrina. Mallory percebeu que estavam gostando. amarrotado pela colagem apressada. Era para eles uma exaltação. TARTARLITHINE DE MICKESSON & ROBBINS. como se tivesse o direito de estar ali. parecia. Para cada homem a jogar audaciosamente. eventos. uma liberdade perversa. Mallory infiltrou-se nos esparsos agrupamentos excitados. Não havia polícia à vista. pensou Mallory. daquele que se via por toda parte em Londres: PÍLULAS MAGNÉTICAS PARA DOR DE CABEÇA DO PROFESSOR RENBOURNE. Estavam gostando muito. Para além da aglomeração de jogadores. e os folhetos de fato haviam sido colados com descuido e pressa. havia um grande cartaz de três folhas.. mais perfeita e desejável do que qualquer uma já conhecida por eles. Não lhes restaram padrões adequados para formarem um julgamento ou uma comparação. Como os membros da tribo cheyenne de Wyoming. A maioria deles. uma SINFONIA DE PANMELÓDIO DE VAUXHALL. Eram dotados agora de mera indiferença. até a tinta parecia ainda úmida.

impressionado pela tosca bizarrice. Três homens. pendiam de uma forca no canto superior direito. em grandes letras de Máquina borradas: “AS SETE PRAGAS DA PROSTITUTA DE BABILONDRES!!!” Babilondres. o busto de um homem e de uma mulher – um rei e uma rainha? Lorde e Lady Byron. Mallory esfregou os olhos doloridos. abaixo. E isso não era sequer a metade. Uma mulher com uma venda escarlate – uma Deusa da Justiça? –. brandia uma espada escarlate com a indicação ludd acima das cabeças cinza-rosadas de duas figuras representadas de modo muito tosco. muito ao modo dos blocos baratos de xilogravura das velhas baladas de assassinato. um diminuto deus do vento soprava uma nuvem com a indicação PESTE. o pior de tudo. talvez? A deusa escarlate pisava uma cobra de duas cabeças. De um lado. um homem bem vestido com cabeça de réptil. negros diabretes deformados sendo arremessados pela explosão. cujo corpo retorcido trazia as palavras NOBREZA POR MÉRITO. Babi o quê? Que “pragas?” E por que “sete”? A folha parecia montada a partir de pedaços aleatórios de imagens de Máquina. as figuras comprimidas por todos os lados numa aparência de desvario e. aparentemente clérigos ou cientistas. com labaredas escarlates.. Imagens menores fervilhavam na ampla folha retangular tal bolas de bilhar espalhadas a esmo sobre a mesa. espalhadas sobre a imagem como lama. o cartaz parecia tentar expressar. Mais nuvens de fumaça borradas. ou bomba. avançando na direção de desconhecida meta sob a cauda de um cometa. Tinha sido feito com três cores – escarlate. Do outro lado. explodia em pontudos fragmentos estilizados. Mas nesta. apontava para a corda com um gesto brusco. sujeito miúdo com capuz e mangas arregaçadas. preto e um feio rosa acinzentado que parecia uma mistura das outras duas. Um laço pairava acima de um caixão coberto de flores. Atrás da mulher escarlate. era possível ver a mesma imagem trivializada centenas de vezes. uma bala de canhão. em torno das diversas figuras dementes. Um homenzinho com dragonas rezava sobre um cadafalso enquanto o carrasco. E também havia um texto. Um título. era repleto de arabescos estilizados de grossas nuvens negras. porém malfeitas por meio de Máquinas. as cores eram horrendas. ligavam tudo isso como massa de bolo recheado. Nas impressões vistosas. confusa massa de figuras malfeitas gesticulava. ainda que de modo convulsivo e vacilante. e no esquerdo. algo que era simples e verdadeiramente . Mallory sabia que os impressores modernos possuíam cartões perfurados especiais para impressão.. Uma mulher nua agachada aos pés de um monstro. ou um dragão escamoso. vestida com uma toga escarlate desbotada. o horizonte de Londres estava vigorosamente em chamas. agitando bandeiras e lanças jacobinas. Mallory parou de súbito diante dele. Uma sandice. ao passo que o céu.

xingando. Estava bêbado. De repente. e quando voltou a olhar para Mallory. Como se isso fosse um sinal. Mallory e seu oponente estavam no centro de uma multidão – não eram mais partículas aleatórias. arrastando-se para longe. O alto cockney. Mallory. As palavras de maligno regozijo carregaram o ar sombrio como uma garrafa de Leyden. Alguém gritou. Ele tentou segurar Mallory. Mallory bateu na mão sôfrega. Olhou fixamente para o cartaz. Mallory dobrou-o com um soco no estômago. as mãos retorcidas apertando o ar. – Mate-o! – sugeriu uma voz anônima. Um bolo de lama passou perto da cabeça de Mallory e esparramou-se sobre o cartaz. Suas roupas sujas eram quase trapos – exceto os sapatos. um som alto. talvez meio empurrado. contente. não sabe? A voz penetrante do homem estremeceu. que nos livrou de nossos pecados. – Afaste-se de mim! – gritou Mallory. os brilhantes olhos acusadores acima da máscara pareceram irradiar ódio animal. – Amigos seus. que eram roubados e novíssimos. com avidez. apontou-o para cima e apertou o gatilho. depois novamente para Mallory. arrancou o revólver da cintura. – Diga-me o que significa! – insistiu o cockney. O estampido foi chocante. Numa fração de segundo. Mallory deu um pequeno pulo. Nada. mas o foco de problema real. o fedor da negligência. Armou o cão do revólver com o polegar e apertou novamente. empurrando. Foi atingido em cheio nas costelas por um cotovelo. do desvario. na intensa ânsia bestial de . cavalheiro? – Não – disse Mallory. O homem aproximou-se do ombro de Mallory aos poucos. murros. assustado. O suor do cockney cheirava a dias sem banho. – O sangue sagrado de Cristo. afoitos e de gatinhas. O rosto estava seguramente mascarado por tecido de bolinhas. iniciou-se subitamente uma peleja cega com guinchos. ensurdecedor. horripilante.. um cockney muito alto de ralos e imundos cabelos amarelos sob mui alta cartola.. Sabe o que é. equilibrando-se com os pés esmagados. cambaleou para cima de Mallory. – Ouvi-o falando enquanto olhava. pois tinha o olhar enlouquecido e brilhante. o Redentor! – o homem gritou mais alto.inexprimível. baques surdos entre choques. – Estaria falando comigo? – perguntou um homem ao lado de Mallory. a confusão dissipou-se com homens caindo em ondas. – Nada – murmurou. – Blasfemando Cristo.

O carro seguiu adiante. Adiante. Mallory aproximou-se e examinou o folheto. com larga capa de chuva cinza. o veículo que colava os anúncios. foi pressionado contra o muro e estendido de cabeça para baixo. um carro alto e preto. Retirou-se. estando num momento crucial do trabalho. chegavam tiros de pistola dispersos e gritos bestiais de fúria. com grandes cartazes espalhafatosos nas laterais elevadas. – Jesus – murmurou Mallory. mas viu. Colocou a pistola na cintura. pois ele tinha um dispositivo cilíndrico específico para tal função sobre uma espécie de cabo de vassoura alongado. ouviu-se o som baixo de cascos lentos. sobressaltado. então. Mais um golpe para baixo. o revólver pronto para disparar a qualquer toque no gatilho. em número aparentemente inexaurível. o que desviou o cilindro sulcado de volta à catraca fixa. parou. tentou enfiar a pistola na cintura das calças. a arma ainda suspensa acima da cabeça. O homem que colava cartazes não ergueu a cabeça. Mallory aproximou-se para observar. Ele seguiu-os por uma rua aparentemente vazia. O cartaz. O muro era protegido por alta cerca de ferro. mas isso não incomodava o homem de modo algum. e examinou o mecanismo. que . Mallory prendeu o cão com os dois polegares e manipulou o gatilho com cuidado até conseguir fechar o mecanismo. o queixo caído em assombro sob a máscara de cambraia. Belas CAPAS IMPERMEÁVEIS para a ÍNDIA e as COLÔNIAS. Detrás dele. CHAVES feitas a PREÇOS BAIXOS. que esguichou uma porção de cola pastosa a partir de um par de tubos preso às pontas do cilindro. O diabólico objeto armara-se automaticamente. o homem espremeu destramente um pistão manual na haste do aparelho. tossindo penosamente. Na corrida. escárnio e alegria. enrolado com firmeza em torno de um cilindro preto de borracha. De algum lugar veio um estrondo distante de vidro quebrado e ruídos de risadas infantis. Ainda se estendiam diante dele. Então foi atingido por um raio de bom senso. o guincho do eixo de rodas. dizia um folheto afixado. envoltos pela obscuridade turva da neblina. No mesmo instante. enviando parte da carga de pólvora para o pistão abaixo do tambor. grudados um após o outro numa linha irregular. para completar a colagem. que o cão estava novamente armado. Finalmente. pressionava um anúncio contra o muro. Homens foram pisoteados diante de seus olhos. Um sujeito mascarado.fugir dali. a aproximadamente um metro e meio do tijolo. Saindo da bruma. posicionando num giro o próximo projétil e fazendo o cão recuar. e pronto. Carregou o traiçoeiro objeto afastado do corpo enquanto fugia. Ele não deixara para trás a fileira de folhetos colados. Mallory ficou parado por um instante. Precisa-se de aprendizes de químicos e BOTICÁRIOS.

como se os pinos de impressão tivessem sido embebidos em tinta vermelha e não limpados adequadamente. por antiga tradição. e mais outro. Coleridge. seus encontros com os selvagens ÍNDIOS Cheyenne. Era uma grande pena que o discurso não pudesse ser realizado. e uma Palestra Científica com Cinetropia seria ministrada pelo DR.R.G. F. Mallory acompanhou-os. O DR. os grandes anúncios chamativos dos jornais da cidade. BENET de PARIS daria uma palestra sobre o Valor Terapêutico do Sono Aquático.. Mallory seguiu discretamente. o carro de anúncios partir.S. EDWARD MALLORY. abrindo um sorriso por trás da máscara. os efeitos embelezadores do Sabonete Colgate de Limpeza de Pele. tivesse feito o pedido de cartazes com presteza. e a carroça afastou-se. mas não solicitara a tempo o seu cancelamento. Olhou mais de perto. o trabalho de impressão não era tão bom quanto poderia ter sido. Mas um cartaz foi colado audaciosamente sobre a página do Morning Clarion. seguido pela sensualíssima dança dos 7 véus a ser realizada pelas diversas . os hábitos e a alimentação do animal. “O Museu de Geologia Prática. com terno sentimento de posse. desta vez. o que pareceu estorvá-lo um pouco. mas as gotas de cola o dissuadiram. margens borradas de escarlate. a serem desvendados aos ávidos por conhecer a TÉCNICA DE CÁLCULO DE PROBABILIDADES. ou mais provavelmente um de seus funcionários. pois murmurou algo para o condutor. O DR. F. e chegou a pensar em arrancá-lo do muro. O homem que colava cartazes e seu carro seguiram em frente.S. onde os tapumes apresentavam. Teria gostado de guardar um cartaz como lembrança. numa gravura de Máquina. edward mallory.. O carro parou numa esquina da Fleet Street. tem a honra de apresentar ao público de Londres. o finado PROFESSOR RUDWICK. especificamente o dos COVIS DE RATOS. A SOCIEDADE CHAUTAUQUA DO FALANSTÉRIO DE SUSQUEHANNA apresentaria um simpósio sobre A Filosofia Social do Finado Dr. Mais cartazes de teatro. Mallory parou. MALLORY. e os Segredos dos Oddsmakers. mas estava claro que Huxley.R.retratava e exaltava. para apenas duas apresentações. num e noutro local. pensou Mallory vendo. Observando bem.. na Jermyn Street. o DR. EDWARD MALLORY! Tinha de admitir que o nome ficava muito bem em Gótica de Máquina de oitenta pontos.. EDWARD MALLORY. apresentará a emocionante história de sua descoberta do famoso LEVIATÃ TERRESTRE na Wyoming selvagem. e depois outro. O homem notou a atenção de Mallory. suas teorias sobre o ambiente. detalhando também o MELANCÓLICO e TERRÍVEL ASSASSINATO de seu mais íntimo rival. pois as letras pretas tinham. Lamentável. com esperança de decorar o texto.

” Mallory rangeu os dentes e saiu correndo. – Londres está escancarada hoje! Quer brigar por conta de onde grudamos nossos papéis. com um rangido das dobradiças de latão. – Quem é você? – Sou o cavalheiro a quem chamam de o Rei dos Coladores de Cartazes. você! Pare com isso! – gritou o cocheiro para Mallory. arqueando as sobrancelhas com expressão questionadora. meio calvo. senhor – sugeriu o cocheiro. deve ser muito verde neste negócio! . – Com toda certeza estão! – berrou Mallory. – Olhou Mallory de cima a baixo. – Onde vocês conseguiram aqueles folhetos. – Um bandido. enfiadas em botas de caminhada de couro envernizado. pois um homem pequeno e corpulento. oferecendo Franco Relato de suas Várias Introduções à ARTE DO AMOR.senhoritas Mallory. A apresentação será acompanhada pelo avançado cinétropo do SR. ele fumava um grande cachimbo. Ultrapassou o carro. bufando e cambaleando. O segundo colador de cartazes precipitou-se por trás da carroça e juntou-se ao amigo. – O que se passa? – ele perguntou brandamente. – Parece não fazer sentido. parecia. totalmente sozinho? – disse o homem corpulento. – Não lhe estamos fazendo nenhum mal.. exibindo seu artefato de cabo longo. – Um valentão miserável enviado por Turkey-Legs! – O quê. batendo o bastão na palma calejada. filho? – Não – disse Mallory. – Davey. semelhante a um forcado. O animal parou. então atreva-se! Uma das grandes tábuas de anúncio na lateral do carro abriu-se de repente.. que seguia com lentidão. KEATS. Sua cabeça imunda estava envolta por uma máscara de lona. Pulou do assento de madeira e desceu vacilante. impeça este tolo! Tire-o daqui. – Sabe quem sou. saindo de dentro do carro. e agarrou a rédea da mula com as duas mãos. senhor! – declarou o cocheiro. numa tentativa de ameaça. e o rosto redondo de maçãs avermelhadas não estava mascarado. meu rapaz! Se não conhece tal fato. será permitida apenas a entrada de Cavalheiros. Usava um belo casaco de caça vermelha e calças xadrez. exalando um fumo repulsivo. seus tratantes? Digam-me já! Num gesto desafiador. brandindo um bastão de nogueira. Uma porta. Não usava chapéu. – sua voz falhou enquanto analisava Mallory. o homem mais alto balançou o cilindro lambuzado de cola de seu aparelho diante do rosto de Mallory. – Afaste-se. O cocheiro soltou um grito por detrás de um cachecol manchado de fuligem. Preço 2 shillings e 6 pence. e para o espanto de Mallory. – Ei. adaptada a partir de um embornal. saltou por ela.

depois uma terceira. . – Certamente – murmurou. – Então. dr. Embora soubesse estar certo. apoiando-se num travesseiro fofo e ataviado. Mallory. Jemmy. de um lado a outro. eu não os imprimo. voltemos ao trabalho. senhor. Não sou o responsável. Escaninhos inclinados de madeira envernizada cobriam as laterais. a réplica mordaz e serena do Rei aliviara o peso de sua indignação. por alguma razão. por favor – disse Mallory. A mula zurrou com o estalo do chicote do condutor. aos trancos e rangidos. – Espero que saiba qual é o seu limite. – Bem – soltou Mallory. – Sim. mas não tenho tempo para bazófias ou ameaças. sou Edward Mallory! O homem corpulento cruzou os braços e balançou um pouco sobre o salto das botas. Fedia terrivelmente a cola e a tabaco preto. permitindo uma iluminação sombria. – Quero todos os restantes. é isso que te aflige. – Água pura. ao estilo turco otomano. o Rei tranquilizou seus dois seguidores ouriçados. Um grande alçapão no teto fora aberto. – Sou um homem muito ocupado. dr. – E? – Acaba de afixar um anúncio que me difama de modo grosseiro! – Ah – disse o Rei. – Pois não irá colar mais nenhum desses abomináveis folhetos caluniadores! – disse Mallory. Mallory puxou a máscara esfiapada abaixo do queixo e bebeu com grande sede. O Rei esparramou-se à vontade. seguiu-o. O Rei serviu Mallory mais uma vez. o piso. e exijo que me diga onde os obteve! Com um movimento régio de mão. não é? – Abriu um sorriso de alívio manifesto. – O Rei serviu a água de um cantil de cerâmica numa caneca de lata. – Ora. Eu. e um tanto desconfortável. – Não sou da sua área. subindo até o interior do estranho veículo. Edward Mallory. – O Rei subiu no carro com destreza. – Cravou Mallory com os olhinhos azuis semicerrados. água natural. sentiu-se um tanto tolo de repente. surpreso. abrindo um armário. isso nada tem a ver comigo. Eu só os colo. forte e barato. Não havia assentos. era ondulado e abotoado num almofadado marrom. cheios de folhetos firmemente enrolados. Se não se importar em subir em meu carro e conversar comigo como um homem sensato. talvez eu o ouça. – Gim com água? – ofereceu o Rei. – Entendido. após um momento de hesitação. Tom. Mallory. – Muito bem. – Que tal espremer um pouco de limão para dar sabor? – O Rei deu uma piscadela. e o carro moveu-se lentamente.

recarregou-o usando um cone de papel grosseiro e acendeu-o com um isqueiro alemão.. talvez queira me informar a respeito da mágoa que parece carregar. – O sujeito tem de estar pronto para usar os punhos no trabalho de colagem de folhetos. se deseja adquirir alguns de meus cartazes a esse valor. – Nunca ouvi dizer que Turkey-Leg contratasse estudiosos para dar uma de valentão. um tanto brusco anteriormente. ãh. – Pois agora que esclarecemos a questão. – Sinto muito se pareci. mas o texto é de um ultraje obsceno! .. arredondados. O Rei meneou a cabeça solenemente. Mallory limpou a garganta viscosa. O rei passou um rolo através do alçapão. meus garotos tiveram de usar a força com muita rapidez diante do velho Turkey-Leg e seus rapazes. e a demonstração de civilidade dentro da carruagem do Rei. junto ao fedor químico da cola. bateu tranquilamente o resíduo de tabaco de seu meerschaum.. – Tenho de concordar – disse o Rei. senhor. por favor. digamos. Para colar cem folhas de duas coroas. – Tem o olhar aguçado. deixara-o bastante tonto. eu poderia estar disposto a fazer negócio. Em seguida. não deve pensar isso de mim. – Tive alguns problemas sérios ao longo desse período crítico – disse Mallory. – Aqueles cartazes que afixou são fraudulentos – disse Mallory. para o condutor. três pence. ficarei grato. – Deixe-me contar-lhe alguns fatos relacionados ao comércio. – Sentiu-se estranhamente nu sem a máscara. – E caluniosos. Pois. Soprou uma nuvem poluída com plena aparência de satisfação. Retirou a folha externa do rolo e abriu-a no interior do veículo. Ontem mesmo. – Aqui estão – disse Mallory. – O Rei torceu o nariz com desdém. Muito racional. sabe – disse o Rei. imagino que seja um cientista. o que significa dois pence e seis décimos de um penny por folha. – Se puder dar uma olhada nos cubículos dos itens em questão. – Muito decente de sua parte. em forma de cilindros perfurados. a voz rouca. espero ganhar uma libra e um xelim. quase pior que o do Tâmisa. – Onde estão? – disse Mallory. Não do tipo que procura confusão. densos e pesados como clavas. – Conforme expliquei anteriormente. Com certeza não são legais. isso não me diz respeito – disse o Rei. – Mas basicamente. sou um homem racional. – Veja que coisa detestável. com generoso tato. de modo franco. por uma questão de espaço para cartazes na Trafalgar Square. Quando os trabalhadores pararam para colar mais cartazes.. senhor. Mallory começou a buscar os folhetos no estoque. Mas por seus trajes e modos. Parece esplêndida no início. Os cartazes estavam enrolados com firmeza e esmero. – Pois. são os rapazes.

enquanto esforçava-se para ler o título. a voz trêmula.. vesgo. é? – Sujeito decente até. sim. As axilas de Mallory formigavam de suor. o velhaco pagou adiantado. – Capitão Swing.. conheço pessoalmente o membro do Parlamento que conseguiu aprovar tal decreto. finalmente. – Eu deveria saber que nada de bom viria dessa remessa. Mallory. Estava tudo certo. desde ontem. Mallory. desde que fossem os seus cartazes! . um furta-foguista da mais sinistra categoria! – Não acompanho muito a política – disse o Rei. usava óculos e falava sozinho.. onde praticamente me acusa de assassinato! O Rei. dr. lembro-me desses. dr. Ah.. – O homem é um inimigo do reino. Ele não se preocupava com o local para onde iam seus cartazes. Mas veja. E tinha muito dinheiro à disposição. Mas foi bastante educado. – Ma Lorry – disse. – Quem? Qual? – Lá de Limehouse. voltou o olhar para a folha. a julgar pelos trajes – disse o Rei. ruivo. Isso sim é política! Que trabalho mais estúpido! Esse maldito decreto é extremamente rígido em relação ao local onde os cartazes podem ser colados. Meus garotos estavam inclinados a criar certo tumulto devido a tal invasão. Digo-lhe uma coisa. é isso [2]? – Mallory. Moveu os lábios.. – Baixo. fica por seis xelins. – Conheço esse homem! – disse Mallory.. – Baforou fumaça. – Grande comoção naquele local... – O Decreto de Regulamentação da Colagem de Cartazes.. em West India Docks – disse o Rei. – Parecia um patinho. bem aqui. uma vez que conseguimos esclarecer a ele como funciona nosso trabalho. Talvez seja o homem mais violento da Inglaterra! – Não me diga uma coisa dessas – resmungou o Rei. – Meio borrado. não propôs criar problema algum em relação ao negócio da colagem de cartazes.. recostando-se muito confortavelmente. até o Capitão Swing – é como ele se autodenomina – achou por bem contratar nossos serviços. – Leia aqui – disse Mallory –. – É um violento conspirador ludita. animado. Louco de pedra. – Faz apresentações com vagões de carvão. Velhacos colando anúncios novíssimos em todo muro e tapume à vista. tinha um calombo na cabeça. – Rolo padrão de quarenta. é o meu nome! – É um pôster de teatro em meia-folha. pois fui contratado para sua campanha eleitoral. – Ele é uma enorme ameaça à segurança pública! – O sujeito não parecia ser grande coisa – disse o Rei. sem ilustrações – disse o Rei. educadamente.

. Não desanimamos facilmente. – Meu querido pai. chamo de oportunidade.. puxou os documentos e lançou-os sobre o piso acolchoado. ele confiou diversos cartazes a mim.. Somos a linhagem empreendedora da família. – Sabe. fomentando tumultos e rebeliões durante uma situação de emergência pública.. que descanse em paz. no qual realizei algumas melhorias mecânicas. Roma ou. Pintava os anúncios dos Rads durante o dia e colava os novos à noite! Trata-se de excelente oportunidade em tempos de revolução. Andrews. quando a cavalaria atacava os trabalhadores e Wellington. lembre-se de que ainda há vinte xelins numa libra. vocês estão ajudando o salafrário em suas conspirações anarquistas! – Eu diria que o senhor está vendo a situação de trás para a frente.. Pensando bem. senhor. Mallory – disse o Rei. – Meu Deus! – interrompeu Mallory. solto em Londres.. e no controle de uma prensa movida à Máquina! É um pesadelo! Horrível! – Por favor. Os verdadeiros filhos de Londres chamam a cidade de “A Fumaça”. mesmo. Serve para colar cartazes na parte inferior de pontes. não o contrário. com uma estranha risadinha. com dinheiro de sabe-se lá que fonte. e não me interessa mais. costumava dizer-me: “Quando todos à sua volta estiverem perdendo a cabeça.. – Pensar nesse homem miserável. – Ora. – O Rei levantou-se. Holborn) para passar tinta preta nos cartazes dos Radicais. dr. – Os Tempos Tumultuosos. dr. – Tudo isso vai ajudar muito quando Londres estiver reduzida a cinzas – disse Mallory. sabe? É uma cidade eterna.” – Pode ser – disse Mallory –. foi explodido em pedaços. filho. Tempos difíceis. não se aborreça. como Jerusalém.. muito mais difíceis que os suaves tempos modernos. bem naquela fileira superior ali. Ele teve de contratar mulheres para fazê-lo. regulares como as marés do Tâmisa. não importa que besteiras ou loucuras estejam ditas nestes cartazes! A verdade profunda é que os cartazes são intermináveis por sua própria natureza. senhor. – O que vi foi o sujeito colocando dinheiro no meu bolso. foi quando começaram a imprimir as primeiras coroas duplas de quatro folhas! O governo Tory pagava meu velho pai (meu pai colava cartazes e era sacristão na paróquia de St. o Pandemônio de Satã! Não vê o Rei dos . com este Fedor banal! Chamam a isto de emergência? Ora. senhor. tamanha era a demanda. diriam alguns.. – Meu querido pai colava cartazes nos Tempos Tumultuosos! Nos anos trinta. para o comércio fluvial. – Meu pai inventou o aparelho a que chamamos Encaixe de Colagem Extensível Patenteado. mas. o velho Narigudo. ou como a fumaça de Londres. Mallory – o Rei repreendeu-lhe suavemente. – Parece não compreender a urgência da crise – disse Mallory.. Mallory suspirou.

Mallory ficou em silêncio. – Ora. puxando a barba. se quiser aceitar meu conselho. Mallory. e guarde essa arma antes que possa causar um mal a si mesmo. aterros. – Por que o senhor não está em casa. Capitão Swing. – É longe. e conversamos sobre os velhos tempos. Todos voltarão – disse o Rei. senhor. claro. Mallory não disse nada.Coladores de Cartazes preocupado com a Londres fumegante. – Mas ocorre-me que há alguns museus e palácios de cientistas em Kensington que nunca foram tocados por anúncios de papel.. senhor – declarou o Rei –. com sublime segurança. e pode deixar as ruas para descansar em casa.. .. – Se estiver disposto a fazer valer a pena. não têm para onde ir. esfriar a cabeça. caso eu não tivesse avistado a arma pela vigia e saído para resolver as coisas. – Duvido. – Atente ao meu conselho. – Eu poderia mandar os rapazes pintá-los de preto. Vá para casa. – Sim – disse Mallory.. senhor. tapumes. minha senhora e eu tomamos nosso chá aqui dentro. Colocou o dinheiro de Mallory no casaco de caça. os negócios me chamam em Kensington – disse Mallory. – Isso colocaria um ponto final na questão? – disse Mallory. – Tal objeto não avaliza de modo algum um cavalheiro ou um estudioso. se é de fato sincero em seu conselho? – disse Mallory. – Nos dias agradáveis. Apenas vinte xelins. – Não tenho casa em Londres. Mallory. – Um fim melhor que qualquer outro que possa obter com a pistola que vejo surgir no cós de suas calças – disse o Rei. levando a mão à bolsa. senhor. gastaria seis xelins nesse rolo de cartazes que está segurando. – Conte-me. e de todo modo. Creio mesmo que poderia ter machucado um de meus rapazes.. esta é minha casa – disse o Rei. em paz e sossego. por uma libra incluo esses outros anúncios mal impressos de nosso amigo. – Ora. vê? Nem um pouco! – Mas as pessoas fugiram! – Uma insensatez passageira. – Portanto. dr. Este é o centro do mundo. – De fato? – refletiu o Rei. ou até colar outros por cima – refletiu o Rei. sobre muros.. Ora. – Alguns desses cartazes já foram colados – disse Mallory. dr.

o papel enrugou em suas mãos suadas. ou a tinta. e tentou o outro ombro. numa pilha oscilante. Mallory escorregou feio num monte de esterco de cavalo e jogou os rolos para cima do ombro direito. a pasta da cola tivesse um pouco de arsênico.. Mallory soltou sem querer os rolos de papel. Saiu cambaleando com os pesados rolos de cartazes difamadores e anárquicos desajeitadamente seguros por suas mãos suadas. que desabaram violentamente sobre o macadame. E ainda assim Mallory descobrira uma evidência crucial: o oportunista encontrara refúgio em West India Docks! Estar tão próximo e ao mesmo tempo tão distante de uma chance de pôr as mãos no patife. Quando voltou a equilibrar os cartazes. como a pele descamada de um afogado. Forçou-se a se concentrar nas questões mais imediatas. Mallory apoiou os cartazes enrolados num poste adornado e voltou a dar o nó na máscara de pano. sozinho.. Mas seu pequeno triunfo parecia insignificante se comparado às infinitas reservas de inventiva crueldade do bandido. resmungando.. As engrenagens de sua vida voltariam a trabalhar em ordem. A cabeça girava terrivelmente. e custara-lhe quase tudo o que tinha conseguir a proeza. pois ele sentia-se envenenado e fraco até a medula. Jemmy e Tom deram início à ávida colagem nos tijolos virgens do Palácio de Economia Política. Na verde Sussex. um deles atingindo-lhe a canela num golpe doloroso ao abrir- se. Agora Mallory estava quase chegando ao Palácio. enquanto o homem estava a quilômetros de distância. sem auxílio. Atrás dele. sensatez e segurança. Era uma vã fantasia imaginar-se confrontando o oportunista. dilacerado por presas invisíveis. aparentemente. Levaria os ordinários cartazes até o cofre do Palácio. no seio do lar. pensou. Poderiam vir a ser úteis como provas algum dia. e o balanço da carruagem deixara-o profundamente enjoado.. prendendo-a sobre o nariz e a boca. Pegaria o relógio e encontraria um meio de fugir desta Londres amaldiçoada para reunir-se com a família. frustrado uma pequena parte das intricadas diabruras do oportunista. Mallory cambaleou na escuridão. e poderiam tomar o lugar do relógio de Madeline. não era mais capaz de suportar a emanação da cola.. haveria tranquilidade. Ele havia. Recolheu-os. . como já deveria ter feito. Mallory despediu-se do Rei a cerca de dois quilômetros do Palácio de Paleontologia. do outro lado do caos de Londres. era o suficiente para enlouquecer qualquer um.. Talvez. algum derivado de carvão potente e nauseante.

Alguma autoridade civil erigira cavaletes de madeira diante do portão do Palácio de Paleontologia. Nas brumas rançosas da Knightsbridge. as portas do Palácio estavam ligeiramente abertas. reforçando intensamente a limpeza nas cornijas com longos espanadores articulados. haviam-se reunido em instintiva defesa de suas instituições científicas e dos . mas nenhum deles lhe ofereceu problema. enquanto Mallory tentava enxergar o que havia adiante. Sua condição social poderia ser humilde. Mallory percebeu finalmente que essas pessoas estranhas deveriam ser as famílias dos funcionários do Palácio. o mordomo. O tecido espesso e úmido exalava um cheiro penetrante de cloreto de cálcio. Pelo menos uma dúzia de gurneys de guerra. permanecendo completamente imóvel. até a entrada principal. dava a impressão de ser composta por gurneys militares. Mallory entrou com cautela. A névoa abafava o ruído pesado do escape dos motores e o tinido baixo e repetitivo de ferro articulado. Cada gurney rebocava uma carreta articulada. Empregados cobriam a mobília do saguão e da sala de recepção com lençóis de musselina branca. Um outro grupo peculiar varria e esfregava. Aquelas eram pessoas vigorosas e trabalhadoras. segurando firme sua carga. soldados de infantaria vestindo roupas de tecido grosso e pardo. No cruzamento da Brompton. talvez vinte deles. Mulheres londrinas e uma grande quantidade de crianças de todas as idades usavam aventais de limpeza do Palácio e trabalhavam depressa. Tais carros pareciam ser canhões envoltos por lona. Mallory esfregou os olhos doloridos em perplexa incredulidade. Um após outro passaram. Mas não havia homens nas barricadas. arrastando sua carga de papel. com homens. usada para carregar munição. ele viu um trio de vultos mascarados de chapéu. um manto de lonas molhadas. Mallory seguiu até o balcão do saguão. os atarracados monstros subjugados da Guerra da Crimeia. imperturbável. Atrás das lonas. notou. que teriam vindo em busca de abrigo e segurança no interior do mais grandioso prédio conhecido por elas. passando pelo vão de uma porta quebrada. penduradas no arco de tijolo e descendo até as pedras do pavimento. amontoados sobre os canhões como cracas. mas eram britânicas da cabeça aos pés. uma espécie de procissão atravessava a rua. E alguém – possivelmente Kelly. com baionetas erguidas que lembravam um ouriço-do-mar arrepiado. As grandes portas duplas do Palácio estavam protegidas por grossas cortinas. fugindo com passos ligeiros. Não estavam intimidadas. era uma simples questão de passar por elas e subir a escada de pedra. Fantasmagórica. gordurosa de névoa. parecendo ansiosas mas vagamente entusiasmadas. indistinta pela distância e pelo Fedor. com a ajuda de quaisquer cientistas que ainda estivessem presentes – corajosamente organizara os refugiados.

Usava um casquete redondo com galão dourado. nossa.valores civis da lei e da propriedade. o irmão mais novo de Mallory tinha mais de um metro e noventa em suas botas militares. Em algum lugar desse abrigo abençoado. O ar do Palácio cheirava fortemente a desinfetante. ao asseado modelo de perfeição militar do rapaz. Vinho revigorante. As calças lustrosas tinham uma listra vermelha militar. até vagamente envergonhado. Com os ombros retos. Selos. Mallory observou o pequeno.. Então. Um estranho dirigiu-se a Mallory a passos firmes. tudo mudaria. Brian Mallory. Ele deu-se conta. Presunto. A voz confiante retornou . com um rompante de surpresa. atravessando o saguão: um soldado britânico. ao comparar sua vestimenta civil. é você mesmo! – disse o irmão de Mallory com um sorriso afetuoso dividindo a nova barba da Crimeia. o sexto filho da família. Ned – disse Brian. Num canto. com surpresa e prazer. como uma sujeira nebulosa dissolvendo-se em cristais. garoto! O soldado acelerou o passo. haveria comida. porém significativo. Dentro do redemoinho titubeante. Mallory lançou sua carga odiada atrás do balcão deserto da recepção. pensou. a espinha ereta e a cabeça erguida. surpreso. – Brian! – gritou Mallory. Ovos. e um coldre abotoado ao esmerado cinto branco. mas agora. botões de metal e dragonas com fios de ouro trançados. e tinha nos olhos azuis vincados o olhar de um homem que vira o mundo. um subalterno da Artilharia. com o coração enlevado por uma onda de alívio patriótico. Mallory notou. – Ned. milagre. que a disciplina militar e a dieta sistemática haviam acrescido centímetros e quilos ao rapaz. e suspirou como um mergulhador cuja cabeça passou pela superfície da água. mas era alegremente respirável.. vestindo elegante uniforme. sempre parecera um tanto quieto e tímido. Usava um dólmã azul trespassado. Mallory endireitou-se rapidamente. de tom claro e com divisas. engraxates – toda a milagrosa rede concatenada de Civilização. e a nova fita perfurada enrolava-se aos trancos sobre o chão. uma nucleação de ordem espontânea havia surgido! Agora. Segurou a mão de Mallory entre as suas e balançou-a com entusiasmo e firmeza. um telégrafo tilintava em espasmos. – Brian. e polvilho de enxofre para as pulgas que se arrastavam por sua cintura desde a manhã. veio o feliz reconhecimento. lavanderia. o belo jovem aproximou-se com expressão severa e determinada. – Estamos esperando por você. Mallory arrancou a máscara imunda do rosto e enfiou-a no bolso. Talvez uma bacia com água e sabão. amarrotada e manchada de suor. que o avanço desvairado do Caos atingira seu limite.

