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AÇAÍ (Euterpe oleracea Mart.

Maria do Socorro Padilha de Oliveira1


José Edmar Urano de Carvalho1
Walnice Maria Oliveira do Nascimento1

1. CENTROS DE DIVERSIDADE GENÉTICA

O açaizeiro ocorre espontaneamente, no Brasil, nos Estados do Amapá, Maranhão,

Pará (Calzavara 1972; Cavalcante, 1991), Tocantins (Balick, 1986a) e no Mato Grosso

(Macedo, 1995). Rompendo as fronteiras brasileiras, é encontrado na Guiana, Guiana

Francesa, Suriname, Venezuela (Calzavara 1972; Roosmalen, 1985; Cavalcante, 1991) e

Colômbia (Balick, 1986b). Distribuição mais ampla é apresentada por Henderson & Galeano

(1996), que assinalam a presença dessa palmeira, também, no Panamá, Equador e Trinidad.

As maiores áreas ocupadas com essa espécie, porém, encontram-se na Amazônia

Oriental brasileira, mas precisamente na região do estuário do rio Amazonas, considerada

como seu centro de origem e onde encontram-se densas e diversificadas populações,

ocupando, com maior freqüência, terrenos que, em função do fluxo e refluxo das marés,

estão submetidos à inundações periódicas. É também encontrado em áreas

permanentemente alagadas e em terra firme (Cavalcante, 1991), embora em densidades

bem menores. Somente no estuário do grande rio, densas populações nativas de açaizeiro,

ocupam área em torno de 1.000.000ha (Calzavara, 1972).

Considerando-se os centros e subcentros de origem propostos por Vavilov (León, 1987),

o açaizeiro pode ser considerado como originário do centro Sul-americano, subcentro Brasil-

Paraguai.

__________________________________________
1
. Eng. Agr., MSc., Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Caixa Postal 48, CEP 66017-970- – Belém,
PA. E-mails: spadilha@cpatu.embrapa.br; urano@cpatu.embrapa.br; walnice@cpatu.embrapa.br.

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Na concepção de Lleras et al. (1983), o gênero Euterpe possui dois centros de

diversidade: o primeiro localizado no noroeste da Colômbia, com espécies distribuídas desde

o nível do mar até 3000m de altitude, na costa ocidental úmida dos Andes; e, o segundo, na

região compreendida pelo escudo das Guianas e alto rio Negro, em áreas bastante úmidas.

Para Oliveira (1995) a região do estuário do rio Amazonas além de ser o centro de origem

também se constitui no centro de diversidade genética do açaizeiro, pois nessa região são

encontradas numerosas populações com variações bem acentuadas entre e dentro delas, no

que concerne às características morfológicas, fenológicas, fisiológicas e agronômicas das

plantas.

2. BOTÂNICA E ECOLOGIA

2.1. Taxonomia e Denominações

O açaizeiro pertence à família Arecaceae, que engloba, aproximadamente, 200

gêneros e cerca de 2600 espécies, cuja distribuição é predominantemente tropical e

subtropical (Jones, 1995). Na Amazônia esta família está representada por 39 gêneros e um

número de espécies estimado entre 150 e 180 (Kahn, 1997).

Dentro dessa família são consideradas domesticadas somente cinco espécies: a

arequeira (Areca catechu), o coqueiro (Cocos nucifera), o dendezeiro (Elaeis guineensis), a

tamareira (Phoenix dactylefera) (Johnson, 1983) e a pupunheira, Bactris gasipaes (Clement,

1992).

No sistema de Classificação de Cronquist (1981) o açaizeiro está ordenado na

seguinte seqüência hierárquica:

Divisão: Magnoliophyta

Classe: Liliopsida

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Subclasse: Arecidae

Ordem: Arecales

Família: Arecaceae

Subfamília: Arecoidae

Gênero: Euterpe

Espécie: Euterpe oleracea Mart.

O epíteto genérico é uma homenagem a Euterpe, deusa da mitologia grega (Marchiori,

1995) e traduzido do grego significa “elegância da floresta” (Hodge, 1965), em alusão à

beleza da planta (Strudwick & Sobel, 1986). Já o nome específico “oleracea” significa que

parece ou exala odor semelhante ao do vinho, devido à cor e ao aroma da polpa,

principalmente quando em início de fermentação.

O número de espécies do gênero não está claramente definido e tem sido objeto de

constantes revisões. Os primeiros trabalhos englobavam, além do açaizeiro, mais 48

espécies, distribuídas na América do Sul e na América Central (Glassman, 1972). Na revisão

proposta por Uhl & Dransfield (1986) o gênero está representado por 28 espécies, enquanto

Henderson & Galeano (1996) consideram apenas sete espécies como componentes do

táxon Euterpe, estando presentes na Amazônia brasileira as seguintes espécies e

variedades: E. oleracea, E. precatoria var. precatoria, E. precatoria var. longevaginata, E.

catinga var. catinga, E. catinga var. roraimae e E. longibracteata.

Dentro das espécies nativas do Brasil as mais importantes, do ponto de vista

agroindustrial são E. oleracea, E. edulis e, bem secundariamente, E. precatoria. A primeira,

popularmente conhecida como palmiteiro constituiu-se, durante muitos anos, na principal

fonte de matéria-prima para a indústria de palmito em conserva e continua sendo explorada,

embora em baixa intensidade, em decorrência da exaustão das reservas naturais, até os dias
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atuais. A segunda, apresenta multiplicidade de usos, destacando-se atualmente no setor

agroindustrial como a principal fonte de extração de palmito e pela utilização de seus frutos

por expressivo contigente populacional da Amazônia brasileira, particularmente dos Estados

do Pará e Amapá. A última espécie também produz frutos com o mesmo uso do açaí e

palmito de boa qualidade (Khan, 1986; Villachica et al., 1996).

Embora na terminologia vulgar seja mais conhecida como açaí, outras denominações

são de uso freqüente nas áreas de ocorrência na Amazônia brasileira, porém de forma mais

restrita, destacando-se os seguintes nomes: açaí do pará, açaí do baixo amazonas, açaí de

touceira, açaí de planta, juçara e juçara de touceira (Calzavara, 1972; Cavalcante, 1991;

Villachica et al., 1996). Os dois últimos nomes são bastante usados no Estado do Maranhão.

Convém ressaltar, ainda, que as outras espécies, do mesmo táxon genérico, ocorrentes na

Amazônia, são igualmente denominadas de açaí, daí E. oleracea ser também chamada, em

alguns locais , de açaí verdadeiro.

Em outros países, nas áreas de dispersão natural, recebe as seguintes

denominações: chapil, maquenque, murrapo, naidí e palmicha, na Colômbia; bambil e

palmicha, no Equador; manicola palm, na Güiana; assai, pinot e wassaïe, na Güiana

Francesa; baoenpina, kiskis pina, manaka, pina, prasara, wapoe, wapa, wasei, no Suriname;

manac, em Trinidad; manaca, morroque e uassi, na Venezuela (Roosmalen, 1985;

Cavalcante, 1991; Henderson & Galeano, 1996; Khan, 1997). Nas línguas espanhola, inglesa

e francesa é, com maior freqüência, grafado como asaí, euterpe palm, e palmier pinot,

respectivamente.

A palavra açaí é de origem tupi – yá-çai - e significa fruto que chora, ressuma ou deita

água (Soares, citado por Braga, 1976), provavelmente relacionado ao fato de que durante o

processo de extração da polpa, esta flui lentamente, em forma de grandes gotas, tanto

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quando extraída manualmente como quando extraída em pequenas máquinas

despolpadoras, de largo uso na Amazônia.

2.2. Descrição da planta

É uma palmeira cespitosa, com até 25 estipes por touceira em diferentes estádios de

desenvolvimento (Foto 1). Os estipes das plantas adultas apresentam altura e diâmetro

variando entre 3m e 20m e 7cm e 18cm, respectivamente, sustentando, em sua porção

terminal, um conjunto de 8 a 14 folhas, sendo cilíndricos, externamente lisos, de cor cinza,

com manchas de líquens. Em toda extensão dos estipes são encontradas cicatrizes,

distanciadas, entre si, em cerca de 11cm, deixadas pelas folhas que senescem e caem.

Eventualmente são encontrados indivíduos desprovidos da capacidade de emitir perfilhos e,

nesse caso apresentam caule solitário (Henderson & Galeano, 1996; Oliveira et al., 1998).

As folhas, são compostas, pinadas de arranjo espiralado, com 40 a 80 pares de

folíolos, opostos ou sub-opostos e inseridos em intervalos regulares. Os folíolos são

pendentes nos indivíduos adultos e ligeiramente horizontais nos indivíduos jovens, com base

obtusa e extremidade apical pontiaguda, apresentando comprimento entre 20cm e 50cm e

largura entre 2cm e 3cm. Em cada folíolo encontra-se uma nervura central, proeminente na

face adaxial e mais dois conjuntos com duas ou três nervuras, proeminentes na face abaxial,

uniformemente distribuídos em relação ao plano divisório da nervura central. O comprimento

médio da bainha foliar gira em torno de 1,0m, podendo, no entanto, variar de 0,6m a 1,5m

(Prance & Silva, 1975; Henderson & Galeano, 1996). As folhas apresentam comprimento de

até 278,8cm (Nogueira, 1997).

