FILOSOFIA ÁRABE

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Caracteres do misticismo medieval Caracíceristicas e origens Bernardo de CJáraval 284 285

... ... Al-Kindi ...

... ...

§234. AI Farabi ... ... ... ... ... 188 §235. Avicena: a Metafisica ... ... 191 §236. Avicena: a Antropologia ... ... 198 §237. AI Gazali. ... ... ... ... ... 201 §238. Ibn-Badja ... ... ... ... ... 204 §239. Ibn-Tofail ... ... ... ... ... 205 §240. Averróis: Vida e Obra ... ... 207 §241. Averróis: FiIosofia e Religião ... 209 §242. Averróis: a Doutrina do Intelecto 211 §243. Averróis: a Eternidade do Mundo 215 Nota bibliográfica ... ... ... ... 219 ... ... ... 223

XI -A FILOSOFIA JUDAICA §244.

A cabala ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 225 §246. Saadja ... 226 §247. Ibn-Gebiroil: Matéria e Forma Gebirol: a Vontade ... ... 228 §249. ... 230 §250. Maimónidas: a Teologia §251. Maimõnidas: a Antropologia ... Nota bibliográfica ... ... ... ... 238

223 §24,5. Isaque Israeli ... ... ... ... ... ... 227 §248. IbnReacção contra a Filosofia ... ... 231 235

A FILOSOFIA ÁRABE § 232. FILOSOFIA áRABE: CARACTERíSTICAS E ORIGENS Entre as causas que mais eficazmente estimularam a actividade cultural do Ocidente no século XII, estão as relações com o mundo oriental sobretudo com os Árabes. Com efeito, o mundo árabe tinha já assimilado, nos séculos precedentes, a herança da filosofia e da ciência gregas, que ainda permaneciam em grande parte, ignoradas pela cultura ocidental: esta conhecia delas apenas o que tinha conseguido filtrar-se através da obra dos autores latinos e dos Padres da Igreja. Por outro lado, e sobretudo por isso, a filosofia árabe surgia aos olhos dos pensadores ocidentais como a própria manifestação da razão e, por isso, como uma força de libertação dos entraves postos pela tradição. Adelardo de Bath não hesitava em contrapor o que tinha aprendido " com os mestres árabes, orientado pela razão", ao "cabresto da autoridade" a que estavam submetidos os que seguiam a tradição (Quaest. nat., 6). Em terceiro lugar, a filosofia oci183 dental tinha, em comum com a filosofia oriental, a própria natureza dos seus problemas. Também a filosofia árabe é uma escolástica, isto é, uma ten-

tativa para encontrar uma via de acesso racional à verdade revelada; e a verdade que se pretende alcançar, a que está contida no Corão, tem muitas características semelhantes à verdade cristã. Em suma, tal como a filosofia cristã, a escolástica árabe vive à custa da filosofia grega, especialmente do neoplatonismo e do aristotelismo. Tudo isto explica a influência e a profunda penetração que o pensamento árabe exerceu na escolástica cristã no século XIII e XIV. Todavia, em certos pontos, as duas escolásticas deviam revelar-se inconciliáveis. A síntese a que chegaram os maiores representantes da escolástica árabe, Al Farabi, Avicena e Averróis, surge-nos de acordo com o principio da necessidade. A necessidade domina o mundo divino e humano; tal é a convicção dos grandes filósofos árabes. E a isso não se furta o mundo das coisas finitas que é necessário não por si, mas pela sua dependência de Deus: nem mesmo a vontade humana, dominada por uma cadeia causal que, através dos acontecimentos do mundo sublu. nar e dos movimentos da esfera terrestre, tem como motor o Ser necessário. A escolástica latina, ainda que tenha recebido o aristotelismo através dos árabes, deverá no entanto tentar subtrai-lo ao princípio da necessidade e introduzir nele um princípio de contingência quepermitisse salvar, ao mesmo tempo, a liberdade criadora de Deus e o livre arbítrio do homem. A primeira actividade filosófica nasceu entre os Árabes da tentativa de interpretar certas crenças fundamentais do Corão. Assim a seita dos Quadáries, afirmava o livre arbítrio do homem perante a vontade divina, enquanto que a dos Jabaries defendia o fatalismo absoluto. No século 11 da FIégira 184 (732-832),. expande-se a seita dos Motazeis ou dissidentes, que afirmavam enèrgicamente os direitos da razão na interpretação da verdade xeligiosa. Foram eles que divulgaram o Kalam. (ciência da palavra), ou seja, a teologia racional. A partir do califado de Haroun al-Raschid (785-809), os árabes começaram a familiarizar-se com a cultura grega. As traduções árabes das obras de Aristóteles e dos outros autores gregos deveram-se, em geral, a sábios cristãos sírios ou caldeus, que viviam, em grande número, como médicos na corte dos Califas. As obras de Aristóteles foram traduzidas em grande parte das traduções sírias que, desde a época do imperador Justiniano, tinham começado a difundir no Oriente a cultura grega. Entre as obras que exerceram mais profunda influência no pensamento árabe conta-se uma Teologia atribuída a Aristóteles, que é formada por uma centena de passagens tiradas das Eneadis de Plotino, e o Liber de causis, que é a tradução dos Elementos de teologia de Próculo. Além destes textos e das obras de Aristóteles, contribuiram para formar o pensamento árabe, os comentáfios de Alexandre de Afrodísia, os diálogos de Platão, especialmente a República e o Timeu, e as obras científicas de Euclides, Ptolomeu e Galeno. Uma reacção da ortodoxia religiosa contra as novidades introduzidas pelos filósofos foi desenvolvida pelos Mutakallimun (os que discutem). A afirmação fundamental dos Mutakallimun é a novidade e discontinuidade do mundo, que toma necessária a existência de um Deus criador. Adoptam a doutrina atómica de Dernócrito, que provàvelmente conhecem através da exposição de Aristóteles. Segundo eles, os átomos não têm nem quantidade nem extensão, e são criados por Deus sempre que ele quer. As coisas resultam da agregação dos átomos e as suas qualidades não poderão durar dois 185 instantes, ou seja, dois átomos de tempo, se Deus não interviesse continuamente na sua criação. Quando Deus deixa de criar, as coisas, as suas qualidades e os próprios átomos, deixam de existir. A discontinuidade toma necessária a acção incessante e criadora de Deus o garante a liberdade na criação. A reforçar esta tese, os Mutakallium negavam a relação de

na verdade. ao nous ylikós e ao nous epiktetós de Alexandre. A parte do comentário aristotélico de AI-Kindi que chamou a especial atenção dos escolásticos latinos é a que diz respeito à doutrina do intelecto. Foi um dos autores que o califa AI-Mamún encarregou de traduzir as obras de Aristóteles e de outros pensadores gregos. Deus é causa agente e eficiente e produz directamente todos os efeitos do mundo criado. relações de causa e efeito. Escreveu um grande número de obras de filosofia. afirma ele. e em parte se opõem a elas na tentativa de se manterem ficis à doutrina dos filósofos gregos e especialmente a Aristóteles. Os Árabes deram-lhe o título de Filósofo por execelência. Enumera quatro intelectos: "0 primeiro é o que está sempre em acto. o quarto é o intelecto que chamamos demonstrativo: este último. Quando uma forma inteli1 givel se une à alma. Assim. Foi autor de numerosos comentários aristotélicos.Kindi é o primeiro dos filósofos árabes que se relaciona explicitamente com a tradição grega.causalidade entre as coisas. Mas o Intelecto que está sempre em acto. astronomia. que é ao mesmo tempo aquilo que conhece e o que à conhecido. mas. 186 § 233. o movimento da pena. ainda que permaneça fogo. o segundo é o que está em potência na alma. é inteligente em potência: passa a ser inteligente de modo efec187 fivo pela acção do Intelecto primeiro. O movimento filosófico determinado pelas posições destas seitas vem a ser substituído a seguir pela acção de verdadeiras e próprias personallidades filosóficas que. esta forma e a inteligência da alma passam a ser uma só e mesma coisa. Aristóteles assimila-o aos sentidos porque os sentidos estão próximos da verdade e em comunicação com ela". a faculdade de a fazer mover. As coisas criadas não têm. de uma forma nítida.XINDI A. Um outro texto foi traduzido com o título De intellectu. mas a razão não se nega a admitir que o fogo poderá mover-se em direcção ao centro e a produzir frio. afirmando que todas as qualidades acidentais nascem e desaparecem únicamente por um acto de criação da vontade divina. o terceiro é o que na alma passa da potência a realidade efectiva. Mais que causa primeira. Al-Kindi teve a pretensão de expor as opiniões de Platão e Aristóteles. O fogo tende a afastar-se do centro da terra e a produzir calor. por exemplo. e devia ter falecido em 873.I-. Viveu em Bagdad. "A alma. assim chamados devido a Abul-Hassan AIAshari (873-935). AL. matemática. quando um homem escreve. o movimento da mão. em parte. segue de perto a interpretação de Alexandre de Afrodísia (§ 111). quando dirige o seu olhar para este. a dos Asharies. Deus cria quatro acidentes que não estão ligados entre si por nenhum nexo causal: a verdade de mover a pena. de Bassora. No princípio do século estas doutrinas dos Mutakallium foram retomadas por uma outra seita. política e música. Os asharies exageram ainda a doutrina da criação directa por parte de Deus. Gerardo de Cremona traduz no século X11 um texto seu com o título Verbum Jacob Al Kindi de intentione antiquorum in ratione. Em AI-Kindi surge pela primeira vez. entre si. o quarto é a alma sensitiva. Os nexos causais não têm qualquer necessidade intxínseca. são estabelecidos únicamente por Deus. utilizam e continuam as doutrinas das próprias seitas. o princípio típico do aristotelismo árabe que atribui directamente ao intelecto de Deus a iniciativa do processo de conhecer do homem. e que atrai a alma para a . medicina. Destes quatro intelectos os três primeiros correspondem respectivamente ao nous poieticós.

o puro objecto pensado. continua a tradição enciclopédica de AI-Kindi. portanto. Do ser necessário. "É o acto de pensamento na sua pureza. a possibilidade da própria forma: funciona como matéria. Escreveu uma obra sobre as ciências. que são próprios do homem. os vários intelectos. a existência e a forma. por isso. destruct. Uma coisa possível não pode passar ao número das coisas necessárias. pois esse ser não tem uma essência distinta da sua própria existência. que se relacionam entre si como a matéria e a forma. que teriam sido os primeiros a distinguir o ser em possível e necessário e teriam afirmado que para se pensar num ser possível há que pressupôr a existência de um agente que o 188 faça passar a acto. que é o divino. é preciso que o agente do mundo seja um ser necessário (Destr. (Dieterici. E na . Em AI Farabi. todas inspiradas no pensamento aristotélico. o intelecto que conhece e o inteligível que é conhecido são a mesma coisa". o puro sujeito pensante. All Farabi ensinou em Bagdad e morreu em Dezembro do ano de 950. Ao afirmarse que uma coisa dotada de existência possível não existe. encontra-se pela primeira vez a distinção entre a essência e a existência e que iria ter uma tão grande Importância na filosofia de S. O ser necessário é único e nenhum outro além dele possui uma verdadeira substância: escapa a todas as categorias e a todas as distinções de matéria e de forma. 1. 5). De intelectu. De scientiis. o intelecto e o inteligível que a alma co"ece não são a mesma coisa. em relação à alma. nas coisas. mas também como matemático o médico. Tem actividade perfeita e perfeita vontade. ambas procedentes do exterior: a existência do primeiro Ser pela via da criação. não se identifica com o que é conhecido.converter em intelecto efectivo. fazemos uma suposição absurda. Na realidade. Averróis faz Temontar esta distinção aos Mutakallimun. sapiente e vivente. Tomás. a primeira origem desta distinção está no Liber de causis que. se afirmamos o ser necessário como não existente. 9) distingue. Algazelis. as três coisas seguintes são apenas uma: é sábio. Segundo AI Farabi. a potência e o acto. nasce o primeiro Intelecto. não se enuncia nenhum absurdo. Nele. Mas no Liber de causis a existência é o substracto receptivo da forma. Pelo contrário. e como o mundo no seu todo é possível. O Liber de causis (cap. § 234. no pensamento árabe a relação inverte-se e a essência ou forma será considerada como matéria ou possib'. é uma das principais fontes de inspiração da especulação árabe. Do Ser necessário enquanto se conhece a si próprio. afirma AI Farabi. 4. assim chamado por ser natural de Farab e que foi célebre entre os muçulmanos não apenas como filósofo peripatético. um texto sobre o intelecto. Em relação ao Intelecto primeiro. que por sua vez conhece o Ser necessário e a si próprio. AL FARABI AI Farabi. senão através da acção de um ser nocessário. 93-96). de intelecto potencial que era. p. 189 A distinção entre o ser necessário e o ser possível será fundamental para todo o pensamento árabe e também para a escolástica latina posterior. e ainda outras obras de ética e de política. como já foi dito.lidade e a existência como acto. Está implícita nesta doutrina de AI-Kindi a separação entre o Intelecto activo. Goza de uma imensa felicidade na sua própria substância e é o primeiro amante e o primeiro amado". AbhandIungen. a forma das Inteligências subordinadas pela via das impressões. e. tudo o que existe é ou possível ou necessário. nascem. uma vez que para receber a existência essa coisa precisa de uma causa. e os outros intelectos. Alfarabis philos. e precisamente do acto com que o ser necessário se pensa a si próprio (segundo o esquema de Plotino).