– É bom que finalmente esteja de volta – disse Brian. era um eco queixoso de memórias distantes: as demandas de um monte de criancinhas diante do irmão mais velho. Por alguma razão. longe de desgastar ou perturbar Mallory. A pobre Madeline está deprimida como nunca esteve. tem a ver com meu colega. É a pobre Madeline! Mallory soltou um grunhido.. Ned.. – Não sei como estão as coisas. chorando sem parar. O que é agora? – Bem. Sua expressão ficou triste. pois sempre falou dela. – Não a futura noiva. a mente torturada pelas informações de Brian. Tem vontade de ferir a si mesma. a família. ou bem como sempre está. e ele sentiu-se mais forte. Mallory sentiu uma onda ardente de fúria corar-lhe o rosto. endireitando os ombros com uma expressão de doloroso constrangimento. a não ser por “Aquele Que Sabe”.. – Fiquei longe por um bom tempo. – Ouvimos uma história de incêndio em seu quarto. – Puxa. em voz baixa e hesitante. Só que com palavras mais rudes. ninguém sabia por onde! Isso deixou a Tom e a mim muito confusos! – Tom está aqui também? – Viemos os dois para Londres no pequeno gurney do Tom – disse Brian. uma coisa sórdida e pavorosa! Ele ficou muito decepcionado! – Que carta. e não faz nada além de sentar-se sozinha na cozinha. a simples presença do jovem Brian fizera-o voltar a si. na Índia e na Crimeia – disse Brian. – Com péssimas notícias. – O que foi? – disse Mallory. – Jerry queria fazer as coisas certas por nossa Madeline. O pai está bem. a não ser pessoalmente. mas recebeu uma tal carta em sua casa. – É. Para Mallory. é o nosso pai? – Não.um pouco. ao tom lembrado da infância. exatamente. com a voz embargada e contida... Ned. como pode supor. dando-lhe nova disposição mental. ultimamente. Mallory ficou em silêncio. A confusão desapareceu como névoa. impudica. como é bom vê-lo! – soltou Mallory. por hábito antigo. mais capaz. digo. Ned. e viveu de modo muito correto por ela. e disse que Madeline fora. preparando-se. Ned. mas o remetente sabia tanta coisa sobre nós. não estava assinada.. sobre todas as nossas ações. não pensa que poderia haver alguma verdade no que o perverso fofoqueiro contou a Jerry? Pensa? . – Pois o noivado foi cancelado. Jerry Rawlings – murmurou Brian. – Entendo – disse. reanimou-o imediatamente. pelo amor de Deus? – Bem. e sem ter como contar-lhe.. Diga-me a verdade. por menores que fossem.. e você desapareceu em Londres. – Prossiga.. o apelo familiar..

a pergunta me ofenderia. – Sabe? – Sim. Brian seguiu na frente até o salão do Palácio. – Se você não fosse um civil. se tiver de fazê-lo? – Medo? – disse Brian. Prossiga. – Onde está Thomas? – Está comendo no. mal poderia acreditar! Brian balançou a cabeça lentamente. – O quê? Nossa Madeline? Meu Deus. por que alguém nos faria tal coisa. com estranha expressão de fúria queixosa... e conheço o bandido que o fez. olhando para o saguão à sua volta.. trata-se de calúnia. pelas pessoas que ficaram em casa. – Pra dizer a verdade. – Começou a abrir a aba do coldre. Você sempre parece ver as coisas com clareza. posso mostrar-lhe. – Sou um homem de alguma influência agora. O recinto normalmente destinado aos estudiosos estava tomado por trabalhadores comuns.. não? Foi por isso que lutamos contra os russos. Brian.. – É pela família. Mallory balançou a cabeça rapidamente. E sei onde está escondido neste exato momento! Brian encarou-o em perplexo silêncio. – Sei por que o fizeram. um honesto soldado da Coroa. Mas ver algo assim na Inglaterra é mais do que posso suportar! – Brian puxou as costeletas.. – Não. descobri uma espécie de segredo.. Brian. Ned? – perguntou Brian. então! O que devemos fazer quanto a este assunto horrendo? O que podemos fazer? – Essa pistola no seu coldre. Brian arregalou os olhos.. foi o sujeito que incendiou meus aposentos.. – Fiz dele um inimigo numa obscura questão política – disse Mallory. ela é uma Mallory! – Mallory deu um soco no balcão. bem. é um ataque infame e deliberado à honra de nossa família! – Como.. Mallory encarou-o fixamente. um gesto estranhamente familiar para Mallory... Brian olhou-o nos olhos com segurança. Ned. – Sabia que o certo era vir falar com você. . – Presenciei vilezas pagãs na Índia que embrulhariam o estômago de um homem forte. conspirações silenciosas que um homem como você. tomado de um oficial czarista morto. não é regulamentar! Um troféu de guerra. medindo as palavras. Ned. tagarelando e devorando ruidosamente batatas diretamente dos pratos de porcelana do Palácio. está em bom funcionamento? Os olhos de Brian brilharam. como ninguém é capaz. – Não tem medo de usar sua pistola.

alarmado. Fraser. Como vai. teve a gentileza de pagar- nos o almoço. – Sabia que viria! – Levantou-se e pegou outra cadeira.. – Sente-se conosco. Preto e forte. E se puder preparar um huckle-buff. – Está bom. Brian e Tom olhavam para Fraser com uma nova e meio ressentida desconfiança. a despensa do Palácio está um tanto desprovida. por favor? Fraser não disse nada. vestido de forma um tanto chamativa com um casaco curto de linho e calças xadrez.. Traga café. – Foi esse tal de “Capitão Swing” que escreveu a difamação mentirosa contra . O outro homem era Ebenezer Fraser. O jovem Tom Mallory. senhor. – E como está. – Ele tem uma prensa de Máquina. – Do tipo furta- foguista. – Ned! – gritou Tom. o Capitão Swing. Pretendo ir pessoalmente à caça do patife e dar um fim definitivo nisto! Brian inclinou-se para a frente. Fraser observou o garçom afastar-se.. – Um tanto fatigado – respondeu-lhe Mallory. estava sentado à mesa com um acompanhante. senhor. bem. Um prato simples de peixe e batatas é nossa melhor opção.. espero? – Baixou a voz. ou seja. caluniosos.como se estivessem famintos. Está imprimindo documentos sediciosos aos montes. sente-se! Seu amigo. diante dos restos de peixe frito e limonada. um dos funcionários habituais. – Deve ter tido uma noite animada – comentou Fraser quando o homem estava longe demais para poder ouvir. Confisquei alguns exemplares hoje pela manhã. Mallory? – indagou Fraser.. – E que bobagens persuasivas tem contado a meus pobres irmãos. com melancólica paciência. e uma turba de aliados. – Sério? – soltou Tom. sentando-se –. parecendo atordoado e com intenção de pedir desculpas. taciturno. Fraser. às centenas. Mallory bufou. se não se importa.. – Logo estarei um tanto mais ocupado ainda. encontrou refúgio em West India Docks – disse Mallory. – Descobri que o oportunista. o sr. Fraser? Completamente recuperado.. – Está tentando incitar uma insurreição geral! Fraser comprimiu os lábios. – O sargento Fraser é policial de Londres – disse Mallory. mas nada que um pouco de comida e um huckle-buff não dêem jeito. Um garçom chegou à mesa. um lixo ludita! – O senhor foi diligente. Mallory.. dr. indecentes. – Dr. não se preocupe.

enquanto o garçom colocava habilmente a comida diante de Mallory. – Dr. depois voltaram-se para Fraser. então. – Isso não importa nem um pouco – disse Tom. Fraser estava irredutível. cavalheiros – advertiu Fraser. – West India Docks. – Não aquela banheira velha. Mallory. – Se eu não acabar com ele agora.a nossa Maddy. por um momento.. rapidamente. – Somos livres súditos britânicos e podemos ir aonde desejarmos – disse Mallory com firmeza. e sim o modelo mais recente! É uma beleza. A visão do linguado frito e das batatas fatiadas fez o estômago de Mallory contorcer-se com pontadas de fome. novinho em folha. e o homem que buscam é astuto como uma víbora. num acesso de agitação. surpreso diante da argumentação de Mallory. indignados.. – Multidões turbulentas vagando pelas ruas. – Tenho o meu Zéfiro! Mallory ficou espantado. – Sabe que ele pretende me destruir – disse a Fraser. é meu dever cuidar para que não corra perigo! Não podemos permitir que fique mexendo num perigoso ninho de serpentes nos bairros mais repulsivos de Londres! Mallory engoliu o café quente. cravando-o com os olhos. foi? – Sim. pareceu abalado. pegou os talheres e pôs-se a comer com sofreguidão. Fraser! É inaceitável! As opções são vida ou morte. ele acaba por me fazer em pedaços. Tom endireitou-se na cadeira. Mallory grunhiu com escárnio. Ficaram em silêncio contra a própria vontade. E onde fica? – Descendo o trecho do Tâmisa em Limehouse. confusos. Tom e Brian. Trouxe-nos lá de Sussex em apenas uma manhã. ainda mais alarmados com a nova revelação da gravidade de seus problemas. Fraser. olharam um para o outro. enquanto tenho a chance. ele ou eu! Você sabe que essa é a pura verdade. – Riu. aguardando na cocheira do Palácio. . no outro extremo de Londres – disse Fraser. – Você trouxe o gurney de corrida da Irmandade? Tom balançou a cabeça. – Só posso chamar a isso de insensatez – disse Fraser. e teria vindo mais rápido até se não estivesse puxando uma carreta de carvão. – Podemos ir para onde quisermos! – Não vamos perder a cabeça. Não há absolutamente nada que possa fazer para me proteger! Esse homem não é como você e eu. Ned.

– Esse homem afirmou ser seu amigo. sr. Deus – disse Fraser. E aí? Como eu responderia a meus superiores? Mas agora Brian encarou Fraser fixamente. – Oh. Fraser. Fraser falou com relutância: – Não vamos agir com precipitação! Quando a neblina subir e a lei e a ordem retornarem.. Cara a cara. sr. – A sorte está a nosso favor. homens da família Mallory. cuja simples e . – Pensa que vai sair valseando pelos tumultos na parte mais opressiva de Londres? – Nós. Ned. então estou pronto! – Calma agora. o honesto coração de um herói da Crimeia. não somos como os afrescalhados das academias de dança – disse Mallory ao policial. que você caia numa armadilha ardilosa e seja assassinado.. Mallory! – disse Fraser. – Pretendo ensinar uma lição a esse Capitão Swing! Se tiver de começar pelo senhor. ele não passa de um vira-lata. e chance melhor nunca virá! Em nome da sanidade e da justiça. – Ele está nas docas. – Adquiri uma pistola. sr. Fraser? Já teve de ver a felicidade dela despedaçada como uma xícara de porcelana. pisoteada por um monstro? E com o coração ferido dela. E o jovem Brian também está armado. – Pensa ser mais assustador enfrentar os pobres de Londres do que os selvagens de Wyoming? – Na verdade. – O Capitão Swing vive sob uma neblina que nunca sobe – disse Mallory. rapazes – disse Mallory aos irmãos. Fraser! O senhor deliberadamente enganou a mim e a meu irmão Thomas! Não posso dar crédito a qualquer conselho seu! – Brian está certo! – disse Tom. Mallory deliberadamente limpou a boca com o guardanapo. – Não vejo razão alguma nisso. Brian interrompeu com um movimento da manga dourada. Ele olhou para Fraser com um misto de desprezo e surpresa. em minha opinião. com os olhos duros de soldado. ponha fim a esse choramingo inútil e inoportuno! Fraser suspirou. – Consideravelmente pior. derrubei-o no Derby. Fraser! Não gaste nosso tempo com tal futilidade! Temos de vir às mãos com esse fantasma escorregadio de uma vez por todas. – Ah. vigoroso e calejado. Fraser – disse com brandura. e com isso fez com que Brian e eu falássemos livremente sobre você! E agora está tentando nos dar ordens! – Tom brandiu o punho cerrado. sim – disse Fraser lentamente. Outros comensais por perto começaram a olhar. – Não tenho medo de Swing – disse-lhe Mallory. – E suponhamos. sr. como seu colega Rudwick. – Já teve uma irmã mais nova. nesta brava expedição. – Lembra. pelo amor de Deus.

seus olhos brilharam. tem de ser em mais estrito e permanente segredo. mas o sóbrio comprometimento de Mallory não admitia objeções da parte deles. Mallory. – E Deus olha pelos insensatos – murmurou Fraser. É um trabalho enorme! Devemos tomar com nossas próprias mãos a lei. Inclinou-se para a frente. – Meus irmãos e eu respeitamos sua excepcional perícia. o rosto magro retorcendo-se com genuína fúria. pois ainda desconfiavam de Fraser. – Nunca me verão delatar! – declarou Tom. ficaremos gratos em colocar-nos sob seu comando. – Nem em meu túmulo! – Eu diria que o juramento de um soldado britânico ainda vale – disse Brian. – Basta! Brian recostou-se. – Não se trata de assunto simples. – Fraser franziu a testa.valorosa intenção era fazer dela sua noiva. Não necessita jamais duvidar de nossa discrição ou determinação. puxando as pernas das calças dos joelhos ossudos. – Tenho de ligar o vapor do Zéfiro! – disse Tom. – Não tive sorte alguma desde que o conheci.. correremos o risco – disse Fraser com um esgar de fatalismo. Aproveitaria cada minuto. mas quatro homens corajosos podem pegar o canalha miserável com a guarda baixa. percebendo a vitória. Era uma visão inesperadamente assombrosa. Tom e Brian pareciam perplexos diante da súbita mudança de conduta. cavalheiros! Não é uma brincadeira para amadores. Mallory. dr. Mallory assentiu. levantando-se da cadeira. hein? Prendê-lo! Ele é esperto. como um príncipe jacobino. – Então. – Quem pode dizer que não vamos apanhar o salafrário. nossas vidas e nossa honra. concentrado. – Minha belezinha precisa de meia hora para se aquecer. – A sorte está do lado dos corajosos – disse Brian. sargento Fraser! Se puder guiar-nos rumo à justiça. A honra sagrada de nossa querida irmã está em jogo. Fraser suspirou alto. Fraser alisou as lapelas escuras com as duas mãos. pronunciou-se com uma sagacidade que surpreendeu até a si mesmo. enquanto ele estiver bancando o valentão pela área pobre de Londres. – De repente.. Se tiver de ser feito. . parecendo levemente humilhado com a interrupção. – Parece um momento fadado aos riscos – admitiu com um encolher de ombros inclinado e um estremecimento passageiro. e ouso dizer que espero que isso mude.

com enchimento de algodão barato dos confederados. Do lado de fora do Palácio. estamos por toda parte. O pequeno e ruidoso gurney mal tinha espaço para dois homens dentro do casco de latão estriado. Brian fungou o ar acelerado. Mallory amarrou as fitas de sua máscara com precisão atrás da cabeça.. de Lewes até aqui. Brian chutou a lona frouxa da carreta para desfazer uma parte mais embolada. O afastamento de Fraser parecia tê-lo feito relaxar. os gurneys modernos – observou Brian com um sorriso estoico. sobrepondo-se ao jovem e austero oficial subalterno. devido ao enjoo! Descemos aquele novo canal francês em Suez. Tom e Fraser estavam ocupando esses assentos. encheu meus ouvidos falando sobre Zéfiros. alistado há cinco anos. passando para o inverno da Crimeia! Se o cólera ou a febre quartã não acabaram comigo naquela situação. tirando uma chispa ardente saída da chaminé. Discutiam diante de um mapa das ruas de Londres. e as rodas de borracha com raios de madeira da carreta de carvão giraram com rangidos ritmados. estendida sobre um monte decrescente de carvão. não preciso me preocupar com uma nevoazinha londrina. rapaz. Desceram a Kensington Road com uma celeridade espantosa. penteado e com as partes íntimas polvilhadas com talco antipulgas. diretamente de Bombaim.. Ned – disse Brian. rapazes da família Mallory. – Brian deu uma risada contida. Algo do garoto de Sussex parecia mais presente nele. em tom filosófico. – Precisa de uma máscara de respiração – disse Mallory. O gurney e a carreta entraram em movimento. – Vapores de carvão penetrando nossa casa de máquinas – recordou- se Brian –. Habitamos o maldito transporte durante semanas! Do insalubre calor egípcio. – O miasma deporá contra sua saúde. – Precisam de umas pazadas de carvão. – Tom realmente toma conta de sua preciosa máquina. oferecendo ao irmão uma das máscaras improvisadas que as damas haviam costurado no Palácio: um quadrado de guingão caprichosamente costurado com fitas. em longo prazo. – Pensei em você muitas vezes. Sua voz era áspera. – Isto não se compara ao mau cheiro de um barco de transporte militar – disse Brian. – Nós. – Não está tão ruim. Mallory procurou um ponto de apoio rugoso dentro da carreta de madeira do Zéfiro. Brian esfregou a manga do garboso casaco. e os rapazes vomitando a ração para todo lado. no Canadá – disse Mallory ao irmão. Sabia que cumpriria com seu dever. Sentou-se de frente para Mallory. e uma guerra em andamento! Mas eu sabia que daria orgulho à família. mas o rosto barbado havia corado com o . Brian. lavado. – Você.

Isso não é guerra civilizada. É a Artilharia Real. – Os jornais disseram que os russos lutaram sem respeito algum ao decoro militar. – .elogio de Mallory. depois que voltei – disse Brian. um pouco estranhamente. descendo a rua de modo sorrateiro. nas ruas de Odessa. mas a metralha vinda dos morteiros funcionou uma maravilha. – Entraram em mortal desespero quando nos viram intocáveis – disse Brian. – O olhar de Brian ficou distante. – Onde está nosso irmão Michael neste momento. – Esse foi o único local em que os russos de fato atormentaram- nos. nossa infantaria – aliados franceses em sua maior parte. – E seus pequenos queridos. e acabou com o pobre Ivan com os rifles de corda. Brigando e atirando de casa em casa pela cidade. suponho. – Ora. os Rads militares. em Alma e Inkermann. nosso Michael. Mas lhes demos uma surra tão grande que entraram em pânico. – Somos a força militar mais instruída. Ned. no Redan. – Os russos fizeram o que podiam. – Não mencionou Dorothy. – Não aprecio muito uma briga de rua – observou. depois riu. Ned. Enormes redutos. – O semblante ficou carregado. feito bandoleiros. Eles amam a Artilharia. – Por que não foram honrados e deram a vocês uma batalha decente? Brian olhou-o com surpresa. hein? O bom e velho Mickey? – Em Hong Kong. certamente tentaram fazê-lo de início. – Brian apagou mais uma graúda faísca de chaminé com o polegar umedecido por saliva. – Vi Ernestina e Agatha. Nunca viram de perto uma espada desembainhada ou uma baioneta. A família não se referia mais a Dorothy. Depois se posicionaram em trincheiras. penso eu – disse Mallory. – Mick certamente estaria hoje conosco se o destino o tivesse levado a aportar na Inglaterra. Quando nossas armas pesadas abriram fogo. fumaça branca e sujeira voando no auge do fogo de barragem. Brian observou com desconfiança alerta uma dupla de homens com capas de chuva largas. Não é necessário ter visto tais coisas para vencer uma guerra moderna. Brian remexeu-se sobre as protuberâncias da lona voltando a atenção cautelosa às ameias indistintas de um palácio científico. – Podia-se ver. fizeram parte do serviço a pé – penetrou as paliçadas. Nunca foi de se esquivar de uma luta. desfizeram-se tal castelo de cartas. – Ciência militar especializada! Sujeitinhos sonhadores com óculos sobre o nariz e números na cabeça. Trata-se apenas de trajetórias e timing de detonação. correndo. cada rajada caindo certeira tal árvores num pomar! E quando o bombardeio parou. concentrado na lembrança. e em Sebastopol. Pode considerar o feito parcialmente meu. – Conte-me – disse Mallory.

– Não se trata de gostar de guerra... a Índia – disse Brian. bobagem muçulmana.. Especialmente nossos próprios soldados nativos. entende. – Mas nunca tive muita certeza de quem seriam os “sipaios”.. Brian concordou. esse é o problema dos ianques. Um furacão gigante. exatamente.. – É de fato assombroso o que as novas bombas incendiárias são capazes de fazer. enquanto Tom pilotava o Zéfiro. Não podíamos aceitar tal coisa. Ned. pensou Mallory. – Sim. – Ah – disse Brian –. Tivemos uma sequência de problemas com os amotinados. – Soube que participou de uma campanha na Índia – disse Mallory. – Pois alguns povos são desatinados demais para conduzir a si mesmos. Olhou ao redor com cautela. mas já era tempo de dar uma lição ao czar Nicolau.. é preciso ser totalmente insensato! – São um povo esquisito. – E quanto menos falasse no assunto. lutando em emboscadas. Jamais pensaria que qualquer homem fosse capaz de tais crueldades e selvagerias. – Houve uma “tempestade de fogo” no cerco de Filadélfia. Tivemos de tomar medidas. mas os muçulmanos não gostam de comer carne de porco. – Pelo menos tudo acabou rapidamente – disse Mallory. Li a respeito – assentiu Mallory. – Devia ter visto Odessa ardendo em chamas. – Sua voz baixou. mas horrível. todos muito supersticiosos. Trabalho feio. só os índios. princípio muito notável. Como um furacão de fogo. durante a rebelião. – Deram-se bem com os ianques. Situação muito semelhante. pelo menos. aliás? – É um lugar horrível. repleto de estranhas maravilhas. desonroso. Os ombros com franjas douradas de Brian cintilaram quando ele os encolheu. em perfeita disposição. mas o vice-rei da Índia não provera os regimentos nativos de qualquer artilharia moderna. os ianques – disse Mallory. na América? – Não cheguei a ver os americanos. Parecia arriscado. melhor..Partiram para a guerrilha. vi barbaridades em Meerut e Lucknow. prontamente –. que nós mesmos . com respeito à gordura de porco nos cartuchos de seus rifles! Pura tolice dos nativos. passando pelos destroços fumegantes de um ônibus. nenhuma percepção militar! Imagine fazer tal coisa em suas próprias cidades! Ora. – Qual a sua impressão da Índia. Podem ser colocadas em fileiras. essa é a verdade – disse Brian. e são os japoneses. atirando contra bandeiras brancas e coisas semelhantes.. – Sipaios são tropas nativas. Duvido que o tirano volte a puxar a cauda do Leão. Uma bateria de morteiros de Wolseley é capaz de mandar um regimento bengali pro inferno em cinco minutos. – Ainda assim. Só há um povo sensato na Ásia.

telégrafos.. – Estão jogando dados – explicou Mallory. – Estão armados? Mallory pestanejou. Mallory agarrou o cinto do irmão e içou-o de volta ao espaço seguro. Mallory olhou para o irmão com surpresa. derramando uma pequena cascata de carvão pela traseira com o choque da aceleração. brandindo o punho e chacoalhando a garrafa de gim. Na entrada de uma rua adjacente. aquedutos e coisas assim. posicionados sob um toldo.. não há como saber o que se passa naquela estranha cabeça. Atrás deles. – Fanáticos – assentiu Mallory. – Como sabia que fariam aquilo? – perguntou Mallory. Brian bateu o pó de carvão dos joelhos com um lenço. Um bando de miseráveis desgrenhados faziam as vezes de vigias. tal cães de fazenda correndo atrás de carroça. pôs a mão sobre a estranha e robusta pistola. e seus companheiros alarmados gritaram insultos desconfiados por trás das máscaras de farrapos. estes sentinelas foras da lei passavam uma garrafa de gim de mão em mão. Os miseráveis corriam atrás do Zéfiro. – Ali. sujo e nu.. O que estão fazendo os tratantes? Mallory virou-se e olhou. suponho! Porque estamos num veículo. Estradas de ferro. viu que Brian tinha toda razão. Um gordo valentão fez um gesto obsceno quando o Zéfiro passou ruidoso.treinamos. – Acho que não nos pretendem fazer mal. como se a pergunta fosse . e eles lá. – Mas por quê? – Porque estamos aqui. com uma flor no cabelo. e eles a pé! – Olhou para Mallory com o rosto vermelho. Ele quase foi lançado para fora da carreta quando Thomas pisou no pedal do Zéfiro. – Eu sabia. abriu o coldre. descrentes. quase deixando a rua deserta. – Ficou em silêncio. – Mas o indiano comum certamente deve ser grato por um governo civil decente. – Ah – disse Brian –. em seguida apontou bruscamente acima do ombro de Mallory. depois se curvaram feito néscios a recolher os carvões caídos como se fossem esmeraldas. os perseguidores pararam de súbito.. a calçada estava tomada por uma roda grande e agitada de jogadores.. Pareciam tomados de uma energia furiosa e barulhenta. Brian precipitou-se para o outro lado da carreta de carvão e espiou acima da lateral de madeira. O barulhento Zéfiro subiu a rua suavemente.. quando se vê um faquir hindu sentado no nicho de um templo. Brian apoiou-se num joelho. – Vão atacar-nos – anunciou Brian. mas para seu maior espanto.

– Trouxe-a especialmente para você. Havia soldados com baionetas nas esquinas de Piccadilly. seguido por Mallory. encabulado. Voluntários das classes respeitáveis foram investidos de autoridade em West End. O Zéfiro. Receberam relatos de que Bedlam fora devastado e que seus loucos. os soldados intimidavam ostensivamente um pequeno grupo de policiais londrinos desnorteados. mas eles lançaram um olhar de aversão para o Zéfiro. pensou Mallory. famintos ou desesperados. Disseram-lhes que a situação estava totalmente fora de controle ao sul do rio. munidos de bastões e rifles. Mallory acenou cordialmente para os agentes da ordem. Fraser não fez comentários. foi buscar informação com os policiais londrinos. Todos os homens fisicamente aptos da força policial estavam nas ruas. sem pressa. Grupos de londrinos mascarados seguiam arrastando- se. Além das fronteiras da precária autoridade. exaustos. e amarrou a coisa por trás do pescoço.. na esquina da Longacre com a Drury. Comiam mingau com pratos e talheres de latão amassado. Mallory recostou-se e olhou noutra direção. e muitos tinham toscas bandagens nas mãos. mas voltou ao Zéfiro com o olhar de inflexível determinação. Os guardas moviam-se confusamente. com uma desconfiança combativa que o fez parar rapidamente. o caminho abria- . o Exército fora convocado por um comitê de emergência e um toque de recolher geral fora declarado. Algumas quadras adiante. Alguns estavam sem capacete. apanhando com hesitação seus inadequados cassetetes. a ladainha da calamidade acabara com quaisquer dúvidas quanto aos responsáveis pelos próprios riscos. Era meio-dia. – Coloque a máscara – disse em tom brando. Brian então sorriu. conspirando.. Os policiais tinham o rosto coberto de fuligem e tossiam. passou pela turba amorfa.mais incômoda que uma luta armada. estendendo-a. Tom seguiu pilotando. em modernos trajes de lã grossa sarapintados e chapéus desajeitados. com um brilho âmbar e espectral no zênite encardido. e as multidões apinhando-se feito moscas nas encruzilhadas da cidade. irrequietos. na cabeça e nas canelas. com alegres toques de apito. a coisa tornava-se rapidamente mais grave. Havia intensas batalhas com pedras e pistolas em Lambeth. curiosos. Pelo menos. feito crianças repreendidas. Tom parou o Zéfiro para abastecê-lo com carvão enquanto Fraser. Muitas ruas estavam obstruídas por turbas amotinadas. corriam pelas ruas em frenesi. agora desamarrados.

seus únicos vestígios eram jarros espedaçados. – O que foi? – Sedição – disse Mallory. colados no local da orgia embriagada. Dois ônibus usados para fins militares faziam a patrulha em Cheapside. e cada local da arrebatadora pilhagem estava agora cercado da viscosidade pungente e deteriorada do derramamento. duas parelhas de enormes percherões. caminharam com interesse até o muro. Em Whitechapel havia crianças sujas. e o teto de ambos os veículos a vapor carregava altas pilhas de móveis roubados. o jovem Thomas. tão carregada de anúncios que parecia feita de crosta de queijo. Homens exibindo pistolas pendiam dos estribos. com o olhar atento para interferências. derrubadas a tiros. retirou-se. cópias do mesmo ataque violento. lotados de valentões carrancudos. Quatro cavalos mortos e inchados. O cartaz apresentava uma grande mulher alada.se a ele por reflexo. com um encolher de ombros e um riso de escárnio. Acertou o alto do Zéfiro com um pedaço de carvão. pois algumas agitavam trapos coloridos e gritavam para as pessoas na rua. Uma espécie de espiãs. numa superfície coberta por madeira de lei. Palavras aparentemente aleatórias tinham sido assinaladas em vermelho. local antigo para colagem de anúncios. As carcaças enrijecidas. e precisam . opinou Brian. vacilante. Alguns metros adiante aparecia a carreta. descalças. a uma altura de quatro andares. depois abertos a pancadas. e Tom parou. trepando feito macacos sobre o braço vermelho de um grande guindaste de construção. estendendo os ombros doloridos. Eles permaneceram em silêncio. Após um momento. tentando decifrar a impressão de letras entrançadas e borradas. espalhafatoso e de impressão grosseira. Cerca de duas dúzias dos melhores de Capitão Swing tinham sido recentemente colados. ainda tinham os arreios. Não restara nenhum farrista. Tom desceu do gurney seguido de Fraser. com os cabelos em chamas. Mallory avistou uma praga morfética de anúncios. – Vou cuidar do gurney – disse. protegendo as costelas feridas. acima de duas colunas de denso texto. saqueada e sem as rodas. esmagando vidro sob as rodas do Zéfiro. jaziam em Stepney. Mallory considerou mais provável que os marotos tivessem ali subido em busca de ar fresco. Brian começou a ler em voz alta. farrapos sujos de roupas femininas e sapatos sem par. Os quatro. Thomas contornou facilmente os ônibus bamboleantes. Os doze grandes barris de cerveja haviam sido rolados rua abaixo. – “UM APELO AO POVO! Vocês são todos livres Senhores da Terra.

Bem no meio de tanta sordidez. não havia mais necessidade de palavras. verificou as peças da Ballester-Molina e trocou algumas . Sangue! Sangue! Vingança! Vingança. Mallory.. temos de livrar-nos dele! Não há outra saída! Retornaram ao Zéfiro. – É o discurso bombástico de um louco criminoso! Brian apontou para a parte de baixo do cartaz. não importa o risco. Fraser falara por todos.. vingança! Pragas. – Não entendo as chamadas “Sete Pragas”! Refere-se a elas como se fossem aflições horrendas e. – Que diabos o canalha está tentando dizer? – perguntou Mallory. quaisquer que sejam elas. – Não existe raciocínio nesse monstro – disse Fraser.... estavam unidos. dr. dos criminosos.. Nunca deixa claro o que seriam. não as nomeia nem enumera.. completamente resoluto. NÓS destruiremos o Vapor de Moloch e quebraremos seu ferro titubeante! Enforquem dez dúzias de tiranos nos postes desta cidade. Acima das máscaras. com a cabeça zumbindo. puro. os olhos vermelhos brilhavam com toda a inflexível coragem da determinação varonil. no entanto. Aconteça o que acontecer. esse pareceu a Mallory um momento de verdadeiro esplendor. totalmente livre de dúvidas. substituída pela atenção intensificada e a pulsação acelerada. – Não pode acreditar que um massacre geral seja a resposta para as suas queixas. sobre todos os que não deram atenção à justiça universal! IRMÃOS. a exaltação começou a baixar. não temos recurso que não seja uma guerra geral! Estamos numa cruzada pela REDENÇÃO dos oprimidos. de todos aqueles que são ATORMENTADOS pela Prostituta das Sete Pragas.. dos pobres. Pela primeira vez no que pareciam eras. dos rebeldes. et cetera. onde Tom terminara o abastecimento.apenas de coragem para fazer uma GUERRA triunfal contra a Prostituta de Babilondres e todos os seus instruídos ladrões.. cujo corpo é de enxofre e que monta o cavalo de ferro do pesadelo. severo. Mallory ajustou a máscara. Mallory olhou fixamente para os irmãos. IRMÃS! Não se ajoelhem mais diante dos vampiros capitalistas e da ciência estúpida! Deixem que os escravos do banditismo coroado rastejem aos pés de Newton. – O senhor tinha toda razão. – Nunca vi algo parecido – murmurou Fraser. sentiu o coração elevar-se dentro de si. sentiu-se redimido.. Profundamente emocionado. e sua felicidade e liberdade estarão garantidas para sempre! Avante! Avante!!! Temos esperança no Dilúvio humano. – O que ele poderia estar querendo? – indagou Mallory.” Havia muito mais. Enquanto o Zéfiro seguia através de Whitechapel. pragas odiosas.

inconteste. assim como Brian. usava um chapéu alto. O Zéfiro parou de súbito. mas não o suficiente para esconder o corte de cabelo de prisioneiro. uma sordidez nos batentes. Ao examinar os cartazes em busca de duplos sentidos. Tal era o escárnio diabólico dos fraudulentos cartazes. um jovem cruel com rosto que lembrava massa suja. calças xadrez e botas de amarrar com ponta de latão. das casas enfileiradas. tinha um gorro de pele asqueroso puxado para baixo. do puro aspecto físico da cidade. pura e simples. armarinhos e tabacarias. Mas com todas as dúvidas resolvidas. desgrenhados. Mallory viu-se inspecionando cada porta e cada janela que passavam. A visão do próprio nome abalou suas mais altas sensibilidades com um choque quase doloroso. Um anúncio do Banco da Inglaterra solicitava depósitos em quilos de carne humana. um brutamontes musculoso de trinta e cinco anos. poderia até haver cartazes genuímos. O terceiro era atarracado. muitas outras. enrijecido de sebo. Foi dominado por um inexplicável cansaço da alma. cada palavra publicada parecia deteriorar-se em absurdos ameaçadores. Parecia que todos os muros de Limehouse estavam maculados pelas efusões do desgraçado. das ruas. de pernas tortas. com vida e morte aguardando o lançamento do dado. eram astutamente disfarçadas. meias sujas e um longo cachecol que cobria a boca. parecia haver muito pouco a ser dito. dos pátios. com calças de couro até os joelhos. da perpetuidade de seu pesadelo. a feiúra dos andaimes amarrados uns aos outros por cordas.palavras com Brian. com apreensiva cautela. bloqueando a passagem. de casas de penhores. enquanto o Zéfiro seguia retumbando. Uma aparente promoção de excursões ferroviárias de primeira classe incitava o público a roubar os ricos passageiros. pelas ruas de macadame. Homens mascarados correram para a rua diante deles. . das pedras cobertas de névoa e dos tijolos enegrecidos pela fuligem. Mallory nunca antes percebera a ubiquidade dos anúncios em Londres. Uma náusea diante dos toldos. a obstinada onipresença de insistentes palavras e imagens. porém. O segundo. E ele não fora a única vítima daquele estranho tipo de falsificação. A cidade parecia estender-se em torno deles como impiedoso abismo de tempo geológico. que até os anúncios totalmente normais começaram a parecer estranhos. sacudindo a carreta de carvão. Era um cansaço da própria Londres. ameaçadores. uma horrível preponderância dos postes de luz e dos postes de armação de granito. dos arcos. pois ele não leu o texto. O primeiro. dando várias voltas. com um casaco seboso e calças de veludo cotelê. Algumas eram vívida loucura. Mallory viu de imediato que aqueles eram tratantes da pior categoria. Um grito horrendo rompeu o devaneio de Mallory. dos becos. Mallory notou cinco exemplares dos anúncios da palestra que o difamavam. Em vez de falar. Além desses despautérios.

Tally Thompson! Eu conheço você. o infeliz largou a faca com um uivo. indolentes. o líder. Surgiu com tranquila segurança diante dos cinco brutos que se acotovelavam. de lâmina larga.. Carregavam armas improvisadas.. horrorizado. com bastante clareza e firmeza: – Ora. pressionando a máscara contra o rosto com uma das mãos e sacando uma faca curta. com a maior naturalidade do mundo. mas inesperadamente cruéis nas mãos ligeiras desses bandidos. não é Tally? – disse. com largas camisas de mangas curtas e calças apertadas demais.. – Todos. precipitando-se do interior de uma loja de ferragens saqueada. – É o sargento Fraser! – gritou o garoto com cara de massa suja. Fraser bateu habilidosamente a coronha da Derringer no pulso do homem de cachecol. – Mas que droga! – soltou Tally Thompson. com a outra. puxou o lenço do rosto com um sorriso zombeteiro e amarelado. isso de nada adianta. – Não – berrou Thompson –. – É uma pena. seus idiotas. mesmo. – Franziu o cenho para os outros. atira nele! – gritou o bandido de cachecol. mais dois aliados – jovens grosseiros. rapazes? – Vamos sair daqui – choramingou Bob Miles. Está preso. Fraser sacou uma algema de ferro azulado. Os outros três bandidos fugiram de imediato. relaxados. por grave delito.. – Por Deus. – Saiam dessa carroça – ordenou. nada disso! Não suporto isso! Não vou aguentar! – Vocês vão sair do caminho – anunciou Fraser. – Saiam já! Mas Fraser já estava em movimento... arrancando uma Derringer do cinto com tachas de latão do homem. como o sargento está mandando! – Matem-no. venham aqui e acabem com esses policiais filhos da puta. parecia. seus cabeças de bagre! – gritou o homem de cachecol.. o que anda fazendo por aqui ainda? Largue esse ferro ridículo antes que eu o leve daqui. – É a porra de um policial. – Policiais aqui! – gritou como um vendedor de castanhas quentes. dando dois passos para trás. Em seguida. – Você. e devo crer que me conhece. – Devíamos cair fora. acabem com ele! Swing vai degolá-los se não o fizerem! – O homem de cachecol ergueu a voz. um ferro de plissagem e um atiçador de um metro de comprimento. Tally Thompson também tentou . – Quer dizer que temos uma arma. – Você vão sumir daqui. Bob Miles.. Anunciou. Fraser fechou as algemas com destreza em torno dos pulsos de Tally Thompson. empalidecendo com assombro. O homem com botas de latão. sr. Itens caseiros. certo. tal professor acalmando uma turma indisciplinada. Tally.

– Caramba. com expressão de desespero. lançando-a ao chão. – Sua arma não presta. Tally? – Não sei o nome dele. – Não vou. Os cinco contornaram o bandido que gemia e engasgava. – Não sei nada de comunários.. – Quem é esse. ele me matou! Fraser deu um tapa repreensivo na orelha de Tally Thompson. – Ianque. – Fraser olhou para Mallory e Brian. Eles vão procurar por ele. – Não falava como nenhum ianque de Nova York. curvou-se. para o chapéu perdido. na carreta de carvão. Depois parou. rolando no próprio sangue derramado sobre o pavimento. Swing gostou dele. com um puxão violento da algema. vai nos levar ao Capitão Swing. – Levei um tiro. friamente. – O quê? – disse Fraser. – Confederado? Unionista? Texano? Californiano? – É de Nova York – disse Tally. O homem de cachecol deu um salto e alguns passos cambaleantes para trás. só isso! . catou um ferro de engomar pelo cabo de mogno. – E você. A cartola amarrotada parecia que estivera colada à cabeça do bandido. não? – Que tipo de ianque. Tally. fiquem alertas agora. olhando para trás. Tally. que escândalo ele faz – disse Fraser. Temos de seguir a pé agora. mas Fraser agarrou os pulsos algemados do homem com a mão esquerda. – É claro que o conhece! – Sem nomes! – insistiu Tally. – Estava com um ferro de engomar de cinco quilos. Recuou a mão. Fraser deu um tapa na cartola amassada de Tally. Fraser pôs Tally Thompson de pé. Sem interromper o passo. rapazes. – Ele me matou – grasnou o bandido. Vamos ter de deixar o gurney. dobrando os joelhos. – Quer me dizer que era um communard de Manhattan? – Olhou para trás e viu o homem moribundo enquanto caminhavam.correr. Mirei nas malditas pernas! – Ele não pretendia fazer mal – choramingou Tally. depois se recuperou rapidamente e falou com moderado ceticismo. as pernas tortas e sujas tremendo na convulsão. como se arrastado contra a vontade. com um olhar penetrante para Mallory. descrente. Fraser mirou a Derringer e atirou. O homem de cachecol curvou-se. atônitos. contorcendo-se em espasmos. – Vamos. – Fraser arrastou Tally para a frente. então? – perguntou Fraser. percebendo a manha do velhaco. com fuligem e óleo de macassar. sargento! – Vai. desequilibrou-o com um puxão e girou-o até que caísse de joelhos. Tally. para arremessá-lo.. e caiu na rua.

Não deve usá-lo. Fraser guiou-os por um beco atravessado por enferrujadas passarelas elevadas. – Não sabe nada sobre policiais? Vim atrás de Swing sozinho. sargento! – Quantos homens nesse armazém? – Ouça-os destruindo-o! – disse Tally. Tally ficou em silêncio. – Os rapazes de Swing voltaram depressa e encontraram seu carro. retirando um pequeno cassetete flexível de couro e.. – Restou apenas um tiro. perto do meio. e trouxe esses três rapazes animados só para assistirem à diversão! Diga. na parte mais grossa de seus braços e ombros. um estilhaçar enfurecido de vidros e estrondos ecoando como tambores de folhas de metal golpeadas. – Que idiota você é. com o nariz achatado escorrendo. . – Tem mais algum como ele. sargento. Fraser caminhou em direção a Tally Thompson. parecendo ter-se recuperado –. a menos que seu homem esteja ao alcance da mão. no conselho de Swing? Outros homens de Manhattan? – Swing tem muitos amigos – disse Tally. – Cheio de pilhagens. enfiou a mão no bolso do casaco. maravilhas! E armas.. onde ele está atocaiado? – Num grande armazém nas docas – choramingou Tally. – Docas de importação ou exportação – Importação. entregando-lhe a Derringer de Tally.. começou a bater no meliante com estarrecedora precisão. se mexer com ele! – Tom – disse Fraser.. vai mesmo. caixas cheias das melhores armas. – Ala sul? Ala norte? – Sul. Sem parar. – E em qual armazém? – Não sei – resmungou Tally –. é o seu carro! – disse com uma voz mais firme. ainda em movimento. implacável. – Da rua atrás deles vinham gritos distantes. Entortou os lábios... Fraser parou e guardou o porrete. – Ora. Uma estranha espécie de admiração infantil eliminara todo o pavor de suas feições taciturnas. sem mais choramingos. nunca passei dos malditos portões! Não sei a droga dos nomes de todos esses armazéns especiais! – Que nome estaria na porta? O do dono! – Não sei ler. e vai acabar com você. sabe disso! – Onde fica. empertigando a cabeça para escutar. e finalmente começou a gritar. O homem encolheu-se e grunhiu sob os golpes. Tendo se livrado da pistola.. com os muros altos de tijolo brilhando de umidade oleosa. então? – perguntou Fraser. Tally Thompson – disse com uma espécie estranha de afeição..