A inflorescência é infrafoliar, desenvolvendo-se em maior intensidade após a queda da

folha e quando aberta apresenta-se disposta quase horizontalmente (Foto 2). Possui
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pedúnculo, com comprimento entre 5cm e 15cm e diâmetro entre 2,7cm e 4,0cm (Henderson

& Galeano, 1996). É envolvida totalmente por duas brácteas: uma espatela ligular e uma

espata de formato navicular e de consistência cartáceo-coriácea. Após a abertura da espata,

a espatela cai, concomitantemente, com esta ou um pouco antes, expondo a inflorescência

propriamente dita, do tipo cacho, contendo número variável de ráquilas, onde as flores

estaminadas e pistiladas, encontram-se inseridas em alvéolos A disposição das flores é

ordenada em tríades, de tal forma que cada flor feminina fica ladeada por duas flores

masculinas (Cavalcante, 1991; Henderson & Galeano, 1996), com exceção do terço terminal

de cada ráquila que apresenta, na maioria dos casos, somente flores masculinas, o que

proporciona a presença de 80,5% de flores masculinas e apenas 19,5% de flores femininas

na inflorescência (Calzavara, 1972).

O fruto do açaizeiro é uma drupa globosa ou levemente depressa, apresentando

resíduo do estigma lateralmente, com diâmetro variando entre 1cm e 2cm e pesando, em

média, 1,5g. O epicarpo, na maturação, é roxo ou verde, dependendo do tipo. O mesocarpo,

com cerca de 1mm espessura, é polposo, envolvendo um endocarpo volumoso e duro que

acompanha, aproximadamente, a forma do fruto e contém em seu interior uma semente, com

embrião diminuto e endosperma abundante e ruminado (Cavalcante, 1991, Henderson &

Galeano, 1996; Oliveira et al., 1998).

O sistema radicular é do tipo fasciculado relativamente denso, com raízes emergindo

do estipe da planta adulta em altura de 30cm a 40cm acima da superfície do solo e,

apresentando, nessa situação coloração avermelhada e aproximadamente 1cm de diâmetro

(Henderson & Galeano, 1996). As raízes são providas de lenticelas e aerênquimas

(Anderson, 1986; Menezes Neto, 1994) e prolongam-se, superficialmente, por até cerca de

3,0m a 3,5m da base do estipe, em indivíduos com três anos de idade, podendo, em plantas

com mais de dez anos, atingir 5m a 6m de extensão.


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2.3. Sistema reprodutivo

Em uma mesma inflorescência, a antese das flores masculinas (estaminadas) e

femininas (pistiladas) são gradativas, ocorrendo em fases com separação temporal, iniciando

sempre com a abertura das flores estaminadas (Oliveira & Fernandes, 1993).

Convém ressaltar que a protandria, no açaizeiro, dificulta a autogamia mas não a

impede totalmente, pois as flores, de uma mesma inflorescência, não se abrem

simultâneamente o que possibilita, em alguns genótipos, a sobreposição parcial das fases

masculina e feminina (Oliveira, 1995). Além disso, existe a possibilidade de flores masculinas

fecundarem flores femininas de outras inflorescências da mesma planta, devido, também, a

sobreposição de fases entre elas.

Não obstante as possibilidades de ocorrência de autofecundação, a espécie é

considerada predominantemente alógama (Jardim, 1991), provavelmente devido a existência

de mecanismo de autoincompatibilidade genética (Oliveira, 1995). Em alguns casos, a

incompatibilidade genética manifesta-se, também, bilateralmente entre genótipos. Por outro

lado, há de se considerar também a possibilidade de que determinados genótipos sejam

totalmente autocompatíveis, pois não é raro encontrar-se plantas isoladas de açaizeiro com

altas taxas de vingamento de frutos.

Além da reprodução sexuada, o açaizeiro, multiplica-se, abundantemente, também por

via assexuada, através da emissão de perfilhos na base das plantas. Considerando-se o

número de plantas regeneradas, esse sistema de multiplicação, em açaizais nativos

manejados para a produção de frutos e palmito, é mais importante que a regeneração por

sementes (Nogueira, 1997).

2.4. Fenologia
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Na região Amazônica, o açaizeiro flora e frutifica praticamente durante todo o ano.

Porém, os picos de floração e frutificação ocorrem com maior freqüência, nos períodos de

janeiro a maio e setembro a dezembro, respectivamente. O período de floração mais intensa

coincide com a época de maior precipitação de chuvas, enquanto o de frutificação predomina

na época mais seca do ano (Calzavara, 1972; Oliveira & Fernandes, 1993).). Algumas

populações naturais apresentam dois picos de frutificação, durante o ano (Jardim &

Anderson, 1987; Jardim & Kageyama, 1994).

O aparecimento do ramo florífero está diretamente relacionado com a queda da folha.

Convém ressaltar que nem todo ramo completa seu ciclo. Independente da época do ano, é

comum observar-se inflorescências secas ou cachos que, mesmo tendo flores fecundadas,

apresentam-se vazios em decorrência da queda prematura dos frutos (Oliveira, 1995).

Em Ubatuba, no litoral de São Paulo, o açaizeiro apresenta dois picos de

florescimento, o primeiro nos meses de abril e junho e o segundo no período de outubro a

dezembro, com produção de frutos praticamente durante todo o ano (Bovi et al., 1986).

2.3 Ecologia

Em grande parte das áreas de ocorrência dessa palmeira, particularmente nos terrenos

de várzea baixa, a floresta é do tipo oligárquica, tendo como espécie dominante o açaizeiro

(Prance, 1994). O caráter oligárquico dessa floresta é determinado pelo regime de

inundações (Lima, 1956), pois reduzido número de espécies arbóreas dispõem de

mecanismos adaptativos para sobreviverem em solos com baixa tensão de oxigênio

(Anderson, 1986). No caso do açaizeiro, esses mecanismos estão representados por

adaptações morfológicas e anatômicas, tais como: raízes que emergem do estipe acima da

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superfície do solo, presença de lenticelas (Anderson, 1986) e de aerênquimas nas raízes

(Menezes Neto, 1994). Além disso, a espécie dispõe de estratégias fisiológicas que permitem

manter as sementes viáveis e as plântulas vivas, mesmo em condição de anoxia total, por

até 20 e 16 dias, respectivamente, de tal forma que, quando o suprimento de oxigênio se

torna adequado, as sementes germinam e as plântulas retomam seu crescimento (Menezes

Neto, 1994).

Em função de estratégias adaptativas a abertura dos estômatos, do açaizeiro depende

mais da radiação solar que do défice de pressão de vapor e inundações temporárias não

afetam a absorção de água, quando as raízes estão submetidas a condições de hipoxia

(Carvalho et al., 1998a).

O fato da sementes não germinarem e as plântulas paralisarem ou reduzirem o

crescimento em ambiente anóxio, explica a menor freqüência da espécie em áreas

permanentemente alagadas, pois nessa situação, o estabelecimento de novas plantas está

limitado à possibilidade das sementes, por ocasião da dispersão natural, atingirem sítios com

cota ligeiramente superior ao da lâmina de água, onde encontram condições de oxigenação

suficiente para o desencadeamento do processo de germinação e crescimento das plântulas.

Esses sítios, são representados por restos de árvores que tombam naturalmente e

possibilitam a acumulação de sedimentos e detritos vegetais (Calzavara, 1972)

Nos locais de ocorrência natural e de cultivo, na Amazônia brasileira, a espécie pode

ser encontrada em áreas submetidas aos tipos climáticos Afi, Ami e Awi, (classificação de

Köppen). Esses tipos climáticos caracterizam-se por serem quentes e úmidos, com

pequenas amplitudes térmicas, geralmente, com temperaturas médias e médias das mínimas

e das máximas anuais em torno de 26°C, 22°C e 31,5°C, respectivamente e com umidade

relativa do ar variando entre 71% e 91% (Calzavara 1972; Nascimento & Homma, 1984;

Bastos et al., 1986).


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O total de chuvas e, principalmente, sua distribuição nos meses do ano constituem-se

nos fatores diferenciais entre os três tipos climáticos. No tipo Afi, onde se concentram

grandes populações nativas de açaizeiros e considerável área plantada com a espécie,

caracteriza-se por total anual de chuvas superior a 2000mm e por sua distribuição mais

uniforme, sendo que nos meses de menor precipitação o total mensal é sempre superior a

60mm. O tipo Awi, embora apresentando total anual de chuvas semelhante ao do Afi, a

distribuição é menos uniforme com períodos de dois a três meses de estiagem. Já no tipo

Awi o total de chuvas é menor, com período de estiagem que abrange cinco a seis meses do

ano (Nascimento & Homma, 1984).