era persa de origem e nasceu em Afshana (perto de Bokara) em 980. então o homem torna-se num sábio-filósofo. aos 17 anos era já famoso como 191 médico e teve a sorte de curar o príncipe de Bokara. 96). partiu para Ispahan. À alma humana pertence o intelecto em potência. 59). que. que os escolásticos latinos cognominaram de Avicena. que o colmou de favores e pôs à sua disposição a imensa biblioteca do seu palácio. De tal modo o Intelecto agente é considerado por AI Farabi que o considera um dom da iluminação divina. Dotado de inteligência precoce. é a causa dos quatro elementos que compõem o mundo sublunar. Trata-se do intelecto agente. Este último intelecto é a causa da existência das almas humanas e. produz o primeiro céu na sua matéria e na sua forma. Deste modo o intelecto adquirido é forma do intelecto em acto.. fazendo do homem um profeta ou um chefe. Do segundo intelecto dimana.. um outro intelecto e um outro céu que se situa abaixo do primeiro. O total meranismo do conhecimento vem assim a ser dependente 190 da acção do Intelecto agente. Avicena foi para Sorsan. p. dirigiu-se para Hamadan. dirigindo-se a noções mais gerais e mais elevadas é obra do intelecto adquirido. como se viu. 71-72). § 235. nasce pela reflexão do Ser necessário: e assim também a sua acção se integra na necessidade própria deste ser. que é a alma. se transforma em intelecto em acto e conhece as formas inteligíveis das coisas. é forma do intelecto em potência (lb. num iluminado. no entanto. porque as tropas descontentes com ele. que . Depois da morte do seu protector. que pela acção do intelecto activo.medida em que conhece o Ser necessário. A esta acção AI Farabi faz ligar também a qualidade mais elevada que o homem pode alcançar. em acto e adquirido. num vidente e esperar ser chefe na cidade ideal. enquanto se conhece a si próprio. mas sobre as faculdades representativas de um homem. A necessidade exclui toda a possibilidade de escolha: o conhecimento com que o Ser necessário produz tudo está necessàriamente conexo com a sua própria essência e não separa a necessidade (1b. do mesmo modo. que é o intelecto adquirido. Avicena compõe então várias partes da sua grande obra sobre A Cura (AI Scifà). porque nenhum está em posição de o dirigir mas ele está em posição de dirigir todos (lb. AVICENA: A METAFíSICA Ibri-Sina. Mais tarde. de cada intelecto nasce sempre um intelecto o um céu. onde foi designado Visir do príncipe dessa localidade. O Ser necessário. p. a sapiência e a profecia. E assim. o príncipe salvoulhe a vida e manteve-o junto de si como médico. produz um segundo intelecto. A sua actívidade como tal quase o levou à morte.. quando o Intelecto agente consegue transportar o intelecto potencial de um homem ao seu grau mais alto. O princípio eficiente de todo o conhecimento humano é o Intelecto agente. No entanto. Mas o Intelecto agente. formas que se identificam com ele. por sua vez. onde se torna secretário do príncipe. em colaboração com as esferas celestes. este homem pode transformar-se num profeta. p. Obrigado a abandonar a cidade em virtude das desordens que surgiram. até se chegar a um intelecto privado de matéria e que por si não pode originar a formação de uma nova esfera celeste. A necessidade reflecte-se portanto em todas as coisas do mundo: a própria vontade humana surge determinada pela cadeia das causas naturais que tem como origem primordial a causa absoluta. e o mecanismo atribuido ao intelecto é utilizado também para uma explicação racional da revelação religiosa original. mas quando o próprio Intelecto agente actua. não sobre o Intelecto. haviam-no prendido e pedido a sua morte. onde abriu uma escola pública e deu início ao seu célebre Cânone de medicina. cuja distinção AI Farabi retoma de AI Kindi. do qual dependem os outros três intelectos (própriamente humanos): em potência. Com efeito. A elaboração destas formas conceptuais.

caiu enfermo e morreu naquela cidade em 1307. Com efeito. O seu Cânone de medicina foi a obra clássica da medicina medieval. Mas com tudo isto. a . é ela que permite afirmar com certeza a Tealídade das coisas que o intelecto não pode demonstrar ou apenas pode reconhecer a possibilidade (De divis scient. Livro de ciência. A Wa de 1bn-Sina. 1). e o reconhecimento da sua importância. p. tal como o de AI Farabi. Tendo acompanhado o seu príncipe numa expedição contra Hamadan. Os fundadores da fé não distinguiram nem esclareceram o conteúdo das suas doutrinas. Plotino (que Avicena. As edições latinas das obras de Avicena são traduções de uma ou de outra parte das suas obras principais. por outro lado a tradição religiosa. a Metafisica. não distingue do primeiro e a que atribui a Theologia. As fontes desta filosofia são Aristóteles. o ocidente latino conhece bem pouco a obra de Avicena. No fim do século XII Gerardo de Cremona traduz o Cânone de medicina. Lógica oriental. Juizo imparcial entre os orientais e os ocidentais. 2). através destas traduções de Avicena. levaram os estudiosos modernos a publicar e a traduzir algumas partes inéditas. quase toda a obra de Aristóteles. Estas viagens contribuiram para perigar a sua saúde. como pela ocidental e ainda pela ciência (e especialmente pela biologia e medicina). e dedicava-se de bom grado ao amor e à bebida.acompanhou frequentemente nas suas expedições. 138. Livro das directivas e das notas. p. definiram apenas os princípios e os fundamentos: cabe aos filósofos expôr e elucidar claramente o que está obscuro e oculto (De defin. e uma centena de passagens das Eneadis) e AI Farabi. Rápidamente. o De caelo e muitos dos escritos científicos. Os filósofos acrescentaram à doutrina transmitida o discurso e as considerações demonstrativas. fol. Entre estas têm importância para a filosofia: Tratados místicos. Avicena descreve em termos nitidamente escolásticos o objectivo da filosofia: o de demonstrar e esclarecer racionalmente a verdade revelada. Domingo Gundisalvo e o judeu Avendeath 192 traduzem a Lógica. uma parte da Física. A actividade de Avicena estende-se a todos os campos do saber. contudo. fol. era um resumo do primeiro. et quaest. O título desta última obra levou a pensar num ramo teosófico ou místico da filosofia de Avicena em contraste com as directrizes filosóficas e racionalistas das obras que conhecemos. quer pela filosofia oriental.. mas é sobretudo dos Estoicos que se aproxima o seu conceito do mundo como o domínio de uma força racional que o orienta com infalível necessidade. Com efeito. Epístola das definições. representada pelos profetas. O princípio da especulação de Avícena é. não só pelos fragmentos das suas obras que temos sobre a lógica. como também pelo conteúdo do Livro das directivas que pertence aos últimos anos de Avicena e que não testemunha qualquer mudança sensível nas conclusões da sua filosofia. entre o fim do século X11 o o princípio do século XIII. Os fun193 dadores da fé ensinaram e transmitiram a sua doutrina por virtude da inspiração divina. escrita pelo seu discípulo Sorsanus foi traduzida para o latim e imprimida no início de diversas edições das suas obras. dividido em três partes. estende o domínio da verdade humana para lá dos limites que a demonstração necessária pode alcançar. já de si comprometida por uma vida agitada e laboriosa: Avicena amava a vida. As obras que interessam à filosofia são o Livro da Cura (AI Scífà) e o Livro da Libertação (AINajah): o primeiro era uma vasta enciclopédia de ciências filosóficas em dezoito volumes. a sua obra é vastíssima (provàvelmente mais de 250 obras). que é parte de uma grande obra perdida.. o Ocidente cristão vem a conhecer. 144. Mas se a filosofia vem acrescentar à tradição religiosa as considerações demonstrativas. de que apenas conhecia a lógica. Na realidade não existe qualquer base para uma tal laipótese: que é desmentida. o segundo. com a idade de 57 anos.

necessita que seja possível em relação a si própria e necessária em relação a uma coisa diferente (Met. testemunha tudo o que vem a ter existência depois dele". absolutamente simples. Avicenaexpõe um conceito do possível bastante mais preciso e rigoroso do que aquele que tinha sido admitido por Aristóteles. 3). em razão disso. que todo o possível exige e ff-eclama o ser necessário como causa da sua existência actual. 2. mesmo privado de possibilidade ou de matéria (Met. o ser que não existe em virtude da própria essência existe apenas como efeito do ser necessário. 2. 11.. 1. afirma Avicena. O ser que é necessário por si é. a necessidade da própria criação divina) é o ponto fundamental em que a doutrina de Avicena surgia contrastante das exigências da escolástica cristã. como existência em acto. e ele mesmo. o ser 195 necessário introduz em todos os ramos e formas da existência a sua própria necessidade. Em segundo lugar. 194 sendo inteligível apenas por essa essência.. o que é possível e existe apenas em virtude do ser necessário já não é simples e implica em si dois elementos: aquele pelo qual é possível em relação a si mesmo. Isto implica. O possível mantém-se como tal até ter existência em acto: quando recebe a existência em acto. 3). 11. Esta distinção será o fundamento do princípio da analogicidade do ser. mas com esta acção toma-se ele próprio necessário na sua existência (ainda que o não seja na sua essência). Com efeito. p. Este conceito do ser necessário (necesse esse) é o ponto de referência de toda a especulação de Avicena. por isso não é simples. Avicena interpreta a distinção aristotélica de matéria e forma como distinção entre o possível e o necessário: a matéria é possibilidade. franc.. mas pode acontecer sê-lo de modo necessário em virtude de uma coisa diversa (1b. afirma. e aquele pelo qual é necessário em relação a outra coisa. 11. o ser é testemunho de si enquanto ser. 371-372). . ner-essáriamente é formado por matéria e por acto. (1b. 3). é necessidade. 146. sem deficiências e sem matéria.. A possibilidade e a necessidade conjugam-se na formação da sua natureza respectivamente como a matéria e a forma. sem vínculos. não obstante esta exclusão de todo o possível da realidade. em virtude da sua própria essência. em consequência. Todo o ser enquanto tal é necessário. ele é fundamento da distinção real entre a essência e a existência que viria a tornair-se um dos maiores temas especulativos da escolástica cristã no século XIII e especialmente do tomismo. Esta eliminação radical da contingência do ser (implica. Toda a contingência ou possibilidade real fica excluída uma vez que o possível não pode passar ao ser sem ser através da acção do necessário. o ser necessário é o ser que existe por essência ou cuja essência implica a existência. O que é possível perinanece sempre possível em relação a si próprio. A propriedade essencial do que é possível é precisamente esta: a de exigir necessàriamente uma outra coisa que a faça existir em acto. No Livro das directívas. recebe ao mesmo tempo a necessidade. fundamental para o tomismo. A existência em acto é portanto necessária. Em primeiro lugar. Convém no entanto salientar que.necessidade do ser. interessada em manter a liberdade da criação e na criação. além do mais. É um ser simples. no entanto. em primeiro lugar. Com efeito. a forma. "Se uma coisa não é necessária em irelação a si própria.. trad. em segundo lugar. E. Se o ser necessário é absolutamente simples. implica que o ser necessário exista por si. O que não é necessário por si. P. Avicena insiste na superioridade desta prova de Deus extraída da simples consideração do ser: "Quando consideramos o estado do ser.