– Eu poderia ter atirado nele! – soltou. essa gente de Londres? Mallory assentiu sobriamente. a voz aguda de raiva e dor. Houve um silêncio repentino. – Um trabalho ludita em seu belo gurney! – Cala a boca. Tally. – Não sou eu quem está depenando seu precioso gurney! Grite com eles. Deu um passo titubeante. Tally virou-se e gritou entre as mãos em concha. com um giro violento do punho. encolhendo-se com o golpe. Depois olhou para Tom. quase derrubando Brian. depois rolou ao chão de pedras do beco feito um saco de farinha. Tally deu um tranco para trás tirando as mãos algemadas da mão de Fraser. – Droga. compassivamente. Ned? Ficaram todos ellynge. – Calma. com a respiração trêmula. Tom puxou sua máscara. encarou o rosto mascarado de Tom. meus queridos! – Seu grito ecoou pelo desfiladeiro de tijolos. – Parem com a diversão. – Estão danificando propriedade privada! Tom lançou-se sobre o homem feito um raio. – O que é isso. então! – De repente. estavam escorregadias com o sangue dos pulsos lacerados de Tally. O policial cambaleou. com leve sotaque de Sussex. – Foi estranhíssimo o que o tratante acabou de fazer! – admirou-se Brian. Surpreso.. A cabeça de Tally caiu para trás. com o porrete em punho agora. – Tem o pavio curto. – Estão fazendo-o em pedacinhos! – declarou Tally animadamente. Tom! – disse Brian. rapaz. rapaz! Derrubou-o feito um touro abatido! . garoto! Mande-os parar. – Mas nada que um braço forte não cure! – Bateu no ombro de Tom com a mão aberta. – Você o apagou! Fraser. meu jovem? – Cala a boca. foi até o bandido inerte e puxou uma pálpebra para cima com o polegar.... Olhou para Mallory com estranho e confuso apelo. já lhe disse! – gritou Tom. Fraser tentou abrir as algemas. seu desgraçado! – irrompeu o jovem Tom. Depois ergueu a voz. – Quantos homens? – gritou Fraser. – Estão todos loucos aqui. esbofeteando a orelha de Tally. – Eu poderia. Tally Thompson olhou de soslaio.. – És um pugilista. rapaz. Ned! Ter atirado para matar! Mallory acenou brevemente com a cabeça. com um renovado esgar oblíquo de satisfação. e ele perdeu a respiração com um suspiro dissonante. como um macaco.. com a voz fraca.

O beco terminava numa área desocupada de um prédio demolido. Aqui e ali. um mero rapaz de dezenove anos nocautear um brigão com botas de metal? É um prodígio. – Onde estamos? – perguntou Brian. o nevoeiro abrindo aqui e ali. adornada por bandeiras náuticas de advertência. O céu corria cinza amarelado. rapaz – disse Fraser. o alicerce rachado repleto de pedaços de tijolo vermelho e lascas acinzentadas de madeira estilhaçada. sem ser indelicado. ao longo da curva Limehouse Reach. Eles ficaram em silêncio. – Mas podemos encontrar outros amotinados. – Não foi tanto assim – disse Tom. ao pé do aterro. talvez? Bloqueio? O rio parecia quase abandonado. Mallory não conseguiu reconhecer os sinais. colocando cassetete e algema nos bolsos. Fraser seguiu em frente. ele com as mãos atadas – disse Tom. – Não nos podem ouvir. certamente! – Nem foi uma briga limpa. – Um soco! – exultou Brian. – Minha nossa – exclamou Tom com leve diversão na voz. Do outro lado do rio ficava a torre de navegação de Cuckold’s Point. Tom sorriu timidamente. depois cambaleou e parou. e o encolhido Tâmisa não passava de um lampejo moroso entre longas praças de margem barrenta com rachaduras. como se presos em cimento. Brian prendeu o riso. abrindo caminho. revelando grossas nuvens esverdeadas tal coalhada apodrecida. O nível estava baixo. esfregando as juntas dos dedos. Os irmãos seguiram-no. como uma tábua de carvalho. sr. Mallory seguiu seu olhar. com a voz vacilante. mas o suave e líquido escoamento do Fedor gelatinoso – subiu do Tâmisa e derramou-se sobre eles. Algo como uma brisa fluvial – não chegava a ser brisa. . Fraser olhou para os alagadiços de um lado e de outro. Quarentena. – O quê – objetou Mallory –. a máscara apertada contra os lábios barbados. O outro lado do muro de tijolos – fazia parte do aterro do Tâmisa – era um declive de três metros até o leito do rio. Havia um muro espesso e baixo de tijolos ao fim do terreno abandonado. e seguiu pelo beco a passos rápidos. Mallory ergueu-se e ficou de pé. Pequenos barcos estavam engastados na lama preta acinzentada. pequenos arroios de lodo verde azulado estendiam-se até as trilhas lavradas pelas dragas de canal. Tommy! – Parem! – sussurrou Fraser. Fraser! Não com a tremenda algazarra que estão fazendo no meu gurney! – Não é aquele bando que me preocupa agora. Fraser levantou-se. respirando muito superficialmente. – Deus do céu! Que cheiro é esse? – O Tâmisa – disse-lhe Fraser. – Você o derrubou de uma vez.

– Deus do Céu! – gritou Brian com débil assombro e ajoelhou-se rapidamente
atrás do muro. Com solidária agitação nauseante, Mallory ouviu a violenta ânsia
de vômito do irmão.
Com duro esforço, Mallory dominou a sensação. Não foi fácil. O Tâmisa
claramente superara até mesmo o lendário fedor dos porões dos navios da
Artilharia Real.
O jovem Thomas, embora também tivesse ficado muito pálido, parecia mais
resistente que Brian – habituado, talvez, aos escapes explosivos dos gurneys a
vapor.
– Ora, vejam que coisa sórdida! – declarou Tom, de repente, com a voz
abafada e absorta. – Sabia que tínhamos uma seca, mas nunca imaginei algo
assim! – Olhou para Mallory com assombro e olhos vermelhos. – Nossa, Ned... o
ar, a água... Com certeza, nunca houve algo tão pavoroso!
Fraser parecia aflito.
– Londres nunca é o que poderia ser, no verão...
– Mas olhe para o rio! – gritou Tom, inocentemente. – E veja, veja, lá vem um
navio! – Um grande barco a vapor movido a roda de pá subia o Tâmisa com
dificuldade, e era de fato embarcação de aparência muito esquisita, com o casco
plano como o de uma balsa e uma cabine redonda de ferro inclinado e rebitado,
as paredes de couraça preta remendadas de proa a popa com grandes quadrados
brancos: escotilhas de canhão. Na proa, dois marinheiros, com luvas de borracha
e capacetes de borracha com bocais, faziam sondagens com uma linha
chumbada.
– Que espécie de barco é essa? – perguntou Mallory, esfregando os olhos.
Brian ergueu-se, sem firmeza, e apoiou-se sobre o muro. Limpou a boca e
cuspiu.
– Couraçado de bolso – anunciou com rouquidão. – Um navio de batalha
fluvial. – Apertou o nariz e estremeceu da cabeça aos pés.
Mallory havia lido a respeito de tal embarcação, mas nunca a vira.
– Da campanha no Mississippi, na América. – Observou com a mão acima da
vista, sentindo a falta de uma luneta. – Traz a bandeira dos Confederados, então?
Não sabia que tínhamos um exemplar aqui na Inglaterra... Não, estou vendo que
a bandeira é a Union Jack!
– Vejam o que fazem as pás da roda! – admirou-se Tom. – Essa água deve
estar densa como geleia de mocotó...
Ninguém considerou apropriado comentar tal observação. Fraser apontou rio
abaixo.
– Ouçam, rapazes. A algumas varas de distância há um fundo canal dragado.
Vai dar nos ancoradouros em West India Docks. Com o rio baixo assim, com

sorte é possível arrastar-se por aquele canal e sair dentro das docas sem ser visto.
– Andar sobre a lama da margem, você quer dizer – disse Mallory.
– Não! – gritou Brian. – Deve haver outro estratagema!
Fraser balançou a cabeça.
– Conheço essas docas. Têm um muro de dois metros e meio ao redor, coberto
por um cavalo de frisa muito afiado. Há portões de carregamento e um terminal
ferroviário também, claro, mas estarão bem guardados, com certeza. Swing
soube escolher. O lugar é quase uma fortaleza.
Brian balançou a cabeça.
– Swing não vigiará o rio também?
– Sem dúvida – disse Fraser –, mas quantos homens permanecerão atentos a
esta lama fétida, por Swing ou qualquer outra pessoa?
Mallory assentiu, convencido.
– Ele está certo, rapazes.
– Mas vai cobrir-nos da cabeça aos pés com essa imundice sebosa! – protestou
Brian.
– Não somos feitos de açúcar – resmungou Mallory.
– Mas meu uniforme, Ned! Sabe quanto esta casaca custou-me?
– Troco meu gurney por esse reluzente galão de ouro – disse-lhe Tom.
Brian encarou o irmão mais novo e recuou.
– Então temos de despir-nos, rapazes – ordenou Mallory, tirando o casaco. –
Como se fôssemos trabalhadores do campo, juntando feno fresco numa bela
manhã de Sussex. Joguem no lixo a fineza da cidade, e rápido.
Mallory despiu-se até a cintura, enfiou a pistola no cinto das calças
arregaçadas e desceu o muro do aterro. Meio deslizou, meio pulou na lama
daninha abaixo.
O barranco estava duro e seco feito tijolo. Mallory riu alto. Os outros se
juntaram a ele, Brian por último. Brian chutou um prato de barro rachado com a
bota engraxada e lustrosa.
– Isso está indo longe demais – disse –, convencer-me a tirar o uniforme!
– Que pena! – escarneceu Tom. – Nunca vais limpar a sujeira desse lindo
casquete.
Fraser, retirando agora o distintivo, ficou de camisa branca e suspensórios –
peças surpreendentemente casquilhas, de seda ondeada escarlate. Um novo
coldre de ombro de camurça clara continha uma pequena e robusta pistola
pepperbox. Mallory notou a protuberância de uma bandagem acolchoada sob a
camisa e a alça.
– Não reclamem, rapazes – disse Fraser, seguindo à frente. – Há quem passe a
vida nas lamas do Tâmisa.

– E quem faz isso? – perguntou Tom.
– Os catadores da lama – disse Fraser, seguindo adiante. – No inverno e no
verão, labutam com a lama da maré baixa até a cintura. Em busca de pedaços de
carvão, pregos enferrujados, qualquer lixo do rio que valha um penny.
– Está brincando? – perguntou Tom.
– Crianças, na maioria – persistiu Fraser, calmamente –, e muitas mulheres
idosas e frágeis.
– Não acredito em você – disse Brian. – Se dissesse que era em Bombaim ou
Calcutá, eu poderia aceitar. Mas não em Londres!
– Eu não disse que os infelizes são britânicos – disse Fraser. – Os catadores da
lama são estrangeiros, a maioria. Refugiados pobres.
– Pois então – disse Tom, aliviado.
Seguiram com o andar pesado, respirando da melhor forma que podiam. O
nariz de Mallory entupira solidamente, e a garganta estava cheia de catarro. Era
um alívio, de certo modo, ter poupado o olfato.
Brian ainda resmungava, num tom monótono que se harmonizava com os
passos ruidosos.
– A Grã-Bretanha é hospitaleira demais com todos esses malditos refugiados
estrangeiros. Se dependesse de mim, transportaria todos para o Texas...
– Todos os peixes aqui devem estar mortos, certo? – disse Tom, curvando-se
para remover uma travessa de barro, dura como se fosse de porcelana. Mostrou a
Mallory uma mistura achatada de espinhas de peixe incrustada na lama. – Veja,
Ned... a mesma imagem de seus fósseis!
Chegaram a um obstáculo alguns metros adiante, a depressão lamacenta
deixada por uma draga, meio preenchida por lodo, marmorizada com repulsivos
veios de gordura pálida, como resíduos de uma panela de toicinho defumado.
Não havia outra saída senão pular e sair chapinhando até o outro lado do fosso, e
Brian teve o azar de escorregar. Ergueu-se asquerosamente lambuzado, agitando
as mãos para tirar a sujeira e praguejando violentamente no que Mallory supôs
ser hindustâni.
Depois do fosso a crosta era traiçoeira, placas de lama seca deslizavam ou
desintegravam-se sob os pés, acima de um lixo píceo e viscoso, cheio de limo e
bolsas de gás borbulhantes. Mas a sorte era ainda pior no canal de entrada das
docas. Ali as margens do canal estavam bloqueadas por estacas com piche
ensebadas de resíduos esverdeados e umidade oleosa, elevando-se quinze pés
acima da água. E a água, que preenchia o amplo canal de margem a margem, era
uma fossa cinzenta e fria, aparentemente sem fundo, retorcendo-se em rolos
espessos de lodo verde azulado.
Era um impasse.

– Qual o nosso procedimento agora? – perguntou Mallory, austero. – Nadar?
– Jamais! – gritou Brian, os olhos vermelhos e perturbados.
– Escalar os muros, então?
– Não podemos – Tom suspirou, olhando desanimado para as estacas
ensebadas. – Mal conseguimos respirar!
– Eu não lavaria minhas mãos nessa maldita água! – gritou Brian. – E minhas
mãos estão encrostadas de lama fétida!
– Parem! – disse Fraser. – Os homens de Swing hão de ouvi-los, com certeza.
Se nos pegarem aqui embaixo, seremos abatidos feito cachorros! Parem, e
deixem-me pensar!
– Meu Deus, o Fedor! – gritou Brian, ignorando-o. Parecia estar a ponto de
entrar em pânico. – É pior que o navio de carga... pior que uma trincheira russa!
Jesus Cristo, vi cadáveres russos de uma semana serem enterrados em
Inkermann, e aquilo cheirava melhor que isto!
– Chega! – sussurrou Fraser. – Estou ouvindo algo.
Passos. O andar de um grupo de homens, aproximando-se.
– Eles nos pegaram – disse Fraser em agudo desespero, olhando para o alto do
muro abrupto e colocando a mão sobre a pistola. – Chegou a nossa hora...
vendam caro sua pele, rapazes!
Mas num momento – uma série de instantes cortados em fatias tão finas que
normalmente são inúteis à mente humana –, Mallory foi atingido por uma
inspiração tal rajada de vento alpino.
– Não – ordenou aos outros com uma voz de convicção ferrenha. – Não olhem
para cima. Façam o mesmo que eu!
Mallory começou a entoar uma cantiga de marujo, alto, embriagadamente.
“Em Santiago o amor é agrado,
Para esquecer quem foi deixado...
Pois dê-nos um beijo de mel,
Polly e Meg, Kate e Nell...”
– Vamos, rapazes! – insistiu animadamente com um aceno bêbado de braço.
Tom e Brian, terrivelmente perplexos, cantaram o refrão, vacilantes e atrasados.
“Adeus, adeus, amigo marinheiro
Vou para a baía do Rio de Janeiro !”
– Próxima estrofe! – incitou Mallory.
“Em Vera Cruz é lindo o dia
Adeus a Jane, Amelia e Mia...”
– Olá! – veio o grito brusco do alto do muro. Mallory olhou para cima, com
dissimulada surpresa, e viu corpos escorçados. Meia dúzia de saqueadores
assomava-se sobre eles com rifles pendurados nas costas. O que gritara agachou-

se no alto das estacas, a cabeça e o rosto envoltos em lenços de seda com
estampa Paisley. Trazia uma pistola brilhante de cano longo, com aparente
descuido, sobre um joelho. As calças de brim branco pareciam imaculadas.
– Olá, terra firme! – gritou Mallory, estendendo o pescoço. Abriu os braços
num cumprimento jovial e quase tombou para trás. – Em que lhes poderíamos
ser úteis, elegantes cavalheiros?
– Aí vai uma charada – anunciou o líder no tom elaborado de um homem a
jogar pérolas aos porcos. – Quão bêbedos, quão de fato embriagados podem ficar
quatro pombos londrinos? – Ergueu a voz. – Não estão sentindo a terrível
fedentina aí embaixo?
– Certamente! – disse Mallory. – Mas queremos ver as West India Docks!
– Por quê? – O tom era frio.
Mallory soltou uma risada dissonante.
– Porque está cheia de coisas que queremos, não é assim? Faz sentido, não?
– Coisas como tecidos limpos? – disse um dos outros homens. Houve risos
misturados a grunhidos e tosse.
Mallory também riu e bateu no peito nu.
– Por que não? Seus rapazes podem ajudar-nos? Joguem uma corda ou algo
assim!
Os olhos do líder estreitaram-se entre os lenços de Paisley, e segurou com
mais força a coronha da pistola.
– Você não é marinheiro! Um lobo do mar nunca diz “corda”. Sempre diz
“amarra”!
– Que te importa o que eu sou? – gritou Mallory, olhando zangado para o
homem. – Jogue-nos uma corda! Ou uma escada! Ou um maldito balão! Ou
então vá pro inferno!
– É isso mesmo! – Tom entrou na conversa com a voz trêmula. – Quem
precisa desses aí!
O líder virou-se, e seus homens desapareceram com ele.
– Rápido! – berrou Mallory como última réplica. – Não podem ficar com toda
essa bela pilhagem pra vocês!
Brian balançou a cabeça.
– Por Deus, Ned – sussurrou. – Isso é perigoso demais!
– Vamos nos passar por saqueadores – disse Mallory, calmamente. –
Agiremos como velhacos bêbados prontos para qualquer tipo de maldade!
Vamos nos juntar a essa laia e chegar a Swing!
– E se nos fizerem perguntas, Ned?
– Aja como um imbecil.
– Alôô! – veio do alto uma voz aguda.

– O que é? – Mallory gritou em tom rude, olhando para cima. Era um garoto
mascarado e esquelético de uns quinze anos, equilibrando-se sobre as estacas
com um rifle nas mãos.
– Lorde Byron está morto! – gritou o garoto.
Mallory emudeceu.
Tom quebrou o silêncio com um grito penetrante.
– Quem disse que ele morreu?
– É verdade! O velho desgraçado bateu as botas, está mortinho da silva! – O
garoto riu com leviano prazer e saltou pelas estacas com o rifle balançando em
cima da cabeça. Desapareceu com um pulo.
Mallory recuperou a voz.
– Com certeza, não.
– Não – concordou Fraser.
– Não é provável, pelo menos.
– É só a vontade desses anarquistas – sugeriu Fraser.
Houve longo e vazio silêncio.
– É claro – disse Mallory, puxando a barba –, se o Grande Orador de fato
estiver morto, isso significa... – as palavras faltaram-lhe, em um naufragante
ataque de confusão, mas os outros esperavam dele orientação, quietos e
esperançosos. – Bem... – disse Mallory –, a morte de Byron marcaria o fim de
uma era de grandeza!
– Não significaria muito, necessariamente – contestou Fraser, a voz sob firme
controle. – Há muitos homens de grande talento no partido. Charles Babbage
ainda vive! Lorde Colgate, Lorde Brunel... o Príncipe Consorte, por exemplo. O
príncipe Albert é um homem sensato e previdente.
– Lorde Byron não pode estar morto! – explodiu Brian. – Estamos no meio da
lama podre, acreditando numa mentira podre!
– Silêncio! – ordenou Mallory. – Teremos simplesmente de suspender
qualquer julgamento sobre o assunto até termos sólidas evidências!
– Ned está certo – assentiu Tom. – O primeiro-ministro teria preferido que
fosse assim! É o método científico. É o que Lorde Byron sempre nos ensinou...
Uma corda grossa, pichada, com a ponta amarrada num laço compacto, desceu
serpenteando o muro. O tenente anarquista – o homem afetado com os lenços de
Paisley – posou uma perna dobrada em cima do muro, com o cotovelo no joelho
e o queixo na mão.
– Ponha o traseiro aí, meu amigo – sugeriu –, e içá-lo-emos num instante!
– Agradeço-lhe imensamente! – disse Mallory. Acenou com alegre confiança
e entrou no laço.
Quando veio o puxão, ele firmou os sapatos cobertos de lama contra as

horríveis vigas escorregadiças e subiu a passos pesados até o topo.
O líder atirou o laço vazio de volta, com a mão em luva de pelica.
– Bem-vindo, senhor, à augusta companhia da vanguarda da humanidade.
Permita-me, sob as atuais circunstâncias, apresentar-me. Sou o Marquês de
Hastings. – O autodenominado marquês fez uma breve reverência, depois uma
pose, erguendo o queixo e colando o pulso enluvado no quadril.
Mallory viu que o sujeito estava agindo a sério.
O título de marquês era uma relíquia anterior aos Rads; no entanto, ali estava
uma espécie de jovem fingidor, um fóssil vivo, vivo e no comando de seu bando
de víboras! Mallory não teria ficado muito mais chocado se visse um jovem
plesiossauro erguer a cabeça serpentiforme das profundezas do fétido Tâmisa.
– Rapazes – disse com lentidão o jovem marquês –, derramem um pouco de
água-de-colônia sobre nosso sarcástico amigo! Se ele aprontar qualquer
estupidez, sabem o que fazer.
– Atirar nele? – soltou alguém, em tom idiótico.
O marquês recuou com primor – um gesto teatral para indicar que houve falta
de elegância. Um garoto com um capacete policial roubado e camisa de seda
rasgada entornou a água-de-colônia fria de um vidro lapidado sobre o pescoço e
as costas de Mallory.
Brian subiu em seguida, na ponta da corda.
– Essas são calças de soldado, sob a sujeira – observou o marquês. – Ausente
sem permissão, camarada?
Brian deu de ombros, calado.
– Aproveitando as curtas férias em Londres?
Brian fez que sim como um imbecil.
– Dê calças novas a essa criatura imunda – ordenou o marquês. Examinou sua
pequena trupe de seis, que mais uma vez baixava a amarra com o desajeitado
entusiasmo de um cabo de guerra de Primeiro de Maio. – Camarada Shillibeer! É
mais ou menos do tamanho deste homem... dê-lhe suas calças.
– Ai, mas camarada Marqueis...
– A cada um de acordo com suas necessidades, camarada Shillibeer! Tire a
peça de imediato.
Shillibeer livrou-se das calças desajeitadamente e ofereceu-as. Não usava
roupa de baixo, e puxou nervosamente a ponta da camisa com uma das mãos.
– Pelo amor de Deus – disse o Marquês em tom pilhérico –, será que tenho de
explicar até as menores coisas, seu simplório tacanho? – Apontou de repente
para Mallory. – Você! Tome o lugar de Shillibeer e puxe a amarra. Você,
soldado, não mais subordinado do opressor, mas um homem inteiramente
livre!... vista as calças de Shillibeer. Camarada Shillibeer, pare de se remexer.

içado com a ajuda de Mallory. com audácia. o que os assemelhava mais aos bashi-bazouks turcos do que a qualquer tipo britânico. – Não somos o que se poderia chamar de amigos.. sedas suadas. O último. Os desordeiros tornavam- se ainda mais desajeitados por conta das assustadoras facas de cozinha e dos porretes de fabricação caseira casualmente enfiados nas vistosas vestimentas pilhadas. que se parece terrivelmente com um policial? Tom hesitou. camarada Ned? Não é tão estúpido quanto finge ser. abobalhados pela bebida. então – sugeriu o Marquês. – Então dê-me uma bebida – disse Mallory. senhor – desculpou-se Tom. senhor! – “Camarada” – corrigiu o Marquês. agora despachadas a tropas nativas nas colônias. parece. ao passo que outros dois eram gatunos velhacos. O Marquês encarou Mallory fixamente. precariamente pendurados em seus ombros. – E qual é. – Chamamo- lo apenas de Reverendo. bandoleiras do exército.. Os bandidos estavam muito estorvados pelos ruidosos rifles. Usavam cachecóis espalhafatosos. – O senhor não sabe? – Ele nunca nos deu nenhum nome certo – interrompeu Mallory. Dois deles eram praticamente garotos.Não tem nada para se envergonhar. com a discreta vestimenta de valete. Eram carabinas vitorianas de distribuição geral. E traga mais água-de-colônia. – Conhecemos o Reverendo hoje. Tom chegou em seguida. – Qual é o seu nome? – Tom. – Qual é o nome dele? – Ned. o nome daquele sujeito de aparência severa lá embaixo. por obséquio. – Suponho que devemos deixá-lo lá embaixo. irrefletidamente. grosseiros. O Marquês de Hastings examinou Tom. – E o dele? – Brian – disse Tom. era um negro delgado e silencioso. Shillibeer. – E uma dessas . senhor. E não está muito bêbado. pesadas relíquias de um tiro. O Marquês apontou. para a contínua surpresa de Mallory. atarracados. – Obrigado. – Traga-o – disse Mallory. – Creio eu. – Ele é esperto. – Oh? E você. Pode ir já para o depósito geral pegar roupas novas. – Pegue algo bom.

– Certo – grunhiu Fraser –. sabem que todos os camaradas passam pela tarefa do rio. pois sou um pinto-de-sucata. – Pinto-de-sucata – insistiu Fraser –. – Este Fedor está me deixando tonto. por obséquio.. sem fala. qual. – Pantisocrata.carabinas me seria útil também. Fraser subiu no laço. um pregador leigo do falanstério de Susquehanna? Fraser ficou olhando para o Marquês. – Tanto a pistola quanto o tiracolo que carrega parecem ser de policial... – Cada coisa a seu tempo. O Marquês interrompeu com fria precisão. Os quatro restantes soltaram um gemido inconformado. quer dizer? O que significa. como se compartilhassem uma piada. seguido de perto pelo negro. balançou a cabeça com a máscara listrada. meu pacifista amigo pantisocrata. não sou quaker. Os risos pararam de repente. um desses. – Refiro-me às doutrinas utópicas do professor Coleridge e do reverendo Wordsworth – persistiu o Marquês. meu ansioso amigo. mostrou o caminho ao longo do aterro. – Pergunta você – argumentou o garoto –. assim como vocês. – O que acha. O Marquês notou a pistola de Mallory. se estão dividindo as pilhagens. pois não? – fez uma pausa. – Um policial morto! Houve risos novamente. agora! – disse o Marquês. – Atenção. O Marquês. Reverendo – disse o Marquês –. Fraser. – Não desviem do caminho – repreendeu o Marquês –. em seguida ergueu a cabeça e recuou. seria sua graça? Fraser afrouxou a corda e saiu do laço. um daqueles ranters ianques . com sutil ameaça. – Não – disse com rangido –. chefe? Sou um maldito quaker! Houve risadas maliciosas. – Júpiter e eu vamos acompanhar os novos recrutas ao depósito geral.. – Então. Icem-no. Júpiter. O restante deve continuar a patrulha das margens. Surpreendeu Mallory o fato de que o sujeito deu as costas para quatro . fingindo um prazer grosseiro com o divertimento dos outros. Henry! Não podemos dar o fora? – Pergunta pro Marquês – disse Henry. O garoto que estava ao lado de Mallory cutucou com o cotovelo um dos outros broncos. – Peguei de um policial. interrompidos por tosses e grunhidos. – Acenou com a asseada mão enluvada. – Muito bem. ele sempre faz tanta pilhéria de mim.

é? – disse Mallory. Mas os outros se remexiam. com Tom. – O que tem no seu depósito. Seria uma questão de instantes atirar no guia pelas costas. Refiro-me às pessoas comuns de Londres. as massas. Os quatro ainda portavam suas armas. não tendo o anarquista sequer se dado ao trabalho de confiscá-las. liberamos! Você e seus amigos foram atraídos por algumas quinquilharias importadas. Mallory deu de ombros. claro! Haveremos de usá-la pela causa daqueles que lhe dão valor. um ato de completa insensatez ou coragem por sublime desatenção. camarada Ned. no entanto. camarada Ned. embora este estivesse desarmado. vossa senhoria? – Agradeço se não me chamar assim – disse prontamente o Marquês.estranhos armados. – Você a carregaria para o seu ninho de ratos – conjeturou o Marquês –. talvez.. vossa senhoria? Uma porção de excelentes pilhagens. – Está falando com um veterano da revolução popular. Mallory coçou o queixo. numa delegacia imunda com o pé de um policial no pescoço. aqueles que produzem todas as riquezas desta cidade. Apreendemos. Diga-me uma coisa. cheios de sentido. da própria Babilônia moderna! Poderiam possuir futuridade! – Futuridade. – Quanto dinheiro custaria um quarto de “futuridade”. os oprimidos. – E o que o senhor faria com ela? – Eu a usaria. São homens ou pegas? Por que se contentar com um bolso cheio de xelins? Poderiam ser os donos de Londres. A empreitada tornara-se dele agora. requisitamos. Acima da máscara listrada. e até Fraser apostara a vida na sorte de Edward Mallory.. Um trabalho cruel. Mallory trocou olhares silenciosos. acompanhando os passos largos do Marquês de Hastings. um soldado do povo que se . – Que conversa mais estapafúrdia – disse Mallory. os trabalhadores explorados. meu amigo de pilhagem! Mas não se preocupe com isso. o olhar do policial demonstrava ódio absoluto. o que faria com a pilhagem. atacar por trás. ansiosos. Brian e Fraser. – A revolução não saqueia. espero. Pensam em levar o que as mãos puderem carregar por alguns momentos. um ou dois dias depois. encarando Fraser. Mallory adiantou-se. ainda que. a venderia por uma fração do valor para um judeu contrabandista e gastaria a maior parte em bebida para acordar. e talvez no negro também. e Mallory notou que esperavam que ele consumasse o ato. – Uma porção de excelente esperança. se a tivesse? – Suponho que dependa do que seja – arriscou Mallory. uma necessidade de guerra.

– Estamos no coração da capital britânica. – Elimine a classe dos oficiais. com uma voz nova e mais nítida. muito mais avançado no curso do desenvolvimento histórico. Se meros ianques podem fazer isso. Ned. – O Povo Insurgente dominou a cidade de Nova York! Os trabalhadores controlam Manhattan enquanto andamos e falamos aqui! Liquidaram os ricos. – Está certo. – Leia sua história. homens encorajados até a medula pela primeira real liberdade que jamais conheceram! O Marquês parou por um momento.. tossindo – já se evadiu de Londres para escapar do Fedor! Quando tentar retornar. – Apreenderemos todas as fontes de opressão . Brian. Não me pode confundir com um lorde Rad. o povo da Inglaterra. umbrais. calado. na verdade. o Conquistador. – Que conversa é essa? Apoderar-se de Londres. becos. – Não compreende ainda a genialidade da estratégia de nosso Capitão – disse o Marquês. O próprio Byron fez o mesmo! – Riu. retirado da manga. Os lordes do Rad não bombardearão nem incendiarão sua própria Londres querida para reprimir o que falsamente consideram um período de inquietação passageira. pois sob a máscara e a bazófia era muito jovem – acreditava naquela loucura nociva com todo o coração. Não pode estar falando sério! Ninguém o fez desde William. – Não é um tolo. Estava claro para Mallory que o homem – o rapaz. – Wat Tyler fê-lo. meu amigo! – retorquiu o Marquês. – A maior parte da classe opressora – continuou. – Peço perdão e tenho certeza disso. então – disse. Mas! – ergueu um dedo indicador enluvado. as massas rebeladas recebê-la-ão com fogo e aço! Lutaremos contra eles em telhados. e os soldados rasos rebelar-se-ão conosco – disse o Marquês com frieza. de sangue e convicção. Brian? Brian fez que sim com a cabeça. Incendiaram Trinity! Confiscaram os meios de informação e de produção.orgulha do simples título de “camarada”. – Veja o seu amigo soldado. Parece bastante feliz em sua companhia! Não é assim. Não sou nenhum burguês meritocrata! Sou um revolucionário e um inimigo mortal. – Quando montarmos as barricadas por toda a cidade. – Mas o governo – protestou Mallory – enviará o Exército. pode fazê-lo com ainda maior facilidade. esgotos e galinheiros! – Fez uma pausa para limpar o nariz com um lenço sujo. da tirania de Byron e de todos os seus trabalhos! Mallory deu uma tossidela áspera e limpou a garganta. Cromwell fê-lo. acenando com a mão suja de lama.. a única área na Terra em que a elite imperial não está disposta a destruir em busca de sua malfazeja hegemonia. terão de lutar corpo a corpo com uma classe trabalhadora incitada. respirando com dificuldade o ar fétido.

esqueletos de tripulações deixadas por companhias marítimas para guardarem os navios no porto. A pistola Ballester- Molina era um peso frio contra as entranhas de Mallory. uma visão de provocar arrepios na espinha. uma passagem secundária do fluxo de esgoto do Tâmisa. Nem todos os marinheiros eram fiéis à ordem e à autoridade. – Para sempre. vapor ou fumo. espiralava-se de modo agourento das escotilhas abaixo do convés. patifes de suíças com chapéus-coco ordinários e calças ainda piores. Um quarteto de guardas anarquistas. mas parecia que o jovem fanático finalmente perdera a força. Dos armazéns do outro lado da água. Os cadáveres passavam tal madeira flutuante. a maior parte das tripulações fora assassinada em outro lugar. as linhas de telégrafo e os sistemas de tubos pneumáticos. traidores armados. Talvez. ele especulou. Outros guardas. Passaram por um navio abandonado onde um repulsivo gás. Conhece o termo “crescimento exponencial”. boiando entre finas vagas de lodo. não – mentiu Mallory. cordames entrelaçados e chaminés de vapor. camarada Ned? – Ora. bêbados. – E quer que o ajudemos. O Marquês e seu subordinado negro guiavam-nos alegremente. ou então recrutada para aumentar as tropas da pirataria de Swing. ao sul. sequer olhou. os quartéis e as repartições públicas! Submeteremos a todos pela grande causa da libertação! Mallory aguardou. os corpos de homens mortos.organizada. dormiam sobre carrinhos de mão virados e trenós de carga em meio a entulhos crescentes de barris. rolos de espias e rampas de carga. sim? Que nos juntemos a esse seu exército do povo? – É claro! – O que ganhamos com isso? – Tudo – disse o Marquês. . os palácios. – Vocês dominaram todos esses navios? – indagou Mallory. vinha uma salva dissonante de tiros de pistola longínquos. montes de carvão preto para os guindastes a vapor parados. A água nas docas. O Marquês não demonstrou interesse. não parecia tão pútrida a Mallory. enquanto seguia o Marquês pelo cais de madeira coberto por guindastes. camarada Marquês! – E mais a cada hora – garantiu-lhe o Marquês. Os jornais. não interrompeu o passo. com as carabinas apoiadas em sarilhos grosseiros. Mallory contou quinze corpos. – Deve ter muitos homens. Havia vistosos navios atracados em West India Docks. até ele ver. – Nossos homens estão vasculhando Limehouse. Marinheiros assassinados. possivelmente dezesseis. incitando todas as famílias de trabalhadores. cestos. jogava cartas sobre uma barricada de fardos de morim roubados.

colchões. o clacking de Máquina. – E quanto a ele? – O quê. agora. –. – Júpiter pertence a todos nós também. e todos vocês terão oportunidade de usar o trenó e o carrinho de mão. – O Marquês esfregou o nariz molhado com o lenço.. – Sigam-me. tapetes enrolados e cornijas em mármore. Não usava máscara de proteção. Mas a prensa estava oculta em algum lugar. é claro! Não é apenas meu criado. ainda. E é tudo seu. pistões emitiam ruídos. Suas imensas portas de carga estavam erguidas por um sistema inteligente de contrapesos articulados. É uma grande diversão. mesas de bilhar e armários de bebidas. O negro não demonstrou reação alguma. montes. revelando um interior formado por estruturas de aço. com um bigode de penugem loira. – É claro. atrás de um labirinto de pilhagens capaz de espantar um Borgia. Todos os camaradas. segadeiras de ferro e bebedouros de pássaros em mármore de Paros. revelando um semblante pálido de beleza quase feminina. – Campo muito interessante. Talvez não precisasse. penso que até meu Júpiter poderia fazê-lo! – Deu um tapa no casaco de libré do negro. adornos de mesa e candelabros. Evan-Hare. armações de cama e balaústres de corrimão. pois pertence a todos nós. sabe! Adquiri muita prática nisso. Madras & Pondicherry Co.. Mesmo entre os nomes eminentes do comércio – Whitby’s. As mercadorias formavam pilhas. terrinas. Aaron’s. poltronas.. rodas de carruagem. O Marquês levou-os ao maior dentre uma série de armazéns. Puxou o lenço do rosto. – Há fartura de produtos. meu Júpiter? – O Marquês ficou surpreso. Em algum lugar. mas serve ao bem comum. Abaixo do teto brotava um labirinto de suportes de aço. este era um verdadeiro palácio da modernidade mercantil. – Mais um dia de Fedor como este e teremos mais homens que a força policial de Londres! Não são os primeiros tipos que recruto. – Pareceu desatento. Mallory perguntou-se se seria surdo- mudo. igualmente! – Todos nós? – disse Mallory. sem nenhuma finalidade para o estudo científico do socialismo. – Termo matemático de clacking – expôs o Marquês. Mallory apontou para o negro. nos outros armazéns. com uma abóbada translúcida em vidro laminado cobrindo um teto que se estendia tão ampla e longamente quanto um campo de futebol. – Meu Deus! – gritou Tom. o barulho estalejante e familiar de uma Máquina de impressão. montanhas: brocados. . uma grega de engrenagens e trilhos em rodas na qual carrinhos com roldanas movidos a Máquina corriam feito aranhas. nervoso. distraído. Ora.. – Como fizeram tudo isso? – Estamos aqui há dias – disse o Marquês.

Hão de considerá-lo. Conjuntos de cadeiras de jantar baratas e desemparelhadas. bateu de leve no braço do irmão e sussurrou com . esfregou os olhos irritados. tiveram de desviar de uma grande quantidade de cacos de cristal. mas cautelosamente controlado. – Estranho – murmurou o Marquês –. que pulou com destreza sobre o volume. A palestrante. à esquerda de Mallory. Mallory e seus companheiros viram-se forçados a juntarem-se à plateia. As pilhas de mercadorias encolhiam na direção dos fundos do armazém. de carvalho prensado e boldo embutido. Passaram pela colossal máquina impressora. um apoio para livros. mui digno de sua atenção! Para sua enorme surpresa. um caminho ruidoso de cascas de amendoim. camaradas. havia frascos. cheios de bebida. no fundo do salão. intimidava as pessoas sentadas com uma voz de estridente. gaiolas de arame e bicos de gás de laboratório. – Pois aqui estão eles – disse o Marquês com estranha tremulação na voz. Mallory. quase atingindo o Marquês. Os rótulos traziam a caveira com os ossos cruzados entre uma porção de diversos frascos para destilação. Mallory notou uma voz distante. uma grande área livre tornara-se um salão de conferência improvisado. Parecia uma excêntrica palestra sobre a parcimônia. escondida num beco sem saída de elevados fardos de papel para impressão. todos acomodados sem firmeza sobre um palco de caixas de sabão aglomeradas. tubos de borracha vermelha. Ao seguirem o Marquês. brandindo uma haste de ébano com ponta de giz. da última vez em que estive aqui os camaradas estavam por toda parte. – Esse seu palestrante está usando um vestido! – Silêncio – sussurrou de imediato o Marquês. sentado ao lado do Marquês. grandes garrafões empalhados com tampa de vidro. mãos para trás. sem acreditar no que via. O negro permaneceu de pé. na última fila de cadeiras. A estranha acústica do salão improvisado distorcia suas palavras como se estivesse falando através de uma pele de tambor. Tom. poças de óleo de cozinha. uma mesa repleta de copos e garrafas. aguda e penetrante... serviam de assento para uma plateia silenciosa de talvez sessenta indivíduos. Sentem-se já. pois ela depreciava “o veneno do álcool” e sua ameaça ao “espírito revolucionário da classe trabalhadora”. fanatismo. garanto-lhes. Bem no fundo do armazém. – Estão com sorte! Barton dar-nos-á a honra de uma exposição. Um quadro-negro. Sobre a mesa. O amontoado de pilhagens transformara a metódica planta do depósito do armazém num monstruoso ninho de ratos. Alguém jogou um fardo de anúncios frescos por cima da barricada.

a obstrução aliviou-se. – Quem é. vertendo lágrimas quentes em abundância. numa letra cursiva elegante. meio nua. e viu o Marquês. menino – disse Mallory em voz baixa. e um objeto de madeira caiu com um estrondo. Acenou com a mão. O jarro era pedra maciça. então? A palestrante voltou-se para o quadro-negro e escreveu. Alguém bateu com firmeza em suas costas. Ele passou vacilante. os pelos dos braços e da nuca arrepiados de medo –. pensou em desespero. Alguma coisa – um floco de algodão seco de dentro da máscara – alojou-se feito um espinho em sua garganta. E não conseguia parar. o ataque foi vencido. Mallory enrijeceu-se na cadeira com um suspiro contido de choque. as palavras “Degeneração Neurastênica”. tremendo violentamente. retomou o fôlego e começou a respirar. os pés ficaram presos em algo. tossiu. O Marquês depositou um frasco curvo de prata em sua mão. Em seguida. sufocado por um bolo repugnante de vômito e catarro. lançou sobre o ombro falso e brilhante sorriso para a plateia e Mallory reconheceu-a. Aquilo chamou a atenção para ele como o pregão de um vendedor ambulante. Ele começou a tossir. meio cego. Era Florence Russel Bartlett. o que o faz pensar tal coisa? É claro que não é ela! Tom pareceu aliviado. derrubando a cadeira para trás com um estrépito. – Está bem? – Um ataque passageiro – disse Mallory com a voz áspera e baixa. de algum modo. meio curvado. Mallory lutou com todas as forças contra os espasmos torturantes. esperando encontrar Tom ou Brian. é claro. mas a traqueia-artéria parecia presa por barras de ferro. Eu poderia morrer. incapaz de estender o corpo. Mallory levantou-se de repente. embora cada átomo de Mallory ansiasse por um gole d’água. Meu coração vai explodir. Era uma donzela hindu em tamanho real. os olhos ressaltados nas órbitas. sequer abafar o pesadelo em forma de tosse seca. Tentou sorrir.voz que beirava o terror: – Ned! Ned! Essa não é Lady Ada? – Meu Deus. sussurrar um pedido de desculpa. mas não conseguiu controlar-se. Limpou a asquerosa saliva da barba com a mão e viu-se encostado numa estátua. braços esticados. em pedra artificial patenteada por Coate. A garganta viscosa estava lacerada. Algo vai rebentar. Virou a cabeça. Conseguiu encontrar um ponto de abrigo e curvou-se ali. Mallory inspirou com um chiado dissonante. Virou-se. . perplexo e vagamente ofendido. pela selva obscura de pilhagens. e saiu cambaleando. com um jarro d’água apoiado no quadril coberto por tecido drapeado. Por fim.