No litoral paulista onde o açaizeiro vem sendo cultivado experimentalmente, visando à

produção de palmito, está sujeito à temperaturas médias anuais mais baixas, em torno de

21°C, considerada por Aguiar (1988) como provavelmente próxima do limite mínimo de

exigência térmica para a cultura.

No habitat natural e em áreas de cultivo, é encontrado tanto em solos eutróficos como

em solos distróficos. No primeiro caso, ocupa predominantemente Gleissolos em áreas de

várzea. Esses solos, são fortemente ácidos, argilo-siltosos pouco profundos e com boa

fertilidade natural, em decorrência da deposição de detritos contidos em suspensão nas

águas das marés No segundo caso, é encontrado em Latossolo Amarelo textura média, que

caracterizam-se por serem profundos, friáveis, porosos e pela elevada acidez e baixa

fertilidade natural (Calzavara, 1972).

3. UTILIZAÇÃO ATUAL E POTENCIAL

O fruto do açaizeiro somente é consumido após processamento, pois apresenta

escasso rendimento de parte comestível e sabor relativamente insípido, quando comparado

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com a maioria das frutas tropicais tradicionalmente consumidas como fruta fresca. Além

disso, o consumo direto dos frutos, devido a presença acentuada de antocianinas deixa nos

lábios, dentes e gengivas manchas de coloração arroxeada bem acentuadas e de aspecto

desagradável, embora facilmente removíveis.

Na Amazônia brasileira o fruto é usado principalmente na obtenção da bebida açaí,

um refresco de consistência pastosa, obtido por extração mecânica, em máquinas

despolpadoras ou manualmente. Essa bebida é obtida com a adição de água durante o

processamento dos frutos, o que facilita, sobremaneira, as operações de despolpamento e

filtração.

Dependendo principalmente da quantidade de água utilizada no processo de extração,

a polpa é classificada, segundo as normas do Ministério da Agricultura e do Abastecimento

(Ministério...,1998) como:

a) Açaí grosso ou especial, quando apresenta teor de sólidos totais superior a 14%;

b) Açaí médio ou regular, quando apresenta teor de sólidos totais entre 11% e 14%;

c) Açaí fino ou popular, é o produto com teor de sólidos totais entre 8% e 11%.

Quando o despolpamento é efetuado sem a adição de água, obtém-se a polpa integral

de açaí, que deve conter, no mínimo, 40% de sólidos totais (Ministério, 1998). Essa forma de

obtenção do produto, tem sido usada apenas experimentalmente, visa basicamente o

atendimento de mercados distantes dos centros de produção, por possibilitar redução

substancial nos custos de congelamento e de transporte. No entanto, nenhuma das

despolpadoras disponíveis no mercado processa com eficiência o fruto sem adição de água.

Além da forma tradicional de consumo, a polpa de açaí também é largamente usada

na produção industrial ou artesanal de sorvetes.

Nos últimos anos diversas outras formas de apresentação do produto têm surgido no

mercado tais como: o açaí pasteurizado, o açaí com xarope de guaraná, o açaí em pó, o
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doce de leite com açaí, a geléia e o licor de açaí (Foto 3). O primeiro, embalado em latas

contendo 1000ml de polpa já açucarada ou em potes de vidro contendo 580ml ou 325ml. O

segundo, embalado em potes de vidro também contendo 580ml ou 325ml de açaí misturado

com xarope de guaraná. Esses produtos apresentam vida de prateleira de três anos, mesmo

quando mantidos à temperatura ambiente. Já o açaí em pó, que tem prazo de validade de

apenas dois meses é apresentado em potes de plástico, contendo 100g do produto e é

indicado para o preparo de sorvetes, pudins, tortas, bolos, biscoitos e doces. O doce de leite

com açai, a geléia e o licor são comercializados em embalagens de vidro, contendo 465g,

215g e 750ml do produto, respectivamente. O doce e a geléia apresentam prazo de validade

de um ano, enquanto o licor tem prazo indeterminado.

Além desses usos, são grandes as perspectivas de utilização na indústria de corantes

naturais (Nazaré et al., 1996) e de bebidas isotônicas. Na culinária doméstica também

apresenta multiplicidade de usos sendo usada na elaboração de bolos, tortas, cremes,

pudins e musses.

Nas regiões centro-oeste, sul, sudeste e nordeste do Brasil, o padrão de consumo é

completamente diferente da Amazônia, onde o açaí é, para grande considerável parte da

população, componente importante da refeição principal e bebido puro ou misturado com

farinha de mandioca. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, o açaí é consumido, com

maior freqüência, misturado com xarope de guaraná ou com xarope de guaraná e outras

frutas, tais como banana, laranja, morango, acerola, mamão, abacaxi, manga, maracujá,

abacate e quiwi (Guimarães, 1998).

4. COMPOSIÇÃO E VALOR NUTRICIONAL

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A parte comestível do açaí, ou seja o epicarpo e o mesocarpo, representa, em média,

26,54% do peso do fruto, apresentando, no entanto, variações acentuadas, em função da

planta-matriz A maior parte do fruto é composta pelo volumoso endocarpo (Tabela 1)., o

qual contém em seu interior uma com tecido de reserva rico em lipídios

Tabela 1. Participação relativa do endocarpo e da parte comestível (epicarpo + mesocarpo)


na composição do fruto de dez plantas-matrizes da coleção de germoplasma de
Açaizeiro da Embrapa Amazônia Oriental.
Endocarpo Epicarpo + mesocarpo
Matriz
(%) (%)
311-5 71,66 28,34
416-1 78,31 21,69
417-8 69,25 30,75
419-3 71,92 28,08
424-8 69,52 30,48
430-5 71,63 28,37
464-7 75,49 24,51
477-9 82,51 17,49
468-8 70,64 29,36
547-3 73,63 26,37
Média 73,46 26.54
Fonte: CARVALHO, J.E.U. de & OLIVEIRA, M. do S. P. de (dados não publicados).

Com relação à composição química tanto da porção comestível como da polpa

industrializada, os resultados disponíveis são discrepantes. Tal fato é explicado, em parte,

pela alta variabilidade genética existente no açaizeiro (Caroline, 1999). Outro aspecto que

deve ser considerado é que alguns autores incluem parte da fibras alimentares dentro dos

açucares totais. Como, durante o processamento da polpa, parte das fibras ficam retidas na

peneira, permitindo porém a passagem dos lipídios, é comum encontrar-se dados onde o

teor de lipídios na polpa industrializada é maior que na parte comestível do fruto. O contrário

ocorre com os açucares totais (Rogez et al., citados por Caroline, 1999).

A parte comestível do fruto apresenta valor calórico de 262kcal/100g (Aguiar et al.,

1980), enquanto que na polpa industrializada, dependendo, principalmente da quantidade de

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água adicionada durante o processamento, o valor energético é menor, atingindo

182,4kcal/100g, para a polpa com 60,4% de água (Franco, 1992). Esse valor energético é

determinado basicamente pelo elevado conteúdo de lipídios, haja vista que as quantidades

de proteínas e, principalmente, de açucares totais são baixas (Tabela 2).

Além do valor energético, a polpa de açai também é um alimento relativamente rico

em minerais, principalmente em potássio, cálcio, fósforo, magnésio e ferro (Tabela 2) e em

vitaminas E e B1 (Rogez et al., citados por Caroline, 1999).

Tabela 2. Componentes químicos encontrados em um litro de polpa de açaí com 12,5% de


matéria seca.
Procedência1
Componente Pará Maranhão
Lipídios totais (g) 62,4 40,7
Proteínas (g) 14,5 19,8
Açúcares totais (g) 3,8 4,8
Fibras totais (g) 32,1 43,8
Cálcio (mg) 417,5 596,3
Fósforo (mg) 210,0 322,5
Magnésio (mg) 161,3 157,5
Sódio (mg) 123,8 235,0
Potássio (mg) 915,0 1000,0
Cobre (mg) 1,8 2,8
Ferro (mg) 3,7 6,4
Zinco (mg) 1,9 3,7
Manganês (mg) 10,8 10,2
1. Frutos oriundos de acessos conservados na Coleção de germoplasma de açaizeiro da Embrapa
Amazônia Oriental, em Belém, PA. (Fonte: Caroline, 1999)

5. DISPONIBILIDADE DE RECURSOS GENÉTICOS

Não obstante o fato da espécie, em algumas populações naturais, se encontrar

bastante erodida em sua base genética (Clement et al., 1982; Calzavara, 1988) a maior fonte

de variabilidade genética ainda se encontra nos açaizais nativos.