com efeito. No segundo sentido. óbviamente. remonta aos acontecimentos terrestres. Estas últimas são por ele conhecidas quer atravé s das suas espécies quer através das respectivas individualizações. trad. nem necessidade. o nem o impossível nem o necessário podem dizer-se possíveis (Livre des directives. A derivação do mundo provemente de Deus verífica-se (como Ail Farabi havia dito. o possível é uma terceira alternativa ailém do impossível e. Também a Providência. procede necessàriamente da essência divina. como tudo o que passa da simples possibilidade ao ser. A sua essência sabe pois que a sua própria perfeição e a sua própria excelência consistem nisto: que o bem deriva dela" (lb. p. Não subsiste uma intenção criadora na Causa primeira: esta intenção implicaria uma multiplicidade de elementos na natureza do Uno. através da ciência que Deus tem de si. IX. tal como acontecia já com AI Farabi. franc. se exercita do mesmo modo: Deus conhece a ordem. Mas a série das causas que o produzem remonta mais além da própria alma. sabe que a existência de todos os seres surge de si. As decisões da nossa vontade devem ter uma causa. A derivação de todos os seres do Ser necessário não é uma criação intencional. 138-141).. reproduzindo Plotino) através do pensamento isto é. nada escapa ao princípio de que todo o ser é necessário: nem mesmo a vontade humana.. 35. e tudo isto é absurdo. que é o próprio. 4). enquanto seres mutáveis. Não existe em Deus nem desejo. neste sentido o que não é possível é impossível e portanto o próprio necessário é possível. liga o conceito platónico do uno ao conceito aristotélico do Acto puro. mas quando conhece estes entes mutáveis. e ao mesmo tempo identifica o Uno e o Intelecto. "A Causa primeira é uma inteligência única. da auto-reflexão divina.segundo a qual o bem 197 se distribui no mundo e por este simples conhecimento o próprio bem deriva d'Ele de tal forma que d'Ele deriva a ordem mais perfeita possível (Ib. W. do necessário em tal caso o possível é o que pode ser ou não ser. "Como princípio de toda a existência. e aquilo de que é causa. que ao invés é siraplicíssimo.pectiva mutação.. Seria necessário que a ciência e a bondade da Causa primeira a coagissem a ter essa intenção ou que a mesma lhe fosse sugerida pela consideração de uma utilidade ou de uma vantagem que lhe poderia advir. p. 6). o Uno conhece por si as coisas de que é 196 princípio: sabe que é princípio das coisas cuja existência é perfeita na sua singularidade (as coisas celestes) e também das coisas que estão sujeitas à geração e à corrupção. Ora os aconos celesLecimentos terrestres são determinados pel tes. nem intenção: Deus é causa em virtude da sua própria essência. O mundo é assim tão eterno como Deus.. dois sentidos do possível.. não os conhece com uma inteligê ncia individual" (1b. VIII. não os conhiece a eles e à res. que os neo-platónicos distinguiam. A absoluta simplicidade do ser necessário consente em Avicena que seja entendido como absoluta unidade. que se conhece a si própria: daí o conhecer necessáriamente tudo o que de si resulta. que ela é principio e que não há nada na sua essência que impeça às coisas de derivarem de si. neste segundo sentido o possível subtrai-se a todos os paradoxos a que dava lugar na lógica. ou seja o governo do mundo.Avicena distingue. portanto a série de . de Aristóteles (§ 85). e com maior razão com a própria Unidade no sentido neo-platónico. 6). 34. Para ele. Avicena. Avicena é verdadeiramente o filósofo da necessidade absoluta. No primeiro sentido possível é o "não impossível". o mundo.

o intelecto em potência ou intelecto possível. mas isso deve-se à multiplicidade das circunstânoias de que depende o acontecimento futuro. Em terceiro lugar. afirma Avicena. "Se fosse possível a um homem conhecer. isto é. Não podem derivar esses princípios da experiência sensível: não podendo portanto serem fundamento de um juízo necessário. por análise e síntese. encontra-se apenas nas crianças. por exemplo "0 todo é maior que a parte" ou "Dois contrários não podem simultâneamente pertencer a uma única coisa". são pois os dois meios fundamentais pelos quais a alma humana adquire e enriquece os seus conhecimentos racionais e constituem o intelecto adquirido. Existe uma via directa de aquisição. porque não excluem o juizo contrário àquele que sugerem. A inteligência em potência. a alma adquire o conhecimento dos primeiros princípios. É claro que o astrólogo não pode pela simples observação do movimento dos corpos celestes obter predicções infalíveis. mediante emanação 198 ou infusão divina.. As outras formas inteligíveis ou conhecimentos racionais são adquiridos pela alma por via de abstracção da experiência sensível. a que se dá o assentimento de forma imediata como. Intervém então a actividade discursiva do intelecto. Em primeiro lugar. muitas das quais se subtraem às suas considerações. Donde se deduz a justificação das predicções astrológicas. Em segundo lugar. AVICENA: A ANTROPOLOGIA O que distingue os animais dotados de razão daqueles que dela são privados é o poder de conhecer as formas inteligíveis. e através dos sentidos. por meio do raciocínio discursivo e do pensamento demonstrativo: deste modo a alma conhece as espécies inteligíveis que são objecto da consideração lógica. sem qualquer ensinamento ou qualquer aquisição de origem sensível: é deste modo que ao homem é dado o conhecimento dos primeiros princípios. Uma vez que. todas as coisas que acontecem no céu e na terra na sua natureza. não se tratando portanto de falsidade ou insuficiência da ciência astrológica. de tal modo que é ao mesmo tempo sujeito e objecto de conhecimento (intelligens et intellectum). idêntico com as próprias espécies.todos os efeitos depende necessàriamente da necessidade da vontade divina. obtém-se o conhecimento dos primeiros princípios. a simples substância intelectual. conheceria todos os acontecimentos futuros e também o modo como aconteceriam" (Metaf. A abstracção e a actividade discursiva que compõem e dividem. Mediante as espécies inteligíveis que assim advêm à alma. Tais princípios são as verdades imediatamente evidentes. § 236. o intelecto está já em acto e a sua actividade pode enriquecer o património inteligível que lhe foi subrainistrado pelo alto. que procede por composição e divisão. mas é excepcional e reservada a poucos: "Em alguns homens a vigília prolongada e uma certa união íntima com o Intelecto universal (isto é. ou seja. 1). X. Estes princípios devem ser portanto o produto de uma imanação divina à qual a alma se encontra unida continuamente ou de forma interrupta. Este poder é a alma racional a que se costuma também chamar intelecto material. que estão ainda privadas de toda a forma ou espécie inteligível.dade de qualquer raciocínio discursivo ou do . As formas inteligíveis formam a alma de três modos distintos. o Intelecto em acto de Deus) conferiram ao poder da razão uma tal disposição que a alma racional destes homens deixa de ter necess). com a ajuda de uma capacidade natural e inata. Em seguida. o intelecto em potência transforma-se em intelecto em acto. sem a ajuda de qualquer ciência ou de qualquer meditação. em virtude de tal imanação. e este exercício é determinado pelos primeiros princípios que a alma 199 possui.

segundo Avicena. a continuidade que une a alma ao Ser que a aperfeiçoa e do qual depende não será suprimida. não devem ser desprezadas pelo sábio (lb. a tal ponto. fol. com o Ser necessário. 10. platónicamente uma prova de imortalidade da alma: " Quando a alma se encontrar separada do corpo. da qual deriva e da qual depende a sua perfeição. onde se dedicou a vida contemplativa dos Súfi (místicos) e compõe grande número de escritos com o objectivo de estabelecer a superioridade do Islamismo sobre todas as outras religiões e sobre a própria filosofia. a felicidade consiste na contemplação do ser necessário. O amor de que Avicena fala nos Tratados místicos é portanto. A esta disposição dá-se o nome de santidade e a alma que dela é dotada é uma alma santificada. o mais célebre dos teólogos muçulmanos. p. p. Mais tarde retirou-se para Tous. cada uma de acordo com o modo ou via que lhe são próprios. nasceu em Tous do Khorasan. 24). Avicena relaciona a imortalidade. na dependência da substância superior que se chama Intelecto universal e que os doutores das diferentes religiões designam por Sapiência de Deus" (De an. tal como a santidade e a sabedoria. Ensinou. A união continua com a realidade. renunciando a certos bens nesta vida para terem depois a recompensa na outra (Livre des directives. Avicena insiste em sublinhar a superioridade do sábio sobre os outros homens: o sábio actwa desinteressadamente com o único objectivo de se ar)roximar da verdade. para o fim supremo. No homem e sobretudo no sábio. ou seja. em 1059. Mas esta graça e esta dignidade são apenas concedidas aos profetas e aos apóstolos. com a acção do Intelecto divino. e de harmonia com as concepções aristotél.cas a tendência das coisas para o bem. chainado pelos escolásticos latinos Algazel. trad. 199. em primeiro 201 lugar no colégio de Bagdad. colocando a coberto de qualquer corrupção. Restauração das ciências religiosas. nos quais se encontra a salvação" (De an. 485-487). AI Gazali. p. franc. 200 MAIMõNIDAS Deste modo. Por conseguinte a alma permanece depois da morte sempre imortal. este amor é desejo de contemplação do ser necessário. enquanto que os outros homens actuam por uma espécie de troca comercial. franc. sua cidade natal. obra de . tendência que garante a ordem e a perfeição de tudo.socorro da reflexão para conhecer e aumentar a sua ciência. que é proporcionada pela filosofia. fol 34). 221. e do bem supremo aproximam-se igualmente todas as coisas criadas. p. 8. A via mística coincide assim com o conhecimento filosófico e a ambos se opõem todas as formas populares de culto religioso que no entanto. Através da filosofia o homem aproxima-se do Bem supremo que é também a sua origem. Jerusalém e Alexandria. depois em Damasco.. 524). Mas isto é sem dúvida uma excepção: para os outros homens a relação imediata com a imanação ou com o ser de que provem é limitada e não constante porque o corpo o impede. trad.. O mais célebre destes textos teológicos.. AL GAZALI Em oposição ao espírito filosófico de Avicena surge-nos o espírito xeligioso de AI Gazali. que ela nunca fica destruida nem mesmo quando se afasta ou separa dessa mesma realidade. isto é. na ciencia deste ser. Desta situação Avicena extraía.. Mas uma vez que o Ser neccssário é também o bem. intitula-se. § 237.

