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Uma roseira no meio da ditadura: memória, resistência, loucura, melancolia e

liberdade no romance Quatro-Olhos de Renato Pompeu

RESUMO

Falecido em fevereiro de 2014 aos 72 anos, o escritor e jornalista Renato


Pompeu conquistou três prêmios Abril e um prêmio Esso de jornalismo, este último a
mais importante distinção conferida a um profissional da imprensa brasileira. Como
escritor, deixou 22 livros publicados, entre eles, um romance chamado Quatro-Olhos, de
1976, em que há uma crítica muito singular a ditadura quando ao narrar em primeira
pessoa, Renato Pompeu expõe as angústias sobre os impasses da vida moderna e seus
dilemas existenciais. Tal crítica destaca-se por compreender toda uma questão estilística
da narrativa que Pompeu atribui aos seus “delírios”, como consta em um livro
autobiográfico de 1983. São esses “delírios” que deslocam o narrador de Quatro Olhos,
permitindo visões multidimensionais da realidade, ou do que se entende por real. No
romance, o personagem-título se vê angustiado, deprimido e perturbado tentando
reconstituir a memória de um livro que se perdeu quando o protagonista foi levado por
agentes da repressão, tal qual a democracia do Brasil. Este pré-projeto parte dessa
perspectiva, ou seja, da crítica singular que Renato Pompeu faz do aparato repressivo do
Estado e das repercussões sociais da política fascista para enriquecer a historiografia
sobre o período.

INTRODUÇÃO
No segundo semestre de 2011 foi ofertada pelo departamento de História da
Universidade de Brasília um tópico especial em história das idéias, disciplina ministrada
pelo professor Daniel Faria. A disciplina passeava por uma série de testemunhos sobre a
loucura por parte de pessoas diagnosticadas como insanas 1 e foi nesse tópico que não
somente conheci Antonin Artaud, um dramaturgo francês cuja vida e obra foram objeto
da minha monografia2, mas também Renato Pompeu.
Renato Pompeu chama especial atenção pela posição privilegiada que ocupava
socialmente, conquistou três prêmios Abril e um prêmio Esso de jornalismo, este último

1
O termo insano neste pré-projeto é empregado unicamente na sua distinção social, sem qualquer
referência a idéia do latim ‘samus’, isto é, ‘são’, de ‘boa saúde’.
2
NASCIMENTO, Willian Pereira do. Gritos de um doente inveterado a suicidade da sociedade: O
insano, o esquizofrênico, o revolucionário, o bobo, o iluminado, o absurdo, o gênio, o louco Antonin
Artaud. Monografia de História, Universidade de Brasília, Brasília, 2012.

1
a mais importante distinção conferida a um profissional da imprensa brasileira. Pompeu
foi redator de um dos mais importantes veículos da imprensa nacional, a Folha de S.
Paulo, além de ter participado da fundação do Jornal da Tarde, do grupo Estado, e da
revista Veja, do grupo Abril. Como escritor, deixou 22 livros publicados, entre eles o
livro que será objeto de análise por parte deste pré-projeto.
Em 1974, Renato Pompeu entrou na redação da revista Veja para mais um dia
de trabalho, mas havia algo errado: nos rostos dos colegas havia caninos salientes de
feras, pêlos desgrenhados e expressões bestiais. Desde aproximadamente os 4 anos de
idade, Pompeu tinha alguns “delírios”, descritos por ele como “grandes baratões”, eram
“pensamentos que corriam livre e à vontade, fazendo ligações engraçadas ou bonitas
entre os seres”, o que nunca foi um problema, pelo contrário, Pompeu atribuía a esses
delírios o poder de sua escrita e análise, isto até ser preso por suas opiniões políticas.3
Renato Pompeu passou uma semana preso, tudo que diz foi que sofreu “maus-tratos”,
mas desde então passou a sofrer mania de perseguição e a ter alucinações, culminando
no dia em que viu os colegas de trabalho com faces monstruosas. Internou-se
voluntariamente no Hospital Psiquiátrico de Juqueri, entre janeiro de 1974 e agosto de
1975.4
Ora, é quase impossível não estabelecer uma relação entre o “surto psicótico” de
Renato Pompeu com os “maus-tratos” sofridos anos antes que o deixaram paranóico e a
trajetória de Quatro-Olhos, personagem título do livro. Na trama do romance, um
escritor busca o seu livro “perdido”. Essa busca se dá em dois níveis, o narrativo e o
estilístico. Isto porque, ao mesmo tempo em que procura recompor a memória do
manuscrito, o narrador utiliza as recordações para compor o livro atual. É ele um
funcionário casado com uma militante de esquerda que leva uma vida medíocre, daí a
feição de pesquisa de “Dentro”, a primeira parte de Quatro-Olhos, em que os registros
de linguagem são bastante variados, como se o narrador estivesse experimentando
vários tons narrativos. Como não sabe exatamente o que vai narrar, o tom varia da
imitação do discurso da loucura, carregados de floreios verbais e significados dadaístas,
a uma fina ironia, que não chega a ser subversiva, mas apresenta uma melancolia e um
estranhamento não menos inconformado.