– O quê. inclinou o frasco nos lábios. avivando-se. eu noto que sempre ganho mais ao ouvir homens que conhecem de fato seu trabalho. Poderia sussurrar tal confissão. que sabia ser esta tal de Barton uma envenenadora. depois matar o Marquês de Hastings e depois empurrar seu desprezível corpo para baixo de alguma coisa. O Marquês pareceu cético. então.. Isso vai ajudar. Mallory. . Mallory fez que sim. deixe-me molhar sua máscara com ele. – Verdade? – disse Hastings.. – Eu. Algo como força reanimou-o.. de chacoalhar o maldito e perigoso imbecil até espremer-lhe os disparates tal fosse uma pasta. Engoliu com relutância. camarada? Mallory encolheu os ombros. para retornar à palestra? – Não! Não. substituído pela astúcia racional.. Se soubesse as maravilhas que ela realizou entre os doentes da França. despertando um intenso ímpeto de estrangular o Marquês. aqui e ali. camarada – disse Mallory –. O acesso repentino passou. específico contra o mau cheiro. – Tome. Pelo Continente. Uma mistura de melado com gosto vagamente parecido ao de alcaçuz e olmo encheu-lhe a boca. com expressão grave. a ouvir qualquer palestra. mas depois parece-me um homem de compreensão bastante sofisticada. fria e frágil como gelo. a exalação limpará seus pulmões. – Não consigo entendê-lo. – Às vezes parece-me um típico tolo interesseiro. – Prefiro que não o faça – disse Mallory com a voz rouca. – Viajou para onde... esperando um conhaque. certamente bem superior àqueles seus amigos! – Viajei um pouco – disse Mallory devagar. camarada – disse o Marquês. o que é isto? – Um dos medicamentos herbáceos da doutora Barton – disse-lhe o Marquês –. Venha. – Sente-se bem. – Imagino que isso amplie os horizontes de um homem. – Argentina. Barton é um gênio da medicina! Foi a primeira mulher a graduar-se com honras em Heidelberg. – A dra. – Prefiro conversar com você. Sentiu uma ânsia suicida de gritar a verdade. – Eu sei – soltou Mallory. uma vitrioleuse procurada pela polícia em pelo menos dois países. os pobres infelizes desacreditados pelos pretensos especialistas. Canadá.

– Charleston é uma cidade tão refinada e civilizada quanto qualquer uma da Grã-Bretanha. – Será que conheceu o sul da América? A Confederação? Mallory balançou negativamente a cabeça. era abolicionista. Paraíso Perdido. – E você nasceu lá. Lê até poesia.. – Espero mesmo que você não seja um fanático antiescravagista – disse o Marquês. Mallory prosseguiu apressadamente. Pareceu contente. na maioria. sim? – Mallory cometeu uma rata ao dizer em voz alta sua dedução. John Milton. – Um dos ministros de Cromwell – disse Mallory de pronto –. O .. urgência... O Marquês assentiu. – Há uma cidade chamada Charleston. autor de Areopagítica. em verso branco. Mas você nunca ouviu falar dele. Fidalgos arruinados da Grã-Bretanha. que fugiram dos Rads. Tem uma grande comunidade de exilados britânicos bem nascidos. O Marquês olhou à sua volta. aposto. como se procurasse espiões entre bebedouros e candelabros. – Seu negro lê versos? – Não “versos”. e franziu o cenho.. Já ouviu falar em John Wilson Crocker? Winthrop Mackworth Praed? Bryan Waller Procter? – Pode ser que sim – disse Mallory. pois Hastings pareceu sensível ao comentário. porém discreta. histórias sensacionalistas. Os grandes poetas. E estava preocupado com Tom e os outros. sim? – Ainda há bons poetas na Inglaterra.. para ter um negro. pareceu relaxar um pouco. Cidade encantadora. – O pobre Júpiter não duraria um dia no Império da Libéria – insistiu o Marquês. na Carolina do Sul. – Muito interessante – resmungou Mallory. então falou com renovada. – Não conseguiu encontrar um editor adequado. De fato. – John Milton escreveu um poema épico. – Deve ter prosperado em Charleston. poesia... – Sou agnóstico – disse Mallory. e apoiava a repatriação dos negros. Como não avistara nenhum. Uma história bíblica. – Conhece o nome William Blake? Escreveu e ilustrou seus próprios livros e poemas. – Sabe que ele lê e escreve? Eu mesmo o ensinei. – Estava intrigado com o estranho interesse do Marquês no hermético assunto. Imagino que me faria mandar o pobre Júpiter para uma das selvas infestadas por febres na Libéria! Mallory conteve seu gesto de assentimento. – Tantos britânicos o são. – Li um pouco.

deu um sorriso afetado. os nervos à flor da pele. – Falta agora você dizer que Charles Babbage escreveu poesia – disse Mallory. – Aonde quer chegar? – Trata-se de uma teoria minha – disse o Marquês. Marx ou Collins. – Poucos o sabem. Essa é a única verdade! Seu pequeno tolo. – Sua cabeça está cheia de fantasmas. fazendo chapéus. uma vez. Alguns dizem que desde então escreve peças teatrais e livros de sonetos inteiros ali. com o cano pesado da Ballester-Molina.que deveriam estar pensando. e isso não serviria. – Um espião. Não há história. O rapaz arregalou os olhos. Poderiam perder a paciência e fazer algo imprudente. – És um mentiroso! Mallory sentiu o tolo insulto agulhá-lo em seu íntimo. – A história é movida pela Catástrofe! É assim o mundo. os Rads não dão a mínima para você. – Saiba que Percy Shelley está vivo! Byron exilou-o na ilha de Santa Helena. duas vezes. Lá permanece como prisioneiro. Poderia chamá-la assim. pobre companheiro! Mallory chacoalhou a cabeça. tal ratos num poço. – Percy Bysshe Shelley era poeta antes de liderar os luditas nos Tempos Tumultuosos – disse o Marquês. é claro. Estava branco como papel. Mas desde que comecei a estudar os escritos de Karl Marx e. Refere-se a uma Catástrofe. – Está vivo – disse o Marquês. – O Marquês parou. é mais uma intuição poética. – Não exatamente uma teoria. – Fez menção de pegar a arma. – Quem é você? O que é você? Mallory ficou tenso. . – Entendo muito bem. Mallory segurou-lhe o braço e golpeou-o na cabeça. no presbitério de Napoleão i.. O Marquês caiu. do grande William Collins. nem para qualquer de suas palhaçadas poéticas! Matarão a todos vocês aqui. – Absurdo – disse Mallory. Quando o Marquês cambaleou para trás. – Não és o que aparenta – disse o Marquês. – Mas duvido que possa entender-me. ocorreu-me que uma terrível violência foi perpetrada contra a verdade e o curso natural do desenvolvimento histórico. – Shelley morreu na prisão há muitos anos. e eu deveria apodrecer em Lewes. enquanto esperavam sentados por ele. – Sim. a única maneira em que ele existe. existiu ou jamais existirá. garoto! “História”! Você pensa que deveria ter um título e propriedades. há apenas contingência! A compostura do Marquês foi destruída. sangrando.. Mallory deu-lhe um soco em cheio no rosto.

Mallory olhou para trás. do bolso do casaco do Marquês. Mallory voltou à área da palestra e sentou-se ao lado de Fraser. O negro suspirou. exceto. e ele. – Se o senhor o tivesse matado. – Virou-se sobre um salto polido e saiu andando. Bastou um momento para empurrá-lo para trás de uma enorme urna de terracota. Mallory tirou o lenço de Paisley dos cabelos cacheados do homem e amordaçou-o. – Ainda está respirando. Mallory apanhou a segunda pistola. esperando um ímpeto além da causalidade determinar a direção de sua queda. – Voltarei para Nova York. eu certamente gritaria – disse o negro. ergueu-se. Mallory bateu de leve na coronha da pistola do Marquês. O policial ergueu uma sobrancelha em silenciosa indagação. Houve um longo silêncio. totalmente errado. O negro ficou completamente imóvel. o frasco prateado de poção charlatanesca. O negro acenou com a cabeça. Mirou as duas armas para o homem. Não há progresso nem justiça. – Que seja assim – disse Mallory devagar –. presa na cintura das calças. mas esperou alguns instantes pela evidência que confirmaria a convicção. O negro estava parado a menos de cinco metros. sem pressa. Ele está morto? – Creio que não – disse Mallory. mas parecia dar-lhe força. e sua conduta parecia . terei de atirar em você. Sua garganta parecia uma lixa ensanguentada. pelo tato. do lado oposto da Ballester-Molina. é claro. olhou à sua volta. – Eu vi – disse Júpiter. Era repulsivo. Não havia nada para beber. calmamente. Mallory retirou-o. Florence Russell Bartlett prosseguia com sua arenga. A poção deixou uma sensação de dormência no fundo do palato. Estendeu as mãos abertas. estático como um cone platônico perfeitamente equilibrado sobre a ponta da agulha. e gemeu. – O senhor estava certo. imperceptivelmente. a postura rígida e perfeita. Mallory ficou em silêncio. mas se gritar. O Marquês mexeu-se onde estava. irresoluto. O choque da ação deixara Mallory sedento. num gesto suave que era como uma bênção. Fraser acenou com a cabeça. Deu mais alguns goles. como de champanhe seca. de algum modo. e umedeceu a garganta. Mallory teve certeza de que o homem não gritaria. Não há nada além de horror fortuito. – O senhor feriu o meu mestre. desaparecendo entre as altas barricadas de mercadorias. A história não é nada.

– Vamos sair deste maldito lugar! – Ainda não – disse Mallory. Uma palavra romperia a armadilha. segurando o pulso descoberto de Mallory com punho de ferro. pode estar em qualquer lugar desta toca. então. – Observou Bartlett enquanto seu discurso bombástico passava para estranhos planos de procriação seletiva para melhorar a descendência da humanidade. Um disco de borracha flexível. – Causei-lhe uma concussão. certamente compartilhariam com os outros camaradas na Chautauqua! Os quatros ficaram paralisados. Os olhos da multidão brilharam com sórdido prazer. Mallory não pôde evitar a imagem obscura de um coito envolvendo tais estranhos objetos. Brian inclinou-se de súbito na direção de Fraser. vocês quatro.. de alguma forma livres da estranha sujeição. Keats. O pensamento revirou suas vísceras. por sua vez. Ocorreu-lhe. sem motivo aparente. um chumaço de esponja preso a um fio. O “amor livre universal” substituiria a castidade. parecia. no fundo! Se têm mesmo de perturbar-nos. – Camaradas! – bradou Bartlett com uma voz de navalha fria.. A assustadora coincidência causou-lhe um estranho arrepio por todo o corpo. Mallory viu. Um fluxo hipnótico de puro pânico pareceu sacudi-lo por meio do aperto de Brian.. o alívio de canalhas que vêem a punição destinada a si cair em outro lugar.. Bartlett expunha aparelhos charlatanescos destinados a impedir a gravidez. com acompanhamento cinetrópico do sr. que esse dia – essa exata tarde. Mas estava abalado. Tom e Brian falaram ao mesmo tempo. que a sra. – Sim. – Eu não matei o rapaz – sussurrou Mallory. – Mergulhou-lhe o focinho em essência de charuto. – Ned! – sussurrou. o que fazemos? Mallory sentiu-se preso num pesadelo. em desvairados sussurros. – Ela matou um coelho há um instante – sussurrou Fraser.afetar a plateia com uma paralisia oculta.. Bartlett varreu-os com um olhar de medusa. para seu abalo e desgosto. – Não sabemos ainda onde Swing está escondido. – Ela refere-se a nós? – Meu Deus. se têm novidades de tão urgente importância. Os conceitos flutuavam como nuvens escuras na margem da mente de Mallory. viraram-se para olhar para trás com sanguinária alegria. creio. Na futuridade dela. . pensou. – Ela é apenas uma mulher – disse em voz muito alta e calma. Os outros ouvintes. pelo canto da boca. o casamento tradicional seria abolido.. de fato – seria o destinado à sua própria palestra triunfal sobre o brontossauro. A reprodução seria um assunto para especialistas.

Cadeiras estilhaçaram-se. Mallory chutou a cadeira vazia diante dele. três homens levantaram-se na plateia. – Fiquem quietos! – Nada a dizer-nos? – escarneceu Bartlett. no púlpito. e apertou os gatilhos. Fraser puxou a perna das calças de Mallory. – Quer que eu conte isso a todos esses simplórios e cativos? Houve um estrondo de cadeiras. sim. – Dra. – Conte-a a todos nós. Mallory mirou as duas pistolas em Bartlett. – Acabo com o primeiro covarde que se mexer! A resposta foi uma chuva de tiros. – Sentem-se. de homens ficando de pé de repente. O golpe foi intenso o bastante para entorpecer a perna e tirar-lhe o equilíbrio... – Camarada Pye tem a palavra. Estão se comportando de maneira retrógrada. – Corram! – berrou Brian. – Uma novidade para o Capitão Swing! Bartlett pareceu chocada. seu idiota! Perdeu a cabeça? – Eu tenho uma novidade! – gritou Mallory através da máscara de pano listrado. Mallory levantou-se. . – Basta! – sussurrou Fraser. A plateia atirava nele. ele aproveitou para se retirar. Barton – gritou Pye –. Barton? Bartlett deu um aceno gracioso com a cabeça e fez um gesto com a haste de ébano. e puxou as duas pistolas do cinto. Bartlett! – gritou Mallory. – Sente-se.. Barton! Dra. que saiu deslizando. erguendo as mãos. Nenhuma das armas disparou. ele aparou o golpe. sra. – Quero Swing! Tenho de falar com ele a sós! – À medida que o caos aumentava. Bartlett gritou algo em tom agudo. com estouros dissonantes. – Tenho. – Pensei que não. eu não reconheço esses camaradas. A arma do Marquês parecia ter uma espécie de chave de segurança niquelada. Ele. – Dra. mas algo o atingiu com força no pé. – Todos pensamos igual aqui! – Sei onde está o Modus. seus olhos moviam-se de um lado para outro. seus desgraçados! – Mirou as pistolas para a plateia. algo a dizer! Com a rapidez de um boneco que salta de uma caixa de surpresa. Tom e Fraser fugiram de imediato. distraidamente. que foi abafado pelo barulho. tombando dos dois lados de Mallory. Ele deixara de armar os cães. Alguém próximo arremessou uma cadeira em Mallory. então – ela ordenou.. e eu. eu penso que deveriam ser criticados! Um silêncio ameaçador envolveu os presentes.

atônito. – Ned! – gritou Brian. e a Ballester-Molina disparou. Tentou apoiar-se na mão direita. Todos os seis bandidos estavam caídos e desbaratados no beco. virou-se. Mallory ficou boquiaberto. Um abalo estremeceu o prédio. Um pobre diabo ainda murmurava enquanto Mallory retirava com dificuldade uma carabina vitoriana de baixo de seu corpo. braço direito estendido. depois escorregou e quase caiu de cabeça no sangue espalhado. cabeça reta e olhos atentos. tão espesso quanto um bastão de policial. – Por aqui! – O coração de Mallory saltava como um coelho. aproximando-se numa busca furiosa. derrapando. Mallory olhou para a mão ferida. Ergueu os olhos no instante seguinte e viu meia dúzia de bandidos. Talvez tivesse sido mutilado. e ele não conseguia mover o pé. sibilantes. como se atingidos por um raio. Fraser surgiu com frieza em plena rua erguendo a pepperbox da polícia. enfiou as duas no bolso. precipitou-se adiante. Brian carregou um segundo cartucho de latão e papel de cera vermelho. desarmou também a pistola do Marquês. mas desistiu dela pelo revólver ianque com cabo de madeira de outro. Atirou duas vezes. As balas passaram por ele. gritando. Uma bala perdida arrancara o salto do sapato. Mallory. ergueu as duas pistolas. em pose de duelo. como uma grande apara de metal. Tom empurrava Brian sobre uma grande e instável pilha de caixas de papelão. Não conseguia correr direito. . Esforçou-se para puxar a bandoleira do sujeito. Olhou rápido para o pé. uma coisa afiada. Mallory parou. depois para a coronha da pistola. Mallory correu até ele. Seguiu mancando pelo beco. virou. Fraser acenou da saída de um beco. preciosos segundos passaram-se com seu sobressalto. corpo virado para não ser um alvo fácil. que terminou de súbito. Fraser buscou freneticamente uma passagem protegida. A bala estrondeou numa viga de ferro acima dele. Havia um estilhaço recente de metralha. Mallory parou ao lado dos irmãos. A detonação precipitada do canhão de mão russo havia lacerado os homens de modo pavoroso. com a pistola russa soltando fumaça pela câmara de carga aberta. a coronha ensopada de sangue. Montes de produtos enlatados retiniram no chão numa onda de fumaça de poeira. desarmou o cão com cautela. do alto de sua pilha de caixas. Fraser segurou Mallory pelo braço. Algo lhe feriu a palma da mão ao apanhar a pistola. com os ouvidos tinindo. com um zunido nostálgico da distante Wyoming. fincado na madeira. O beco estava inundado de sangue. contorcido. e ouviram-se gritos. – Pegue as armas deles! – Agachou-se sobre um joelho.

– Mallory retirou a correia da carabina e entregou-a a Tom que. sim. faziam do armazém uma cacofonia. surpreso com a camada de sangue coagulado. vinda não se sabia de onde. – Ela poderia ter-nos levado direto a Swing se tivesse acreditado em mim. por sua vez. Tiros de má pontaria rompiam o telhado de zinco com batidas como as de um tambor. arremessando uma barricada de penteadeiras com pernas alongadas. Mallory ouviu gritos de ira e medo diante dos mortos. Ouviu-se um terrível grito afeminado e uma chicotada. atraídas pelo grito. Tom empurrou uma armação de cama de ferro num monte de caixas e colocou as costas nele. como a fricção de madeira com resina. Mallory virou-se. e as balas cravavam nas pilhagens ao redor dele com estranhos ruídos e um tinido musical de vidro. disparou a pepperbox. – É mais do que conseguirão matar dos nossos. Ele seguiu Fraser pela fenda. Os móveis estavam empilhados num amontoado de laca branca que lembrava tarântulas mortas. pegou-a pelo cano e segurou-a na altura do tronco. – Bem. Onde está Brian? – Não sei. – Cuidado com o . mais penetrantes agora. – Mallory! Por aqui – gritou Fraser. Rifles começaram a estalar ao longe. Fraser havia descoberto uma fresta ao longo da parede do armazém. e viu o jovem artilheiro saltar para o outro lado do beco. grunhindo e arfando. mas bem acima da cabeça. vigiando com atenção pela fenda. aos pés de Mallory. para outra posição de mira. Uma bala cônica do tamanho de um polegar caiu. uma risada estranha e seca. Atrás deles. como um rato envenenado agonizando dentro da parede. dr. – Seis. Fraser bateu em seu ombro. – Ah. ofegante. Balas começaram a penetrar os tijolos. seus olhos brilhavam e a barba por fazer surgia no queixo pálido. – E agora.. virando a pilha com um estrondo. em você – disse Fraser e riu de repente. As balas começaram a mergulhar nos escombros em torno deles com uma precisão um tanto maior. Fraser. As mulheres são imprevisíveis. diante deles e atrás deles. – Quantos? – perguntou. Mallory saiu e encontrou Tom labutando feito um demônio num beco sem saída. Mallory virou-se para erguer a carabina e procurar Brian. por alguns metros ao longo da parede. e girou feito um pião sobre as tábuas do assoalho. Fraser puxara a máscara do rosto. ela acreditou. Os estampidos dos rifles.. Mallory? Qual é a nova e inspirada manobra? – Poderia até ter funcionado – protestou Mallory. Tom sorriu tal um louco. o que tem aí? – Pistola? – Mallory ofereceu a Fraser o revólver resgatado.

Empurraram mais um fardo. – Ned! – Brian apareceu de repente à esquerda deles. retirando a farpa incrustada. bufando suavemente. em seguida desapareceu do outro lado do monte de algodão. Balas silvavam e batiam em volta deles. Mallory olhou para cima. – Eu deveria ter apanhado a maldita bandoleira. Fraser levantou-se uma vez e deu um tiro a esmo. Dezenas de fardos de aproximadamente quarenta e cinco quilos de algodão descaroçado dos Confederados. espantado. – Nunca vi nada parecido com essa arma! Duvido muito que seja legal. amarrados com cordas e sacos de estopa. as balas chocavam-se com um som surdo contra a fortaleza de algodão. fardos de algodão! – Certo! – Eles seguiram o comando de Brian. – Droga! – Um atirador estava agarrado feito um macaco a uma das vigas de ferro. enquanto Fraser levantava-se e retribuía os tiros. boquiaberto num o de terror. Sua posição era óbvia agora. encaixando mais munição no rifle. não era de admirar que os sulistas haviam-no relegado aos negros. saltou com um estrondo distante.. não atingindo Fraser por pouco. Um tiro de rifle arrancou um pedaço de uma das penteadeiras. com um pouco de esforço. Ele e Tom ergueram e derrubaram um dos fardos do alto da pilha e entraram na cavidade.estilhaço de metralha. mesmo para um de seus nobres heróis da Crimeia. Fraser juntou-se a eles na escavação. – Aqui. agachado no alto de uma pilha. Mallory tomou a Victoria de Tom. pensou Mallory ocupado demais para olhar. Mais homens nas vigas. mas sem danos. arrastando-se e subindo no alto das pilhagens em uma cascata de barbatanas de baleia e castiçais.. Mallory puxou a culatra para trás. Fraser raspou a arma no salto da bota. O único tiro já havia sido disparado. Era um trabalho pesado erguer fardos de algodão. Mas o atirador. depois um terceiro. Mallory entendeu: era uma fortaleza natural. . Brian gesticulou loucamente. Sem resultado. esconderam-se no centro da pilha tal formigas no meio de uma caixa de cubos de açúcar. arrancando o cartucho vazio. Mallory arrancou um grande chumaço limpo e tirou suor e sangue do rosto e dos braços. com um salto e um deslize. estavam empilhados até quase a altura das vigas.. As balas atingiam o algodão.. Num minuto frenético e ofegante. envolveu o antebraço com a tira ensanguentada e mirou com cautela. sem nenhum efeito aparente. Apertou o gatilho.

Ele espiou por cima de um fardo à frente. o volume atingiu algo com um estrondo. alguns com facas nos dentes. O tiroteio parou de súbito. – O que foi isso? – perguntou Tom. – Devemos fugir? – sussurrou Tom. e a arma do Marquês. Fraser abriu um espaço estreito entre dois fardos. A Ballester-Molina de Mallory tinha três tiros. Fizeram um inventário. O mais provável seria outra chuva de cinzas. mas deixando-a clara o bastante. o lugar escurecera rápida e espantosamente. cavando mais fundo. Ouviram gritos nervosos. útil. – Chuva! – sugeriu Fraser. sem expressar sua dúvida. como o de uma pianola despedaçando-se. A pepperbox de Fraser ainda tinha três balas. brilhava a luz chamejante de lampiões. Mallory espiou por cima do fardo. A escuridão varreu o armazém numa onda repentina. cinco disparos. nas profundezas do armazém – ordens. mas as portas do armazém tinham sido fechadas. talvez. e o pequeno cassetete de Fraser. Mallory não disse nada. – Pareceu o som de ratos fugindo – disse Mallory. Não havia sinal de Brian. mas não em outro caso. Fraser disparou. puxando alguns fardos para servirem de ameias. Mallory entregou-lhe o revólver de cano longo do Marquês. interrompido por um roçar e algo que parecia batida de martelo. substituído por um silêncio agourento. muito de repente. – Bela peça. Não havia inimigos visíveis. – Não sem Brian – disse Mallory. e os tiros cessaram. os lampejos das bocas das armas iluminavam as trevas com violência. abafados.. Mais gritos de ordens. Além da abóbada vítrea do teto. apertou os olhos e acenou com a cabeça. Mallory gritou . pensou Mallory. E tinham uma carabina Victoria vazia. Houve uma agitação de passos rápidos no telhado de metal. descalços e em silêncio. A escuridão foi iluminada de novo. mais tiros espocaram. Com o som de sua atividade. feito piratas embarcando. – Dê-me outra pistola. guinchando nas vigas de ferro ao alto. Aqui e ali. Trabalharam no escuro por algum tempo. Um grupo de cafajestes seguia arrastando-se quase até o pé das trincheiras. que logo desapareceu.. Tom tinha uma Derringer com uma câmara carregada. grunhindo e arfando. – Uma saraivada de tiros vãos foi a resposta. Fraser balançou a cabeça de modo sorumbático. como se o Fedor estivesse ainda mais denso. abrindo espaço. abriu mais espaço ao erguer e soltar um fardo do fundo da pilha. Tom. nas pilhas de mercadorias. caso os anarquistas chegassem aos bandos.

– Creio que não sabiam que eu estava entre eles. – Se tivéssemos quatro dessa. um praguejar e ruídos de vozes. De repente. um vulto escuro impulsionou-se até eles. cariciando o cabo de nogueira. Ele passou o objeto para as mãos de Mallory. mas quando vi a excelente chance de fogo de enfiada. poderíamos detê-los por toda a semana.em alarme e começou a atirar. – Minha nossa. ficando de pé. Logo foi cegado pelos clarões da própria arma. Ned. está escuro aqui dentro. num instante. E munições também. os três tiros restantes se foram. – Mas não poderei mais fazer um reconhecimento em força de maneira apropriada. – Coisa esquisita – disse Brian. Uma bala perdida queimara a frente da canela de Brian. um cartucho de latão após o outro estalando no carregador de corda como o tique-taque de um relógio preciso. O prédio tremeu com o estrondo terrível da pistola de Brian. – Cortes – disse Brian. A forma lisa e pesada do cabo e do cano ajustou-se à mão de Mallory como seda. – Não mais. mas a Ballester-Molina. rapaz? – disse Mallory. xingando uns aos outros de modo confuso. Um longo e angustiante minuto passou. Brian resmungou. mas só consegui trazer duas caixas. pegou no cano quente como se fosse um porrete. do outro lado. Era um rifle de caça. parecia ter vida própria. com a arma descarregada. – Eles têm uma caixa cheia dessas maravilhas – disse Brian. Mas não desperdiçados. sr. Dois homens caíram. – Veja o que trouxe para ti. O osso branco . rapaz – disse Fraser. Eu só tinha dois cartuchos. – Lá num pequeno escritório bagunçado. O silêncio que se seguiu foi interrompido por gritos de dor. fedendo a pólvora. – Ainda bem que não me acertou – disse. um terceiro arrastava-se e os outros fugiam aterrorizados. acredite! – Essa sua arma é uma beleza. Mallory começou a carregar o rifle de imediato. Nenhuma noção de estratégia. – Não se preocupe – disse-lhe Mallory. recuando e pulsando. não? – Você está bem. com um estampido. Parece não haver nenhum traidor do exército no meio dessa turba. Brian. ele não teve como errar. tive de disparar. preenchido por berros infernais dos feridos e dos moribundos. a tão curta distância. Fraser. Mallory. Queria ter-me contido. Eles me feriram um pouco. – Peço desculpas! – disse Brian. Mallory pôde ouvi-los reagrupando-se fora do campo de visão.

– Mas os ouço tramando estragos. e o porquê de estarem guardando esses ótimos rifles com um escriturário e distribuindo Victorias está além de minha compreensão profissional. aposto – disse Brian. rastejando por aí. sentado num laço corrediço. Cheia de armas encaixotadas para exportação. vocês sigam em frente para derrotar a Lady Nightingale. – Já chega – Brian protestou. – Estão divididos em três agrupamentos – disse Brian. Ned? – Não – disse Mallory. – Cuspiu asperamente. batendo no piso forrado de aniagem. um homem armado que subia por uma corda com roldana. em sua passagem. Duvido que vão nos atacar mais uma vez. – Bela plataforma. Não sinto sede assim desde Lucknow. – Conhece? Tabaco turco. Rápido como um pensamento. – O sujeito enrolou para si uma espécie de papirosi – disse Brian.aparecia no ferimento superficial. – Eu estava buscando abrigo. escrevendo a uma mesa. mas eu os varri dali com as balas do czar. Mallory centralizou nele a mira. – O que aconteceu no escritório. Uma onda de tênue luz esverdeada entrou no prédio – contornando. O fogo de rifles começou a estalar no algodão. preciso de uma bebida. – Ou o Capitão Swing? – Não – disse Brian. Não terão coragem para tal agora. O homem baqueou para trás e ficou pendurado pelos joelhos. fardos de algodão – disse Brian com satisfação. Viu alguma coisa. – O que farão. frouxo. nem uma alma ali a não ser um sujeitinho com ares de escriturário. – Tinham um ponto de encontro bem ao lado de sua linha de fogo. – Avançar barricadas. expirou o ar. Acontece que o velhaco pegou um conta-gotas de um frasco de . papéis espalhados para todo lado. talvez algo sobre rodas. e a bota imunda estava cheia de sangue. Mallory voltou a abaixar-se. Procurando uma arma de fogo de melhor qualidade. Brian? – perguntou Tom. – Tínhamos um excelente carregador de água com o regimento na Índia. Brian suspirou. atirou. – Hickory Jackson escondeu-se atrás deles em New Orleans. Também vi coisas estranhas. principalmente com mira. – Sinto muito – disse Mallory. Encontrei esse rifle de caça do Ned numa salinha de escritório. O danado do hinduzinho valia por dez desses tratantes! – Viu a mulher? – perguntou-lhe Fraser. Fraser e Tom passaram rolos de algodão limpo na ferida enquanto Mallory mantinha a vigília com o rifle. então? – Algum trabalho de sapador. – Droga. e também nos deu uma vitória. Par de velas acesas. por fim –.

– Certo. libertá-lo-emos com seus irmãos. pode-se dizer bastante parecida com o irmão Ned quando envolvido num de seus problemas eruditos! – Brian soltou um riso seco. Hastings e todos os outros! Entreguem-nos o louco do Swing e sua prostituta assassina com as mãos amarradas! Então deixaremos o restante sair arrastado daqui antes da chegada do exército! – A demonstração de insolência de nada lhe serve – disse o Marquês. e a expressão era muito alheia. sem intenção de ofensa. – Com certeza. – Olhaste bem. – Não parecia muito certo atrapalhar sua fantasia então. Se contar-nos onde escondeu certo objeto de valor. – Então sou um imbecil cabeçudo! – gritou Brian. Mallory ergueu-se. – Toquem fogo no armazém inteiro e morram asfixiados com a fumaça. Mas seu espião policial do Departamento Especial tem de ficar. espiou em volta do fardo. Temos perguntas a fazer para ele. – Incendiaremos esse algodão e vocês hão de assar feito coelhos! Mallory virou-se. bem aqui? – E como tinha! – Então era o Capitão Swing – disse Mallory. Olhei bem para o rosto dele quando acendeu o cigarro na vela. então – disse Mallory com cuidado para não mostrar a cabeça. – Não pareceu correto atirar num homem pelas costas. – Mallory Leviatã. O Marquês de Hastings estava abaixo deles. teria estourado aquela cabeça encaroçada! – Doutor Edward Mallory! – alguém gritou do piso escurecido abaixo. uma conferência com o senhor! – gritou o Marquês. ãh? – perguntou Mallory. dr. e muito sortudo. – O sujeito tinha um galo na testa. Agitou um lenço branco preso a uma vara. – Está encurralado aqui. dr. passou-o pelo papel antes. depois enrolou uma folha esquisita que estava num pote de doce.remédio. aniquilando a polícia! . – Ele pode fazer isso? – Algodão não queima quando empacotado firme assim – teorizou Brian. Mas nossos melhores homens estão patrulhando as ruas de Limehouse agora. mas se soubesse que era ele. a cabeça enfaixada e uma lamparina na mão. e saí! Tom riu. – Ouçam. – Tem sido muito ousado. portanto peguei um rifle e umas caixas. evasiva. o qual roubou. Mallory! Mas temos uma oferta a fazer-lhe. Mallory riu dele com escárnio. Mallory. – Pode falar. de maneira bem discreta. incendeiem! – gritou Mallory.

Aqui estou! Derrubaremos o muro do seu castelo. Uma voz distorcida e abafada – auxiliada talvez por um megafone – soou de dentro da arma de cerco. e riu. o penoso trabalho de avançar uma arma de cerco. . pareceu – além dos gemidos dos feridos. enquanto têm uma chance de viver! – Não tememos turba ianque alguma! Tragam-nos. um fogo errático teve início.. sem dúvida seria atingido pelo atirador. – Cessar fogo! – gritou Swing. e as vigas de ferro estavam repletas de francos atiradores. Parecia haver muito mais homens no armazém agora. Capitão Swing! Não vá ficar com bolhas nas mãos delicadas! Tom e Fraser. fazendo os atacados mergulharem no abrigo. mas eles ficaram mais prudentes com a experiência e logo erigiram uma passagem coberta atrás da armas de cerco que avançavam. Ouvia-se uma conversa em voz alta – uma discussão. Mallory! – Sim? – Pediu que eu viesse. veteranos de Manhattan! Tomarão de assalto seu pequeno esconderijo sob a força de baionetas! Saiam agora. Ela balançou sem danos. A arma de cerco chegou à base dos fardos de algodão. Escurecera ainda mais. Mallory feriu dois deles em atividade. como um verdadeiro cientista! – Vá para o inferno – disse Mallory. – Dr. Os anarquistas começaram. O Marquês retirou-se. mas a luz de lampiões surgia aqui e ali. tombaram um fardo pesado em cima da arma de cerco. uma falange improvisada de três pesados carrinhos de carga com uma armadura de tampos de mesa de mármore amarrada na dianteira. Após alguns instantes. para provarem da metralha! – Fizemos nossa oferta! Avalie-a. quero falar com Swing! Estou farto de você.Logo retornarão. dr. Caso ele se expusesse numa tentativa de debruçar sobre a trincheira. A armadura móvel era larga demais para passar pelo beco curvo que ia dar nos fardos de algodão. então. Mallory gastou meia caixa de cartuchos em resposta aos clarões de tiros. então os rebeldes abriram caminho pelos montes de mercadorias. Estava agora na melhor linha de fogo de Mallory. A arma de cerco aproximou-se ainda mais. – Mande-me Swing. empilhando-as nos flancos dos carrinhos. Logo estará bastante vulnerável. Mallory. – Trabalho difícil para um jogador profissional. Um fogo bem combinado varreu a fortaleza. seu traidorzinho pretencioso. Ouviu-se um som de rasgo na base da parede.. soldados calejados. que estavam trabalhando juntos.

– Você construiu uma casa na areia. – Sei que é de Ada. minha companheira de vida. – Saia de sua escuridão. – O exército agora atira no povo. – A filha de Byron jamais trairia o reino. – Se pensa isso. Mallory. Poderia tê-lo devolvido a nós. Houve um longo silêncio. Minha camarada de confiança. pois ela me disse. e pare com a maldita conversa inútil! – gritou Fraser. Homens e mulheres com pedras nas mãos estão sendo assassinados com armas de fogo contínuo. – Byron está morto! – Swing gritou com a terrível convicção da verdade. – Mate-nos. – Está sonhando. Não está ouvindo? Mallory não respondeu. Mallory. não sabe nada. dr. nunca saberá onde o Modus está escondido. E o senhor terá como sepulcro as profundezas do Tâmisa envenenado. está agora matando seus concidadãos nas ruas. dr. com voz nova e lisonjeira. Swing! Se atirar em mim. Ela é uma de nós! Tom suspirou alto. E ela sabe onde está escondido. o verdadeiro baluarte de sua pretensa civilização. Mallory – disse Swing em tom decisivo. dr. sequer tem ideia do propósito verdadeiro do objeto! – Ele pertence à Rainha das Máquinas. – Eu pretendia levá-lo com vida. – Vocês são os algozes dela. As massas não podem suportá-lo mais. Swing! – Estou lhe dizendo que Ada é nossa. e com a futuridade também. Swing! – gritou Mallory. pois eu contei-lhe onde o guardei! – Mentiroso! – gritou Swing. O sangue jorra nas ruas sete vezes amaldiçoadas de Babilondres! – Saia daí. então. Depois Swing voltou a falar. – Ainda o tolo fanfarrão! Roubou-nos o Modus no Derby. – Tenha cuidado. – Se Ada soubesse já estaríamos com ele. deixe-me ver seu rosto! – Pouco provável – disse Swing. tudo aquilo em que você acredita. Mallory não disse nada. não preciso mais do senhor. e isso sei muito bem. será agora abolido. de . Sua árvore da prosperidade está enraizada na lama escura. Houve mais um silêncio. e evitado certa destruição a si mesmo! Seu ignorante teimoso. – O Exército Britânico. – E tudo o que ele construiu. ela mantém a Rainha das Máquinas numa armadilha perfeita! Ficaremos com Lady Ada e com o Modus. – Mas se é verdade que confessou seu segredo a Ada Byron.