Mas esta evidência apenas se refere ao facto de que a combustão se dá juntamente com o fogo. onde funda um mosteiro para os Súfi e passa o resto dos seus dias na contemplação e nas práticas religiosas. não pode por si explicar qualquer acção. Domingo Gundisalvo traduz duas obras de AI Gazali: As tendências dos filósofos e A destruição dos filósofos. A relação existente entre o fogo e a combustão de um objecto qualquer. portanto. "0 fogo é algo de inanimado. em primeiro lugar. e limita-se a fazer um inventápio das doutrinas destes filósofos. Mas conhecendo-se a si própria. pelo contrário. alteração que não pode conciliar-se com a sua necessidade eterna. AI Gazali. não 203 é determinada pela acção do fogo. isoladamente. A doutrina de Avicena é uma filosofia da necessidade: Deus é o próprio ser necessário. Morre em 1111. dele não poderia derivar a multiplicidade das emanações e das coisas criadas. Tendo abandonado o seu retiro. para além dele" (Destr. a não ser a da evidência de que ao aproximar-squalquer coisa do fogo se verifica a combustão. tudo é produto da causa primei. dos vícios e das virtudes. AI Gazali combate. AI Gazali não faz mais que expor em síntese os resultados da filosofia do seu tempo. No final desta segunda obra. A possibilidade de existência do milagre permanece. Em meados do século XII. dispõe-se a afirmar enérgicamente a liberdade da acção divina. dub. a que Avicena tinha reduzido tanto Deus como o mundo. Neste livro.teologia e de moral dividida em quatro partes que tratavam das cerimónias religiosas. é a de Avicena. Mas a acção de Deus é livre e não está ligada a qualquer ordem determinada. Porque razão haveríamos nós de o considerar activo? Os fi-lósofos não têm outra razão para afirmarem tal. não exclui portanto que haja outra causa. . em Deus. evita fazer críticas. principalmente de AI Farabi e de Avicena. uma relação causal. 3). garantida. culmina com a crítica ao próprio conceito de necessidade. das prescrições relativas às diversas circunstâncias da vida. conhece também todas as coisas criadas. Não parece que seja necessário existir entre as coisas que acontecem. As suas críticas devem portanto dirigir-se no sentido de desmantelar as razões dessa ordem necessária. AI Gazali retoma a direcção do colégio de Bao. é Deus. absoluta necessidade. Esta outra causa. Se este ser fosse. Na parte positiva do seu sistema remete para a sua obra sobre a Restauração das ciências religiosas. Segundo Avicena. Na primeira. mas pela acção directa de Deus. Segundo Avicena. uma vez que ele não vê em Deus o ser necessário. isto é. Causa e efeito são perfeitamente distintos uma do outro e não estão ligados entre si quanto às respectivas existências. A única filosofia que AI Gazali toma em consideração. a única verdadeira causa. esta alteração não oferece apoio a qualquer objecção. o conceito de necessidade no próprio ser necessário. expresso no piincípio causal. propõe-se apresentar certos raciocínios que se opõem à argumentação dos filósofos e que pretendem demonstrar a nulidade destes.dad. o que significa que contém em si essas mesmas coisas e que. e também o mundo como 202 realidade em acto é necessário em relação a Deus. mediante o simples conhecimento que a mesma tem de si. à necessidade e também à eternidade do mundo. A crítica de AI Gazali à necessidade própria da essência divina. AI Gazali mostrase essencialmente negativo. 1. pressuposto de toda a atitude religiosa. pelo contrário..ra. E compreende-se.. O mundo foi criado por um-a vontade eterna que tinha decretado a existência e que tinha atribuído a tal existência limites definidos no tempo. como Avicena afirma. não é assim tão simples e necessária como se afirma. regressa novamente a Tous. de qualquer género. deste modo. para AI Gazali. Na segunda obra. Mas. mas nos últimos tempos da sua vida. e não que ela provenha do fogo. ao ligar-se à tradição dos Mutalcallimun. na sua Destruição dos Filósofos. destruct. Com efeito. isso implicaria uma alteração na vontade divina.

que é a união com o intelecto em acto. filho do vigilante (HajjJaqzân). Abubekr morreu em 1185. ou seja. de redigir uma análise clara exacional de Aristóteles. e foi célebre como médico. IBN-TOFAIL Ibn-Tofail ou Abubekr nasceu à volta de 1100 em Uadi-Ash (Guadix). mas a prática é o fruto". lbn-Tofail faz nascer o protagonista. Avempace propunha-se dar a entender o modo como o homem pode chegar a identificar-se com o intelecto em acto. separadamente da matéria a que estão ligadas nas coisas terrenas. Alguns autores árabes relatam que ele foi envenenado por médicos que o invejavam. O objectivo final do solitário é o de conseguir alcançar as formas inteligíveis isto é. O intelecto adquirido é o único que pode conseguir pensar-se a si próprio e desta forma alcançar o seu termo mais alto. Averróis cita 204 dele uma carta Sobre a continuidade do intelecto com o homem. Tal como aconteceu com lbn-Badja. na Andaluzia. que os escolásticos latinos cognominaram Avempace é o primeiro filósofo famoso entre os Árabes de Espanha. A sua obra principal é o Regime do Sol. § 239. mediante o sucessivo desabrochar das suas faculdades. incluído no seu comentário à obra de Ibrt-Tofail. numa ilha desabitada do Equador. § 238. Minis205 tro o médico da corte dos almorávidas que atraiíu flustres sábios do tempo e. a seu conselho.tário. e as acções que correspondem a este objectivo integram-se no domínio do intelecto. isto é.A figura de AI Gazali representa a reacção da teologia muçulmana à filosofia da necessidade defendida por AI Farabi e por Avicena. Nasceu em Saragoça no final do século X1. Moisés de Narbona. com o seu leite. IBN-BADJA Ibn-Badja. Este intelecto consiste na consideração das formas inteligíveis em si. também ele levantou o problema de encontrar a via através da qual o homem possa conseguir unir-se ao mtelecto universal. filósofo e poeta. entre eles. mas participando das suas virtudes. Na obra de Avempace o problema aristotélico do intelecto passa a ser uma via de elevação e de purificação humana e deste modo se transforma de problema de especulação lógica e metafísica em problema religioso. A parte positiva da doutrina de AI Gazali é a que trata da mística: AI Gazali atribui o máximo valor à prática da religião. Esse objectivo é atingi-do. Morreu relativamente novo em Fez. Essa a razão porque as suas obras fundamentais são as de moral-para ele "a ciência é a árvore. Avompace considerava o homem isolado da sociedade. Os diversos períodos da sua -idade são assinalados com os progressos sucessivos do seu conhecimento. em Marrocos. quando o homem consegue ser intelecto adquirido ou imanado. Mas a sua originalidade consiste em ter criado sobre este problema um verdadeiro romance filosófico intitulado O vivente. no ano de 1138. matemático. Esteve também em Granada e mais tarde dirigiu-se a África onde alcançou grande consideração junto da corte dos Almorá vidas. em 1118 encontrava-se em Sevilha. a verdade especulativa. sem pai nem mãe. Averróis que foi encarregado pelo rei. hoje perdida mas da qual existe um resumo elaborado por um filósofo do século XIV. ou intelecto separado de Deus. livre dos seus vícios. No Regime do Solitário. Partindo do . que fazia parte do seu escrito Sobre a alma e uma Carta de despedida (Epistola expeditionis). Avempace escreveu numerosas obras de ciência e de filosofia. A criança nasce da terra e uma gazela encarregi-se de alimentá-la.

Averróis teve então de suportar os insultos dos fanáticos. reconhecendo a irrípossibilidade de comunicar a todos a verdade por eles alcançada. O romance de Ibn-Tofail exprime uma posição que é comum a todos os filósofos árabes: a de que a filosofia conduz a um resultado idêntico ao da religião. Debruçando-se sobre uma concepção do mundo. para viverem uma vida contemplativa. Finalmente. Morreu em 10 de Dezembro de 1198. O verdadeiro agente do conhecimento humano é o intelecto universal. na sua fflade. Além destes comentários. que no entanto se dedicou com grande entusiasmo à medicina. alguns puros e piedosos. Mas quando este foi acusado por suspo*. no êxtase. Este rei confiou-lhe numerosos cargos políticos que o obrigaram a viajar frequentemente pela Espanha e por Marrocos. Pretende afastar-se dos sentidos e da imaginação e concentrar-se no pensamento. O @ntelecto humano ou potencial está dominado e dirigido por Aquele. as suas obras foram todas destruídas e o Ocidente teve delas conhecimento através de versões hebraicas. Para demonstrar o acordo entre a sua doutrina e a crença da religião islâmica. protegeu igualmente Averróis. em primeiro lugar.conhecimento sensível. Averróis escreveu: 1. gradualmente. proíbindo-o dela sair. a obra de Ibri-Tofail é também como que um resumo das doutrinas correntes na filosofia árabe sobre o intelecto. e através dos conceitos de forma e de matéria. à matemática e à filosofia. O avô e o pai eram jurisconsultos e juízes. foi enviado para Marrocos e não voltou mais a Espanha. comentários médios e paráfrases ou análises. em detrimento da religião 207 muçulmana. sendo a primeira a da espécie. para poder identificar-se com ele.ta de heresia e. Almansur. vê a Deus dele dimanando diversas esferas celestes e descendo sobre diversos seres humanos. retiram-se de novo para o isolamento. perto de Córdova. a última emanação do Ser supremo. mas por uma outra via. O regresso a este Ser supremo torna-se então o objectivo da sua vida. com um homem criado na religião e que por uma via diferente consegue chegar às mesmas conclusões que ele. Ibri-Tofail imagina o seu protagonista encontrando-se. Ial como muitos outros sábios árabes da época. O sucessor de Yussuf. que é a da busca individual e da demonstração. No grau mais elevado da contemplação descobre o reflexo de Deus no universo e a proximidade da esfera celeste.` A destruição da destruição dos filósofos de Algazali e que é uma . Mais tarde. AVERRóIS: VIDA E OBRA Ibn-Ruslid ou Averróis. dar-se conta da unidade dos vários seres e a conceber as formas inteligíveis. Por ordem de Almansur. Hajj chega ao conhecimento de um Ser activo que perpetua a existência do mundo e o põe em movimento. Além disso. com a idade de 73 anos. o mais célebre dos comentadores árabes de Aristóteles. Pelas referências contidas nestas obras podemos supor que Averróis tenha redigido os comentários médios primeiro que os grandes e as paráfrases e análises contemporâneamente ou quase com os comentários médios. indo com o filho à mesquita para assistir à oração da tarde. Ele próprio nos conta que uma vez. a turba o expulsou do lugar sagrado. § 240. outros impuros e condenados. aos cinquenta 206 anos. Os dois juntam-se para criar uma comunidade religiosa. mas depois. e à mesma carreira estava destinado Averróis. nasceu em Córdova em 1126. os Comentários a Aristóteles e que se distinguem em grandes comentários. Sabemos já como ele foi apresentado por Ibri-Tofail à corte do rei Yussuf. Almansur desterrou-o para a cidade de El-isana (Lucena). Entre as obras de Averróis podemos destacar. de promover o estudo da ciência e da filosofia dos gregos. o protagonista consegue.