3
Há alguns documentos em posse do Arquivo Nacional que comprovam a vigilância do aparelho
repressivo da ditadura sobre Renato Pompeu. Arquivo Nacional, SNI, DOPS, 29/09/1971; com um deles
inclusive listando suas publicações em um “catálogo de livros de ideologia comunista”. Arquivo
Nacional, SNI, COMAR, 05/05/1985.
4
POMPEU, Renato. Memórias da Loucura. São Paulo: Ed. Alfa-omega, 1983.

2
Recordo com perfeição, porém, tratar-se de obra admirável, pôr a nu
de modo confortavelmente melancólico a condição humana universal
e eterna, particularizada com emoção discreta nas dimensões
nacionais e de momento. Dei para um amigo meu, funileiro, ler e ele
achou muito bom. Perdi os originais há muitos anos, em
circunstâncias que não me convém deixar esclarecidas.

No final dessa primeira parte o narrador dirá que as mudanças em sua vida
(especialmente no plano conjugal) foram marcadas pelos anos de 1964 e 1968, ou seja,
o do golpe e o do AI-5. A procura, portanto, não é apenas do livro perdido (memória),
mas também das razões da perda que Quatro-Olhos está escrevendo ali sob os olhos
atentos do leitor.
Em certo momento a narrativa tresandou a tratar de uma cebola. De
tão antigo e nobre vegetal, reverenciado pelos partidários dos
costumes sãos, desfolhava eu finas folhas translúcidas cor de prata,
deixada opaca a esfera símbolo do infinito, delicada casca vermelha
quebradiça a um lado largada, verdes efêmeros escapando pelas
nervuras esbranquiçadas dos círculos cortados. Estava a cebola posta
em seu canto sobre um prato à mesa, enquanto em derredor se
desenrolava instrutiva conversação, mas eu, num aventureirismo
técnico de velho conhecedor literário, discutia mais a cebola com a
faca ao lado num rebrilho de metal com vegetal, do que o tráfico de
palavras.5

Por quê? Por que a narrativa tresandou a tratar de uma cebola? O narrador fala
como se a narrativa fosse alguma coisa, algo mesmo, com vontade e destino. O narrador
descreve a cebola como um vegetal antigo e nobre em alusão ao reverenciamento de
“partidários dos costumes sãos”, ele, que deixa uma conversa instrutiva de lado para
“discutir a cebola” porque seu conhecimento literário permite essa escrita imprecisa,
descontínua, fragmentária e, especialmente, lacunar, o que não é mero estilo, ela está
carregada de intencionalidades. Há qualquer horror não-dito nas tentativas de não-
recordar por meio da cebola:
É o que me lembra no momento, mas ás vezes me surgem lembranças
inadequadas; não sei mesmo onde foi parar o livro, mas em algum
lugar eu o deixei. Agora estou pensando em outras coisas: dedos
desprezíveis me tocaram, mais de uma vez.6

Reparem, o primeiro narrador não fala em memórias desagradáveis ou mesmo


incomodas, mas inadequadas, por que qualificar uma memória como inadequada?