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A maior coleção de germoplasma dessa fruteira encontra-se instalada na Embrapa

Amazônia Oriental, em Belém, PA, estando, presentemente, representada por 140 acessos,

envolvendo 136 acessos de açaizeiro, três híbridos interespecíficos e uma espécie afim

(Tabela 3). Essa coleção está estabelecida em Latossolo Amarelo textura média, no

espaçamento de 5m x 3m, sendo a quase totalidade dos acessos procedentes dos Estados

do Amapá, Pará e Maranhão, os quais foram plantados no ano de 1985 (Lima & Costa,

1991).

Tabela 3. Acessos de açaizeiro e espécies afins disponíveis na coleção de germoplasma da


Embrapa Amazônia Oriental, Belém, PA, 2000
Procedência Característica ou tipo Número de acessos
Benevides – Pará Precoce 04
Benfica – Pará Precoce 02
Breves – Pará 34
Cametá – Pará Açaí Branco 05
Castanhal – Pará Açaí-açu 02
Chaves – Pará - 17
Igarapé-Miri – Pará Açaí-açu 03
Ilha do Mosqueiro – Pará Precoce 01
Ilha do Combu – Pará Açaí espada 02
Gurupá – Pará Paxiúba 05
Melgaço – Pará - 01
Muaná – Pará - 13
Prainha – Pará Sangue de boi 01
Santa Maria do Pará – Pará Temporão 01
Santarém – Pará Sangue de boi 02
Santo. Antônio do Tauá – Pará Precoce 10
São João do Araguaia – Pará Temporão 02
Macapá – Amapá - 06
Oiapoque – Amapá - 10
Alcântara – Maranhão - 02
Carutapera – Maranhão - 01

Cururupu – Maranhão Temporão 01

Maracaçumé – Maranhão - 02
Guimarães – Maranhão - 02
Mirinzal – Maranhão - 02
Santa Inez – Maranhão - 01
Santa Luzia – Pará Temporão 01
Turiaçu – Maranhão - 02
Zé Doca – Maranhão Temporão 01
Vitória – Espírito Santo Híbrido 03
Vitória – Espírito Santo E. espriritosantense 01
Total - 140
Fonte: OLIVEIRA, M. do S.P de (dados não publicados).

15
Nos acessos da Coleção de Germoplasma da Embrapa Amazônia Oriental têm sido

registradas expressivas variações fenotípicas no que concerne aos seguintes caracteres: tipo

de caule (monocaule e multicaule); número de perfilhos por touceira (1 a 16); comprimento

da bainha foliar (0,76m a 1,36m), altura do estipe (4,21m a 9,55m), comprimento do entrenó

(7,2cm a 16,4cm); circunferência do estipe (19cm a 43cm), duração de fases de floração

(masculina de 12 dias a 17 dias; feminina 5 dias a 9 dias); intervalo entre fases de floração

(1dia a 2 dias), número de cachos por planta (1 a 16); peso do cacho (0,28kg a 12kg), peso

de frutos por cacho (0,10kg a 10,0kg), peso do fruto (0,5g a 2,3g), cor do fruto quando

maduro (roxo e verde), formato do fruto (arredondado e obovado), número de frutos por

cacho (100 a 5681), número de ráquilas por cacho (54 a 144), comprimento da ráquis

(24,0cm a 75cm), rendimento de frutos por cacho (35,7% a 85,5%) e produção de frutos por

planta (0,10kg a 50, 9kg), segundo Oliveira (1995), Oliveira & Müller (1998) e Oliveira et al.

(1998).

A partir de avaliações de produção de frutos, efetuadas durante três safras

sucessivas, foram selecionadas 25 progênies para instalação de pomar de sementes. Esses

genótipos estão, também, subsidiando pesquisas com melhoramento genético e manejo

nessa instituição (Oliveira & Müller, 1998).

A segunda coleção bem representada dessa espécie, pertence ao Instituto

Agronômico de Campinas – IAC (Tabela 4), sendo constituída por 90 acessos instalados em

três municípios da região litorânea de São Paulo. Todavia, nessa coleção os acessos vêm

sendo caracterizados e avaliados visando à produção de palmito (Bovi et al., 1997).

Nessa coleção vêm sendo empregados descritores vegetativos, reprodutivos e de

propagação para caracterizar os acessos de açaizeiro disponíveis, tendo sido detectado

grande variabilidade entre e dentro dos acessos para a maioria dos caracteres,

principalmente para ausência e presença de perfilhamento, comprimentos da bainha, ráquis


16
e folíolos, bem como para coloração, posição e nervação desses caracteres (Bovi et al.,

1997).

Outras instituições possuem um menor número de acessos, os quais vêm sendo

conservados em nível de campo, juntamente com outras fruteiras, na forma de pomar

experimental (Tabela 4).

Tabela 4. Acessos de E. oleracea e de espécies afins conservados pelo Instituto Agronômico


de Campinas e por outras instituições do Brasil.
Institução Espécies Material Nº acessos
IAC (Ubatuba, SP) E. oleracea e outras Tradicional e 90
melhorado
INPA (Manaus, AM) E. oleracea; E. precatoria Tradicional 02
FUA (Manaus, AM) E. oleracea; E. precatoria 04
UFAC (Rio Branco, AC) E. oleracea; E. precatoria 05
UEMA (São Luís, MA) E. oleracea 12
UFTO (Palmas, TO) E. oleracea ?

EMCAPA (Vitória, ES) E. oleracea e outras Melhorado 14


UFSC (Florianópolis, SC) E. oleracea; E. edulis Tradicional ?
UFBA (Salvador, BA) E. oleracea Tradicional 10
UFMT (Cuiabá, MT) E. oleracea Tradicional 10
FCAP (Belém, PA) E. oleracea Tradicional 02
Fonte: Clement et al. (1982); GENAMAZ (dados não publicados); Bovi et al. (1997); Paiva (1999); Leite (1988);
Wetzel & Bustamante (1999)

6. PROPAGAÇÃO E MANEJO AGRONÔMICO

6.1. Propagação

O processo mais comum de propagação do açaizeiro é através de sementes, embora

a propagação assexuada possa ser também utilizada através da retirada de brotações que

surgem de forma espontânea, na região logo abaixo do coleto da planta (Calzavara, 1972). A

quantidade dessas brotações, depende do genótipo (Oliveira, 1998) e do ambiente e,

inicialmente surgem na base do estipe principal e, posteriormente, nas dos estipes

17
secundários. Embora de forma rara, algumas plantas, independente do ambiente, não

exibem a capacidade de emitir brotações.

O processo de propagação assexuada, através da retirada de brotações, por

demandar bastante mão-de-obra, é de uso limitado, sendo presentemente usado somente

quando se deseja quantidade reduzida de mudas de determinado genótipo.

Em plantas com cinco anos de idade, mantendo-se quatro estipes por touceira, o

número máximo de brotações passíveis de serem aproveitadas na formação de mudas não

atinge a dez unidades, decrescendo bastante esse número nos anos subseqüentes

(Nogueira et al., 1998) pois, à medida que se retiram essas brotações a planta vai perdendo

a capacidade de emiti-las (Calzavara, 1972). Assim sendo, a taxa de multiplicação é muito

baixa, quando comparada com a propagação sexuada em que, de uma única planta, é

possível obter-se quantidade superior a 6000 sementes (Oliveira et al., 1998), com

germinação igual ou superior a 90%.

A propagação “in vitro” tem tido sucesso apenas com a utilização de embriões

zigóticos (Rocha, 1995), não se dispondo de protocolos que possibilitem a obtenção de

plântulas através da cultura de tecidos somáticos.

A estrutura usada como semente corresponde ao endocarpo que contém em seu

interior uma semente, com eixo embrionário diminuto e abundante tecido endospermático. O

endocarpo é aproxidamente esférico com comprimento e diâmetro médio de 1,23cm e

1,45cm, respectivamente, e representa 73,46% do peso do fruto (Tabela 1).

O peso de 100 endocarpos, com grau de umidade de 39,4%, é de 108g (Carvalho et

al., 1998b), portanto, um quilograma de endocarpo de açaí contém cerca de 1080 sementes,

que apresentam percentagem de germinação superior a 90%, quando oriundas de frutos

18
maduros e semeadas imediatamente após a remoção da polpa (Moreira, 1989; Villachica et

al., 1996; Carvalho et al., 1998b).

O processo germinativo é relativamente rápido, porém desuniforme, iniciando-se a

emergência das plântulas 22 dias após a semeadura e estabilizando-se aos 48 dias, quando

as sementes são semeadas logo após a remoção da polpa. A redução do grau de umidade,

mesmo para níveis ainda altos, implica em comprometimento na percentagem e

100
90 39,4% de um idade
19,7% de um idade
80
Germinação (%)

70
60
50
40
30
20
10
0
20 22 24 26 28 30 32 34 36 38 40 42 44 46 48 50 52

Dias após a semeadura

retardamento de germinação (Figura 1). Quando o grau de umidade é reduzido para valor em

torno de 14,0% as sementes perdem completamente a capacidade de germinação.