a religião do filósofo não pode ser a religíão do vulgo. afirma.O Uma dissertação sobre o problema de se saber "se é possível que o intelecto (intelecto material ou hílico) compreenda as formas separadas ou abstractas". p. ele próprio se move dentro do clima dessa especulação. afirma Avicena. 6. perpassam os resultados fundamentais de toda a especulação árabe anterior.refutação da obra de Algazali. segue e deve seguir outra via. está consciente do valor absoluto dessa mesma investigação. 4. no entanto.. uma via "simples e narrativa" que ilumine e dirija a acção. escrito em Sevilha em 1179. À filosofia cabe o mundo da especulação. Com tais considerações sobre o valor de Aristóteles e sobre a verdade da sua doutrina. que os escolásticos consideraram como pedra angular do seu sistema. ou simplesmente duvida. a acção mais nobre. isso poderia dar aso aos incompetentes de levantar ainda mais dúvidas e argumentos sofísticos e de caírem em erro. fol. 8. 56. funestos para os não-filósofos. 2. 208 § 241. no entanto. dos princípios enunciados pela tradição religiosa. disp. Em primeiro lugar. para que os homens pudessem saber tudo o que lhes é dado sabem (De an. "Aristóteles. 456). AverrÓis pretende nos seus livros "falar livremente com os autênticos filósofos" e não opor-se aos ensi-namentos da tradição religiosa. E bem se pode afirmar que foi criado e oferecido aos homens pela Divina Providência. Para ele não . Não obstante a suspeita de heresia que sobre ele pesou. o que adora Deus com esta religião.O Um tratado sobre o acordo da religião com a filosofia. Este é o verdadeiro domínio da razão. No entanto.. Duas dissertações sobre a união do intelecto separado com o homem. "Na verdade. 7. A doutrina de Aristóteles é a verdade máxima. Um tratado sobre o verdadeiro significado dos dogmas da religião. Por outro lado. Esta é. 14). também os processos dos filósofos que são utilíssimos nas suas investigações são. tornaria impossível o agir humano. aos olhos de Deus. Questões ou dissertações sobre diversas passagens do Organon de Aristóteles. que para ele é a expressão máxima do pensamento humano. do mesmo modo que tornaria impossível a ciência aquele que negasse ou duvidasse dos princípios básicos em que ela se fundamenta (Destr. Por isso. é a regra e o exemplo criados pela natureza para demonstrar a máxima perfeição humana. não se poderá render a Deus um culto melhor do que aquele que consiste em conhecer as suas obras e leva ao conhecimento do próprio Deus em toda a sua realidade. Não se lhe pode portanto atribuir aquela doutrina da dupla verdade. Mélanges. destruct. 6. Averróis não concebe a investigação filosófica em desacordo com a tradição religiosa. que é substancialmente uma interpretação neoplatonizante do oristotelismo. na sua obra de ilustração e de wmentários aos textos aristotélicos. Se os filósofos viessem demonstrar junto do vulgo as suas dúvidas e as suas demonstrações. AVERRóIS: FILOSOFIA E RELIGIÃO A intenção declarada de Averróis não é a de construir um sistema próprio. 79). e à rehgião o mundo da acção. Tal como certos alimentos são bons para certos animais e maus para outros. Averróis evidentemente não pretende ter a presunção de ultrapassar o seu mestre ou de se afastar do caminho por ele traçado. a religião própria dos filósofos consiste em aprofundar o estudo de tudo o que é. porque a sua inteligência reflecte o ponto mais alto do intelecto humano. a investigação filosófica não pode ser de todos. que é a melhor de todas" (Muiik. Quem nega. enquanto que a acção mais desprezível é a de 209 acusar de erro e de presunção vã aquele que se consagra a esse culto. que é o mais nobre de todos. a religião que é feita para a maioria. 111. Dissertações físicas ou pequenos tratados sobre diversas questões da física de Aristóteles. 3. 5.O Uma refutação do texto de Avicena Sobre a divisão dos seres. mas apenas a de esclarecer o significado autêntico da filosofia de Aristóteles.

ao invés. indestrutíveis e não o seriam se seguissem a sorte da alma humana. o crente recebe-a da tradição religiosa (a lei do Corão) numa forma simples e narrativa. ou de uma preparação (habitus. . como já dissémos. aconteceria que. dispositio. Mas não existe um contraste entre as duas vias. § 242. o Intelecto agente é a última emanação divina e é por isso uma substância separada de toda a matéria e da própria alma humana. Para estes filósofos. Averróis vem trazer uma modificação substancial: o intelecto material ou hílico não é a alma humana. Este último. Por esses mesmos motivos também o intelecto adquirido ou especulativo (adeptus. para que assim possam ser iluminados e guiados nas suas acções. a parte racional da alma humana. afirma Avarróis. A verdade é uma só: o filósofo procura-a através da demonstração necessária. Mas este último pode ter a participação da alma humana na sua multiplicidade e mutabilidade. preparatio) e que constituem a perfeição da própria alma: uma preparação que segue os acontecimentos. Averróis escreveu. a verdade adquire o aspecto severo da demonstração necessária e passa a ser o termo de uma investigação que é a melhor e mais elevada de todas as acções humanas. que algumas vezes pensa e outras não. quando eu o conhecesse. Todos os que são estranhos à especulação devem aproximar-se da forma que a verdade recebeu por obra da tradição religiosa. por sua vez. o intelecto em acto. fosse absolutamente único em mim e em ti. Com ela. de uma disposição. O intelecto especulativo. passa a acto por obra do primeiro. porque pertence à sua capacidade imaginativa (que é dada ao corpo). é único e eterno. transforma-se em intelecto adquirido (adeptus). e essa participação pode ter a forma de um hábito. Averróis. A esta doutrina que se encontra exposta e defendida. tornando-se assim intelecto em acto. pelo contrário. pode ser considerado por um lado como ú nico. e que pensa diferentemente em cada indivíduo. Como disposição e preparação da alma é múltiplo e submetido ao nascimento e à morte. para eles. nos filósofos tratados atrás.existe uma verdade religiosa ao lado de uma verdade filosófica. o intelecto prè@prÍamente humano. Ointelecto potencial ou material (hílico) é. se o objecto inteligível fosse diferente para os diferentes indivíduos. speculativus) que resulta da acção do intelecto agente sobre o íntelecto material ou possível é uno em todos os homens e separado da alma humana. que é diferente nos diferentes indivíduos. por outro como múltiplo. que se adapta à natureza da maior parte dos homens. AVERRóIS: A DOUTRINA DO INTELECTO A doutrina que os escolásticos latinos recolheram como sendo típica do averroísmo é a do intelecto. e outras coisas impossíveis. "Se o objecto inteligível. Mas para os filósofos. como eterno ou como gerador corruptível. dois tratados que se destinavam a demonstrar o acordo que existe entre a verdade religiosa e a filosófica. Por outro lado. aperfeiçoando-se com o exercício do raciocínio discursivo. com poucas variantes. desde o nascimento à morte. pertencendo ao número das substâncias divinas. Segundo Averró@s. nem dua210 lismo na verdade. E não é pela mesma razão porque não o é o intelecto activo: uma vez que as formas inteligíveis que são o seu objecto 211 potencial são universais. tu também o conhecerias. uma tal solução permite resolver todas as dificuldades que a doutrina do intelecto provocava nas soluções adoptadas pelos seus predecessores. da própria alma. eternas. distingue-se das interpretações que dominam a filosofia árabe de Al Kindi a Ibrí-Tofail. no entanto. Em si próprio.

que existe graças à luz solar.lico) é comparado à capacidade de ver. a menos que a ciência que existe no mestre não seja uma virtude que gera e cria a ciência que existe no discípulo. tais questões acabam totalmente por desaparecem (Comm. a diversidade dos intelectos humanos é determinada pelo facto de que. Seria ainda impossível neste caso que o discípulo aprendesse. Disto resulta que a ciência não pode reproduzir-se nem corromperse. pode acontecer que Sócrates ou Platão umas vezes compreendam e outras vezes não o conceito de cavalo. o processo total do conhecimento iotelectivo. a fim de aperfeiçoar . das formas extraídas das imagens sensíveis. salvo no caso de determinado indivíduo e nunca no que se refere à espécie humana. porque é eterna. A acção deste é comparada por Averróis. o intelecto activo. desenrrola-se independente e separadamente da alma humana. na sua espécie. nem são igualmente distribuídas por todos. porque está ligada a uma disposição universal.aconteceria que o mesmo estaria em ti e em mim. e único para o sujeito que é o _. ao unir-se ao intelecto potencial. o intelecto material é único em todos os inffivíduos porque é a disposição que o Intelecto agente comunicou às respectivas almas. Por exemplo.. duplo naindividualidade uma vez que haveria um outro objecto fora dele e este outro por sua vez um outro e assim sucessivamente. 111. que se limita a reflecti-lo imperfeita e parcialmente. inagiuim De an. ~elhante à preparação da matéria que se dispõe a receber a obra do artífice (1b. Em segundo lugar. Morre a ciência que existe em Sócrates ou em Platão com a morte do indivíduo: mas não morre a ciência em si. à do sol enquanto que o intelecto potencial ou materiaí (hí. faz com que este disponha a alma de forma a que esta possa abstrair das representações sensíveis os conceitos e as verdades universais.. Nesta natureza do intelecto se fundamenta o destino da alma humana. Deste modo. isto é. Portanto. Em primeiro lugar. a menos que a própria espécie venha a desaparecer. para as formas da imaginação. 11. 20). gent. Mas quando pensamos que o objecto inteligível que está em mim e em ti é múltiplo para o sujeito para o qual é verdadeiro. Desta doutrina resulta toda uma série de consequências paradoxais que desencadearam uma polémica acalorada por parte da escolástica latina. do mesmo modo que um fogo gera outro fogo a ele semelhante: o que é impossível. O processo integral é posto directamente em movimento e mantido pelo intelecto activo. A felicidade do homem consiste em cultivar e ampliar a disposição que constitui o intelecto material. ao iluminar o intelecto potencial. não pode acontecer que umas vezes o intelecto material compreenda e outras vezes não. que vai da potência ao acto.ntelecto existente e material. a virtude cognitiva própria do homem limita-se à esfera das formas imaginativas. actuando o intelecto material sobra as imagens. ou seja. o que é impossível. único. Como S. Tomás explica (C. no conjunto da espécie humana. Por conseguinte. o meio transparente (o ar) e deste modo conduz ao acto as cores que existem no objecto. a alma individual não possui mais nada além do material das representações. que flumina. mas. mas é ela que abstrai das referidas representações os conceitos. segundo Averróis. uma tal vàrtude é simples preparação do Intelecto material. o intelecto compreende sempre este conceito. 212 o mestre. essencialmente conexa com toda a espécie humana. Tal como o sol. 111. e este une-se a ela quando a ele se une o Intelecto agente.. as coisas que um certo homem pensa não são as mesmas que são pensadas por um outro homem. de acordo com a imagem aristotélica. Multiplica-se nos diversos indivíduos como a luz do sol se multiplica ao distribuir-se sobre os diversos objectos que ilumina. 5). que não existem todas em todos os indivíduos. e as formas inteligíveis (verdades ou conceitos) existentes na alma humana são comparáveis às cores. 73).