5
POMPEU, Renato. Quatro-olhos. São Paulo: Ed. Alfa-omega, 1976, p. 226.
6
ibid., p. 197.

3
Quatro linhas acima, o parágrafo de onde foi retirado este trecho começa com: “É certo,
no entanto, que se tratava de um campo de concentração”. Se pensarmos nas práticas
utilizadas pelos torturadores,7 o adjetivo inadequado surge, numa perspectiva
behaviorista, como uma experiência traumática, uma cicatriz do ferro incandescente da
ditadura, que lateja ao se aproximar do horror. Que horror? O narrador, no fim da
primeira parte, revela que o livro se perdeu quando foi levado pelos agentes da
repressão. Pompeu, em uma biografia intitulada Memórias da Loucura, indaga “que é
um torturador, senão um louco que nunca foi tratado?” impelindo-nos para a discussão
do que é loucura, bem como que sociedade é esta que faz uso da tortura.
Mas se na primeira parte, o narrador dar-se o direito a vagueações, devaneios, na
segunda, ele assume o Fora. Vemos a figura perturbadora do esquecimento, que se antes
era um fantasma assombrando o narrador, agora assume presença física no hospício.
Quatro-Olhos, agora em terceira pessoa, faz uma caracterização do lugar como um
microcosmo político, no retrato de alguns internos e no relato de episódios decorridos
no dia em que se passa a narrativa. Cabe destacar, a analogia com os métodos da
esquerda revolucionária pós-64, flagrante na descrição de um plano para tomar o poder
no hospício.
Os conspiradores lembram muito de perto a esquerda que freqüentava seu
apartamento, indecisa entre teoria e ação, caudatária de uma ânsia revolucionária que
procurava pôr em prática uma teoria alheia ao contexto local. Mas é sobretudo no
personagem de Opontolegário que estas relações ficam mais evidentes. Opontolegário é
um interno que concentra o discurso udenista, respeitoso das regras, crente em sua
superioridade intelectual, que despreza os menos afortunados, ao passo que torna-se
subserviente às hierarquias estabelecidas, obediente e cúmplice do status quo.
Se somarmos essa leitura ao livro Memórias da Loucura, em que o autor
questiona a sanidade política da sociedade, não estaria Pompeu acusando a sociedade
moderna de cumplicidade pela perseguição, tortura e assassinatos num sentido muito
mais amplo e profundo do que a ignorância e mesmo a hipocrisia? 8 Afinal, não seria

7
DIAMANTINO, Dora Teixeira. A punição e os seus subprodutos: uma análise comportamental da
tortura. Dissertação de Monografia de Psicologia, Universidade Federal da Bahia, Bahia, 2014.
8
Alusão à participação de líderes judeus no holocausto em ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém:
um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

4
Quatro-Olhos o registro que a censura permitiu como o retrato da dor 9 que
procuravam?10

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL
 Enriquecer os relatos sobre o período da ditadura militar no Brasil a partir das
questões propostas por Renato Pompeu no romance Quatro-Olhos.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
 Explorar a relação entre o confisco do livro escrito pelo protagonista de Quatro-
Olhos e o golpe de 1964 e o AI-5;
 Investigar as relações entre loucura e sociedade sob os mecanismos do
pensamento fascista;
 Considerar as similitudes de organizações sociais como o Hospício e o aparato
disciplinador do Estado autoritário;
 Especificar os efeitos da violência do Estado sobre a memória;
 Buscar apreender os inúmeros significados do testemunho literário;

METODOLOGIA
Michel de Certeau talvez seja o exemplo mais notável de uma mudança nos
paradigmas de produção historiográfica. “O estabelecimento das fontes solicita,
também, hoje, um gesto fundador, representado, como ontem, pela combinação de um
lugar, de um aparelho e de técnicas.”11. Em A Escrita da História, Certeau não só
incorpora novos elementos à narrativa historiográfica como propõe uma revisão dos

9
“A tortura gera efeitos devastadores para o ser humano. Verifica-se que muitos torturados, após serem
submetidos à sevícia, passaram a apresentar perda da coordenação motora, insônia, alucinações, delírios,
perda da noção do tempo, depressão, perda dos sentidos, problemas respiratórios, dores de cabeça,
pânico, medo, fobia, comprometimento da memória, problemas cardiovasculares, idéias suicidas.” In:
DIAMANTINO, Dora Teixeira. A punição e os seus subprodutos: uma análise comportamental da
tortura. Dissertação de Mestrado de Psicologia, Universidade Federal da Bahia, Bahia, 2014.
10
“Sua missão [dos agentes da repressão], de certo modo, era assim validada: fora preciso o uso de certa
violência para que os interrogados se dessem conta do erro em que estavam incorrendo, mas o importante
é que percebiam o absurdo de suas convicções subversivas.” In: JOFLY, Mariana. No centro da
engrenagem: os interrogatórios na Operação Bandeirante e no DOI de São Paulo (1969-1975). Tese de
Doutorado. Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade
de São Paulo.
11
CERTEAU, Michel de. A Escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982, p. 82.