Figura 1. Curso da germinação de sementes de açaí com graus de umidade de 39,4% e


19,7%. (Fonte: Carvalho, J.E.U. de, dados não publicados).

Além da sensibilidade ao dessecamento, as sementes também não suportam baixas

temperaturas, havendo comprometimento da viabilidade quando mantidas em ambientes

com temperaturas igual ou inferiores a 15°C (Nogueira, et al., 1995; Villachica et al., 1996).

19
Em decorrência desses fatos, a conservação do poder germinativo das sementes não

pode ser efetuada pelos processos convencionais de armazenamento, que têm como pré-

requisitos básicos a secagem e o armazenamento em temperaturas baixas.

Para curtos períodos de armazenamento, em condições de ambiente natural da

Amazônia, ou quando se deseja transportar as sementes para locais distantes, dois sistemas

podem ser usados. No primeiro as sementes são estratificadas ou misturadas em substrato

úmido, que tanto pode ser serragem, como vermiculita e acondicionadas em caixas de

madeira, isopor ou em sacos de plástico. Areia ou solo não são recomendados como

substrato por apresentarem maior densidade. Nesse sistema, as sementes são dispostas em

camadas alternadas com o substrato úmido ou simplesmente misturadas com este e

acondicionadas em caixas de madeira, isopor ou em sacos de plástico. Na Embrapa

Amazônia Oriental tem-se adotado a proporção volumétrica de uma parte de sementes para

uma parte de substrato.

No outro sistema, as sementes são embaladas em sacos de plástico com

capacidade para 4kg de sementes, havendo necessidade de tratamento com fungicida

(Benomyl a 0,1%, durante 10 minutos) e de enxugamento superficial das sementes, de tal

forma que o grau de umidade seja reduzido para 35,0%. Em ambos os casos, o período de

armazenamento não deve ultrapassar a 20 dias, pois muitas sementes poderão completar a

germinação dentro da embalagem, o que dificulta a retirada das mesmas e condiciona o

aparecimento de plântulas anormais. O armazenamento em sacos de plástico, por período

um pouco maior, é possível desde que as sementes sejam mantidas em ambiente com

temperatura de 20°C. Nessa situação apresentam 58% de germinação após 45 dias de

armazenamento (Moreira, 1989).

A semeadura pode ser efetuada tanto em sementeiras, como diretamente em sacos

de plástico, com dimensões de 15cm de largura e 25cm de altura. Na Embrapa Amazônia


20
Oriental tem sido utilizado como substrato para as sementeiras areia e pó de serragem,

misturados na proporção volumétrica de 1:1, enquanto que para os sacos de plástico é

utilizada a mistura de 60% de solo, 20% de esterco e 20% de pó de serra.

O período compreendido entre a semeadura até a muda está em condições de ser

plantada no local definitivo, se situa entre seis e oito meses, dependendo dos tratos culturais

durante a fase de viveiro. Durante a fase de formação, as mudas devem ser mantidas em

viveiro com 50% de interceptação de luz.

A Comissão Estadual de Sementes e Mudas do Pará estabelece as seguintes normas

e padrões para mudas fiscalizadas de açaizeiro, obtidas por sementes (Comissão...,1997):

• Apresentar altura uniforme, aspecto vigoroso, cor e folhagem harmônicas;

• Possuir , no mínimo, cinco folhas fisiologicamente ativas (maduras), pecíolos

longos e as folhas mais velhas com folíolos separados. O coleto deve apresentar a

espessura da base maior que a da extremidade das mudas;

• Ter quatro a oito meses de idade, a partir da emergência das plântulas;

• Apresentar altura de 40cm a 60cm, medidos a partir do colo da planta;

• Apresentar sistema radicular bem desenvolvido e ter suas extremidades aparadas

quando ultrapassar o torrão;

• Isentas de pragas e moléstias (Regulamento da Defesa Sanitária Vegetal).

• A comercialização das mudas somente será permitida em torrões, acondicionadas

em sacos de plástico, sanfonados e perfurados ou equivalentes, com no mínimo

15cm de largura e 25 cm de altura.

6.2. Manejo Agronômico

6.2.1. Variedades

21
Não existem variedades nem clones definidos e devidamente avaliados e

caracterizados de açaizeiro, embora Calzavara (1972), baseado unicamente na coloração

dos frutos, quando maduros, tenha estabelecido duas variedades: o açaí Roxo e o açaí

Branco (Foto 6, respectivamente com epicarpo de cor roxa e verde-escuro.

A definição de variedades de açaizeiro, com base apenas na cor do fruto não é válida,

haja vista que existem, nas populações silvestres e mesmo em pomares comerciais

expressivas variações dentro de cada uma das variedades estabelecidas por Calzavara

(1972), principalmente no que concerne ao tamanho do fruto, diâmetro e altura do estipe,

comprimento do entrenó, coloração e comprimento da bainha foliar, capacidade de emissão

de perfilhos, tamanho do cacho, características fenológicas, precocidade de produção,

rendimento de polpa e produtividade de frutos (Lima & Costa, 1998; Oliveira, 1998; Caroline,

1999). Assim sendo, o mais correto é considerar como tipos o que foi definido como

variedades.

Ressalte-se, ainda que o cruzamento recíproco entre o açaí roxo e o açaí branco,

ocorre com grande freqüencia. Assim sendo, plantas muitas vezes consideradas como da

variedade roxo podem na verdade ser híbridos intertipos, pois a cor do fruto maduro é

determinada por fatores genéticos qualitativos, sendo o roxo dominante em relação verde.

Tal fato, foi observado no Banco de Germoplasma de Açaizeiro da Embrapa Amazônia

22
Oriental, quando sementes oriundas de matrizes do tipo Roxo deram origem a plantas do tipo

Branco.

O açaí branco é assim denominado porque os frutos, mesmo em completo estádio de

maturação, apresentam epicarpo de coloração verde-escuro, e mesocarpo de coloração

creme. A polpa oriunda de frutos desse tipo apresenta coloração creme bem claro, bastante

diferente da polpa oriunda do açaí roxo. Em alguns locais o açaí branco é também

denominado de açaí tinga, palavra de origem tupi que significa branco.

Outros tipos ocorrentes na Amazônia são: o açaí-açu, o açaí espada e o açaí sangue

de boi, que apresentam as seguintres características diferenciais:

Açaí-açu - É um tipo com frutos de cor roxa, ocorrente em populações nativas cujos

cachos são bem mais pesados, com maior número de frutos por ráquilas e diâmetro dos

estipes maior que dos tipos comuns de açaí roxo;

Açaí espada - Tipo que ocorre principalmente na ilha do Combu, no município de

Acará, difere dos tipos comuns, principalmente no formato do cacho, por apresentar ráquilas

primárias, secundária e terciárias.

Açaí sangue-de-boi - Presente em populações nativas de açaizeiro no baixo

Amazonas, mais precisamente no município de Santarém. Caracteriza-se pela coloração

avermelhada dos frutos, semelhante ao sangue de boi, quando maduros e por apresentar

polpa com consistência bem menos pastoja que os tipos de ocorrência mais generalizada. A

polpa dos frutos desse tipo tem pouca aceitação, tanto por sua consistência fina como pelo

sabor que é bastante diferente, dos tipos com frutos de cor roxa.

6.2.2.Escolha e Preparo da Área

23
Na implantação de pomares de açaizeiro deve-se utilizar, preferencialmente, áreas

anteriormente ocupadas com culturas anuais ou semiperenes. Alternativamente, pode-se

implantar a cultura em áreas com vegetação secundária de pequeno porte (Nogueira et al.,

1995). A utilização de áreas com vegetação primária não é aconselhável, devido aos danos

ambientais e ao maior custo com a derrubada da vegetação.

No caso da utilização de áreas anteriormente ocupadas com culturas anuais, o

preparo do terreno consiste basicamente na roçagem da vegetação, aração e gradagem. Na

Amazônia brasileira é comum a implantação da cultura em áreas cultivadas com pimenteira-

do-reino ou com maracujazeiro no final de ciclo. Em ambos os casos, o preparo da área

consiste basicamenete na roçagem das linhas onde serão plantados os açaizeiros e posterior

remoção dos tutores.

6.2.3. Espaçamento

A maioria das indicações de espaçamento para a cultura do açaizeiro, visando a

produção de frutos, são baseadas em observações de natureza prática. Geralmente tem sido

indicado o espaçamentos de 5m x 5m com três ou quatro estipes (Nogueira et al.,1995,

Villachica et al., 1996), que corresponde a densidades de 1.200 plantas/ha e 1.600

plantas/ha, respectivamente. A implantação da cultura em espaçamento mais fechado, como

4m x 4m, implica em baixa produtividade em decorrência da competição por água e por

nutrientes que se estabelece entre as plantas (Nogueira et al., 1998)

Os espaçamentos mais abertos, como 5m x 5m, têm a vantagem de facilitar

sobremaneira a colheita até dez anos após o plantio. Pois nessa situação, as plantas não

estão submetidas à competição por luz o que reduz bastante o crescimento em altura e

favorece o crescimento em diâmetro, reduzindo os riscos de tombamento de plantas pela

24
ação de ventos fortes. Nesse espaçamento, os primeiros cachos, surgem em altura altura

inferior a 1,5m. Além disso os tratos culturais, especialmente as capinas podem ser

efetuadas mecanicamente.