Está chovendo. – O Departamento Especial cuidará para que você se debata com uma corda no pescoço. seu palhaço iludido! Assim que ele souber que está aqui. o governo está nas mãos de Lorde Babbage e de seus comitês de emergência. – Mesmo se nos matarem aqui – gritou Mallory –. – Pode estar chovendo – disse Brian –. que valorizam mais suas preciosas mercadorias do que qualquer número de vidas humanas! Jamais incendiarão seus próprios armazéns. – Eles nos alcançaram agora! – gritou Brian. Uma granada arrebentou o telhado numa torrente de estilhaços em chamas. – Um trovão ribombou. – Seu estúpido completo! Se Byron está morto. Somos inexpugnáveis aqui! Mallory riu. – Babage é um fantoche dos capitalistas. – Pelo amor de Deus. Brian! O Fedor acabou! É a chuva abençoada! Uma discussão irrompera abaixo do abrigo da arma de cerco. Babbage é um mestre do pragmatismo! Não será impedido por interesses comerciais de qualquer monta. sem suportar mais o tormento. acabou para eles. Swing falava de modo ríspido com seus homens. – É chuva – disse Mallory.. ouça. . uma granada após outra atravessar o telhado.. Redemoinhos de escombros em chamas voaram. – Por que pensa que escolhi este lugar como meu centro de operações? Vocês são governados por comerciantes. – A voz da autoridade! – escarneceu Swing. como o impacto de cometas de ferro. protejam- se! – Começou a manejar desesperadamente os fardos de algodão.súbito. – O todo-poderoso governo britânico! Não vê problema na matança de pobres coitados nas ruas. – Deve estar completamente louco – disse Mallory.. vai mandar este lugar para os ares sem pensar duas vezes! Um raio estremeceu o prédio. – Chuva! Nós vencemos. não terão onde se esconder. deixando buracos tão bem espaçados quanto os golpes da sovela de um sapateiro. nem que isso leve cem anos. Água fria começou a gotejar através das gregas irregulares formadas pelos buracos das balas no telhado. Ouviram-se batidas no telhado. atônito. – Está chovendo! – gritou Tom. – Não. – É artilharia – disse Brian. e lambeu a mão. Mallory viu.. – É um visionário. seus próprios proveitos. mas há armas navais de dez polegadas perto do rio. mas veremos se seus plutocratas envaidecidos tomam este armazém enquanto mantemos como reféns mercadorias no valor de milhões aqui dentro. rapazes. Quando o ar de Londres estiver respirável novamente.

movendo as mãos com magnífica e involuntária graça. O armazém estremecia tal chapa de estanho. como a asa de um cisne moribundo. aproximar-se do anarquista caído. continuou com as contrações e estalos mesmo depois de o cilindro de cartuchos estar vazio. Fraser saltar pelos escombros com a agilidade de uma aranha. pulando um pouco a cada abalo repetido. Brian. agachados. apagando ao pousar no algodão. A Cutts-Maudslay. Mallory curvou-se para ajudar o irmão a erguer mais um fardo. ainda em suas mãos. e sua voz era completamente abafada pela cacofonia. O bombardeio derrubara a passarela coberta deixando apenas fragmentos. Mallory ficou parado. Swing girou e caiu. Brian gritava com Mallory. retorcidas de forma fantástica por rajadas de fogo. Ele levantou-se. ao longe. Labaredas de fogo sujo subiam em centenas de pontos. O armazém inflou-se de ar e calor. Gritou algo – gritou ainda mais alto –. mas o barulho era incessante. com tépido interesse. pois o prédio estava em chamas. O rosto contorcido de pavor e desespero. Explosões de luz encobriram o teto deformado. Uma seção do telhado ruiu. atirou. Mallory balançou a cabeça devagar. ergueu o rifle. . os contornos familiares de uma carabina Cutts-Maudslay. com expressão ausente. suspirou. Olhou para cima. com os rebites estourando feito tiros de revólver. como uma passagem lamacenta de cupins esmagados por uma bota. A abóbada de vidro explodiu em mil fragmentos afiados. Mallory viu. para Mallory. e agachou-se dentro da trincheira. com um rubor de alegre surpresa. bem devagar. Mallory foi até a beira do parapeito de algodão. As vigas de ferro começaram a empenar sob pressão. observando seus inimigos fugirem aos gritos. Pedaços de madeira ardente e tecido caíam suavemente sobre os fardos ao redor deles. A beleza penetrou a alma de Mallory. desajeitado. mas era um homem pequeno. Após o instante de aturdimento. Mallory puxou dois chumaços de algodão. Zumbidos tênues e agradáveis envolveram Mallory. Sentou-se ali. Era Swing. com a pistola na mão. sobrenatural. Swing ergueu a arma. e Mallory não conseguiu ouvi-lo. Mallory. pareciam beduínos em oração. o rifle tal uma varinha nas mãos. com estalos musicais do teto perfurado atrás dele. O bombardeio havia parado. tapando os ouvidos com as mãos. Um homem parou entre as chamas e virou-se. com o rifle sobre os joelhos. A chuva em torrentes combateu o fogo abaixo. Tom e Fraser. firmou-a e apertou o gatilho. Mallory viu. O barulho era infernal. Algemou Swing e depois o ergueu com dificuldade sobre o ombro. Swing mirou sua arma. e enfiou-os nos ouvidos.

ao que tudo indica para fins próprios. com o timbre da família Byron e o lema crede byron. ao chão. A Catástrofe havia escancarado a fortaleza de Swing num gêiser de tijolos despedaçados. Edward Mallory morreu em sua casa em Cambridge. numa elegante corrente de aço. de impecável especificidade a não ser por esse detalhe. que o falecido dirigiu- se ao leito de morte usando roupas de baixo elásticas patenteadas. desceu. Não há menção a qualquer anel no testamento de Mallory. Olhou para baixo. Edward Mallory no gabinete de seu suntuoso lar em Cambridge. aos oitenta e três anos. feito após sua própria morte. com seus dias de campo já muito distantes. Sandy também observou. A anotação cifrada do médico é a única evidência conhecida desse aparente legado. dando a impressão de que medidas foram tomadas para preservar as peculiaridades que pesam sobre o falecimento de um ex-presidente da Royal Society. raspando os pregos do salto do sapato pelo chão. meias com cintas e sapatos sociais de couro bem amarrados. coxo. ainda que um catálogo completo das posses de Sandys. e viu Tom baixando Brian. As observações do dr. Em torno do pescoço do grande homem. O grande paleontólogo. feliz. Mallory sorriu. Em 12 de abril de 1908. pestanejando. saiu para uma Londres renascida. e a presidência renunciada. Para uma tempestade purificadora. As exatas circunstâncias de sua morte são obscuras. indicam que o grande cientista morreu de hemorragia cerebral. É muito provável que Sandys tenha confiscado o anel. homem meticuloso. Os dois juntaram-se a Fraser. em 1940. seguiu. Os olhos de Mallory ardiam. atravessando as labaredas saltadas. Os três saíram. com Mallory caminhando atrás. É tarde. provável recordação em sinal de agradecimento. que acenou categoricamente. não faça menção do objeto. Mallory. dedica o inverno de sua vida a questões teóricas e aos envolvimentos . espessas. George Sandys. também notou um item descoberto abaixo da ondulada barba branca do falecido. O médico. então. pendia um antigo anel de sinete feminino. amigo e médico pessoal de Lorde Mallory. um documento muito bem elaborado. A fumaça do armazém em combustão acumulava-se sob os restos do telhado.

abandonando com elegância a noção desacreditada de que a Terra não possui mais de trezentos mil anos de idade. telhada com cerâmica em escamas de dragão iridescente – o estilo de arquitetura moderna dominante na Inglaterra. da deriva continental. é esse espantoso e ousado insight que garante sua fama imortal. é homem muitíssimo cauteloso e metódico. em 1865. este último está agora sobre uma pequena impressora de mesa. famosa confraria de estudiosos japoneses que funciona. ao sofrer grande declínio no número de membros e crescente falta de comparecimentos. mas está preservado em Nagasaki.mais sutis com a administração científica. É suficiente. em 11 de abril. junto com um comentário que indica ter ele sido enviado por telégrafo ao hierarca por meio de canais comuns. Ele coloca os óculos. a outra à esquerda. Ele colocou de lado uma coroa abobadada com incrustações de ouro e um colar com camadas sobrepostas de ouro. O texto indica que a Meirokusha. é um tumulto meticulosamente orquestrado de formas orgânicas. mais do que os ovos de ceratopsia do deserto de Gobi. com semelhante franjas. embora a moda em si tenha suas origens fin-de-siècle na próspera República da Catalunha. Como o último hierarca da cada vez mais diminuta confraria. que o Catastrofismo tenha sido comprovado como próspero caminho para uma verdade geológica maior. Uma pasta está à sua direita. senta-se a uma escrivaninha japonesa curvilínea de mármore artificial. como a divisão mais notável da Sociedade da Luz. Ele escolhe a pasta da esquerda. Uma casula azul-escura de seda artificial que vai até o chão. ele usa esta noite a beca formal do cargo. A casa do vizinho. e deixou-lhe dois conjuntos de documentos ajeitados com esmero sobre a mesa em pastas de papel-manilha com grampos de latão. enche o cachimbo. Passando as cortinas abertas. e não se pode saber qual escolherá. que dorme pouco. Cleveland. assim como a de Mallory. A casula de lã azul-royal é franjada em escarlate. Mallory. não por acidente. Mais do que o brontossauro. acende-o. para Mallory. votara por adiar as próximas reuniões. é decorada com faixas concêntricas de pedras semipreciosas. Mallory recusou recentemente uma suposta reunião clandestina da Sociedade da Luz. É acompanhado por uma relação de iguarias e bebidas e as taxas de aluguel para . O texto preciso do relatório não pode ser encontrado na Inglaterra. Seu secretário. lâmpadas incandescentes brilham além das janelas policromáticas e abstratamente padronizadas do vizinho mais próximo. Lorde Mallory há muito modificara as doutrinas radicais do Catastrofismo de sua juventude. É um relatório impresso à Máquina. de um oficial idoso da Meirokusha. conduzindo o sábio ao seu maior triunfo pessoal: a descoberta.

ele analisa o relatório com atenção. xisto escuro de qualidade quase litográfica. e isso o intriga. Há uma coisa cujas pernas são catorze espinhos calosos e pontudos – uma coisa que não tem cabeça. e de fato sempre considerou difícil evocar mais entusiasmo por qualquer coisa com menos de cinco centímetros de comprimento. com uma boca plana e dentada que não morde. Uma artéria falha. nem barriga. O trabalho da ciência moderna não chega a ser muito diferente do de seus próprios dias. mas que se fecha como um diafragma. Seu líder. Ele volta a atenção para as gravuras. Os estratos a serem examinados são cambrianos. se é que pode receber tal título. Os cientistas britânicos afluíram para o continente. marcada pelo mais intratável ar de extremo entusiasmo. especialista em vertebrados. ainda que a notícia não seja inesperada. parece. Ele escolhe a pasta da direita. mas sete bocas minúsculas em forma de garras.um quarto no andar de cima do Seiyoken. É mais espessa que a da esquerda. Mallory. com o hábito de vestir capas de veludo e elaborados chapéus modernistas. E. Há uma coisa na primeira ilustração que possui cinco olhos. Essas coisas não apresentam nenhuma relação com qualquer criatura conhecida. de cabelos cacheados. apenas lóbulos e gelatina. pensa ele. sua indignação cresce até o estado de fúria impotente. Tem um longo bico com garras em vez de uma boca. cada qual na ponta de um tentáculo flexível. em Tóquio. que lembra um raio. é um jovem formado em Cambridge chamado Morris. Há uma coisa sem pernas. tornou-se mais afiado com a idade avançada. . Pior ainda. resíduos finos como papel e completamente triturados de fauna invertebrada antiga. Contém detalhado relato de campo da expedição paleontológica da Royal Society à costa pacífica do Canadá Ocidental. nele fervilha uma variedade de formas intricadas. a prosa do relatório não lhe parece nada científica. que na lembrança de Mallory é um sujeito estranho. começa a perder o interesse. de qualquer período que seja. já viu. está dominado por uma sensação de perda e amargura. vindos da florescente metrópole de Victoria. Seu humor. nem olhos. mais trilobitas do que qualquer um deveria ter de ver. impetuoso nos melhores dias. Satisfeito com a nostalgia despertada em relação a seu próprio tempo de expedicionário. Essa cadeia de eventos não acontece. Lorde Mallory. e viajaram com o conforto dos automóveis até as montanhas próximas à base luxuosa numa aldeia costeira de Vancouver. um restaurante no bairro de Tsukiji.

Mallory estatela-se com as costas ao pé da cadeira. cada vez mais próximo.. forçando. os membros dormentes e leves. envoltos pela luz da admiração. cada vez mais brilhante. um afluxo extático rumo à total compreensão. mais claro.. Sua cabeça bate na mesa quando ele cai para a frente. . ajustando-se passo a passo até um estranho e enigmático brilho. Um vórtice de implicações começa a ordenar-se dentro dele. forçando os limites do real – um conhecimento que morre para nascer. Uma onda de sangue e admiração cresce dentro do crânio de Mallory. ainda elevados. a luz de um conhecimento estupendo.

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com suas poderosas lentes. sozinho. por uma porta de vidro. é suave e irônico. O obturador da “Excelsior”. Seu olhar. de superfície opaca. está Laurence Oliphant. comum às imagens do período. escondido no alto do telhado de uma casa editorial na Holywell Street. que poderiam ter saído de uma igreja em ruínas. Havia uma estante abarrotada de encardidos tomos médicos. numa pequena sala de espera que se comunicava. a uma sala de cirurgia. está abrindo um guarda-chuva. entre os onze. À frente. Havia bancos esculpidos em madeira. Nas paredes de tom amarelado havia diagramas coloridos que retratavam a devastação causada por diversas doenças. Os processos de resolução revelam que os borrões pálidos sobre tais fios são pombos. O pescoço está envolto num cachecol alto de seda escura. Talbot de Hullcoop. funcionários da Agência e um representante sênior da Colgate. Os outros homens são advogados. Alguém chamou seu nome. doze de novembro de 1885. do Departamento de Antropometria Criminal. Oliphant estava sentado. A triangulação localiza Hullcoop. descem os cabos de cobre dos telégrafos da Agência. com fios de . criam um motivo que se repete. S. imagem registrada por A. O efeito é digno e colunar. abaixo da aba preta da cartola. acima da Horseferry Road. Oliphant. Ele viu um rosto através da vidraça da sala de cirurgia. e um tapete ordinário tingido de carvão no meio do chão. Atrás deles. G. Apesar de ter a tarde um brilho extemporâneo. Os chapéus altos. embora algo na conduta de Oliphant possa sugerir o passeio ocioso de um esportista.UMA TARDE NA HORSEFERRY ROAD. A cartola do representante da Colgate apresenta uma branca vírgula alongada de fezes de pombo. capturou onze homens que desciam os amplos degraus da entrada da Agência Central de Estatística. Hullcoop. Pálido. Ele olhava para um porta-objeto de mogno e um enorme rolo de fibras de linho que ocupavam seus próprios espaços na estante de livros. Assim como os outros. Oliphant usa uma sobrecasaca escura acima de calças justas de tom claro. visita frequente na Agência.

subiu à “mesa de manipulação” de McNelie. sr. entrando numa sala apainelada com elegância. sentindo-se terrivelmente tolo de suspensórios e peito de camisa engomado. Para o horror de Oliphant. – McNelie sorriu. obrigado. numerosos. Estou com um cavalheiro que estava sentado em cima de um ônibus.cabelo escuro encharcados. obrigado. McNelie esfregou as longas mãos brancas. Oliphant. Qualquer que seja. – Era verdade? Difícil dizer. Oliphant. McNelie observou-o da porta. Alguns sintomas notáveis estão surgindo. indicando a Oliphant que passasse pela porta. – Sim. Oliphant retirou o casaco e o colete. – Está de todo bem. e colocou-os sobre um cabide de mogno. quase sem cor.. quando a lateral do veículo foi atingida por um gurney a vapor a estimados trinta quilômetros por hora! – Verdade? Que coisa terrível.. ou seja. episódios de amnésia secundários – inúmeros sintomas comumente associados a histeria latente. um móvel articulado de . na Regent Street. um rápido rito de triunfo. de fato.. uma lesão da coluna vertebral causada por acidente ferroviário. McNelie encarou-o com os olhos pálidos. – E as suas. – E seu sono tem sido imperturbável? – Diria que sim. Oliphant? Sua expressão era totalmente incomum há um momento. – Collins – disse ele. – Não houve trauma físico evidente como resultado da colisão. resultantes dos acontecimentos recentes. obrigado. – Observamos. Nenhum. ocupada de modo esparso por agourentos aparelhos eletromagnéticos.. sr. – Sr. – Cravou Oliphant com os olhos brilhantes. Oliphant. E o senhor? – Muito bem. os rostos dos desaparecidos. amontoados sobre a testa saliente. – Em seguida. – Algum sonho digno de nota? Visões despertas? – Não. – “Capitão Swing”. Sim. Com leve constrangimento. Oliphant? O dr. Oliphant levantou-se do banco de igreja e ajeitou o casaco com gesto automático. Oliphant? – Mais nenhuma. melancolia insipiente. – McNelie era esbelto. muito comum atualmente! McNelie fez uma reverência. desde o último tratamento. sr. – E viu outros rostos. tinha barba asseada e cabelos castanhos escuros. sr. “indisposições”. McNelie. nomes eliminados da memória. dr. observamos insônia. – Muito bem. os olhos acinzentados eram tão claros que sugeriam transparência. um caso notavelmente puro de uma progressão clínica de espinha ferroviária.

– Esse tal de Pocklington – disse McNelie. Oliphant. McNelie estava acima dele. Oliphant fechou os olhos. McNelie tornou isso impossível. – Feche os olhos. – Pocklington. macio e frio ao toque. é simplesmente o favorito de Lorde Babbage. lamentara o fato de que a medicina moderna continuava sendo mais uma arte do que uma ciência. – Infelizmente.forma curiosa que lembrava. fora publicado de modo muito amplo. girando uma ou outra das diversas rodas de metal. Está tentando ficar com o crédito pelo fim do cólera em Limehouse. enormes e rígidas. veja. detectando a inveja na entonação de McNelie. A sala encheu-se do odor tênue e lúgubre de eletricidade. – O senhor acredita que isso é de todo descabido? – Completamente contrário à teoria médica esclarecida. igualmente. sr. Oliphant. O sujeito é um engenheiro de obras. – Perdão? – Oliphant abriu os olhos. Escreveu no Times que a doença nada mais é do que o resultado de água contaminada. – McNelie vestia um par de luvas de couro. Afirma ter acabado com o cólera com o simples ato de remover o cabo de uma bomba d’água municipal! – McNelie atarraxava um cabo de cobre trançado numa base. de modo a facilitar a reversão polar! . – Fique parado – disse McNelie. Babbage. McNelie conectou os cabos de cobre a uma compacta célula voltaica. é claro. pronunciando-se na cerimônia funerária de Byron. posicionando uma espiral de ferro numa armação ajustável. uma chaise-longue e um cavalete de tortura. Médico? – Pouco provável. em caso de descarga de faísca. Foi contratado para resolver os problemas de ventilação dos trens pneumáticos. senhor! O homem é um tolo ou a pior espécie de charlatão. – Esse Pocklington. – O nome não é familiar. O discurso. Os vários segmentos da coisa eram estofados com brocado rígido modelado por Máquina. sentiu leve e maliciosa satisfação. – Por favor. Oliphant tentou encontrar uma posição confortável. por favor. não o estou compreendendo. – McNelie iniciou o trabalho com um segundo objeto de cobre. tente relaxar. – Não me admira.

sobrepondo-se a outras que partiam de pontos de impacto mais obscuros. Uma segunda onda de ludismo havia surgido na turbulenta década de quarenta. De fato. decerto. Todas as aspirações razoáveis da classe trabalhadora haviam sido exitosamente incorporadas pelos Rads. comodamente abastados e bem-apessoados. qualquer garoto sabia que o potencial de metano de uma única vaca era suficiente para as necessidades diárias de aquecimento. a maioria atribuída ao mesmo grisu que abastecia o Webb. desta vez claramente voltada contra os Rads. em seus dias de vigor. de certo. criando áreas agourentas e imprevisíveis de turbulência. Lorde Babbage era um franco defensor do método Webb. temperou a justiça com uma demonstração bem dramatizada de piedade. Hoje. ou até mesmo na Escócia. houvera pelo menos uma dezena de explosões que romperam o pavimento. Oliphant sabia com absoluta certeza profissional que os luditas estavam extintos. Mas se desintegrara numa confusão de traições destrutivas. relegadas por sua grande capacidade em administração industrial. eram meras gangues de jovens. os tumultos londrinos do verão anterior não configuraram nenhuma ação política coerente ou organizada. abastecida por gás de esgoto. mas a morte de Byron desencadeara uma série de ondas de instabilidade. depararam-se com uma punição pública desoladora. em que pesem os melhores esforços de alguns anarquistas insanos. Alguns eram ricos industriais – apesar de sua paz de espírito estar perturbada de forma severa pela exumação sistemática de velhas convicções por parte de Egremont. como resultado. ao qual pertencera Michael Radley quando menino. mas os sinais pouco o reconfortavam. A influência do Capitão Swing talvez ainda possa fazer-se sentir de quando em quando na Irlanda rural. por temor de vazamentos e explosões. iluminação e preparação de alimentos de uma casa de porte médio. Ele olhou para o Webb enquanto se aproximava de sua própria fachada georgiana. uma coluna coríntia canelada. mas Oliphant atribuía o fato às políticas agrícolas dos Rads. grupos como o Manchester Hell-Cats. este permanecera apagado durante o estado de emergência do verão. agora lideravam sindicatos e associações profissionais respeitáveis. e seus espíritos mais ousados. A luz era mais um sinal aparente do retorno à normalidade. Como os outros Webb de Londres. Byron. como Walter Gerard. A Half-Moon Street estava iluminada por um sólido lampião Webb. Oliphant imaginou-as espalhando-se como as ondulações num lago. com uma carta de direitos populares e uma ânsia desesperada por violência. totalmente desprovidas de propósitos políticos. estava a atividade de Charles Egremont e a atual caça às bruxas ludita. Os primeiros líderes luditas que haviam feito as pazes com os Rads. Numa delas. . O cataclismo social físico e mais crítico havia passado.

Seus pais eram evangélicos de uma denominação notadamente excêntrica. obrigado. e. Oliphant fazia visitas semanais nas proximidades de Scot da Harley Street. Como consequência. recordava-se com estranho pavor os experimentos do pai: varas de ferro. havia acendido o gás e empilhado os carvões. uma doença que. revestido de carvalho. Farei a refeição no escritório. como sintomas de espinha ferroviária. supunha-se. A tese de McNelie era a de que o mal poderia ser corrigido por meio da aplicação de eletromagnetismo. por janelas de três faces pouco salientes. certos aspectos da fé deles. indo e voltando... Retirou a chave Maudslay tripla do bolso do colete e destrancou a porta do escritório. Oliphant pai. Bligh. após servir como procurador público na Colônia do Cabo. muito simples. Os rodízios. . foi nomeado presidente do Supremo Tribunal do Ceilão. Uma cadeira de escritório muito moderna. que tinha a única cópia da chave. Os procedimentos de McNelie faziam-no lembrar-se do intenso e excessivo interesse do pai por mesmerismo. esferas de cristal. migrava com regularidade em torno da mesa enquanto o trabalho de Oliphant levava-o de uma pilha de pastas à outra. E como. perguntou-se ao subir a escada acarpetada. – Entregou ao criado sua cartola e o guarda-chuva. senhor? – Sim. montada sobre rodízios abertos com rodas de vidro. obrigado. Uma mesa de refeitório antiga. McNelie fora recomendado a ele por Lady Brunel após suspeitar que a coluna de Lorde Brunel sofrera excessivos choques ferroviários ao longo de sua famosa carreira. Lady Brunel estaria se ajustando à vida de esposa do primeiro-ministro? Sua ferida japonesa começou a latejar quando ele segurou o corrimão. ainda que de modo particular. e embora ele tivesse retido. Oliphant recebera uma educação particular e – o que era inevitável – bastante fragmentária. – Sente-se bem. Não. mas o que pensar de Egremont e sua furiosa campanha? – Boa noite. à qual devia tanto sua fluência em línguas modernas quanto sua extraordinária ignorância em grego e latim. Bligh. senhor. McNelie recentemente diagnosticara as “misteriosas indisposições” de Oliphant. pensou ele quando Bligh abriu a porta ao vê-lo aproximar-se. senhor. servia de escrivaninha para Oliphant. invertia a polaridade magnética da coluna vertebral do paciente após um trauma. tinha visão para o parque. O escritório. – O cozinheiro tem carne assada fria. – Boa noite. – Os ímãs ou a mesa terrivelmente desconfortável de McNelie deixaram suas costas doloridas. com quase o mesmo comprimento da sala. para tanto. como insistia em chamá-las. – Muito bom. o espírito de Ned Ludd estava pouco presente no país.

depois saiu com a bandeja e a garrafa de cerâmica vazia. Os diversos cabos de tais aparelhos. A refeição solitária foi interrompida com um sobressalto pelo ruído de um dos três receptores. Olhou para baixo da mesa e viu a fita começando a sair da máquina da direita. . em redoma de vidro. Havia também um transmissor de mola e um cortador de fita criptografado de modelo recente da Whitehall. Baixou o garfo e a faca e levantou-se. Oliphant rolou a cadeira de escritório ao longo da mesa e sentou-se para espalhar o molho Branston sobre a carne. – Obrigado. Não recebera nenhuma mensagem deste desde a morte do primeiro-ministro. em capas de trama fechada em seda vinho. – Trouxe uma garrafa de cerveja. senhor – ele disse. da qual chegara o convite para almoço de Wakefield. Um dos receptores começou a martelar de imediato. Enfiou-o de volta e tocou o vidro que protegia o telégrafo receptor do meio. Observou a fita saindo da fenda de latão.com as peregrinações diárias da cadeira. – Oliphant ergueu a fita com a mensagem de Wakefield com a ponta do dedo. colocando uma toalha e talheres numa seção da mesa mantida livre para aquele propósito. Bligh serviu a cerveja. A máquina da esquerda. provavelmente Betteredge ou Fraser. Ele andou até o fim da mesa e leu a mensagem que saía da base de mogno da máquina. tinha seu número pessoal. Três receptores de telégrafo Colt & Maxwell. serpenteavam até uma cavilha floral suspensa num grampo central. MUITO OCUPADO COM INFRAÇÕES PARTICULADAS MAS SIM VISITE PONTO WAKEFIELD FIM Bligh entrou com uma bandeja de carne de carneiro fatiada e molho de picles. com as fitas caindo em espirais em cestos de arame colocados sobre o carpete. A da direita indicava algum assunto de polícia. embutida nos lambris. haviam começado a desgastar a penugem do Axminster azul. Bligh. de onde seguiam até uma placa de latão polido com o emblema dos Correios. depois deixou que caísse de volta no cesto de arame. REF F B SOLICITO SUA PRESENÇA IMEDIATA PONTO FRASER FIM Tirou do colete o relógio de caça alemão do pai e verificou as horas. dominavam a ponta da mesa próxima à janela.

muito diferente da que o distinguia. Recente inovação vinda de Nova Gales do Sul. era de grave ansiedade. Sua expressão. Usava um chapéu-coco de copa alta que o fazia parecer. Cortinas de tricô sombreavam as janelas que davam para o Brigsome’s Terrace. e a escolha certa para ocultar armas do tipo que aqueles dois muito provavelmente escondiam. muito elogiada na Crimeia. Betteredge apareceu. O conjunto de casas em si. ele pensou. passando depressa pelos guardas na subida. provavelmente se enforcara atrás da porta do salão de alguma taverna próxima antes da conclusão das horrendas habitações. a ofuscante luz branca intensificada por uma abóbada côncava de estanho polido. Uma chuva fina caía agora. Um fragmento puído de carpete de Bruxelas pródigo em rosas e lírios surgiu em meio a um deserto de reles tapetes sem cor. Havia um piano vertical e um móvel chifonier grandes demais para a sala. os quais ele seguia todos os dias. plantas da espécie das cactáceas. – Departamento Especial – disse Oliphant. Oliphant percebeu um fedor acre. americano. a começar pelas botas de couro envernizado com os vieses laterais elásticos. de algodão egípcio encerado. semelhantes a capas. Este último pareceu-lhe pateticamente grandioso. em razão dos antigos e ainda muito inexplorados ermos do leste de Londres. As ruas pelas quais o cabriolé o levara pareciam aquelas linhas que atravessam tempos como estes – todas aquelas vias aparentemente desconhecidas à luz do dia e ao pedestre comum. de forma a poder ser facilmente confundido com um dos detetives de Pinkerton. Ao lado da vidraça. era um bloco de prédios tão lúgubre quanto qualquer outro feito de tijolos e argamassa. e Oliphant lamentou por um momento não ter aceitado a capa de chuva que Bligh oferecera à porta. pendiam. O endereço ao qual foi conduzido pelo cabriolé ficava em Brigsome’s Terrace. os homens deixaram- no passar. Oliphant concluiu ao descer do coche. Oliphant sabia. Ele entrou na casa e encontrou-se numa sala de estar iluminada por um potente lampião de carbureto no alto de um tripé. Constrangidos por sua inflexão e sua conduta. com seus frisos de ouro embaçado. A sala era mobiliada com sobras resgatadas das ruínas da aristocracia. Era provável que o efeito fosse proposital. vindo dos fundos da casa. crescendo com sua profusão espinhenta e aranhosa. em dois cestos de arame. Os dois homens em frente à casa número 5 usavam longas peças pretas. de modo geral. Seria necessário relatar o fato a Fraser. . mais penetrante que o cheiro de carbureto. O construtor que planejara essas medonhas prisões em forma de casas. próximo a uma rua do tipo que os construtores ousados deleitavam-se em entalhar.

estava a fonte do mau cheiro. Sobre o bico havia uma caneca preta de ferro fundido. Ele voltou a atenção para o cadáver. Algo estava muito errado. Oliphant silenciou-o com um gesto. Oliphant permitiu-se conduzir pela porta e por um lance de escada estreito e arriscado. – E o que conclui disto? – Ele estava esquentando feijão enlatado – disse Fraser. Nada foi tocado. de metal. – Material flexível. – É para aparar a lâmina de outro homem – disse Fraser. mas com um único gume. – Comendo direto daquela caneca. Ali. com uma curvatura invertida na ponta. O que quer que estivesse cozinhando no pequeno recipiente transformara-se num resíduo chamuscado de odor pungente. Grandes continentes de nitrato de potássio em expansão desfiguravam as paredes expostas de gesso. – Serei totalmente responsabilizado. O cheiro de queimado estava mais forte ali. é melhor que veja isto. – Esse veneno – disse Oliphant. pelo aspecto dele. prendeu-o e aparou- o. – Senhor – disse Betteredge –. tirando do paletó a charuteira e o cortador de prata de lei –. Fraser indicou uma colher azul esmaltada e lascada. – Algo potente – disse Fraser –. senhor – gaguejou. Sobre um antiquado baú de viagem encontrava-se um moderno fogareiro Primus. – O sr. para um clarão ainda mais forte. e os detalhes do punho. no pequeno recinto. Betteredge retirou o objeto da bainha. Uma espécie de arreio pendia da bainha. Ergueu-se e encarou Fraser. Com isto. Era algo que se aproximava de um punhal de marinheiro. os olhos lânguidos da morte. Fraser pareceu estar prestes a falar. então. e encontraram o rosto sorumbático de Fraser. de modelo projetado para acampamentos. Subiram e saíram num corredor vazio. o que supõe que fosse? – Retirou um cheerot. Oliphant curvou-se para observar as feições contorcidas. iluminado por um segundo lampião de carbureto. – Eu diria que estava sozinho. O homem fora um gigante. – Sim – concordou Oliphant –. O cabo da arma era de chifre opaco. era necessário desviar o passo acima dos membros estendidos. . Fraser aguarda-o. erguendo a cabeça desde o lugar onde estava ajoelhado ao lado de um corpo caído. sujeito grande. senhor. – Com a ponta do sapato. Passaram por outra porta. com o galão de combustível brilhante como um espelho. – Mostrou uma faca muito longa embainhada em couro manchado de suor. – O que é esse pedaço de latão na ponta? – perguntou Oliphant. Diria que conseguiu engolir um bom terço da lata antes de ser derrubado pelo veneno.

com um olhar para Oliphant. após o primeiro tiro. com acesso por um alçapão.. – Meticulosa – disse Oliphant a Fraser. Oliphant foi tomado por uma onda de asco. senhor. suas legiões de malditos e perdidos. – Mostre-lhe a pistola – disse Fraser. – Distribuição militar? – A pistola tinha aspecto um tanto grosseiro. – Senhor? – A lata que continha a última refeição do homem. pela impregnação do fedor de feijão queimado. . Há exemplares demais por aí. pela proximidade do cadáver. Betteredge embainhou a faca e colocou-a sobre o baú de viagem. – Forjada à mão por um ferreiro.. pela aparência.. – Tem a marca do fabricante? – Não. Nenhuma lata. – Texanos – disse Oliphant. – Não. – Betteredge envolveu a pistola no coldre. – Coisa barata – disse Fraser. ianques. Virou- se e saiu para o corredor. – A lata. – Senhor. imagino? – Bem.Coisa de americano. numa rua repugnante. – Para o comércio de guerra americano. Oliphant foi tomado de uma náusea abrupta – pela conduta de Fraser. texanos. ele tinha cobertores. – Ela esperou o veneno fazer efeito. uma aversão violenta e desesperada pelo mundo secreto. é evidente. – Terrivelmente frio. abrigando a mais repugnante das atividades. não se preocupe – disse Fraser. Ballester- Molina. Exibiu um pesado revólver que estava por dentro de seu paletó. senhor. Oliphant ergueu uma sobrancelha. onde outro dos homens de Fraser ajustava o lampião de carbureto. – O cirurgião irá retirar nossa evidência. depois retornou e removeu a evidência. mentiras labirínticas. Suas mãos tremiam quando riscou um fósforo para acender o cheroot. arma-se automaticamente. Os policiais metropolitanos as têm confiscado de marinheiros. no sótão. senhor – disse Betteredge. – Betteredge estava perto. – Suponho concordarmos que essa é a nacionalidade do nosso amigo aqui? – Ele tinha uma espécie de abrigo. a responsabilidade.. e provou a ponta do cheroot apagado. num tom peculiar de vendedor –. – Marinheiros? – Confederados. – Franco-mexicano – disse. suas jornadas noturnas. Que casa repugnante era essa.

bem. Mackerel e dois subordinados haviam sido formalmente alocados em Londres por dezoito meses. um homem da Filadélfia.. – Mas. senhor. – Por Deus... – Pois viu a trupe de Manhattan? – Sim. devido à sua invariável escolha em comer o referido peixe no café da manhã. Um tipo afetado da Antropometria Criminal estava perdido em pensamentos diante do piano... – Senhor – disse Betteredge depois que o antropometrista subiu as escadas –. e sólidos . para fazer um relatório a respeito das damas acrobáticas de Manhattan. não.. conforme relatado por Betteredge e outros observadores. e.. embora às vezes como Beaumont Alexander Stokes.. e Oliphant considerava-os muito interessantes. Betteredge. caso pense que eu fui responsável.. com os pinkers lá. não deixou nenhum vestígio. também? – Sim. Oliphant sabia. senhor. – Acredito. pedaços de gaze. sr. senhor.. com Betteredge logo atrás como um perdigueiro ansioso. – É mesmo? E a quem pertence o chifonier que está lá embaixo? Quem rega os cactos? Cactos são regados? Talvez lembrassem ao nosso amigo texano sua terra natal. Você a viu lá. quero dizer. Se ela estava morando aqui. igualmente! Oliphant retirou os óculos e limpou-os. olhando com desagrado para a ponta do cheroot. que eu o tinha enviado hoje para uma matinê no Garrick.. E achei que meu trabalho estava terminado.. deixe-me supor... Betteredge? Para atrair tal público devem ser extraordinárias. os menos agradáveis eram as fitas de linho calibradas. Betteredge? – Para ser muito honesto. Dentre os diversos artigos que levava na valise preta. Oliphant. que na maioria das vezes se apresentava como Beaufort Kingslay DeHaven. – Meu amigo da esquina da Chancery Lane não me deu uma folha tão boa como de costume – disse Oliphant. senhor. senhor. – Deve-se tomar muito cuidado com o modo de escolher charutos. senhor! E Mackerel e seus dois. – Vasculhamos o local de cima a baixo. aparentemente. não? – Sim. Por tê-la perdido. senhor. elas batem umas nas outras com pedaços de tijolo! As mulheres correm de pés descalços e sujos. de costeletas. – E você se divertiu. Era como uma pantomima em Bedlam. – As acrobatas. Era chamado Mackerel. – Tragou o charuto de modo resoluto e desceu a escada. nenhuma vestimenta propriamente dita digna de menção. “Mackerel” era o nome dado por eles ao agente superior na Pinkerton... echarpes. como se tentasse recordar uma melodia. usadas para fazer mensurações de Bertillon do crânio.

– E você viu a nossa sra. Os pinkertons sondariam as profundezas. os pinkertons haviam seguido Michael Radley. certas vozes do Departamento Especial discutiram a respeito dos diversos modos clássicos de coerção. à Divisão Especial faltava toda a capacidade de trabalho necessária para qualquer incumbência semelhante. quase de imediato e para seu considerável orgulho. mas isso agradava ainda mais a Oliphant. os detetives Pinkertons costumavam inteirar-se de informações de importância estratégica considerável. até então. Estados Unidos. Betteredge se reportava diretamente a Oliphant. cujo assassinato no Grand’s Hotel levara diretamente a várias das atuais linhas de inquérito de Oliphant. os britânicos colheriam os benefícios. todos vigilantes experientes. chegando a ponto de assaltar pessoalmente a propriedade rural do presidente texano. atualmente beligerantes. Meses depois. forneceriam o equivalente a amostras geológicas. senhor! – Mackerel e companhia estavam cientes da presença dela? E ela da deles? – Não. senhor. ele declarara com alegria para Betteredge. a Divisão Especial abstivera-se de fazer comentários. avaliados pessoalmente por Oliphant. deixou claro. a constante vigilância tanto do Departamento Especial quanto de sua própria Divisão Especial no Ministério das Relações Exteriores. Eles assistiam à pantomima dos communards aos gritos e . Na prática. descobrira que um tal sr. Mackerel demonstrara profunda curiosidade a respeito das questões do general Sam Houston. é claro. Os pinkertons. relações públicas de Houston. argumentando que os americanos seriam de valor ainda mais inestimável se lhes fosse permitido operar de forma irrestrita – sob. A informação resultante era constituída de uma mistura de coisas. Fuller. ainda que uma firma supostamente particular. junto com um contingente fixo de londrinos de aparência comum. servia como órgão central de coleta de informações dos... assim como nas Repúblicas do Texas e da Califórnia. Além disso. Com a chegada de Mackerel e seus parceiros a Londres.pretextos para que ele próprio fosse financiado pelo governo. A movimentação dos pinkertons gradualmente revelara-se uma pequena base de atividade clandestina. que analisava o material bruto antes de passá-lo à Divisão Especial. mas até então insuspeita. o único e deploravelmente extenuado funcionário da missão diplomática texana. estava sendo pago pela Pinkerton. Oliphant considerou o acordo de todo propício. Betteredge. A organização Pinkerton. Oliphant adiantara-se para abafar tal insinuação. o que resultou na nomeação de Betteredge para a tarefa. Com redes de comunicação posicionadas por todos os Estados Confederados. Bartlett assistindo à apresentação dos communards? Tem total certeza? – Nenhuma dúvida.

