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ÉTICA DO ACONSELHAMENTO PASTORAL

Escrito por Albert Friesen

Todo conhecimento, técnica e treinamento que uma pessoa possua, resume-se a muito pouco, caso ela não
prime pela ética do aconselhamento.

AXIOMA MÁXIMO DA ÉTICA DO ACONSELHAMENTO:

Toda informação pessoal colhida em aconselhamento deve receber um tratamento confidencial irrestrito e
sigiloso.

IMPORTANCIA DO SIGILO

1. Para o aconselhando o seu problema é singular, único e inédito. Sua dificuldade lhe causa preocupações
em torno de sua auto-imagem, do seu self.

• a informação a respeito do seu sofrimento pode ameaçar o seu bem estar, realmente ou imaginariamente.
• por sentir ou imaginar estes perigos e ameaças ele procura alguém em quem possa confiar, e ele escolheu
uma pessoa bem específica: VOCÊ.
• ele quer encontrar compreensão, simpatia e seriedade - ele procura quem não jogue com as informações a
respeito de seus problemas como se isto fosse de pouca importância, ou muito pior, nutrindo a curiosidade
de outras pessoas.
• a sensação é de que as informações pudessem destruir para sempre sua auto imagem, bem como seu
próprio EU.

2. Informações sobre problemas e segredos das pessoas causam efeito e impacto sobre as outras pessoas.

• para um conselheiro habituado em ouvir todo tipo de problemas e revelações, tais informações podem não
parecer chocantes.
- Ex. A primeira revelação de adultério de uma pessoa de renome da igreja.
• para os familiares do aconselhando e seus amigos, estas informações podem ser devassadoras.
• Angústia
• Insônia
• Agitação, etc.

CLAUSULA JURÍDICA SOBRE A OBRIGATORIEDADE DE DEPOIMENTO EM JUÍZO:

Médicos, advogados, ministros religiosos e qualquer pessoa que possa afirmar que as informações que
possui foram colhidas sob promessa de sigilo ético e/ou profissional, tendo a confirmação desta promessa
pelo réu em questão ou pela regulamentação da profissão, ficam desincumbidos de depor em juízo caso
assim lhes pareça por bem. Atenção: Isto também se refere ao aconselhamento de pessoas leigas, como
líderes de grupos familiares, conselheiros pastorais, líderes de células e outras atividades sociais.

CHAVE DE OURO QUE RESOLUCIONA ALGUMAS DAS QUESTÕES SOBRE O SIGILO E A ÉTICA
DO ACONSELHAMENTO:

Em caso de intencionar abrir as informações colhidas em aconselhamento por qualquer motivo, é preciso
solicitar a permissão do aconselhando. Caso este conceda a permissão, tendo especificado o que e com
quem as informações serão tratadas, então se dissolve grande parte das tensões geradas diante da questão da
ética do aconselhamento.

1. ARMADILHAS DE INFORMAÇÃO CONFIDENCIAL


1.1. Pedir que outros orem a respeito do problema tratado em aconselhamento, sem a permissão do
aconselhando.

- o conselheiro bem intencionado supõe que pessoas sérias, achegadas a ele e/ou ao aconselhando poderiam
interceder junto ao trono de Deus buscando livramento, cura e graça.
• muitos conselheiros decidem contar as informações aos seus cônjuges, solicitando inclusive que orem em
favor do caso de atendimento.
• de qualquer maneira, por melhores que sejam as intenções, estes procedimentos pecam contra a ética do
aconselhamento.

1.2. Manuseio de informações escritas.

• Todo trabalho de aconselhamento merece ser descrito, para posteriormente análise, para manter
informações vivas, para poder orar a respeito, para poder pensar e ler a respeito dos referidos temas.
• As anotações darão ao aconselhando a impressão e a certeza de que ele está sendo levado a sério.
• mas, qualquer material escrito, mesmo de formulário de avaliação e crescimento deve permanecer
guardados em lugar sigiloso e trancado; inacessível a pessoas estranhas ao tratamento do caso.

1.3. Supervisão e envolvimento de outras pessoas mais experientes no processo de aconselhamento: Um


terapeuta profissional, um diácono, um ancião experiente da igreja, etc.