5
métodos da própria historiografia, questionando quem, onde e como se escreve História.
Ora, tal qual o oficio do historiador, os objetos desse oficio estão sujeitos à mesma
interpretação. Assim, a literatura está condicionada ao tempo e o espaço de sua
produção, independente de sua proposta ficcional, pois nossa análise diz respeito a um
espaço e um tempo historicamente determinados. Com efeito, identificamos em Quatro-
Olhos e Memórias da Loucura tanto o seu lugar; a ditadura militar; o aparelho: a escrita;
bem como as técnicas: a loucura, a tortura, o medo.
Apesar de a literatura ter sido considerada por muito tempo como um objeto que
não possuía legitimidade para servir como fonte de explicação da realidade histórica
onde esta era produzida, ou sobre a qual se referia, por ser originalmente concebida
como fantasia, não se pode mais dizer o mesmo no tempo corrente, basta verificar a
atenção que recebe autores como Darton e Chartier. A literatura não só foi alçada ao
patamar de fonte histórica como ocupa lugar privilegiado. Mas, dado fim a essa querela,
fica a pergunta quanto aos procedimentos adotados para o exame das fontes. Para tanto,
destacamos as lições de Carlo Ginzburg em Mitos, Emblemas e Sinais.
Decifrar ou ‘ler’ as pistas dos animais são metáforas. Sentimo-nos
tentados a tomá-las ao pé da letra, como a condensação verbal de um
processo histórico que levou, num espaço de tempo talvez
longuíssimo, à invenção da escrita.12

Como o caçador, “o primeiro historiador”, encaramos a literatura como as


“pistas mudas” daqueles animais distantes. Sem perder a dimensão da narrativa,
empobrecendo-a com hipóteses engessantes, deixaremos os livros, tal qual a sugestão de
Pompeu, “à vontade”, livres para apontar o caminho a ser trilhado pela pesquisa, não
excluindo, nem apondo nada a priori, ao menos, a tentativa de não fazê-lo. Assim, ainda
que entre nossos objetivos esteja a construção da imagem de um Estado autoritário
pelos signos paranóicos, submetemos nossa análise às particularidades, as escolhas
narrativas, as intenções freudianas, etc.
Já para a questão do estado psíquico de Renato Pompeu, propomos a discussão
conceitual de loucura. Didaticamente, podemos montar um quadro em que a um canto
agrupam-se os defensores românticos da loucura como liberdade pura ou grito de
liberdade da prisão físico-mental que é a sociedade moderna, e, no canto oposto a esse,
situam-se aqueles que taxam a loucura como doença. Tal quadro é inspirado na
metáfora da constelação de Walter Benjamim em Drama do barroco alemão acerca da

12
GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras,
1989, p.152.

6
complexidade e limitação dos conceitos. Entendemos, portanto, forçar os dois sentidos
antagônicos na palavra, como o próprio Renato Pompeu faz ao reverenciar e repudiar
sua situação. De certa forma, tal panorama já está em curso no campo da História, já
que ao longo das últimas décadas, tem se feito uma revisão do tema, para além das
contribuições de Foucault e Deleuze.13 São estudos que articularam a questão da
temporalidade à dimensão da cultura na qual o mundo da ciência também está inserido,
produzindo abordagens centradas na história cultural, na micro-história e, em grande
parte, no diálogo com a antropologia e a sociologia.
Tais estudos agregam um crescente e diversificado universo de pesquisas e
pesquisadores interessados em compreender, discutir e comparar as formas como
diferentes sociedades se defrontam, compreendem e lidam com a problemática da
loucura, desde manifestações discursivas e expressões narrativas (literatura, cinema,
escrituras ordinárias, falas, prontuários, expressões artísticas e simbólicas) de diferentes
sujeitos (não somente os loucos institucionais) e suas construções do universo
institucional, do saber, dos valores compartilhados, etc. Assim, este pré-projeto insere-
se em um ambiente de revisão ainda muito difuso, sem a pretensão de iluminá-lo, mas
certamente enriquecer o debate que com Renato Pompeu ganha ares filosóficos.
E finalmente, no que diz respeito à ditadura militar brasileira, o romance Quatro-
Olhos será considerado um testemunho do que se passou no país. Em face dos trabalhos
da Comissão Nacional da Verdade, identificamos, o clamor social acerca dos
procedimentos da violência institucional, recordamos o teórico Jörn Rüsen que chama
de “carência de orientação” àquilo que move o historiador à investigação do passado, 14
sem dúvida, há um pressuposto deste pré-projeto quanto a importância dos
conhecimentos históricos referentes ao período ditatorial militar, principalmente quanto
aos seus mecanismos, das práticas do terror e da suspeita.15 É preciso salientar afinal o
poder que a qualidade literária de Renato Pompeu tem explorar o silêncio, o inominável
do trauma, mas não só, de elevar esse sofrimento a sua dimensão política como o faz
neste trecho em que menciona uma roseira:

13
Cf. Da clausura do fora ao fora da clausura do fora, de Peter Pél Pelbart, O Mito da Doença Mental,
de Thomas Szasz, Psiquiatria e Antipsiquiatria, de David Cooper e a série de pesquisas em História e
Loucura: saberes, práticas e narrativas, organização de Yonissa Marmitt Wadi e Nádia Maria Weber
Santos.
14
RÜSEN, Jörn. Razão Histórica. Teoria da História I: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Ed.
UNB, 2001.
15
MAGALHÃES, Marionilde Dias Brepohl de. “A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à
época da ditadura militar no Brasil.” Revista Brasileira de História. vol. 17, nº 34, 1997.

7
A roseira tornou-se escura de fuligem do incêndio. A dona da casa em
cujo jardinzinho ficava a roseira pôs-se a lavá-la quase pétala por
pétala, alguma rosa se desmanchou. Era mais um cuidado anônimo na
vida daquela roseira; por isso alguns anos depois ela sobreviveria
como canteiro na ilha da avenida que substituiu a vila. Mas para isso
foi necessário muita luta. Em certo momento da existência da roseira,
pelo menos assim contei no livro, ela ficou particularmente ameaçada.
Tudo isso começou quando se pôs em duvida a identidade da roseira.

Como a liberdade política vítima das práticas autoritárias, a roseira está coberta
de fuligem e é somente pelo cuidado de mãos anônimas que ela sobrevive. As muitas
lutas que a roseira irá travar consistem primordialmente na batalha pela consciência, em
alusão a estratégia dos militares de confundir a população, chamando repressão de
garantia da liberdade, ditadura de revolução democrática. Mas Pompeu não encerra por
aí, no parágrafo acima, o narrador conclama:

Todos saíram à rua para contemplar o incêndio e já se viam jatos


d’água dos bombeiros, quando um molecote de quatro anos se cansou
do espetáculo e do jardinzinho passou para dentro de casa. Sua mãe de
avental o seguiu, dizendo que “não prestava” ficar dentro de casa
quando há incêndio na rua. Não era que fosse perigoso, pois o
incêndio já fora contido pelos bombeiros, mas se tratava de um pecado
social. Foi mais um ponto no progresso da educação do menino.

É um pecado social permitir que a roseira morra. O menino Brasil precisa


aprender essa lição e é nesse sentido político que o romance Quatro-Olhos encerra um
relato único sobre a ditadura na medida em que segundo Márcio Seligmann-Silva “o
testemunho seria a narração não tanto desses fatos violentos, mas da resistência à
compreensão dos mesmos”. 16

CRONOGRAMA

 2º/2018: Matrícula em disciplinas e leituras bibliográficas;


 1º/ 2019: Matrícula em disciplinas, leituras bibliográficas e defesa de projeto;

16
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão: a literatura do trauma. História, memória,
literatura: o testemunho na era das catástrofes. São Paulo: Unicamp, 2003. p. 48

8
 2º/2019: Pesquisa documental e escrita dos dois primeiros capítulos;
 1º/2020: Escrita do último capitulo, revisão e defesa da dissertação.

REFERÊNCIAS

FONTES

POMPEU, Renato. Quatro-Olhos. São Paulo: Ed. Alfa-omega, 1976.


_______________. Memórias da Loucura. São Paulo: Ed. Alfa-omega, 1983.
http://renatopompeu.blogspot.com.br/
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