. tal como fez o professor Rudwick. assim como ela e os amigos fizeram durante aquela noite de terror no Grand’s Hotel. – Era tudo o que ele sabia pela confissão de Collins. – Talvez. – Os pinkertons não fizeram menção alguma de seguir a sra. e parti para persegui-la sozinho. Os patriotas podem aliar-se com o próprio demônio na busca dos interesses da nação. Quando a apresentação terminou.. assumo toda.. – Não. – Mas por que ela ficaria contra ele agora. Assustadoramente talentosa. Ele dependia dela.. Uma simples questão de adulterar uma lata. Betteredge pestanejou. – Foi muito tolo. De modo altamente premeditado. A sra. sem dúvida. – Não... Betteredge – o tom de Oliphant era excepcionalmente suave. Ela costumava trazer feijão em lata para ele. – O sujeito desagradou-a. depois. – Deveria ter despachado Boots e Becky. é fascinado pelo tal Marx. – Ela deve estar desesperada.. São muito mais experientes. Betteredge. mas há questões em que são irredutíveis. quando me enviou para ver os communards. – Senhor. – Sim. percebe. Confesso.. Poderia facilmente tê-la perdido. É provável que ela tenha exigido dele algum serviço extremo. o texano anônimo fora um aliado rebelde. – Ou ela poderia tê-lo matado. senhor. Nenhuma. Bartlett saiu de trás do palco lentamente. Aplaudindo. Mas não temos razão alguma para crer que você alertou-a ao segui- la até aqui. Assim. senhor? – Uma questão de lealdades. e uma equipe é invariavelmente mais capaz que um único vigilante. ele teve o mesmo destino do homem que assassinou. Betteredge. Ela já havia matado nosso Golias texano. Conhecida por ocultar vitríolo consigo. – Senhor. Tem de fato uma postura bastante excêntrica a respeito. É uma assassina. Betteredge. ele havia se escondido num sótão. senhor! – Mas você o fez. no entanto. – Betteredge franziu o cenho. suspeitava que ela pudesse estar aqui? – De modo algum. entre atos! Manteve-se bem no fundo. o fundador da Comuna. Nosso texano era um nacionalista fanático. deixei Boots e Becky Dean para vigiar nossos camaradas. Bartlett.. o magnata da indústria têxtil? – Sim. Estava em posição de alimentá-lo. Betteredge. rejeitou seus planos. conhecido meu. Betteredge estremeceu. que alimentava um palpite. – Engels. não. auxiliá-lo e encorajá-lo. Lorde Engels. e ele recusou.gracejos.

saímo-nos bem no final. De roupão e camisola. Aqui. ele mesmo. – Uma das mulheres deu uma espécie de.. prescrito recentemente pelo dr. Tudo muito doutrinário. desejou acreditar em sua própria convicção. – O homem mais rico de Manchester dando crédito a tal tipo de bobagem? – Betteredge demonstrou genuína perplexidade diante da revelação. eu estava curioso para ler seu relatório. McNelie. filho de um rico industrial de Rhineland. em protesto contra o alistamento compulsório para a União. distraído da questão das afinidades de Lorde Engels com os communards diante dos sentimentos patrióticos de Oliphant. – Peculiar. que a Comuna foi fundada durante tumultos antiguerra por toda a cidade. Sustentada por uma estrutura de dobradiças primorosas de teca esmaltada de preto.. Os Estados Unidos não põem a mínima fé na revolução Rad em Manhattan. é claro. Betteredge. e arengou com todo vigor! Algo sobre “leis de ferro”. diante da perfeitamente boa e perfeitamente vazia banheira de porcelana branca que dominava seu banheiro. e o destino da Comuna de Manhattan. Tanto assim que sua doutrina poderá um dia dominar a América.. Sonhos. Oliphant ficou sonolento e dormitou no caminho de casa. esperava muito que o sr. Exalava vapor. – Sim.. senhor. um tanto semelhante à calamidade do verão passado em Londres. Oliphant examinou a coisa com resignado desgosto. Marx em geral. a banheira de borracha. com um Olho onisciente em cujas infinitas perspectivas poderiam ser resolvidos todos os mistérios. – Betteredge acenou com a cabeça. Uma transição de poder adequada é tudo. – “A lei de ferro da história”. em particular. senhor. – Mas leve em consideração. – Sobre essas communards. senhor? – Sobre as teorias do sr. E. Friedrich é. – A náusea de Oliphant havia passado. para seu pesar mal disfarçado. que Bligh preparara-lhe um banho na banheira de borracha dobrável. a frouxa tina preta agora tesa e bulbosa com o volume de água contido. Mackerel aparecesse. com chinelos de fustão bordados. Este. antes da pantomima. é claro. Seja como for. Marx e seus seguidores tomaram o poder durante um período de caos. contendo um suspiro. Betteredge. como era frequente. bem. descobriu. estava conectada . apesar de termos perdido nosso Grande Orador bem no meio da emergência. sermão. Mas muito da teoria de Marx foi emprestada de Lorde Babbage. Era suíça. sim. sim. Ao chegar.

Depois de remover o roupão e o camisão. McNelie afirmou que a estrutura de ferro fundido de uma banheira de porcelana confundia as tentativas naturais da espinha de retornar à sua polaridade magnética correta. cedia de modo desolador sob os pés. Tais habilidades tinham sido de enorme serventia para a vida de Oliphant. Oliphant mexeu-se de leve. A Oliphant pareceu deprimente a complexidade dos encaixes do baú. cujo ardente interesse em mesmerismo e nos truques de mágica apresentou ao filho as enigmáticas disciplinas da mnemônica. Ele grunhiu. Ele começou a retirar o conteúdo de cada divisória. como era de costume. colocando as roupas de Radley sobre a cama do hotel com a precisão de um camareiro. depois pegou esponja e sabonete e começou a lavar-se. pedra-pomes e um sabonete novo de fabricação francesa na pequena cesta de bambu presa na lateral da banheira. fazendo uma careta diante da sensação obscena da borracha pegajosa. O material flexível. ainda envoltos no papel de seda da gráfica. roldanas. retirou os chinelos e passou dos frios ladrilhos octogonais de mármore para o recipiente quente e macio. colocado de pé e aberto. Igualmente patéticas eram as três grosas de cartes-de-visite elegantemente gravados a pontilhismo. Bligh acomodara uma esponja. Bambu. junto com uma caixa porta-chapéu de couro gasto e uma sacola de jacquard com armação de metal. Radley possuíra um moderno baú de viagem do tipo que. que agora as praticava com a regularidade que no passado dedicou às orações. no Grand’s Hotel. E era. ele deveria manter-se reclinado por um quarto de hora. Quase um ano se passara desde sua investigação sobre o ocorrido com Michael Radley no quarto de número 37. ele descobriu. também devia ser isento de propriedades magnéticas. passou ao ato sistemático e detalhado de recordar. Isso. Desobrigado das atividades prementes do dia. sustentado de todos os lados pela armação. um tanto repugnante no modo com que envolvia o traseiro. Tinha ele o dom natural da memória. Todas as dobradiças. que por muito pouco não virou enquanto ele esforçava-se para se sentar. muito treinada na juventude pelas doutrinas educacionais do pai. servia como uma combinação compacta de armário e escritório. Oliphant supôs. com o número de telégrafo de Radley em Manchester disposto à maneira francesa. com a cabeça apoiada no pequeno travesseiro pneumático de tela emborrachada fornecido pelo fabricante para tal propósito. De acordo com a prescrição de McNelie. constituía toda bagagem do publicista. fechos niquelados e tiras de couro revelavam a expectativa de um morto por viagens que jamais ocorreriam.ao aquecedor por meio de uma mangueira vermiforme e diversas válvulas de cerâmica. Oliphant. O publicista .

escapava do olhar de Oliphant. resolutamente ambicioso. demonstrando assim a Prova há tanto buscada & esperada. Por vezes. Sobre a folha. numa fabulosa besta de três cabeças a visitar com frequência a imaginação de Oliphant. uma quimera com pescoços de serpente. oscilando sinuosamente. Sem data. suas cabeças sordidamente humanas. com a exceção de três retângulos de linhas tênues a lápis. Mas a terceira cabeça. olhos pálidos como a névoa. Enquanto trabalhava. um aparelho de barbear com ajuste automático da navalha. morto. Oliphant examinava as etiquetas do fabricante e o timbre da lavanderia. Os artigos de higiene de Radley estavam guardados num envelope removível de seda à prova d’água. Sua descoberta do provável significado desse código. ao examinar transcrições do interrogatório de William Collins. em cuja segunda confiou-me tão gentilmente suas Conjecturas. e as feições marmóreas de Lady Ada Byron. e encontrou uma esponja. Oliphant examinou o conteúdo.. boquiaberto. O restante da folha estava em branco. virando bolsos e passando os dedos por costuras e forros. a lápis. em seguida. revelando uma folha bem dobrada de papel almaço. ALG. faltando qualquer referência ao endereço e sem assinatura: Acredito q se lembre de nossas duas Conversas em agosto passado..nutria um gosto por camisões de seda.. COMP e MOD. Tenho o prazer de informá-la q cert manipulações resultaram numa versão – uma verdadeira vers de seu orig – a qual sinto muito confiante em poder finalm publicar. um porta-esponja impermeável.. Olhou dentro do porta-esponja. manuseando um objeto de cada vez: um pincel de pelo de texugo. bastante borrado por frequentes rasuras. Bateu o cabo de marfim do pincel na armação da cama. O rosto de Radley estava lá. uma escova de dentes. com as maiúsculas romanas ALG. emoldurada por madeixas e cachos que eram provas de pura geometria. uma lata de pó dentifrício. Este soltou-se facilmente. distante e impassível. . COMP e MOD transformaram-se. O brilho da navalha atraiu seu olhar. não fora suficiente para dissipar o encanto da imagem. Esvaziou a lata de pó dentifrício sobre uma folha de papel timbrado do Grand’s. Alg- Comp-Mod ainda estavam com ele. Abriu o estojo de courino da navalha: a placa niquelada cintilou contra a base violeta aveludada. estava escrito o que parecia ser o início do rascunho de uma carta. ele imaginava ser o rosto de Edward Mallory. irremediavelmente franco. outras vezes. Despejou os diversos itens do estojo sobre o peitilho engomado de uma camisa social e usou o canivete preso a uma corrente de relógio para extrair o forro aveludado do estojo.

Oliphant permaneceu na cama após despertar. Na manhã seguinte. que estava na folha de pagamento do governo britânico. praticamente em ruínas. todos os incidentes envolvendo cargas destinadas a Manhattan. mas os líderes da Comuna certamente desejariam que se acreditasse nisso. os olhos cheios de um pavor que não era possível nomear. como agora em particular. Oliphant subiu e entrou. com extensas observações a respeito do arsenal. com um dispositivo metálico de parafusos e porcas. Duvidava muito que o canal tivesse sido minado. chá forte e torradas com anchova. fixando-a. deslizava de modo ligeiro pelo relato de Copeland sobre a bateria instalada no sul da Governor’s Island. acomodando-se. na Agência Central de Estatística. Oliphant. Copeland. no abraço repulsivo da banheira de borracha. O arquivo seguinte consistia em cópias. Bligh provia-o com os arquivos do escritório.considerava ser o belo e venenoso rosto de Florence Bartlett. de Romer Shoals até o braço de mar. devido à longa experiência. Cortinas plissadas de tela à prova de fuligem estavam firmemente cerradas sobre as duas janelas. obliterando a Half- Moon Street e o rigoroso sol de novembro. O interior da caixa brilhou tal arsenal . Suas cartas descreviam o sistema de fortalezas da ilha de Manhattan. Quando o condutor incitou o cavalo a seguir. de diferentes cartas de um certo sr. leu e fez anotações sobre um arquivo da Bow Street que detalhava diversas tentativas recentes de contrabando de munições. Bligh estava à porta. se os cavalheiros da Comissão para o Livre Comércio estivessem no controle. Oliphant suspirou. rumo ao continente do sono. Betteredge abriu uma caixa a seus pés e retirou uma lamparina. ainda. Wakefield. O olhar de Oliphant. à deriva. de Boston. e logo passou ao informe de rumores de uma sequência de minas depositadas pela Comuna. sr. o rosto era o seu próprio. agente prussiano que se fazia passar por um editor de jornal refugiado de nome Schmidt. Leu um dossiê do Ministério das Relações Exteriores a respeito de Wilhelm Stieber. Uma hora depois. – O senhor tem um encontro com o sr. Betteredge saudava-o da porta aberta de um cabriolé: – Boa tarde. Como de fato logo estaria. envolto em anéis de vitríolo. impressas por Máquina. Com interesse consideravelmente maior. ao braço do assento. a qual acendeu de modo rápido e hábil. Algumas vezes.

um policial aposentado da Guarda Metropolitana de nome McQueen. ébrio. Houston. de número 24. desbocado. obviamente atentara para a ameaça implícita. Radley. fazendo pausas para afiar o canivete na beira da sola da bota. a agência pessoal e secreta do imperador Napoleão. com esse objetivo. e ambos estavam completamente bêbados. evidente entre o general e seu publicista. repousava com a grande bota rústica e lamacenta apoiada sobre uma otomana. suado. ao pedir licença. que fora chamado ao quarto de Houston. conseguira insinuar um grau exagerado de cooperação entre os serviços de inteligência britânico e francês. que trazia um recado para Radley. eram totalmente isentos de restrições legais ou constitucionais. fumava e cuspia. Oliphant procurara de imediato o detetive do hotel. tremia de forma patente com os efeitos estimulantes da bebida. olhos vermelhos. rosto corado e olhos brilhantes. Radley afirmara. o sr. Ao ser convocado a retornar ao Grand’s por telegrama nas primeiras horas do dia. Oliphant então se retirou. Ele esperava semear dúvida em relação à jornada francesa. insinuou Oliphant. era totalmente inesperada. o de Radley fora o mais apresentável. hospedada no número 25 na ocasião do tumulto. e inicialmente para o benefício de Radley. ao menos. raspava carrancudamente lascas de um pedaço de pinho. Ele passou a Oliphant uma pasta de arquivo carmesim. que detalhava as circunstâncias da morte de Michael Radley. mas a demonstração mal disfarçada e hostilidades mútuas. pelo funcionário da recepção. o menos previsível e o mais perigoso. Oliphant sugerira que Houston já possuía pelo menos um inimigo poderoso na Police des Châteaux. McQueen tentara a . encontrava satisfação em fazer o papel de americano bárbaro. Tinham sido interrompidos por um mensageiro. Oliphant vira de relance o rosto ansioso de uma jovem. Enquanto Parkes tentava acalmar a histérica esposa de um empreiteiro de Lancashire. em contraste. Radley retornou à sala para fumantes cerca de dez minutos depois. Oliphant abriu o arquivo. que consumira boa parte de uma taça de conhaque durante a ausência de Radley. insultando asperamente Oliphant e a Grã-Bretanha.em miniatura. Radley. apesar de seu estado. que era necessário falar brevemente com um contato jornalístico. Ele mesmo estivera na sala de charutos com o general e o pobre e condenado Radley. Quando a porta se abriu para a entrada do homem. Enquanto Houston falava. Embora a Police des Châteaux tivesse poucos agentes. Dos respectivos estados de embriaguez. A visita de Oliphant tivera o objetivo deliberado de perturbar Houston na véspera de sua partida para a França. tendo suportado um discurso longo e particularmente floreado do general. Parkes.

julgou McQueen. envolto com firmeza em papel marrom. O cabriolé parou. a pedido de Oliphant – acrescentou pouco ao que o veterano McQueen observara. – Já acabou com este. O gatilho da pepperbox Leacock & Hutchings foi encontrado sob uma poltrona. e o ar. A neve entrava com o vento pela janela demolida. Em seguida. o detetive inspecionou o quarto e descobriu uma pistola de bolso Leacock & Hutchings com cabo de marfim. Com a lamparina em mãos. guardaram as amostras com zelo e levaram-nas de imediato. – Ele fechou a pasta e entregou-a a Betteredge. “aos conteúdos intestinais do finado cavalheiro”. Vários objetos pessoais encontravam-se numa poça de sangue e outras matérias ao redor do corpo: um fósforo de repetição. A arma estava sem o gatilho. sangue e. senhor. coberta de estilhaços de vidro. como McQueen afirmou com delicadeza. Uma descoberta mais peculiar foi um diamante branco de corte quadrado. obrigado. Ao observar a ruína escarlate que era o cadáver de Radley. – Sim. cheirava a pólvora. Perto dela havia um pacote ensanguentado. encontrara a espalhafatosa cabeça dourada da bengala do general.maçaneta da porta de Houston. caíram sobre a palma de McQueen enquanto ele examinava os cartões. McQueen pedira a Parkes que enviasse telegramas aos policiais metropolitanos. depois de volta ao documento. As balas em si. moedas de diversos valores. de quinze quilates e excelente qualidade. e nunca mais se ouviu falar deles. O exame subsequente do quarto por especialistas da Agência Central de Estatística – tendo sido a atenção da Polícia Metropolitana rapidamente desviada do caso. Ao prosseguir com a busca. com a atitude engimática que lhes era peculiar. e descobriu que estava destrancada. Três dos cinco tambores tinham sido descarregados – muito recentemente. encontrado firmemente preso entre as tábuas do piso. Desceu do cabriolé e subiu a escada ampla. Dois homens da Antropometria Criminal. os intricados padrões dos orifícios destruídos pela passagem de um par de balas. visível demais à luz fria do amanhecer. acendeu uma lamparina e bloqueou a visão da rua com os restos de uma das cortinas. uma charuteira. – Chegamos à Horseferry Road. e viu o sangue de Radley espalhado numa poça pegajosa. . Verificou que continha uma centena de cartões de cinétropo. O estado das roupas de Radley indicava que os bolsos tinham sido revistados. de chumbo maleável e muito destorcidas. usou sua chave mestra para trancar a porta. senhor? Ele olhou para Betteredge. já frio. usaram grandes quadrados de papel quadriculado na captura de vários pelos e felpas do carpete.

Os operários usavam casacos de lã cortados à Máquina e chancas polidas com solas de borracha encrespada. Observou os mecânicos passando entre as colunas e as esfinges de bronze. o subsecretário departamental. Passou por um baixo relevo quase bíblico e irritantemente banal. À parte as circunstâncias que envolviam uma visita dessa natureza. – Sr. e ele juntou-se a um cavalheiro sisudo que esfregava com um lenço um risco pálido sobre o ombro do paletó. Enquanto falava com o funcionário uniformizado ao balcão de visitantes. e seguiu até o elevador. ansiosos por fumar ao fim do expediente.. era da cq que precisava hoje. deviam morar em Camden Town. como sempre. assegurados pela pensão da Agência.. com sua cabeça magra e pálida emoldurada pelas gavetas com encaixes de latão contendo uma imensidão de cartões de arquivo. Suas esposas serviriam chá em bandejas de estanho laqueado. de alguma forma. os dentes salientes expostos sobre o lábio inferior. com rebites de bronze e bordas de couro marrom. Pôs o envelope de lado. Sentia-a agora. Lamentava com frequência a necessária política da Agência concernente ao fumo. Os funcionários da cq estavam individualmente separados em cubículos ordenados e estreitos de aço laminado. asbesto e madeira compensada. onde mobiliariam suas minúsculas salas de estar com aparadores de papel machê e relógios holandeses adornados. Ao caminharem na direção dele. em qualquer bairro respeitável. um grupo de mecânicos saiu de um corredor à sua esquerda. Oliphant sentiu uma pontada de desejo de fumar. ele sempre sentia uma agitação peculiar ao entrar na Agência Central de Estatística. alguns tiravam cachimbos e cheroots do bolso. sim. O cavalheiro com o paletó manchado saiu na terceira parada. conversando uns com os outros. O elevador subiu. a sede da Criminologia Quantitativa e da Análise Não Linear. Apesar de considerar esta infinitamente mais instigante do que aquela. num cesto com forro de asbesto . Wakefield supervisionava-os a partir de uma versão mais grandiosa do mesmo esquema. Homens casados. As barras articuladas da gaiola foram fechadas com ruídos.. – Um prazer. O Olho. – Enfiou alguns cartões perfurados num rígido envelope azul forrado com papel de seda. Ergueu o olhar quando Oliphant aproximou-se. Oliphant – disse ele. O atendente fez uma mesura diante de sua entrada. Cada qual carregava uma bolsa de ferramentas impecável de lona branca e espessa. decerto: uma sensação de estar sendo observado. mais especificamente na pessoa de Andrew Wakefield.. Oliphant prosseguiu até a quinta. de estar sendo reconhecido e numerado. Com sua licença. e envolveu meticulosamente as duas metades do fecho envernizado com a pequena fita escarlate. em New Cross.

produzindo estalidos altos que Oliphant considerou repulsivos. – E como vão as coisas no corpo diplomático. Wakefield assentiu. não. – Sabe do que trata um envelope azul. parecendo avaliar a questão. a partir do engenhoso suporte. até agora.contendo diversos envelopes de cor idêntica. – Nada em específico. – Existem homens capazes de ler cartões. sr. Oliphant. – Acredito que o material texano que fornecemos tenha sido de algum modo útil – indagou Wakefield. com as molas rangendo atrás de si ao inclinar-se para a frente. – Nunca leio os cines do metropolitano. todos. mas posso suspeitar o que seja. equilibrando o guarda-chuva fechado sobre os joelhos. tirando uma lapiseira banhada a ouro do bolso – se a legação deles tem a intenção de alterar sua base de operações? – Bateu a lapiseira nos dentes frontais. e sentou-se. sim? – Teria sido impossível não notar o sarcasmo do homem. Oliphant sabia ser esse o equivalente a uma risada. Suponho que dependeria da boa vontade do senhorio. Wakefield solicitava com regularidade relatórios sobre grupos tão distintos quanto a Carbonária. os Cavaleiros da Camélia Branca. A pedido de Oliphant. Oliphant? Lidando com nossa “conspiração ludita”. . a Agência de Detetives Pinkerton e a Agência de Pesquisa Científica dos Confederados. – Eu diria que não. – Não se chegou a um grande resultado. – Onde eles estão agora? No Saint James? Perto do mercado de vinhos de Berry? – Exato. ativos na Grã-Bretanha. Andrew. no final. Não entre minhas próprias áreas de especial interesse. Wakefield bufou. – Muito – garantiu-lhe Oliphant. os Texas Rangers. – Imagina que eu possa ler seus cartões. presumindo que as “áreas de especial interesse” de Oliphant estavam limitadas às atividades de cidadãos estrangeiros em solo britânico. Não têm nenhum dinheiro. a Irmandade Feniana. Mas até um funcionário inexperiente pode ler os cabeçalhos com a mesma facilidade com que você lê os cines do metropolitano. sabia-se. Andrew? – Ergueu uma cadeira de estenógrafo pela alavanca de molas.. as Hetairas Gregas. Oliphant hesitou. mas Oliphant fingiu uma interpretação literal da pergunta. – Acaso não saberia – começou Wakefield. Oliphant sorriu.. senhor? – As molas tiniram quando Wakefield dobrou a mesa articulada para dentro de uma fenda estreita.

com um ressoar de aço. de fato. Na descida. – Que tem a ver com o procedimento dos Correios. ela começou a endireitar-se aos poucos. Experimental. De súbito. Não estava lacrado. Wakefield emitiu um som curto e totalmente indefinido na garganta. – Exato. imagino. na verdade. Wakefield sorriu. Parecia apreciar bastante os aspectos técnicos do trabalho em sua Agência. Quem deseja saber? – A Antropometria Criminal.. – Mesmo? – As molas de Wakefield rangeram. . espera-se.. verificando as indicações de desgaste que poderia causar dificuldades mecânicas. – Wakefield largou o lápis. Quando Wakefield soltou a alavanca. – Sério? Eles estão envolvidos em atividades de vigilância? – Creio que seja algo técnico. Mas sou eu que tenho uma questão técnica para lhe colocar. o aparelho bateu como a máquina-de- crédito de um lojista. ergueu a mão enluvada e baixou uma alavanca com cabo de marfim. examinou-o e encarou Oliphant. Mallory. – Fora de perigo. e inseriu o cartão com cautela numa fenda de metal na superfície de um instrumento envidraçado que pendia sobre uma pilha de cartões de arquivo. – Nome do destinatário? – Também estou a par disso. Olhando para Oliphant. era isso? – Sim? – Vi uma resenha do livro dele. Oliphant observou Wakefield passando a ponta do dedo enluvado sobre as linhas perfuradas. Wakefield levantou-se. Oliphant tirou um envelope do bolso e passou-o ao subsecretário. diga-me. extraiu um cartão branco de endereço telegráfico do envelope. – Seu amigo cientista. Andrew.. por favor. vestiu-as.. Foi para a China. de nervoso. Wakefield observou as rodas giratórias de caracteres fazendo tique-taque e reduzindo a velocidade. Não é mau sujeito. não? – Mongólia. – O timbre do estabelecimento estava impresso no cartão. – Fora do caminho. pareceu a Oliphant. As molas rangeram. obrigado. – Wakefield – disse Oliphant –. – Grand’s Hotel – disse Wakefield. Wakefield pegou um par de luvas de algodão branco do cesto de arame ao lado de seu cotovelo. o aparelho ficou em silêncio.. – Gostaria de saber quem o enviou? – Possuo tal informação.. zumbindo e estalando como a máquina-de-apostas de um taverneiro. ondulando o lábio inferior com os dentes. Liderando uma expedição para a Geographical Society. Wakefield apertou os lábios e acenou com a cabeça.

Andrew. por fim. Oliphant. Matéria particulada condensada. em termos equivalentes. – De fato. extrema discrição. Andrew – disse. Wakefield suspirou. mas por vezes perco as esperanças de ter o sistema funcionando de modo apropriado! – Baixou a voz. – Se você pudesse obter o texto do telegrama.. – Você não está sozinho nessa avaliação. – Ele é um homem muito ambicioso. Andrew. – “Usualmente irregular”? Isso é ótimo. – O texto da mensagem. – Exijo o texto desse telegrama.. tendo algum resultado com as aplicações do aerosol de Lorde Colgate. – Sob as circunstâncias. Sentou-se de novo. está aqui na Agência. Oliphant? – Um político bastante inexperiente do Rad. “The Beeches”. Estamos trabalhando com os mecânicos em turnos triplos. exigindo que giremos nosso metal repetidas vezes na esperança de que deles se desprendam os luditas supostamente alojados nos pilares da nação! Quem é esse maldito homem. Com amigos ambiciosos. não? – Decerto. e uma loucura infernal sob seu comando no Parlamento! Oliphant deixou que o silêncio se prolongasse. ainda corrompidas pelo Fedor? Além do fato de que sua exigência extrapola o usualmente irregular. acredito. – Parece estar por toda parte.. – Egremont – disse Wakefield. – Sabe que tenho mais de oitenta e oito quilômetros de extensão em engrenagens sob minha supervisão. – Os metros de engrenagem do Napoléon. mas calmo –. – Ou melhor. até o Fedor e as desordens resultantes. – Sabia que as funções mais sofisticadas do Napoléon estão imprecisas há meses? – Do imperador? – Oliphant fingiu não entender. Ele existe fisicamente. até a morte de Byron. Belgravia. pelo que sei. – Oliphant viu Wakefield extrair o cartão da fenda de metal. – Mas temos Lorde Brunel agora.. – Egremont – Wakefield leu em voz alta. eu ficaria grato. Ou era. em alguns centímetros de fita telegráfica. Oliphant. – E seus amigos do Departamento Especial que entram marchando de hora em hora. – Sem dúvida! – Além do fato de que nossas fitas estão imundas. Um imenso trabalho ele nos está dando aqui. com calma –. estão .. recolocou o cartão no envelope e retirou as luvas.. nosso Muito Honorável Charles Egremont. como se não tivesse escutado.

jornais. xícaras de chá lascadas. O ar frio cheirava a repolho cozido e tabaco velho. Wakefield inclinou a cabeça. Optando por arriscar as calças. colheres sujas. com a porta destrancada. como se tivesse apostado ser capaz de vestir todo o conteúdo do carrinho de um trapeiro. sente-se. pareceu estar usando cada peça de vestuário que possuía. então – disse Oliphant –. subiu dois lances de escada sem carpete. depois mais duas vezes. – O sr. Bateu duas vezes na porta. Kriege acenou vagamente na direção de uma cadeira com apenas três pernas. Oliphant jogou as . Oliphant distinguiu uma cadeira que parecia inteira. ocupava o centro da sala de visitas. um pote de tinta. – Aí está. entre. – Mais ursino do que nunca em seus trajes empacotados. – Encontre-me aquele telegrama? Assim que lhe for conveniente. facas. Saudou o subsecretário com o guarda- chuva fechado e levantou-se para refazer seus passos pelos cubículos da cq e pelas cabeças baixas dos pacientes funcionários de Wakefield. de barba densa. coberta por tecido encerado. velas. embora a filha de Kriege tenha brincado de casinha com ela. – Bom camarada – declarou Oliphant. Kriege vivia em dois cômodos: o que dava para a rua era sala de visitas. livros. uma variedade de objetos de costura. ex-funcionário do Volks Tribüne de Nova York. – Tiveram seu próprio Fedor. e na maior desordem. Wakefield bufou. e atrás deste. Ele trancou e passou a corrente na porta após a entrada de Oliphant. Oliphant fizera seu tortuoso caminho profissional até a Dean Street partindo da taverna do Soho. – E simplesmente não está operando! – A ideia pareceu enchê-lo de especial horror. muito provável que as engrenagens estejam entupidas por um pedaço de casca de cebola. é claro. Agora entrava em uma casa manchada de fuligem. cachimbos de barro holandeses.. por favor. mas muito sutilmente. vai deixar passar a corrente de ar. Sobre ela havia manuscritos. Trancando-a com cuidado depois de entrar.. uma boneca com cabeça de porcelana.. Tudo quebrado e esfarrapado. não? Wakefield balançou a cabeça de modo severo. Hermann Kriege. – Sente-se.muito próximos do dobro das nossas – disse Wakefield. – Entre. um quarto. Pestanejando numa névoa de fumaça de carvão e de tabaco. cinza de tabaco. Uma mesa grande e antiquada. onde instruíra Betteredge a deixá-lo.. canetas.

– Um jogo de chá para bonecas. Kriege? – Que eu saiba. Seus Rads mostraram-se expectadores benevolentes no que concerne à luta de classes da América. – Colocou o embrulho sobre a mesa. um cinismo azedo. então? – Sugeriu-se que entre os vários elementos criminosos ativos durante os recentes distúrbios civis. – Há muitos Larry no Soho. Tem de entender que não posso lhe dizer as razões pelas quais faço dada pergunta. – Havia grande amargor na voz de Kriege. sem lacre. Almejaram e conseguiram ganhar os Dead Rabbits para a causa. as prostitutas da Chatham Square e do Five Points. retirando do paletó um pacote embrulhado com papel de seda. encarando Kriege do outro lado da triste mesa entulhada.. e colocou-o ao lado do pacote. sua nação tem se comportado como uma espécie de aliada. – O que deseja saber. – Meu amigo. – A Trupe de Pantomima Vermelha das Mulheres de Manhattan – disse Oliphant. senhor. – Ela o chama de “tio Larry”. em exílio. imagino – Oliphant pegou um envelope simples. O papel estava preso por um retângulo adesivo ornado com as iniciais em relevo de um empório de brinquedos da Oxford Street. Oliphant remexeu-se com cautela na desconfortável cadeira. Continha três notas de cinco libras já bem circuladas. De fato. esse era o seu público. Sei que sofreu. havia agentes de Manhattan. Kriege não disse nada. Ouça-me. Kriege bufou com desprezo. é meu trabalho fazer perguntas. – Uma lembrancinha para a sua pequena Traudl – disse Oliphant. – Baseado em quê. – O melhor do safismo do Bowery? Em Londres? Lembro-me delas no Purdy’s National. . – Imagino que fosse interesse da própria Grã-Bretanha ver a União do Norte perder sua maior cidade para os communards. a Comuna não tem interesse algum em perturbar o status quo britânico. – Oliphant aguardou. finalmente. Sei que sofre agora..migalhas pegajosas para o lado e sentou-se. alinhado com precisão à quina da mesa. – Oliphant lançou um olhar significativo pela trágica sala. Oliphant suspirou. Os jovens açougueiros. sr. os engraxates. espatifar-se na parede e ser retirada como um pedaço de papel. cujo único envolvimento prévio com a política consistira em lutas com pedras e socos nas eleições municipais. Proletários suados lá acorriam para ver uma mulher ser lançada por um canhão. O silêncio prolongou-se. está enganado em seu interesse. – Considero improvável. Ela não deveria saber seu nome.

– Anarquistas disfarçadas de comunistas. onde fez uma pausa diante da entrada de uma taverna conhecida como o Javali Azul. – Conheceu intimamente o sr. dizia um grande cartaz. embora o casamento não sobrevivesse à revolução. com um nome fictício. sem um centavo no bolso.” . um letreiro de madeira pintado anunciava “Ratos sempre disponíveis para que Cavalheiros testem convenientemente seus cães. sufocado pela raiva permanente. senhor. antes de Marx despachá-lo.. – Para extrair de Kriege uma informação específica. Kriege fora membro do chamado “Comitê Central” da Comuna.. toda sorte de ideologias equivocadas. Mais uma vez a pé. Kriege. acredito. amor livre! – Com as mãos grandes e pálidas de unhas desleixadas. parecia mesmo extraordinário que o ilustre fabricante de tecidos pudesse ter-se envolvido. sr. – Sim? – Oliphant inclinou-se para frente. era necessário um envolvimento com a paixão dominante do homem. – Oliphant pensou em seu amigo. – Essas pantomimas do Bowery. distraído. Kriege apanhou. um maço de papéis.” Abaixo do anúncio borrado. pensando nas resmas de papel amarelo sanfonado que representavam a confissão de William Collins. – Conheci-o? Eu estava lá para saudá-lo quando desceu do barco. ainda que a distância. Marx.. por pregar “o beatismo e o amor livre”! De fato.. – Prossiga. entende.. Lorde Engels. – Entendo – disse Oliphant. esposa e filha. Ele me abraçou. para juntar-se a milhares de refugiados americanos. partira de Boston navegando de terceira classe. E menos de um minuto depois havia tomado vinte dólares de ouro emprestados para pagar seu aluguel no Bronx! – Kriege ensaiou uma espécie de riso. com pessoas daquela espécie. “UM CAVALHEIRO DESPORTISTA”. células ocultas fora do controle de Manhattan. por favor. – Morava com sua Jenny então.. Mas estava com uma operária irlandesa do Brooklyn em sua cama quando me expulsou da Comuna. Oliphant retomou seu tortuoso caminho pelo Soho até chegar à Compton Street.. feministas. ele sabia. Com a cabeça a prêmio na União do Norte. – O senhor foi maltratado.. “Defensor Leal da destruição desses Vermes” ofereceria “UM RELÓGIO DE REPETIÇÃO DE OURO A CÃES vorazes com menos de 6 ¼ quilos. – Existem facções no Partido.

Ele entrou e logo foi cumprimentado por Fraser em meio ao mau cheiro de
cachorros, fumaça de tabaco e gim barato e quente.
O longo balcão estava cheio de homens de todas as classes sociais, muitos
com seu animal debaixo do braço. Havia buldogues, skye terriers, pequenos
terriers ingleses marrons. A sala tinha teto baixo e quase nenhuma decoração.
Pelas paredes estavam pendurados montes de coleiras de couro.
– Veio de cabriolé, senhor? – indagou Fraser.
– A pé, de um compromisso anterior.
– Ei – berrou o barman –, não bloqueie a passagem no balcão! – Havia um
movimento geral na direção do salão, onde um jovem garçom gritava:
– Façam seus pedidos, cavalheiros!
Com Fraser ao lado, Oliphant seguiu a multidão de cavalheiros desportistas e
seus cães. Acima da lareira do salão, havia caixas envidraçadas que exibiam
cabeças empalhadas de animais que foram famosos em sua época. Oliphant
notou a cabeça de um bull terrier com os olhos de vidro enormes e salientes.
– Tem-se a impressão de que este morreu estrangulado – comentou Oliphant,
chamando a atenção de Fraser para a coisa.
– Eles estragaram-na no empalhamento, senhor – disse o garçom, um rapaz de
cabelos claros com um engordurado avental listrado. – Estava entre as melhores
da Inglaterra. Já a vi matar vinte de uma vez, mas eles acabaram por matá-la.
Ratos de esgoto são terríveis para dar cancros em cachorros, embora sempre
enxaguássemos bem sua boca com hortelã e água.
– Você é filho do Sayers – disse Fraser. – Queremos falar com ele.
– Ora, conheço o senhor! Esteve aqui perguntado sobre aquele cavalheiro, o
cientist...
– Seu pai, Jem, e seja rápido – Fraser interrompeu, evitando que o rapaz
anunciasse a chegada de um policial entre os desportistas ali reunidos.
– Está lá em cima, acendendo as luzes da cova – disse o rapaz.
– Bom garoto – disse Oliphant, dando-lhe um xelim.
Oliphant e Fraser subiram uma ampla escada de madeira que ia dar no que um
dia fora uma sala de visitas. Ao abrir a porta, Fraser seguiu na frente até o
recinto onde os ratos eram mortos.
– A droga da cova não está aberta – berrou um homem gordo com costeletas
ruivas. Oliphant viu que a cova consistia em um picadeiro de madeira com cerca
de dois metros de diâmetro, provido de uma borda à altura do cotovelo. Acima
dele, ramificava-se a iluminação a gás com oito lampiões, iluminando
intensamente o piso pintado de branco da pequena arena. O sr. Sayers,
proprietário do Javali Azul, metido em um volumoso colete de seda, estava de
pé, com um rato vivo na mão esquerda. – Mas é o senhor, seu Fraser. Peço

desculpas, senhor! – Segurando a criatura pelo pescoço, extraiu-lhe com destreza
os dentes maiores, sem nenhum instrumento que não a forte unha do polegar. –
Um lote de doze com os dentes arrancados. – Largou o rato mutilado numa
gaiola de um metal enferrujado com alguns outros e virou-se para as visitas. –
Em que podemos ser úteis, sr. Fraser?
Fraser mostrou-lhe um retrato de necrotério pontilhado à Máquina.
– Sim, esse é o homem – disse Sayers, erguendo as sobrancelhas. – Sujeito
grande, pernas longas. E morto, pelo jeito dele.
– Tem toda certeza? – Oliphant sentiu o cheiro dos ratos. – Este é o assassino
do professor Rudwick?
– Sim, senhor. Vem gente de toda espécie aqui, mas não muitos gigantes
argentinos. Lembro-me dele muito bem.
Fraser pegara a caderneta e fazia anotações.
– Argentino? – perguntou Oliphant.
– Falava espanhol – disse Sayers –, ou pelo menos me pareceu. Mas veja bem,
nenhum de nós o viu realizar o ato, mas que ele estava no local aquela noite,
estava.
– O Capitão chegou – gritou o filho de Sayers, da porta.
– Droga! E ainda não arranquei os dentes de metade dos ratos dele!
– Fraser – disse Oliphant –, eu gostaria de tomar um gim quente. Vamos
retirar-nos para o bar e permitir que o senhor Sayers termine os preparativos das
competições desta noite. – Curvou-se para examinar uma gaiola grande, esta
com grades de ferro. Parecia conter denso amontoado de ratos.
– Cuidado com os dedos aí – disse Sayers. – Pois, acredite, se levar uma
mordida, não vai se esquecer dela. Esses não são dos mais limpos...
No salão, um jovem oficial, evidentemente o Capitão, ameaçava deixar o
local, caso o fizessem esperar mais.
– Não beberia isso se fosse você – disse Fraser olhando para a caneca de gim
quente de Oliphant. – Adulterado, com quase certeza.
– Mas está muito bom – disse Oliphant. – Fica um gosto muito leve, parecido
com absinto.
– Veneno tóxico.
– Exato. Os franceses usam-no no preparo de chás medicinais. O que pensa de
nosso bom Capitão? – Oliphant acenou com o gim apontando para o homem em
questão, que andava de um lado para o outro, agitado, examinando as patas dos
vários animais que lhe eram apresentados pelos donos, sem parar de gritar que
sairia de imediato caso a cova não fosse aberta.
– Crimeia – disse Fraser.
O Capitão curvou-se para examinar as garras de um jovem terrier nos braços

de um homem moreno, um tanto imponente, cujos cachos cheios de pomada
projetavam-se feito asas por baixo no chapéu-coco de copa alta.
– Velasco – disse Fraser como que para si mesmo, com algo
desagradavelmente próximo ao prazer no tom, e logo estava ao lado do sujeito.
O Capitão teve um sobressalto, o belo e jovem rosto contraiu-se num tique
violento, e o olho de Oliphant encheu-se de modo abrupto com todo o vermelho
da Crimeia – cidades inteiras em chamas, tal fogueiras, e uma desolação
revestida de cápsulas de balas misturadas com lixo gelatinoso de onde brotavam
flores brancas, que eram mãos de homens. Estremeceu de modo intenso diante
da visão, e em seguida esqueceu-se dela por completo.
– Eu o conheço, senhor? – O Capitão perguntou a Fraser com uma crispada
jovialidade mortífera.
– Cavalheiros! – gritou o sr. Sayers, da escada.
Seguindo o Capitão, o grupo todo – com a exceção de Oliphant, Fraser, o
homem moreno e um quarto indivíduo – partiu para a cova. O quarto homem,
sentado no braço de uma poltrona de brocado gasto, começou a tossir. Oliphant
viu Fraser segurar com força o antebraço de sua presa.
– Droga, não devia fazer isso, Fraser – disse o homem na poltrona,
descruzando as pernas e levantando-se. Oliphant notou certo tom calculista na
voz. Assim como o homem moreno, trajava roupas novas e garbosas, tudo do
que havia de mais recente na Oxford Street, o paletó de gabardine cortado à
Máquina, tingido de um azul que beirava o lilás. Oliphant viu que a lapela, como
a do companheiro, estava enfeitada com reluzente insígnia cloasonada na forma
da Union Jack.
– “Droga”, sr. Tate? – disse Fraser, um professor prestes a fazer uma
reprimenda, ou algo pior.
– Um aviso, Fraser – disse o homem moreno, com os olhos escuros saltados. –
Estamos a serviço do Parlamento! – O pequeno terrier marrom estremeceu em
seus braços.
– Estão mesmo? – indagou Oliphant em tom brando. – E que interesse tem o
Parlamento num covil de ratos?
– Poderia perguntar o mesmo de vocês, ãh? – disse com insolência o mais
alto, depois tossiu.
Fraser encarou-o ferozmente.
– Fraser – disse Oliphant –, esses cavalheiros são os agentes confidenciais que
você mencionou, em relação ao dr. Mallory?
– Tate e Velasco – disse Fraser, severo.
– Sr. Tate – disse Oliphant, aproximando-se –, é um prazer, senhor. Sou
Lawrence Oliphant, jornalista. – Tate hesitou, confuso diante da cordialidade.