Convém ressaltar, no entanto, que espaçamentos mais abertos também favorecerem

o crescimento de plantas daninhas, em particular nos primeiros três anos após o plantio,

quando o sombreamento da superfície do solo pelos açaizeiros ainda é reduzido.

Em sistemas agroflorestais ou em consórcios com outras espécies perenes, os

espaçamentos recomendados são bem maiores, sendo os mais indicados 14m x 7m

(Nogueira et al., 1991) e 10m x 10m (Carvalho et al., 1999).

Um dos consórcios mais interessantes do ponto de vista biológico e econômico

envolve o cupuaçuzeiro como cultura principal e o açaizeiro como cultura secundária (Müller

& Carvalho, 1997). Nesse caso, o açaizeiro, uma espécie heliófila é usado para o

sombreamento definitivo do cupuaçuzeiro que, devido ao seu caráter umbrófilo, suporta nível

de sombreamento em torno de 25% (Venturieri, 1993). No consórcio do cupuaçuzeiro com o

açaizeiro, a primeira espécie deve ser plantada no espaçamento de 5m x 5m e a segunda no

espaçamento de 10m x 10m (Carvalho et al., 1999).

6.2.4. Plantio

O plantio em áreas não-irrigadas deve ser efetuado no início do período de chuvas,

em covas com dimensões de 40cmx40cmx40cm (Nogueira et al.,1995), previamente

adubadas com 10 a 15 litros de esterco bovino ou 2 a 3 litros de esterco de galinha

(Calzavara, 1987) e 200g de superfosfato triplo. É conveniente, após o plantio, o uso de

cobertua morta em volta da muda. Esse procedimento visa minimizar os efeitos de possíveis

veranicos, que possam ocasionar défice hídrico acentuado nas mudas recém-plantadas.

25
Além disso, a cobertura morta serve também para controlar, parcialmente, as plantas

daninhas em volta da muda.

Em áreas irrigadas o plantio pode ser efetuado em qualquer época do ano, adotando-

se os mesmos procedimentos indicados para o plantio em áreas não-irrigadas, em termos de

tamanho da cova, adubação e cobertura morta.

6.2.5. Nutrição e adubação

Os estudos sobre nutrição e adubação do açaizeiro são ainda extremamente

incipientes, não se dispondo de resultados consistentes que permitam avaliar com precisão o

estado nutricional das plantas e, principalmente, estabelecer recomendações de adubação.

Os resultados obtidos por Haag et al. (1992) evidenciaram que os macronutrientes

interferem na produção de matéria seca, em plantas jovens de açaizeiro, na seguinte ordem:

K > Mg > P > N > Ca > S. Além disso, a determinação dos teores desses nutrientes, nas

folhas e raízes de plantas com e sem sintomas de deficiência forneceram indicação

preliminar para avaliação do estado nutricional do açaizeiro, em termos de macronutrientes

(Tabela 5).

Tabela 5. Concentração (%) de macronutrientes em folhas e raizes de plantas jovens de


açaizeiro cultivados em solução completa e com omissão de macronutrientes.
Sem omissão Com omissão
Nutriente Folha Folha Raiz Folha Folha Raiz
nova velha nova velha
N 1,95 1,66 1,73 1,22 0,95 0,79
P 0,14 0,13 0,11 0,06 0,08 0,07
K 1,06 1,96 1,97 1,17 1,07 1,20
Ca 0,69 0,68 0,61 0,44 0,54 0,30
Mg 0,26 0,35 0,31 0,20 0,19 0,27
S 0,30 0,29 0,31 0,21 0,30 0,26
Fonte: Adaptado de Haag et al., 1992.

26
Com relação à adubação os seguintes procedimentos têm sido indicados para solos

de baixa fertilidade natural da Amazônia brasileira, não se podendo, no entanto discriminar

qual o mais eficiente:

a) No primeiro ano, efetuar duas aplicações de 300g de NPK, formulação 10-28-20, no

quinto e nono mês após o plantio. A partir do segundo ano, efetuar três aplicações de 300g

do mesmo adubo, no início, meio e fim do período de chuvas (Siqueira et al., 1998).

b) Nos dois primeiros anos após o plantio aplicar 100g de sulfato de amônio, 100g de

superfosfato triplo e 100g de cloreto de potássio por planta, parcelados duas vezes. A partir

do terceiro ano duplicar a quantidade de adubo, divididos, também, em duas aplicações.

Além da adubação mineral, aplicar em intervalos de dois anos, cinco litros de esterco de

curral (Nogueira et al., 1995).

c) Aplicar, no primeiro e segundo ano, 10 a 15 litros de esterco de curral ou dois a três

litros de esterco de galinha por touceira e 100g da mistura, em partes iguais, de sulfato de

amônia, superfosfato triplo e cloreto de potássio. O adubo mineral deve ser aplicado em duas

parcelas de 50g, a primeira no início e a segunda no final do período de chuvas. A partir do

terceiro ano utilizar a mesma quantidade de adubo orgânico e utilizar a mistura de 150g de

sulfato de amônia, 220g de superfosfato triplo e 250g de cloreto de potássio, dividido,

também, em duas parcelas iguais, aplicadas, no início e final do período de chuvas

(Calzavara, 1987).

6.2.6. Manejo de Perfilhos e Capinas

O número excessivo de perfilhos em uma touceira reduz o crescimento da planta-mãe,

pois parte considerável dos fotossintatos são mobilizados para a formação do sistema

radicular dos perfilhos (Oliveira, 1995). Assim sendo, é necessário efetuar o desbaste dos

27
mesmos de tal forma que cada touceira apresente, no máximo, cinco plantas (Calzavara,

1987).

Outro aspecto relacionado com o manejo das touceiras está relacionado a altura dos

estipes. Quando um estipe atinge altura que dificulte sobremaneira a colheita dos frutos, é

conveniente eliminá-lo e deixar um novo perfilho crescer para substituir o que foi derrubado

(Calzavara, 1972 e 1987)

No primeiro ano após o plantio o crescimento da planta é bastante lento, situação esta

que aliada ao espaçamento aberto favorece o crescimento de plantas daninhas. Nos três

primeiros anos após a implantação do pomar, são necessárias três ou quatro roçagens a

cada ano. Complementando as roçagens é necessário o coroamento em volta das touceiras

(Nogueira et al., 1995). Essa ultima operação pode ser efetuada com herbicidas a base

glifosate ou paraquat. O glifosate tem a vantagem de não provocar danos na planta de

açaizeiro, nas dosagens indicadas para o controle de plantas daninhas. Convém ressaltar,

porém, que esses produtos ainda não estão registrados para uso na cultura do açaizeiro.

6.2.7. Irrigação

A irrigação da cultura, na Amazônia brasileira, tem sido utilizada empiricamente, pois

não existem estudos específicos sobre os requerimentos hídricos do açaizeiro.

Normalmente é utilizada somente durante o período de estiagem, na forma de

irrigação suplementar, em pomares estabelecidos em solos de terra firme e submetidos aos

tipos climáticos Ami e Awi. Em algumas situações, como nos anos de ocorrência do

fenômeno “El niño”, é também necessária, mesmo em locais com tipo climático Afi,

particularmente se o pomar estiver instalado em solos com teor de argila inferior a 30%.

28
No Estado do Ceará, onde a cultura foi recentemente introduzida, está sendo utilizado

o sistema de irrigação por micro-aspersão.

Nos ecossistemas de várzea inundável do estuário amazônico as plantas não

demonstram sintomas de défice hídrico pois, nesse ambiente, mesmo durante a estação

seca, quando em muitas ocasiões a camada superficial do solo seca bastante e apresenta

rachaduras, provocando mesmo a quebra de raízes finas, a planta apresenta status de água

adequado, em decorrência de ter suprimento hídrico garantido através da absorção de água

pela porção mais profunda do sistema radicular (Carvalho et al., 1998a).

Não obstante ser uma planta típica de habitats muito úmidos o açaizeiro comporta-se

como planta mesófila. Plantas jovens mesmo submetidas a estresse por falta de água,

durante dois meses, mantêm-se vivas e recobram suas atividades fisiológicas 14 dias após a

reidratação (Calbo, 1996).

Como na maioria das palmeiras, o primeiro sintoma visível do défice de água na planta

manifesta-se pelo retardamento no ritmo de abertura das folhas. Assim é que em plantas

com estresse por falta d’água é comum encontrar-se no ápice duas ou mais folhas não

completamente abertas e em forma de flecha. Esse fenômeno, em muitos casos também

está associado à deficiência de boro, pois a absorção desse nutriente fica limitada pela

deficiência de água no solo.