• é sábio que o conselheiro não se tenha como tão pretensioso, achando que poderá resolver sozinho a todos
os problemas que atende.
• todos os conselheiros apresentam restrições e limitações em seu saber e nas suas habilidades de
aconselhamento, e podem precisar de uma outra perspectiva que ajude a desencalhar um atendimento; para
saber, como prosseguir.

1.4. Não é aconselhável que o aconselhando veja as anotações do conselheiro a respeito da conversação
pastoral.

• as anotações podem parecer frias e técnicas, podem ser incompreensíveis, portanto, assustarem a quem
elas deveriam ajudar.
• as anotações podem transmitir informações que o aconselhando ainda não esta preparado para ouvir e
enfrentar.

1.5. O CUIDADO COM ILUSTRAÇÕES EM PREGAÇÕES E ESTUDOS BÍBLICOS

• quando as histórias ilustrativas têm a fonte revelada, especialmente quando esta reside na comunidade
onde a ilustração é aplicada, então bastam algumas dicas para que o fato esteja descoberto com identidade e
outros detalhes mais - o INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO entra em ação, e a verdade central da
ilustração acaba se perdendo.
• quem foi? É a grande questão.
• se a própria pessoa estiver sentada entre os ouvintes, se sentirá traída, por mais que a ilustração tenha
recebido um tratamento anônimo praticamente absoluto.
• a pessoa em questão terá o sentimento “agora todos sabem”.

PRECAUSÕES NO USO DE ILUSTRAÇÕES

1.5.1. Não usar material de casos que estiver atendendo na ocasião.

1.5.2. É importante contar o "milagre", não é preciso contar o "santo".


• assim, se quebra a curiosidade natural do “instituto de identificação”.
• contar a fonte da ilustração no caso do aconselhamento tem muitas vezes um efeito de acariciar o ego do
próprio conselheiro.

1.5.3. Modificar as informações não essenciais à mensagem em questão.

1.5.4. Em qualquer ilustração com implicações éticas, é sábio modificar as informações não essenciais que
possam identificar o conselheiro e/ou o aconselhando.

1.6. Proteção em caso de calúnia ou informações falsas a respeito do aconselhando.

• o conselheiro não deverá intervir, especialmente se a fonte das informações verdadeiras tiver que ser
revelada - neste caso é melhor que o aconselhando seja informado, e este mesmo poderá corrigir os
equívocos.

1.7. As maiores armadilhas à ética do aconselhamento estão no próprio conselheiro através de suas
necessidades não supridas, através de seus problemas pessoais não resolvidos e através de seus desejos não
tratados diante de Deus.

2. OUTROS ASPECTOS DA ÉTICA DO ACONSELHAMENTO.

2.1. Não falar acerca de outros conselheiros (criticando, censurando, etc), pois as informações fornecidas
estão na perspectiva do aconselhando e portanto, são unilaterais.

• há pessoas que peregrinam de conselheiro em conselheiro, e onde passam, precisam justificar-se pela falta
de crescimento e dificuldade de mudar de vida.

2.2. Não falar também a respeito de outras pessoas que não estejam em questão quanto aos problemas
tratados pelo aconselhando.

• de qualquer forma, freqüentemente é importante voltar o foco à pessoa em atendimento, quando esta
estiver se desviando de seus assuntos para falar somente sobre terceiros; isto é especialmente importante
quando se fala sobre terceiros sem a finalidade de crescimento pessoal.

2.3. O conselheiro não deverá tocar o aconselhando desnecessariamente, especialmente se for do sexo
oposto.

• é importante ser cordial, amável e afetuoso, mas também é importante ser discreto.
• pessoas tristes, depressivas ou perturbadas por experiências difíceis (ex. abuso sexual) podem ter naturais
e fortes desejos de afeto;
• casos de natureza sexual, problemas sexuais e conflitos envolvendo esta área são freqüentemente
acompanhados de sentimentos sensuais e de excitação.
• quando o atendimento é de crise, quando as pessoas que sofrem são conhecidas como amadurecidas
emocionalmente e espiritualmente, então certamente não fará nenhum mal se elas forem abraçadas ou
tocadas descentemente.

2.4. A natureza sensual do aconselhamento.

• os seguintes argumentos querem deixar claro que o aconselhamento implica em questões tão pessoais e
íntimas que se torna sensual em certo sentido.

2.4.1. O espaço do aconselhamento é reservado, portanto, eroticamente carregado.


As seguintes características são próprias do gabinete pastoral e também do recinto nupcial.