Além disso. mas este. se a criação significa uma escolha áivina. É de notar que tal necessidade não exclui. Nada existe fora de Deus. 111.. segundo ele. por isso Deus não pôde buscar o inóbil da sua criação no exterior. que se encontra apenas nos homens excepcionais" (De an. nasce e morre com ele (1b. a criação: o ser possível em relação a si mesmo exige o ser necessário que o conduza ao acto e o crie. está ligado ao corpo. AVERRóIS: A ETERNIDADE DO MUNDO Sobre o problema do intelecto e sobre as questões com ele conexas. por conseguânte. como realidade substancial subsiste separadamente e não é mais que o próprio intelecto agente. a doutrina aristotélica da superioridade da vida teorética. e em especial à criação. Na alma humana mantem-se apenas o intelecto aquisitivo ou especulativo. destruct. Mas não podemos falar em obstáculos em relação a Deus... 111.214 e ampliar a capacidade especulativa e conhecer as substâncias separadas e finalmente o próprio Deus. Se Deus criou o mundo do nada. Averróis Emita-se a repetir as objecções de Avicena. a dependência causal do ser possível. a não ser que se verifique algum obstáculo ou se lhe apresente uma coisa melhor para escolher. Mas esta criação é apenas. essa escolha deve ser contínua e eterna. 1. Esta depende de um acto de vontade do Criador. Com efeito. Mas. todos o possuem. A ciência é a única via da beatitude humana: uma beatitude que se atinge nesta vida. Averróis entra em contradição com os pensadores anteriores e especialmente com 215 Avicena que identificava o intelecto material com o humano e sustentava a imortalidade própria da natureza e do destino da alma humana. A necessidade do ser. Mas esse intelecto se como simples disposição faz parte da alma humana. uns em maior grau que outros. mas o imelecto especulativo é uma faculdade divina. tão enèrgicamente defendida por Avicena. dub. 1-2). Ora ambas estas alternativas são impossíveis. e nada tem a ver com a criação tal como é concebida na Bíblia e no Corão. Tomás (§ 278). mas antes exige. desse outro que é Deus. 10. através da pura investigação especulativa. Por outro lado. é também a pedra angular da metafísica de Averróis. Mas contra este conceito. condicionado como está pela parte sensível que lhe fornece as imagens das quais são abstraídas as formas inteligíveis. ou seja do mundo. que é a-penas necessário em relação a outro. Averróis não faz mais que retomar a doutrina dos seus predecessores. § 243. "0 intelecto prático. Exclui assim o início no tempo do ser possível. a natureza de Deus não pode também sofrer alteracão. excepto o mundo. uma vez que a vida humana não continua para além da morte. Averróis retoma. a única parte da alma humana que não está ligada ao corpo e não se encontra portanto submetida à reprodução e à corrupção é precisamente o intelecto material. fol. nenhuma coisa pode alterar-se a si própria. Averróis é levado a negar a imortalidade da alma e a colocar o fim último do homem na bealitude que se pode alcançar nesta vida mediante a investigação especulativa e a contemplação das realidades supremas. disp. A escolha de Deus deve ser por isso eterna e contínua e não se pode falar de um princípio do mundo (Dest. é comum a todos os homens. no que diz respeito às relações entre Deus e o mundo. na sua totalidade. . nem se pode conceber uma alternativa melhor na 216 criação do mundo. como já notou S. que dá início no tempo ao mundo e prescreve ao mesmo limites temporais definidos. entre as quais está a imortalidade humana. isso pode significar que ele o tenha criado por um motivo estranho à sua natureza ou que se tenha verificado na sua natureza uma alteração que de certo modo o haja determinado à criação. 1). 494 a).

por outro lado.pelo menos em parte. O mesmo deve afirmar-se da acção de Deus ao governar o mundo. Deus dirige o mundo com a sua ciência. o mundo é eterno. Mas o que é puramente individual ou casual. nem Deus nem as outras substâncias separadas que dimanam dele directamente e regem as órbitas celestes. Através do movimento dos corpos celestes Deus regula também os acontecimentos do mundo 217 sublunar. Mélanges. não significa um defeito do conhecimento divino. mas a sua acção manifesta-se no mundo que é regulado pela ordem necessária e eterna de Deus. disp. Deve por isso afirmar-se que a acção de Deus na formação e na conservação do mundo não é comparável à acção de nenhum agente Enito. corrompe-se com a corrupção do corpo-. escapa à providência. mas a ciência de Deus nada tem a ver com a humana. Chart. na medida em que este se conhece a si próprio (Ib.. com o regresso a Aristóteles . A injustiça e o mal que existem no mundo demonstram clara-mente que. Estas proposições incluem aquilo que aos escolásticos latinos surgia como típico do averroísmo e em contraste irremediável com o dogma cristão. Deus rege deste modo todo o mundo segundo uma ordem necessár@a e infalível. A providência divina segue a ciência divina.a liberdade 218 da investigação filosófica. porque procede da natureza de Deus. ao determinar a sucessão dos dias e das noites e a alterriância das estações. regula a geração das plantas e dos animais. referia-se às seguintes proposições: o intelecto de todos os homens é numèricamente uno e idêntico. uma vez que Deus formou o mundo e mantem-no de um modo que não tem paralelo na acção das coisas o dos homens. IV. a vontade do homem escolhe por necessidade (Denifle. na medida em que as suas deliberações estão sujeitas à ordem necessária do mundo. cuja contemplação pareceu a Averróis ser o mais alto dever e a felicidade perfeita do homem. p. 155). A sua ciência não diz respeito às coisas particulares porque está para além dos limites das mesmas. o que não se integra na ordem necessária de tudo. mas afirma que. A condenação pronunciada em Paris nos anos de 1270 e 1277 contra o averroísmo. 457-458).. p. A relação da vontade com as causas externas é determinada pelas leis naturais: por isso o Corão fala de uma predestinação infalível do homem (Munk.grande tentativa de reconquistar. o de dirigi-Ia no sentido de esclarecer essa ordem necessária do mundo. conhece tudo. IV. Averróis sustenta que as nossas acções dependem..o filósofo por excelência . 1. dub. de que o mundo dimana necessàriamente da ciência de Deus e que esta dimanação não é motivo ou intenção particular.. que é a forma do homem enquanto homem. elas não podem furtar-se ao determinismo da ordem cósmica. o movimento do sol. 3. p. a alma. Mas o facto de não conhecer as coisas individuais deste mundo na sua essência individual. 486-487).Averróis aceita a doutrina de AI Farabi e de Avicena. governam directamente as vissicitudes e o destino dos seres singulares (1b. Mas o significado do averroísmo não reside apenas nestas proposições. do nosso livre arbítrio. Paris. assim como à ciência de Deus (Ib. metaf. Deus não conhece as coisas singulares. 138). Como Deus não conhece as coisas indâviduais também não as d-Jrige e governa com a sua acção providencial. mas ao conhecer-se a si próprio. 152). Apresenta-se também como a . movida necessàriamente pelo objecto apetecido. o livre arbítrio é uma potência passiva. Deus apenas se conhece a si próprio. IV. NOTA BIBLIOGRÁFICA . pois não é um defeito não conhecer de forma imperfeita aquilo que se conhece de um modo mais completo (Epit. não activa. p. 2). A vontade humana é em si um agen!e livre. Univers. nem natural nem voluntário. A própria vontade humana é determinada. Com efeito.

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e finalmente a alma verdadeira e própria. no Renascimento os próprios filósofos iriam buscar à Cabala parte da sua inspiração e utilizaram-na frequentemente como instrumento de interpretação dos livros sagrados. uma das componentes fundamentais da escolástica latina. 8. 2. entre Deus e o mundo. Como tal. e neste sentido podem ser comparados aos primeiros e mais directos raios do Esplendor divino. em resposta a este impulso. 10. encontra-se o misticismo que assume predominantemente a forma da Cabala. inacessível a toda a determinação e a todo o conhecimento. Todavia. pertence. 6.'-a Justiça. 223 dos. Neles se afirma que Deus é ilimitado (En Sof. não é nenhuma coisa. 3. Tal como são. a base doutrinal que pretende defender é a ortodoxia judaica tradicional. A criação do mundo surge mediante a aparição de substâncias intermédias chamadas Números (Sephiroth) que são. 224 A alma humana -reproduz as três primeiras substâncias emanadas: em primeiro lugar está o espírito vital. a filosofia judaica começa a constituir. a filosofia judaica é uma escolástica que tem em comum com as duas primeiras os problemas fundamentais (as relações entre a razão e a fé. O impulso deve provir do mundo inferior que deve tender para o superior. ainda que a sua acção se expanda na multiplícidade das coisas. quase de certeza.comum.0-o Triunfo.'-a Realeza. no tempo. o segundo destes escritos. dois dos quais existem na totalidade ou quase: o Livro da Cri4ção (Sefer Yetsirá) e"o Livro do Esplendor (Zohar).A Coroa. à segunda metade do século XIII.---o Fundamento. Mais próximo desta tradição e em polémica com as tentativas mais francamente filosóficas para encontrar uma justifi. Trata-se de escritos em cuja composição entram elementos heterogéneos. A Cabala (que significa tradição) é uma doutrina secreta que a principio se transmitia oralmente e mais tarde foi recolhida num certo número de trata. A mediação dos Sephiroth serve para garantir a Deus a absoluta unidade.'-a Graça. segundo o esquema da trindade neoplatónica.cação racional das crenças religiosas. A Cabala não tem intentos filosóficos e à expressão ceptual prefere a concepção imaginativa ou alegórica. 5. os atributos fundamentais de Deus e as forças através das quais se realiza a criação divina. estes textos apresentam uma doutrina emanenhista. Os Sephi roth são dez: I. Como acontece com a filosofia árabe e a filosofia cristã da Idade Média. .'-A Sabedoria.'-A Inteligência. na forma que chegou até nós. 7. que domina sobre as duas precedentes e é o orgão da santidade e da virtude superiores. os defensores ou expositores que teve nos séculos XIII e XIV entendem fazer dela uma alternativa às obras dos filósofos e -polemizam com eles. a partir do século XIII. A acção destas substâncias produz toda a realidade do mundo visível. O munIo visível e o inteligível têm a sua proveniência comum no amor e tendem a aproximar-se e a unir-se.). A posição que pretende suscitar é a do misticismo.o-a Glória: 9. o Zohar. isto é. entre o intelecto e a alma) e empenha-se em resolvê-los com os mesmos dados ou com dados semelhantes: a filosofia grega e a tradição religiosa judaica. o próprio mundo superior deseja e ama o mundo inferior. é a negação de to-da a coisa determinada. as três primeiras constituem o mundo inteligível. Deus não ama senão aqueles que o amam. Ainda que tenha extraído os seus conceitos do helenismo e da própria obra dos filósofos judeus da Idade Média.'-a Beleza.'. depois o espírito intelectual. substancialmente semelhante à dos Neopitagóricos e dos Neoplatónicos dos primeiros séculos. 4. é portanto o nãoser ou o Nada. Se bem que alguns destes elementos sejam provàvelmente bastante antigos.

em 932. a natureza da alma humana. Saadja reconhece a da razão e afirma não apenas o direito. é necessàriamente composto de matéria e forma. Defende a criação do nada. mas também como poeta. os seus atributos. que foi célebre corno filósofo e teólogo. O princípio de que parte é o da composição hilomórfica universal. especialmente do Livro de Causas. segundo uma tradição lendária. a revelação da lei. mas esta é necessária para que o homem possa atingir de modo mais rápido a verdade que a razão.-Gebirol. só teria podido alcançar depois de um longo trabalho. que viveu no Egipto entre 845 e 940. mas também. Tomás. Isaque não é um filósofo original. A figueira sob a qual foi sepultado deu frutos de tal modo extraordinários que atraiu a atenção do rei sobre o seu proprietário que foi obrigado a corifessar o crime. Ao lado da autoridade da escritura e da tradição. no Egipto. tudo o que existe. Defende também a liberdade criadora de Deus e reconhece ao homem o livre arbítrio. A razão ensina-nos as mesmas verdades que a revelação. foi morto por um muçulmano que tinha inveja do seu génio. § 246. em primeiro lugar. ISAQUE ISRAELI Como já se disse. aquele que os escolásticos latinos conheceram sob o nome de Avicebron como sendo árabe. de compreendermos a verdade religiosa para assim a consolidarmos e defendermos dos ataques que lhe são dirigidos. SAADJA O verdadeiro fundador da escolástica hebra-ica é Saadja. foram traduzidos do árabe para o latim. o dever. e sob este prima o mais antigo filósofo judeu da Idade Média é Isaque Ibri Salomão Israeli. IBN-GEBIROL: MATéRIA E FORMA Salomão Ibn-Gebirol. no entanto. por Gerardo de Cremona. escrita em árabe. foi reconhecido por Munk como o autor da Fons Vitae. e em verso. Os pontos sobre que se debruça a especulação de Saadja são: a unidade de Deus. Foi célebre como poeta e. fez a sua educação em Saragoça e viveu provàvelmente até 1069 ou 1070. abandonada a si própria. que no seu pensamento ainda não se faz sentir a influência do aristoteliismo: isso só vem a acontecer nos filósofos judeus de Espanha e. Começa por reduzir a uma matéria única as díversas matérias e a uma única . As suas obras de medicina foram traduzidas para o latim por Constantino Africano. Livros das Definições e Livro de Elementos. a criação. Morreu em Sora em 942. Verificamos. ete. A propósito de Deus. 225 entre os quais S. A Fonte da Vida. em Ibri. Nasceu em Málaga em 1020 ou 1021. Saadja afirma que as categorias aristotélicas lhe são aplicáveis.§ 245. em 892 e em 928 foi designado dirigente da academia de Sora (perto de Bagdad) que era então a sede principal do rabinismo. foi traduzida para o Iatim por João Hispano e Domingos Gundisalvo. a filosofia judaica consiste substancialmente num encontro da tradição judaica com o helenismo. Está composta em forma de diálogo entre mestre e aluno e dividida em cinco livros. A especulação de Ibn-Gebirol é dominada pelos conceitos aristotélicos de matéria e forma. foram buscar a Isaque a definição de verdade como "adequação entre o intelecto e a coisa". A mais notável das suas obras é o Livro da Fé e da Ciência que escreveu em árabe. os seus escritos filosóficos. mas apenas um compilador que se serve sobretudo de fontes neoplatónicas. Nasceu em Fajjoum. A sua obra. 226 § 247. Muitos latinos do século X111. refutando os sistemas contrários a este dogma.