6.2.8. Produtividade

Os dados sobre produtividade de frutos do açaizeiro são ainda inconsistentes, pois

não estão devidamente consolidadas as práticas culturais e de manejo mais eficientes para a

cultura. Além disso, não existem clones nem variedades definidas, sendo a totalidade dos

29
pomares estabelecidos com sementes de polinização aberta, oriundas de plantas de

populações naturais, na maioria dos casos sem nenhum critério de seleção.

O açaizeiro inicia seu ciclo de produção de frutos quatro anos após o plantio.

Eventualmente, algumas plantas entram em fase de produção aos três anos de idade

(Oliveira & Frenandes,1993).

Dentro de uma touceira, a planta-mãe é a primeira a entrar em fase de produção. A

produção dos dois primeiros anos é insignificante, crescendo bastante a partir do sexto ano

após o plantio. Em pomar implantado em Latossolo Amarelo textura leve, no espaçamento

de 6m x 6m, manejado com três plantas por touceira com adubação orgânica e mineral

observou-se incrementos significativos na produção até o décimo primeiro ano, quando a

produção de frutos por touceira atingiu valor de 42,2kg, decrescendo nos anos subseqüentes

(Figura 2).

45
Produtividade (kg/touceira)

40
35
30
25
20
15
10
5
0
6 7 8 9 10 11 12 13 14 15
Idade da planta (ano)

Figura 2. Produtividade de frutos (kg/touceira) de açaizeiro, em função da idade da planta.


(Fonte: Villachica et al., 1996).
Na Coleção de Germoplasma de Açaizeiro da Embrapa Amazônia Oriental,

implantada também em Latossolo Amarelo, no espaçamento de 5m x 3m, sem desbaste de

30
estipes, a produção, dez anos após o plantio, variou de 0,1kg a 50,9kg de frutos por touceira,

evidenciando, nesse caso, a influência do genótipo (Oliveira, 1995).

Em açaizais nativos, manejados para a produção de frutos, com densidade de 1500

plantas/ha e cerca de 53% delas em fase de produção foi registrada produtividade de até

9.000kg de frutos/ha. Por outro lado, para açaizais não-manejados a produtividade foi de

apenas 4.500kg de frutos/ha, em decorrência da baixa densidade de plantas por hectare

(Nogueira, 1997).

7. PRAGAS E DOENÇAS

7.1. Pragas

Diversos insetos atacam o açaizeiro mas, presentemente, poucos são os que exigem

medidas efetivas de controle. A maior parte dos insetos ou formas afins que causam danos

ao açaizeiro também são pragas de outras palmeiras ou mesmo de outras espécies frutíferas

ou madeireiras de famílias diferentes. Ressalte-se que, atualmente, não existe nenhum

produto registrado no Ministério da Agricultura e do Abastecimento do Brasil, para o controle

de pragas do açaizeiro.

Como pragas principais podem ser citadas:

Rhynchophorus palmarum (Coleoptera: Curculionidae) - Constitui-se na principal

praga do açaizeiro, atacando principalmente a região da coroa foliar. É praga de outras

palmeiras cultivadas na Amazônia, dentre as quais o coqueiro (Cocos nucifera) e o

dendezeiro (Elaeis guineensis), onde também causa sérios dano e é considerado como

vetor do nematódeo Bursaphelencus cocophilus, causador da doença conhecida como anel

vermelho. O adulto é um besouro de hábito diurno e cor negra com cerca de 5cm de

comprimento, cabeça pequena e alongada para frente terminando em forma de rostro. As

31
larvas são ápodas e de cor branca (Moura & Vilela, 1996). A larva no último instar mede

75mm de comprimento por 25 mm de largura (Ferreira et al., 1998).

As recomendações para o controle dessa praga propostas por Souza & Oliveira (1999)

são baseadas nos métodos de controle indicados por Moura & Vilela (1996) e por Ferreira et

al. (1998) para as culturas do dendezeiro e do coqueiro, respectivamente, conforme

discriminadas a seguir:

a) Controle preventivo na colheita: Pincelar o local onde foi cortado o cacho com uma

solução de piche mais nematicida;

b) Controle comportamental – Uso de iscas atrativas e ferormônios. Toletes de cana-

de-açúcar podem ser usados como iscas em armadilhas tipo alçapão. A adição de

feromônios às iscas constitui-se, presentemente, no método mais eficiente de

controle;

Cerataphis latanie (Homoptera: Aphididae) – O pulgão-preto é um minúsculo sugador

que ataca folhas em desenvolvimento, bainhas foliares (Foto 7), inflorescências e frutos. Em

plantas com três a cinco anos de idade quando o ataque é severo pode causar a morte da

planta. Nas inflorescências, ocasionam queda precoce das flores ou mesmo de frutos em

início de formação (Souza & Oliveira, 1999). O controle do pulgão preto pode ser efetuado

com pulverizações de óleo mineral na concentração de 1%, misturado com inseticida

fosforado na concentração de 0,1% (Siqueira et al., 1998).

Xylosandrus compactus (Coleoptera: Scolytidae) – Conhecido como broca das mudas

é um inseto originário da Ásia, polífago e bastante conhecido como praga do cafeeiro (Coffea

arabica) e de numerosos arbustos. A fêmea mede entre 1,5mm e 1,8mm de comprimento e

apresenta coloração enegrecida, brilhante. O macho é de coloração marron e um pouco

menor (Couturier et al. 1994). Na Amazônia brasileira, tem sido encontrado atacando

diversas espécies frutíferas e madeireiras (Carvalho et al., 1999).


32
Não existem medidas de controle efetivamente testadas para o combate dessa praga

em mudas de açaizeiro. No entanto, a aplicação de inseticidas de contato, com alto poder

residual pode se constituir em alternativa de controle. Nesse caso, deve-se considerar o

hábito crepuscular dos adultos (Mendes et al., 1979) e pulverizar as mudas ao entardecer, a

fim de combater os insetos durante o vôo. A destruição de mudas infestadas pelo fogo

constitui-se em outra alternativa para o controle dessa praga.

No açaizeiro, essa praga ataca mudas em diferentes fases de crescimento. As fêmeas

penetram na região do coleto, onde efetuam a oviposição e depositam um fungo que se

constitui no alimento dos adultos e das larvas. Esse fungo não apresenta patogenicidade

para a planta, sendo os principais danos decorrentes das galerias abertas pelo inseto, que

causam a morte das mudas.

Duas outras coleobrocas não-identificadas, têm sido registradas atacando o açaizeiro.

Uma delas, de ocorrência mais freqüente no período de maior intensidade de chuvas, realiza

perfurações na parte basal do estipe até 1,30m de altura que, dependendo da severidade do

ataque, pode ocasionar a morte da planta (Souza & Oliveira, 1999). A outra, faz galerias nas

inflorescências, danificando completamente as ráquilas e as flores.

Os endocarpos que caem no solo são atacadas por uma broca (Cocotrypes sp.) que,

dependendo da intensidade do dano, causam perda de viabilidade das sementes (Calzavara,

1987).

7.2. Doenças

A única doença registrada, até o momento, no açaizeiro, é a antracnose, cujo o

agente etiológico é o fungo Colletotrichum gloeosporoides. Essa doença, no entanto, tem

33
causado problemas somente na fase de viveiro, já tendo ocorrido perdas de até 70% de

mudas. (Bovi et al., 1988).

O controle da antracnose pode ser feito com pulverizações de oxicloreto de cobre a

0,15%, intercalados com Benomyl a 0,1%, em intervalos de dez a quinze dias. No entanto,

tais produtos ainda não estão registrados no Ministério da Agricultura e do Abastecimento

para uso no açaizeiro

Um distúrbio, provavelmente, de origem fisiológica que tem sido constatado em

plantas da Coleção de germoplasma de açaizeiro é a rachadura do estipe. Esse distúrbio

caracteriza-se por uma ou mais fendas longitudinais no caule com comprimento em torno de

0,70 m. Essas rachaduras representam porta de entrada para fungos saprofíticos, o que

ocasiona o apodrecimento e o tombamento do estipe (Foto 8).

8. COLHEITA E PÓS-COLHEITA

A colheita do fruto do açaizeiro é efetuada aproximadamente 180 dias após a antese

(Oliveira et al., 1998), ocasião em que o epicarpo apresenta cor roxa escuro recoberta por

uma camada acinzentada (Calzavara, 1972) nos tipos com frutos de cor roxa e coloração

verde-escuro brilhante, nos tipos denominados de açaí branco.

Nas áreas de extrativismo de açaí a colheita é efetuada no horário matinal e constitui-

se em operação onerosa e difícil de ser realizada, especialmente em plantas com altura

superior a dez metros. É efetuada escalando-se o estipe e cortando o cacho em sua base, o

qual é trazido para a superfície do solo pelo próprio escalador. Durante a colheita cuidados

especiais são necessários para que não haja desprendimento de quantidade elevada de

frutos das ráquilas.