• Confiança,
• Proximidade,
• Temas íntimos e secretos,
• Mistérios,
• Privacidade,
• Satisfação de estar juntos,
• Duas pessoas com objetivos comuns,
• Confidências,
• Isolamento, etc.

Estas mesmas características podem ser referidas quando à convivência de um casal em seu habitat íntimo
no quarto nupcial.

2.4.2. Tratamento de questões sexuais.

• embora os problemas sexuais como impotência, frigidez ou outras dificuldades sejam assuntos que podem
muito bem ser tratados tecnicamente, as pessoas que tratam dos problemas também são de carne e osso, têm
sensações eróticas e fantasias diante do assunto sexo.
• o tema sexo evoca facilmente o lúdico; a brincadeirinha pode instalar-se como alívio de tensão; e desta
forma, os limites podem diluir-se.

2.4.3. A comunicação melhorada supre necessidades, e assim se desencadeia o desejo de mais; isto pode
acontecer tanto com o conselheiro quanto com o aconselhando; pois, muitas vezes o próprio conselheiro
não consegue a qualidade comunicacional em seu casamento que ele consegue produzir com seus
aconselhados no aconselhamento.

• portanto, cuidado com as carências.

2.4.4. Formas de contato íntimo, que podem assumir conotação sexual.

• Piadas ambíguas,
• Abraços,
• Olhares - os olhos são a janela da alma, revelam o mais profundo da essência humana,
• Duração do tempo do aconselhamento aumentado, sem limites claros, pode significar um envolvimento
afetivo e sentimental, pode significar uma transferência passional.

2.4.5. A atração, o fascínio do misterioso e do proibido.

2.4.6. O secreto sentimento de inveja.

• enquanto o conselheiro ouve a aconselhada, ele pode experimentar secretos desejos de experimentar
algumas vivências que ela teve/tem, ele pode sentir a vontade de estar no papel do marido dela;
• também a aconselhada pode desejar estar no lugar da esposa do conselheiro, quando este descuidadamente
revela sua vida pessoal; ela pode ter inveja da esposa do conselheiro, achando que este trata a sua esposa da
mesma forma que trata a sua aconselhada.

2.4.7. O aconselhamento pressupõe delegação de poder.

• quem busca aconselhamento, delega poder ao seu conselheiro de interferir na sua vida.
• e como qualquer oportunidade de poder se transforma em tentação, também no aconselhamento o
conselheiro se verá tentado a abusar e explorar as possibilidades deste poder.
2.5. O lugar adequado do aconselhamento.

- É como numa cirurgia: é preciso que haja assepsia, esterilização, etc.


- Deve-se evitar:
• distrações,
• escritório desarrumado,
• sons internos e/ou externos,
• luzes excessivamente forte ou penumbra,
• falta de privacidade,
• aconselhar numa esquina ou num estacionamento; OPORTUNIDADE DE OURO;
• cuidado com portas fechadas e suas possíveis interpretações e tentações;
• reuniões secretas;
• nem sempre a casa / o lar é o melhor lugar para o aconselhamento, isto é, quando a casa evoca reações
inadequadas ao aconselhamento: Ex. a pessoa se sente invadindo o espaço familiar, então é melhor achar
outro lugar;
• o melhor lugar, em geral, será o gabinete pastoral ou um escritório reservado, afastado de interferências
externas; pode ser a sala de uma casa.

2.6. Local e horários fixos e pré-estabelecidos.

• ajudam na estruturação de uma situação de aconselhamento e facilitam um procedimento ético.


• o que é feito rotineiramente evita a conotação de algo secreto.

3. OS ENCAMINHAMENTOS E AS INDICAÇÕES

• todo conselheiro deve reconhecer suas limitações.


• quando as dificuldades, quando o quadro ou os problemas fogem à formação acadêmica e profissional do
conselheiro, ele deverá estar preparado para encaminhar seu aconselhando.
• isto é um gesto de amor, e não de rejeição - isto é ético, e não relaxamento.
• é importante ter um arquivo com cadastro de profissionais nas várias áreas em que as pessoas poderão
precisar de ajuda.

“Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de


conselheiros há segurança”.
Provérbios 11:14
“Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos
conselheiros há bom êxito”.
Provérbios 15:22.