V. apenas existern três coisas: a matéria e a forma. o corpo. Esta forma universal é o conjunto das nove categorias de Aristóteles. segundo o impulso que lhe é transmitido pelo próprio Criador (Fons vitae. comunicando-lhe. que sustenta (sustinet) as outras nove categorias (Fons vitae. existe uma só matéria. A criação comiste na união. Na Sabedoria de Deus. a forma racional. quer as artificiais. então tratar-se-á de uma forma universal comum a todos os seres. que constituem precisamente as determinações mais gerais do ser. a Essência primeira. inspirando-se . e más que espiritual. Mas a matéria não é apenas corpo. Essa é a virtude da Essência primelira. a substância. 13). Por outro lado. 11. 36). Nos escolásticos latinos. a forma mineral. entre a matéria e a forma. A matéria 228 anu a forma e deseja gozar a alegria que experimenta ao unir-se a ela. uma vez que se só torna corpo quando a ela se junta a forma particular que é a corporéidade. pouco a pouco. a forma vegetativa. e a Vontade que é o meio entre os dois extreinos". Mas o pressuposto desta união entre a matéria e a forma.. e por outro 227 lado. a forma inteligível. de Deus. todas as formas sensíveis têm em comum a característica de serem formas corpóreas. é a vontade de Deus. a forma corpórea ou corporeitas. têm todas a mesma natureza. IBN-GEBIROL: A VONTADE A matéria e a forma têm em comum entre si o desejo de se unirem uma à outra. mas na mente do Criador. Uma matéria que seja maas universal que a matéria corpórca deve ser comum não só aos corpos como também aos espíritos: é uma matéria que entra na composição quer das substâncias espirituais quer das corpóreas. A Vontade cria a matéria e a forma universais e por conseguinte. Com este objectivo. que existem entre a matéria e a forma. IbnGebirol admite uma série de formas ou substâncias separadas. a forma deseja realizar-se na matéria para nela produzir a sua acção. Mediante ela. Assim unificadas e universalizadas. As substâncias espirituais não são simples. A matéria universal é a primeira das categorias aristotélicas. as suas sucessivas determinações: as qualidades primárias. a forma une-se à matéria e determina-a. entre a Essência primeira ou Verbo agente. comum também às substâncias espirituais. § 248. são também compostas de matéria e forma. as várias espécies de matéria. e em que consiste a criação. por um lado. começa por reduzir à unidade a matéria e a forma das coisas sensíveis. Nas coisas sensíveis. penetrando-as completamente (1b. A Vontade está ligada à matéria e à forma tal como a alma está ligada ao corpo: funde-se nelas. quer as celestes. a intermediária entre essa mesma essência o a matéria e a forma. por outro. o bronze. que é a de substracto da forma. é o Verbo agenie (Verbum agens) ou vontade de Deus. portanto. Se se trata de uma matéria universal. e uma só forma. O amor e a tendência recíproca. quer as naturais (os quatro elementos). todos os seres que resultam da união da matéria e da forina. por exemplo. a matéria e a forma não subsistem em si. determinada pela vontade divina. devem derivar de uma substância superior de que ambas participam. e a matéria. a doutrina de IbriGebirol aparece tipificada neste princípio da composiçao hilomórfica das substâncias espirituais. e por conseguinte. No entanto.forma as diversas formas existentes. matéria e forma subsistem na sua distinção. Esta :substância espiritual. a forma sensitiva. afirma Ibn Gebirol. Nestas. 111. 6). "No ser. a forma não é apenas corporeidade porque esta é apenas a determinação de uma forma mais universal.

que. A parte históricamente mais importante da mesma é a afirmação da matéria universal. Ma-imónidas consegue então obter grande celebridade e fortuna.o luminoso que se afasta do centro que o produz) à medida que vai avançando (lb. Estas substâncias. 230 § 250. primeiro em Fez. Combatida por S. Ao mesmo tempo que se dedicava ao comércio de pedras preciosas. A alma racional compreende as formas inteligíveis e conhece-as mediante um movimento discursivo que a faz passar sucessivamente de uma para outra. durante a sua estadia em Espanha quando jovem. Mas a .. Em 1140 o poeta Yehuda Halevi num livro intitulado Kuzari parte de uni facto histórico: a conversão ao judaísmo de um rei dos Jazares (séc. num texto seu. instalando-se na velha Cairo. Entre estes últimos tem importância fLUosófica um chamado Oito capítulos. são as seguintes: a natureza. § 249. Mas esta tentativa teve pouca fortuna. um livro chamado A fé sublime para demonstrar o acordo entre a teologia liebraica e a filosofia aristotélica. nasceu em Córdova a 30 de Março de 1135. esta afirmação virá a ser retomada por Giordano Bruno que fará dela o pressuposto do seu panteísmo. IV. uma originalidade e uma força que lhe asseguraram grande influência nos séculos seguintes. A alma vegetatíva apodera-se do corpo e faz com que este se mova. a vontade criadora de Deus. a fé muçulmana. Deveres dos corações. de Toledo. A sua crescente imperfeição explica-se com a diminuição do poder da Vontade criadora. assegurou-lhe os meios necessários pararenunciar ao comércio e dedicar-so apenas à ciência. A natureza une as partes do corpo. Por causa da intolerância dos almohades. dava cursos públicos que lhe granjearam fama como filó sofo e teólogo. Abraão Ben David. nomeando-se médico da corte. chamado Maimónidas. e pôde. de acordo com a ordem que vai do menos perfeito e menos simples ao mais perfeito e mais simples. Moisés passou para o Egipto. A alma sensitiva percebe as formas corpóreas e conhece-as. sensitiva e racional). Tomás. a inteligência. Baclija lbn-Pakudia. escreveu em 1161. sendo infinita em si. com a ajuda do seu protector. VIII). e depois na Palestina. é finita na sua acção e por isso vai enfraquecendo (como um ra. 19). mas sobretudo como médico. Morreu em 13 de Dezembro de 1204.nistro do célebre sultão Saladino. O rm. Estas substâncias intermédias são menos perfeitas à medida que se afastam da sua forma comum. a sua família foi obrigada a abandonar a Espanha e a fixar-se. filosofia judaica: REACÇÃO CONTRA A FILOSOFIA A reacção da ortodoxia judaica contra a Elosofia é representada por algumas figuras que têm escasso relevo especulativo. gera entre elas 229 a atracção ou a repulsa e alterna-as entre si. no seu conjunto. Maimónidas é autor de numerosos textos médicos e teológicos. Marrocos. Um seu Vocabulário da lógica foi traduzido para latim por Sebastião Munster. em árabe. No final do século XI. MAIMóNIDAS: A TEOLOGIA Moshé lbn Maymon. para fazer a apologia do judaísmo e uma condenação da investigação filosófica. A filosofia de lbn-Gebirol apresenta. coloca a moral prática acima da especulação e representa na tradição hebraica o que Algazel representa no mundo árabe. e o único que consegue entre os Judeus alcançar um lugar importante na investigação filosófica é Maimónidas. Daqui.evidentemente no neo-platonismo do Liber de causais. que naquele tempo tinha estendido o seu -Poder ao Egipto. furtar-se às acusações que lhe foram feitas de haver regressado ao judaísmo depois de ter aceitado. as três almas (vegetativa. A inteligência compreende todas as formas e conhece-as.

é necessário em relação à sua causa. Parecia que a defesa da novádade do mundo e da criação não podia ser feita a não ser em nome da fé e com a renúncia de todas as vantagens que a investigação filosófica tinha trazido à própria compreensão da verdade revelada. 71). A estes perplexos se dirige Maimónidas. deixando para depois. a revelação e a razão. A originalidade de Maimónidas que. procedimento esse que se baseia na eternidade do mundo. A obra está dirigida àqueles que rejeitam tanto a irreligiosidade como a fé cega e que. e esta causa é precisamente o Ser necessário (1b. 20-21). existe necessàriamente um Ser necessário. "Creio. a sua unidade e a sua corporeidade de acordo com o procedimento dos filósofos. Estabelecida a existência de Deus. mas porque só com este método a demonstração se torna segura e se obtém uma certeza perfeita sobre estes pontos: 232 que Deus existe. 11. É certo que contra esse mesmo princípio se fez sentir a reacção dos Mutalcalli-mun. dos Asharias e de Algazel. reside no facto de ele não renunciar ao processo demonstrativo e aos resultados da filosofia da necessidade. era estranha à filosofia e por isso contrária a todas as filosofias. Deus conhece todas as coisas. de Deus e dos seus atributos fundamentais. para em seguida submeter a uma análise o referido princípio. 111. proporcionadas pela filosofia árabe e judaica na defesa da fé tradicional. A multiplicidade das coisas conhecidas não implàca a multiplicidade do saber divino. a unidade e a corporcidade: e as suas demonstrações não fazem mais que seguir de perto o que disse Avicena.. nem rejeitálas para não menosprezarem a fé. a discussão do corolário fundamental daquele princípio. Não . na qual procurou levar a cabo a conciliação entre a Bíblia e a filosofia. estas três questões graves e importantes. mesmo as particulares. que por seu lado dependem dele (1b. Maimónidas admite a título de hipótese provisória o princípio da necessidade do ser para poder demonstrar certas verdades fundamentais-. poderemos voltar em seguida ao problema da novidade do inundo e para isso deitaremos mão de todos os argumentos possiveis". a eternidade do mundo. consiste em estabelecer a exigência de Deus. com uma verdadeira demonstração. com o 231 propósito de utilizar todas as armas dialécticas. ficando por isso dominados por uma perplexidade dolorosa. Já que aquilo que existe. não ousam admiti-Ias para não irem contra a razão. princípio que tem como imediata consequência a eternidade do mundo. que o verdadeiro modo. Noutros termos. Vimos já que o resultado substancial da filosofia árabe desde AI Kindi a Averróis foi a elaboração do princípio da necessidade do ser. ainda que seja apenas como possível. Uma vez resolvidas. Uma vez que a existência de Deus e as outras verdades fundamentais não permitem ser demonstradas rigorosamente a não ser através dos processos dessa mesma filosofia e na base do princípio que a mesma defende. o método demonstrativo que elimina a dúvida. Supondo que alguma coisa existia (e para que qualquer coisa exista. no entanto. que partia da ortodoxia -religiosa.. que é uno. num segundo momento. Maimónidas passa a considerar o problema . Sob esta base. se ele é eterno ou se foi criado. que é incorpáreo. 1). diz Maimónidas (Guia. Maimónidas procede à demonstração da existência. parece ser de utilizar este princípio para se estabelecer as verdades fundamentais. bastam os nossos sentidos para o demonstrar). mas conhece-as com um único e imutável acto de ciência. que permanece único porque não depende das coisas. 1.porque eu creia na eternidade do mundo ou faça a este propósito qualquer concessão. mas esta reacção. se apresenta de início como defensor do mundo e da criação. sem que isto implique decidir o que quer que seja quanto ao mundo. ao encontrarem nos livros sagrados coisas contraditórias ou na aparência impossíveis.sua obra fundamental é o Guia dos perplexos.