34
A colheita é realizada durante a manhã visando evitar que seja processada no

momento de ocorrência de chuvas que, com maior freqüência, ocorrem no horário

vespertino, pois nessa situação é mais difícil escalar as árvores tanto pela ação direta das

chuvas, que torna os estipes mais escorregadios, como pela ocorrência de ventos.

Outro fator determinante para o horário de colheita está relacionado ao transporte. Os

frutos colhidos têm que chegar aos grandes centros consumidores, principalmente Belém,

PA, nas primeiras horas do dia seguinte ao da colheita.

Escaladores habilidosos são capazes de passar de um estipe para outro de uma

mesma touceira , sem descer para o solo (Cavalcante, 1991), colhendo de três a cinco

cachos em uma única escalada, desde que o peso total destes não ultrapasse a 15kg.

Normalmente um escalador experiente é capaz de colher cerca de 150kg a 200kg de frutos

em uma jornada de seis horas de trabalho.

Com a intensificação e racionalização do cultivo do açaizeiro, a operacionalização da

colheita precisa ser substancialmente melhorada, tendo em vista que em muitas áreas onde

a cultura está sendo implantada, há carência de pessoal habilitado em escalar árvores e o

sistema tradicional de colheita é bastante oneroso e com baixo rendimento de mão-de-obra.

Provavelmente, um equipamento testado com relativo sucesso, na Embrapa Amazônia

Oriental, para a colheita de frutos de pupunheira (Bactris gasipaes), uma palmeira também

de porte elevado, possa ser utilizado na colheita de frutos de açaizeiro. Esse equipamento

consiste em uma vara de alumínio, com seis metros de comprimento, contendo na sua

extremidade superior uma lâmina para corte do cacho, um recipiente para a recepção dos

frutos e uma roldana que permite a descida e a subida do recipiente.

Após a colheita os frutos são removidos manualmente das raquilas e acondicionados

em cestos confeccionados com fibras vegetais (Foto 9), que oferecem boa aeração, o que

35
favorece a conservação. Esses cestos, embora apresentando capacidade variável,

normalmente comportam 15kg ou 30kg de frutos.

Caixas plásticas com aberturas laterais, como as usadas na colheita de acerola e de

outras frutas tropicais também se prestam para essa finalidade, tendo a vantagem de ocupar

menor espaço e de serem mais facilmente transportadas. Esse tipo de embalagem, no

entanto, muito raramente é usado na Amazônia, em virtude da maior facilidade de aquisição

de cestos.

Os frutos após a colheita são bastante perecíveis, sendo o ideal que sejam

processados no prazo máximo de 24 horas após a colheita pois, sofrem fermentação

facilmente, condição esta favorecida pelas temperaturas elevadas prevalecentes nas áreas

de produção e de comercialização. A proteção dos frutos contra a radiação solar direta é

importante para evitar a perda excessiva de água, pois o despolpamento de frutos nessa

situação é mais difícil, o rendimento de polpa é menor e o produto obtido apresenta

coloração fora do padrão.

Não existem estudos sobre a conservação dos frutos em ambiente refrigerado mas,

provavelmente, a exemplo de outras frutas tropicais, a vida pós-colheita poderia ser

prolongada mantendo os mesmos em ambiente com temperatura em torno de 10°C.

Convém ressaltar que em alguns casos, especialmente quando em decorrência da distância

o produto tem que ser conservado por período superior a 48 horas, os frutos são

transportados em sacos de polipropileno, com capacidade para 50kg ou 60kg, recobertos

com gelo (Nascimento & McGrath, 1996).

9. INDUSTRIALIZAÇÃO

36
O processo mais comum de extração da polpa de açaí envolve a utilização de

pequenas máquinas despolpadoras (Foto 10), amplamente disseminadas nos grandes

centros urbanos dos Estados da Amazônia. Somente na cidade de Belém, estima-se a

existência de 2.500 postos de processamento da bebida açaí (Lacerda, 1992). Ressalte-se

que, embora a maioria desses postos disponham somente de uma unidade despolpadora,

em alguns deles podem ser encontradas até dez máquinas trabalhando simultâneamente.

Nesse último caso, podem processar até cerca de 2t de frutos por dia, o que permite a

obtenção de aproximadamente 1.000 litros de polpa de açaí.

Esse tipo de máquina, não obstante a baixa capacidade operacional, permite extração

eficiente da polpa, ao contrário das despolpadoras com alta capacidade de processamento,

usadas na extração de polpa de acerola, cacau, cupuaçu e outras frutas tropicais, que em

decorrência da maior velocidade das paletas, provocam acentuada retirada de fibras do

endocarpo, conferindo à polpa de açaí sabor adstringente.

A obtenção da polpa de açaí obedece as etapas mostradas na Figura 3. Após a

recepção, os frutos são lavados em solução de hipoclorito de sódio (30 a 50ppm de cloro) e,

em seguida, em água filtrada, para remoção do excesso de cloro. Posteriormente, são

imersos em água à temperatura ambiente, durante uma hora ou, alternativamente, em água

à temperatura de 45°C, durante 20 minutos. Esse procedimento visa facilitar o

despolpamento.

Na operação de despolpamento há necessidade de adição de água para que a polpa

possa fluir através da peneira. A água deve ser adicionada em cinco parcelas, cada uma

delas obedecendo a proporção de uma parte de água para dez partes de frutos (Caroline,

1999). O que se denomina de polpa de açaí é a mistura constituída da parte comestível dos

frutos e a água adicionada durante o processamento, sendo que para cada quilograma de

frutos processado são obtidos 400g a 550g de polpa.


37
A polpa é comercializada em embalagem de sacos de plástico, podendo ser

consumida imediatamente após o processamento ou após congelamento.

Recepção dos frutos

Lavagem

Imersão em água

Despolpamento

Semente Polpa

Finisher

Embalagem

Congelamento

Figura 3 – Fluxograma para obtenção da polpa congelada de açaí.

10. MERCADO POTENCIAL

Atualmente o principal mercado para o açaí é a Amazônia brasileira, onde o consumo

de frutos, não obstante as estatísticas contraditórias, ultrapassa a barreira de 180.000t por

ano somente no Estado do Pará, que se constitui, segundo Coral (1988) no maior produtor e

maior consumidor, respondendo por cerca de 93% da produção nacional. Na cidade de

Belém, PA, estima-se em 360.000 litros o consumo diário da bebida açaí (Mourão, 1996).

Nessa cidade, assim como em outros locais da Amazônia brasileira, a polpa é

comercializada, na maioria dos casos, imediatamente após o seu processamento, sem

resfriamento ou congelamento.

38
A partir de meado da década de 1990, a polpa congelada de açaí começou a ser

comercializada em outras regiões do Brasil, havendo estimativas de que a quantidade

consumida, somente na cidade do Rio de Janeiro, RJ, atinge a marca de 200t/mês

(Guimarães, 1998), procedente, na sua totalidade do Estado do Pará. Convém ressaltar que

outras grandes cidades, principalmente as capitais dos Estados das regiões nordeste, centro-

oeste, sudeste e sul do Brasil têm demandado expressivas quantidades de polpa de açaí,

não se dispondo, no entanto, de estatísticas sobre o consumo real e potencial.

Os produtos oriundos do açaí têm sido apresentados em feiras internacionais, na

Europa e na América do Norte, despertando o interesse do público em geral. Amostras da

polpa e de seus derivados têm sido remetidas para outros países, especialmente para a

Áustria, Alemanha, Estados Unidos e Japão, não tendo porém se concretizado, até o

momento, nenhuma exportação para esses países.

A empresa Muaná Alimentos está articulando a comercialização do açaí para o

mercado norte-americano e europeu, com perspectivas de concretizar a primeira exportação

do produto no ano 2001 (De Marajó, 2000).

A utilização do fruto como fonte de corante para a indústria de alimentos, é outro

aspecto que tem recebido atenção, haja vista a tendência mundial de proibição de muitos

corantes sintéticos, particularmente os que apresentam efeitos cancerígenos. Os corantes

extraídos do açaí têm sido utilizados, experimentalmente, no preparo de bombons tipo “hard

candies” e de gelatina, com excelentes resultados (Nazaré & Ribeiro, 1998).

Com relação ao segmento de bebidas isotônicas, o produto com sabor artificial de açaí

já é encontrado nas prateleiras das grandes redes de supermercado que atuam no Brasil,

sendo um bom indicativo de aceitação do açaí pelo público.

Outro aspecto que merece ser evidenciado é que pequenos plantios experimentais já

começam a ser implantados em diferentes locais situados fora da Amazônia, particularmente,


39
nos Estados da Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Goiás e São Paulo, o que demonstra também

o interesse pelo açaí.

12. REFERÊNCIAS

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