Fraser, aceitando a deixa de Oliphant com muita relutância, soltou o braço de
Velasco. – Sr. Velasco. – Oliphant sorriu.
O rosto de Velasco obscureceu-se de desconfiança.
– Jornalista? Que tipo de jornalista? – indagou, alternando o olhar de Oliphant
a Fraser.
– Artigos sobre viagens, principalmente – disse Oliphant –, embora esteja no
momento envolvido, com o auxílio competente do sr. Fraser, na compilação de
uma história popular sobre o Grande Fedor.
Tate espiou Oliphant com os olhos apertados.
– Você disse Mallory. O que tem ele?
– Entrevistei o dr. Mallory antes de sua partida para a China. Suas
experiências durante o Fedor foram notabilíssimas, e altamente ilustrativas dos
graves riscos a que qualquer um pode estar exposto num período tão caótico.
– “Que qualquer um pode estar exposto”? – desafiou Velasco. – Bobagem! Os
problemas de Mallory foram problemas acadêmicos, e seu caro sr. Fraser sabe
disso muito bem!
– Sim, sim, exato – concordou Oliphant. – E é por isso que estou encantado
em encontrar os cavalheiros esta noite.
Velasco e Tate entreolharam-se com indecisão.
– Está? – arriscou Tate.
– Totalmente. Sabem, o dr. Mallory explicou-me os infelizes contratempos
com seu rival e colega, Peter Foulke. Parece que, até nos círculos mais seletos,
durante um período de tensões sem precedentes...
– Não vai mais encontrar o maldito Peter Foulke pelos malditos círculos
seletos – interrompeu Velasco –, mesmo com toda a pose de gentry dele. – Fez
uma pausa retórica. – Foi flagrado na cama com uma menina que não tinha doze
anos de idade!
– Não! – Oliphant fingiu estar chocado. – Foulke? Mas decerto...
– Ele estava em Brighton – afirmou Tate –, e os que o encontraram bateram no
imbecil e atiraram-no no meio da rua, totalmente nu!
– Mas não fomos nós que fizemos isso – declarou Velasco, em tom categórico
–, e você não pode provar o contrário.
– Existe uma nova tendência de pensamento por aí – disse Tate estufando o
peito plano, como que para mostrar a insígnia da Union Jack, com um brilho
úmido no nariz chato, vermelho de gim – que não tolera a decadência – dando
ênfase igual às quatro sílabas da palavra –, esteja ela entre homens da ciência ou
de quaisquer outros. A perversidade dissimulada foi abundante sob o governo
Byron, toda espécie dela, e você sabe bem, Fraser! – Fraser arregalou os olhos
diante do desaforo, enquanto Tate voltava sua exaltação para Oliphant. – O

Fedor foi obra de Ned Ludd, senhor, e aí está sua história!
– Sabotagem em escala titânica – anunciou Velasco em tom sombrio, como se
citasse um discurso –, incitada por conspiradores nas camadas mais altas da
sociedade! Mas há verdadeiros patriotas entre nós, senhor, patriotas dedicados a
arrancar esse mal pela raiz! – O terrier rosnou nos braços de Velasco, e Fraser
pareceu estar a ponto de estrangular tanto o homem quanto o cão.
– Somos investigadores parlamentares – disse Tate –, tratando do assunto de
um Membro, e tenho certeza de que não ia querer deter-nos.
Oliphant pôs a mão sobre a manga de Fraser.
Com um trejeito de triunfo, Velasco acalmou o cachorrinho e seguiu para a
escada. Tate acompanhou-o. Do alto vieram os gritos roucos dos cavalheiros
desportistas.
– Estão trabalhando para Egremont – disse Oliphant.
Fraser contorceu o rosto com aversão. Aversão e algo semelhante a
perplexidade.
– Aparentemente não há nada mais a fazer aqui, Fraser. Você já providenciou
um cabriolé, não?

O sr. Mori Arinori, o favorito dentre os jovens “pupilos” de Oliphant,
deleitava-se intensamente com tudo o que era britânico. Oliphant, que de
costume tomava um café da manhã frugal, quando tomava, por vezes sujeitava-
se a um desjejum fortemente “inglês” para agradar Mori, que, nesta ocasião em
particular, usava o mais rude traje de golfe em tweed e um cachecol no tartan da
Ordem Real Hibérnica dos Engenheiros do Vapor.
Havia um quê de paradoxo, melancólico e agradável, refletiu Oliphant, em ver
Mori passar geleia numa torrada, enquanto ele mesmo entregava-se a uma
nostalgia por seus dias no Japão, onde servira como primeiro-secretário de
Rutherford Alcock. Sua estada em Edo alimentara nele um respeito passional
pelos tons brandos e texturas sutis de um mundo de rituais e sombras. Sentia
falta agora do tamborilar da chuva sobre o papel impermeável, das ervas em flor
pendendo sobre becos minúsculos, do brilho das lamparinas de junco, dos odores
e obscuridades, das sombras da Cidade Baixa...
– Oriphant-san, torrada está muito boa, é muito excelente! Está triste,
Oriphant-san?
– Não, sr. Mori, de modo algum. – Serviu-se de toicinho defumado, embora
não estivesse com a mínima fome. Afastou a lembrança repentina do terrível

banho matinal, da borracha preta pegajosa. – Estava lembrando-me de Edo. Para
mim, a cidade tinha um grande encanto.
Mori mastigou pão com geleia observando Oliphant com firmeza, com seus
brilhantes olhos escuros, depois limpou os lábios com destreza usando um
guardanapo de linho.
– “Encanto”. Sua palavra para os velhos costumes. Os velhos costumes
obstruem minha nação. Esta semana mesmo, enviei a Satsuma um argumento
contra o uso da espada. – Os olhos escuros agitaram-se por um curto instante na
direção dos dedos tortos da mão esquerda de Oliphant. Como se atingida pela
pressão da percepção de Mori, a cicatriz sob o punho da camisa de Oliphant
começou a doer lentamente.
– Mas, sr. Mori – disse Oliphant, colocando de lado o garfo de prata e
abandonando o toicinho não desejado –, a espada em seu país é, sob muitos
aspectos, o símbolo central da ética feudal e dos sentimentos a ela relacionados;
um objeto de reverência abaixo apenas do próprio senhor.
Mori sorriu com satisfação.
– Costume odioso de épocas rudes e selvagens. Isso é algo bom de se livrar,
Oriphant-san. Este é tempo moderno! – A última expressão era sua favorita e
mais frequente.
Oliphant retribuiu o sorriso. Mori combinava ousadia e compaixão com certa
audácia problemática que Oliphant considerava muito cativante. Mais de uma
vez, para o desânimo de Bligh, Mori pagara algum cocheiro cockney a tarifa
total mais gorjeta, convidando-o em seguida para uma refeição na cozinha de
Oliphant.
– Mas tem de aprender a dar um passo de cada vez, sr. Mori. Enquanto o
senhor, pessoalmente, pode considerar o uso de espadas um costume primitivo,
opor-se de forma aberta a esta questão menor poderia provocar resistências em
relação a outras reformas mais importantes, a mudanças mais profundas que o
senhor deseja implementar em sua sociedade.
Mori acenou com a cabeça, concordando com gravidade.
– Sua política sem dúvida tem mérito, Oriphant-san. Muito melhor, por
exemplo, se todos os japoneses aprendessem inglês. Nossa língua restrita não
tem nenhuma utilidade no grande mundo além de nossas ilhas. Logo o poder do
vapor e da Máquina deve penetrar nossa terra. A língua inglesa, em seguida,
deve suprimir qualquer uso do japonês. Nossa raça inteligente, ávida na busca
por conhecimento, não pode depender de um meio precário e incerto de
comunicação. Temos de compreender as verdades fundamentais do tesouro
precioso da ciência ocidental!
Oliphant inclinou a cabeça para o lado, observando Mori com atenção.

– Sr. Mori, perdoe-me se não o compreendo bem, mas estou correto em supor
que esteja propondo nada menos que a deliberada abolição do idioma japonês?
– Este é tempo moderno, Oriphant-san, tempo moderno! Todas as razões
apoiam o desuso de nossa língua.
Oliphant sorriu.
– Precisamos combinar uma discussão mais demorada sobre isso, sr. Mori,
mas agora tenho de perguntar se tem compromisso para esta noite. Proponho um
entretenimento.
– Sem dúvida, Oriphant-san. Celebrações sociais inglesas são sempre
agradáveis. – Mori ficou radiante.
– Iremos, então, a Whitechapel, ao Teatro Garrick, para o que, a meu ver, é a
mais incomum das pantomimas.

De acordo com o programa do espetáculo, irregularmente pontilhado, o
Palhaço era conhecido como “Jackdaw Jaculation”, embora esse fosse talvez o
aspecto menos peculiar da apresentação da noite, a peça Mazulem, a Coruja
Noturna, encenada pela Trupe de Pantomima Vermelha das Mulheres de
Manhattan. Outros personagens eram “Freedman Bureau Bill, um garoto negro”,
“Levy Stickemall, um mercador, oferecendo dois charutos por cinquenta
centavos”, “um Mascate Ianque”, “uma Dama Ladra de Lojas”, “um Peru
Assado” e o epônimo “Mazulem”.
Todo o elenco, a julgar pelo programa, era formado por mulheres, ainda que
em alguns casos fosse impossível determinar. O Palhaço, com enfeites de
babados, em cetim com lantejoulas aplicadas com esmero, ostentava a cachola
toda raspada e o sinistro rosto branco do Pierrot, com um toque de cor apenas
nos lábios contornados.
A apresentação fora precedida por uma fala breve e bombástica de uma tal
“Helen América”, com o peito arfante, os seios aparentemente livres sob
camadas de echarpes diáfanas, servindo para prender a atenção da plateia
predominantemente masculina. Seu discurso consistira em frases de efeito que
Oliphant considerou mais obscuras que estimulantes. O que exatamente quis
dizer, por exemplo, quando declarou que “Não temos nada a vestir senão nossas
correntes...”?
Ao consultar o programa, ele foi informado de que Helen América era a
autora de Mazulem, a Coruja Noturna, assim como de Arlequim Panattahah e O
Gênio dos Algonquins.

o ar carregado de fragmentos de tijolos até que. zombou. Mori exalou um breve assobio. Oliphant viu o punho nodoso apertar o bastão. Os olhos estavam delineados com kajal. ainda que menos em resposta ao conteúdo da pantomima. assumira a pose de guerreiro samurai. Oliphant notou um homem corpulento. A cabeça de Helen América surgiu. se é que havia um. com a cartola firmemente enfiada na cabeça. como de vapor. de maxilar magro com um bastão de vime sobre o ombro. – Venha. Mazulem. Mori levantou-se. chapéu e bengala formal nas mãos. – Poderia fazer a gentileza de passar isto à senhorita América. os cabelos desgrenhados e extravagantemente tingidos com hena. as canelas nuas e tornozelos claramente visíveis sob as barras esfarrapadas de suas vestes fluidas. sr. com o peripatético Peru Assado – aparentemente representado por uma anã – atacando os clientes com uma faca de trinchar. qualquer que fosse ele. – Permita-me . As costas de Oliphant começaram a doer. Oliphant virou-se. o rosto inexpressivo. A coreografia acelerou até se transformar numa espécie de ataque dançante. O público gritava em desordem. Argolas imaculadas de linho e ouro reluziram em seus pulsos flexíveis. Oliphant perdeu o fio da narrativa muito rápido. O sujeito observava a multidão com olhar estreito. Sinto uma oportunidade jornalística. de modo abrupto. Havia acompanhamento cinetrópico. segurando o cabo da bengala com as duas mãos. cintilavam por demência ou láudano. – Laurence Oliphant. então. olhou-o de relance e deixou-o cair no chão. por assim dizer. pareceu a Oliphant. Seguiu Oliphant na direção do poço da orquestra. parado ao lado da entrada do poço. que às danças rodopiantes e curiosamente informes das mulheres communards. com meu pedido de entrevista? O homem pegou o cartão. Mori. – Srta. aplaudiu. jornalista. Helen América? – Oliphant pegou um segundo cartão. A pantomima se abriu com o que Oliphant supôs pretender ser uma sala de jantar de um hotel. As cenas eram pontuadas de modo recorrente por personagens atirando tijolos cênicos na cabeça uns dos outros. – Apresentou seu cartão ao homem corpulento. Mori. O acompanhamento musical era realizado por uma organista com cara de lua – seus olhos. a Coruja Noturna terminou. com a estimada cartola no colo. Oliphant olhou de relance para Mori sentado a seu lado. o que ele duvidava. Mori manteve a postura. A plateia urrou. embora consistisse em animações toscamente polêmicas que pareciam ter pouca relação com a cena do palco.

Sou Laurence Oliphant. Somos melhor apreciados em nosso próprio teatro. Helen América sorriu. pois o Povo Rebelado tem o velho Olympic. foi Fox. Assim como seria um prazer realizar uma entrevista com a autora de. retirou a cartola e fez uma reverência ao estilo europeu. Ofereci meu cartão.. no tom cinza dos Confederados conhecido como butternut. – Então venha para Manhattan. O sorriso dela cresceu.. – E gostou de nosso espetáculo? – Foi extraordinário. Helen América fez um gesto rápido com as mãos diante do rosto rígido de seu compatriota. na ala leste da Broadway. – Cecil é surdo-mudo – ela disse. senhor. Mori Arinori.. – De certo modo. jornalista. revelando um dente de ouro. . Helen América. embora eu continue a argumentar contra. Disse que trabalha em jornal? – Sou um jornalista eventual. embora os botões originais do regimento tivessem sido substituídos por chifre redondo e simples. o Grimaldi marxista. – E você é um homem de jornal. Permita-me apresentar meu bom amigo.. como se estivesse invocando algo no ar. – O sr. Oliphant percebeu. desfiada. de olhos arregalados. baixou o bastão de vime que. América. pronunciando o nome com ênfase no e americano. – Não fui eu que escrevi – ela disse –. Com um olhar mortal para Cecil. – Perdão? – George Washington Lafayette Fox. sim. de fato. – Sinto muito.. mas aparentemente limpa. o Tamla da pantomima socialista! Foi uma decisão da trupe dizer que eu escrevi. – Seria um grande prazer. extraordinário. Ela usava uma capa militar remendada com esmero. E a senhorita. um enviado do Mikado do Japão.. é uma autora da mais alta qualidade.apresentar-me. srta. o sr. em meio à nuvem embaralhada de cachos tingidos com hena.. acima da Houston Street.. era obviamente pesado. Mori é japonês. ainda encarando Mori furiosamente. Mori inverteu a bengala com admirável graça. – Finos aros de prata perfuravam suas orelhas. – Mas a sua mensagem introdutória. – Ele não sabe ler. – Nunca vi um chinês vestido assim – ela disse. O homem. examinou-o como quem examina um cão adestrado.

oferecer-lhe uma refeição.. animada. completamente perdido. O Autocafé estava lotado e ruidoso. Oliphant deu-se conta de que estava olhando para ela. Atrás de cada janela. – O grande Fox. até a esquina. Onde gostaria de jantar? – Tem um restaurante na esquina. Helen América escolheu uma fatia . – Foi a terrível pressão da labuta – disse ela. Oliphant nunca vira algo assim. senhor. – Ele caiu na mais grosseira indecência. Mori Arinori havia se afastado um pouco. Oliphant. levando consigo o enorme bastão. Helen América demonstrou como deviam proceder ali. que sozinho elevou a pantomima socialista ao seu atual patamar de importância revolucionária. Com Mori ao seu lado. adornadas com latão. estava exposto um prato diferente. senhor. senhor. Mas o pobre Fox. como havia dito. foi levado à total exaustão por ter de inventar truques mais precisos e transformações mais rápidas. com os quadris calipígios balançando sob a capa de Confederado e a musselina esfarrapada de seu notável traje cênico. – Ela havia assumido a postura de palco. ele a seguiu pela saída do Garrick. senhor. e se quiser publicar isso. e orgulho-me disso.. fique à vontade. – Quando ela desceu do alto da escada que ia dar no poço. Acima do rebordo. O surdo-mudo Cecil desaparecera. – Estou com uma fome de leão – disse Helen América. – Não sabia – admitiu Oliphant. é triste dizer. e parecia estar observando a multidão deixar o Garrick. com esgares pavorosos. procurou sua bolsa de trocados. por favor. Ela não esperou que ele oferecesse o braço. revezando os dizeres. ao notar as fendas para moedas. – Manhattan não é um lugar para loucos. de origem militar. cheio de moradores de Whitechapel. Oliphant e Mori seguiram seu exemplo. sem encontrar palavras. As janelas com barras de ferro estavam opacas devido ao vapor. havia algumas dezenas de janelas em miniatura. A luz a gás tremeluzia diante de uma placa-cine de clacking que mudava de AUTOCAFÉ MOSES & SONS PARA LIMPO MODERNO RÁPIDO. caso ele se tornasse obsceno demais. – Sinto muito mesmo. Oliphant viu que usava botas de borracha americanas chamadas Chickamaugas. Entrou em demência.. trabalhou arduamente para espetáculos de única apresentação. – Permita-me. Massachusetts. agora. pegando uma bandeja retangular de guta-percha em uma pilha e empurrando-a por um rebordo de zinco brilhante. Ela olhou para trás com um sorriso encorajador. Helen América guiou-os pela rua e. então mantivemos seu camareiro formalmente trajado para correr atrás dele e ridicularizá-lo. retornava a um tom mais confidencial.. Ele está no hospício em Somerville. – Essa fui eu que escrevi. grandes e desajeitadas. um tanto desconcertado.

. A mesa. Sorriu alegremente e começou a ajeitar uma pilha de talheres baratos de estanho. optou por uma caneca de cerveja. sem restos ou migalhas. – Oliphant exibiu o cartão. América? Ela é muito famosa em Manhattan. Ela deixou os “pratos” de papelão totalmente limpos. mas recusou o molho da torneira. dando a Mori uma faca e um garfo. – Muitos trabalhadores? – Talvez não. com grande interesse. Mori escolheu uma batata assada. – Clystra com certeza vai me matar por isto – observou Helen América enquanto acomodavam as bandejas numa mesa de ferro fundido ridiculamente pequena. É sulista. Tampouco americana. desorientado pela estranheza do local. Oliphant providenciou as moedas necessárias.. supôs Oliphant. – Que espécie de lugar é? Mori examinava. está mais para uma maldita francesa. muito pitoresco. Oliphant pegou a caderneta. – Fica. e mergulhou na última sobra de molho uma batata que reservara com cuidado para esse fim. já enforcamos nosso quinhão deles. saída de outra torneira.. Ora. conheço. srta. estava parafusada ao chão de concreto. Conversas durante o jantar. vamos comer! – Ao dizer isso. – Ela não é atriz.. sim. Dois pence adicionais liberaram copiosa quantidade de um molho marrom. Bem. – Deu de ombros sob a capa butternut. O Pavilhão Hidropático é muito famoso. Oliphant. . senhor. O Povo Rebelado não precisa de gente da espécie dela. sua favorita. uma porção de toad-in-the-hole e batatas fritas. embora os diversos recursos e atrações empreguem um grande número de pessoas. antes de encher a boca de toad-in-the-hole.. como as quatro cadeiras à sua volta. senhor? – Sim. pelo menos. saído de uma torneira. Abriu-a e retirou um cartão branco e simples com o retrato em pontilhismo de Florence Bartlett na Bow Street. – É muito agradável – disse Oliphant –.. no sentido que imagino estar-se referindo.de torta de carne de cordeiro. – Fica na Inglaterra? – perguntou Helen América. pelo que ouvi dizer há pouco tempo. o prato retangular de papelão cinza e áspero sob sua batata. – Não vejo gente de fábrica de verdade desde que cheguei aqui. – Conhece uma Flora Barnett. não eram muito valorizadas na Manhattan Vermelha. de aparência duvidosa. a atriz americana. se é que se pode chamá-la assim. – Conhece uma cidade chamada Brighton. Helen América dedicou-se à tarefa. – Não aceita que falemos com cavalheiros da imprensa.

– Posso entrar por um momento. que parecia perdido na contemplação do movimento no Autocafé. senhor. América.. Oliphant olhou para Mori. desejo apenas. com a cabeça raspada coberta por uma enorme touca de algodão com bolinhas e as botas Chickamauga ainda maiores que as de Helen América. sr. para início de conversa! Vocês não têm direito algum sobre ele. Bligh se dirigiu até uma miniescrivaninha de madeira em que ficavam os objetos de tabacaria de Oliphant. A atriz vestida de palhaço encarou Oliphant com um olhar assassino e. pensem que podem ir escavar os tesouros naturais do Povo? E pela porta entrou. e um dia ele estará no Manhattan Metropolitan. – Da espécie dela? Helen América encarou-o com um olhar desafiador. – Teremos lugares como este no meu país... Fita telegráfica perfurada. inseriu a mão e retirou um pequeno cilindro achaparrado de estanho laqueado em preto. Não se importa nem um pouco. Mori. – Não vou falar... Oliphant pegou o cilindro e abriu a tampa. Tomei a liberdade de abri-lo.. ingleses. senhor. – Noite peculiar. senhor. em seguida.. por favor. – Entra neste exato momento a camarada Clystra – disse Helen América. Mori. senhor? Trancando a porta atrás deles com a própria chave. como se esperasse a deixa. – Grata pela refeição. Não quis dizer o nome ao ser perguntado. na volta de Oliphant à Half-Moon Street. entendeu? E aquele brontossauro nem deveria estar aqui. Oriphant-san! Limpos! Modernos! Rápidos! Bligh.. ao lembrar-me de algumas tentativas bárbaras. abrindo a parte superior de um umidor. pois pertence ao Povo Rebelado! E o que faz com que vocês.. mas não pode me forçar a falar. o formidável Palhaço da Trupe de Pantomima Vermelha das Mulheres de Manhattan. as duas foram embora. levou um instante para responder. – Isto foi trazido até a porta da cozinha por um jovem. o senhor é um jornalista. . – Lamenta como todos os outros. – Lamento se. no exterior.. seguiu-o até o segundo andar e parou à porta do escritório. – Srta.

usou a chave de fenda para fazer os ajustes necessários. “que não podemos fazer mais nada. Percebeu de uma só vez a batida de seu coração. . Recusou- se a olhar. em seu impecável francês diplomático. Após vasculhar algumas gavetas. Colocou em lugar seguro o domo alto. Estava feito. decifrando o código da fita dos Correios. de Paris. senhor. Localizou a chave de faca na base do instrumento e rompeu a conexão elétrica com os Correios. Pegou a manivela. com firmeza. As hastes de caracteres começaram a subir e descer. ele permaneceu sentado. mas devagar. reuniu papéis.” – Entendo. ele montou a mensagem sobre uma folha de papel almaço: QUERIDO CHARLES VÍRGULA NOVE ANOS ATRÁS CAUSOU-ME A MAIOR DESONRA QUE PODE ACOMETER UMA MULHER PONTO CHARLES VÍRGULA PROMETEU-ME QUE SALVARIA MEU POBRE PAI PONTO EM VEZ DISSO CORROMPEU-ME VÍRGULA O CORPO E A ALMA PONTO HOJE PARTO DE LONDRES VÍRGULA NA COMPANHIA DE AMIGOS PODEROSOS PONTO ELES SABEM MUITO BEM O TRAIDOR QUE VOCÊ FOI A WALTER GERARD E A MIM PONTO NÃO TENTE ENCONTRAR-ME VÍRGULA CHARLES PONTO SERIA INÚTIL PONTO ESPERO MESMO QUE VOCÊ E A SRA EGREMONT DURMAM PROFUNDAMENTE ESTA NOITE PONTO SYBIL GERARD FIM Mal notando a chegada de Bligh com o chá. e gastou alguns minutos lendo o manual de instruções do fabricante. uma questão de afrouxar os quatro parafusos borboleta de latão. – E o jovem? – Um operador de Máquina iniciante. à medida que ela saía da fenda. encaixou sua ponta hexagonal no soquete do mecanismo e começou. sem se mover por quase uma hora. senhor. a girá-la no sentido horário. apertou a placa de guiamento na posição certa e respirou fundo. Em seguida. Oliphant pôs-se a remover o vidro pesado de seu receptor de telégrafo pessoal. localizou os implementos requisitados: uma manivela com cabo de nogueira e uma pequena chave de fenda de ouro com o monograma da empresa Colt & Maxwell. depois de servir-se de uma xícara de chá tépido. – E não deixou recado algum? – Deixou. uma carta para um certo Monsieur Arslau. o silêncio da noite penetrando o escritório a partir da escuridão de Green Park e o Olho. a julgar pelo estado dos sapatos. Com tesoura e cola. “Diga a ele”. com a mensagem diante de si. o perigo é grande. pegou a caneta-tinteiro e começou a compor. Além do fato de que usava as luvas de algodão. enfiou com cuidado a ponta da fita nos dentes da roda de aço brilhante. ele disse. Então. Poderia trazer um bule de chá verde forte? Sozinho. as quais não retirou. em forma de mostrador. ele não deve pedir de novo.

para o cérebro jovem. . Assim como os olhos do sr. olhando através dos óculos coloridos para uma das lentes da câmera. Estatística é tudo na Inglaterra. e fingiu examinar a câmera. e estava envolto num avental de fotógrafo em imaculado branco. uma criação intricada cujas lentes estereópticas. Os dedos estavam manchados de nitrato de prata. mas menos pesados. Vossa Alteza? – disse Oliphant. o valete suíço e musculoso do Príncipe. Oliphant fez uma reverência. – E o progresso de Alfred na matéria está longe de ser satisfatório. sob a ordem da família real. – Trouxe uma pequena lembrança para Affie. Cart. – O jovem príncipe concluiu as lições do dia? – Affie está doente hoje – disse Albert. Pegou um pequeno pincel e passou-o de leve na superfície das lentes. herança de uma longa e delicada missão que Oliphant assumira naquela região. quando a política do Ministério das Relações Exteriores era manter os mini estados alemães o mais fragmentados possível em termos políticos. – Considera o estudo da estatística carga muito pesada para uma mente jovem e inexperiente? – Minha opinião. Vossa Alteza – disse Oliphant. – Quiçá eu possa ter uma conversa com ele. Seu alemão. desejando à Sua Alteza uma boa tarde no que julgava ser a melhor maneira de se dirigir à família real. O príncipe consorte virou-se. – Está em seu quarto. assim como o do príncipe consorte. sempre engenhosos na antiga arte da política do casamento. estatística é a chave para o futuro. observavam abaixo de uma sobrancelha de latão liso.. pareceram a Oliphant ser afastadas demais. Os parentes de Coburg do príncipe Albert. e cumprimentou Oliphant em alemão. talvez. O ar ainda fedia a pólvora.. – Sei que o rapaz tem boa vontade. distraidamente. sem dúvida – disse o príncipe. desde uma elaborada câmera estereóptica de fabricação suíça. estavam ávidos para ampliar seu minúsculo território – uma questão delicada de fato. como olhos. – Eugenia. Endireitou a coluna. – Antropometria – sugeriu o príncipe. – A mãe dele e eu discordamos no assunto – confidenciou o príncipe. tinha sotaque saxônico. No entanto. Usava óculos verde-azulados com lentes circulares menores que florins. com toda sua gravidade teutônica. Vossa Alteza – disse Oliphant. – Análise estatística é de fato uma técnica poderosa. – Ele progride bem em outras matérias? – resguardou-se Oliphant. com pesar. Importantes campos de aprendizado.

tio Larry. Affie. do amontoado de roupas de cama e pulou com agilidade as pistas de uma elaboradíssima ferrovia em miniatura. onde foi recebido com um grito de alegria quando o príncipe desceu. mas logo aprenderão. – E o grande maldito cinto! – E como tem passado. Acho que estava enroscada com muita força. cercada por um mar revirado de estanho litografado e chumbo pintado. – Veja as calças de boca larga – disse Alfred. ignorando o lapso na linguagem do garoto –. – e uma sombra de ansiedade encobriu o jovem rosto –. embrulhado em papel vegetal verde e com forte cheiro de tinta fresca e barata.. havia uma cópia de Paternoster.. está vendo. descalço. E veja o frontispício. escalando a cabine de um veículo em disparada que poderia ser um gurney de último modelo – revestido de estanho. apresentava o ladrão de estrada de Barão Zorda com mais detalhes.. tendo o jovem príncipe Alfred expressado grande entusiasmo pelos dois números anteriores. pistola em punho.. A capa com cores espalhafatosas retratava o audacioso Paternoster. mas infelizmente eu. – Os japoneses fazem suas bonecas com molas de barbatana de baleia. desde minha última visita? – Muito bem. admirado. – Incrível! – O garoto rasgou o papel vegetal verde de Paternoster. ao pé da enorme cama de quatro colunas.. são chamadas. ela quebrou. Affie – perguntou Oliphant. O frontispício. o Bandoleiro do Vapor com avidez. de um certo “Barão Zorda”. Oliphant atravessou a arejada elegância dos aposentos reais... na décima volta.. bulboso na proa e muito estreito na traseira. . Pulou para fora. Ele está adornado como Smashjaw Ned. Affie. No bolso de Oliphant. as bonecas deles não quebrarão com tanta facilidade. tio Larry. – Veja o gurney dele. Quando isso acontecer. O Exército de Esqueletos e Pilotos do Czar. o terceiro volume da estimada série. tio Larry! Todo aerodinâmico! – O que há de mais veloz para o malvado Paternoster. que incluía um cinto largo de couro com taxas e calças boca de sino com botões na bainha. Uma longa farpa afiada de algum material translúcido projetava-se de forma grotesca do deslumbrante roupão da boneca. infelizmente ela. em especial na vestimenta. seguindo para o quarto de Alfred.? – O príncipe apontou para a boneca japonesa de chá caída. inconsolavelmente. o qual Oliphant examinara na banca de jornal da Piccadilly em que adquirira o volume. – É a mola. o Bandoleiro do Vapor. Ainda não aprenderam conosco a fabricação de molas apropriadas. – Tio Larry! Tio Larry! Esplêndido! O que trouxe para mim? – O mais recente de Barão Zorda. “Bigodes de baleia”.

ele via agora. talvez.. meia hora de joelhos sobre o carpete. Alfred conectava sua Máquina a um cinétropo em miniatura. contra a sua vontade. Ouviu-se um barulho cerimonioso na maçaneta da porta. quando se aproximavam de . como seu primo. A pequena Máquina empregava extensões de fita telegráfica em vez de cartões. Nem o próprio Paternoster poderia ter esperado algo mais rápido. Oliphant não fazia ideia de seu destino. Eles voaram por St. A cortesia formal de Oliphant amenizara a questão de modo satisfatório – uma gentileza bem aplicada. do que está dizendo. James Park na velocidade do sonho. ou mais radicalmente aerodinâmico. íntimo do Departamento de Fraudes Metropolitanas. abriu o alto portal branco e deparou-se com o conhecido rosto de Nash. Oliphant passou. um camareiro do palácio cujas imprudentes especulações com as ações da ferrovia haviam-no tornado. um jovem irlandês robusto. – Diz que o senhor considera-os iguais aos europeus. – E considero. pelo genuíno ar de atenção respeitosa de Nash. Bligh a teria levado até a embaixada francesa a esta altura. os galhos negros e descobertos das tílias lampejando tal fumaça levada pelo vento. Urgentíssimo. O motorista usava óculos de proteção de couro com lentes redondas. no futuro. – Não. O fornalheiro. podem levar a civilização a avanços ainda incalculáveis. e claramente apreciava o voo impetuoso. pela mala postal diplomática. Um dia. os americanos. então. duvido que gostasse. observando Alfred demonstrar o funcionamento de uma Máquina francesa de brinquedo – acionada. Oliphant – anunciou Nash –. muito provável que já estivesse a caminho de Paris. O garoto observou-o com dúvida. chegou um telegrama. Agora. – Meu pai não gostaria nem um pouco disso. Oliphant levantou-se. ressoando periodicamente um apito gutural que fazia cavalos empinarem e pedestres apressarem-se. Arslau. A velocidade do veículo da Agência Especial não contribuiu em nada para o mal-estar geral de Oliphant. fazendo Oliphant lembrar-se de sua carta a M. senhor.. Eles e. As portas do Palácio de Buckingham nunca eram trancadas. o Grande Napoléon. – Meu pai diz que o senhor admira demais seus japoneses – disse Alfred. – Sr. Affie! Seus aparelhos mecânicos são hoje inferiores devido à sua falta de conhecimento nas ciências aplicadas. sorria como um louco ao jogar o coque na pequena fornalha. por meio de ar comprimido.

o motorista usou o freio e uma alavanca que exalava uma poderosa massa de vapor. – E parecem ter atraído uma atenção considerável durante o processo. – Betteredge está aqui? – Não o vi. – Há algo aqui que a imprensa não deve ver. carrancudo. O tráfego. – Colocaram isso na rua errada. prontos para atirar. havia sido totalmente interrompido pela instalação de barricadas de madeira com lamparinas penduradas. então – disse o motorista –. Mallory está bem longe. e o maldito Egremont estará em todas as primeiras edições chamando a isso de afronta ludita. – Fraser seguiu na frente. A Royal Society está furiosa feito um vespeiro. Bartlett e seu bando tentaram fugir com o crânio . apartava-se como o Mar Vermelho ante Moisés.Trafalgar. uniforme. Um soldado deu um breve aceno de cabeça quando passaram. Atrás delas. – Mallory? E por quê? – O Leviatã Terrestre. – Aquele é Halliday – disse –. por favor. não colocaram? Quando Oliphant desceu do gurney. havia soldados sisudos em traje de combate. senhor – comentou o motorista erguendo os óculos de proteção para olhar através do vidro orlado com frisos da proa do veículo –. – Bem. A sra. com carabinas Cutts-Maudslay sem a correia a tiracolo. ele viu telas de lona pendendo frouxas de postes rústicos de madeira. É melhor que venha comigo. Fraser aproximou-se. O Museu de Geologia Prática foi invadido. O gurney aerodinâmico parou com um impacto. Oliphant viu de relance um cavalheiro de bigode numa conversa urgente com dois guardas metropolitanos. Para além deles. Policiais de capacete saudavam vivamente quando eles passavam acelerados. Moleques e varredores de rua davam cambalhotas de alegria ao verem um lustroso peixe de lata descendo ruidosamente a Strand. Oliphant viu. resultando numa lamentação alta e pesarosa que lembrava a aflição de um beemote marinho. sr. Nossa única sorte é que o dr. – Sim. – Encontramo-la – disse Fraser. Oliphant. por favor. o trânsito fazia com que o motorista puxasse a corda do apito de modo contínuo. – Estão todos cuidando deste caso. senhor – disse Fraser. na China. entre um par de barricadas. O fornalheiro esfregou o rosto com um lenço de bolinhas. veja isso. Por aqui. Ao entrarem na Fleet Street. como se alguém estivesse tentando montar um cenário teatral no meio da Fleet Street. A escuridão da noite era densa. – Não é uma questão para leviandades. mediante esse som. o chefe da Antropometria Criminal. O tráfego. Talvez um pouco menos de infantaria fosse suficiente.

Coloquei Henry dez vezes no banco dos réus quando estava na polícia.. O rosto de Florence Bartlett estava em pavoroso estrago. o tecido rústico estampado a intervalos com a marca do Departamento de Artilharia do Exército. ou o que restou dele. senhor – disse Fraser. senhor. Deixou-se levar para onde três corpos envoltos em lonas estavam colocados sobre macas. O outro homem era Henry Dease. com os membros dormentes e sem volição. – Ela estava com dois homens – disse Fraser. vomitando em seu lenço. O restante das guarnições temporárias está logo ao lado do viaduto Holborn. mas uma dupla de detetives da Bow Street passava pelo local. – Ele apontou. se contar o cadáver que deixaram no museu. com seus painéis de laca preta e opaca perfurados por tiros.da coisa.. senhor. – Vitríolo – disse Fraser. começou a discutir com um condutor de verdade. Os dois homens passaram por uma das barreiras improvisadas. Foram colocados ali.. estava tombado por perto. senhor.. Oliphant virou-se rapidamente.. um arrombador muito talentoso. – Mas esse cabriolé. – Uma bala estilhaçou o recipiente que ela usava. – Ele fez uma pausa. senhor. o motorista. – Qual o significado dessas telas de lona? – Pedido da Antropometria Criminal. Fraser. – O crânio? Talvez meia dúzia de grandes fragmentos de osso petrificado e gesso tingido .. Fraser.. Um cavalo de cabriolé estava estendido ao lado dela. Um guarda metropolitano a serviço no trânsito tentou intervir. – Sinto muito. – Não há necessidade de ver os outros dois. – Isso foi trabalho de um gurney do exército.. É melhor terminarmos com isso. – Dease portava uma espingarda russa. momento esse em que Russell sacou uma pistola. numa grande poça de sangue escurecido. – Ficou evidente que Russell. – O guarda de trânsito não estava armado. – Três.. – Oito civis foram levados ao hospital – disse Fraser. senhor. O carro era conduzido por um exilado ianque chamado Russell. de Liverpool. um grandalhão bringuento que mora em Seven Dials.. – Betteredge. O cabriolé. Mas venha. sobre quem deveria dar passagem. Oliphant balançou a cabeça com incredulidade. Aqui está o crânio. Oliphant olhava para o cabriolé virado. um veículo comum de um cavalo. Oliphant sentiu como se caminhasse num sonho. você o viu? – Não. – Um detetive morto.