não obstante a matéria ser uma só. por conseguinte. Essa razão consiste substancialmente no reconhecimento da liberdade do acto criador.do mundo. quer no domínio do conhecimento quer no domínio moral.guinte. a tese oposta. pelo menos. Não podemos recuar do estado em acto de uma coisa para o seu estado potencial.. possível. 11. e consegue chegar à negação da sua necessidade ao reconhecer em determinado momento do processo criativo uma liberdade de escolha por parte de Deus. consegue negar a própria hipótese e inutilizar. Mas nenhuma matéria existe privada de 233 forma. 19). separado e divino. a necessidade do mundo que era o resultado fundamental da especulação árabe. a contingência do mundo. "Deus determinou como quis a direcção o a rap@dez do movimento de cada esfera. o mundo teria podido ser diferente do que é. não rigorosamente determinada pela exigência de garantir a ordem necessária do todo. A este argumento e a todos os outros da mesma espécie. antes da criação. O argumento mais forte adoptado por Avicena a favor da eternidade do mundo era o seguinte: o mundo. Mas Maimónidas sustenta que. Se a tese da eternidade do mundo não pode ser demonstrada. Porque razão o desejo que atrai cada uma das esferas para a sua inteligência separada arrastaria uma esfera para leste e outra para oeste? Por outro lado. também a antropologia é dominada pela exigência de ressalvar a liberdade humana. modifica-a no sentido de reservar ao homem e ao seu esforço de aperfeiçoamento a verdadeira e própria iniciativa do conhecer. antes da criação subsistia a matéria do mundo. no entanto ele é aquilo que é devido a uma livre escolha de Deus que exclui a necessidade absoluta e. mas toda a possibilidade implica um substrato material. existe entre as esferas celestes. por conse. segundo Maimónidas. Maimóffides partindo da hipótese da eternidade para chegar a Deus mediante uma demonstração necessária. o próprio mundo na sua totalidade. por conseguiinte. Mas a diversidade que. A alma racional do homem . poderás dizer que essa disparidade se deve à influência das esferas celestes e às diferentes posições que a matéria assume perante elas. Pela negação da necessidade do ser. era possível. Ma. como ensinou Aristóteles. uma decisão contingente. De qualquer modo. MAIMóNIDAS: A ANTROPOLOGIA Tal como a metafísica de Maimónidas é dorninada pela exigência de ressalvar a liberdade criadora de Deus. por conseguinte. Vim-os já como a filosofia árabe tinha constantemente atribuído ao Intelecto agente. Maimónidas opõe que é impossível raciocinar sobre as condições em que se encontrava quando começava a nascer. ou seja. liberdade que rompe com a necessidade do mundo. mas nós ignoramos o modo como ele realizou o facto. quem poderá determiná4a senão Deus? 234 Se alguém afirmar que ela é produzida pelos intelectos separados isso nada explicaria: os intelectos não são corpos que possam ocupar uma posição relativamente à esfora. uma coisa que agora está acabada e perfeita. todos os argumentos que se servem desta forma de agir são viciosos e não têm qualquer força demonstrativa. A única resposta possível a estas perguntas é. qual a razão porque uma esfera seria mais lenta e outra mais rápida?" (-1b. subsistiam a matéria e a forma do mundo. ainda que nela não se negue a ordem do mundo nem se faça da realidade um milagre contínuo. mais que possível. é certa e dá-nos disso a razão. no terreno da filosofia. § 251.. Maimónidas pretende chegar à negação da eternidade do mundo. ainda que reproduzindo nos seus traços fundamentais a doutrina de Avicena sobre o intelecto. "Se debaixo da esfera celeste existe uma tal disparidade de coisas. segundo a sua sabedoria". da qual derivaria a sua eternidade. da criação é. a total iniciativa do conhecer humano.imónidas. antes de ser criado. E deste modo. a eternidade.

Mas não se trata de uma imortalidade singular. 50-52). a distinção entre os indivíduos desaparece.235 é o intelecto hilico. A maior parte dos homens recebe do Intelecto agente apenas a luz que chega para alcançar a perfeição individual. Mas as almas dos homens são distintas entre si apenas pelos corpos: e uma vez corrompido o corpo. A profecla representa (como já acontecia em AI Farabi e em Avicena) a mais elevada 236 perfeição do homem. como a inteligência hílica. 1. que os estimula a criar obras e a comunicar aos outros homens a sua própria iluminação. e o realizar-se numa ou noutra das alternati. Este intelecto passa a acto e eleva a alma ao conhecimento verdadeiro e próprio das formas inteligíveis. Da sua doutrina do intelecto. porque só na alma melhor disposta a influência do Intelecto agente se expande para lá da razão. nem se encontra nos corpos diversos. 27). O homem não é verdadeiramente. também defende a liberdade humana no domínio da acção. Conforme a alma racional esteja ou não convenientemente disposta. Mas não se pode renunciar a admitir a liberdade que é o princípio da acção e a condição da responsabilidade humana. A imortalidade do homem não é mais que a sua participação na eternidade do Inteler-to separado.. já que para ele a perfeição consiste em tornar-se inteligência em acto e em conhecer. pela qual uma é causa e outra efeito.. material e potencial.ivíduos de uma mesma espécie é devida à matéria. Quem a recebe não só na alma racional. Mas Maimónidas acrescenta que para o Intelecto poder fazer passar a acto o intelecto hílico. 1. Para as inteligências separadas. assim receberá ou não a influência do Intelecto agente. É preciso portanto afirmar que a predeterminação divina e a liberdade humana são conciliávèis. A própria providência exerce-se tendo em conta a liberdade. Maimónidas retira assim ao Intelecto agente a iniciativa de conhecer e restitui-a ao homem. A imortalidade não é para todos os homens. 74). este princípio não vale: estas são distintas únicamente pela razão causal. 11. e não se deve impor ao homem o peso de uma ordem préconstituída que lhe tolha a liberdade (1b. imortal como homem. por acção do Intelecto agente que não é múltiplo... mas apenas no homem. está reservada aos eleitos. É certo que a providência divina se estende a todo o futuro e por conseguinte determina também as acções humanas que irão acontecer. H. de tudo o que existe. Até aqui nada de novo: trata-se da reprodução da doutrina de Avicena. mas também na capacidade imaginativa. assim como defende a actividade humana no domínio do conheoimento. 27. 70). 1.. àqueles a que a Bíblia chama as "almas dos justos" (1b. 17-18). que se encontra no corpo. Maimónidas deriva a da imortalidade. outros recebem uma acção mais abundante. a razão e os méritos do homem. só a forma como o são é que nos escapa. na faculdade imaginativa (1b. assim recebe o homem mais ou menos a acção do intelecto agente e se ergue mais ou menos para a perfeição. mas único e separado de todos os corpos (1b. como parte do Intelecto agente. precisa de encontrar uma matéria preparada para receber a sua expansão.. Quem recebe a imanação do Intelecto agente na alma racional é um sábio que se dedica à especulação. e a medida da sua imorta-lídade é . segundo Maimónidas. pois apenas fica o puro intelecto (1b. 36-37).vas não depende do Intelecto agente. que permanece sempre idêntico. Consoante o grau de preparação da sua alma racional. 111. 111. Maimónidas. Maimónidas admite o princípio aristotélico de que a diversidade entre os ind. mas 237 apenas. aquilo que lhe é dado conhecer (1b. passará ou não a acto. tal como as almas das esferas celestes se encontram nos corpos das próprias esferas. é um profeta.

outra ed. O Fons Vitae de Ibn-Gebirol foi editado nas partes fundamentais em árabe e traduzido para francês por MUNK. Nápoles. G. New York. Die Philosophie des Salomon von Gebirol. 1960. VENTURA. Leipsig. Munique. in "Archiv. X. p. 1856. 1841-1853.. Londres. Paris. d'Hist. Cottingen. § 249. Die philosophischen Lehren des Isaac. Traduções francesas de DE PAULY.. 1869. De Saadja: Ouvres complètes. à medida da sua elevação espiritual. HuSIK. La filosofia ebraica. reeditada por GoIdschmidt. p. 6 vols. 6 vols. O livro de Ben David A fé sublime. MUNK com o titulo Le guide des égarés. et litt. Geschichte der judischen Phil. 1846. § 246. 227-305. des Mittelalters. 1918. tradução alemã de FURRSTENTHAL. GUTTMANN. Salomon ibn Gebirol (Avicebron). O livro de Bachja Sobre os deveres dos corações teve idêntica edição na tradução hebraica. foi editada em Paris em 1520. Leipsig. New York. Pádua. ed. Système de Ia Eabbale. Com tradução alemã de STERN. com tradução alemã em Leipsig. 1856. 1490. em "Beitrage". STOCKL. O Livro do EsvIendor. 1933. II. Mélanges.1 ed. BERTOLA. 1889. 1558-1560. Saadia Gaon. cit. 1954. em "Beitrage". impresso pela primeira vez em Mântua.FRANK. 1892-1895. PicK. 1947. 2. 6. 1861. Paris. 1911.devida à medida da sua participação nesse intelecto. 4. 1854. p. 1921. ADLER. esta edição compreende a tradução latina do Livro das Definições e do Livro dos Elementos. GuTTMANN.. Paris. teve depois várias edições com a tradução latina de Amesterdão. Londres. NEumARK. Franefort do Meno. Viena.. 1894. Derenbourg." 1937-38. numa recolha com o título de Artis cabbalisticae scriptores. VII. As obras de Isaque com o titulo Opera Omnia. 1885. Geschichte der Phil. 461-511. 151 e sgs. Sobre a filosofia judaica: MUNK. FREIMANN. 1852. 2. Paris. A tradução latina de João Hispano e Domingo Gundisalvo. O livro Alcharari de Gluda Halevi foi publicado com a tradução latina em Basilei-a em 1660. A tradução latina do Guia dos Perplexos de l@faimõnidas com o título Dux seu doctor dubitantium seu perplexorum. § 245. 1842. 1953. Filadelfia. A History of Medieval Jewish Philosophy. 1958. SEROUYA. ing. du m. des Mittelalters. MUNK. â. nos seus "Beitrage". ou seja. 1. 1642. des Judentums. ing. GRVNFELD. de S. Saadia's BibUography. cit. 1943. O Livro da Criação foi imprimido em Basileia em 1567. O texto árabe foi publicado com tradução francesa por S. Berlim. 19051911. por Ba. foi publicado por WeiJ. de 1670 em diante. na tradução hebraica acompanhada da tradução alemã.1 ed. Viena. . 1925. 1907-1928. Londres. Muckle. 1836. 3 vols. editadas em Lyon em 1515. Amesterdão.. 1934. Die Philosophie. 18931896. 1881. ed. NOTA BIBLIOGRÃFICA § 244. Francor-f do Meno. Milão. BOSKER. BERTOLA.eumker. trad. From the World of the Cabbalah. New York.. The Cabala. MALTER. Méianges. La Kabbale. § 250. New York. edlãnder. 1914. Philosophy of Judaism. de Stern. La phil. 1866. doctr. Paris. GUTTMANN. trad. 24. New York. Mélanges. 1909. cit. Paris. 1957. traité de théologie et de philosophie. 238 § 247.

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