Por que parece estar por aqui metade da Antropometria Criminal. É o representante da Antropometria na Câmara dos Lordes. o senhor está em melhor posição para determiná-lo do que eu – disse Fraser. pelo nome. aqui. e decerto estou sendo observada por elementos do governo. Estou em dificuldades agora. juro. – Somente nós dois vimos isso – disse Fraser. – Fraser pegou seu caderno. a meu ver – disse Fraser. eu não sei. Fiz tudo o que posso. – Está? Sob a autoridade de quem? – De ninguém. – Fraser ficou muito próximo de . Espero que julgue tal informação crucial um pagamento completo de todas as minhas dívidas. Repórteres lançaram-se com ímpeto quando Fraser e Oliphant saíram das barricadas. – Encontrei-a na bolsa de Bartlett. Olhando à sua volta em busca de possíveis observadores.de ébano estavam arrumados com esmero sobre uma mesa polida. Oliphant dobrou o papel em quatro antes de guardá-lo na charuteira. Fraser.. – Não. – Lorde Galton? O teórico eugenista? – O primo de Lorde Darwin. devido a acontecimentos policiais recentes. Fui informada. alguns dos quais cumprimentou em tom casual. Tem considerável influência na Royal Society. encontrou-o no cabriolé. – E o que exatamente. senhor. do museu. A letra elegante. Fraser segurou Oliphant pelo braço e levou-o até um grupo de guardas metropolitanos de capacete. Gostaria de sentar-se.. que veio buscá-lo – disse Fraser. – Há um sr. – Ele levou Oliphant de volta aos destroços do cabriolé. senhor? Poderia encontrar-lhe um banco dobradiço. com os policiais de sarja azul e botões de metal formando uma barreira para isolar a multidão que gritava –. antes da chegada da Antropometria. ainda que num esconderijo dos mais peculiares. que estava selado dentro do crânio de seu Leviatã Terrestre. passou a Oliphant uma folha dobrada de papel fino azul. era de Lady Ada Byron. baixando a voz –. embora eu tenha ouvido falar que o sr. senhor. Fraser? – Bem. dr. montada sobre cavaletes. por nosso conhecido mútuo do Derby. Egremont e Lorde Galton descobriram recentemente que têm muito em comum. estava escondido no crânio? – Irei acompanhá-lo de volta pelo caminho. – Harris. Reeks aqui. tão familiar a Oliphant quanto a Fraser. Oliphant – disse Fraser. sr. Mallory. favor levar isso em consideração em qualquer tentativa de comunicar- se comigo. – Para responder à sua pergunta. – É melhor que veja por que considerei urgente sua presença. – Disse que não está tão danificado quanto podemos pensar. O bilhete estava sem data e sem assinatura: Aquilo que deseja com persistência foi localizado. Mas está em nosso poder.

é o que são. Fedia a fustão úmido e cavala defumada. concordo. Não era uma coisa nem outra. Boots pegou-o com destreza.dar um sorriso. Estava vestida de prostituta bem- sucedida. pelo que aparentava. – Foi levado – disse Becky Dean. A outra. chefe. mas será que não teria um cobre? Oliphant olhou para baixo e viu os olhos castanhos espremidos do pequeno Boots. que não precisarei mais dele. seboso e com ares de gigolô. senhor – Harris exibiu uma sacola preta comum. – Por quem? – Dois homens num carro de aluguel. à procura de um lugar melhor para mendigar. – Problemas. – Licença. resmungando no caminho. em meio ao povo que se acotovelava por uma visão mais clara dos soldados e das telas de lona. que dava toda a impressão de ser um jóquei aleijado. aqui dentro. – Os policiais afastaram-se aos poucos. ele procurou-nos. . – Senhor Oliphant. chefe. Velasco é o nome. no gurney extravagante. sacola em mãos. Obrigado. Oliphant atirou-lhe um penny. como se falasse sozinho. mantinha o passo ao lado de Oliphant à medida que ele se aproximava da esquina da Chancery Lane. Diga ao sujeito do Departamento Especial. – Eu não sabia de nada disso. senhor – disse o guarda de costeletas loiras –. – Os rapazes da polícia não gostam muito da Antropometria. Harris? – Isso. não é. Fraser. O outro era do governo. Betteredge foi ter com eles. Harris. – Aqui. – Onde está. Malditos amadores teimosos. depois avançou aos poucos com sua muleta cortada. – Há menos de três horas. – De fato. Becky vai lhe contar. – Foi levado em plena luz do dia? À força? – O senhor sabe muito bem como se faz – disse Becky Dean. – E quem eram esses homens? – Um é um detetivezinho particular. Becky Dean. – Para onde foi Betteredge? – perguntou Oliphant. Estavam seguindo o senhor. Era um dos vigilantes mais talentosos de Oliphant. Boa noite. depois mandou que vigiássemos os vigilantes. – Exatamente como o encontramos. Oliphant. com saltos de latão e bronze. creio que seja melhor levar isto de imediato – disse Fraser. – Boots virou-se com a muleta e saiu coxeando com determinação. então? – perguntou Oliphant. saiu atento e a passos largos. – Antes de ontem.

A primeira neve do ano começou a cair enquanto ele subia a Chancery Lane. – Obrigado. sr. senhor. Oliphant. Viu o papel reduzir-se a delicada cinza rosada. – Sim. senhor. senhor. poderia. Beadon pegou um molho de chaves do paletó e foi destrancar um cofre de aparência admiravelmente moderna. senhor. de cheiro adocicado. – Certamente. senhor? – Acho que seria muito boa ideia se guardasse o pacote nesse seu cofre aí. – É claro. – Crê que o Lambs fique perto daqui. e um estojo de madeira. Beadon. leitoso e muito liso. na esquina da Chancery Lane com a Carey Street. Na tranquilizante exalação do seu silencioso estoque de tabaco. o dining-club? – Sim. Beadon. senhor. O último era claramente o objeto em questão. Uma breve caminhada. a serem descontadas de minha conta? – Quarenta. Oliphant segurou o canto do papel azul acima da chama concisa de um isqueiro de bronze em formato de um turco de turbante. – E uma dúzia de habanas de primeira. um frasco de bolso de metal prateado com uma mistura repugnante. cortados em material inovador. – Será um prazer. senhor. Poderia dar-me quarenta libras em dinheiro. é a única exceção. Holborn. Boots e Becky Dean não estavam à vista. E. Beadon. – Meu homem de confiança. Com prazer. A sacola continha um revólver automático Ballester-Molina. senhor. – Se qualquer pergunta for feita. – O pacote – disse ao sr. Beadon. senhor? – Sim. por favor. – Como desejar. Continha grande quantidade de cartões de Máquina do padrão do Napoléon. uma vez que estava incrustado em gesso cru branco. Bligh. uma matéria seca e áspera que parecia não aderir ao pavimento. Beadon? – Sim. – O sr. o que seguramente poderia significar que estavam tratando de seus negócios invisíveis de costume. envie um garoto para avisar Bligh. . o vendedor de tabaco – é para ser guardado apenas para mim.

O senhor sabe muito bem como se faz.
E não sabia? Quantos tinham desaparecido, desaparecido por completo, só em
Londres? Como era possível sentar-se entre amigos em aprazíveis cafés,
bebericar um Moselle, ouvir gentis e descontraídas conversas, carregando na
mente o peso de tal conhecimento?
Sua intenção era que Collins tivesse sido o último, absolutamente o último;
agora Betteredge se fora, e pelas mãos de outra agência.
No começo, a coisa fazia um sentido horrivelmente elegante.
No começo, tinha sido sua própria ideia.
O Olho. Ele sentia-o agora – sim, com certeza, o olhar onisciente incidindo
em cheio sobre ele enquanto acenava para o porteiro adornado com borlas e
entrava no átrio de mármore do Lambs, o dining-club de Andrew Wakefield.
Caixas postais de latão, uma cabine telefônica, um excesso de folheado polido
francês, tudo completamente moderno. Olhou para trás, através das portas de
vidro, para a rua. De frente para o Lambs, além das duas vias de tráfego cobertas
de neve, vislumbrou um vulto solitário que usava chapéu-coco alto.
Um mensageiro dirigiu-o ao salão de grelhados, que tinha acabamento em
carvalho escuro, com enorme lareira coroada por mantel de pedra italiana
esculpida.
– Laurence Oliphant – disse ao maître de paletó apertado –, para o sr. Andrew
Wakefield.
Uma expressão de inquietude encobriu o rosto do homem.
– Sinto muito, senhor, mas ele não...
– Obrigado – disse Oliphant –, mas creio que vejo o sr. Wakefield.
Com o maître seguindo seus passos, Oliphant marchou entre as mesas, com os
clientes virando-se à sua passagem.
– Andrew – disse, chegando à mesa de Wakefield –, que grande sorte
encontrá-lo aqui.
Wakefield jantava sozinho. Pareceu ter uma breve dificuldade para engolir.
– Sr. Wakefield, senhor – começou o maitre.
– Meu amigo vai fazer-me companhia – disse Wakefield. – Sente-se, por
favor. Estamos chamando atenção.
– Obrigado – Oliphant sentou-se.
– Deseja jantar, senhor? – perguntou o maître.
– Não, obrigado.
Quando ficaram a sós, Wakefield deu um sonoro suspiro. – Que droga,
Oliphant, será que não deixei claras minhas condições?
– De que, exatamente, Andrew, está com tanto medo?
– Deveria ser bastante óbvio.

– Deveria?
– Lorde Galton está associado com seu maldito sr. Egremont. É o grande
patrocinador da Antropologia Criminal. Sempre foi. Quase seu fundador. É
primo de Charles Darwin, Oliphant, e goza de grande influência na Câmara dos
Lordes.
– Sim, e na Royal Society, assim como na Geographical. Conheço muito bem
Lorde Galton, Andrew. Ele abraça os princípios da procriação sistemática na
espécie humana.
Wakefield baixou o garfo e a faca.
– A Antropometria Criminal domina a Agência de modo efetivo. Para todas as
intenções e propósitos, a Agência Central de Estatística está agora sob o
comando de Egremont.
Oliphant viu quando os dentes superiores de Wakefield começaram a morder o
lábio inferior.
– Estou vindo da Fleet Street – disse Oliphant. – O nível de violência desta
sociedade... – e tirou a Ballester-Molina do paletó – ou, devo dizer, o nível de
violência não reconhecida, tornou-se notável, não é assim, Andrew? – Colocou
o revólver sobre a toalha de mesa, entre eles. – Tome essa pistola como exemplo.
Tudo é obtido com muita presteza, pelo que me dizem. Sua fabricação é franco-
mexicana, embora seja invenção dos espanhóis. Certas peças internas, segundo
me informaram, molas e coisas do gênero, são, na verdade, britânicas,
disponíveis no mercado livre. Torna-se muito difícil, portanto, dizer de onde vem
uma arma como esta. Emblemático de nossa atual situação, não concorda?
Wakefield ficara profundamente pálido.
– Mas parece que o perturbei, Andrew. Sinto muito.
– Eles vão apagar-nos – disse Wakefield. – Deixaremos de existir. Não
sobrará nada, nada a provar que eu ou você jamais existimos. Nem um canhoto
de cheque, nem uma hipoteca no banco municipal, coisa alguma.
– É exatamente disso que estou falando, Andrew.
– Não fale comigo nesse tom moralista, senhor – disse Wakefield. – Seu
pessoal começou, Oliphant... os desaparecimentos, os arquivos perdidos, os
nomes apagados, números omitidos, históricos editados para se adequarem a fins
específicos... Não, não fale comigo nesse tom.
Oliphant não conseguia pensar em nada para dizer. Levantou-se, deixando a
pistola sobre a toalha de mesa, e saiu do salão de grelhados sem olhar para trás.
– Com licença – ele disse, no átrio de mármore, para um mensageiro de paletó
vinho que peneirava pontas de charuto de uma urna de mármore cheia de areia –,
poderia, por obséquio, levar-me ao escritório do administrador do clube?
– Pode apostar – disse o mensageiro, ou alguma frase similar do dialeto

americano, e encaminhou Oliphant com elegância por um corredor revestido de
espelhos e plantas de borracha.
Cinquenta e cinco minutos depois, tendo visitado os recintos do clube com
alguma minúcia, visto um álbum de fotografias dos “divertimentos” anuais do
Lambs, solicitado o registro de sócio e pago uma taxa inicial não desprezível, e
não reembolsável, através de seu próprio número do Crédito Nacional, Oliphant
apertou a mão do administrador empomadado, deu uma nota de uma libra ao
homem e pediu que pudesse sair pela entrada de serviço mais obscura do clube.
A porta era a da copa, que dava para o tipo de passagem estreita e abafada que
ele esperava.
Em um quarto de hora, ele estava no bar de uma taverna lotada da Belford
Road, revendo o texto do telegrama que uma certa Sybil Gerard despachara para
o sr. Charles Egremont, m. p., de Belgravia.
– Perdi meus dois garotos pra doença na Crimeia, moço, e não é sempre num
telegrama que vem a notícia... não é?
Oliphant dobrou a folha de papel almaço dentro da charuteira. Viu seu reflexo
turvo no zinco polido do balcão. Olhou para o seu copo vazio. Olhou para a
mulher, uma bruxa desgrenhada vestindo trapos desbotados a uma cor que não
tinha nome, as maçãs do rosto coradas sob uma camada de sujeira.
– Não – ele disse –, esta tragédia não é minha.
– Meu Rogers era – ela disse –, e o garoto Tommy também. E não volta nem
um trapo pra casa, moço... nem um maldito trapo...
Ele deu-lhe uma moeda. Ela agradeceu-o, murmurando, e retirou-se.
Ele parecia ter perdido completamente o rumo por ora. Estava totalmente só.
Era hora de encontrar um cabriolé.

Na alta furna escura da grande estação, milhares de vozes pareciam misturar-
se, e os elementos constituintes da linguagem eram reduzidos ao equivalente
auricular do nevoeiro, homogêneo e impenetrável.
Oliphant seguiu com seu objetivo ali embaixo, num ritmo uniforme e
calculado, e comprou a passagem de trem de primeira classe para Dover,
reservada, no expresso noturno das dez horas. O bilheteiro colocou a chapa de
Crédito Nacional de Oliphant na máquina e puxou a manivela com força.
– Aqui está, senhor. Reservado em seu nome.
Oliphant agradeceu o guarda e seguiu a um segundo guichê, onde utilizou sua
chapa mais uma vez.
– Desejo reservar uma sala privada no paquete da manhã para Ostend. –

Pareceu ter reconsiderado e, ao colocar as passagens de barco e a chapa de
Crédito Nacional na carteira, pediu uma passagem de segunda classe no barco da
meia-noite para Calais.
– Seria para esta noite, senhor?
– Sim.
– Seria o Bessemer, senhor. Crédito Nacional, senhor?
Oliphant pagou a passagem para Calais com as notas de uma libra do cofre do
sr. Beadon.
Dez para as nove, no relógio de ouro de seu pai.
Às nove horas, embarcou num trem no último instante possível, pagando a
tarifa para Dover diretamente ao condutor.

O navio Bessemer, de cabine oscilante, com o convés duplo e convexo
encharcado pelo borrifo das ondas do mar, partiu de Dover para Calais à exata
meia-noite. Oliphant, depois de visitar o intendente naval com seu bilhete de
segunda classe e suas notas de uma libra, sentou-se numa poltrona de brocado na
cabine de primeira classe, bebericando um conhaque medíocre e analisando os
outros passageiros. Era, ele notou com satisfação, um grupo completamente
indistinto.
Ele não gostava de cabines oscilantes, pois considerava os movimentos
controlados por Máquina, destinados a compensar o balanço da embarcação, de
algum modo, mais perturbadores que o agito normal de um navio ao mar. Além
disso, a cabine propriamente dita era efetivamente sem janelas. Vacilante sobre
balancins em um poço central, a cabine era montada tão profundamente no casco
que as janelas deste, as poucas que haviam, ficavam localizadas no alto, ao longo
das paredes, bem acima da linha da visão. De modo geral, como solução para o
mal-de-mer, Oliphant considerava-a excessiva. O público, no entanto, parecia
fascinado com o emprego inovador de uma pequena Máquina, do tamanho
aproximado de uma Máquina de gurney, cuja única tarefa era manter a cabine
num plano horizontal pelo maior período de tempo possível. Isso era realizado
por meio de algo que a imprensa chamava, no jargão dos clackers, de
“realimentação”. Ainda assim, com duas pás na proa e na popa, o Bessemer
costumava percorrer a distância de quase trinta e quatro quilômetros entre Dover
e Calais em uma hora e trinta minutos.
Oliphant preferia estar nos conveses superiores, viajando contra o vento;
capaz, assim, talvez, de imaginar-se navegando rumo a um objetivo mais
grandioso e mais acessível. Mas o passeio numa cabine oscilante não oferecia

amuradas, somente um parapeito de ferro, e o vento do canal era úmido e frio. E
ele tinha, lembrou-se, apenas um único objetivo, e este, com toda a
probabilidade, era uma empresa vã.
E ainda: Sybil Gerard. Ele decidira, ao ler o telegrama para Egremont, não
pedir a verificação do número dela. Imaginara que isso poderia atrair atenção
indesejada; com a Antropometria Criminal dando as cartas na Agência de
Estatística, é claro, sua cautela provou-se acertada. E suspeitava até que o
arquivo de Sybil Gerard poderia não mais existir.
Walter Gerard de Manchester, inimigo declarado do progresso, agitador em
defesa dos direitos do homem. Enforcado. E se Walter Gerard tivesse tido uma
filha, o que teria sido dela? E se ela tivesse sido arruinada, como afirmava ter
sido, por Charles Egremont?
As costas de Oliphant começaram a doer. Sob o rígido brocado da poltrona,
com repetidas imagens do Bessemer entretecidas em Jacquard, o estofamento de
crina de cavalo conteve um arrepio.
Mas, ao menos, lembrou-se ele, escapara temporariamente da fenda negra e
macia da banheira suíça patenteada do dr. McNelie.
Colocando de lado o conhaque por terminar, deixou a cabeça pender e
cochilou.
E sonhou, talvez, com o Olho.
O Bessemer entrou na doca de Calais à uma e meia.

O edifício de monsieur Lucien Arslau ficava em Passy. Ao meio-dia, Oliphant
apresentou seu cartão ao concierge, que o enviou por tubo pneumático ao
apartamento do monsieur Arslau. Quase de imediato, o apito ligado a um tubo
acústico niquelado soou duas vezes; o concierge aproximou o ouvido do funil;
Oliphant decifrou vagos tons de francês gritado.
O concierge levou Oliphant até o elevador.
Ele foi recebido no quinto andar por um criado de libré que usava um stiletto
corso adornado, atravessado a uma faixa plissada de gros de Naples. O jovem
conseguiu fazer uma reverência sem tirar os olhos de Oliphant. Monsieur Arslau
lamentava, disse o criado, estar impossibilitado, no momento, de receber
monsieur Oliphant. Neste ínterim, monsieur Oliphant gostaria de algum tipo de
refresco?
Oliphant declarou que gostaria muito de uma oportunidade de tomar um
banho. Também consideraria muito agradável um bule de café.
Foi levado por uma ampla sala de estar repleta de cetim e ouropel, armários de

marchetaria Boulle, bronzes, estatuetas e porcelanas, onde o imperador de olhos
de lagarto e sua delicada imperatriz, a falecida srta. Howard, fitavam-no num par
de retratos a óleo. Em seguida, passou por um vestiário com gravuras em metal
na parede. A graciosa escadaria curva subia a partir de uma antessala octogonal.
Cerca de duas horas depois, tendo tomado banho numa banheira com borda de
mármore de agradável solidez, tendo bebido café forte francês e almoçado postas
de carneiro a la Maintenon, e usando roupas de linho emprestadas e muito mais
engomadas do que gostaria, ele foi conduzido até o escritório de monsieur
Arslau.
– Senhor Oliphant – disse Arslau, em seu excelente inglês –, é um grande
prazer. Lamento não ter podido recebê-lo antes, mas... – gesticulou na direção da
ampla mesa de mogno, sob uma confusão de pastas e documentos. De trás de
uma porta fechada, sobrevinha o ruído constante de um telégrafo. Numa parede
havia uma gravura do Grande Napoléon, com suas imensas torres de
engrenagens visíveis atrás das grades de espelho e ferro.
– Não se preocupe, Lucien. Fico grato por ter tido tempo de desfrutar a sua
hospitalidade. Seu chef prepara um carneiro extraordinário; uma carne sublime
que dificilmente viria de uma ovelha qualquer.
Arslau sorriu. Quase da altura de Oliphant, de ombros mais largos,
aproximava-se dos quarenta anos de idade e usava a barba grisalha à moda
imperial. Seu plastrom era bordado com pequenas abelhas douradas.
– Recebi sua carta, é claro.
Ele retornou à mesa e acomodou-se numa cadeira de encosto alto, estofada em
couro verde escuro. Oliphant sentou-se num sofá em frente.
– Devo admitir minha curiosidade, Laurence, quanto ao que está pretendendo
no momento. – Arslau juntou as pontas dos dedos das duas mãos e olhou por
cima delas, arqueando as sobrancelhas. – A natureza de seu pedido dificilmente
justificaria as precauções que considera necessárias...
– Pelo contrário, Lucien, você deve saber que eu não abusaria desse modo de
nosso bom entendimento se não fosse por razões urgentíssimas.
– Mas, não, meu amigo – disse Arslau, com um breve aceno de dispensa com
as mãos –, pediste o mais simples favor. Entre colegas, homens como nós, isso
não é nada. Estou apenas curioso; esse é um de meus defeitos. Envia-me uma
carta pela mala diplomática imperial – nada de errado em si, para um inglês,
embora eu saiba que conhece nosso amigo Bayard. Sua carta solicita meu auxílio
na localização de certa aventureira inglesa, nada mais. Acredita que ela possa
estar residindo em França. No entanto, enfatiza a necessidade de absoluto sigilo.
Alerta-me em especial a não me comunicar com você por telégrafo ou correios
comuns. Instrui-me a aguardar sua chegada. O que devo concluir disso? Que

finalmente sucumbiu aos ardis de uma mulher?
– Ai de mim!
– Dado o atual modelo inglês de feminilidade, meu amigo, considero tal coisa
de todo compreensível. São muitas as suas damas que aspiram ser elevadas ao
nível da intelectualidade masculina – além da crinolina, além do pó de pérola,
acima de tomar as dores de ser bonita, acima de se fazerem agradáveis a
qualquer custo! Que vida horrível, utilitária, completamente repulsiva um inglês
acabará levando, caso se mantenha a tendência! Por quê, então, pergunto,
atravessou o Canal para encontrar uma aventureira inglesa? Não que não as
tenhamos por aqui. São numerosas, de fato, sem mencionar a origem... – Arslau
sorriu – ... de nossa própria imperatriz.
– Você mesmo nunca se casou, Lucien – observou Oliphant, na tentativa de
desviar Arslau de seu propósito.
– Mas olhe para o matrimônio! Quem saberá dizer qual seria a escolha sensata
em meio a novecentos e noventa e nove erros? Quem seria a enguia dentro do
barril de cobras? A garota no meio-fio da calçada pode ser a única mulher dentre
todas as criaturas femininas neste universo capaz de fazer de mim um homem
feliz, meu amigo, e ainda assim passo por ela e salpico sobre ela a lama de
minhas rodas, em minha absoluta ignorância! – Arslau riu. – Não, não me casei,
e sua missão é política.
– É claro.
– As coisas não vão bem na Grã-Bretanha. Não preciso de minhas fontes
britânicas para saber disso, Oliphant. Os jornais bastam. A morte de Byron...
– A direção política da Grã-Bretanha, Lucien, mais que isso, sua própria
estabilidade enquanto nação, pode agora mesmo estar em risco. Não preciso
lembrar-lhe da suprema importância do reconhecimento e do apoio mútuo e
constante entre nossas duas nações.
– E a questão dessa Sybil Gerard, Oliphant? Devo entender que está sugerindo
ser ela, de alguma forma, um elemento crucial na situação?
Oliphant pegou a charuteira e escolheu um dos habanas de Beadon. Seus
dedos roçaram o texto dobrado do telegrama de Sybil Gerard. Ele fechou a
charuteira.
– Importa-se que eu fume?
– Fume, por favor.
– Obrigado. As questões ligadas a Sybil Gerard são inteiramente britânicas,
inteiramente domésticas. Podem acabar, no fim das contas, afetando a França,
mas de modo muito indireto.
Oliphant cortou e furou o charuto.
– Tem inteira certeza disso?

Conte-me o que sabe a respeito de nossas dificuldades com o Grande Napoléon. – Arslau levantou-se para levar até Oliphant um cinzeiro de cobre sobre um pedestal de nogueira. revelou sua responsabilidade pelo atual estado lamentável de nosso Grande Napoléon. Mas você sabe disso. Informações de sua confissão subsequente remeteram-no à atenção da Comissão de Serviços Especiais e. uma vez que localizamos o culpado em questão. – Confessou le sabotage. outros à Fraternidade Universal. Retornou à mesa. Acendeu o charuto. mas um elemento excêntrico de inconstância tem aparecido nas funções mais elevadas da máquina. uma sociedade secreta. não? – Sim e não.. à nossa. admitia apenas ter rodado determinada sequência de cartões perfurados. – Pensa diferente? – Talvez. informaram- me. então? – Não. não confessaria isso. entende? Outros são simplesmente criminosos. não é minha especialidade. – O que pensa da Sociedade Jacquardina? – É o equivalente aproximado de nossa Sociedade do Intelecto a Vapor. – Sendo tais funções mais elevadas uma questão de considerável orgulho nacional. Alguns deles são anarquistas. entre os jacquardinos. – Muito pouco. Wakefield. graças ao bom Deus. – Está me dizendo que a mulher que conhece como Sybil Gerard não tem nenhuma relação com a França – disse Arslau. Oliphant pegou um fósforo de uma caixa ornada com uma imagem pontilhada do Bessemer e riscou-o. mas permaneceu de pé. O Napoléon funciona com velocidade e precisão normais na maioria dos casos. Foi preso em Lyon numa conexão com um caso comum de fraude civil. Referem-se a si mesmos como Les Fils de Vaucanson. eu mesmo fui forçado a ler calhamaços da mais abstrusa prosa técnica do império. Oliphant viu a fumaça do charuto subir numa espiral rumo ao ornamento de gesso em forma de rosa do teto alto. mencionou-as. até o fim. – O culpado? – Um membro declarado dos Fils de Vaucanson. consequentemente. O nome dele não importa. – Tenho. Durante o interrogatório. envolvendo um ordinateur municipal.. Negou. – Eu não tenho. outros estão associados à Marianne. parece agora. Sem nenhum sucesso conclusivo. – Arslau suspirou. outros com qualquer espécie de ralé. Existe outra. uma fórmula matemática. Conspiradores da luta de classes. da Estatística Central. . Laurence. No que concerne ao Napoléon. A Máquina não está mais funcionando corretamente? – Ordinateurs.

parece. dando a impressão de terem sido executadas numa imitação confusa em pontilhismo de Máquina. Esses cavalheiros do . – Ainda não encontrei Sybil Gerard. Oliphant supôs. Em alguns casos. em particular e pelo tempo necessário. – Permitem uma liberdade aparente. Seu nome era Sybil Gerard. As paredes do Café de l’Univers eram repletas de quadros. vindo de todas as direções. Por fim. O peso sublime de sua percepção sobre ele. eram borrões grosseiros. despercebida. uma americana. e ela não revelar nada. ou estranhas formulações geométricas que insinuavam o agitado movimento de bits cinetrópicos. – Ela não está. até mesmo obter uma cópia. presumo. – Obteve-a com uma inglesa. as fortes batidas de seu coração. Arslau. – Podemos providenciar isso. os próprios pintores estavam presentes – ou pelo menos concluiu serem eles os sujeitos de cabelos longos com capas de veludo. – Como sempre. Arslau ficou em silêncio. se é que podiam ser chamadas assim. perdemos nossa pista. – Entendo. sobre o rico carpete de Arslau. A cinza do charuto caiu. espelhos com gravuras e placas esmaltadas com os onipresentes anúncios da Pernod Fils. mas a observam com cuidado? – Precisamente. As pinturas. meu amigo. a pressão. E para quando poderia ser agendado meu encontro com ela? O Olho. No entanto. Ela foi roubada. Se a detivermos agora. Parecia examinar Oliphant. pois eu mesmo estou às escuras. mas posso oferecer informações a respeito da fórmula que mencionou. desapareceu nas mãos de uma mulher que ele conheceu como Flora Bartelle. alegou nosso jacquardino. não posso prometer nada até receber permissão para entrevistar a dama em questão. Mas a maior parte da clientela – de acordo com seu acompanhante. Que tudo vê. calças de veludo cotelê manchadas de pigmentos e cinza de tabaco. Oliphant hesitou. sua técnica é impecável. – Então conte-me o que entende. – A fórmula veio de Londres – continuou Arslau. presa? – Digamos que estamos a par de seus movimentos. Jean Beraud – consistia de kinotropistes. O Olho. acenou positivamente com a cabeça. – Vocês tentaram analisar essa fórmula? – Não.

. um informante profissional que se referia aos cinetropistas como membros do “le milieu”.. Beraud? O mouchard deu de ombros.Quartier Latin ficavam sentados. Beraud. mas é aqui no l’Univers que quase sempre encontra companhia. o senhor compreende. – Pelo contrário. observava o ritual de copo e garrafa de água. era um dos mouchards de Arslau. é claro. você deve retirar-se de imediato. – Talvez seja atraente. Beraud ergueu as sobrancelhas. A relação dela com Gautier necessariamente limitou seus contatos à sociedade ordinária. Ao modo das mulheres inglesas. considera que ela seja? Beraud deu um sorriso afetado. se chegar.. meu muito bom amigo. – Uma pausa calculada. bebendo às mesas de mármore redondas na companhia de suas grisettes vestidas de preto. Retirar-se. Ele era uma espécie de príncipe aqui. com extemporâneo chapéu de palha e terno marrom de intenso corte gaulês. Insensível.. As ombreiras elegantes do paletó marrom de Beraud levantaram-se diante da palavra. – Por que supõe que madame Tournachon escolheria aparecer hoje neste café. ou fiavam-se em detalhes sobre assuntos teóricos diante de pequenos grupos de seus pares. Beraud. – O absinto é o berço da tuberculose – disse Beraud. o monsieur Arslau. monsieur. sim! E monsieur. – Que espécie de mulher. Frequenta o Madelon. ou pelo menos o francês que ela conhece. – Ela é íntima do le milieu. mas fria. – Desaparecer.. Beraud. – E por que você pensa que é assim? – Porque foi amante de Gautier. monsieur. exatamente. bebia Vittel com hortelã. garantiu-me que é. – Quando ela chegar. A mulher que agora adentrava o l’Univers poderia facilmente ter sido confundida com uma parisienne moderna de modos mais que comuns. Os cinetropistas pareciam preferir o absinto da Pernod Fils. O estenógrafo. monsieur. tomando vinho tinto. Esbelta e . – Inteiramente adequado.. – levantando-se tão rápido que quase derrubou a cadeira de madeira vergada – é ela. devo dizer.... também o Batiffol. assim como o estenógrafo. – Você tem de ir. Oliphant. – Você vai instruir o cabriolé a esperar. Beraud. deve ficar claro. Ele era viçoso e rosado como um porco jovem. e Oliphant tomara uma antipatia imediata por ele. o inglês dele é adequado? Meu amigo. tabletes de açúcar e colher em forma de espátula. Ele ensinou-lhe francês..

não. partir. usava sóbria crinolina de merino com capa e touca combinando. confundiu-me com outra. Foi abatido na Filadélfia.. expondo a miniatura daguerreotipada de um belo jovem. mas em seguida encolheu os ombros brevemente e pareceu observá-lo com tranquilidade por um momento. muito azuis.. Por gentileza. Meus amigos estão esperando. para lutar do lado da União. Não tente me enganar. e estreitos acabamentos de pele de marta.. encontraram os dele. – Sou Laurence Oliphant. srta.. Oliphant ouviu-a pedir um absinthe de vidangeur num francês bastante aceitável. – Vi o senhor no Grand’s. junte-se a mim. sabe. – Theo ensinou-me a pedi-lo – ela disse –. numa tipoia. no grande inferno.. Sei reconhecer um policial. muito alertas. e fez uma reverência. Os olhos dela. – Ele inventou o “absinto de lixeiro“. uma mistura de absinto e vinho tinto. Ele era real.loira. – Esse não é meu nome. – Ela bebeu. erguendo um medalhão oval de aço lapidado numa fita preta. – Senhor. O lábio inferior dela tremia. – Perdoe-me – disse em inglês. o cantor? – ela perguntou. naquela noite – ela disse. vê-la retornar para a Inglaterra. poderosa e totalmente inesperada simpatia. – A senhorita é Sybil Gerard. O garçom chegou com a bebida. – Conhece Lamartine. Sentado à mesa defronte a ela. não . srta. – Tournachon. Nos vastos olhos azuis despontou reconhecimento. em absoluto. realmente existiu. É o único que consigo beber. Enquanto Beraud prosseguia a afoita retirada rumo ao interior do restaurante. senhor. Francesa por casamento. de modo a causar em Oliphant temor de que ela desmaiasse ali. – Seu marido está aqui em Paris? – Não – ela disse. chapéu em mãos. – Não fomos apresentados. Abriu-o. Mick. – Por favor – ele disse –. e Oliphant sentiu abrupta. antes de.. Foi como voluntário. e medo. Entendo a natureza da traição. deixe-me passar. – Não desejo. Gerard. – Sei que Egremont traiu-a. Sybil teve um sobressalto ao ouvir o nome. – Sinto muito. Oliphant levantou-se. Estava com o braço ferido. – Aristide. Gerard. – Sei que o senhor veio para me levar de volta. Corre extremo perigo no momento. Ele aproximou-se. – Estava na sala de fumantes com Houston e. Sou Sybil Tournachon. eu quero dizer. mas tenho de falar com a senhorita a respeito de uma questão muito urgente. Desejo ajudá-la. o vinho tinto de encontro aos lábios pintados.

. setores do governo capazes de encontrá-la facilmente aqui... Ela bebeu o resto da mistura de aparência repulsiva. embora Oliphant soubesse que ela nunca na vida vira Aristide Tournachon... Tão perigoso para o bem-estar da Grã- Bretanha quanto. pelo menos. mas ele dava a impressão de estar falando sério. uma agência secreta da França Imperial. Então. – Sim. – Porque Theophile decidiu ajudar-me? – De fato.era só mais um inventado pelos clackers.. tenho de informar-lhe que suas atividades estão sendo monitoradas neste instante por. – Ele alguma vez mencionou à senhorita um interesse pela Máquina conhecida como o Grande Napoléon? – O monstro deles. numa tarde. Tão desesperadamente quanto precisa da minha. muito perigoso. Sempre com seu colete escarlate. Era insensato da parte dele. Dei a ele o conjunto de cartões especiais de Mick. – Ela baixou os olhos.. – De modo algum. é perigoso para a senhorita. – Preciso mesmo? – Egremont tem recursos poderosos sob seu comando. Muita coisa depende disso. – Preciso de sua ajuda. ela pareceu estar prestes a gargalhar. – Sim? – Ele não apareceu. – Está me enganando. Que sujeito tolo e adorável ele era. Desde que partiu de Londres. Tournachon. Rodou uma licença de casamento para mim e um número francês... eu iria encontrá-lo aqui. – Tem de acreditar. e loucamente talentoso em clacking. senhor! São loucos pelo assunto! – As autoridades francesas crêem que Theophile Gautier tenha danificado o . – Não acredito no senhor.. sem dúvida. o senhor quer dizer? Os clackers de Paris não falam de outra coisa. ratátátá. Alguém pode ter acreditado nele. suponho.. Desesperadamente. – Charles? Perigoso? – De súbito. parece ser o caso. Charles Egremont tornou-se um homem muito poderoso. E o senhor veio para me levar de volta. e ele passou a ser por demais gentil comigo desde então. – Refere-se aos Especiais e a esse bando? – Indo mais direto à questão. – Querido Theophile. não apenas sua própria segurança. – Ela fitou a pequena imagem com um olhar misto de saudade e tristeza. Todos diziam isso. – Foi um casamento de conveniência. senhorita. – Ele costumava vangloriar-se de ter um “Modus de aposta”..

ou pelo menos pareciam. Seu telegrama galvanizou a culpa dele – o pavor de que aquelas primeiras afinidades luditas fossem reveladas. não está melhor. . sim.. pelo que se sabe.Grande Napoléon com os cartões de Radley. Charles não é o único que tenho a temer. Mas você e eu somos um empecilho. uma tremenda maldade – ela disse –. E Londres. – Eles eram tão próximos. Ela baixou os olhos mais uma vez e pareceu considerar a proposta. Charles e meu pai. Walter Gerard. sabia? Dizem que os sapadores.. – Não sugeri que o denunciasse em público. sim. então. como se andasse pelos longínquos passeios da memória. ofereço-lhe a completa. Agora ele domesticaria a fera. – Seu testemunho apenas já é suficiente. – Infelizmente. – Egremont convive todos os dias com essa traição. e talvez um orgulho há muito enterrado. Eu sei. e o próprio mestre dos sapadores socou a pólvora e preparou os estopins. – Ele está morto.. causando sua ruína aos olhos da sociedade. – Isso é tão cruel. A chantagem basta. – Poderia mesmo fazer isso? – ela perguntou.. também me estaria expondo. – ela disse. Sim. – Não – ela disse. Em troca. Lembre-se. os porcos da areia.. Serei somente o instrumento da realização. me pede que confie no senhor? – Havia uma provocação no olhar dela. Talvez se as coisas tivessem tomado um rumo diferente. sei quanto tempo pode durar uma vingança. faria do terror político seu aliado constante.. – Há muito disso aqui em Paris. e deixar as pessoas que o amam para sempre sem saber. que a traiu também. Oliphant viu que não era capaz de encará-la.. – Sabendo que Charles Egremont traiu o seu pai. no Grand’s. Dizem que os Rads assassinaram Wellington... levando-o à destruição. tenho de pedir que confie em mim.. como o senhor mesmo já disse. absoluta e quase instantânea ruína da carreira política de seu traidor. penso que sim. dizem. sem descanso! É cruel. Depois os Rads colocam a culpa em homens como. Trata-se da semente crucial da irritação constante em torno da qual sua política corrompida pôde tomar forma. mesmo. por fim –. Agora o olhar dela estava distante. Theo? Oliphant hesitou. unidos aos Rads. se eu o denunciasse em público. – Os gracejos que ouço dos clackers aqui. eu estava lá naquela noite.. preocupadas. escavaram um túnel sob aquele restaurante. – Seu pai. fazer desaparecer um homem como a um coelho num truque de mágica. há. – E sabendo disso..

em Edo. lembrando-se do golpe relâmpago da espada do samurai. McNelie erroneamente diagnosticara como espinha ferroviária. dominaram-no por algum tempo. para anotar os detalhes de seu testemunho. não vê que são estudantes de arte. . Arslau. ela aceitou o braço dele. da rua. Então uma jovem entrou correndo. Com um chiado flatulento e penoso de ar comprimido. com os seios nus pintados de verde. – Totalmente – disse Oliphant. Disfarçado como um caixeiro-viajante da Alsácia natal de M. Ela foi seguida por dois rapazes em semelhante falta de vestes. Oliphant virou-se e encarou o mouchard Beraud. como as folhas de uma tamareira reproduzidas por um cinétropo. levantando-se –. – Desde que decida permanecer em França. deve fazê-lo sob a proteção de amigos poderosos. – Cuidarei da sua segurança – disse Oliphant. sr. sabe. sim? – Ela levantou-se com um farfalhar de crinolina. Um cabriolé aguarda-nos. Oliphant cogitara a ideia imponente de entregar pessoalmente a Charles Egremont uma transcrição do testemunho de Sybil Gerard. colegas meus. Enquanto a música movida a Máquina do distinto panmelódio fazia as grisettes levantarem-se das cadeiras. venha – disse Sybil –. – Madame Tournachon – disse Oliphant. posso oferecer-lhe meu braço? – Está curado. À cintur